Viver ou se entregar

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL - HABILITAÇÃO EM JORNALISMO

VIVER OU SE ENTREGAR Histórias de Superação

ANA LÍVIA TAVARES DA SILVA CECÍLIA PAES RIBEIRO

Campo Grande NOVEMBRO/2014


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VIVER OU SE ENTREGAR: Histórias de Superação

ANA LÍVIA TAVARES DA SILVA CECÍLIA PAES RIBEIRO

Relatório apresentado como requisito parcial para aprovação na disciplina Projetos Experimentais do Curso de Comunicação Social / Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Orientador: Prof. Dr. Marcelo Vicente Cancio Soares

UFMS Campo Grande NOVEMBRO / 2014


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À memória de Luzinete Tavares, minha avó querida. Meu exemplo de superação. Meu amor eterno. Vó, quantas saudades sinto! Sei que onde estiver a felicidade toma conta de seu coração pela minha conquista, sua primeira neta a se formar. Você que nasceu em uma cidadezinha pacata do interior de São Paulo, perdeu meu avô em um acidente de carro e, infelizmente, ficou sozinha com quatro filhas pequenas. Não teve vergonha de trabalhar, limpar o chão de um supermercado, costurar para fora e, mesmo sem estudo, criar suas filhas com dignidade. Com sua enorme sabedoria ensinou a importância do estudo para suas meninas: minha mãe Silvia e minhas tias Cristina, Maristela e Célia, que se tornaram professoras e se dedicam com amor à educação. Sua história me inspira. Meu eterno amor e gratidão. (Ana Lívia Tavares)


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AGRADECIMENTOS

Não conseguiríamos passar por mais esta importante etapa se não tivéssemos o apoio de pessoas especiais que são o alicerce na construção da estrada de nossas vidas. Agradecemos aos nossos familiares que estão sempre ao nosso lado prontos para proferirem palavras de incentivo, preenchendo nossas vidas com momentos alegres e com a certeza de que nunca estaremos sozinhas. Especialmente aos nossos pais que nos ensinaram a importância do estudo e da dedicação e sempre nos apoiaram incondicionalmente, oferecendo a base necessária para a construção desse caminho e de todos os outros que possam surgir a partir de agora. Devemos a eles, além do presente da vida, todo o amor, carinho e respeito como forma de gratidão eterna. Aos nossos companheiros, Jhonattan Gonçalves e Marcos Rodrigues, que foram luz nos momentos de dificuldade e souberam compreender cada fase deste processo, nos apoiando e incentivando, fazendo-nos sorrir mesmo quando achávamos que não daríamos conta. Ao nosso orientador, Professor Dr. Marcelo Cancio, que mesmo à distância em um primeiro momento se dispôs a nos guiar e contribuiu para que alcançássemos o resultado almejado. A todos os nossos amigos, parceiros, companheiros de todas as horas e momentos. Os irmãos que escolhemos para trilhar esse caminho conosco. Nossas vidas seriam tão vazias sem vocês. A colaboração dos professores Marcos Paulo da Silva e Silvio da Costa Pereira que sempre estiveram dispostos a auxiliar e que tanto contribuíram para a nossa formação acadêmica e para a elaboração deste trabalho. A Angela Fernandes, Lázara Lessonier, Lilian Silvestrini, Sabrina Massuda e Sheila de Fátima que gentilmente nos receberam em seus lares e doaram um pouco de seu tempo para participar desse projeto. Sem elas este trabalho não seria possível. Agradecemos, de coração, a confiança e a ajuda. Por fim, porém primordial, agradecemos ao Deus que nos guia, orienta e ilumina.


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SUMÁRIO

Resumo ........................................................................................................... 6 1 Alterações no plano de trabalho ...................................................................... 7 2 Atividades desenvolvidas ................................................................................ 10 2.1 Período preparatório ................................................................................ 10 2.2 Execução.................................................................................................. 10 2.3 Revisão Bibliográfica ................................................................................ 12 2.3.1 Livros

........................................................................................... 12

2.3.2 Periódico ......................................................................................... 13 2.3.3 Redes, Sites e Outros ..................................................................... 14 2.3.4 Bibliografia Consultada.................................................................... 14 3 Suportes teóricos adotados ............................................................................. 16 3.1 O Documentário ....................................................................................... 16 3.2 A Memória Coletiva ou Social e a Informação.......................................... 18 3.3 Construção Social, Narrativa e de Memória ............................................. 20 3.4 Histórias de Vida ...................................................................................... 21 3.5 A Psicologia e a Resiliência ..................................................................... 23 4 Objetivos alcançados ...................................................................................... 27 5 Dificuldades encontradas ................................................................................ 28 6 Despesas (orçamento) .................................................................................... 30 7 Conclusões...................................................................................................... 31 Apêndices........................................................................................................ 33 Anexos ............................................................................................................ 88


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RESUMO O Projeto Experimental intitulado “Viver ou se Entregar – Histórias de Superação” tem como produto um videodocumentário que retrata a história de quatro mulheres que buscam superar diariamente dores e traumas causados por situações passadas em suas vidas. O trabalho surge da necessidade de demonstrar como pessoas que passam por situações traumáticas conseguem ultrapassar os obstáculos que surgem como consequência e transformá-los em algo que possa ajudar outras pessoas que passem pela mesma situação. O projeto busca incentivar e dar exemplos de superação dentro da realidade dos casos de Campo Grande (MS).

PALAVRAS-CHAVE Comunicação; Jornalismo; Vídeodocumentário; Trauma; Superação.


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1. ALTERAÇÕES DO PLANO DE TRABALHO

Ao longo do processo de trabalho e com o amadurecimento da pesquisa tornaram-se necessárias algumas adaptações. No início do projeto, uma pesquisa bibliográfica e documental foi realizada através de registros disponíveis como resultado de pesquisas anteriores publicadas em artigos, livros, matérias de telejornalismo e outros documentários já produzidos, com a finalidade de traçar um caminho para o desenvolvimento de um projeto de relevância social. As pesquisas bibliográficas foram sempre seletivas, de acordo com os objetivos e com os trechos e obras completas que mais apresentam semelhanças com o tema proposto. Primeiramente concentrou-se o referencial teórico em quatro áreas: teorias do documentário, memória coletiva, construção social e narrativa e histórias de vida. Mas, devido à complexidade do tema, cada vez mais perceptível no decorrer

do

processo

de

elaboração

do

produto,

fez-se

necessário

um

aprofundamento teórico no campo do documentário, uma vez que, além de criar um acervo documental, escrito e audiovisual, o trabalho visa entender todo o procedimento e metodologia necessários para criar, desenvolver e finalizar este tipo de produto no formato “não-ficção” que conta histórias verídicas construídas e vividas por pessoas reais ao longo de suas vidas. Também se mostrou fundamental a busca por um aprofundamento teórico no campo da psicologia. Por meio dessa ciência buscou-se compreender o tema proposto em um nível diferente do planejado inicialmente tendo em vista a subjetividade e a dramaticidade notada ao longo das histórias relatadas pelas fontes, que expõe em seus depoimentos suas memórias decorrentes de um trauma psicológico vivido por elas. Assim, este aprofundamento teórico possibilita a clareza de que as vivências estão intimamente relacionadas não só com o evento traumático em si, mas com a subjetividade de cada indivíduo entrevistado. Sendo assim, o foco do trabalho não se restringe apenas ao relato de dramas pessoas, mas sobre a forma como cada ser humano lida com a dor, o que torna as fontes do videodocumentário diferentes e singulares tanto entre si quanto se comparadas a outros indivíduos que tenham passado pela mesma situação.


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Além disso, no projeto inicial não havia limites para a quantidade de fontes e histórias relatadas no produto final, porém, após a realização das entrevistas prévias com as possíveis fontes e considerando as primeiras experiências, as entrevistas foram limitadas a quatro fontes que relatam três histórias distintas: a perda de um filho, a limitação física e a dependência química e a criminalidade. Houve uma quinta entrevista com uma profissional da área da psicologia, que foi procurada com o intuito de deixar o tema mais claro e com um posicionamento teórico. Esse depoimento não aparece no videodocumentário mas serviu como uma forma de ampliar os conhecimentos para a elaboração do referencial teórico desse relatório. O critério para a redução foi o processo de edição jornalística, já que o produto final tem apenas 24 minutos. Inúmeros recortes foram feitos devido à complexidade das narrativas e a necessidade de seguir uma sequência cronológica das histórias aliado ao tempo de duração do documentário. Sendo assim, dos relatos, no momento da edição, foram escolhidos trechos das narrativas dos personagens a partir de uma seleção de informações entre tantos dados que foram parte da totalidade dos depoimentos. Os trechos selecionados são aqueles em que as ideias estão melhor organizadas e que puderam tornar claras as lembranças sobre as experiências, evitando-se informações repetidas ou que fogem do tema proposto. Diante das adaptações apresentadas, as datas e meses previstos para a execução das etapas também sofreram alterações. O novo cronograma atualizado ficou da seguinte forma:

Mês/Etapas Mês 1 Escolha do X tema Levantamento X bibliográfico Elaboração do anteprojeto Apresentação do projeto Coleta de dados Análise dos dados

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Organização do roteiro Edição Revisão final Entrega e apresentação do trabalho

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X X X

X X


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2. ATIVIDADES DESENVOLVIDAS

2.1 Período Preparatório

De início foram feitas reuniões para a definição do tema a ser tratado. Entre algumas hipóteses que seguiam uma mesma linha de conteúdo, ficou decidido que histórias de pessoas que superaram um grande trauma pessoal e souberam transpassar os obstáculos decorrentes deste evento, transformando-os em algo que possa servir de inspiração para terceiros, era o tema de maior relevância e interesse social. Com base nessa decisão, referenciais bibliográficos e documentais foram procurados para embasar o trabalho a ser realizado e orientar o processo do início ao final, desde tornar mais compreensível a narrativa dos entrevistados, de pontos relacionados à memória e a psicologia, quanto possibilitar uma maior noção das técnicas para o desenvolvimento do produto audiovisual. Também foram adquiridos materiais para as filmagens. Após

tomar

conhecimento

dos

assuntos

importantes

para

o

desenvolvimento do projeto, deu-se início a fase da busca por fontes. Foram encontradas diversas pessoas com as mais diferentes histórias, que, de fato, podem servir de exemplo. Foram escolhidas, então, quatro (4) narrativas, buscando três (3) casos que não fossem semelhantes entre si para gerar um maior enriquecimento e uma maior diversidade. A quarta pessoa representa uma mesma narrativa, buscando um ponto de vista e memórias diferentes sobre um mesmo caso. Angela Fernandes e Lilian Silvestrini contam sobre a perda de seus filhos, que foram assassinados em 2012 ao saírem juntos de um bar. Lázara Lessonier sofreu um acidente doméstico em 1979 e precisou amputar as duas mãos. Sheila de Fátima superou a dependência química e saiu do mundo da criminalidade.

2.2 Execução


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Com todas as decisões tomadas no período preparatório, o próximo passo foi contatar as possíveis fontes. Nesse primeiro contato foi explicado, de maneira geral, o teor e a finalidade do videodocumentário “Viver ou se Entregar – Histórias de Superação” e marcadas as primeiras entrevistas, que serviram para uma conversa inicial (Apêndice A). Para que o discurso dos entrevistados não fosse modificado, a interferência ao longo desta narrativa foi mínima, com poucas perguntas, para que as fontes pudessem abordar os assuntos relacionados às suas histórias de maneira livre, sem necessidade de manter uma ordem cronológica, a fim de conseguir uma maior compreensão pessoal que pudesse orientar, posteriormente, na construção de um roteiro. Outro ponto relevante nessa etapa do trabalho foi a tentativa de criar certa proximidade com as fontes para que elas se sentissem a vontade para participar do vídeo, pois teriam que relatar memórias bastante dolorosas e, de certa forma, expor sua intimidade. Na sequência foram redigidas, como em um modelo de pauta jornalística, fichas sobre os entrevistados que serviram como roteiro inicial no momento das gravações. Nelas constaram um resumo da história de cada pessoa, perguntas a serem respondidas ao longo da captação dos depoimentos, direta ou indiretamente, e, também, possíveis imagens de apoio (Apêndices B, C e D). Também foram assinados, pelas fontes, Termos de Uso de Imagem (Anexos B, C, D e E). Foram captados os depoimentos e as imagens necessárias. Passado esse período, foi realizada a decupagem (Apêndices E, F, G, e H) do material, a fim de facilitar a construção do roteiro do documentário e o processo de edição. Em seguida houve a seleção dos trechos considerados mais relevantes para a compreensão do vídeo e para atingir o resultado pretendido. Nesta etapa, foram realizados recortes das decupagens, montados, em seguida, como um quebra-cabeça que, para facilitar a visualização, serviu de base para a redação do roteiro (Apêndice I). Depois dessas etapas iniciou-se a fase de edição. A primeira versão, editada com base no roteiro criado, mostrou-se muito longa. Com 39 minutos de vídeo foi necessária a realização de novos cortes. O produto final completo terminou com 24 minutos e 15 segundos, com o essencial para a compreensão das narrativas.


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2.3 Revisão Bibliográfica

2.3.1 Livros

AUMONT, Jacques. A Estética do Filme. Campinas: Papirus, 1995

BAUMAN, Zygmund. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

BERGSON, Henri. Matéria e Memória. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. São Paulo: Edusp, 1987.

BOSI, Ecléa. O Tempo Vivo da Memória: Ensaios de Psicologia Social. São Paulo: Ateliê, 2003. DA-RIN, Silvio. O Espelho partido: tradição e transformação no documentário. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 1994.

FLACH, F. Resiliência: A arte de ser flexível. In: ANGST, Rosana. Psicologia e Resiliência: Uma revisão de literatura, 1991.

GARCIA MARQUEZ, Gabriel. O Relato de um Náufrago. Rio de Janeiro: Record, 2013.

GARCIA MARQUES, Gabriel. Viver para contar. Rio de Janeiro: Record, 2003.

GONDAR, Jô; DODEBEI, Vera. O que é Memória Social (org.). Rio de Janeiro: Contracapa, 2005.

GROTBERG, E. Introdução: novas tendências em resiliência. In: MELILLO, A.; OJEDA, E. (Org.). Resiliência: Descobrindo as próprias fortalezas. Porto Alegre: Artmed, 2005, p.15-22.

KOTSCHO, Ricardo. A prática da reportagem. São Paulo, SP: Editora Ática, 2004


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LIBÓRIO, Renata; CASTRO, Bernardo; COELHO, Ângela. Desafios metodológicos para a pesquisa em resiliência: conceitos e reflexões críticas. In: AGLIO, Débora, et al. Resiliência e Psicologia Positiva: Interfaces do Risco à Proteção. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006.

LOPES, Fernanda Lima. Identidade Jornalística e Memória. In: RIBEIRO, Ana; FERREIRA, Lúcia. Mídia e Memória. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007, p.137-176.

MOSCOVICI, Serge. "Sobre a subjetividade social". In: SÁ, Celso Pereira de (org.). Memória, imaginário e representações sociais. Rio de Janeiro: Editora Museu da república, 2005

MOTA, Daniela; BENEVIDES-PEREIRA, Ana; GOMES, Mônica; ARAÚJO, Silvana. Estresse e resiliência em doença de chagas. Aletheia, 2006, p. 57-68.

POLETTO, Michele; KOLLER, Sílvia Helena. Resiliência: uma perspectiva conceitual e histórica. In: AGLIO, Débora; KOLLER, Sílvia Helena; YUNES, Maria Ângela. Resiliência e Psicologia Positiva: Interfaces do Risco à Proteção. São Paulo: Casa do psicólogo, 2006. p.19-44.

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal, o que é mesmo documentário? São Paulo: Editora Senac, 2008.

SILVA, Marta; et al. Resiliência e promoção da saúde. Texto e ContextoEnfermagem, 14, 2005

YUNES, Maria Ângela. Resiliência e Psicologia Positiva: Interfaces do Risco à Proteção. São Paulo: Casa do psicólogo, 2006.

YUNES, M; SZYMANSKI, H. Resiliência: noção, conceitos afins e considerações críticas. In: TAVARES, J. (Org.). Resiliência e Educação, São Paulo: Cortez, 2011, p.13-42).

2.3.2 Periódicos

ANGST, Rosana. Psicologia e Resiliência: Uma revisão de literatura. Curitiba, v.27, n.58, p.253-260, jul./set. 2009.


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COELHO, Sandra. “Perspectivas da análise narrativa no cinema: por uma abordagem da narrativa no filme documentário”. Revista Digital de Cinema Documentário, v.11, p.25-55, 2011.

RATTO, Cleber Gibbon. Compulsão à comunicação: modos de fazer falar de si. Educação e Realidade, Porto Alegre, v.31, n.2, p. 27-40, jul./dez., 2006.

2.3.3 Redes, sites, e outros

MACHADO, Ana Paula. Resiliência: Conceituação e discussão, 2011. Disponível em: <http://www.ufjf.br/virtu/files/2011/09/RESILI%C3%8ANCIA-CONCEITUA%C3% 87%C3%83O-E-DISCUSS%C3%83O.pdf>. Acesso em: 12 set. 2014.

2.3.4 Bibliografia consultada

Atletas da Superação. Santos: 2005. Disponível <http://www.youtube.com/watch?v=xhRn5ApDuFs>. Acesso em: 12 set. 2014.

em:

CACC - Superação de Criancas e Adolescentes. Natal: 2012. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=iXOEI2YPWpE>. Acesso em: 12 set. 2014.

Documentário sobre a vida de superação de Rubens Teixeira. 2010. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=Rpe0n1KDWmo>. Acesso em: 12 set. 2014.

Errei, paguei, eu posso mudar!. 2014. Disponível <http://www.youtube.com/watch?v=R6-ohCuyr84>. Acesso em: 12 set. 2014.

em:

Globo Repórter. São Paulo: TV Globo, 16 mai. 2014. Disponível em: <http://globotv.globo.com/rede-globo/globo-reporter/>. Acesso em: 12 set. 2014.

Histórias de superação. Disponível <http://www.youtube.com/watch?v=T4p7qntKTZw>. Acesso em: 12 set. 2014.

em:


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"Mães da Fronteira" vira associação após um ano de luta. Campo Grande: TV Campo Grande, 2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=e4G094T5RO0>. Acesso em: 12 set. 2014.

Movimento Super Ação. São Paulo: 2006. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=RVJWbB9EUnk>. Acesso em: 12 set. 2014. O Segredo do Gigante. São José: 2014. Disponível <http://www.youtube.com/watch?v=caq-trV_Zrs>. Acesso em: 12 set.

em: 2014.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. “A história como trauma” en: NETROVSKI, Arthur e SELIGMANN-SILVA, Márcio. (orgs.). Catástrofe e Representação. São Paulo: Escuta, 2000.

Você noYoutube. Disponível em: <https://www.youtube.com/user/VoceHistorias>. Acesso em: 12 set. 2014.


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3. SUPORTES TEÓRICOS ADOTADOS

3.1 O Documentário

O documentário é definido, de maneira geral, pela intenção de seu autor de produzir uma narrativa que se manifeste no contexto social por meio da percepção de sua obra pelo espectador. Vale destacar como parte da narrativa documentária de “Viver ou se Entregar - Histórias de Superação” a presença de depoimentos, a utilização de imagens de arquivo e a tentativa de acompanhar o diaa-dia de cada entrevistado. Documentário também pode ser definido como o formato de produção audiovisual que mostra fatos reais ou não imaginários, abordando um tema ou um assunto em profundidade a partir da seleção de aspectos e de representações visuais.

Podemos afirmar que o documentário é uma narrativa basicamente composta por imagens-câmera, acompanhadas muitas vezes de imagens de animação, carregadas de ruídos, música e fala (mas, no início de sua história, mudas), para as quais olhamos (nós, espectadores) em busca de asserções sobre o mundo que nos é exterior, seja esse mundo coisa ou pessoa. Em poucas palavras, documentário é uma narrativa com imagens-câmera que estabelece asserções sobre o mundo, na medida em que haja um espectador que receba essa narrativa como asserção sobre o mundo. A natureza das imagens-câmera e, principalmente, a dimensão da tomada através da qual as imagens são constituídas determinam a singularidade da narrativa documentária em meio a outros enunciados assertivos, escritos ou falados. (RAMOS, 2008, p.22)

Ainda conforme o autor, sabe-se de antemão se o que se vê é ficção ou documentário quando entramos no cinema, na locadora ou na televisão a cabo. Para ele, a inteção documentária do autor ou do cineasta, ou até mesmo da produção do filme, é ordenada por meio de mecanismos sociais e direcionam a recepção do conteúdo.


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Ao se estudar bibliografias referentes a documentários, é nítida, no entanto, a problematização da relação entre cinema e narração, da qual surgiu o formato de não-ficção aqui trabalhado. Segundo Coelho (2011), os autor de “A Estética do Filme” torna isso claro quando, a fim de descobrir as razões entre a união, partem da consideração de que o cinema enquanto técnica de registro surgiu no final do século XIX, mas só se consolidou como forma narrativa nas primeiras décadas do século XX.

A princípio, a união de ambos não era evidente: nos primeiros tempos de sua existência, o cinema não se destinava a se tornar maciçamente narrativo. Poderia ser apenas um instrumento de investigação científica, um instrumento de reportagem ou de documentário, um prolongamento da pintura e até um simples divertimento efêmero de feira. Fora concebido como um meio de registro, que não tinha a vocação de contar histórias por procedimentos específicos. Se não era necessariamente uma vocação e se, portanto, o encontro do cinema e da narração conserva algo de fortuito, da ordem de um fato da civilização, havia algumas razões para esse encontro. Lembraremos especialmente de três, das quais as duas primeiras se devem à própria matéria da expressão cinematográfica: a imagem figurativa em movimento (AUMONT apud COELHO, 2011, p.90)

Os autores ainda negam que os dois aspectos possam coexistir harmoniosamente e estipulam que um documentário não pode fugir totalmente da ficção, pois acreditam que

qualquer objeto já é signo de outra coisa, já está preso a um imaginário social e oferece-se, então, como o suporte de uma pequena ficção (...). Ademais, a preocupação estética não está ausente do filme científico ou do documentário, e ela tende sempre a transformar o objeto bruto em estado de contemplação, em ‘visão’ que o aproxima mais do imaginário. (...) Finalmente, o filme científico e o filme documentário recorrem, muitas vezes, a procedimentos narrativos para “manter o interesse” (AUMONT apud COELHO, 2011, p.102)

Por consequência conclui-se que, baseado em Coelho (2011), “não se pode levar a afirmação do caráter ficcional do documentário tão longe como propôs


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Aumont”, mas é necessário que se considere a presença de elementos ficcionais, além de uma sintaxe narrativa cinematográfica, no produto a ser desenvolvido. O conteúdo precisa ser estudado e bem elaborado anteriormente.

o objeto de filmagem era submetido a uma interpretação, ou seja, uma desmontagem analítica daquilo que foi registrado, seguido de uma montagem cuja lógica central necessariamente escapava à observação instantânea e só poderia decorrer de um conjunto de detalhes habilmente sintetizados e articulados (DA-RIN apud Coelho, 2011, p.46)

3.2 A Memória Coletiva ou Social e a Informação

“A memória aparece como forma subjetiva, ao mesmo tempo profunda e ativa, latente e penetrante, oculta e invasora” (BOSI, 2003, p.36). Da vontade de tornar-se, de certo modo, eterno, deixando marcas ou heranças, o homem passou a documentar, apontar e registrar (através da escrita, da fotografia, das filmagens e gravações) o que lhe interessava manter “vivo”.

A

verdade é que uma pessoa sem memória de si, de seu passado e de sua cultura é um ser nulo. Em maiores proporções, uma cultura ou civilização que não cultua e cultiva sua memória está fadada a ser dominada, aculturada. Na realidade, não há percepção que não esteja repleta de memórias, entendendo a percepção como o resultado de uma interação do ambiente com o sistema nervoso. Essa é a perspectiva do filósofo que aprofundou os estudos psicossociais na década de 50, Henri Bergson. Para ele, a memória podia ser entendida por dois movimentos diferentes, o que ele denominava de “memória-hábito”: o corpo guarda esquemas de comportamento dos quais se vale, muitas vezes automaticamente, nas suas ações. De outro lado, as lembranças independentes de quaisquer hábitos, lembranças singulares, que chamava de “ressurreições do passado”, de caráter não mecânico, mas evocativo, do seu aparecimento via memória.


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Em termos de memória, destaca-se, em geral, a memória-hábito, que, conforme Bosi, (2003, p.52) é vista como: “repetição do mesmo esforço, adestramento cultural”. Aquelas lembranças socializadas, que já possuem valores consolidados, repetidos, e que, por isso, já transitam naturalmente do presente para o passado ou para o futuro, diminuindo a capacidade narrativa criativa. De acordo com Gondar e Dodebei (2005, p. 15) a memória social, “como objeto de pesquisa passível de ser conceituado, não pertence a nenhuma disciplina tradicionalmente existente”, o que tornou ainda mais difícil a procura por um conteúdo na área de jornalismo sobre o assunto que pudesse nortear o trabalho a ser feito, tornando necessária a pesquisa em outros campos. A memória está diretamente ligada ao fato de narrar. Assim, a consciência jamais está fechada sobre si mesma. Ela é arrastada em diversas direções, como se a lembrança fosse apenas um ponto de referência diante das variações dos panoramas sociais e das experiências coletivas. Mas a verdade encontrada durante as pesquisas mostrou que uma recordação ou um documento que chega até alguém já chega filtrado por uma vontade, por um interesse em sua perpetuação. As lembranças individuais ou coletivas, pessoais ou históricas, serão sempre seletivas, discriminatórias. “Há sempre uma concepção de memória social aplicada na escolha do que conservar e do que interrogar” (GONDAR; DODEBEI, 2005, p.17), o que tornou necessário um estudo de cada caso a ser abordado para tornar o videodocumentário o mais fiel a realidade possível. Bosi (2003, p.15) acrescenta ainda que: A memória oral é um instrumento precioso se desejamos constituir a crônica do quotidiano. Mas ela sempre corre o risco de cair numa ‘deologização’ da história do quotidiano, como se esta fosse o avesso oculto da história política hegemônica. Os velhos, as mulheres, os negros, os trabalhadores manuais, camadas da população excluídas da história ensinada na escola, tomam a palavra. A história, que se apóia unicamente em documentos oficiais, não pode dar conta das paixões individuais que se escondem atrás dos episódios. (BOSI, 2003, p.15)

O

videodocumentário

pretende

mostrar

qual

a

percepção

dos

personagens, mesmo que impregnada de lembranças dolorosas a respeito da vida e


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dos traumas superados, além de relatar vivências pessoais, uma vez que a memória é um recurso infinito do qual só somos capazes de registrar pequenos fragmentos.

A memória permite a relação do corpo presente com o passado e, ao mesmo tempo, interfere no processo "atual" das representações. Pela memória, o passado não só vem à tona das águas presentes, misturando-se com as percepções imediatas, como também empurra, "desloca" estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência. A memória aparece como força subjetiva ao mesmo tempo, profunda e ativa, latente e penetrante, oculta e invasora (BOSI, 2003, p.9)

Diferente da memória-hábito, que se adquire pela repetição de gestos ou palavras, como por exemplo os movimentos que são necessários para comer, o que os personagens do documentário revelam é denominado por Bosi (2003) como lembrança pura, que, quando se atualiza na imagem-lembrança, traz à tona um momento único, singular e irreversível da vida. A imagem-lembrança se refere a uma situação definida e individualizada. “Na maior parte das vezes lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar com imagens e ideias de hoje as experiências do passado” (BOSI, 1987, p.55).

3.3 Construção Social, Narrativa de Memória

Na construção da identidade a figura do Outro é imprescindível. É no reconhecimento da diferença que construímos nossa própria identidade, nosso senso de nós mesmos no mundo. Segundo Moscovici apud Lopes (2007, p.143), “Tudo o que fazemos, tudo que somos, como sujeitos e atores no mundo social dependem da nossa relação com os outros: de como os vemos, os conhecemos, nos relacionamos com ele, nos portamos com eles ou os ignoramos”. Com base nessa concepção é que a necessidade de tentar trazer a tona exemplos de superação foi tornando-se, cada vez mais, necessária dentro deste projeto. É fácil perceber, no caso dos jornalistas, a importância da interação com o Outro, já que a própria função que os profissionais da área da comunicação


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desempenham na sociedade está consideravelmente conectada com o ato de falar de outra pessoa. Este trabalho mostra a autonarrativa dos personagens construída a partir de uma seleção de informações entre tantos dados que fizeram parte da totalidade do real vivido. A autonarrativa foi apoiada por essas informações e, mais do que isso, pelo uso que os personagens fazem dessas informações. Existem valores da tradição ou eventos de suas vidas que são aspectos de identificação tão fortes que são capazes de sustentar, por muito tempo, uma auto-imagem daquele indivíduo. Por outro lado, os personagens do videodocumentário também devem demonstram que determinadas situações que acontecem em nossas vidas nos incitam a mudar, reagir, tomar decisões.

Existem momentos de tensão e fragilidade ao longo da construção da narrativa de si mesmo. Em muitas ocasiões, fenômenos (que podem ser internos ou externos) desestabilizam a consciência desse processo consciente de auto-organização e impulsionam tomadas de decisão; ou de manutenção ou de mudança (LOPES, 2007, p. 147)

3.4 Histórias de Vida

“A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la” (GARCIA MARQUEZ, 2003, p.5). É através da sentença do autor colombiano que podemos fundamentar melhor a importância não só das lembranças de cada pessoa, mas, também, da forma como essas histórias são repassadas. Em seu livro “Viver para contar”, Garcia Marquez repassa a memória dos anos de sua infância e juventude, nos quais baseou o imaginário que, com o tempo, povoou os contos e romances escritos por ele. Ao longo das páginas, passa-se, misturando presente e passado, pelos acontecimentos marcantes de sua história, dos quais se recorda, ou acredita recordar, conforme explicado pelo mesmo. Alguns casos conta com detalhes, outros conta e, na sequencia, afirma que, pela idade que tinha, não é possível que se lembre tão bem. Faz recordações dentro das próprias voltas ao passado, e explica fatos atrelados a memória que trazem reflexões sobre a


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possibilidade de recordar-se completamente de tudo que se passa ao longo da vida, como quando afirma que “até a adolescência, a memória tem mais interesse no futuro do que no passado, e portanto as minhas recordações da aldeia não estavam ainda idealizadas pela nostalgia. Recordava-a como era” (GARCIA MARQUEZ, 2003, p.7). O autor afirma também que a nostalgia, no geral, é responsável por apagar as más recordações e magnificar as boas. Histórias de outras pessoas podem nos prevenir, ensinar, dar exemplo. Como Ratto explica, a comunicação e suas técnicas são naturais da composição da humanidade,

mas jamais como na atualidade estiveram moduladas de tal modo a influir diretamente sobre nossos modos de existência com tamanha eficácia. (...) Assim, a comunicação ganha força como amplo valor social e político (RATTO, 2006, p.40).

Segundo o autor, o que se desenvolve hoje representa uma proposta epistemológica, ou seja, de que o conhecimento é o conjunto de toda informação que descreve ou explica o mundo em que vivemos baseado na experiência ou na razão. A ideia principal dessa proposta, através das experiências, então, seria “a possibilidade de traduzir toda a realidade em termos de informação e comunicação” (RATTO, 2006, p.40). Porém, deve-se tomar cuidado com o modo como as experiências são passadas e repassadas, tratadas, ou recebidas. Isso porque, segundo o autor, tal costume pode causar um “esvaziamento político”. Esse medo é refletido ao longo de todo o artigo.

O ‘público’ é colonizado pelo ‘privado’; o ‘interesse público’ é reduzido à curiosidade sobre as vidas privadas de figuras públicas e a arte da vida pública é reduzida à exposição pública das questões privadas e a confissões de sentimentos privados (quanto mais íntimos, melhor). As ‘questões públicas’ que resistem a essa redução tornam-se quase incompreensíveis (BAUMAN, 2006, p.46)


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Experimenta-se no momento atual “uma ampla valorização das fontes orais e uma forte capitalização da oralidade para fins acadêmicos, por exemplo” (RATTO, 2006, p.37). Mesmo contrário a uma total exposição pessoal, Ratto não descarta a prática de falar de si como “uma modalidade comunicativa de caráter formador”, desde que feita com planejamento e sem fins de domínio e assujeitamento. “Se torna muito difícil fazer da relação consigo mesmo nos dias atuais uma prática de liberdade” (RATTO, 2006, p.39).

3.5 A Psicologia e a Resiliência

Resiliência é frequentemente referida por processos que explicam a ‘superação’ de crises e adversidades em indivíduos, grupos e organizações (YUNES, SZYMANSKI; 2001, p.31). Diante da situação mundial que se caracteriza pela alta ocorrência de eventos negativos no decorrer do desenvolvimento pessoal, algumas pessoas passam por situações traumáticas e as superam saindo fortalecidas. No entanto, outras não conseguem recuperar-se da situação ocorrida. Um dos motivos para que cada indivíduo lide de maneira diferente com problemas semelhantes, para a psicologia, está vinculado ao conceito de resiliência, que:

pode ser definida como uma capacidade universal que possibilita a pessoa, grupo ou comunidade prevenir, minimizar ou superar os efeitos nocivos das adversidades, inclusive saindo dessas situações fortalecida ou até mesmo transformada, porém não ilesa (GROTBERG apud MOTA, BENEVIDES-PEREIRA e GOMES & ARAÚJO, 2006, p.58)

Sendo assim, para uma pessoa “ser resiliente”, depende de sua habilidade em reconhecer a dor pela qual está passando, perceber qual o sentindo que ela tem e tolerá-la durante um tempo até que seja capaz de resolver este conflito de forma construtiva. A comprovação desta teoria mostra-se evidente na


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história de vida das fontes do videodocumentário oriundo deste trabalho, uma vez que são indivíduos que tiveram reações diferentes diante de situações traumáticas. Outra definição de resiliência está diretamente ligada ao tema deste projeto: a superação. Machado (2011, p. 4), em seu artigo científico sobre a conceituação e discussão de resiliência, a entende como a capacidade do sujeito de, em determinados momentos e de acordo com as circunstâncias, lidar com a adversidade sem sucumbir à ela, alertando para a necessidade de relativizar, em função do indivíduo e do contexto, o aspecto de "superação" de eventos potencialmente estressores.

Estaria atrelada a superação diante de uma dificuldade considerada como um risco, a possibilidade de construção de novos caminhos de vida e de um processo de subjetivação a partir do enfrentamento de situações estressantes. Acreditam que o termo resiliência traduz conceitualmente a possibilidade de superação num sentido dialético, o que representa não uma eliminação, mas uma re-significação do problema (MACHADO, 2011, p. 4)

As origens históricas do termo resiliência remetem ao ano de 1807 e às áreas da física e da engenharia, tendo essa característica sido atribuída originalmente por Thomas Young a matérias altamente resistentes a deformações oriundas do meio. Para Young, a resiliência de um material está relacionada com a capacidade de absorver energia sem sofrer deformação plástica permanente. Na área da psicologia foi dada uma atenção maior ao conceito de resiliência nos anos 1970, embora sejam mais recentes os debates e pesquisas sobre o assunto, que, segundo Libório, Castro & Coelho (2006), só se deram a partir do final dos anos 1990. No campo dos estudos psicológicos os estudos sobre resiliência são, então, relativamente recentes. Um dos primeiros autores a discutir sobre o conceito foi Frederic Flach, em 1966. Já no Brasil, de acordo com Mellilo, Estamatti & Cuestas (2005), os estudos sobre a temática surgiram nos anos 1990, ante a evidência de que nem todas as pessoas submetidas a situações de risco desenvolvem doenças ou sofrimentos de diversos tipos, mas, ao contrário, superam a situação e saem fortalecidas dela.


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Segundo Yunes (2006, p. 47-48), na língua portuguesa, a palavra resiliência aplicada às ciências sociais e humanas vem sendo usada há poucos anos. Nesse sentido seu uso no Brasil ainda se restringe a um pequeno grupo de pesquisadores

de

alguns

círculos

acadêmicos

e

seus

significados

ainda

permanecem desconhecidos para a maioria da população.

Um levantamento das publicações sobre o tema elaborado por Souza & Cerveny (2006) mostra que os primeiros trabalhos sobre resiliência no país surgiram entre 1996 e 1998. A temática mais focada na época eram crianças expostas a situações de risco, fatores de proteção e vulnerabilidade psicossocial e perfil do executivo (ANGST, 2009, p. 254)

Autores estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos e do Reino Unido, têm desenvolvido pesquisas sobre o tema. A maioria teve como foco estudar a criança ou o adolescente numa perspectiva individualista, que destaca traços e disposições pessoais. Também são estudados os padrões de adaptação individual da criança associados ao ajustamento apresentado na idade adulta e com os padrões particulares de adaptação, em diferentes fases de desenvolvimento, que interagem com mudanças ambientais externas. As primeiras pesquisas foram longínquas e realizadas por Werner (1986, 1993), Werner e Smith (1982, 1989, 1992) e outros colaboradores. Ela durou cerca de 40 anos, e teve início em 1955.

De acordo com Martineau (1999), esse estudo não tinha como proposta inicial estudar a questão da resiliência, mas investigar os efeitos cumulativos da pobreza, do estresse perinatal e dos ‘cuidados familiares deficientes’ no desenvolvimento físico, social e emocional das crianças. A pesquisa acompanhou 698 crianças nascidas em Kauai, uma ilha do Havaí. As crianças foram avaliadas com um ano de idade (incluindo entrevistas com os pais) e acompanhadas até as idades de 2, 10, 18 e 32 anos. O foco da pesquisa relatada no livro Vulnerable but invincible foram 72 crianças (42 meninas e 30 meninos) com uma história de quatro ou mais fatores de risco, a saber: pobreza, baixa escolaridade dos pais, estresse perinatal ou baixo peso no nascimento, ou ainda a presença de deficiências físicas. Uma proporção significativa dessas crianças era proveniente de famílias cujos pais eram alcoólatras ou apresentavam distúrbios mentais. Para surpresa dos pesquisadores (Werner e Smith, 1902) nenhuma destas crianças desenvolveu problemas de aprendizagem


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ou de comportamento, o que foi considerado então como “sinal de adaptação ou ajustamento (YUNES, 2003, p. 78)

Ainda segundo Yunes (2006, p. 79), na última etapa da pesquisa, Werner e Smith (1992, p. 192) concluíram que “um terço dos indivíduos considerados de alto risco tornaram-se adultos competentes capazes de amar, trabalhar, brincar/divertirse e ter expectativas, e a “resiliência” a que as autoras se referem foi identificada nas pesquisas iniciais como “invulnerabilidade às adversidades”, conceituação reformulada e mais tarde definida como “habilidade de superar as adversidades”. Estes estudiosos chamaram a atenção para o fato de que uma proporção significativa de pessoas, mesmo vivendo em situações adversas, é capaz de continuar seu desenvolvimento individual. São pessoas que demonstram uma capacidade extraordinária de produzir saúde, mesmo em ambientes adversos, evidenciando, desta forma, a complexidade de seu viver (Silva, Lunardi, Lunardi Filho & Tavares, 2005, p.6).

São pessoas que lidam no seu cotidiano com adversidades, mas que contam com a proteção e os recursos de seu ambiente e suas próprias potencialidades para seguir suas trajetórias de vida. Pessoas que crescem, amadurecem e aprendem, principalmente por suas capacidades e características positivas do que pelas suas limitações e possibilidade de adoecimento (POLLETO, KOLLER, 2006, p.21)

Por meio dos estudos sobre resiliência é possível compreender, então, pelo menos de forma geral, porque os personagens do produto final deste trabalho tiveram reações diferentes e a capacidade de, conforme as circunstâncias, lidar com a adversidade, não sucumbindo a ela e demonstrando uma forma de "superação" de eventos potencialmente estressantes.


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4. OBJETIVOS ALCANÇADOS

4.1 Objetivo Geral

O objetivo principal era gerar um videodocumentário a fim de promover a divulgação audiovisual de relatos feitos a partir das memórias e depoimentos de indivíduos sobre suas próprias histórias de superações e mudanças de vida que possam servir de exemplo e motivação para outras pessoas, tendo em vista o preceito de que o jornalismo busca personagens e histórias para serem contadas à sociedade, uma vez que compreende a imprescindível figura do outro na construção da identidade dos sujeitos e o autoconhecimento por meio da troca de experiências.

4.2 Objetivos Específicos

- Levantamento do material bibliográfico e audiovisual sobre o tema; - Promover uma reflexão e autoconhecimento por meio dos relatos de histórias de resiliência e superação; - Registrar e decupagem de depoimentos de indivíduos que passaram por um trauma em determinado momento de suas vidas de modo que, ao fim, exista um roteiro a partir do texto oral subjetivo das próprias fontes; - Produzir um videodocumentário que sirva como um documento disponível para ampliar o conhecimento sobre o tema; - Elaborar de um produto audiovisual que permita reunir e relacionar histórias distintas expressando a total a profundidade das mesmas.


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5. DIFICULDADES ENCONTRADAS

A maior dificuldade encontrada foi com relação à bibliografia do projeto. O tema superação tem sido bastante explorado em reportagens jornalísticas, pois, além do cunho social, mostra histórias que emocionam e despertam o lado humano do jornalismo e do público. No entanto, buscar teorias e conceitos que embasassem um tema tão relativo quanto este não foi uma tarefa fácil. Apesar de existirem inúmeras reportagens, vídeos e livros que relatam histórias de superação, encontrar trabalhos que relacionassem o tema com o próprio jornalismo ou o conceituasse foi a maior dificuldade encontrada. Diante desta problemática fez-se necessária a busca por conceitos teóricos para além da área de estudos de comunicação, nas ciências que auxiliam o estudo do jornalismo como a Sociologia e a Psicologia, para que este projeto sirva como um documento disponível para ampliar a informação sobre o tema, agora a respeito de casos locais e até então pouco conhecidos, e permitir o conhecimento de alunos, professores e pessoas da sociedade de um modo geral. Devido à burocracia, houve atraso no início das gravações das imagens de apoio das fontes relacionadas à Associação Mães da Fronteira, pois foi necessário o envio e a aprovação de Ofício (Anexo A) para autorizar a vinculação da entidade com o projeto, uma vez que as fontes falaram como parte integrante do grupo e não apenas como pessoas físicas. Houve atraso também na gravação do último relato em relação à data que se pretendia finalizar a parte de captação de imagens, tendo em vista que a fonte precisou viajar para fora do país. Além dos suportes teóricos, foi encontrada dificuldade em relação à edição do trabalho. Devido ao formato de produção audiovisual adotado, foi preciso relacionar as fontes entre si, pensando em um gancho de ligação entre uma narrativa e outra ao longo de todo o vídeo, além dos próprios recursos de transição de imagem, de forma que a compreensão de cada relato ocorra da maneira mais clara possível e que o videodocumentário se tornasse dinâmico. Outra dificuldade nesse momento foi relativa aos cortes das falas e do roteiro, uma vez que os


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depoimentos eram longos (mais de 40 minutos) e com diversas partes importantes, e o tempo pretendido para o vídeo final era baixo, o que tornou necessário cortar partes consideradas interessantes, mas que não afetavam diretamente a compreensão das histórias.


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6. DESPESAS (ORÇAMENTO)

Até setembro de 2014: Descrição

Quantidade

Valor total (R$)

2

75,00

-

70,00

Microfone de lapela com fio

1

92,08

Cartão de memória classe 10 de 16gb

2

50,00

Encadernação em espiral

2

7,00

Aquisição de livros e material bibliográfico Transporte

e

combustível

para

entrevistas

e

gravações

Total

294,08

Até novembro de 2014: Descrição

Quantidade

Valor total (R$)

-

100,00

Edição de imagens

-

300,00

Criação de arte

-

350,00

DVDs

Cx

40,00

Impressão de bolachas para DVD

16

15,00

Impressão de capas para DVD

13

35,60

Caixas para DVD

13

26,00

Encadernação em espiral

3

10,50

Encadernação em capa dura

1

30,00

Transporte

e

combustível

para

entrevistas

e

gravações

Total

907,10

A contrapartida da Universidade é representada pelo uso de câmeras Nikon D7000 para as filmagens. Ao todo, o custo total do projeto foi de R$ 1201,18.


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7. CONCLUSÕES

Por meio de um videodocumentário, a intenção foi retratar três histórias diferentes de superação: mulheres que enfrentam diariamente a dor da perda dos filhos, limitação física e a dependência química, e como cada uma delas procura, de sua própria maneira, lidar com as dores e traumas vividos. Problemas que aos olhos de muitos tornariam essas pessoas vítimas da vida ou da sociedade, mas que através de uma nova perspectiva e da forma como elas passaram a enfrentar e superar os percalços da vida tornaram-as exemplos de resignação, força de vontade e esperança. Assim, suas histórias, memórias e a maneira como lidam com suas dores se transformam em um incentivo e motivação para o próximo. Tendo em vista que o ser humano está em constante desenvolvimento ao longo de sua vida e que seus aprendizados são potencializados quando socialmente compartilhados, é possível afirmar que o crescimento pessoal ocorre nas relações com a troca de experiências entre o indivíduo e a sociedade em que vive. O projeto também coloca em evidência indivíduos “anônimos” que têm algo a dizer e, por meio deste trabalho, ganham voz. Na atual circunstância, a vida muitas vezes nos expõe a situações difíceis e irreversíveis. Estresse, violência, desigualdade social e tantos outros eventos negativos contribuem para que todos tenham problemas. O que muda é o grau de dificuldade para enfrentá-los e a forma singular como cada individuo lida com suas dificuldades e limitações. Este é o diferencial do tema “superação”. O foco não se restringe a histórias de mulheres que passaram por um trauma, mas sim a forma que elas encontraram de continuar a viver, o que as torna diferentes e singulares se comparados a outras pessoas que passaram por situações semelhantes. E se tratando do jornalismo, histórias diferentes, singulares ou que fogem do comum merecem destaque. Nesse contexto, o jornalista tem por função servir como uma “ponte” entre grandes histórias e a sociedade, uma vez que a profissão permite o contato com


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diversas personalidades, culturas, crenças e situações que são percebidas pelo profissional e transformadas em informação. O vídeodocumentário, produto final desse projeto, é definido como o formato de produção audiovisual que mostra fatos reais ou não-imaginários, abordando um tema em profundidade a partir da seleção de alguns aspectos e representações auditivas e visuais. Para a escolha do tema se fez necessário pensar sobre a importância social e em como esta produção audiovisual pode reconstituir ou analisar assuntos de nosso cotidiano ao estabelecer afirmações sobre o mundo e se caracterizar pela presença de procedimentos que o singularizam com relação ao campo ficcional.


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APÊNDICE A

Datas de Entrevistas:

ENTREVISTAS INICIAIS Fonte

Data

Lázara

19 de agosto de 2014

Sheila

22 de agosto de 2014

Lilian

25 de agosto de 2014

Angela

04 de setembro de 2014 GRAVAÇÕES

Lázara

17 de setembro de 2014

Sheila

26 de setembro de 2014

Lilian

29 de setembro de 2014

Sabrina

2 de outubro de 2014

Angela

9 de setembro de 2014


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APÊNDICE B

LÁZARA LESSONIER Morava em Três Lagoas – MS e conseguiu uma transferência no emprego para Campo Grande. No dia 8 de fevereiro de 1979, Lázara estava fazendo a mudança para a casa nova quando resolveu ajudar um rapaz que tirava uma antena do telhado. Ela não aguentou o peso e a antena encostou no fio de alta tensão. Lázara recebeu uma descarga elétrica de mais de 3000 volts e teve os braços, a perna esquerda e a barriga queimados. O relógio que usava no momento do acidente chegou a derreter em seu pulso com o calor ocasionado pela descarga elétrica. Não houve chances de reconstituição dos membros. Jovem e com uma filha de quatro anos, na época, Lázara se aposentou. Após o acidente passou a se dedicar à pintura e escreveu um livro contando sua história.

Questões a serem respondidas durante a gravação

Quem é? Resumidamente, qual o acontecimento traumático que marcou a vida? Como é o dia-a-dia? Como era antes do acidente? Se considerava uma pessoa feliz? Após a notícia, além de tristeza, qual o primeiro pensamento que teve? O que considerou mais difícil em sua trajetória depois do acidente? (A dependência? A questão estética?) Antes do acidente já era uma pessoa com tanta fé? A fé ajudou a superar o que aconteceu? Por que quis escrever um livro contando sua história? Em que momento percebeu que, como no titulo do seu livro, poderia deixar de ser apenas a vítima de uma fatalidade para se tornar vitoriosa? Como a pintura te ajudou a passar por um momento de dor? Um acontecimento inesperado mudou completamente o rumo da sua vida. Os valores, os significados das coisas, ações, sentimentos, também mudaram?


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Se considera uma pessoa diferente depois de passar por isso? Algumas pessoas passam pela mesma situação e tem reações diferentes, se entregam ao desânimo, tristeza, revolta. Por que decidiu ter outra postura e reagiu de modo diferente? Se considera um exemplo de superação?

Imagens de apoio

Quadros, pinturas, etc; Aparelhos e objetos adaptados; Fotos antigas e/ou matérias da época do acidente; Situações do dia-a-dia;


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APÊNDICE C

ÂNGELA FERNANDES E LILIAN SILVESTRINI Intituladas pela imprensa na época como “Mães da Fronteira”, Ângela e Lilian perderam os filhos, que eram amigos de infância, vítimas de latrocínio. O crime aconteceu no dia 30 de agosto de 2012, quando Leonardo Fernandes (19) e Breno Silvestrini (18) saiam de um bar em Campo Grande. Eles foram abordados por dois homens que aguardaram as vítimas saírem de um bar. No momento em que Leonardo acionou o alarme da caminhonete Pajero, ele e o amigo foram abordados pela dupla. Um dos bandidos assumiu a direção do veículo e de lá seguiram para as saídas de Aquidauana e Rochedo, na região do Indubrasil. Os dois foram mortos, cerca de 30 minutos após serem abordados. As seis pessoas envolvidas no crime foram presas. O crime gerou comoção na cidade e foi o ponto de partida para a criação da Associação Mães da Fronteira, que luta pela segurança nas zonas fronteiriças do Estado e pela segurança pública. Questões a serem respondidas durante a gravação

Quem é? Resumidamente, qual o acontecimento traumático que marcou a vida? Após a notícia, além de tristeza, qual o primeiro pensamento que teve? O que considerou mais difícil em lidar com a perda dos meninos? Pensa nas pessoas que cometeram o crime? Qual foi a forma que encontrou de lidar com a dor? Como era a relação entre os meninos e com os outros amigos? Como era a personalidade de cada um? Um acontecimento inesperado mudou completamente o rumo da sua vida. Os valores, os significados das coisas, ações, sentimentos, também mudaram? Algumas pessoas passam pela mesma situação e tem reações


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diferentes, se entregam ao desânimo, tristeza, revolta. Por que decidiu ter outra postura e reagiu de modo diferente? Por que resolveram criar a Associação Mães da Fronteira? O que espera realizando esse trabalho? Se considera um exemplo de superação?

Imagens de apoio

Possíveis imagens cedidas da época; Fotos antigas (juntos e separados); Matérias da época; Eventos da Associação; Situações do dia-a-dia;


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APÊNDICE D

PASTORA SCHEILA DE FÁTIMA Natural do interior de São Paulo, Scheila veio para Campo Grande aos 17 anos para recomeçar a vida. Antes disso, morava com a mãe e na adolescência ficava muito sozinha, já que a mãe era separada e precisava trabalhar em tempo integral para bancar as despesas da casa e o pai não prestou nenhuma assistência à família. Aos 13 anos, Scheila começou a namorar um garoto mais velho, segundo ela “dono de uma boca de fumo” e acabou se envolvendo com o crime. Praticou inúmeros delitos, como assaltos, roubos e tráfico de drogas. Neste meio tempo, se tornou usuária de cocaína e outras drogas, além de bebida alcoólica. Foi expulsa de casa aos 17 anos. Scheila, por indicação de um amigo, mesmo sem conhecer a cidade, veio para Campo Grande. Sozinha, sem dinheiro e sofrendo com o vício, passou fome e outras dificuldades. Até que encontrou na fé um modo de mudar sua vida. Hoje, conseguiu se livrar do vício, tornou-se pastora e procura auxiliar pessoas com seu testemunho de vida. Scheila administra uma casa de reabilitação onde cuida de 40 dependentes químicos, o projeto Jaboque. O local, uma chácara na saída para São Paulo, é cedido e tudo que ela consegue para bancar as despesas é por meio de doação.

Questões a serem respondidas durante a gravação

Quem é? Resumidamente, qual o acontecimento traumático que marcou a vida? (Falar um pouco sobre a história de vida) Acredita que a vida é feita de escolhas e considera que fez escolhas erradas? O que levou a, desde a adolescência, ter um comportamento agressivo e consumir excessivamente drogas licitas e ilícitas? Se arrepende de alguma coisa? Passou por muitas situações difíceis na vida, qual considera a pior delas? Onde encontrou forças para, sozinha, se livrar do vício? Conseguiu se livrar do vício das drogas e do álcool, conseguiu um


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emprego, casa e uma vida estabilizada. O que levou a abrir mão de construir uma família e ter uma vida comum para ajudar outras pessoas? Ao longo da vida e através das experiências, quais os valores, significados das coisas, ações, sentimentos, etc. que mudaram? Algumas pessoas passam pela mesma situação e tem reações diferentes, se entregam ao desânimo, tristeza, revolta, vício. Por que decidiu ter outra postura e reagiu de modo diferente? Porque resolveu tocar o projeto Jaboque? O que é mais difícil neste trabalho? Como ele funciona? Qual a história? Tem algum sonho ou planos para o futuro com relação ao projeto? Se considera um exemplo de superação? Apesar das dificuldades e de tudo que enfrentou na vida, se considera uma pessoa feliz?

Imagens de apoio

Fotos antigas; Atividades do projeto (coral, artesanato, etc.); Com pessoas que ajudou;


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APÊNDICE E Decupagem – Lázara Lessonier – 17 de setembro Vídeo “Depoimento Lázara (2)” Lázara – Eu, Lázara, sou funcionária pública e fui transferida na época da divisão do estado, eu fui transferida de Três Lagoas pra Campo Grande, e nessa transferência que aconteceu o acidente comigo. Eu, terminou a mudança e eu pedi que o moço tirasse de cima do sobrando onde eu morava a antena de televisão, e a antena, ele passou pra mim, e eu não aguentei o peso e encostou no fio de alta tensão, que era bem rente ao prédio que eu morava, e eu recebi uma descarga elétrica de treze mil quinhentos volts. E uma pessoa da mudança que me socorreu, levou pro hospital, e fiquei em Três Lagoas essa noite, porque isso aconteceu era umas três horas da tarde, e no outro dia eu vim pra Campo Grande, onde fui assistida pelo doutor Radi Jafar e doutor Ottão Azambuja, e eles fizeram tudo pra, pra que não precisasse amputar as mãos. Mas eu fiquei muito mal, aí começou a gangrenar e no... Ele teve que amputar uma mão. E depois ele fazendo tudo pra... Pra não ter que amputar a segunda mão, mas não houve jeito. Eu tive que fazer, depois de trinta dias, a amputação da outra mão. Foi muito difícil, sabe. Muito difícil, eu com uma criança de quatro anos e precisando tanto de mim, né, mas Deus sabe o porquê de tudo isso. Então eu comecei ali a fazer um exame da minha vida, como que foi, como que seria. Eu teria dois caminhos a seguir: um caminho que seria de levar uma vida aprendendo, e a outro, e o outro caminho reclamando da vida. Eu noto que a gente não gosta de estar com pessoas que reclamam da vida. Então, é, eu falei “eu vou por esse caminho que eu vou conseguir, é, trilhar assim uma estrada florida, uma estrada colorida, e foi dito e feito. Com muitos percalços, mas sempre acreditando em Deus, acreditando que o amanhã seria melhor. Eu comecei a pintar, eu escrevi a minha história contando... Nessa... Quando eu tava escrevendo a minha história eu tava fazendo uma terapia. Eu não sabia que ia ser tão bom pra mim, por que eu estava fazendo uma terapia, e, onde cada palavra que eu deixava ali escrito, aquela palavra parece que amenizava a dor, o sofrimento, e, conclusão, terminei de escrever o livro eu era outra Lázara, mais alegre, mais feliz, sabe, sabendo que tudo ia ser diferente.


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Ana (3’46”) – Mas por que que você resolveu escrever o livro? Lázara (3’49”) – Eu escrevi o livro porque um amigo falou pra mim: “Lázara, você tem que escrever sua história pra mostrar pras pessoas e pra você ajudar muitas pessoas, porque através do seu livro eles vão ler e ver que você pode tudo, depende só de você, da sua cabeça, da sua vontade, porque você faz tanta coisa, Lázara, aproveita e escreve”. E eu escrevi, mas eu tava fazendo um bem maior era pra mim, porque além de ajudar as pessoas com o meu livro, eu estava me ajudando a tirar aquela dor, aquela... Aquela coisa assim que me massacrava, sabe. Então foi muito bom eu ter escrito o livro. Ana (4’45’’) - O livro você escreveu depois de quanto tempo do acidente? Lázara (4’48“) – Ah, depois de muitos anos do acidente que eu fui escrever. Depois... de uns 8, 10 anos, que eu fui escrever. Ana (5’00’’) – Qual foi o primeiro pensamento que você teve depois que recebeu a notícia de que você perderia mesmo as duas mãos? Lázara (5’11”) – Eu sempre pedi a Deus, o médico que fizesse qualquer coisa pra salvar a minha vida. Eu tinha um filha pequena e eu queria muito viver por ela. Eu fiquei sem pai aos sete anos de idade. Foi muito duro, sabe. Meu pai morreu novo, e deixou cinco filhos, todos pequenos. A mais velha tinha oito anos. Eu tinha sete anos. Eu senti muita falta do meu pai, e mamãe sofreu muito com ter que fazer tudo sozinha com cinco filhos, cuidar de uma fazenda, então eu via que era muito importante eu estar viva. Então quando o médico me falou que tinha que... Que eu teria que amputar uma mão, eu falei “olha doutor, faz tudo por mim, porque, é... Se tem que amputar, é... Eu quero que o senhor salva a minha vida”. Ana (6’21”) – E depois do acidente, o que você considerou mais difícil? Lázara (6’29”) – Olha, depois do acidente eu tive que aprender tudo outra vez. Eu tive que aprender a andar. Porque a gente perde o equilíbrio com a falta das mãos. Então, eu tive que aprender a andar, eu tive que aprender a comer, eu tive que fazer uma colher especial pra eu comer sozinha. Eu... eu, assim, uma coisa que me chamou muita atenção foi a curiosidade das pessoa de perguntar pra mim: “nossa, que que aconteceu?”, “que que foi?”, então, e muitas pessoas também não chegavam perto de mim, sabe, meio com receio. Eu... eu não sabia o que que era aquilo, sabe. Então, ai mais tarde que eu vim entender que é... que era preconceito, porque até então, em 79, não tinha... Existia no vocabulário, mas não tão, tanto quanto usa hoje. O preconceito, né. Mas as pessoas, uma das coisas que senti


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muito, e ainda sinto, é o preconceito das pessoas. Porque comigo tá tudo certo, tudo arrumado, tudo no lugar. Mas também tem uma coisa: quem gosta de mim me aceita do jeito que eu sou. Ana (8’18”) – E você é uma pessoa de fé, né. Antes do acidente você já se considerava uma pessoa de fé, enfim, já tinha essa determinação? Lázara (8’26”) – Eu era feliz e não sabia. Então... Eu sempre acreditei em Deus, a minha... A minha iniciação religiosa é católica. Então eu sempre tive fé em Deus, eu sempre acreditei nele, tudo que aconteceu na minha vida porque tava determinado que é, que era pra ser assim, então... Eu sempre fui determinada, nas minhas... Tudo aquilo que eu ia fazer, eu ia trabalhar num lugar eu sempre, é... Queria ser a, quem sobressaia mais, sabe, sempre teve essa determinação, assim, guardada aqui dentro de mim, e... E ela aflorou mais depois do acidente. Ana (9’23”) – E depois do acidente, em que momento que você percebeu que, como no título do livro que você escreveu, né, você poderia deixar de ser uma vítima de uma fatalidade pra se tornar uma vitoriosa? Lázara (9’37”) – É, porque a maioria das pessoas elas se dão por coitadas. “Ah, porque aconteceu isso comigo”, “ah, porque meu marido largou de mim”... E uma pena dela mesma, né...

Vídeo “Depoimento Lázara (3)” Lázara (0’23”) – Então, muitas pessoas, ela, eu, assim, no caso, né, eu... A primeira coisa é sentir pena de mim, né. Ai, coitada, sem as mãos. Seria muito mais fácil eu cruzar os braços e ficar dentro de casa esperando o tempo passar, a morte chegar. Mas eu tive ajudas, assim, de amigos, de amigas. Falou assim: “não, Lázara, vamos... Vamos pintar”. Falei: “mas como que eu vou pintar se eu nunca pintei, eu não... Quando eu tinha as mãos, eu não pintava, e agora eu vou pintar. Como que eu vou... Como que eu vou pintar, né?”. Ela falou: “olha, vamos fazer um negócio. Cê vai comigo, eu te empresto as tintas, te dou uma tela e você vai”. E ela me disse uma frase assim, muito interessante: “a gente não pode dizer que não da conta, não sei, se você não começar. Vai lá, faz um teste”. E eu fiz um teste. Como você viu hoje, eu pintei um quadro numa tarde. Como você viu... eu pintei um quadro pequeno agora em horas, né. Então Deus é tão maravilhoso comigo que até nisso ele me ajuda. Não tenho dificuldade pra nada. Então, daí que eu comecei a ver que


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eu podia virar a história, né. De uma vítima ser uma vitoriosa. Eu passei a pintar, eu escrevi meu livro, eu voltei a dirigir, eu voltei a ter uma vida normal, sendo que eu precisava, pra ir no supermercado eu passei a fazer sozinha, ir no médico... Então eu vi que esse caminho era muito mais bonito, muito mais alegre, e larguei, lá atrás, aquela dor, aquele sentimento, e fui a luta. Ana (2’46”) – Então a pintura foi o primordial pra isso acontecer? Lázara (2’49”) – Foi. A pintura foi em primeiro lugar mostrar pra mim e pras pessoas que eu podia. Eu podia mexer com pincel sem as mãos, eu podia pintar... Então, é, a pintura foi assim, meu carro-chefe para a largada. Ana (3’16”) – E depois da pintura, então, veio o livro e ai você decidiu fazer exposições... Conta pra mim essa etapa Lázara (3’25”) – É, depois da pintura, eu, eu... A pintura foi, é, em primeiro lugar. Eu comecei a pintar em 80 e...7, 5. O acidente aconteceu comigo em 79. Em 85 eu comecei a pintar. Então eu pintei vários quadros, eu morava numa casa grande e tinha parede, parede, parede. Eu enfeitei tudo que é parede. Com quadro pequeno, grande, médio, quadro de dois metros, e eu arrumei minha casa. Nossa, eu me orgulhava da minha casa estar cheia de quadros. Aí eu fiz a minha primeira exposição. Na minha primeira exposição eu fiz 26 quadros. Eu gosto muito do número 26, é o dia que eu nasci. Então eu fiz 26 quadros e expus os 26 e vendi todos, recebi mais uma... Mais 20 encomendas. Então com essas encomendas, mais o dinheiro que eu tinha, olha, eu tinha muito dinheiro, dava pra eu viajar, dar uma volta ao mundo, e porque meus quadros tudo eu botei com preço bem alto, sabe. E... então eu tinha muito dinheiro. Mas aí um anjo bateu nas minhas costas e disse: “você tem tudo. Você tem carro, você viaja todo ano. Sua mãe não tem casa pra morar, paga aluguel”. Falei: “ai, é mesmo, né”. Ai eu fui construir uma casa pra minha mãe com venda de trabalhos. Meu pai se orgulhava tanto disso. “Minha filha construindo uma casa com dinheiro de venda de quadro”. Hoje isso é até meio impossível, mas a 20 anos atrás deu pra fazer isso. Eu construi uma casa pro meu pai. Meu pai, olha, meu pai renovou 20 anos. Ele pagava aluguel e isso pra ele era um martírio, então ele achou bom demais essa casa, minha mãe... Então pra mim foi o maior presente que eu me dei, porque eu vi a satisfação dele, deles, e contar pra todo mundo: “isso aqui, essa casa foi construída com dinheiro do trabalho da minha filha, que não tem as duas mãos”.


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Ana (6’27”) – E o apoio da sua família? Tirando seus pais, assim, a sua filha e o seu esposo, como que era em casa? Lázara (6’35”) – É... Meu... A minha família foi muito importante, né. Minha mãe, meu pai, sempre comigo. Meu marido me ajudou muito, foi meu grande mestre. Porque ele falava pra mim, ele nunca foi de elogiar, ele falava assim “você não da conta de fazer”. E ai eu ia lá, fazia e dava conta. Quando foi pra eu dirigir, ele falou: “como que você vai dirigir, você não tem as mãos!”. Eu falei: “vou mostrar pra você que eu sou capaz”. Ai ele frisou bem pra mim: “se você bater o carro, cê vai ter que mandar arrumar”. Eu falei: “pois não, eu vou arrumar”. E eu peguei o carro dele e dirigi, e não teve problema. A minha filha ficou assim muito com medo da polícia, do guarda do trânsito, né, e eu falei “não, fica tranquila, minha carteira ainda não venceu, então o guarda não vai pegar sua mãe”. E a minha filha era muito pequenininha, muito, assim, um anjinho, não sabia que que tava acontecendo, né. Ela ficava meia receosa de chegar perto de mim porque os braços tavam tudo cheio de esparadrapo, né, então, de curativo, então ela ficava receosa, mas com o tempo ela foi chegando, chegando, e... E depois passamos a ser grandes amigas, como até hoje nós somos, amigas. Minhas filha mora aqui em Campo Grande, mas mora na casa dela, e meu ex-marido, hoje é ex-marido, meu marido depois de um tempo nós separamos, e hoje nós somos amigos. Amigo... É um irmão que eu tenho, ele me ajuda muito em muita coisa que eu preciso, e me ajuda, assim, pra aconselhar minha filha, e hoje nós estamos na paz. Ana (8’41”) – Depois do acidente muita coisa mudou, né, em questão de rotina. Mas e assim, você percebeu que os seus valores mudaram, certas coisas que você dava importância deixaram de ter ou coisas que você não se importava passou a se importar? Lázara (8’59”) – Sim, sim. Olha, tudo mudou. Os valores mudaram. Aquelas besteiras que tinha antigamente, reclamar por qualquer coisa, é, acabou tudo aquilo. As vezes eu fiquei até meia fria, meia durona, sabe. Mas eu vejo que não... Não tem porque de dar ênfase a besteira, a alguma coisa que estragou, que perdeu. Então com certeza mudou muito os valores. Ana (9’38”) – E assim, tem pessoas que passam pela mesma situação e, como você mesma falou, se entregam ao desanimo, a tristeza... Por que que você decidiu ser diferente, falar “não, não quero”.


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Lázara (9’52”) – (Risada) Eu sempre fui assim uma menina diferente. Eu fui trabalhar com 13 anos porque eu queria... Eu queria ter meu dinheiro. Eu não queria tar dependendo do meu pai. Eu queria estudar numa escola particular. Meu pai não tinha condições pra pagar pra cinco filhos. Então eu fui estudar, com 13 anos eu fui estudar a noite. Eu, minha irmã, minha irmã com 14 anos também foi trabalhar, e a gente tinha o dinheirinho, tão bom que era o dinheiro, e comprava sapato, bolsa, roupa, e ninguém tinha que falar, né. Meu pai não exigia que a gente ajudasse em casa. Então daí começou essa Lázara guerreira, e eu estava trabalhando aqui, mas eu procurava ali no vizinho pra ver se não tava precisando de alguém, que pagasse melhor, né. Eu sempre procurando alguma coisa pra melhorar. E como eu disse, é fácil você sentar e reclamar, o difícil é você ir a luta e procurar seus direitos, seus deveres, porque eu vi que se eu tivesse sentado e esperado a morte chegar, igual a música do Raul Seixas, né, “com a boca escancarada cheia de dentes”, então... Não nasci pra isso. Não nasci. Eu vi que eu tinha, e tenho, muita coisa pra fazer. Então quando aconteceu o acidente, eu sem as duas mãos, “meu pai, me ajuda a achar alguma coisa pra fazer”. Então a primeira coisa foi a pintura, né, que me deu um mundo diferente, comecei a fazer exposições, a mostrar pras pessoas o meu trabalho, todo mundo admirado e me elogiando, ai o livro... Então eu vi que, pra mim era muito melhor. Como eu vejo que tem gente que tem perna, braço, mão, tem tudo e não faz nada pra sim e nem pros seus semelhantes. Então esse, pra mim, é o verdadeiro deficiente físico. Não é aquele que é cego, que não tem mão. É aquele que tem tudo e não tem cabeça, não faz nada por si, vive reclamando da vida, vive achando obstáculo em tudo, fazendo tempestade num copo d’água. Então, eu vi que... Pra mim, hoje eu vejo que é muito mais fácil pra mim tar na luta do dia a dia, correndo atrás do que eu quero, do que ficar dentro de casa. Graças a Deus são 35 ou 36 anos do acidente, eu nunca fiquei um dia dentro de casa. Sempre eu tenho alguma coisa pra fazer, eu tenho que comprar, eu tenho que ir no banco, eu tenho que isso, eu tenho que aquilo. Então, é, eu nunca reclamei que eu não tenho nada pra fazer. Quando eu não tenho nada pra fazer, eu tenho coisa pra ler, eu tenho revista, tenho jornal, tem livro pra ler, ou se não dormir, tem coisa melhor que dormir? Amo dormir! Ana (13’39”) – Você se considera um exemplo de superação? Lázara (13’43”) – Ah, não me considero nada, não. Eu me considero uma... Uma Lázara que foi a luta. Porque todo mundo que vai a luta vai superar os


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seus obstáculos, seja lá qual for. Tem gente que morre de, por ser, é, tímido. Então, cada dia eu me supero mais, eu faço mais coisa. Ontem eu passei a tarde toda costurando. Então eu conto isso pra vocês, as vezes ninguém acredita. Ta certo, tem coisa que a minha secretária fica do lado, mas eu que passo tudo na máquina, eu que costuro, eu que dou jeito, corta aqui, tira aqui, então, mas eu que costurei tudo. Ontem eu fiquei da uma às quatro horas da tarde costurando. Então isso é superar também, né. Vídeo “Depoimento Lázara (4)” Ana (0’10”) – O que você acha de pessoas que se julgam incapazes de alguma coisa? Lázara (0’16”) – Isso é preguiça. Preguiça porque como você viu eu podia muito bem falar pra minha amiga “não eu não vou, não vou pintar porque eu sou incapaz. Como que eu vou pegar no pincel? Pra pegar no pincel tem que ter os cinco dedos, eu não tenho nenhum, então como que eu vou pintar?”. Aí eu achei que se eu segurasse aqui o pincel, como vocês viram, dava certo. Então tudo pra mim da certo, é só eu querer. Eu faço meu café de manhã, eu arrumo minha cama quando eu quero, então eu sou capaz de fazer tudo. Então quem se julga que não é capaz é porque é preguiçoso. Ana (1’18”) – E felicidade? No geral você se considera feliz? Lázara (1’17”) – Eu me sinto feliz, alegre, você nunca vai me ver sem um sorriso no rosto porque eu agradeço a Deus pela segunda chance de vida que ele me deu. Então a hora que eu tiver de frente a Ele eu tenho certeza que ele vai me cumprimentar: “parabéns, você soube viver”. Então, se eu estou aqui eu quero viver bem alegre, feliz. Nós nunca vamos ter tudo que a gente quer e precisa, mas eu me contento com o que eu tenho, então isso me faz feliz, e o resto a gente corre atrás. Eu estou a procura do meu amor e sei que Deus vai mandar pra mim meu amor, porque ninguém é capaz de viver sozinha. E eu tenho fé nele, que ele ta preparando uma pessoa muito boa pra viver comigo. Cecília (2’34”) – Se você pudesse deixar um recado pra alguém que passou ou vá passar pela mesma situação que você, o que seria? Lázara (2’41”) – Ah, olha, é... Você que tiver uma dificuldade, um... Alguma coisa na vida, não sejas perder as mãos, a perna, a visão, uma, uma situação amorosa, não perca a fé em você, acredita em você e em Deus, que você é


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capaz de tudo. Você é capaz de dar a volta por cima, você é capaz de fazer coisas que você as vezes cê acha que é impossível. Eu digo porque eu, olha, eu fiz coisas que nem eu acreditava que eu pudesse. Mas não esmoreça, tenha sempre dentro de você essas duas palavrinhas: querer é poder. E Deus no coração, ânimo, alegria, porque você com um sorriso no rosto você consegue muita coisa. Diz que o sorriso é um abraço de longe, então sorria, seja feliz. Não é fácil viver, tá, mas eu procuro viver da melhor forma porque é muito bom viver. Eu ouvi isso não sei aonde: “o sorriso é um abraço de longe”. Bonitinho, né. Vídeo “Depoimento Lázara (5)” Lázara (0’18”) – Eu sou Lázara Lessonier... Deixa eu falar o nome completo. Eu sou Lázara Moreira de Souza Lessonier e meu nome artístico é Lázara Lessonier. Eu nasci em Inocência, no dia 26 de setembro, agora, tá perto, de 52, então agora dia 26 eu vou fazer 62 anos com muito orgulho, porque são bem vividos. E eu sou de Inocência, lá na minha cidade eu fui homenageada com um Centro Cultural com meu nome: “Lázara Lessonier”. Me deu muito prazer em receber essa homenagem ainda em vida, porque vocês sabem que pra receber uma homenagem dessas, só quando morre. E eu fui agraciada com esse presente. E... Sou artista plástica já há 30... 85, faz a conta, 85 pra 2014, e que eu estou ai mostrando pras pessoas o meu trabalho, a minha forma de, de pintar. Eu gosto de paisagem, eu gosto muito de céu, eu gosto de flores e tudo que é da natureza, tudo que é o belo eu quero botar na tela pra mostrar a beleza. Falei tudo? Vídeo “Depoimento Lázara (6)” Lázara – Pronto? Eu sou Lázara Lessonier, artista plástica desde 85, e tenho 62 anos. Eu nasci no dia 26 de 9 de 52. Imagens de Apoio – Lázara – 17 de setembro Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (1) – Quadros e pinturas; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (2) - Quadros e pinturas; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (3) - Quadros e pinturas; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (4) – Quadros e pinturas; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (5) - Quadros e pinturas; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (6) - Quadros e pinturas;


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Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (7) - Quadros e pinturas; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (8) - Quadros e pinturas; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (9) - Quadros e pinturas; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (10) - Quadros e pinturas; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (11) - Quadros e pinturas; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (12) - Quadros e pinturas; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (13) – Pintando; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (14) - Pintando; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (15) - Pintando; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (16) - Pintando; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (17) - Pintando; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (18) - Pintando; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (19) - Pintando; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (20) - Pintando; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (21) - Pintando; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (22) - Pintando; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (23) – Comendo; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (24) – Fotografias; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (25) - Fotografias; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (26) - Fotografias; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (27) - Fotografias; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (28) – Livro; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (29) - Livro; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (30) - Livro; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (31) – Fazendo chá; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (32) – Fazendo chá; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (33) – Comendo; Vídeo “Imagens de Apoio Lázara” (34) - Comendo;


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APÊNDICE F

Decupagem – Sheila de Fátima - 26 de setembro Vídeo: “Depoimento Sheila (4)” Sheila (00’09’’) - Meu nome é Sheila de Fátima Matheus, eu tenho 31 anos de idade ....(acho que é 31) e.... e hoje eu faço parte aqui dessa casa, dessa comunidade terapêutica. É uma casa de recuperação de dependentes químicos e chama-se Projeto Jaboque. Jaboque significa mudança de identidade porque as pessoas quando elas entram aqui, na casa de recuperação, elas vem né, com uma mentalidade criminosa, é...uma mentalidade errada, mas a partir do momento que elas pisam os pés aqui nesse portão eu creio que Deus vai trabalhar na vida deles e vão ter uma nova identidade de vida, uma nova maneira de viver. Vídeo: “Depoimento Sheila (5)” Sheila (0’22’’): eu sou a Sheila de Fátima Matheus, tenho 31 anos e hoje estou aqui para poder falar um pouquinho da minha história para vocês. Aqui é uma casa de recuperação para dependentes químicos, a qual eu já tenho feito uma trabalho NE, desenvolvido uma trabalho aqui nesse lugar e estou aqui pra poder falar um pouquinho mais da minha vida, minha história, do meu dia a dia. De como que funciona, como que é, o que que é uma casa de recuperação e a superação que hoje eu tive que me superar para estar aqui hoje pra poder ajudar outras pessoas. Ana (1’00’’ ): scheila, conta pra mim um pouco da sua história. Sheila (1’02’’) : a minha história é um pouco sofrida. Eu fui expulsa da minha casa com 17 anos de idade devido a minha própria rebeldia mesmo. Com família, tive uma família é...pessoas de bem, mas também teve uma desestrutura familiar na minha família, são pessoas boas só que não sabia lidar com a família, cuidar do filho e meu pai era um presidiário, presidiário foi pra cadeia e minha mãe se separou dele quando eu era muito novinha, então até então minha vida foi dentro de cadeia, visitando ele todo final de semana, férias, final de ano e eu comecei a crescer um pouco rebelde porque minha mãe tinha que trabalhar o dia inteiro pra sustentar a casa, a família, então eu...eu comecei a me revoltar e entrar no mundo da


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criminalidade, andar com gangue, andar com coisas erradas, me envolver com o mundo das drogas, me envolver com o mundo do crime mesmo. Foi assim que aconteceu na minha vida, foi uma historia desde criança até quando eu tinha 17 anos de idade e minha mãe falou, não dá mais pra você andar comigo, morar no mesmo teto que eu moro porque você é uma vergonha pra família, você sujou a família pelo teu testemunho de vida. E eu não tinha o que fazer mais... fui morar na rua. Entrei no primeiro ônibus que apareceu na minha frente, eu morava em Araçatuba no interior de SP entrei no primeiro ônibus que entrei na minha frente e vim embora bater aqui no MS, parar no MS. Mas deus já tinha um plano na minha vida, um propósito, hoje eu entendo, mas tive que dormir na caixa de papelão, tive que passar fome, tive que roubar, tive que fazer muitas coisas erradas pra poder ficar em pé ali, eu tive uma vida muito difícil, sofri muito, é.. Principalmente a dor da família, de abandono, o sentimento de rejeição. Saber que eu não tinha mais minha família e que eu era sozinha no mundo, que era eu e deus. Então eu tive que passar por uma situação bem difícil aí. Ana (3’15’’): E aqui, como você conseguiu se virar? Sheila (3’19’’): eu consegui sair dessa vida através deu ter tentado se matar cinco vezes. Eu tentei cometer o suicídio cinco vezes na minha vida porque eu achava que não tinha mais jeito pra mim, que eu não tinha mais esperança, que eu tinha só que morrer, não tinha mais outro jeito e foi quando eu tentei se matar várias vezes, mas deus ele tinha um plano na minha vida, por isso que ele não permitiu que eu não viesse a morrer porque a palavra de deus fala que aquele que aquele que tem promessa de deus ele não vai morrer, então assim, até um dia eu entrei dentro de uma igreja que foi um dia que eu tentei tirar a minha vida, uma das tentativas, entrei dentro da igreja, um pastor me recebeu, orou pela minha vida e nunca mais eu consegui sair da presença de deus, foi aonde que eu consegui a encarar a vida de uma nova maneira, encarar minhas dificuldades porque na vida da gente, nós vamos ter muitas dificuldade e nós devemos aprender a se preparar pra lutar contra as nossas dificuldades, pra encarar a realidade de frente. E foi aonde que eu comecei a enxergar uma nova vida, comecei a ter uma reestrutura familiar, minha mãe se reconciliou comigo e hoje faz 10 anos que eu luto pela minha vida e pela vida de outras pessoas também. Foi onde que deus me deu um propósito, uma missão aqui na terra pra mim ajudar aquelas pessoas na onde passou também que são usuários de droga, que estavam no mundo do crime e eu vou lá dentro das boca


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de fumo hoje, vou de baixo de uma ponte, vou onde precisar eu ir, eu não tenho medo porque foi por lá que eu passei e hoje eu quero tirar as pessoas da rua também. Ajudar, quanto mais pessoas a gente conseguir tirar da rua e poder oferecer uma nova maneira de viver, assim como eu aprendi, eu também quero o bem pra outras pessoas também. Ana (5’16’’): você acha que foi o seu comportamento agressivo que fez você entrar no mundo das drogas? Sheila (5’20’’): foi um sentimento de... rejeição muito grande que eu tinha que me levou porque assim, eu fui criada numa situação onde que só tinha violência, era surra de manhã, a tarde, a noite, já acordava apanhando, então eu não sei o que que era amor. Nunca recebi um abraço de mãe, de pai, de irmão, de ninguém, era só apanhar o dia inteiro mesmo. Minha mãe trabalhava o dia inteiro e quando chegava a noite, se eu tivesse deixado uma toalha molhada em cima da cama eu já apanhava, apanhava, apanhava, apanhava. Então, eu morava do lado de uma boca de fumo, então a pessoa que tava do meu lado ali, eu comecei a namorar com um traficante, com o filho do traficante e foi pra onde que eu não...não tinha a intenção de fumar, de beber, de nada, mas quando eu me vi, já tava fazendo assalto junto com esse meu namorado. Então, eu creio que, não foi pela agressividade, foi pela falta assim da..da minhas influencias, más influencias,a convivência ali das pessoas. Por eu não ter o amor d aminha mãe, do meu pai, de ninguém. Porque se você não ama seu filho, você não ama sua família, se você não abraça, o traficante vai abraçar. O traficante ta toda hora te esperando pra dar um abraço em alguém, mas o abraço é com a droga, com a arma, com coisas erradas. Então a gente tem que, que hoje eu procuro ensinar as pessoas que convivem comigo a declarar que você ama seu filho, a demonstrar o amor. Que eu, eu era assim, muito triste, a minha vida foi difícil pelo fato que eu queria ter um amor de família e não tinha. Então eu ia procurar em outras coisas, outros meios, eu ia me refugiar a minha tristeza numa droga, eu ia me refugiar a minha tristeza numa bebida, eu ia me refugiar é com más companhias erradas. Foi assim que aconteceu na minha vida. Ana (7’19’’): Você passou por várias situações difíceis na vida. Qual você considera a pior delas? Sheila (7’22’’): Foi ter se separado da minha mãe. Foi quando ela falou assim pra mim ó... “hoje, a minha vida é... você pega a suas malas ta pronta, no


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mesmo teto não dá mais pra você morar”. Eu creio que foi a pior das situações que eu já encarei na minha vida, foi quando minha mãe me expulsou da minha casa e eu não tinha pra onde ir e voce sem rumo, uma menina de 17 anos, sem saber o que que ia fazer. É como se eu me sentisse um passarinho perdido, ferido no meio do mato do deserto. Ana (8’44’’): Onde você encontrou forças para se livrar do vício? Sheila (8’56’’): eu encontrei forçar através de pessoas da igreja NE, que fazem esse trabalho que eu faço hoje porque eu não tinha ninguém. Chega um ponto na vida de uma pessoa que é “adicto”, que é dependente químico que ninguém quer mais, a família abandona, todo mundo, a sociedade. Então, se não tiver pessoas que ainda acreditam no ser humano é difícil. Quando eu me deparei numa situação difícil que eu não tinha mais pra onde ir, eu encontrei pessoas que são pastores, pessoas de Deus, de dentro da igreja que pagaram um preço pela minha vida, que ofereceram uma alegria pra mim que eu não tinha, então eles ali, eles cuidaram de mim, me deram amor. Quando eu recebi um abraço daquelas pessoas, quando eu entrava na igreja parecida que as pessoas tavam fazendo uma festa pra mim, então eu nunca tive isso, abraçava eu, me trava bem, então aquilo lá foi me libertando. Pessoas assim que, eu nunca tive um aniversário na minha vida, dentro da igreja eles fizeram um aniversário pra mim, bolo pra mim. Aquilo lá pra mim era tudo, às vezes a pessoa não tem nada NE. Cria hoje dentro de uma sociedade que tem de tudo, mas tem pessoas que nunca teve, então isso aí pra mim era tudo pra mim. Foi assim que eu fui sai dessa situação devido a pessoas que tem o amor no coração de deus, que estenderam as mão pra mim. O amor ele quebra muitas barreiras, então através do amor de deus que eu fui liberta. Através do amor em deus habitando no coração das pessoas de bom coração NE. Ana (10’34’’): E como surgiu o projeto Jaboque? Sheila (10’36’’): Esse projeto na verdade foi assim, ele começou é...dentro de uma linha internacional lá no Paraguai, aonde que eu...eu tinha um desespero tão grande pra..pra falar de deus pras pessoas, pra falar do amor de deus que eu fiz um convitinho num papel escrito assim: “venha jantar nessa noite comigo porque você é o meu convidado especial”. E eu sai entregando, lá na onde morava, na cracolândia mesmo, lá no Paraguai. Na cracolândia pras prostituta, pros mendigo, pros drogado e sai entregando pra todo mundo. Daí, eu coloquei assim, o horário que tinha que ta lá na igreja pra poder jantar e reuni algumas pessoas pra conseguir legumes, arroz,


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fizemos uma janta bem bonita mesmo. Eu arrumei as cadeiras tudo arrumadinho bem bonito, coloquei um telão com música, de repente, eu achei que não ia ninguém NE, quando eu olho pra aquilo, a igreja tava lotada de mendigo, gente deixando os carrinhos na porta, gente pedindo roupa de frio ali que tava muito frio e aquele monte de gente ali comendo e eu fazia questão de ir lá e servir comida na boca das pessoas mesmo dava, ó aqui ta o suco, aqui ta a comida, o que você precisar pode contar comigo, então virou tipo a quinta gospel NE, o jantar com Jesus. Toda quintafeira, toda quinta-feira era sagrado tava todo mundo lá na beira da igreja e era uma igreja bem pequeninha de madeira e aonde quando vem o frio muito grande em Ponta Porã, as pessoas começaram a querer dormir ali dentro e não cabia todo mundo ali.

Foi aonde que eu consegui doação de madeira, fiz mais um outro

quartinho, abriguei as pessoas ali, daí de repente, as pessoas da sociedade que freqüentavam a igreja começaram a tudo sair fora da igreja, falaram “não ceis é louco, ceis tão colocando tudo bandido dentro a igreja. Vão assaltar nois, vão roubar”, mas eu nunca tive medo deles porque eles nunca fazem mal pras pessoas que verdadeiramente eles sentem o amor NE, recebe o amor, eles não fazem mal. E foi aonde que eu recebi eles, começou o projeto aí, tava cheio daí sensibilizou a Prefeitura de Ponta Porã de ver o nosso trabalho ali e eles fizeram um convenio financeiro, onde que eu aluguei uma chácara e levei todo mundo pra dentro da chácara. As mendigaiada, todo mundo, os drogado, e chama o caminhão, tava lotado assim ó, parecia uns príncipes. E é onde que tem frutos até hoje que é o, depois vocês vão ver o depoimento dele, o Missionário José, era um senhor de 24 de mendigo e hoje já fazem 8 anos que ele está comigo, tem a casa dele, a família dele. Então é tremendo o que Deus faz, se você acreditar no ser humano e acreditar nele e estender as tuas mãos tem resultado. E quando eu ajudo alguém, eu estou me ajudando, então muita das vezes, a pessoa sofre de depressão igual eu já sofri e sofre de várias doenças, mas quando você começa a estender as mãos pra ajudar outras pessoas, você ta se ajudando a si mesmo. É a si próprio que você ta ajudando, isso é engano da gente, ah nós tamo ajudando sendo bom, não a gente ta se ajudando e se eu parar de fazer isso daqui eu morro porque é o ar que eu respiro é tudo. É difícil, é. A gente tem muito desafios, muita dificuldade, mas a gente nunca desiste porque a palavra de Deus fala esforça-te e tenha bom ânimo porque eu sou contigo, então Deus ele só que que a gente se esforça que a gente luta, encara o que tiver que encarar porque no mundo do crime existe uma organização, no mundo


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do crime você não mede esforços pra correr atrás de uma droga, de baixo de chuva, de sol. No mundo do crime, você tira o teu sapado pra dar pro traficante em troco de uma droga, você se humilha pra um traficante. Então, pra Deus a gente também tem que fazer o melhor pra ele. Então, o que eu puder fazer pra ajudar tirar as pessoas da rua sem medir esforços, eu vou fazer a minha parte aqui na Terra com Deus. (14’38’’) Vídeo: “Depoimento Sheila (6)” Ana (00’11’’): Scheila, por que você decidiu abrir mão de ter sua casa, sua família para tocar o projeto? Sheila (00’25’’): Porque é uma...existe uma amor dentro do meu coração que eu nunca tive antes, eu nunca recebi e através desse trabalho que eu faço é onde que eu recebo muito amor, um amor que eu nunca tive de ninguém. Eu sou muito amada por esses meninos, pelas famílias, então assim é... eu renunciei a minha própria vida pra se dedicar pra eles. Eu fui estudar por causa deles, fui fazer uma faculdade de Serviço Social NE, por causa dessa obra, nunca gostei de estudar na minha vida né, então assim... porque eu apanhava muito da minha mãe, então eu ia pra escola de baixo de surra, então de tanto ela me bater eu não prestava atenção na aula. Eu matava aula, eu fazia as coisas erradas, então assim, até estudar eu tive o desejo no meu coração pela vida deles. Então eu renunciei a minha vida porque eu tenho um amor muito grande, no meu coração por eles, eu amo eles de verdade mesmo pode ser quem for, na rua, se tiver lá derrotado e não tem coisa melhor do que eu chegar e ver a restauração na vida deles, o processo todinho. Eles chegando sujo, acabado, sem perspectiva nenhuma de vida NE e depois Deus vai lá limpa eles, tira os carrapicho, tira os espinhos, vai dando “tudinho” a força pra eles vive de novo, daí de repente eles voltam a sonhar, daí de repente as famílias restauram com eles, as esposas, a mãe. É muito lindo, isso não tem preço que paga. É a maior alegria da minha vida é ver eles bem. Ana (1’59’’): Hoje vocês atendem quantas pessoas? Sheila (2’02’’): Hoje nós estamos na faixa de 37 pessoas. É rotativo NE, porque assim, nós gostaríamos de ter um atendimento maior, mas devido a nossa estrutura que nós não temos condições, mas tem época aqui que... igual agora, ta uma fase que ta com bastante pessoas que tem gente que dorme até no chão porque chega da rua e eu não tenho coragem de pegar e falar “não, vai embora”. A


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pessoa vem nesse BR longe, a pé, eles mesmo vem se interna a pé, então a gente trabalha nessa faixa de 37, 40, no máximo. Ana (2’38’’): Como funciona o trabalho aqui? Me conta um pouco da rotina de vocês. Sheila (2’42’’): Funciona assim, existem um cronograma de trabalho aqui, de tratamento. Existe um horário porque assim, quando você ta na rua você não tem disciplina, você não tem horário pra você comer, você não tem horário pra nada. Então, quando eles entram aqui, eles têm que aprender primeiramente a entender que existe normas que aqui existe regras, porque sem regras não há re-correção, não há recuperação. Então, eles começam a ter uma nova disciplina de vida, eles tem horário pra acordar, eles acordam 6:30 da manhã, daí já tem um encontro na sala de reunião onde eles vão fazer uma oração, tirar uma palavra, abençoar o dia deles. Quando é 8 horas eles tem que tomar café da manhã, daí 8:15, no máximo, eles já tão no arraial que a gente fala, arraial é todo esse campo de futebol, toda as dependências da chácara, é onde que é distribuído a laborterapia pra eles suarem, pra eles trabalha, pra eles poderem desintoxicar o organismo deles. Ali uns tem habilidade pra poder ir trabalhar com horta, outros com os animais, outros pra serralheria, outros na área de construção civil, outros com a cozinha, então tem muitas coisas. Daí quando é 11h da manhã, para todo mundo de novo, fazemos uma nova reunião e daí nós trabalhamos com provérbios da bíblia, cada um lê um provérbio e vai dando seu depoimento vai desabafando, vai falando aquilo que ta preso no coração porque tem pessoas que entram aqui que nunca conversou com ninguém devido a tanta criminalidade , devido a cadeia, a prisão, ta preso. Então, essas reuniões servem pra poder estar desabafando, ajudando. Depois desses provérbios tem o almoço, aí do almoço depois à tarde a gente faz reunião de grupo, reunião de confronto, a gente faz um circulo, todo mundo se confronta um ao outro “ah eu não gostei disso em você, você tem que mudar naquilo”, é tremendo, voa pena pra todo lado ali, mas é isso que é a intenção, da gente ensinar eles aprender que nem tudo se resolve no 38, nem tudo se resolve na arma que aqui a gente tem que resolver na educação, a ceder, muitas das vezes você vai ter que ceder, muitas das vezes você vai ter que entender onde você ta errando. Então, aqui é uma disciplina, daí tem outros dias na semana que é terapia ocupacional, eles trabalham com oficina de artesanatos, o lazer deles, tem filmes educativos, palestras, então


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tem muitas coisas que eles fazem aqui mesmo, se eu for falar tudo aqui, nós vamos ficar...nossa, muito tempo, muita coisa mesmo. Tudo pra recuperação deles. Ana (5’27’’): E financeiramente, como vocês mantém o projeto? Sheila (5’29’): Pela misericórdia de Deus, essa é que é a verdade. Financeiramente aqui, a gente passa assim, é um desafio, uma luta, um desafio todo dia. Eu fico indignada com essas coisas quando as pessoas reclamam da vida, tem tudo dentro de casa, tem tudo. Aqui, a gente tem que lutar pra você ter um saco de arroz, um sabonete, uma pasta de dente, aqui a gente trabalhar, financeiramente hoje a gente não tem um convenio com o governo, não temos de nenhum órgão público, nada. Financeiramente, a gente tem que trabalhar com a nossa própria produção, nós vendemos desinfetante na rua, nós vendemos artesanato, espetinho, trabalhamos, a gente trabalha. As famílias que tem condições de ajudar, porque ás vezes tem famílias que vem e falam “não, eu quero ajudar”, elas contribuem com 250 reais por pessoa, por mês e olhe lá ainda porque se fazer um levantamento, se tiver três famílias que pagam aqui é muita, é muita. Então assim, é pela fé mesmo, pelo nosso trabalho, pelo trabalho dos meninos que agente faz o projeto funcionar e pelo coração de boa vontade das pessoas, igreja NE, nós temos um grupo coral aqui, teatro que a gente vai muito nas igrejas, nas igrejas

a gente arrecada

alimento, arrecada doações pra que a gente vai, é uma re-socialização pro meninos também e arrecada alimentação. Ana (6’55’’): E o que você acha mais difícil nesse trabalho? Sheila (7’00’’): O que eu acho mais difícil, no trabalho, no projeto assim, é o esforço físico NE porque você tem que ter muito esforço físico mesmo né, a mente, o desgaste emocional. O que mais dói na gente é quando a gente perde uma alma, essa é que é a verdade, quando a gente luta, luta, faz de tudo por aquela pessoa e você vê ela na rua novamente. Isso aí dói muito na gente e o que é difícil é o financeiro também NE, que a gente tem que se esforçar muito pra pagar a energia desse lugar, tudo NE, vem 1358 reais energia aqui, é muito caro. Então é difícil, a gente tem que manter a alimentação, manter a energia, tudo, é tem muita dificuldade essa situação e tem que ter muito tempo pra eles, muita dedicação porque muita das vezes você não precisa fazer quase nada, só ouvir eles, ouvir, ter paciência pra ouvir coisa que nunca ninguém teve com eles porque as pessoas só xingavam só isso, seu aquilo, mas nunca pararam pra acreditar neles.


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Ana (8’08’’): Pelas experiências que você já passou na vida, você acha que isso te tornou uma pessoa diferente? Sheila (8’16’’): Me tornou. Uma pessoa mais assim, madura NE. No caso, por todas as experiências que eu tive até hoje, o sofrimento NE, tudo, tantas coisas, me tornou uma pessoa assim, mais é... como se fosse preparada pra encarar o problema de frente NE. Que o problema vai vir, então tem que aprender a encarar porque assim, outras vezes, eu não tinha essa visão via o problema na minha frente e eu ia me refugiar em outras coisas, numa droga, num álcool, na bebida, num baile, numa dança, eu não sei. Hoje não, eu vou me refugiar nos pés de Jesus, e sabendo quem é Ele, quem é Ele pra me tirar dessa situação, que ele pode me tirar dessa situação. É assim que acontece. Ana ( 9’09’’): Você se arrepende de algumas coisas? Sheila (9’11’’): Me arrependo de não ter obedecido a minha mãe porque eu batia de frente com ela, ela é uma pessoa que tava lutando pela minha vida, então assim, eu me arrependo sim de não ter dado ouvido pros conselhos da minha mãe que foi ela teve que chegar ao ponto que uma mãe não quer jamais pra um filho, então eu me arrependo muito dessa situação de... de não ter é...dado ouvidos aos conselhos da minha mãe e ter me...porque minha mãe falava assim “não se envolve com esse vizinho, não se envolve com esses namorado errado daí que CE tem” e é onde que eu ia lá e achava que ela tava implicando com a minha vida e daí que eu me envolvia mesmo. E olha o que eu ganhei rua. Rua, tristeza, solidão, foi isso que eu ganhei por não ouvi a minha mãe. Mãe é mãe, pode ser o que for, mas se ela falou alguma coisa pode ter certeza que ela quer só o seu bem. Ana (10’10’’): Você se considera um exemplo de superação? Sheila ( 10’14’’): Eu creio que sim NE, porque pelo fato assim que eu passei eu já podia ta morta uma hora dessa e hoje eu...tem pessoas que chagam pra mim e falam assim “ eu não sei como que você agüenta passar por isso”, porque olha, eu sou roubada muita das vezes, já roubaram meu carro já tanta coisa que aconteceu comigo e eu ainda to lá sempre aberta um sorriso pra pessoa pra ajudar. O cara que roubou meu carro, eu coloquei ele dentro do... ele me ligou, aí me arrependi, me perdoa, não sei o que e eu fui lá, todo mundo “chama a polícia, prende ele”. Coloquei ele dentro do carro, ele chorou, me abraçou, pediu perdão e ainda estendi a minha mão e levei ele pra outra casa de recuperação, pra se recuperar. Isso daí é “doidura né” pra quem olha de fora, então eu creio que eu tenho uma superação


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muito grande na minha vida assim, pelo fato que tudo que eu já passei e agüento ainda hoje porque não é fácil cuidar de casa de recuperação, é terrível, é difícil mesmo e eu tenho tido força em Deus porque de mim mesmo eu não tenho força, mas de Deus. Deus tem me dado capacidade e... e... discernimento pra mim ta auxiliando porque, agora você imagina, eu sou uma mulher cuidando desse bando de homem que antes não obedecia ninguém, não obedecia traficante, não obedecia polícia, não obedecia nada e aqui pra mim eles abaixam a cabeça e falam “não senhora”/”sim senhora”, isso é Deus e obedece ainda. Isso é Deus, não existe isso e obedece ainda, fica quietinho. É incrível, não é eu, eu não posso nada, mas Deus pode. Deus através da minha vida...Deus, Ele só ta procurando alguém voluntário pra se oferecer porque a obra de Deus ta carente na Terra, então precisamos de soldados NE. Ana ( 12’06’’): Hoje você tem algum sonho? Algum plano pro futuro nesse Projeto? Sheila (12’11’’): Tenho, nossa, eu tenho muito sonhos. Cada dia eu vivo sonhando, hoje mesmo eu tava sentada ali, você acredita que eu sonhei que eu tava...que aquele Luciano Huck tava chegando aqui na chácara e eu falando assim “Meu Deus..” e ele arrumando...tem hora que eu começo a...é umas coisas que não tem nada a ver e eu tenho um sonho sim, eu tenho um sonho de ter uma ONG assim é...que hoje é o trabalho hoje é muito interno, mas ter uma ONG independente, sem precisar a gente se matar tanto pra trabalhar assim NE, tem uma ONG onde tem seus funcionários, tem os carros da ONG, tudo certinho, motorista, enfermeiro, é o meu sonho esse daí, vê os próprios meninos que foram recuperados tendo as casas deles pra morar, esse é o sonho que eu tenho de ver eles bem, assim eu vou estar bem também. Ana (13’00’’): E apenas de todas as dificuldades que você enfrentou e ainda enfrenta, você se considera uma pessoa feliz? Sheila (13’09’’): Muito. Muito feliz mesmo. Hoje eu sou muito feliz, eu tenho tudo que eu preciso que eu nunca tive antes na minha vida. Eu era uma pessoa muito ruim, é que hoje as pessoas falam “ você conversa já dando risada”, mas eu era uma pessoa terrível andava só de roupa preta, apesar que ainda eu gosto de um preto assim NE, assim eu andava com revolver armada, as pessoas olhavam pra mim assim eu falava “que CE ta olhando pra mim? Quer morrer?” , eu era muito triste, eu só tinha essa transferência na minha vida, referencia de violência, de


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tristeza, então eu não sabia o que que era sorrir, que que era me alegrar. Hoje, a gente se diverte a toa. Eu fui levar um casal agora no médico, a hora que a gente vinha voltando paramos na porta de uma barraca de laranja e começamos a comer paçoquinha e tomar coca-cola ali e dando risada, sem motivo, cheio de problema pra encarar e a gente dando risada, rindo, alegre porque essa alegria não vem de mim, vem de Deus. Então hoje, eu sou uma pessoa muito feliz pelo o que eu faço e dou graças a Deus por Deus ter me livrado, ter me restaurado, me tirado da morte mesmo porque eu tava no vale da sombra da morte e hoje eu estou livre NE, livre para adorar a Deus, livre para demonstrar minha alegria para as outras pessoas e ajudar as pessoas. Hoje eu sou feliz! Vídeo: “Depoimento Sheila (7)” Cecília (05’00’’): se você pudesse deixar algum recado para alguém que passa pela mesma situação que você passou, qual seria? Sheila (13’00’’): Pra não desistir. Se você um dia passou por uma situação como eu, não desiste, encara tua vida de frente porque você vai ter o resultado ainda que as pessoas não acreditem em você porque ninguém acreditava em mim, as pessoas falavam que eu era um lixo pra sociedade e eu até esqueci de...dar um...até vão pagar a passagem de avião pra mim viajar, de ida e de volta pra mim pregar lá em Brasília. Você acredita? Então assim, creia meus irmãos que Deus vai bradar, a dupla honra vai chegar à vida daquele que não acredita. Deus é um Deus de dupla honra, de vitória, de prosperidade, de alegria. Você que hoje ta lá no fundo do poço mesmo, sem perspectiva nenhuma que está usando droga, cigarro, acha que já acabou que esse vício nunca vai sair da sua vida. Isso é mentira, vai sair sim porque Jesus não te colocou esse vício quando você nasceu, você nasceu com a marca do sangue de Jesus cristo, então ele vai te levantar dessa situação. Ele vai mudar a tua história, você que está humilhado, derrotado, Deus vai te fazer um vencedor, então você levanta sua cabeça, procura alguém pra te ajudar. Procura uma casa de recuperação, procura uma igreja, procura uma pessoa de bem que aquela pessoa ali ela vai te ajudar vai te conduzir para o caminho da vitória. Não abaixa a tua cabeça, lembra que você é mais do que vencedor, em nome de Jesus. Amém?!


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Imagens de Apoio – Scheila – 26 de setembro Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (1) – Canto de louvor; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (2) – Canto de louvor; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (3) – Canto de louvor; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (4) – Estudo da Bíblia; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (5) – Estudo da Bíblia; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (6) – Estudo da Bíblia; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (7) – Estudo da Bíblia; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (8) – Estudo da Bíblia; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (10) – Futebol; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (11) – Futebol; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (12) – Futebol; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (13) – Artesanato; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (14) – Artesanato; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (16) – Cuidados horta; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (17) – Cuidados horta; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (18) – Tocando o sino; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (19) – Serralheria; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (20) – Lanche e oração; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (21) – Lanche e oração; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (22) – Lanche e oração; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (23) – Lanche e oração; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (24) – Lanche e oração; Vídeo “Imagens de Apoio Scheila” (25) – Lanche e oração;


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APÊNDICE G

Decupagem – Lilian – 29 de setembro Vídeo “Depoimento Lilian (4)” Lílian (0’08”) – Posso começar? Tá. Meu nome é Lilian Silvestrini, eu sou mãe do Breno. É, o Breno e o Leo foram vítimas de um sequestro, é, feito por umas pessoas que queriam roubar um carro pra levar pra Bolívia, onde esse carro seria trocado por cocaína. É... Na infelicidade que eles tiveram, porque eles não eram a vítima escolhida, né, existia uma outra pessoa que esses bandidos estavam já há dias na cola, mas, naquele dia, a pessoa não apareceu e eles precisavam levar esse carro pra Bolívia naquela noite. Então o primeiro carro que eles acharam que valia a pena pra substituir o outro eles, eles roubaram, né, e isso foi feito de uma forma bem... Assim, violenta no meu entender, porque eles, é, pegaram os meninos de surpresa, quando iam entrar no carro, e renderam eles porque eles tinham armas, eles não esconderam o rosto, nada, e foram com eles pra saída de Rochedo, e lá eles maltrataram muito os meninos, e depois executaram os meninos porque eles também queriam mostrar que eram pessoas capazes de matar e, portanto, capazes de entrar pro mundo do crime, que é o que eles queriam conforme eles mesmos disseram. É... Naquele dia, a última vez que eu vi meu filho foi logo depois do almoço, é, nós estávamos na sala de TV conversando e, a família toda reunida, e ele tava mostrando um passo de dança que ele tinha aprendido. A gente tava muito feliz e achando aquilo tudo muito engraçado porque ele era um menino muito tímido. E eu levantei do sofá, me arrumei, fui embora trabalhar, e falei “tchau” pro meu filho. E nunca mais eu vi o Breno, porque uma hora e pouco depois ele avisou o pai dele que tava indo lá pro Parque das Nações pra andar de bicicleta. Uma coisa que ele fazia sempre mas na companhia de vários amigos. Naquele dia nenhum deles podia, e ele não queria abrir mão de fazer esse, esse... Como que eu digo. Não é, não era um treino, não era nada disso, era um passeio que ele gostava de fazer, né, e meu marido ficou preocupado porque ele ia pro Parque das Nações, e aí tem trânsito, né, então pediu pra ele ter cuidado e ele disse: “não, pai, fica tranquilo que eu pego as


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ruas mais calmas”. Lá ele encontrou, depois de dar várias voltas, ele encontrou o Paulinho, que é primo do Leonardo, e ele tava de skate ou longboard, não me lembro, então eles ficaram ali, né. E todos os amigos do Breno e do Leonardo, nessa época, estavam todos aqui, porque eram todos alunos de universidades federais e as universidades federais estavam em greve, então eles não tinham muito o que fazer, né, eles estavam com o tempo completamente ocioso. Então o que o Breno mais gostava de fazer era nadar, andar de bicicleta, jogar futebol, brincar com o Nero, que é o nosso cachorro aqui, um labrador que ele amava muito. Enfim, ele dividia o tempo dele nessas atividades e a que ele mais gostava: estar com os amigos. Então final do dia eles se reuniam pra fazer alguma coisa. É, isso sempre acontecia, geralmente, aqui na minha casa ou na casa da Ângela. E sempre foi assim. O Breno e o Leonardo, eles eram amigos desde pequenininhos, desde que eles estavam entrando no primário. E eles se tornaram, é, muito amigos. Eram como irmãos. Era uma amizade muito linda, porque eles deixavam de fazer qualquer coisa pra estarem juntos. Não só o Breno e o Leo, como toda a turminha, que eram em torno de uns 10 meninos, que estudaram juntos todos esses anos e que nesse período, que já estavam na universidade, cada um tava morando num lugar, então eles faziam de tudo pra estar juntos o tempo que podiam. O Leo tinha começado naqueles dias um estágio, é, voluntário na... Defensoria Pública. Então por isso que ele também não tava indo andar de bicicleta com o Breno. Porque ele estava fazendo serviço voluntário. Então, é, o Breno e o Paulinho, já no finalzinho da tarde, ligaram pro Leo, o Leo falou que já tava indo pra casa, e eles resolveram ir pra casa do Leonardo se encontrarem pra ver o que eles iam fazer naquele dia, naquela noite. E, é, assim foi, né. Quando o Leo chegou na casa dele, é, a Ângela tava lá já, depois do trabalho e tava estudando pra uma prova, ela fazia um curso a noite também, e logo depois chegou o Breno e o

Paulinho. E ali eles conversaram,

brincaram com a Ângela, lancharam, passaram um tempo, e ai ligaram pros outros amigos e resolveram ir pra um barzinho aqui da cidade, que é muito frequentado, e eles iam lá pra, pra carimbar o braço, porque assim depois eles poderiam entrar mais tarde sem o custo do ingresso. E foi o que eles fizeram. Eles foram pra esse barzinho, encontraram com todos os outros amigos, todos fizeram a mesma coisa, jogaram 20 minutos de uma partida de sinuca e ai eles saíram do bar pra vir pra casa, tomar banho, comer, e mais tarde voltar pra ver uma banda que eles queriam


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assistir. E foi na saída desse barzinho, as oito e meia da noite, que esses bandidos pegaram os meninos e deram fim a vida deles. Ana (7’03”) – Lilian, você pode me falar um pouquinho da personalidade dos meninos? Você falou que eles eram muito amigos, né? Lilian (7’10”) – Os meninos eram, é, completamente opostos um ao outro. O Breno, aqui em casa, ele era o xodó, porque ele era o caçula. Eu tenho duas filhas mais velhas, sendo que uma tem apenas um ano de diferença do Breno, e a outra que tem cinco anos a mais que ele. Então ele era o xodó da casa por ser o único menino. Então realmente é, nossa, era o nosso... Era o nosso xodó. E ele era assim um menino muito alegre, é, muito observador, muito calmo. A pessoa mais calma e bondosa que eu já conheci na minha vida, porque podia assim tar todo mundo nervoso, arrancando os cabelos, e ele sempre dizendo “calma, pessoal, vamos pensar com calma que tudo se ajeita”, então ele era que aqui dentro de casa acalmava as meninas, acalmava o pai, nos momentos que havia alguma tensão, alguma discussão. E com os meninos, com os amigos dele, era a mesma coisa. Ele era aquele que centralizava, que, que os meninos de juntavam em torno dele. Era uma coisa muito interessante, porque a gente não costuma ver isso, é, esse comportamento em rapazes, em meninos. Mas sempre foi assim. Era um amor tão bonito, tão puro, tão sincero que encantava todo mundo. O Leo era um rapaz agitado, um rapaz cheio de questões dentro dele, muitas perguntas, mas era também muito alegre, extremamente amoroso, extrovertido. Então assim, ele era o oposto do Breno, né. O Breno era muito quieto, ele só conversava, assim, coisas importantes com pessoas que ele tivesse assim muita intimidade. Fora isso ele só ia assim conversar assuntos triviais com as outras pessoas. E... Na medida que ele foi crescendo essa, essa peq... Essa pequena parte da personalidade dele de ser muito observador foi se tornando algo, é, de muita valia, tanto pra nós aqui em casa quanto pros amigos, porque quando tinha um conflito lá no grupo de amigos, e eles discutiam por tudo, eles só se acalmavam quando eles diziam pro Breno dizer o que que o Breno achava. E quando o Breno falava, então, acabava a briga, acabava a discussão, e todo mundo acatava o que o Breno dizia. E aqui dentro de casa também era assim. E ele fazia umas colocações que deixava todo mundo “nossa, da onde ele tirou isso”, né. Porque ele ficava quietinho no canto dele, observando, e ai ele falava o que tinha que ser dito. Naquele momento e praquela pessoa. Então ele se tornou, assim, aqui dentro de casa ele era o nosso anjo da guarda, porque a


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gente queria ter ele sempre perto, porque ele tinha essa, ele passava pra gente essa coisa tão boa, tão espirituosa e tão tranquilizadora. E lá nos amigos era a mesma coisa. Então onde o Breno ia, ele, ele transmitia isso. Foi isso que meu filho deixou de mais importante, mais marcante pra mim. Os animais, as crianças, né, ele... Eu tenho sobrinhos pequenos e ele não tinha o menor pudor de sentar no chão e brincar com aquelas crianças. Ele passava horas, uma tarde inteira, um dia inteiro, correndo com a gurizada, empurrando as pequenininhas naqueles triciclos pra elas aprenderem a pedalar, ensinando os maiores, os meninos maiorzinhos a jogar futebol, ensinar a nadar... A paciência era assim infinita. E o Leo já, ele trazia assim uma, uma alegria de viver, uma... É difícil explicar, mas nos tivemos momentos muito bonitos com o Leonardo aqui em casa, porque como ele era muito chegado do Breno, é, desde que ele começou a, a viajar pra estudar fora, quando ele chegava aqui de feriados, féria, qualquer coisa que ele viesse fazer, ele vinha direto aqui em casa, porque os pais tavam trabalhando, ocupados, então ele vinha direto aqui pra, pra ver a tia e o tio, né, os pais do Breno, eu e o Rubens. E ai a gente sentava se tivesse tempo, porque as vezes o Breno tava sempre ocupado, então ele esperava o Breno chegar. E ele contava da vida dele e ele falava das ânsias e das questões que o atormentavam, e da falta que ele sentia da família, da falta que ele sentia dos amigos, dos sonhos deles, e isso era também muito bonito, porque eles tinham sonhos muito parecidos. Eles queriam, assim, viajar muito pelo mundo e sentir, eles queriam ter a... A possibilidade de se sentirem livres pra andar pelo mundo. Mas um mundo, é, onde não existisse violência. Eles falavam muito disso. Porque eles se revoltavam com, com essas coisas que a gente vê na televisão o tempo inteiro, né. Todo tipo de violência. Principalmente com crianças e animais. Com a, com o meio ambiente. Isso incomodava muito eles. É... Mas eles foram é, meninos, é, normais, que, que saiam, que namoravam, que dançavam. Só na era, isso não era o mais importante, eles não... A prioridade deles não era “pegar” todas as meninas, não era encher a cara, não era... Sabe. É, eles não eram ligados em coisas materiais, pelo menos o Breno era muito desapegado de tudo, eu ficava muito incomodada porque eu falava “ai, filho, eu vou te dar o celular tal”, “nem pensar, mãe”. Porque como ele não era, né, ligado a isso, ele acabava largando em qualquer lugar, ele esquecia celular, chave de casa... Então assim, ele tava livre. Ele era um ser que passou por aqui

de

uma

forma

completamente

leve,

completamente

desapegado,

completamente... Ele só queria estar junto. Com a família, que ele amava essa


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família demais, e com os amigos dele. Mas as vezes ele também não queria sair com os amigos, era muito engraçado, porque os meninos ficavam ligando, ligando, ligando, e ele falava “pô, cara, não to afim de sair, hoje eu quero ficar em casa, quero ver um filme”, ele gostava muito de ver filme, ele, ele tinha informações, muitas, sobre cinema, sobre diretor, ele sabia ano, enfim, ele tinha muitas coisas que o Breno gostava. E... E os meninos insistiam. Insistiam, insistiam, até que ele falava “mãe, da um jeito nesses guri. Eles vão ligar aqui em casa porque eu falei que você não tava querendo deixar eu sair. Então você vai falar que bem brava no telefone que eu to de castigo, qualquer coisa que você quiser falar”. E claro, né, eu fazia o que ele me pedia, e ai os meninos não podiam discutir com a tia Lilian e ai então ele conseguia ficar em casa, né. Mas assim, era a mentirinha mais boba que o Breno podia contar pros amigos dele era essa, né. Teve algumas vezes que ele cabulou aula e foi pro cinema e a gente acabou descobrindo, e era muito engraçado, porque vinha ele e os amigos tudo com o rabinho no meio das pernas, murcho, né, e a gente bravo porque eles tinham matado aula e, e os meninos... O Breno demorava pra atender o telefone e os meninos atendiam e falavam que não sabiam dele. Mas quando ele resolvia atender o telefone ele não conseguia mentir pra gente. E ele falava “eu tô no cinema, mãe”. E ai então ele sabia que a coisa ia ficar feia, e ai os meninos vinham aqui pra dizer que a culpa era deles e não do Breno. Como se o Breno não tivesse saído da aula, né, no horário inadequado. Então assim, coisas normais de adolescentes, né, tudo igual a todo mundo. Mas eles tinham esse quê especial dessa, dessa bondade, dessa pureza, dessa alegria, desse contato com a natureza que pra eles dois eram muito importante, né. O Leo gostava muito de praticar esportes, não tanto quanto o Breno, mas também, e o Leo tinha outros dons. Ele, ele era um poeta. Ele tem poesias lindas, mas sempre poesias pesadas, poesias que transferem uma angustia, um... Enfim. A gente não sabe, mas, né, depois que eles se foram tudo isso passou a ter significado pra nós. E... Ele também gostava de tocar violão, de cantar, então assim, eles centralizavam um grupo de meninos que também sofrem muito, porque eles fazem muita falta. É, são duas pessoas que fazem diferença pela ausência, né, eu acho que se eles tivessem tido a oportunidade de chegar a idade adulta e, e poder construir todos os sonhos que eles tinham, que eram muitos, eles fariam muita coisa boa nessa terra Vídeo “Depoimento Lilian (6)”


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Ana (0’04”) – Lilian, em algum momento você se revoltou com o que aconteceu? Com alguém, com algo... Você sentiu esse sentimento de revolta? Lilian (0’14”) - ...Eu tive um sentimento de revolta depois de muitos dias, porque no começo você fica completamente anestesiado. Ou o contrário, não sei. É tanta dor, dói, dói tudo, dói a alma, dói o corpo, dói tudo, então você é só dor. Mas quando você começa a sair daquilo, eu... Eu nunca tive raiva de Deus, muito pelo contrário, eu nunca tive raiva desses assassinos, eu fiquei revoltada com a vida, porque eu sempre, é, aqui, aqui nesta família, a gente sempre teve, é, por ideal, por padrão de comportamento sermos pessoas boas. A gente, é, criou os filhos pra serem educados, pra amar o seu país, pra preservar a natureza, os animais, então a gente, você nunca imagina que uma coisa tão horrorosa como essa vai te acontecer. Que o filho que você esperou tanto, que você, sabe, amou, educou, que você vê aquele ser, é, uma fonte de tanta coisa boa, ser tirado de você do jeito que foi, é, eu achava que a vida era muito injusta. Mas isso é uma coisa que é no começo, né, depois você vai amadurecendo e, em relação a esse sentimento, e vai entendendo que hoje a minha opinião é que a vida é feita de coisas boas e coisas más. E que você escolhe, né. O Breno era uma pessoa do bem, de bem, e jamais faria nenhum mal pra ninguém. Outras pessoas escolhem o mal. E naquela noite, é,por eles serem, é, eu acho, muito jovens completamente, é, que é o que mais nos preocupa hoje, a mim e Ângela, eles eram completamente ingênuos em relação a violência, porque como eles não viviam isso, nunca viveram isso, nunca viram isso, é, pelo menos o Breno, ele deve ter tomado um susto muito grande, e uma coisa que a gente também sempre ensinou é que, no caso de um assalto, alguma coisa que, pela orientação que a gente tem, é, por policiais que a gente vê na televisão e tudo, a recomendação é não reage, não olha nos olhos do bandido, então eu tenho certeza que os meninos fizeram o que eles aprenderam, o que eles foram ensinados. É duro porque a gente ouviu tantos comentários maldosos, por isso que eu acho que o mundo é, ele é realmente dividido entre coisas boas e coisas más, e que você escolhe. E a gente escolhe o tempo todo. O tempo todo você escolhe entre falar uma coisa boa ou uma coisa má, pensar uma coisa boa ou uma coisa má, e fazer uma coisa boa ou uma coisa má. Então assim, naquela noite, no embate do bem e do mal, o mal era muito mais preparado, era muito mais determinado, e os meninos não tiveram chance. Mas eles continuam sendo do bem. Justamente por isso eu acho que mesmo as pessoas que nunca viram os meninos e que depois, de


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alguma forma, chegaram até, até a gente, e passaram um sentimento de dor tão grande por dois meninos desconhecidos, que eu acho que as pessoas quando viam as fotos deles e todas as reportagens sobre a morte deles, elas sentiam... (Choro). Lilian (4’46”) – Desculpa. Ana (4’47”) – Imagina. Lilian (4’58”) – Elas sentiam... É... Toda bondade e pureza que existiam neles dois. É... Eu e a Ângela, principalmente, a gente se questionava muito, né, é, todos, todos os fatores que envolveram o assassinato dos meninos e nós chegamos a conclusão de que não, não foi só a maldade daquelas pessoas, e a ganância, e a impunidade que existe, que isso estimula muita gente a ser má e ser bandido, e fazer essa escolha, mas, é, caminhos que nos levam aqui pra países vizinhos, né, a Bolívia e o Paraguai, onde não existe nenhuma, é, nenhuma forma de, de, de proteção, né, vamos dizer assim, nenhuma forma de fiscalização, nenhuma forma de identificação daquilo que entra e sai do país. Então tanto faz se entra um bandido e se vai uma vida. Ninguém liga. Então, disso tudo, nasceu, pra nós, a certeza de que nós tínhamos que fazer alguma coisa pra lutar, pra que essas portas tenham, é, uma forma de controle, né, pelo menos nas rodovias principais. E naquilo que não é rodovia, que é mata seca, que é estrada vicinal, que são as cabriteiras, que instrumentos de, de, de localização e de rastreamento possam estar o tempo todo, é, cuidando, como em outros países é. E foi ai que nós então, né, tivemos a ideia de criar uma associação que se chamou “Mães da Fronteira”, né, porque, mães porque nós somos as mães desses dois meninos e representamos todas as outras mães, esposas e filhos e pais e maridos que já perderam alguém. É, por mais que outras pessoas, é, tentaram e pediram, nada aconteceu. Eu nem sei se a gente vai conseguir, mas nós vamos continuar lutando pra que isso aconteça. Esse é o grande objetivo da nossa Associação, é... Fazer com que o governo, tanto, principalmente o federal, quanto o municipal e estadual, é, façam aquilo que nunca fizeram, né. Proteger os filhos dessa nação. Esse é o nosso lema. Por uma nação que proteja seus filhos. Porque ninguém não tá nem aí, né, como isso aqui é, sei lá, a casa da mãe Joana, é, o Brasil tá aberto pra, pra quem quiser vir e explorar a, a ingenuidade e a ignorância dos brasileiros, é, tá muito fácil. Então nós vamos cobrar e vamos, é, reclamar e vamos fazer tudo que pudermos fazer pra, é, sinalizar que alguém se importa e que alguém vai tar sempre cobrando e reclamando enquanto essas portas do fundo estiverem abertas.


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Ana (8’52”) – É... A Associação foi uma maneira também de você lidar com a dor, a criação da Associação? Lilian (9’00”) – A Associação, quando a gente começou a pensar nela... Ela surgiu, é, primeiro dessa necessidade premente que a gente tinha de fazer alguma coisa. Porque pra mim e pra Ângela, é, a gente tinha a certeza dentro da gente que essa morte não podia ser mais uma de tantas que acontecem aqui. É, não, de jeito nenhum, porque é meu filho, né, que eu vou amar pra toda a minha vida e pela eternidade, e por ser a pessoa que eu contei pra vocês que ele era, por ter sido uma morte tão, tão bruta, tão desumana, tão desrespeitosa, tão agressiva, tão... Enfim. É... Eu pelo menos não vou nunca me calar, e vou questionar sim, então assim, isso surgiu como uma forma da gente... Aquele grito que fica sufocado... Era uma válvula de escape. E isso foi, é, nos fortalecendo a medida que a gente foi, é, criando situações e criando eventos, até poder transformar a Associação em associação, porque isso demanda você ter pessoas junto que, que compartilhem do mesmo ideal, documentação, enfim, toda essa trabalheira jurídica, porque pra você ir cobrar do governo alguma coisa, como pessoa física você não é nem recebido. Então é importante que a gente se transformasse numa entidade jurídica. E sim, foi uma, uma forma de... Amenizar a dor. Enquanto a gente tá muito envolvido com a associação e conversando com outras pessoas, e dizendo pra elas que se você começar a fazer alguma coisa e não ficar, é, não se deixar abater pela dor, até porque a vida segue e ela se impõe. É, chegam contas pra você pagar, os seus filhos tem fome, é, a casa precisa ser limpa, o seu trabalho te cobra, enfim, você tem que reagir. A vida cobra isso. É, é uma coisa que, né, que existe em nós, os seres humanos, uma, uma capacidade que se chama “resiliência” que está presente em todos nós, mas é preciso que, que, ã, que a gente permita que, que essa força que existe dentro de nós, e que daí dentro de mim isso tudo é muito espiritual até, né, e principia pelo maior e canaliza pela nossa mente, pelas nossas emoções e, e então tem esse nome bonito pra psicologia, pra medicina, mas na verdade eu acho que é uma capacidade porque Deus está presente dentro de cada um de nós, e isso vai fazendo você buscar cada vez mais dentro de você aquilo que você tem de bom. Aquilo que você pode fazer pra ajudar o próximo, aquilo que você pode fazer pra perpetuar, é, a personalidade, a pessoa do Breno e do Leo. Esse pra mim é o grande, é, é, é o grande objetivo, é, afetivo, é, de mãe, é, é deixar uma deles muito forte, assim como foi a partida deles e, então, isso, isso te levanta, isso


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faz você ir a luta, isso faz você buscar algo novo todo dia. Não vou falar pra vocês que não tem dia que a gente tá no fundo do posso sim, a gente fica muito mal, porque... É o meu filho que foi embora. Eu sinto uma saudade enorme dele, e tem dia que essa saudade ela simplesmente me engole. E eu me dou o direito de passar aqueles dias mergulhada na minha saudade pra poder tomar um fôlego e continuar. E é assim que eu funciono. E é uma coisa assim, muito interessante, porque eu e a Ângela nunca fomos amigas. A gente se conhecia, a gente já tinha até saído juntos e a gente sempre se falava na porta da escola, e quando ela viajava eu carregava o Leo, quando eu viajava ela carregava o Breno, e eles dormiam muito na casa um do outro, enfim, a gente se falava por telefone, mas não éramos íntimas, a gente nem sabia direito uma coisa da outra. E depois que eles se foram, nós, nós nos, nós nos precisamos muito, é, e as vezes eu ficava aqui pensando, logo que eles se foram, eu tinha uma necessidade muito grande de falar com ela e de repente o telefone tocava e ela tava me chamando, que precisava falar comigo, e era exatamente o que eu ia fazer. E quando a gente ia conversar eram as mesmas coisas que a gente tinha pra falar. Então isso tudo pra nós teve um significado muito grande, muito maior, de que existe mesmo uma, ã, um plano que ele vai surgindo e quando a gente se dá a oportunidade você pode perceber isso e você pode, então, trilhar esse caminho e cumprir essa missão. Então, é, nós tínhamos essa certeza de que eles iniciaram um caminho e nós duas vamos terminar esse caminho, nós vamos terminar esse projeto. E... E isso tudo era espontâneo, era uma coisa que ultrapassa qualquer explicação. A gente sentava pra conversar e o que eu ia dizer pra ela era a mesma coisa que ela ia dizer pra mim. Então da onde que vinha isso, né. Pra nós isso é algo totalmente espiritual como a amizade deles, é, é a única explicação que tem. Por serem tão diferentes mas ao mesmo tempo essa afinidade tão grande... É, quando o Breno fez 15 anos a namorada dele fez um vídeo, gravando depoimentos dos amigos, e tem a, a parte do Leo, que é muito linda e você olha aquilo, mesmo na época a gente falou “nossa, que amor lindo”, porque eles só tinham 15 anos. E com 15 anos meninos só são meninos crescidos. As vezes com um pouquinho de barba. São só meninos crescidos e, e a gente não vê. Eu nunca vi, eu trabalho com adolescentes, eu tenho outras filhas, já passei por vários amigos e amigas, minha casa ta sempre cheia de adolescentes. Hoje já mais velhos um pouco, mas eu nunca vi uma amizade assim, e, e a explicação que a gente tem é que tudo isso é muito espiritual. Então, é, eu tenho certeza que eu vou reencontrar meu filho, tenho


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certeza absoluta. É... Vou reencontrar o Leo também, e, a gente vai fazer o que a gente tem que fazer. Imagens de apoio de 1 a 15 – Fotos


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APÊNDICE H

Decupagem Ângela – 9 de outubro Vídeo “Depoimento Ângela (6)” Ângela (0’19’’) – Meu nome é Ângela Miracema Batista Fernandes, eu tenho 47 anos, sou formada em Engenharia Civil pela Federal, trabalho na Justiça Federal, sou concursada há 15 anos, mas hoje minha atividade principal é como artista plástica. Eu decidi assumir, essa minha...esse meu lado artístico a partir da morte do meu filho. Em 2012, nós vivemos um ano maravilhoso, já na virada do ano fazer uma viagem pra Espanha com toda família virou pra mim uma obsessão. Muitas pessoas disseram, “puxa, mas você vai levar as crianças para a Europa? É uma despesa muito grande, eles não merecem ainda. E eu dizia de pronto, não, mas quem merece sou eu. Eu é quem mereço estar com meus filhos e ver as coisas da Espanha com eles. Porque depois mais pra frente eles vão com os deles, os amigos e a esposa e eles vão de outra maneira e eu estar com eles e apenas com eles é só agora. Então, quem merece sou eu e isso era muito obvio, muito claro pra mim e nós fizemos as nossa economias, eu e meu marido que também questionou isso “Aí, não era melhor deixar pro ano que vem, é muita despesa...”, eu falei “a gente nunca sabe se existe ano que vem. Nós vamos”. E o Leonardo aquele ano foi estudar fora, foi fazer Universidade Federal do Rio Grande, foi fazer Direito, nós fomos levados, alugamos um apartamento pra ele e meu marido ficava muito apreensivo dele ficar lá sozinho, de um dia ele ter uma febre e ninguém perceber e ele morrer sozinho, ele tinha essas neuroses assim. Eu sei que nós ficamos muito sem graça com ida do Leonardo, nós sofremos muito com essa...apesar dele já vir estudando fora, ele já estudava em São Paulo. Mas para nós foi um pequeno baque. Passado uns poucos meses as universidades Federais todas entraram em greve e o Leonardo retornou pra aguardar o fim da greve. Nesse período já chegaram as férias de Julho o e nós viajamos pra Espanha, como era planejado desde o começo do ano e essa viajem foi um grande presente, eu sinto que foi uma benção mesmo, um presente que eu recebi. Porque eu pude ver nessa viajem, pude sentir e perceber o quanto meu filho tinha se tornado num homem, um homem de bem, um cara bacana, um cara sem


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preconceitos, um cara descolado, um cara top mesmo. No sentido de ser uma pessoa do mundo, uma pessoa que não é apegada a coisas mesquinhas, a coisas pequenas, a detalhes ridículos. E nós, como ele tem uma veia artística forte como eu, nós nos integramos e conhecemos muitas coisas juntos, nós compartilhamos a ida aos museus, os artistas de rua, toda a parte artística de rua, nós nos inebriamos muito com tudo isso, foi um grande presente, pra mim principalmente. Bom, nós retornamos e as universidades continuavam em greve, as férias de julho também correndo e nós, embora nós pedíssemos pro Leonardo tirar carteira, tirar carteira, tirar carteira, que ele havia perdido um ano antes por infração de trânsito, ele não se mexia, não tirava essa carteira, não ia atrás, mas quando foi se aproximando o começo de agosto e começou a negociação pra terminar a greve, ele enfim acordou e resolveu correr atrás dessa carteira e foi atrás e fez todas as aulas, todos os preparativos, fez tudo. Na semana em que tudo aconteceu, na segunda-feira ele pegou essa carteira, meu marido tava viajando pra São Paulo a trabalho e eu tinha saído pra trabalhar com o carro dele. Leonardo pegou a carteira cedo e me ligou para pegar o carro. “mãe, posso passar aí pra pegar o carro?” porque ele gostava é de andar com o carro mais pesado, a caminhonete, que é um carro mais pesado, mais másculo. E ele, “posso passar aí mãe trocar os carros?” Já pegou a carteira? Porque ele não dirigia de jeito nenhum sem carteira porque nós nunca permitimos. Ah pode, ta com a carteira pode. E eu tava tomando um café com minhas amigas quando ele chegou, mas eu não vi que ele chegou, eu só tive uma vontade muito grande de olhar para a porta. E eu olhei, e quando eu olhei, eu o vi e levei um susto porque ele estava tão bonito, ele tava tão cintilante, ele tava com uma luz diferente e eu levei um susto e as minhas amigas também se assaltaram. Ele fez uma graça e pegou a chave e foi embora. Naquele mesmo dia eu conversando com a estagiária tive um mal súbito e ainda falei pra ela, nossa tive uma coisa ruim, parece um mau presságio, coisa que eu nunca tive. E ela até falou, credo, não fala isso e tal. Passou, na quarta-feira, a gente tinha combinado de assistir um filme junto, um DVD que eu tinha comprado, e ele me ligou e falou “ah mãe, você se importa da gente ver o filme outra hora, deixar pra outro dia porque eu quero fazer um pastel com os meninos, a gente vai assistir um jogo juntos que vai passar na TV. Eu falei não meu filho, tudo bem, curti aí seus amigos. Ele estava muito alegre, muito disposto. Na quinta, quando ele chegou do trabalho que ele tava prestando serviço voluntário na Defensoria Pública, ele chegou super animado alegre que ele enfim tinha entendido


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que ele queria advogar porque ele tinha

descoberto um monte de coisas na

Defensoria sobre o ofício do Advogado e ele tinha descoberto que ele poderia ganhar muito dinheiro sendo advogado, então ele realmente queria advogar. Então ele tava muito alegra e eu fazendo um trabalho da minha faculdade que eu fazia faculdade de direito também, muito apurada, com muita pressa falei, ah filho, lancha aqui perto de mim que enquanto eu faço o trabalho a gente vai conversando. E ficamos ali conversando, eu escutando ele falar animadamente e tocou o celular dele, um amigo chamando pra sair e ele ia trabalhar no outro dia de manhã bem cedo, 7h ele iria para a Defensoria. Aí me veio na cabeça falar pra ele, filho, não sai, você vai trabalhar amanhã 7h, e daí na mesma hora eu lembrei do que a minha estagiária um dia me disse como era chato o pai dela que não deixava ela sair de quinta-feira, que é o dia mais legal de se sair em Campo Grande. Eu falei cara, ta pra acabar a greve, ele vai embora, o que eu vou encher o saco do menino, deixa ele, quer sair saia. Eu não disse nada. Passados uns minutos, chegou em casa o Paulo César, o Paulo César é meus sobrinho, os meninos chama de PC, é meu sobrinho e muito amigo do Leonardo, cresceram juntos, filho da minha irmã. Ele chegou todo animado também e falou tia, você não sabe quem eu encontrei agora andando sozinho de bike lá no parque, o Breno. Você acredita nisso, o Breno sozinho? o Breno nunca está sozinho, tava lá, ele ta vindo aí. Aí eu ri com ele e tal e passado uns 15 minutos chegou o Breno. O Breno, era amigo do Leonardo desde os sete anos e ele era um menino magrinho, é quieto, de falar pouco, até entre eles que é uma turma grande de amigos de verdade, mas ele era extremamente carismático, todos queriam o Breno perto, ele falava pouco, mas quando ele falava todo mundo ouvia e ele era um menino muito doce. Ele chegou e ele estava assim, com uma roupa muito simples, uma regatinha com o shortinho curto, velinho. A mãe dele depois me disse que era louca pra jogar aquilo fora, mas ele não deixava tinha anos e anos e anos. E ele chegou e ele estava diferente também, ele cintilava, a pele dele cintilava, pode ser coisa da minha cabeça, mas eu me assustei. Naquele momento eu me assustei, ele tava muito lindo. Não sei se é porque ele tinha andado de bicicleta por uma hora, jovem, os hormônio NE, o sangue fica quente, mas ele, ele tava muito diferente. E ele veio me dar um beijo como sempre e eu falei, nossa Breno! Como você está bonito. Breno que orgulho que eu to de você, você estava andando de bicicleta, sozinho? Mas isso é muito legal porque uma pessoa que gosta da própria companhia é uma pessoa que anda com os outros porque quer e não


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porque precisa. Isso é muito legal! Aí ele deu uma risadinha como quem ta pensando assim, coitada da minha tia, ta louca NE, coisa de velho. Sabe Deus o que ela está querendo disse com isso. Próprio dos jovens que não ficam elucubrando e filosofando. Mas ele estava muito preciso e ele foi pro quarto do Leonardo, foram pra cozinha, foram pro quarto e conversaram e riram muito os três e brincaram e foi muito, muito, cada segundo daquele eu tenho na minha cabeça. Cada gesto deles, eu vendo pela fresta da porta porque eu não sai da minha cadeira fazendo o meu trabalho da faculdade que eu tinha que entregar no outro dia, de vez em quando eu olhava e via eles na cozinha, rindo e de repente eles saíram, os três pra ir carimbar o braço no bar 21 pra ir voltar mais tarde. E eles saíram e eu continuei na minha cadeira fazendo meu trabalho e eu só olhei e vi os três saindo...o Breno e o Leo não voltaram nunca mais. Bom, passou um tempo meu marido chegou, perguntou do carro dele e eu falei, ah o Leonardo saiu. Meu marido ficou muito bravo porque o Leonardo não tinha pedido autorização naquele dia e começou a ligar, ligar, ligar, ligar e o Leonardo não atendia. E ele ligando, ligando, ligando e o Leonardo não atendia e eu comecei a ligar também e o Leonardo não atendia. Aí eu mandei uma msg, liga pra casa urgente. Eu tenho até hoje essa msg, no celular. E chegou uma hora assim que eu fiquei com muita raiva e aí eu pensei assim, quando eu encontrar o Leonardo, eu vou falar pra ele, você não pode fazer isso, ficar sem atender, você não vê que a gente pode pensar que você pode ter sido seqüestrado? Aí na mesma hora eu pensei, que bobagem, nem vou falar isso, isso não vai acontecer e como eles tinham muito costume de falar que iam sair e acabar não saindo pra canto nenhum, ele não atendeu e eles não voltaram e estavam os três, a gente entendeu que eles tinham ido pra casa de um deles porque se eles não estavam na minha casa, estavam na casa do Breno ou do Paulinho. Devem ter ido assistir alguma coisa na casa de um e pegaram no sono. Aí fomos dormir. Há 1h48 da manhã tocou meu celular e um homem me perguntando se eu era proprietária de uma caminhonete Toyota preta e eu disse que sim porque o carro estava no meu nome, aí ele me perguntou se eu estava com o carro, eu disse que não que estava com meu filho, aí ele me perguntou se o meu filho tinha viajado para Corumbá. Aí eu pensei na hora, ah já entendi o que aconteceu, roubaram o carro do Paulo e o Leonardo ta com vergonha e não sabe como dizer isso pro pai dele. Aí eu falei, não meu filho não ia pra Corumbá, ele saiu pra voltar logo. E ele está em casa? Aí eu saí feito boba pela casa e ele não estava em lugar nenhum. Não ele não voltou pra


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casa. Então a senhora, por favor, se dirija a um posto policial e de parte do sumiço dele porque o carro foi encontrado, as

pessoas que estavam com ele fugiram, ele

iria ser parado num posto policial e as pessoas que estava no carro fugiram e entraram na mata. Então, se seu filho não está em casa, talvez ele esteja preso em algum lugar, então é bom a senhora dar parte para que comecem as buscas. Aí eu ligue pra cãs do Breno, eu e meu marido, pra checar se eles não estavam lá. Não estavam. Aí liguei pro meu sobrinho Paulinho e ele falou tia, eu sai antes deles, o Breno resolveu ficar pra vir com o Leonardo pra ele pegar a bicicleta dele e ir de bicicleta pra casa dele, pra ele se arrumar e voltar pra voltar pro 21, mas acabou que eu não voltei pro 21, porque eu dormi e eu acabei não indo. Aí eu falei pra ele o que tinha acontecido pra ele se informar com as outras pessoas que estavam lá se tinham notícia, enfim. Aí nós fomos pra delegacia, o pai do Breno também foi e enfim, chegando lá nós comunicamos o que tinha acontecido e registram lá tudo e eu achei engraçado que o meu marido perguntou pro delegado, “pela sua experiência nesses casos, o que o senhor acha que pode estar acontecendo?”, e na hora eu pensei assim, nossa que pergunta. Claro que o cara vai responder que não tem como saber NE, cada caso é um caso, e pra minha surpresa o delegado disse assim, “ah não, fica tranqüilo, esse casos é banal, eles estão amarrados em algum lugar aí e daí, esse pessoal é muito profissional, não maltrata nada, a hora que o pessoal passa com o carro na barreira eles avisam quem ta cuidando, a pessoa deixa lá de um jeito que o cara se solta fácil e vai embora. Não, fica tranqüilo, eles estão amarrados por aí”. (19’57’’) Vídeo “Depoimento Ângela (7)” Ângela (0’03”) – Eu pensei assim “nossa, que coragem desse delegado falar uma coisa dessas. Cada caso é um caso. Sempre. Sempre”. Mas enfim, me calei. Voltei pra casa, peguei meu livrinho de orações, e queria pegar uma oração que é uma oração pra quem está em aflição. Só que o meu livrinho é um livrinho pequeno. Ele caia só numa oração que é para os que acabam de morrer. Eu falava “eu não vou ler isso. Não é o caso”. E eu abria de novo tentando achar a que eu queria. E por três vezes caiu só na oração para os que acabam de morrer. Bom, eu dormi, que eu tomo remédio controlado, eu tomo remédio pra dormir, eu consegui pegar no sono. Acordei no dia seguinte escrevi no facebook “amigos, aconteceu tal coisa, se alguém souber notícias, se alguém ver em algum lugar, tatatatatata”.


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Passados uns cinco minutos, isso foi antes das sete da manhã, bem antes, uma amiga, que é muito, uma pessoa muito pragmática, muito séria (...) me ligou consternada. Ela me ligou e me disse assim: “isso não podia ter acontecido”. Ai eu ainda disse pra ela: “não, tá tudo bem, vão começar as buscas. Ela: “quer que eu vá praí? Vou ficar com você”. “Não, não precisa. Vou pra faculdade agora, eu tenho um trabalho pra entregar... Cuida das suas coisas, horas que tiver alguma notícia eu te falo”. Não deu dez minutos ela tava lá. Dentro dela ela já sabia. Assim como eu já sabia também. E as pessoas foram chegando, chegando, e foi chegando, e daí minha casa foi ficando com um monte de gente. E... E eu procurava o olho dessa minha amiga o tempo todo. Só querendo que ela me confirmasse com o olhar. E ela fugia. Enfim, nós fomos ter a resposta eram três horas da tarde. Quando eu soube da resposta, é... No primeiro instante eu pensei: “o que que eu posso fazer pra reverter isso?”. Nada, né. Pra morte não tem remédio. Se fosse preciso correr até o Japão, eu correria. Ia morrer tentando, mas eu faria. Mas não adianta. Pra morte não tem remédio. É a única certeza que nós temos desde que a gente nasce. E a gente ainda se espanta. No segundo momento, eu pensei: “então era isso que eu tinha que passar”. Parece que naquele segundo me veio a certeza de que todo tempo eu sabia que eu ia passar por alguma coisa. Aí naquele momento sim eu peguei o livro, levantei, pedi pra todos se calarem, e fiz a oração para os que acabam de morrer. Aquela, naquele momento eu dei conta. Enfim. É uma dor lascinante, é uma dor inexplicável. Só quem passa pode entender. E eu não espero, eu espero que o mínimo de pessoas entendam o que é isso. O fato é que você se liquidifica por dentro. É uma coisa... Eu já faço terapia há mais de dez anos. Eu já vinha no processo terapêutico a mais de dez anos. Então, e graças a Deus por isso, graças a Deus por todas as pessoas que passaram pela minha vida, graças a Deus por todas as pessoas que me ensinaram. Porque a impressão que eu tenho é que tudo que eu vivi me preparou pra chegar naquele momento. Parece que cada coisa, cada coisa, cada palavra que eu aprendi com todas as pessoas, era uma pequena ferramenta que eu ia utilizar a partir dali. E... Eu sou espírita, eu conheço a doutrina espírita desde sempre, e eu tenho uma tranquilidade muito grande com relação à continuidade da vida. Mas uma coisa é você ter isso na teoria e a outra coisa é quando isso acontece na sua vida. É... Eu não, graças a Deus assim, eu agradeço muito, nós recebemos tantas orações, foram tantas preces de todos os lugares da cidade. Foi uma comoção tão grande, tão grande, que em nenhum minuto me veio o


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questionamento pra deus. “Por que eu? Por que meu filho?”. Eu não preciso perguntar isso. Eu sei. Eu sei que existe uma razão. Que eu vou entender plenamente quando chegar o momento deu voltar pra casa. Eu só preciso entender o que é a minha parte nessa história. E é o que eu peço a Deus todos os dias: que me dê sabedoria pra entender o que foi o meu combinado nessa história, qual que é a minha parte. Porque a parte do Leonardo, do Breno, eles já fizeram, eles já chegaram. Agora a minha parte e a da Lilian, que é a mãe do Breno, essa ficou pra nós deslindarmos e executarmos. E nós temos isso e nós chegamos a essa conclusão independentemente, e pra nossa surpresa quando nós conversamos isso era um raciocínio e um sentimento comum, é... Pra nossa surpresa porque nós nunca fomos amigas íntimas, nós éramos conhecidas apesar dela ser mãe do meu filho e eu ser mãe do filho dela, porque eles eram irmãos. Mas as famílias não eram íntimas. Meu filho chegava a primeira coisa que ele fazia era largar a mala em casa e correr pra casa dela. Pra dar um abraço, ele tinha saudade deles. Deles todos, uma família pra ele também. O Breno tava sempre lá em casa, sempre. Até a cachorrinha tinha ele como da casa. Ele era de casa. E nós estranhamos até por isso, porque nós não tínhamos uma intimidade, mas o sentimento foi idêntico. Nós não nos perguntamos “por que?”, nós nos perguntamos “pra quê?”. E logo veio uma resposta. Nós fomos procuradas, já na missa de sétimo dia, por uma pessoa que nos convidava a participar de um abaixo assinado pelo fim da impunidade. É... Esse abaixo assinado, é, foi promovido pela Deputada Keiko Ota, de São Paulo, que é uma pessoa que perdeu o filho com sete anos... Isso já fazem 18 anos, e o filhinho dela foi sequestrado e morto pelo segurança da família. E essa mulher veio a Campo Grande, ela esteve aqui, ela esteve na minha casa pra nos abraçar, pra nos dar soli... pra prestar solidariedade. É uma pessoa maravilhosa e ela me ensinou uma coisa que eu nunca vou esquecer. Ela disse o seguinte, que ela trabalhava muito, chegava onze horas da noite todo dia em casa, e naquele dia que o filho dela foi sequestrado ela entrou na rua da casa dela com o marido no carro, e tava cheio de polícia, sirene, aquela coisa, e ela virou pro marido e falou assim “nossa, o que será que aconteceu na casa do vizinho”. E era na casa dela. E depois de tudo o que aconteceu, foi uma coisa horrível, enterrou o menino embaixo da cama da casa dele, foi uma coisa horrível. Depois de tudo, ela entendeu que o problema do vizinho também é nosso. É uma, uma, é uma... Um trocadilho que ela fez, mas é isso, né. Isso ficou muito com a gente, né. Porque a gente não pode, eu não pude fazer nada


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pra ressuscitar o meu filho, mas a gente pode fazer alguma coisa com a comoção que ficou com a morte dos meninos. A gente entendeu isso claro. Que em toda nossa vida nós nunca vimos uma comoção tão grande no estado. Nunca. Nunca. Então isso tinha um propósito, com certeza. E nós tínhamos que descobrir. E assim, nós não tivemos ódio, uma coisa sanguinolenta, é, dos, dos assassinos. Isso não veio em nós. Nós passamos, é, nós tivemos uma compreensão imediata de que o verdadeiro assassino dos nossos filhos são o tráfico internacional de drogas e o descaso do governo brasileiro com relação a nossa fronteira, com relação a política externa, que puxa o saco desse governo boliviano que regulariza carros. Ou seja, o descuido com, com os brasileiros mesmo, né. Colocando um monte de outras coisas antes das vidas das pessoas, né. Teve até um deputado que nós tivemos o desprazer de conhecer, que ele disse assim: “ah, pois é, mas é que vocês tem que ver que tem interesses econômicos, né...”. Falei pra ele: “nenhum interesse econômico pode tar na frente da vida do seu filho, ta?”. Virei as costas, não esperei resposta. E nós começamos a dar entrevistas pra todas as pessoas que pediam, todas as emissoras, e ir em passeatas, e nos movimentarmos... E um dia, uma amiga nossa recebeu um conhecido e ele falou “escuta, essas mães não vão parar? Elas tão parecendo as mães da Praça de Maio”. E essa minha amiga nos contou. Aí eu virei pra ela e falei: “não, nós não vamos parar, nós vamos ser as mães da fronteira”. E nós que já vínhamos num movimento, é, nomeamos esse movimento. Passou a ser o movimento “Mães da Fronteira”. Que hoje é uma associação. Associação Mães da Fronteira. Que luta, é, para que as autoridades tenham um cuidado maior com a fronteira, que tenha uma política séria de combate ao tráfico internacional de drogas, que tenham como uma, uma política séria de combate ao uso e ao, e ao, e ao, é, e a recuperação das pessoas que são usuárias, um cuidado com as crianças para que elas não, não sejam vítimas desse caminho desde cedo... E, e nessa luta, nós, é, sempre fomos muito respeitadas e, e assim, nós sempre temos cada vez mais certeza de que nós temos mesmo essa missão. Não é fácil, é muito trabalhoso, nós ainda estamos estruturando essa associação, porque nós nunca fizemos isso, nunca. E existem muitas coisas e trabalho mesmo, coisas burocráticas, nós não temos dinheiro, nós não somos custeadas por ninguém. Então a gente mata um leão por dia. Mas a fé no trabalho e, e na, e nas nossas lutas, é, nas nossas metas, nossos objetivos, é muito grande. E... Não vejo maneira melhor de honrar a vida dos nossos filhos do que essa. Tentando impedir que outras


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pessoas, que outras mães passem por isso, que outros jovens ou outros... Pessoas quaisquer, de qualquer idade, passem por esse tipo de situação. E nessa, nesse caminho nós fomos percebendo que antes até de tudo isso, é, nós temos um trabalho, é, de base, que é chamar as pessoas a consciência de que não adianta ficar reclamando dos políticos. Nós os elegemos. Então as pessoas querem reclamar, reclamar, reclamar, mas ninguém quer prestar atenção em quem vota. Ninguém quer ouvir o que os candidatos dizem. Ninguém quer parar pra prestar atenção. “O que é que eu preciso?”, “no que é que eu acredito”, “o que é que eu espero de um candidato”, “que valores eu tenho e eu quero que sejam defendidos na Câmara, no Senado, enfim”. As pessoas não querem pensar sobre isso, não querem discutir sobre isso. Só lamento. Não dá, não tem café de graça. Temos todos que pensar sobre isso! Não adianta reclamar de político, temos que reclamar de nós mesmos. Vamos eleger pessoas que nos representem. Eu, eu costumo, é, implorar isso pras pessoas. Reúna seus amigos, seus, as pessoas do seu bairro, seus familiares, debatam o que que vocês querem. Eu nem falo do que eu acho que é certo, não importa. Não importa o que, a conclusão que a pessoa vai chegar. Ela só tem que parar pra pensar. E parar de se comportar como um feto que fica na barriga da mamãe esperando que tudo de bom aconteça. Não vai rolar. Se nós não agirmos como adultos, nada acontece. Vídeo “Depoimento Ângela (8)” Ângela (0’03”) – Então, paralelo a essa luta, passando por tanta dor e que eu costumava falar muito na minha terapia, gente a dor é muito burra, será que ela não entende que eu estou explicando pra ele que está tudo bem. Que existem um plano maior, que a gente deve ter combinado tudo isso em algum momento, antes de vir pra essa terra. E tudo tão racional, é tudo tão lógico. Mas a dor é burra, ela não entende, ela insiste em te sacrificar e você sofre, é incrível isso, você sofre, mesmo que você diga pra você, olha ok, está tudo certo. Não adianta, o sofrimento vem e graças a Deus que eu já fazia terapia a muito tempo porque eu tava tipo, já num pedaço do caminho. Porque quando você sofre uma perda, seja ela de um ser querido, de um emprego, seja a perda de um membro do seu corpo é sempre um luto e isso tem que ser elaborado NE, infelizmente, não dá pra a gente simplesmente falar assim, ok, vira a página. Não é, não funciona assim, então eu fui elaborando, elaborando, isso dentro de mim, até mesmo a compreensão de que eu precisava


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sofre, que eu precisava viver essa dor porque racionalmente eu entendida tudo, então eu tinha em alguns momentos vergonha de mim, deu sofrer tanto, disso doer fisicamente. Eu tive vergonha de mim muitas vezes, eu me cobrei muito, poxa vida, larga de ser burra, você não sabe, você já não leu isso, você já não aprendeu isso? E eu tive que remar bastante pra eu me permitir sofre, me permitir simplesmente sentar e chorar, sem me achar a pessoa mais burra do mundo. E nesse processo eu gostava muito de ficar no quarto do Leonardo e quando ele estava estudando fora eu já fazia as minhas coisa no quarto dele porque eu sempre fiz alguma coisa ligado a arte, eu sempre fiquei mexendo com algum bordado, com alguma pintura, alguma coisinha e nesse momento assim, de dor extrema, eu comecei a fazer colagens. Eu fiz muitas colagens quando eu era adolescente, jogo de palavras e é uma coisa que eu sempre gostei muito e eu comecei a fazer com uma coisa assim que eu tinha em casa, um papelão e tal e comecei a fazer aquilo ali no quarto sozinha, a manhã inteira, a tarde inteira fazendo aquilo e exorcizando mesmo sem nenhuma pretensão. Quando eu terminei o trabalho, eu gostei muito do trabalho, o resultado me deixou muito contente e todo mundo que viu também gostou muito. Apesar de ser um momento de dor extrema, o trabalho é muito alegra, é uma explosão de cor. Que é o trabalho que vocês estão vendo atrás de mim. E todo mundo ficou muito encantado, toda pessoa que vê esse trabalho pela primeira vez fica muito encantado. E daí eu comecei a fazer outros trabalho, outros trabalhos e eu fui entendendo que não tinha mais volta, que não tinha mais como guardar essa artista que sempre viveu dentro de mim e não tinha mais sentido eu viver escondida atrás, que eu acho que isso também é reflexo do trabalho terapêutico que eu já vinha fazendo há muito tempo. Acho que vez parte tudo de um trabalho que eu já vinha fazendo. E eu comecei a fazer isso e isso me dá muita satisfação NE e eu fui aperfeiçoando minha técnica, aperfeiçoando e eu to trabalhando pra montar uma exposição, pra enfim me lançar como uma profissional. Espero que dê tudo certo. Mas enfim, dando certo entre aspas comercialmente ou não, o fato é que já deu certo porque isso me completa profundamente. Me deixa extremamente realizada, é como se eu tivesse me despido de todas as carapaças, todas as armaduras que por ventura eu tenha vestido durante a vida. E aí enfim, eu tenha saído simplesmente descalça... livre pra viver. (Conversa informal, cortar)


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Ângela (12’59”) – Então, eu, é, em determinado momento eu questionei a minha terapeuta porque muitas pessoas nos encontram e falam assim “nossa, você é um exemplo de superação”, “você é um exemplo de superação”, e aquilo foi me incomodando, me incomodando, aí um dia eu questionei minha terapeuta: “escuta, as pessoas ficam me falando que eu sou um exemplo de superação, como assim? O que que afinal de contas é superação? Eu não voltei a minha vida normal que eu, que eu tinha antigamente. Superar não seria voltar pra, e ter exatamente aquela vida?”. E daí ela me explicou que não, que você superar é você conseguir elaborar aquele luto, você conseguir elaborar aquela perda, você conseguir fazer o melhor possível da sua vida a partir daquela perda, seja ela qual for. Então isso não quer dizer, em hipótese alguma, você, não necessariamente você voltar a viver exatamente aquilo que você vivia, mas você fazer o melhor possível com o que você recebeu. Né. E aí ela me disse que nesse sentido, é, é que as pessoas falavam, porque é aquela coisa do limão você fazer uma limonada, de você não se entregar a sua dor, a sua mente. Você pegar aquilo e falar “o que que eu faço com isso”, “o que de melhor eu posso fazer com isso”, né, “eu vou chupar esse limão e vou ficar com a boca cheia de afta ou eu vou fazer uma deliciosa limonada”, né. Então ai eu compreendi que, nesse sentido sim, eu, eu superei, eu venho superando, venho elaborando, né, que não é uma coisa estática assim, você chega lá no portão e fala “pronto, superei”. É uma coisa que você vai... Fazendo, né. E eu acho que eu já fiz uma parte bem legal. Uma boa parte. Mas “a peleja é longa e a batalha é sempre”, como dizia meu filho poeta.


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APÊNDICE I

Roteiro do Vídeodocumentário “Viver ou Se Entregar: Histórias de Superação”

Complementos e Informações

Abertura do quadrado com os vídeos das quatro fontes principais (abre uma a uma) (os quadros entram em vídeo, com movimento)

Sonoras e Textos (Trilha: Vida Bela Vida – Almir Sater) ----------------------------------------

Entra caixa com transparência (nesse momento, os quadrados das fontes param)

Título do Documentário (arte)

----------------------------------------

Sobe texto de apresentação (como uma maquina de escrever)

Este vídeodocumentário retrata a história de quatro mulheres. Cada uma delas procura, a sua maneira, superar diariamente dores e traumas. Com coragem, fé e determinação escolheram viver e não se entregar.

Sai texto, sai a caixa com ---------------------------------------transparência, fica alguns segundos (Fim da Trilha do Almir Sater) no quadrado inicial

(Apresentações) (ainda no quadrado, sem abrir) solta Sonora de apresentação da Lázara 1 (vídeo 5)

“ Eu sou Lázara“ (0’24”) até “Lázara Lessonier“ (0’31”).

Solta Sonora de apresentação da Sheila 1 (vídeo 5)

“Eu sou Sheila” (0’22”) até “para vocês” (0’30”)

“Eu sou de Inocência” (0’48”) até “com meu nome” (0’56”)


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Solta sonora de apresentação da Ângela 1 (vídeo 6)

“Meu nome é Angela” (0’19”) ATÉ “ARTISTA PLÁSTICA”

(Histórias) Abre vídeo da Lilian 1 em tela cheia. Solta Sonora de Apresentação e já continua na história (vídeo 4) GC: LÍLIAN SILVESTRINI MÃE DO BRENO

“Meu nome é Lilian” (0’10”) até “Bolívia naquela noite” (0’57”)

Lilian 2 (vídeo 4)

“Naquele dia” (1’56”) até “NUNCA MAIS EU VI O BRENO”

Angela 2 (vídeo 6) GC: ANGELA FERNANDES MÃE DO LEONARDO

“Na quinta” (8’05”) até “animado, alegre” (8’17”)

Angela 3 (vídeo 6)

“PASSADOS UNS MINUTOS” até “em casa o Paulo César” (9’48”)

Angela 4 (vídeo 6)

“Ele chegou todo animado” (10’00”) até “chegou o Breno” (10’25”)

Angela 5 (vídeo 6)

“De vez em quando eu” (13’26”) até “e o Breno e o Leo não voltaram nunca mais” (14’04”)

Lilian 3 (vídeo 4)

“Ele foram pra esse barzinho” (6’31”) até “fim na vida deles” (7’00)

Lázara 2 (vídeo 2) GC: LÁZARA LESSONIER ARTISTA PLÁSTICA

“Sou funcionária pública” (0’06”) até “13500 volts” (0’48”)

Lázara 3 (vídeo 2)

“Eu sempre pedi” (5’11”) até “SALVAR MINHA VIDA”

Lázara 4 (vídeo 2)

“Então, quando o médico” (6’04”) até “salva a


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minha vida” (6’19”) Lázara 5 (vídeo 2)

“Então eu comecei ali” (1’58”) até “reclamando da vida” (2’25”)

Sheila 2 (vídeo 5) GC: SHEILA DE FÁTIMA COORD. PROJETO JABOQUE

“A minha história é” (1’02”) até “própria rebeldia mesmo” (01”11)

Sheila 3 (vídeo 5)

“Eu morava do lado” (5’56”) até “meu namorado” (6’17”)

Sheila 4 (vídeo 5)

“Eu tive que dormir” (2’43”) até “sofri muito” (2’57”)

Sheila 5 (vídeo 5)

“Até um dia eu entrei (3’50”) até “presença de Deus” (4’05”)

Sheila 6 (vídeo 5)

“E foi onde que” (4’20”) até “outras pessoas também” (4’37”)

(O Depois – Superação)

Angela 6 (vídeo 7) GC

“No primeiro instante” (3’45”) até “não tem remédio” (1º não tem remédio)

Angela 7 (vídeo 7)

“É uma dor” (5’14”) até “entendam o que é isso” (5’33”)

Lilian 4 (vídeo 6) GC

“Eu tive um sentimento” (0’16”) até “revolta com a vida” (0’49”)

Lilian 5 (vídeo 6)

“Eu e a Angela” (5’15”) até “de proteção” (6’04”)

Angela 8 (vídeo 7)

“Nós passamos” (12’50”) até “a nossa


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fronteira” (13’06”) Angela 9 (vídeo 7)

“Nós não perguntamos” (9’53”) até “fim da impunidade” (10’17”)

Angela 10 (vídeo 7)

“E um dia uma amiga” (14’08”) até “mães da fronteira” (14’28”)

Lilian 6 (vídeo 6)

“E foi aí que nós” (7’07”) até “já perderam alguém” (7’30”)

Lilian 7 (vídeo 6)

“Eu pelo menos não” (10’05”) até “associação em associação” (10’36”)

Lilian 8 (vídeo 6)

“Esse é o grande” (7’46”) até “nosso lema” (8’07”)

Lilian 9 (vídeo 6)

“E assim foi uma forma” (11’02”) até “e ela se impõe”

Angela 11 (vídeo 7)

“Não vejo maneira melhor” (16’41”) até “tipo de situação” (17’05”)

Lázara 6 (vídeo 2) GC

“Depois do acidente” (6’30”) até “comer sozinha” (6’54”)

Lázara 7 (vídeo 2)

“Uma das coisas que eu senti (7’48”) até “jeito que eu sou” (8’08”)

Lázara 8 (vídeo 3)

“A primeira coisa é” (0’31”) até “você vai” (1’23”)

Lázara 9 (vídeo 3)

“Daí eu comecei” (2’00) até “e fui a luta” (2’45”)

Lázara 10 (vídeo 3)

“É fácil você sentar” (11’08”) até “não nasci pra isso” (11’35”)

Lázara 11 (vídeo 3)

“Como eu vejo que” (12’12”) até “não tem cabeça” (12’34”)

Scheila 7 (vídeo 4)

“Hoje eu faço” (00’21’’) até “Projeto Jaboque”


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GC

(00’31’’)

Scheila 8 (vídeo 5)

“Esse projeto na verdade” (10’36”) até “Lá no Paraguai” (10’43’’)

Scheila 9 (vídeo 5)

“Que eu fiz um convitinho” (10’51’’) até “NA CRACOLANDIA MESMO”

Scheila 10 (vídeo 5)

“COMEÇOU O PROJETO” até “até dentro da chácara” (12’55’’)

Scheila 11 (vídeo 6)

“Quando eles entram aqui” (02’58’’) até “dando seu depoimento” (04’12’’)

Scheila 12 (vídeo 6)

“Depois desses provérbios” (04’27’’) até “TEM QUE MUDAR NAQUILO”

(Mensagem final)

Lázara 12 (vídeo 4) GC Lázara 13 (vídeo 4)

Scheila 13 (vídeo 6) GC

“Eu me sinto feliz” (1’17’’) até “corre atrás” (2’07’’) “Você é capaz” (3’06’’) até “eu pudesse” (3’32’’)

“eu sou muito amada” (0’39’’) até “por causa dessa obra” (0’55’’)

Scheila 14 (vídeo 6)

“ Eu tenho um sonho” (12’28’’) até “vou estar bem também” (13’01’’)

Scheila 15 (vídeo 6)

“Hoje eu sou muito feliz” (13’12’’) até “na minha vida” (13’19’’)

Lilian 10 (vídeo 6) GC

Angela 12 (vídeo 8) GC

“Não vou falar” (13’23’’) até “fôlego e continuar” (13’54’’)

“Então eu, é em determinado”( 12’59’’) até “você recebeu” (14’27’’) “Então aí eu compreendi” (15’10’’) até “meu


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Angela 13 (vídeo 8)

filho poeta” (15’47’’)

Entra o quadrado do inicio novamente, parado nos frames de sorriso (com as 4 fontes)

Trilha “Vida Bela Vida – Almir Sater”

Sobe ficha técnica (Projetos experimentais – Jornalismo UFMS 2014 Orientação Prof. Dr. Marcelo Cancio Produção, Imagens, Edição de Texto, Roteiro Ana Lívia Tavares e Cecília Paes Edição de Imagens Celso Petit Arte Visual Gustavo Arakaki Imagens Cedidas – TV Record Imagens Cedidas – Acervos Pessoais Trilhas xxxxx Agradecimentos Angela Fernandes Lazara Lessonier Lilian Silvestrini Sabrina Massuda Sheila de Fátima Projeto Jaboque TV MS Record)


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ANEXO A

Ofício para a Associação Mães da Fronteira


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ANEXO B

Termo de Uso de Imagem – Ângela Fernandes


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ANEXO C

Termo de Uso de Imagem – Lázara Lessonier


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ANEXO D

Termo de Uso de Imagem – Lilian Silvestrini


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ANEXO E

Termo de Uso de Imagem – Sheila de Fátima