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ANO 41 - Edição 354

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Brasília, 11 a 24 de janeiro de 2011

Brasília, 11 a 24 de janeiro de 2011

Jornal-laboratório da Universidade de Brasília Faculdade de Comunicação

bandeira eleitoral de dilma falha no df Edemílson Paraná

Programa Minha Casa Minha Vida não garante uma única moradia para famílias com renda de até três salários mínimos, como a de Cleide Coelho Thiago Vilela

aumenta procura por CUIDADORES de idosos

Tajla Medeiros

Miguel Reis

ASSISTÊNCIA

paraatletas brasilienses como shirlene são apostas para mundial

peregrino

relato sobre religiões em sete templos do df


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Brasília, 11 a 24 de janeiro de 2011

Carta da editora

making of Miguel Reis

Carícia Temporal, editora-chefe

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nquanto o foco de todas as lentes está nos salões atapetados de Brasília, o olhar do Campus se voltou para as pessoas. O jornalismo tem uma importante função que é a de prestar um serviço ao público, ao cidadão. Por isso, antes que a primeira pauta seja aprovada em reunião, o jornal é pensado para as pessoas. Gente que ganhou voz nas nossas páginas, ilustradas com o que interessa ao público, sejam denúncias ou conquistas. Nesta edição, o Campus está humanizado. Em campo, fomos buscar pessoas comuns com boas histórias para contar. Além daqueles que lutam, encontramos as pessoas que cuidam dos outros como trabalho e prazer. O emprego de Otoênio Câmara é acompanhar idosos e a sua alegria é dedicar-se a eles. Mais que um trabalho, a atividade é uma realização para inúmeros cuidadores que procuram agora cursos profissionalizantes na capital. Na reportagem da página 3, Carinho, paciência e instrução, conhecemos essas pessoas que se afeiçoam aos seus assistidos como família.

Na matéria Tríade paraolímpica, vemos atletas que são exemplo. Gente que acorda cedo para treinar duro sonhando com o ouro paraolímpico mundial, como o maratonista radicado no DF Antônio Delfino. Deficiências não frearam ele e mais dois atletas, destaques da capital para o campeonato — primeira porta de entrada para os Jogos Paraolímpicos de Londres. Personagem assim não se vê em todo lugar. E como no jornalismo Maomé vai à montanha, a reportagem do Campus partiu em busca dos brasileiros que fazem cada vez mais viagens de navio devido à multiplicação das embarcações em águas tupiniquins. Na matéria Navegar é possível, a repórter esteve a bordo de um navio e foi descobrir o motorista de táxi que, depois de levar muitos passageiros ao porto, decidiu ele mesmo trocar o asfalto pelo verde do oceano por uns tempos. Em tempos de evidência da democracia, não ficamos presos a Maomé e ao islã. Nesta edição, o Campim percorre sete templos em que a gente brasiliense professa sua fé.

Ombudskvinna Marcela Mattos

Estudante do sétimo semestre de Jornalismo

E

screver um texto jornalístico é quase uma receita de bolo. Um dos principais ingredientes é a credibilidade. O preparo é formado por fontes especializadas, bons personagens e dados condizentes. O recheio, aquilo que de fato chama atenção, é o inusitado, o inesperado. Ele não é essencial para a matéria – e nem para o bolo –, mas é o que traz satisfação. Na quarta edição do Campus, o que satisfez o leitor foi a irreverente história daqueles que transformam a Universidade em uma extensão da casa. Acostumada a ser rotulada de sucateada e suja, nada mais interessante do que saber que há aqueles que ainda conseguem tirar proveito do conforto que a UnB oferece. Cumpriram a proposta Campeões da UnB e Bom velhinho antenado. A primeira, conforme o sutiã indica, narra as histórias daqueles que, em vez de se renderem aos sofás dos CAs, passaram dias e noites de dedicação em prol dos projetos. E a segunda traz um novo aspecto às tão comentadas cartas dos Correios. Ainda assim, faltou uma base de apoio. A reportagem poderia ter pego uma quantidade de cartas e ter feito a análise com base nesses números. Coincidência ou não, assim foi a manchete de um dos jornais de Brasília no Natal. Além do consumismo, outras vontades das crianças puderam ser exprimidas. Por outro lado, o leitor passa fome em De olho no futuro. Contrariando o sutiã, o primeiro dado apresentado é a baixapreocupação dos jovens em investir a longo prazo. Além da contradição, a matéria não cita quando a pesquisa foi divulga-

da. Se foi no último Censo, há dez anos, será que o levantamento é o melhor a ser analisado? Também faltou uma aproximação com o público-alvo. É exceção o aluno de 18 a 25 anos que consegue economizar R$ 600 por mês. O ideal seria propor um exemplo possível de rendimento. Quanto acumularia em 20 anos um depósito de R$ 50? Um especialista fazendo esses cálculos e mostrando os benefícios de investir cedo na previdência traria maior credibilidade à reportagem. O mesmo aconteceu em Lição que vem do lixo. As ações são sempre subentendidas. O leitor não entende o diferencial da coleta seletiva na cidade, como se dá o processo de separação, por que os catadores estão lucrando mais. Tudo fica ainda mais confuso quando alinha a redução de poluentes dos ônibus com a coleta seletiva. Mas nem tudo foi perdido. A matéria Em Brasília, coleta muda rotina de ministérios conseguiu salvar justamente o que foi precário na anterior. Colocado na balança, o problema fica, em parte, resolvido.

Feminino de Ombudsman, termo sueco que significa representante, a Ombudskvinna observa e discute o comportamento dos jornalistas e o resultado final de seu trabalho. É a defensora do leitor junto ao jornal.

REsgate

Equipe do Campus reunida para definir o conteúdo do jornal

EXPEDIENTE Campus – Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília Editora Chefe: Carícia Temporal Secretária de Redação: Camila Maia Diretor de arte: Thiago Vilela Editores: Miguel Reis (fotografia), Renata Rusky (página 3), Luiza Machado (páginas 4 e 5), Laís Alegretti (página 6), Davi de Castro (página 7) e Gabriela Furquim (Campim) Diagramação: Ana Elisa Nunes, Daniela Gonçalves, Guilherme Pera, Larissa Leite, Tatiana Tenuto e Thaís Cunha Fotografia: Camila Vellasco, Emanuella Camargo, Letícia Correia, Lorena Bicalho, Nathália Koslyk, Raphaella Bernardes e Tajla Medeiros Repórteres: Bárbara Vasconcelos, Braitner Moreira, Clara Campoli, Edemilson Paraná, João Thiago Stilben, Juliana Contaifer, Mariana Costa, Paulliny Gualberto, Roberta Diniz, Rodrigo Antonelli e Vanessa Röpke Coluna de Opinião: Letícia Correia Ilustração: Iúri Lopes, Thaís Cunha, Thiago Vilela e Vitor Fubu Projeto Gráfico: Ana Elisa Nunes, Clara Campoli, Letícia Correia, Lorena Bicalho, Miguel Reis, Tatiana Tenuto, Thaís Cunha e Thiago Vilela Professores Responsáveis: Sérgio de Sá e Solano Nascimento Jornalista: José Luiz Silva Campus Darcy Ribeiro, Faculdade de Comunicação, ICC Ala Norte. Contato: (61) 3107-6498/6501 CEP: 70.910-900 E-mail: campus@unb.br Gráfica Palavra Comunicação - 4.000 exemplares

ERRAMOS Na edição passada, a reportagem Tranquilidade digital, da página 6, afirma que os estudantes de Audiovisual utilizam fitas MiniDV para gravar os filmes. Na verdade, eles usam fitas Sony PMW-EX3. Além disso, a fita MiniDV grava apenas uma hora, e não três, como dito na matéria.

Leia o

Em 1985, o Campus publicou na terceira edição do caderno especial Cultura Ideias duas reportagens a respeito de religiosidade. Uma, falava sobre a Igreja Petencostal Casa das Bênçãos, febre no Distrito Federal nos anos 80. A outra tratava da Raja Yoga, linha da prática indiana que se concentra no desenvolvimento das potencialidades espirituais. Vinte e cinco anos depois, o Campus toca novamente no assunto, quase sempre tabu. O repórter João Thiago Stilben foi às ruas e visitou vários templos de Brasília para tentar viver as experiências litúrgicas de cada credo. Em primeira pessoa, ele conta o que viu e ouviu em mesquitas, igrejas e centros espíritas. Indo de um ponto a outro, traçou um roteiro para quem não tem preconceitos e busca conhecer outras formas de fé. Leia o resultado no Campim, a página mais ecumênica do jornal.

fac.unb.br/campusonline @campus_online


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CARINho, paciência e instrução

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TRABALHO

Envelhecimento da população abre as portas para cuidadores de idosos. Em 2010, mais de 350 pessoas procuraram curso de capacitação oferecido pelo GDF Por Bárbara Vasconcelos e Mariana Costa Nathália Koslyk

Otoênio, ou “Toni” para os conhecidos, visita Manoel Marques todos os dias, por vontade própria, em asilo no Setor de Mansões do Lago Norte

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toênio da Câmara é referência para os vizinhos no Paranoá. Sempre que um idoso precisa de socorro, o “Toni” é logo chamado . “Sou o Samu daqui”, brinca. Segurança noturno em dias alternados, para complementar a renda da casa que sustenta sozinho ele aceitou a proposta de cuidar de um idoso no começo de 2006. Hoje tem dois cursos de cuidador no currículo, várias ofertas de trabalho e um carinho imenso pelo têm formação na área de saúde antigo paciente, recentemente mandado para um asilo. Com o envelhecimento da população brasileira, quantifitêm apenas o ensino básico cado pelo Censo 2010, trabalhadores como Câmara são cada vez mais requisitados. É difícil precisar quantos cuidadores de são mulheres idosos atuam no DF e no Brasil, já que essa não é uma profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho, apesar de ter trabalham atualmente como cuidador entrado na Classificação Brasileira de Ocupações. Contudo, a Gerência de Valorização do Idoso do Governo do Distrito têm entre 40 e 60 anos Federal cadastrou 823 cuidadores nos últimos 20 anos. Para obter o cadastro, é preciso fazer um curso oferecido Dados da Gerência de Valorização do Idoso pelo órgão. Segundo a coordenadora da Gerência, Zilda Souza, 360 pessoas se inscreveram no ano passado. Dessas, 60 participou do curso de extensão do Uniceub voltado para a foram selecionadas e 48 concluíram a capacitação. O pequeno capacitação de trabalhadores como ele. número de contemplados está relacionado à falta de estrutura Não ficou satisfeito e partiu para o segundo treinamento, do governo para promover a capacitação. “Fala-se muito do dessa vez o oferecido pela Gerência de Valorização do Idoso. envelhecimento da população, mas o Estado ainda não se “As técnicas que eles ensinam me ajudaram muito. As formas preocupa com isso. Não está empenhado em preparar cuidade manusear e transportar o idoso, por exemplo. Eles trabadores, formar profissionais que lidem com o envelhecimento, lham também a questão de saber conviver com os familiares criar instituições de acolhimento dignas”, declara Zilda. do idoso, que é bem importante. A formação é bastante comÉ ela quem organiza – sozinha e sem verba – a formação pleta”, explica Câmara. dos cuidadores, por meio do contato com geriatras, psicóUm ponto do curso, porém, ele não conseguiu colocar logos, enfermeiros e outros profissionais que fazem o treiem prática. “Disseram que não é pra gente se envolver com o namento voluntariamente. Mesmo com as dificuldades, ela paciente. Isso eu não consegui fazer”. Recentemente, Manoel deseja capacitar mais interessados em 2011 : “Meu desejo é Marques foi morar em um asilo, por estar no último estágio da formar 300 por ano”. doença. Agora a família remunera Câmara para tomar conta Os cuidadores cadastrados junto ao governo, entretanto, da esposa do idoso, além de custear três visitas semanais do são apenas uma pequena parcela do total que exerce essa ativi- cuidador ao abrigo. Mas ele vai até lá diariamente. “Vou nem dade no DF, onde estima-se que haja cerca de 207 mil pessoas que seja pra dar um suco”, comenta. “Tenho medo de não ir e acima dos 60 anos. Além de existirem vários outros cursos no outro dia descobrir que ele faleceu. Manoel é como um pai voltados para a categoria, como o da Associação Nacional de pra mim.” Gerontologia e o do Centro Universitário de Brasília (UniA escritora Stella Rodopoulos sempre foi uma pessoa ceub), muitos trabalham sem treinamento. independente, até que há pouco mais de três anos precisou ser Assim como não há exigência formal de capacitação para internada por complicações da diabetes. A idosa de 80 anos cuidar de idosos, também não existe estatuto ou lei que regupassou vários meses no hospital e, no dia em que foi liberada, lamente o trabalho da categoria. Isso leva muitos a atuarem sofreu uma queda e fraturou a bacia. Teve que voltar para na informalidade e assim não terem os direitos trabalhistas a instituição. Foi nesse momento que os quatro filhos e ela garantidos. A média salarial da classe, por exemplo, é de R$ concordaram em procurar alguém para acompanhá-la quando 500, inferior ao mínimo de R$ 510. voltasse para casa. “Meus filhos são ocupados, eles têm os filhos deles e trabalham. Achamos que seria melhor contratar uma pessoa para ficar comigo”, comenta. Desde então, três profissionais cuidam de Stella, todas técnicas em enfermagem. Débora Divina e Elizângela de Moura Quando chegou à casa do idoso de quem cuidaria, Otoêacompanham-na durante o dia e revezam-se à noite, quando nio da Câmara não tinha preparo algum. Manoel Marques, Maria das Neves também faz expediente. Débora e Elizângela aos 86 anos, sofria com o avanço do mal de Alzheimer e logo trabalhavam no Hospital Brasília quando foram procuradas o novo cuidador descobriu que precisaria de ajuda para lidar pela família da escritora. “Um médico nos indicou para eles, com a situação. Apoiado pelos familiares do paciente, Câmara mas até hoje não sei quem foi”, relata Elizângela. “Não tínha-

PERFIL DOS CUIDADORES CADASTRADOS NO GDF 18% 75% 98% 97% 68%

envolvimento

mos experiência em cuidar de idosos, nós trabalhávamos na maternidade”, conta Débora. Segundo as duas, por Stella ter autonomia parcial, o curso de cuidador não faz muita falta. O trabalho delas é basicamente aferir a pressão, medir o nível de açúcar e auxiliar a idosa a se locomover. Além disso, as cuidadoras também fazem companhia para ela nos programas culturais, como lançamentos de livros e premiações. “Nos divertimos muito”, comenta Stella. “Nosso relacionamento é maravilhoso.” Como Stella, Edna Figueiredo, 93 anos, começou a ser acompanhada por uma cuidadora após uma queda que lhe fissurou a bacia, há cinco anos. Até esse episódio, os filhos relutavam em recorrer a acompanhantes para a mãe. “Tínhamos medo de deixá-la com estranhos”, afirma Maria Luísa Figueiredo, caçula de Edna. “No começo, foi bem difícil para ela deixar que eu cuidasse dela. Um estranho seria ainda pior.” Edna confirma: “Não gosto de me sentir dependente. Demorei para aceitar que alguém precisasse me dar banho.” Após mais de dois anos alternando semanas com uma das irmãs para cuidar da mãe, Maria Luísa começou a procurar alguém para ajudá-las. “Em determinadas semanas, nem eu nem a minha irmã podíamos ficar com ela. E meus outros irmãos não moram em Brasília”, relata. Segundo a filha de Edna, as primeiras experiências não foram muito boas, porque as pessoas não tinham a paciência que o trabalho requer. Na terceira tentativa, encontraram Lourdes Camargo, que já tinha prática no ramo. Quando ela começou a cuidar de Edna, há mais de dois anos, Maria Luísa fiscalizava o trabalho. “Depois das outras, ficou difícil confiar em qualquer um”, explica. Hoje Lourdes se sente da família. A cuidadora fica 24 horas por dia ao lado de Edna durante a semana e diz morrer de saudades quando tem folga, aos sábados e domingos. “Dona Edna é uma pessoa incrível, com muita história pra contar. O trabalho é muito gratificante”, comenta.

atenção crescente A capacitação dos cuidadores de idosos tem sido exigida pelo mercado. “Hoje, há vários cursos de nível básico, técnico e até superior para esses profissionais. E a procura por eles tem aumentado bastante”, afirma Jorge Roberto Silva, presidente da Associação dos Cuidadores de Idosos de Minas Gerais, uma das únicas do gênero no país. Para Silva, é questão de segurança ter uma pessoa qualificada. No Distrito Federal, as ofertas de treinamento para quem atua ou quer atuar na área se multiplicam. Porém, segundo Zilda Souza, gerente de Valorização do Idoso do GDF, apenas dois cursos seguem as indicações e utilizam o material do Ministério da Saúde: o da Associação Nacional de Gerontologia e o da própria Gerência. O primeiro oferece aulas três vezes por semana, durante três meses e custa R$350. O segundo é gratuito e também dura três meses, sendo um de estágio em asilo definido pela Gerência.


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Brasília, 11 a 24 de janeiro de 2011

Minha Casa Minha Vida não existe par Edemilson Paraná

Das mais de 13 mil moradias contratadas, nenhuma foi destinada a famílias com renda de até três salários por Edemilson Paraná

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leide de Coelho ficou emocionada quando ouviu o presidente Lula falar pela primeira vez do programa Minha Casa Minha Vida na televisão. Desempregada, 36 anos, mãe de seis filhos, acreditou ter finalmente concretado ali, nas palavras do presidente, os primeiros tijolos de sua tão sonhada moradia. Pouco importava se seu desejo fora até então motivo de promessas não cumpridas, enganações e beneficiamento de políticos locais. Agora era Lula quem o dizia e haveria de ser cumprido. Meses depois, tentativas frustradas de entrar no programa acabariam por decepcioná-la: o sonho haveria de ser adiado novamente. O Minha Casa Minha Vida – um dos estandartes da campanha eleitoral da presidente Dilma Roussef, que foi gestora do programa – não existe no Distrito Federal para quem mais precisa dele. Um muro de burocracia e má vontade política aparta o sonho da população pobre de Brazlândia, onde vive Cleide, e de tantas outras comunidades, das salas refrigeradas dos palácios do Planalto e do Buriti. Números obtidos pelo Campus demonstram que, apesar de muitas já estarem em fase de construção, nenhuma das casas foi entregue no DF até agora. Além disso, das mais de13 mil moradias cujos contratos de construção já foram assinados na Caixa Econômica Federal, nenhuma beneficiou famílias com renda de zero a três salários mínimos. Para essas 102 mil famílias, que correspondem a 85,5% de todo o déficit habitacional do DF, o programa simplesmente não existe. Cleide reclama da falta de acesso. “É difícil chegar lá [na Caixa] e ouvir que não existe programa para a gente. Eu nem queria que fosse de graça, sabe? Se for para ser no Minha Casa Minha Vida, e nem que eu precise morrer de trabalhar, o importante é ter uma moradia digna. Eu queria ter esse direito. Mas parece que o dinheiro da gente vale menos que o dos outros”, lamenta. Neuza Soares, 34 anos, é vizinha de Cleide e mora no mesmo terreno, de 200 m², onde vivem 23 pessoas amontoadas em cinco barracos. “Quando chove é um desespero só, porque as telhas voam e podem cair na cabeça das crianças, sem falar que molha tudo”, conta. Seu barraco foi construído com materiais encontrados na rua. Nele, mora com o marido e mais sete filhos. Assim como Cleide e seus demais vizinhos, a renda familiar de Neuza é de apenas um salário mínimo, valor insuficiente para dar conta de todas as despesas da casa e prover uma dieta balanceada para a pequena Leide Laura, sua filha de nove anos que sofre de subnutrição. “O Minha Casa Minha Vida poderia nos ajudar a resolver esse problema”, diz Cleide. “O programa Minha Casa Minha Vida é um modelo de produção de casas e não uma política de habitação realmente estruturada, por isso não resolve o grande desafio habitacional que é falta de moradia para famílias com renda de zero a três salários mínimos, que é quem mais precisa”, avalia Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada.

Lentidão O Distrito Federal foi uma das primeiras unidades da Federação a entrar oficialmente no programa Minha Casa Minha Vida. Em 15 de junho de 2009 o então governador José Roberto Arruda assinou o termo de adesão com a então ministrachefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. De lá pra cá, pouca coisa aconteceu para viabilizar o programa para famílias com renda de zero a três salários mínimos. De acordo com o balanço final do programa Minha Casa Minha Vida, divulgado no dia 29 de dezembro de 2010 pela Caixa Econômica Federal, o número de moradias cujos contratos de construção já foram assinados no DF chegou a 13.344 unidades. Dados do Ministério das Cidades, anteriores à divulgação do balanço de final de ano da Caixa, demonstram que, do total de casas contratadas, 40% beneficiam famílias com renda de três a seis salários mínimos e 60% subsidiam famílias com renda de seis a 10 salários mínimos. Apenas cerca de 10% do déficit habitacional no DF é composto por famílias nessas duas faixas de renda (vide gráfico). Indagado sobre a destinação de mais moradias para famílias menos necessitadas, o gerente regional de crédito imobiliário da Caixa Econômica Federal no DF, Celso Eloi, explica que a construção das casas acontece mediante a apresentação de projetos pelos construtores. “No sistema do Minha Casa Minha Vida, o empresário apresenta um projeto, propõe o financiamento e, depois de aprovado, a Caixa autoriza a construção e passa os recursos; e então financiamos as moradias

Em Brazlândia, famílias sem casa dividem barracos em pequeno terreno

mediante a demanda das pessoas. Nós não compramos terrenos, nem definimos áreas. Isso depende dos construtores e do governo”, explica. Empresários da construção civil reclamam do alto preço dos terrenos no DF, constantemente valorizados, que inviabilizam a construção das casas no valor exigido pelo governo. “O principal entrave é o preço do terreno, que, para nós, impede construção de casas para famílias de baixa renda (zero a três salários mínimos). Sem subsídios do governo, como a doação dos terrenos, o programa não sai porque não compensa para os construtores. Só o valor do terreno, em algumas localidades, já beira o valor total pago pelo governo para a construção das casas”, explica Júlio Peres, vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Distrito Federal (Sinduscon). “Brasília tem os terrenos mais caros do país, e para viabilizar o programa para as famílias mais necessitadas é preciso haver participação efetiva do governo distrital”, concorda Eloi. Ainda de acordo com o gerente, um convênio entre a Caixa e o Governo do Distrito Federal já foi assinado, mas até agora nenhuma área foi destinada para a construção das casas. Questionado sobre o problema, o Ministério das Cidades disse, por meio de sua assessoria de Comunicação, que em relação ao governo federal tudo foi realizado conforme o estabelecido na Lei 1.197/2009, que regulamenta o programa Minha Casa Minha Vida. Ainda de acordo com o ministério, os recursos referentes à aplicação do programa Minha Casa Minha Vida no DF já foram repassados à Caixa, que gere a verba conforme o andamento das contrações. Procurados pelo Campus antes da troca de governo, o governador Rogério Rosso e a vice-governadora Ivelise Longhi não quiseram se pronunciar sobre o assunto.

“Um problema de gestão” A aplicação do Minha Casa Minha Vida no Distrito Federal esbarra na ineficiência e nos inúmeros problemas de gestão do GDF. “Não é culpa da crise política, isso acontece por má gestão mesmo, algo que vem de muitos anos”, avalia César Pessoa, presidente da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (CODHAB). É a CODHAB que gerencia todos os programas habitacionais e a distribuição de lotes por parte do Governo do Distrito Federal. As terras de propriedade do DF utilizadas em programas habitacionais são transferidas da Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal (Terracap) para o GDF, que as destina por meio da CODHAB para doação ou utilização em programas habitacionais. Questionado se a Terracap cedeu terrenos para serem utilizados no programa Minha Casa Minha Vida, o presidente da agência, Dalmo Costa, não soube informar. “A Terracap promove a cessão dos terrenos na medida em que é demandada pelo governo. O GDF não diz para que programa habitacional eles serão utilizados, só pede, e nós cedemos. Então não sei te dizer se a Terracap repassou ou não terrenos para o GDF referente ao Minha Casa Minha Vida”. De acordo com Marise Medeiros, diretora técnica da CODHAB, as terras geridas pela companhia são liberadas para utilização mediante análises técnicas e apresentação de projetos de ocupação. “Até onde eu sei não há nenhum projeto específico de liberação de terrenos para construção de moradias no programa Minha Casa Minha Vida”, diz. O presidente da CODHAB explica que os problemas de corrupção na companhia atrasaram o processo de liberação dos terrenos. “Havia algumas áreas que seriam naturalmente utilizadas para o Minha Casa Minha Vida, mas os lotes foram

Distribuição do déficit habitacional po 0-3 salários mínimos

85,5%

3-6 salários mínimos

6-10 sal mínim

6,4%

4,8%

Fonte: Fundação João Cândido. Déficit Habitacional

gente sem casa, 62.708* casa vazia 2010

D

D

40.470*

2007 *Número de moradias vazias em condição de serem habitadas (DF) Fonte: Fundação João Pinheiro

entregues sem serem legalizados”, afirma. “Quando assumi a presidência há sete meses, deparei com a distribuição de áreas em que não existiam licenciamento. Havia um esquema de venda e distribuição ilegal de lotes dentro da CODHAB que está sendo investigado.”

Corrupção César Pessoa se refere às investigações do Ministério Público do Distrito Federal em parceria com a Polícia Civil do DF que resultaram nas operações João de Barro e Afheim, em abril e agosto de 2010, respectivamente. A primeira apura fraudes na lista habitacional de lotes destinados a PMs e bombeiros. Na segunda, a suspeita é de que servidores da companhia de habitação do GDF favoreciam cooperativas e associações em um esquema de doação de terras inexistentes. O sistema de cooperativas habitacionais do DF é um verdadeiro receptáculo de corrupção e favorecimento político. A Lei Distrital 3.877/2006, de relatoria da então deputada e depois vice-governadora Ivelise Longhi, determina que 40% de todos os terrenos doados pela CODHAB devem ser destinados às cooperativas habitacionais, outros 40% são destinados a uma lista de espera da companhia e os demais 20% a idosos e pessoas com deficiência. A lei não prevê, no entanto, nenhum critério para definição de quais cooperativas serão beneficiadas

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ra os mais pobres no DF Edemilson Paraná

Edson da Silva, um dos coordenadores do MTST, veio de São Paulo para mobilizar famílias na luta por moradia no DF

or faixa de renda no df

lários mos

Mais de 10 salários mínimos

Total

3,3%

100%

%

no Brasil (2007)

Déficit habitacional no DF

Distrito Federal

Famílias sem moradia¹

2000

111.422

2007

120.527

Crescimento

8,2%

¹Fonte: Fundação João Pinheiro

nem como tais cooperativas farão a distribuição dos lotes para seus associados. Em muitos casos, líderes dessas cooperativas vendem os lotes ilegalmente ou distribuem por meio de favorecimento político-eleitoral. Para fazer parte dessas associações é necessário pagar taxa de filiação e mensalidade. Os esquemas de corrupção não são novidade para Cleide. “Há 10 anos tento ganhar um lote. A gente sabe exatamente como funciona. Tem que pagar por fora, tem que ser chegado de um político. Entra governo e sai governo, nada muda. A gente até conhece quem coordena e quem é beneficiado nesses esquemas”, protesta. Mas Cleide e as cinco famílias que vivem amontoadas em barracos no mesmo terreno em Brazlândia terão de esperar ainda por um bom tempo. “Cancelamos a entrega de todos os lotes e congelamos as áreas. Estamos trabalhando na regularização desses terrenos e só depois disso podemos pensar em destinação de terrenos para o Minha Casa Minha Vida”, explica César Pessoa.

“Eles querem é dinheiro” Apesar de muitos empresários reclamarem da falta de incentivos do governo, houve quem resolvesse fazer tudo por conta própria. Nixon Souza Leite, um dos donos da construtora Infracon, de Goiânia, adquiriu uma área em Santa

Maria para construir 3 mil moradias no programa Minha Casa Minha Vida para famílias com renda de zero a três salários mínimos. A construtora já trabalha na construção de casas para baixa renda no programa Minha Casa Minha Vida em Goiás. “Não precisamos de terreno do governo. Compramos a área e estamos dispostos a fazer tudo por conta própria. Mas a burocracia é tanta que não conseguimos a liberação”, reclama. O processo de liberação da área da empresa de Nixon em Santa Maria está travado na Secretaria de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Meio Ambiente (Seduma). “Nosso projeto foi pré-aprovado pela Caixa. Está tudo certinho. Por se tratar de baixa renda com interesse social, deveria haver ainda mais pressa, mas eles ficam jogando de um lado para outro, arrumando problemas. Isso acontece porque não estamos pagando propina, eles querem é dinheiro”, denuncia o empresário. “Um dos técnicos da Seduma chegou a me dizer que o que eu queria fazer lá era um conjunto habitacional para favelados. Eles evitam porque se trata de casa para pobres e eles não têm interesse em construir habitação para pobres.” Cansado de esperar governos e empresários, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) encontrou na legislação que regulamenta o Minha Casa Minha Vida um modo alternativo de participar do programa. De acordo com a resolução nº 114 do Fundo de Desenvolvimento Social do Ministério das Cidades, entidades representativas, associações e cooperativas podem, mediante a apresentação de um projeto de ocupação habitacional, obter verba diretamente do governo federal para a compra dos terrenos. O programa Minha Casa Minha Vida separa R$ 500 milhões do montante total de recursos para essa modalidade. Com atas, documentos e relatos assinados em mãos, Edson Francisco da Silva, um dos coordenadores do movimento, reclama da má vontade das autoridades. “Esgotamos todas as instâncias possíveis, habilitamos a entidade, conversamos até com o (então) ministro das Cidades, Márcio Fortes, mas esbarramos na burocracia do GDF. Apresentamos mais de 10 áreas como de interesse para aquisição dos terrenos, mas em todas eles colocaram algum empecilho”, conta.

Um novo tempo? Para todos os ouvidos pela reportagem, de empresários a autoridades e líderes comunitários, a expectativa é de que o impasse seja resolvido no novo governo que se inicia em janeiro deste ano. “Vou firmar parceria para fazer o programa realmente ser aplicado aqui, com o financiamento de moradias. O governo federal entra com os recursos de financiamento e o GDF com terrenos e infraestrutura”, antecipou o novo governador, Agnelo Queiroz, ao Campus por meio de sua assessoria de Comunicação. “Agora que estamos organizando a CODHAB e finalizando o trabalho de regularização dos terrenos, deixaremos tudo pronto para que o próximo governo possa aplicar o programa Minha Casa Minha Vida no DF com sucesso”, garante César Pessoa. O empresário Nixon, indignado com a situação, vê no fato de a nova presidente e o governador eleito serem do mesmo partido uma possibilidade de resolução do impasse. “Acho que com o novo governo a coisa muda.” O mesmo pensa o vicepresidente do Sinduscon, Júlio Peres. “Esse governo tem tudo para fazer uma boa política habitacional”, diz. Menos otimista, Edson da Silva pretende continuar protestando. “Até pode ser que melhore, mas vamos continuar lutando, porque, independentemente de quem estiver aí, vamos ter que lutar para conseguir as coisas.”

“Sem briga, sem protesto, não sai” O título do panfleto que o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto distribuiu em Brazlândia convocando a população local para uma assembleia no dia 19 de dezembro – Minha Casa Minha Vida só sai com luta – evidencia a descrença em relação à capacidade das autoridades de atenderem, sozinhas, às necessidades da população. “Nosso objetivo é mostrar para o povo que, sem briga, sem protesto, o Minha Casa Minha Vida não sai. É assim em todos os estados onde estamos”, explica Edson Francisco da Silva, um dos coordenadores do movimento. No dia 20 de julho de 2010, o movimento ocupou o prédio do Ministério das Cidades com 400 famílias para pressionar pela aplicação do Minha Casa Minha Vida para famílias de baixa renda. Deixaram o prédio após reunião com o então ministro das Cidades, Márcio Fortes, e representantes da Terracap e da Secretaria de Patrimônio da União, que prometeram buscar solução para o problema. Criado em 1990, em São Paulo, o movimento está presente em nove estados. “O MTST tem como um dos seus objetivos combater a máquina de produção de miséria nos centros urbanos. A ocupação de terra, trabalho de organização popular, é a principal forma de ação do movimento”, diz o site oficial do movimento na internet. Há cerca de um ano, Edson da Silva, Zezito Alves da Silva e Eduarda dos Santos deixaram São Paulo, sede nacional do movimento, em direção ao Distrito Federal. “Para nós era importante trazer o movimento para a capital federal, que além de facilitar a luta por demandas de outros estados é um dos lugares com o pior problema habitacional do Brasil”, explica Zezito da Silva. Com a ajuda do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e da população local, o MTST acabou fincando sua bandeira em Brazlândia, a 45 km de Brasília. “Primeiro a gente foi para Sobradinho, mas depois fomos chamados para ajudar em uma ocupação de terra em Brazlândia e acabamos ficando por aqui”, conta Edson da Silva. Hoje o movimento já conta com mais de 1,3 mil famílias cadastradas na cidade. A família de Cleide de Coelho, descrita na reportagem, é uma delas. “Esse pessoal luta mesmo, sabe? Eles não cobram taxa, mensalidade e nem prometem nada para a gente. E eles estão certos, nessa vida a gente só consegue as coisas com muita luta mesmo”, diz ela.

opinião

por Letícia Correia

Se o ex-governador e a ex-vice-governadora não quiseram explicar o mau funcionamento do programa, fica claro que o Minha Casa Minha Vida tem muitos problemas no Distrito Federal. Famílias como a da personagem Cleide, mostrada na reportagem, que esperam há dez anos pela oportunidade de ter a casa própria financiada, não estão querendo ganhar algo. Querem apenas ter um lugar onde morar sem ter que comprometer grande parte de seu orçamento com aluguel. O Minha Casa Minha Vida é primeiramente destinado à população de maior déficit habitacional no país, e, não coincidentemente, essa população é a menos favorecida pelo programa na capital. A realidade imobiliária de Brasília contribui para que aqueles mais necessitados não sejam atingidos da forma como deveriam. O financiamento é alto porque o preço do terreno é exagerado. Diferente de outros lugares do país, como em Goiás, o estado mais próximo do DF, mas onde o programa de fato funciona. Dá certo em Goiás também pela iniciativa das construtoras. Fora do Distrito Federal vale a pena construir para o Minha Casa Minha Vida. Mesmo que baratas, elas geram lucro. Em Brasília, as empresas privadas não têm tanto interesse em investir na construção de casas populares que serão vendidas a preço baixo, se elas podem construir e vender para classes mais altas pelos preços exorbitantes da especulação imobiliária daqui. É mais interessante vender para particulares do que se envolver no programa do governo com baixa margem de lucro. Para que um programa de abrangência nacional com tantos envolvidos no processo, ou influenciados por ele, funcione, não basta apenas a vontade de construtores como Nixon Souza Leite ou a perseverança de quem espera por uma casa. É preciso organização e uma burocracia inteligente que contribua para a eficiência na distribuição das moradias.


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Brasília, 11 a 24 de janeiro de 2011

Navegar é possível

TURISMO

Aumenta o número de brasileiros que têm acesso a viagens de navio por Vanessa Röpke

Vanessa Röpke

Marítimas (Abremar), o número de navios e empresas no país poderia ser maior se houvesse mais investimentos na área. De 139 países pesquisados, o Índice de Competitividade Global 2009/2010, do Fórum Econômico Mundial, coloca o Brasil na 123ª posição em relação à qualidade dos portos. “A falta de infraestrutura ainda é o principal problema”, destaca Ricardo Amaral, presidente da Abremar. Apesar da estrutura inadequada, a concorrência aumentou e os preços baixaram. Dez anos atrás, a quantidade de embarcações no país era insuficiente para atender à demanda do público brasileiro, segundo o agente de viagens Giovanne Serraz, na área há mais de 20 anos. Aos poucos, empresas como a norueguesa Royal Turistas se divertem na área externa do navio MSC Orchestra, que tem 3.013 leitos Caribbean e as italianas Costa e MSC começaram a perceber que o Brasil era um mercado promissor motorista de táxi Edson Ferreira leva diariamente até o devido à costa extensa e à resposta positiva da população. Na Porto de Santos passageiros de cruzeiros. Por meio de conversas durante o trajeto, ele se informa a respeito das viagens mesma época, com ajuda da publicidade, o público dos navios de navio. Em 2009, resolveu fazer uma. “Sempre quis, mas era começou a mudar. “Os cruzeiros sofriam certo preconceito, era muito caro. Conversando com os passageiros, descobri que todo ‘programa de velho’. Agora o público é de mais jovens e de famímundo podia fazer, eu não ia perder a oportunidade.” Ferreira lias inteiras”, compara Serraz. gostou tanto que já tem tudo programado para a próxima, ainda Dirce Souza fez seu primeiro cruzeiro em dezembro de 2010, neste ano. com o marido e os dois filhos. A dona de casa se sentiu atraída As viagens de navio estão mais acessíveis. Um cruzeiro na pelo tempo de duração da viagem. “O preço é bom e, por ser pouvirada do ano, que percorre o Nordeste brasileiro, com bebida e co tempo, encaixou nas férias que nós nunca conseguimos tirar”, comida inclusas, custava US$ 1.480 por pessoa em 2007. Agora, explica Dirce. No primeiro dia dentro do navio, ela sentiu tontura o preço da mesma viagem é US$ 1.165 – diferença de US$ 315, e dor de cabeça: “Decidi nunca mais fazer cruzeiros, pensei ‘meu isto é, 21% a menos. Deus, o que eu estou fazendo aqui?’”. No dia seguinte, Dirce Olga Gutschow ganhou da filha a viagem de navio. Aos 77 estava recuperada. “Começamos a programar a próxima viagem anos, a aposentada aprovou o presente. “As cabines são muito de navio. Desta vez vamos para Fernando de Noronha”, conta confortáveis e a equipe de animação, muito divertida, tinha o entusiasmada, após o jantar de gala do navio MSC Orchestra. que fazer o dia inteiro”, relata Olga, que nunca havia imaginado Para atrair o público brasileiro, as empresas passaram a invesfazer um cruzeiro. “Achei que estava sonhando, nem parecia real, tir não só em melhores condições de pagamento, como prazo estendido e sem juros, mas também em mini-cruzeiros. São viagens foi maravilhoso”, conta enquanto toma o último café da manhã, de navio que duram em média três noites – opção para quem não antes do desembarque. quer gastar muito ou tem receio da primeira viagem. Hoje existem mais navios pela costa brasileira. Eram seis na O agente de viagens Demarcos Bose garante que a procura temporada 2004/2005. Na atual, são 20. Apesar de a economia por cruzeiros já é maior do que por pacotes normais. “Hoje em do Brasil atrair empresas estrangeiras e o país já ser, segundo dia, com o pagamento facilitado e os preços mais baixos, quala Cruise Lines International Association (CLIA), o sexto maior quer um pode fazer cruzeiros, só precisa se programar”, afirma mercado de cruzeiros do mundo, a infraestrutura portuária não Bose. Em uma grande agência de turismo, o valor cobrado por oferece boas condições para o turismo náutico. uma viagem a Fortaleza, saindo de Brasília, com duração de sete Para a Associação Brasileira de Representantes de Empresas

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dias, na época da virada de ano, custa R$ 5.300, incluindo café da manhã, jantar e passagens aéreas. Um cruzeiro marítimo no mesmo período do ano, com igual duração, custa a partir de R$ 1.980, com cinco refeições diárias e bebidas, mas sem o valor do transporte até as cidades portuárias. Segundo dados da Abremar, quase 370 mil brasileiros optaram por viajar de navio na temporada 2007/2008. Para o período entre dezembro de 2010 e abril de 2011, estima-se 884 mil turistas. Muitos já sabem que fazer cruzeiros está mais acessível, mas nem todos se acostumam a navegar. A bancária Marina Cerqueira não quer repetir a viagem. “Deus que me livre! Foi bacana como experiência, mas passei mal todos os dias.” E decide: “Prefiro ficar em terra, o balanço do mar não é para mim”. Margarida Camargo, dona de casa de Campinas, também não pretende fazer outro cruzeiro. A viagem foi presente da filha, mas Margarida revelou, na beira da piscina do navio, o sentimento de desconforto. “É muito luxo, não precisava disso tudo, não me sinto à vontade.” Para quem é experiente, as atuais condições não impressionam. As amigas Madalena Almeida e Santa Leis, de São Paulo, já fizeram mais de dez cruzeiros e perceberam queda na qualidade do atendimento. Elas afirmam que o número de funcionários diminuiu e que as filas para as refeições aumentaram muito. “Não tem como atender bem pelo preço que eles cobram”, resume Santa.

Trabalho a bordo Os brasileiros não estão só viajando mais, mas também trabalhando. No navio MSC Orchestra, que fica entre dezembro e abril no país, 15% dos funcionários eram brasileiros na temporada 2009/2010. Neste ano, são 30%. Segundo a Abremar, 3.955 pessoas começaram a trabalhar nos navios em 2010. É o caso de Agueda Gomes, recepcionista do MSC Orchestra. Natural de Fortaleza e formada em Direito, ela está há dois meses no navio e revela que procurou o emprego para conhecer lugares diferentes e conviver com estrangeiros. Na primeira semana de trabalho, enfrentou tempestade no Golfo do Leão, ao sair de Barcelona, na Espanha. “Nós não conseguíamos nem ficar em pé.” Mas a moça não desistiu das longas viagens: “Normalmente a gente nem sente que está dentro de um navio”. A Abremar prevê o aumento de navios e de vagas de emprego. “Na próxima temporada esperamos crescimento de 30% no número de rotas, o que aumenta em 15% a geração de vagas”, defende o presidente da associação, Ricardo Amaral.

Muitas vagas, poucas matrículas

educação

Instituição para filhos de estudantes, funcionários e professores da UnB perde metade dos alunos e tem ociosidade de 60% por Roberta Diniz

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instituição da Associação dos Servidores da Fundação Universidade de Brasília (Asfub) destinada ao atendimento de crianças perdeu metade dos alunos desde a fundação, há 26 anos. Riscos de desabamento, mudanças constantes de local, concorrência com escolas em tempo integral e até ratos e cobras afastaram interessados. Instalações que podem abrigar 160 crianças só atendem a 60, o que equivale a uma ociosidade de 60%. Agora, com uma sede nova inaugurada há um ano e meio, a instituição – que tem o nome oficial de Programa Infanto Juvenil e é conhecida pela sigla PIJ – tenta mudar a imagem e se reerguer. “Professor tem, monitor tem, material também tem. O que falta é aluno”, lamenta a coordenadora, Rosa Rodrigues. Em 1984, quando foi criado por um grupo de professores da UnB, o PIJ ficava em frente ao Departamento de Música, em duas salas cedidas por um docente. Na época, atendia a aproxi-

Emanuella Camargo

madamente 120 crianças. Dois anos mais tarde, mudou-se para o primeiro prédio da UnB, a antiga reitoria, localizada na Faculdade de Educação (FE-3). Lá permaneceu até 2006. “Disseram-nos que o prédio estava rachado e exigiram que saíssemos”, lembra a funcionária mais antiga, Lúcia Ribas. O decano de Assuntos Comunitários em 2006, Reynaldo Tarelho, conseguiu um espaço no Centro Olímpico (CO) para o programa. Mas o lugar era aberto e não oferecia estrutura segura. Além de haver um único banheiro disponível, o local era rodeado por mato, que abrigava ratos, cobras e saruês. “Os pais não queriam deixar os filhos por causa do risco de bichos”, lembra Lúcia. O PIJ funcionou durante três anos no CO. Foi o pior período do programa, quando atendeu a apenas 20 alunos. Em 2009, o reitor Timothy Mulholland autorizou a construção do prédio oficial da instituição, mas a liberação do edifício foi demorada. A indefinição levou pais a matricularem os filhos em outras instituições. O atual prédio está situado em frente à Faculdade de Direito, ao lado da Asfub. O surgimento das escolas integrais do Governo do Distrito Federal, em 2008, também afetou a quantidade de matrículas no PIJ. A escola integral mantém a criança mais de seis horas por dia no colégio e também oferece aulas complementares. Lúcia Ribas percebeu que vários pais optaram por colocar seus filhos em uma dessas escolas, sem custos. Segundo dados de maio de 2010 da Secretaria da Educação do Distrito Federal, existem 270 escolas integrais no DF, das quais 23 estão no Plano Piloto e Cruzeiro. As escolas integrais no Distrito Federal recebem as crianças apenas em três dias da semana.

Alex, filho de Aline Taylor, é um dos 60 alunos do programa

O que é O PIJ é um programa de educação complementar e alternativo que oferece aulas de inglês, informática, natação e reforço pedagógico. Ele atende a filhos de associados da Asfub e ao restante da comunidade acadêmica. Os alunos têm aulas todos os dias, durante os turnos matutino e/ou vespertino.

Fátima Cardozo, funcionária da Asfub, deixa a filha na Escola Classe 405 Norte de terça a quinta-feira e, nos outros dois dias, a menina estuda no PIJ. Ela está satisfeita com a escola integral, que ao contrário do PIJ oferecem alimentação. “Minha filha tem refeições e eles (os monitores) ajudam com as tarefas”, diz Fátima. A professora do Instituto de Biologia da UnB Aline Taylor tem três filhos que participam das atividades do PIJ. Ela considera o programa pouco conhecido pela comunidade. “O trabalho deles é ótimo. Deveria ser mais divulgado”, afirma Aline. Karina Ribas, professora há 10 anos, percebe que os pais passam a saber da existência do PIJ por comentários de colegas servidores. “As pessoas chegam aqui dizendo que não sabiam que o PIJ existia”, revela.

Serviço Programa Infanto Juvenil (PIJ) Público: crianças de dois anos e meio a dez Mensalidade: R$ 280 (R$ 150 para associados da Asfub) Taxa anual de material: R$ 200 Telefone: (61) 3307 1088 - ramal 24 Horário de funcionamento: 7h50 às 12h/13h50 às 18h


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Tríade paraolímpica

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Esporte

Atletas de ponta no cenário brasileiro saem da capital para tentar o ouro neozelandês no Mundial de Atletismo por Braitner Moreira e Clara Campoli

egunda-feira, 7h, Centro Olímpico da Universidade de Brasília. Em uma rampa de 50 metros, improvisada na terra, Antônio Delfino dispara para conseguir um bom tempo. Depois, vai para a pista de corrida, treina tiros de até 400 metros, e então anestesia os músculos doloridos ao entrar num balde de gelo. Almoça, geralmente no Restaurante Universitário (RU), e à tarde volta ao batente. Segunda-feira, 8h, Parque da Cidade. Shirlene Coelho aquece os músculos antes de praticar lançamentos de dardo e discos e arremessos de peso. Após o almoço, reforça o físico na academia. A rotina, bem como a de Delfino, mantém o ritmo todas as semanas, de segunda a sexta-feira. Segunda-feira, 9h, Centro Interescolar de Educação Física (Cief). A chuva forte impede o treinamento de Thiago Barbosa de Souza, vencedor de três medalhas de ouro nos Jogos ParapanAmericanos Juvenis, de Bogotá (Colômbia), em 2009. A cena se repetiria: durante a semana, ele só pôde treinar uma vez. Como a pista não tem cobertura, a chuva torna o treinamento impraticável para quem, como ele, corre em uma cadeira de rodas. A um mês do Mundial Paraolímpico de Atletismo, que acontecerá em Christchurch (Nova Zelândia) entre 21 e 30 de janeiro, os técnicos forçavam os trabalhos dos atletas. “Nesta época, o treino fica pior do que eles vão encontrar, para que o atleta chegue dando conta do recado com facilidade”, explica Raimundo Tadeu Monteiro, treinador de Delfino e assistente técnico da delegação brasileira que viajou para a Nova Zelândia. O Comitê Parao-

categorias E COEFICIENTES Na Paraolimpíada de Beijing, Shirlene Coelho quebrou recorde mundial no lançamento de dardo, mas ficou apenas com a medalha de prata. Isso por causa da classificação funcional, índice desenvolvido na década de 1940 e determinado para cada esporte, em três avaliações: médicas, funcionais e técnicas. A classificação nivela os aspectos da capacidade física e competitiva do atleta. Ou seja, pessoas com sequelas diferentes podem competir entre si e a colocação final é definida por meio de um coeficiente que equilibra as categorias. Shirlene fez o recorde na categoria F37, mas o ouro ficou para a chinesa Qing Wu, que foi ainda melhor no grupo F36.

tajla medeiros

S

límpico Brasileiro convocou 24 atletas para a disputa, primeira oportunidade que o país terá de conseguir vaga na Paraolimpíada de Londres, em 2012. A comissão técnica aposta no Mundial. Chegou no último dia 7 para se aclimatar ao lugar e dar melhores condições aos atletas. Shirlene e Delfino têm obtido os principais resultados de Brasília no atletismo paraolímpico. Ela é a atual detentora do recorde mundial de lançamento de dardo e ele tem a melhor marca dos 400m rasos.

Histórias de medalhistas A paralisia cerebral de Shirlene nunca a impediu de fazer molecagem na infância, em Sa- No Centro Olímpico da UnB, Antônio Delfino intensifica os treinos diários mambaia. “Não sei nada de boneca. Quando era pequena jogava pião, subia em árvore, pulava muro.” Ela começou lhado pela chuva forte, ele garante que as esperanças estão altas: no atletismo há quatro anos. Depois de conquistar uma medalha “Acredito que, dando o meu melhor lá, vou conseguir medalha”. de ouro e duas de prata no Parapan-Americano do Rio de Janeiro, em 2007, passou a treinar com Domingo Guimarães, o Mingo. Com ele, corpo mole não tem espaço: “Treino com uma condição: o ‘não consigo’ não existe. Ela sempre foi danada, nunca foi coitaMais velho entre os convocados para o Mundial, Delfino tem dinha”. O resultado do esforço de Shirlene é a alegria de ter sido propriedade para falar da importância dos estudos para um esmedalha de prata em Beijing 2008. “Foi uma experiência maraviportista. “O atleta não vive só de bons momentos. Se quiser algo lhosa”, recorda. a mais, tem de se esforçar.” Bolsista, está no segundo semestre de Idade avançada não é empecilho para Delfino, 39 anos, que Educação Física na Universidade Católica de Brasília e é calouro teve parte do braço direito amputado em um acidente de trabalho. de Shirlene, que cursa o terceiro. Thiago está no mesmo semestre A expectativa para o Mundial é o pódio: “Quero conseguir bons resultados. Não adianta treinar e levar poeira na cara”. Delfino não do curso, na Faculdade Alvorada, também sua patrocinadora. Mingo e Monteiro, técnicos da dupla, fazem questão de ver pôde competir na última Paraolimpíada por causa de uma contuos pupilos estudando. “Vida de atleta tem prazo de validade, mas são, mas não deixou de treinar com afinco para as competições os estudos, não”, resume o treinador de Shirlene, que diz que a seguintes. Arfando, entre um tiro e outro, o atleta abre um sorriso formação acadêmica traz grandes mudanças na vida do portaao lembrar da satisfação que foi ganhar dois ouros paraolímpicos dor de deficiência, assim como o esporte. Ela é reconhecida por em Atenas 2004. colegas e professores como recordista mundial. Mingo se anima Para chegar à Nova Zelândia com boas expectativas, a preparação de Barbosa também foi pesada. “Abri mão de algumas festas com a inclusão social que a carreira trouxe para a vida dela: “O de final de ano para me preparar da melhor forma possível”, conta. esporte mudou a vida da Shirlene. A sociedade olha o deficiente de maneira diferente, rejeita, deixa no subemprego... Agora não é O jovem, que corre nos 100m, 200m e 400m livres, tem artrogrimais assim. E não é só aparecer na mídia, ela se sente valorizada, pose congênita, síndrome rara. Por causa dela, nasceu com os membros inferiores atrofiados. Mesmo com o treinamento atrapa- faz bem para a autoestima”.

SALA DE AULA

Deu tilt

ENTRETENIMENTO

Rigidez da legislação brasileira e inflexibilidade da Apple dificultam a compra de jogos eletrônicos por Juliana Contaifer e Rodrigo Antonelli

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iPad chegou ao Brasil há pouco mais de um mês e já soma mais de 30 mil vendas, segundo a International Data Corporation (IDC). O sucesso mercadológico do produto, porém, não se reflete nas relações da Apple com o Ministério da Justiça (MJ). Desde que o mercado virtual de jogos começou a crescer, os dois travam uma batalha que parece não ter fim. Enquanto a lei brasileira de classificação indicativa só permite que jogos estrangeiros entrem no mercado nacional após passar por análise do MJ, a Apple continua com a política de fazer sua própria classificação e exige que o ministério passe a aceitá-la também, como acontece na maioria dos países que contam com AppStores, lojas virtuais da empresa. “O que vimos foi uma certa má vontade por parte da empresa, que não fez nenhuma outra sugestão para resolver o problema”, conta Davi Pires, diretor do Departamento de Classificação Indicativa do MJ. Assim, a AppStore brasileira fica proibida de vender jogos e quem sai perdendo é o consumidor. O Campus tentou contactar a Apple para comentar o assunto, mas não obteve resposta. O MJ não aceita a classificação internacional porque, segundo Pires, é inadequada aos valores da sociedade brasileira. “O mercado americano, por exemplo, é mais condescendente com a violência e rigoroso com a sexualidade, enquanto, no Brasil, o padrão é oposto.” O diretor afirma que a classificação nacional é feita com base na cultura brasileira e respeita todas as suas características, por isso a preferência em adotá-la. O usuário Bruno de Aragão comprou um iPad e reclama da situação. “É uma pena. Comprei basicamente por causa dos jogos, já que o aparelho revoluciona a interatividade. Agora, sou obrigado a burlar o sistema e fazer download em lojas de outros países, que aceitam a classificação internacional. É ilegal, mas é Miguel Reis

Enquanto outros jogos não são liberados, o jeito é jogar e ter paciência

a única solução.” Pires afirma que o MJ sabe da alternativa, mas que nada pode ser feito enquanto as duas partes não chegarem a um acordo. “Quem perde mesmo é a sociedade, que deixa de receber um produto classificado de acordo com as peculiaridades de sua cultura”, esclarece. Para se ter ideia da importância da Apple no mercado de jogos, a AppStore oferece cerca de 35 mil aplicativos, quase duas vezes mais do que a Android Market, loja do Google, principal concorrente. Além disso, dados da empresa americana Flurry Analytics mostram que o consumo de jogos da Apple cresceu 14% no último ano, fato que diminuiu o lucro até de consoles feitos exclusivamente para jogar, como o Nintendo DS e o Playstation Portable (PsP). A pesquisadora na área de cibercultura Gabriela Zago considera correta a postura do MJ de se manter firme às particularidades locais mesmo diante de uma gigante global como a Apple. “Se deixássemos, toda a nossa cultura seria absorvida por padrões globais. Mas também é um tanto exagerado se prender a classificações etárias e simplesmente não permitir que os jogos sejam vendidos”, opina. Para contornar a rigidez da legislação brasileira, a pesquisadora sugere a criação de uma comissão da Apple no Brasil para adaptar as classificações: “Tudo bem que a postura deles é a de lançar rápido e igual para todos, mas simplesmente não lançar é pior do que um eventual atraso”.

CLASSIFICAÇÃO CONTROVERSA De acordo com a psicóloga infantil Yvanna Sarnet, obedecer à classificação etária é muito importante para não afetar o desenvolvimento da criança. “É imprescindível que os jogos respeitem as fases do crescimento. Se a criança tem contato com situações que não estão em sua realidade, acaba tendo que processar a informação antes da hora e pula etapas essenciais de aprendizado”, explica. Como a classificação não é obrigatória, cabe aos pais decidir o que é adequado ou não para os filhos. Suzanila Silva, mãe de Samuel, 13 anos, concorda com a psicóloga e afirma que só compra jogos com classificação adequada à idade do filho. “A educação que os pais dão é fundamental. Nunca compramos um jogo fora da faixa etária indicada e ele mesmo nunca nos pediu”, conta. Ela afirma que os resultados da exposição de Samuel aos jogos corretos é visível: “Melhorou a habilidade e destreza manual, além da rapidez mental, sociabilidade

Conheça os critérios Confira o que pode aparecer em cada faixa etária, de acordo com a classificação brasileira. Mortes naturais e acidentes sem violência, presença de armas sem violência, nudez artística/cultural/científica, consumo moderado de drogas lícitas Medo/angústia, atos criminosos sem lesão corporal ou contra a vida, apresentação de fundo musical que minimizem o conteúdo violento, conteúdo educativo sobre sexo, ironias, gírias e linguagem obscena. Bullying, homicídio culposo, ato violento contra animais, morte natural ou acidental com violência, agressão física ou verbal, lesão corporal, presença de sangue, simulação de sexo, gestos obscenos, palavrões. Preconceito, assédio sexual, homícidio, vítimas em estado de agonia, linguagem erótica, nudez nítida mas sem nu frontal, insinuação do consumo de drogas ilícitas. Aborto, pena de morte, eutanásia, banalização da violência, suicídio, estupro, tortura, prostituição, nudez completa. Pedofilia, violência com crueldade, apologia à violência, crianças e adolescentes em cenas de conteúdo sexual, incesto, consumo repetido e excessivo de drogas ilícitas. Fonte: Ministério da Justiça

e a autoestima ao ir vencendo as etapas dos jogos”. André Cunha, pai de Vinícius, 10 anos, pensa diferente. “O que um jogo de videogame poderia mostrar pra uma criança que ela não pudesse achar na internet?”, questiona. Cunha acredita que a classificação indicativa não tem ações efetivas. “Os jogos chegam às crianças de um jeito ou de outro e tentar controlá-los é uma atitude inútil, ingênua e moralista.” Para tentar atualizar a lei e mudar algumas normas e critérios que, na prática, se mostraram pouco adequados para a sociedade, o Ministério da Justiça faz consulta pública até o dia 28 de janeiro no site http://culturadigital.br/classind.


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Brasília, 11 a 24 de janeiro de 2011

Tenda Espírita Cabocla Jupira das Matas – Nova Colina, Sobradinho Dia de “gira de Exu”. Só de saber, dá um pouco de medo. Já estive em um terreiro de umbanda antes, mas nunca em dias de “Capa Preta”, “Caveira” ou “Tranca-ruas”. O som do atabaque inicia o culto. Todos de branco, muita gente de pouca idade. O cheiro do defumador inebria, vem uma tontura que não queria sentir. O canto era bonito, mas incomum. Dá vontade de dançar como as mães-de-santo. Cantos de abertura, um Pai-Nosso e começa o ritual de incorporação. A doutrina e os ensinamentos divinos não são discutidos. Sou chamado a conversar com o Sr. Caveira, que baixou em uma moça jovem. As feições são incrivelmente diferentes de quando ela havia chegado. A expressão séria e carrancuda amedronta ainda mais. A conversa gira em torno da vida e dos problemas pessoais. As histórias saíam da boca cortadas, em partes. Contá-las a uma desconhecida tão mal encarada não me deixa muito à vontade. Recebo dicas de comportamento e alimentação. E foi só. Tomo um gole de cachaça, como solicitado. Saio de lá do mesmo jeito que entrei, mas ainda com vontade de dançar.

eus d a s a Graç

Mesquita do Centro Islâmico do Brasil – 712/912 Norte

SETE DIAS DE ORAÇÃO por João Thiago Stilben

Entrar como um papel em branco e deixar que os templos fizessem o trabalho de escrever. Um dos desejos do repórter é filmar com os olhos os mais diversos ritos religiosos. Muitas vezes polêmicas, todas as manifestações de fé são bonitas de ver, ouvir e até mesmo compartilhar.

Entro receoso no Centro Islâmico do Brasil. No cenário, apenas duas corujas sobre um poste olham desconfiadas. Procuro alguém que pudesse indicar quando haveria culto. Mabrouk Said, egípcio de voz firme, de condição física frágil e disposição exemplar para os seus 75 anos de idade, vem em minha direção, convidando-me a sentar com ele dentro da mesquita. Pronto! Havia matado a curiosidade e... Vazio! Um confortável carpete forra o ambiente, com duas cadeiras, quadros com dizeres em árabe, uma estante de Alcorões e só. São seis horas de conversa sobre o islã. Ele diz que não se incomoda e que é direito de todos aparecer a qualquer hora para ter lições sobre Alá, Maomé, Jihad e toda cultura islâmica. É uma conversa, apenas isso. Sem orar, sem ajoelhar em direção à Meca, sem adotar a religião muçulmana. Ganhei aulas de árabe gratuitas e por isso voltarei lá tão logo que possível.

Centro Espírita A Caminho da Luz – Conic, 4º andar

Thiago Vilela

O centro, ou melhor, o “centrinho”, como o chamam seus frequentadores, são duas salas com cadeiras e um sonzinho com música ambiente. Durante cerca de 40 minutos, espero ouvindo uma palestra sobre o suicídio com um senhor de 73 anos chamado Aires. Já estava impaciente quando sou chamado para entrar na outra sala e receber o passe. Um médium passa a mão sobre minha cabeça e pontos vitais. Outro, sentado, puxa os maus espíritos que me acompanham. Ao final me sinto leve, sem saber se foi pela espera que chegou ao fim ou consequência do passe. “Orar e vigiar sempre” e fazer o evangelho no lar (culto onde é estudado o Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec) me são transmitidos como lição de casa.

Salão do Reino das Testemunhas de Jeová – SHIS QI 21, bl. A s. 303 A palavra seita nunca soa muito bem. E sua presença sempre foi constante em conversas sobre testemunhas de Jeová. No culto, os fiéis olham desconfiados quando anuncio ser repórter. Nada de fotografar ou filmar. É assistir e ir embora. A reunião, como é chamada, começa com cânticos bonitos ao som de um piano. A Tradução do Novo Mundo, a bíblia das testemunhas, é lida em um capítulo que fala sobre a paz interior. Nada de sermão ou formalidades. Parece mais uma conversa, um debate. Não entendo muito do que é dito, e confesso internamente a vergonha de perguntar. Não vejo nenhuma cruz no salão. Timidez de lado, pergunto a um senhor o motivo de tal ausência. Há espanto quando ele diz que Cristo não morreu em uma cruz, mas em um poste de madeira. O dízimo não é estipulado, nem obrigatório. Passo batido e vou embora. Só tinha ar na carteira.

Catedral da Fé da Igreja Universal (Templo Maior) – EQS 212/213 Prédio lindo. A exuberância do gramado baixinho, bem verde, faz ficar uns segundos a mais debaixo da chuva forte. Entro. O auditório é imenso, com um número incrível de lugares. O palco, com uma biblioteca atrás de uma mesa e um bonito vitral, completa a visão. O culto, lição de princípios morais e espirituais, tem uma hora e meia de duração. Mas parece passar mais rápido. Na verdade, tudo parece um sermão de psicólogo sobre atitudes corriqueiras da vida, somado a frases extraídas da Bíblia. A hora do dízimo parece forçada, confirmando um certo preconceito que havia tentado coibir. Não há como deixar de ver a fé com que a maioria das pessoas se concentra no culto e em suas próprias orações, em meio a casais que se beijam – um deles se acaricia de forma capciosa – e crianças que não param de chorar. Interessante o assunto do dia: relações no trabalho. Deu até para praticar uma ou outra coisinha no meu estágio, que vieram como lembranças de um dia mais concentrado aos preceitos bíblicos de comportamento do que de fé, propriamente dita, na oração.

Templo Budista Terra Pura – EQS 315/316 O templo imponente transmite uma sensação de seriedade, respeito e calma. O culto começa cedo, às 9h30, com cerca de nove ou dez pessoas presentes e um senhor japonês presidindo a sessão. Além dele, só uma senhora de ascendência nipônica. Sigo, sem muito sucesso, os cantos de tonalidades diferentes das usuais, por meio de um livrinho-partitura. As músicas, todas em japonês, vêm acompanhadas de tradução. Mais uns seis meses e eu talvez começasse a entender a parte filosófica do budismo, as bases e fundamentos dessa religião, que é mais um estilo de vida. Ao final, cinco minutos de meditação. É algo bem individual. Os presentes sequer se entreolham. Não tem conversa, é bem intimista. Saio de lá mais calmo, mais disposto do que nunca.

Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe – EQS 311/312 O tradicional culto católico acontece como manda o script. A igreja, de tamanho médio para os padrões, está completamente cheia às 10h da manhã de um domingo. Muita gente idosa, homens e mulheres distribuídos em número quase igual e, claro, crianças. Não sei bem o que reparar na missa, pois é o tipo de ritual relativamente conhecido: ritos de entrada, liturgia da palavra, liturgia eucarística, ritos de comunhão e ritos de despedida. Penso em comer a hóstia, mesmo sem ter feito a primeira comunhão, só pra saber que gosto tem. Recolho-me à insignificância de quem só foi batizado. Mas prometo comer o “pãozinho” em outra oportunidade. O sermão é todo em portuñol. O padre mexicano Juan Carlos Cortez fala sobre a necessidade da oração humana. Diz ele que “quem reza, encontra em si mesmo um pedaço de Deus”. Boa frase para o momento. Decido orar. Um Pai-Nosso já é suficiente para diminuir um pouco da angústia, da saudade. É como uma distração.

O fim da ODISSEIA O objetivo realmente era ser um espectador, um repórter no sentido mais literal da palavra. Foi difícil deixar de lado os preconceitos que o ceticismo traz e deixar ser preenchido com tanta fé. Uma dessas expectativas era a vontade de ser convencido, talvez, a seguir algumas dessas religiões. Acabo, por fim, descobrindo que o maior valor são imagens e recortes de um mundo paralelo. O lado de dentro de uma fabulosa invenção humana: a crença no desconhecido.

Campus nº 354  

Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Edição nº 354. 11 a 24 de janeiro de 2011.

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