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O jornal que conta como e por que

Ano 01, n°01

O FATO Junho de 2011

Técn. de Reportagem e Formas Narrativas

O problema do CRACK

REPRODUÇÃO

´ Cocaina

Crack

´ Oxi


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Porto Alegre, junho de 2011

Drogas

O CRACK no estado Considerado o 4° maior consumidor de Crack do Brasil, no RS 30% dos usuários da droga morrem nos primeiros cinco anos Droga popular nos E.U.A desde 1985, o Crack chegou no Brasil em 1988, na periferia de São Paulo. Só entre 91 e 93 que a “pedra”, como é chamada entre os usuários, virou moda entre jovens em situação de rua-moradia, substituindo a Cola e a Cocaína injetável. O uso entre os moradores de rua se tornou popular devido ao preço baixo da droga em relação a outros entorpecentes, e com finalidades que variam do alívio do frio e fome, compensação do estresse, até a busca pelo prazer e a socialização. O Brasil apresenta 1,2 milhões de viciados nessa substância, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e o Ministério da Saúde, informa que 30% dos consumidores dessa droga morrem nos primeiros cinco anos de uso. Mas o dado mais alarmante é que segundo a Organização Mundial de Saúde, 15% da população mundial é propensa ao vicio. No Rio Grande do Sul a substância surgiu entre os anos de 93 e 97, com as primeiras apreensões registradas no município de Caxias do Sul. O Crack só se disseminou no RS em 2005, de forma acanhada, porém, por ser uma droga barata e de fácil acesso, com o passar do tempo

foi ganhando fama até atingir a dimensão que apresenta hoje. Devido à densidade demográfica, o maior número de usuários encontra-se em Porto Alegre, embora a região agrícola também apresente uma alta taxa de consumidores da droga, como a cidade de Vacaria, onde a colheita da maçã incita os trabalhadores rurais a buscar no crack as forças para trabalharem mais. Atualmente o estado é considerado o 4° maior consumidor de Crack do Brasil, consumindo uma média de 2 toneladas por mês. Uma pesquisa realizada ao longo de dois anos com 204 jovens que passam a maior parte do tempo nas avenidas de Porto Alegre revela que 72% já provaram Crack e 39% fazem uso diário ou quase diário (mais de 20 dias) da droga. A pesquisa foi coordenada pelo doutor em psicologia Lucas Neiva-Silva, com participação da ONG Centro de Estudos de DST-Aids do Rio Grande do Sul e do Centro de Estudos Psicológicos de Meninos e Meninas em Situação de Rua vinculados à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e à Universidade Federal do Rio Grande (Furg), com apoio do ministério da saúde.

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Faculdade dos Meios de Comunicação Social Técn. de Reportagem e Formas Narrativas Edição e diagramação: Tiago Lobo Reportagem: Gabriela Santos, Paula Kellermann, Júlia Franz, Vanessa Schramm e Tiago Lobo.

A pesquisa foi baseada em entrevistas feitas com adolescentes de rua entre 20 de dezembro de 2007 e 31 de dezembro de 2009. A média dos entrevistados é de 17 anos e mais de 80% dos pesquisados são do sexo masculino. Segundo a psicóloga e pesquisadora Luciane Raupp, vice-coordenadora do núcleo de estudos CONVIVA da UFRGS, a região central da capital gaúcha, entre o Viaduto da Conceição, Av. Voluntários da Pátria, Farrapos e início da rodovia Castelo Branco e loteamento Sta. Terezinha, concentra o maior ponto de consumo de de Crack da metrópole. Os moradores de rua da região sustentam o vício com atividades ligadas ao tráfico de drogas, prostituição, coletade materiais recicláveis, confecção e venda de cachimbos, engraxando sapatos e guardando carros. A maioria dos usuários são adultos e jovens, mas idosos vêm migrando do álcool para o Crack. Por Tiago Lobo REPRODUÇÃO


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Perigo dos efeitos imediatos O Crack é a droga que recebe maior atenção da mídia pelo vasto dano a sociedade e grande risco de morte aos viciados. No entanto seus efeitos no organismo, por vezes, são mal divulgados. O nome, “Crack”, vem do estalo característico que a droga faz ao ser queimada, devido ao bicarbonato de sódio. Ela é um derivado da cocaína e na sua fabricação é utilizada a pasta base extraída da planta Erythroxylon coca, além de bicabornato de sódio ou amônia e água destilada. O resultado é o Sulfato de Cocaína, conhecido popularmente como Crack. O Sulfato de Cocaína faz com que a sensação de prazer no cérebro, dure mais tempo. E nesta busca o indivíduo tende a utilizar a droga com mais frequência. Com o passar do tempo o organismo adquire tolerância e leva o viciado a consumir quantidades maiores do entorpecente para obter os mesmos efeitos, que podem ser de cinco a sete vezes mais potentes que a Cocaína. Com um preço relativamente mais barato que outras drogas, o Crack tem sido cada vez mais utilizado, sendo que se estima que cerca de 6000.000 de pessoas sejam viciados, somente no Brasil. A médica Rejane Reolon conta que a fumaça do Crack, quando inalada, passa pelos alvéolos pulmonares, caindo na circulação sanguínea e atingindo o cérebro. Daí leva cerca de 12 segundos para fazer efeito. O Crack age em uma parte do cérebro chamada Área Tegmental Ventral (VTA) e nesse local a droga interfere em um neurotransmissor do cérebro chamado dopamina. A

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Para fumar, usuários utilizam cachimbos improvisados ou latas

dopamina é encarregada das sensações de prazer que são liberadas no sexo ou em outra atividade prazerosa. No momento em que é liberada, a dopamina começa sua viagem através das lacunas entre as células nervosas, fazendo uma sinapse, e se liga a um neurônio. Esse movimento que gera a sensação de bem estar. No processo natural a dopamina é reabsorvida pelo neurônio que a liberou logo após enviar seu sinal característico. Essa reabsorção acontece com a ajuda de uma proteína chamada transportador de dopamina. No entanto, a droga interrompe esse ciclo, impedindo a reabsorção. Nessa situação a dopamina permanece estimulando o receptor e isso cria um sentimento de empolgação e euforia no usuário, gerando atividades motoras e sensoriais estimuladas em demasia, aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca. Após a droga ser distribuída pelo organismo por meio da circula-

ção sanguínea, ela é metabolizada pelo fígado e eliminada pela urina. Esse processo todo resulta em um “barato” que tem duração de 5 a 15 minutos. Já os danos à saúde são de longo prazo e, em alguns casos, mortais. Os riscos envolvem: pneumonia, tuberculose, rabdomiólise (degeneração irreversível dos músculos esqueléticos), derrame, convulsão, hemorragia cerebral e infarto. Por razão dos neurônios serem destruídos, a memória, concentração e o autocontrole são nitidamente prejudicados. Como a droga é inalada, seu uso contínuo acarreta fragmentação do pulmão. Outros sintomas na área respiratória podem surgir, como congestão nasal, tosse insistente e expectoração de mucos negros. Outros efeitos presentes nos usuários da droga são dores de cabeça, tonturas e desmaios, tremores, transpiração, palidez e nervosismo. Como o viciado passa a só pensar na droga, na necessidade de


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obter o entorpecente e no esforço que terá que fazer para conseguir sua pedra (prostituição, assaltos, etc), muitas vezes a alimentação é esquecida. Grande perda de peso é mais um dos sinais de vício. Outro sinal muito comum são as queimaduras nos lábios, na língua e no rosto, pela proximidade da chama do isqueiro no cachimbo. Em grandes quantidades, o Crack pode deixar a pessoa extremamente agressiva, paranoica e fora da realidade. Cerca de 30% dos usuários perdem a vida em um prazo de cinco anos - ou pela droga em si ou em consequência de seu uso (suicídio, envolvimento em brigas, “prestação de contas” com traficantes, comportamento de risco em busca da droga – como prostituição, etc.).

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Por Paula Kellermann

Onde buscar ajuda no Rio Grande do Sul — Informações: 156. — Ao descobrir que algum parente ou amigo é usuário de crack, a saída é o apoio familiar e tratamento. — O acesso ao tratamento pelo Sus em Porto Alegre se dá por meio das unidades de saúde. — O usuário é atendido por um profissional que o avalia e indica algum serviço de referência — que pode ser um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CapsAD), equipe de saúde mental ou mesmo o Pronto-Atendimento Cruzeiro do Sul (Pacs). Existem novo Caps em Porto Alegre. — O Pacs é uma emergência e possui 14 leitos. O limite de permanência é de 72 horas. O usuário pode ser encaminhado para o Pacs quando estiver em surto. — Lá, o usuário é medicado e, posteriormente, pode ser encaminhado para internação em algum hospital ou para atendimento no CapsAD. — A internação é indicada em caso de o usuário estar colocando a sua vida ou a de outras pessoas em risco, ou quando é necessária a permanência dele no hospital para aplicação de medicação ou realização de exames. — O Caps é um local para tratar o paciente e tem como objetivo a ressocialização. — Lá, há trabalhos em grupo, oficinas, consultas com psiquiatra, psicólogo, entre outros atendimentos. A duração tem em média dois anos.


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Drama dos viciados O viaduto da conceição serve de abrigo para diversos moradores de rua de Porto Alegre. Foi lá que encontramos, na tarde chuvosa da sexta-feira, 17, três deles. V. e o casal R. e M. Todos compartilham o mesmo drama: o vicio do Crack. V. parou de estudar aos 16 anos para cuidar de um tio doente. Costumava jogar Futsal no Teresópolis Tênis Clube e, nessa época, sofreu um acidente que o deixou quase três anos sem caminhar. Vendo o sofrimento de V., que se queixava de muitas dores, um amigo da polícia civil lhe apresentou um cigarro para relaxar. Era a Maconha. Daí foi um pulo para a Cocaína e outras drogas. Hoje, aos 35, V. é morador de rua e viciado em Crack há pelo menos 5 meses. Tem um filho pequeno que não vê há meio ano e seus pertences se resumem ao que pode carregar: a roupa do corpo e um gorro de lã rasgado que volta e meia tira e põe na cabeça mal raspada. Nem o papelão e o cobertor que se enrolava quando conversou com nossa reportagem são seus. “Até isso aqui (aponta para a cama improvisada) eu peguei emprestado. Tenho que devolver amanhã”, conta. Do grupo, ele é o primeiro a contar a história da sua vida e exibir ferimentos, cicatrizes e tatuagens pelo corpo. Uma delas é a logomarca da Rede Globo, quando teve a idéia de ir para o Programa do Faustão para participar do quadro “Se vira nos 30”. Já R. é um rapaz sorridente, de 25 anos e segundo grau completo. Conta que lê muito, característica demonstrada pelo seu vocabulário. Fuma Crack há dez anos. M. é sua companheira e usa a droga há pelo menos cinco. Juntos, o casal teve dois filhos, um de 2 anos e 6 meses e outro de 1 ano e 3 meses. As crianças moram com os avós maternos.

JÚLIA FRANZ

Viciados em Crack afirmam que a droga é uma ilusão

Ambos trabalham com reciclagem e alegam que é assim que se mantém. “Se não fosse a reciclagem, Porto Alegre era um lixo, sou como uma formiguinha de um imenso formigueiro”, afirma R., orgulhoso. Eles chegam a tirar em torno de R$ 20,00 a cada duas horas de trabalho, o suficiente para sustentar o vício: “Usar crack é uma rotina. Tu acordas de manhã sabendo tudo que tu vai fazer. É como se fosse um zumbi”, explica. M. revela que o vício do Crack não é exclusivo das classes baixas, e conta que inclusive brigadianos envolvem-se com a droga, como reforçou R.: “Os policiais te tomam o crack e usam na tua frente. Isso te deixa revoltado e dá vontade de usar mais ainda”. Quando questionados sobre como reagiriam se seus filhos fossem usuários, o casal foi veemente: “A gente falaria as consequências. A mãe te dá um tapa, mas te dá um carinho. O crack te dá um tapa e te derruba no chão”. Os moradores dizem que já presenciaram diversos casos de morte por causa do Crack. “Só aqui de-

baixo do viaduto, já vi cinco mortes por causa dessa droga”, revela R. Nesse momento um menor de idade se aproximou. De olhos arregalados o guri ouvia o relato dos companheiros que o acolheram na quarta-feira, 15, após fugir da casa onde morava com a Tia, na praia de Tapes, localizado na margem oeste da Lagoa dos Patos, a 103km de Porto Alegre. O motivo da fuga? “Minha tia me mandava fazer coisas que eu não gostava como trabalhar na rua”. Então ao invés de trabalhar, optou por viver nela. Mas o guri é “careta”, não usa drogas, como brincam os colegas da rua. M. conta que existem certos períodos em que o vício é tão forte que já chegou a gastar R$70,00 em pedras de Crack em um dia, uma média de 14 delas. Quando perguntamos sobre a vontade de largar o vício a resposta é unânime. Todos querem parar. O casal informa que está diminuindo a frequência do consumo e V avisa: “Eu fujo do crack”. Por Júlia Franz e Tiago Lobo


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O COMBATE no estado Responsável pela construção de políticas estaduais em relação às substâncias psicotrópicas, o Conselho Estadual de Entorpecentes (CONEN) trabalha com o tratamento, a assistência e a recuperação de dependentes de drogas, além da prevenção da sociedade quantos aos males que estas substâncias podem proporcionar. O Major Edison Rangel, 45 anos, atual presidente do órgão estadual, acredita que o maior desafio para o CONEM é informar cientificamente a população sobre os entorpecentes, explicando como reconhecê-los e quais são os seus efeitos, tanto psicológicos quanto comportamentais. Para criar uma visão geral das drogas ilícitas dentro do estado, é necessário analisar cada município de forma individual, entretanto, atualmente só existem 85 Conselhos Municipais de Entorpecentes (COMEN) dos 495 municípios do Rio Grande do Sul. Embora não vicie no primeiro uso, ao ser utilizada com frequência, a pedra do Crack rapidamente transforma o usuário em dependente. Com um efeito de prazer comparado a potência de cinco a sete orgasmos, a droga prejudica a memória, a atenção e a velocidade do processamento de informações, criando usuários impulsivos e sem raciocínio lógico, tornando o indivíduo um perigo para a sociedade e para si mesmo. Atos impulsivos realizados durante o efeito da droga podem gerar acidentes e, por não

terem informações suficientes sobre o paciente, a assistência médica é ineficaz. Por mais que seja uma droga de custo baixo, a necessidade da próxima pedra faz com que crimes como roubos e furtos sejam cometidos com a intenção de sustentar o vício. A exploração sexual também é um fato preocupante, pois, por uma pedra de crack, usuários vendem seu corpo ficando à margem de doenças sexualmente transmissíveis como a Aids. Por estar com o sistema imunológico enfraquecido devido ao uso da droga e o longo tempo exposto à baixas temperaturas, visto que o usuário perde a noção de fome e frio, o viciado corre o risco de contrair doenças, principalmente respiratórias, como a pneumonia e tuberculose, que, ultimamente tem apresentado um número alarmante de pacientes na capital. A Lei número 11.343 da Constituição brasileira garante ao usuário de drogas o tratamento médico e a reinserção na sociedade, assim como a melhoria da qualidade de vida do sujeito e de seus familiares. Em alguns casos é possível a intervenção judicial, com a intenção de proteger a família ou o próprio usuário de drogas, geralmente com um comportamento agressivo, encaminhando-o para o Sistema Único de Saúde (SUS) para obter tratamento adequado. Por Gabriela Santos

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para Informar Com a intenção de informar a população, existem call centers para os quais o cidadão pode ligar e obter informações sobre drogas.

Viva Voz Atende, gratuitamente, todo o território nacional, das 8h às 22h, pelo telefone 0800 510 0015. O projeto possui acadêmicos da área da saúde treinados para orientar cientificamente os ouvintes sobre o uso de drogas, suas características, seus efeitos no organismo, como prevenir e indicar locais de tratamento para usuários. O trabalho feito pelo Viva Voz tem tido repercussão nacional e traficantes já perceberam a mudança que o projeto tem feito, levando-os a ameaçar estagiários do projeto.

CIT

Vinculado a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, o Centro de Informação Toxicológica (CIT) presta orientação em ocorrências envolvendo produtos tóxicos, principalmente produtos químicos, animais peçonhentos e entorpecentes. Atende pelo telefone 0800 721 3000. Funciona 24 horas.

´ Disque denuncia

O Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (DENARC) possui o Disque Denúncia, através do qual é possível denunciar crimes envolvendo narcóticos pelo telefone 0800 518 518. Funciona 24 horas.


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Consultoria reduz danos O programa Consultoria de Rua, um dos serviços sociais do Hospital Conceição, em Porto Alegre, é um trabalho alternativo realizado por uma equipe multifuncional de saúde. O objetivo é estabelecer vínculos com os moradores de rua que são viciados em drogas, sejam elas lícitas ou não, buscando criar confiança e ajudando as pessoas a se conscientizarem dos seus vícios. Existem experiências desse tipo de tratamento em outros países há muitos anos, principalmente na Europa. No Brasil, o programa começou há 11 anos, na Bahia. A equipe aborda os moradores de rua da Zona Norte de Porto Alegre, utilizando uma identidade amistosa: uma van grafitada com imagens lúdicas, para romper com o estereótipo da saúde, que, às vezes, causa medo aos moradores. É através da confiança e do ar intimista que a equipe busca o sucesso. Em entrevista concedida à reportagem, Luiz Fernando Silba Bilibio, ténico em educação da equipe, afirmou que o trabalho realizado denomina-se Redução de Danos, que é uma diretriz da política nacional de saúde. A meta principal não é curar as pessoas, e sim diminuir as consequências das drogas. Muitas vezes, os viciados esquecem-se das necessidades básicas, por exemplo. A equipe providencia isso, causando uma melhoria das condições humanas do indivíduo, e iniciando uma conscientização do vício. “Devemos respeitar o livre arbítrio das pessoas, e por isso não obrigamos a internação e nenhum tratamento. Conversamos, abordamos, e esperamos que, através disso, as pessoas percebam os malefícios quase irreparáveis da droga, podendo parar de vez”, explica Bilibio.

Quando perguntado sobre o Crack, o entrevistado mostrou-se preocupado: “O crack destrói a autoestima e autocuidado. Isso torna muito difícil a aproximação e quase utópica a vontade de parar. As consequências são as mais diversas possíveis, e por isso é um tratamento muito complicado, pois é extremamente singular”, garante. Em relação aos resultados desse tipo de abordagens, Bilibio frisou: “É o tipo de abordagem que, na minha opinião, funciona melhor, pois não tem nenhum tipo de moralismo ou pré-julgamento. O senso comum é de quem usa droga ser mau caráter e estar comprometido neurologicamente. Nós não tratamos isso assim. Procuramos sempre passar esperança, e isso encanta os moradores”. Os moradores de rua, que normalmente não tem emprego nem estrutura familiar, acabam caindo no Crack como uma tentativa de prazer. A consultoria de Rua busca levar até eles novas formas de prazer, realizando oficinas e atividades culturais, mostrando que é possível ter alegrias sem a droga. Segundo o entrevistado os tratamentos de drogas não podem ser todos iguais. tratamentos específicos não só às variadas drogas, mas também para cada indíviduo. “O grande lance é termos um leque de possibilidades terapêuticas. Quanto maior for, mais chance do viciado encontrar algum que consiga progredir”, afirma. “Para o profissional da saúde, não dá pra ter ideia imediatista. As relações são cheias de idas, vindas e retrocesso”. Então, o profissional precisa dançar conforme a música orquestrada pelo viciado, buscando a lucidez dentro do caos. Por Júlia Franz

´ cocaina A cocaína foi extraída das folhas de coca pela primeira vez no século XIX. Naquela época, era usada para propósitos medicinais em bebidas, e a história é verdadeira: a Coca-Cola já teve cocaína em sua fórmula. No final do século XIX, a cocaína também era usada como anestésico e para prevenir sangramentos excessivos durante cirurgias. No século seguinte, as pessoas começaram a perceber que a cocaína era um narcótico viciante, e o uso da droga com finalidades não-medicinais tornou-se ilegal com a aprovação da Harrison Narcotics Tax Act (site em inglês), uma lei contra os narcóticos, em 1914. A cocaína em pó forma a base da cocaína de base livre. A cocaína de base livre tem um ponto de fusão baixo, por isso pode ser fumada. Ela é feita através da dissolução da cocaína em pó em água misturada com uma solução alcalóide forte, como a amônia. Então, um solvente altamente inflamável, como o éter, é acrescentado, e uma base sólida de cocaína se separa da solução.


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O Amor exigente A APAEX (Associação Portoalegrense de Amor-Exigente) é um programa que encaminha os dependentes químicos para internação e disponibiliza grupos de apoio gratuitos para as famílias. Usando doze passos (veja ao lado), busca promover uma mudança de comportamento. A associação trabalha apenas com um principio por mês e atendem, principalmente, viciados em Crack. Todos que ligam procurando ajuda passam por uma triagem, onde é averiguado o grau de parentesco, a idade do dependente e de qual droga ele é usuário. “ A grande maioria é Crack, e como perguntamos, tem muita gente de 30 anos entrando no Crack. Não é só gurizada” , revela Ariete Colvara, atual diretora da associação, que trabalha lá desde 1991 e já atendeu mais de dez mil famílias. O problema do crack é o efeito. “ O tempo que ele fica viajando, o barato dele, digamos assim, é muito curtinho. É questão de cinco minutos. Ai, como é muito bom, numa sentada eles usam dez pedras. È por isso que vicia”, afirma a diretora. A desintoxicação é difícil e só adianta para aquele que se trata porque quer. Para a recuperação ter efeito, a família também precisa se transformar. “Não adianta tratar nove meses ou seis meses como as comunidades terapêuticas tratam, se a família não for tratada junto. Quando ele sai de lá é que começa o tratamento porque lá ele está protegido. Ele tem que chegar e notar uma mudança em casa, porque ele mudou completamente”, diz Ariete Colvara. De acordo com ela, isso pode até ser bom, afinal, quando

saem, os viciados tem perspectiva de futuro, diferente do alcoólatra que só vai buscar ajuda quando tem uns cinqüenta anos e não consegue ver sua vida dali pra frente, acaba caindo em depressão e retornando pro álcool. Quando não buscam ajuda, os dados são preocupantes. Segundo o Ministério da Saúde, 30% dos consumidores dessa droga morrem nos primeiros cinco anos. Quando chega ao centro de apoio, a pessoa já é dependente de alguma droga, em média, há dois anos, segundo índices da APAEX. A maioria das pessoas próximas fecham os olhos para o problema até que o viciado comece a incomodar. “Se não incomoda ninguém, se ele vai para a casa e dorme, a família não vai procurar ajuda”, diz Ariete Colvara. Com viciados em Crack, os parentes devem estar sempre atentos, afinal, não existe cura. “Como é uma doença de comportamento, ele não recai usando drogas, ele recai em comportamento”, revela Ariete. “O tratamento são os grupos de apoio. Lá o dependente está sempre em contato com outros que querem sair daquela situação. Neste processo ele tem que trocar totalmente as amizades senão é recaída”, diz a diretora. Os consumidores dessa droga antes eram os mais pobres, indigentes. Hoje há uma parcela expressiva de jovens de classe média ou alta usando, sem perceber o perigo. “Dificilmente o dependente entra direto no crack. Tem o elevador da droga, que é tabagismo, alcoolismo, maconha, cocaína e crack.”, Ariete Colvara diz. Por Vanessa Schramm

Os doze passos 1) Raízes Culturais 2) Os Pais também são Gente 3) Os Recursos são Limitados 4) Pais e Filhos não são iguais 5) Culpa 6) Comportamento 7) Tomada de Atitude 8) Crise 9) Grupo de Apoio 10) Cooperação 11) Exigência ou Disciplina 12) Amor Associação Porto-Alegrense de Amor Exigente (Apaex) fica na Avenida Borges de Medeiros, 453, conjunto 121, Centro. Informações: 3225-2768.


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Estudo questiona novidade do Oxi ELLEN DICK / DIVULGAÇÃO

Óxi: nome da droga pode vir da pasta base passada pelo processo de oxidação.

Uma nova droga mais potente que o Crack recebe atenção da grande imprensa desde abril desse ano mas pode não ser tão nova e agressiva como se pensa. Os dados vêm do artigo “Óxi ou pasta base?” do perito criminal federal e mestre em ciências farmacêuticas Marcus Vinicius de Oliveira Andrade, publicado em 2005 na edição nº21 da revista Perícia Criminal. O perito explica que testes laboratoriais apontam que a composição, cor, odor e forma do Óxi são muito semelhantes à formulação da pasta base utilizada no preparo do Crack, Merla e Cocaína. A pasta base consiste nas folhas de Coca maceradas e processadas com componentes tóxicos como cal virgem, cimento, querosene, ácido sulfúrico entre outros que seriam utilizados na produção da nova droga. No en-

tanto esses produtos são os mais empregados na primeira etapa de preparação da coca e derivados. Andrade diz que: “No Laboratório, quanto aos ensaios físico-químicos mais corriqueiros realizados para a Cocaína, não há distinção clara daquilo que é chamado de Óxi e de pasta base”. Segundo o delegado Oslain Santana, chefe do setor de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal, indícios mostram que o Óxi não passa de uma versão fumável da pasta base de coca. Também não existe base científica para afirmar que a droga seja mais tóxica ou letal que o Crack. “É preciso desmistificar essa história de Óxi. Solicitamos um estudo científico para verificar, mas tudo leva a crer que aquilo que está sendo chamado de Óxi é a pasta base de coca solidificada”, disse Santana.

A PF desconfia que os traficantes estão vendendo diretamente a pasta base, para baratear o produto. Por isso o Óxi custa entre R$2,00 e R$3,00 contra R$5,00 e R$7,00 do Crack. O fato de o Óxi ter surgido no Acre é outro indício de que a “nova droga” não passa da pasta base. O estado não é um mercado consumidor, mas uma rota do tráfico, onde há fartura da pasta desde os anos 80. Mapa da pedra A droga é produzida na Bolívia e no Peru e começou a entrar no Brasil em 2005 pelo interior do Acre. Em pouco tempo, chegou a Rio Branco e se espalhou para outras capitais da região Norte, como Manaus (Amazonas), Belém (Pará), Macapá (Amapá) e Porto Velho (Rondônia). Nos últimos meses, houve apreensões e registros de usuá-


10 rios em Goiás, Distrito Federal, Pernambuco, Bahía, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Piauí onde foram confirmadas 18 mortes só neste ano por conta do uso do Óxi. Há rumores da circulação da droga no Mato Grosso, Maranhão e Paraná, embora não haja registros oficiais. No estado do Rio Grande do Sul a primeira aparição da droga aconteceu em 25 de abril desse ano, com 360 gramas apreendidas pelo Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc) em Porto Alegre. A droga veio de São Paulo, após entrar no Brasil pela fronteira com a Bolívia.

O FATO Esse processo leva de 6 a 8 segundos para atingir o cérebro e pode provocar perda dos dentes, queimaduras nos lábios e necrose de tecidos. Além de ocasionar enfisema pulmonar, derrames, perda de memória, dificuldade de raciocínio e concentração, vômitos, diarrérias, aumento da chance de hipertensão e infartos, e inflamações de fígados e rins. Usuários descrevem que o uso causa lacrimejamento, olhos avermelhados, respiração difícil, tremores das mãos e irritabilidade.

Produção da droga O método mais comum de refino da pasta base é o chaEfeitos do Óxi mado método colombiano. Ele A fumaça chega aos pul- consiste no mergulho das folhas mões e cai na corrente sanguínea. de coca em uma solução de cal No cérebro cria uma sensação de virgem e gasolina ou querosene. prazer com efeito aproximado de Este processo serve para extrair dez minutos. o alcalóide cocaína, que possui o

Porto Alegre, junho de 2011 princípio ativo da droga e resulta em uma massa dura de cor ocre amarelada. A segunda etapa é a purificação. Se o objetivo for a obtenção da cocaína em pó (cloridrato de cocaína), são usados solventes como o éter e a acetona para aumentar a pureza e o valor agregado da droga. Se o objetivo for o crack, existem dois caminhos básicos. Um deles é submeter o pó de cocaína a um processo de aquecimento, resfriamento e adição de bicarbonato de sódio ou amoníaco para que o pó se transforme em pedra e possa ser fumado. Uma alternativa, mais popular e barata, é submeter a pasta base ao mesmo processo de solidificação, obtendo o chamado Óxi. Por Tiago Lobo

Vacina contra cocaina e nova promessa para o tratamento de viciados O anúncio foi feito no dia 17 de maio, no Senado, pelo Representante Regional das Nações Unidades sobre Drogas e Crime, Bo Mathiasen, em audiência na Subcomissão de Políticas Sociais sobre Dependentes Químicos de Álcool, Crack e outras drogas. Representantes de organismos internacionais discutiram com os senadores as experiências adotadas por outros países na luta contra o avanço das drogas e na recuperação dos viciados. Segundo o representante da Organização Mundial da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde, Bernardino Vitoy, o Brasil conta com aproximadamente 2 milhões

de usuários de drogas. Vitoy informou que países como os Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha diminuíram o número de usuários de entorpecentes com campanhas educacionais para jovens. O representante regional das Nações Unidas Sobre Drogas e Crime, Bo Mathiasen, disse que, nos últimos anos, o Brasil entrou na rota do tráfico internacional. E defendeu que a dependência química não seja encarada como um caso de polícia. Para ele, o problema deve ser tratado com medicamentos e assistência profissional especializada. Mathiasen revelou que uma vacina contra a cocaína é a nova promessa para o tratamento de viciados nos

derivados da droga, como o Crack e o Óxi. (Bo) “Está se desenvolvendo uma vacina que poderia imunizar principalmente jovens e pessoas vulneráveis. Já se está realizando teste em alguns países e é claro que se desenvolvesse este tipo de vacina, que poderia literalmente imobilizar e neutralizar o efeito da cocaína e seus derivados, é claro que isso poderia ser um avanço muito grande” Nos debates anteriores, os senadores discutiram temas como prevenção, tráfico de drogas, políticas de repressão, saúde pública e tratamento. Com informações da Rádio Senado

O Problema do Crack  

Trabalho de reportagem realizada para a cadeira Técnicas de Reportagem e Formas Narrativasda PUCRS, em juno de 2011.

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