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ANO 40 - Edição 350 Brasília, 2 a 15 de novembro

Brasília, 16 de outubro de 2010

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Jornal-laboratório da Universidade de Brasília Faculdade de Comunicação

A NOVA INVESTIDA DO TABACO Gabriella Furquim

Campus flagra divulgação de cigarro considerada ilegal pelo Ministério Público e pela Anvisa Gabriella Furquim

Edemilson Paraná

Guilherme Pera

TWITTER VIOLEIROS professores utilizam microblog tocar viola na rede tem um

NOSSO PEIXE escamas, barbatanas, gelo e

como complemento de ensino

jornal pra embrulhar

novo significado


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Brasília, 2 a 15 de novembro de 2010

Carta da editora A

sala de reuniões é abafada, não tem janelas e mal comporta a agitação de toda a equipe do jornal. Mas não temos do que reclamar. Após um ano e meio da reforma na Faculdade de Comunicação que desalojou o Campus, voltamos a ter uma redação, uma bela redação. E com tudo ainda cheirando a novo, começamos a trabalhar no número 350 do nosso, agora quarentão, jornal-laboratório. “Queremos um jornal que seja assunto na fila do Restaurante Universitário.” Provocante, esse foi o tom que regeu a elaboração dos projetos editorial e gráfico. Desse modo, projetos definidos, saímos com uma ideia ousada de jornal e a responsabilidade enorme de concretizá-la. O único relógio da redação nem dava as 8h daquela terçafeira quando as cortinas foram abertas. Reunião de pauta, hora de montarmos o cardápio da nossa primeira edição. Muitos dados, nomes e comentários depois, ali estava, ainda não o jornal, mas o desafio. O desafio de contarmos as histórias dos violeiros que estão se rendendo às invencionices do mundo virtual; o desafio de vermos como anda o atendimento psicológico obrigatório nas UTIs dos hospitais públicos do Distrito Federal; e - por que não?- o desafio de vendermos nosso peixe a frequentadores da Feira do Guará e aos leitores que alcançarem a página oito. Mas as brincadeiras ficaram restritas à página final. Para a capa, uma denúncia séria: a ação dos atuais caubóis do cigarro pelos bares da cidade. Duas de nossas repórteres foram conferir essa nova forma de

propaganda de tabaco e contam tudo na matéria em destaque neste Campus. Uma denúncia assim, no entanto, não exige apenas uma apuração bem feita e um texto claro. Ela pede também uma imagem que materialize o fato. Primeiro, tentamos utilizar o método tradicional, pedir autorização e tirar a foto. Não deu certo. Então partimos para o clique às escondidas. Como sabíamos os dias e aproximadamente os horários em que nossos personagens agiam, plantamos fotógrafos nos bares em que eles já haviam sido flagrados. Nas duas primeiras noites, os caubóis escaparam das nossas lentes por muito pouco, para desespero da editora responsável. Os 15 minutos que correram entre a saída de um fotógrafo e a chegada do outro bastaram para eles desfilarem onde os estávamos aguardando e saírem ilesos. Veio a sexta-feira e com ela a nossa última chance, pois os personagens não trabalham nos finais de semana. O risco de ficarmos sem a principal fotografia do jornal levou até editores para os bares da Asa Norte, Asa Sul e Sudoeste naquela noite. E, após horas de uma espera tensa, recebemos a notícia que o leitor bem já conhece: conseguimos.

fac.unb.br/campusonline @campus_online

Bárbara Vasconcelos, editora-chefe

Ombudskvinna

Vitor Fubu

Para a UnB sair do papel Por Mel Bleil Gallo

Ao longo do último semestre, esta coluna buscou garantir espaço para diversos leitores expressarem suas opiniões sobre a publicação. No entanto, como também foi explicitado aqui, esse objetivo foi muitas vezes dificultado devido à falta de identificação do público-alvo do Campus – a UnB - com as matérias veiculadas. Ainda assim, grandes reportagens foram produzidas pelos jovens jornalistas e a última edição do semestre passado não fugiu à regra. Descobrir nas páginas do jornal que desde 1920 Brasília já tinha donos, espalhados pelo país, é instigante. Em uma mesma edição confrontá-los com os cerca de 400 moradores da Rodoferroviária, é uma boa experiência. Bem como conhecer a assistente social Edna Moraes e sua “equipe de investigação”, que dedicam a vida a tentar melhorar a vida dos outros. Apesar de um conteúdo investigativo muito interessante e de reportagens muito bem apuradas, a inserção do Campus entre estudantes, professores, técnicos-administrativos e demais integrantes da comunidade acadêmica ainda é baixa. “Pego o jornal e folheio para ver o que me chama a atenção. Geralmente são as matérias da UnB, mas tem tido poucas este semestre”, explica Lucas Rezende, do 5º semestre de Economia. Na edição comemorativa dos 40 anos do jornal-laboratório da UnB, foram revividas as matérias que marcaram as primei-

Leia o

ras quatro décadas do Campus e da Universidade de Brasília. Todas reportagens profundas, bem apuradas e até então inéditas. Nesse material, ficou evidente o papel diferencial deste periódico na cons-trução e registro da história da nossa UnB e, por conse-guinte, do Distrito Federal. A reportagem A UnB que não saiu do papel cumpre esta função. Ao comparar o projeto original da Universidade com sua situação atual, questiona-se os rumos da instituição que completa 50 anos. Ainda que Darcy Ribeiro tenha afirmado que “o modelo de UnB jamais se concretizaria no mundo das coisas”, cabe à imprensa local - jornal Campus, Campus Online, Secom, informativos das entidades e o que mais houver expor o que está sendo feito aqui, para que todos possam fazer parte da construção da melhor UnB que podemos ter.

RENASCIMENTO B

oas ideias devem ser reutilizadas. Por isso, voltamos a produzir o Campim, que fez parte do Campus do ano de 1984. Saem as palavras cruzadas e tirinhas da última página, e entra nossa homenagem à experiência que marcou este jornal-laboratório na década da redemocratização brasileira. O Campim original era um espaço dedicado ao humor, com falsas notícias que iam de “Ricardão pega Aids na piscina do C.O.” a “Sucuri come homem e GDF investiga”. Como no antigo Campim, a nossa proposta é dedicar um espaço ao diferente. Poesia, crônica, humor: a última página é destinada à descontração do leitor após sete páginas de grandes reportagens. Mas o Campim não deixa de ser também uma diversão para nós, futuros jornalistas. É um local onde podemos deixar as regras do jornalismo um pouco de lado e escrever um texto por prazer. Aproveite!

EXPEDIENTE Campus - jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília Editora-chefe: Bárbara Vasconcelos Secretária de Redação: Ana Elisa Nunes Diretor de Arte: Miguel Reis Editores: Tajla Medeiros (fotografia),Tatiana Tenuto (página 3), Braitner Moreira (páginas 4 e 5), Mariana Costa (página 6), Emanuella Camargo (página 7) e Lorena Bicalho (Campim) Diagramação: Clara Campoli, Letícia Correia, Thaís Cunha, Thiago Vilela e Vanessa Röpke Fotografia: Edemilson Paraná, Gabriella Furquim, Guilherme Pera, João Thiago Stilben, Luiza Machado, Rodrigo Antonelli Repórteres: Camila Maia, Camila Vellasco, Carícia Temporal, Daniela Gonçalves, Davi de Castro, Juliana Contaifer, Laís Alegretti, Larissa Leite, Nathália Koslyk, Paulliny Gualberto, Raphaella Bernardes, Renata Rusky e Roberta Almeida. Coluna de Opinião: Edemilson Paraná Ilustradores: Iúri Lopes, Guilherme Teles, Vitor Fubu Projeto Gráfico: Ana Elisa Nunes, Clara Campoli, Letícia Correia, Lorena Bicalho, Miguel Reis, Tatiana Tenuto, Thaís Cunha e Thiago Vilela Professores Responsáveis: Solano Nascimento e Sérgio de Sá Jornalista: José Luiz Silva Campus Darcy Ribeiro, Faculdade de Comunicação, ICC Ala Norte. Contato: (61) 3107-6498/6501 CEP: 70.910-900 E-mail: campus@unb.br Gráfica Plano Piloto - 4000 exemplares

ERRAMOS

Gustavo Aguiar

Na edição especial do Campus 40, ao contrário do informado pela legenda da página 4, o personagem da foto não é Rafael Pops, mas Albert Steinberger.


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Brasília, 16 de outubro de 2010

SAÚDE Luiza Machado

equilíbrio emocional em segundo plano Apenas 60% dos hospitais públicos do Distrito Federal cumprem portaria que exige psicólogos em UTIs por Camila Maia e Renata Rusky

A

O atendimento prestado pela psicóloga Thayse Lassance no Hospital de Santa Maria é exceção na rede pública do DF

genor Vieira passou 25 dias internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base de Brasília (HBB). Ele teve a mão mordida por um gato e precisou de cirurgia reconstrutiva, porém uma infecção agravou seu quadro. Enquanto internado, não recebeu nenhum apoio psicológico. “Os psicólogos dele foram os amigos”, conta o filho Eduardo Souza. Para ele, os médicos pouco se preocupavam com a situação e quase não explicavam os procedimentos cirúrgicos, além de objetivos e reações dos medicamentos ministrados. Souza reclama da falta de sensibilidade: “Os médicos brincavam: ‘Como um gato pode ter feito isso?’”, queixa-se Souza. “Não era hora de brincadeira.” A Portaria nº 3.432, de 12 de agosto de 1998, assinada pelo então ministro da Saúde, José Serra, determinou a presença de psicólogos em todos os hospitais públicos brasileiros que possuem UTI. No Distrito Federal, há 15 hospitais públicos, dos quais 10 têm UTI. Dados levantados pelo Campus apontam que seis desses hospitais têm psicólogos na unidade de alta complexidade, e dois têm os profissionais em ambulatórios que, de forma excepcional, podem ser deslocados para a UTI. Os outros dois não têm o atendimento (ver tabela). Mesmo no grupo dos seis hospitais com atendimento psicológico, a estrutura não é suficiente para todos os pacientes. É o caso do Hospital de Base, onde Agenor Vieira ficou internado.

sem apetite sexual. Os homens, que normalmente passam menos tempo no hospital, têm dificuldade de entender e aceitar o cansaço físico e emocional da esposa. Os psicólogos orientam como deve ser a relação do familiar com o paciente. Após a alta, muitos voltam para casa com sequelas, o que afeta a rotina de todos. A ideia é preparálos para lidar com uma nova realidade. Em alguns casos, o atendimento psicológico precisa ser estendido para o período pós-alta. Os pacientes, então, são encaminhados para consultas ambulatoriais. No entanto, a partir daí, os psicólogos da UTI deixam de interferir e não sabem se há continuação no tratamento.

ATENDIMENTO

(SUS). Após nove meses, foi transferido para o HRSM, onde

A psicologia hospitalar não é voltada apenas para os pacientes, mas também para as as famílias. Em se tratando de UTIs, os familiares quase sempre são o foco, pois, na maioria das vezes, os internados estão inconscientes devido à doença ou aos sedativos. Os psicólogos acompanham os familiares em todas as visitas e conversas com os médicos. Esse acompanhamento é importante para identificar possíveis falhas na comunicação entre médicos e parentes. Em casos de óbito, a presença dos psicólogos é ainda mais importante. “Muitos familiares reclamam: ‘Os médicos só avisam da morte e vão embora’”, afirma Thayse Lassance, psicóloga do Hospital Regional de Santa Maria (HRSM).

Mesmo nos hospitais com atendimento psicológico, a estrutura não é suficiente A relação criada entre psicólogos e pacientes e entre psicólogos e familiares, por vezes, gera confusões. Thayse conta que as pessoas começam a querer tratar de assuntos que não dizem respeito ao que um psicólogo hospitalar se propõe, como problemas conjugais. Isso acontece principalmente com pais de crianças internadas. As mães passam quase o dia todo no hospital com os filhos. Abaladas com a situação, chegam em casa estressadas e

para ajudar a família a lidar com a situação. “Ela é o nosso anjo. A gente reclama, reclama e ela nos ajuda muito”, diz Iranei ao se referir à psicóloga Thayse Lassance. Para as crianças, o atendimento psicológico é importante, pois o ambiente hospitalar está muito longe de ser o ideal para o desenvolvimento infantil. Psicólogos ajudam a incentivar a inteligência e os movimentos das crianças. Além disso, eles controlam a agitação de pequenos como João Victor, que sempre tenta tirar os apare-

vida na uti

lhos do corpo. Thayse conta que as crianças também se agitam

Inaugurado em abril de 2008, o HRSM conta com 70 leitos de UTI, divididos entre as especialidades neonatal, pediátrica, adulta e semi-intensiva. Em um dos leitos da UTI infantil, está João Victor Brito de Lima. O menino de um ano e três meses nasceu com a Síndrome de Ondina, doença em que os mecanismos da respiração involuntária não funcionam adequadamente, e está na UTI desde o primeiro dia de vida. A princípio, João Victor ficou internado no Hospital Santa Lúcia, pois não havia vagas pelo Sistema Único de Saúde está há cinco. O garoto precisa de ventilação mecânica e não

quando ocorre um óbito, pois percebem o clima ao redor. Procurada pelo Campus, a assessoria de Comunicação da Secretaria de Saúde do Distrito Federal apresentou números que divergem dos apurados pelo jornal. Questionada, a assessoria se limitou a dizer que recebe os números de outro departamento e não tem como checá-los. A assessoria se comprometeu a fornecer uma explicação, mas até o fechamento da edição não havia se pronunciado.

pode deixar a unidade.

“Ela é o nosso anjo. A gente reclama, reclama e ela nos ajuda muito”

Hospitais

Tem UTI

Psicólogo

psicólogo na uti

Apoio (Asa Norte)

não

sim

-

Asa Norte

sim

sim

sim

Asa Sul

sim

sim

sim

Base (Asa Sul)

sim

sim

sim

Brazlândia

não

não

-

Ceilândia

sim

não

não

Gama

sim

não

não

Guará

não

sim

-

Paranoá

sim

sim

não

Planaltina

não

sim

-

Os aparelhos, entretanto, custam muito caro para a família.

Sobradinho

sim

sim

sim

Iranei entrou com um pedido na Secretaria de Saúde, mas ain-

Samambaia

sim

sim

sim

Santa Maria

sim

sim

sim

São Vicente de Paulo (Taguatinga)

não

sim

-

Taguatinga

sim

sim

não

Iranei Brito

O batizado e o aniversário de um ano foram comemorados no hospital. Apesar de todos os problemas, João Victor é uma criança feliz. Evidência disso foram as palmas e os sorrisos com que recebeu as repórteres. É a mãe de João, Iranei Souza Brito, quem mais se abala com a permanência constante do filho no hospital. Ela conta que já passou 20 dias sem pisar em casa para cuidar dele. O garoto só conhecerá o lar quando tiver um home care, que permite o tratamento domiciliar e previne infecções hospitalares.

da não foi atendida. Ela acredita que só será por vias judiciais. Incentivada pela equipe do hospital, Iranei deu início a uma campanha no Youtube (http://migre.me/1MkkG) para arrecadar fundos que a ajudem a realizar o sonho de levar o filho para casa: “Nós já recebemos doação até dos Estados Unidos”. O vídeo já alcançou quase duas mil visualizações. Em um caso como esse, o apoio psicológico é fundamental


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Brasília, 2 a 15 de novembro de 2010

os novos caubóis da marlboro E

les usam cabelos com cortes modernos, brinco na orelha e tênis All Star. Chamam atenção quando passam pelos bares de Brasília, não apenas por serem altos e bonitos, mas pelas vitrines luminosas que carregam e que logo despertam a curiosidade dos frequentadores. Poderiam ser representantes de uma nova marca de chicletes ou refrigerantes, mas o negócio deles é outro: são promotores de vendas da Marlboro, marca de cigarro fabricada pela Philip Morris. Divididos em casais, os modelos procuram fumantes nas mesas, inclusive entre quem não está fumando. Na vitrine luminosa, são apresentadas quatro variedades da Marlboro, que podem ser compradas diretamente dos representantes, com desconto em relação ao preço de tabela. A exigência é ser maior de 18 anos e apresentar documento de identidade. A indústria do tabaco tenta compensar o impacto da lei 10.167/00, que restringe a publicidade de cigarros a pôsteres, painéis e cartazes na parte interna dos pontos de venda. Banidos dos veículos de comunicação de massa, como rádio e TV, os fabricantes procuram soluções para manter contato com os consumidores. Para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão responsável pela fiscalização de produtos que envolvem risco à saúde pública, a abordagem dos novos caubóis está em desacordo com a lei. Em entrevista por e-mail, o gerente de Produtos Derivados do Tabaco da agência, Humberto José Coelho Martins, garante que “o trânsito de modelos/promotores é caracterizado como visita promocional, sendo, portanto, proibido”. Questionado pelo Campus, o promotor do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e professor da Universidade de Brasília Guilherme Fernandes Neto também diz que a prática contraria a legislação brasileira.

Cigarro na rede

Fora dos veículos de comunicação de massa, indústria do tabaco investe no contato direto com consumidores Por Paulliny Gualberto

organização não-governamental Aliança de Controle do Tabagismo (ACT), qualquer forma de promoção de derivados do tabaco pela rede mundial de computadores é proibida. Ela aponta a lei 9.294, modificada pela lei 10.167 em dezembro de 2000. O inciso III do artigo 3º especifica que é proibida “a propaganda por meio eletrônico, inclusive internet”. Fernandes Neto, que atua na 4ª Promotoria de Defesa do Consumidor (Prodecon) do MPDFT, é enfático ao condenar a prática: “A única publicidade permitida pela lei é no interior do local onde se vende tabaco”. Procurada pelo Campus durante três dias, a Philip Morris não se pronunciou. A assessoria de Comunicação da empresa solicitou que as perguntas fossem enviadas por e-mail, o que foi feito, mas não houve resposta até o fechamento desta edição.

batalha pela publicidade No cerco ao tabaco, patrocínios culturais e esportivos pela indústria fumageira estão proibidos desde 2003. Mesmo assim, o investimento das empresas em publicidade continua elevado. Fernandes Neto, especialista em direito da comunicação, surpreende-se com as verbas destinadas ao marketing pelos líderes do mercado: “Como eles estão usando essa verba é o que me choca, se a lei basicamente restringiu (a publicidade)”. Para Clarissa, a ausência de anúncios não significa que a indústria tenha deixado de se comunicar. “Hoje, o marketing é muito mais efetivo, está onde está o jovem, está na balada. Você tem a comunicação

Quem quiser pode receber novidades da Philip Morris pela internet. Os promotores de vendas – que têm sido vistos com frequência em bares entre quarta e sexta-feira – cadastram o endereço de e-mail do interessado e exigem assinatura de um termo de autorização. Em mensagem enviada a um consumidor em 9 de agosto de 2010 pelo remetente marlboro@ adultofumante.com.br, a apresentação da versão Blue Ice da Marlboro impressiona. A imagem de um cigarro que contém uma cápsula de sabor é cercada por fortes tons de azul, que reproduzem a superfície do gelo. “A experiência mint que vira uma avalanche de sabor extracongelante”, anuncia o e-mail. Outra mensagem, enviada em 6 de outubro, informa sobre a nova embalagem da versão Gold: “A embalagem do seu Marlboro Gold acaba de mudar. Ficou mais moderna, sofisticada e ganhou uma textura exclusiva”. Os e-mails contêm as mesmas advertências sobre danos à saúde que maços e publicidade nos pontos de venda são obrigados a apresentar. No pé da página, um aviso de que são dirigidas exclusivamente a maiores de 18 anos, fumantes, cadastrados no banco de dados chamado Central de Relacionamento Adulto Fumante. Levantamento feito pelo Campus no site Registro.br confirma que o domínio adultofumante.com. br está cadastrado em nome Philip Morris Brasil Indústria e Comércio Ltda. Para Clarissa Menezes Homsi, coordenadora jurídica da

direta com o consumidor”, afirma. A tensão entre fabricantes de cigarros e movimento antitabagismo aumenta quando o assunto é liberdade. Sob o argumento de que as pessoas fumam segundo seu livre-arbítrio, as empresas costumam vencer nos tribunais aqueles que tentam responsabilizá-las por doenças relacionadas ao fumo. Os antitabagistas defendem que não há liberdade no vício. A discussão agora é sobre livre publicidade – para o setor, as restrições ferem um direito fundamental das empresas, que é o de fazer a “propaganda” de seus produtos. Tanto que, em 2004, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) entrou com ação junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a inconstitucionalidade da lei que proíbe a publicidade de derivados do tabaco e impõe as advertências sanitárias nas embalagens. Para defender a legislação, a ACT e entidades de proteção ao consumidor ingressaram no processo. As partes aguardam o parecer do relator, o ministro Joaquim Barbosa. Enquanto isso, informado pelo Campus, Fernandes Neto diz que as visitas dos caubóis da Marlboro estão sujeitas à punição. “Isso pode ensejar uma multa pesada, uma ação do Ministério Público”, avisa.

Os vendedores da Marlboro foram flagrados pelo Campus no bar Vale da Lua, da volta das 21h. O bar vende apenas cigarros da Souza Cruz, mas não se incomoda


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Brasília, 16 de outubro de 2010

Até jovens que nunca fumaram são convencidos pelos vendedores a experimentar produto pela primeira vez

Por Juliana Contaifer

a 408 Norte, no último dia 22 de outubro, por a com a “concorrência”

Gabriella Furquim

Fumaça de cigarro na mesa do bar

F

Opinião

cultural e econômica da planta. A folha de fumo está ao lado

antitabagismo e o mito da livre escolha

umar sempre foi símbolo de liberdade e independência. O Brasil que o diga. O maior exportador de tabaco do mun-

do ostenta no Brasão da República, desde 1889, a importância daquela de café, outro ícone da exportação brasileira, provando que o tabaco continua presente na vida nacional. E não só entre adultos. Uma ação judicial movida por estados norte-americanos contra as companhias multinacionais do tabaco obrigou-as a entregar documentos internos que deixavam explícito o interesse das empresas nos jovens. “Eles representam o negócio de cigarros amanhã”, escreveu J. W. Hind, da RJ Reynolds Tobacco, em memorando interno de 1975. Em 1957, um execu-

Por Edemilson Paraná

A

indústria do tabaco não é uma indústria comum. Uma frase célebre de Grau Brundtland, ex-diretora da OMS,

tivo da Phillip Morris afirmava que “atingir os jovens pode ser

resume: “Os produtos do tabaco são os únicos produtos legais

mais eficiente, mesmo que o custo para atingi-los seja maior”.

que matam cerca de metade dos consumidores quando usados

Ele dizia que esse público estava desejando experimentar o

como mandam os fabricantes”.

tabaco e seria mais leal à primeira marca que consumisse. Os modelos bonitos e bem vestidos que passam pelos bares

Se vários anos foram necessários para que políticas de antitabagismo fossem consolidadas em inúmeros países, a in-

de Brasília são ótimos meios para difundir a ideia. O roteiro

dústria descobriu muito cedo o potencial mortal de seu produto.

dos vendedores é passar de mesa em mesa perguntando quem

Com informações privilegiadas, os fabricantes mentiram sobre

é maior de idade e fumante, para depois fazer uma pequena

aspectos de seu empreendimento e, quando não puderam mais

publicidade e vender maços pra quem quiser. “Já comprei,

negar as evidências, passaram a argumentar que seus produtos

sim. Eles pedem algumas informações, como nome e carteira

não causavam dependência ou que os riscos não eram compro-

de identidade”, relata o universitário Pedro Alves, de 21 anos,

vados. A falência da estratégia reorientou a política corporati-

frequentador do Mont Sion, na 209 Norte. Há quem se inco-

va. O foco agora é o bom e velho discurso liberal da livre escolha.

mode. É o caso de outro cliente do bar, o estudante Rubens

Nada mais oportuno. Partindo do argumento de que fumar

Almeida, 21. “Nunca comprei deles. Acho bem chato esse

é uma escolha pessoal e consciente, a indústria tenta fugir da

pessoal nos abordando na mesa.”

responsabilidade pelos danos gerados por seu produto, indivi-

A abordagem influencia até quem não fuma. O ambiente é

dualizando o consumo e os malefícios dele obtido.

propício. Os bares da cidade abrigam centenas de universitá-

Difícil falar em poder de decisão quando viciados, mesmo

rios e até estudantes menores de idade, alguns alcoolizados,

depois de desenvolverem câncer ou terem membros amputados

que perdem o discernimento e fumam sem se importar com

por conta do cigarro, não conseguem deixar o vício. Difícil falar

o ato. “Tem gente que só fuma quando está bêbada”, relata

em escolha individual diante dos comprovados malefícios do

Aline Barbosa, 19. A estudante de Engenharia Elétrica está

tabagismo passivo.

convencida de que a publicidade dos vendedores tenta atrair o

Toda relação de mercado é uma relação social. Ora, se dessa

público jovem: “Claro, eles estão no Por do Sol (na 408 Norte).

relação social - que é a produção e o comércio- a indústria obtém

Só tem jovem aqui, e todo mundo bêbado. É o lugar perfeito”.

seus lucros, qual o sentido de individualizar o dano? Se a esco-

Também universitária, Renata Martins, 21, conta que já foi

lha individual é indiscutível, o consumo puramente individuali-

influenciada: “Não sou fumante, mas já tinha bebido demais e

zado não passa de um mito. Um mito que serve à construção de

vieram até minha mesa perguntar se eu fumava. O cigarro es-

uma verdade retórica, de motivos, sabemos, escusos.

tava ali, à minha disposição. Sempre tive curiosidade e resolvi comprar”. Os vendedores, estilosos e sociáveis, aparecem de repente nas mesas. “Com certeza, ajuda o fato de eles serem bonitos. Você já está meio bêbada, daí surge um cara lindo do seu

Mas se a disposição de verdadeiras indústrias jurídicas e a utilização de práticas dúbias de marketing, como as apresentadas pela reportagem, continuam a ocorrer, o propósito é claro: relativizar danos, aumentar lucros. Sobre isso, nada mais oportuno do que um diálogo do filme

lado perguntando se você é fumante. A maioria das pessoas

Obrigado Por Fumar (2006). Na cena, um lobista da indústria

responde que sim, é um pretexto para puxar assunto”, explica

do tabaco discute com seu filho. “Suponhamos que você defen-

Alessandra Azevedo, 19, estudante de cursinho.

da o sorvete de chocolate; eu, o de baunilha. Você dirá que o

A ação não incomoda os donos de bares. “Não vendo cigar-

seu é a melhor coisa do mundo. Eu direi que a melhor coisa do

ro, então pra mim tanto faz”, afirma Adriano Amorim, dono

mundo é poder escolher entre chocolate e baunilha.” E o menino

do Vale da Lua, também na 408 Norte “Também vendemos

diz: “Mas com isso você não me convenceu de que baunilha é

cigarro, mas não vejo como concorrência”, conta Renato de

melhor”.O pai retruca: “Mas eu não quero te convencer, quero

Souza, gerente do Chiquita Bacana, na 209 Sul. “São pessoas

só provar que estou certo e você errado”. Não por acaso, na cena

bonitas, é bom pra quem vê o bar.”

seguinte, pai e filho tomam juntos sorvete de baunilha.

Miguel Reis


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Brasília, 2 a 15 de novembro de 2010

LÁPIS, caderno e 140 toques

EDUCação

Professores usam o Twitter para complementar aulas regulares por Laís Alegretti e Nathália Koslyk

C

artazes nas paredes da escola anunciam a revisão para prova. Pelo blog, alunos da segunda série do Centro de Ensino Médio da Asa Norte (Cean) respondem enquete sobre o melhor dia e horário para a primeira aula a ser ministrada pela internet. Transmissão ao vivo, direto da casa da professora. Ela brinca: “Sejam carinhosos porque é a minha primeira vez”. O nervosismo aumenta à medida em que o número de espectadores cresce. “Fiquei exausta. Quando terminou, escorria suor do meu rosto”, lembra Mariana Létti. Era véspera de prova e 120 pessoas assistiram à estreia da professora de sociologia na Twitcam. Mariana é parte de um grupo de professores que passaram a utilizar mídias sociais como complemento ao ensino da sala de aula. O Twitter, baseado em mensagens de até 140 caracteres, atrai docentes de escolas públicas, como a professora de sociologia, e de instituições privadas, como Marcos Brandão, professor de geografia do Sigma. O microblog também chegou à graduação e é utilizado por educadores da UnB e do Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb).

webcam, também expostas em sala. “O Twitter é complemento, porque não são todos que acessam. Não uso a ferramenta como extensão porque tenho 800 alunos e apenas cem seguem o @sociologiacean”, justifica. Essa também é uma preocupação do professor de Geografia do Colégio Sigma Marcos Brandão. “Quando perguntam se determinado assunto vai cair na prova,

O Twitter é uma mídia social que mantém contatos atualizados por meio de mensagens de 140 caracteres, conhecidos como tweets. Para acompanhar as publicações de um usuário em tempo real, basta “seguir” aquele perfil. O Brasil reúne o segundo maior grupo de usuários do microblog - perde apenas para os EUA.

Twitcam é um serviço de transmissão de vídeo, em tempo real, por meio do Twitter.

por exemplo, eu respondo que só dou a informação em sala”, relata. “Não posso beneficiar um enquanto tenho 50 em sala.” Brandão defende que a postura do professor na internet possa ser diferente da adotada na escola. Ele emite opinião política por meio da ferramenta. “No Twitter eu tenho um campo como pessoa, tenho essa liberdade. Em sala, os professores tentam ser imparciais”, explica. A intenção, segundo Brandão, é promover a discussão. As mensagens que chegam são principalmente contra o ponto de vista dele. “E eu fico feliz, porque além de entender a minha opinião, o aluno promove um debate.”

Risadas

Não há consenso sobre o uso adequado do Twitter e os limites que o professor deve impor. O mestre em Tecnolo-

Para Mariana Létti, o aspecto mais interessante é o ambiente de ensino. “Na sala de aula, em especial na escola pública, a estrutura é ruim - a cadeira é desconfortável e o ventilador é barulhento -, não é propícia ao aprendizado”, diz a professora. Camila Lobo, aluna da segunda série, não participou da experiência virtual sozinha. “Às vezes eu soltava algumas risadas e minha mãe foi ver o que eu estava fazendo”, conta. A mãe e as irmãs de Camila acharam interessante a iniciativa da professora. Também aluna do segundo ano, Mariana Ávila não tinha assimilado em sala a matéria. “Não tem reforço de sociologia na escola e a TwitAula substituiu isso”, compartilha. A professora Mariana conta que, para a primeira aula, esperava por volta de 50 estudantes, mas pessoas de fora da escola assistiram à aula e interagiram. “Surgiam perguntas muito interessantes, mas que não estavam exatamente relacionadas ao conteúdo da prova. Eu era obrigada a dizer que não poderia responder”, relata. Mariana divulgou bastante na escola e pouco no Twitter a segunda revisão virtual, para evitar grande quantidade de pessoas. De 120 espectadores na primeira experiência, passou para cerca de 90 na segunda. “Eu avisava o tempo todo: ‘Gente, isso é uma TwittAula de revisão para os alunos do Cean, sejam todos bem-vindos, mas eu preciso focar na revisão’”. A solução encontrada foi apenas para o curto prazo. “Não quero tirar pessoas da minha aula, vou adotar estratégias para comportá-las.” Mariana pretende aprimorar a próxima revisão. Ela vai contar com a ajuda do namorado, que trabalha com mídias sociais, para fazer a triagem das perguntas relacionadas ao conteúdo da prova. Em resposta a pedidos dos alunos, a professora promete uma aula de revisão por bimestre para cada série.

gias da Educação e professor da Universidade de Brasília Gilberto Lacerda, que usa o Twitter para fins pedagógicos, aponta que o microblog pode ser usado no meio escolar para indicação de aprofundamentos de conteúdo, dinamização da relação educativa e troca de experiências. Lacerda acredita que, apesar da eficácia da ferramenta, docentes ainda demonstram receio quanto ao uso do Twitter. “Essa resistência é característica do meio educativo, tradicionalmente linear e baseado em materiais didáticos estáticos e dominados pelo professor”, afirma. Para o professor do curso de Direito do Iesb Adisson Leal, o problema está no fato de docentes entenderem mídia social como Orkut. “O Twitter possui outras possibilidades”, sugere. Leal acompanha notícias relacionadas ao Direito e seleciona Guilherme Teles

as mais importantes para repassar aos seguidores.

alunos em até 140 caracteres

Privacidade

Camila Lobo, 2ª série do ensino médio no Cean: “Geral-

Para Leal, o distanciamento entre professor e aluno é necessário. “O professor, apesar de estar no meio dos alunos, deve ser encarado como professor.” Segundo ele, o Twitter é uma ferramenta importante para aumentar o contato, mas o respeito deve prevalecer entre as partes. Leal opta por não seguir os estudantes. Marcos Brandão, presente em várias mídias sociais, não vê problemas com a proximidade. Defende que a relação é uma

mente é o professor lá e a gente aqui. Com o Twitter, parece que estamos mais próximos”. Bruna Schettini, formanda em Direito no Iesb: “Como não tenho tempo de entrar a toda hora em sites como (os) do STF e do STJ, por exemplo, é bom já ler as notícias e casos que ele indica”. Bernardo Guimarães, 2ª série do ensino médio no

troca e quer saber o que a turma pensa

Sigma: “O Twitter aproxima professores e alunos e agiliza

e escreve. Apenas evita publicar informações sobre

(o processo de) tirar dúvidas. Também fico mais desinibido

a vida pessoal.

para fazer perguntas durante

Mariana Létti também cuida da privacidade. Ela tem dois

as aulas”.

Liberdade

perfis no Twitter – um para fins pedagógicos e outro para

Mariana Létti enxergou no recurso de transmissão de vídeo uma possibilidade complementar ao conteúdo ministrado na escola. Cadastrou no Twitter a conta @sociologiacean e apresentou aulas de revisão via

acesso a recados meus para namorado e amigos”, diz. Ainda

“É muito legal o seu professor estar antenado ao mundo de

assim, a professora de sociologia defende a importância da

hoje e se adaptar às tecnologias. É na internet que passo a

ferramenta para aumentar o contato com os alunos: “A relação

maior parte do tempo”.

questões pessoais. “Eu não quero que meus alunos tenham

mais próxima não faz com que eu perca a autoridade”.

@adleal

@sociologiacean

Maria Luiza Fialho, 2ª série do ensino médio no Sigma:

@marcosbau

Edemilson Paraná

Gabriella Furquim

Rodrigo Antonelli

A professora de sociologia do ensino médio Mariana Létti criou a TwitAula de revisão para a prova. Ela considera a velocidade de troca de informação o maior benefício do Twitter.

Adisson Leal, professor de Direito do ensino superior, se declara viciado em internet. Segue perfis de órgãos públicos, como Tribunais, e já chegou a encontrar material para sala de aula no Twitter da TV Justiça.

Marcos Brandão passou três meses se familiarizando com o Twitter até divulgar o perfil para os alunos. Em época de eleições, o professor de geografia do ensino médio discute política com estudantes pelo microblog e diz que enxerga neles debatedores.


Brasília, 16 de outubro de 2010

www.violanarede.com.br

CULTURA

Ambiente virtual promove discussão e aproxima violeiros, gerando parcerias e boa prosa Edemilson Paraná

Nogueira faz parcerias virtuais

C

aipira de verdade sempre gostou de uma rede, proseia o violeiro Chico Nogueira. E com a internet não foi diferente: logo tratou de se aventurar nas veredas virtuais. O músico vê nos websites, weblogs e redes sociais espaços para os violeiros mostrarem o que andam fazendo com a viola, cada um nos confins onde vive. Nogueira pode ser encontrado, por exemplo, na última tecnologia de informação para artistas como ele: o Voa Viola. Trata-se de um site de relacionamentos, como o Orkut e o Facebook, mas por ser específico tornou-se um banco de talentos. Os 800 perfis de violeiros disponibilizam o que é feito neste momento no Brasil em termos de produção musical popular. Esta soma ultrapassa o levantamento de cerca de 300 artistas do livro Violeiros do Brasil, lançado em 2008 por Myriam Taubkim, pesquisadora musical. A quantidade supera também o número de 256 registrados neste instrumento no Portal da Ordem dos Músicos. A rede social Voa Viola faz parte da divulgação do festival de mesmo nome, que levará a quatro capitais brasileiras violeiros de diversas regiões e experiências. O internauta pode acessá-la ao navegar pelo portal do evento. A produtora do festival e pesquisadora de viola Juliana Saenger reconhece: “A rede hoje é maior que o projeto”.

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por daniela gonçalves

O site de relacionamentos para violeiros e seus usos ainda são novidades. Encontrar violeiros na internet, não. Como outros músicos, eles estão diluídos na web por meio de sites pessoais, divulgando trabalhos, agendas de shows e contatos. Com a criação do Orkut em janeiro de 2004, até aqueles que não tinham pretensão alguma de fazer sucesso colocaram a cara no mundo virtual. As páginas pessoais, os chamados perfis, estavam então condenadas ao anonimato em meio aos milhares de brasileiros que usam o Orkut. “A rede Voa Viola foi pensada para atender às necessidades de um público específico”, explica Thiago Diniz, um dos idealizadores do ambiente virtual personalizado para violeiros.

“Tem mais de mil músicas no Voa Viola”, diz Juliana, ao entrever mais uma utilidade para a rede social: o abastecimento de programas de rádio e televisão específicos para violeiros. Por sua vez, o blog Um Brasil de Viola reúne cerca de 50 violeiros. Este acervo nasceu de um projeto ambicioso: o violeiro brasiliense Cacai Nunes quis andar Brasil adentro para registrar as diferentes maneiras de tocar o viola. Entre janeiro e junho deste ano, com auxílio de bolsa da Funarte no valor de R$ 30 mil, ele percorreu Bahia, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, São Paulo, Paraíba, Pernambuco, Paraná, Tocantins e o Distrito Federal. Ao regressar à casa, o violeiro e pesquisador tinha a sua frente 40 horas de vídeo para editar.

É nóis na rede

Viola online

O universo cultural que vem agregado ao violeiro transparece nas ferramentas de interatividade, como os fóruns da rede Voa Viola. São listas de discussão em torno de temas comuns ao caipira: de dicas para evitar a tendinite a receitas de cozinha. Heloisa De Martin e Ubaldo Silva de Souza, a dupla Loa e Bardo, do Espírito Santo, realizaram um “concurso cultural” para escolher o nome da nova cadela. O vencedor da melhor sugestão ganha um queijo caipira feito pelo casal. “A gente quiria istimulá a criatividade do povo, sem aqueles nome tradicioná de cachorro: Rex, Totó...”, justifica Loa, que não dispensa um estilo próprio para se expressar na internet. Quem não está acostumado com o falar da roça poderá ser pego de surpresa ao ler as mensagens na web. O casal, que já escrevia desta maneira na comunidade do Orkut, é só um exemplo da generalização do “internetês” caipira na Voa Viola. À vontade para contar causos e histórias, traços da oralidade do interior contaminam a tela do computador, sem vergonha, transgredindo as fronteiras entre o “certo” e o “errado”. As prosas não só dão origem a amizades como também a parcerias musicais. Foi assim que Nogueira musicou uma letra enviada para o Voa Viola pelo também violeiro Chico Lobo, de Belo Horizonte. Ao ler os versos de Lobo, Nogueira logo começou a cantarolar. Tomou a viola e fez a “mágica” da composição. A filmagem pelo Youtube foi enviada para o outro Chico ver. “Parceria é uma coisa misteriosa”, revela Nogueira, surpreso pela sintonia que estabeleceu com Lobo.

Antes de usufruir das facilidades da internet, muitos alegam que, para conhecer o que o violeiro do outro lado do país andava criando com a sua viola, tinham de recorrer a outro tipo de rede: a “lenta” rede de comunicação interpessoal. De acordo com Juliana Saenger, até a década de 1980 não havia a formalização do ensino da viola. A única maneira de aprender era conhecendo alguém que tocasse. A aprendizagem da viola estava presa à oralidade. Nos últimos 30 anos, pesquisadores desbravaram os interiores do país em busca de uma reposta para a pergunta calada havia 500 anos: como se toca viola? Hoje, métodos e técnicas de ensino podem ser encontrados facilmente na web, como os sites Casa dos Violeiros e Viola Caipira, ambos criados em 2005. Entre o final de 2008 e o início de 2009, um violeiro, lá em Minas Gerais, chamado Valmir Ribeiro Carvalho, o Bilora, criou a rede social Violeiros do Brasil. Hoje, mais de 1,3 mil perfis estão cadastrados. Bilora pensou a rede como forma de encurtar a distância entre os violeiros. “Criei meio que de momento, como um estalo”, define. Membros dessa rede e donos da recém-batizada cadela Liluia, Loa e Bardo já fizeram muitas amizades em sites de relacionamentos. Acaba não sobrando tempo para tanta vida virtual. O casal não pretende, por exemplo, entrar na onda do Twitter. “Tem qui tê tempo pra ficá contano quiqui nóis tá fazeno, né memo?”, reflete Bardo, para quem bão demais da conta é tocar viola na rede.

COMPORTAMENTO JOGOS NO INTERIOR Shows de axé e funk em jogos universitários atraem estudantes de todo o país, cada vez menos interessados em esportes

B

ebida e música 24 horas por dia, DJs e shows de axé e funk. O clima de diversão faz parte dos jogos universitários, que vão além de simples competições esportivas entre faculdades. “É loucura. Como eu não jogo, só vou pelas festas mesmo. Rolam o dia todo, durante a tarde e a noite.” A afirmação é de Fernando da Silva, estudante do quinto semestre da Universidade Católica de Brasília (UCB). Ele já participou de três Intermed, os jogos das faculdades de Medicina, e mais recentemente do Interjurídico, competição dos cursos de Direito, este último em Lavras, Minas Gerais. Há dois anos o Interjurídico acontece simultâneo ao LavrasFolia, espécie de carnaval da cidade-sede. Desde então, o número de faculdades participantes subiu de 82 para 140. Hoje, 10 mil universitários comparecem ao evento de três dias de duração, com shows de Asa de Águia, DJ Marlboro e André Lelis. Pedro Correia, quinto semestre de Direito da Universidade de Brasília (UnB), participou do Interjurídico e deixa clara a preferência pelos gêneros axé e funk: “Gosto da música e dos shows, é o que toca sempre nesses eventos. Fui pela diversão”. Há 30 anos o Tusca, Taça Universitária de São Carlos, é tradição na cidade de mesmo nome, em São Paulo. Pedro Mendes, estudante do sexto semestre de Engenharia Civil da Universidade de São Paulo (Usp), é um dos integrantes da comissão organizadora. “Antes, contratávamos bandas de axé local, que são mais baratas. Agora, com mais verba, conseguimos artistas maiores”, lembra. O aumento de público é reflexo da popularidade do axé e do funk, que contribuem para um maior lucro durante os eventos. Em dois anos, o Tusca ganhou quase o dobro de adeptos, passando de 4,5 mil pessoas, em 2008, para 8,9 mil no ano passado. “Para este ano, esperamos de 10 a 12 mil por dia e um total de 35 mil pessoas”, diz.

por camila vellasco. colaboração: larissa leite

Divulgação

são infinitamente menores do que a frequência aos bares”, constata a professora da Universidade Federal de Ouro Preto Rosa Coutrim. Ela estuda hábitos de lazer de jovens universitários. Bárbara Siqueira, quinto semestre de Moda na Universidade Anhembi Morumbi, procura esse tipo de evento apenas pela diversão. A estudante foi ao Economíadas 2010, jogos dos graduandos de Economia, em Americana, São Paulo. “Nunca tinha ido, não gostava dessas coisas de faculdade. Show de axé durante Taça Universitária anima a multidão Só vi um jogo, fui pra ficar chapadona mesmo. Curto axé e Pedro Mendes acredita em uma mudança cultural, o que pagode, e o legal das tendas é que mistura tudo isso. Próximo explicaria a preferência pelos ritmos. “O que o povão gosta ano vou com certeza.” mais é de axé, até porque é mais animado. Para jogos, a ideia é O psicólogo Hernandez Juarez diz que eventos desse tipo ser um fim de semana de curtição”, afirma. contribuem para que os jovens se expressem longe de normas Apesar de o grande atrativo serem as festas, os jogos são e regras sociais. “O evento é uma oportunidade de os jovens parte essencial do evento, segundo Filipe Casellato Scaboobterem os prazeres que um carnaval oferece: os objetos de ra, tesoureiro do InterUnesp. “É lógico que grande parte do gozo, como vícios, sexo, sensação de liberdade e impunidade”. público presente nos jogos comparece em virtude do evento Rosa discorda: “Dentro desse contexto, não podemos noturno. Todavia, não é correto falar que os jogos ficam em fazer uma análise apressada. Isso não significa que sejam uma segundo plano”, analisa. “O objetivo dos eventos noturnos é ‘geração perdida’, a juventude universitária não se resume à fomentar a prática do esporte. Isso de que o InterUnesp é só escolha de seu estilo de música”. balada é uma lenda. O estudante também valoriza o esporte”, esclarece Scabora.

Lucro interiorano

Aspectos da juventude Há quem se interesse pela competição esportiva. É o caso de Nicole Campos, estudante do terceiro ano de Medicina da Escola Superior de Ciências da Saúde (Escs), que foi ao Intermed Centro-Oeste de 2009 para jogar basquete. “O que me motivou a ir foi o fato de ser um momento em que todos os estudantes de Medicina da região se encontram”, explica. Contudo, “a prática de esportes, ida ao teatro ou ao cinema

As cidades que recebem os universitários têm de 35 a 300 mil habitantes, e em algumas delas os eventos já fazem parte do alendário oficial. Apesar de reclamações dos habitantes, as prefeituras enxergam os eventos como oportunidade de lucro. Em Araraquara, interior de São Paulo, estima-se que o faturamento em torno do período do InterUnesp seja de R$ 5 milhões, segundo a organização do evento. A conta é simples: são 12 mil universitários, cada um gasta em média R$ 400 nos jogos.


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Brasília, 2 a 15 de novembro de 2010

QUANDO O JORNAL MORRE PELA BOCA N

em as cigarras começaram a cantar e o trabalho está acelerado nas peixarias do Guará. Todos os funcionários devidamente uniformizados para ficar do lado de dentro do balcão. Rapidamente a repórter que vos fala recebe avental, touquinha, boné e as indefectíveis botinas de borracha. Vestida a caráter, assumi meu posto de auxiliar de Eliane Silva, no ramo há mais de 20 anos. “Surubim, pintado, vermelho, linguado, pescada amarela, pescada branca, salmão, corvina, cação...” Ela me apresentou aos pescados falando extremamente rápido seus nomes e como diferenciá-los. Para mim foi impossível memorizar aquela quantidade absurda de informações sobre os peixes. Todos me pareciam iguais: cinzentos, gelados e molhados. O linguado particularmente ficou gravado na minha cabeça. O peixe não era em nada parecido com o homônimo da Disney: muito achatado nas laterais com dois olhos vidrados em um mesmo lado. Assustador. Na verdade, a visão é apenas um dos sentidos que ficam aguçados em uma peixaria. A textura do animal escorregadio e grudento balançando fresco em minhas mãos, na primeira vez em que segurei um deles, foi algo memorável! Isso para não mencionar o cheiro. Nascer no litoral não faz a menor diferença nessa situação. Na peixaria não adianta se gabar de ter sido criada ao lado do mar quando, a vida inteira, só cheguei perto de peixe quando ele estava no prato. Minha primeira tarefa foi a de tratar sardinhas. Em uma mesa grande, um funcionário raspava os pequenos peixes. Meu trabalho era abri-los ao meio para tirar as tripas, cortar a cabeça e puxar suavemente o esqueletinho para fora. Levei cerca de dez minutos para conseguir o primeiro sem transformar a sardinha em uma massa de carne destroçada. Os peixeiros se divertiram com minha total inabilidade, porque mesmo depois de “pegar o jeito” acabei com uma espinha de peixe enfiada debaixo da unha. Ossos do ofício. Depois, a operação sardinha foi bruscamente interrompida. Um freguês, dono de um buffet, encomendou nada menos do que dez quilos de camarão. A notícia teve o efeito de uma bomba no local. Assim como na redação de um jornal, em uma peixaria, a velocidade com que tudo tem que ser feito conta muito. Para atender os clientes com rapidez, o lado de dentro do balcão transforma-se em uma loucura. Todo mundo cor-

rendo, gritando e se esbarrando o tempo todo. Empurramos a sardinha de lado para dar espaço ao maior saco de camarão que já vi na vida. Iniciamos o processo de descascar os crustáceos. Não é tão difícil quanto operar uma sardinha, mas o bichinho é tão gelado que depois de meia hora de traba-lho, já não dá mais pra sentir a ponta dos dedos. Com frequência, funcionários são requisitados de seus serviços para fazer outro trabalho. Assim, antes de acabar com o camarão e dois pares de luvas, fui chamada à frente da loja para fazer minha primeira venda. Fora promovida. Agora o trabalho era ficar ao lado do gerente, Antônio, para chamar – mais precisamente gritar – os fregueses e atender quem aparecesse. Uma senhora se aproximou e, sob a vigilância do gerente, mostrei a qualidade dos produtos: “Pescada Amarela é de água salgada, boa pra fazer moqueca. Tá fresquinha!” Convencida a freguesa, efetuei a venda: 300g de sardinha, meio quilo de tilápia e 200g de camarão. Antes de entregar a mercadoria, uma surpresinha: a cliente queria que descamasse o peixe. Eu mesma faria o serviço – peixeiro é como estagiário, tem que fazer de tudo. Com uma escova de metal, aprendi a esfregar – sem esfolar – as tilápias, fazendo voar escama para todo lado. Superadas as dificuldades, adaptar-me ao trabalho não demorou muito. Apesar da presença de um fotógrafo, as pessoas quase não notaram que eu não era do ramo. Na verdade, a presença do fotógrafo causou mais impacto entre as funcionárias da peixaria, que posavam para as fotos e me perguntavam bastante sobre ele. Mesmo sem conseguir ver uma cabeça de bacalhau, o dia terminou de maneira tranquila. No fim da tarde, é hora de retirar tudo que não foi vendido do mostruário e lavar toda a loja com água e sabão. Parte do peixe que sobra é congelado e o que não servir mais vira ração... de peixe. Na volta, depois de me acostumar ao fedor do peixe, descobri que sabonete, xampu e condicionador têm um cheiro muito melhor do que imaginava. De recordação, trouxe a espinha encravada no polegar e possivelmente alguma escama que só será encontrada daqui a algum tempo. No fim das contas, a distância entre fazer jornalismo e vender pescados é tão curta quanto o espaço que os separa no dia seguinte, quando jornal velho só serve mesmo é para embrulhar o peixe.

Quem costuma ler sabe o peixe que compra. O Campim foi à Feira do Guará aprender a puxar brasa para a sua sardinha. Por Carícia Temporal Iúri Lopes

Guilherme Pera

Depois de ler o Campim, recicle! Use-o para embrulhar seu peixe

Campus nº 350  

Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Edição nº 350. 2 a 15 de novembro de 2010.

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