Issuu on Google+

TAMERA UM MODELO PARA O FUTURO

Leila Dregger

VERLAG MEIGA


Copyright © 2010 por V E R L A G M E I G A Título original: “Ein Modell für die Zukunft” 1ª Edição, Setembro de 2010 Autora: Leila Dregger Tradução: António Câmara, Petra Finkernagel e Rita Miranda Revisão: Diogo Ruivo, Maria João Soares, Mena Vieira e Oriza Curado Paginação e Design: Armin Riemann e Raphael Buenaventura Capa: Nuno Moreira, NMDesign Fotografia de Capa: Nigel Dickinson Fotografias: Achim Ecker, Angelika Gander, Birger Bumb, David Osthoff, Delia Wöhlerte, Dieter Duhm, Elias Barrasch, Florian Raffel, Georg Lohmann, Jan Oelker (Páginas 45, 61, 72, 82, 83, 117), Lasse Ehrich, Leila Dregger, Lucia Maccagnola, Maria João Soares, Martin Funk, Mark Schlote, Nigel Dickinson (Páginas 14, 15, 51, 70, 71, 74, 76, 77, 91, 110, 111, 112), Sancho Bernauer, Simon du Vinage, Sonja Schulze-Braucks, Volker Schneidereit e outros. Pré-impressão: Media Agency, Tamera Impressão e acabamento: Printer Portuguesa, Mem Martins Uma edição: V E R L A G M E I G A Gbr De: Monika Berghoff e Saskia Breithardt Waldsiedlung 15 D-14806 Belzig Alemanha Tel.: +49 (0) 33841-30538 Fax: +49 (0) 33841-38550 (Para envio de fax fora da Alemanha: +49 1805 4002 218 202) Email: info@verlag-meiga.org www.verlag-meiga.org ISBN: 978-3-927266-28-5 Depósito Legal: 314 742 /1

Impresso em Portugal em papel certificado pela FSC, respeitando os mais altos padrões de sustentabilidade.


ÍNDICE 4 6 7

Agradecimentos e Reconhecimento Institucional Prefácio Mapa

8

Capítulo 1: Tamera – Um Modelo Para o Futuro

20 28 30 32 34 36 38 40 42

Capítulo 2: Água é Vida. Impedir a Desertificação Água é Vida Como Impedir a Desertificação Quem é Sepp Holzer? Sepp Holzer: Tamera à Beira do Lago Bernd Müller: O Meu Sonho: Um Modelo Para o Mundo – Uma Nova Gestão da Água Paisagens Aquáticas: Um Modelo em 3 Fases Paisagem Comestível Reflorestação Mista

44 52 56 59 62 63 64 69 70 72

Capítulo 3: A Aldeia Solar – Inteligência Solar para o Século XXI No Campo Experimental da Aldeia Solar Jürgen Kleinwächter: Autonomia Energética em vez de Segurança de Fronteiras Os Módulos de Energia da Solar Power Village O Espelho Scheffler Instalação Experimental de uma Central de Biogás Entrevista num Futuro Próximo A Aldeia Solar – Espaço de Formação do Campus Global Terra, Palha e Relva – A Redescoberta de Materiais Ecológicos de Construção A Arquitectura de Zonas Multiplas de Martin Pietsch

74 80 81 83

Capítulo 4: Tamera – Um Centro de Formação para o Futuro Educação de Paz Monte Cerro As Disciplinas de Estudo Escola do Futuro

84 90 91 92 94 96 98 99 100

Capítulo 5: Campus Global Pesquisa por um Novo Modo de Vida O IGP – Instituto pela Paz Global Alguns Parceiros do IGP Sami Awad: Aprender o Sentido de Ser um Ser Humano Eduar Lanchero: Respeitar a Vida Sabine Lichtenfels: Peregrinações em Nome de Grace A Fundação Grace Global Grace Day

102 104 106 108 109 110 112 114 116 118

Capítulo 6: A Vida em Tamera Sustentabilidade Social Através da Comunidade Dieter Duhm: Comunidade Enquanto Tema de Pesquisa Arte Tamera Arts O Círculo de Pedras de Tamera O Espaço das Crianças Escola da Juventude da Aprendizagem Global Aldeia da Luz Amizade com Animais

120 130

Capítulo 7: A História de Tamera: Como Tudo Começou Informação Adicional


AGRADECIMENTOS "Considerando as actuais condições do mundo, não é possível ver uma perspectiva convincente para a convivência não violenta no nosso planeta. Para criar condições mais favoráveis, terão de surgir centros nos quais será possível pensar e desenvolver exemplos práticos sobre a convivência não violenta do ser humano com todas as co-criaturas. Tamera existe para apoiar o surgimento desses centros." Excerto de " Declaração de Projecto 1", pelo Doutor Dieter Duhm, Sociólogo, psicanalista e fundador da Tamera Agradecemos a todos aqueles que contribuíram e que ainda contribuem para a construção de Tamera e da sua rede de futuro. Agradecemos a todos os membros do Círculo de Apoiantes e a todos aqueles que têm apoiado financeiramente Tamera. Agradecemos aos nossos parceiros de cooperação e amigos de todo o mundo: Sepp Holzer, da Áustria, Jürgen Kleinwächter, da Alemanha, Sami Awad e todos os colaboradores da Holly Land Trust na Palestina, o Professor Gernot Minke especialista em construções de terra, Hans de Boer da Alemanha, Elke e Felix Maria Woschek, Vassamalli Kurtaz da tribo Toda da Índia, o "Médico Palhaço”, Patch Adams dos EUA., o curandeiro da Terra Marko Pogacnik da Eslovénia, os activistas dos Direitos Humanos Glória Cuartas e Padre Javier Giraldo de Bogotá, os membros da Aldeia da Paz de San José de Apartadó, na Colômbia, Padre Niklaus Brantschen e Pia Gyger fundadores do Instituto Lassalle da Suíça, Evi Guggenheim da aldeia da paz Neve Shalom / Wahat al Salam, o músico Yair Dalal, David Lisbona, Shmuel Shaul, os colaboradores do Instituto Arava e todos os nossos outros amigos de Israel e da Suíça, incluindo: Sundar Dreyfus do Centro da Unicidade Schweibenalb, Kurt Eicher, Elisabeth e Hans Jecklin, a professora sufi Annette Kaiser, Gregor Reinhart, Chlous Dettwyler, Francois Wiesmann, a família Gnägi e Fredy Kradolfer e a todos os membros do Monte Cerro Club bem como à iniciativa '1000 Mulheres para a Paz ', Richard Weixler do SOS Regenwald na Áustria, Jorge Caneda dos EUA., Arun Gandhi dos EUA., Srinivasan Soundara Rajan (Vasu) do Barefoot College, na Índia, Gigi Coyle e o grupo Beyond Boundaries dos EUA, Philip Munyasia de Quénia, Hildur und Ross Jackson, os anciãos da Global Ecovillage Network, Claudio Miranda e sua banda Poesia Samba Soul de São Paulo, Lama Jampal de Dharamsala e muitos outros. Agradecemos a todos nossos amigos e apoiantes em Portugal: às actuais e anteriores administrações do Concelho de Odemira e, especialmente, ao presidente Eng. José Alberto Candeias Guerreiro e ao ex-presidente Dr. António Manuel Camilo Coelho, às administrações actuais e anteriores da Junta de Freguesia de Relíquias, ao seu presidente Idálio Manuel Gonçalves Guerreiro e ao seu ex-presidente José Guerreiro, à Associação para o Desenvolvimento Regional "Taipa", em Odemira, à sua presidente Dr.ª. Telma Guerreiro e ao seu ex-presidente Helder Guerreiro, aos nossos parceiros de cooperação nas universidades, à Dr.ª. Ana Firmino da Universidade Nova de Lisboa, à Dr.ª. Maria Teresa Pinto Correia da Universidade de Évora e ao Eng. Celestino Ruivo da Universidade do Algarve, ao Dr. Luís Manuel Costa Moreno da Universidade de Lisboa, à associação “animar” cúpula das Associações de Desenvolvimento local, aos nossos conselheiros e amigos Gabriel Dias e José Amorim, ao Pedro Portela vigilante da natureza, ao Eng. Alfredo Cunhal, à Dr.ª Fátima Teixeira e ao Eng. Diogo Ruivo. Agradecemos ainda a Lourenço da Costa Pinela e à sua esposa, o nosso fiel pastor que nos deu as boas-vindas desde o primeiro dia, à Cooperativa de Relíquias, a todos os nossos vizinhos, aos proprietários dos cafés das aldeias vizinhas pela sua hospitalidade, especialmente aos Café Marco, Café e Restaurante O Taxi e o Barreirinho em Relíquias e Café Paula na Ribeira do Salto. Agradecemos muito especialmente a todos aqueles que não foram aqui mencionados." A Comunidade Tamera

4


RECONHECIMENTO INSTITUCIONAL A Câmara Municipal de Odemira conhece o projecto TAMERA e aprecia o trabalho que aí tem vindo a ser desenvolvido, especialmente em matérias como o estudo e a experimentação para a introdução de práticas ecológicas/sustentáveis do uso do solo, das plantas, da energia e da água. No entanto, a experiencia no domínio da educação para a Paz e da sustentabilidade social é claramente uma das actividades fundamentais para a promoção de um mundo melhor. Com este tipo de intervenção, TAMERA, consegue demonstrar como regiões com dificuldades específicas, como é o caso do Alentejo, podem ser revitalizadas. A Europa do Sul que está fortemente ameaçada pela desertificação e redução da população precisa de alternativas deste género, e, neste contexto, a Câmara Municipal de Odemira sempre apoiou projectos inovadores que sejam capazes de implicar as populações locais no seu próprio processo de desenvolvimento. Todos os participantes de TAMERA vindos de muitos países e continentes trazem impulsos culturais, sociais e de uma nova ecologia importantes para o concelho de Odemira. Congratulamo-nos pois pela edição deste livro mas, e, fundamentalmente pela existência de TAMERA e fazemos votos para uma cooperação duradoira. Presidente da Câmara Municipal de Odemira José Alberto Guerreiro

Foi com imenso agrado que recebi o vosso convite para participar no livro que pretendem publicar referente ao trabalho realizado por Tamera. Desde a sua fixação na Freguesia de Relíquias, há cerca de 12 anos, a comunidade Tamera tem-se destacado pela sua (louvável) ambição de viver numa coexistência harmoniosa com o meio ambiente envolvente e com os habitantes que já cá viviam. Ambas as partes se podem orgulhar, por manter viva (e cada vez mais forte e próxima) uma verdadeira relação de respeito mútuo e cooperação, ao longo de todos estes anos, já passados juntos. Esta relação, para além de manter a comunidade Tamera viva e próspera, oferece também a esta Freguesia do interior do Concelho de Odemira, um importante fôlego, na luta contra o despovoamento do interior, representando a Tamera, sem duvida nenhuma, um factor de dinamismo para a freguesia e a quem muito certamente – esperemos nós – daqui a alguns anos poderemos agradecer, por ter estado ao lado de Relíquias e apoiá-la nesta etapa difícil da sua história, onde os mais novos partem e ficam apenas os mais velhos, sós. Folgo por saber que a comunidade Tamera cresce e expande-se neste momento, sabendo que não só isso representa uma grande felicidade e orgulho para os nossos vizinhos, como também representa uma enorme oportunidade para o futuro de Relíquias, que precisa tanto da Tamera como a Tamera precisa de Relíquias. Atenciosamente, com os meus melhores cumprimentos, Presidente da Freguesia de Relíquias Idálio Manuel Guerreiro Gonçalves

5


"Considerando as actuais condições do mundo, não é possível ver uma perspectiva convincente para a convivência não violenta no nosso planeta. Para criar condições mais favoráveis, terão de surgir centros nos quais será possível pensar e desenvolver exemplos práticos sobre a convivência não violenta do ser humano com todas as co-criaturas. Tamera existe para apoiar o surgimento desses centros. " Excerto de " Declaração de Projecto 1", pelo Doutor Dieter Duhm, Sociólogo, psicanalista e fundador da Tamera

Prefácio da Autora Mundialmente, em face às ameaças globais, iniciativas e indivíduos estão a preparar com grande empenho um novo futuro. Como jornalista tenho o privilégio de conhecer estas iniciativas. O meu profundo desejo é que o meu trabalho contribua para que esses grupos se venham a reconhecer mutuamente, enquanto uma comunidade planetária ascendente com o poder de realizar a paz global. Uma dessas iniciativas é Tamera. Tornou-se claro para mim através desta obra que é impossível em um único livro, fazer justiça à complexidade de Tamera. Como todos os aspectos mencionados podem ser aprofundados, concentrei-me nos aspectos que pela natureza do modelo do seu trabalho já se tornam visíveis. A característica especial de Tamera é que todos os seus empreendimentos têm como base a investigação profunda para a paz e para comunidade que tem sido realizada pelos membros ao longo das décadas. Este livro é também uma tarefa comunitária. Quero dar o meu profundo agradecimento às muitas pessoas nele envolvidas: os fotógrafos que doaram suas imagens; Dr.ª Amélie Wiemar, que assumiu o trabalho editorial por entre as horas de consulta e de chamadas de emergência e cujo espírito sóbrio e bem-humorado muito aprecio; Armin Riemann pela sua paciência, ritmo e criatividade na paginação e pela amizade que se aprofundou com esta tarefa partilhada; Raphael Buenaventura pelo seu apoio no design; Diogo Ruivo um agradecimento especial, que com o seu dedicado trabalho e a sua rede de contactos, produziu este livro em condições ambientalmente saudáveis;

6

os tradutores Anna Bandini e Douglas Baillie, Rita Miranda, António Câmara, Petra Finkernagel e a todos os revisores; Um enorme agradecimento à editora Monika Berghoff. Todos produziram um excelente trabalho e em prazos muito apertados. Desejo inspiração a todos os leitores.

Leila Dregger

Sobre a Autora: Leila Dregger, nascida em 1959, jornalista freelancer. Foi a editora da revista “Die Weibliche Stimme – für eine politik des Herzens” (A Voz Feminina - para uma política do coração). É ainda autora do livro “Ich bin noch nicht in Freiden – Perspektiven für ein neues Frauenbewusstsein” (Ainda Não Estou em Paz - perspectivas para uma nova consciência feminina). Ambos os livros não estão disponíveis em Português. A autora passa a maior parte do ano em Tamera.


Por Juliane Paul


CAPÍTULO I

8


Tamera Um Modelo Para o Futuro


Sonharam ideias e construíram as vontades. Trouxeram os cavalos, as aves e tantos outros seres. Mas nunca entendi como trouxeram aquele astro em forma da ave branca. É tão grande. (Mas agora existe aqui). Vieram em balões e zeplins de muitas cores. Montaram tendas de muitas cores e encheram-nas de ar. E também as casas de madeira e terra. E o céu gostou. Construíram os lagos e as plantas voltaram. Conversaram com as nuvens e elas disseram: chuva. E encheram-se os lagos de água e peixes. Uns nadavam outros entreolhavam-se, mas todos tinham uma luz diferente. Depois, semearam flores e elas nasceram, lançaram ideias aos rios e elas foram. E ainda disseram ao Sol: Fica! E ele ficou. Pedro Portela, Relíquias


No caminho para o futuro: Ponte Vasco da Gama em Lisboa

PORQUÊ PORTUGAL?

12

Agradecemos ao país anfitrião deste projecto. Porque escolhemos Portugal? A vantagem mais evidente é a riqueza de Portugal em luz solar, o que o torna num local perfeito para a investigação da autonomia energética. A situação climática e geográfica é muito apropriada para a construção de uma paisagem aquática para curar a natureza. Ainda mais convincente é o ambiente humano. A receptividade do povo, a cooperação das autoridades e a hospitalidade infinita dos nossos vizinhos sensibiliza-nos muito. No contexto da Europa, Portugal é o “rosto do continente” em direcção ao oceano. A longa história de colonização confirma isso. Portugal sempre recebeu refugiados, minorias e pessoas que pensam de modo diferente. O trabalho global em rede e a tolerância têm aqui uma longa tradição.

no que precisa urgentemente de soluções, mas também o mundo à nossa frente. Pode o Alentejo ainda ser salvo? Os jovens estão a deixar a região, as aldeias estão a ser abandonadas, as florestas estão a desaparecer e o deserto avança por todo o Sul da Europa. Não se pode permitir que esta situação continue. Há também muitos sinais encorajadores. As pessoas deste país têm mantido a sua força através das vicissitudes da história e, através duma revolução não violenta, puseram fim a uma ditadura. Em muitos lugares, podemos observar os vestígios de uma sabedoria muito mais antiga. Sinais da religiosidade de orientação feminina e os testemunhos de pedra de uma antiga cultura do matriarcado transmitem a impressão de que esta terra sonha um sonho. O sonho da paz, da solidariedade e da conexão entre todos os seres vivos.

Os problemas do país são também evidentes. Não é só o mundo do outro lado do ocea-

Vamos juntos acordar e tornar esse sonho realidade.


Um Modelo Para o Futuro

"A partir das fases iniciais do nosso projecto na Alemanha, uma nova ideia amadureceu. Precisávamos de um lugar na Terra onde as pessoas de todas as culturas poderiam unir-se para desenvolver perspectivas para além de estruturas familiares. Impulsos provenientes da Índia, da África, do Budismo e de outras culturas também devem ser incluídos. Vimos que a situação do nosso planeta nos obriga a preparar modelos piloto para todas as questões relativas à sobrevivência. Em todos os lugares da Terra, é necessário estabelecer em conjunto um modelo bem caracterizado e novos biótopos para a vida não violenta. Os sistemas desenvolvidos neste primeiro modelo destinam-se a uma aplicação generalizável, de modo a ser continuado e desenvolvido noutros centros. Naquela época, comecei a liderar campos no deserto e tinha a certeza de que, dentro de três anos, com a ajuda destes, poderíamos encontrar um local onde, organicamente, poderia emergir uma cidade do futuro. O último campo no deserto teve lugar em Portugal. O país tocou-me profundamente e não é por acaso que, três anos mais tarde, Tamera encontrou aqui o seu lugar. " Sabine Lichtenfels, teóloga, embaixadora da paz e co-fundadora de Tamera

Peregrinação Grace em Portugal, 2009

13


Modelo

Para o Futuro

Que aspecto poderia ter um mundo onde todos os seres humanos tivessem comida suficiente, onde os rios de águas claras pudessem serpentear livremente, onde as crianças pudessem novamente confiar nos adultos e onde os conflitos pudessem ser resolvidos com inteligência e compaixão em vez de conduzir à violência? Como parece ser o futuro da humanidade? Podemos imaginar um mundo no qual os seres humanos vivam em paz entre si e com a natureza? Será realmente possível uma vida diferente? O actual desenvolvimento global não é animador. Para ser capaz de imaginar um mundo diferente e um futuro positivo, precisamos de locais, a principio em pequena escala, onde os possamos realmente criar. Este é o significado mais simples dos modelos. Tamera desenvolve tal modelo para o futuro.

14


Fotografia aérea de Tamera, Verão de 2009

15


UM MODELO PARA O FUTURO Vamos viajar para o extremo sudoeste da Europa, para o Sul de Portugal. Deixamos para trás de nós a costa Atlântica, com os seus cenários de falésias e dunas e viajamos pela estrada poeirenta do interior. Reina aqui o sossego. Ocasionalmente, passamos por aldeias típicas do país, com as suas casas cuidadosamente caiadas de branco. Nas colinas despidas de vegetação, os sobreiros e os eucaliptos vibram com o calor. Ovelhas e cabras pastam entre as casas antigas das quintas. Os que conhecem o Alentejo sabem que esta paisagem pouco mudará nas próximas centenas de quilómetros. Agora a rua sobe suavemente, curvando-se para a esquerda e, de repente, um mundo diferente está diante de nós. A luz solar reflecte-se num lago. As suas margens estão verdes e abundantes de legumes, árvores de fruto e girassóis. Vemos as formas curvas de tendas, instalações solares reluzentes e um edifício de conferências. E vemos pessoas de diferentes cores e culturas a trabalhar ou sentados a conversar e a ler. Chegámos a Tamera: esta é a oficina do futuro. Cerca de duas centenas de pessoas estão aqui a trabalhar, a estudar e a viver para construir um modelo para o futuro. Com o seu Campo Experimental da Aldeia Solar, com a sua experiência para curar a Terra através da construção de uma paisagem aquática e da sua rede internacional de formação para a paz, Tamera é um centro de alta complexidade para a vida do futuro. “Silicon Valley da Paz" foi um nome dado a Tamera por jornalistas. Outros escolheram "Paraíso em Construção". E está mesmo em construção. Sendo um estilo pioneiro, muitas coisas ainda estão inacabadas e por desenhar, e os visitantes devem trazer bons sapatos por causa das estradas em mau estado. Zonas não utilizadas, cobertas com amoras e estevas, recordam o tempo anterior à fundação de Tamera. Ao mesmo tempo, sente-se o paraíso em toda parte. Sente-se o inusitado, o utópico, a orientação para a alegria e o contacto com todos os seres vivos, a coragem para o invulgar e o desejo do que está por vir. O objectivo é tão elevado como é a vida quotidiana conscientemente simples, bem como as infra estruturas básicas: Tamera foi fundada para desenvolver sugestões de soluções para questões globais.

16

Evolução – Um Modelo a Seguir Talvez este modelo seja como Aurelio Peccei imaginava. O vencedor do Prémio Nobel e co-fundador do Clube de Roma já nos anos 70 dizia que as comunidades de investigação devem ser desenvolvidas em todo o mundo para resolver os problemas básicos da humanidade. Peccei acreditava que não seria à secretária que o futuro da humanidade seria decidido. Os problemas actuais são demasiado complexos e interligados para serem resolvidos de uma forma isolada por especialistas, não importa o quão bem formados e capacitados sejam. Os problemas exigem mudanças mais intensas e profundas do que serem apenas perspectivados a partir do interior dos actuais sistemas da economia e da ciência, que conduziram à crise actual. No interesse de toda a humanidade e de todas as co-criaturas, devem ser encontrados caminhos diferentes e invulgares. Peccei exigiu a criação de modelos descentralizados. Enfrentando um grande desafio, a evolução funciona de forma semelhante. Por exemplo, a transição dos habitantes neste planeta originalmente vinculados à água para seres que vivem à superfície foi um problema aparentemente insolúvel há quatrocentos milhões de anos atrás. Como deveriam eles sobreviver na terra? Como deveriam respirar e mover-se? Parecia impossível. Mas a evolução criou o que era essencial para que a vida pudesse expandir-se, superar limites e criar algo novo. Portanto, a natureza começou o seu trabalho criativo. Inúmeras praias, leitos de rios e margens de lagos tornaram-se nos laboratórios do futuro. As soluções foram desenvolvidas, testadas, abandonadas, corrigidas e novamente testadas até que a Natureza entrou em funcionamento. Quando finalmente os primeiros seres tinham pulmões primitivos em vez de brânquias e pés rudimentares em vez de barbatanas, tudo mudou. De repente, o sistema continha nova informação para a solução. Esta espalhou-se rapidamente segundo a escala evolutiva do tempo. Por toda a Terra, nas margens dos oceanos e em água doce, desenvolveram-se anfíbios. Todos os saltos da evolução foram realizados com base neste princípio. É o princípio das passagens de fronteira e da construção de campo. Os biólogos não podem ainda afirmar com toda a certeza de que modo a informação se espalha tão rapidamente, mas assim que a solução seja encontrada numa parte do sistema, todo o sistema tem acesso à mesma porque a Terra e tudo o que nela vive forma um Todo.


Os empreendimentos comunitários considerados necessários por Lynn Margulis estão a realizar-se por toda a Terra. Os investigadores do futuro, longe dos grandes laboratórios centrais, das universidades e das cidades, descobrem no enquadramento de pesquisa de Tamera, as condições práticas inerentes à aplicação dos seus desenvolvimentos.

O Poder dos Modelos O que é um modelo? Um modelo é uma parte do Todo que é suficientemente grande para representar todos os aspectos significantes e suficientemente pequeno para ser capaz de rapidamente notar os erros, corrigi-los e continuar em novas direcções. Um modelo pode ser usado como um sistema de feedback. Os efeitos das acções que são demasiado complexas para analisar em todo o sistema podem ser aqui monitorizados e corrigidos. Quanto mais variada for a composição do modelo e quanto maior for a capacidade de reflexão e de comunicação dos seus membros, melhor podem ser entendidas e respondidas as questões do Todo.

Um Modelo Para o Futuro

Dos processos de evolução, a bióloga Lynn Margulis chegou a uma conclusão acerca dos desafios da humanidade: "Se quisermos sobreviver à crise ecológica e social que provocámos seremos, provavelmente, forçados a dedicarmo-nos completamente a novos e radicais empreendimentos comunitários."

Tamera está a caminho de se tornar um tal modelo para o futuro. Problemas e desafios que surgem são vistos como questões da humanidade. Na vida quotidiana, desenvolvem-se as questões da experiência comunitária, que são resolvidas quer em termos gerais quer em pequena escala.

A "Teoria Política": Porque se pode acreditar que um modelo local possa ter um efeito global? As respostas são o resultado das especificidades dos sistemas holísticos (abrangentes). Em conjunto com a vida na Terra, a humanidade forma um sistema holístico. O Todo actua em cada elemento do sistema e vice-versa: o que acontece em cada parte tem um efeito sobre o Todo. Este efeito pode ser mínimo, mas aumenta com o sentido que a mudança local tem para o Todo. No caso do significado ser elevado, desenvolve-se no Todo um processo que pode ser descrito pela expressão "ressonância", interacção "ou" construção de campo morfogenético “. Este é o processo decisivo para a globalização da paz. Quando uma parte da informação é suficientemente complexa, importante e compatível com o Todo, entra no organismo de imediato, tendo esta informação um efeito sobre todas as células. Quando uma parte da informação considerada importante para a co-habitação não violenta entre todas as criaturas se inscreve no corpo informativo da Terra, o nível espiritual e mental da Terra, a noosfera, entra num estado "estimulado". Assim, a nova informação actua de forma latente em todas as criaturas. Se a informação é dada através da concreta vivência num biótopo de cura, surge um campo global de probabilidades de formas similares de vida em muitos lugares da Terra. Os factores decisivos para o sucesso de tais projectos de paz são a sua abrangência e complexidade e não a sua grandeza e poder quando, de uma forma positiva, os elementos da vida combinam entre si e se unem dentro de si mesmos. Os campos evolucionários não seguem as leis da "sobrevivência do mais apto", mas sim "o sucesso do mais abrangente".

Excerto da “Declaração de Projecto 1”, pelo Doutor Dieter Duhm, 2004

17


O que torna as comunidades social e ecologicamente sustentáveis? Como podem as pessoas viver juntas de modo a que, em vez do desenvolvimento da concorrência e agressividade, criem a alegria mútua e desenvolvam a capacidade de resolução de conflitos sem a violência? Como pode a abundância de energia proveniente do sol ser utilizada de forma sustentável sem destruir a natureza ou poluir o meio ambiente? Como podemos lidar com a água de uma forma em que todos tenham o suficiente para beber, e permita o regresso da fertilidade à terra?

Sabine Lichtenfels e Doutor Dieter Duhm

Como pode ser plantada, mesmo em terras pobres, comida saudável e suficiente, sem explorar a natureza, os animais e seres humanos?

Num modelo abrangente, essas questões estão ligadas entre si e são resolvidas por meio da percepção do Todo, exactamente ao contrário da fragmentação da vida, da separação e individualização das diferentes áreas da vida que tanto abalaram o Todo.

Que tipo de arquitectura apoia a comunidade e a era solar? Como pode isso ser acessível e de fácil construção nas regiões mais pobres do mundo? Como pode a economia ser gerida dentro de uma sociedade, de modo a, em vez de criar uma separação dolorosa entre pobres e ricos, criar o equilíbrio e uma troca animada? Como podem ser as crianças criadas em liberdade e segurança? Como podem os jovens usar de forma significativa o seu enorme poder e inteligência? Como podem as dificuldades no contacto entre os sexos serem dissolvidas, e como podem ser desenvolvidos relacionamentos amorosos de forma duradoura? Como podemos acabar com a dor e a exploração dos animais? O que é uma apreciação não dogmática do aspecto sagrado da vida, e que tipo de ritual ou oração se enquadra numa sociedade intercultural moderna? Como é que uma comunidade comunica de forma eficaz? Como emerge a confiança? E como é que surge o arquétipo da democracia? E são muitas mais as questões.

18

Dieter Duhm, fundador de Tamera: "A crise dentro de nós e a crise no ambiente são as duas partes do Todo e só podem ser resolvidas a partir dessa perspectiva." Desde que a industrialização tomou conta do Todo, os aspectos importantes da vida foram separados uns dos outros pela centralização e especialização. A produção foi separada do consumo, a teoria da prática, o ser humano da natureza e, especialmente, os seres humanos uns dos outros. Acções que ocorriam naturalmente numa comunidade orgânica e funcional que vivia com auto-organização, apoio mútuo e bom senso, necessitam agora de especialistas. Sempre que novos esforços são tomados para tratar os sintomas isolados, são criados novos problemas, produzindo-se uma cadeia de soluções reactivas que não podem ter um efeito duradouro. Um modelo abrangente que liga novamente as zonas separadas entre si, activa os poderes pouco conhecidos da auto-organização, da sinergia e da resiliência dos biótipos. Estas competências são necessárias para erguer todo um sistema para um nível de ordem superior. Um modelo de vida que cria as condições para que todos os seres vivam juntos de uma forma tendo em vista a cura, irá gerar um campo que agrega informações de sucesso para o organismo como um Todo e que tem o potencial de o influenciar numa direcção de cura. Essas conexões são explicadas com mais pormenor na secção "Teoria da Cura Global" por Dieter Duhm (página 17).


Hoje passeamos por Tamera, por meio de cascatas de lagos e lagoas, nas margens onde crescem os jardins de produção alimentar, criados a partir da formação em permacultura. Nos próximos anos, a paisagem aquática será ampliada e completada, de modo que as árvores nos morros também irão crescer novamente e recuperar saúde. A cozinha de Verão do Campo Experimental da Aldeia Solar demonstra tanto as técnicas para cozinhar com energia solar e biogás, como as de geração de electricidade, de conservação de alimentos e de bombeamento de água. Quase todos os sistemas foram construídos nas suas próprias oficinas. Na estufa de investigação, as novas tecnologias são testadas e destinam-se a libertar as comunidades do futuro da dependência de sistemas centralizados de abastecimento de energia. Em estaleiros de construção, simples técnicas de construção tradicional são combinadas com os conceitos modernos da arquitectura. Os participantes dos programas de educação para a paz estudam em salas de reuniões e no auditório. Teatro e grupos musicais ensaiam as suas representações nos palcos da Aonda e na Aula. Os participantes da Escola da Juventude da Aprendizagem Global são ensinados por jovens adultos que, alguns anos atrás, foram aí alunos. Homens e mulheres de diferentes países e culturas trabalham em conjunto, apoiando a construção dos sistemas. Contribuem com seu conhecimento e experiência, reunindo percepções para a construção de comunidades auto-suficientes nos seus países de origem. Beneficiam da presença de especialistas internacionais nas diversas áreas de investigação e não são necessariamente precisas soluções acabadas, mas sim a alegria da experimentação.

Além de conhecimentos especializados, os participantes levam para casa os tesouros da experiência, como o prazer de experimentar, de desenvolver a auto estima e a experiência de comunidade. Investigação, educação e participação estão unificadas em todas as áreas: ecologia, tecnologia, competência social e trabalho político em rede. Através deste conjunto, tem-se desenvolvido uma rede mundial de variados grupos e iniciativas, constituindo uma fonte de conhecimento a ser integrada nos seus projectos, ou para criar projectos semelhantes. Os jovens gostam de investir toda a sua energia e alegria nessa perspectiva planetária. Vamos agora lançar um olhar ao mundo. Dirigimos o nosso olhar para os locais onde se desenvolvem novos centros de paz e não para as actuais áreas de elevada densidade populacional. Se olharmos de perto, descobrimos os sinais de um renascimento a nível global. Delicadamente, mas de modo inevitável, forma-se um poderoso movimento, isto é, um movimento de conexão com a natureza, de reconciliação com o outro e na certeza de um futuro diferente. O movimento por uma terra livre.

Um Modelo Para o Futuro

Tamera Hoje

As crianças do futuro serão capazes de construir sobre os conhecimentos e experiência desses centros. Se, um dia, a nossa sobrevivência depender da escolha de novos caminhos, se a falência dos grandes sistemas económicos e de abastecimento está próxima, se paisagens inteiras se tornam inabitáveis ou protestos sociais ameaçam a forma pacífica de vivermos juntos, então, esses centros serão pontos fulcrais de um novo início. Tamera quer colocar-se ao serviço do mundo.

O aspecto mais importante de tudo é ligar as pessoas. Pessoas que, noutras situações aprenderam a percepcionar-se uns aos outros como inimigos trabalham aqui lado a lado. Pessoas de Israel e da Palestina, por exemplo, trabalham em conjunto para um objectivo maior que é mais importante para ambos os lados do que o conflito, não deixando, portanto, espaço para a hostilidade. A compaixão, a responsabilidade para o Todo e o apoio mútuo são as directrizes básicas da ética para a convivência em Tamera.

Website de Tamera www.tamera.org Mara Vollmer e Juliane Eckmann

19


CapĂ­tulo II


Água

é Vida

Impedir a Desertificação

21


“Sem água não há vida. O lençol freático está a diminuir no mundo inteiro. Para enfrentarmos esta crise mundial da água, temos de começar a declarar que o acesso livre à água seja um Direito Humano e consequentemente, um serviço público que não pode ser privatizado. Se a água for privatizada e comercializada não poderá ser garantida para todos. O desenvolvimento de energias alternativas não prejudiciais ao meio ambiente é mais uma medida fundamental para a salvação do planeta, da humanidade e da própria vida. Só através do nosso reconhecimento e amor pela Criação podemos impedir a violação da nossa Mãe Terra e de todos os seus seres vivos. A Terra não pode ser vista apenas como um recurso. Nós respeitamos a natureza, honramos a nossa Mãe Terra e reconhecemos as leis da natureza como leis supremas.”

Evo Morales Ayma, Presidente da Bolívia em: “Os 10 Mandamentos para Salvar o Planeta, a Humanidade e a Vida”, discurso em 2008 no Fórum Permanente das Nações Unidas Sobre as Questões Indígenas.

22


Água é Vida Uma paisagem sem água no Alentejo. Seca no Verão.

“A água não é uma fórmula química, mas sim um órgão central da biosfera, na qual estão contidos todos os mistérios do Universo. São as formas do movimento da água que dão origem a todas as estruturas vivas. A água contém todos os padrões de todas as possibilidades de formas de vida já existentes e talvez, também de todas aquelas que ainda estão por existir. A água é um agregado especial da vida universal onde o mundo da luz e o mundo material se tocam e se unem. A água possui por isso a propriedade de atirar com todas as leis físicas pela borda fora, especialmente onde ela forma vórtices, ou quando em entradas subterrâneas corre para cima ou no meio de uma cascata provoca fenómenos de levitação ainda desconhecidos. Até aos dias de hoje os mistérios da água ainda não foram desvendados, só agora é que eles começam a ser reconhecidos. Mas sabemos de antemão que na civilização vindoura a totalidade da maneira de viver dos seres humanos estará conectada de uma nova forma, com as leis da água. Em todas as áreas, a cooperação com a natureza é ao mesmo tempo a cooperação com a água.” Dieter Duhm, “A Matriz Sagrada”

23


A evolução da paisagem aquática em Tamera na Primavera de 2010


Barbara Kovats, Coordenadora do Projecto Aldeia Solar:

Água é Vida

“A paisagem de Tamera é típica de Portugal e do Sul da Europa tanto no que respeita à sua beleza, quanto à destruição ecológica que aqui ocorre. Neste local a regeneração natural e ecológica, pode e será um guia e uma inspiração para toda a região.”

Silke Paulick, Coordenadora da Equipa de Ecologia: “Quando hoje passeio por Tamera, consigo ver os primeiros vislumbres da nossa visão a ganharem forma: uma paisagem que floresce na sua vitalidade, uma diversidade abundante na flora e na fauna, uma interligação bem projectada dos elementos, um habitat que irradia saúde e uma terra cuja abundância pode alimentar todos os seus habitantes. Reconheço o impulso de muitas pessoas em participar agora activamente no desenvolvimento do nosso mundo e isso constitui também parte da motivação para o nosso trabalho: criar um lugar onde seja visível e se possa aprender qual o aspecto que uma vida em harmonia com a natureza pode ter e de que modo a intervenção do ser humano pode ser geradora de poder e de saúde na natureza. O conceito de sustentabilidade alcança a sua plenitude com a experiência enquanto ser humano de se ser capaz de apoiar a vida em toda a sua complexidade.”

Sepp Holzer, Especialista em Permacultura: “A permacultura holzeriana pressupõe um arranjo paisagístico em larga escala ao corrigir os erros do passado, possibilitar as simbioses geradas pelas acções recíprocas, deixar a natureza trabalhar e ao reconstruir os ciclos naturais.”

25


Água é Vida

Juncos e nenúfares no Lago da Horta do Vale

26


Um modelo de comunidade para o futuro deveria estar bem integrado num meio saudável e natural, necessitando de um intercâmbio e uma comunicação viva com todas as co-criaturas. A ecologia é a expressão exterior de uma comunidade humana. Ela abrange o contacto entre homens, animais, plantas e elementos da natureza. A água é um aspecto decisivo para uma ecologia saudável. Em Tamera, está a ser desenvolvido um modelo para o Sul da Europa e para todo o mundo, de manuseamento natural da água e para a regeneração de paisagens gravemente danificadas.


ÁGUA É VIDA O ser humano é constituído por 70% de água, assim como a superfície do planeta Terra. Nenhum ser humano, nenhum animal, nenhuma planta pode viver sem água. Tal como o corpo humano é atravessado por uma rede de veias que abastecem de sangue cada órgão, o mesmo se passa com a Terra: finos cursos subterrâneos de água no corpo da Terra abastecem de água todas os poros do solo fértil. O corpo da Terra é uma enorme reserva de água. Uma paisagem cujo manuseamento natural da água está em desequilíbrio, sofre. Quando seca completamente torna-se num deserto. “Até que ponto pode ir a estupidez humana ao alhear-se da natureza?”, pergunta Sepp Holzer quando considera o manuseamento mundial da água. A água da chuva é conduzida como se fosse lixo. As grandes barragens e poços absorvem a água de grandes áreas e os sistemas de canalizações e drenagens, clareiras e calhas betonadas roubam a água ao solo. O uso exagerado dos campos como pastagens e a monocultura empobrecem a flora. Quando a vegetação dizimada já não consegue proteger o solo, este fica à mercê do Sol. O solo torna-se então mais quente do que a água da chuva e quando chove esta não se infiltra no solo. A água da chuva desaparece e a superfície terrestre endurece. As precipitações durante o Inverno não podem agora ser absorvidas. A água corre para o leito dos rios artificialmente conduzidos e para os canais. Torna-se “enraivecida” transbordando as margens e causando cheias e destruição. Sepp Holzer: “Quando há muita água no Inverno e pouca no Verão, é porque o homem cometeu um erro.” As chamadas catástrofes naturais são na realidade resultado de imprudências humanas. Os diques são cada vez mais altos na tentativa desesperada de controlar a água, de a aprisionar, conduzir e canalizar. Tudo isto são medidas que apenas adiam o problema, não o resolvem.

Água Torna-se uma Mercadoria Cada ser humano devia ter o direito à água. Mesmo assim, 1.1 milhares de milhões de seres humanos na Terra não têm acesso a água potável. Esta situação é insustentável. Tem de ser uma política ao mais alto nível a mudar esta situação. Mas é o contrário que se assiste: onde existe a

28


O Sul da Europa é um dos focos do processo global. Todos os anos torna-se mais evidente que a região ameaça tornar-se num deserto. Onde está o protesto colectivo quando se ouve esta notícia? As chamadas de atenção ressoam: acordem, tenham cuidado, a nossa Mãe Terra está a morrer! Do que é que nos vamos alimentar no futuro? Onde encontraremos água? Desde 2007, Tamera tem vindo a construir juntamente com Sepp Holzer, camponês de montanha e especialista em permacultura, uma paisagem aquática. Um modelo que visa a regeneração de paisagens gravemente danificadas. Onde ainda há poucos anos, a estrada de terra batida atravessava campos ressequidos, encontram-se hoje lagos, charcas e reservatórios de retenção de água. Onde os jardins outrora na Primavera eram demasiadamente húmidos e no Verão demasiado secos, crescem agora hortas nas margens e, durante todo o ano temos uma abundância de frutos e verduras. E isto é apenas o princípio. A paisagem aquática quando estiver terminada deve conter mais de 10 reservatórios de retenção da água da chuva. Isto permite a humidificação do solo de maneira a que toda a floresta possa de novo desenvolver-se.

atenção ressoam: acordem, tenham cuidado, a nossa Mãe Terra está a morrer! Do que é que nos vamos alimentar no futuro? Onde encontraremos água? As chamadas de atenção não são ouvidas. Progressivamente, as transformações no Sul da Europa avançam de maneira a poderem assustar muitas pessoas. E assim o drama toma o seu caminho: Portugal, Espanha, Itália e a Grécia ressentem-se com as secas que, de ano para ano, pioram com o Verão. A chuva de Inverno, que não se pode infiltrar, transporta a matéria orgânica fértil para os vales, rios e mar. Para trás ficam areia e pedras. As árvores morrem, as florestas ardem e cada vez mais agricultores abandonam os seus terrenos. Em Portugal mais de 80% dos habitantes vive nas grandes cidades e na costa, sendo mais de 80% dos géneros alimentares importados. E isto num país fértil, abençoado pelo calor e a água.

Água é Vida

escassez estão aqueles que com ela fazem negócio. A água torna-se uma mercadoria, aos agricultores é-lhes retirado o direito à água, as fontes são nacionalizadas e os direitos sobre a água são delegados para as grandes multinacionais. A água é conservada quimicamente, engarrafada e transportada através do mundo inteiro. Isto não corresponde à natureza da água. Um ser vivo não pode “ter prazo de validade”. Sepp Holzer: “De todas as propriedades vitais que tornam a água tão valiosa, apenas resta uma: é molhada.”

Temos de agir antes que seja tarde. O momento ideal é agora. Agora ainda podemos intervir em muitos locais da Terra e reverter o processo de desertificação. Sepp Holzer: “A construção de reservatórios de retenção de água é a medida mais importante para a cura de árvores doentes e de regiões danificadas, de forma a impedir o avanço do deserto. O corpo terrestre tem de absorver água, para que as nascentes voltem a correr e os biótopos se tornem férteis.” Movimentação de terras na construção em argila do núcleo da barragem

Já são em grande número os visitantes que vêm conhecer a paisagem aquática da permacultura. Engenheiros hidráulicos, professores e protectores da natureza de Portugal inteiro e de outros países têm vindo a acompanhar atentamente este desenvolvimento. Muitos têm uma certeza: aqui foi encontrada uma receita viável para a prevenção da desertificação.

O Drama Progressivo: A Desertificação no Sul da Europa O Sul da Europa é um dos focos do processo global. Todos os anos se torna mais evidente que a região ameaça tornar-se num deserto. Onde está o protesto colectivo quando se ouve esta notícia? As chamadas de

29


COMO IMPEDIR A DESERTIFICAÇÃO

Plantação de juncos e nenúfares no Lago da Horta do Vale

“Não, uma paisagem aquática não é o mesmo que uma barragem. É precisamente o contrário. A água não é desviada dos terrenos e armazenada num único ponto, mas mantida nas áreas, de forma descentralizada, de modo a que o corpo terrestre possa voltar a ficar saturado.”, afirma Sepp Holzer, tendo já respondido a essa pergunta muitas vezes. O resoluto agricultor austríaco de montanha, adquiriu o título de “Rebelde Agrário” devido à determinação com que se mantém fiel aos seus métodos invulgares tendo obtido reconhecimento através dos seus sucessos. Depois da sua própria quinta nos Alpes, foi bem sucedido em recuperar a vitalidade da natureza em grandes áreas na Escócia, na Rússia, em Espanha, na América do Sul e, desde há alguns anos, também em Portugal. “A seca neste país não é uma catástrofe natural. É o resultado de uma exploração errada da terra. O manuseamento errado da água, a desflorestação, a pastagem excessiva e

30

as monoculturas são responsáveis pela diminuição da vegetação e pelo início da desertificação”, explica. Ao passar pelo Sul de Portugal, o austríaco só quer fechar os olhos. “O que vejo aqui, dói. A paisagem está despojada, o solo e as plantas estão expostos ao sol e ao vento sem qualquer protecção. Nenhum animal se sente bem aqui e mesmo se eu fosse agricultor, sentir-me-ia completamente perdido. Devido à pastagem excessiva, o solo foi levado pelas chuvadas e agora só crescem plantas rasteiras com pouca qualidade. Os agricultores desistem, a geração seguinte vai para as cidades e as mais belas quintas entram em decadência. A terra cai nas mãos de especuladores para finalmente ser abandonada de vez. No entanto, Portugal podia ser um país rico se as pessoas voltassem a aprender a ler o livro da natureza.”


Com a sua diversidade paisagística, disponibilidade de água e de clima temperado, Portugal é ideal para uma exploração agrícola em harmonia com a natureza. Na prática, esta ideia tem sido demonstrada pela Equipa de Ecologia de Tamera. Hoje, uma cadeia de lagos e lagoas ajustase à sua morfologia ondulada. Nos terraços das margens florescem árvores novas de fruto. Nos canteiros elevados crescem abundantes culturas mistas de hortaliças, alfaces e milho protegidos do sol por girassóis. Durante a sua primeira visita a Tamera em Março de 2007, Sepp Holzer esboçou um plano: criar um projecto modelo para a recuperação da paisagem natural, o cultivo em grande escala de alimentos saudáveis e a reflorestação natural. Teria de ser criada uma agro-paisagem com reservatórios de retenção de água, lagos e charcas, onde até os animais selvagens voltassem a encontrar comida e protecção. Uma das agricultoras de Tamera, Silke Klüver, diz, “Agora colhemos mais fruta e legumes junto às margens do que antes em toda a horta. A rega proveniente das bacias de água nas proximidades é muito simples. A pausa nas culturas de Verão por falta de abastecimento de água deixa de ser necessária. Os numerosos visitantes ficam com a impressão de que os lagos sempre ali estiveram.” “Se parece natural, está bem feito”, afirma Sepp Holzer. “Lagos quadrados ou perfeitamente redondos são um erro. A água é um ser vivo. Tem de ser capaz de mover-se para se manter viva e saudável.” A forma do lago, as margens planas com vegetação densa, as diferentes profundidades e as linhas sinuosas favorecem o movimento da água e deste modo a sua capacidade de auto-limpeza. A poeira e o solo são levados pelo vento e pela ondulação até às zonas pouco profundas, sendo um fertilizante natural absorvido pelas plantas aquáticas.

Água é Vida

Sepp Holzer conhece uma alternativa. Ele já a projectou e implementou diversas vezes em vários locais. A água é sempre o cerne do seu trabalho. Se a chuva só cai durante uma estação do ano, o agricultor tem de aprender a conservá-la na terra. Não através de barragens gigantes, antes pelo contrário, de uma forma descentralizada e através de muitas charcas pequenas de retenção de água, seguindo os padrões da natureza. “Água é o capital”, diz. “Quem trabalha um terreno e deixa escoar a chuva de Inverno, age como alguém que está continuamente a guardar dinheiro num mealheiro, mas não repara que este está aberto por baixo.”

Criação em Tamera de paisagens aquáticas como prevenção da desertificação

Devido ao seu microclima variado, a paisagem aquática torna-se num novo habitat para os animais e plantas selvagens. A fauna e flora originais regressam à região. Foram avistadas lontras, pássaros marítimos usam os novos espaços para nidificar e tartarugas e outros anfíbios encontram o seu lar. Durante a sua visita, a americana Starhawk, instrutora de Permacultura e activista pela paz, mostrou-se positivamente impressionada. “Só quem, como eu, vive num clima seco durante o Verão, pode entender a mistura entre a surpresa e a pura inveja quando, no pico do Verão, passeei por estes serpenteados caminhos nesta maravilhosa paisagem de lagos e canteiros em flor.” Muitas vezes, os visitantes querem saber como é que as charcas foram isoladas. “Betão ou outros materiais de impermeabilização são totalmente desnecessários”, responde Sepp Holzer. Só o dique é que tem de estar isolado, recebendo para isso no seu centro uma camada densa de argila. Bernd Müller, Coordenador do Projecto de Permacultura: “O lago não tem de estar 100% isolado. A água deve infiltrar-se lentamente no solo”. O corpo terrestre encontra-se saturado de humidade até ao ponto de a equipa poder começar com o trabalho de reflorestação com culturas mistas. Bernd Müller, “Imagine que no Alentejo mil proprietários agrícolas decidem-se pela construção de paisagens aquáticas semelhantes. Não só a natureza iria recuperar, mas também muitas pessoas iriam encontrar uma nova forma de subsistência económica. O Alentejo poderia ser revitalizado.”

31


QUEM É SEPP HOLZER? Sepp Holzer nasceu em 1942 no seio de uma família rural nas montanhas austríacas. Desde pequeno sentiu a curiosidade que caracteriza qualquer criança sobre os processos da natureza. Nos animais e nas plantas, assim como na água e em biótopos criados por ele, conseguiu encontrar respostas mais coerentes do que aquelas que lhe apresentavam na escola. Este paraíso descoberto durante a sua infância, a convivência em harmonia entre os seres vivos, a abundância e a diversidade das simbioses, tornaram-se nos critérios que ainda hoje mantém na sua cooperação com a natureza. Seep Holzer tornou-se num cientista no verdadeiro sentido da palavra: nunca acreditando cegamente naquilo que lhe diziam, antes optou pela incessante investigação até obter uma resposta satisfatória. Mas o conhecimento que adquiriu estava sempre em contradição com aquilo que ouvia dos seus pais e professores. Tomou assim uma decisão radical à qual se mantém fiel até aos dias de hoje, tornar-se um aliado da natureza na sua missão de restabelecer o paraíso ecológico na Terra. Os conflitos tornaram-se inevitáveis em todos os domínios: político, económico, agrícola e ainda a nível social e científico. O mundo criado pelo ser humano e a natureza tomaram caminhos diferentes. Mantendo-se fiel a si mesmo e ao seu conhecimento tornou-se no “Agrário Rebelde”. Quem conhece Sepp Holzer, sente a sua autêntica compaixão por tudo o que é vivo. As injustiças sociais, a tortura animal, a relação ignorante e destrutiva por parte do ser humano em relação à natureza são para ele insuportáveis. A destruição da natureza a que assiste em muitos dos países que visitou não o deixa indiferente, assim como a perda de valores humanos e ainda o sofrimento provocado pela fome e pela pobreza. Nunca hesitou em tomar partido pela vida e em denunciar as injustiças. Não se contenta apenas em fazer acusações perante os conflitos. Senhor de uma imensa energia, força de vontade e inteligência, procura sempre uma solução que seja vantajosa tanto para o ser humano como para a natureza. Estas soluções aparecem-lhe muitas vezes em sonhos, quando o espírito, aliado à harmonia primordial, traz ao de cima um conhecimento superior e maior do que aquele oferecido pelo intelecto. Muitos dos princípios por ele descobertos são assim universais, sendo não só aplicáveis no cultivo de géneros alimentares, como também em todos os domínios da vida. Com apenas 19 anos, assumiu a responsabilidade da quinta dos pais (Krameterhof), hoje um terreno com 45 hectares situado entre os 1.100m a 1.500m de altitude. Começou aqui a pôr em prática todo o conhecimento observado na natureza. Os conflitos com os vizinhos e com as autoridades públicas e jurídicas não se fizeram esperar. Mas com

32

apoio da sua mulher, Veronika, sentiu-se incentivado a seguir em frente. Onde outros se dedicavam à monocultura de pinheiros, dedicou-se à cultura diversificada de frutas e de floresta e ainda semeou sementes de cereais autóctones. Onde as autoridades prescreviam o uso de pesticidas no combate aos parasitas, ele tentava perceber qual a maneira de reequilibrar o sistema. Onde outros procuravam desviar a água dos seus terrenos, procurou retê-la através da criação de pequenos lagos e tudo isto num terreno escarpado! Quando construiu socalcos em todo o seu terreno foi considerado como doido pelos seus vizinhos. Mas Sepp Holzer foi coroado de êxito. As pessoas começaram a dar atenção aos seus métodos não convencionais. As visitas foram aumentando, professores universitários, jornalistas e peritos na matéria perguntavam-se como é possível alcançar tal sucesso para que nas pastagens dos Alpes, cresçam cerejas, batatas e até kiwis enquanto nos arredores os agricultores desistiam e as florestas morriam. Seguiram-se documentários televisivos e livros. A quinta de Krameter é hoje um exemplo vivo da cooperação entre o ser humano, os animais, as plantas e a natureza, atraindo todos os anos milhares de visitantes. A sua popularidade fez aumentar o seu raio de acção. Entregando ao cuidado do seu filho a quinta, ficou mais disponível para se dedicar ao aconselhamento dos agricultores e apoiar vários projectos com as mais variadas características climáticas em várias partes do mundo, criando ainda cursos de formação em permacultura holzeriana. Desde 2007 tem vindo a acompanhar a construção da paisagem aquática em Tamera, leccionando aqui vários cursos e seminários. O objectivo comum é o de criar aqui um Instituto de Permacultura Holzeriana.

O que é a Permacultura Holzeriana? O método de Holzer assemelha-se ao da permacultura desenvolvido pelos biólogos australianos Bill Mollison e David Holmgren. Muitas pessoas expressam o desejo de que ele possa apontar esta similaridade, nomeando as suas técnicas de permacultura holzeriana. Porém as diferenças são evidentes visto que, Sepp Holzer também apresenta soluções para situações problemáticas em grandes superfícies e para situações extremas, utilizando para isso escavadoras e outras máquinas de grande porte. “Quando se vê que, durante gerações, se fizeram grandes estragos como o parcelamento, alisamento dos rios e drenagens com máquinas de grandes dimensões, não podemos agora conseguir reparar os estragos utilizando só uma pá. Diariamente, no mundo inteiro há milhares de pessoas a passar fome. Mundialmente, já desapareceu um quarto de terreno fértil para a agricultura. Agora não chegam passos


Água é Vida Seminário com Sepp Holzer em Tamera

pequenos, mas sim caminhar a passos largos de mãos dadas com a natureza.” Os seus princípios são válidos em todas as situações: “Põe-te no lugar daqueles que te rodeiam, da vaca, do porco, da minhoca e do girassol e também no lugar do teu próximo. No seu lugar irias sentir-te bem? Se a resposta for não, então descobre o motivo. Só assim podes mudar alguma coisa. Pois, só a partir do momento em que todos os seres vivos se sintam bem, é que podes contribuir para o desenvolvimento do bem-estar de todos, dando o teu melhor.”

abastecimento recíproco de nutrientes e a protecção mútua do Sol, do vento e dos herbívoros.

Orientar, não Combater

Alguns Princípios da Permacultura Holzeriana:

Quando surge um desequilíbrio, Sepp Holzer não pergunta: “como é que vou erradicar a peste?” Mas antes: “o que é que provocou um excesso de população? Onde é que eu errei? Será que podem ser úteis? Tanto os seres da natureza como o ser humano têm o suficiente?” Um excesso de população é sempre um sinal de que algo errado se passa num sistema. Muitas vezes o habitat dos organismos úteis às plantas foi completamente danificado ou mesmo destruído pelo uso de pesticidas. A missão do agricultor é a de restabelecer o meio ambiente para o organismo.

Mais Vale Juntos do que Sozinhos: Simbioses da Acção Recíproca

Economia e Ecologia: Beneficiar da Natureza, Sem a Explorar

As plantas cultivadas em sistema de monocultura competem entre si pela luz, pela água e por nutrientes e isso provoca um stress permanente nas mesmas. Por esse motivo, tornam-se susceptíveis a doenças. As consequências são a dependência de adubos químicos e da luta química contra os parasitas. Por contraste, temos os biótopos naturais de grandes dimensões nos quais se desenvolve uma grande variedade de espécies como tantas vezes encontramos em zonas circundantes das florestas e margens de rios. O mesmo se passa com as culturas mistas: quanto maior for a diversidade, mais estável é o biótopo. Entre as diferentes espécies de plantas e animais de um biótopo resultam simbioses, que não foram ainda profundamente investigadas ao nível científico. Parte integrante dessa investigação é o

Sepp Holzer, “Quando se possui uma propriedade deve-se aproveitá-la na sua totalidade não a deixando erma. É da nossa responsabilidade fazer algo com aquilo que nos foi dado.” Economia e ecologia, agricultura e protecção da natureza não estão para ele em contradição. Quem souber conviver com a abundância da natureza e dela se alimentar, também alimentará a natureza e manterá os biótopos em vez de os destruir.

Sepp Holzer

www.krameterhof.at

33


TAMERA À BEIRA DO LAGO Sepp Holzer

Em Março de 2007 fui convidado a fazer uma consultadoria em Tamera. A questão que se colocava era se seria possível, numa área de 134 hectares, situada numa região seca como a que se verifica no Sul de Portugal, criar um modelo de produção agrícola saudável e suficiente para abastecer uma população de 300 habitantes. Não hesitei em responder afirmativamente. Uma terra tão bela e fértil como esta deveria até cultivar mais produtos agrícolas do que aqueles que são necessários para a subsistência dos seus habitantes, podendo assim o excesso ser vendido ou ser deixado para os animais selvagens. Apercebi-me de imediato que a seca com que o sul de Portugal se debate no Verão, pouco tem a ver com um fenómeno da Natureza, mas antes revela o resultado de uma má gestão agrícola que, desde há décadas, ou mesmo desde há séculos, se tem vindo a arrastar. A precipitação anual aqui verificada não é menor do que a que se verifica na Alemanha, com a única diferença de que aqui apenas chove no Inverno.

Usar Sem Abusar Quando faço as minhas consultadorias, pergunto-me sempre: Como actuaria e interviria se fosse eu o proprietário? Que medidas tomaria de maneira a obter resultados rápidos usando os recursos naturais aqui existentes? Digo intencionalmente – usar sem abusar. Não se deve ser cobiçoso e sobrecarregar as possibilidades que a natuLago 1 após a primeira chuvada em 2007

reza nos oferece. Em todas as minhas consultadorias tento sempre demonstrar o que é possível fazer para que a Natureza trabalhe tanto para mim como para o proprietário. Visitei o terreno de Tamera com um grupo de 30 pessoas entre as quais se encontravam os titulares responsáveis. Durante o percurso fui exprimindo as minhas propostas. A água tem um valor crucial. Tamera é seca e poeirenta. A água que corre no ribeiro, se é que corre alguma água, existe apenas quando chove. De outro modo, este apresenta-se seco e à sua volta o solo é árido e castanho e a floresta muito doente. Mas não apenas em Tamera. No caminho para aqui, fuime apercebendo do extremo mau estado em que se encontravam as florestas, os sobreiros, as azinheiras e os pinheiros. Mas este é um cenário com o qual me tenho deparado em várias partes do mundo, não sendo portanto Portugal uma excepção. Na minha consultadoria não considerei apenas o estado da floresta em Tamera, mas também nos seus arredores. Em consideração, foram ainda tomadas as estepes agrícolas em Portugal, as monoculturas assim como a criação animal. A minha ideia foi, de imediato, a criação exemplar de um projecto piloto por parte da Comunidade de Paz de Tamera. Tamera tem de oferecer à vizinhança e ao país inteiro um exemplo e oferecer em contrapartida uma alternativa. Mas para isso, tem de se atrever a dar grandes passos nesse sentido.


No princípio, as minhas propostas foram consideradas algo exageradas. Mas não desisti. Depois das experiências em tantos outros projectos com solos áridos em vários pontos do mundo, tentei chamar a atenção para o seguinte: um trabalho só faz sentido se tiver um carácter exemplar. O projecto proposto da paisagem aquática só pode ser posto em prática se for implementado como um todo e respeitar as características do terreno. Tudo o resto seria apenas uma exploração de charcos e não uma obra com um carácter natural e funcional, respeitando os parâmetros da estética paisagística. A água é um ser vivo e como tal, tem necessidade de se mover, senão morre, isto é, ganha algas e apodrece. Por fim, a maioria dos responsáveis reagiu às medidas propostas de forma tão positiva, para não dizer, de uma forma entusiástica, que se daria início ao projecto logo após o Verão.

vessaria talvez a Península Ibérica até Barcelona? A última resposta seria a correcta. Pode-se imaginar a quantidade de água que aqui chega, não se podendo assim falar desta como uma região árida. Eu estava convicto de que, apesar da aparente seca, o lago iria encher de novo. Não apenas o lago inicial mas também os seguintes. Logo de início, a minha sugestão foi a de uma paisagem aquática com pelo menos 10 colectores de água e lagos. Nesta região árida, o mais importante para evitar a sua desertificação consiste em conseguir superfícies suficientes para a retenção da água da chuva. Na construção da paisagem aquática é necessário ter em conta que, nas partes mais estreitas do terreno, serão construídos diques para a economia nos gastos de construção de forma a agir de acordo com a natureza e não a obrigando a fazer charcos em locais inconvenientes.

Observei que a estrada que vai da entrada até aos terrenos passa pelo meio da aldeia. Esta é uma estrada pública de terra batida, sendo o ponto mais baixo do local. Durante quase todo o ano, quando um carro passa deixa uma nuvem de poeira. Excepto no tempo da chuva uma vez que, nessa altura a estrada transforma-se num lamaçal quase intransponível. Tenho visto esta situação por toda a Europa, onde caminhos e estradas se encontram nos pontos mais baixos e à beira destes constroem-se casas. Assim, quando no tempo de chuva a precipitação é forte, temos inundações nas estradas e nas casas.

A topografia natural do terreno não é alterada. Os lagos não são escavados, salvo nas partes mais profundas e os contornos naturais enchem-se de água dado que o desenho da paisagem aquática corresponde aos contornos do terreno, dando origem à formação de reservatórios naturais e lagos para recolha de água da chuva. Superfícies descentralizadas de retenção de água elevam o nível do lençol freático de maneira que, as áreas circundantes, possam regenerar-se. Neste terreno de montes baixos não há o perigo de derrocadas de terra, de maneira que, a regulação da água se desenvolve gota a gota subterraneamente e não à superfície. Para além disso, salientei que a água ainda se pode tornar num ramo de exploração altamente rentável.

A Natureza Mostra como Trabalha

As superfícies aquáticas podem ser até mais rentáveis do que os terrenos agrícolas. Podem ser utilizadas na exploração piscatória, de plantas aquáticas, de aves de capoeira biológicas, búfalos de água ou até mesmo para actividades turísticas e desportivas.

Mas a natureza demonstra-nos como fazer melhor. As áreas de cheias do terreno pertencem à água. Sugeri assim que, logo na entrada, se erguessem diques naturais, propiciando-se ali a acumulação da água da chuva. Tamera tem uma capacidade manancial de água com mais de 100 hectares e de 500 mm a 600 mm de precipitação anual. Um dos colaboradores colocou a seguinte questão: “se armazenássemos a quantidade de chuva anual em contentores com 1 metro cúbico e estes fossem dispostos em fila, quanto mediria esta fila? Até à próxima povoação a cerca de 5km? Até à próxima capital de concelho, Odemira? Ou atra-

Água é Vida

Projecto Exemplar para o Sul da Europa

Nota da editora: Tamera pesquisa formas de uso da paisagem aquática que sejam economicamente produtivas, sem matar animais e que contribuem para a paisagem e o biótopo.

35


O MEU SONHO: UM MODELO PARA O MUNDO – UMA NOVA GESTÃO DA ÁGUA Bernd Müller, líder do projecto de paisagem aquática em Tamera

Sepp Holzer fez desta abordagem a base do seu trabalho, visível no exemplo dado pela implementação da nossa paisagem aquática. A ideia é conseguir sistemas descentralizados nos quais as águas da chuva são recolhidas e mantidas num meio que corresponda à sua natureza, estimulando as suas formas de movimento. Aqui pode criar vida e continuar a vitalizar-se e a mineralizar-se. A forma dada aos nossos lagos e charcos não é casual. Observemos a água: como é que este ser quer movimentarse? Quais são os tipos de margem que gosta? Qual a temperatura e quais as diferenças de temperatura que gosta? Gosta ou não da formação de ondulação? Estes foram aspectos que fluíram no nosso trabalho. Estes reservatórios de água da chuva construídos com materiais naturais permitem um contacto directo da água com o meio ambiente e a Mãe Terra.

Próxima Questão: Como se Pode Curar a Natureza? Tamera já não se consegue imaginar sem a sua paisagem aquática. Todos aqueles que por aqui passam sentem prazer ao ver a abundância das plantas. Aqueles que têm o poder de antever os espaços verdes que vão surgir quando as árvores de fruto se tiverem desenvolvido ou quando os tapetes de nenúfares forem visíveis, já sabem da beleza desta paisagem aquática.

Bernd Müller a cavar argila para o núcleo da barragem

Durante os meus estudos aprendi que a fórmula química da água é H2O. Mas tem de ser mais do que isso porque eu sentia as diferenças: água da nascente da montanha, não é a mesma se for conduzida através dos canos ou guardada numa cisterna. Apercebi-me assim de que a água é um ser vivo com o qual, primeiramente, tenho de tomar contacto. Qual é a verdadeira natureza da água? Como é que posso interagir com ela de maneira a manter toda a sua energia e vitalidade e possa apoiar-me no sentido que corresponda ao seu próprio carácter? Nesta aventura da investigação em que conheci Sepp Holzer, ele disse: “se a água é um ser vivo, então temos de a tratar como tal. Não a podemos isolar em tanques de plástico ou em cisternas, onde perde a sua vitalidade, mas temos antes de reconhecer a sua essência e tratá-la de acordo com a sua natureza.”

36

Não se trata apenas da construção de um ou dois lagos bonitos. Através dos lagos agora existentes aprendemos a lidar com a água. A próxima questão que se coloca é: como podemos curar a natureza? Portugal, tal como o resto da Península Ibérica encontra-se num processo rápido de desertificação. Será que podemos contribuir para impedir este processo e deixar que o paraíso se torne de novo visível? O soar do paraíso já se faz sentir aqui em Tamera, mas se olharmos para o Alentejo apercebemo-nos de que isso não é o suficiente. Temos de continuar. Não com uma albufeira central, mas antes através duma paisagem aquática extensa que vise a recolha das águas das chuvas. Cada uma destas charcas poderá ser maior ou menor. O importante é que a água não esteja isolada do solo. É importante que tenham uma forma adequada de maneira a proporcionar o movimento da água para que esta mantenha a sua vitalidade. É importante que sejam muitas. Pois, só assim o solo pode absorver água e saciar-se de humidade, estando assim alcançado o objectivo. A natureza renasce e a floresta volta a crescer.


Deserto ou Floresta Tropical: Um Modelo para Zonas Climáticas Este modelo não é apenas válido para o Sul da Europa. O princípio de uma paisagem aquática descentralizada é válido para vários tipos de clima. No deserto existem vales, barrancos, “wadis” que permanecem secos anos a fio. Mas basta chover uma vez para que uma torrente de água arraste o pouco solo fértil existente. E a vida desaparece novamente por vários anos.

Neste caso, também se assiste a um manuseamento deficiente da água. Também no deserto é possível recolher a água da chuva de maneira a oferecer-lhe a possibilidade de penetrar lentamente no solo, restabelecendo de novo a vida. O mesmo é válido para as florestas tropicais, como por exemplo na América do Sul. Há pouco tempo estive na Colômbia. O solo é arroteado e a água desce pelas encostas arrastando consigo as estradas. Depois é conduzida em grandes canais de betão, o que transfere o problema para as localidades aí situadas. A água transporta muito solo turvando os rios e deixando-os sujos. O solo, ao assentar nas zonas mais largas do rio, provoca inundações violentas, tirando todos os anos a vida a várias pessoas. Também aqui se poderia resolver o problema através de charcas de recolha de água.

Água é Vida

Quando construímos o Lago 1, muitos estavam cépticos de que este alguma vez se encheria. Mas no último Inverno de 2009/2010, tivemos tanta chuva que esta foi suficiente para o encher no mínimo 5 vezes. A água transbordou do lago, correu pelos ribeiros e sistemas de canais, provocando de novo inundações. Por isso vamos continuar. Queremos através deste exemplo demonstrar que pela construção de superfícies de retenção se pode curar uma paisagem como a do Alentejo e travar a desertificação, tornando-a num paraíso onde a abundância e a diversidade podem renascer.

O problema verifica-se a nível mundial: inundações, secas, derrocadas de terras e barrancos. Mas a solução existe e para isso construímos aqui um modelo para que as pessoas o entendam e o possam transpor para as suas localizações.

Novo Projecto Pioneiro: Água Potável através de um Aqueduto Circular O sistema de Aqueduto Circular de Tamera é um projecto que será um modelo de abastecimento de água potável, fresca e viva para as comunidades. Sepp Holzer inventou o sistema durante uma visita a Tamera, vindo a ser aqui posto pela primeira vez em prática. A ideia básica é que a água esteja sempre em movimento de maneira a manter-se viva. Depois de efectuada uma verificação por engenheiros e especialistas, o Aqueduto Circular deverá ser construído este ano. Um resumo do esquema: a partir de um primeiro reservatório em barro cozido em forma de cabaça, colocado subterraneamente numa parcela de terreno elevado, a água fresca e de alta qualidade da nascente passa por todos os que dela necessitam em Tamera: por casas, casas de banho e cozinhas e segue para um segundo reservatório a uma cota mais baixa que a do primeiro.

Diagrama do aqueduto circular planeado para Tamera

Independentemente se os consumidores retiram ou não água do sistema, a água mantém-se sempre em movimento. Uma pequena bomba reconduz a água do segundo reservatório para o primeiro. Dentro do sistema de canalização circular o declive vai ser responsável pela pressão de água necessária, não sendo aqui usado o bombeamento. Todas as torneiras ligadas à canalização circular irão fornecer água cristalina, viva e de qualidade potável. Tão simples quanto isto é o sistema de Aqueduto Circular, uma inovação revolucionária, um modelo para abastecimento de água potável em aldeias de paz e municípios.

37


PAISAGENS AQUÁTICAS: UM MODELO EM TRÊS FASES Construção de Zonas de Retenção de Água, Cultivo de Alimentos e Reflorestação Mista

O modelo para a regeneração da paisagem consiste em três fases ou níveis: o armazenamento de água da chuva, o cultivo de alimentos em forma de paisagens comestíveis e a reflorestação mista. “Os vales pertencem à água”, diz Sepp Holzer. Com isso vai pôr em questão alguns programas nacionais de reflorestação. Visto que o topo de muitas colinas já se encontra árido, são frequentemente plantadas árvores em vales. Mas enquanto o manuseamento da água não estiver controlado, a seguir às colinas, também os vales irão tornar-se inférteis. Se em vez disso, forem criados reservatórios de retenção nos vales, humedecendo o corpo terrestre com água, uma acção capilar irá aumentar o nível do lençol freático, tornando toda a paisagem circundante fértil.

Escavação do Lago da Horta do Vale

A Construção de Zonas de Retenção de Água Na construção de zonas de retenção de água, é tomada em consideração todos os dados: a precipitação anual, a bacia hidrográfica, o estrato geológico do solo, as curvas de nível, a direcção prevalente dos ventos, a largura necessária dos socalcos para cultivo, os caminhos, as estradas e as infra estruturas previstas. O mais importante é a forma natural da paisagem. A própria natureza mostra o lugar a que pertencem as charcas de retenção.

A construção do Lago 1 no Outono de 2007

O mundo animal foi avisado antes da chegada à Tamera das retroescavadoras. Meditações e rituais ajudaram a informar os habitantes naturais da terra sobre as nossas intenções para que eles pudessem encontrar novos locais para viver. Esta prática faz parte do trabalho de paz com a natureza. A estrada pública que passa através do sopé do vale foi desviada para o declive. À volta do futuro lago foram construídos socalcos. Construiu-se uma ponte e os cabos de electricidade, internet e telefónicos foram transferidos para tubos. Na parte mais estreita e profunda do vale, visualmente integrado na paisagem, foi construído um dique central de terra com uma forma orgânica e ondulada. Além disso, foi feita uma cova com uma profundidade de 5m e inserida uma camada espessa de argila: uma camada isolante que tem de ser completamente impermeável. Em ambos os lados do dique este centro impermeável de argila penetra nos declives. Os dois lados do dique foram preenchidos com solo, nunca tendo o declive uma inclinação superior a 1:2. As margens foram plantadas.

Dia de Ano Novo 2010. O lago cheio.

38


Os trabalhos devem terminar sempre no Outono. A chuva de Inverno ou da Primavera é colectada na parte de trás do dique. Primeiramente, a água irá infiltrar-se no solo enchendo os reservatórios no interior do corpo terrestre. Assim, o lago ou o charco começa a formar-se e cobre a paisagem. Não será necessário isolamento adicional.

A forma do lago deve apoiar as seguintes três formas básicas e naturais dos movimentos da água:

Ondas: a ondulação transporta oxigénio para o lago. O oxigénio é essencial para os microrganismos responsáveis pelo efeito de auto limpeza. Para que a ondulação se efectue, constroem-se os lagos com os seus eixos maiores alinhados a favor da direcção do vento. O vento carrega as partículas flutuantes para as margens do lago, e aí as plantas aquáticas detêm-nas, utilizando-as como nutrientes.

Sinuosidades: para apoiar o movimento natural da água, as margens do lago não devem ser horizontais, mas sim com curvas acentuadas.

Água é Vida

O material para o dique é retirado da área onde o futuro lago será construído. Uma parte da área é escavada, dando origem mais tarde a uma zona profunda do lago, no caso do Lago 1 com um profundidade de 12,5 metros. Os estratos geológicos aqui escavados não se podem misturar. O solo fértil do topo dos estratos é utilizado mais tarde na superfície de cultivo e a camada de argila no dique.

Modelagem das Charcas de Retenção Recirculação: Quem quiser aperceber-se do sentimento de vida da água deve sentar-se e observar a superfície da água, em diferentes momentos do dia. Esta encontra-se quase sempre em movimento. Às vezes respira e sua como um atleta depois da maratona; depois passa uma leve aragem por cima, deixando-a encrespada como um arrepio sobre a pele. Nas margens rasas os cardumes de peixes minúsculos produzem ondulações e bolhas de ar e de vez em quando, uma tartaruga estica o pescoço para fora de água. A água é um ser vivo e como tal estica-se, espreguiça-se e rebola-se na sua cama quando esta tem a forma adequada. Um ser vivo que não se pode movimentar, morre. A água que não se pode movimentar, segundo as suas necessidades, apodrece e começa a cheirar mal. Mas quando tem a oportunidade de se movimentar mantém-se fresca e cristalina, purificando-se.

a forma de movimento da água é provocada pela recirculação, accionada pelas diferenças de temperatura, o chamado efeito de convecção. A criação de pequenas zonas climáticas nas margens inclinadas e rasas do lago, arborização de diferentes densidades ou ainda a colocação de pedregulhos, dão origem a estas diferenças de temperatura. Quanto maior for a diversidade de habitats tanto maior é a variedade da fauna e da flora. Quanto maior a diversidade de peixes, insectos, caracóis e caranguejos, tão mais estável será o equilíbrio ecológico no lago e à sua volta, tornando mais independente a totalidade do sistema em relação a adubos e necessidades externas. Os rochedos de mármore e granito à volta e dentro da paisagem aquática de Tamera não são apenas um elemento decorativo, antes criam pequenas zonas climáticas. Durante a noite o calor armazenado durante o dia é libertado para os biótopos à sua volta e as plantas sensíveis ao frio que se encontram nas suas proximidades prosperam. No Verão, o nível da água dos lagos começa a descer duma maneira drástica devido à evaporação. Mas quando o depósito de água do corpo terrestre estiver saturado, esta emerge novamente tornando o nível da água, de ano para ano, mais constante. Uma paisagem aquática com várias charcas de retenção suporta água no interior da terra e entre as charcas. Quando o corpo terrestre estiver saturado de humidade todos se sentem bem: as plantas, os animais e o ser humano.

Esboço para o Lago da Horta do Vale

39


PAISAGEM COMESTÍVEL O termo “Paisagem Comestível” é sedutor e sugere passeios em que se pode petiscar tanto à esquerda como à direita a abundância de maçãs, alperces e rabanetes. Esta é apenas uma parte do conceito. Neste sentido, uma “Paisagem Comestível” significa que criamos biótopos de culturas mistas intensivas e extensivas de árvores, frutos, flores, plantas medicinais e plantas companheiras. Alguns elementos das paisagens comestíveis:

Criação de um canteiro elevado com os participantes do seminário internacional

Canteiros elevados: um canteiro elevado é um canteiro amontoado alto sem borda e faz parte do equipamento básico da permacultura holzeriana. É um elemento básico para o cultivo de todos os tipos de vegetais em quase todo o tipo de condições climáticas. Ainda oferece mais vantagens como uma incrementada área de cultivo com vários microclimas. Quando a matéria orgânica com a qual são construídos os canteiros apodrece, é libertado calor bem como fertilizantes naturais. Principalmente no Inverno e na Primavera, quando outras superfícies ainda se encontram demasiado molhadas ou frias para se poderem cultivar, nos canteiros elevados pode levar-se a cabo todo o processo de colheita. Socalcos e Irrigação: o solo dos socalcos nas margens do lago é húmido visto estar próximo da água, podendo assim reduzir-se a irrigação. Quando for necessário proceder à rega, esta pode provir do lago mais próximo e mais elevado. Cultivo em Nível: as culturas mistas devem complementar-se e proteger-se reciprocamente. Plantas de vários tamanhos como, por exemplo, rabanetes e alfaces são plantadas mais perto do solo, depois corgetes, ervilhas, feijões e couves, sobre estes milho e mais acima girassóis, criando uma comunidade de plantas que tira o melhor partido da

Colheita de sementes de girassol

Horta medicinal, um conceito abrangente de autonomia medicinal para as aldeias de paz

40


oferta em nutrientes e em luz solar. É ainda de realçar que são sempre adicionadas as plantas companheiras tais como as leguminosas ou raízes comestíveis que deixam o solo mais solto. As plantas venenosas como a dedaleira melhoram a qualidade do solo. Frutos: milhares de árvores de frutos e arbustos de bagos foram plantados nas margens do lago de Tamera. Actualmente já se colhem maçãs, abrunhos amarelos, ameixas e cerejas. Especialmente robustas são as árvores que foram plantadas a partir de sementes. Como estas árvores já quase não se encontram no mercado, existe nas instalações um viveiro como parte integrante do projecto de Permacultura.

Quase todos os produtos num supermercado fazem parte dum sistema no qual o ser humano ou os animais sofrem. Cada coisa aí comprada torna cada um de nós cúmplice deste sistema. Mesmo sendo difícil abandonar totalmente este sistema, a comunidade de Tamera empenha-se cada vez mais em deixar de comprar este tipo de produtos. Isto quer dizer que, se possível, os géneros alimentares são provenientes das próprias hortas, fornecidos por agricultores regionais ou então são de origem orgânica e do Comércio Justo. Em amizade para com os animais e como sinal de pacifismo, a comunidade de Tamera comprometeu-se com uma dieta vegetariana, predominando mesmo a cozinha vegan. Isto é, renuncia-se maioritariamente ao queijo, ovos e leite. Os cozinheiros de Tamera estão empenhados em cozinhar de maneira a que nada falte. Nos artigos de cosmética e cuidado corporal tem-se em conta que os mesmos não sejam prejudiciais ao meio ambiente e não tenham sido testados em animais. Uma residente: “não se trata de prescindir do prazer. Tratase sim, de construir uma vida na qual se tem cada vez mais consciência daquilo que se faz, sem ter de se fechar o coração.”

Abelhas: são um elemento importante e necessário em todos os biótopos. A produção de mel é apenas uma pequena parte dos seus benefícios. A extracção do mel é um processo no qual as crianças de Tamera gostam de tomar parte.

várias qualidades de couve, tomate ou batatas e se volta a semear. Tomate amarelo, batata roxa, couve-flor verde, entre outros, são um exemplo dessas artimanhas da natureza. São verduras que, embora não correspondam às nossas expectativas visuais são vitais e saborosas.

Soberania de Sementes: as plantas nas paisagens comestíveis devem reproduzir-se naturalmente, por si mesmas. As plantas híbridas não são apropriadas para este efeito. A Equipa de Ecologia de Tamera começou a criar as sementes necessárias. Desta forma, participa na tarefa global de manter as variedades regionais. Nas sementeiras e na totalidade da área permacultural, as sementes das plantas seleccionadas amadurecem, sendo depois colhidas, secas e armazenadas. “A melhor planta do pior solo oferece a melhor semente”, diz Sepp Holzer baseado na sua experiência ao longo dos anos. É uma oportunidade maravilhosa poder observar como funciona a natureza quando se colhem as sementes das

Sepp Holzer: “Após algumas épocas de desenvolvimento cristaliza-se uma variedade que se mantém estável. Esta é a variedade que se adaptou da melhor forma ao clima e ao solo.” A produção de sementes foi desde o princípio da agricultura uma tarefa regional. Cada região rural tem o seu tipo de centeio, as suas batatas, as suas ervas especiais. Esta qualidade perdeu-se no comboio da organização global da agro-indústria. Não se trata apenas da perda dos diferentes sabores, mas também de uma diversidade biológica e de material genético para a produção de géneros alimentares no futuro. Deu-se início a um movimento mundial para salvar a variedade de sementes. Todos podem ajudar: aldeias da paz, comunidades autárquicas, propriedades de agricultura biológica e também pequenos horticultores.

Autonomia Regional Alimentar: Oportunidade para o Futuro da Agricultura Muitos dos agricultores em Portugal desistem, tal como acontece em muitos outros países. Para se encontrar um futuro sustentável para a agricultura, têm de ser desenvolvidos novos conceitos: conceitos ecológicos para a cura da paisagem e manuseamento da água, assim como conceitos sociais e económicos, com os quais os agricultores trabalham directamente com a comunidade local. Para uma economia e natureza saudáveis os géneros alimentares devem ser produzidos nos locais onde são consumidos. Tamera está a desenvolver um modelo para uma autonomia regional de géneros alimentares em cooperação com vizinhos, propriedades de cultivo biológico e pequenos produtores do Alentejo, criando uma rede de distribuição de produtos alimentares regionais. Os agricultores cultivam por encomenda e os excessos de produção são também vendidos, tendo assim os seus lucros assegurados independentemente das oscilações do mercado. Desta forma as comunidades e aldeias podem tornar-se economicamente independentes.

Água é Vida

Livre da Cumplicidade

As Aquaculturas: são uma necessidade ecológica e económica que substitui a ampliação da horticultura. Peixes, caranguejos, plantas aquáticas e das margens do lago são uma parte essencial do equilíbrio ecológico. Muitos oferecem oportunidades interessantes e originais de mercado, como no caso dos nenúfares. No que se refere aos peixes, a arte consiste em encontrar o equilíbrio entre peixes pacíficos e peixes predadores. Tamera não vende peixes para alimentação mas espera num breve futuro poder fornecer peixes para as futuras paisagens aquáticas que irão emergir da região. Plantas das margens e das várias profundidades da água são um berçário e um espaço protector para os peixes pequenos.

41


weg

No Alentejo, sobreiros em grande número estão a morrer

REFLORESTAÇÃO MISTA Cada região necessita de uma camada de vegetação que se conserve. Se a floresta morre, dá-se uma reacção em cadeia de destruição ecológica: deixa de chover, o solo aquecido transforma o clima e através do aquecimento térmico formam-se novas correntes de vento, tempestades e vendavais. Também em Portugal a floresta foi fortemente dizimada. À desflorestação na história recente e antiga, adiciona-se um forte abate de carvalhos e pinheiros. A reflorestação em monocultura, ainda por cima com eucaliptos, não ajuda em nada. Uma florestação saudável é uma florestação mista com carvalhos, castanheiros, árvores de fruto, nogueiras e apenas uma pequena parte com pinheiros e outras árvores coníferas, podendo-se assim curar uma região.

Morte Súbita dos Sobreiros: as Árvores não estão Doentes, mas sim o Ser Humano Porque é que os sobreiros estão a morrer? É realmente um vírus? Em Espanha e Portugal aconselha-se ou prescreve-se aos agricultores a vacinação dos sobreiros, para os proteger dos sintomas. Sepp Holzer, “Quando vejo isto, penso: não é a árvore que tem um vírus mas sim o ser humano. E este vírus chama-se cobiça. De que morrem realmente estas árvores? Primeiramente, devido às monoculturas que aproveitam o solo de

42

uma forma desequilibrada. Na pastagem excessiva que deixa o solo compactado, a vegetação empobrece, a matéria orgânica é arrastada com a chuva do Inverno, expondo cada vez mais as raízes das árvores e a árvore entra em pânico. As pontas vão secando, sendo este um grito de socorro. A árvore morre de dentro para fora. No corte imprudente e profundo da cortiça é lesado o câmbio, a camada por debaixo da casca que transporta a água e onde surgem fungos. A vitalidade da árvore enfraquece devido à tensão e não se pode defender contra o fungo. O que é que uma árvore ainda tem de aguentar? Fugir não pode. A seguir vêm os escaravelhos e as formigas. Depois é tarde demais. Todas as grandes árvores da região já não se podem salvar. Pode e deve-se agora tirar partido delas, beneficiando da sua protecção para a plantação de novas árvores.”

Os Porcos como Colaboradores na Reflorestação Em Tamera, a paisagem aquática começou a saturar de tal maneira o corpo terrestre de humidade que a Equipa de Ecologia pôde iniciar primeiramente em superfícies experimentais os trabalhos de reflorestação de cultura mista. Para isso, foram contratados novos colaboradores: os porcos. A sua missão é fazer aquilo que eles mais gostam: roçar-se no solo, adubar e abrir o solo.


Para que se possam tornar bons colaboradores, não são alimentados no comedouro. A comida mais adequada é topinambur, milho, lentilhas e tremoços que deverão ser demolhados em produtos lácteos ou gordura e espalhados numa superfície plana, que deverá ser arada. Amoras ou outro tipo de matagal, não são um obstáculo para os porcos. Na busca da sedutora comida bem cheirosa vão arando o solo até cerca de 20 a 30 centímetros de profundidade. Se a intenção é a reflorestação, misturam-se as sementes com a ração: árvores de frutos, árvores de folha caduca e plantas companheiras. Uma parte das sementes é misturada com a terra arada, a outra parte é comida por eles. Sementes que passaram pelo estômago do porco são “escarificadas” e a sua camada protectora é dissolvida no aparelho digestivo. Expelida como adubo, germina rapidamente e desenvolve-se no melhor substrato. Nesta estrutura rudimentar cheia de biomassa, poderá a nova floresta criar raízes. Agora os porcos já não podem ir para esta parte do terreno. Sepp Holzer trabalha desta forma há dezenas de anos com porcos. Ele cria especialmente raças antigas e raras. Estas são, geralmente, mais convenientes e vitais como colaboradoras do que aquelas que são criadas com vista à produção de carne. O trabalho com porcos é também um projecto modelo em Portugal, sendo uma forma modificada do tradicional montado ou uso extensivo de sobreiros e porcos. Os agricultores podem com esta forma de montado, não apenas usar a cortiça e a carne (se é que no futuro as pessoas ainda gostarão de comer carne, o que pode ser questionável), mas ainda a força motriz dos animais e com isso a capacidade de reconstituir a vegetação natural de um terreno. Assim, alia-se a economia agrária à protecção da natureza. Quem observa o regozijo dos porcos a “trabalhar”, ficará convencido de que a cooperação entre o ser humano e o animal é também um exemplo de criação animal no seu sentido nato.

Água é Vida

“Os porcos têm um arado incorporado à frente e um distribuidor de adubo atrás”, diz divertido, Sepp Holzer. Quando o conduzo eficazmente, não necessito de máquinas para lavrar um solo pedregoso ou de difícil acesso, deixo que sejam os porcos a fazê-lo. Eles deixam um solo adubado e rudemente arado no qual uma cultura mista de árvores de fruto e a sua própria alimentação pode prosperar maravilhosamente. No solo aberto podem ser lançadas sementes de grande diversidade, plantas companheiras, plantas para alimentação animal e finalmente árvores. As grandes superfícies não poderiam ser reflorestadas de outra maneira a não ser através do uso dos porcos. Em Tamera está actualmente a ser utilizada uma superfície experimental com alguns porcos.

A equipa de ecologia de Tamera

CONVITE E APELO AO APOIO E À COLABORAÇÃO A Equipa de Ecologia de Tamera pretende que o trabalho de Sepp Holzer seja conhecido e que muitas pessoas, engenheiros, agrónomos, e também leigos no assunto, possam aprender e compreender que a terra pode ser curada. Desde há alguns anos, tem-se vindo a fazer várias vezes por ano um dia aberto ao público com visitas guiadas pela paisagem aquática, onde os visitantes têm a possibilidade de colocar questões. Este dia é usufruído por interessados, peritos na matéria e famílias vindas de Portugal inteiro, para conhecerem Tamera e os seus projectos. Para o seu aprofundamento, decorrem seminários, assim como cursos no contexto do Campus Global, com Sepp Holzer e a Equipa de Ecologia de Tamera. Em Tamera deverá ser criado um Instituto de Permacultura Holzeriana. O grande interesse que o país demonstra, revela-nos o quanto este é desejado. Conjuntamente com protectores da natureza, especialistas e praticantes queremos criar uma força para devolver o poder original da natureza à terra. Só unidos podemos impedir a desertificação e tornar a região de novo verde. Oxalá aconteça!

Silke Paulick solarvillage@tamera.org

Website de Tamera – Ecologia www.tamera.org 43


Capítulo III


Aldeia Solar

Inteligência Solar para o Século XXI


J체rgen Kleinw채chter na estufa de energia

46


DA ILUSÃO DA ESCASSEZ PARA A REALIDADE DA ABUNDÂNCIA

Mas a escassez é uma ilusão. Não são os recursos energéticos que estão a diminuir, mas sim a liberdade e a imaginação das pessoas em reconhecer a abundância desde as fontes energéticas renováveis à energia livre. A tarefa dos modelos futuros é investigar como podem ser aproveitadas as fontes de energia alternativas descentralizadas, sustentáveis e em cooperação com a natureza. As regiões do planeta que hoje são pobres podem em breve ser abastadas. A sua abundância em radiação solar oferece boas perspectivas para o futuro. Até o Alentejo podia ser um ponto de encontro para a investigação solar inovadora. A transição para uma era solar irá acontecer com maior facilidade, se nalguns locais já tiverem sido desenvolvidas as respectivas tecnologias de forma a poderem ser postas em prática. Para esse efeito Tamera criou um Campo Experimental na Aldeia Solar: uma aldeia modelo para testar instalações solares descentralizadas a partir das necessidades quotidianas de uma aldeia com aproximadamente 50 habitantes. Os resultados serão mais tarde usados para a construção de uma Aldeia Solar autónoma do ponto de vista energético e alimentar, sendo parte integrante da investigação e da formação no local do Campus Global. O seu núcleo tecnológico será as invenções do físico e inventor Jürgen Kleinwächter.

Aldeia Solar

No sul de Portugal existe a maior exposição ao sol em toda a Europa. Ao mesmo tempo é o segundo país mais dependente do petróleo na Comunidade Europeia. Por mais drástica que esta contradição seja, existe a nível global: a aparente falta de recursos energéticos é o resultado da economia de energia orientada pelo poder que aceita a contaminação dos mares e guerras pelo petróleo.


Aldeia Solar

Paul Gisler, Director do Grupo de Investigação Solar em Tamera: “A cada momento o sol irradia 15.000 vezes mais energia sobre a Terra do que a que é gasta por toda a humanidade. A energia do sol existe em abundância, apenas temos de desenvolver a tecnologia adequada para aproveitá-la. O meu sonho é que Tamera se torne num laboratório livre onde os inventores encontrem um espaço inspirador, no qual aprendam uns com os outros, se apoiem mutuamente e onde implementem e experimentem as suas invenções.”

Simon du Vinage, 21 anos, Colaborador na Aldeia Solar: “Comparada com a visão de uma era solar, tal como a visualizo e que me inspira imenso, ainda nos encontramos no início dos nossos ensaios e das nossas experiências no Campo Experimental, semelhante às primeiras tentativas de voo há cem anos, comparando com o actual tráfego aéreo. Na época, o sonho de voar era tão fascinante e aparentemente impossível como o actual sonho da energia em abundância. Uma investigação sobre energia solar em rede a nível global e a respectiva formação abrangente, para a criação de aldeias para a paz no mundo inteiro, poderá também atrair a juventude.”

48


Abertura do Campo Experimental da Aldeia Solar em Outubro de 2009

49


Aldeia Solar

Barbara Kovats, Coordenadora da Aldeia Solar:

50

“A Terra precisa de novos modelos de povoações nos quais a luta entre as pessoas, assim como a luta entre as pessoas e a natureza, será extinta de forma efectiva e sustentável. Uma das contribuições essenciais para esse fim é a investigação de sistemas energéticos descentralizados através de tecnologias solares que também possam ser produzidas localmente. Neste contexto, descentralizado significa a criação de economias de subsistência regionais interligadas e relativamente independentes, realizando assim uma nova forma de auto-suficiência em rede. A troca internacional de tais economias auto-suficientes em rede leva a uma globalização sob condições pacificadoras e humanas.”


Charly Rainer Ehrenpreis, Director Executivo da Ilos, Lda.: “A experiência de Tamera conta com o acordo das autoridades locais, que confirmam o seu grande interesse no projecto nesta região. Deu-se início a uma troca de conhecimentos e cooperação técnica com várias universidades e escolas superiores politécnicas do Sul de Portugal. Para os seus estudantes nas respectivas áreas, é aqui que irá ser realizada uma parte da sua formação prática.”

A Praça do Campo Experimental

51


NO CAMPO EXPERIMENTAL DA ALDEIA SOLAR

A estufa de energia no Campo Experimental

Uma estufa em película reflecte-se numa lagoa transparente. No seu interior e à sua frente encontram-se sistemas solares de diferente tamanhos e formas que formam um parque tecnológico inspirador. Uma máquina com uma roda grande volante pulsa, fazendo lembrar um coração gigante. Algumas pessoas estão a preparar o almoço numa cozinha aberta; não estão a usar nem gás nem electricidade. Aqui no coração de Tamera, uma pequena utopia de energia solar descentralizada foi criada: o Campo Experimental da Aldeia Solar. Este nasceu do desejo de querer mostrar através de um exemplo vivo de como se pode realizar o objectivo da auto-suficiência energética de uma aldeia com 50 habitantes. E essa realização já não está muito longe. Em cooperação com Jürgen Kleinwächter, a equipa tecnológica está a desenvolver as invenções sob a direcção de Paul Gisler e optimiza-as na aplicação directa. Por vezes há contratempos. Mas os técnicos não permitem que isso os impeça de

52

continuar. Aquilo que os guia é o conhecimento de que a energia existe em abundância. Desenvolver uma tecnologia adequada que a torne acessível a todas as pessoas, sem monopólios, sem lutas de poder, é trabalho pela paz. Em Jürgen Kleinwächter encontraram um visionário e um parceiro para uma era solar. No centro das suas invenções está um aparelho que agora está a brilhar ao sol: um motor Stirling de baixas temperaturas, neste caso um “SunPulse Water”. A grande bomba de água solar acciona a fonte no centro da praça da aldeia para fins demonstrativos. Poderia ser uma alternativa para os milhões de bombas de água nas regiões quentes que, na agricultura e nas aldeias, gastam uma infinidade de electricidade e de combustível. O aparelho transforma as diferenças térmicas entre o calor do sol e a frescura da sombra em energia mecânica, sem qualquer tipo de perdas como acontece na geração, transmissão e consumo de energia eléctrica.


Até os equipamentos na cozinha solar funcionam com energia solar. Neste caso com óleo quente que foi aquecido na estufa de energia e armazenado em reservatórios especiais. Mas o óleo não fornece apenas calor para cozinhar durante dia e noite. Também pode ser usado para accionar serras ou outros aparelhos através da força mecânica, para desinfectar ou para refrigerar. É simplesmente o centro de um conceito energético totalmente novo para uma aldeia. O seu componente principal é mais uma vez o motor Stirling de baixas temperaturas, uma máquina com uma roda grande volante, o “SunPulse Hotoil”. Ele transforma as diferenças de temperatura entre o óleo quente e a água fria em energia eléctrica, mecânica e térmica. “Até agora, a instalação produz 1,5 kW de corrente eléctrica”, explica Paul Gisler, “um valor que queremos aumentar significativamente com a ajuda de Jürgen Kleinwächter.” David Lehrer, Director do Instituto de Estudos Ambientais do Deserto Arava em Israel, comentou durante uma visita: “Este princípio é revolucionário. Gostaria que tivéssemos sido nós a ter esta ideia.” Os especialistas dizem que o sistema é inovador em dois aspectos: oferece soluções para o problema de armazenamento e torna a produção de energia solar independente da componente fotovoltaica e assim da grande indústria. A tecnologia do Campo Experimental foi construída na sua totalidade nas oficinas de Lörrach (Alemanha) e de Tamera. Esta é a particularidade das invenções de Jürgen Kleinwächter, sem o uso da componente fotovoltaica, elas podem ser construídas e mantidas ao nível regional. É também parte do sonho que persegue Jürgen Kleinwächter desde as suas longas viagens ao continente africano ao presenciar a miséria das pessoas, sobretudo das mulheres nas aldeias, que todos os dias caminhavam durante muitas horas para apanhar a pouca lenha que restava. Queria oferecer uma solução para este problema, não só com a compaixão de um ser humano, mas também como inventor: decidiu colocar à disposição dos mais necessitados o seu conhecimento na área tecnológica. Em vez de desenvolver sistemas de alta tecnologia que tornavam as pessoas dependentes da indústria e de um fornecimento central, projectou uma central eléctrica solar composta por módulos que abrangia todas as necessidades de uma aldeia e que em grande parte pudesse ser construída localmente. A tecnologia da “Solar Power Village” de Jürgen Kleinwächter tem tanto o potencial para assegurar a autonomia energética de aldeias na zona desértica do Sahel e de outras áreas com muito sol, como o de estimular o desenvolvimento rural nas regiões pouco estruturadas da Europa.

Convidados internacionais assistem a uma demonstração do órgão musical solar

Em seguida quis construir uma instalação para ensaios adequada para a sua invenção. Tinha de ser na Europa, fora das zonas de conflito, de modo a que pudessem ser corrigidos eventuais erros. Mas qual seria a comunidade ou aldeia europeia que se dispusesse a prescindir do conforto habitual e se limitasse ao nível de vida de uma aldeia africana? E que grupo possuiria conhecimentos e estabilidade suficientes para não se separar perante os primeiros conflitos? Jürgen Kleinwächter encontrou o parceiro que procurava em Tamera. Aqui, as suas invenções solares são testadas de forma competente. Barbara Kovats, a coordenadora da Aldeia Solar, diz: ”Através da vivência diária nesta instalação queremos melhorar continuamente o sistema e torná-lo apto para o pôr em prática.”

53


Aldeia Solar

Actualmente, o Campo Experimental inaugurado em Outubro de 2009, já é uma atracção para outros inventores e invenções. Foi pensado para ser um local onde pioneiros da investigação poderão trazer desenvolvimentos invulgares e experimentá-los longe da sociedade vigente e nas condições férteis e humanas do Campo Experimental. É precisamente a ligação entre as áreas de investigação da ecologia e da sustentabilidade social que permite explorar possibilidades excepcionais e dar resposta a questões importantes. Jürgen Kleinwächter está satisfeito com o desenvolvimento da energia solar em Tamera. Não quer competir com mega projectos como as gigantescas centrais solares no Sara. “Em vez de monopolizar a produção de energia, nós ambicionamos no fornecimento energético e alimentar a autonomia regional. Deste modo, a paisagem pode ser protegida e podem ser criados postos de trabalho locais para que a vida volte às aldeias”, disse às equipas de televisão que fizeram uma reportagem sobre a inauguração do Campo Experimental em Outubro de 2009. Acerca dos jovens provenientes de muitos países que querem aprender no Campo Experimental, disse: “O nosso sonho é que aqui seja criada a primeira universidade solar do mundo. Provisoriamente, chamamo-la Plataforma TTT.”

De modo a possibilitar um fornecimento de alimentos saudáveis até aos “habitantes da Terra sem terra”, ou seja, aos habitantes de metrópoles e até de bairros de lata, foram criados modelos mais pequenos. Depois de uma apresentação a um grupo de formandos de São Paulo, onde nas favelas apenas têm à disposição entulho para a construção, o grupo de formandos recolheu detritos da oficina e a partir daí construiu uma torre jardim e um canteiro elevado. Hoje crescem aqui tomates e vinhas. Estes modelos são elementos anarquistas do movimento “Urban Gardening”.

E para completar o ciclo, estão à disposição instalações sanitárias modernas de compostagem e (quase) inodoras, uma obrigação numa região com pouca água. O seu produto vermi-composto é usado na jardinagem paisagística.

54

Para cozinhar durante os meses de Inverno com pouco sol, à cozinha de Verão foi acrescentada uma instalação experimental de biogás de pequenas dimensões, construída desta maneira pela primeira vez na Europa, seguindo o exemplo das mais simples tecnologias provenientes do Nepal e da China, sendo aqui transformados em energia para cozinhar os restos de cozinha e fezes humanas.


No sentido dos ponteiros do relógio a partir do topo esquerdo. Mesmo na área da tecnologia solar existem instalações segundo o princípio Low-Tech que completam os desenvolvimentos de Kleinwächter para cozinhar com radiação solar directa, estando à disposição dois espelhos Scheffler, instalações SK 14 (SK 14: fogão solar parabólico com um diâmetro de 1.4 m) e várias caixas para cozinhar com o Sol. Um secador solar serve como uma instalação simples para a secagem de frutos e legumes.

55


AUTONOMIA ENERGÉTICA EM VEZ DE SEGURANÇA DE FRONTEIRAS Jürgen Kleinwächter, físico e inventor

SunPulse Water como alternativa para as bombas de água eléctricas nas áreas rurais

Os leitores do livro “Energieautonomie“ (Autonomia Energética) por Herman Scheer (Membro do Parlamento alemão e fundador da "Eurosolar"), sabem que a autonomia energética ou a auto-suficiência é o aspecto mais importante do momento no desabrochar da era solar. A produção regional de energia a partir de fontes auto-suficientes permite, especialmente, às regiões da Terra pobres mas ricas em exposição solar, desenvolver certas estruturas autónomas interrelacionadas até ao nível da aldeia. Estas estruturas geram postos de trabalho local e estável e ao mesmo tempo cobrem as necessidades alimentares e energéticas da população. Considerando o fluxo crescente da corrente migratória dos pobres do Sul que procuram emprego nos países ricos do Norte e, considerando ao mesmo tempo, as medidas de defesa tomadas nas fronteiras que são desumanas, improdutivas e devoradoras de dinheiro surge a questão de se avaliar se estes fundos não seriam melhor investidos no Sul, na construção das estruturas acima mencionadas.

56

Durante décadas de trabalho de investigação e desenvolvimento, temos desenvolvido uma variedade de sistemas e componentes solares que agora reunimos para formar um sistema multi-funcional globalmente integrante, o “Solar Power Village”. Este sistema, uma simbiose entre a produção de energia solar e a criação de condições óptimas para o crescimento de plantas, é projectado de tal forma que pode ser quase inteiramente construído nos países onde seria usado. Para que cedo se torne efectivamente vantajosa, o incremento positivo destas e outras invenções na corrente evolutiva que a era solar poderia trazer no sentido equilibrado da energia dos ciclos materiais, no mínimo, a integração social e cultural é tão importante quanto a tecnológica. Uma versão moderna de "volta à natureza" está a desenvolver-se, sem o toque espiritual do sonho de Rousseau, porque hoje é baseada num funcionamento efectivo e pacífico do uso tecnológico da energia do sol.


Em Tamera, uma comunidade internacional de investigação no Alentejo, no Sul de Portugal, um modelo de aldeia da paz global tem sido desenvolvido nos últimos anos, oferecendo as condições ideais para construir a "Solar Power Village". Cerca de 200 habitantes, em torno dos fundadores Dieter Duhm, Sabine Lichtenfels e Rainer Ehrenpreis, criaram uma comunidade modelo. Desenvolveu-se aqui um forte poder de integração que pode ser visto como que os primeiros florescimentos baseados numa força criativa, tranquila e ecológica para a construção de acordos de paz internacionais, os quais são hoje mais necessários do que nunca. Contudo, o "Modelo Tamera" irá apenas atingir a sua eficácia prevista quando a energia e a produção alimentar se tornarem auto-suficientes. Entre os habitantes e colaboradores de Tamera existem engenheiros, arquitectos, biólogos, médicos, construtores em terra e fardos de palha, especialistas em Permacultura e excelentes artesãos. A "Escola Global de Formação da Juventude" é frequentada por inspirados, comprometidos e altamente talentosos jovens. Na anual "Universidade de Verão", visitada por grupos internacionais, especialmente vindos das áreas em crise do mundo, a "Solar Power Village" tem gerado forte ressonância e mostrou que responde a uma necessidade específica. Especialistas de Tamera apresentaram estas tecnologias a várias universidades e instituições Portuguesas, que têm

mostrado grande interesse. A estufa de energia tem o potencial para produzir comida vegetariana a partir duma área de apenas algumas centenas de metros quadrados por pessoa, comparados com os mil e oitocentos metros quadrados necessários para a agricultura convencional. Espera-se que, futuras melhorias conduzirão a um sistema biônico, em que as plantas dão o sinal das suas necessidades aos sistemas físicos – as ópticas, o controle de humidade, os filtros e assim por diante, de forma que os parâmetros para o crescimento das plantas, tais como a luz, a temperatura, a humidade e equilíbrio de CO2, são continuamente optimizados. Por conseguinte, é provável que a superfície necessária para sustentar um ser humano venha a ser ainda mais reduzida. Isto parece ser essencial para atender às necessidades de uma população em crescimento exponencial. Este modelo da estufa de energia tem uma superfície mínima de 150 m2. Sob as condições solares do Sul da Espanha e do Sul de Portugal produz-se cerca de 50 kWh/dia de energia eléctrica, para além de aproximadamente 24 kWh/dia de energia térmica para cozinhar a 220°C, bem como também aproximadamente 110 kWh/dia de energia de baixa temperatura a 50°C para fins de aquecimento ou para a produção de água quente. O nosso objectivo comum é o pleno desenvolvimento deste potencial no Campo Experimental de Tamera, em estreita cooperação com parceiros internacionais, e o desenvolvimento simultâneo de uma rede sustentável de trabalho para uma era de paz solar, a caminho da “Energieautonomie” (Autonomia Energética) de Hermann Scheer, o poder político do futuro.

Aldeia Solar

Porquê em Tamera?

Vida e trabalho no Campo Experimental

57


Reservatório de óleo quente do Campo Experimental

A estrutura das lentes Fresnel focaliza a luz numa linha

Um dos equipamentos para cozinhar na cozinha de Verão é alimentado por óleo quente

Cobertura da estufa de energia com uma película especial laminada

58


O plano para desenvolver uma central de energia solar nasceu do desejo de colocar o conhecimento altamente tecnológico à disposição das pessoas mais pobres. Como é que se chegou a esse ponto? Em 1971, Hans e Jürgen Kleinwächter, pai e filho, fundaram o instituto solar privado KLERA (Kleinwächters Entwicklung und Forschung, Raumfahrt und Atomtechnik; Desenvolvimento e Investigação para a Astronáutica e Tecnologia Nuclear de Kleinwächter). Visto algumas das invenções de Hans Kleinwächter até então terem sido aplicadas na indústria bélica e nuclear, os dois decidem então colocar os seus conhecimentos científicos somente ao serviço da paz e do futuro solar. Eles dedicam a sua atenção aos motores térmicos e ao desenvolvimento de uma central de energia solar. No início dos anos 80 já tinham criado no seu Campo Experimental em Lörrach uma central de energia solar leve conhecida por SKK (Solar Kuppel Kraftwerk). Depois das suas já mencionadas viagens por zonas de conflito, Jürgen Kleinwächter passou a investigar sistemas tão simples quanto possível que também pudessem ser construídos e usados em aldeias africanas. Este é o conceito básico que deu origem à Aldeia Solar. A Aldeia Solar é composta por vários módulos.

Módulo 1: Estufa Energética e Sistema de Armazenagem Por baixo do telhado da estufa de energia encontra-se montado um sistema de lentes Fresnel. Estas focam a luz solar não num ponto focal, mas sim numa linha focal. Nessa linha foi montado um sistema de tubos isolado e percorrido por óleo vegetal em sistema de circuito fechado. Este é aquecido a 220°C. Em seguida, o óleo quente é armazenado num tanque. A partir daqui, o óleo pode ser usado para cozinhar ou para produzir electricidade. Como parte de um circuito fechado, o óleo arrefecido volta para a estufa de energia. A estufa de energia serve ainda de estufa para cultivar alimentos biológicos de uma forma eficiente e com reduzido gasto de água. A película especial (Fresnel) deixa passar todas as frequências de luz incluindo a UV, que apoiam o crescimento das plantas. O sistema de lentes reduz o impacto térmico para as culturas de estufa ao transformar a energia intensa de radiação

em energia térmica, que é conduzida para o exterior da estufa através do óleo que circula. Deixa de haver gastos para a refrigeração; a restante luz difusa possibilita um crescimento óptimo das plantas. Futuramente também irá ser realizado um conceito (house-in-house) no sentido da funcionalidade múltipla, e a estufa será então um invólucro de um edifício interior. O óleo aquecido circula dos absorventes de calor da estufa até ao fogão ou até ao motor Stirling que transforma calor em energia mecânica e eléctrica. O reservatório de óleo quente possibilita um aproveitamento energético durante 24 horas por dia e está dimensionado de tal forma que assegura uma autonomia de vários dias.

Aldeia Solar

OS MÓDULOS DE ENERGIA DA SOLAR POWER VILLAGE

Módulo 2: Pontos de Cozedura Um fogão solar deve ser uma alternativa para os sistemas tradicionais já existentes. Talvez estes não sejam sustentáveis do ponto de vista ecológico, mas são considerados os centros da vida social pelas pessoas nas suas aldeias. Por isso, e para serem bem aceites, não basta produzir energia térmica com um elevado grau de eficácia. Um fogão solar tem de estar adaptado aos costumes de cozinha e de alimentação dos países alvo e tem de corresponder aos respectivos valores culturais e sociais. O seu manuseamento tem de ser fácil, seguro e confortável e a sua construção sólida e simples. Um fogão solar em combinação com um sistema de armazenamento de calor pode satisfazer estas necessidades. O fogão solar da “Solar Power Village” tem várias bocas e uma boa eficiência permitindo uma autonomia prolongada. O seu ponto de cozedura é composto por várias panelas de alumínio de paredes duplas percorridas pelo óleo quente em circuito fechado. O fluxo do óleo regula-se com uma válvula manual que abre e fecha segundo a necessidade permitindo uma regulação exacta da temperatura para cozinhar. O óleo deve ter uma temperatura mínima de 150°C, possibilitando assim fritar, assar e cozer no forno. Para ferver água 100°C são suficientes. Na cozinha de Verão do Campo Experimental é ainda criado vapor através da permuta térmica com o óleo quente. O vapor é particularmente adequado para preparar legumes com delicadeza. Também a esterilização de utensílios médicos, a dessalinização da água e muitas mais coisas se tornam assim possíveis.

59


Módulo 3: O Motor Stirling O Ciclo Stirling:

Aldeia Solar

No Campo Experimental existem dois locais onde são usados motores Stirling. O “SunPulse Hotoil” transforma as diferenças de temperatura entre o óleo quente vindo da estufa e a água fria em electricidade, em energia mecânica e térmica. O “SunPulse Water” transforma a diferença térmica entre a luz do sol e a sombra em energia mecânica para o bombeio de água. O que é um motor Stirling? Foi inventado em 1816 pelo sacerdote escocês Robert Stirling, aproximadamente 50 anos depois da máquina a vapor. Ele procurou sobretudo uma alternativa ética para tornar o trabalho mais seguro nas pedreiras e nas minas de carvão, porque as explosões de caldeiras eram relativamente frequentes na época e as vítimas eram muitas vezes crianças. O primeiro motor foi usado como uma bomba de água para a drenagem de uma pedreira na Escócia. No início do século XX, havia no mundo inteiro aproximadamente 250.000 motores Stirling em funcionamento. Ventoinhas portáteis, bombas de água e propulsores para pequenos aparelhos como, por exemplo, máquinas de costura. Estes forneciam energia mecânica tanto em casas particulares como em pequenas oficinas. Com a distribuição progressiva dos motores a gasolina, a diesel e eléctricos, os motores Stirling foram quase totalmente eliminados do mercado. Relacionado com as centrais termoeléctricas descentralizadas e a cogeração, o motor Stirling volta a ser aceite desde meados da década de 1970. Os motores Stirling transformam as diferenças térmicas em energia mecânica e funcionam segundo o princípio da alteração volumétrica causada por ar aquecido e ar arrefecido. O motor Stirling trabalha graças à alteração térmica provocada por uma fonte de calor e de arrefecimento e a consequente expansão e redução do volume do ar. Entre estas duas fases, ou seja, o aquecimento (expansão) e arrefecimento (compressão do volume) terá, no entanto, de existir algo que faça com que o ar permaneça alternadamente quente e frio num ritmo rápido dentro da máquina. A partir da segunda metade da década de 1990, Jürgen Kleinwächter concentra-se cada vez mais no desenvolvimento de motores Stirling de baixas (à volta de 100°C) e médias temperaturas (à volta de 200°C a 500°C), com os quais ele espera uma tecnologia de energia mais simples, de produção descentralizada, independente de sistemas grandes e para o bem de todos. Devido a estas novas áreas de aplicação, o motor Stirling está a passar por um renascimento interessante. Durante

60

O motor Stirling trabalha ciclicamente. Durante um processo Stirling ideal decorrem sucessivamente quatro mudanças de estado: 1° Tempo: Fase de expansão (isotérmica): o ar é aquecido na parte inferior do cilindro, a pressão assim criada move o êmbolo para cima; 2° Tempo: O êmbolo de compressão, adiantado um quarto de tempo, move-se para baixo, deslocando assim o ar para a parte superior do cilindro. O ar arrefece (de modo isométrico), fazendo baixar a pressão; 3° Tempo: Fase de compressão (isotérmica): O êmbolo move-se para baixo, comprimindo assim o ar. O calor criado durante a compressão é transferido imediatamente para o invólucro de arrefecimento; 4° Tempo: O êmbolo de compressão volta a deslocar o ar para a parte inferior do cilindro, onde poderá aquecer novamente (de modo isométrico).

décadas, ele foi descurado, enquanto outros motores foram favorecidos: precisamente aqueles que dependem de combustíveis e cujo funcionamento é por essa razão controlado por monopólios. O motor Stirling, ao trabalhar à base de diferenças térmicas e utilizando exclusivamente recursos amplamente existentes, possui um princípio francamente anárquico. Desta maneira e de forma excelente, insere-se no conceito de autonomia energética descentralizada. Nesta série estão a ser desenvolvidos e gradualmente optimizados sobretudo, dois modelos: o SunPulse Water e o SunPulse Hotoil.

SunPulse Water O modelo “SunPulse Water” é uma bomba de água que converte directamente a energia que nela incide vinda da radiação solar em energia hidráulica, oferecendo assim as condições ideais para o uso descentralizado. O enorme potencial destas simples bombas de água, que funcionam directamente com a luz solar, torna-se particularmente evidente quando se observam as condições na Índia: aí, aproximadamente 50% de toda a energia eléctrica produzida em todo o país é gasta no bombeamento de água nas áreas rurais, que ainda por cima tem de ser fornecida praticamente de graça, uma vez que a população pobre rural não dispõe do respectivo poder de compra. As máquinas “SunPulse Water” também podem ser produzidas na Índia de forma descentralizada, tendo o potencial de criar postos de trabalho e drásticas melhorias ambientais nessas áreas. Em Tamera, o “SunPulse Water” tem um poder hidráulico de 150 Watts.


SunPulse Hotoil O modelo “SunPulse Hotoil” trabalha com dois circuitos de fluidos, um com óleo quente e outro com água fria, propulsionando fontes mecânicas directas, tais como compressores a frio, moinhos de cereais, serras e outras ferramentas mecânicas úteis ou até um gerador para produzir electricidade. O óleo é aquecido através da radiação solar concentrada e pode ser usado directamente como transportador de calor bem como meio de armazenamento. O “SunPulse Hotoil” é assim uma central de energia solar capaz de fornecer energia durante 24 horas por dia na ordem de vários Quilowatts de potência. Neste caso e de forma particularmente elegante, barata e com um elevado grau de rendimento, a energia mecânica é muito importante e é directamente colocada à disposição, sem desvios por outras transformações de corrente (motor eléctrico). Se o sistema, além disso, for complementado com um combustor de massa biológica de modo neutro para o meio ambiente, então esta potência também poderá ser garantida em períodos de fraca incidência solar. Em Tamera encontra-se presentemente em demonstração um SunPulse Hotoil 1500, um motor Stirling que produz electricidade com um rendimento de 1,5 Quilowatt. Para aumentar o rendimento até umas dezenas de Quilowatt está-se a trabalhar na construção duma máquina modificada super compacta, a “Maquina X”.

SunPulse Hotoil transforma em energia mecânica e eléctrica o diferencial de temperatura entre o óleo quente e a água fria

SunPulse Water é a mais desenvolvida invenção de Jürgen Kleinwächter


O ESPELHO SCHEFFLER Pela manhã, a primeira atenção dos cozinheiros vai para o espelho Scheffler. Eles giram a grande parabólica reluzente para o lado do sol nascente. Em seguida colocam no foco de luz, o tacho com água para o café do pequeno-almoço. O resto acontece sozinho. Os cozinheiros estão satisfeitos: “O espelho Scheffler é rápido e fácil de manobrar. A comida fica pronta num instante, pelo menos quando o céu está limpo.” O espelho Scheffler foi construído em Tamera em colaboração com o viajante orador para o desenvolvimento sustentável, o suíço Alec Gagneux. “A vantagem desta tecnologia” explica “é a de não precisar das componentes fotovoltaicas caras e poder ser facilmente montada e reparada por leigos. E o que distingue o espelho Scheffler dos outros espelhos parabólicos solares é o seu cómodo manuseamento. É possível trabalhar dentro de casa, uma clara vantagem para países de clima quente, onde ninguém quer cozinhar no exterior à hora do almoço.

Sobre a Tecnologia do Espelho Scheffler Um espelho Scheffler é um reflector solar com um foco fixo. A luz solar é concentrada num ponto, variando a posição do espelho, que acompanha o movimento do sol. A ideia original foi de Jürgen e Hans Kleinwächter, o inventor Wolfgang Scheffler desenvolveu e adaptou-a para as necessidades de países subdesenvolvidos e com muito sol. A invenção não foi patenteada e os seus planos de construção estão à disposição de todos, segundo o princípio “Open Source” (não patenteados e livremente disponíveis). A luz solar é focada num ponto fixo e permanece aí focada por meio de um simples sistema de ajustamento automático ainda que a relativa posição do sol mude durante o dia. Para tal, Wolfgang Scheffler desenvolveu um sistema inspirado no mecanismo de um relógio mecânico. Assim, o espelho acompanha o movimento do sol mediante um mecanismo que pode ser construído com velhas peças de bicicleta. Devido ao tal foco fixo é possível, sem ajuste manual, utilizar por exemplo um forno solar durante todo o período de sol ao longo do dia. Trata-se de uma vantagem em relação aos espelhos parabólicos, nos quais o foco muda de posi-

O espelho Scheffler e seu dispositivo automático de rastreamento solar

ção durante o dia, não sendo possível mantê-lo num só ponto. Com este foco fixo dos espelhos Scheffler é possível construir cozinhas solares interiores, que são continuamente alimentadas com a energia solar focada. A distância entre o ponto de foco (por exemplo o forno dentro de casa) e o centro do reflector (o espelho à frente da casa) é determinada através da parábola de partida (o arqueamento do espelho).

Quais são as Aplicações do Espelho Scheffler? Há já 20 anos que o espelho Scheffler é aplicado em vários países do hemisfério Sul. Os planos construtivos são “Open Source”. O Barefoot College apoia com regularidade cursos para mulheres rurais de modo a capacitá-las na criação da sua própria independência e no recurso a uma fonte de energia sustentável e amiga do ambiente.

Como é esta Tecnologia Eficaz? O rendimento de um reflector com uma superfície de 10m2 varia com a estação do ano entre 2,2 Quilowatts no Verão e 3,3 Quilowatts no Inverno, assumindo uma irradiação solar de 700 Watts por m2. Nas nossas latitudes, a potência (energia por unidade de tempo) do espelho Scheffler é maior no inverno que no verão, visto que a área do espelho é utilizado de forma mais eficiente quando o sol está mais baixo no céu. Porém o total de energia recebida durante um dia de verão é maior, pois existem mais horas de exposição solar.

62

 O fogão do espelho Scheffler


INSTALAÇÃO EXPERIMENTAL DE UMA CENTRAL DE BIOGÁS

O biogás pode ser gerado a partir de qualquer forma de biomassa, através de processos anaeróbicos, ou seja, numa instalação de biogás isenta de oxigénio livre. Durante o decorrer do ano, Tamera produz as mais diversas formas de biomassa: restos de cozinha, da poda de árvores e de arbustos, estrume de cavalo e excrementos humanos dos sanitários de compostagem. O objectivo da planeada instalação de biogás é aproveitar esse potencial energético para a obtenção de energia não poluente e de uma forma não prejudicial ao meio ambiente. Quando na Europa se fala de biogás como alternativa energética, muitos activistas ambientais vêem-na de um modo crítico. Para as instalações europeias construídas a uma escala quase sempre industrial, a biomassa é produzida em grandes monoculturas, adubada em proporção e reduzindo a área da produção alimentar. Ao se considerar todos estes factores, a eficiência é realmente bastante questionável. No Nepal e na China o caso é bastante diferente. Com uma tecnologia muito simples, as instalações de biogás ou

Aldeia Solar

Os sistemas solares do Campo Experimental preenchem nos meses de Verão as necessidades energéticas da cozinha. Na sua procura por um complemento de substituição da insuficiente radiação solar nos meses de Inverno, a equipa da Aldeia Solar escolheu a solução do biogás. Esta técnica, um modo de construção muitas vezes comprovado no Nepal e na China será pela primeira vez modificado e construído para se adaptar às condições europeias. Trata-se de um projecto de investigação e de formação no âmbito do Campus Global.

“Digester” nas aldeias, produzem biogás que é usado para cozinhar ou para abastecer os autocarros. Uma instalação de biogás nepalesa é composta por uma fossa subterrânea de fermentação coberta por uma cúpula em alvenaria ou em betão. Aqui, o material orgânico é fermentado através de micróbios, formando metano. O gás ascendente acumula-se na cúpula e a partir daí é conduzido para um depósito ou é canalizado directamente para a cozinha. Algumas instalações sanitárias estão directamente ligadas à instalação de biogás. Adicionalmente existe um funil de enchimento, no qual os restos de cozinha ou de outro material orgânico são misturados com água e conduzidos ao tanque de fermentação. O material fermentado passa para um tanque de evaporação, é seco e pode ser usado como fertilizante eficaz no jardim paisagístico. A instalação deverá oferecer a possibilidade de experimentar a fermentação de diferentes materiais geralmente considerados inadequados para instalações de biogás como por exemplo, restos da poda de árvores e de arbustos, que em Tamera são produzidos em grandes quantidades. Michael Stang e Martin Funk, os engenheiros envolvidos nesta implementação, disseram: “Somos adeptos das soluç��es Low-Tech que podem ser realizadas em oficinas simples. Esta tecnologia até pode ser compreendida e construída por habitantes sem formação em países mais pobres, criando assim a sua independência energética. Quem sabe se na Europa não iremos depender em breve das vantagens de tecnologias simples.”

Grupo internacional aprende a construir uma micro instalação de biogás

63


ENTREVISTA NUM FUTURO PRÓXIMO Bem vindos ao futuro. No ano X, pouco antes da inauguração da Universidade Solar em Tamera, a tripulação da Aldeia Solar convida uma equipa internacional de jornalistas. Eles vão apresentar a central eléctrica solar multifuncional, a Energy Power Greenhouse (EPG). Há pouco tempo, as suas componentes alcançaram a fase de produção piloto. Jürgen Kleinwächter e os seus colaboradores na Aldeia Solar mostram o sistema aos jornalistas. Jürgen Kleinwächter: Bem-vindos à Energy Power Greenhouse (EPG) da Aldeia Solar.

Pormenor do protótipo mais recente do SunPulse Hot Oil

Sistema do “lago quente”. Geração de energia através do diferencial de temperatura na água

O Girassol, um sistema de lentes

64

Sérgio Ramirez, Espanha: Espantoso. A cobertura parece extremamente transparente, no entanto as condições de luz na estufa são difusas e as temperaturas são relativamente agradáveis, apesar de lá fora estar calor por ser Verão. Como é possível? Em Espanha, nós aplicamos tinta de cal na cobertura exterior das estufas ou colocamos redes de sombra. Jürgen Kleinwächter: Sob a cobertura da estufa, protegido das condições climatéricas, colocamos sistemas de lentes leves que acompanham automaticamente a luz do sol. Essas lentes parecem totalmente transparentes, mas se olhar com atenção, verá estrias muito finas, semelhantes às de um disco de vinil. Este tipo de estrutura foi inventado por Augustin Jean Fresnel em 1819. A lente Fresnel condensa, numa linha focal, a chamada radiação solar directa, ou seja, a parte da luz cujos raios incidem quase paralelamente na Terra. Os tubos por baixo das lentes transformam esta luz concentrada em calor e este é conduzido através de um circuito fechado de óleo vegetal até um reservatório energético de óleo quente. Assim filtramos activamente a radiação solar directa e transferimo-la para o exterior da estufa através da corrente de óleo quente. Por isso a temperatura aqui é tão agradável. A parte da luz que chega a nós de toda a parte da abóbada celeste, a chamada radiação solar difusa, atravessa as lentes sem ser absorvida pelos tubos de óleo quente e faz com que a iluminação no interior não encandeie. Michal Ysof, Israel: Pretende dizer que aqui a característica óptica das lentes é aproveitada como separador selectivo das componentes directa e difusa da luz? No entanto surgiu-me uma questão: com o céu a descoberto, a maior

parte da energia está contida na radiação directa. Isso não significa que as plantas, que agora apenas recebem luz solar difusa, não dispõem de energia suficiente para a fotossíntese e que por isso não cresçam tão bem? Jürgen Kleinwächter: Felizmente, para crescer de forma optimizada, as centrais de energia das plantas apenas necessitam de aproximadamente 200 W/m2 de energia de radiação para transformar a luz solar através da clorofila das folhas. Mas com o céu a descoberto incidem até 1000 W/m2, dos quais 800 W/m2 são radiação directa. Ao nível das plantas chegam portanto 200 W/m2 de luz difusa. O que é completamente suficiente. Além disso, para crescer as plantas não aproveitam todos os comprimentos de onda da luz da mesma forma. Têm preferência por algumas cores do espectro do arco-íris, gostam menos de umas cores e outras não usam de todo. Nesse contexto falase da luz PAR (Photosynthetic Active Radiation). No seu país, nomeadamente no Blaustein Institut em Beer-Sheva no deserto de Negev, foram efectuados alguns trabalhos pioneiros essenciais relacionados com este tema. Neste gráfico pode observar o espectro PAR sobreposto na totalidade do espectro solar. Por exemplo, é possível ver que as plantas quase não aproveitam a luz verde – é por isso que a folha tem essa cor, porque ela reflecte a luz verde. Se falássemos a língua das plantas, então ouviríamos o que elas nos diriam: «Eu gosto de luz azul, mas gosto ainda mais de luz vermelho-amarelada! Cláudio Sanchez, Bolívia: Quando imagino o custo adicional das suas lentes ópticas com circuitos de óleo quente em comparação com as estufas chamadas «normais», sem contar com todo o restante equipamento que certamente iremos ver ainda, questiono-me sobre a viabilidade económica.


Entretanto Jürgen, prime um botão e a roda volante do motor Stirling à frente da estufa começa a girar e produz corrente eléctrica, visível através das lâmpadas que começam a acender-se. Fernando Pereira: Permita-me descrever resumidamente o que está a acontecer aqui. Através das lentes Fresnel, a luz directa aqueceu o óleo até este ficar quente, enchendo assim este reservatório ao lado da máquina com calor de processo. Já referimos que este método também é vantajoso para as plantas na estufa. Ao premir o botão de iniciar, é conduzido óleo quente por um permutador térmico, através do qual é aquecido o ar dentro do motor Stirling Sunpulse, ar esse que dilata e põe a funcionar o motor. E isso acontece tanto de dia como de noite, porque temos energia do sol armazenada. Além do gerador para a produção de energia, a roda volante pode ser ligada a qualquer máquina útil para a aldeia.

Pavel Cernenko, o cozinheiro chefe da Aldeia Solar, explica-lhes o funcionamento da cozinha: vejam estas panelas de aquecimento com paredes duplas. Por aqui passa o óleo quente e com estes botões posso regulá-lo. As panelas propriamente ditas são colocadas nestes recipientes – e agora posso cozinhar e assar, tão confortavelmente como num fogão eléctrico. Os legumes que estão a comer são da nossa estufa. Este compartimento na plataforma de cozedura serviu para cozer o pão. Cinco lados do compartimento são percorridos por óleo quente, proporcionando deste modo um excelente forno de radiação. Jürgen Kleinwächter: Agora imagine o que é que esta possibilidade de cozinhar com energia solar significa por exemplo para as mulheres no Sahel, que têm de andar até 40 km todos os dias para apanhar a pouca lenha que resta, debaixo de um calor abrasador e que ainda por cima têm de cozinhar sobre fogueiras repletas de fumo. A vantagem de se cozinhar com a energia solar é imensa!

Aldeia Solar

Fernando Pereira, estagiário em Tamera: Quando comparar, digamos 1 m2 de uma estufa «normal» com 1 m2 da nossa estufa, não considerando as vantagens que o nosso sistema implica, ficamos de facto pior. No entanto, se nessa equação adicionar a corrente eléctrica para abastecer uma aldeia isolada o caso já muda de figura.

Ele acciona uma alavanca que conecta uma correia de transmissão à roda volante, pondo a funcionar um moinho que por sua vez produz farinha. Li Sho-Mun, estudante no campo de ensaio: Neste contexto gostaria de acrescentar o seguinte: tal como viram, assim que a máquina Sunpulse começou a trabalhar, também começou a ser bombeada água do poço ao lado. Isto é mais um exemplo da sua multifuncionalidade. Todas as aldeias têm um poço, do qual tem de ser bombeada água. Todo o motor Stirling precisa tanto de fornecimento de calor na sua área quente como de fornecimento de frio na sua área fria. Ao extrair água fresca do poço com uma parte reduzida da potência do motor que depois de passar pelo radiador estará à disposição para cozinhar e para regar com uma temperatura apenas um pouco mais alta, resolvemos ambas as questões.

Os participantes internacionais da formação

À hora de almoço, o grupo de jornalistas é levado para a mesa. À sombra da estufa de energia, no meio de tomateiros, legumes, flores e arbustos, foi montado um bufete. Mas antes de comer, a equipa de cozinheiros pede aos visitantes para entrar na «cozinha solar 24 horas», que se encontra mesmo ao lado. Jürgen Kleinwächter apresenta o SunPulse Water

65


Fernando Pereira: Podemos satisfazer esse desejo. O princípio do motor Stirling também pode ser invertido. Aqui, esta caixa frigorífica isolada ao lado do motor Stirling, está equipada com a sua própria roda volante que está ligada ao motor Stirling através desta correia de transmissão. Vou mostrar rapidamente como funciona. Ele acciona algumas alavancas de modo a que a roda volante da caixa frigorífica começa a girar em sincronia com a roda volante do Sunpulse. Fernando Pereira: Por favor observem agora este termómetro, que indica a temperatura do ar no interior da caixa frigorífica! A temperatura desce de imediato e passados alguns minutos chega abaixo da marca dos zero graus centígrados. Desenvolvimento do SunPulse Hot Oil

John Ulele, Quénia: Tenho de confessar que estou genuinamente impressionado. Por favor não me leve a mal se também colocar uma questão crítica. Como é que isto vai poder ser produzido em série, de modo a que uma aldeia, digamos no Mali, possa adquirir este tipo de instalação? Quem operará este tipo de instalação? Quem fará a manutenção deste sistema complexo, quem irá reparar os danos que seguramente irão surgir de vez em quando? Li Sho-Mun: Todos os sistemas podem ser produzidos com meios e materiais simples e com ferramentas e maquinarias clássicas. Quando surgir uma aldeia ou uma região a interessar-se por estas tecnologias, iremos então oferecer a um grupo de pessoas dessa região, vocacionadas e artesanalmente habilidosas, a possibilidade de conhecer esses sistemas na prática e na nossa universidade, estudar as respectivas teorias e matérias relacionadas e sobretudo adquirir o treino na nossa oficina para a reconstrução da sua própria Solar Power Village no seu país de origem. Naida Teketé, Mali: Se assim for, os «emigrantes da pobreza», ou seja, todas aquelas pessoas das nossas aldeias que deixam o seu país por necessidade, deixariam de ser obrigados a fazer uma viagem perigosa para a Europa, porque encontrariam trabalho na sua terra. O melhor seria se a máquina Sunpulse também produzisse frio. Assim poderíamos armazenar frutos valiosos, como por exemplo mangas, colhidas durante a semana e vendê-las no mercado durante o fim-de-semana!

66

Fernando Pereira: É um motor Stirling de funcionamento inverso. O interior da caixa frigorífica está construído como um segundo motor Stirling. Isso significa que o motor Stirling produz energia a partir da diferença térmica entre o óleo aquecido pelo sol e a água fresca do poço. Quando esta for transmitida através da correia de transmissão até ao segundo motor Stirling na caixa frigorífica, esta faz precisamente o oposto do primeiro motor: ela produz uma diferença térmica a partir de energia mecânica, ou seja, dentro do compartimento a temperatura desce, fora dele é aquecida água através de um permutador térmico. Com essa água vamos por exemplo lavar a nossa loiça depois de comer. O «meio frio» é nada mais do que o ar à nossa volta! Jürgen Kleinwächter: Para terminar esta boa refeição solar, sugiro que desfrutemos um pouco de «música solar» antes de irmos assistir à demonstração dos trabalhos no nosso laboratório livre. A luz solar, extremamente concentrada por uma lente Fresnel, é dirigida por Fernando para tubos transparentes de diferentes comprimentos, dispostos na extremidade de uma base giratória, de modo a que um dos tubos se encontra sempre no ponto focal. Passado pouco tempo, o tubo iluminado começa a emitir um som semelhante a um órgão. Ao girar a base, pode criar-se uma melodia simples que tem algo de misterioso, arcaico e xamânico. Li Sho-Mun: Por favor, queiram seguir-nos agora até ao nosso laboratório livre.


Li Sho-Mun: Por favor entrem e fechem a porta. O grupo observa agora como a luz do dia jorra para dentro da divisão sem janelas pelos tubos luminosos e placas flexíveis. A luz distribui-se através de reflexão total por áreas e tubos, iluminando o quarto de forma agradável e sem encandeamento, mas de forma intensa. Por baixo dos elementos luminosos encontram-se as mais diversas plantas, algumas das quais envoltas por luz vermelho-amarelada. Fernando Pereira: Agora vou afastar as ópticas de entrada da luz solar! O quarto escurece de imediato. Fernando Pereira: Agora vão presenciar como iremos distribuir pelo quarto a luz do sol, líquida e armazenada neste reservatório. Ele entra na divisão escura e prime um botão luminoso. Quando um líquido verde e luminoso começa a espalhar-se por mangueiras compridas e placas transparentes, o espanto no meio do grupo é palpável. Nas áreas em que o líquido brilhante passa pelas plantas, o verde luminoso é transformado em luz alaranjada através de finas películas. As perguntas surgem em catadupa.

bemos os conceitos para estes sistemas há algum tempo para o aproveitamento da luz do dia em prédios habitacionais e alguns até foram comercializados com sucesso. Agora quanto à questão sobre o que é que é luz líquida: descobrimos que um certo tipo de pigmentos fosforescentes (luminescência persistente) quando colocados num especifico liquido transparente formam uma suspensão estável. Em seguida pareceu-nos evidente passar esse líquido sob o sol entre placas duplas transparentes, deixar que aí absorvesse a luz solar e recolher o líquido agora luminoso num reservatório. Como a substância emite luz durante muito tempo, podemos usá-la à noite e iluminar plantas, por exemplo. Este conceito ainda está na fase experimental e vimos muitas possibilidades de melhoramento – portanto um verdadeiro tema para o laboratório livre.

Aldeia Solar

O grupo entra numa divisão escura sem janelas na qual desembocam mangueiras e placas. Nas fachadas viradas para o sol encontram-se lentes, espelhos e outros elementos ópticos como se fossem flores orientadas para a luz solar.

Li Sho-Mun: Ainda relacionado com a nossa investigação de luz, é também muito cativante o desenvolvimento deste reactor de luz à base de microalgas, o qual em combinação com o sistema de lentes da nossa estufa de energia, irá permitir, na mesma superfície, obter óleo vegetal para fins energéticos no «piso superior» e cultivar plantas alimentares biológicas na área inferior. De seguida Li Sho-Mun, mostra uma montagem experimental. Jürgen Kleinwächter: Vamos lá espreitar o que é que os nossos mecânicos acabaram de montar.

O que é luz líquida? Por que é que devemos armazenar luz? Isto não seria interessante para iluminar divisões sem janelas, como por exemplo aquelas que existem em edifícios grandes de uso comercial? Jürgen Kleinwächter: Conseguimos imaginar a colocação da estufa a vários metros abaixo da superfície, sobretudo em zonas climáticas extremamente quentes ou extremamente frias, podendo assim aproveitar a temperatura praticamente constante do solo nessa profundidade. Naturalmente, isso só será possível se conseguirmos fazer chegar a luz concentrada do sol a esta profundidade de forma eficiente e económica através de pequenos cortes transversais, distribuindo-a pela área e adaptando o espectro para satisfazer as plantas. Tudo isto é demonstrado pelos sistemas que aqui vêm no laboratório livre sobre luz. Assim acreditamos que não nos estamos a afastar demasiado de sistemas naturais. ConceModelo de estudo do sistema de lentes Fresnel no Espaço da Juventude

67


O grupo é conduzido para um projecto experimental, onde se encontra um «reactor para biomassa». Neste são queimadas fezes humanas e outros detritos biológicos numa chama de luz branca, praticamente sem deixar resíduos. Jürgen Kleinwächter: Quem nos deu esta ideia foi Horst Wagner de Würzburg na Alemanha. Ele mostrou-nos como extrair oxigénio quase puro da atmosfera com um filtro extremamente simples. Esse oxigénio pode ser armazenado sem problemas e sem perigo nestes reservatórios de polímero em forma de balão (ele aponta para um reservatório em película, tal como são usados em instalações de biogás). Quando necessário, a substância biológica húmida é então queimada numa atmosfera de oxigénio praticamente puro. A partir daí, desenvolvemos uma instalação que também pode resolver de forma elegante o problema de higiene quando há falta de instalações sanitárias em aldeias mais a sul e além disso pode fornecer energia para o reservatório de óleo quente! Fernando Pereira: Quero agora demonstrar-lhes que também podemos combinar os nossos sistemas de lentes com células fotovoltaicas em vez dos absorvedores térmicos vistos até agora. Esta combinação está a ter muito sucesso, em particular na Europa, visto existirem tarifas de fornecimento muito convidativas para a produção de electricidade para a rede eléctrica. Isto aumentou muito a procura pela tecnologia fotovoltaica. Só na Alemanha já se encontram instaladas mais de 3 centrais eléctricas fotovoltaicas com capacidade de produção na ordem de grandeza de giga watt. No entanto, isso significa que o custo para a electricidade fotovoltaica produzida tem de descer significativamen-

Jürgen Kleinwächter e Sepp Holzer em Tamera

68

te. Com a nossa tecnologia podemos consegui-lo. Assim podemos alcançar custos de produção de electricidade inferiores a 0,10 €/kWh e simultaneamente ter todas as vantagens adicionais da nossa estufa de energia. Até na nossa localização geográfica a electricidade solar tornar-se-á económica sem qualquer subsídio. Jürgen Kleinwächter: Também temos muitas informações sobre o método de captar vapor de água em estufas através de campos electrostáticos. Agora queremos demonstrarlhes brevemente duas aplicações com futuras possibilidades de desenvolvimento. Primeiro, como usando este método, estamos a melhorar as transferências térmicas com um mínimo de gasto eléctrico em pelo menos uma ordem de grandeza. Por isso chamamos a este método ETT, ou seja, Elektrostatischer Thermischer Transístor (transístor electrostático térmico). Segundo, desenvolvemos algo realmente espectacular – um mini tornado, igualmente controlado por campos electrostáticos. Esta técnica tem uma aplicação potencial de destilar água salgada em água potável de modo extremamente eficiente, enquanto se gera uma potencialmente usável fonte de energia cinética! A propósito: Os desenvolvimentos técnicos aqui descritos não são ficção científica, mas sim invenções reais provenientes do laboratório de Jürgen Kleinwächter. Algumas delas já se encontram montadas em Tamera para fins experimentais e demonstrativos.

Montagem do sistema Girassol


Aldeia Solar

A ALDEIA SOLAR - ESPAÇO DE FORMAÇÃO DO CAMPUS GLOBAL

No âmbito da Aldeia Solar, está a ser desenvolvido um centro para a investigação e a formação em tecnologia não violenta. Provisoriamente estamos a chamar-lhe Universidade Solar ou Plataforma TTT: Tecnologia, Treino e Transferência. Aqui, os pensadores visionários de muitas áreas poderão reflectir, trocar ideias e investigar conjuntamente, sobretudo os pioneiros da investigação que noutros lugares não são ouvidos ou até são impedidos de o fazer. Tamera alarga esta colaboração à volta de um conhecimento social e humano proveniente de uma investigação comunitária que já dura há décadas.

O Filme sobre a Solar Power Village A Universidade Solar irá providenciar o espaço para juntar, interligar e divulgar o conhecimento tecnológico internacional. É um solo fértil para o laboratório livre, onde são criados conceitos do futuro como, por exemplo, na área da investigação dos vortex, do armazenamento de luz, do efeito de campo sobre plantas e muitas mais ideias.

Em 2007, Nigel Dickinson fez em inglês um filme de 22 minutos sobre a Solar Power Village. O filme documenta e explica a tecnologia e esclarece de forma inspiradora a ideia do Campus Global.

O objectivo de toda a investigação é a criação de estruturas de povoamentos autónomos e descentralizados que possam ser adaptados a todas as zonas climáticas do mundo.

Mais informações: Barbara Kovats, SolarVillage@tamera.org

Apresentação Interactiva da Solar Village solarvillage.tamera.org/presentation

A peça pode ser encomendada por nosso intermédio.

O Filme sobre a Solar PowerVillage www.solarpowervillage.info

69


Em Tamera e na Aldeia Solar, foram até ao momento concretizados dois estilos de construção: a construção em terra baseada na ideia de se realizar alternativas económicas que aproveitem os recursos locais bem como a arquitectura de zonas múltiplas. Neste momento tornam-se visíveis, sobretudo através das construções de telhados de sombra. A Aldeia Solar ainda está à procura de um conceito visionário para uma arquitectura solar do futuro. A seguir, os dois princípios serão descritos pelos respectivos arquitectos: Professor Gernot Minke, antigo professor para construções em terra de Kassel (Alemanha) e Martin Pietsch, designer e arquitecto em Tamera.

T ER R A , P A L H A E R EL V A A Redescoberta de Materiais Ecológicos de Construção As paredes do Auditório de Tamera têm 8 metros de altura. O Auditório do Centro de Pesquisa para a Paz, providenciando espaço para 400 pessoas, é o maior edifício construído com fardos de palha e terra na Península Ibérica. O seu telhado 'verde' e as paredes exteriores cor de terra fundem-se de forma harmoniosa com a paisagem. Quando os visitantes entram neste espaço ficam surpreendidos pelo seu tamanho. As madeiras no interior do edifício e as suas proporções equilibradas dão-lhe um ar grandioso. “Quase como uma catedral”, exclama um dos visitantes que veio propositadamente de Lisboa. O Auditório consiste num edifício com estrutura de madeira em que foram empilhados fardos de palha e posteriormente rebocados de ambos os lados com terra. Na parede externa, a terra foi misturada com cal para a proteger da A Aula de Tamera, durante uma palestra na Universidade de Verão

70

chuva. O telhado é verde, crescem nele relva e plantas, tornando-o tão verde como a paisagem à sua volta. Construir com terra é uma tradição ancestral em Portugal. Esta tradição pode agora ser combinada com novas técnicas científicas e materiais, tais como a palha e telhados verdes e também com a arquitectura solar. Deste modo, possibilita um moderno design de cúpulas, arquitectura futurística e o conforto da vida moderna. Construir com terra e palha é uma alternativa que poupa dinheiro e trabalho, proporcionando no interior das construções uma temperatura ambiente agradável e articula o conhecimento ancestral com novas técnicas. “Durante quanto tempo pode durar uma casa como esta?”, pergunta um dos visitantes com alguma ansiedade. “Para sempre, desde que não ocorram danos estruturais”, diz a sorrir o Professor Minke. Ao longo dos seus 73 anos de vida construiu centenas de casas na América do Sul, África e Alemanha e já ouviu muitas perguntas deste tipo.


“Porquê fardos de palha?” os visitantes querem saber. “Por duas razões”, responde o Professor Minke: “Construir com fardos de palha é muito mais rápido porque são grandes, poupando custos de mão-de-obra. A segunda razão é a sua qualidade de isolamento acústico e térmico. Mas têm de saber fazê-lo”, acrescenta. No seu Instituto para Construção, Biologia e Ecologia em Kassel, conjuntamente com a sua equipa tem desenvolvido numerosas e aperfeiçoadas técnicas para trabalhar com fardos de palha, terra e telhados verdes. Tamera tornou-se num local experimental para as suas novas técnicas. Uma delas é A Casa dos Três Arcos, a primeira casa no mundo de construção autoportante com fardos de palha. Os arcos da casa estão construídos somente com fardos de palha, sem madeira de construção. O seu Instituto desenvolveu uma máquina especial para cortar cada fardo de palha exactamente no ângulo correcto. “Estas casas são à prova de terramotos?”, pergunta alguém. “Na Guatemala construí casas como esta especialmente para zonas de risco sísmico, uma vez que são as construções que oferecem melhores propriedades anti sísmicas. A madeira é elástica e os fardos de palha acompanham os movimentos. A única coisa que acontece é que o reboco das paredes cai.” As casas de fardos de palha são também à prova de fogo. Uma parede de fardos de palha rebocados com terra resiste durante 90 minutos aos testes oficiais de exposição ao fogo. O Professor Minke constrói apenas casas com telhados verdes. Em Portugal são ainda raras. “Temos tido bons resultados com eles”, testemunha Beate Möller, arquitecta em Tamera. “Só no primeiro ano é que tivemos de regar o nosso grande telhado do Auditório. As plantas ficam amarelecidas no Verão, mas com as primeiras chuvas voltam a ficar verdes. Os telhados verdes têm excelentes qualidades de isolamento térmico. A temperatura interior das casas com telhados verdes é sempre confortável.” O Professor Minke e a arquitecta Beate Möller estão convencidos de que estas duas inovações, construção com fardos de palha e telhados verdes, podem enquadrar-se perfeitamente na paisagem alentejana.

O Sol e Adobe, um projecto da Associação Berlinense para a Criação de Aldeias de Investigação para a Paz, é uma colaboração experimental entre Jürgen Kleinwächter e o arquitecto de construções em terra Heiner Lippe de integrar essas construções em terra com a energia solar simples. O resultado foi uma construção modular em terra com um sistema de lentes tipo girassol no telhado. Uma combinação de vários tamanhos de módulos deste género podem formar um povoamento autónomo. O Sol e Adobe foi construído durante um seminário internacional com a participação de crianças e jovens, estudantes de diferentes países entre os quais Israel e Palestina. 

A construção da "Casa dos Três Arcos”. Um edifício experimental de Gernot Minke

Aldeia Solar

Beate Möller e Gernot Minke

71


A ARQUITECTURA DE ZONAS MÚLTIPLAS DE MARTIN PIETSCH

Liminal Village no Boom Festival 2008 em Portugal

No Campo Experimental, coberturas claras em arco feitas de tecido impermeável para tendas e rede escura para sombras, cobrem a praça da aldeia. Composta pelas mais diversas variações, desde áreas muito aquecidas pelo sol até zonas de sombra fresca, dão forma ao centro comunitário. Em articulação com uma disposição ecológica, são assim criados pontos de encontro sociais de diferentes tamanhos. A generosa construção com membranas, criada por Martin Pietsch, é uma aproximação à arquitectura semipermeável, na qual a vida quotidiana e o contacto com a natureza foram desenhados para uma crescente sinergia mútua. Desde a fundação de Tamera, Martin Pietsch planeia e constrói os seus telhados de membranas tencionadas. As suas formas cheias de fantasia e ao mesmo tempo úteis fazem às vezes lembrar flores grandes, cogumelos ou ovnis. Durante o Verão, aconchegam-se ao longo de grandes áreas do terreno de Tamera. No entanto, são apenas uma parte de uma grande ideia arquitectónica que Martin Pietsch já realizou noutras partes de Portugal, como por exemplo em 2008, no Boom Festival em Idanha-a-Nova. Desde há 30 anos, como antigo designer de feiras industriais, Martin Pietsch desenha arquitectura de membranas e construções orgânicas para comunidades do futuro. A sua maior fonte de inspiração para encontrar formas é, a par da tarefa social da construção, a música e em particular a dança. “Para começar a encontrar uma forma, o meu estado físico é decisivo” explica. “A forma é mais sentida do que calculada e neste processo a dança interior da alma e a dança exterior do corpo são sempre um critério para um bom resultado. Da mesma maneira que o meu corpo traduz

72

a melodia e o ritmo em múltiplos movimentos sinuosos, assim procuro as formas artísticas que seduzem o ser humano e a natureza para uma dança conjunta e pulsante.” Como é que começou a realizar a sua arquitectura em Tamera? Martin Pietsch: “Os projectos que antigamente desenvolvia para os clientes da área industrial foram concretizados em quase todos os continentes. Mas a dada altura tomei consciência, o quanto a vida do mundo industrializado está a destruir-me bem como à Terra. Tive de abandonar a minha carreira e desde então trabalho para projectos que servem a Terra. Considero o desenvolvimento de uma nova arquitectura social a minha maior tarefa.” Dos seus trabalhos em Tamera, os que até agora mais deram nas vistas foram os telhados de membranas. Mas estes são apenas uma parte da arquitectura de zonas múltiplas por ele desenvolvida. Um dos exemplos é a casa do artesanato, a Casa Sandra. O exterior do generoso atelier de escultura de Sandra Schmidt segue harmoniosamente o fluir da paisagem. Bem no interior fica a área habitacional, onde a temperatura pode ser regulada passivamente, independentemente do tempo. Em frente encontra-se o atelier bem arejado e com muita luz. No exterior ficam os pátios formados por terraços, que na sua maioria são áreas protegidas da chuva e de livre acesso para os animais e as plantas das redondezas. Os habitantes e utilizadores de uma construção de zonas múltiplas, de acordo com as suas necessidades, podem


"Telhado de Paz" em frente à Casa de Hóspedes de Tamera

A arquitectura de zonas múltiplas é a tentativa do ser humano no seu quotidiano de voltar a fazer parte dessa rede da natureza. Dentro dela, o clima, a natureza das plantas e dos animais, podem entrar nas zonas criadas para formarem um biótopo co-evolucionário com o ser humano.

assim escolher o nível de contacto que desejam ter com os elementos e a essência da natureza. A sua vida e o seu trabalho estendem-se de forma orgânica àqueles lugares onde se harmonizam uns com os outros. A vida numa paisagem de zonas múltiplas é o oposto ao decretado durante séculos pelos conceitos urbanos: o fomento do isolamento humano em cubículos como protecção de um ambiente considerado ameaçador. Como surgiu a ideia da arquitectura de zonas múltiplas? Martin Pietsch: “Quando vivo com a consciência de que estou conectado com todos os seres vivos, surge consequentemente a ideia de que ao conceber o espaço para a vivência do ser humano, todos os outros habitantes de um biótopo têm através de um planeamento consciente de ser incluídos. Delimitações arbitrárias e movidas pelo medo, destroem o complexo ritmo da vida e a consonância harmoniosa desta orquestra incrível e delicadamente enredada que a evolução fez até hoje surgir à volta do ser humano.

Estúdio ao ar livre em Schwand, Floresta Negra na Alemanha

Aldeia Solar

A "Esplanada" no Boom Festival 2008 em Portugal

As construções, que se espalham pela paisagem como que sementes bem lançadas são simultaneamente um convite à natureza para se ambientar de um novo modo. A arte arquitectónica aqui descrita assume a função criadora de uma variedade de espaços onde um contacto curativo e em confiança entre todos os seres vivos possa desabrochar.”

Casa Sandra. Uma casa de arquitectura de zonas múltiplas em Tamera 'Discus' em Tamera


CapĂ­tulo IV


Tamera Um Centro de Formação para o Futuro


“Todos os participantes em formação pela paz, tanto os alunos como os professores, encontram-se num estado de aprendizagem mais elevado. A aprendizagem é feita dentro de um contínuo criativo, onde todos os sinais e impulsos, independentemente de serem acontecimentos do quotidiano ou sonhos, notícias políticas ou um telefonema inesperado, são incluídos na formação. No âmago desta aprendizagem estão a transformação da violência, a recuperação da ligação com os poderes da criação e a redescoberta da nossa Terra Gaia como um ser vivo uno de alma consciente.” Dieter Duhm

Grupo reunido no "dome" do Campus

76


77

Tamera - Um Centro de Formação para o Futuro


Formação na Aldeia de Paz de San José de Apartadó

78


Tamera - Um Centro de Formação para o Futuro

A Terra encontra-se em transformação. Em todo o mundo várias iniciativas e activistas pela paz estão a trabalhar em perspectivas para um futuro pacífico e para a sobrevivência da humanidade neste planeta. O seu sucesso também depende da interligação e da partilha efectiva dos seus conhecimentos: sabedoria que possa ser amplamente aplicada na criação de modelos planetários para a paz. Tamera é um centro de formação para o futuro. Jovens trabalhadores pela paz vêm de todas as partes do mundo para estudar aqui e para se formarem nos conhecimentos e adquirirem capacidades necessárias para a construção de aldeias pela paz e povoações autónomas. As disciplinas principais são a ecologia e autonomia energética, assim como o trabalho interior e exterior para a paz. A base de todas as disciplinas é a aprendizagem da criação de comunidade e aquisição de competências sociais.

79


Educação de Paz Monte Cerro Como será a vida quando os grandes sistemas falharem? Uma vida sem supermercados e sem lucros, sem trabalho infantil e sem a exploração do chamado terceiro mundo, sem a agro-pecuária industrial e as importações baratas? O que é que irá mudar para os milhões de pessoas que actualmente vivem na pobreza, para os que sofrem de fome, para as pessoas que vivem nos bairros degradados e nas lixeiras? E como será para as pessoas das actuais nações industrializadas? Qual será o aspecto de um mundo no qual todos temos suficiente comida e vivemos em paz? Há um provérbio que diz: saber é poder. As grandes visões históricas foram visões de conquista e de domínio. Para os estrategas da globalização e do belicismo, na sua apropriação de novas áreas do pensamento desde que lhes seja vantajoso, não existe qualquer conceito que seja demasiado arriscado ou qualquer teste ou uso de ideias que sejam demasiado extremas. Até agora, também a ciência serviu mais à exploração da Mãe Terra do que à cooperação respeitosa. Se quisermos paz, o nosso desafio é usar o poder do pensamento e do conhecimento, da criação de conceitos, da estratégia e da criatividade. Se quisermos criar um mundo pacífico, precisamos de pessoas que aprenderam como isso é feito. Precisamos de uma ciência da paz e de sistemas de formação que transmitem com eficácia esse conhecimento.

Comunicação e intercâmbio comunitário na Universidade de Verão 2008

80

A primeira educação para a paz em Tamera, com uma duração de três anos, começou no dia 1 de Maio de 2006 com a Educação de Paz Monte Cerro. Foi um pequeno milagre que permitiu em pouco tempo criar as condições materiais para o fazer. Dinheiro, pessoal especializado e material surgiram no momento certo. Em 2005 durante a sua primeira peregrinação Grace, Sabine Lichtenfels angariou os fundos para a construção de um novo auditório de grandes dimensões. Apesar do novo auditório com 400 lugares sentados ainda não ter ficado pronto no início das aulas, este pôde, no entanto, ser usado provisoriamente. Os participantes da primeira parte do curso puderam começar os estudos, ainda que em acomodações e salas de seminários improvisadas. Entretanto participam cada vez mais pessoas na educação para a paz, que começa todos os anos no mês de Maio. As infra-estruturas estão quase prontas e foi criado um Campus com salas para seminários, alojamento e muitos pontos de encontro. A educação para a paz não é apenas destinada aos estudantes. Toda a comunidade de Tamera encontra-se num processo de permanente formação que consiste em estudos, na vivência e em tarefas. Todas as áreas de trabalho em Tamera servem para a aprendizagem de conhecimentos para a paz. Para além do Educação de Paz Monte Cerro, existe ainda a Escola do Futuro, criada por Dieter Duhm e Sabine Lichtenfels, bem como a Escola da Esperança situada no Espaço das Crianças e a escola para jovens ou Aprendizagem Global (ver também na página 114 e seguintes).


Tamera - Um Centro de Formação para o Futuro Palestra na Aula em Tamera

As disciplinas de estudo Conhecimentos Ecológicos para a Cooperação com a Natureza

Conhecimentos comunitários e trabalho para a paz interior e exterior

“Jardineiro da Terra” é uma profissão futura da paz. É a profissão daqueles que ouvem o chamamento da Terra e que respondem com profissionalismo, sabedoria, empenho e acção. Os seus estudos incluem a cooperação com a natureza, a recuperação de paisagens, a criação de paisagens aquáticas, o cultivo de alimentos saudáveis, “Urban Gardening” (a construção de biótopos alimentares em cidades), a vitalização e a gestão natural de água potável, a cooperação com animais e muito mais. A aprendizagem é feita através da teoria e prática. Os professores são Sepp Holzer, Bernd Müller e outros membros da equipa ecológica. O conhecimento é aprofundado com a prática da concretização da paisagem aquática e outros elementos da Permacultura.

São aprendidas e praticadas as regras éticas básicas de Tamera: verdade, participação responsável na comunidade e apoio mútuo. Para além disso, os estudantes aprendem métodos para a resolução de conflitos, a arte da comunicação em comunidade e a colaboração efectiva. A investigação comunitária é um trabalho para a paz interior e exterior: podemos realizar dentro de nós próprios a mudança que queremos ver no mundo. As estruturas que levam ao abuso do poder, à guerra e à violência pelo mundo fora, também existem na convivência diária. Uma comunidade é um modo de vida no qual se pode aprender a reconhecer e a transformar os ciúmes, a competição e a raiva. O fórum, que foi desenvolvido pelos fundadores de Tamera, é uma forma de comunicação autêntica dentro da comunidade com o auxílio da arte e da representação teatral.

Energia Solar Está a ser preparada a criação de uma universidade solar para energia solar descentralizada, provisoriamente chamada Plataforma TTT, sendo Jürgen Kleinwächter o director permanente dos estudos. Actualmente, os estudantes de Tamera da educação para a paz já participam em cursos e estágios no campo experimental da Aldeia Solar. Dentro da área da energia, aprendem a pensar em termos de abundância energética e de manuseamento de técnicas simples para o aproveitamento da energia solar e de outras fontes de energias renováveis, que poderão depois ser empregues em diferentes locais.

A Teoria da Cura Global A Teoria da Cura Global, ou a “teoria política” de Dieter Duhm, explica de que modo um pequeno número de grupos de seres humanos é capaz de mudar o mundo de forma positiva e de iniciar uma cura planetária completa. O termo”teoria” liga um sistema científico a uma visão do divino (theos). Neste sentido, a palavra “teoria” não é apenas uma construção de frases abstractas, mas sim uma apresentação espiritual e mental planetária. O conhecimento genuíno liberta movimentos energéticos que envolvem e modificam o corpo. Por isso, os conhecimentos resumidos

81


ção, sem obrigações e através disso, descobrem a alegria, o humor e o entusiasmo na “criação sem sentido”. Porque é assim que a criação funciona.” A concentração, a comunidade, o prazer sensual pela luz e pelas cores provocam um estado de presença nunca antes conhecido para muitos dos participantes. Juliane Eckmann, uma das líderes do grupo da formação de Tamera

por Dieter Duhm na teoria política têm como objectivo não apenas a cura global, mas também a individual. A teoria segue uma linha lógica que se baseia em conhecimentos nas áreas das ciências naturais, da interpretação holográfica, da teoria quântica e da investigação do caos.

Espiritualidade A crença de que só existe o que é visível e explicável e que, consequentemente, pode ser controlado e influenciado é uma ilusão. Em todas as épocas houve fenómenos espantosos e bem testemunhados, que a ciência inicialmente não conseguiu explicar. Ser capaz de ainda assim, acreditar na sua existência faz parte do tipo de inteligência que necessitamos para preparar o futuro. As dúvidas e as perguntas fazem parte tanto de uma espiritualidade contemporânea como também da meditação, da consciência e da compaixão. O sucesso do trabalho para paz global depende também da nossa capacidade em estarmos receptivos e sabermos usar os poderes que ainda não conseguimos explicar. A espiritualidade significa aprender a percepcionar a existência na sua unidade. A partir daí surge o conhecimento profundo de que tudo o que vive tem a mesma origem e que, consequentemente, eu e o meu inimigo somos um só. Sabine Lichtenfels dirige uma parte especial da investigação espiritual: o conhecimento dos mistérios do matriarcado nas culturas ancestrais dos cromeleques. Isso incluiu a criação do Círculo de Pedras em Tamera: uma obra de arte espiritual composta por 96 monólitos, iniciada numa cooperação entre Marko Pogacnik, Peter Frank e Sabine Lichtenfels e terminada em Junho de 2010.

Arte Regularmente, alguns dos seminários mais profundos da formação para a paz incluem os cursos de arte dirigidos por colaboradores de Tamera. O mestre dos cursos de arte é Dieter Duhm. Ele diz: “Nos cursos de arte, apenas existe uma instrução: prestem atenção ao mundo e não aos vossos problemas pessoais. Os participantes gostam de seguir com evidente alegria e alívio esta instrução. Dias seguidos sem olhar para o umbigo, sem reacções despoletadas pelo medo e pela compara-

82

Música A música é uma linguagem universal compreendida por todos. Existem algumas peças musicais cantadas ou instrumentais acompanhadas por ritmos e melodias que ligam as pessoas à situação do mundo. A música desempenha um papel importante em todas as acções para a paz organizadas por Tamera. Não importa se é à frente do muro na Palestina ou de um quartel militar na floresta tropical Colombiana, o canto cria sempre uma frequência de esperança e pode suavizar frentes endurecidas. Está em preparação uma escola de música. O director do departamento de música em Tamera é Robert Gasse..

O Canto Geral dirigido por Robert Gasse, durante uma manifestação em San José de Apartadó

Fundo para bolsas de estudo de formação para a paz Há cada vez mais pessoas oriundas de regiões pobres ou de conflito que querem participar neste programa de formação. O fundo para bolsas de estudo foi criado para apoiar aqueles que não conseguem suportar as despesas de viagem, de estadia e dos estudos. A vossa contribuição é muito bem vinda. Contacto: Kate Bunney klbunney.igf@tamera.org


A Escola do Futuro, sob a direcção conjunta de Dieter Duhm e de Sabine Lichtenfels, é um centro pesquisa do pensamento e de experiências para a cura do ser humano e da Terra. “A actual globalização da violência pode ser ultrapassada por uma globalização da paz se explorarmos novos recursos espirituais. O antigo código da violência que marcou a história durante cinco mil anos gerou os campos morfogénicos de medo e desconfiança e propagou-os sobre a Terra. Há que desenvolver um código novo que crie os campos morfogénicos de amor e solidariedade. É esta a tarefa global.” Dieter Duhm “Um Futuro sem Guerra” A Escola do Futuro, foi fundada para criar este novo código através do estudo de ideias invulgares, da arte, de decisões existenciais e de experiências de cura. Aqui juntam-se pessoas que pensam e se reúnem para terminar as guerras que são quotidianamente recriadas na convivência diária. A convivência diária está colectivamente perturbada pelo chamado “filme traumático”, um mundo de medo que se formou no subconsciente colectivo da humanidade ao longo da sua história comum, a partir de experiências terríveis. Se esse trauma puder ser dissolvido em algumas pessoas enquanto representantes do Todo, é criada a paz interior em todos os participantes, o que os habilita a criar a paz também no exterior. No seu âmago, a Escola do Futuro serve para a dissolução desse nó traumático.

Escola do Futuro Online Existem pessoas em muitos países que querem fundar grupos de estudo e novas comunidades. Querem empenhar-se num futuro sem guerra e ajudar a fortalecer o campo mental e espiritual da cura e da paz. A Escola do Futuro Online foi criada para essas pessoas. Envolve todos os grupos do mundo que queiram globalmente cooperar. Todos os participantes estudam ao mesmo ritmo ideias e textos comuns, que são enviados mensalmente via Internet. Assim é criado um conhecimento comum e uma coerência a nível mundial. O objectivo desta formação via Internet é a criação de um campo espiritual global para um futuro sem guerra, para o amor sem ciúmes, para uma nova auto-consciência feminina, para uma revolucionária transformação do homem, para uma nova sabedoria comunitária, para o desenvolvimento de uma habilidade de sobrevivência baseada na espiritualidade, para uma autonomia e uma cooperação consciente com a natureza e todos os seres vivos.

Tamera - Um Centro de Formação para o Futuro

Escola do Futuro

Os textos estão à disposição na Internet, sem custos e em várias línguas. A Escola do Futuro Online é organizada por Monika Berghoff e a Editora Meiga.

Contacto: Monika.Berghoff@tamera.org

www.verlag-meiga.org

83


CapĂ­tulo V


Campus Global Formação internacional em rede de comunidades de paz e de modelos do futuro


“Um pequeno grupo de pensadores poderia mudar o mundo. Na verdade, esta é a única forma que já surtiu mudanças.” Margaret Mead antropóloga cultural, EUA

Campus Global

“Uma vez que se dê início à mudança social, não é possível retroceder. Não se pode deseducar a pessoa que já aprendeu a ler. Não se pode humilhar a pessoa que se sente orgulhosa. Não se pode oprimir o povo que deixou de ter medo. Nós vimos o futuro e o futuro é nosso.” César Chávez líder sindical e activista dos Direitos Humanos, EUA

“Um outro mundo não só é possível, como já está a caminho. Num dia sossegado, consigo ouvi-lo respirar.” Arundhati Roy autora, Índia

Peregrinação Grace em Israel e Palestina em 2007

86


Eduar Lanchero, membro do Conselho da Aldeia da Paz de San José de Apartadó, durante a sua formação no Campus Global


Meike Müller e Sabine Lichtenfels (à direita) dão as boas vindas a convidados da Colômbia

88


Campus Global

O Campus Global amplia a “Educação de Paz Monte Cerro”, ao estabelecer em diferentes áreas do mundo a ligação entre a formação para a paz e o trabalho prático em comunidades de paz. Trata-se de um programa educativo global em rede para profissões da paz e para o conhecimento. A formação destina-se a jovens trabalhadores da paz em todo o mundo. Estão envolvidos quer camponeses nas frentes da guerra civil, quer populações indígenas protegendo as suas florestas, ou Palestinianos e Israelitas procurando a reconciliação, tal como os povos de países em paz, tendo a consciência de que é especialmente nessa aparente paz que um novo pensamento e um novo começo são necessários. A formação acontece, em parte, nas regiões de crise e nas áreas onde novos modelos para o futuro estão a ser desenvolvidos.

89


Pesquisa por um novo modo de vida as aldeias de paz. Hoje em dia, a Universidade é um dos parceiros de cooperação do Campus Global. Desde há muitos anos, os colaboradores do Holy Land Trust estão a organizar uma resistência não violenta contra a ocupação israelita na Cisjordânia, Palestina. O seu director Sami Awad diz: “Com tudo isto, a nossa pergunta mais premente não é como terminar a ocupação, mas saber como será a vida democrática, pacífica, ecológica e livre depois de ela terminar? Precisamos não só de uma resistência não violenta, mas da visão de uma vida pacífica, para que não estejamos apenas a lutar contra algo, e sim para que tenhamos algo pelo qual nos empenhamos. É nessa questão que procuramos a colaboração com Tamera e o Campus Global.”

Lama Jampal em Dharamsala oferece um lenço de oração a Sabine Lichtenfels

No mundo inteiro um movimento está a crescer. As pessoas estão a abandonar os seus percursos de vida e as suas carreiras, nas quais já não encontram sentido. A juventude está a abandonar a corrida do medo e da competição. Não partilham mais dos valores de uma cultura baseada em mentiras. Estão comprometidos com uma resistência pacífica contra os projectos destrutivos e em larga escala da globalização. Procuram um novo percurso de vida, novas profissões, uma vida diferente, paz entre si e uma cooperação pacífica com a natureza. Criam espaços de encontro e de partilha de novos objectivos. Nas áreas de crise, agricultores e refugiados juntam-se em aldeias e comunidades de paz, arriscando muitas vezes as suas vidas para atingir esses objectivos. Todos eles dão esse passo porque sentem que um mundo diferente é possível. Todas estas pessoas e grupos precisam agora de conhecimentos que os habilitem a alcançar os seus objectivos. Precisam do intercâmbio e da cooperação com os que já trabalham e investigam os princípios fundamentais. Precisam de uma perspectiva comum a nível planetário. Há alguns anos, a Universidade da Resistência na Colômbia fez um inquérito entre os habitantes das comunidades de paz do país. A pergunta era: qual é o vosso maior desejo? A esmagadora maioria das respostas foi: que os nossos filhos tenham uma vida melhor. Que eles possam ter uma formação e aprender uma profissão. A realização desse desejo compreensível significava, pelo menos na situação actual, o fim das aldeias de paz, pois a juventude teria de se ir embora para aprender uma profissão. Por essa razão, os responsáveis pela Universidade resolveram criar acções de formação mais qualificadas para

90

Em Dharamsala, os tibetanos exilados esperam há décadas pelo fim da ocupação chinesa do Tibete. Eles informam o mundo sobre a situação no Tibete e coordenam a resistência não violenta. Muitos jovens querem construir modelos de povoações autónomas na Índia, o seu país de acolhimento. Desta forma querem demonstrar como seria possível o repovoamento pacífico, democrático e ecológico do Tibete. Tamera recebe muitas visitas de tibetanos que chegam aqui para aprenderem. Estes são três exemplos de três continentes. Por toda a parte existem jovens que procuram e precisam do conhecimento de paz para a construção de modelos autónomos. Muitos deles sentem que Tamera é o local certo para se reunir, para trocar ideias e para aprender. Um local num país pacífico, onde por algum tempo é possível deixar para trás o medo da perseguição e do sofrimento. Mas isso não é suficiente. A formação também tem de ser dada nos locais onde os novos centros estão a ser desenvolvidos. Nasceu durante a primeira peregrinação Grace, iniciada por Sabine Lichtenfels em 2005, o plano para criar uma rede internacional para uma formação de paz. Para esse efeito, foram convidados diversos professores e iniciativas de paz para participarem na Universidade de Verão em 2006. Assim, juntou-se aqui um grupo de pessoas chave: Benjamin von Mendelsson, Barbara Kovats, Kate Bunney e Vera Kleinhammes de Tamera encontraram-se com Sami Awad, professor para a não violência em Belém, Palestina, Gildardo Tuberquia da aldeia de paz San José de Apartadó da Colômbia, Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi, Srinivasan Soundara Rajan, representante do Barefoot College no Rajastão, Índia, Vassamalli Kurtaz da tribo Toda da Índia e Reuven Moskovitz de Israel. Eles expressaram o seu desejo de colocar em rede as suas potencialidades e os seus conhecimentos e de criar


Campus Global

O IGP – Instituto pela Paz Global

Reunião de mulheres no Círculo de Pedras em Tamera: Sara Vollmer, Vassamalli Kurtaz da Índia e Sabine Lichtenfels

Benjamin von Mendelssohn, coordenador do IGP

uma iniciativa de formação global. Chamaram-lhe Campus Global. A particularidade deste plano foi, que a formação iria estar ligada à construção concreta em vários locais da Terra de novos modelos para o futuro. Deste modo, será gradualmente desenvolvida uma rede com carácter de compromisso de centros planetários para a paz.

O Instituto pela Paz Global (IGP) em Tamera é um ponto crucial para a criação global de trabalho em rede. Aqui são desenvolvidas ideias, conceitos e contactos para a criação de uma rede de paz mundial e reunidos os conhecimentos para um futuro sem guerra. O princípio fundamental para a cooperação é a “Teoria da Cura Global” elaborada por Dieter Duhm. Uma das funções mais importantes do IGP é o apoio ao desenvolvimento no mundo inteiro de mais aldeias de paz. Benjamin von Mendelsson, o coordenador do IGP, diz: “Eu tenho sempre confiança quando a compaixão nos nossos corações se liga a um conceito de cura realista para este planeta que estamos um passo adiante no nosso caminho para uma nova humanidade. Uma humanidade com um coração global e um natural compromisso por este planeta, por todos os seus habitantes e por todos os seus recursos naturais.” O IGP levanta a sua voz contra o sistema da violência e participa em acções políticas e em missões de apoio em regiões de conflito. Divulga mensagens de paz através da palavra, da arte e da música. Está a ajudar a criar um enquadramento espiritual e mental, sob o qual desde as mais diversas iniciativas a cientistas, activistas de paz, ambientalistas, defensores dos Direitos Humanos, artistas e jovens, podem juntar-se e desenvolver uma perspectiva comum. O IGP trabalha em estreita colaboração com a Escola do Futuro, a Escola da Juventude -Aprendizagem Global e apoia a criação de novas perspectivas profissionais para os jovens com as quais estes possam servir a paz. O IGP é o patrono da Universidade de Verão de Tamera que se realiza anualmente e que oferece uma excelente oportunidade para se conhecer as ideias, os projectos e a rede internacional.

Decidiram-se por dois critérios para identificar adequadamente parceiros de cooperação para o Campus Global. Primeiro: a alteração do mundo passa pela criação de modelos do futuro. Segundo: as bases desses modelos são comunidades criadas seguindo os princípios da confiança e da transparência. As primeiras estações da formação foram a “Tent of Nations” na Palestina, a aldeia de paz San José de Apartadó na Colômbia e Tamera. Existem mais em preparação. Grupos, redes de trabalho e comunidades que tenham interesse em participar, são calorosamente convidados para se apresentarem. Os professores do Campus Global são entre outros, Dieter Duhm, Sabine Lichtenfels, Jürgen Kleinwächter, Sepp Holzer, Sami Awad.

Philip Munyasia do Quénia, fundador do centro de agricultura orgânica - OTEPIC, durante a sua formação em Tamera

91


ALGUNS PARCEIROS DO IGP

San José de Apartadó é uma comunidade de paz na Colômbia. Em 1996, 1300 agricultores e refugiados juntaram-se em Urabá, a região mais violenta do país, para criar uma comunidade neutra entre as frentes da guerra civil. Na sua aldeia não são permitidas armas, álcool, drogas e não permitem que nenhum membro coopere com qualquer grupo armado. Todavia nos últimos anos, quase 200 dos seus membros foram assassinados pelos paramilitares, pela guerrilha e pelos soldados. A comunidade de paz é internacionalmente reconhecida. Em 2007 foi distinguida com o prémio de paz de Aachen, embora no próprio país os seus membros sejam perseguidos e difamados. Tamera e a aldeia de paz cultivam há muitos anos uma estreita amizade. Foram realizadas muitas visitas, várias unidades de formação do Campus Global e peregrinações de paz em nome de Grace. Mais informações em www.sos-sanjose.org

A Tent of Nations é um importante ponto de encontro na Cisjordânia, Palestina. Encontram-se aqui israelitas e palestinianos, crianças de campos de refugiados que vêm conhecer a natureza e experimentam-se alternativas ecológicas. Daoud Nassar, o proprietário, tem de lutar continuamente para manter o local. Apesar de, desde há gerações, a propriedade pertencer à sua família, os ocupantes israelitas tentam desapropriar o terreno. Enquanto à sua volta estão a ser construídos modernos bairros israelitas, ele nem consegue obter uma licença de construção para uma cisterna de água. www.tentofnations.org

92

Padre Javier Giraldo. Este padre jesuíta, há muitas déca-

das é um defensor dos Direitos Humanos em Bogotá e intervém na Colômbia a favor dos pobres e perseguidos. Correndo elevados riscos pessoais, apoia e aconselha a aldeia de paz San José de Apartadó na sua luta não violenta pela sobrevivência. É um verdadeiro representante da igreja dos pobres. As suas missas transmitem a palavra de Deus na mesma linguagem dos refugiados, dos indígenas, dos camponeses e de Jesus Cristo, o revolucionário. Exprime incansavelmente a voz da justiça e da disposição para a reconciliação.

GEN – Global Ecovillage Network – é uma rede internacional de ecoaldeias, de comunidades, de Cidades em Transição e de indivíduos que querem construir centros de apoio para um modo de vida sustentável. GEN trabalha através da educação e da criação de conexões entre os países ricos e os em desenvolvimento, de forma a conectar o sonho de vivência em comunidade junto à natureza com a determinação e o conhecimento político: conhecimento social e conhecimento de tecnologias simples em energia, arquitectura e agricultura biológica. O objectivo da GEN é o de apoiar a fundação de povoações sustentáveis em todos os continentes.

No Novo México, existe um grupo de indígenas xamãs que protege um local de visões espirituais para a reconciliação e o contacto com a Mãe Terra. Ensinam as pessoas do mundo inteiro a guardar o «Fogo das 1000 Montanhas» que é acendido quatro vezes por ano em muitos locais diferentes do planeta nos dias 21 de Março, 21 de Junho, 21 de Setembro e 21 de Dezembro. É um fogo da união global e da amizade com Pacha Mama: a Mãe Terra.


Favela da Paz – Música do futuro vinda de São Paulo, Brasil. A banda Poesia Samba Soul, há 20 anos que resgata das ruas crianças e jovens e mostra-lhes uma alternativa para a violência e para as drogas. Foi fundada por Cláudio Miranda quando ele tinha 13 anos. “Muitos dos meus amigos já estão mortos. Estou à procura de algo mais atractivo do que a violência para que os jovens deixem de participar na guerra das drogas” diz. Cláudio vem do Jardim Ângela, uma das favelas de São Paulo que, na década de 90, foi considerada pela ONU como sendo um dos bairros mais violentos do mundo. Ele veio para a Tamera com a ideia de fundar uma Favela da Paz, trouxe a sua banda e ficou durante três meses a estudar o trabalho pela paz. www.bandapoesiasambasoul.com.br

O Holy Land Trust, Belém, foi fundado por Sami Awad. Esta iniciativa ensina e organiza a resistência não violenta contra a ocupação, seguindo o exemplo de Mahatma Gandhi. Os membros dão aulas a grupos provenientes de toda a Cisjordânia e ensinam aldeias inteiras o caminho da resistência não violenta. Além da resistência, procuram pers- pectivas e visões para uma vida depois da ocupação que seja pacífica, ecológica e democrática. www.holylandtrust.org

O Barefoot College em Tilonia, na Índia, ensina aos aldeões técnicas de sobrevivência ecológica, como o aproveitamento da energia solar e a colheita de águas pluviais. O seu programa destina-se aos mais pobres dos pobres, a analfabetos e sobretudo a mulheres. Pode participar quem posteriormente se comprometer a transmitir o conhecimento na sua aldeia. Até representantes de aldeias de África e da América do Sul chegam aqui para aprender. Visto existirem muitas crianças que durante o dia não têm tempo para frequentar a escola, o Barefoot College criou centenas de escolas nocturnas para lhes possibilitar uma formação. www.barefootcollege.org

Campus Global

Gloria Cuartas, Colômbia, foi distinguida com o prémio “Mayors for Peace” pela UNESCO e desde há muitos anos é uma grande amiga e colaboradora de Tamera. Destemida, apesar de todas as ameaças, empenha-se pela paz e pela democracia no seu país. Como presidente da Câmara na cidade de Apartadó, na época muito combatida, tentou empoderar as mulheres e as crianças a recuperar a vida civil e a estabelecer um diálogo entre os grupos violentos. Mas as estruturas da violência eram demasiado profundas para que tivesse tido sucesso. Actualmente, apoia e protege a criação de aldeias de paz e é regularmente uma candidata parlamentar pelo partido de esquerda do seu país.

93


APRENDER O SENTIDO DE SER UM SER HUMANO Excerto de uma carta de Sami Awad, professor para a não violência, Belém

Todos procuramos a paz, todos procuramos a justiça e todos procuramos a liberdade. Durante toda a minha vida, enquanto Palestiniano a viver sob a ocupação militar e desde há muitos anos, estar envolvido no trabalho para a paz e não violência, conheci muitas pessoas maravilhosas. Algumas trabalham para a paz, algumas procuram a paz e outras promovem a paz, mas é muito raro encontrar pessoas que verdadeiramente se comprometem a viver uma vida de paz. Há alguns anos atrás, tive o privilégio e a honra de conhecer alguns daqueles que estão verdadeiramente a viver este sonho, apesar de todos os desafios que este mundo apresenta. Tamera, para mim, é um exemplo daquilo que o mundo deveria ser. É um lugar para aprender o que verdadeiramente significa um ser humano. É um sítio para descobrir o poder que há dentro de cada um de nós; é um local para de verdade se ser o que todos procuramos.

94

Vocês empoderam as pessoas através da não violência. Esse conceito, para mim, apenas significa uma coisa: empoderamento. Vocês empoderam as pessoas a envolverem-se activamente, a tomarem as decisões certas para a sua vida e a dar os passos certos de modo a que possam libertar-se das dificuldades e dos problemas em que vivem. Como organização, o maior objectivo do Holy Land Trust não é apenas a resistência contra as forças de ocupação. Para nós é muito importante o questionamento do que virá depois da ocupação. Acreditem, o fim da ocupação não irá trazer automaticamente a democracia. O processo da construção de uma nação poderá ser ainda mais difícil. E precisamos agora de começar a trabalhar na construção de uma nação forte democrática.


“Não há futuro sem perdão” Desmond Tutu, Comissão de Verdade e Reconciliação da África do Sul

Campus Global

Ergo-me com grande respeito, admiração e humildade em apoio daqueles que procuram a paz e por aqueles que vivem a paz. Quanto mais dificuldades encontrarem, mais necessidade haverá em compreender que vocês e nós estamos mais próximos de mudar o mundo. Nestes tempos difíceis, o meu apoio para convosco, queridos amigos de Tamera, não é o de vos encorajar a serem firmes e sem preocupações mas reafirmar-vos que se encontram verdadeiramente no caminho certo. Por isso sintam-se abençoados, encorajados e até alegres em cada dificuldade que enfrentarem. Que Deus vos abençoe e ao vosso trabalho, e que a vossa luz nunca pare de brilhar."

Descanso com israelitas e palestinianos durante a peregrinação Grace Crianças palestinianas olham por cima do muro para o outro lado: uma povoação israelita na Cisjordânia

95


RESPEITAR A VIDA Excerto de um discurso livre de Eduar Lanchero, membro do Conselho de San José de Apartadó

A Comunidade de Paz de San José de Apartadó

No dia 23 de Março de 1997, os habitantes de 32 povoações à volta da aldeia de San José de Apartadó proclamaram-se como comunidade de paz, numa época em que vinham os paramilitares para expulsar os agricultores da terra e para combater a guerrilha. A pergunta que nasceu com a comunidade foi: como é que a vida pode ser respeitada no meio desta guerra e destes combates permanentes? Foi isso que inspirou as pessoas a juntarem-se. Tivemos de nos confrontar com temas fundamentais. Pelo facto de existirmos, afirmamos aos grupos armados: somos contra a morte que vocês trazem e queremos que parem de matar. Mas os grupos armados não são os únicos que matam. É toda a lógica por detrás do sistema. É a maneira como as pessoas vivem que cria esse tipo de morte. Por isso decidi-

96

mos que teríamos de viver de maneira a que a vida gerasse vida. Começámos a analisar a sociedade que deu origem ao paramilitarismo. E começámos a oferecer resistência. Um dos aspectos que teve de ser alterado foi o tipo de propriedade territorial. A terra tem de ser propriedade colectiva e tem de ser cultivada e tratada de forma colectiva. Os agricultores são fáceis de amedrontar quando estão sozinhos nos campos. E quando têm medo, podem ser explorados. É por isso que temos de trabalhar em comunidade. Um outro aspecto da verdade: os grupos armados e o governo mentiram o tempo inteiro. Então, resolvemos ser honestos e transparentes e dizer-lhes a verdade independentemente das consequências.


Eduar Lanchero em Tamera

Campus Global

Chegamos à conclusão que o elemento mais importante é a procura pela justiça. No entanto não esperávamos justiça por parte do Estado, cujo governo seguia a lógica da morte. Assim, começámos a procurar a solidariedade e a parceria com outros. Parceria significa seguir em conjunto, estar no mesmo caminho. Juntos podemos alcançar a justiça, juntos podemos criar um mundo pacífico, um mundo de vida e não de morte. Significa não só terminar a guerra, mas também terminar as condições que vezes sem conta lhe dão origem. A outra condição fundamental que nos manteve vivos foi não entrar no jogo do medo que os grupos armados nos quiseram impor através dos seus assassinatos. Começámos a compreender que graças a um novo modo de vida, também a morte iria ter outro significado. A morte iria vergar-se perante a vida. A memória de todas as pessoas que aqui foram assassinadas não morreu. Os mortos estão vivos e estão aqui connosco. Isso ajuda-nos a ultrapassar o medo da morte e do terror que os grupos armados por aqui espalham. As nossas vidas estão ligadas de forma a criar uma vida maior, a vida da humanidade. Estamos aqui e sempre estaremos, mesmo que eles nos aniquilem. Porque a aniquilação é a sua lógica, não a nossa. É por isso que a memória é tão importante para nós. Foi assim que começou a história da nossa comunidade, com muitos desvios e muitas imperfeições. Mas nós tomámos uma decisão. Escolhemos a vida. E a vida corrige-nos e guia-nos.

Sabine Lichtenfels conversa com um general do exército colombiano.

Representantes de Tamera, da tribo Nasa e da comunidade de paz

Aldeia da Paz de San José de Apartadó www.sos-sanjose.org Andreia Regelmann, colaboradora de Tamera acompanhou durante anos a comunidade de paz

97


PEREGRINAÇÕES EM NOME DE GRACE SABINE LICHTENFELS Sabine Lichtenfels despertada pela guerra iminente contra o Irão, iniciou em 2005 uma peregrinação pela Europa e o Médio Oriente, sob o lema: “Uma aldeia de paz em vez de um tanque de guerra”. Procurou patrocinadores dispostos a investir na paz e a isso chamou a “humanização do dinheiro”. Sabine Lichtenfels viajou sem dinheiro, comeu o que lhe davam, dormiu onde lhe davam cama ou sob o céu aberto e foi para todo o lado para onde era convidada a discursar sobre o seu plano de paz. Em Israel e na Palestina, liderou um grupo internacional com mais de 80 trabalhadores pela paz, muitos dos quais israelitas e palestinianos, que circulou por ambos os lados da fronteira. Para a maioria dos israelitas, foi a primeira vez que viam o país por detrás do muro. Alguns palestinianos viam pela primeira vez israelitas sem farda e receberam-nos em suas casas. Os peregrinos visitaram bases militares, dormiram em campos de refugiados e partilharam o seu pão com pessoas a quem tudo tinha sido tirado. Sempre ligados ao conhecimento de que: “O outro poderia ser eu”, falaram com colonos e visitaram memoriais do holocausto. Abriram-se portas, que se pensavam fechadas para sempre. Foram ultrapassados muros de medo e de hostilidade. O conflito foi visto de muitos lados diferentes e compreendido de uma forma cada vez mais profunda. Ouviram repetidamente: “a pé pela Cisjordânia? Isso é impossível. Ir para o lado de lá do muro com israelitas? Isso não é possível, vocês são ingénuos. Palestinianos a dar as boas vindas nas suas casas a antigos soldados e colonos? Não!” Mas foi conseguido. Assim, a ingenuidade propositadamente escolhida tornou-se num poder que tornava o novo possível. Na verdade, trata-se de um enorme poder de fé num mundo vindouro. Sobre a sua primeira peregrinação, Sabine Lichtenfels escreveu o livro “Grace – Uma Peregrinação para um Futuro sem Guerra”, e a realizadora Angelika Reicherter dirigiu o documentário “Recusamo-nos a ser inimigos”. Um dos resultados da primeira peregrinação foi a ideia que deu origem ao Campus Global. Desde a sua primeira peregrinação, Sabine Lichtenfels dirige uma vez por ano uma peregrinação da paz em nome de Grace. Em Israel e Palestina, na Colômbia e, pela primeira vez em 2009 na Europa, em Portugal. Para a maioria dos participantes, a peregrinação é uma experiência que muda as suas vidas. Para mais relatos e informações sobre as peregrinações:

Sabine Lichtenfels na Palestina em conversa com soldado israelita

“Ao procurar o nome para a peregrinação, deparámo-nos com o nome GRACE. Grace tem muitos significados e em português engloba mais do que a palavra misericórdia. Grace: misericórdia, benevolência, graça, encantamento, solicitude, atenção, tolerância, graciosidade. Grace também significa o próprio acto da misericórdia. Grace recorda-me que estou ao serviço de algo superior, ao serviço da vida e da sua justiça. Aqueles que em nome de Grace estão a caminho não vêm para julgar. Não vêm para impor novas ideologias ao país, ao local ou às pessoas, vêm sim ao serviço da abertura, da percepção e do apoio. Grace traz consigo o dever de não alimentar a guerra, mas sim de a extinguir onde quer que esteja. Em nome de Grace estou sempre à procura de uma solução não violenta que crie justiça e cura e que sirva a todos os envolvidos. Para isso não é preciso um julgamento, mas por vezes uma sentença clara, muito embora frequentemente para alcançarmos isto, o claro julgamento seja necessário mas jamais a condenação.” Excerto de “Grace – Uma Peregrinação para um Futuro sem Guerra» de Sabine Lichtenfels

Website de Sabine Lichtenfels www.sabine-lichtenfels.com

Website da Peregrinação Grace www.grace-pilgrimage.org/de Peregrinação em Portugal, 2009

98


Campus Global Em nome de Grace, 300Km em direcção ao deserto e à Cisjordânia, 2007

A Fundação Grace

Global Grace Day

A Fundação Grace foi criada na Suiça em 2007 por Sabine Lichtenfels, conjuntamente com algumas pessoas determinadas em apoiar financeiramente as suas actividades pacifistas bem como a criação do Campus Global.

O dia 9 de Novembro é a celebração do aniversário da queda do muro de Berlim em 1989 e da noite de cristal em 1938. Desde 2005, Sabine Lichtenfels celebra nesse dia o Global Grace Day, em cuja meditação participam muitos grupos, iniciativas e pessoas no mundo inteiro. É um dia para recordar, para reconciliar e trabalhar para a paz global.

A esse respeito, Sabine Lichtenfels escreve: “O lema é “Humanização do dinheiro – uma aldeia pela paz em vez de um tanque de guerra.” Porque uma coisa já se sabe: a paz continuará a ser uma ilusão se pelo menos uma parte do dinheiro gasto até agora na investigação bélica não for aplicada na investigação pela paz. O dinheiro que é gasto num único tanque de guerra pode cobrir os custos básicos para a total construção duma aldeia de paz. Actualmente, existem pessoas e iniciativas no mundo inteiro a desenvolver tecnologias inovadoras, a ensinar a resistência não violenta, a elaborar novos modos de vida social e formas de espiritualidade autênticas, sendo todos estes os elementos que levam a uma compreensão mais profunda da paz. O objectivo da fundação Grace é reunir estas iniciativas, estes activistas e pensadores pioneiros para conjuntamente se criar uma perspectiva inovadora. Por favor apoie-nos neste projecto. Pode fazê-lo através de uma contribuição financeira e também pelo reencaminhamento desta informação.” www.the-grace-foundation.org

A Fundação Grace

www.the-grace-foundation.org

Website de Global Grace Day www.global-grace-day.com Círculo de Força Em Abril de 2002, Sabine Lichtenfels deu início ao Círculo de Força. Todas as Segundas-feiras conectada com a meditação diária, envia uma carta e um texto de força para uma crescente rede internacional. O Círculo de Força é frequentemente enviado para mais de vinte países e em 4 idiomas. Assim tem sido desenvolvida uma rede global de conexão, solidariedade e de suporte mútuo para além de todas as fronteiras. Se quiser participar no Círculo de Força, envie um e-mail para: ring-der-kraft@sabine-lichtenfels.com

Círculo de Força

ring-der-kraft@sabine-lichtenfels.com

99


GLOBAL GRACE DAY 9 de Novembro, 2009 Meditação por Sabine Lichtenfels Onde havia dor, deixa a cura despertar. Onde havia fúria, deixa emergir o poder da mudança. Onde havia medo, deixa crescer a segurança e a confiança. Onde havia inimigos, deixa começar o despertar da compreensão mútua. Onde havia opressão, deixa reinar a liberdade. Onde nações estavam divididas, deixa que a simpatia pelo planeta leve à responsabilidade partilhada. Viemos para relembrar: Se queremos que o planeta Terra sobreviva, então todos os muros da separação devem cair, os muros entre os povos, entre Israel e a Palestina, entre a Europa e África, entre os chamados países do primeiro e terceiro mundo. Tal como com os muros que erigimos nas nossas mentes, os muros entre os géneros, e os muros entre os humanos e todas as criaturas. Que todos os refugiados encontrem um lar. Que a pura fonte de sabedoria indígena ganhe uma vez mais respeito e reconhecimento. Que todas as pessoas que estão dispostas a arriscar as suas vidas pela verdade e pela justiça recebam a protecção necessária. Que a voz da justiça e da verdade, da compaixão e da solidariedade para com todos os seres seja ouvida em todo o mun¬do, e que se espalhe e se torne num movimento poderoso que defende a protecção da vida e do planeta Terra.

100


Campus Global Que a semente das comunidades de Paz floresça. E que as primeiras comunidades auto-suficientes sejam um indício e mostrem que é possível desenvolver sistemas sociais que estão em ressonância com as leis universais do amor e da compaixão, da verdade e da abundância da vida. Que nos tornemos mensageiros da esperança para todos os que virão depois de nós. Que estabeleçamos indícios visíveis que mostrem que a vida eterna vai conquistar todos os sistemas de abuso de poder, de destruição e de exploração. Viemos para relembrar a beleza original e a verdade da vida: Todo o ser vivo tem o direito a ser livre e a desenvolver-se, o direito a amar, e o direito à verdade e confianças genuínas. Vamos construir exemplos para ultrapassar a violência onde quer que estejamos. Vamos levantar-nos para defender a vida e o amor para que o medo possa desaparecer da face da Terra. Vamos criar um círculo de poder em toda a Terra para proteger toda a criação. Em nome de todos aqueles que tiveram de sacrificar as suas vidas, em nome da justiça e da verdade, em nome de tudo o que tem pele e pêlo. Em nome de todas as criaturas, e em nome de GRACE e do Movimento para uma Terra Livre. Possa esta oração ou algo melhor acontecer. Obrigado e Amen Peregrinação Grace através do deserto de Arava em Israel e Palestina

101


CapĂ­tulo VI


A Vida em Tamera


Da escuta profunda à mútua compaixão – a chave para a comunidade e também para os convidados de Tamera

SUSTENTABILIDADE SOCIAL ATRAVÉS DA COMUNIDADE Um modelo de futuro precisa não só de tecnologia moderna e de uma ecologia eficiente como também de pessoas que, de forma significativa, consigam usar correctamente essas ferramentas. Precisa de pessoas que tenham aprendido como permanecer unidas mesmo durante os conflitos, solucionando-os de modo não violento e criativo e mantendo um compromisso de solidariedade entre si mesmo em tempos difíceis. O conhecimento comunitário é o fundamento para a sustentabilidade social. 104


A Vida em Tamera A cultura de paz do futuro precisa de pessoas que aprenderam a não evitar conflitos, mas a resolvê-los. Encontro de grupo na Aula

A comunidade precisa de um grupo nuclear estável de pessoas que possam contar uns com os outros. Viver e trabalhar em Tamera significa decidir-se por um estudo contínuo, pela participação intensiva na vida comunitária e pelo trabalho interior de paz. Uma comunidade significa a verdade entre todos, apoio mútuo e compaixão. Uma comunidade engloba a convivência entre diferentes gerações, a comunicação sobre o amor entre homens e mulheres, o conhecimento sobre a resolução de conflitos e sobre a compreensão da individualidade e comunidade. Este tipo de comunidades forma a base humana para um trabalho efectivo de paz. O nosso sucesso em criar uma cultura não violenta irá essencialmente depender do facto de conseguirmos pôr termo à guerra entre os sexos. Em Tamera, algumas das questões-chave de estudo e pesquisa comunitária são: amor sem ciúmes, sexualidade sem medo, fidelidade duradoura mesmo que um ame e deseje outros também, confiança no amor, amor duradouro e novos caminhos de parceria. Uma comunidade não é só composta por pessoas, envolve também os animais e as plantas, as nossas co-criaturas. A cooperação com a natureza, e não nos referimos a um mote, mas sim a uma fonte verdadeira de conhecimento, de amizade e de qualidade espiritual da vida. Se percorrermos o caminho de cooperação com a natureza, um dia iremos reconhecer que uma palavra como “paraíso” já não é apenas um termo religioso, mas sim um objectivo de vida.

«Os processos de paz são sempre processos comunitários» Johan Galtung, investigador de paz norueguês

«Para educar uma criança, é necessária uma aldeia inteira» Provérbio africano

«A individualidade só é possível quando unida ao Todo» David Bohm, físico

105


COMUNIDADE ENQUANTO TEMA DE PESQUISA Dieter Duhm

Elementos da criação de comunidade: ritual – inauguração de uma nova pedra no Círculo de Pedras de Tamera

Estudos – a formação da comunidade

As tarefas anteriormente referidas só poderão ser realizadas se baseadas numa comunidade que seja eficiente ao nível humano. Desde os anos 60, como consequência de conflitos humanos não solucionados, faliram demasiados projectos comunitários e, por conseguinte, não podemos continuar a ser ingénuos sobre este assunto. Se quisermos pôr em prática um humanismo ecológico sustentável, temos de encontrar um humanismo verdadeiramente humano, social e sexual, que redime os participantes dos seus fardos e das suas dores do passado. As dificuldades que surgem no caminho do processo de cura global não estão apenas no mundo exterior, mas também em nós mesmos. Na convivência diária, muitas vezes são os factores aparentemente muito simples como a necessidade de contacto não realizada, aspirações ao domínio, concorrência no amor e sexo, ciúmes, projecções inconscientes negativas, medo de ser julgado, etc., que têm, desde os anos 60, minado por dentro a vida dos grupos de centenas de projectos. Mas como estes factores não se tratam apenas de lesões individuais, mas principalmente das consequências de uma doença colectiva cultural, logo, não são eficazmente resolvidas a nível individual. Todos carregamos em nós a dor primordial de uma grande ferida. Todos temos, como diz Claude An´Shin Thomas, o nosso “Vietname em nós”, todos fomos vítimas e agressores e, ao longo da nossa viagem Cármica, contraímos muitas feridas. Neste sentido, o referido trabalho de cura significa curar estas feridas em si mesmo e nos outros. Esta é a tarefa, e esta é também a promessa que nos foi dada com a parábola divina: vocês devem e podem curar as lesões do passado. Os guias para tal são: verdade, apoio mútuo, responsabilidade pela comunidade e serviço à vida. E além disto: ajudem os outros, assim serão ajudados.

Um Entendimento mais Profundo de Sustentabilidade Chegamos aqui a uma definição mais profunda de sustentabilidade, pois as mudanças ecológicas necessárias exigem mudanças humanas, e estas apenas poderão realizar-se duradouramente se formos à sua origem e desenvolvermos novos padrões base para a cultura e a sociedade. O estabelecimento da confiança entre seres humanos, o possibilitar da verdade e de transparência humana não é um tema apenas individual, mas principalmente societal, cultural, económico e político. Este é um conceito base do projecto dos Biótopos de Cura. Partilha e compaixão – peregrinação pela Tamera

106


O “Interior” da Matéria São poderes espirituais e mentais que actuam em toda a matéria viva. Teilhard de Chardin, descreveu-os como o “lado interior” da matéria e assim desenvolveu uma nova visão do mundo material. Poderes cósmicos, supra conscientes, subconscientes ou reprimidos, que até agora foram atribuídos às diferentes áreas da psicologia profunda, da religião, da magia e da arte têm de gradualmente ser integrados num modo consciente de vida, a fim de dissolver a esquizofrenia latente da nossa actual cultura. Trata-se de criar uma nova imagem de nós próprios enquanto seres humanos. O que mais assegura o sucesso do trabalho são os poderes de criação de campo energético, que começam a funcionar em cada comunidade assim que surja o consenso, entre os participantes, ao se considerar novas experiências e a superação de fronteiras. Assim, deixa de ser apenas o poder individual, mas principalmente o poder de campo que possibilita aos participantes novas vivências. Deste modo, já não temos de fazer tudo por nós mesmos. Fazemos o que podemos e o resto “é com Deus”. No trabalho moderno da alta tecnologia, alguns critérios psicológicos deveriam ser transferidos para o trabalho de pesquisa interpessoal, espiritual e ecológica, de forma a surgir uma força de paz eficiente e permanente. Referimo-nos a critérios tais como energia espiritual e mental, força de vontade, continuidade e alegria antecipada perante os resultados, crença no sucesso, estar pronto para ir além de qualquer limite, declarando como sendo possível aquilo que até então parecia impossível. Trata-se aqui de experiência e pesquisa e não o de manter-se preso a velhas crenças. Nos tempestuosos processos de transformação do nosso tempo, o universo em evolução projecta sempre novos futuros no horizonte do nosso campo visual. O trabalho de pesquisa na área interpessoal e comunitária significa também manter sem pressão o passo deste desenvolvimento. A calma adequada depende de se encontrar a velocidade certa. A atitude correcta é providenciada pela nossa força de vontade que nos prepara para um trajecto longo e difícil. Torna-se evidente que são muito importantes as nossas condições mentais e físicas. Adquire-se uma ideia temática de abrangência com a qual um grupo de 200 pessoas tem de lidar, se quiser aceitar a tarefa que lhe foi dada na referida parábola do Espírito do Mundo. Mas não valerá também aqui a regra base: quanto maior a tarefa, maior será a força que nos aflui?

A Vida em Tamera

Temos de desenvolver comunidades nas quais a mentira, a deslealdade e a artimanha já não possuam uma vantagem evolucionária. Precisamos de novas estruturas societais que possibilitem uma convivência duradoura em verdade, amor e confiança. É uma herança histórica pesada que invade as nossas existências individuais até aos espaços mais íntimos. Esta questão tem de ser solucionada para que os poderes de cura entelequiais possam libertar-se integralmente e tornarem-se activos. O projecto de pesquisa dos Biótopos de Cura lida com o desenvolvimento de comunidades futuras que sejam capazes de oferecer aos seus participantes novas experiências de cura e de desenvolvimento que derivam de uma nova vivência de confiança. Tais comunidades passam forçosamente por uma série de experiências interiores com as quais deslocam as suas fronteiras actuais e desenvolvem novos campos. Trata-se de alargar fronteiras, permitindo para a nossa própria vida diferentes pontos focais interiores. Esta é uma aventura de pesquisa de grande significado, talvez a maior aventura do nosso tempo. Lynn Margulis, a conhecida bióloga, disse: “Se quiséssemos sobreviver às crises ecológicas e sociais que criámos, provavelmente seríamos obrigados a envolver-nos em empreendimentos comunitários drasticamente novos.” Poder-se-á estranhar e perguntar se é realmente necessário tanto tempo e tanto trabalho intenso de pesquisa para se fundar comunidades que funcionem e, desenvolver novas formas de vida no sentido da sustentabilidade estável. A resposta é, inequivocamente sim, é necessário. Os habituais modelos alternativos de vida simples nunca funcionaram por muito tempo por que não estavam à altura dos poderes eminentemente destrutivos dos tempos modernos. As questões do nosso tempo estão de tal modo enredadas e ligadas entre si, que não podem ser individualmente resolvidas. Uma ecologia realmente não violenta não poderá ser desenvolvida sem uma nova relação com a nossa própria natureza interior. A natureza exterior e a interior são dois lados da mesma questão e ambas são movidas pelas mesmas energias vitais. Enquanto reprimirmos e renegarmos a nossa própria natureza, dificilmente teremos uma relação carinhosa com as nossas co-criaturas da natureza exterior. O mesmo se passa com a tecnologia e a medicina, a mudança de paradigmas exige uma crescente cooperação com aqueles poderes interiores que até então foram, na maioria das vezes, reprimidos e combatidos. Trata-se de um fundamento novo para a compreensão de nós mesmos enquanto seres humanos.

107


ARTE

Iris Bijou Lindstedt, curadora do Espaço de Arte de Tamera

“A arte é o esboço para uma vida sonhada.” Dieter Duhm

Da vida cultural de Tamera fazem parte todas as formas de trabalho artístico: pintura, música, dança, teatro, colocação de pedras e esculturas para a cura da paisagem, arquitectura paisagística e muito mais. Entre outros, trata-se da redescoberta dos princípios de design da própria Criação, tais como a acção não intencional mas de alto nível de sucesso e de precisão, concentração sem esforço e uma relação lúdica ao lidar com as dificuldades. As dificuldades são facilmente ultrapassadas. A arte é o desempenho consciente do processo de Criação. Neste sentido, aproxima-se da ligação original entre a arte e o culto. Através de acções comunitárias e rituais cheios de humor são geradas a alegria e energias criativas. Acções artísticas pertencem ao processo de cura de uma cultura emergente. Está planeado o estabelecimento de um pavilhão de arte como galeria e espaço para teatro, de um estúdio ao ar livre e de um edifício especial “Futuroscópio” para a apresentação de peças de teatro de carácter futurista.

Curso de Artes em Tamera – O entusiasmo da realização criativa

108


TAMERA ARTS

“O que se quer ver numa pintura, é que algo tenha lá nascido. A acção artística em si pode libertar vida, é este o seu critério mais elevado. É também a abordagem de um novo conceito artístico que se encontra integrado no processo de cura. Que Tamera Arts seja um conceito que seduza nessa direcção.” Dieter Duhm

“ Indian Life” por Iris Bijou Lindstedt

“Summer in the Alentejo” por Dieter Duhm

“The Goddess” por Sabine Lichtenfels

“Love for all beings” por Madjana Geusen

A Vida em Tamera

Tamera Arts é um grupo artístico cujas obras são expostas para venda em galerias.

109


A Vida em Tamera

O CÍRCULO DE PEDRAS DE TAMERA

O Círculo de Pedras de Tamera – 96 monólitos

Sabine Lichtenfels encontrou a inspiração no Cromeleque dos Almendres, perto de Évora para a construção em Tamera de um círculo de pedras moderno, uma obra de arte comunitária. As suas 96 pedras erguem-se segundo os 96 arquétipos básicos de uma comunidade de paz. O seu lema principal é: complementaridade em vez de exclusão, cooperação em vez de luta. Em Abril de 1994, Sabine Lichtenfels viajou em Portugal e visitou o Cromeleque dos Almendres nas proximidades de Évora. Devido à sua longa investigação espiritual, aprendeu a percepcionar tanto as informações visíveis como as informações energéticas subtis. Maquinaria pesada para posicionar as pedras

Em Almendres, sentiu que estas pedras tinham sido erguidas por uma cultura tribal

pacífica e ligada à natureza. Os monólitos com até três metros de altura não estavam ordenados de forma aleatória. Cada uma das pedras parecia representar um arquétipo de uma cultura tribal harmoniosa. Armazenado em pedra e na subtil matriz energética da sua disposição, guardam informações intemporais para além da história, sobre um modo de vida pacífico baseado na sabedoria e marcado por uma cultura há muito esquecida que durante o neolítico deve ter vivido em Portugal e também em muitas outras regiões do mundo. Desta primordial cultura global, não existem achados arqueológicos que nos levem a concluir a existência de violência ou de sistemas de defesa. Cada vez mais historiadores partem do princípio de que deve ter havido um tempo em que as pessoas viviam sem guerra, tendo tido conhecimentos sobre a paz. Nos anos que se seguiram, Sabine Lichtenfels decifrou o Cromeleque dos Almedres como sendo um tesouro de conhecimento de uma elevada cultura arcaica muito desenvolvida e extremamente pacífica. Sobre esse tema e para descrever as suas descobertas, escreveu o livro “Traumsteine – Reise in ein Zeitalter der sinnlichen Erfüllung “ (“Pedras de Sonhos – Uma Viagem a uma Era da Realização Sensual”). Algumas palavras do livro “Pedras de Sonhos” de Sabine Lichtenfels: “Uma vez no centro do círculo, sentei-me sobre uma pedra plana e fechei os olhos. “Lembra-te do teu passado, muito antes da primordial cristandade”, foi uma frase ouvida repetidamente e que memorizei. De

Sabine Lichtenfels durante um ritual no Círculo de Pedras

110


repente, tive a impressão de que tinha chegado a casa e que me libertara de uma grande tensão. “Vais encontrar aqui muitas informações que irás precisar para encontrar o lugar certo para a construção do teu projecto. Voltarás aqui frequentemente”. Estava cada vez mais curiosa.” O Cromeleque continuou a ser uma fonte importante de inspiração para Sabine Lichtenfels. Surgiu a ideia de erigir outro círculo de pedras em Tamera. O projecto concretizou-se com a colaboração de Marko Pogacnik, um geomante e curandeiro da Terra, e Peter Frank, o seu aluno de longa data. Com os seus conhecimentos sobre geomância, ajudaram a iniciar o círculo de pedras em Tamera. O “Ícone do Futuro” estava a ganhar forma.

O Círculo de Pedras para orações individuais ...

A primeira pedra foi colocada no dia 12 de Outubro de 2004 numa ligeira elevação, exactamente no centro do terreno de Tamera. Entretanto, o círculo de pedras está terminado: 96 pedras, até três metros de altura, algumas delas com gravuras de cosmogramas, representando os poderes arquétipos essenciais de uma comunidade do futuro. Ao longo de muitos anos, os cosmogramas foram criados por membros da comunidade e por visitantes que se sentiam conectados com os arquétipos, com muita intuição e criatividade. ... ponto de encontro nos rituais da comunidade

Hoje em dia, a comunidade de Tamera reúne-se no Círculo de Pedras todas as manhãs de Segunda-feira ao nascer do sol. Através da meditação “Círculo de Força”, são enviados pensamentos de cura política para o mundo. Inspirado na Igreja da Libertação, o padre Giraldo celebrou aqui uma missa cristã. A activista de paz Starhawk, dirigiu um ritual pagão com danças e canções. Monges tibetanos de Dharamsala, fizeram esvoaçar as suas bandeiras de oração. E a qualquer hora do dia ou da noite, as pessoas podem encontrar aqui sossego para meditar e rezar. É como se o Círculo de Pedras, em toda a sua simplicidade e integridade, conseguisse oferecer um lar às mais diversas religiões e orientações mentais, tornando supérfluos os dogmas e as exclusões.

A maioria das pedras apresenta um cosmograma cinzelado para reforçar o seu poder. Esta pedra representa a "Grace"

111


A Vida em Tamera

O ESPAÇO DAS CRIANÇAS As crianças são as portadoras do futuro do nosso planeta. Cada criança traz consigo directamente o poder autêntico para a paz. As crianças necessitam de protecção contra a loucura e violência do mundo de hoje e necessitam de adultos que ajam pela vida e contra a guerra com todo o seu poder. Elas necessitam dum espaço com honestidade e confiança onde possam viver e aprender e onde se sintam em casa. Elas têm muitos poderes para ajudar a proteger a vida, os animais, as plantas e as pessoas. Uma das tarefas mais importantes do Espaço das Crianças em Tamera é a de proteger e fortalecer estes poderes.

Música, teatro e jogos são tão importantes quanto a concentração na educação dos filhos

112

Mãe, pai e filho são integrados no Espaço das Crianças na crescente comunidade das crianças


As crianças adoram crianças. Tal como necessitam duma casa e da confiança dos adultos, as crianças necessitam dum biótopo de crianças e jovens. Assim, podem ajudar-se e corrigir-se mutuamente, e ser modelos e amigos verdadeiros entre si. O fundamento básico da escola em Tamera é uma comunidade emergente de crianças. É lá que aprendem a conhecer o seu grande ser cósmico e o seu espírito criativo e a aproveitá-los num mundo no qual todos os seres voltam a conviver em confiança e apoio mútuos.

As crianças também aprendem ao moverem-se livremente na Natureza, através das suas interacções com plantas, animais, a luz e os elementos. Parece ser apropriado até para as crianças mais pequenas tomar conta de animais e observar e estabelecer contacto com animais selvagens. Esta interacção fortalece a sua alma. À parte das disciplinas básicas como as línguas, a matemática e as ciências naturais, a escola dá ênfase à música, às artes visuais, ao teatro e ao trabalho internacional em rede com crianças. Chamamos-lhe Escola da Esperança. Para mais informações: schule@tamera.org

Website de Tamera – Espaço das Crianças www.tamera.org

113


ESCOLA DA JUVENTUDE DA APRENDIZAGEM GLOBAL Muitos jovens e jovens adultos participam de modo responsável no desenvolvimento de Tamera e do seu trabalho para a paz. O seu poder de compaixão, a sua radicalidade e criatividade encontram sentido na perspectiva de Tamera, na formação em profissões para a paz e na implementação dum Movimento Mundial por uma Terra livre. A educação dá ênfase a três aspectos principais:

1. A investigação e formação em profissões apropriadas para as próximas gerações. As possibilidades de treino e formação, variam desde a escola de música à escola de teatro, passando pela protecção dos animais, o design gráfico, as tecnologias de informação, as tecnologias sustentáveis, a Permacultura e o trabalho político em rede bem como treinos mais práticos em mecânica, carpintaria e trabalho com metais. 2. Comunidade: Quais os caminhos de convivência e comunidade fazem sentido para a juventude? 3. Experiência em áreas de crise. Anualmente, os membros da Escola da Juventude têm a oportunidade de adquirir conhecimento sobre a situação no mundo e de ajudar em zonas de crise.

Sobre a Escola da Juventude Freya von Wussow, 13 anos Nós temos aulas de línguas, de matemática, de história e de geografia e aprendemos o que realmente se passa no mundo. Na Escola da Juventude tenho a possibilidade de exprimir livremente as minhas questões e os meus pensamentos, que são ouvidos pela comunidade para encontrar depois uma solução. Podemos fazer as nossas perguntas e recebemos respostas sinceras, não importa sobre que tema. E temos a possibilidade de dar aulas às crianças mais novas.

O que é que significa a Escola da Juventude para mim? Maria Kessler, 13 anos Para mim, o mais importante na Escola da Juventude é poder confiar nos meus professores! Quando confio verdadeiramente, torno-me forte. Posso ter a certeza que os professores querem apoiar-me, que me dizem a verdade e que podemos fazer todas as perguntas que são realmente importantes para nós. Até mesmo quando se trata de amor. Também acho bem que alguns dos nossos professores não sejam muito mais velhos do que nós (temos entre 13 e 16 anos e dois dos nossos professores têm 21 anos). Ainda sabem bastante bem o que nós estamos a passar e por isso, conseguem apoiar-nos melhor nalgumas questões.

A Escola de Música Naila von Mendelssohn, 13 anos Estamos agora a construir uma escola de música, onde vamos ter aulas individuais e também vamos aprender a tocar numa banda. Adoro fazer música. Com a música podemos juntar as pessoas e conhecê-las facilmente. Quando esteve cá a banda brasileira Poesia Samba Soul reparei que quando tocavam, queriam mostrar às pessoas que acreditam na possibilidade de que o mundo pode mudar. Com estes músicos consigo aprender de uma maneira completamente diferente. Não se trata apenas de aprender competências técnicas, mas sim o conteúdo, ou seja, aprender a apoiar o mundo e as pessoas que não têm perspectivas.

114

"Quando eu confio, eu sou forte". Três mulheres jovens no limiar da feminilidade


A Vida em Tamera

Representação teatral da peça "A Sombra Negra” em Sines, Portugal

A Escola de Teatro Jan Regelmann, 14 anos A ideia da Escola de Teatro surgiu-nos em 2007 depois da nossa peregrinação por Israel e pela Palestina. Ali vimos o que esses dois povos fazem: Israel constrói ao longo da Palestina um muro com 9 metros de altura, e os Palestinianos reagem com o terrorismo. Queremos mostrar às pessoas do mundo ocidental o que está a acontecer na realidade, e de uma forma que elas não o esqueçam logo a seguir ou considerem uma estupidez ou pensem que de qualquer forma não possam fazer nada. E foi precisamente isso o que realizámos com a peça de teatro “A Sombra Negra e o Enigma da Princesa”. A história é sobre uma princesa que vive num castelo com os seus pais e a corte. São-lhes trazidas notícias do mundo e eles apenas dizem: “Deixem-nos em paz” ou “Temos coisas mais importantes para fazer”, “Não há nada que nós possamos fazer” e “Isso nem acontece aqui”.

De repente, vem uma sombra negra e transforma toda a gente em pedra, menos a princesa. A seguir, ela encontra Cósmico, o guardião do conhecimento que lhe dá um enigma para salvar o mundo e Merlin, um aprendiz de feiticeiro que não sabe fazer feitiços. Juntos descobrem o que se está a passar no mundo. Vão buscar crianças de diferentes situações, uma criança refugiada, um soldado infantil, uma menina que trabalha numa fábrica e outra que protege animais e então, em conjunto, resolvem o enigma. Com a peça fizemos uma digressão pela Alemanha e pela Suiça e actuámos doze vezes. Mais tarde, traduzimos a peça para inglês e rodámos um filme sobre a história. Depois traduzimo-la para português e apresentámo-la em Portugal. Mas antes tivemos também imenso trabalho: um atelier de escrita com Leila Dregger e a escola de teatro com Rico Portilho. O Rico ensinou-nos como se deve representar um teatro em vez de apenas decorar a peça.

Patch Adams, Médico Palhaço, EUA: Visitei 400 ou 500 comunidades e sempre presto muita atenção às crianças e ao seu mundo. E no meu último dia em Tamera, vi a sua nova e miraculosa peça de teatro. Assisti a uma apresentação articulada dos problemas globais. Este é um manifesto revolucionário para os dias de hoje, porém, sem dogma. Os adultos despendem imenso esforço para encontrar formas de como comunicar com o mundo e conseguem o mesmo efeito que o teatro das crianças, que o faz de forma tão simples na sua peça. Este teatro deve ir a todo o lado.

Patch Adams visita o Espaço das Crianças

115


ALDEIA DA LUZ Oito mulheres, a maioria com mais de 60 anos, trabalham em conjunto para construírem uma nova aldeia, a Aldeia da Luz. Enquanto que a maior parte das suas contemporâneas em todo o mundo se prepara para a reforma, estas mulheres fazem exactamente o oposto: criam uma base que lhes permita alcançar os seus sonhos profissionais.

Para além da casa do artesanato e da cultura (casa Sandra) e da casa experimental (Casa dos Três Arcos), foram construídas uma oficina para a transformação de ervas medicinais e um atelier de costura. No atelier de costura, as roupas usadas serão reparadas e recicladas e novas roupas serão feitas e desenhadas. Alice Lindstedt, 75 anos: “Enquanto costureira em Tamera, estou sempre consciente das condições sob os quais os têxteis são produzidos no mundo. É por isso que não quero que as roupas usadas e outros têxteis sejam tão rapidamente descartados, mas que os materiais sejam honrados e usados pelo maior período de tempo possível... remodelando-os ou reparando-os, arranjando-os de uma nova forma e, aplicando o que não pode ser mais usado como material de isolamento térmico para a construção, de forma que todos os têxteis sejam completamente aproveitados e reciclados.” A casa de transformação de ervas medicinais será usada para o processo de tratamento de ervas sazonais em remédios medicinais, infusões e ervas condimentares. No exterior serão instalados canteiros de ervas aromáticas e um jardim educativo onde as pessoas possam aprender sobre as plantas medicinais. Sandra Schmid, “a alma deste lugar será alimentada por qualidades tais como hospitalidade, crescimento mútuo, alegria pela vida, trazendo pela redescoberta da luz interior a energia espiritual e mental para a matéria.” Alice Lindstedt: “Nós somos uma parte do Campus Global, que cultiva e transmite à juventude a antiga sabedoria feminina sobre plantas (conhecimento que cura) bem como o conhecimento sobre o artesanato (têxteis).” O nome desta aldeia recordar-nos a Aldeia da Luz portuguesa, que há alguns anos foi submergida devido à construção da barragem do Alqueva. Este é o poder das mulheres: oito mulheres em reunião para transmitir aos jovens os seus conhecimentos de artesanato

116


117

A Vida em Tamera


AMIZADE COM ANIMAIS

A Vida em Tamera

“O que são os seres humanos sem os animais? Se todos os animais partissem, também os seres humanos morreriam de uma grande solidão espiritual. Seja o que for que aconteça aos animais em breve acontecerá com os seres humanos. Todas as coisas estão interligadas.” Chefe Seattle (Tribo Duwamish)

Os animais são seres vivos com consciência e alma, que desejam contribuir para o processo de cura das nossas vidas e da vida do nosso planeta. Se se aprender novamente a considerar a voz das criaturas com que partilhamos a existência neste planeta, surgirão em todos os aspectos do nosso trabalho pela paz, novas possibilidades pouco ou nada pesquisadas até ao momento. Almut Schmitz e Balou

Em Tamera vivem os mais diversos seres: sapos, cobras, coelhos e muitos outros. Nos tempos antigos, os animais eram amigos e professores dos humanos e nem sequer havia animais maus ou pessoas más. O que seria se o ser humano actual voltasse a colaborar com eles, se ele se abrisse para o encontro e para a mensagem que os animais lhe reservam? A comunidade de Tamera sempre tratou os animais com carinho, o que originou alguns encontros invulgares e experiências extraordinárias de comunicação. Desde o início que são objectivos importantes, a cura da relação entre os seres humanos e os animais, bem como a recriação da confiança entre ambos. Para esse efeito, foi criado o Projecto dos Cavalos. O Projecto dos Cavalos, fundado em 1996 constitui uma parte central do trabalho com os animais. Para alguns cavalos, este projecto é um santuário. Com a sua força e alegria de expressão, os cavalos são uma ajuda no desenvolvimento e na cura do próprio ser humano. Trabalhar com os cavalos é aprender a confiança, o contacto e a cooperação. Almut Schmitz, a directora do Projecto dos Cavalos, “de momento, enquanto trabalhamos na manifestação da nossa visão maior, os nossos onze cavalos ainda vivem em grandes picadeiros. Cooperando estreitamente com Sepp Holzer, desejamos desenhar um terreno que possibilitará a recuperação da paisagem e o regresso a um espaço natural de permanência para os animais.

Cura através do contacto entre o cavalo e o ser humano

118


O foco do nosso trabalho com cavalos não é cavalgar sobre os animais, mas sim aprender uma nova e mais consciente forma de lidar com eles bem como trabalhar a nossa própria transformação. Como princípio básico montamos os cavalos sem freio nem sela. Várias vezes por ano oferecemos cursos onde é possível experimentar e aprender uma nova forma de contacto com os cavalos.” Mais informações: www.tamera.org/horseproject Além disso, são dados primeiros socorros a animais necessitados da vizinhança. Cães vadios, ovelhas feridas e outros animais são acolhidos e tratados em Tamera, até que seja encontrado um novo lar para eles. Mas as capacidades de Tamera para esse efeito são limitadas. Por isso, a comunidade anseia por uma cooperação com os vizinhos, com as entidades oficiais e pessoas empenhadas para que juntos possam melhorar a situação dos animais na região e no país.

O Serviço de Emergência Animal Maria Kessler, 13 anos Eu amo animais! Adoro ajudar animais! Tenho repetidamente reparado o quanto a situação dos humanos se reflecte na situação dos seus animais! Há donos de quintas que maltratam os seus cães, que os prendem a correntes curtas durante o Verão e nem lhes dão água! Quando vi isso pela primeira vez, senti uma enorme raiva a crescer dentro de mim! Só me apetecia gritar com os donos das quintas! Mas logo a seguir apercebi-me que não era assim tão fácil. Entendi que se tratava de fazer chegar uma nova informação! Por isso ajudamos os animais nas redondezas, tratamos deles e falamos com os donos. Quando um animal está muito mal, levamo-lo connosco e tratamo-lo. Através deste trabalho com os animais estou a aprender a decidir-me, por exemplo, a não ficar zangada quando sei que no fundo isso não ajudará. Também estou a aprender o que é realmente um animal! Que é um ser vivo e que tem uma alma como nós! Os animais são os nossos professores. Não podes falar com um animal e dizer-lhe para ser obediente e, ao mesmo tempo, pensar em bater-lhe. Os animais reagem aos teus pensamentos e não às tuas palavras. Há uma frase que gosto muito: “Enquanto houver pessoas que pensam que os animais não sentem, os animais devem sentir que as pessoas não pensam!” Eu quero mudar isso. Quero que os animais voltem a sentir e que as pessoas voltem a pensar.

Lama Thubten Wangchen de Barcelona participou numa meditação a cavalo

O Serviço de Emergência Animal a cuidar dos animais em sofrimento na vizinhança

Website de Tamera – Projecto dos Cavalos www.tamera.org/horseproject

119


Capítulo VII


A

Hist贸ria

de Tamera

Como Tudo Come莽ou


Fotografia página anterior: Dieter Duhm e a sua filha Mara

COMO TUDO COMEÇOU A fundação de Tamera em 1995 foi um dos muitos passos no caminho para a formação do modelo para o futuro que agora se está a tornar visível. Começou em Maio de 1978 na Alemanha.

Dieter Duhm quando o projecto foi fundado

Sabine Lichtenfels enquanto mulher jovem

Em Maio de 1978, três pessoas, nomeadamente a teóloga Sabine Lichtenfels, o sociólogo Doutor Dieter Duhm e o engenheiro e físico Charly Rainer Ehrenpreis, encontraramse na Alemanha e trocaram impressões sobre a situação mundial. A partir das suas conversas, nasceu uma ideia comum: a criação de um projecto de investigação e de formação interdisciplinar ou uma universidade alternativa para a renovação e interligação das ciências naturais e humanas. Dieter Duhm nasceu em 1942 em Berlim, durante a Segunda Guerra Mundial. Sentiu na pele a violência durante as noites de bombardeamento em Berlim, no êxodo a caminho do Sul da Alemanha, e depois na sua nova pátria perto do lago de Constança. Ainda não tinha seis anos, quando um dia algumas crianças o agarraram, despiram-no, amarraram-no a um poste e besuntaram-no com alcatrão dos pés à cabeça. Não fizera nada, o seu único crime era ser um “desconhecido”. Os outros precisaram de alguém em quem descarregar a sua raiva descontrolada e o seu próprio desamparo espiritual. Foi assim que, muito cedo, recebeu a primeira lição sobre a essência do fascismo. Ouviu pela primeira vez falar dos campos de concentração aos 14 anos. Inicialmente, defendeu-se com todos os meios intelectuais de que dispunha, evitando reconhecer a situação. Tentou convencer-se de que as vítimas na verda-

122

Charly Rainer Ehrenpreis

de eram os criminosos, ou que os adultos não sofriam tanto com a dor. Depois começou a perguntar aos seus pais e aos seus amigos. Quanto mais avançava na sua pesquisa, mais se desvanecia a sua esperança de encontrar algo consolador e atenuador, que mitigasse a sua dor. Não havia consolo. Auschwitz foi uma realidade, ou pelo menos foi uma parte indelével da mesma. Restou-lhe uma última esperança: dizer que tinha sido uma realidade, mas que deixara de ser. Até esta esperança passou. Alguns anos depois, durante o movimento estudantil de 1968, tornou-se num dos líderes da esquerda alemã. Juntamente com os seus companheiros, lutou contra o imperialismo e a guerra do Vietname. Viu fotografias de mulheres vietnamitas com os seios cortados e de pessoas queimadas por napalm. Apercebeu-se que este era o lado negro da moral e da cultura Ocidental. Na época escreveu: “Porque é que ainda não foi possível criar uma sociedade humana ideal? Porque o erro não se encontra apenas nas circunstâncias exteriores, mas sobretudo nas estruturas internas e na maneira de pensar. Não é possível criar uma sociedade livre com pessoas de formação autoritária. Não é possível criar uma sociedade sem vio-


A História de Tamera A fundação da comunidade em 1978

lência se, no nosso interior, os impulsos de ódio e de violência apenas são reprimidos em vez de resolvidos. Uma revolução que não aconteceu no nosso interior também não consegue ser bem sucedida no exterior. Esta é uma lição que a história nos transmitiu.” Dieter Duhm já não conseguia integrar-se na sociedade burguesa. Recusou várias ofertas de docência universitária. Face à violência global, não conseguiu regressar à vida quotidiana. Retirou-se para uma quinta isolada no Sul da Baviera para reflectir. O seu eremitério tornou-se uma oficina do futuro espiritual e mental. Dedicou-se às mais diversas fontes de estudo: Nietzsche, Hegel e van Gogh, Rudolf Steiner, Jesus Cristo, Lao Tse, Wilhelm Reich, Prentice Mulford e Teilhard de Chardin. A pouco e pouco, as peças desse conhecimento começaram a juntar-se, formando um novo panorama. A partir de informações nas áreas da biologia e da cibernética, da psicanálise e da matemática, da arte, da história e da teologia começou a desenhar-se um novo padrão espiritual e mental. Surgiu uma visão: sim, é possível. Desta maneira, a paz poderia ser bem sucedida.

A partir da sua visão, Duhm formulou um conceito político cujo ponto inicial é o lugar onde todos os dias nascem novas guerras: nas interacções humanas entre homens e mulheres, crianças e adultos, indivíduos e a sociedade, ser humano e natureza. É aqui que a mudança tem de ser feita, tem de ser realizada uma alteração de paradigmas. E não só em palavras, mas sim de forma concreta e numa prática que possa ser vivida. Começou a transformar a sua visão em realidade. Quando mais tarde fundou a primeira experiência comunitária com Sabine Lichtenfels e Charly Rainer Ehrenpreis, sofreu contratempos, ficou exposto a resistências sociais, a difamações e hostilidades a partir das quais aprofundou, corrigiu e expandiu o seu conceito e recomeçou. Passaram-se muitos anos de trabalho sem haver sinais de sucesso. Mas a sua fé naquele padrão interno de vida que, posteriormente, descreve como “Matriz Sagrada”, crescia. Apesar de cedo se ter afastado do cristianismo e de todas as outras religiões, nasceu dentro si uma oração que se estava a tornar cada vez mais forte no pedido de ajuda e auxílio. Não sabia a quem estava a rezar. “AQUILO” rezavase a si mesmo. Encontrou assim um caminho para uma fé baseada na compaixão, na investigação e na experiência em vez de adoptar dogmas. Mas era acima de tudo baseada na fé pelo ser humano, na sua capacidade em ser verdadeiro e no seu poder de introspecção.

Rosenhof na Floresta Negra, Alemanha

123


A Fundação do Projecto Juntamente com o físico e músico Charly Rainer Ehrenpreis, Dieter Duhm viajou pelo país à procura de parceiros adequados para cooperar até que, em 1978, visitaram a estudante de teologia Sabine Lichtenfels. Ela e Rainer Ehrenpreis conheciam-se desde a juventude e sentiam-se inspirados pela ideia de fundar uma colónia de artistas.

O "Forum" foi desenvolvido como uma forma de construir a comunidade

Sabine Lichtenfels nasceu em 1954 numa família de artistas, e dedica a sua pesquisa ao amor. “Desde que me lembro, estava praticamente sempre apaixonada. Queria saber como a verdade era possível no amor. Eu observava a vida de isolamento das pessoas na nossa cultura ocidental. Tinha de ser possível amar várias pessoas sem que se seguisse automaticamente o medo da perda, dos ciúmes e da separação.” Seguiu os caminhos turbulentos que daí resultaram, experimentou a sorte do grande amor, a maternidade, o casamento, os ciúmes por parte do parceiro, o divórcio, aquelas coisas “normais” na vida de uma mulher. Para espanto da sua família ateísta, escolheu estudar teologia porque amava Jesus, o revolucionário. Durante muito tempo sentiu-se atormentada pela sensação de que tudo o que podia fazer pelo mundo era uma gota de água no oceano. Enquanto se ajuda num sítio uma nova injustiça é cometida noutro. Por essa razão, surgiu-lhe cedo a ideia de inventar um sistema para a convivência entre as pessoas no qual fosse possível aprender de maneira elementar a paz.

Em 1983, a comunidade decidiu realizar uma experiência social

Sabine Lichtenfels não aceitou o princípio “ou uma coisa, ou outra”, ou o trabalho político, ou a realização como mulher. Sentiu que a revolução exterior teria de ser acompanhada por uma interior. Não conseguia acreditar na concretização de um sistema social justo, enquanto este não incluísse uma revolução interior no amor. O amor e a vontade política para mudar o mundo deveriam unir-se. “Se não queremos guerra, precisamos de uma visão para a paz.” O grupo, que crescia rapidamente, começou com um primeiro centro de investigação interdisciplinar numa quinta transformada no Sul da Alemanha. Reuniram-se especialistas nas áreas da biónica, da arquitectura, da cimática, da tecnologia da informação e da medicina. Foram realizados os primeiros ensaios para a investigação de vórtices, a limpeza de águas residuais, técnicas de construção e investigação de energias vitais.

Centro Experimental de Criação Social e Cultural (ZEGG), um dos projectos que resultaram da experiência social. Equipa de trabalho

124


Three Red Stones, uma obra de arte comunitária que se tornou o emblema do projecto

O que é esse potencial explosivo na realidade, de que é feita a sua verdade mais profunda? Será que não valeria a pena lançar alguma luz sobre esse assunto e torná-lo no próprio objecto de investigação uma vez que falharam tantos projectos e experiências? Por fim, a questão era: dentro do sistema global, como se desenvolve a violência e como é que pode ser terminada de forma duradoura e estrutural? Esta razão mais profunda parecia estar relacionada com tudo o que era, geralmente, considerado um assunto particular ou uma área íntima: amor, sexualidade, relacionamento, convivência, Deus. Era necessário um projecto de investigação que se ocupasse em particular destes temas fulcrais. Assim, decidiram criar uma experiência social. Sabendo que eram pioneiros nisto, os membros da comunidade de investigação decidiram tornar-se eles próprios nos objectos a investigar, tanto a sua convivência como as suas questões mais íntimas. Cinquenta pessoas iriam manter-se juntas durante três anos. Ninguém iria desistir. Esta pesquisa incidia sobre: a construção, a alimentação, a economia, as artes, as estruturas de tomada de decisão comunitárias, a cura, a jardinagem, o contacto com animais, o manuseamento da água e também aprender a lidar com os erros, que eram imensos. Aprenderam a rezar e aprenderam a sentir interesse uns pelos outros. Aprenderam que, por vezes, uma única frase expressa de maneira autêntica é mais importante do que uma tese de doutoramento.

Com a experiência social, o grupo elaborara um conhecimento generalizável comunitário. Baseado nesses fundamentos, podia agora ser iniciado, com a ajuda internacional de parceiros e especialistas em diferentes áreas de estudo, um projecto de investigação para a paz global e abrangente. Na altura, essa tarefa parecia praticamente impossível de ser realizada na Alemanha. Muitos resultados da experiência social conduziram ao conflito com os costumes da sociedade. O projecto foi atacado por facções da igreja e da imprensa. Na sociedade alemã parecia ser cada vez mais difícil ter um espaço social livre que permitisse na íntegra uma investigação.

A História de Tamera

Mas cedo o grupo teve de admitir que as melhores intenções e os melhores conhecimentos especializados não eram suficientes. Estava na iminência de lhes suceder o mesmo que aos milhares de outras equipas antes deles. Ninharias incendiavam conflitos que desenvolviam um potencial de detonação, ameaçando explodir todo o grupo. Será que as pessoas que queriam a paz no mundo não seriam mesmo capazes de conviver pacificamente?

Depois da experiência social, os seus participantes iniciaram diferentes projectos: o centro de seminários ZEGG (Zentrum für experimentelle Gesellschaftsgestaltung, Centro Experimental de Criação Social e Cultural) perto de Berlim, o navio de investigação de golfinhos Kairos, assim como diversos empreendimentos ecológicos e pontos urbanos de encontros culturais. Estes continuaram a desenvolver-se de forma autónoma e alguns existem até hoje. Ao mesmo tempo, Sabine Lichtenfels realizou vários “campos no deserto” em diferentes países. A sua ideia era criar um espaço no qual as pessoas se pudessem concentrar nos aspectos essenciais da vida para encontrar um novo começo na Criação e na simplicidade. Nesses ambientes especiais, as questões de sobrevivência global assumiam um significado existencial novo. Um desses campos no deserto foi realizado numa paisagem de dunas no Alentejo. Assim nasceu o amor por este país. Portugal tornou-se um dos poucos países a ser considerado para a criação de um projecto permanente de investigação.

A experiência social durou entre 1983 e 1986. Passados esses três anos, o grupo elaborara uma base de conhecimentos, desde a criação de comunidades estáveis, passando por formas de comunicação comunitária até às condições sociais para a verdade e o amor duradouro. Dieter Duhm, baseando-se em diferentes ciências e experiências, formulou a “Teoria Política” e expôs como e porquê uma pequena mudança numa parte do organismo pode influenciar a Terra como um Todo. Por outras palavras: como e porquê o trabalho de paz local pode ter um efeito global. Este é o fundamento teórico como estratégia na criação de um movimento global de modelos autónomos.

Sabine Lichtenfels realiza seminários no deserto de vários países

125


Monte do Cerro, o terreno nos primeiros anos

Uma Águia Quer Aterrar O grupo escolheu o Monte Cerro, um terreno de 134 ha no Alentejo. A planta do terreno fazia lembrar uma águia em vias de aterrar. Sabine Lichtenfels andava com um pequeno grupo à procura de um terreno. O pastor que lhes estava a mostrar a propriedade, repetia: “Água boa!” e primeiro levou-os até uma pequena nascente. À volta da mesma cresciam uma palmeira, uma figueira e uma roseira e, segundo uma lenda antiga, esses lugares são habitados pela Deusa. Até hoje, depois de várias nascentes terem sido descobertas no terreno, esta manteve sempre um significado especial. A sua água é considerada particularmente benéfica. Ao projecto que iria ser criado neste local, Sabine Lichtenfels deu o nome Tamera, só mais tarde soube que numa língua ancestral significava “junto à nascente primordial”. O terreno foi adquirido em 1995, sem capital próprio ou apoios oficiais, apenas com contribuições financeiras de doadores particulares.

As primeiras pessoas a explorar Tamera não foram construtores civis ou electricistas, nem ecologistas ou jardineiros, mas sim artistas. Começaram por meio da pintura a percepcionar o terreno e o seu carácter. Nessas primeiras semanas criaram-se pinturas de sobreiros, sapos, montes sinuosos, paisagens estivais desbotadas e outras manifestações da Deusa, declarações de amor ao Alentejo em formas e cores. Depois de um pequeno grupo ter construído as infraestruturas, começou o trabalho de criação de uma comunidade base nuclear. Foram construídas oficinas, ateliers, escritórios, espaços para seminários e alojamentos, foram criados jardins e começou a reflorestação. Tudo com fundos e doações particulares. A seguir, o grupo começou a preparar a cooperação e a estabelecer uma rede mundial de iniciativas de paz, de inventores e de investigadores. As experiências nas áreas da investigação energética e ecológica fizeram parte do projecto desde o seu início. No primeiro ano, realizou-se a chamada Universidade de Verão, em que acorreram mais de cem visitantes provenientes de muitos países. Pouco depois começaram os primeiros programas de formação e conferências.

Incêndio Na noite de 31 de Janeiro para 1 de Fevereiro de 1999, alguns colaboradores foram acordados por um ruído invulgar: o grande edifício estava em chamas. Este edifício principal de Tamera usado como salão de reuniões, cozinha, armazém, laboratório de investigação, escritório, arquivo de arte, de fotografias e de textos ardeu por completo. Ocorreu um curto-circuito que primeiro queimou os cabos e depois provocou um grande incêndio neste espaço que, com muito esforço, tinha sido renovado. Nem os vizinhos que chegavam de tractor e os bombeiros puderam ajudar.

O laboratório no salão incendiado em 1999

126


O fogo mostrou o quanto sólida e solidária é a rede à volta de Tamera. De todos os lados receberam ajuda e inúmeras manifestações de amizade e de solidariedade. Novos edifícios foram erguidos com mais determinação. Alguns provisórios, como a tenda de reuniões para os seminários, cabanas, contentores, caravanas e casas de madeira, outros permanentes como o Instituto para a Paz Global e o Centro de Hóspedes.

mada Terra Santa, a segunda aldeia de investigação da paz. Assim, em Israel e na Palestina, surgiu um núcleo composto por israelitas, palestinianos e outras nacionalidades que estão a pensar em iniciar no Médio Oriente uma comunidade modelo. Tamera é a sua base, na qual se preparam.

A História de Tamera

A comunidade estava perante os destroços. Felizes por não ter havido vítimas tiveram, no entanto, de assistir à destruição de quase todos os seus pertences.

Mudança de gerações A partir de 2000, Dieter Duhm e Sabine Lichtenfels começaram com as primeiras acções de formação para a paz, sobretudo para a juventude e jovens adultos. Estes tornaram-se num grupo de apoio muito familiarizado com as ideias de paz de Tamera e são, entretanto, a nova geração a assumir responsabilidades. Hoje são a nova geração de líderes. São eles que, actualmente, organizam as acções de formação para a paz, dando aulas aos jovens e que impulsionam a construção do Campus Global. É uma mudança de geração bem sucedida, graças às pessoas antigas experientes no projecto que dão todo o seu apoio e transmitem o seu conhecimento à nova geração.

“Discus” cenário para a 1ª Universidade de Verão

Israel e Palestina Em 2000, depois da eclosão da segunda Intifada entre Israel e Palestina, os colaboradores de Tamera aperceberam-se que já não podiam ficar a assistir sem agir. “No Médio Oriente está a ser decidido mais do que o destino de dois povos”, escreveu Dieter Duhm. “Se a paz for alcançada aqui, então também será possível noutros locais.” No Médio Oriente interligam-se os temas mais importantes da humanidade. É um ponto de acupunctura da Terra. Começou o compromisso de Tamera com Israel e a Palestina. Foram feitas muitas viagens até ao Médio Oriente, organizados campos de paz com participantes de ambos os lados e escutados com atenção os diferentes aspectos do conflito. A partir dos relatos dos participantes, os estudantes elaboraram uma peça de teatro intitulada “Recusamo-nos a Ser Inimigos”. Nos anos que se seguiram, a peça foi apresentada em digressão pela Alemanha, Suiça e Áustria e mais tarde, com sucesso, por Israel e pela Palestina. Em Benjamin von Mendelsson, Vera Kleinhammes e algumas outras pessoas nasceu o objectivo de construir, na cha-

Após o incêndio os estudos tomaram lugar em tendas

O chamado "Gang", uma nova geração de líderes

127


Solar Power Village No Verão de 2004, começou a colaboração intensiva com Jürgen Kleinwächter. O físico oriundo de Lörrach, Alemanha, estava convencido de que em Tamera, com o seu clima mediterrânico e os conhecimentos sobre a sustentabilidade social, as suas invenções teriam o ambiente adequado para testar o Solar Power Village, por ele desenvolvido e em condições práticas. No mesmo ano, foi lançada a primeira pedra para a primeira estufa de energia em Tamera.

GRACE – A Globalização da Paz

Sabine Lichtenfels na inauguração da Educação de Paz Monte Cerro

2005 foi o ano da primeira peregrinação Grace, e foi também o ano em que começou a amizade e a estreita colaboração entre Tamera e a Aldeia da Paz San José de Apartadó na Colômbia. Desde a primeira visita na Primavera de 2005, não decorreu um ano em que não tivesse havido visitas mútuas, acções de formação ou de ajuda. O mundo tornou-se mais pequeno. Uma notícia abstracta sobre um país longínquo transformou-se em compaixão verdadeira. As pessoas que, no mundo inteiro, sofrem e morrem das consequências da globalização não são estatística mas sim amigos. Todos os envolvidos sentiram e perceberam que têm de trabalhar na globalização da paz através da construção local de modelos do futuro.

Educação de Paz Monte Cerro Tamera esforçou-se muito para chegar ao dia 1 de Maio de 2006. Foram informados grupos de paz e comunidades no mundo inteiro e foi construída a primeira infra-estrutura, ainda que provisória, para 200 estudantes. Desde 2006, são realizados anualmente vários módulos de formação para a paz que, entretanto, aumentaram e formam a rede do Campus Global.

A Paisagem Aquática Dieter Duhm e Sabine Lichtenfels no Campus de Tamera Construção do Campus e do Centro de Hóspedes

Em 2007, em cooperação com Sepp Holzer, começou a construção de uma paisagem aquática de permacultura. No dia 31 de Dezembro de 2009, o Lago 1 encheu pela primeira vez. A paisagem aquática e a permacultura estão em permanente evolução e têm como objectivo abranger mais de dez lagos e reservatórios de retenção. No âmbito do Campus Global, Sepp Holzer apresenta regularmente em Tamera seminários sobre Permacultura.

Campus Global Em 2008, foram realizadas no exterior de Tamera, as primeiras acções de formação do Campus Global. Em Abril, Sabine Lichtenfels e Benjamin von Mendelsson dirigiram na Tent of Nations perto de Belém, uma acção de formação para israelitas e palestinianos. Em Outubro do mesmo ano, lideraram juntamente com o padre Javier Giraldo uma peregrinação e uma acção de formação de paz na

128


A História de Tamera

Peregrinação Grace em Portugal no ano de 2009

Aldeia da Paz San José de Apartadó na Colômbia. O programa fora estabelecido em conjunto com a “Universidad de la Resistencia”. O principal objectivo foi a formação em práticas que tornassem autónoma uma aldeia da paz: cuidados médicos, produção de energia, processamento alimentar, purificação de água potável e também autonomia cultural e social.

Peregrinação em Portugal e Inauguração do Campo Experimental da Aldeia Solar Na Páscoa de 2009, Sabine Lichtenfels decidiu realizar pela primeira vez a peregrinação Grace na Europa, em Portugal. Queria assim dar início a uma reconciliação e chamar a atenção das forças governamentais europeias para as alternativas que consistem em construir modelos de paz. A peregrinação teve início no pré-histórico Cromeleque dos Almendres perto de Évora, passando por Torrão, Grândola, Santiago do Cacém, Sines, Odemira e terminando no Círculo de Pedras contemporâneo, situado no Centro de Pesquisa Para a Paz, Tamera.

Escola do Futuro Com a publicação do seu texto “Além de 2012”, Dieter Duhm iniciou em Maio de 2010 a Escola do Futuro. Nela informa e reúne trabalhadores para a paz do mundo inteiro, unindo-os um espírito de solidariedade e de partilha. Neste sentido, a visão consiste em formar uma comunidade planetária de paz. A procura e o interesse pelo trabalho de Tamera aumentaram muito nos últimos anos. Actualmente, os cursos, os seminários, os congressos, as visitas guiadas e os dias abertos que se realizam, regularmente, oferecem informações aos interessados. A comunidade de Tamera alegra-se com o grande interesse e a participação no seu projecto. Também o precisa, porque as tarefas que estão para vir exigem uma boa cooperação com as respectivas autoridades oficiais, as organizações de protecção ambiental, os vizinhos e todos os espíritos vivos. Sabine Lichtenfels: “Queremos que o país tire o máximo proveito do nosso projecto.”

Esta viagem pretendeu estimular a recordação e a compreensão do caminho percorrido pela humanidade, desde a utopia primordial de uma antiga cultura pacífica e tribal, até chegar a um projecto de um modelo de uma futura cultura pacífica e global. Foram convidados, de Portugal e do mundo inteiro, activistas de paz, peregrinos, visionários e dinamizadores de todas as idades. A peregrinação realizou-se em Outubro, e terminou com a inauguração do Campo Experimental da Aldeia Solar, concluído em tempo recorde. O evento foi noticiado em numerosas televisões e jornais de Portugal e de todo o mundo.

Abertura do Campo Experimental da Aldeia Solar em Outubro 2009

129


Informação Adicional


INVESTIR NA PAZ O meu nome é Charly Rainer Ehrenpreis e, juntamente com um número crescente de colaboradores, sou responsável pelas finanças de Tamera. Nasci em 1953 em Colónia, na Alemanha, diplomei-me em física na Universidade de Göttingen no ano de 1977, e em 1978, com Dieter Duhm e Sabine Lichtenfels, fui um dos fundadores dos projectos dos Biótopos de Cura e das Aldeias de Paz. Nesse âmbito fundámos em 1995 o projecto Tamera. Além disso, sou músico, guitarrista e cantor com vários CD editados. O que queremos dizer com a designação “Investimento na paz”? Tamera não é uma empresa com fins lucrativos, mas um projecto de investigação e de formação para apoiar a construção internacional de aldeias de paz e para a formação de trabalhadores de paz. Investimentos deste género em projectos de paz não geram rendimentos financeiros. Mas geram muito mais qualidade de vida e progresso cultural. Se os nossos projectos forem bem sucedidos, irão aumentar os poderes de cura na Terra, expandindo quer uma inteligência que cria paz, quer uma consciência das necessidades de uma cultura verdadeiramente não violenta. E para mais pessoas, cada vez mais, irão aumentar as possibilidades de levar uma vida com sentido, saudável e plena. Um “investimento na paz” não cria portanto rendimentos financeiros, mas sim rendimentos que servem a paz e a criação de novas estruturas de vida. As gerações vindouras irão agradecer-lhe. Está convidado/a a apoiar Tamera seja com donativos ou com empréstimos. Os donativos financiam os projectos de investigação ecológicos e tecnológicos, as acções de formação de paz, as peregrinações nas regiões de conflito, a construção do Campus Global, assim como o projecto das crianças e a sua escola. Os empréstimos são aplicados na aquisição de terreno adicional para aumentar a área de Tamera.

Para além disso, todos os projectos de Tamera precisam de um orçamento base para cobrir todos os custos básicos de infra-estrutura, as acções de formação e todos os custos fixos. Uma excelente oportunidade de cooperação é juntar-se ao grande “Círculo de Apoiantes”. Com uma contribuição mensal de um valor à sua escolha fará parte da criação e parte da crescente comunidade planetária e da sua manifestação de modelos de paz no mundo inteiro. Aqui queremos agradecer muito calorosamente a todos aqueles que já nos ajudaram ou continuam a ajudar. Que haja cada vez mais pessoas que se tornem “guardiães do sonho” de Tamera e apoiantes de uma visão de paz global! Se quiser ajudar-nos ou tiver questões sobre o aspecto económico do nosso projecto, queira contactar-me através do meu e-mail:

Rainer.Ehrenpreis@tamera.org

Apoio a Tamera: Investimento na Paz www.tamera.org

“Apoiar financeiramente Tamera é investir numa nova cultura. Que este projecto sirva para lhe agradar e estimular o seu desenvolvimento, que beneficie inteiramente dele, que lhe sirva para continuar o seu empenho no âmbito do trabalho para a paz global, que lhe ofereça inspiração e perspectivas de vida a si, aos seus amigos e aos seus filhos.” Sabine Lichtenfels, co-fundadora de Tamera

131


CARTAS DE RECOMENDAÇÃO PARA A ALDEIA SOLAR EM TAMERA Há alguns anos atrás, para tornar o projecto da Aldeia Solar conhecido e encontrar parceiros de cooperação, Tamera pediu a uma série de indivíduos e de iniciativas para o avaliar. Seguem-se excertos desses depoimentos:

António Manuel Camillo Coelho, Presidente da Câmara Municipal de Odemira

animar, Associação Portuguesa Para o Desenvolvimento Local, Lisboa

O Presidente da Câmara Municipal de Odemira, consciente do valor científico, arquitectónico e ecológico deste projecto, considera a Aldeia Solar importante para o concelho recomendando que esta iniciativa piloto possa receber todo o apoio das entidades competentes.

Entendemos que o processo de investigação e desenvolvimento do projecto, de implicação transdisciplinar, vai de encontro aos objectivos da “animar”, de encorajar a inovação territorializada, tanto mais quando esta combina dimensões técnicas e sociais e contempla ideias e práticas de alternativa, potencia simultaneamente o emprego, a educação / formação e a empregabilidade, fazendo convergir interesses económicos e ecológicos, de longo prazo. Por isso, vemos o forte interesse social do projecto, o qual deverá ser financeira e logísticamente apoiado com recursos públicos.

Helder Guerreiro, Presidente da Direcção de TAIPA, Organização Cooperativa para o Desenvolvimento Integrado do Concelho de Odemira Considerando o crescente envolvimento da Comunidade designada “Tamera”, quer nas actividades desenvolvidas pela Taipa, no sentido de um incremento da qualidade de vida no rural e na sua valorização identitária, quer num claro crescendo de abertura ao meio envolvente no sentido da integração e aprendizagem mútua; Considerando que esta comunidade tem uma intervenção local e internacional de reconhecido valor o que se traduz numa ligação evidente com entidades da administração local e pelo impacto internacional das suas actividades locais; Considerando o projecto “SolarVillage” (Aldeia Solar) que se insere numa perspectiva de desenvolvimento integrado e sustentável, apanágio da filosofia de intervenção da própria Taipa; Somos considerar: Que a Taipa vê com todo o interesse a sua própria participação no projecto acima designado “SolarVillage”, na forma que vier a ser definida, assim como entende importante e recomendável a participação de outras entidades de investigação no referido projecto.

Ana Firmino professora assistente do Departamento de Geografia e de Planeamento Regional da Universidade Nova de Lisboa De forma a contribuir para o avanço do conhecimento no campo da eficiência energética sustentável, considero da maior importância que a União Europeia apoie o projecto apresentado pela Comunidade de Tamera, pela relevância que os seus objectivos poderão trazer a pequenos países como Portugal em termos de autonomia energética.

132

Escola Superior Agrária de Beja: José Eduardo Duarte Regato, Presidente do Conselho Directivo da Escola Superior Agrária de Beja, após analisar o projecto que lhe foi apresentado de uma “Solar Village in Tamera” considera que este pode ser uma boa contribuição para a sustentabilidade do Desenvolvimento Rural, permitindo a criação de postos de trabalho e utilizando o recurso de muitos materiais localmente obtidos. As ligações entre a utilização da energia solar e o desenvolvimento agrícola sustentado são bastante fortes e podem ser uma boa contribuição para uma economia sustentável, para reduzir o efeito de estufa e para aumentar o grau de auto-abastecimento de energia. A ideia apresentada no projecto de criar uma rede em ecologia, organização social e arquitectura tradicional é também importante e pode de forma pedagógica contribuir para o desenvolvimento sustentável desta região e de outras com problemas semelhantes. A Escola Superior Agrária de Beja acompanhará com todo o interesse o desenvolvimento deste projecto e considera fundamental que outras organizações nele participem, de forma a garantir plenamente os objectivos apresentados pelos promotores. José Eduardo Duarte Regato


Marie-Anne Isler Béguin, membro do Parlamento Europeu Tendo tomado conhecimento do projecto da "Solar Village" em Tamera, Portugal, gostaria de expressar o meu forte apoio para esta iniciativa. Este projecto inovador será de grande interesse, ao utilizar a tecnologia solar, o auto-abastecimento de energias renováveis, numa perspectiva ecológica. Neste contexto, o projecto atende aos meus compromissos a favor de um desenvolvimento sustentável, um objectivo que tenho vindo a apoiar durante quinze anos no Parlamento Europeu. Particularmente aprecio o facto de que este projecto permite a plena utilização das energias renováveis. A "Solar Village" é, aliás, de grande interesse para a população de Tamera, uma vez que facilita o emprego de uma forma que respeita o ambiente, demonstrando a estreita relação entre o ambiente e o desenvolvimento de tecnologias e criação de emprego. Além disso, estendeu-se para África, o que certamente representará uma esperança considerável para as aldeias africanas. Portanto, estou convencida de que a “Solar Village” deveria ser financeiramente e logísticamente apoiada por fundos públicos. Vou defendê-la enquanto membro do Parlamento Europeu.

Mechtild Rothe, membro do Parlamento Europeu A primeira vez que eu vi o projecto da “Solar Village”, em Tamera (Portugal) foi em Janeiro de 2005. Desde o início, fiquei impressionada com o aumento do auto-abastecimento de energia, a utilização de um conceito de permacultura, bem como pela contribuição social da “Solar Village”. O projecto não só cria postos de trabalho estáveis, mas também aumenta a utilização da maior parte das componentes locais. Assim, a longo prazo, reúne os interesses económicos e ecológicos. Além disso, o projecto atraiu a minha atenção através da ligação das áreas de pesquisa da ecologia e da tecnologia com uma arquitectura tradicional e design social. Consequentemente, o projecto cumpre os objectivos que considero importantes, como membro da comissão para a indústria, a investigação e a energia do Parlamento Europeu. Globalmente, o projecto merece ser incentivado de todas as formas possíveis. Portanto, apoio fortemente e sem reservas o seu pedido de financiamento.

Rebecca Harms, membro do Parlamento Europeu Quero por este meio afirmar o meu pleno apoio ao projecto da “Aldeia Solar” em Tamera, Portugal. O projecto junta de forma convincente as exigências de uma tecnologia solar bem como a construção ecológica e sustentável assim como o apoio a um desenvolvimento social positivo da comunidade de Tamera. Assim surgirão, com a realização da “Aldeia Solar”, com o aproveitamento dos recursos existentes e através de produção regional, locais de trabalho duradouros e modernos. Para além disto, o projecto contribuirá, através da montagem de possibilidades de abastecimento autónomas e de métodos sensatos no ganho de energia e de alimento, para uma substancial e sustentável melhoria na qualidade de vida de Tamera. Assim o projecto “Aldeia Solar” apoia paralelamente várias metas que são ambicionadas pela Comunidade Europeia para os seus estados membros: Criação de novos locais de trabalho O melhoramento da qualidade de vida, em especial nas zonas rurais O desenvolvimento e o estabelecimento de ganho alternativo de energia O desenvolvimento sustentável nos sectores da energia, do ambiente e do trabalho A realização e a continuação da montagem do projecto da “Aldeia Solar“, assim sendo, parece-nos não só desejável mas absolutamente necessária e merece pleno apoio.

Hermann Scheer, membro do Parlamento Alemão e Presidente do Eurosolar Quero felicitá-lo pelo seu projecto “Solar- Power Village” e o estabelecimento do primeiro centro de demonstração e transferência de tecnologia em Tamera, Portugal. Assim cumpre também as destacadas premissas feitas repetidamente pela Eurosolar, de não só introduzir tecnologia solar nos países em desenvolvimento, mas também criá-las de forma a que gerem postos de trabalho estáveis na área através da produção local e na medida do possível com materiais também da zona. O seu princípio multifuncional de estufa energética com armazenamento de óleo quente incorporado e a combinação de horta, pode contribuir fortemente para a criação de unidades autónomas tipo aldeia. Por favor mantenha-nos informado sobre os próximos passos do projecto e não hesite em solicitar à Eurosolar apoio na futura realização do “Solar Power Vilage”.

133


Para todos os que desejam saber mais sobre Tamera, recomendo que visitem frequentemente a sua página de Internet: www.tamera.org Para os que desejam um contacto mais directo com Tamera, agradecemos que o façam através de:

Tamera Monte do Cerro 7630-392 Relíquias Portugal Endereço para correspondência: Caixa Postal 1 7630-303 Colos Portugal Telefone: (+351) 283 635 306 office@tamera.org

Para os que desejam apoiar financeiramente Tamera, podem ser usados os seguintes dados bancários: Associação Para Um Mundo Humanitário Banco: Caixa Crédito Agrícola S. Teotónio NIB: 0045 6332 4018 1786 5584 5 IBAN: PT50 0045 6332 4018 1786 5584 5 BIC: CCCMPTPL

134


OUTRAS PUBLICAÇÕES DA EDITORA MEIGA V E R L A G M E I G A GbR

De: Monika Berghoff e Saskia Breithardt

Waldsiedlung 15, D-14806 Belzig Alemanha www.verlag-meiga.org

A editar em 2010: Sepp Holzer e Leila Dregger: Deserto ou Paraíso? Permacultura Holzeriana no Sul da Europa A seca no Sul da Europa não é uma catástrofe natural, mas uma consequência da má gestão da terra e do errado manuseamento da água que há muitas décadas, tem vindo a suceder. Sepp Holzer demonstra como podemos parar a desertificação, usando o exemplo da Paisagem Aquática de Tamera juntamente com outros exemplos como os de Espanha, Itália e Grécia. O livro apresenta e explica técnicas de gestão natural da água, a construção de "Paisagens Comestíveis" e de sistemas de água potável bem como a agricultura urbana. ISBN 978-3-927266-31-5 70 páginas com diversas fotos a cores

Tel.: +49 (0) 33841-30538 Fax: +49 (0) 33841-38550 (Para envio de fax fora da Alemanha: +49 1805 4002 218 202) Email: info@verlag-meiga.org

Sabine Lichtenfels: GRACE – Pilgrimage for a Future without War

Dieter Duhm: Future Without War – Theory of Global Healing

A história de uma peregrinação da Alemanha para Israel e Palestina. A autora percorre muitos quilómetros a pé e sem dinheiro. A sua força de vontade é a decisão de revelar e mudar as estruturas internas que externamente conduzem à guerra e violência. Através disso, descobre uma força clara e brilhante que começa a reluzir cada vez mais: "Grace", a conexão com a Criação, empodera-a agora a seguir a sua voz interior com mais precisão e mais poder.

Neste livro, Dieter Duhm define uma estratégia global de paz baseada na moderna visão científica de que o componente básico da matéria não é o átomo, mas sim a energia, a frequência e a informação. A Terra, com a sua atmosfera e o seu campo magnético, com as suas águas e paisagens, as suas criaturas, biótopos e sociedades humanas é um corpo vivo e oscilante que pode ser curado tal como um corpo humano pode ser curado se o remédio for adequado, ou seja, se for administrada a informação correcta.

ISBN 978-3-927266-25-4, 2006 264 páginas 17.80 €, US-$24.00, £12.80 Traduzido do Alemão para Inglês por Frieda Julie Radford. Não disponível em Português.

ISBN 978-3-927266-24-7, 2006 120 páginas 12.80 €, US-$16.80, £8.80 Traduzido do Alemão para Inglês por Sten Linnander e Frieda Jolie Radford. Não disponível em Português.

135


Dieter Duhm: The Sacred Matrix – from the Matrix of Violence to the Matrix of Live Este livro trata da questão abrangente de como terminar com as guerras mundiais e violência e começar a globalização da paz. Para chegar a uma solução bem fundamentada é incluído o conjunto de todas as fontes do conhecimento humano: modernas visões cientificas, política e história, investigação do caos, holografia e ecologia, espiritualidade e cura. O resultado é uma revelação. ISBN 978-3-927266-16-2, 2001 370 páginas 24.90 €, US-$34.90, £18.50 Traduzido do Alemão para Inglês por Sten Linnander e Frieda Jolie Radford. Não disponível em Português.

136

Textos de Estudo do Campus Global Pode encomendar as seguintes encadernações dos textos de estudo publicados pela editora Meiga a € 5 cada. Para encomendar, envie por favor a referência da publicação que deseja. Textos de Estudo do Campus Global: 801-02 Dieter Duhm: Além de 2012 102-02 Dieter Duhm: Um Novo Campo da Mulher 201-02 Sabine Lichtenfels: A História de Manu e Meret 202-02 Sabine Lichtenfels: Graça e Amor Livre 502-02 Dieter Duhm: A Sociedade de Guerra e a sua Transformação 503-02 Dieter Duhm: Descrição do Projecto I, Estruturas Ecológicas e Humanas para a Cura da Vida no Planeta Terra 401-02 A Aldeia Solar, de vários autores Sabine Lichtenfels: Pedras de Sonhos (um excerto do livro com o mesmo título)

Sabine Lichtenfels: Sources of Love and Peace Orações Matinais Este livro é um livro revolucionário de orações e textos. Contém 52 orações matinais. São palavras de saudação para uma nova e revolucionária espiritualidade com o claro objectivo de apoiar o transformar tanto o ser humano como a sociedade. Sources of Love and Peace oferece uma proposta clara de como podemos conectar-nos com Deus ou a Deusa ou o que quisermos chamar a esta fonte divina dentro de nós e fora de nós, a partir da qual possamos assumir uma atitude para a vida. Sabine Lichtenfels: "Temos a possibilidade real de tomar uma decisão para a paz, aqui e agora. É uma decisão de confiança e contra o medo, para a solidariedade e contra o ódio." ISBN 978-3-927266-11-7, 1995 144 páginas 12.80 €, US-$16.80, £8.80 Traduzido do Alemão para Inglês por Sten Linnander e Frieda Jolie Radford. Não disponível em Português.


Tamera - Um Modelo para o Futuro