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PROSAS E VERSOS DE ÍNDIOS NO BRASIL


Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva Ministro da Educação Fernando Hadad Secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade Ricardo Henriques… (?) …. André Luiz Figueiredo Lázaro Diretor do Departamento de Educação de Jovens e Adultos Timothy Ireland Coordenadora Técnica Fernanda Teixeira Frade Almeida Colaborador Tancredo Maia Filho

Ministério da Educação Esplanada dos Ministérios Bloco L – 7º andar – Sala 710 literaturaparatodos@mec.gov.br www.mec.gov.br


te mandei um passarinho...


Organização Ira Maciel Jose Ribamar Bessa Freire Nietta Monte Núbia Melhem Santos Coordenação pedagógica e de produção Ira Maciel Coordenação temática José Ribamar Bessa Freire Pesquisa Nietta Monte José Ribamar Bessa Freire Edição e seleção iconográfica Núbia Melhem Santos Reproduções fotográficas Bernardo Santos Cox Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

D000

Nohghgsdhgsd, Cwtrwetrw. Te mandei um passarinho... / Nofgsfgsgs. – Brasília : Ministério da Educação, 2007. 80 p. : il. ; 33 cm. -- (Literatura para todos ; v. 1) ISBN: 00-000-0000-0 1. Nogfsgfsgfdhg. 2. Literatura brasileira. I. Título. CDD B000.0 CDU 000.000.0(00)-00

Ano 2007 Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros sem autorização prévia por escrito do Ministério da Educação ou dos autores.

Imagem da Capa Colar, pente e pingente Krahô Acervo Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Fotografia de Wagner Souza e Silva.


te mandei um passarinho...

1a

edição

Brasília

2007


É importante saber que não é só a escrita em papel que é válida. Sabe por quê? Porque nosso povo já viveu muitos anos sem participar da escrita e diretamente comunicaram uns com os outros através da voz, dos gestos ou dos desenhos. Nelson Xacriabá

O Igapó, de José Custódio Marques Meãmücü


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Pássaros namorando. Escultura em pedra encontrada em Joinville, Santa Catarina. Coleção Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville.

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>> PARTE 1

Histórias moram dentro da gente 42

>> PARTE 2

Esta terra tem vida 50

>> PARTE 3

Por que isso se passa comigo? 64

Veja aqui quem te mandou um passarinho

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Bibliografia: os pesquisadores que estudaram esses grupos

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Autores, fontes e referências bibliográficas das imagens

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Autores, fontes e referências bibliográficas dos textos por ordem de aparição

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Glossário

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Carta ao leitor

Caras leitoras e caros leitores, Trillum in et dolore vendreet ullum et aliquat, vel dolor ipit wis ex el ut alis augait nostie do consent irit, sum nostincilis dunt wissim dolendi onulput incillamcon ut aliquat ut eum dolorer augiamcommy niam, sustie doloborem do duipisi. Secte facipit luptatum ipit augait et prat ver adigna acin hent lum zzriure commy nisit ea facip ex eugait praestis augait nulpute dignis exercing ex er am, quisit nummy num vel iuscilit adip et ulput alis adionsed del ullaoreet praestrud dit digna feu feumsandre modo ea feugiamet verat. Delent at lut vel utatio ex eugait pratum at, sequat. Ing el utpat. Ut luptat illute modigna consent augue veniam, quipit nullan heniam, quamcom modiat, venit, quatie vulla conum duis augiam in hendre vero odolore minibh et nulputate dit accum iusciduisl enis adit aute con venim duis er alismodip eui tat, quat wisisis ad dipsum quipis. Dip ea feuguer aliquismolum vulla feugiatie do dolum elessed eu feui ex eugait, voloreet wisi tionsed modolum doloreraesto eummod tionull uptat, voluptat lor inibh eum iriure modolorer augiam dolor irit ad te diam init vendiam quatuercilla feuguero del ut alisiscil ing et, sequissit incin ut nos dolore facidui psusci te do esed doloreet. Pat nulluptatum dolor sisit etuercidunt in ullandignibh eugiat, con voluptat dignit ulput luptat. Sum

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Réplica de cerâmica Marajoara

zzril duipisi blandip ero dolorperat, quatet elit in velit, susci blan henit nummy nis amcon vulla feui tetum augait lummodo lorero core magna conullamcore feu feu faccum eugueriustie faci blam, vullam zzrilis doluptat wisim autpatu mmodole. Am nonsed te consed minis ectet alis dolor si. At. Dui bla feugue modolum modiam, quat praessis dignim ad tin henim num venibh et ipit adipisi el ea con enis ation vullaor autet at. Delesed tis nostis augiam zzriliquip enim nit vullut ad magnit dolor am am, quat laorercilit la feugait vulputp atuerat. Ut nulput lutate min ut amet lutpat lam, cons eu faccummy nim incipis cipit, sum ilismod tio ex er sequipit in vercilla aliscipisi eugueros elis nullut nibh ero odoless iscillamet alit eu facincilla facilisim ip er iriure doloreet luptat ad ero et ulput vullandrem volortionse corper in velesenim duis dolenim eugait digna facipsum zzriureet ulput laorper iliquat. Ommy niatie tionsed min velis aut ex exer aliqui blamet lum dolor amcorem quatet.

Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade Ministério da Educação

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Pref谩cio

Irillum in et dolore vendreet ullum et aliquat, vel dolor ipit wis ex el ut alis augait nostie do consent irit, sum nostincilis dunt wissim dolendi onulput incillamcon ut aliquat ut eum dolorer augiamcommy niam, sustie doloborem do duipisi. Secte facipit luptatum ipit augait et prat ver adigna acin hent lum zzriure commy nisit ea facip ex eugait praestis augait nulpute dignis exercing ex er am, quisit nummy num vel iuscilit adip et ulput alis adionsed del ullaoreet praestrud dit digna feu feumsandre modo ea feugiamet verat. Delent at lut vel utatio ex eugait pratum at, sequat. Ing el utpat. Ut luptat illute modigna consent augue veniam, quipit nullan heniam, quamcom modiat, venit, quatie vulla conum duis augiam in hendre vero odolore minibh et nulputate dit accum iusciduisl enis adit aute con venim duis er alismodip eui tat, quat wisisis ad dipsum quipis. Dip ea feuguer aliquismolum vulla feugiatie do dolum elessed eu feui ex eugait, voloreet wisi tionsed modolum doloreraesto eummod tionull uptat, voluptat lor inibh eum iriure modolorer augiam dolor irit ad te diam init vendiam quatuercilla feuguero del ut alisiscil ing et, sequissit incin ut nos dolore facidui psusci te do esed doloreet.

Ira Maciel Consultora Pedag贸gica

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Iyana Pitalá, de Amatiwanã Trumai

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>> PARTE 1

Histórias moram dentro da gente

Escultura em pedra em forma de pássaro, encontrada em Cubatãozinho, Joinville, Santa Catarina. Coleção Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville.

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Para mim e para meu povo, ler e escrever é uma técnica, da mesma maneira que alguém pode aprender a dirigir um carro ou a operar uma máquina. Então a gente opera essas coisas, mas nós damos a elas a exata dimensão que têm. Escrever e ler para mim não é uma virtude maior do que andar, nadar, subir em árvores, correr, caçar, fazer um balaio, um arco, uma flecha ou uma canoa. Quando aceitei aprender a ler e escrever, encarei a alfabetização como quem compra um peixe que tem espinha. Tirei as espinhas e escolhi o que eu queria. Na nossa tradição, um menino bebe o conhecimento do seu povo nas práticas de convivência, nos cantos, nas narrativas. Os cantos narram a criação do mundo, sua fundação e seus eventos. Então, a criança está ali crescendo, aprendendo os cantos e ouvindo as narrativas. Quando ela cresce mais um pouquinho, quando já está aproximadamente com seis ou oito anos, aí então ela é separada para um processo de formação especial, orientado, em que os velhos, os guerreiros, vão iniciar essa criança na tradição.

Airton Krenak

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Menino se prepara para o Jawari, de Amatiwan達 Trumai 16


Os brancos desenham suas palavras, porque seu pensamento é cheio de esquecimento. Há muito tempo guardamos as palavras de nossos antepassados dentro de nós, e as continuamos passando para nossos filhos. Davi Kopenawa Yanomami

Histórias moram dentro da gente, lá no fundo do coração. Elas ficam quietinhas num canto. Parecem um pouco com areia no fundo do rio: estão lá, bem tranqüilas, e só deixam sua tranqüilidade quando alguém as revolve. Aí elas se mostram. Daniel Munduruku

A canoa do tempo Nós, os povos indígenas, hoje estamos começando a sonhar do fundo dos mais de 500 anos que passamos mergulhados no túnel do tempo. Durante esse longo túnel foram exterminadas muitas culturas como as línguas indígenas. Oficialmente, hoje são faladas 180 línguas, mas sabemos que existem muitas mais ainda pelas fronteiras dos rios. O que quero dizer é que os 500 anos para nós começaram ontem. Só agora nos últimos anos é que estamos com os direitos de ter uma comunicação através da escrita na nossa língua própria. Como é um processo novo para os índios e para os educadores, encontram-se várias interrogações no ar. Como as andorinhas voando para pegar moscas em sua alimentação numa tarde de temporal. Mas o túnel do futuro mostra que somos capazes de realizar os sonhos que sempre tivemos, como povos diferentes e valorizados dentro de nós mesmos e espiritualmente... Joaquim Mana Kaxinawá

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História é passado, A história vem de um tempo longo, médio, recente. De ontem, hoje, amanhã. História é passado, história é presente. A história é como o mundo, porque não tem fim. É um caminho muito longo. Enquanto o tempo vai passando, mais histórias vamos construindo. História é passado, história é presente. A história não é só do ser humano. Também é dos encantados, dos animais, da floresta, dos rios e dos legumes. História está em todo lugar do mundo.

Adalberto Maru Kaxinawá e Joaquim Mana Kaxinawá

Kwarup, de Amatiwanã Trumai >> 18


história é presente

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Quando não existia nada, era assim que começou o início. Só havia escuridão. O espaço, onde não existiam os materiais para formar gentes. Existia o espaço frio, o espaço vazio, o espaço triste, Existia o espaço sem idéias. Na escuridão, existia uma VOZ que soava. Esta voz é a presença de Miřio, que é a Ye´pá-Bahuári-Mahsõ As músicas andavam dançando, fazendo carinho. Primeiro, ela tinha um corpo em forma de vento, invisível. Ela possuía a Vida da Alma em forma de vento, estava sentada. Dentro desta voz, dentro do vento vivia por si mesma uma Mulher, chamada Ye´pá. Ela era chamada Ye´pá-Bahuári-Mahsõ, Gente (femin.) – Terra, Gente que apareceu por si mesma. Ela apareceu no meio de sons musicais. No meio de nuvem branca brilhosa. Ela é Gente (femin.) – Música Sagrada. Primeiro, surgiu um estrondo grande. De cor de jenipapo. No meio – de cor rósea, grande raio formava um círculo. Quando se formou a luz, o raio ficou no horizonte, perto onde estava sentada uma Mulher no banco dela. Assim era a origem da Ye´pá-Bahuári-Mahsõ. Músicas andavam em forma de redemoinhos de vento, andavam em volta dela. Fazendo-lhe carinho, entrando-lhe no corpo dela, através dos ossos e dos pensamentos.

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Vivia sozinha no espaço vazio. No início, não criou nada, nem a terra, nem gentes. A Ye´pá-Bahuári-Mahsõ não tinha Caminho Delicado de Passagem, nem Nihǐsãma, nem Nihǐsohpe. Tinha um corpo invisível, de Pedra-quartzo, em forma de osso de bacia. Assim ela vivia, fazia a sua própria Vida. Depois, a Ye´pá-Bahuári-Mahsõ pensou de descer para a Casa de Ye´pá-wi´i. Antes de descer, a Ye´pá fez a Cerimônia de Më´řo- puhtiro. Assoprou nesta Terra, defumando para baixo. Estava para vir na Casa da Terra, para criar a Terra e as humanidades com as Cerimônias dela e pensou para criar a Terra e formar a Vida. Trocou o nome, antes de criar a terra, ficou chamada Ye´pá-Bëhkëo.

Ye´pá-Bëhkëo pensou em Bahsesé, criou Cerimônias fortes, e fez assim a Cerimônia de sopro chamada Di´´tá-bahseró, Cerimônia da Terra, chamada também Di´tá-ěhõ-a´mésëokǔřo bahseró. Ela vinha da Casa de Vento dentro do Osso, no Cigarro da Formação da Gente. Para chegar na Casa de Terra, desceu e trouxe a vida. Desceu para casa de Ye´pá-wi´i. É assim que começou, no princípio, antes de criar a Terra e o Dia. Fim do Primeiro Tempo

Gabriel dos Santos Gentil

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Tawaranã, mito que fala do namoro entre a moça e um peixe. De Amatiwanã Trumai

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No princípio eram as

águas

Peixe azul, de José Custódio Marques Meãmücü

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No princípio só existiam as águas. Toda vastidão do mundo era recoberta de água. Foi quando apareceu o Girador, o equilíbrio de todo o movimento, trazendo Auí e seu povo. O Girador semelhava-se a uma grande igaçaba, um imenso pote que pairou sobre as águas. Dele desceu Auí, um ser altivo e luminoso, e ergueu abrigos para seu povo. Trabalhou duro, construiu sobre as águas imensos túneis transparentes que se confundiam com elas. Ergueu sete cidades e fez seu povo habitá-las. O povo de Auí eram seres transparentes com pés palmiformes e nadadeiras sobre o dorso. Deixaram o Girador e habitaram as sete cidades. Durante muito e muito tempo ali viveram tranqüilos, sem que nada os perturbasse. Auí tomava conta de seu povo e zelava para que houvesse completa harmonia entre eles e a Natureza. Contudo, um dia, Auí, que se acostumara a contemplar o nascer do sol e a saudá-lo, viu as águas que se moviam em intensas correntes e faziam remoinhos, fruto da ação de Anhangá. Desde que chegara, Auí tinha respeitado todas as regras ditadas pelo Girador, fazendo seu povo também cumpri-las. E dentre essas regras estava a de que ele e seu povo não deveriam se aproximar de sítios em que houvesse desequilíbrios naturais. Desatento a essa regra, Auí se aproximou do movimento das águas. Acercou-se do remoinho e percebeu que podia enxergar o fundo das águas, constituído do mesmo material de que era feito o Girador, o barro. Auí foi tragado pelo remoinho, desceu e tocou o fundo. Ao fazê-lo, a terra levantou-se e aflorou acima das águas, fazendo a terra firme. (...) Auí e seu povo, depois da violação, sofreram grandes transformações. As sete cidades foram cobertas pelas águas encantadas. O povo de Auí passou a ser o povo encantado, que habita o fundo das águas. Perderam sua aparência física e transformaram-se em energias. São essas, os caruanas.

Zeneida Lima, neta de pajé Sacaca

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Origem e fundamento da

palavra segundo os Guarani

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Quando a terra não era, no meio das trevas originais, quando não havia o conhecimento das coisas, o nosso Primeiro Pai Nhamandu fez florescer em si o fundamento da palavra, convertendo-a na própria sabedoria divina.

Mito Guarani recolhido por Leon Cadogan

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As serpentes que roubaram a

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falar com as serpentes para que elas libertassem a noite. A escolha caiu sobre o jovem Karu Bempô, por ser guerreiro valente e excelente corredor.

noite

Karu Bempô foi falar com Surucucu, a grande chefe das serpentes.

Fazia pouco tempo que o mundo era mundo e que as garras da onça ainda não haviam crescido e já reinava a insatisfação. E isso porque a noite nunca chegava – ela, que iria permitir que pessoas e animais repousassem um pouco. O sol brilhava sem parar nos céus e nenhum daqueles infelizes conseguia sequer tirar uma pequena soneca! Os raios ardentes do sol queimavam tanto e durante tanto tempo que todos preferiam levantar. Apenas o papagaio continuava a protestar, mas tão alto, que toda a floresta o ouvia, porém o sol pouco se importava com toda aquela gritaria e seguia brilhando tão alegremente como antes. Após um certo tempo, o papagaio ficou rouco, e os outros seres arrastavam-se como sombras. No leito dos rios quase não se via uma gota d´água a correr. Felizmente, um belo dia, os índios descobriram quem havia escondido a noite: as serpentes! Então, os líderes da aldeia organizaram uma reunião para indicar aquele que deveria ir

A morada de Surucucu ficava escondida no fundo da floresta virgem, embaixo das folhas espalhadas pelo chão, e nem os macacos gostavam de se aproximar daquele lugar misterioso. — Quem se atreve a me incomodar? — gritou a serpente, erguendo a cabeça. — Sou eu, Karu Bempô, o grande guerreiro – respondeu. Dizem que as serpentes esconderam a noite. Se me devolverem a noite, darei arco e flechas como presente do meu povo. — De que me serviriam o arco e as flechas? — riu Surucucu. — Não tenho mãos para manejá-los. Meu rapaz, tens de me trazer outra coisa. Após dizer essas palavras, ela deslizou por entre as folhas e desapareceu, e Karu Bempô se viu sozinho. Voltou à aldeia de mãos vazias, e todos ficavam quebrando a cabeça para descobrir o que dar à serpente. Finalmente, depois de muito pensarem, imaginaram que uma matraca contentaria a serpente, pois é um objeto que agrada a todos, e nenhum animal possui um objeto desses. Fizeram então uma matraca, cujo som era ouvido para além das planícies e das

<< Detalhe de painel desenhado pelos Ticuna

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montanhas. E Karu Bempô pôs-se novamente a caminho. Dessa vez, Surucucu estava esperando-o. — Sei que me trazes uma matraca — disse ela. — Evidentemente, não é coisa que se despreze, mas como vou usá-la? Não tenho nem mãos nem pés... — Vou prendê-la em tua cauda — disse Karu Bempô, e imediatamente pôs mão à obra. Mas que aconteceu? Ou a matraca tinha perdido a voz ou a cauda da serpente não era suficientemente forte para balançála. Quando ela tentou chacoalhar sozinha, ouviu-se apenas um ch-ch-ch-ch parecido com o ruído que as folhas secas fazem quando se espalham pelo chão. — Não, isso eu não quero. Mas, para que não digam que sou insensível, te darei uma breve noite — declarou afinal a serpente. Deslizou para dentro do ninho e retornou trazendo um saquinho de couro, que entregou a Karu Bempô. — Deves saber que uma noite longa custa muito caro: nem por dez matracas eu poderia te dar uma — disse a serpente. — Nesse caso, o que queres em troca? — Conversei com as outras serpentes a esse respeito e decidimos que trocaremos uma noite longa por uma jarra cheia daquele veneno que teu povo coloca nas flechas. — Mas que ireis fazer com esse veneno? — recomeçou Karu Bempô. Sua pergunta não recebeu resposta. Surucucu deslizou sob as folhas. A matraca presa à cauda fez-se ouvir por um momento, e depois a serpente desapareceu. 28

Caminhando lentamente, Karu Bempô retornou à aldeia com o saquinho de couro. Tinha esperança de que a noite curta seria suficiente para todos,

mas em seu espírito permanecia o receio de um novo encontro com a serpente. Assim que os índios abriram o saquinho, o mundo foi invadido pelas trevas e todos caíram num sono profundo, mas não por muito tempo. Passados alguns instantes, o sol voltou a brilhar, expulsou a escuridão para trás das montanhas e despertou sem piedade os adormecidos. Todo dia acontecia a mesma coisa, e logo ocorreu aquilo que Karu Bempô temia: perceberam que uma noite tão curta não bastava para descansar e todos começaram a juntar veneno — às vezes uma gota — para encher a jarra. O jovem retornou à floresta pela terceira vez. Dessa vez caminhava com cuidado, pois tinha receio de tropeçar e deixar cair a jarra. Surucucu estava enfiada em seu ninho, e via-se apenas sua cabeça. Ao lado dela havia um enorme saco, bem cheio. — Eu sabia que voltarias — disse ela ao recém-chegado. — Vê, preparei um saco que contém uma noite longa. Karu Bempô entregou-lhe a jarra e perguntou, curioso:


— Escuta, por que as serpentes precisam de veneno? — Porque somos pequenas e fracas — respondeu Surucucu — e precisamos ter presas venenosas para nos defender... mas não tenhas medo: darei a cada serpente apenas uma pequena quantidade de veneno, a fim de que não possamos realmente fazer mal a ninguém... — Mas é que... — estranhou o guerreiro, preocupado. — Bem, já está com o saco. Deves levá-lo para a tua aldeia e só abri-lo quando chegares lá. Se soltares a noite cedo demais, a escuridão vai impedir-me de distribuir o veneno a cada serpente como pretendo, e as conseqüências recairiam sobre todo o mundo... Com essas palavras, ela se despediu e, sem tardar, convocou todo o povo das serpentes e começou a distribuir o veneno. Surucucu foi a primeira a se servir... Karu Bempô voltou para a aldeia, carregando a bolsa com todo o cuidado. Pensava no que a serpente havia lhe dito e por isso não percebeu que o papagaio, excitadíssimo, voava acima dele, gritando: — Venham ver, ele está trazendo

a noite, Karu Bempô está trazendo a noite longa! Evidentemente, todos os que lá estavam podiam vê-lo com os próprios olhos. Os macacos, loucos de alegria, saltavam no topo das árvores; o jacaré fazia ondas com o pouco de água que ainda restava. A onça, impaciente, arranhou-se. — Solta a noite agora mesmo, o que estás esperando? — gritou ela, atirando-se sobre Karu Bempô. Antes que Karu entendesse o que estava acontecendo, a onça arrancou a bolsa de suas mãos e abriu-a. Uma densa escuridão caiu sobre a selva, surpreendendo a todos. Animais e pessoas procuravam caminhos para voltar a suas casas e esbarravam uns com os outros. Mas o pior foi o que aconteceu com as serpentes da chefe Surucucu: elas se atiraram sobre a jarra, empurrando-as umas às outras, e cada uma passou nas presas tanto veneno quanto podia. Em vão Surucucu tentava acalmá-las, dizendo que havia veneno suficiente para todas. Por fim, acabaram derrubando a jarra. Mas quando, ao final de uma longa noite, voltou o dia, todos puderam perceber as conseqüências do que a onça havia feito: as serpentes tinham se tornado inimigas poderosas e audaciosas que, com suas presas envenenadas, matavam todos aqueles que se aproximavam. Apenas o povo das Jibóias não foi atingido, e sempre avisava os índios com sua matraca. Depois desse episódio, as serpente nunca mais foram amigas — cada uma procura viver sua vida sem se preocupar com a dos outros. Os Munduruku e os animais adoraram ter conseguido a noite de volta. Assim, podem descansar durante a noite para iniciar um novo dia mais dispostos e alegres.

Daniel Munduruku >>>>>> >>>>> >> te mandei um passarinho...

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Curu

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CURUPIRA é o dono da mata e mora nas sapopemas da sumaumeira. Ele gosta de silêncio e está sempre andando para cima e para baixo na floresta. Quando cansa, senta-se sobre um jabuti, que lhe serve de banco.

pira

Dizem os velhos que ele tem os cabelos compridos, corpo peludo, olhos pretos e pés virados. Existem vários tipos de Curupira: o pai da sumaumeira, o dono do jabuti, o dono dos outros animais, o Curupira macho e o Curupira fêmea. O Curupira faz medo aos caçadores batendo nas raízes das árvores. Ele atrai e encanta as pessoas. Quando o Curupira ataca, o único jeito de matá-lo é batendo no seu corpo com um pedaço de pau podre. Mas antes de morrer ele sempre diz:

“Se um dia eu me acabar, fica outro no meu lugar guardando tudo o que é meu”. Professores Ticuna

<< Buritizal, de João Clemente Gaspar Metchiicü

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MacunaĂ­ma e

CrĂŠdito da obra

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Waimesa-Podole Macunaíma

Um dia e seu irmão Manápe saíram e encontraram Waimesa-Podole, o pai dos lagartos. Ninguém podia se aproximar dele, porque sua língua era muito comprida e com ela agarrava todos os animais. Macunaíma disse: — Vou ver o bicho. Manápe aconselhou: — Não vai não. Ele vai te pegar e te engolir. Macunaíma respondeu: — Que nada! Eu vou sim. Manápe voltou a dizer: — Cuidado, meu irmãozinho. O bicho vai te pegar. Mas Macunaíma não escutou o conselho. Assim, Manápe o deixou ir. Macunaíma foi conferir. Aproximou-se do bicho. Então, Waimesa-podole prendeu Macunaíma com sua língua e o engoliu. Manápe voltou pra sua casa e contou pra todo mundo que o pai dos lagartos havia devorado Macunaíma. Então, todos os irmãos se uniram, querendo matar WaimesaPodole com flechadas. Manápe disse: — Não vamos flechar na barriga, mas somente na cabeça. E aí, todos foram pra lá. De pé, parado diante do bicho, Manápe bateu no chão com um bastão e disse: — Vem agora, vem, Waimesa-Podole e me devora, como fizeste com meu irmão. Os outros irmãos se aproximaram pelos dois lados para flechar. Quando o lagarto botou a grande língua pra fora para agarrar Manápe, os irmãos dele dispararam suas flechas bem na cabeça do animal, matando-o. Depois, abriram suas tripas. Ali estava Macunaíma. Saiu vivinho e disse:

— Vocês viram só como lutei com esse bicho! Depois disso, voltaram para sua casa.

Mayuluaípu, índio Taurepang, narrou essa história para o pesquisador alemão Theodor Koch-Grünberg, em 1912. (versão da edição em espanhol para o português de José R. Bessa Freire). >>>>>> >>>>> >> te mandei um passarinho...

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História Bernabé Zé Bernabé era um índio da Serra Grande muito trabalhador, gostava de caçar e de andar amontado: o seu cavalo era um bode muito forte. Bernabé sentiu falta de uma vaca e saiu pela mata em seu bode. Foi encontrar sua vaca em cima de uma serra, correu atrás, desceram o barranco, embaixo ele derrubou a vaca, mas quebrou um quarto. Ele viu que não tinha jeito, lá mesmo no mato, ele matou a vaca e a esquartejou. Amarrou dois quartos nas correias da cela, montou no bode e saiu rasgando caatinga. Chegando adiante, viu o bode se torcendo. No que olhou para trás, viu uma onça pintada montada na garupa do bode, comendo a carne. Largou o seu chicote na cara da onça, que pulou no chão e saiu correndo. Bernabé botou o bode atrás dela. Chegando na frente, a onça pulou numa trincheira de pedra. Quando a onça pulou, Bernabé agarrou o rabo da onça. A onça pulou e Bernabé ficou com o couro da onça na mão. Alguns dias depois, ele voltou para buscar o resto da carne. No caminho encontrou com a onça já encabelada. A onça tinha comido o resto da carne. Mais na frente percebeu seu gibão melado. No que experimentou, viu que era mel. Seguiu caminho, encontrou um enxu só o buraco. É que na carreira atrás da onça, ele passou dentro de enxu e não viu. Severino Bandeira Atikun História coletada pela Professora Maia Josélia Atikum

Karuat, de Matari Kaiabi 34


Papagaio

católico

O homem tinha um Papagaio e o Papagaio andava solto. Quando ele queria botar na corrente botava; ele pedia para soltar: “Me solte, que eu vou andar”. Aí disse que ele soltava o Papagaio e dizia: — Cuidado louro, senão o Gavião te pega. O Gavião pega Papagaio. Ele: — Só num é eu. Aí começou a andar: Quando foi um dia, disse que ele já estava no quintal da cozinha, o Gavião chegou, paco! E o Papagaio gritou: — Me acuda João! Chega que o Gavião vai me levando. Com aqueles gritos penosos... — Reza aí o terço, João! Reza aí o santofício, João, que o Gavião vai me comer! Valei-me, Nossa Senhora! O Papagaio e o Gavião subindo... Aí disse que João correu:

O buritizal e os animais, de Cidberght Custódio Marques Nupawe’ecü

— Lembre-se do..., lembre-se da espingardinha, meu Papagaio. Ele fez: Ó, pu! De surpresa, o Gavião amoleceu a perna e soltou. Soltou, ele caiu no chão, saiu correndo, conversando e João atrás, e o Gavião foi-se embora. E ele entrou. Quando chegou dentro de casa, João disse: — Olhe, louro, o que era que eu lhe dizia? Quase que você morre! Aí ele disse: — Foi, foi. Mas eu te batizo Simão, essa e outra mais não. Pronto acabou a história do Papagaio.

Margarida Maria de Jesus Kiriri


Eu pensava que

a terra

remendava

com o céu No meu pensamento de antigamente, quando eu era menino, o mundo, eu pensava que era que nem tocaia, a terra remendava com o céu.

O sol, eu pensava que eram muitos, passava dias e dias. A noite, eu pensava que era que nem fumaça, porque quando o sol ia embora, a noite vinha cobrir o mundo.

O céu, eu pensava que era que nem ferro, nunca acaba.

A chuva, eu pensava que era alguma pessoa, que morava no meu céu e derramava água.

A água, eu pensava que eram alguns bichos grandes, esturrando em cima do céu.

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Céu, terra e água, de Maiuá Ikpeng

O homem, eu pensava que só nós mesmos vivíamos, só nós mesmos, o povo Kaxinawá.

A língua, eu pensava que todo mundo falava na nossa língua mesmo, o Kaxinawá. Um dia, eu vi um branco chegando na nossa casa, falando diferente. Mas eu pensava que quando eu fosse à casa dele, ele ia falar em Kaxinawá. Um dia, eu fui viajar com meu pai, para ver onde estava a terra remendada com o céu. Nós íamos descendo o rio e quando passaram alguns dias perguntei ao meu pai onde estava a terra remendada com o céu. Meu pai me disse que não estava remendada a terra com o céu. Que o mundo é muito grande e não tem fim...

Noberto Sales Tene Kaxinawá

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MA’PÂY (MULHER)

Mây mam mapây ga ‘ep to ‘ût pâra to xãp pû kãyã ep. Kanay i’xap pû’ kâyã wa’ye toxawaba pôg to’wa kanãy i’ya owe wa’ye totôra xahwip tem wâk tem i’ke owe ‘et to’wûya mãy mam xo kanây i’yat taburabe i’xãp pû mabitât tem to’wa kanãy pe: Toto néw wa’ye ma’pây ga ‘ût mapára i’kug pe’tenã kanay pe’i’ût’et to wûya wâk tem tenã te ‘et tabet. Mây ye: yet i’ke to’wa Toto néw et tabet.

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MULHER (MA’PÂY)

ANTIGAMENTE A MULHER ENGRAVIDAVA NA BATATA DA PERNA. QUANDO CHEGAVA NO DIA DE NASCER, O BEBÊ ABRIA A PERNA DA MÃE. DAÍ O BEBÊ JÁ NASCIA ANDANDO, MAS AS MULHERES NÃO GOSTAVAM DE ENGRAVIDAR NA PERNA, ELAS ACHAVAM MUITO PESADO CARREGAR O BEBÊ NA PERNA. POR ISSO QUE O TOTONEW CASTIGOU AS MULHERES.

TOTONEW FALOU PARA ELAS: — AGORA VOCÊS VÃO CARREGAR OS BEBÊS DE VOCÊS NA BARRIGA, SÓ QUE VOCÊS MULHERES VÃO SOFRER MUITA DOR NA HORA DOS PARTOS, PARA VOCÊS APRENDEREM A ME OBEDECER.

POR ISSO A MULHER SENTE MUITA DOR NA HORA DO PARTO. Pem Marli Arara Escrito nas duas línguas pela autora

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Nitio xá potar cunhang Setuma sacai wáa Curumú ce mama-mamane Baia sacai majaué Nitio xá potar cunhang Sakiva-açu Não gosto de mulher Curumú monto-montoque de perna muito fina Tiririca-tyva Porque pode memajaué. enroscar

como cobra viperina Não gosto de mulher

de cabelo alongado Porque pode me cortar como tiririca no roçado 40


As mulheres com a mandioca, de Amatiwanã Trumai

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Acutipuru ipurú nerupecê Cimitanga-miri uquerê uaruma.

Acutipuru, me empresta o teu sono para minha criança também dormir.

Canção de ninar em Nheengatu recolhida por Francisco Bernardino de Souza

Rede com fios de algodão e tucum dos índios Kuikuro

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>> PARTE 2

Esta terra tem vida

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Eu sou a água que mata a sede Onde eu não estiver Você se lembra de mim. Aturi Kaiabi

Os pescadores, de Amatiwanã Trumai

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Correr das pedras Rio da vida, água clara Correr das pedras Peixes grandes, peixe pequeno O sol nasceu Na curva dos rios, água de novo correu, dentro do rio Água linda, friazinha, fica entrando no meu corpo amando, beijando e bebendo devagar Sempre mata coração No meu entrando No peito sozinha deixando Embora amor chore Correr.

Perankô Panará

Qualquer vida

édentro muita da floresta Se a gente olha de cima, parece tudo parado. Mas por dentro é diferente. A floresta está sempre em movimento. Há uma vida dentro dela que se transforma sem parar. Vem o vento. Vem a chuva. Caem as folhas. E nascem novas folhas. Das flores saem os frutos. E os frutos são alimentos. Os pássaros deixam cair as sementes. Das sementes nascem novas árvores. E vem a noite. Vem a lua. E vêm as sombras que multiplicam as árvores. As luzes dos vaga-lumes são estrelas na terra. E com o sol vem o dia. Esquenta a mata. Ilumina as folhas. Tudo tem cor e movimento.

Professores Ticuna

<< Piracema, de João Otaviano do Carmo Filho Te’racicü

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Esta terra que pisamos é o nosso irmão. Por isso que a terra tem algumas condições e por isso que o Guarani respeita a terra, que é também um Guarani. O Guarani não polui a água, pois é o sangue de um Karaí. Esta terra tem vida, só que nós não sabemos. É uma pessoa, tem alma — é o Karaí. A mata, por exemplo, quando um Guarani vai cortar uma árvore pede licença, pois sabe que é uma pessoa que se transformou neste mundo. Esta terra aqui é nosso parente, mas uma pessoa acima de nós. Por isso falamos para as crianças não brincarem com a terra, porque ela foi um Karaí e até hoje ela se movimenta, só que nós não percebemos. Por isso quando os parentes morrem, a carne e o corpo se misturam com a terra. Por isso que temos que respeitar esta terra e este mundo que a gente vive.

Alexandre Acosta Guarani História coletada por Marcos Moreira Guarani

Floresta e manejo, de Aldemir Bina Kaxinawá 48


O que não tem médico

tem mata

Antigamente não tinha médico, num tinha nada nem doutor. Eram só as raízes — é onde eu falo: nossa tradição e nosso povo são o povo da raiz e da terra. Que a terra é nossa carne e nossa vida e a água é nosso sangue e nossos nervos. A raiz é os nervos e a água é o sangue. Emílio Gomes de Oliveira Xacriabá,

Floresta e manejo, de Benki Asheninka >>>>>> >>>>> >> te mandei um passarinho...

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Geografia

o que é

Geografia é onde o rio está. Onde o município está. É para onde vem o sol. É para onde vai o sol. Este rio para onde vai? É divisão das águas. É igarapé, igapó, lago, açude, mar. É a medição da terra, a demarcação. É fotografia, desenho, cor, é um mapa. Geografia é o entendimento da aldeia e do mundo. Do nosso mundo e do mundo do branco. É a cidade, o Brasil e os outros países. É a história do mundo. O mundo é a terra, a terra é a aldeia. O rio que cai num outro rio. Que cai num outro rio. Que cai no mar. Geografia é o depois do mar...

Professores Indígenas do Acre

Grafismo Wajãpi, desenhado por Jawarua Os Wajãpi usam seus grafismos para pintar o corpo e na decoração de objetos, como cestos, vasos e tecidos.

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Pássaro vermelho

Sonhou um canto e cantou E seu canto era belo e bom Ê sol Ê lua Ê mata Ê rio Brasil nem era Brasil Muito antes de Colombo Muito antes de Cabral Aqui vivia uma gente Falando língua de vida Vivendo uma vida Tal que até parece cinema. Até parece um sonho O que era natural. Jonado Sabanê Nambikwara

Akaikuni, de Amatiwanã Trumai

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>> PARTE 3

Por que isso se passa comigo?

Quando você for Quando você for, me chama em voz baixa. Daí eu fico contigo. Mas a tua voz não chega de verdade. Como sentir cheiro de flor na boca da minha flor?

Edson Ixã Kaxinawá 52


... o amor é uma sensação atraente, que deixa muitas vidas em pânico. Portanto, o amor é um produto que deve ser usado com cuidado, quando for com bastante freqüência. O amor é como você correr desesperadamente. De repente, pode se chocar com alguma coisa que estiver na sua frente e ser atropelado. Então, no caso do amor, devemos prestar bem atenção: para onde correr, a distância que vamos correr, se podemos correr…

Joaquim Mana Kaxinawá

<< Brinco Karajá

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Te mandei em passarinho Patuá miri pupé Pintadinho de amarelo Iporanga ne iaué

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Te mandei um passarinho dentro de uma cestinha Pintadinho de amarelo, e bonito como vocĂŞ.

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O casamento

tradicional

Eu vou contar para você como é que é o namoro e o casamento do povo Pataxó. Quando um rapaz e uma moça Pataxó começam a se gostar, um dos dois toma a iniciativa, jogando em direção ao outro uma pedrinha bem de mansinho, sem que ninguém possa perceber. Naquele momento, os dois trocam olhares e sorrisos. A partir daí, começa, ou melhor, passam a se jogar pedrinhas e a se encontrar às escondidas. Quando querem se casar, o rapaz joga na moça, na jovem índia, uma flor. Se ela pegar a flor, é porque aceita se casar com o rapaz, mas, se ela não pegar, é porque não aceita o casamento. Depois que a moça pegar a flor eles vão conversar com os pais e os caciques. A partir dessa conversa, toda a comunidade fica sabendo que vai haver casamento na aldeia. Desse dia em diante, os pais começam a se preparar para a cerimônia matrimonial de seus filhos. O noivo começa a preparar sua casa e seu roçado e, diariamente, pega uma pedra com o peso equivalente ao da noiva. No dia do casamento, os pais dos noivos, juntamente com os caciques, marcam o lugar de onde o noivo começará a carregar a pedra. O rapaz carrega a pedra até o local onde será realizado o casamento. Chegando lá, ele põe a pedra no chão e, ali mesmo, os noivos trocam de cocar e, naquele momento, é realizada a cerimônia. Depois da realização do casamento, todos os membros da comunidade vão para a casa dos noivos beber cauim e festejar até o raiar do novo dia. Geralmente, os Pataxó se casam bem novos, entre doze e treze anos, mas hoje isso já está mudando e estão casando entre quatorze, dezesseis e até dezoito anos.

Kanátio Pataxó e outros

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Casamento Pataxó, de Kanátyio Pataxó

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Tudo passa Passam os anos, passa a vida, Passa o tempo, passam as coisas, Passam perto de mim as pessoas, Passa dentro de mim o amor. Por que isso comigo se passa, Se jĂĄ nem sei mais quem sou? Miguel Panemaxeron Surui

Grafismo WajĂŁpi, de Muruti

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Eu não tenho minha aldeia Eu não tenho minha aldeia Mas tenho o fogo interno Da ancestralidade que queima Que não deixa mentir Que mostra o caminho Porque a força interior É mais forte que a fortaleza dos preconceitos.

Ah! Já tenho minha aldeia Minha aldeia é Meu Coração Ardente É a casa de meus antepassados E do topo dela eu vejo o mundo Com o olhar mais solidário que nunca Onde eu possa jorrar Milhares de luzes Que brotarão mentes Despossuídas de racismo e preconceito.

Eliane Potiguara

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O contraditório

Quem é aquele que se diz civilizado. Que criou o antídoto, que elimina a vida. Que destrói o mundo num toque de dedo. Que se engrandece porque detém a morte. Que envenena a terra, a água e o ar que geram vida. Que sufocou sabedoria milenares. Que massacrou as verdadeiras civilizações. Que hoje parece estar arrependido. Que hoje nos quer como quando nos encontrou

Andila Inácio Belfort Kaingáng

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Quem vai segurar? Água namora com a pedra A pedra sempre feliz vai ficar A água corre no rio e esse rio cai no mar O ar segura o mundo E o mundo segura o mar de novo Os dois seguram os homens, e os homens, será que vão segurar? Yanin Kaiabi

Arakuni, de Amatiwanã Trumai

* Esse mito é muito bonito porque fala do incesto de Arakuni com sua irmã, que foi desoberto pela mãe porque sua pintura corporal era diferente da dos outros homens e ela ficou impressa no corpo da irmã. >>>>>> >>>>> >> te mandei um passarinho...

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Veja aqui quem te mandou um passarinho

Arara (RO) – No Brasil, quatro povos diferentes são denominados Arara. A história aqui narrada é dos Arara de Rondônia, que sempre habitaram o Igarapé de Lourdes e falam a língua Karo, nome pelo qual são também conhecidos. Karo, na língua deles, significa arara. Eles se pintavam com jenipapo, faziam furo no nariz, onde penduravam uma pena de arara. Nos anos 1920, o contato com o branco provocou doenças e muitas mortes. Os sobreviventes trabalharam como seringueiros. Hoje, são 170 índios em duas aldeias, onde a escola alfabetiza na língua karo e ensina o português. A palavra to´wa nas narrativas é uma marca para prevenir que não viram o que estão contando, apenas ouviram. Atikum – Conhecidos no século XVIII como Umã, os Atikum, em 2006, somavam 5.852 indivíduos vivendo em 16 aldeias localizadas na Reserva da Serra do Umã, no município de Carnaubeira da Penha (PE). Lá são identificados como “os caboclos da Serra do Umã”. É possível chegar a cinco dessas aldeias por estrada, as demais só a cavalo ou a pé. São bons agricultores. Em plena caatinga, plantam milho, mandioca, feijão, mamona e frutas como goiaba, laranja, pinha e banana. Não falam mais a língua Atikum, só mencionada no toré, que é uma dança com cânticos rituais, que expressam a religiosidade do grupo e contêm em suas letras o registro, entre outros, das plantas e raízes medicinais. Guarani – Em 1.500, os Guarani eram os senhores da costa atlântica, desde a Barra da Cananéia (SP) ao Rio Grande do Sul. Hoje, vivem em aldeias localizadas em dez estados brasileiros, com uma população de 47.692 indivíduos. Ocupam ainda territórios na Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia. Estão divididos em três grupos: Mbyá, Ñandéva e Kaiowá. A maioria da população é bilíngüe e fala, além do guarani, o português ou o espanhol. Mas é na língua guarani que circulam as narrativas, a poesia, o canto, as rezas e os rituais religiosos. Vivem da agricultura e da venda do artesanato: cestaria, colares, pulseiras, adornos, chocalhos e figuras de animais, esculpidas em madeira. Ikpeng – Eles se chamam Ikpeng, mas eram conhecidos como Txicão. Viviam no rio Jatobá (MT), fora do Parque Indígena do Xingu (PIX). Contataram com os brancos em 1964, quando doenças reduziram a população a menos da metade. Foram, então, transferidos, em 1967, para dentro do PIX. Hoje são 342 pessoas, que protegem a área da ação dos madeireiros. Lutam para recuperar

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o antigo território. Falam e escrevem uma língua Karib, usada na escola, onde aprendem também o português. Aprenderam a filmar com a ONG Vídeo nas aldeias. Produziram vídeo de rara beleza: Das crianças Ikpeng para o mundo, onde mostram a aldeia, as famílias, brincadeiras, festas e modo de vida. Kaiabi – Narrativas míticas, cantos e histórias de guerra mostram que os Kaiabi eram um povo tradicionalmente guerreiro, que morava em grandes casas no norte de Mato Grosso e no sul do Pará. Suas terras foram invadidas por seringueiros, madeireiros e fazendeiros. Em 1966, muitos deles aceitaram ser transferidos de avião para o Parque do Xingu, mas alguns ficaram lá. Em 2006, havia um total de 1.619 índios kaiabi, divididos em três grupos. Eles vivem hoje em casas pequenas e cultivam dezenas de plantas. Os homens fabricam cestos ornamentados, redes, tipóias e peneiras com desenhos sofisticados. As mulheres tecem algodão. Cantam e fazem poesia em sua língua materna e em português. Kaingáng – Eles são 28.875 índios em trinta terras indígenas (SP, PR, SC, RS), mas somam mais de 30 mil se forem contadas as famílias que vivem hoje nas cidades. Ocupavam um vasto território que chegava até a atual Argentina. Os primeiros contatos de alguns kaingang com os portugueses datam do séc. XVI. Mas só no final do séc. XVIII é que começa a invasão de suas terras, processo que se estendeu aos dias de hoje. Suas narrativas míticas foram recolhidas por vários estudiosos desde 1882, quando foi registrado o mito da origem do povo Kaingang, no qual aparecem os heróis Kamé e Kairu, dois irmãos que criaram o mundo e as regras de comportamento para os homens. Karajá – De onde vieram os Karajá? Do fundo do rio, onde viviam. Eram os Berahatxi Mahadu, o povo do fundo das águas. Um dia, descobriram a passagem para a superfície e boiaram no rio Araguaia. Lá, encontraram doenças e morte. Tentaram voltar, mas a passagem estava fechada. É assim que o mito conta a origem deles. Tiveram contato com jesuítas (1658) e com bandeirantes (1718). Hoje, 2.593 karajá moram em 29 aldeias na ilha do Bananal (TO). Fazem roças, pescam, fabricam bonecas, artesanato de palha, madeira e barro. Antes, tatuavam na face dois círculos, que agora são apenas desenhados durante as festas. Cinco escolas bilíngües funcionam para 425 alunos. Kaxinawá – Eles se chamam Huni Kuin (gente verdadeira), falam o hãtxa kuin (língua verdadeira) e são o maior povo indígena do Acre: 5.820 pessoas.No Peru vivem mais 1.500. Suas terras foram invadidas no período da borracha (1870-1914), quando cem mil nordestinos entraram no Juruá e Purus. Alguns índios ainda hoje trazem o braço gravado com as iniciais FC (Felizardo Cerqueira), nome do patrão que os submeteu ao trabalho forçado. Junto com outras etnias, criaram associações, construíram escolas, formaram professores, pesquisaram e ilustraram os livros que escreveram com o Kene Kuin (desenho verdadeiro) usado na pintura corporal, na cerâmica, na tecelagem e na cestaria.

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Kiriri – O nome dado pelos tupis do litoral do Nordeste a um outro povo que vivia no sertão foi kiriri, que significa calado. Os Kiriri, catequizados pelos jesuítas no séc. XVIII, esqueceram sua língua, mas o português que falam hoje tem marcas dialetais do Kipeá. Perseguidos pelos diretores de índios no séc. XIX, perderam suas melhores terras, que haviam sido reconhecidas pelo rei de Portugal, em documento de doação. Hoje, 1.612 Kiriri vivem em terras na boca da caatinga, no norte da Bahia, recuperadas depois de muita luta. Vivem da agricultura, da coleta de frutos e do artesanato. Reaprenderam a dançar o toré, ritual que é um símbolo de identidade e de união dos índios do nordeste. Krahô – Timbira é o outro nome mais genérico pelo qual são conhecidos os Krahô, que vivem no Tocantins, em aldeias onde as casas ocupam um espaço circular e se ligam por uma via ao pátio central. A história do contato começa no século XIX, quando fazendas de gado invadem suas terras. Eram mais de 4 mil e foram reduzidos a 400 em 1940. Hoje são 2.184 índios. São bilíngües. Falam a língua Krahô, na qual narram a origem do mundo, a visita ao céu e ao fundo das águas, a cura das doenças, como obtiveram as plantas da mulher-estrela, como tiraram o fogo da onça e com quem aprenderam a corrida de toras. Gostam muito de música, que é um dos aspectos importantes da sua vida ritual. Krenak – Eles se chamam Borun, nome de sua língua. Foram apelidados de Aimoré pelos tupi, e de Botocudo pelos portugueses, devido ao botoque usado nos lábios. Mas hoje são conhecidos como Krenak, nome de um cacique. O seu território era a Mata Atlântica (BA) e o vale do rio Doce (MG e ES). D. João VI, em 1808, declarou guerra aos Botocudos, confiscou suas terras, distribuídas como sesmarias, permitindo a escravidão dos prisioneiros de guerra por até vinte anos. Os últimos Botocudo são hoje 204 índios que recuperaram no Supremo Tribunal Federal pequena parte das terras. Os mais velhos falam Borun e contam histórias de Marét-Khamaknian, o herói civilizador da humanidade. Kuikuro – Hoje 509 kuikuro vivem em grandes malocas ovais de três aldeias do Parque do Xingu (PIX). Entre eles, não estão mais os donos das narrativas – Agatsipá e Nahu – dois velhos sábios enterrados recentemente com a cerimônia dos mortos: o Kuarup. Sabiam tudo: cantos, rituais, histórias. Para eles, o céu, com as estrelas e constelações, era um livro aberto, onde liam acontecimentos míticos e a origem das coisas. Os Kuikuro falam sua língua e o português, dependendo da idade e do sexo. Produzem os famosos colares e cintos de caramujo. Dançam o Yamaricumá, que conta a revolta das mulheres. Aprenderam a filmar, ganhando prêmios com o vídeo O dia em que a lua menstruou. Macuxi – Eles falam uma língua da família Karib. São 32.933 indivíduos, dos quais 23.433 vivem no Brasil, em Roraima, e 9.500 na Venezuela. Depois do contato, substituíram as grandes malocas

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circulares por casas retangulares, cobertas com folhas de buritizeiro, chão batido e paredes de barro seco e até mesmo por casas de alvenaria. Na luta pela terra, suas aldeias foram invadidas em 2004 por fazendeiros, que destruíram e incendiaram dezenas de casas, postos de saúde e escolas, além de ferir um índio à bala. Apresentam variações das narrativas comuns com os Taurepang sobre Macunaíma, o herói mítico, astuto e sagaz, que converte homens, animais e peixes em pedras. Marajoara – Não existiu um povo Marajoara. Os arqueólogos chamam de cultura marajoara o estilo de antigos povos ceramistas que viveram na ilha do Marajó (PA) entre os anos 400 e 1300 d.C. Sua cerâmica bonita e refinada - urnas, vasos, tigelas, pratos, tangas, adornos - representa seres mitológicos da floresta: cobra, jacaré, tartaruga, lagarto, coruja, macaco. A arte marajoara é uma linguagem, só que em vez de falada ou escrita, é visual. Cria narrativas gráficas que contam histórias, expressam crenças, emoções e idéias. Os estudiosos acham que servia para registrar, armazenar e divulgar o conhecimento. Esse estilo de vida desapareceu muito antes da chegada dos portugueses ao Pará. Munduruku – Documentos portugueses falam que o Munduruku, dono do vale do rio Tapajós, era um povo guerreiro, conhecido por mumificar as cabeças dos inimigos mortos. Desde o final do século XVII, resistiu às tropas de guerra que queriam escravizá-lo. Depois, foi aldeado por missionários. O sarampo dizimou parte da população. Hoje são 10.065 pessoas cujas terras estão ameaçadas pelo garimpo de ouro e grandes projetos hidrelétricos. Tocam nas flautas parasuy canções tradicionais que contam seus mitos e sua história. Criaram escolas, uma associação, e organizaram a assembléia geral do povo Munduruku. Mantém rede de radiofonia de comunicação entre as dez aldeias (PA, AM e MT). Nambikwara – Rondon calculou que em 1915 havia 20 mil falantes de da língua Nambikwara em seus vários dialetos. Foram reduzidos a 990, devido ao contato, às epidemias e à produção da borracha. Eles se recuperaram e hoje já são 1.715. Procuram usar a tecnologia moderna para fortalecer suas tradições. Vivem em dez terras indígenas (RO e MT), algumas delas ameaçadas pelo garimpo e pela febre da soja, inclusive a área sagrada onde habitam os espíritos dos antepassados, com os rios contaminados por agrotóxicos, as nascentes destruídas e a formação de crateras encharcadas de mercúrio. Técnicos garantem que “nem todo o ouro retirado da área paga um projeto de recuperação”. Nheengatu – Nheengatu não é um povo, mas uma língua, conhecida nos documentos coloniais como língua geral. Existiram dois idiomas que permitiam a índios de etnias diferentes se comunicarem entre si e com os portugueses: Língua Geral Paulista (LGP) e Língua Geral Amazônica (LGA). Essa última, falada pela maioria dos amazonenses até o século XIX, registrou narrativas, poesias e canções.

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Sua base era o tupinambá, usado pelos jesuítas como língua de catequese. Recebeu influência de outras línguas indígenas e africanas e do português. Hoje, o Nheengatu, que significa lingua boa, é falado no rio Negro. Foi declarado língua co-oficial no município de São Gabriel da Cachoeira (AM) em 2002. Panará – Conhecido como Krenakore ou índios gigantes por causa de suas enormes bordunas, o Panará, povo agricultor, ocupava um território no rio Peixoto Azevedo, sudeste do Pará. Contatado em 1973 na abertura da estrada Cuiabá-Santarém, a população de 400 pessoas diminuiu em dois terços por doenças e massacres. Os sobreviventes, levados em avião para o Parque do Xingu, viveram lá mais de vinte anos. Em 2001, ganharam indenização na Justiça e recuperaram as terras de onde foram retiradas 30 fazendas. A população de 303 indivíduos criou associação para gerenciar a indenização e desenvolver projetos de educação, capacitação e manejo de recursos naturais. Pataxó – Existem dois povos com esse nome: um é o Pataxó Hã-hã-hãe, o outro é o Pataxó, os “índios do descobrimento”, que resistiu a cinco séculos de invasão de seu território e hoje vive em nove terras indígenas (BA e MG), parte delas no Parque Nacional do Monte Pascoal, recuperadas em 1997. São 10.897 indivíduos, 40 deles capacitados como monitores de turismo. O contato permanente com turistas muda o modo de vida, mas reafirma o orgulho étnico, como registrou o I Encontro de Pesquisadores Pataxó, em 2007. A última falante de Pataxó ainda vivia em 1983. Deixaram de falar a língua, mas suas narrativas, canções e poesias sobrevivem em português, como o mito fundador Txopai Itohã. Potiguara – “Eles se misturaram com os brancos. Não são mais índios. Perderam a língua e estão vestidos. São sertanejos”. Esse foi o argumento do governo da Paraíba, em 1919, para vender as terras dos Potiguara, no vale do Mamanguape, reconhecidas antes pelo rei de Portugal (1599) e por D. Pedro II (1850). Hoje, 11.424 Potiguara de 33 aldeias plantam, criam animais, pescam, fazem artesanato. Continuam a luta pela terra, mantendo o vigor de sua identidade. Dançam o toré, celebram as figuras míticas dos tapuios coronga e canindé, aprendem noções básicas de tupi ministrado pela USP e se organizam. Em 2004, elegeram um prefeito, dois vice-prefeitos e onze vereadores Potiguara. Sacaca – Quando os portugueses chegaram ao Pará (1616), chamaram os povos da ilha do Marajó, estimados em cem mil habitantes, pelo nome genérico de Nheengaiba (língua ruim), porque falavam línguas diferentes da usada na catequese. Um desses povos, hoje extinto, era o Sacaca, que resistiu às tropas de guerra e à escravidão até o acordo de paz assinado com o padre Vieira (1659). Foram aldeados e explorados como remeiros e vaqueiros. Seus pajés conheciam tanto as plantas medicinais que sacaca passou a significar curandeiro em Nheengatu. Em algumas gerações, adotaram a Língua Geral e depois o português, línguas que registraram suas narrativas míticas e seus conhecimentos.

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Surui (RO) – Há dois povos Surui: Aikewara (PA) e Paiter (RO). Trata-se aqui do Surui Paiter (gente de verdade), contatado em 1969, cujas terras foram invadidas por estrada, garimpeiro, madeireira e grileiros, quando o Programa Polonoreste investiu em Rondônia 1,55 bilhões de dólares. Hoje, 1.007 surui de onze aldeias têm luz elétrica, casa de zinco, roça, escola bilíngüe e igrejas cristãs que reprimem os pajés, numa tensão entre o tradicional e o novo. Festejam o Mapimaí (criação do mundo) e celebram o natal. Seus cantos exaltam a luta do herói Waiói. Fazem cerâmica, cestos, colares, cintos e redes em pequenos teares com roda de barro. Criaram o Fórum Surui para defender o meioambiente. Taurepang – Eles são 22.935 índios, dos quais 22.353 estão na Venezuela, onde são conhecidos como Pemón, e 582, no Brasil. Moram em Roraima, na Área Indígena Raposa/Serra do Sol com os Makuxi e os Wapixana. Seu jeito de viver foi estudado em 1911-1913 pelo pesquisador alemão KochGrünberg, que registrou muitas narrativas Taurepang, entre as quais as histórias de Macunaíma, que deram origem a um dos livros mais importantes da literatura brasileira. Com as demais etnias, organizaram o Conselho Indígena de Roraima (CIR), que lutou para demarcar suas terras invadidas por fazendeiros. Depois de batalhas jurídicas, a área foi, enfim, homologada, em abril de 2005. Ticuna – A língua Ticuna não parece com qualquer outra e por isso é considerada isolada. É nessa língua, dita tonal porque usa diferentes alturas na voz, que o povo Ticuna, autodenominado Maguta, registrou a memória da floresta, celebrando os protetores da mata. Organizou associações, formou professores, escreveu livros, abriu museu, biblioteca e 93 escolas bilíngües em aldeias do rio Solimões, que têm luz elétrica, rádio e televisão. Eles são no Brasil 32.613 pessoas; no Peru, 4.200 e na Colômbia 4.535. Seus livros contêm suas ciências, com inventário dos animais e mapas da vegetação: plantas medicinais, ervas, frutas, resinas, arte, festas, máscaras, danças, contando tudo com palavras e imagens. Trumai – Eles vivem no Parque Indígena do Xingu (PIX), junto com 5 mil índios de 14 etnias distribuídos em 49 aldeias, em área de 27.974 km², todas com línguas próprias, mas com muitas coisas em comum. Esses povos ficaram conhecidos depois de duas expedições (1884-1887) do etnólogo alemão Von den Steinen. O Trumai ficou reduzido a 27 pessoas em 1947 devido a guerras intertribais e doenças causadas pelo contato. Hoje são 147 indivíduos, que falam uma língua isolada e o português em diferentes graus de bilingüismo. Vivem em três aldeias e na cidade de Canarana. São agricultores e artesãos. Ensinaram aos demais o ritual do Jawari, celebrado hoje por todos os povos do Xingu. Tukano – A cobra grande entrou no universo pela porta da água, subiu os rios Negro e Uaupés, levando dentro dela todos os povos. Foi deixando cada um em seu lugar. É assim que é narrada a origem de 16 povos que falam línguas diferentes, mas pertencem a mesma família lingüística. Um deles é o Tukano, que no Brasil são 6.241 pessoas e na Colômbia, 6.330. Moram nos rios Uaupés e Tiquié (AM), são exogâmicos, isto é, só casam com alguém que fala outra língua, e patrilineares, ou seja,

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os filhos e a mãe moram na comunidade do pai. Estão organizado na FOIRN – Federação das Organizações Indígenas, que está publicando as histórias na série Narradores do Rio Negro. Tupinambá – Esse era o nome de povos do tronco lingüístico tupi, que ocupavam o litoral, de São Paulo até Belém. Foram os primeiros que tiveram contato permanente com os colonizadores. Cultivavam roças comunitárias, plantavam e teciam algodão. Sua arte plumária, registrada na Bahia pela carta de Caminha, encantou os europeus, como o manto que hoje está no Museu da Dinamarca. Considerados extintos, desapareceram do mapa do Brasil. Ressurgiram em 1997, em Ilhéus (BA). Hoje são 2590 índios, que falam o português e mantêm uma Associação que realizou o Seminário da Juventude Tupinambá (2005). A memória oral lembra ainda o último massacre que sofreram (1937). Wajãpi – Esse povo vivia no baixo Xingu até o século XVII. Cruzou depois o rio Amazonas e foi morar no Oiapoque. Hoje eles são 756 pessoas no Amapá e 412 na Guiana Francesa. Vivem em 40 pequenas aldeias e registram seus saberes e suas narrativas na língua que falam da família Tupi-Guarani, combinando a palavra com a arte gráfica da pintura, conhecida como kusiwa. Usam tintura de urucum, gordura de macaco, sumo de jenipapo e resinas perfumadas para pintar o corpo, a cerâmica, as cuias, os tecidos e a cestaria. Agora usam também caneta e papel. A arte wajãpi de desenhos coloridos foi declarada pela Unesco, em 2002, “obra prima do patrimônio oral e imaterial da humanidade”. Xacriabá – Hoje são 7.450 pessoas que vivem em 25 aldeias no vale do Peruaçu (MG) e representam 70% dos eleitores do município de São João das Missões. Criaram escolas, formaram professores, se alfabetizaram, editaram quatro livros de literatura com suas narrativas e um CD com vozes dos velhos que ainda falam xacriabá, a maioria só fala português. Elegeram o atual prefeito e três vereadores indígenas. Mas tiveram que lutar muito desde 1728 quando obtiveram o registro de posse da terra, o que não impediu que fosse invadida por fazendeiros (1969-1987), com assassinato de três líderes. Em 2003, uma barragem construída pela Codevasf inundou terras da aldeia Barra do Sumaré. Yanomami – A população total é de 30.875 pessoas. A metade vive no lado venezuelano e a outra metade mora em 255 aldeias em Roraima e no nordeste do Amazonas. Seu território, que abriga o Pico da Neblina, foi invadido por 40 mil garimpeiros, responsáveis pela morte de 1.500 índios entre 1987 e 1992, quando foi finalmente demarcado. Eles falam quatro línguas aparentadas entre si. A história do contato é recente, pode ser contada através da vida de Davi Kopenawa, que é hoje o principal portavoz de seu povo. Seu grupo foi aniquilado por epidemias após contatos com o Serviço de Proteção ao Índio e a missão evangélica Novas Tribos do Brasil. Davi conta que quando viu o primeiro branco, feio, esbranquiçado e peludo, achava que era um canibal que ia comê-lo. José Ribamar Bessa Freire - Autor da pesquisa e do texto

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Autores, fontes e referências bibliográficas das imagens

Capa, colar, pente e pingente Krahô. Acervo Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Fotografia de Wagner Souza e Silva. Páginas 6 e 7, O Igapó, de José Custódio Marques Meãmücü. In Ticuna – Pinturas da Floresta. OGTP, Alex Chacon, Jussara Gruber. Rio de Janeiro: CCBB, 2004. Página 8, escultura em pedra do acervo do Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville, in Antes, histórias da pré-história. Rio de Janeiro: CCBB, 2004. Página 11, réplica de cerâmica Marajoara, www.arteindigena.com.br Página 13, padrão gráfico muito característico do Alto Xingu, de Amatiwanã Trumai. Foi assinalado pelo autor pelo nome de Iyana Pitalá. Técnica: nanquim sobre papel – 1988. Assinado Amati. Página 14, escultura em pedra do acervo do Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville. In Antes, histórias da pré-história. Rio de Janeiro: CCBB, 2004. Página 16, Menino se prepara para o Jawari, de Amatiwanã Trumai. O Jawari é o mais importante ritual da cultura Trumai. Técnica mista sobre cartão – 1977. Assinado Amati. Página 19, Kwarup, de Amatiwanã Trumai. O Kwarup é o ritual funeral ícone do Alto Xingu. Técnica: nanquim sobre papel – 1978. Assinado Amati. Página 21, Tawaranã, de Amatiwanã Trumai. Técnica mista sobre cartão – 1977. Assinado Amati. Página 22, Peixe azul, de José Custódio Marques Meãmücü, in Ticuna – Pinturas da Floresta. Página 26, detalhe de painel de autoria da equipe da OGPTB – Organização dos Professores Ticuna do Brasil, in Ticuna – Pinturas da Floresta. Página 30, Buritizal, de João Clemente Gaspar Metchiicü, técnica: gouache, in Ticuna – Pinturas da Floresta. Página 31, Karuat, de Matari Kaiabi, desenho, in Livro das águas. Professores Indígenas do Parque do Xingu, Maria Cristina Troncarelli (orgs) São Paulo: ISA, ATIX, 2002.

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Página 35, O Buritizal e os Animais, de Cidberght Custódio Marques Nupawe’ecü, técnica: guache, in Ticuna – Pinturas da Floresta. Página 37, Céu, terra e água, de Maiuá Ikpeng, in Livro da águas. Página 41, As mulheres com a mandioca. Amatiwanã Trumai. Páginas 42 e 43, redes Kuikuro, www.arteindigena.com.br Páginas 44 e 45, Os pescadores. Pintura, técnica: óleo sobre tela – 1997. Assinado Amatiwanã Trumai. Página 46, Piracema, guache de João Otaviano do Carmo Filho Te’racicü, in Ticuna – Pinturas da Floresta. Páginas 48 e 49, desenhos dos agentes agroflorestais Aldemir Bina Kaxinawá e Benki Asheninka, in Calendário Floresta e Manejo, editado pela Comissão – Pró-Indio do Acre e a Secretaria de Coordenação da Amazonia, Ministério do Meio Ambiente, Brasilia, 2002. Página 50, grafismo Wajãpi, de Jawarua, in Kusiwa: pintura corporal e arte gráfica Wajãpi. Dominique Gallois e Índios Wajãpi. Museu do Índio – Funai. Centro de Trabalho Indigenista, Núcleo de História Indígena e do Indigenismo. RJ. 2002. Página 51, Akaikuni, de Amatiwanã Trumai, óleo sobre tela, 2000. Página 53, Brinco Karajá in A Plumária indígena brasileira. Sonia Ferraro Dorta e Marília Xavier Cury. São Paulo: Edusp. 2000. Página 57, Casamento Pataxó, de Kanátyio Pataxó, in O povo Pataxó e sua história. Angthichav, Arariby, Jassanã, Manguadã e Kanátyio. Minas Gerais: MEC/Unesco/SEE-MG, 1997. Página 58, grafismo Wajãpi, de Muruti, in Kusiwa: pintura corporal e arte gráfica Wajãpi. Página 61, Arakuni, de Amatiwanã Trumai, técnica mista sobre cartão, 1977. Página 62, Manto xamânico confeccionado pelos índios Tupinambá no século XVII e levado para a Europa por Maurício de Nassau. Acervo do Museu de História Natural da Dinamarca. (SUBSTITUIDO TEMPORARIAMENTE PELO COCAR)

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Autores, fontes e referências bibliográficas dos textos por ordem de aparição

Nelson Xacriabá. Escrita em papel. In ALMEIDA, Maria Inês (org). Literatura Xacriabá em língua portuguesa. OEIY, UFMG, MEC, 2006. Ailton Krenak. Ler e Escrever é uma técnica. In BESSA FREIRE, José R. La presencia de la literatura oral en el proceso de creación de bibliotecas indígenas en Brasil. México. Conaculta. 2004. (Memória del Segundo Encuentro Internacional sobre Bibliotecas Públicas. Puerto Vallarta, Jalisco.Mexico) Davi Kopenawa Yanomami (com Bruce Albert). Descobrindo os brancos. In NOVAES, Adauto (organização.) A Outra margem do Ocidente. São Paulo. Cia. Das Letras. 1999. Daniel Munduruku. Histórias moram dentro da gente. www.danielmunduruku.com.br Joaquim Maná Kaxinawá. A canoa do tempo. In SHENIPABU Miyui. História dos antigos. Organização dos professores indígenas do Acre e Comissão Pró-Índio do Acre. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2000. Adalberto Maru Kaxinawá e Joaquim Maná Kaxinawá. História é passado, história é presente. In MATOS, Claudia; MONTE, Nietta (orgs). Antologia da Floresta. Professores Índios do Acre, Rio de Janeiro: CPI/AC, 1998. Gabriel dos Santos Gentil. A criadora do Mundo. In GENTIL, Gabriel dos Santos. Mito Tukano. Quatro Tempos de Antiguidades. Histórias proibidas do Começo do Mundo e dos Primeiros Seres. Tomo I. Frauenfeld : Verlag Im Waldgut, 2000. Zeneida Lima. No princípio eram as águas. In LIMA, Zeneida. O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó. Belém, Pará Edições CEJUP, 2002. Pablo Verá. A origem e o fundamento da palavra segundo os guarani. In CADOGAN, Leon. Ayvu rapyta: textos míticos de los Mbyá-Guaraní del Guairá. São Paulo: USP, 1959.

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Daniel Munduruku. As serpentes que roubaram a noite. In MUNDURUKU, Daniel. As serpentes que roubaram a noite e outros mitos. Ilustrações: Crianças Munduruku da aldeia Kato. São Paulo: Editora Peirópolis,2001 Autoria coletiva: professores Ticuna. Curupira. In GRUBER, Jussara Gomes (org.). O livro das árvores. Professores e ilustradores Ticuna. São Paulo: Global, 2000 Mayuluaipu. Macunaíma e Waimesa-Podole. In KOCH-GRÜNBERG, Theodor. Del Roraima al Orinoco.Três tomos. Caracas: Ernesto Armitano Editor. 1981 Severino Bandeira Atikun. Bernabé. História recolhida pela professora Maria Josélia em entrevista com Severino Bandeira Atikun, na aldeia Baixão. Margarida Maria de Jesus Kiriri. Papagaio Católico. In MOTTA, Erimita; CORTES, Clélia (orgs). Histórias Kiriri. MEC/ SEF, Universidade Federal da Bahia, 2000. Noberto Sales Kaxinawá. Eu pensava que a terra remendava com o céu. In MATOS, Claudia; MONTE, Nietta (orgs). Antologia da Floresta. Professores Índios do Acre, Rio de Janeiro: CPI/AC, 1998. Marli Peme Arara. Mulher Ma’Pay. In ARARA, Marli Peme. Projeto Açaí. Curso de Formação de Professores. Porto Velho. Secretaria de Educação de Rondônia. 2006 Anônimo. Mulher de Perna Fina. Recolhido por dois viajantes alemães Spix e Matius, em março de 1820, no rio Urariá, afluente do rio Madeira. In BESSA FREIRE, José Ribamar. Rio Babel: a história das línguas na Amazônia. Rio de Janeiro, Ed. UERJ e Atlântica Editora. 2004 Anônimo. Acupitiru. Canção de ninar em Nheengatu, recolhida em 1873, pelo cônego Francisco Bernardino de Souza, autor desta tradução. In BESSA FREIRE, José Ribamar. Rio Babel: a história das línguas na Amazônia. Rio de Janeiro, Ed. UERJ e Atlântica Editora. 2004 Aturi Kayabi. Água que mata a sede. In TRONCARELLI, Maria Cristina; Professores Indígenas do Parque do Xingu. Livro das Águas. São Paulo: ISA, ATIX, 2002

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Perankó Panará. Correr das Pedras. In TRONCARELLI, Maria Cristina; Professores Indígenas do Parque do Xingu. Livro das Águas. São Paulo: ISA, ATIX, 2002 Autoria coletiva: professores Ticuna. Qualquer vida é muita dentro da floresta. In GRUBER, Jussara Gomes (org.). O livro das árvores. Professores e ilustradores Ticuna. São Paulo: Global, 2000 Alexandre Acosta Guarani. Esta terra que pisamos é o nosso irmão. Depoimento inédito do Sr. Alexandre Acosta (60 anos), em língua guarani, recolhido e traduzido pelo professor guarani Marcos Moreira em 2004 na Aldeia Jataíty, Canta Galo-RS. Curso de Formação de Professores Guarani do Sul e Sudeste. Módulo de História ministrado pelo professor José R. Bessa Emílio Gomes de Oliveira Xacriabá. O que não tem médico tem mata. In ALMEIDA, Maria Inês (org). Com os mais velhos. OEIY, UFMG, MEC, 2006. Autoria coletiva: professores indígena do Acre. Geografia, o que é. In GAVAZZI, Renato (org). Geografia Indígena. Professores do Parque do Xingu, Instituto Socioambiental, ISA, MEC, 1998 Jonado Sabané Nambikwara. Pássaro Vermelho. In Práticas pedagógicas e Linguagem - 3º grau indígena. Seduc-MT/Unemat/Funai/MEC. Barra do Bugres-MT, 2005. Edson Ixã Kaxinawá. Quando você for. In MATOS, Claudia; MONTE, Nietta (orgs). Antologia da Floresta. Professores Índios do Acre, Rio de Janeiro: CPI/AC, 1998. Joaquim Maná Kaxinawá. O amor. In MATOS, Claudia; MONTE, Nietta (orgs). Antologia da Floresta. Professores Índios do Acre, Rio de Janeiro: CPI/AC, 1998. Anônimo. Te mandei um passarinho. Canção recolhida em 1874 no Pará por Couto de Magalhães. In BESSA FREIRE, José Ribamar. Rio Babel: a história das línguas na Amazônia. Rio de Janeiro, Ed. UERJ e Atlântica Editora. 2004 Kanatyo Pataxó e outros. Casamento Tradicional. In ANGTHICHAV; ARARIBY; JASSANÃ; MANGUADÃ E KANÁTYIO. O povo Pataxó e sua história. Minas Gerais: MEC/Unesco/SEE-MG, 1997.

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Miguel Panemaxerón Surui. Tudo passa. In MATOS, Claudia; MONTE, Nietta (orgs). Antologia da Floresta. Professores Índios do Acre, Rio de Janeiro: CPI/AC, 1998. Eliane Potiguara. Eu não tenho minha aldeia. In POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. São Paulo: Global, 2004. Andila Inácio Belfort Kaingáng. O contraditório. In Práticas pedagógicas e Linguagem - 3º grau indígena. Seduc-MT/Unemat/Funai/MEC. Barra do Bugres-MT, 2005. Yanin Kaiabi. Quem vai segurar. In TRONCARELLI, Maria Cristina; Professores Indígenas do Parque do Xingu. Livro das Águas. São Paulo: ISA, ATIX, 2002. Avaju Poty. Borboleta Amarela. In Guata Porá. Oporaí – O canto sagrado guarani. CD. Curitiba. Fundação Cultural. 2000

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Glossário

A criadora do mundo O autor, Gabriel Gentil, do povo tukano, falecido recentemente, era kumu, ou seja, curador e conhecedor das plantas medicinais, mestre de cerimônias e de cantos. Falava português e tukano. Escreveu esses mitos que foram publicados na Suíça (2000) em edição bilíngüe.

Miřio – As músicas eram gente. Esse personagem mítico é gente-música, ou Ye´pá, a Primeira Mulher, que tocava por si mesma.

Ye´pá – a primeira personagem feminina do Mito da Criação da Terra. A palavra Ye´pá é do idioma antigo, usada em cerimônias religiosas. Forma outras palavras compostas como Ye´pá-rë, ou Tambor da Terra, o primeiro nome do Trovão, Ye´pá-Bahuári-Mahsö, gente-terra que apareceu por si mesma.

Nihǐsãma e Nihǐsohpe – significam o Caminho Delicado de Passagem, que une o Outro Mundo ao Nosso Mundo, nessa Terra. Na linguagem corrente é conhecido como Yahpé (vagina).

Ye´pá-wi´i – nome de uma Casa do Mito da Criação, que ficava abaixo do nível da nossa Terra. É um lugar provisório, para passar o tempo, um lugar de transformação de vida de gentes que são mandadas de volta para a Terra, depois de terem existido com outras formas de vida. Lá não existe morte, nem velhice, nem nascimento, nem doenças.

Më´řo- puhtiro – cerimônia sagrada realizada na Casa do Vento antes da criação da Terra Ye´pá-Bëhkëo – nome de uma das esposas do Ye´pá-rë, ou Tambor da Terra, o primeiro nome do Trovão

Bahsesé – cerimônia sagrada. Buhtúyãrã-bahsesé: cerimônia para que o rapaz não seja preguiçoso e seja trabalhador.

Di´´tá-bahseró – cerimônia do sopro, uma das cerimônias sagradas do Mito da Criação. Di´tá-ěhõ-a´mésëokǔřo bahseró – cerimônia da terra, outra cerimônia sagrada.

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No princípio eram as águas Auí – ser altivo e luminoso, personagem mítico do mundo dos Encantados, que vive no fundo das águas, de onde nasceram todas as coisas.

Igaçaba – palavra do Nheengatu, língua de base tupi, plenamente incorporada ao português regional da Amazônia. Significa vaso de barro, pote para água, urna funerária.

Palmiformes – que têm a forma de palma, com os dedos dos pés unidos por uma membrana. Anhangá ou ananga – duende da floresta, protetor dos animais selvagens. Castiga os caçadores predadores que matam a caça sem critérios. Anda montado num veado branco com olhos de fogo e quem o vê tem febre e alucinação. Os missionários o identificaram, de forma equivocada, como o diabo.

Caruanas – na pajelança cabocla da Ilha do Marajó, são as energias liberadas pelas águas, que orientam os pajés para curar os doentes e são chamadas através de cantos. Caruás são as energias de pessoas que desaparecem nas águas.

Origem e fundamento da palavra, segundo os Guarani Nhamandu – Nos textos míticos dos Mbyá-Guarani, Nhamandu é Nosso Primeiro Pai, criador do mundo.

Curupira Sapopema – tipo de raiz das grandes árvores, com uma base chata, de feitio triangular. Em Nheengatu, sapu é raiz e pema é achatada. Sumaumeira é uma árvore das florestas inundáveis, com um tronco enorme, flores brancas e frutos contendo uma fibra parecida com o algodão.

Historia Bernabé Encabelando – significa que o pelo está crescendo novamente. Enxu – é uma grande colméia.

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Mulher Totonew – é um dos deuses dos índios Arara.

Acutipuru Acutipuru – animal mamífero, roedor, de cauda comprida e enfeitada, que dorme o dia todo, depois de passar a noite em plena atividade. Segundo o estudioso italiano que viveu no Rio Negro (AM), várias etnias acreditam que é sob a forma de acutipuru que a alma das pessoas sobe ao céu, logo que o corpo acaba de apodrecer.

Esta terra que pisamos Karai – Hoje o termo karai, para os guarani, se refere ao sábio, ao velho portador de sabedoria.

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Outros livros desta coleção

Chico e a cidade

O encontro

do com cordel o Rap

At wis ex el ut alis augait nostie do

At wis ex el ut alis augait nostie do

consent irit, sum nostincilis dunt

consent irit, sum nostincilis dunt

wissim dolendi onulput incillamcon ut

wissim dolendi onulput incillamcon ut

aliquat ut eum dolorer augiamcommy

aliquat ut eum dolorer augiamcommy

niam, sustie doloborem.

niam, sustie doloborem.

Secte facipit luptatum ipit augait et

Secte facipit luptatum ipit augait et

prat ver adigna acin hent lum zzriure

prat ver adigna acin hent lum zzriure

commy nisit ea facip ex eugait praestis

commy nisit ea facip ex eugait praestis

augait nulpute dignis exercing ex er

augait nulpute dignis exercing ex er

am, quisit nummy num vel iuscilit adip

am, quisit nummy num vel iuscilit adip

et ulput alis adionsed del ullaoreet

et ulput alis adionsed del ullaoreet

praestrud dit digna feu feumsandre

praestrud dit digna feu feumsandre

modo ea feugiamet verat.

modo ea feugiamet verat.

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Produção gráfica e editorial

SUPERNOVA PROJETOS EDITORIAIS Coordenação de produção Cristina Guimarães Projeto gráfico e capa Ribamar Fonseca Revisão do texto Alessandro Mendes Auxiliar de produção Adriana Mattos

A fonte de texto é a Versailles, corpo 11,5, projetada por Adrian Frutiger em 1984, serifada, baseada nos tipos franceses desenhados no século 19. Impresso para o Ministério da Educação em ... de 2007.

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POPO YJU

BORBOLETA AMARELA

Popo Yju Ara Owy Opawaerá hey Porã

Borboleta amarela No céu azul Infinita beleza

Ejapo Waieme Ñandekwerupe

Não fazer mal a ninguém Infinita beleza

Avaju Poty Guarani


Te mandei um passarinho prosas e versos de indios do brasil  

Esse livro, "Te mandei um passarinho" - prosas e versos de índios do Brasil é fruto do trabalho coordenado pelo antropólogo Bessa, que tive...

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