SÓCRATES TEM QUE MORRER 2018

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L A P I C I N U M O R SÃO LUIZ TEAT DE MORRER M E T S E T A R C Ó S DE OLIVE

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FOTOGRAFIA BRUNO SIMÃO

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© Bruno Simão

À conversa com Mickaël de Oliveira, a propósito do díptico Sócrates Tem de Morrer

Fédon é tão fundamental para mim como foi Fedro, que se tornou uma boa base de trabalho para a produção do texto e espetáculo A Constituição, estreado no Teatro Nacional D. Maria II em 2016. Se Fedro acompanhou uma reflexão pessoal que tentava fazer sobre a questão da justiça e do afeto, sobre as dinâmicas entre as esferas individual e coletiva, foi com Fédon que discuti a minha convicção ateia e materialista (que o livro quase abalou). Em A Morte de Sócrates, nas duas primeiras cenas, tento expor o meu ponto de vista sobre a fé (e as suas promessas), arquitetando um golpe (grotesco) no que diz respeito à dicotomia clássica de corpo/alma, que continua a sustentar praticamente todos os credos. A terceira cena propõe

Fédon, de Platão, de onde parte este projeto, é um livro fundamental para si. Porquê? Há sempre um autor de que se gosta mais quando se é adolescente e que voltamos a ler pontualmente ao longo dos anos. O meu foi Platão. O que mais me interessa na obra de Platão é a defesa do valor das ideias sobre qualquer manifestação material. A figura mestre da obra de Platão é Sócrates, uma personagem com referente histórico, descrita sob vários ângulos e lida através de alguns equívocos também (acrescentando aqui o meu equívoco). 2

criar um grupo terrorista, ainda que filosófico? Em Fédon, que retrata os últimos dias de Sócrates na prisão, o filósofo é visitado pelos seus amigos e discípulos. Fiz a mesma coisa, mas com certos desvios, claro. A ficção que proponho destaca o que o livro já destacava: fieis amigos a tentar salvar o seu mestre da morte, não numa Grécia que já não existe, mas num outro espaço e tempo. O casamento é uma maneira festiva de abordar o tema, tornando-se numa primeira tentativa para Ana, Maria, Paulo e Pedro em demover Sócrates da ideia de ficar à espera da morte (sentença a que foi condenado num julgamento tendencioso). O casamento surge também de o facto da cidade estar, nessa altura, em festa. Aliás, ninguém podia morrer (matar-se ou ser morto) em Atenas, durante o período festivo, portanto, a execução de Sócrates só poderá existir depois das festas da cidade. A ideia do grupo terrorista nasce quase de forma natural. Tentei criar um efeito de bola de neve em toda a argumentação de Sócrates, prolongando-a até ao absurdo. Pareceu-me que é aquilo que os teólogos do terrorismo fazem, quando defendem a primazia da ideia (ou ideologia) sobre algo que é incontornável – a vida (física). O desequilíbrio entre a (defesa de uma) ideia e a (renúncia da própria) vida justifica qualquer ato de violência sobre si próprio ou sobre os outros.

uma retórica contrária sobre o assunto e uma adesão clara às ideias de Sócrates sobre a morte. Para além disso, os primeiros padres da Igreja foram beber a Platão, sobretudo no que diz respeito à valorização da alma (seja lá o que isso for) em relação ao corpo (impuro). Ler Santo Agostinho é ouvir os ecos socráticos. E para falar sobre o poder do religioso, pensei que teria mais interesse ir a outras raízes que influenciaram as nossas religiões monoteístas e que governam a grande maioria das almas e o seu devir religioso. Percebeu como se vai da poesia, das metáforas e dos ideais à obsessão de matar? Pensamos inevitavelmente no terrorismo dos dias de hoje, motivado por crenças religiosas… Os fundamentalistas (sejam de cor política ou religiosa) propõem, em última instância, dar a sua vida para contribuir para a edificação de uma causa maior. Sócrates fez isso mesmo. É o ideal sobre o real, o imaterial sobre a matéria. A Morte de Sócrates é, entre outras coisas, sobre a criação de um determinado grupo terrorista, mas com uma variante: não procuram, com os assassinatos, espalhar o terror, que é um dos aspetos do terrorismo moderno. Aqui o terror é filosófico. Quem são estas personagens que pôs à volta de uma mesa num casamento e que querem 3


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E este Sócrates da peça, como é? Não sei bem, mas até está próximo da forma como Platão o descreve. Não gosta de livros, não aprecia a sua mulher e família, é ora profundamente arrogante e irreverente, ora cativante e determinado. Sócrates foi condenado pela sua insolência em relação ao poder político. Por exemplo, a frase mítica “Só sei que nada sei”, não é proferida com a humildade que emprestamos à personagem, estando mais perto da ironia, aspeto esse que compõe parte de uma estratégia discursiva e argumentativa própria de Sócrates. A ironia é o motor da sua retórica e é um convite para chamar o adversário e deleitar-se ao vê-lo a ser derrubado. Quando passo

pela estação de metro da cidade universitária rio-me sempre um pouco. As ideologias já morreram, como se costuma dizer, ou haverá sempre espaço para elas na sociedade de hoje? Acho que a morte das ideologias ou a ausência do sagrado são hoje um verdadeiro problema ou, pelo menos, abrem um novo espaço individual e coletivo que cada comunidade está a tentar tapar como pode. Mas acredito que as carências económicas e os problemas identitários vieram acentuar ainda mais esse problema. As comunidades precisam de ideias que as possam federar. Há um regresso ao religioso na Europa e no mundo que continua a oferecer 4

e apresentas três ou quatro vezes o teu espectáculo que também gozou de um curto orçamento. Fica toda a gente frustrada (artistas, programadores e públicos). O díptico foi para mim uma maneira de escapar (um pouco mais) a essas contingências. Foi um trabalho de dois anos, com cerca de três meses de trabalho de ensaios. Pude pensar e repensar o trabalho a cada etapa, com um grupo incrível de pessoas que contribuiu muito para o amadurecimento da obra.

modelos interpretativos simples para a nossa existência. Narrativas descritas em livros sagrados que muitos gostam de interpretar à letra. Esse é o verdadeiro perigo. Um outro perigo é abandonar esse espaço vazio (deixado pelo fim das grandes narrativas) à religião e a outras instituições de poder que têm no seu epicentro um dogma. Enfim, a situação política atual na Europa e no mundo reflete esse vazio. Os dois países mais populosos do continente americano têm presidentes que governam de mãos dadas com as suas Igrejas. Agora, quando ouço um político norte-americano (de esquerda ou de direita) em atos públicos de importância simbólica usar a expressão “God bless America” [“Deus abençoe a América”] fico ainda mais perplexo. O mundo é muito frágil.

Então, quando escreveste a primeira peça ainda não sabias que a segunda parte do díptico iria por este caminho? O que te inspirou para este segundo episódio, que vai ainda mais além do livro de Platão? Sabia que ia fazer um segundo espetáculo, uma continuação. Mas não sabia muito mais. Para esta segunda parte, queria fazer um espetáculo totalmente diferente, a todos os níveis. Por exemplo, a ficção da primeira parte passa-se numa cela, a segunda num museu. Sempre gostei de projetar a nossa realidade no futuro, mais ou menos longínquo. N’A Vida de John Smith atirei-nos para daqui a milhares de anos. Utilizei alguns aspetos da linguagem cinematográfica de ficção científica e mergulhei na Internet para ouvir discursos de terroristas (fossem eles de líderes ou liderados,

E que espaço tem o teatro nesta reflexão? O teatro é um espaço público de partilha e discussão de ideias e de afeto. Até hoje, não encontrei outras formas mais aliciantes para o efeito. Estas duas peças nasceram ao mesmo tempo na tua cabeça ou a segunda é consequência da primeira? Sabia que queria fazer um trabalho de pesquisa mais longo do que era habitual. Revejo-me cada vez menos nos processos de trabalhos que existem: ensaias um mês 5


Nesta segunda peça a utopia torna-se realidade. Que mundo é este que criaste a partir de tudo isso? É um mundo novo no qual o ideário filosófico defendido, em A Morte de Sócrates, venceu. Um mundo em que a matéria (a linguagem, as texturas, a luz) não é obstáculo ao conhecimento, no qual já não existem segredos, particulares ou universais.

Entrevista realizada em novembro 2018, por Gabriela Lourenço / Teatro São Luiz

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É um mundo. A própria palavra “mundo” revela o seu falhanço. “Mundo” junta indivíduos compatíveis e incompatíveis, há sempre conflitos de interesse. Quem vai governar esse mundo? Essa é que é a grande pergunta. Outra: o que vai ele dizer aos governados? Em A Vida de John Smith, falo da dificuldade em criarmos sínteses (no debate social e político) e coloco a culpa da desunião e dos conflitos, na linguagem. Aliás, a linguagem (alfabética, numérica, etc...) é um dos temas do espectáculo.

apelidados também de “combatentes da liberdade” e outras expressões mais felizes). Alimentei-me também de outros livros, há tantos que abordam os temas que constituem A Vida de John Smith.

profissão. Às vezes uso a expressão bem antiga de teatro político para falar do meu trabalho, mas aplico-a no seu sentido mais lato. Não procuro falar dos ideários de direita ou de esquerda, muito menos falar sobre a condição humana. Não sei o que isso é, não a conheço. O que quero é lançar temas e pensá-los. Partilho as minhas próprias dúvidas, e pouco mais.

acaba por fazê-lo quase sem querer. É a figura do homem branco, de classe média, ocidental, que sente que se encontra no tempo errado à hora errada. Procura voltar para o passado e, como não pode, acaba por dominar o futuro. É um sobrevivente do mundo moderno dividido entre ideias de altruísmo e de violência. Não quererá dar lições com nenhuma destas peças… o que o move no teatro que faz? Pois, é sempre uma boa questão. Nem lições de moral, nem moral que quisesse mobilizar para os outros. Bem pelo contrário. Se tivesse alguma convicção política ou moral, uma convicção muito segura, que a quisesse transmitir aos outros, teria de mudar de

E nesse mundo, Sócrates morreu e John Smith vive. Quem é este novo personagem? É um anti-herói, aquele que não quer governar o mundo, mas que

Não é um mundo melhor… Nem melhor, nem pior. 6

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1.º EPISÓDIO

A MORTE DE SÓCRATES Quinta a sábado, 21h; domingo, 17h30 Duração: 1h30 min €12 a €15 com descontos Texto e Encenação: Mickaël de Oliveira; Interpretação: Albano Jerónimo, Ana Bustorff, Maria Leite, Paulo Pinto, Pedro Lacerda; Assistência de encenação: Solange Freitas; Desenho de luz: Rui Monteiro; Cenografia, Figurinos e Vídeo: António MV; Apoio à criação de vídeo: Maria Leite; Música e interpretação: Diogo Ribeiro; Caracterização: Jorge Bragada; Adereços: João Ferro Martins; Direção técnica: Anaísa Guerreiro; Operação de som: João Neves; Fotografia: Bruno Simão; Direção de produção:Armando Valente e Maria Albergaria Coprodução: Teatro Académico de Gil Vicente e Colectivo 84

6 a 9 dezembro

2.º EPISÓDIO

teatro

SÓCRATES TEM DE MORRER

A VIDA DE JOHN SMITH Quinta a sábado, 23h; domingo, 19h30 Duração: 1h35 min €12 a €15 com descontos

MICKAËL DE OLIVEIRA

Texto e encenação: Mickaël de Oliveira; Interpretação: Albano Jerónimo, Ana Bustorff, Maria Leite, Miguel Moreira, Paulo Pinto, Pedro Gil, Pedro Lacerda, Raquel Castro, Solange Freitas; Participação especial: Vanda Rodrigues, Coro Lopes-Graça da Academia de Amadores de Música dirigido pelo maestro José Robert; Assistência de encenação: Solange Freitas; Cenografia: António MV; Desenho de luz: Rui Monteiro; Música e interpretação: Diogo Ribeiro; Figurinos: António MV / Sara Coimbra Loureiro; Vídeo: António MV / João Pedro Fonseca; Caracterização: Jorge Bragada; Adereços / satélite: João Ferro Martins; Direção técnica: Anaísa Guerreiro; Operação de som: João Neves; Fotografia: Bruno Simão; Tradução (Latim e Grego): Carlos Jesus; Direção de produção: Armando Valente e Maria Albergaria

Sala Luis Miguel Cintra; m/16 €20 a €25 bilhete duplo com descontos

Coprodução: Colectivo 84, Centro Cultural Vila Flor, Teatro Viriato e São Luiz Teatro Municipal

SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL

Direção Artística Aida Tavares Direção Executiva Joaquim René Assistente da Direção Artística Tiza Gonçalves Programação Mais Novos Susana Duarte Adjunta Direção Executiva Margarida Pacheco Secretária de Direção Soraia Amarelinho Direção de Produção Mafalda Santos (Diretora), Andreia Luís, Margarida Sousa Dias, Tiago Antunes Direção Técnica Hernâni Saúde (Diretor), João Nunes (Adjunto) Iluminação Carlos Tiago, Nuno Samora, Ricardo Campos, Sara Garrinhas, Sérgio Joaquim Maquinistas António Palma, Cláudio Ramos, Paulo Lopes, Paulo Mira, Vasco Ferreira Som João Caldeira, Gonçalo Sousa, Nuno Saias, Ricardo Fernandes, Rui Lopes Vídeo João Van Zelst Manutenção e Segurança Ricardo Joaquim Direção de Cena Marta Pedroso (Coordenadora), José Calixto, Maria Tavora, Ana Cristina Lucas (Assistente), Rita Talina (Camareira) Direção de Comunicação Elsa Barão (Diretora), Ana Ferreira, Gabriela Lourenço, Nuno Santos Bilheteira Cristina Santos, Diana Bento, Renato Botão

TEATROSAOLUIZ.PT

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