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Brasil, nov/10 - out/12

Vars贸via | Buenos Aires


ÓI NÓIS AQUI

TRAVEIS!

Arte: Fernanda Paulino

Vortemo. Mas voceis creditaro mesmo que nóis fumo, né? Qui nóis fumo pa mó de nunca mais vortá. Á, mais nóis já tinha avisado, lá na edição número zério, que essa revistia era memo muito da qui num tem hora nem tem pressa de chegá. Num avisô? Avisô, sim, vai lá dá uma bizoiada qui nóis num é de ficá mintino pa freguesia, não. Tá certo, já fais doizano. Poisé, doizano! Isso é tempo demais da conta, né, não? É, nóis sabe e nóis entende que vosmecê tenha cobrado tanto qui a gente vortasse rápido, qui nem trem de carrera. Mais o fato é qui o tempo foi passano, passano, e umas coisa mudô, otras coisa continua iguar qui nem, mais tudo tá maisomeno nos conforme qui tava lá atráis, intão tá memo tudo mais qui mió di bão. O qui nós qué dizê é que a Machado vortou. I dessa veiz é pa ficá!


162 12

A PROFISSÃO DE FÉ DE GUILHERME PILLA

Definir Gulherme Pilla é tarefa improvável. Artista de fina delicadeza e inteligência, ele toma de assalto os leitores de Machado com uma exposição virtual surpreendente

SURFANDO NO PERU Acha estranho? Pois Cassius Medauar vai abalar um pouco suas convicções sobre ondas e picos.

2

Vitor e Lu Cafaggi

8

Carrefour

24

64

Allan Sieber

Löis Lancaster

26

69 - 109 215

Cadão Volpato

Alexandra Moraes

46

GAIMAN, PARTE 2

Nesta edição, a conclusão da entrevista realizada por Delfin e Sergio Fonseca na FLIP de 2008, na qual ele fala sobre cinema, música — e revela, involuntariamente, como conheceu Amanda Palmer

76

Álvaro Domingues

110

Fred Leal

126

Mariel Reis

134

Octavio Aragão

70 10

Tiago Casagrande

30

Juliano Ribas

Guilherme Smee e Marcio Oliveira

124

Ane Aguirre

138

Vanessa Rodrigues


200

A PROSA DE OLIVERIO COELHO

Continuando sua missão de apresentar novos e relevantes escritores mundiais, Machado traz um conto de Oliverio Coelho, autor selecionado pela revista inglesa Granta como uma das novas promessas literárias em língua espanhola

82 148 188

Mariana Guerra

190

Fabio Monstro!

194

Leandro Müller

DEANBENEDETTING Roberto Pedretti traz um conto inesperado de fascínio e obsessão

O RIO DE JOÃO CABRAL

Mas não pense que Janaína Azevedo vai falar de cidades maravilhosas

216

Sandro Rodrigues

220

Ana Elisa Ribeiro

232

O grande ∆

38 112 A ELEFOA 142 DINÂMICA 222 DE BRUTO WAGNER & BEETHOVEN

BUROCRATIA

COR-DE-ROSA

236

Número 2 • 20 de outubro de 2012 Contato revistamachado@gmail.com

243

Editor-chefe Delfin Editora assistente Viviane Oliveira Coordenação internacional Marcelo Barbão, Tibor Moricz Capa Guilherme Pilla Trilha sonora Tiago Casagrande (AYGN) Ilustrações Agata ‘Endo’ Novicka, Narghee-la, Delfin, Löis Lancaster, Caio Yo, Fernanda Paulino, Guilherme Pilla, Hiutwig, Iuri Kothe, João Grando, Liber Paz, Rod Reis, Vitor e Lu Cafaggi Fotografias Sergio Fonseca, Cassius Medauar, Mauricio Ribeiro Preparação de textos e revisão Viviane Oliveira

Mauricio Muniz

João Grando

258

Manuel Calavera

Projeto Gráfico Studio DelRey Publicada por Paradoxo Editorial Esta edição é dedicada à memória do escritor Moacir C. Lopes, colaborador de Machado e falecido em 2010


LOAS PARA

CARREFOUR

O terror, no cinema, é o gênero que mais valoriza os intérpretes de seus personagens, transformando-os, por vezes, em arquétipos. Se pedirmos para que você aponte um ator que encarnou Drácula, sua resposta possivelmente será Béla Lugosi, Christopher Lee ou Gary Oldman. A imagem de Frankenstein está conectada definivamente a Boris Karloff. Quando se pensa no lobisomem clássico, a imagem que vem à mente é a de Lon Chaney Jr., que, junto com Karloff e Lee, compartilha a honra de atuar no papel de outro famoso personagem, a Múmia, ainda que fossem múmias diferentes. Mas, quando se pensa em zumbis, nenhum nome vem fácil à cabeça. Afinal, eles estão sempre aos bandos, prontos para comer seus cérebros ou algo parecido, com atuações pouco dignas de nota. Mas, sim, existe pelo menos um zumbi notável na história dos filmes de terror.

Nascido em 21 de fevereiro de 1910 na cidade de Los Angeles, Darby Jones começou sua carreira como ator aos nove anos de idade. Por ser negro, conseguia apenas papéis de pouco destaque. Atuou em filmes de grandes estrelas dos anos 1930 e 40, como Hedy Lamarr, Dorothy Lamour, Sterling Hayden e Buster Crabbe. Porém, na maioria deles, sequer foi creditado e seus personagens mal tinham falas. A mudez, aliada à sua estatura avantajada e um olhar paralisante, foi fundamental para que Jones incorporasse o mais impactante zumbi da história do cinema, no clássico A Morta-viva (I Walked with a Zombie), clássico da RKO dirigido por Val Lewton em 1943. Seu personagem, o zumbi Carrefour, representava de modo muito fiel a cultura caribenha e os rituais vodu. Muito distinto, portanto, dos mortos-vivos dos filmes de George A. Romero.


CUIDANDO DE NOSSOS

JARDINS

Arte: Hiutwig

O inusitado para uma publicação on-line sempre foi uma ideia bem‑vinda para a Machado. Não foi por acaso que a revista embarcou na viagem de Tiago Casagrande assim que recebeu o e-mail com sua colaboração para a edição inicial. Nada que pudesse ser utilizado numa publicação impressa convencional. Não era um texto, nem fotografias ou ilustrações: era um extended play (EP) do projeto musical de Tiago, o All Your Gardening Needs (aygn, para os íntimos). In Stereo

Fui começando as composições pra ver o que surgia. Se não apareceu nenhuma ideia maior, nenhum grande conceito, trabalhei pensando na revista, folheando os números passados, e decidi fazer algo que fosse também uma espécie de “revista”. Se em Ace a proposta era de trilha pra leitura, algo mais ordenado, mais ao fundo, aqui eu quis (e/ou adquiri com a familiaridade com a Machado) que as músicas tivessem mais personalidade, como

O EP Ace homenageava uma russa que foi piloto de guerra e tal fato inspirou a revista a ter, a cada edição, uma homenagem a personagens que, na visão de muitos, mereceriam uma nota de rodapé na História. Também foi a colaboração do aygn a responsável pela adoção de uma trilha original a cada nova edição da Machado. Por ora, esta é a última colaboração do aygn para a revista. Na verdade, é o fechamento de uma trilogia musical, como o próprio Tiago conta agora.

se fossem um artigo ou foto/ Ilustração, ou trilhas específicas para matérias “imaginárias” -- que poderiam estar na revista; já que sempre me é uma surpresa o conteúdo --, e ver como as faixas casariam com a edição. Foi assim que surgiram sete músicas do ep, mais um tema principal (a última faixa, leitmotif). À exceção da última, todas foram criadas no usual método randômico aygn, folha em branco

onde uma frase puxa a outra até surgir algum texto (e o dobro desse tempo em ajustes e mixagem). E leitmotif, criada com o intuito de ter uma cara setentista, mezzo easy rider mezzo obscured by clouds, um tema que pudesse se repetir a qualquer momento, até em diferentes arranjos; logo, no conceito da criação, um tema pra Machado. Tiago Casagrande


O PERU

É A MAIOR ONDA! Texto: Cassius Medauar

Fotos: Cassius Medauar e Mauricio Ribeiro

Quando alguém fala para você que está indo viajar para o Peru, a primeira coisa que vem à sua mente é Macchu Picchu. Se você for olhar na Wikipédia, descobrirá que os ancestrais deles são os Incas, a população é de 28 milhões, o nível de pobreza é alto, o país vem crescendo nos últimos anos e mais um monte de outros detalhes interessantes. Mas não foi por causa de nada disso que eu e o Mauricio Ribeiro, um grande amigo de infância, decidimos ir para o Peru. O que nos atraiu foi a enorme quantidade de ondas boas que existem por toda a costa daquele país, inclusive na capital, Lima, que é uma cidade

litorânea. A segunda motivação tem a ver com algo citado acima: o fator financeiro. É barato viajar para o Peru. Podese comprar pacotes de uma semana a partir de 500 dólares. Depois de estudar várias opções, resolvemos ir para o norte e surfar em uma praia famosa chamada Chicama, conhecida mundialmente por ter uma das ondas mais longas e perfeitas do mundo. Como o país é banhado pelo oceano Pacífico, suas águas são frias e a gente precisou levar roupa de borracha, além de duas pranchas cada um para o caso de uma se quebrar ou de variação no tamanho das ondas.


Trujillo parece com Caraguatatuba ou qualquer outra pequena cidade litorânea que você conheça.


A aventura começou em um domingo, 5h30 da manhã, no aeroporto de Guarulhos, quando nosso avião partiu com destino a Lima, onde faríamos a escala. Encontramos um aeroporto pequeno, mas muito bonito e funcional, apesar de lotado. A viagem levou cinco horas e resolvemos fazer uma boquinha por volta de 11h30, quando tomamos nossa primeira cerveja da viagem. Antes que nos achem alcoólatras, vale contar que o Peru tem muitos problemas com cólera, e não se recomenda tomar a água de lá nem no chuveiro quando se toma banho, por isso optamos sempre por cerveja ou Coca-Cola. Não tivemos tempo de conhecer Lima na chegada porque pegaríamos um vôo para a cidade de Trujillo no começo da tarde. O novo voo levou mais uma hora. Chegamos em um pequenino aeroporto no meio do nada.

As pessoas foram embora rapidamente e nós... nada. Não estavam nos esperando. Um taxista solícito nos emprestou seu celular, falamos com o hotel e descobrimos que logo o carro nos pegaria. E o taxista solícito nos cobrou o uso do celular (sim, lá também não existe taxista solícito). Na viagem de mais ou menos cinquenta minutos de carro do aeroporto de Trujillo até o pequeno povoado chamado Puerto Malabrigo, onde fica Chicama, começarmos a ter uma ideia do que era o Peru. Pobreza por todos os lados com pequenas gotas de riqueza. Trujillo, a terceira maior cidade do Peru, parece com Caraguatatuba ou qualquer outra pequena cidade litorânea que você conheça. Carros, casinhas e povoados que íamos vendo na estrada eram todos muito velhos e mal cuidados. Mas de vez em quando víamos grandes picapes importadas passando.


Não havia meio-termo ali. Nosso motorista nos explicou que era muito perigoso viajar à noite pelas estradas, não só por causa dos bandidos, mas também pela polícia. Entre um povoado e outro, o visual era de deserto de um lado e montanhas de outro. Chegamos a Puerto Malabrigo que mais parecia uma pequena favela e fomos direto ao Chicama Surf Resort, que é

uma pousada muito bacana e com toda a infraestrutura para nos proporcionar um bom apoio para surfarmos. O hotel fica bem em frente à praia e na ponta da pequena cidade, tendo o deserto como vizinho do outro lado. Fomos recebidos por um belíssimo final de tarde de sol, com um visual maravilhoso das ondas bem em frente ao hotel, nos mostrando o que nos aguardava nos dias seguintes (se o motorista não tivesse atrasado, teríamos


surfado ainda naquele dia). Mas já pudemos perceber outra característica de lá: o povo muitíssimo hospitaleiro. Todos os empregados dali moravam no povoado e o turismo de surf é uma das principais fontes de renda deles. Todos eram muito simpáticos conosco e às vezes até nos deixavam sem graça de tanto que queriam agradar. Também descobrimos por que havia três refeições incluídas no pacote: não tinha absolutamente nenhum lugar aonde ir e, à noite, eles trancavam a porta da pousada porque era perigoso.

Dormimos com a expectativa do surf no dia seguinte. Um belo frio na barriga, afinal, apesar das ondas parecerem sensacionais, era uma praia desconhecida, com fundo misto de pedra e areia, água fria e que precisaríamos conhecer aos poucos. Além disso, nós dois somos surfistas de feriado e, apesar de praticarmos o esporte há bastante tempo, isso era igual a andar de bicicleta em uma trilha que você nunca andou.


Acordamos cedo, tomamos café da manhã e nos preparamos, pedimos informação, botamos nossas roupas de borracha e fomos para a água. Graças ao seu fundo parcialmente de pedra, geografia e correnteza, as ondas de Chicama só quebram para a “esquerda” de quem está na onda. Nos dias mais perfeitos e grandes (a onda chega a dois metros e meio, mais ou menos), se você pegar uma onda lá atrás no canto esquerdo da praia, poderá surfar toda sua extensão e sair no canto direito. Como a praia é em “L”, pode-se caminhar ao pé de um morro à esquerda, passando pelas pedras e se chegar direto no pico onde as ondas começam a quebrar, surfar até o outro lado da praia, sair e caminhar de volta. Ou voltar remando contra a correnteza, coisa

que muitos locais faziam. E que gelo aquela água! E que medo de algumas pedras que apareciam sob a água! E que correnteza que vai te levando para o lado! E que ondas perfeitas! Levamos um dia e meio para nos adaptar, mas depois da primeira onda surfada, já não me lembrava mais de nada que citei nessa frase, só queria pegar mais outra e mais outra. Não estava rolando a condição ideal de quando a onda corria a praia toda, mas o que acontecia era que você saía de uma onda, sentava na prancha e esperava a correnteza posicionar você em outra arrebentação intermediária e então remava pra pegar outra onda. Da primeira arrebentação, até chegar perto da praia, você poderia surfar quatro ou cinco ondas sem voltar para o fundo.


Pode-se caminhar ao pÊ de um morro à esquerda, passando pelas pedras e se chegar direto no pico onde as ondas começam a quebrar.


Levamos um dia e meio para nos adaptar, mas depois da primeira onda surfada, s贸 queria pegar mais outra e mais outra.


E falando em voltar para o fundo, aqui entra uma das grandes vantagens do hotel que escolhemos: eles tinham um bote que ficava circulando por ali e bastava você chamar que ele o levava até o fundo, não tendo que voltar remando ou andando pela praia. Isso nos poupava muito tempo. O segundo grande benefício era uma centrífuga. Quando chegávamos no hotel, já entregávamos as roupas de borracha, que eram colocadas na centrífuga, ficando limpas e (principalmente) secas para o surf da tarde ou do dia seguinte.


Mais do que uma viagem de surf, o interessante é que foi uma viagem de descanso total. Todos os nossos dias eram assim: acordávamos por volta de 7h, 7h30 da manhã, tomávamos um café reforçado e surfávamos umas duas horas. Então vinha uma cerveja, batepapo, rolava o almoço e depois um descanso. Mais umas duas horas de surf à tarde, saíamos do mar às 18h, 18h30, íamos para a jacuzzi, depois sauna, banho, cervejinha e então jantar. Mais papo, líamos, ouvíamos musica e entre 22h e 23h dormíamos. O hotel tem uma TV a cabo comunitária, mas nada de TV no quarto. Tem um computador com internet. Li dois livros enquanto estava lá: Goleiros, de Paulo Guilherme, e O Condenado, do Bernard Cornwell. Outro ponto interessante foi que, além de conhecermos o povo, havia também muitos estrangeiros e brasileiros por lá, alguns peruanos da alta classe também. Encontramos cariocas, catarinenses,

americanos e australianos, todos ali, em Puerto Malabrigo, buscando surfar as ondas perfeitas de Chicama. E em dois dias de ondas menores, usamos o período da manhã para fazer caminhadas pelo deserto com um havaiano chamado Simon que morava no nosso hotel e era meio que um mestre Yoda do surf. O domingo seguinte chegou rápido demais e saímos bem cedinho em direção ao aeroporto para irmos para Lima. Desta vez tínhamos muitas horas de distância entre um voo e outro, o avião para São Paulo partiria apenas perto da meia-noite, por isso resolvemos passar o dia na cidade. Pudemos constatar que, mesmo a capital, é um lugar bem pobre, parecendo uma grande periferia com um bairro chique (Miraflores) no meio. Foi para lá que fomos, caminhamos um pouco e ficamos em um shopping a céu aberto incrustado em uma grande falésia, com uma vista maravilhosa.


E lá fizemos outra descoberta: não há imposto de importação e as coisas no Peru são muito mais baratas do que por aqui. Chegamos no Brasil por volta de 5h da manhã, cansados depois de um voo cachorro, mas com um sorriso largo no rosto. Duas lições saíram disso tudo: surfar ondas perfeitas em outro país foi a realização de um sonho – e poderia ter acontecido antes; a viagem dos sonhos existe, e está esperando por você ali na esquina.

Em tempos de integração digital total e multimídia,, as viagens são cada vez mais uma boa válvula de escape para que sua mente possa descansar de tudo. O lugar nem precisa ser ermo, basta você conseguir desencanar do seu celular com internet por uma semana. Experimente.


SONHOS DE

KEIKO Texto e arte: Cadão Volpato

Uma mulher para diante de um elevador, com uma caixa de instrumento musical feita de uma madeira nobre da Amazônia debaixo do braço. Parece guardar uma harpa paraguaia. Levo a caixa para a rua e mostro a uns lixeiros trabalhando perto de um caminhão que mastiga. Eles se admiram com a beleza da caixa. Ela passa de mão em mão. Volto ao elevador. A mulher é loira e sem graça e segura um cavaquinho ou ukelele (ambos têm um elo perdido na Ilha da Madeira).


Não sei por que o instrumento já está fora da caixa. As cordas são iluminadas. Ela toca, o som sai elétrico e estridente, a melodia é desconhecida, mas comum. Assim mesmo uma multidão começa a se juntar. Estou no fim da multidão. Uma garota oriental se aproxima e encosta no meu ombro a cabeça de cabelos muito finos presos num rabo de cavalo. Sinto os fios macios no meu pescoço. Sinto o perfume do xampu, de uma erva perdida da Amazônia. Digo que sou a pessoa errada. Ela não está nem aí, nem me olha e quase abre um sorriso. Mantém a cabeça encostada no mesmo lugar, respirando comigo, ouvindo a música. Não me movo. Esta mulher é Keiko. * * * Um homem cansado caminha ao lado de um canal em Amsterdã. Faz frio, ele enterra as mãos nos bolsos do casaco de marinheiro. Em meio aos ruídos da noite, ouve primeiro os aros da roda de uma bicicleta, o tilintar de uma campainha e, em seguida, a queda na água. Tchibum. Volta e observa da margem o corpo molhado de uma mulher que acaba de sair da água tépida do canal, tiritando de frio. Parte da roda ainda está na superfície, mas não dura muito, afunda, e tudo que antes girava, desaparece. A figura de casaco de couro marrom, botas, saia e meias pretas olha para ele apertando os braços ao redor do corpo, tremendo e gotejando; ri, enquanto treme. Ele a espera subir, não é com ele. Mas tira o casaco e a cobre quando ela consegue alcançá-lo. Seu corpo é pequeno e frágil. Ela diz que perdeu a direção, e não para mais de falar, usa óculos escuros, debaixo das luzes mortiças da rua. Ele a leva a um café, ela toma um capuccino e come uma fatia de torta de maçã deliciosa. O café tem um nome flamengo que significa pequeno. Ou esquina, ela não tem certeza. E de repente fica paralisada. O príncipe entrou e saiu com dois potes de iogurte, ela diz. Da loja de conveniência do outro lado da rua, montado numa bicicleta velha igual à minha. É assim a realeza holandesa, ela diz, pessoas tipo eu e você. Uma pessoa que bem poderia ter sido Keiko. Foi o que pensei quando ela tirou os óculos para dizer aquilo. * * *


Eu assisto televisão e não acerto nenhuma resposta do programa de perguntas e respostas, mas não me importo nem um pouco, fico ali vendo meio retardado, esperando que qualquer coisa aconteça. E de repente acontece. Ela está lá, na bancada, ao lado de um macaco. E se diverte com o macaco, que tem força para triturar cinco homens, se quiser. Ele teme que ela passe a mão na cabeça do macaco. É um chimpanzé de cabelo dividido no meio e tem problemas dentários. Esteve refugiado no metrô, fugido do zoo, e mobilizou a polícia. Só foi descoberto quando o trem deixou a estação subterrânea e ficou a céu aberto. Ele arreganhou os dentes ruins para a polícia. Agora ele bate na campainha e erra todas, tanto quanto eu. E ela, avoada, só presta atenção no macaco, rindo de bobeira. Também não acerta nenhuma, por omissão. Os outros concorrentes não interessam. Ela começa a anarquizar tanto quanto o macaco, batendo na campainha vermelha sem saber nenhuma resposta. Ela é uma figura que não se pode prever o que fará a seguir. Em todos os sonhos esse papel seria de Keiko, caso existisse.


AO BATER DE ASAS

DE GALINHAS

DECAPITADAS Texto: Juliano Ribas Arte: Caio Yo

A Verdade foi sussurrada no ouvido dos malditos. Impossível para eles suportar o seu teor. Eu não sei como ela soou em seus ouvidos: se foi uma música, um tilintar, um chilro, uma língua morta ressuscitada que pudesse ser entendida instantaneamente, tampouco qual era exatamente o enunciado da Verdade. Eles, os malditos, desapareceram do mundo e isso era o que importava. A partir daquele momento ele era nosso. Os malditos desistiram com uma resignação tão submissa quanto a da mais inglória abdicação. Nenhum deles disse nada, nada havia para ser dito. Nenhuma contrariedade esboçaram, nenhuma lágrima choraram, nem franzir a testa franziram. Estavam esturricados do orgulho que sempre foi o motivo de seus risos e choros. Nada mais havia dentro deles, tudo o que acreditavam os abandonou como o suor que foge vaporizado pelos poros. A realidade seca os afogou em vazio.


Foi assim: desciam pelas escadas dos prédios, deixavam as baias das repartições, largavam as ferramentas nos galpões, evadiamse dos escritórios das corporações, das mesas das instituições. Abriam as portas das casas, as da frente e as dos fundos e de lá saíam andando, errando a esmo. Caminhavam em ritmo de cortejo, aturdidos, mudos. Bestas. Aquela expressão apalermada que sempre sonhamos ver nas suas caras. Cretinos. Sem os adornos que escondiam seus porões. Parvos. Sem a altivez fabricada por seus trejeitos e maneirismos. Uns nus. Uns descalços, uns pés sangrando, uns rastejando, uns pisando em qualquer troço ou coisa. Uns introduziam mecanicamente os dedos ou objetos em seus orifícios. Um deles caminhava enfiando uma rosa e seus espinhos buraco do pênis adentro. Um socava um lápis no ouvido e, no que a ponta atingisse algum limite, forçava ainda mais a punção. Uma caminhava desconjuntada, pois a sanha para aprofundar quase todo o antebraço em sua vagina retirava dela qualquer traço de deslocamento tipicamente humano. Um arrancou seu próprio dedo médio e o enfiou no ânus e com a mão decepada de um dedo, sanguinolenta, enfraquecida e sem tração, tentava pateticamente arrancar o outro dedo médio para que também preenchesse seu reto. A sobra de orgulho que ainda não tivesse sido extirpada pela Verdade eles mesmos buscavam destruí-la através da violação de seus corpos e imagens de forma aparentemente inconsciente, como se a Verdade agisse pelos seus estímulos nervosos. O bater de asas de galinhas decapitadas. Isso acontece poucas vezes numa vida: de repente você começa a ficar muito certo de que alguma coisa muito boa vai acontecer. Fica atento à roda do mundo e vê em fragmentos de casualidades que finalmente você e ele acertaram os sentidos. Esses fragmentos, esses pedacinhos de vida ideal, vão sendo gerados espontaneamente diante dos seus olhos e essas imagens refrescantes, essas minúsculas gotas de maresia, levadas para dentro da alma, onde o deserto começa finalmente a dar lugar ao mar. Eu sei porque foi assim que me senti antes daqueles dias. Parecia que o que houvesse de magnético no planeta encontraria em mim um receptor, um transformador e um distribuidor. Tive a nítida impressão de interferir no fluxo da densa massa invisível em que a realidade chafurda. De que eu estava em todo lugar onde deveria mesmo estar e de que minha presença o transformava em algo notório, de confluência de boas coisas e almas. Foi em um lugar desses que eu vi o primeiro deles desistir. Estava no meio de nós e de um átimo a outro saiu caminhando daquele jeito que eu falei. Passos adiante, já havia se livrado da sua armadura civil, foi deixando paletó, calça, cueca, camisa, sapatos, meias. Engoliu as


abotoaduras. Embora o diâmetro do anel de pano ainda tivesse continuado justo para a circunferência da sua cabeça mesmo após tê-lo estirado e o nó estivesse tão teso que não permitisse mais nenhum milímetro de alargamento, puxou a gravata para cima, tão intensamente que imprimiu ao relevo da cabeça forte vermelhidão, que se intensificou quando o aro de sofisticada fazenda provocou tamanha pressão ao seu nariz a ponto de quebrá-lo, fazendo com que jorrasse sangue e visco por toda a cara. Nós começamos a ver esse tipo de coisa por toda a parte. A Verdade sendo sussurrada nos ouvidos dos malditos, dos usurpadores, armadores de arapuca, coisas ruins dos infernos, tumores dos âmagos, mercadores de verdades artificiais e de artifícios chacais, lordes feitores, fortes senhores, atiradores da primeira pedra, autores da primeira agressão, professores de talião, bloqueadores, mestres das dores, falsos amores, noites insones, fingidos desgraçados. O mundo foi se entupindo de pureza e graça. Vivíamos nossa epifania, o sonho de vida ideal individual materializava-se diante de nossos olhos. Deliciávamos alvoreceres particulares de indescritível beleza. Entrementes os malditos suicidavam-se e imolavam-se em rituais bizarros ao nosso redor, o que nos proporcionava intenso deleite. Não os odiávamos, ódio era coisa deles, bem como qualquer tipo de revanchismo, apenas sabíamos que tudo aquilo era a depuração de um organismo velho, podre e viciado e tal regeneração era o motivo de nossa alegria. Hoje eu sei: quando ela aparecesse, eu deveria mesmo estar vivendo tudo aquilo. Eu não sabia, nem poderia saber. Para mim o que acontecia já era a realização de um sonho latente que habitava alguma dobra da alma e gritava silente a cada bombear do coração. Então a vi. Fiquei imediatamente certo de que ela era o milagre que faltava. Nua, nula, tola e linda. Avançava em minha direção, passo-pluma, passo d’água, passo-brisa, macio, ela andava. De cabeça nem baixa nem alta, crânio firme, sem meneios. Não fossem alguns movimentos muito delicados que podiam ser observados durante sua trajetória, era possível ser levado a crer que se movimentava sem dar passo algum. Passou ao meu lado e seguiu ao largo caminhando rumo a uma enorme e profunda cova. Tivemos de abrir covas por toda parte para que os malditos se atirassem nelas para morrer. Abrimos as grotas com suas dinamites, seus explosivos e seus artefatos de morte, última utilidade que teriam em nosso novo mundo. Uma bruma de poeira permanecia suspensa devido às explosões necessárias para a abertura das covas, um nevoeiro amarelado, nem espesso nem ralo, que proporcionava um aspecto dourado à paisagem. Logo a poeira baixaria, deixando o céu renascido resplandecente sobre nossas cabeças e os malditos enterrados sob nossos pés.


Mas quero falar dela. Foi por ela que tudo aconteceu. Ela caminhava em seu passo-veludo rumo ao precipício e eu empedrado. Eu não raciocinava, apenas recebia um bombardeio de estímulos congelantes que me dominavam totalmente. Então, respondendo a um ínfimo resguardo do meu querer, libertei-me da paralisia. Corri, corri como nunca, minha ansiedade era tão grande que parecia que nunca a alcançaria. Agarrei seu braço a meio passo do abismo. Ela, que estava de costas para mim, virou-se num movimento de alavanca e, feito isso, desequilibrou-se, deixando um pé cravado no limite, outro como bolha no vazio. Frente de um para o outro, formamos com nossa união um pêndulo, os dois com um pé no limite da terra, outro no ar à guisa de contrapeso, o que deixava nossos corpos em diagonal em relação à superfície, permitindo que eu, ao menor afrouxamento do retesar de feixes que deixava meu corpo rígido o suficiente para manter o pêndulo em sustentação, despencasse junto dela cova abaixo. Era uma bruta queda, dezenas de metros. Nós tínhamos usado grandes quantidades de explosivo para abrir aquelas crateras fúnebres. Eu pensei verdadeira e intensamente em deixar meu corpo ao léu, fruindo um voo em busca da eternidade. Morrer morrido, morrer com tudo, morrer profundo, morrer tanto, de tanta morte que é vida. Um morrer-e-virar-luz. Mas puxei-a para mim, fazendo-a rebater em meu corpo como um pedaço de madeira que é jogado à margem do rio pela correnteza. Com isso, demos três passos no sentido de meu deslocamento em retrocesso. Ela reverberou o choque por alguns segundos com profundo olhar de coisa alguma. Por seu cheiro, pude perceber que já caminhava havia alguns dias. Ela fedia. Um fedor que eu não queria nunca parar de cheirar. Um ranço gostoso, odor de maldita. Seu corpo brilhava suor e fluidos que escorriam de seu nariz, boca, ouvidos, ânus e vagina. Tinha evacuado por dias nas próprias pernas. Era o próprio demônio desalentado e entregue. Deitei-a no chão, tirei minhas roupas e usei-as para limpar seu corpo, deixando o tecido tão sujo que a cor predominante deixou de ser a original para ser a dos detritos retirados da pele da coitada. Ainda exalava aquele fedor. Ainda uma flor. E comecei a fodê-la de um jeito agudo, dominante, aviltante. Eu e ela enevoados pela poeira de bombas, caídos à beira da cova, tramando contra qualquer coisa que existisse, mesmo que fosse contra o mundo novo, puro e justo. Nem ele nem seus alvoreceres importavam. Aquela foda era o mundo. O que fazíamos era podre, fedido e vil. E só fazia querer mais. Mais. Mais. Mastiguei-a enquanto a fodia, comi seus braços, maçãs do rosto, arranquei a pele do seu pescoço, chupei seus olhos como uvas, arranquei seu escalpo à dentadas, os bicos dos peitos à unha.


Levados por seus espasmos, os malditos passavam por nós à borda como zumbis e se atiravam na cratera enquanto eu a devorava num desejo tão intenso e só possível de ser completo através de ímpetos canibais. Satisfiz todos os instintos existentes, amei odiosamente, cuspi meu visco profano em sua carcaça. Todo o prazer impossível, tido. Ao bater de asas de galinhas decapitadas. “Qual o quadro?” “Transtorno de espectro histérico. Comportamento violento. Resistência à sedação. Catatonia. Canibalismo.” “Canibalismo. Faz tempo que não nos aparecia um canibal.” “Mesmo imobilizado, comeu a orelha de um dos paramédicos. Foi encontrado nu, correndo pelas ruas de um bairro, gritando, membro sexual rijo com polução intensa e contínua.” “Dizia alguma coisa?” “Algo sobre outro mundo. Mas em frases ininteligíveis, desconexas. Gritava ‘maldita’ todo o tempo. Lunático de merda.” “Eletroconvulsoterapia. Depois, dobre a sedação.” Eu gostaria de contar tudo a eles. Criar uma maneira de interação que sublimasse as limitações que me foram impingidas e descrever, à semelhança do que está indelével na memória, a criação do novo mundo, o mundo livre deles, os malditos. Tudo o que vi e senti, o regozijo, os alvoreceres, as alvíssaras. Dizer a eles que eles estão com os dias contados, que irão desaparecer como robôs defeituosos que marcham para o ferro velho. Que um dia serão nada mais do que galinhas se debatendo pelo terreiro após o cutelo decepar suas cabeças. Mas enquanto penso em tudo isso, saliva escorre pelo canto da minha boca que permanece entreaberta, pois fechá-la me traz grande desconforto. Meu corpo não responde de forma adequada aos estímulos organolépticos, sofro o tempo todo de espasmos pépticos, luto contra membros que desejam errar cada um para um lado. Gostaria de tentar redigir essa história que não para de ser reproduzida em meu cérebro, gostaria que lessem e, se não me libertassem, pelo menos soubessem o que espera por sua raça um dia. Mas a carga dos choques aos quais sou submetido diariamente como petit déjeuner deixaram minhas mãos trêmulas a ponto de não conseguir segurar um lápis sem derrubá-lo ou espremê-lo até que se quebre. Não doso forças, não controlo o esfíncter, tenho dificuldades de equilibrar a cabeça no eixo do pescoço. Agora estou aqui, nu, nem deitado nem sentado num chão duro de cimento áspero, todo cagado e mijado, rodeado de demência, olhando para o nada. O que vejo é apenas uma fotografia sinistra que serve somente de


fundo para a projeção das imagens maravilhosas do dia em que a Verdade foi dita aos malditos. Do dia em que a vi e fui corrompido por ela. Maldita. Maldita! Por isso estou aqui, de volta a muitos anos antes do dia da Verdade, estragado e estranho, na ponta mais frágil da escala de importância que eles inventaram para catalogar o mundo ao seu modo. Isto se pode chamar de inferno. É minha punição por não ter resistido. A salvação me pareceu fácil demais. Antes tudo tivesse esvaecido em minha mente e eu fosse tomado pela loucura real, mas não seria mais castigo. A memória é o açoite que me faz sofrer quando penso no mundo que deixei. E sorrir quando penso nela e no prazer último e definitivo de nossa funesta vilania. O último escarro de podridão no mundo puro. Maldita! Maldita! Maldita!


O HUMOR CLÁSSICO DE WAGNER & BEETHOVEN Mauro A. é um cara foda. Sério. Se nunca ouviu falar dele, talvez você não costume reparar em créditos na internet. De qualquer forma, já deve ter visitado algum de seus blogs e gostado. São suas criações os impagáveis Coisas de Idiota e Cearenses Internacionais. Implacável, conquista cada vez mais leitores com seu humor corrosivo. Uma trilha de êxitos que inclui a publicação da inusitada série de quadrinhos Wagner & Beethoven.

Quem poderia, afinal de contas, imaginar que os compositores alemães do século XIX teriam, mais de duzentos anos depois, uma nova legião de fãs que está pouco ligando para a Nona Sinfonia ou O Anel do Nibelungo? Graças a W&B, Mauro já colaborou com a revista Playboy e o falecido jornal MTV Na Rua. Mas não era o bastante: atentendo a nosso convite, chega à Machado a dupla mais incisiva desde Statler & Waldorf. Bravo!


Encantadas. Assim podemos definir algumas coisas na vida. Um amor inesperado que acontece por causa de um blog. Uma oportunidade que só acontece porque alguém estava no lugar errado na hora certa. Tudo acontece quando o imponderável atua. Para alguns é sorte e, para outros, coincidência. Mas no fundo sabemos que o que acontece é algo mágico, que parece operar secretamente para que tudo aconteça quando e se tiver que acontecer. Há de se ter isso em mente quando alguém perguntar o motivo da segunda parte desta entrevista com Neil Gaiman surgir apenas agora, mais de quatro anos após a sua realização, em julho de 2008. Em verdade, é mesmo muito tempo. Mas talvez o tempo certo para entendermos o escritor de hoje, suas influências e seu pensamento, logo antes dele começar a ser reconhecido verdadeiramente por sua obra literária. Por isso, esta entrevista é, em múltiplos sentidos, também encantada — que revela involuntariamente, por exemplo, como o autor inglês conheceu sua atual companheira, Amanda Palmer.


NEIL GAIMAN A ENTREVISTA PERDIDA PARTE 2 Por Delfin

Fotos: Sergio Fonseca


Notas do editor No intervalo de tempo entre a realização e a publicação desta entrevista, algumas partes ficaram naturalmente desatualizadas. Os textos acessórios procuram atualizar a informação, bem como esclarecer o leitor sobre obras e autores pouco conhecidos do público brasileiro. O livro do cemitério, livro infantil de Neil Gaiman hoje mundialmente premiado, ainda não havia sido lançado, mas poucos jornalistas no mundo tiveram acesso antecipado ao trabalho. Foi o nosso caso.


D - Sobre os seus livros juvenis. Você os escreve por causa de seus filhos? G - Sim. D - Como é a experiência de apresentar a fantasia e o terror a crianças pequenas? G – Acho que a coisa mais interessante sobre escrever fantasia e terror para crianças é que você não está introduzindo o terror a elas. Você não precisa dizer a elas que há um monstro embaixo da cama, elas sabem, antes que você diga, que existe um monstro ali. Você não diz a elas que há algo sinistro nas sombras das paredes de seus quartos depois que as luzes se apagam, pois elas já sabem e então podemos falar assustador sobre essas mesmas sombras. O que você diz a elas é que mais alguém sabe disso, e que essas coisas podem ser derrotadas. Meu novo livro, O Livro do Cemitério, é provavelmente aquele que me deixou mais orgulhoso dentre todos os que escrevi. Ainda estou orgulhoso dele, é melhor do que o que estava na minha cabeça quando sentei para escrevê-lo. Uma das regras que me impus ao começar foi não fazer crianças com medo de fantasmas. Crianças que fazem piadas disso não têm mais nada a temer. Então fui escrever um livro sobre um cemitério dizendo que as coisas de que você deve ter medo são as que estão vivas e a maioria delas não seria sobrenatural, nada de que você tivesse ouvido falar. A própria necrópole se torna um lugar muito seguro, em que se pode brincar, e são os mortos que querem se proteger do que é perigoso. E esta foi uma decisão que marcou o começo da escrita desse livro para mim.


Rudyard Kipling

As últimas gerações conhecem os personagens de O Livro da Selva graças, principalmente, à adaptação feita pelos estúdios Disney para desenhos animados. Mas é importante saber que o livro fala sobre a Índia e a infância, dois assuntos que se conectam à biografia do escritor inglês, que viveu até os seis anos de idade na antiga colônia britânica.

D – Você acha que O Livro do Cemitério é uma espécie de O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, para o nosso século, sendo Nobody Owens [na edição brasileira, Ninguém Owens] uma espécie de Mowgli? G – Sim! Sim, definitivamente. Foi assim que começou para mim. E tive a ideia vendo meu filho, que hoje em dia tem 24 anos e é programador sênior no Google. Enquanto ele pedalava em seu triciclo pelo cemitério, que ficava perto de minha casa –não tínhamos um jardim, então ele brincava no cemitério. Olhando para ele, pensei: “posso contar uma história, bem do jeito de O Livro da Selva”, e foi o começo de tudo para mim. D – Há um tema recorrente em muitas de suas histórias, como em Coraline, Lugar Nenhum e O Livro do Cemitério: os personagens principais passam por uma porta ou portal e então são levados para outro universo. Por que esse tema é tão presente em sua literatura? G – Eu não sei! E, para minha sorte, eu não preciso saber. (risos) D – Porque é curioso. G – Eu sei! É uma coisa assustadora para mim. Há alguns anos, eu estava na Itália escutando um professor falar para crianças sobre o meu trabalho, enquanto a palestra estava sendo traduzida para mim. E eu ouvia e disse “Espera, ele não estava falando sobre o que eu já escrevi, mas sobre os dois livros em que eu estava trabalhando”. E foi muito estranho ouvir uma conversa sobre Os Filhos de Anansi e O Livro do Cemitério. Pensei que tudo o que eu quero fazer quando estiver escrevendo meu próximo livro, é não fazer nada que alguém já tenha feito antes. E então, você pensa que há algo mais além, e realmente há, e você faz algo ainda mais além e percebe que tem que fazer algo diferente outra vez e, enfim, percebe como tudo se alinha perfeitamente. E muito do que você pensa quando olha para trás se alinha perfeitamente. De minha perspectiva, enquanto o escrevia, Nobody não tinha nada a ver com meus outros personagens, o que é uma das melhores coisas que podem acontecer quando você os compara. Não há um ponto onde... em Lugar Nenhum, por exemplo, ou em Stardust e em Coraline, existem momentos em que os personagens passam por uma porta e adentram um outro mundo. Em Deuses Americanos, você não tem uma porta literal, mas um momento metafórico em que Shadow vai para a prisão e termina em um mundo muito mais delirante que ele jamais imaginou existir. Em O Livro do Cemitério, para Nobody não existe porta, não existe momento em que ele se mova de um mundo para outro, exceto pela primeiríssima coisa que acontece quando ele é um bebê que já consegue engatinhar,


O mundo ĂŠ enorme.


Existem momentos em que os personagens passam por uma porta e adentram um outro mundo.


então sai de sua casa e vai até os portões trancados do cemitério. Eu não sei, não sei por que fiz isso, não sei por que, na maioria dos meus romances, eu faço isso. É que Lugar Nenhum, Deuses Americanos, O Livro do Cemitério e mesmo Os Filhos de Anansi terminam em movimento, terminam com os personagens indo para algum lugar, eles não terminam num momento de inércia, que é o que a maioria dos escritores faz e que é o que se costuma fazer em romances. E eu não ligo, os personagens acham um jeito de parar quando a escrita para, e então se pode ler. D – Você escolheu uma perspectiva densa quando optou por construir uma mitologia americana em Deuses Americanos. Então, quando escreveu sua sequência, Os Filhos de Anansi, você optou por escrevê-la de modo mais bem humorado. Por que a mudança da visão de um romance para outro? G – Eu imaginava se, na próxima vez que encontrássemos Anansi, ele estaria morto. Nós poderíamos encontrá-lo antes que ele estivesse morto, o que provavelmente seria divertido. (pausa) Deuses Americanos é um tipo de romance: se alguém fizesse o que eu fiz com o conto de Shadow em Coisas Frágeis – a história se chama “O Monarca do Vale” –, seria o mesmo tipo de história. E se eu fizesse outro romance como Deuses Americanos, seria o mesmo tipo de história. E as características de que falo são: as pessoas vivem num universo em que há muitas promessas e atos extremos, em que coisas ruins acontecem com pessoas boas e coisas ruins acontecem com pessoas más. E, se você tiver muita sorte, poderá às vezes ter um momento de felicidade, ou de glória, ou de magia. É o que acontece com a maioria de nós. Os Filhos de Anansi é um outro tipo de livro. Eu quis fazer uma comédia, quis escrever um romance que soasse como os livros de comédia dos anos 1930, com todas as coisas que eu gostava sobre autores como Thorne Smith e P. G. Wodehouse, ou em filmes como His Girl Friday (Jejum de Amor, 1940) e Ball of Fire (Bola de Fogo, 1941). E talvez o livro compartilhe alguns personagens com Deuses Americanos. Então acabei percebendo que seria um tipo diferente de história, um que eu queria contar envolvendo tais personagens. Acredito que seria muito trabalhoso para mim convencer meus editores a não anunciarem ao mercado esse livro como uma sequência de Deuses Americanos. Porque não é. E continuam me dizendo, como você mesmo disse, que Deuses Americanos é escrito em um tom e Os Filhos de Anansi em outro, então perguntam: “Como você pode fazer isso?”. O que eu realmente não entendo é como não aceitam que romances passados num mesmo mundo possam ser escritos em tons diversos. E minha resposta é: o mundo é enorme. (risos) Você pode pegar qualquer ser humano, pegar sua vida por um instante,

Thorne Smith

O escritor americano poderia facilmente ser classificado como um one hit wonder de sua geração. Explodiu em 1926 com Topper, livro que misturava sexo, fantasmagoria e outras fantasias sobrenaturais, além de muita bebedeira (como, se dizia, era também hábito do escritor).

P. G. Wodehouse

Não seria exagero nenhum colocar Sir Pelhan Grenville Wodehouse entre os maiores escritores do século passado na Inglaterra. Mas, essencialmente, o criador da série de livros Jeeves era um exímio humorista, que retratou com rara propriedade o seu tempo, equilibrando momentos hilários com uma prosa que ainda arrebata críticos e escritores. E fazendo de tudo um pouco, quase tudo muito bem.


O Hobbit de Guillermo Del Toro

Em abril de 2008, o diretor mexicano foi contratado para dirigir o filme que precederia as aventuras vistas na trilogia O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson. Apesar de não gostar muito de hobbits, como disse em uma entrevista anos antes, Del Toro avançou bastante no projeto, o que incluiu sua participação definitiva no roteiro do filme. Porém, o fato é que Peter Jackson reassumiu o projeto, que se tornou uma nova trilogia de filmes.

que contenha a história que você quer contar, e pode narrar uma comédia, uma tragédia ou fazer pornografia, com a mesma pessoa e com os mesmos eventos desse instante. Você só tem que apontar e escolher! A verdade sobre a vida é que, na realidade, você pode estar numa viagem com seus amigos e ter seu coração partido, e você pode estar num avião e olhar o comissário se levantar e bater com a cabeça no bagageiro, derrubando tudo em quem está à sua volta, e isso ser a coisa mais engraçada num momento perfeitamente ridículo, de pastelão, no meio de uma tragédia, e eles tentam se manter impassíveis diante de tudo isso. Eu realmente gosto disso, de pôr a cabeça para fora e alegremente saber dessa verdade. D – Sobre o filme da Morte. Você vai mesmo dirigi-lo? G – Sim, este é o plano. D – Vocês têm um roteiro, vocês têm planos? G – Sim, temos um roteiro, temos planos, tudo isso. O problema que temos agora para resolver é que os direitos de Sandman e dos personagens relacionados a ele são da Warner e precisamos reverter isso, descobrir como fazer para que os tenhamos para nós. Neste momento, enquanto a DC Comics e a Warner tiverem os direitos sobre os personagens, tudo está parado. Outro problema que nós temos é que a [produtora] New Line, basicamente, fechou suas portas. D – E quanto à Warner Independent Pictures? G – Também foi fechada. D – Oh. G – O que eu tenho comigo é Guillermo Del Toro. Ele será meu produtor executivo, ele quer fazer o filme e o mundo quer manter Guillermo feliz porque, atualmente, ele está fazendo O Hobbit para a Warner, então... cruze os dedos! D- Ok! E também ouvi falar sobre Coraline, o filme. Está sendo usada uma nova técnica em sua filmagem. Você pode falar um pouco sobre esse processo? Estão respeitando o seu livro? G – Sim, respeitam. E, de tudo o que eu tenho visto de longe, é maravilhoso. É o maior filme de animação já feito e também o maior já feito em 3D. D – 3D real? G – Sim. D – Ora! G – Ele foi filmado utilizando duas câmeras ao invés de uma. Mas o mais assustador é que se trabalha o dia todo para se obter sete segundos de tomadas. D – (risos) Mas quanto tempo de duração terá o filme? G – Por volta de 80, 88 minutos. D – É bastante tempo. Sabe quando será lançado?


Eu quis fazer uma comĂŠdia, quis escrever um romance que soasse como os livros de comĂŠdia dos anos 1930, com todas as coisas que eu gostava sobre autores como Thorne Smith e P. G. Wodehouse.


Amanda Palmer

Sempre polêmica, Amanda Fucking Palmer é uma das duas cabeças da banda The Dresden Dolls, de relativo sucesso no circuito alternativo. Esta entrevista revela, totalmente sem querer, a origem de um relacionamento afetivo que levou a cantora e Neil Gaiman a se casarem, no final de 2010. Apenas um ano antes da entrevista com Gaiman, a cantora havia declarado publicamente a sua bissexualidade.

Béla Fleck

Um dos maiores tocadores de banjo do mundo, Béla Fleck é conhecido mundialmente por sua técnica apurada e por seu estilo inovador, que renovou o cenário do bluegrass. Suas bandas mais conhecidas são New Grass Revival e Béla Fleck and the Flecktones.

G – Em março de 2009. Com sorte, o filme vai estar terminado em alguns meses, entre setembro e outubro de 2008. D – Há uma data para a estreia no Brasil, numa sexta-feira 13, em fevereiro do ano que vem. G – Legal! D – Por causa de Coraline, a próxima continuação de SextaFeira 13 foi transferida para sexta-feira seguinte, dia 20! G – (risos) Isso é adorável. D – Você tem uma série de conexões com a música. Tori Amos, Duran Duran, Alice Cooper... G – Amanda Palmer! Conhece Amanda Palmer? D – (risos) Sim, sim. E como você se conecta com isso? G – Gosto dessas conexões. Uma das coisas que eu gosto em relação às vindas para o Brasil é voltar para casa com um monte de CDs. Foi assim que eu pude descobrir Marisa Monte, alguém que nunca vi nas minhas viagens à América Latina. Eu adoro música, adoro ter um iPod cheio de coisas e também as vezes que as pessoas vêm e me apresentam coisas. Tori era uma fã e me mandou uma fita, em 1991. Amanda Palmer... Eu trabalho com Amanda agora, porque, com o Dresden Dolls, ela está fazendo uma... Desculpe, você está bem? (um acesso de tosse forte, meu, interrompe a entrevista. Após um copo de água, Gaiman continua:) G – Uma das coisas legais do meu blog é que as pessoas me mandam músicas estranhas e, se tiver alguma coisa que eu goste-- e eu gosto de muitas-- menciono no blog. Eu descobri, por exemplo... eis um belo exemplo do jeito que o mundo funciona. Você sabe quem é Béla Fleck? D – Sim, claro. G – Béla Fleck é provavelmente o maior tocador de banjo no mundo, hoje em dia. Bem, eu estava em meu blog, e estava falando sobre O Livro do Cemitério e eu disse: “Quantos de vocês achariam legal se alguém tocasse a Danse Macabre no banjo? Não seria bacana?”. Um dia depois, eu recebi um e-mail de Béla Fleck, dizendo: “Ei, fala sério! Eu adoraria fazer isso!” (risos) E eu: “Ah, legal, podemos tentar com você!” (mais risos). Então, você pega essas conexões e você pega essa coisa da Amanda Palmer, que surgiu por causa de um cara chamado Jason Webley, que fez uma música chamada “Eleven Saints”, que eu linkei no meu blog, porque achei que era uma grande música. E Jason entrou em contato, me mandou alguns de seus CDs e, então, ele estava em um projeto com Amanda, e me mandou um e-mail dizendo: “Ei, estou fazendo isso


Uma das coisas legais do meu blog é que as pessoas me mandam músicas estranhas e, se tiver alguma coisa que eu goste — e eu gosto de muitas — menciono no blog.


O que eu penso ĂŠ que [o diretor Matthew Vaughn, de Stardust] perdeu a delicadeza, perdeu totalmente o sentimento daquele mundo.


com Amanda, e eu gostaria que você mandasse um email para ela, é uma grande fã sua”. Eu mandei para ela uma pilha enorme de livros e quadrinhos, e no dia seguinte ela entrou em contato perguntando se eu não gostaria de escrever algo para a contracapa do seu novo álbum e se eu não gostaria de fazer algo com ela enquanto estava em estúdio, e eu disse sim! E eu já era fã do Dresden Dolls havia uns quatro anos... Eu não sei. É algo que definitivamente você não consegue controlar. De Duran Duran para Alice Cooper para, claro, Amanda Palmer e para Béla Fleck, é louco! De Neil Gaiman para Béla Fleck, para Duran Duran, para Amanda Palmer, tudo se completa. E é bizarro, o modo como as pessoas se aproximam e ficam amigas. Fiz um agradecimento no meu blog outro dia a todas as pessoas que me escreveram, me deram sugestões e que puderam me dar seus pontos de vista sobre meu novo livro, O Livro do Cemitério. Não posso me lembrar de todos, mas entre eles está Moby. Ele leu e adorou. Eu pensei na hora que as pessoas que respeitam Moby iriam ler isso é pensar: “Moby? Não é o mesmo Moby!”. (risos) D – Seja sincero, por favor: o que você achou do filme baseado em Stardust? G – Acho que Stardust, o filme, é uma obra adorável sobre Stardust, o romance. Mas acho que você poderia fazer... Eu tento explicar para as pessoas. Digamos, se eu fosse um dramaturgo e então, em 1983, o National Theatre decidisse produzir a minha peça e me perguntassem o que eu acharia disso, eu diria não ver problemas neles se interessarem em fazer uma versão interessante da minha peça”. Então perguntariam se eu não me preocuparia como seria essa versão, e eu diria que é claro que não. Eu adoro o que foi feito com Coraline, por exemplo. Algumas semanas depois que o filme em stop motion de Coraline estrear, Stephin Merritt, do Magnetic Fields, fará um musical, em Nova York, com uma senhora de 50 anos fazendo o papel de Coraline, e o papel da “outra mãe” será feito por uma drag queen, e ele escreveu canções lindas para uma apresentação extremamente corajosa do livro. E eu adorei isso, porque, no meu entendimento, o que eu fiz é o que eu fiz. E se alguém pegar e disser “isso é como eu vejo”, eu vou dizer “ótimo”! Quando eu vejo Stardust, o que eu vejo é Matthew Vaughn dizendo “adorei ler seu livro e é assim que o vejo”, mas o que eu penso é que perdeu a delicadeza, perdeu totalmente o sentimento daquele mundo. Por outro lado, ele joga luz em momentos que eu não dei destaque na obra, então quando veem Stardust e perguntam como eu teria feito esse filme, respondo que não poderia transpor o mesmo romance para a tela. Pois, para mim, a prazer deste romance é acompanhar os protagonistas em

Magnetic Fields

Este conjunto indie, comandado por Stephin Merritt desde o final dos anos 1980, tem como principais características a inovação musical, por meio da combinação de instrumentos pouco usuais para a criação de canções pouco usuais para o mainstream, e as letras frequentemente irônicas e amargas.


Watchmen

À época da entrevista, o filme de Zack Snyder ainda estava em fase de produção. Hoje em dia os problemas a serem debatidos sobre esta série seriam bem mais interessantes, devido á atitude unilateral da DC Comics de publicar séries em quadrinhos derivadas da história original em que o filme se baseou, o que causou a ira do criador Alan Moore.

sua jornada pelos lugares, com pessoas tentando matá-los, e eles nunca se dão conta! Há um encontro final entre o herói e a bruxa, agora velha e acabada, e os personagens nunca têm a noção de quanto perigo os rondou. E isso é uma enorme frustração no filme: você assiste e eles não fazem nada, apenas caminham por aí com todas as coisas acontecendo à volta deles. Eu meio que gosto desse rumo, mas, na versão de Matthew, eles se esforçam para atuarem de modo ruim. E sinto falta de algumas coisas. Eu gosto de minha Victoria Forester, que não é como a do filme. No filme ela é uma piranha! (risos) O que eu gosto deste personagem no livro é que ela nunca seria uma piranha, é alguém que realmente não tem ideia do que é se sentir sozinha, mas que também não se esquece do seu compromisso de matrimônio, ela está pronta para a possibilidade de se casar com Tristran. D – Porque ela é só uma garota de uma cidade pequena. G – Sim, é uma garota simples e, quando ele volta ela é emocional e belamente afetada por isso. Ela pondera que não quer ficar casada por ali, mas que fez uma promessa e vai mantê-la até o fim. Mas o que ela quer é se casar com o senhor Monday. E eu gosto disso como é no romance: se ela for uma piranha, continua sendo uma piranha. Mas dizer isso em um filme... Tenho aqui o audiobook de Stardust, eu o narrei todo, dura dez horas e meia. Se você quiser fazer esse filme, totalmente como ele é, você pode. Talvez algum dia a BBC o faça em sua série de clássicos, em sua versão integral. D – Você acha que Watchmen será um bom filme? G – Não sei. D – Pergunto por causa do tamanho da obra. G – Não sei, não sei nem como roteirizaram Watchmen. Mas eu também vi as fotos [de produção, à época recém divulgadas]. E eu disse: “Meu deus, isso parece tão certo!”. A produção, os uniformes, tudo certo. Mas, numa conversa com Paul Levitz, ao ver a mudança no uniforme do Nite Owl [no Brasil, Coruja], um pensamento me passou pela cabeça: por que você mudaria e gastaria um milhão de dólares para desenvolver uniformes que não sejam iguais aos que já foram criados em Watchmen, ao invés de usar os uniformes originais e fazê-los parecer críveis? Eu não sei. D – Só foram divulgadas fotos dos personagens principais e dos Minutemen, e elas parecem mesmo tão corretas! Apenas fiquei preocupado quando divulgaram que Contos do Cargueiro Negro [o metaquadrinho incluído na graphic novel Watchmen] seria um anime, e não uma animação que se parecesse com o traço de Joe Orlando.


Por que você mudaria e gastaria um milhão de dólares para desenvolver uniformes que não sejam iguais aos que já foram criados em Watchmen, ao invés de usar os uniformes originais e fazê-los parecer críveis?


Watchmen ĂŠ uma experiĂŞncia enorme para um filme de Sandman.


G – Sabe, eu gostaria de ver um Watchmen, creio, com cinco horas de duração e lançado em dois boxes, poderiam lançar um filme de três horas de duração e um intervalo no meio dele, como era quando eu era criança. D – Você acha que a indústria cinematográfica tem o direito de fazer filmes como Stardust e Watchmen, sem o envolvimento ativo dos criadores originais da obra? G – Existe a Lei de Gaiman, que diz que quanto mais próxima do quadrinho original for a adaptação para o filme, maior sucesso ele vai ter. O que é algo que nenhuma pessoa de Hollywood jamais entendeu e cujo erro já foi demonstrado pela DC repetidas vezes. Homem de Ferro funciona, porque ele se parece com o ideal do Homem de Ferro que existe em sua mente. O primeiro filme do Homem-Aranha funciona porque ele se parece com o que um filme do Homem-Aranha deveria ser. E quando você vai ler um gibi do Homem-Aranha, você sabe o que espera encontrar lá. O problema é quando você pega o Batman e tem vários Batmans que você pode pegar, qual deles você pega? A mesma coisa com o Super-Homem. Mas você tem a impressão de que se o filme do Super-Homem fosse mais parecido com os quadrinhos, ele funcionaria melhor. Com Watchmen, o caminho escolhido foi se aproximar dos quadrinhos, do modo que a Warner deveria fazer com seus personagens. É o que espero para os meus. Watchmen é uma experiência enorme para um filme de Sandman. Eu adoraria ver uma minissérie da HBO mais do que um filme, porque a série poderia abranger toda a obra, fazê-la de um jeito maior e melhor. Eu gostaria muito disso. D – Você pensa que cada um de nós poderia ser um pouco mais como Richard Mayhew, o herói de Lugar Nenhum? G – O que penso é que a História é feita com seres humanos totalmente normais, que são mandados para a guerra, ou colocados em situações impossíveis, para serem desafiados. Você subitamente descobre que alguém tem que tomar a dianteira, fazer uma escolha, e algumas vezes isso é com você. É a escolha que é feita para que você chegue ao nível que precisa alcançar. Acho que é como a História, e o mundo, seguem adiante. Gosto muito de uma das coisas que disse em Sandman: dentro de cada um de nós está o mundo. E é um mundo lindo, mágico e inimaginável que, se for visto de fora, alguém pode estar perdendo a chance de conhecer o mundo que está dentro dele mesmo, contendo pessoas e mundos dentro dessas pessoas. Uma das escolhas, eu acho, é retratar essa História a meu modo, ilustrá-la vez ou outra. É minha escolha.


ZUTI, ALHURES CAPรTULO 2 Texto e arte: Lรถis Lancaster


” Frank Zappa, Black Napkins

– Não precisa revelar quais são os códigos, me diga se você já combinou códigos com seus amigos e familiares para ser reconhecido caso troque de corpo com outra pessoa. Já? – Essa é uma pergunta assustadoramente coerente, ainda mais porque você usou o termo “código”, que remete a algo conscientemente estipulado e, dessa forma, contorna o problema de sinais involuntários característicos do comportamento da pessoa — a saber, se esses sinais vêm do corpo ou do espírito. Alguém poderia dizer que essa é uma questão derivada da concepção dicotômica alma/corpo, a qual deveria ser discutida no lugar dela, mas aí não haveria a possibilidade de sua pergunta, certo? Pelo menos não a princípio. Então eu respondo: não. Nunca havia pensado na questão nesses termos, porque os sintomas da vida que provavelmente a levaram a ser pensada por você, em mim levaram à tal outra questão: como reconhecer, através de sinais involuntários, que uma pessoa já entrou em contato com outra? Pessoas já me pararam na rua porque me confundiram com um amigo meu, apesar de ser notório o quanto não temos nada a ver um com o outro. Não é nada que uma foto possa captar, mas pequenos traços no jeito de falar (apesar do timbre de voz ser diferente), de se postar em pé, de andar mostram que convivemos muito no passado. E esse amigo já me contou que souberam que uma pessoa ausente o conhecia apenas por um gesto característico de meu amigo que a pessoa involuntariamente repetira. Acredito que tais “sinais” não são apenas indicativos, rastros da pessoa; eles a constituem de algum modo. O que fica de você em outras pessoas é o que sobra quando você morre; o resultado de sua interação involuntária com o mundo. Ou seja, não há separação alma/corpo, apenas separação corpo/outro corpo. Então, voltando à sua pergunta, eu diria: os sinais que me identificarão em outro corpo serão justamente os que não forem combinados por um código... .)(.


Hoje eu sonhei com você. Sei que é você porque nunca nos meus sonhos eu te vejo: eu te sou. De que outro modo eu poderia estar me vendo como — espero que não tão como — os outros me veem, e sentir como você as patadas insensíveis que desfiro? Além-dito, não conto ao estilo “me vi de fora”. Seria falso, porque mais eu te “fui de dentro”. Era o Schina mais a Truce na cozinha dela, o que eu via além de mim. Ela estava dele um pouco demais, pensando agora. Na hora nem estranhei, porque eu os apresentara a você naquele dia. E nem lembro pra isso de onde eu te conhecia. Mas talvez a Zuti do sonho tivesse estranhado, você já a conhecia pra perceber isso. E mais ainda eu percebo agora: a tensão atenta, mas desatenciosa, a fisionomia, meu, cansada de tão serena, tão never a dull moment, como um disco ninguém que relaciona qualquer estado d’alma só às capas poderia atestar de exemplo, um jeito de corpo que nem pra demonstração de handycam em vitrine eu de passante servia, recuso-me a lamentar que eu pareça essa lástima pras pessoas. E pra você? Como vou achar que pareço pra você, que nem existe, que só posso entender que te formulo de tanto ser o destinatário de que preciso urgentemente pra escrever alguma coisa. Daí devem surgir os redemoinhos pros fantasmas — puta labirinto de becos sem saída, ignorados por outros úteis que resolvem que “unidos vencerão”. Serão? Releio isso e não digo nada. Truce toda pro Schina. O sofá da sala era da cozinha, onde sentamos. Você nos via como se, o balcão na outra parede pra caber o sofá, deixa eu ver... sentado no fogão. Truce nem o Schina deviam estar preparando nada, ele que cozinha tanto mais que ela. Será que o sonho me contaminou com esse ciúme todo apenas pela paixão que eles davam a perceber? E nem davam com beijos ostentados ou coisa assim, era aquela certeza sem penhor de qualquer sonho, que eu só via e não sentia, decerto porque não era eu. Mas a certeza de que eu estava puta não conta com o sonho, é minha só agora. Eis então o sofá, com uma almofada menor que todas, de um couro meio ocre, e você pergunta se nós queremos filhos no futuro, eu de qualgum alguém e Truce do Schina. Claro o que a Tru diz; ela quer, e sabendo na


hora você sentiu desde sempre. Virando em seguida pra mim, sinto a lembrança de um sentido em seu olhar, que no sonho eu dei, ou por amor ou saber ser você, com o tempo da distância de um lugar a outro que nunca partiu daquele. Das duas, eu. E a Zuti respondeu com franqueza iniminha: “acho que não; filho não quero ter”. Era a resposta que eu lia em sua cara? Nessa hora eu queria não ter sido você, só pra fingir que eu poderia saber, como finjo da Truce e do Schina, como eles também eram eu de qualquer forma. Nessa e quando me toco que fui você sem te saber nada. Dormi com fome, devo ter, pra acordar precoce e lembrar de tanto caso. Agora acordei no quarto, tendo a mesma opinião — como disse, a resposta é a minha, só não era a franqueza. E nem foi isso o pior de estranho: virando sensualmente, com malícia que nunca tive, a Zuti me disse “sei que tu acha fazer parte da gente, mas eu, mano, eu ganho um sustento pra trinchar (meu, vê lá se eu uso esse vernáculo!) que você não peita nem se virando em trinta. E é esse esforço pra bancar tua pertença (nessa hora você se sentiu da meia altura das minhas gambas) que eu conto e peso os dias pra não durar. Aí vai pra onde tua impostura, querido? Chtô diélat?” E me aproximei, de uma distância e ângulo que nunca tive de meu rosto, que a ironia sonhada irradia com vizinhança, e o sol bateu de tal ângulo que eu vi de um verde tão claro minha íris, e sobre ela a fina fileira de pelos devassada até as falhas. Ainda não é bem isso. Talvez a diferença entre a franqueza anterior, digna de abertura a algum amigo que nunca tive, e logo em seguida um safanão desses, que também nem figuro a que se refere. Só me senti muito, se me pusesse algo de fora com certeza pensaria torcendo pr’eu não fazer aquilo, num desejo ou prece. Que Deus em sonhos deve ser pra realidade como nepotismo em empresas privadas: alcançável, previsível, nada interdito, a ordem coisal da natureza. Pode também ser que a Zuti onírica tenha se apenas protegido revidando o que ela achou ironia da parte dele; da minha, ou melhor, da sua. Desta frase em diante (apenas, mas) você sabe que meu útero é um túmulo de nascituros — pelo menos dois. E se eu no sonho não era como eu, como ia saber que você não sabia, me conhecendo tão bem ao ponto de me estranhar estar nua por dentro daquele jeito?


Texto: Guilherme Smee

Arte: Marcio Oliveira da Silva


E

SE? Texto: Álvaro Domingues Arte: Endo (Polônia)


Essa era a pergunta que a Luara adulta fazia toda vez que folheava seu diário. Por exemplo: “E se chovesse no meio daquele piquenique que eu odiei?”. E, em qualquer parte da página ou num pedacinho de papel grampeado, ia um comentário qualquer. “Tio Manuel ficaria ensopado e eu riria muito.” Gostava de imaginar um e se... para cada acontecimento. Ganhara o diário aos 9 e o usara esporadicamente até os 12 anos, quando bruscamente interrompeu suas anotações, retomando-as acompanhadas pelo e se... aos 15 anos. Luara, agora com 36 anos, usava o e se... como uma fórmula para manter seu equilíbrio, contrapondo suas pesquisas em Física Avançada com sua imaginação romântica. O diário era seu companheiro, mas ela evitava se lembrar do motivo que a mantivera afastada dele dos 12 aos 15 anos. “Os três anos que nunca aconteceram”, como dizia ela. Com exceção desse período, sua vida poderia ser considerada normal e saudável. Dra. Luara era uma física de sucesso e uma respeitável autoridade em sua especialidade: o tempo. De certa forma, seu diário de “e ses...” revelava sua preocupação maior, centrada nas realidades alternativas. Proferira centenas de palestras que iam de aspectos teóricos e técnicos a especulações filosóficas e éticas. Apesar do sucesso de suas teorias, Luara não esperava ver em sua vida alguma aplicação prática, até que ela e um grupo de cientistas ousados conseguiram resultados concretos com o transporte de seres vivos através do tempo. O fascínio dela pelo tempo e o buraco em seu diário a colocaram ali, no dia anterior a sua última anotação antes de seu silêncio de três anos. Temerariamente a Dra. Luara se lançara ao passado num protótipo e se materializara, por sorte sem testemunhas, numa casa abandonada, próxima ao local onde vivera. Ela estava vestida com roupas da época. Discreta, mas elegante. O que estaria fazendo ela ali? A grande física que palestrara muito sobre segurança nas viagens temporais estava prestes a fazer o que todos os manuais sobre tempo, reais ou da ficção científica, proibiam: encontrar-se consigo mesma.


Ela já pensara em tudo. Sua mãe estava doente no hospital e sua tia Yone, que nunca visitara sua mãe, poderia muito bem aparecer. Pelo que se lembrava, não tinha sequer visto uma fotografia dela. A semelhança com ela mesma poderia ser explicada. Lembrava-se bem de sua rotina. Mesmo com a mãe hospitalizada, ela ainda ia e voltava sozinha da escola e ficava em casa algumas horas até seu pai chegar. Esperou pela sua volta. Assim que Luara menina entrou em casa, Luara adulta dirigiu-se até a porta. Parou diante da campainha... Um instante de indecisão, causado por um vago medo e uma certa pontada na consciência. A indecisão foi breve. Afinal ela chegara até àquele ponto e não retrocederia. E... culpada do quê? Ela estaria interferindo apenas no seu passado. Ouviu uma voz de menina no porteiro eletrônico. – Quem é? – perguntou. – Sou eu, sua tia Yone, irmã de sua mãe. Uma porta se abriu e uma pré-adolescente magra e alta apareceu. Luara havia se esquecido que fora alta para sua idade aos 12 anos e se surpreendeu um pouco. – Olá, tia – disse ela com alegria. Luara menina era muito alegre e gostava das pessoas. Luara adulta entrou. Fazia muitos anos que não entrava ali. Pensou – e este pensamento lhe fez sorrir – que era como se tivesse voltado para a infância. Luara menina lhe ofereceu um suco de laranja. Aguado e doce demais. “Como eu fazia”, pensou. – Vovó disse que você viria. Luara adulta tomou um susto. “Como? Vovó?”, pensou. Suas duas avós não estavam ali naquele dia.Teria por acaso ido parar em uma realidade alternativa? A garota percebeu o susto e disse: – Vovó disse que provavelmente você se assustaria e pediu para eu lhe dar isto. Luara menina mostrou-lhe uma caixa embrulhada em papel escuro. Luara adulta abriu e tirou de lá um diário. Não um diário qualquer, mas o diário, igual ao que tinha em sua bolsa, só que com uma aparência mais envelhecida. Os olhos de Luara menina brilharam: – É igual ao meu diário! A campainha tocou. A menina foi abrir a porta e uma mulher de cerca de 60 anos entrou. Luara adulta observou a figura e sentiu-se observando seu próprio rosto, sob efeito de algum truque de envelhecimento.


A senhora trazia uma caixa de presente e a deu à menina. A garota abriu o embrulho e ficou radiante com o par de patins que ganhara. A senhora então lhe disse: – Vá brincar lá fora. A garota não pensou duas vezes e correu para experimentar o novo brinquedo. Com ela fora de vista, as duas mulheres se olharam. Um minuto eterno se passou até que a mais velha quebrou o silêncio, abrindo a bolsa e mostrando-lhe outro diário. – Durante muitos anos eu escrevi neste diário – disse a senhora. – Quando um acabava, eu comprava outro com a mesma capa. – Você sou eu – admirou-se Luara adulta, apesar de já ter sentido isso desde o primeiro momento. – Sim, mas você é uma eu-mesma diferente. Uma eu-mesma muito melhor. Eu não me importaria de continuar a ser o que sou se não tivesse descoberto, quase que por acaso, o que aconteceu ou aconteceria hoje. Sorte que esta mania de escrever tudo num diário me ajudou a chegar neste exato instante. – Mas o que aconteceu? E por que você está aqui? – Eu sei por que você veio. Está escrito aí nesse diário – explicou Luara mais velha, apontando para o livro que estava nas mãos de si mesma mais nova. Luara mais nova olhou para o diário, pensativa. E a senhora prosseguiu: –Você esperava evitar o trauma que a menina sofrerá daqui a algumas horas. Seu pai virá pegá-la para ver sua mãe no hospital. Você sabe que ela está doente... Luara adulta não se conteve: – Sim! Mas ninguém disse que ela estava à beira da morte... A outra continuou: – Você foi ao hospital e, quando estava no quarto, ela morreu. Ficou horrorizada e fechou-se como uma concha. Durante três anos chorava durante o dia e tinha pesadelos à noite. Tudo porque viu sua mãe morrer... Um silêncio se impôs mais uma vez. As duas se olharam novamente e a mais velha falou: – Você veio até aqui, se apresentou como a tia Yone, que ninguém conhecia, ofereceu-se para ficar com a menina. Enquanto todos os outros estavam no hospital, você e ela conversaram longamente. A garota agora estaria preparada para enfrentar a morte de sua mãe. Esperou o momento certo e voltou para sua época, não sem antes anotar tudo o que fizera... e abandonar sem querer o diário, tal qual uma Cinderela. Luara mais velha fez uma pausa como se esperasse que suas palavras fossem digeridas e, em seguida, retomou o seu monólogo:


– Você não voltou para a mesma realidade de que veio, mas para a que você criara, como uma Luara diferente. Creio até que a memória de sua vida alternativa fora apagada. O que você é ficaria esquecido para sempre se eu não tivesse decidido vender esta casa. Ao arrumar as coisas, encontrei esse velho diário, que está aí na sua mão. Imediatamente o outro “eu” voltou à minha memória. Cada página que eu lia... Luara mais velha, muito exaltada, quase chorando, retirou de sua bolsa um outro diário igual. – Veja! – ordenou estendendo a mão com o livro para a senhora. Luara adulta folheou as páginas. Sua letra era inconfundível e a forma de escrever também, mas havia algo estranho. – Não notou falta de nada? – perguntou a mais velha. – Falta o “e se...” A mais velha retomou o discurso: – Foi isso que você fez a si mesma. Não se tornou uma cientista brilhante. Sua motivação será morta hoje se continuar com o seu propósito! Os três anos de sofrimento foram, e serão, se você deixar, necessários para criar a sua tenacidade e, principalmente, sua criatividade. Luara adulta ficou espantada. – Quer dizer que eu... – Você me tornou uma pessoa medíocre! E tem mais: isso retardou as pesquisas sobre o tempo em cerca de dez anos! – Mas a máquina... foi construída... – Sim! Graças a você! Segui as pistas no seu diário que me levaram aos cientistas que poderiam desenvolver a máquina do tempo, seus colaboradores na sua realidade. As anotações no diário foram valiosas para que eles montassem o quebra-cabeça. Me ofereci então para ser a primeira viajante, já que sabia que daria certo. Luara mais velha olhou para a janela como se esperasse alguém e continuou: – Daqui a pouco o nosso pai chega, e eu devo sair antes. Afinal ele sabe como era a mãe de sua mãe. Só ficará o mistério dos patins, mas os acontecimentos traumatizantes apagarão tudo... O meu tempo de permanência está acabando. O pessoal do futuro irá me levar de volta daqui a alguns segundos. Portanto, devo me despedir e esperar chegar a um futuro diferente. E, virando-se para Luara adulta: – Veja lá o que vai fazer... Luara adulta viu com tristeza seu futuro alternativo ir embora. Pouco depois, a menina entrou na sala. Luara adulta olhou-a nos olhos e disse: – Eu preciso ir agora, não posso esperar seu pai.


– Puxa, queria que você ficasse... – Preciso ir. Antes quero dizerlhe uma coisa: se algo não for bem como você quer, imagine como seria se alguma coisa qualquer mudasse e escreva em seu diário de “e ses...”. Luara menina não pôde deixar de notar uma lágrima.


“...criou uma fascinação por Dean Benedetti, um fã de Charlie Parker que levava um gravador a apresentações em clubes e gravava apenas os solos de Parker, nada do que acontecia antes ou depois deles” Ben Ratliff, Coltrane: The Story of a Sound

DEANBENEDETTING Texto Roberto Pedretti Arte: Iuri Iotke

Diz-se da Poesia que é sempre sobre o Absoluto. Enquanto a Prosa pode referir-se a recortes quaisquer do que existe, dentro ou fora da imaginação de quem escreve e de quem lê, assim delimitando sua afecção e diminuindo cautelosamente seu impacto sem precisar prescindir de sua relevância, a Poesia não pode se dar ao luxo da prudência — ao ser prudente, ao renunciar ao seu impacto máximo, a abandonar-se inteiramente no turbilhão da infinita multiplicidade, o poeta rasga o passaporte poético de seu artefato e acorrenta-o ao mundo das coisas que meramente existem. Isto equivale a dizer que um poema que não seja um bom poema, sequer isso será; enquanto um conto ou romance pode ter seus altos e baixos, mas ainda assim merecer nosso carinho, admiração por tal e qual construção feliz, apesar de um final meio forçado, um prelúdio sem ritmo... Bem, o poema só chega a sê-lo quando ao menos é uma fresta para o Mistério. Assim é que o homem comum, aos poemas (dignos da alcunha, que fique bem entendido), encontra-se infinitamente mais vulnerável que à prosa. Argumentando que não há tempo para ficcionices, para ler invenções que não são sequer a história de uma pessoa real, enquanto o mundo está ai para ser sentido, para se ganhar dinheiro, mulheres e fama!, o potencial leitor pode escapar da prosa com um bocejo imunizador e o livro calmamente posto ao lado do sofá, ainda pulsante talvez, no limiar de lançar seus tentáculos em torno daquela imaginação filistina, mas neutralizado, fora de combate até que as páginas sejam casualmente reabertas algum mês à frente, talvez nunca — o mais provável.


Ah, mas o poema... Às vezes umas quatro míseras linhas dispostas sobre o papel amarelecido, frequentemente nenhuma palavra para além das ordinárias, que se usa aqui e ali a toda hora, café-pão-casa-dobra-viga-rumo, curtas e tolas. Mas contra a rapidez do bote, há pouco recurso. Não há tempo para o bocejo; quando o resmungo dinheiro-fama-vida-lá-fora começa, as linhas já estão lidas; enquanto o livro é arremessado, o cérebro já está tentando em vão se desvencilhar daquelas vinte ou trinta palavrinhas aprendidas já aos três, quatro anos de idade, mas nunca antes dispostas para formar o desenho daquela intrigante encantaria. Quanto mais a mente prática e financista exposta a tal veneno revolver-se em negação, a mais campos de sua atenção a teia logrará aderir, e não muito tempo depois, com a vítima envolta e atada no casulo de montes de questionamentos e ecos que ela sequer consegue divisar, eis que se aproxima lenta e confiante a aranha dos confins da ampla teia para saborear sua eficientemente angariada refeição, e nosso desamparado filisteu traz do flanco do sofá o livro de volta aos seus braços. Talvez nunca mais se separe dele — e dia a dia, linha a linha, regozijará enquanto é devorado por aqueles enigmas. Para exemplificar esta incomensurável diferença, tome como presença este pequeno trecho de prosa que nos trouxe até aqui. Você mesmo que me lê, sei que chegou até aqui porque... enfim: você está aqui neste terceiro parágrafo neste momento (ou ao menos sua concentração está), mas quantas vezes você já não pensou em largá-lo um pouco para fazer outra coisa, sabendo que mais tarde ele estaria ali? Por quantas outras atividades no mundo você não deixaria este trecho inconcluso sem remorso? E quantas pessoas das quais você gosta e que devem gostar-lhe de volta já não teriam jogado este trecho para longe pela janela de suas atenções? E veja só: conforme eu tento me explicar, o texto só cresce e cresce, ele não fica nem um pouco menor conforme vou tentando fingir que estou do lado dos sucintos contra os prolixos. São trechos como esse que vêm mantendo em paz as mentes práticas e financistas do mundo ao longo dos anos, enquanto a poesia contemporânea os acossa com uma eficácia bem menos notada pelo público em geral. A mente prática e financista em questão é a de Stéfano. O nome na capa do livro é o de Dino Benedetti. Ele já tinha ouvido falar — ganhara algum prêmio literário internacional no ano anterior, algo assim. Não que ele acompanhasse essas convulsões do grand monde, mas namorava na época uma menina metida a poeta, de óculos de aros grossos que davam a ela ares de governanta polonesa, e as notícias que circulavam entre as pessoas de óculos


de aros grossos que ela frequentava eram desse teor e uma ou outra delas, eventualmente, respingara-lhe a memória. Essa namorada e quase tudo na sua vida naquele instante, no entanto, não estariam mais lá em breve: começaria entusiasticamente a faculdade de administração na segunda-feira seguinte e projetava um futuro imediato de muito trabalho, aplicação intelectual e ascetismo fimdesemanesco, mal sabendo ele ainda, embora fosse uma questão de horas até a iluminação, que os anos de faculdade seriam, por ainda muitos semestres, uma continuação praticamente sem emendas do hedonismo desenfreado de que tinha sido apóstolo por toda a adolescência. Fato é que Stéfano tem e tinha ainda mais, então, uma mente talhada para o esquecimento; deixava as coisas para trás movido por uma intuição tão pura e automática da continuidade irrefreável da vida, que se podia dizer que sequer sentia o peso da inevitabilidade de seu próprio passamento — até sua existência continuada sobre a Terra não tardaria a enfadá-lo. Nunca derramou uma lágrima pelo fim de um namoro, nunca mais se recordou do nome de nenhum de seus colegas de classe para fins de nostalgia de esquina naqueles encontros extremamente constrangedores nos quais as pessoas sentem-se obrigadas a se cumprimentarem para mergulhar imediatamente depois no vácuo temático da completa desconexão funcional e, claro, também não era a pessoa mais indicada para aplicar-se à leitura prolongada e concentrada quando ela não o projetava imediatamente para frente, para o que viria a seguir, para o próximo passo, para a próxima casa no tabuleiro. Não que Stéfano tivesse se matriculado em algum curso noturno para devorador de mundos, não para tanto!, mas tratava-se de um garoto extremamente distraído. E agora, neste momento que é normal que se considere uma encruzilhada, caiu nas mãos dele o livro com o nome deste Dino Benedetti na capa. Tinha feito ele a tolice de abri-lo, e agora a poesia contida no volume que tinha o nome desse sujeito escrito sobre a capa tinha-o também aberto, desventrado de um inclemente golpe, porque não foi como se as palavras, arranjadas daquela forma, dialogassem com ele ou dissessem como ele se sentia etc, este é um papo muito suave para amainar a aversão de Stéfano ao letramento!: o livro impunha novos sentimentos antes inexistentes. Conhecer-se, Stéfano julgava conhecer-se bem até; mas ali estava algo que não era e que ainda assim, miraculosamente, interessava a ele. Naqueles poemas, todos eles, um a um, verso a verso, de forma que um só ausente feriria o volume, um só a mais transbordá-lo-ia perigosamente, Stéfano não tinha encontrado “identificação imediata e irrestrita, a incrível autoanálise suscitada pela universalidade das imagens”, fórmula que ele escutaria tantas


vezes os histéricos entrevistadores na TV dizerem ao homem cujo nome estava na capa daquele livro. Stéfano não tinha encontrado a si mesmo, mas tinha encontrado companhia, a primeira companhia que descobriu realmente prezar. Este é o ponto em que você pensará na mudança radical de rumo que esta percepção causou em Stéfano, correto? Já deve ser possível vê-lo abandonando a faculdade de Administração antes mesmo de seu início e se dedicando a fundo ao Poético, quiçá depois ao Mágico, e depois de muitas desventuras numa busca espiritual desenfreada que o levaria ao prazer e à dor extremas, retornando triunfante aos confortos do Ocidente, pronto para também realizar sua grande obra, ao lado de sua esposa ambientalista e seus filhos de nomes indígenas, dando assim prosseguimento à corrente de mútuas influências que os grandes espíritos desde os tempos mais remotos alimentam incessantemente, correto — parte 2? Bem, isso não aconteceu. Stéfano não só começou e concluiu a faculdade de Administração, como cometeu ainda o mestrado sob a mesma instituição, sem grandes láureas, também sem grandes tropeços. Neste meio tempo namorou, noivou e se casou com uma colega de turma que esperava dele a segunda filha quando sua segunda vida começou. Tem um bom emprego e colegas de trabalho exatamente como você deve estar pensando ao processar a expressão “colegas de trabalho”, sem tirar nem pôr — são esses mesmo que você está vendo na sua mente neste momento. Mas como já dissemos, a peçonha é potente e até os dias de hoje Stéfano não tinha largado o livro que tem o nome do tal Dino Benedetti impresso na capa. Não só isso: ao longo dos anos, comprou cada um dos que foram lançados por ele, ano sim, ano não. Quando edições comemorativas dos dez anos de tal e tal obra foram sendo lançadas paulatinamente, paulatinamente foi ele comprando ao menos um exemplar de cada uma — às vezes, adquiria mais de uma cópia para presentear alguém. Uma amante sua mostrou uma vez, de relance, inclinações poéticas numa noite que passou em seu apartamento, e ele a surpreendeu com uma bela edição do mesmo livro que o contaminou naquele primeiro dia anos antes. Ela agradeceu, entusiasmada: “Sempre tive curiosidade de ler o trabalho dele! Dizem que tem uma coisa bem Manoel de Barros. O que você acha de Manoel de Barros? Ele não é fenomenal?!” Por si só, essa observação o entristecia. Por um lado, porque não conseguia ver nos olhos de outras pessoas nem um pouco do brilho que tinha certeza que poderia ser encontrado nos seus cada vez que ele percorria e repercorria aquelas páginas; por outro, porque até


tentara seguidamente, mas nunca conseguiu gostar de nenhum outro poeta. Talvez isso tivesse mudado sua vida, no formato de há dois parágrafos atrás — ter gostado muito de alguns outros autores, ou de poesia em geral, ou se tivesse gerado em si a compulsão, que via em outros, por penetrar os meandros da gênese poética, mas nada disso lhe interessava. Ou pelo menos não lhe dizia respeito. Nunca, mesmo no primeiríssimo momento, Stéfano pensou em escrever, em ultrapassar um mestre, em ultrapassar seus limites, em provar-se para além de nada daquilo. Ele queria apenas que a vida seguisse rumo ao que tivesse que ser, com aquelas palavras como companhia. Os colegas de trabalho, é até dispensável dizer, não liam poesia. Pode valer a pena ressaltar, dito isso, considerando que Stéfano também não apreciava poesia nenhuma além daquela, que também ele não lia poesia. Nunca tinha levado um livro sequer com o nome de Dino Benedetti impresso na capa ao trabalho ou à faculdade; uma parte dele se envergonhava um pouco de expor aquela mácula. Era algo como levar um bicho de pelúcia como talismã para uma reunião de diretoria. Mas também não folheava os livros no metrô ou durante o almoço na praça perto do trabalho; temia que, se alguém que efetivamente gostasse de poesia da forma como ele sabia que as pessoas eventualmente gostavam o flagrasse com um daqueles livros, ele sentiria mais vergonha ainda, porque ele não fazia sentido na companhia daqueles versos. Perguntariam-lhe do que mais gostava (além daquilo), e ele teria que dizer que não gostava de nada além daquilo, e isso seria vergonhoso. Sua conexão com os textos contidos em volumes cada vez mais brilhantes com Dino Benedetti, escrito de forma cada vez mais espalhafatosa nas capas, deveria, para o bem geral, permanecer assunto seu, junto com sua dificuldade crescente de satisfazer e e ser satisfeito sexualmente com sua esposa e com sua ligeira queda por matar formigas, com requintes de crueldade, caso invadissem a mesa do café. Mas para chegarmos ao ponto de escrever essa história foi preciso que Stéfano enfrentasse um inesperado estímulo, quando o homem de nome Dino Benedetti, poucos meses depois de ser diagnosticado como portador de uma rara doença degenerativa, tornou-se primeiro boato em círculos especializados, depois notas em colunas antenadas e, posteriormente, manchete de dias vazios em veículos genéricos. Quanto mais seu estado se agravava, mais de todos os lados chegava o cheiro lucrativo de seus últimos dias, e mesmo não interessado, não conectado e, sob nenhuma forma, sentindo-se atraído pelo destino do nome que estava na capa dos livros que representaram seu porto seguro ao longo dos anos que tinham se passado, Stéfano sentiu-se, de algum modo, responsável. Precisava visitá-lo, como quem visita um parente doente. Suas férias


estavam vencidas há muito tempo e até o chefe, que pouquíssimo o conhecia, insistia para que as tirasse logo. Sua esposa obviamente já tinha planos que acalentava para quando este momento, que nunca chegava finalmente, viesse, mas ele tinha certeza que, caso ele tivesse a hombridade de explicar tudo desde o início, ela não o repreenderia por tirar alguns dias para tentar se aproximar o máximo que pudesse do seu novo/antigo ídolo nos seus aparentes últimos dias — e ela de fato não o repreendeu, mas seu olhar esclareceu que ela nunca deixaria de acreditar, até o fim dos seus dias, que aquela viagem era apenas o desenlace um pouco mais confuso de um dos múltiplos casos que tivera ao longo do casamento; na sua visão cirúrgica da situação, era para acompanhar o aborto de alguma delas, talvez uma amante mais frágil e dependente que estivesse cobrando seu desaparecimento completo sob a forma de atenções derradeiras. Isso explicaria a ansiedade incomum com a qual Stéfano fez a mala muito simples, a culpa que revestia seus movimentos e, acima de tudo, o fato de não ter empacotado nenhum livro sequer. Quem vai ao encontro de um autor sem levar nenhum dos seus livros? Para ela estava tudo muito claro... Mas nada no coração de Stéfano estava claro, e era lá justamente que residiam, redundante dizer, de cor, cada um dos poemas de cada um daqueles livros, e daí explicava-se a desnecessidade de se expor pela primeira vez com eles. Stéfano suportou estoicamente as indiretas da esposa até o momento em que ela o largou no aeroporto. Ao bater a porta do carro atrás de si, ele mesmo não teve palavras para justificar a verdade esotérica do seu roteiro. No pátio do hospital em que se encontrava internado o autor, entre a centena ou centena e meia de outras pessoas que ali permaneciam em novena, Stéfano pôde experimentar a mais assustadora solidão de sua vida; nada havia ali para ele. Aterrissou naquela cidade com a certeza de que seria testemunha de uma cornucópia de homenagens belas e francas, de que cada pessoa que como ele tivesse renunciado a outros aspectos menos elevados de suas vidas para estar ali e celebrar texto e homem no mesmo golpe teriam trazido das profundezas o melhor que sua humanidade carregasse. Mas tudo que via eram desocupados fanfarrões bebendo e esbravejando, estudantes com seus risinhos aperfeiçoando milenares rituais de corte, personalidades de médio escalão de todas as áreas abrindo bocas de pânico ao mero espocar da luz vermelha da câmera, oradores tecendo odes insufladas de ar como dirigíveis de papel rumo a um ou dois espectadores que fingiam, por razões extrapoéticas, com muita eficácia ter submetido suas atenções à ocorrência... Assim estava tomada a praça frente ao hospital onde Stéfano esperava uma revolução silenciosa (ver-se


justamente como o conservador modelo, acomodado e bolorento), via agora um cinzento foco de humanidade como qualquer outro, apenas uma mancha estatística indistinguível. Isso sem mencionar os muitos ambulantes, vendendo bolsas com trechos de poemas tirados dos livros que tinham Dino Benedetti em suas capas inscritos, cerveja, cigarros, doces e quaisquer coisas disfarçadas de víveres que pudessem ser indispensáveis a qualquer momento. Mas os vendilhões do templo, no fim das contas, eram as figuras que menos destoavam naquele cenário para Stéfano, primeiro porque já contava com eles de qualquer forma, segundo porque sua função era por definição alheia a qualquer beleza e não se envergonhavam disso e, em terceiro lugar, porque pelo menos seus produtos eram um lugar no qual encontrar a poesia que lhe importava — não é curioso que, entre todos aqueles palanques improvisados, em nenhum a poesia dos livros que têm Dino Benedetti escrito na capa se fizesse ouvir? Como Stéfano pretendia desde o início apenas presenciar um milagre sem ser parte dele, não se constrangeu em comprar, ele mesmo, uma cerveja nos arredores, sentar em um dos bancos, e esperar. Esperar pelo quê? Uma parte dele estava aliviada por ter vindo, por ter visto que não valia a pena ter vindo e poder voltar para a vida não poética que lhe era familiar sabendo que o tipo de pessoa que ele era não tinha paralelo até onde a vista alcançava. Com o mesmo traje social com o qual ia ao trabalho todos os dias, estava ele ali, engolfado pelo mar de camisetas pintadas a mão, jeans rasgados e fantasias multicoloridas de toda ordem. Pensou em voltar para sua esposa imediatamente – poderia passar numa loja de suvenires qualquer, comprar o máximo possível de trecos que comprovasse que tinha sido realmente aquela praça seu destino final, e voltar com tamanha rapidez que nenhum caso poderia ter sido concluído, nenhum sexo consumado, nenhum aborto satisfatoriamente acompanhado; ele voltaria tão rápido que poderia sustentar sua palavra com a máxima facilidade. Mas ele não voltou imediatamente. Deu-se mais tempo, porque afinal ele sabia que sua esposa nunca acreditaria em nada mesmo e porque, no fim das contas, como é bastante coerente com o que observamos no começo disso tudo, ele não se importa de fato com isso tanto quanto quer fazer parecer para si mesmo. Também resolveu conceder-se mais, digamos, três dias (já tinha pago quatro diárias antecipadamente, sem suspeitar que seria a esse triste espetáculo que compareceria!). Um pouco de tempo sozinho numa cidade estranha, microférias que lembrassem o descompromisso de quando conheceu a poesia dos livros que tinham o nome Dino Benedetti na capa, não lhe fariam mal. Se este nome merecia


realmente alguma homenagem personalista e se ele era capaz de prestar alguma, já que não escrevia, atuava, declamava ou tinha vocação para papéis ridículos, a melhor em que podia pensar era embebedar-se e vagar sem rumo, qual adolescente, pelas ruas da cidade que abrigaria seu túmulo. Mas ao longo deste dia e do dia seguinte, não foi o que fez — fez o que tinha vindo fazer desde o início, embora fosse risível demais para ser enunciado: chegava cedo, sentava-se no banco à frente do hospital, tomava café na lanchonete que emoldurava a praça ao norte, almoçava no restaurante da rua que a emoldurava a leste, bebia algumas cervejas ao cair da tarde e, na quarta lata, alguns dos folguedos insossos a seu redor até ganhavam alguma graça, e, quando fechava a noite, e fogueiras campais começavam a crepitar para dar o derradeiro sentido aos risos mais suaves e alongados que agora anunciavam a concretização noturna de todos os esforços de corte do dia claro, Stéfano tomava o caminho do hotel, banhava-se, telefonava para a esposa, jantava, assistia à consolidação televisiva das notícias que já tinha tido sobre o estado de saúde de DB ao longo do dia e adormecia, melancólico e em férias. Enquanto Stéfano dorme esta segunda noite, alguns de vocês podem estar pensando que tanto esforço, mesmo que por dois dias, de alguém que nunca demonstrou nenhuma curiosidade mínima pela vida do homem que tinha seu nome estampado na capa dos livros com os quais dialogara ao longo de vinte anos, é muito estranho. Por isso passo mais uma informação aqui, em voz bem baixa para não correr o risco de acordar o pobre Stéfano, que amanhã viverá contra toda probabilidade o primeiro da sequência de dias mais importantes da sua vida e, portanto, terá que estar bem descansado: uma semana antes de decidir pela viagem, Stéfano foi almoçar com sua mãe, como fazia quase todos os domingos, geralmente sozinho, e foi à mesa de jantar, ocasião em que escutaram pela primeira vez juntos a notícias sobre o estado de saúde recalcitrante de DB. Sua mãe não fazia ideia de que o autor ainda rondava a cabeça de Stéfano; para ela, o filho já tinha definitivamente enterrado a lembrança desses dias de leitura como algo muito constrangedor. Mas, como estava entusiasmada com o que tinha a dizer, contou assim mesmo (e, se não me engano, vai aqui o primeiro diálogo de toda essa nossa longa narrativa): “Filho, você se lembra de quando teve aquele negócio que te deixou entrevado aí uns seis meses?” “Claro que me lembro, mãe: eu tinha dez anos, não dois.” “Também não precisa ser malcriado! Estou falando disso porque na época contratamos um enfermeiro particular para cuidar de você na nossa antiga casa. Na época, a gente ainda podia se dar a esses luxos. Era um rapaz muito educado, e era incrível como nós só precisamos


te levar ao hospital uma vez em uma das suas crises: todas as outras ele sempre conseguia resolver e você voltava a dormir como um anjo.” “Eu me lembro desse enfermeiro também. Por quê?” “Porque era esse moço poeta aí, que está internado.” *silêncio de todos os sentidos neste momento* “Sim, era ele! Eu estava falando com a sua tia sobre isso, quando vimos na televisão na casa dela na quinta-feira, ela lembrou bem dele, e ainda tem um dos recibos que ele assinava para nós, que eu guardei.” Pegou numa caixa um papelzinho muito amarelado que, sim, tinha tanto o nome que ele tanto se acostumou a ver nas capas dos livros, quanto as características, ainda não tão sintéticas, da assinatura que decorava a capa azul escura de suas obras completas recentemente publicadas às pressas. “E você sabe que ele inclusive aparece na filmagem que nós fizemos quando você voltou a andar? Chamamos para a festa e ele veio, conversou com todos, muito simpático! É uma pena isso que está acontecendo com ele...” “Mãe, posso ver alguma das fitas?” — Ele realmente estava nas fitas. Jovem ainda, sempre sorridente, via-se bem, embora ele nunca fosse focalizado diretamente; era sempre o próprio Stéfano na frente da câmera, sua enorme cabeça de pós-criança, desproporcional em relação aos membros atrofiados depois de meses de crises recorrentes de febre reumática combinada com outras condições insólitas, que só o azar genético agrupado em infinitas tiras poderia explicar. Ele fazia caretas para a câmera, correspondia instantaneamente a todas as gracinhas, falava todas as palavras que tinha aprendido e não teve quase com quem gastar antes. Stéfano naquela tarde assistiu às três horas de fitas encarquilhadas em busca das raríssimas ocasiões, totalizando uns dois minutos do total, nas quais o homem que viria a ser o nome em todas aquelas capas, aparecia com o sorriso congelado de quem estava agradando a bons clientes. Terminou a sessão acossado por uma estranha constatação: ele, Stéfano, falou com todos na festa, todas as pessoas da família e agregados, que conhecia, reconhecia ou sabia que tinham falecido antes que ele pudesse tê-lo feito; fez palhaçadas por uns bons cinco minutos até com o garçom que servia canapés, mas nem uma vez sequer dirigiu o olhar a DB. Praticamente ao único rosto que esteve o tempo todo ao alcance do seu pelos seis meses anteriores, enquanto seu pai ocupava todo o seu tempo fazendo o dinheiro que pagasse sua sobrevivência e a mãe batia à porta de todos os consultórios do mundo para encontrar um tratamento mais eficiente, ele não foi capaz nem de dirigir-se ao erguer-se definitivamente. Quantas situações de intimidade extrema não teria


privado com esse homem? Quantas necessidades às quais nenhum dinheiro parecia fazer jus este homem deve ter atendido? Uma parte sua, que via seu quadragésimo aniversário chegando a jato pelos flancos de sua vida, tinha certeza. Ao retornar à frente do hospital, já tinha deixado suas malas prontas no hotel. Foi sentar-se ainda sonolento no mesmo lugar na praça e seguir o mesmo íter dos dias anteriores. No lugar que vinha ocupando até então, no entanto, havia agora uma senhora idosa, com um vestido simples, que não fazia, assim como ele, nenhum sentido ali. Sorria, não obstante, parecendo a anfitriã da festa para a qual todos aqueles bêbados estavam convidados. Dirigiu-se a Stéfano, também como se não houvesse outra coisa a fazer para manter sua finura: “Você não parece um dos poetas, jovem... é jornalista?” “Não, não... sou apenas um... admirador. E não acho muito apropriado o que está acontecendo aqui, não. Todo mundo parece estar se divertindo muito mais do que praticando o luto como se devia.” “Ah, mas você sabe que eu acho que Dino Benedetti adoraria ver o que está acontecendo aqui?! Ele certamente preferiria ver as pessoas celebrando, vociferando e namorando como esses rapazes e moças, do que fazendo discursos protocolares e falando baixo. Ele acredita que a vida está em tudo senhor, senhor...” “Stéfano, muito prazer! E a senhora?” “Chamo-me Aurora. Sou... digamos... governanta da casa de DB há muitos anos.” Depois falaram de assuntos agradáveis, de algumas peculiaridades do dia de DB, do tempo e do efeito que a poesia de DB tinha tido sobre cada um ao longo do tempo. Ao terminar essa sessão em particular, Stéfano sentiu-se confiante para abrir seu coração a respeito da tolice que o levara topicamente ali — e contou tudo a respeito do tempo em que fora cuidado por DB, da progressão positiva de sua doença, da presença do poeta à sua festa de recuperação etc. Este ponto empalideceu Aurora. Parecia ter encontrado um obstáculo intransponível ao seu sorriso. Quase mecanicamente, pediu que ele permanecesse ali, naquele mesmo ponto, que era importante mesmo que permanecesse, e se levantou — no caminho, não muito discretamente, deu ordens a um homem gigantesco de preto para que o vigiasse. Teve a certeza de que tinha sido confundido com alguém, talvez alguém que tivesse praticado um atentado ao poeta, ou que lhe devesse dinheiro, ou a quem devesse qualquer outra coisa. Não importava: quando ela retornasse, ele mostraria a identidade, ou diria mais algum detalhe de sua vida que o jogaria novamente à vala comum dos fãs desgovernados de poesia e poderia voltar para sua casa e deixar sua esposa enfurecida em paz, quase instantaneamente.


Mas quando Aurora retornou, uns trinta minutos depois, não foi para pedir-lhe documentos, mas para pedir que a acompanhasse até o quarto de DB. Ele tinha algo a lhe dizer. No interior do prédio, Stéfano era um homem diferente. Os corredores brancos de repente refletiam o amarfanhado de suas roupas, acusavam a acumulada falta de cuidado dos dias passados, sua barba abandonada, seu caminhar lânguido em contraste com o congestionamento de corpos cobertos velozes puxados e empurrados por rostos contorcidos de pressa profissional. Depois de percorrer o alvo labirinto contornando macas, subindo e descendo rampas de inclinação variável e tropeçando nos próprios sapatos para acompanhar o passo resoluto da senhorinha há pouco tão frágil, chegou enfim à porta do quarto em questão, à esquerda de um corredor no qual tudo tinha ficado subitamente muito plácido — apenas alguns assessores vestindo ternos escuros aqui e ali, espalhados em silêncio por cadeiras azuladas brotando do chão sobre o qual uma guimba descuidada de cigarro parecia, sozinha, conspurcar todo o universo visível. A senhorinha disse que ele deveria entrar só. Lá dentro, a sombra de Dino Benedetti não cobria completamente o enorme leito e, nas partes em que o fazia, parecia tão leve quanto o lençol que lhe estava por cima. Quando Stéfano chegou-se ao seu lado e os rangidos persistentes de seu sapato finalmente cessaram, abriu um dos olhos apenas, um pálido poço esverdeado que já refletia um outro mundo. Sorriu e por alguns momentos parecia percorrer seu rosto atrás de uma lembrança, e o sorriso se comprimiu tornando-se mais claramente um sorriso quando, aparentemente, ele a encontrou. “Qual é o seu nome, rapaz?” “Stéfano, senhor...” “Nós já nos conhecemos, não é, Stéfano?” “Sim, senhor.” “De quando você era uma criança, não é verdade?” “Sim... o senhor cuidou de mim enquanto eu estava doente, há muitos anos.” DB quis se erguer um pouco com urgência, mas o gesto permaneceu apenas sugerido, e Stéfano se perguntava por que eles estavam totalmente sós — um enfermeiro poderia tê-lo ajudado naquele instante, e ele mesmo pensou em ajudar, mas recuava por simplesmente não entender ainda seu papel. Não queria arriscar um movimento que o tirasse da trilha de seu próprio destino. “Stéfano, é um milagre que você tenha vindo até mim, que tenha chegado a tempo de escutar minha confissão. Admito que nunca tentei procurá-lo, mas garanto que não houve um dia sequer nestes anos todos em que eu não tenha pensado em fazê-lo. Aurora sabe que é verdade, sabe o quanto isso me fez estremecer tantas noites. Que tenha sido ela quem te encontrou lá no meio daqueles garotos e tenha vindo, mesmo relutante, me contar que você estava aqui...


isso é ainda mais milagroso e apropriado. Isso é um fechamento maravilhoso para essa minha vida de mentiras. Você deve estar pensando que precisa dizer qualquer coisa, mas juro que não precisa. Você não teria, ninguém além de mim saberia o que é preciso ser dito neste momento. E isso é uma pena; eu não mereço ser o portador do que tenho a dizer.” Ele tentou se erguer um pouco mais ainda e, desta vez, sem resistir à agonia, Stéfano o auxiliou. Ele não recusou. “Stéfano, minha doença é muito rara, sabia? Ela não acaba com a lucidez, mas vai corroendo meus músculos. Cada músculo do meu corpo vai perdendo força até que nada mais em mim consiga se mover, inclusive meu coração. Na maior parte das pessoas é possível combinar drogas, cirurgias e alguns apetrechos que tornam a vida possível por mais anos do que será para mim, mas, no meu caso, pela forma como meu corpo é constituído e talvez um tanto também pela forma um tanto... livre como o tenho tratado, nada funciona. Daqui a alguns dias não poderei mais falar, daqui a mais alguns, não poderei respirar senão com o auxílio de aparelhos e, mais adiante, tudo em mim serão engrenagens e circuitos mantendo a velha máquina untada, enquanto o meu cérebro continuará aqui dentro, entupido de tantas, tantas lembranças. Você veio na hora certa! Porque o que eu tenho a dizer não seria crível dito por Aurora ou por algum texto que eu deixasse em qualquer gaveta. Portanto...” Um dos assessores apareceu à porta e perguntou se tudo estava bem. Uma enfermeira já o costeava aflito logo atrás. Com a voz apenas um pouco mais vibrante que a que usava para sua confissão, mas que fez seu rosto se contorcer como se emitisse um urro animalesco, ordenou que saíssem, pediu mais cinco, dez minutos a sós. “Stéfano, você não vai se lembrar, mas conversávamos muito. Você era uma criança incansável, muito inteligente, e eu lhe contava histórias, jogávamos quase todos os seus jogos de tabuleiro e eu até lhe contava alguns detalhes de minha vida pessoal — naquela época, minha vida não tinha quase nada que uma criança de dez anos não pudesse compartilhar ou compreender. Depois disso tudo, e geralmente no meio de alguma dessas coisas, você caía no sono, Stéfano. E sabe o que você fazia, Stéfano? Você começava a falar e falar. Falava e falava, baixinho, como se fizesse uma prece. Nas primeiras noites, eu te deixava lá falando e falando e ia para o meu canto, ler o jornal do dia ou tentar eu mesmo desenvolver algum sono leve que me ajudasse a recobrar as forças— imaginava que este sono turbulento fosse o efeito dos remédios pesados, isso seria normal. Não avisei aos médicos de pronto nem aos seus pais que isto acontecia. Depois de algum tempo, no entanto, cheguei o


ouvido bem perto da sua boca; deu-me uma curiosidade infantil de ver o que o seu inconsciente estava tão ansioso para exprimir que não podia se restringir aos sonhos normais de qualquer pessoa. E neste dia me vi transformado: um mel estranho, absurdo escorria daquelas palavras. Você não balbuciava apenas: recitava. Eu fechava meus olhos, os ouvidos quase encostando em seus lábios, e era transportado para mundos maravilhosos, para sentimentos conflitantes, para um lugar tão sublime, que todos os problemas que eu eventualmente dividia com você desapareciam sob o feitiço daquelas palavras. No início, fui apenas um ouvinte admirado, um fã devotado que começou a ansiar por cada noite, por cada apresentação, para sentar-se na poltrona mais próxima, e que me fazia egoisticamente feliz saber que era a única, bem próximo de você. E eu começava a escutar de volta as palavras que tinha dito durante o dia, e você as trazia de volta recombinadas, em textos esplêndidos. Comecei então a te abastecer ardilosamente de palavras. Lia para o seu acalanto todos os poetas que me aqueciam o coração, e você reclamava, enfadado, mas eu pedia que tivesse só um pouquinho de paciência, que era um favor que você me fazia e te convencia, com as biografias fantasiosas daquelas obras e autores, que aquilo também era divertido, como um jogo ou um novo brinquedo. E cada vez você trazia aquelas palavras de volta, no seu discurso noturno, no seu próprio e inconfundível estilo desacordado. Comecei a tentar copiar correndo as partes de que mais gostava, mas me sentia frustrado, pois gostava de tudo! Tentava lembrar todas as respirações e as aparentes quebras entre os versos, mas também me frustrava, porque quanto mais fielmente tentava reproduzi-los, mais eles pareciam já ter fugido de mim e serem aqueles meus garranchos apenas imitações ridículas de uma vida que eu não tinha forças para levar. Minha decisão, neste ponto, Stéfano, foi simplesmente, puramente, a de um homem apaixonado que não queria perder aquelas palavras, não queria perder a ponte que me ligava àquele mundo: comprei um gravador e o levei para sua casa, e depois de testá-lo e perceber que a captação era perfeita, deixei-o residir ao lado da cama por todas as noites que se seguiram. Fitas e fitas foram produzidas, e eu já não precisava viver a ansiedade e a torturante posição de me ajoelhar ao lado da cama noite após noite, por horas e horas, enquanto você despejava este mundo sobre mim. Podia apreciar devagar, escutar durante o dia, reproduzir trechos e levá-los comigo às aulas na faculdade para que seu conteúdo amadurecesse em mim enquanto eu mesmo amadurecia. é dispensável dizer que você não se recordava de nada pela manhã, e sondando seus pais, que seus pais nunca tinham percebido nada de estranho com seu sono antes ou depois de concluído o tratamento. Aquele era um


fenômeno isolado, tanto no tempo quanto dentro de você — era óbvio que você não se sentia conectado com nada daquilo em vigília, era uma criança normal, com vontades e muitas dúvidas. E quando fui dispensado, pago e jogado de volta à minha vida no meu pequeno apartamento de solteiro e olhei para minhas estantes, havia tantos registros seus que tive dúvidas, e elas se confirmaram, se minha vida seria longa o bastante para processar todos eles.” “O que fazer, Stéfano? Procurar seus pais e dizer ‘bom dia, senhores! seu filho é um fenômeno! aqui estão as provas!?’ Seria sequer justo te expor assim, ‘ o grande novo poeta mirim?’ Quem daria atenção aos seus textos? Que tipo de pessoa se disporia a te publicar nessas condições? Em que tipo de aberração lucrativa e momentânea você seria transformado, para depois, quando tentassem te engolir em entrevistas, prêmios e sabatinas rigorosas sobre suas influências, seus projetos futuros e suas posições políticas, você ter que capitular docilmente e ir viver, atrasado, alijado, a vida que você realmente teria escolhido viver desde o início? Foram dois anos pensando sobre isso, Stéfano... e dois anos em que, embora seja difícil admitir, eu estive na verdade me preparando para ser você, ou ao menos ser essa voz inconsciente; preparei-me para fazer com que você fosse ouvido, imaginando que você mesmo não se escutaria. Durante esses dois anos, permaneci próximo à família, acompanhei seus passos às escondidas — queria ter certeza de que não me precipitava, e de que o seu crescimento mostraria também a sua urgência em transformar em palavra consciente aquilo que eu já tinha extraído de você. Mas você era um garoto muito, muito normal. Seus conflitos eram normais, suas dúvidas agora se sofisticavam em direções tão esperadas como as de qualquer outro garoto, às voltas com sexo, televisão e comidas gordurosas. E então desisti de você. E como foi prematuro, eu sei... doze anos! Na verdade, fixei um arbitrário prazo decadencial para transformar aquilo tudo em meu legado; se você tivesse desabrochado nestes dois anos, eu jurei (e teria cumprido!) que te entregaria tudo que gravei e faria as suas buscas colidirem com as respostas que você já tinha encontrado. E que ser humano extraordinário você seria se isso acontecesse! Mas eu tinha inveja, eu tinha a noção das coisas, eu tinha as armas para me defender no mundo no qual você sucumbiria... e quais seriam as probabilidades de que você fosse esse ser humano? Depois que desisti de você, Stéfano, eu me voltei para aquela estante que me contemplava, acusativa, e a enfrentei como quem enfrenta um monstro terrível; a dilapidei, destrocei e me apropriei das suas entranhas. Costurei um manto voluptuoso com tudo que estava ali e me enfiei no combate por aquela obra — e você sabe que é uma obra vitoriosa!”


“Mas agora você sabe: ela nunca foi minha. Nunca escrevi absolutamente nada do que publiquei. Até tentei, juro!, mas o que já estava pronto me apequenava. Então publiquei apenas as fitas, ano após ano. Agora eu decidi que elas são suas. Aurora tem as instruções bem claras a respeito e uma declaração que também gravei e escrevi de próprio punho com tudo que te disse: você pode fazer da minha memória o que bem entender.” Os dois permaneceram em silêncio e DB fechou seu olho, respirando apressadamente para recuperar sua alma que agora se espalhava como névoa por todo o quarto. O silêncio foi a deixa para que assessor e enfermeira entrassem no quarto e, então, já não houve resistência. Aurora também não fez menção de retardar Stéfano quando este simplesmente girou seus calcanhares e saiu do quarto rumo aos corredores brancos. Naquele que seria seu último dia na cidade, Stéfano já não se sentia dono de seus passos. Encontrou um bar que emoldurava a praça a oeste e lá se sentou para pensar. Teria se tornado poeta? Não, achava que não; teria tido o ímpeto para ser uma estrela das letras? Ele nem sabia se o paralelo entre um termo e outro era válido, mas também achava que não, que não tinha como ser nada na vigília perto do que fora dormindo. Conforme os drinques foram conseguindo seu efeito, ele foi, no entanto, supondo que, de alguma forma, aqueles poemas poderiam ter mudado sua vida. Poderiam ter trazido dinheiro momentâneo para sua família e nada mais; orgulho vazio e nada mais. Mas também essas coisas teriam sido valiosas no momento em que tivessem vindo para ele. E não é que ele, e somente ele, tinham o direito a beneficiar-se delas? Será que DB, como coletor, tinha direito a uma... recompensa? Claro que sim!, sem dúvida!, mas não era para ter construído toda a sua vida, toda a sua fama e sua memória em torno disso. Isso, sim, não era certo. Mas antes que ele pudesse beber o bastante para se achar completamente certo, Aurora o localizou naquele bar e entregou em sua mão um molho de chaves e um cartão com o endereço de Dean Benedetti. Pouco tempo depois ele tinha deixado o hotel e levado suas malas para aquela casa, com uma das chaves abriu o portão, com outra a pesada porta da frente, com a seguinte o escritório e com a última o armário bem à frente, onde mais fitas do que era capaz de contar em alguns ébrios minutos estavam dispostas. Pelos sete dias seguintes, Stéfano ficou morando, sozinho, na casa de Dino Benedetti como se fosse sua. Escutava todos os dias algumas tantas fitas, dormia, almoçava qualquer coisa que uma empregada da qual mal registrou o rosto fazia cair à sua frente, chorava lá pelas 18h sem saber por que, falou com sua esposa ao telefone umas duas, três vezes sem conseguir explicar nada,


apenas que “estava se transformando” e isso nada explicava. Ela rugia com ele, exigia qualquer reposta e exigia saber naquele exato momento se estava sendo abandonada ou não — mas nem a isso Stéfano podia responder ainda, porque não era apenas abandonála que estava em jogo: se a abandonasse, estava abandonando uma estrutura inteira. Ele tinha que ser evasivo e balbuciar medroso até que ela desligasse o telefone e, provavelmente, começasse já a pensar na vida com e sem ele no mesmo diapasão. Cada vez que ele terminou de escutar cada um desses monólogos da esposa, sentia começar sua hora de repouso verdadeira. E caminhava pela casa: uma casa cheia de personalidade, objetos de arte, bons uísques, fotos com admiradores ilustres, prêmios literários enfileirados numa cristaleira. Havia também objetos cotidianos largados nos cantos, livros esquecidos numa poltrona, um maço de cigarros ainda pela metade escondidos ao lado de um vaso de porcelana lascado, sujeira sorrateira escondida por baixo de tapetes — tudo isso mostrava que a casa estava viva, esteve viva por todo este tempo e que os anos de convivência de DB com a poesia que não era sua tinham dado a ele preocupações, sim, mas antes de tudo tinham dado oportunidades e escolhas que ele, Stéfano, nunca teve sequer como fazer. Era uma vida invejável, e não como aquele hipócrita agonizante queria agora fazer crer para ele e sua fiel escudeira, um sacerdócio! Cada vez que pensava sobre isso, Stéfano só tinha raiva e maus sentimentos para com tudo que lhe tinha sido dito e mostrado. A voz da criança nas fitas das quais se intoxicava diariamente faziam, sim, com que chorasse; mas o que se fez disso, ao menos nestas noites estranhas depois de se confrontar telefonicamente com sua vida como ela efetivamente era, só lhe fazia ranger os dentes. Só terminados estes sete dias, Aurora voltou pessoalmente à casa, e encontrou Stéfano, magro e cansado, debruçado sobre a pia da cozinha, com uma garrafa de leite ao seu lado. Ela também parecia cansada e enfraquecida, e ele soube que não havia outro motivo para que ela tivesse aparecido tão subitamente que não esclarecer que tudo tinha acabado. “Morreu, enfim?” “Sim... seguindo sua vontade, quando não podia mais respirar sozinho, sua família mandou que os aparelhos fossem desligados.” “Ele tinha uma família então, afinal...” “Sim, ele tinha. Todos têm, não é mesmo?” Ele percebeu que tinha chegado a hora de tomar sua decisão. Ela o ajudou, começando a falar. “Acho que o fato de você ter estado lá mostra que DB estava errado, afinal de contas você, provavelmente, depois destes dias aqui, deve ter certeza de que teria escrito e sido o poeta que ele foi, não é mesmo?” “Não, não teria... não me sinto capaz de escrever nada disso agora, não teria me sentido capaz antes. Soube disso assim


que coloquei os pés nesta casa.” Ela pareceu surpresa. “E o que ficou fazendo aqui esse tempo todo? E sua esposa, sua mãe, seu emprego?” “Eu não sei o que fiquei fazendo aqui. Tinha que pensar em mais alguma coisa, acho...” “E o que pretende fazer agora?” Pela primeira vez Stéfano se voltou para ela: “Você tem algum conselho? Você parece estar explodindo de vontade de me dar alguma opinião, não é mesmo?” Aurora não mudou seu tom de voz para começar a dizer o que, sim, estava se corroendo para contar. “Eu trabalho para o senhor Dino Benedetti desde que ele publicou seu primeiro livro de poesia. Estava tão fragilizado e sozinho já naquele tempo que me confidenciou, e julgo que só a mim, tudo que estava fazendo. De lá para cá ele criou uma biografia muito condizente com o que publicou, com muitos erros, excessos, brigas, relações problemáticas, drogas, problemas variados com a justiça e, coroando tudo, morte prematura — um pacote perfeito, se você parar para pensar. E nos vários trabalhos acadêmicos que li sobre ele (suponho que você não tenha se dado ao trabalho de ler nenhum), principalmente os que traçavam um paralelo entre sua obra e os rumos de sua vida pessoal, devo dizer que vejo análises muito bonitas e perfeitas que, no entanto, sentia uma certa vontade de rir com isso!, eram baseadas em algo totalmente falso. Mas era falso e não era — porque, pela mesma mágica que fez estes textos surgirem, DB fez com que sua vida em relação a eles fosse verdade. No começo, quando eu não tinha quase nenhuma intimidade com ele nem me achava capaz de influenciar seu julgamento, eu ardia de vontade de ordená-lo que fosse até o menino e lhe entregasse as fitas, e dissesse a verdade, que aquilo era pior do que roubar: era falsear a percepção que seus súditos ou fiéis ou imitadores teriam da forma como a poesia funciona! Eles nunca saberiam que algo tão bonito poderia surgir assim, a não ser que ele tivesse a coragem de contar. Mas quando finalmente eu tinha autoridade para dar esta ordem, já tinha entendido que não tinha como ser de outra forma. O mundo precisava de alguém que amplificasse aqueles teus murmúrios ao pé da cama; o mundo só escutaria alguém que aguentasse o peso da máscara que ele se dispôs a ostentar. Seria você, Stéfano, a pessoa que ostentaria esta máscara?” “Não, não seria... porque me cansa! Tudo que isto que importava tanto para ele me cansa! Mas, até aí, acho que tudo me cansa... minha vida, como é hoje, definitivamente me cansa. Pelo que posso ver da opulência dessa casa, eu mereço me cansar... ou melhor, eu mereceria escolher com o que quero me cansar ou não. Será que nunca passou pela cabeça de vocês dois que eu deveria ter tido uma escolha? Quando será que você e ele realmente chegaram a essa estranha conclusão de que isso era uma


decisão que deveria ser tomada? Não havia decisão... era apenas uma questão de fazer o certo, o certo que qualquer pessoa, até eu, despreparado, inútil,ou gordo, ou feio sabe qual é. Foi assim que ele e você viveram suas vidas? Achando que uma coisa assim era certa? Porque então eu tenho pena das pessoas que vocês sacanearam, roubaram, ou mesmo mataram ou feriram dizendo exatamente o que você está dizendo, que era necessário que alguém carregasse a responsabilidade bla bla bla.” “Bem, Stéfano, sinto muito, mas a decisão já foi tomada há muito tempo e fiz parte dela. Estou preparada e não oferecerei resistência às consequências que seus advogados prescreverem.” Ambos silenciaram. Stéfano pensou que ainda não estava tudo certo. Ele tinha sido enfático e peremptório, mas enquanto bastavam dois ou três telefonemas para que todo o dinheiro gerado pelos milhares de exemplares de livros com Dino Benedetti na capa impressos naquele exato momento em gráficas superatarefadas para atender a uma demanda monstruosa fosse para ele e somente para ele, algo ainda tinha gosto amargo demais para que ele digerisse. Suas brigas com a esposa seriam nada perto do futuro que teriam, mas que futuro seria esse, na verdade? Aurora lançou então a última cartada a que estava autorizada: “Há mais fitas, você sabe? Há pelo menos mais quarenta horas de fitas ainda não processadas, que fiquei encarregada de publicar como obra póstuma caso não acontecesse o que acabou acontecendo — o seu aparecimento. São fitas que contém os textos que mesmo DB nunca conseguiu processar, pois consideravaos perfeitos e ousados demais. Ele preferia que ficassem o mais próximos do fim da sua vida possível. Eles agora podem ser seus, se você quiser começar uma segunda vida.” “E por que eu quereria começar uma segunda vida?” “Você não acabou de me dizer que está cansado da sua como está, que é cansado de tudo? Talvez queira experimentar esta outra. Talvez, assim como você amou o que foi publicado até agora, ame também o que ainda está para ser publicado, e agora sob seu próprio nome. Você pode até pensar no dinheiro que vai receber se tudo isto vier à tona, mas não será tanto a ponto de mudar sua vida, não. O nome de DB estará na lama e não venderá nada daqui a um ou dois anos, passada a curiosidade a respeito do escândalo. Por outro lado, você pode erguer a sua própria máscara e levar esta obra adiante. Mas, claro, para isso, sua vida terá que realmente mudar.” E Stéfano escolheu a nova vida. Que tinha a perder? Colocou todas as fitas numa enorme sacola, e sobre os ombros foram de volta para o que deixaria de ser sua casa. Não será motivo de admiração que tenha largado seu emprego, sua esposa e seu filho pequeno e


passado alguns meses de penúria, com a ajuda abnegada da mãe e algumas poucas economias não dilapidadas pelo divórcio, até que conseguiu ser notado por editores cada vez mais poderosos, até que meros cinco anos se passaram, até que teve assinado seu primeiro contrato de edição e desenvolvido sua máscara primorosamente. Os círculos especializados não deixaram de notar as conexões entre Stéfano e DB — para alguns tinham sido amantes, para outros pai e filho e, para outros ainda mais imaginativos, tudo aquilo tinha sido vergonhosamente roubado do falecido. Mas Stéfano aprendeu a seguir alheio a isso tudo — blasé, com roupas muito discretas, com um ar de desimportância que ele aprendeu a converter em charme ao ponto de ter deixado sua marca — a marca do despojamento, como o administrador de empresas que larga tudo para seguir sua vocação, uma história bonita de contar e um admirável contraponto aos exageros de seu mentor. Às vésperas de viajar para Paris para acompanhar o lançamento de suas obras em língua francesa, Stéfano resolveu abrir-se para a única pessoa que tinha permanecido em seu convívio desde o início desta narrativa. Foi até sua mãe, com a fita mais recente que estava processando, e contou a ela tudo o que sabemos, em todos os pormenores, queria dela uma repreensão, palmas, pânico ou o que quer que seja, e enquanto isso colocou a fita para rodar como pano de fundo. Ela não pôde dar-lhe nenhuma dessas coisas, apenas um olhar confuso, aturdido “Mas filho, essa voz aí não é a sua. Não se parece nada com a sua voz quando você estava acamado.” “Como não, mãe?! Como você se lembraria?!” E ela trouxe para ele uma fita bem velhinha, apenas uns fiapos como rótulo, que colocou para rodar no mesmo gravador. “Esta é a sua voz. Eu gravei algumas dessas quando nos encontrávamos durante o dia, na época em que você estava doente.” E era mesmo uma voz de criança, mas outra, completamente diferente. Não havia a desculpa do sono, nem do aparelho: eram timbres absolutamente diversos. Sua voz, gravada pela mãe, era menos aguda, mais pomposa, seus esses sibilavam irritantemente em todas as ocasiões, e nada na sua voz remetia ao erre gutural que saía sempre da voz que vinha das fitas com os poemas. Ele agora soube: não tinha sido ele a criança das gravações. Ele se transformara no membro da segunda geração de uma mesma fraude. Ligou para Aurora, que estava já quase no fim das forças, e conseguiu que ela dissesse que naquele mesmo ano Dino Benedetti tinha atendido quatro ou cinco crianças enquanto levantava dinheiro para concluir a faculdade. Ela sabia que ele não tinha sido o único, mas quando foi ao seu quarto e disse que um deles estava ali, no jardim, ele garantiu que quando o visse, lembraria


imediatamente se era ele ou não a criança certa, ela dizia: “Ele me garantiu que não se enganaria. E você era a única chance que ele tinha!” Aurora obviamente não sabia nada sobre o paradeiro dos demais, ninguém sabia. Aquilo havia se perdido no tempo tanto quanto a memória dos recibos trocados entre DB e as famílias, ou suas primeiras transcrições na escuridão do quarto de solteiro. Havia apenas uma esperança, que era um endereço num papel que estava socado entre outros muito antigos, com o que provavelmente tinha sido o endereço de uma das últimas famílias para as quais ele trabalhara. Stéfano contratou um detetive para seguir a pista daquele mísero pedaço de papel. E me encontrou. E me chamou para tomarmos um café. E me contou tudo que contei aqui até agora. Suas mãos estavam trêmulas e suava descontroladamente, ansiando por que eu fosse a criança das fitas. Feliz ou infelizmente, minha família também tinha gravações em áudio de quando eu tinha dez ou onze anos e pude, conforme ele tinha me pedido, levá-las comigo, apenas para confirmarmos que, não, eu não era aquela pessoa. “Tive tantas esperanças... eu soube que você também é escritor.” “Ah, sim... escrevo contos... alguns ensaios para revistas, mas não sou um poeta como você. Aliás, nunca consegui escrever poesia; sempre acho que fica tudo muito bobo. Tenho me contentar com parágrafos, começo, meio, fim... admiro muito poesia... aliás, sempre gostei muito dos seus livros!” Dando-me conta a seguir de que tinha sido um comentário infeliz, tentei consolá-lo com o máximo de sinceridade: “Ei, não se martirize assim... Dino Benedetti conseguiu fama, você conseguiu fama, os poemas estão aí, mudando a vida das pessoas, como vocês dois queriam. Por que a autoria teria que ser tão importante, ainda mais se ela não consegue ser determinada mesmo? Por que você não relaxa em relação a isso? Não tinha sido ele? Ora, dane-se!; Não é você também? Dane-se da mesma forma! Talvez, no fundo, nem você acreditasse que tinha dito aquelas coisas. Apenas precisava urgentemente mudar a sua vida e a sorte caiu no seu colo, e você nem fez todas as perguntas que deveria.Não é como se você tivesse caído numa armadilha, não é?” Mas ele sinceramente achava que tinha, e pagou os cafés apressadamente, já pensando na próxima etapa das suas investigações que, conforme ele me garantiu, nunca acabariam até que chegasse à criança certa. Mas antes de partir, me pegou pelo braço e disse: “Você escreve, não é mesmo?” “Sim, sim, escrevo... como já tinha dito.” “Então, se algo me acontecer e você ainda estiver vivo, você vai contar tudo que dissemos aqui da melhor forma que puder e me ajudar, ok? Você vai entrar em contato com esta pessoa aqui no cartão e me ajudar.”


E aqui estou eu, contando tudo da melhor forma que posso, agora que Stéfano jaz morto após um misterioso acidente com o monomotor que pilotava. Estou publicando este texto numa revista literária e, por definição, uma revista literária não interessa a todos os gostos. Por isso, se, como preconizava Dean Benedetti, as chances de que a criança tornada homem depois de todas aquelas gravações nada tiver a ver com o mundo das letras, nem seus pais nem seus filhos, então este esforço não tem nenhum significado palpável. Mas caso alguém tenha qualquer informação sobre esta pessoa e possa compartilhá-la, os editores têm como colocá-lo em contato comigo e eu tenho toda a autonomia para, diante de registros vocais convincentes, ajudar com todo o procedimento, garantido o arcabouço legal e a lisura de todo o processo, no final do qual uma boa quantia em dinheiro se faz avistar para todos os envolvidos, inclusive, não vou mentir, para mim. Mas, por favor: espero ser contatado por pessoas sérias e com o devido embasamento para serem reconhecidas. Não quero perder muito do meu tempo com pseudodinobenedettis e pseudostéfanos. A vida é trabalhosa e cheia de contas a pagar, estes dois homens amaram com toda convicção esta obra de que foram legatários e, como já esclareci antes, eu nunca escrevi até hoje um verso sequer.


“Tendo a lua, aquela gravidade aonde o homem flutua Merecia a visita não de militares, Mas de bailarinos E de você e eu” Herbert Vianna e Tetê Tillet, Tendo a Lua

TENDO A LUA OU NEM TODOS OS MILHÕES GASTOS PELA NASA NAS MISSÕES APOLLO COMPRAM OS MOMENTOS EM QUE ESTIVEMOS JUNTOS SÓ EU, VOCÊ E A LUA Texto: Fred leal A lua tem um sexto da gravidade da Terra, e na prática, isso significa que tudo parece um sexto mais leve que seu peso real onde real nada mais é do que terrestre. Mas não vamos nos ater à Física, pois foi justamente dela que Herbert Vianna se esquivou com tanta sutileza ao frisar que “o céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu”. O verso vem de um bilhete escrito por uma ex-namorada que acabou ganhando coautoria na música. Tendo a Lua é o ponto mais alto do discutido álbum Os Grãos, lançado pelos Paralamas do Sucesso em 1991. O disco acabou sendo mais sucesso na Argentina que por aqui, embalado pelo sucesso de um cover de Fito Paez. Mas foi Tendo a Lua que cavou seu justo espaço na irrepreensível discografia dos Paralamas e no ranking das letras mais bonitas do rock brasileiro. A Lua, o céu, a noite e os fenômenos naturais sempre tiveram espaço no repertório da banda. Nebulosa do Amor. Será que Vai Chover?. Patrulha Noturna. Nove Luas. Sempre é um bom


momento para sair pra ver o céu, se perder entre as estrelas e finalmente entender como se guiam os cometas pelo espaço. E por mais que o mundo dê voltas em torno do Sol, é a Lua quem faz enlouquecer. Dê um passo para frente e imagine uma régua de trinta centímetros entre seus dois pés. Talvez sobre um pouco de espaço, mas ele dificilmente vai passar dos sessenta ou setenta centímetros, a não ser que você esteja com pressa. Agora imagine esse passo várias vezes mais largo. Imagine pular mais alto, cair em câmera lenta e sentir apenas um sexto do seu peso empurrando os joelhos para baixo. Imagine bailarinos em roupas espaciais, não é difícil. Todos já vimos os primeiros passos de Neil Armstrong em solo lunar. A diferença é pequena. E não é justo que essa sensação fique reservada aos militares, mesmo. E de um único país, ainda por cima. Não é justo que “astronauta” seja um sonho inalcançável para tantas crianças, e nem vamos começar a falar sobre o boicote que o satélite vem sofrendo como opção de destino para exploração espacial nas últimas décadas - a última vez que passamos por lá foi em 1972! E não, missões não tripuladas não contam. E quando a merecida visita “de você e eu” finalmente acontecerá? 2020, nas perspectivas mais otimistas. Talvez aconteça em um ônibus espacial indiano - e você deve imaginar que as palavras ônibus e indiano na mesma frase não remetam exatamente a uma sensação de segurança e conforto. Mas não lamentemos a falta de oportunidades, vislumbremos as incontáveis possibilidades, o que é tão divertido quanto imaginar o que fazer com o prêmio da Mega-Sena. Empinar pipa. Confete e serpentina. Cantar bem alto. Uma sequência de saltos mortais de fazer qualquer juiz olímpico procurar a plaquinha da nota dez. Te jogar pro alto e te pegar no colo. Dançar. Dormir. Beijar. Voar. Será que se eu colocar um bilhete dentro de uma garrafa e arremessar em direção à Terra um dia chega aqui? Alguns cariocas insistem em dizer que a melhor coisa sobre Niterói é a vista para o Rio de Janeiro. Entre a Terra e a Lua, não existe a menor dúvida: ganhamos disparado. E embora deva ser extremamente divertido estar na Lua caçando pedaços de verde e azul reconhecíveis entre nuvens e um universo de distância, o céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu, e sem saber voar, só daqui podemos ser surpreendidos por aquele gigantesco holofote natural, às vezes iluminando ruas escuras de perto, às vezes sorrindo um sorriso largo de longe. “Merecia a visita não de militares, mas de bailarinos. E de você e eu.”


BUROCRATIA DE MARIO CAU Desde que Fábio Moon e Gabriel Bá iniciaram seu desbravamento das histórias em quadrinhos no Brasil, um novo cenário foi criado para as HQs nacionais e, com poucas variações, perdura até hoje. Diferente de tudo o que ocorria até então, o profissionalismo é a marca principal deste cenário, também caracterizado pelo surgimento de novos nomes por meio de autopublicação, seja pelo meio tradicional impresso, seja pela internet. Surgiram movimentos coletivos e independentes do mainstream, que amplificaram a nova onda das HQs nacionais para novos horizontes. Isso sem falar na consolidação do mercado externo, em especial o americano, para desenhistas, coloristas e artefinalistas, o que já é uma outra história.

Dentro do Brasil, o sucesso de Moon e Bá foi, sem dúvida, o polinizador de dezenas de fanzines e publicações bancadas por seus próprios autores. E, dentre eles, uma pergunta às vezes inquieta: quem seria o próximo a seguir os passos dos gêmeos? E a verdade é que o nome de Mario Cau é sempre lembrado, principalmente pela temática de suas histórias, em que o humano, o cotidiano e o urbano sempre estão presentes para conferir a cada narrativa um intimismo muito próprio, como é o caso de Moon e Bá. Criador da publicação independente Pieces e vencedor do HQ Mix, a principal premiação da área no país, Mario Cau traz para Machado o inusitador início de mais uma história de amor.


ORIGAMI Texto: Ane Aguirre Arte: Hiutwig

Que remédio. O mar cura, disse-me uma vez. Eu, joelho sangrando, ela, envolvida num sorriso de bolinhas. Experimenta sal. Açúcar. Sal e açúcar ao mesmo tempo. Vai que estanca. Rio. Que remédio. Entro no táxi e meu silêncio faz o homem perguntar para onde vamos. Não vamos. Desculpe, Aeroporto. Não, obrigado, prefiro janelas abertas. Um pouco mais de sal antes do voo. Eu a teria visto multiplicada pela areia, aquela imagem no fundo doce, nos olhos sal. Sem o riso de bolinhas azuis, ela se repartia nas páginas dos meus avessos. Lia, que remédio? O ir-embora mancha o papel. Lia pele sobre a areia. Não que fosse mais importante a cidade, tampouco o mar, mas, quando sangrava, que remédio era esse insinuado nos olhos doces? Fica. Faz de conta que fica. Escreve uma história sobre o gosto disso. Não gosto de sangue. Gosta sim, é salgado. Feito o mar. Não tem gosto a dor. Tem, sim, ela insiste. Escreve o gosto dos olhos, dentro do que ainda não se fez visão, só vai ser açúcar ao abrir devagar. Fecha. Página que vento vira, dedos tentando prender, escuras lentes, a cidade deslizando pela lateral desenhada de ondas. Não tem remédio. Por quanto tempo o céu se segura antes de desabar todo sobre nós? Não desaba, derrama devagar. E depois? Tudo igual. Repetimo-nos. Toma teu sol, chutou a areia. Unhas vermelhas, rasgos fingidos de vida pulsante como o cinismo do Sol que não pode impedir o óbvio. Eu te repito, nos ouvidos, fones. Eu te repito nessas folhas presas em dedos. As meninas da praia te repetem em silêncios de ângulos perfeitos. Um bom livro, aconselhava, faz milagres. Que remédio. Fechar os vidros. Não te repito o gosto. Passo pelo reflexo que te invento e deixo bilhete. Fico ali, na esquina daquela página, estátua de sal.


Texto: Mariel Reis Arte: Narghee-la

ESTAMOS OS DOIS

A SÓS

(PEÇA EM UM ATO) Personagens:

Carlos Desconhecida Desconhecido Teresa

A ação se passa no presente, em um pequeno apartamento de um centro urbano. Teresa e Carlos são amigos, e dividem o aluguel do apê.


1.

(Teresa folheia uma revista de celebridades com expressão contrariada. Parece apontar para a reportagem sobre determinada atriz que desmanchou o noivado. Olha para o público e com uma gargalhada crescente exibe a fotografia da matéria) TERESA – Ela não sabe, ela não sabe (ri descontrolada). CARLOS (entrando em casa) – Quem não sabe o quê? TERESA (apontando a fotografia da revista) – É ela que não sabe, ela. (pausa) Ele a trocou por mim, porque sou mais bonita, mais talentosa, venho de família rica... CARLOS – Você é apenas uma empregada. Você varre, lava, passa e cozinha. Ou descobriu algum parente rico que deixou herança para a pobrezinha. TERESA – Você também é um descrente, não vê as minhas roupas? (Teresa alisa o roupão como se o tecido fosse seda e estivesse vestindo um manto real) CARLOS – Vejo sua roupa. É apenas um roupão de banho. TERESA – Você está cego. Ela está cega. (aponta mais uma vez para a fotografia) Todos vocês são cegos. (direcionado para o público) Ele vai entrar por esta porta, vai estar vestido como um rei, sorrirá. O carro estará parado na calçada, então me pedirá para fugir com ele. Ficará de joelhos, vai implorar para que eu abandone toda a minha vida, prometendo casamento, fortuna e... CARLOS – Não seja louca. TERESA – Não me interrompa. CARLOS – Já está tarde. É melhor dormir. TERESA – Eu ainda não acabei. CARLOS – Acabou sim. (Carlos se retira para dormir)

2.

(Teresa sozinha na sala)

TERESA – Este aí acha que eu sou louca. CARLOS (do quarto) - E não é? TERESA - Mas eu não sou maluca, não... Ele virá me pedir em casamento, eu sei. Vai se arrastar aos meus pés, implorar. Aí, direi,


fica com a vagabunda, fica. Não é ela que você ama, não é? (vai até o armário e retira de lá outras revistas de celebridade) Aqui, vocês na Ilha de Páscoa, seu pilantra. Agora que a mamãe aqui faz mais gostoso, você vem me procurar. Tomou um pé na bunda e quer se consolar nos braços da lindona aqui, né? (Ouve-se o barulho do elevador. Batem na porta) TERESA – Quem é? DESCONHECIDO – Sou eu, meu amor. TERESA – Vá embora. Não quero ver você nem pintado de ouro. DESCONHECIDO – Mais uma chance, querida. Por favor... (Teresa colada à porta, hesita com a mão na maçaneta) TERESA – Só abro a porta se você jurar que irá esquecer aquela vagabunda. DESCONHECIDO – Ela não representa mais nada para mim. TERESA – Então eu abro. (Desconhecido vestido como um rei, agarra-se às pernas de Teresa) DESCONHECIDO – Por que você não vem comigo? TERESA – Você é um canalha! (Carlos acorda e vai para a sala) CARLOS – Mas o que é isso? TERESA – Você achou que eu fosse louca, não é? DESCONHECIDO – Quem é este homem? (Carlos, desconcertado, repara que o Desconhecido é mesmo o cara da revista de celebridades) CARLOS – Eu moro aqui com ela. DESCONHECIDO – Não me diga que é casada? TERESA – Não sou casada. CARLOS – Mas o que ele faz aqui? É alguma brincadeira de mau gosto, não é? Isto deve ser armação de programa de auditório. Vamos acabar com isso logo de uma vez, porque eu preciso dormir. DESCONHECIDO – Do quê ele está falando? TERESA – Ele está descontrolado, meu amor.


DESCONHECIDO – Você me chamou de “meu amor”... CARLOS (ênfase) – Ou vocês acabam com essa palhaçada ou eu chamo a polícia. Quem é este homem? DESCONHECIDO (Pega uma revista) – Caro amigo, eu sou este homem (aponta para a fotografia). TERESA – É verdade, Carlos. Ele é realmente quem diz ser. CARLOS (Grita) – Vocês são loucos, loucos! DESCONHECIDO – É melhor que você durma. Conversaremos baixo para não interromper o seu sono. TERESA – Carlos, pode ir dormir. Não se preocupe, vou ficar bem. CARLOS – Como posso dormir com um desconhecido na minha casa? Com esse homem que me parece um impostor (gagueja), um sósia mal intencionado, um canalha que quer se aproveitar de sua fragilidade. Você, Teresa, não está bem. Tudo isto só pode ser um delírio, não pode estar de fato acontecendo. TERESA – Não se preocupe. Pode ir dormir, não atrapalharemos o seu sono. E não, não é imaginação ou delírio. Também estou sonolenta, mas consigo perceber bem as coisas. Tudo isto é a realidade. DESCONHECIDO – Pode me beliscar, se quiser, para provar que sou de verdade. (Oferece o braço para Carlos) CARLOS – Tudo bem. Tudo pode não passar de um sonho, de um pesadelo, algo assim. Eu posso muito bem estar dormindo agora, aqui no quarto ao lado. E tudo isso pode ser um produto da minha mente. Logo acordarei e tudo voltará ao normal. TERESA – Estamos todos dormindo. CARLOS – Alguém precisa decidir. Estamos ou não dormindo? DESCONHECIDO – Depende do ponto de vista. TERESA – Como assim? CARLOS – De que ponto de vista. DESCONHECIDO – Se considerarmos que estamos acordados, podemos estar sonhando de olhos abertos. E, em alguma parte de nós, nossa consciência dorme, velando pelas ilusões que criamos. Ou podemos estar dormindo e nossos espectros dançando a ilusão macabra que experimentamos agora. TERESA – Tudo isso é muito complicado. CARLOS – É verdade. DESCONHECIDO – Então tomemos o que nossos olhos veem como realidade. TERESA – Assim é mais fácil.


CARLOS – Eu concordo. Estou impotente mesmo para provar o contrário. DESCONHECIDO – Vá dormir, volte para os seus sonhos. (Carlos se retira para o quarto)

3.

DESCONHECIDO – Onde estávamos mesmo? TERESA – Eu dizia que se você esquecesse aquelazinha...

(Ouvem-se novas batidas na porta) DESCONHECIDO – Você está esperando mais alguém? TERESA – Eu, não. Quem será a esta hora? (Teresa junto à porta novamente) TERESA – Quem é? Voz feminina – Abra! Está frio aqui fora! DESCONHECIDO – O que você quer? Voz feminina – É você, Carlos? DESCONHECIDO – É uma visita para o seu amigo. TERESA – Estranho... (Olha para o Desconhecido) Já vou abrir! (Fala em direção à porta) (Uma mulher vestindo sobretudo entra na sala, deixando entrever pernas bem torneadas. Usa por baixo um biquíni sensual) DESCONHECIDA – Obrigada por me deixar entrar. Esfriou bastante lá fora. TERESA – Também com essa pouca roupa... DESCONHECIDO – Para mim, ela está muito bem vestida. DESCONHECIDA – Obrigada. TERESA – Pode parar, pode parar. O Carlos está no quarto dele tentando dormir. Vou chamá-lo. (Novas batidas na porta. Teresa vai abri-la. Entra Carlos com uma sacola). CARLOS – Que demora para abrir a porta. Vocês querem me matar! Está mesmo frio lá fora. Meu amor! (Para a Desconhecida) Chegou faz muito tempo? DESCONHECIDA – Não, agorinha mesmo.


CARLOS – Quer beber alguma coisa para espantar a friaca? DESCONHECIDA – Aceito. (Carlos retira da sacola uma garrafa e dois copos) TERESA – Carlos, você não estava dormindo? CARLOS – Querida, não me faça piadas. DESCONHECIDO – Eu também achei que você estivesse dormindo. TERESA (com espanto) – Você pulou a janela. CARLOS – Como, se estamos no quinto andar? Só se quisesse morrer. (Força uma risada) DESCONHECIDA – O que houve, meu amor? CARLOS – Não é nada. TERESA (Indignada) – Como não é nada? CARLOS – O melhor que tenho a fazer é me recolher ao meu quarto. Façam bom proveito do sofá. Vamos, meu amor. (Carlos se retira para o quarto com a Desconhecida. Ouvem-se gemidos de amor louco) TERESA – Eu não entendi muita coisa. DESCONHECIDO – Eu também, não. Mas com as horas tão avançadas, já não distingo muito bem o que é verdade e o que não é. TERESA – Já está mesmo muito tarde. DESCONHECIDO – Vamos ao que interessa. Você quer casar comigo? Juro que não olho mais na cara daquela fulaninha. TERESA – Você jura? DESCONHECIDO – Juro. (A luz se apaga. Ouve-se Teresa fazendo amor com o Desconhecido)

4.

DESCONHECIDA – Carlos, quando essa noite terminar nós não nos veremos nunca mais. CARLOS – Não diga bobagens. Vamos nos ver sim. DESCONHECIDA – Não, não vamos. (A luz desce)


5.

(No palco, a cama. A luz se abre devagar, revelando Teresa e Carlos dormindo abraçados) CARLOS (Espantado) – O que você faz aqui na minha cama? TERESA (Decepcionada) – O que você faz aqui na minha cama? CARLOS – Eu não sei, mas na noite passada... TERESA – Não me diga que você recebeu uma visita. CARLOS – Como é que você sabe? TERESA (Triste) – Eu também recebi uma visita. CARLOS – Você quer falar sobre isso? Temos alguns minutos ainda. TERESA – Não. É melhor levantarmos, senão nos atrasamos para o trabalho.


PAI NOSSO


Texto: Octavio Aragão Arte: João Grando

Não sou um monstro, mas o resto do mundo é. As placas brancas e afiadas em suas cavidades bucais atestam a agressividade latente da espécie dominante. As extremidades balouçantes nas pontas dos extensores são órgãos táteis delicados, mas fortes em sua ânsia de travar contato. Não, não. Todos afastados ou serei obrigado a usar o desfibrilador. Os aparelhos de captação luminescente variam as cores, entre azul, verde e castanho, passando pelo preto fosco e por raros tons amarelados. Olhos curiosos e lacrimejantes, com uma sutil camada líquida na superfície.


Dois. Que fixação em dualidade. Toda sua fisiologia é dual: auscultadores, orifícios respiratórios, membros para locomoção. Não sei como não têm duas cabeças, mas talvez o cérebro, dentro da caixa craniana, seja duplo. Aponto o tubo para frente e dirijo-me ao local de origem. Disso eu lembro. Se ao menos meu nome também voltasse... – Vai parar agora com a palhaçada ou serei obrigado a apelar? — diz a criatura à minha frente, impedindo a passagem. De sua abertura bucal pende um pequeno cilindro branco fumegante. Decido investir, mas tropeço e caio, a arma voa e acaba aos pés do inimigo. Imediatamente, empunho um embaralhador neuronal e miro entre os olhos da coisa, apenas para ver o aparelho explodir sozinho em minhas mãos, chamuscando meus dedos. – Companheiro, você está abusando da sorte. — fala o aborto ambulante — Se continuar, vai acabar se machucando seriamente. Notei que, enquanto já estou quase deitado no chão graças ao peso de meu corpo subitamente ampliado, o monte de lixo sobre pernas não moveu um músculo. Arranho o solo e luto para vencer a gravidade ainda pensando em avançar. Minhas mãos derrapam e bato com o queixo no chão, quebrando dois dentes. O estupor se limita a suspirar enquanto solta uma baforada fétida. Procuro a faca de aço molibdênio que trago na perna esquerda e pressiono o botão que solta a lâmina. Ela emperra. Forço o mecanismo e, depois de um estalo, o punho da faca racha, ferindo a palma de minha mão direita. Agora não consigo segurar mais nada. O estrume envolto num sobretudo cuja cor é indecifrável está de olhos fechados, aparentemente alheio à minha ridícula condição. Tomo uma decisão enquanto me arrasto na sarjeta: vou matar esse filho da puta. Vou partir cada uma das costelas, arrancar o coração e mastigar na frente dos olhos baços dele enquanto ainda estiver dando a última baforada. A baba, minha baba, forma uma poça vermelha. – Chega, meu filho, expulsa essa bosta de demônio antes que tua mãe apareça, vai. Já vai ser uma merda explicar pra ela como você ficou desse jeito, ainda mais se você chegar em casa com bafo de enxofre. Tento ignorar o ruído da besta e luto para deslocar o corpo. O sangue que escorre não ajuda. – Ah, caceta, não vai ajudar, né? Então tá bom. Escuta aqui, seu demônio de quinta, se prepara porque eu vou chutar esse teu rabo até as portas da casa do teu pai, aquele corno!


O animal sacode as mãos, sussurra cânticos e sinto dores horríveis, calafrios que vêm de fora para dentro e terminam em convulsões. A visão turva e os tímpanos explodem enquanto sinto o solo ceder sob meu peso e o entorno se fechar sobre a cabeça. O torvelinho é quente, úmido e tem cheiro de nostalgia. Fezes, urina e esperma. Depois de muita dor e prazer, finalmente recordo tudo: minha missão, meu alvo e minha falta. Agora é tarde. A casa de meu pai tem muitas portas e estou diante da principal, aquela feita de osso. Serei punido alegremente por minha amnésia induzida, mas ao menos voltei com um prêmio, a marca da voz do verme que pronunciou meu nome. É verdade que nomes têm poder, mas isso pode ser uma faca de dois gumes. Uma vez pronunciado, mesmo com efeito de exorcismo, um elo indissolúvel se produz entre boca e ouvido, algo próximo ao resíduo psíquico eterno que existe entre amantes carnais. Assim como todo intercurso, também toda conexão interplanos ecoa para sempre. Sou pequeno ainda, diante da vastidão dos domínios de meu pai, mas tenho tempo. E agora, eu sei onde e quando o Rei da Escória Humana se encontra. Eu e ele somos irmãos e eu gosto de família grande.


MINHA PRIMEIRA VEZ FOI UMA

DESPEDIDA Texto: Vanessa Rodrigues Arte: Narghee-la

É a que não explodiu a mais perturbadora das granadas. Porque permanece. E essa potência de ato (a violência ambígua como se manifesta) perfura mais que os mil estilhaços projetados. Sendo dúvida, é ao mesmo tempo silêncio e explosão. Você se mudaria no dia seguinte. Não tínhamos planos. Realmente me surpreendi quando desviamos o caminho para a estrada. Fiquei tímida, ansiosa. Não fantasiei nada, não tive tempo. Naquela manhã, isso não tinha sido uma preocupação. Um plano. Não comprei calcinhas novas, não pensei nos zíperes. Acho que vestia jeans, o que é um erro. Como as cortesãs experientes, devia ter usado um vestido, um vestido com fecho fácil atado nas costas. São feitos para serem tirados. Como as cintas-liga, como as meias sete oitavos, como a fantasia de colegial. Mas eu não era experiente. Eu era virgem. E minha primeira vez foi uma despedida.


Mas falo da violência do desejo e de um grão de amor estéril, uma história atrofiada pelo tempo, pelo acaso, como tudo isso que não morre, mas nasce com muita intensidade, continua por anos e insiste por décadas. Uma vida inteira. Acho que fechei os olhos. Não o tempo todo. Quando estive sozinha no quarto, talvez. Aquele não era o cenário ideal. Tive de fechar os olhos, não porque estava tímida, insegura e triste. Mas todo aquele jogo de sedução barato me enjoava. A luz controlável, os espelhos foscos, os chocolates e os preservativos sobre o frigobar. Talvez se no lugar daquele tapete estampado fosse feito água, se pelo menos tivesse uma banheira. Da memória e da expectativa criam-se vínculos falsos, invenções. Partindo do que se vive, planeja-se minuciosamente o próximo passo, como se a história fosse um tecido simples, tramas sem complexidade feitas de uma só linha. Como se fosse possível fotografá-la de um plano aéreo. Começar pela claridade. O teto transparente, ou uma grande porta de vidro que leva à varanda de onde se pudesse ver o mar. Ou bem alto, a cidade pontinhos vermelhos de luz. Tocaria Norwegian Wood sobre os lençóis muito brancos. Podia ter sido no seu quarto, que não cheguei a entrar. Poderia ter sido à tarde, a casa vazia, a gente marcaria de ver um filme depois da aula e você me diria Venha aqui, quero te mostrar uma coisa. Eu diria Claro, claro, meu amor, sempre sonhei com esse momento. Podia ter sido no sofá, ou na cama da sua mãe que nem sei o nome. A gente combinaria de tomar um café no dia seguinte e não sentaria um de frente para o outro, mas lado a lado, os braços inteiros se tocando, olhando em silêncio para todo mundo, que notaria em nossa tensão uma coisa bem bonita começando.Sim, somos jovens, sim, e livres, e ainda não nos amamos, mas e daí? A gente se diverte e acha as xícaras desse bar muito bonitas. E no dia seguinte a gente repetiria tudo, como se tudo nunca mais acabasse, como se nada nunca mais. Qual seria a solução? Estudar o mecanismo das bombas, isolar as adjacências e com toda a cautela do mundo desatar o circuito? Há, no entanto, um grande risco nisso. Há somente uma chance, pois é possível que, remexida em suas intimidades, uma bomba engasgada desperte em suas mãos.


Aquela noite era o que nos restou. O motel e seu cenário genérico era o que tínhamos. Tecnicamente não éramos namorados. Por isso a certeza de que não nos veríamos de novo. A distância não seria apenas geográfica. Em algumas horas, construiríamos juntos um grande vão. Derrubaríamos pouco tempo depois qualquer chance de ponte. Não sei mais se me lembro do que vi ou do que esperei ver. Se amei de verdade esse momento, se realmente amei você ou uma invenção, uma projeção, uma sombra. Uma bomba desarmada é um cadáver. Um corpo inútil, sem história. Sua quietude entristece. E da experiência do corpo não lembro. Porque não quis morrer. Tentei gravar cada traço do seu rosto, a cor de seus olhos, o tom sereno como ria de mim. Como os turistas que fotografam tudo sem sentir onde estão, eu era a visitante de um monumento que ruiria em breve. Alguém que sentia saudades enquanto era beijada. Uma granada falha é um natimorto. Acendemos um cigarro porque nos agradavam os clichês. E rimos alto, abrimos o vinho, conversamos mais uns minutos. Nunca vou me esquecer de você, ele disse. Eu te amo, respondi. O único traço delicado entre nossas figuras é a memória. Uma memória falsa, memória da expectativa. E a lembrança meio falha de um amor que.


CHIQUINHA! E SEU MUNDO GENIAL Quando esta Machado estava em produção, as coisas eram um pouco diferentes para Chiquinha! (assim mesmo, com exclamação no final). Badalada na internet e publicada em algumas revistas, ela era, no entanto, ainda inédita em livro e pouca gente fora do mundo dos quadrinhos ainda a conhecia. Dois anos depois, com livro lançado, aparecendo no programa do Jô Soares e o escambau, o mundo pode pensar que finalmente está preparado para ela. Está?

Chiquinha! é uma daquelas raras vozes femininas que competem pau a pau com a homarada típica que domina desde sempre o cenário nacional do humor gráfico. Não está só, é claro, e isso é cada vez mais verdade. Mas ela se destaca das outras desenhistas de sua geração. Além de engraçado, seu trabalho é pontuado por um desenho limpo, temática muito pontual e uma paleta de cores marcante. O que só faz aumentar a fama da querida elefoa cor-de-rosa.


“Quando um rio corta, corta-se de vez

o discurso-rio de água que ele fazia; cortado, a água se quebra em pedaços, em poços de água, em água paralítica. Em situação de poço, a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada, estanque no poço dela mesma, e porque assim estanque, estancada; e mais: porque assim estancada, muda e muda porque com nenhuma comunica, porque cortou-se a sintaxe desse rio, o fio de água por que ele discorria. O curso de um rio, seu discurso-rio, chega raramente a se reatar de vez; um rio precisa de muito fio de água para refazer o fio antigo que o fez. Salvo a grandiloqüência de uma cheia lhe impondo interina outra linguagem, um rio precisa de muita água em fios para que todos os poços se enfrasem: se reatando, de um para outro poço, em frases curtas, então frase e frase, até a sentença-rio do discurso único em que se tem voz a seca ele combate.” João Cabral de Melo Neto, Rios sem discurso

TECENDO O

RIO-DISCURSO Texto: Janaína Azevedo Corral

Fotos: Acervo Última Hora/Arquivo Público do Estado de São Paulo, com imagens de L. Pinto, H. Almeida, Galeão, Faria Lima e Grupo da D


O poema escolhido para falar sobre a obra e vida de João Cabral de Melo Neto consta em seu livro, A educação pela pedra, de 1966, e escolhido foi por, de forma única e coesa, como expressão típica da obra do autor, conter um mesmo percurso narrativo, sintético e bem elaborado, acerca da palavra como arma e instrumento do discurso que não se cala, a palavra de muitos unida sob uma só ordem, com força e altivez, capaz de reivindicar e argumentar a partir de uma linha de pensamento social, política, retórica e literária que se faça coerente. Da mesma forma, transmite de forma implícita, uma rigidez do “engenheiro das palavras”, suas historiografia e bibliografia, para estabelecer uma linha de pensamento sobre sua obra, destacando e diferenciando suas manifestações literárias, como devido, dentre aquelas de sua época; a partir disso, dessa aspereza de tons agrestes, é possível situar o poema dentre os que constaram em mesmo volume e edição, para, por fim, analisar sua palavra, a poesia sobre o Rio-Discurso, sob todo o seu percurso poético e narrativo.

Biografia crítica

Descendente de tradicionais famílias de Pernambuco e da Paraíba, João Cabral de Melo Neto foi o segundo dos seis filhos de Luiz Antonio Cabral de Melo e de Carmem Carneiro Leão Cabral de Melo. Nasceu no Recife, capital do Estado de Pernambuco, no dia 9 de janeiro de 1920, mas como seu pai era senhor de engenho, passou parte da infância e adolescência em engenhos de açúcar. Primeiro no Poço do Aleixo, em São Lourenço da Mata, e depois nos engenhos Pacoval e Dois Irmãos, no município de Moreno. A vida no campo marcou profundamente o poeta. Apesar da vivência nos grandes centros, Cabral nunca se adaptou à cidade grande e à agitação do mundo urbano, sentindose para sempre um homem do interior. Na infância feliz, seu tempo era dividido entre as brincadeiras na casa grande com Virgínio, seu irmão mais velho a quem era muito unido, e os passeios a cavalo pelo canavial. João Cabral era uma criança sensível e, desde pequeno, demonstrava preocupação com o ser humano, numa atitude muito singular para sua pouca idade. Por volta dos oito anos de idade, ele morava com a família em Recife e ia para o engenho no tempo das férias. Seu irmão Virgínio lembrou que, aos domingos, o administrador do engenho ia à feira fazer as compras de mantimentos para a casa. Nestas ocasiões João Cabral dava-lhe dinheiro e encomendava a compra de folhetos de cordel. À tarde, ele ia para a moita do engenho e, com os empregados todos ao redor de si, lia três, quatro folhetins para o pessoal de lá.


O contato com os trabalhadores da usina seria uma experiência fundamental para o poeta, pois, mais tarde, na vida adulta, viajando pelo mundo como diplomata, Cabral teria o necessário distanciamento para ver melhor, com preocupação e pungência, a verdadeira realidade do nordeste e retratá-la em sua obra. De forma bem humorada o escritor Décio Pignatari definiu assim o poeta João Cabral: “Ele tem um lado popular que se chama João Cabral e tem um lado aristocrático que se chama Melo Neto. Então, ele é, um pouco, todo este universo conflitado e passou quarenta anos tentando resolver este conflito.”

A poesia de João Cabral de Melo Neto é um marco dentro da literatura brasileira. Sua obra desencadeia uma revolução formal das mais importantes na história da poesia do nosso país e representa a maturidade das conquistas estéticas mais radicais do século XX. Opondo-se ao principal curso da poética nacional que sempre fora sentimental, retórica, ornamental, João Cabral de Melo Neto constrói uma poesia não lírica, não confessional, presa à realidade e dirigida ao intelecto. Apesar de pertencer cronologicamente à geração de 45 (formada por nomes como Péricles da Silva Ramos, Geraldo Vidigal, Ciro Pimentel entre outros) Cabral não se enquadra esteticamente nesta geração. A geração de 45 propunha um retorno às formas tradicionais do verso, como o soneto, e negava o experimentalismo dos modernistas de 1922. João Cabral é tido como o único poeta da geração de 45 que influencia a forte geração posterior, formada pela vanguarda brasileira dos anos 50 e 60, sobretudo a vanguarda concreta. “Pode-se dizer que ele não tem antecedentes na poesia brasileira, a obra dele tem conseqüentes. Porque é a poesia concreta que vai manter, continuar, expandir e levar para outros caminhos essa linhagem de uma poesia não sentimental, de uma poesia objetiva, uma poesia de concretude, uma poesia crítica, como é a poesia de João.” Augusto de Campos, poeta e ensaísta

A este respeito disse João Cabral: “A poesia concreta é muito mais visual do que auditiva e talvez resida aí a possível influência minha sobre ela. A poesia concreta é muito interessante e não precisava de mim pra ser o que ela é.”


A poesia concreta brasileira interessou a muita gente e não só no Brasil. Em 1966 houve na Bélgica um importante festival de poesia e, segundo o próprio João Cabral que estava lá a serviço do Itamaraty, o assunto principal foi a poesia concreta no Brasil.

Historiografia brevíssima

Em 50 anos de intensa atividade literária, João Cabral de Melo Neto publicou 18 livros de poemas e dois autos dramáticos (Morte e Vida Severina e Auto do Frade). Dentre outras também estão Pedra do Sono (1942); O Engenheiro (1945); Psicologia da Composição, Fábula de Angion e Antiode (1947); O Cão sem Plumas (1945); O Rio (1954); Duas Águas, Morte e Vida Severina, Paisagens com Figuras e Uma Faca só Lâmina (1956); Quaderna (1960); Dois Parlamentos (1961); Terceira Feira (1961); A Educação pela Pedra (1966); Poesias Completas (1940-1965), (1968); Museu de Tudo (1976); Escola das Facas (1981); Serial e Antes e A Educação Pela Pedra e Depois (1997). Poeta do rigor, não existe em sua obra “o livro mais importante”, mas sim um conjunto de poemas fundamentais da literatura brasileira. Em prosa, Cabral sempre escreveu pouco, seu ensaio mais significativo foi Joan Miró sobre o pintor espanhol, publicado em Barcelona em 1950, com ilustrações do próprio Miró. A poesia de João Cabral de Melo Neto pode ser dividida em dois módulos distintos, propostos pelo próprio poeta ao publicar o livro Duas Águas, de 1956. Uma água construtiva e outra participante. A primeira água seria formada pelos poemas experimentais, arquitetônicos, feitos para poetas e que versam sobre o próprio fazer poético. A água participante volta-se para a problemática social do homem do nordeste e é formada por obras como O cão sem plumas e O rio, que são poemas longos sobre os miseráveis habitantes dos manguezais do rio Capibaribe. Apesar do mesmo rigor estético das obras construtivistas, atingem com mais facilidade o leitor comum, pois lidam com problemas universais do ser humano: a fome, a miséria, as diferenças sociais. O escritor e ensaísta Décio Pignatari não concorda com esta divisão. “Eu acho que é reducionista e prejudica o entendimento da obra de João Cabral. O pessoal da Academia de Letras e os acadêmicos da Universidade se contentam com esta divisão e acham que ela explica tudo. Mas não é bem assim. João Cabral sustenta uma enorme crise, um debate que nunca se resolve,


entre a obra de arte em si e a obra de arte enquanto instrumento de melhoramento e aperfeiçoamento social. Ele mantém esta contradição constantemente, e isto impregna toda a obra dele. O conflito é rico e é muito mais entranhado.”

A poesia de João Cabral de Melo Neto é difícil para o grande público porque não dialoga apenas com o leitor comum, mas também com os realizadores de poesia. A principal temática de Cabral é a reflexão do próprio fazer poético. Sua poesia é autoexplicativa e ninguém melhor do que ele mesmo, através de sua obra, se analisou. Em sintonia com a corrente evolutiva da melhor literatura contemporânea parte da poesia de Cabral reflete uma postura crítica sobre o ato de escrever e são descrições ou mesmo reflexões, quase sempre indiretas, sobre o fazer literário de outros escritores como a americana Marianne Moore, o português Cesário Verde, os franceses Baudelaire, Paul Valéry e Mallarmé. Para o poeta Haroldo de Campos, sempre existiram poetas críticos importantes na literatura mundial como Dante, Fernando Pessoa e Goethe. O romantismo alemão produziu um grande número de poetas críticos e Goethe é seu maior representante. Mas, existem também os importantíssimos poetas críticos de língua inglesa como Samuel Taylor Coleridge, T. S. Eliot e Ezra Pound. O escritor russo Boris Pasternak (autor de Dr. Jivago e Prêmio Nobel de Literatura em 1958) e Octavio Paz, que o poeta Haroldo de Campos considera “o grande poeta crítico na América Latina”, são outros exemplos. João Cabral de Melo Neto é um poeta construtivista, ligado por temperamento às formas visuais de expressão fato que o levou a, desde cedo, se interessar pela arquitetura e pelas artes plásticas. Ele valoriza a forma visual dos poemas, a geometrização. Propõe para a poesia um verso construído, desmistificando o ato de “criar com inspiração”. Sua poesia dialoga com artistas plásticos contemporâneos como Piet Mondrian ou Joan Miró e tem afinidade com os cubistas. Além das influências literárias, seus poemas são inspirados nas teorias arquitetônicas de Le Corbusier e nas estruturas das artes plásticas construtivas. Seus poemas são trabalhados em blocos ou quadras-blocos que funcionam como os retângulos de um quadro de Mondrian. Em geral os poetas só começam a pensar na publicação de um livro após terem escrito um certo número de poemas. João Cabral procedia de maneira diferente: ele planejava seus livros antes mesmo de começar a escrever e sabia, exatamente, como queria


editá-los; assim, ele determinava o formato e o número de poemas que seriam publicados em cada um de seus livros. O próprio poeta afirmava que impunha a si todas essas dificuldades para que o livro e os poemas crescessem paralelamente. João Cabral costumava dizer que o livro não é um depósito de poemas e, portanto, deveria ser concebido como uma estrutura total, uma macroestrutura. Assim ele procede em todos os seus livros, e não seria diferente naquele que escolhemos como objeto deste trabalho: A Educação pela Pedra, de 1966, é dividido em quatro partes: a, A, b e B. Nas partes minúsculas os poemas são curtos e nas partes maiúsculas os poemas são longos. Os temas dos poemas também são distribuídos conforme as letras. Esta maneira de organizar os poemas pode exemplificar a preocupação do poeta com um livro cuidadosamente projetado.

Tecido feito de vozes: metáforas da grandiloquência

Tão coeso e hermético é o estilo de João Cabral que, por vezes, deparar-se com a necessidade de analisar um de seus poemas, mais do que uma dádiva, é um desafio imenso, pois a grandiloquência de suas palavras cruzando-se como os fios de tricô perfeito, como manhã nascida dos gritos dos galos em polvorosa pelo raiar do dia, como rio em pleno momento de sua cheia, volta-se ao leitor tão cheia de significados bem construídos e delimitados que, ao mesmo tempo, sob a perspectiva de uma análise, ficamos perdidos na possibilidade de fazê-lo e quem sabe macular o que está dito com simplismo, acrescentando o óbvio sobre a arquitetura requintada, moderna e bem construída de sua poesia. A estrutura do poema Rios sem discurso é um poema hermeticamente construído, tanto em significado quanto em estrutura. Temos aqui um poema em duas estrofes de doze versos cada; a escansão de cada verso nos mostra uma metrificação em decassílabos. Quan(1)| do um(2)| rio(3)| cor(4)| ta,(5)| cor(6)| ta-(7)| se(8)| de(9)| vez(10) Temos aqui um poema absolutamente regular, não construído em formas clássicas, mas bem articulado e bem delineado. A rima, no entanto, não possui qualquer regularidade, havendo terminações diferentes em todos os versos. Porém, um aspecto formal que conserva em si, quase que um show a parte, é o ritmo. João Cabral nos reserva uma poesia de


melodia única, que acrescenta à narração do poema a sensação de estarmos observando o transcorrer da história. Numa primeira fase do poema, fala-se sobre a situação do rio cortado, que, como o discurso, uma vez cortado, desfaz sua trajetória, perdendo-se por entre meandros. Ao descrever o rio cortado, a melodia faz que o leitor se sinta preso em cada um dos “poços de água paralítica” a cada pausa que o poema nos impõe à leitura. Cada ponto, nos vemos obrigados a uma pausa involuntária, a como água circunscrita a uma pequena depressão, ficar empoçados e sentir aquela estagnação. A quebra, de poço em poço, é por vezes maior, por vezes menor, mas sempre uma quebra, que mantém a narratividade, mas desfaz a melodia em pequenos talhes. Quando um rio corta, corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia; (pausa) cortado, a água se quebra em pedaços, em poços de água, em água paralítica. (pausa) Em situação de poço, a água equivale a uma palavra em situação dicionária: (pausa) isolada, estanque no poço dela mesma, e porque assim estanque, estancada; (pausa) e mais: porque assim estancada, muda e muda porque com nenhuma comunica, porque cortou-se a sintaxe desse rio, o fio de água por que ele discorria. (pausa)

Essas quebras se mantêm na estrofe seguinte. Num primeiro momento da estrofe, vemos que essas quebras se mantêm porque o discurso-rio quando se quebra custa a se reatar novamente, custa a restabelecer seu curso, e mesmo quando o faz, geralmente não o faz por seu caminho primeiro e primordial, o faz criando charcos e desvios onde antes era terra firme, pois a água flui agora, sob a força das cheias, a palavra sob a cheia da grandiloquência e é difícil controlar o que virá então.


O curso de um rio, seu discurso-rio, chega raramente a se reatar de vez; (pausa) um rio precisa de muito fio de água para refazer o fio antigo que o fez. (pausa) Salvo a grandiloqüência de uma cheia lhe impondo interina outra linguagem, um rio precisa de muita água em fios para que todos os poços se enfrasem: se reatando, de um para outro poço, em frases curtas, então frase e frase, até a sentença-rio do discurso único em que se tem voz a seca ele combate.

A última parte dessa estrofe vem sem qualquer pausa de sentido, o qual é contínuo até o fim do poema, e, por mais que durante a leitura possamos perder um pouco o fôlego para terminar, é então que sentimos a força da cheia dessa grandiloquência de que o poeta fala. Mesmo o léxico dessa parte final demonstra do que tratamos: ele é mais elaborado, as palavras escolhidas a dedo, para mostrar a mudança para uma linguagem interina que enfrase de poço em poço essa água paralítica, termos que normalmente não encontramos na linguagem cotidiana fluem pelo poema neste trecho: “grandiloquência”, “interina”, “enfrasem”, garantindo de forma concisa um fechamento ideal para o poema. Temática e percurso narrativo João Cabral é um poeta do nordeste, que extrai da caatinga, do sertão e do ambiente à sua volta os elementos para sua poesia. Com esse exemplar de sua obra não seria diferente. Rios sem discurso pode passar a olhos desatentos como uma mera comparação entre um rio e um discurso que se faça, e, ambos sendo interrompidos, para que recomecem é necessário algum tipo de força que supere a interrupção. No entanto, tomando o nordeste, com suas caatingas e clima semiárido, geograficamente definido por duas estações no ano muito distintas, uma extremamente seca, e outra extremamente chuvosa, perceberemos que o poema descreve o rio passando pelas mudanças climáticas: no começo, na seca, o rio se corta pela falta iminente de água, se corta, deixando pequenos poços de água não só “paralítica”, como suja pela terra vermelha que a sua volta se racha sob os pés


duros do nordestino da caatinga; esses poços de água parada, que por muitas vezes são a única fonte de água de muitas famílias do semiárido nordestino, só vão se reunir novamente com as cheias que o verão traz, quando os rios voltam a correr com seu volume de água normal devido às chuvas em suas nascentes, que aumentam sua vazão, fazendo-os repreencher seu curso — embora nem sempre seja o curso antigo, pois a água escolhe a cada cheia seu melhor caminho. Ao comparar o rio e o discurso, a este último são atribuídos valores importantes. O discurso-rio também necessita de cheias que mantenham sua força, e a força de cada uma de suas palavrasgota. Essa palavra, esse discurso combate outro tipo de seca: a seca de ideias, a seca de voz. Voz para combater as injustiças sociais e as secas que vemos a cada dia: a fome, a miséria, o descaso, a falta de compromisso social, tanto da sociedade laica como dos governantes e administradores. Voz que não se cale, voz que não se deixe abater pela seca, seja ela imposta pela mudança de curso de uma barragem ou pelo clima árido das dificuldades. O rio discurso também se corta em poços de água paralítica quando se depara com uma seca, como o descaso, a indiferença e a falta de consciência. Um discurso-rio não se mantém senão por fio em fio de água que se junte: um só fio de palavra não faz um discurso, assim como um único fio de água seca por terra abaixo. A grandiloquência não vem unicamente do poeta, ou do orador, do conhecedor da retórica ou daquele que escreve, seja num jornal ou numa poesia: a grandiloquência, sim, vem do fio do discurso de muitos, que se juntam para formar a vazão desse rio. Uma gota não acaba com a seca: são necessárias muitas gotas para formar um rio que combata a seca e encharque a terra, fertilize a mente e deixe por ela correr a sentença-rio de discurso único, coeso e consciente. E aqui, é necessário dizer que, uma vez que o discurso-rio se encontre em água paralítica, o que antes era cheia, hoje se torna poço, açude que com o tempo seca, não há outra maneira senão esperar que o rio se faça novamente cheio e escolha novos caminhos, cobrindo, ou quem sabe não, as águas paralíticas que ficaram em sua antiga passagem. Aí vem a nova linguagem, a renovação, idêntica à que se dá no nordeste a cada ano, a cada estação chuvosa que vem após a seca.


O PROFANO SAGRADO DE GUILHERME PILLA Dentre os convites enviados para esta edição de Machado, um deles era uma quase certeza de negativa. Afinal, fazia algum tempo que o trabalho de Guilherme Pilla, artista plástico dos mais impressionantes surgido nos últimos 15 anos no Brasil, não era visto publicamente. Qual não foi a surpresa quando ele, um dos três criadores da já mítica editora gaúcha Livros do Mal (junto com os Daniéis, Galera e Pellizzari), respondeu ao chamado positivamente?

É mais do que uma honra de poder mostrar esse trabalho de Guilherme Pilla, que combina seus traços marcantes a uma espiritualidade que transcende as religiões. É bem verdade que ele disse que nenhuma introdução a esta mostra que será exibida nas próximas páginas era necessária. Então, convidamos o leitor a se tornar passageiro nesta viagem visual que Pilla sempre proporciona a quem tem contato com sua obra, que tem o poder de não deixar as pessoas indiferentes.


Beloved


Cabeรงa Bizantina


O Escriba


Franciscano


Jesus Mary


Crucificado Colorido


Heart Chakra


Mami Filho do Biz창ncio


Nsa. Sra. das Facas


Escriba do Deserto


ICXC


Maria Gotas


Pietรก


Monge Mรกrtir


S達o Jorge


Socorro


Sant’Ana


Aleijadinho


Caprino


Santinho


Chama de Luz


Olha Voltinha


Pachamama


Ajoelhado


Vai


CALOR Texto: Mariana Guerra Arte: Hiutwig

Calor. Cada gota de suor é uma tentativa do meu corpo não ser tomado pela temperatura insuportável. Até o meu organismo odeia isso. Quando o sol toca a minha pele e a aquece, sei que é o desejo tentando me seduzir. A ruína pelo fogo é algo tentador, mas não vejo as coisas por esse ângulo. Esse é o paraíso, mas não o meu. Todos amam esse lugar. Qualquer um que se permita olhar para esse azul controlador, almeja morar aqui. Um dia eu quis isso. Eu achei que eu finalmente estivesse amando até que vi que as minhas roupas eram uma camuflagem e a minha pele destoou. Desde então eu procuro uma maneira de fugir. Comecei até a empacotar minha mudança. A neve seria a experiência mais agradável. Neve é a materialização da minha busca por outros sentimentos. Eu podia pegar o frio, tocá-lo. Mas, aqui, o calor é uma coisa gasosa dissipada por todos os cantos. Enquanto algumas pessoas se jogam no desejo e vivem toda a paixão que sempre almejaram, outras desistem disso e mergulham fundo no ódio. De tudo o que vivi com paixão, eu sei que a melhor escolha é deixar ser consumido pelo calor. Mas por tudo que eu vivi, eu sei que o ódio é frio, bom, entorpece e era a última peça que faltava para completar a minha vida.


EU PREFIRO VERSOS BRANCOS Texto: Leandro Müller Arte: João Grando

Por se chamar Maria Gorete, odiava as rimas e, para se defender, citava Drummond: “Mundo, mundo, vasto mundo...”. Depois dizia: – Não há situação que uma boa citação não possa resolver. E apesar de detestar o nome, isso não a impediu de ser bem sucedida. – O segredo do sucesso está nas frases feitas — acreditava. Disseram-me que foi por pensar assim que, ainda no quarto período da faculdade, Maria Gorete conseguiu entrar numa das maiores agências de propaganda do país, ascendendo meteoricamente durante os seis anos que permaneceu trabalhando ali. É certo que saiu por vontade própria, mas foi como se tivesse sido obrigada a se demitir. Ninguém compreendeu o motivo de sua súbita saída. Quando perguntavam por que seu trabalho tinha tanto reconhecimento, ela respondia: – É porque me apoio nas bases da cultura popular, sabe como é, vox populi, vox Dei. Contudo, para os amigos, explicava que a beleza dessa inteligência popular existia porque para cada ditado que afirmava uma coisa, havia um que a negava. E se alguém importante pensasse de determinada maneira, sempre haveria outro alguém, tão importante quanto, que pensasse de modo contrário.


Maria Gorete era uma jovem promissora, fez campanhas publicitárias de enorme sucesso e recebeu inúmeros prêmios. Aos trinta anos, foi eleita por uma revista de negócios como modelo de sucesso. Porém, dois meses depois de assumir a campanha de seu mais novo cliente, pediria demissão. – Gorete, ganhamos o maior grupo editorial do país — anunciou o chefe. — Você será a gerente da conta e a coordenadora de todas as ações de marketing desse cliente. Gorete, que sempre foi aficionada por literatura, teria pela primeira vez na vida a chance de divulgar um produto no qual ela realmente acreditava: livros. Não se pôde conter em si de contentamento e voltou para casa eufórica. Passou a noite bolando novas estratégias e tudo o que se podia imaginar para impressionar o novo cliente, pois a reunião de briefing, que aconteceria no dia seguinte, seria determinante para sua carreira. Chegou na agência uma hora antes do previsto, com os olhos arregalados e vivos, sentindo-se capaz de mudar o mundo. Logo na entrada, encontrou um dos chefes de saída. Ele havia virado a noite ali para honrar o prazo de confecção de algumas peças publicitárias que iriam ao ar naquela semana. O homem estendeu a mão em cumprimento. – Parabéns, Gorete. O Battisti me disse que você será a encarregada da conta da editora. Foi extremamente difícil conquistá-los. ¿Sabe por que eles ficaram conosco? — tomou a mão da jovem entre as suas, olhando-a nos olhos. — Por nossa visão de mercado. Explicamos para eles que livros são como roupas ou sapatos. Enfim, que são um produto, portanto devem ser tratados como tal e, encarando-os dessa forma, conseguimos saber exatamente o melhor modo de vendê-los. Maria Gorete ficou paralisada sem saber bem como reagir. Ela não queria aceitar que sua agência e sua campanha deveriam seguir os mesmo padrões dos outros produtos que ela anunciava, pois, em sua concepção, a Literatura era sagrada. Sentiu-se suja imediatamente e correu para o banheiro a fim de lavar as mãos. Enquanto se esfregava com o sabonete, uma ânsia subiu-lhe à boca, o que a levou subitamente a inclinar-se sobre o vaso sanitário e vomitar. –Antes de qualquer coisa, deve-se saber a que público é destinado um livro e qual é seu potencial de mercado, depois, sim, começamos a analisar em quais meios precisa ser trabalhado. Para livros de pequenas tiragens, a internet e a imprensa são suficientes. Já os de tiragem maior, é interessante que os acompanhem cortesias e brindes aos livreiros e aos jornalistas. Quando a tiragem


for muito grande, bom mesmo é fazer um coquetel para os livreiros e convidar alguns repórteres para entrevistar o autor em algum resort paradisíaco — explicou mais tarde Battisti na reunião em que Maria Gorete não comparecera. Após ter passado o dia anterior em casa se recompondo da árdua tarefa que tinha pela frente, decidiu que deveria encarar com profissionalismo a situação e esquecer aquilo. Parafraseou Beckett a si própria: “continue fracassando, Maria. Continue. Mas, da próxima vez, procure fracassar melhor”. Alegando uma crise de saúde — que aconteceu de fato —, pela ausência, pediu desculpas ao chefe que não teve problemas em aceitá-las. Transcorrida uma semana, Maria Gorete estava pronta para a segunda reunião com os editores. – Atualmente, nossa principal preocupação é a penetração e exposição em livrarias. Gostaríamos que vocês nos propusessem ações para realizar com os livreiros — resumiu o representante da editora. Saindo dali, Maria passou na livraria, considerada uma das melhores do país, que havia na mesma quadra da agência. Com calma monástica, passou vinte minutos avaliando a vitrine, que não era lá tão grande. Tentou quantificar os títulos expostos em porcentagens por seus selos editoriais, mas percebeu que eram muito sortidos. Observou em seguida que um segurança negro, altíssimo, seguramente com mais de dois metros, falava num pequeno rádio com alguém que se podia ver no segundo andar da loja. Os dois riam muito, como fossem crianças brincando. Na entrada da livraria, notou que estavam dispostos os lançamentos, as novidades literárias de ficção e não ficção. Alguns livros estavam realmente em destaque e se organizavam numa espécie de pilha amontoada que chamava a atenção de quem entrava. Quatro clientes olhavam para as capas dos livros, lendo os títulos e tomando um ou outro volume nas mãos quando algo em particular lhes aguçava a curiosidade. Havia também dois livreiros parados, conversando entre si, atentos para prestarem qualquer auxílio se solicitado. Aprofundando-se um pouco mais naquele universo das letras, Maria Gorete tomou um baita susto ao ser saudada por um livreiro de aparência excêntrica. – ¡Ô-lá! — disse o homem com voz pausada, dividindo as sílabas da palavra. Constrangida por ter se assustado, pediu desculpas e disse que estava apenas dando uma olhadinha, ainda que o homem em momento algum tenha aparentado querer empurrar-lhe uma venda.


Para um dia de semana, a livraria estava cheia. Os funcionários pareciam realizar uma coreografia, andando pela loja, subindo em escadas, sacando e guardando livros nas estantes. Era um movimento bonito de se assistir. Bem ao fundo da loja, Maria Gorete viu uma jovem desengonçada, segurando uma flanela que passava sobre os exemplares na prateleira. Ela parecia distante de tudo, respirava como se o ar fosse outro que não aquele comum a todos, parecia assoviar, mesmo sem emitir sons. Ela se aproximou, pediu licença e requisitou ajuda. – ¿Livros sobre livrarias? ¿O que especificamente? ¿Com fotos de livrarias, sobre como montar uma livraria, sobre história de livrarias famosas? — rebateu a pergunta Milena. Mais tarde, Maria Gorete — e eu — descobriríamos a difícil tarefa dos livreiros, que devem conseguir interpretar os desejos dos clientes. Ouviríamos histórias mirabolantes de pessoas que compravam livros pela cor da capa, pelo formato, pelo título e outras centenas de esquisitices dessa espécie. Em defesa, eles diziam ter criado um código secreto de conduta para atender qualquer um que entrasse ali. O lema era: “o cliente nunca tem razão”. – Se te pedirem um livro pelo título, desconfie. Se disserem o nome do autor, duvide. Se informarem uma editora, suspeite. Mas se começarem dizendo “eu queria um livro”, reze — explicaria Arturo, outro livreiro, à Maria Gorete no dia seguinte. Maria Gorete, então, expôs a situação em seu trabalho, pedindo sugestões de bibliografia a uma livreira. Milena desceu de sua pequena escada de dois degraus e buscou três exemplares que serviriam aos propósitos da cliente. *** Na terceira reunião com os editores, estavam também presentes os próprios donos da empresa, bem como os dois chefes da agência. Maria Gorete mostrou um conhecimento sobre o funcionamento das livrarias que deixaria os mais experientes livreiros boquiabertos. Ela não só compreendia acerca da dinâmica de exposição das obras, como também podia discorrer sobre métodos quase místicos utilizados por alguns profissionais do setor, os quais eles próprios apelidavam de feng shui para livrarias. – Tais técnicas consistem em deixar determinados títulos, aparentemente sem nenhuma ligação, dispostos um ao lado do outro e ver como eles interagem. Através dessa prática intuitiva empírica — ressaltou a palavra intuitiva, a fim de deixar claro que


os livreiros não admitem que a prática seja considerada aleatória —, eles obtinham resultados consideráveis, como no caso de colocar uns poucos exemplares de uma antologia de contos de Arthur Schnitzler próximos à obra do Freud — explanou Maria, com muita segurança. Os editores ficaram admirados com todas aquelas informações que a jovem lhes transmitira, aguardando instruções sobre as ações de marketing que deveriam realizar. Maria já tinha tudo ordenado e sua apresentação excitou os ânimos de todos. Trocaram felicitações e tapinhas camaradas nas costas. Antes que a implementação das ações de marketing tivesse início, Maria precisava ter certeza que o orçamento desenvolvido por ela tivesse sido aprovado. – Battisti, ¿o cliente aprovou o orçamento? O chefe, que tinha sobre a mesa os valores, tentou ocultar alguns papéis, porém, Maria Gorete pôde ver que o montante aprovado era dois terços maior do que ela orçara. Espantada com a soma, questionou ingenuamente aqueles números. Recompondose, o chefe levantou e a conduziu até a entrada da sala. – Maria, você fez aqui um excelente trabalho. Acho que merece férias. Tenho certeza que sua equipe implementará muito bem tudo isso que você planejou. Gorete saiu confusa e foi direto verificar os arquivos de outras contas. A cada pasta que abria, abismava-se mais com as irregularidades que encontrava. Desolada, saiu do escritório sem falar com ninguém. Caminhou pela rua numa espécie de transe e acabou se deixando conduzir até a livraria, onde se habituara a ir todos os dias após o expediente. Entrou automaticamente e parou em frente à seção de literatura. Ao seu lado, ouviu um casal que conversava: – Eu acho que o nome é Jogo da Amarelinha, do Jorge Luis Borges. Instintivamente ela esticou o braço e alcançou o livro na prateleira, estendendo-o em seguida ao casal e ouvindo: – Isso mesmo, Cortázar, ¡como pude confundir?! Numa livraria, o cliente nunca tem razão.


OLIVERIO COELHO

E A NOVA PROSA ARGENTINA As letras argentinas têm a tradição de brindar os leitores do mundo com grandes nomes, sendo que Jorge Luis Borges e Julio Cortázar são os grandes clichês que vão constar em nove entre dez citações sobre o assunto. Se já é mais raro falar de autores como César Aira, Roberto Arlt ou Macedonio Fernández, o que dizer então de nomes dos mais contemporâneos, como Martín Kohan, Rodrigo Fresán ou Pola Oloixarac? E isso porque estes nomes, em momentos recentes, foram comentados no Brasil.

Ainda não é o caso de Oliverio Coelho, que, como Pola, também consta na antologia de jovens autores em língua espanhola publicada pela revista inglesa Granta, há alguns anos. Nascido em 1977, ele é, além de ficcionista, crítico literário, constando em diversas publicações de Buenos Aires. Ganhou os prêmios Nacional de Iniciación (arg) e o Edmundo Valadés (mex). Parte Doméstico, de 2009, foi seu primeiro livro de contos; nele foi publicado o texto que você lerá a seguir.


VIGÍLIA Texto: Oliverio Coelho (Argentina) Tradução: Marcelo Barbão Arte: Liber Paz

Antes de me deitar contava as horas, uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete; olhava o relógio, as quatro, portanto quatro e sete eram onze, e onze menos sete eram quatro, do que deduzia que dormiria sete horas, ou melhor dito, seis e quinze se diminuísse os quarenta e cinco minutos em média que demorava para encontrar a posição na cama e me isolar dos ruídos que fazia meu amo. Bom, seis horas — não digo nem sequer seis horas e quinze — eram suficientes para alguém que não trabalhava ou não odiava. Um trabalhador, por outro lado, precisava, pelo menos, de sete horas de sono. Um trabalhador que odiava — seu patrão, por exemplo –, oito horas livres, quer dizer, oito horas, nem mais nem menos, oito horas desde que conciliava o sono até despertar e não desde que se deitava e buscava posição e se isolava dos ruídos.


Meu caso ao longo dos anos variou segundo minhas penúrias econômicas. De ser um ocioso irrecuperável que dormia seis horas, passei a ser um ocioso atormentado pela desídia, pelo qual somei quinze minutos a minhas horas de sono. O assassinato do meu pai determinou minha necessidade de trabalhar. Demorei meses para me recompor da perda. O processo judicial iniciado contra o criminoso chegou ao fim. O culpado, um dentista aposentado que, aparentemente, tinha confundido meu pai com sua potencial vítima e por isso mesmo se declarava inocente — não tinha cometido o crime que queria cometer –, pagou seu delito: prisão perpétua. Só aí então pude realmente chorar e deixar de ficar com pena de mim mesmo. Depois me dediquei a procurar um emprego. Minha aparência, segundo me comentaram alguns maliciosos nas filas, estava bastante ruim. Para dizer a verdade, nunca notei nada... nem antes nem depois da morte de papai. Digo mais, continuo igual, as olheiras grandes, a palidez pronunciada. Era assim mesmo antes da morte de papai... Mas isto não vem ao caso; se falo de meu pai por que não posso falar de minha mãe, de quem só tenho imagens distantes? O certo é que só fui aceito em um trabalho sem temores e sem discriminação. Ocorreu deste modo. Uma segunda-feira, um ano atrás, mais ou menos, li no jornal o seguinte aviso: “Procura-se jovem sem experiência com facilidade para caminhar. Boa visão. Tranquilidade. Poucos preconceitos. Artistas abstenham-se”. À primeira vista, me chamou a atenção a ausência de abreviaturas. Reli o aviso e gostei disso de “artistas abstenham-se”. Justamente, naquele tempo, eu não podia estar mais distante de ser um artista. De modo que me dirigi ao lugar indicado. Fui escolhido entre uma grande quantidade de postulantes e nesse mesmo dia comecei meu trabalho na casa de Adolfo e Antonieta Voisin. Quando me encomendaram a primeira tarefa, levar Antonieta para passear, o porteiro do edifício me abordou num canto do patamar e não economizou comentários: – Assim que o senhor é o novo empregado... Espero que tenha sorte, ninguém aguenta mais de uma semana — apertou o dedo índice contra a testa. — Se acontecer algo estranho, pode me chamar. Todos me chamam. Agora vá, para que Antonieta não se dê conta... Aí vem ela. Antonieta se aproximou e me perguntou com quem eu falava. Com o passar dos dias, comprovei que essa era uma de suas perguntas prediletas: sempre achava que quando não estava a seu lado, falava com alguém. – Nem pense em falar de nós... Seja discreto — me disse uma vez. — Como você se sentiria se falássemos de suas intimidades?


Por favor, seja discreto. Neste bairro os rumores correm espantosamente rápido... Veja como falam de Adolfo e de mim. Até dizem que temos um filho cativo. Em uma infinidade de ocasiões confirmei que não falava com quase ninguém e que se alguma vez fazia não me atrevia a revelar sob nenhum pretexto a intimidade de meus patrões. Antonieta fingia não me escutar e mudava de tema para abordar outra de suas suspeitas recorrentes: seu marido queria envenená-la, ocorrência tão extravagante como proveitosa, pois secretamente me dava uma gorjeta para que provasse a comida antes de cada almoço e jantar. Agora, meu trabalho na família Voisin não consistia somente em levar a senhora Antonieta a passear pela Avenida de Mayo. Havia algo mais: Antonieta era cega e fingia ver, o que dificultava notavelmente minha tarefa de guia. Tinha uma percepção e um domínio surpreendente de como era desajeitada e se dava um passo em falso ou roçava uma parede transferia a responsabilidade do acidente para minha negligência. Em seguida, perguntava se alguém nos tinha visto e quanto mais tentava persuadi-la de que ninguém tinha reparado no contratempo, mais se empenhava em acreditar que eu estava mentindo. Perdia a calma, apertava ainda mais meu braço e me pedia por favor que lhe dissesse que ninguém estava olhando para nós... Eu concordava com tudo e, ato seguido, ela discordava e me chamava de medíocre e explorador. – Se meu marido soubesse quanto dinheiro você tira de mim... se soubesse que me extorque com a desculpa de que ele quer me envenenar. Você é um monstro. Por favor, leve-me de volta para casa. Era sempre assim. Durante meses repetiu com certas omissões ou agregados a mesma cena. Quando chegávamos ao edifício esquecia minha monstruosidade e me perguntava se seu marido não parecia suspeito. Tal era meu temor a mentir que sempre confirmava o contrário do que queria escutar, por isso ela atribuía o decepcionante das respostas a meu caráter impuro e desvirtuado pelo comunismo que intuía no condomínio e, em geral, em qualquer situação de vizinhança. O senhor Adolfo, por seu lado, mostrava-se sempre conforme com minhas atividades. Eu não inspirava suspeitas nele e quando trazia de volta sua mulher, tinha certas confissões bajuladoras para mim. Levava-me à sala de jantar enquanto Antonieta descansava as pernas no quarto, e me falava de seu passado de atleta, suas viagens pela Europa, suas várias infidelidades. Depois, como se tudo fosse uma desculpa para obter alguma confidência


de minha parte, me perguntava pelos pormenores do passeio. A princípio tomei isto como uma indiscrição amistosa, quase solidária, contra sua mulher. Pouco a pouco, as exigências de Adolfo foram ficando mais precisas; como entre eles, segundo me disse e segundo pude comprovar, não tinham mais contato verbal, pedia que reproduzisse com exatidão as palavras que ela tinha usado durante a última caminhada. Para me afrouxar a memória, oferecia uma boa gorjeta, e eu, que acreditava dever mais fidelidade a ele que a ela, já que por momentos, Adolfo me parecia o mais lúcido dos dois, contava tudo, incluindo o do envenenamento, e ele, a cada frase minha, dizia “pobre da minha Antonieta, que estará passando com ela? O que você pensa?” Para não ofender meu dadivoso patrão, respondia que não sabia. “Não será algum transtorno da velhice?”, perguntava ele, e eu, encantado, confirmava a suspeita. Certa vez, quando caminhávamos pela rua Florida, a senhora Antonieta disse ter a premonição de que seu marido e eu conspirávamos, já que passávamos muito tempo juntos depois dos passeios. Tentei em vão persuadi-la de minha lealdade. “A partir de agora você não prova mais minha comida”, sentenciou ainda mais irritada, e tentou sair correndo. Por sorte, chocou-se contra uma banca de jornal, perdeu o equilíbrio e pude alcançá-la antes que cruzasse a rua. Ela xingava, xingava tão rápido e com tanta fúria que se engasgava em seu próprio ódio. Esse dia — já faz tempo, tudo mudou tanto! — voltamos de táxi. Adolfo, ao ver entrar sua mulher toda suja, me interrogou quando estávamos sozinhos, sério, e pela primeira vez me repreendeu ao descobrir que sua senhora tinha batido a cabeça em uma banca de jornal. O incidente deu seus frutos. Durante um tempo Antonieta ficou de cama com a cabeça vendada, e minha única tarefa na casa consistiu em levar-lhe alimentos e limpar seu corpo, segundo ordenou seu marido, com um pano úmido, uma esponja e uma escova de cerdas brancas. Quando melhorou, ela me expressou o desejo de abandonar as caminhadas e não sair mais de seu quarto. Transmiti esse desejo a Adolfo e ele aprovou com entusiasmo, confiando-me em voz baixa, com um pudor malicioso que nunca tinha percebido nele, que isso era o que durante muito tempo havia estado esperando. Antonieta, apesar de sua imobilidade, não parava de falar. Adolfo, que escutava tudo atrás da porta, certo dia referiu-se à preocupação de que Antonieta enlouquecesse se ele continuasse permitindo que falasse sozinha? – É urgente — utilizou estas palavras — que você se mude para cá.


Agradeci e enumerei uma série de razões falsas que me impediam aceitar a oferta. Adolfo perseverou e ofereceu o dobro do salário. Expliquei que não me importava o dinheiro, até então tinha guardado os seis meses de salário que pontualmente tinham me pagado porque não tinha em que gastar. Ele então perdeu a compostura, ficou vermelho e gritou que não importavam minhas desculpas, que nesse mesmo dia eu já ficava aqui e que colocaria uma cama na biblioteca, ao lado do quarto de Antonieta. Retrocedi espantado, e o senhor Voisin, ao perceber como sua conduta fora contraproducente, começou a choramingar e me agarrou pelos ombros. Suas mãos eram frias e ossudas, como se fossem forradas de couro. Disse que eu era como um filho para ele... – Estou muito sozinho, em pouco tempo também vou precisar de alguém que me escute... Por favor, não seja assim, olhe para mim. Desde criança, quando íamos ao campo e minha mãe me colocava sentado sobre seu joelho, começou a me atormentar a ideia de morrer sozinho, a ideia de morrer falando sozinho. E meu temor não é infundado, meus pais morreram falando sem serem escutados. Meu pai em um manicômio; minha mãe no campo... sozinha e, ainda pior, falando como se alguém a escutasse. O que você me diz? Estou deixando-o surpreso, não? Agora sim, você vai ficar... Ou vai deixar que fiquemos... não gosto da palavra... melhor dizer perder a razão, porque eu nunca poderia enlouquecer... não, eu só poderia perder a razão, não acha? No dia seguinte mudei meus poucos pertences para a casa de Adolfo. Só então tomei consciência de como era ampla a casa: grande quantidade de quartos vazios, janelas seladas, corredores perdidos em penumbras que ninguém transitava há anos. Meu quarto, o mais próximo ao de Antonieta, era um salão-biblioteca imponente, com uma mesa de carvalho oval e um sofá-cama. Demorei a me acostumar à solidão que os ambientes grandes impõem. À noite, quando o silêncio da rua era íntegro, percebia os gritos de Antonieta, os passos de Adolfo no corredor, detendose e apoiando a orelha contra a porta ou as paredes do quarto de sua mulher. “Venha, escute”, me propôs uma vez ao ver que eu saía do quarto. Aceitei por compromisso, e francamente nunca percebi mais do que alaridos. “O que está dizendo? O que está dizendo? Vamos, você é jovem, tem de entendê-la”, exigia Adolfo e eu, que nunca quis mentir, depois de representar muitas vezes a mesma cena decidi inventar que ela pronunciava um nome. Não sei por que pensei num nome e não em outra coisa... Ele se sentiu espantosamente intrigado e intranquilo. “Diga-me quem ela chama, por favor, já é tarde para o ciúme, sou velho, fale.” Disse que pronunciava seu nome, e ele, em vez de desconfiar, começou


a suspeitar que esse Adolfo que ela invocava era outro, um amante remoto, um sósia sentimental que o havia antecedido. No dia seguinte, o senhor Voisin incorporou o hábito de parar também na frente do meu quarto. Ouvia como ele apoiava cuidadosamente a orelha sobre a porta. Eu também falava sozinho? O mais terrível de falar sozinho, pensava, deve ser que a pessoa não se dá conta; talvez eu fale sozinho e nunca poderei saber. Ou pensaria em voz alta? E apenas começava a especular com isto, ficava imóvel, percorrendo com o olhar o ambiente que, no escuro, se assemelhava à planície que Adolfo tanto me contava. Os objetos que havia aí me pareciam tão misteriosos. O mais opressivo residia na presença dos livros. Eram tantos que por momentos achava que eram humanos e me sentia vigiado. Então tinha a impressão de que outra vez estava falando sozinho, corria para um espelho e procurava minha imagem. Só quando, à meia-noite, Adolfo se retirava para seu quarto, eu recuperava a calma e podia dormir. A essa mesma hora, além disso, Antonieta parava de falar em voz alta e passava aos sussurros do cochilo. Durante o dia ocorriam coisas menos estranhas. Às vezes, eu fazia compras, pagava contas ou limpava ligeiramente a casa com um espanador de pó e uma escova. O resto do tempo permanecia ao lado da senhora Voisin, escutando-a ou limpando-a. Logo cheguei à conclusão de que suas crônicas tinham uma coerência interna, mas eram incompatíveis entre si. Estou me referindo a que as formas de seu passado eram irreconciliáveis. É inadmissível que uma mesma pessoa, ao longo de sua vida, tenha sido bailarina do Bolshoi e em Paris, alpinista, professora de tênis, instrutora de pólo, atriz de teatro, tecelã e manicure. Cada tarde se atribuía um destino diferente e depois de um tempo, tendo de suportar tanta insensatez, começou a me intrigar seu passado: começou a me mortificar o desejo de uma verdade. Nunca até então tinha me perguntado pela identidade de meus amos... E desde que fiz essa pergunta começou a ser preocupante e sugestiva minha ignorância. Tinha a impressão de que o anonimato os tornava mais perigosos. Devia me cuidar, não tinha ideia do que Adolfo era capaz; afinal a prostração de Antonieta era obra sua. E assim como tinha adquirido o hábito de me vigiar como fazia com sua mulher, podia estar me preparando um destino equivalente. Imaginei-me preso na biblioteca, tolhido e falando na frente de um jovem contratado por Adolfo, a quem diria que eu era seu pobre filho demente, e a quem logicamente obrigaria a ficar em um quarto contíguo. Não, não podia consentir mais essa obra de Adolfo. Não podia deixar que alguém me substituísse. Não era óbvio que nos sacrificava cada noite para reafirmar o fino fio que o atava à existência?


No melhor dos casos não exagerei minhas suspeitas. Talvez eu tenha alguma responsabilidade no que aconteceu depois. Certos fatos são irremediáveis. E quando algo é irremediável, torna-se necessário. Pensar isso diminui meu desassossego e a horrorosa situação em que me encontro. O certo é que tomei meus cuidados para me proteger do comportamento suspeito de Adolfo. Na hora do jantar sempre me chamava a seu quarto, um lugar amplo e sem luz, de móveis escuros e lustrosos, para me interrogar sobre sua esposa. Devia contar tudo o que tinha dito à tarde; ele, enquanto isso, se reconfortava balançando a cabeça, os olhos úmidos e fixos, pronunciando “minha pobre Antonieta”. Quando eu finalizava a crônica, ele pedia uma opinião, que sempre era breve, porque me interrompia e começava a falar de si mesmo, de seu passado de fazendeiro e de outras frivolidades menos indecorosas. Antes de sair, me fazia sua pergunta predileta: “Você pensa que Antonieta morrerá falando sozinha?” Certa vez, em lugar de responder que não, que morreria na minha frente, decidi perguntar por um mistério que fazia algum tempo não conseguia explicar: por que se evitavam? Ele se retraiu. Notei que as perguntas o debilitavam: a incapacidade de controlálas parecia empurrá-lo a uma humilhação que não conseguia reconhecer como própria. Desde então, a cada dia, ao sair, fazia perguntas entre indiscretas e maliciosas, e ele, com uma mistura de vergonha e fúria, respondia que eu era um impertinente, que fosse embora, que era a última vez que permitia semelhante falta de respeito de minha parte. Mas o fato de morar naquela casa envolta em penumbras me dava o direito de perguntar, de avançar sobre meu amo. Por acaso não sofria como outro morador mais? Não tinha direito, como ele, a vigiar os demais se respirava o frio dos corredores e a presença dos ambientes clausurados? Meu comportamento mudou radicalmente. A consciência que tinha de minha condição me conferia, frente a meus amos, um poder insuperável. De noite, depois que Adolfo realizava suas manobras detrás das portas, eu saía cheio de insolência ao corredor e quando ele se trancava em seu quarto, me inclinava sobre a porta para espiá-lo. As primeiras vezes, me contentei em ouvi-lo. Caminhava, de um lado a outro, os passos atenuados sobre um tapete, a tosse rouca sendo ouvida a cada tanto. Sabia que o espiava; desde minha chegada e ao longo de minha estada tinha esperado que me tomasse aquela liberdade tão óbvia. Que mais podia querer a não ser me submeter à visão de sua intimidade? Que mais sobrava a não ser o prazer de ser espiado ao final de sua vida? Frente à ideia de que, na verdade, estivesse me utilizando para satisfazer alguma perversidade senil, cedi à tentação e espiei


através da fechadura. Realmente, comprovei que saber que estava sendo espiado por mim o reconfortava; andava pelo quarto, nu, e o que tinha achado que era uma tosse, na verdade era uma risada escabrosa que saía vibrando de sua boca quando parava para contemplar o modo como oscilava entre suas pernas o sexo solto, comprido como uma minhoca. Noite a noite, apesar dos padecimentos morais que me acometiam durante o dia, não conseguia resistir à ideia de voltar a olhar pela fechadura. Por que fazia isso? Lutava por não ceder à tentação, já não conseguia me contentar com simplesmente ouvir. Vê-lo caminhar pelo quarto amplo e apreender o instante em que o sorriso se deslizava em seu rosto quando, com um leve movimento de cadeiras, fazia oscilar seu sexo tão particular, passou a ser uma necessidade que devolvia sentido a minha vida. E quanto mais lutava por não ceder, mais importância ganhava em minha vida essa incursão noturna. Só queria viver para que a noite chegasse. Durante todo o dia esperava, junto a Antonieta, que chegasse a ocasião. Contava as horas. Minhas estadias junto à anciã eram cada vez mais insuportáveis. Comecei a odiá-la. Inclusive pensei que sua presença exagerava minha ansiedade: todo meu drama especulativo parecia irremediável enquanto ela existisse. Sofri cada vez com mais frequência a necessidade de torturá-la. E assim que esta sensação inaudita tomou conta de mim, comecei a exercer sobre ela minha pequena vingança... Tinha direito a me vingar de sua presença, disse a mim mesmo, do destino que a tinha trazido até mim e tinha transformado minha vida diurna em uma mistura de desespero e ruído. Quando ela me perguntava por seu marido, comentava que tinha certas atitudes suspeitas: perambulava pela casa todo o dia — o que era certo –, como se esperasse que algo interrompesse essa rotina dolorosa, e à noite, sempre da mesma forma, me oferecia dinheiro para que a envenenasse. – Vê, você vê, não disse, eu sabia, é um monstro — respondia ela. — Eu também tenho dinheiro, vou viver para fazê-lo sofrer... Não vai se livrar de mim tão facilmente. Você espere para ver, ele vai morrer primeiro, vai explodir e eu vou dar, dar-lhe dinheiro para fazer o que quiser e ser livre... Não falta muito. Não faça essa cara, não tenho medo de você, não tem classe nem mãos para matar alguém que já jantou com Ingrid Bergman. Claro que não acreditava nas patranhas da velha e contava, para aterrorizá-la ainda mais, que Adolfo tinha me prometido fazer um testamento a meu favor se eu a envenenasse. Para evitar cenas tétricas e conservar a dignidade, eu a aconselhava a morrer rápido.


Não desejava nada mais do que me desfazer dela e ficar sozinho, de uma vez por todas, na presença de meu amo. Estava decidido a derrotar Antonieta; à medida que ela falava, meu ódio aumentava e o sonho de chegar a possuir essa totalidade que supunha em Adolfo me impacientava. Um mês atrás, calculo — talvez sejam dois –, o desenlace dos fatos se precipitou. Eu mesmo, que apregoava um fim monstruoso, fiquei atordoado. À noite, na hora em que Adolfo costumava parar atrás de nossas portas, escutei ruídos e movimentos estranhos. Presumi que meu amo tinha deixado a rotina de nos espiar e decidira entrar no quarto de sua esposa. Soaram gritos. Eu escutava, apoiado na porta, paralisado pelo horror frente a isso que me parecia tão iminente e que nesse momento tomava a forma de um lamentável excesso... E só eu escutava... Ele sabia. Só eu, a única testemunha, e ele sabia. Saí impulsionado por uma curiosidade mórbida, e observei no corredor como Adolfo, nu e de chinelo, arrastava Antonieta pelo braço. Ela só tinha forças para protestar em voz baixa. Só resistiu quando ele abriu a porta do fundo e tentou introduzi-la em um quarto ao qual nunca tive acesso. Então meu amo, que parecia calmo apesar da situação, a empurrou com uma bengala que eu nunca tinha visto antes, e a deixou trancada à chave. Pouco depois, Adolfo se mudou para o quarto contíguo ao meu. Tudo mudou... Não sei como explicar, como aceitar. Durante o dia ele passeava pela casa, nu, apoiado na bengala, e falava, falava sozinho e às vezes, acho, me dava alguma ordem, mas em seguida se contradizia e começava a rir e a agitar seu membro. Eu não sabia o que fazer: já não podia espiá-lo e me perguntava que sentido havia agora em ter um amo. Até pouco tempo, à noite, ele costumava voltar ao quarto onde tinha empurrado sua mulher. Acho que levava alguns víveres. Várias vezes, sempre durante o dia, me aproximei premeditadamente da porta do fundo. Escutava rumores, passos; sim, me entretinha os passos lentos e duros como o tique-taque de um relógio, e me deleitava pensar que esses sons eram o único que restava de Antonieta. Quinze dias atrás, acho, deixei de escutar os passos. E Adolfo continuou andando de um lado para outro e cada vez que cruzava comigo, ria de gargalhar e pronunciava coisas ininteligíveis. Quando se instalava na cama, à tarde, mandava que eu ficasse a seu lado. Então eu o alimentava com amor: cortava em pequenos pedaços sua comida preferida, carne e frutas... Ele me pedia, além disso, que fizesse sua barba e cortasse o cabelo e as unhas; enquanto isso, ria e seu estômago liso se inchava e seus


olhos se enchiam de um brilho que me assustava. Ele tinha me privado de tudo, inclusive de Antonieta, a quem então acreditava ter apreciado mais do que supunha. Ela poderia ter me salvado, pensava... Sim, ela, não ele. E frente a semelhante equívoco nem sequer podia possuir Adolfo e tinha de me limitar a um simulacro doméstico, já que quase não tinha pelos nem unhas, e a barba não crescia. O mais terrível residia em que não podia espiá-lo porque de dia ele circulava à vontade por toda a casa, e de noite perambulava por seu quarto, anteriormente o de Antonieta, e golpeava as paredes com a bengala. Então eu pensava que o odiava profundamente e que podia dar qualquer coisa por me desfazer dele e de seus ruídos. Às vezes, ele saía ao corredor e eu ouvia sua respiração difícil, seu riso disfarçado de tosse. Com a ponta da bengala raspava minha porta, não sei durante quanto tempo, de qualquer forma não conseguia dormir, contava as horas que restavam de sono, uma, duas, três, quatro, cinco, seis, e fazia cálculos... Precisava dormir oito horas, mas ao amanhecer Adolfo entrava em meu quarto e me acordava com sua risada. Então pensava que devia fugir... Mas já era tarde, algo estava por acontecer. Há dois dias a espera terminou. Algo ocorreu. Parei de escutar Adolfo. A última vez gemia; era cedo e não entrou em meu quarto. Ouvi quando caminhava pelo corredor, quando se deteve no fundo, abriu e fechou uma porta. Procurei-o durante horas para curar meu sofrimento: sua ausência me doía mais do que podia ter imaginado. Teria preferido tê-lo ao meu lado, suportar sua extravagância, cortar as unhas. Várias vezes fui até a porta do fundo. A primeira vez escutei passos se arrastando, quase raspando o chão; depois não percebi mais. Espiei pela fechadura: tudo estava escuro, muito escuro e silencioso. Perguntei que faria aí. Tentei entrar, mas a porta parecia trancada. Suponho que cedo ou tarde deverei forçar a porta ou fugir. Enquanto isso, a casa permanece vazia. Caminho de um lado para outro e os aposentos enormes parecem espelhos dentro de outro espelho. De repente, parece que há alguém escondido e reviso os cantos e corroboro minha solidão. Já não tem ninguém, digo para mim mesmo, comendo as unhas. Caminho outra vez. E agora?


OS CEM METRÔNOMOS DE

LIGETI

E AS CEM LINGUAGENS DAS CRIANÇAS Texto: Sandro Rodrigues Arte: Narghee-la

Em 1962, o músico armeno Györgi Ligeti montou um enorme brinquedo para apresentar seu poema sinfônico para cem metrônomos. Consistia num mecanismo que liberava em sequência cem metrônomos regulados em velocidades distintas que começavam e terminavam em pontos distintos do tempo. O efeito resultante é o de uma sobreposição de camadas de intensidades móveis, que dão aos ouvidos uma sensação de desfolhamento temporal, como na ação de ventos fortes nas folhagens de arbustos esverdeados. O paradoxal é que o compositor tenha arrancado esse efeito impressionante justo de uma combinatória de repetições monótonas e cinzentas, tão isócronas quanto só a redundância dos pulsos clicados de metrônomos pode soar: tic, tac, tic, tac, tic, tac, tac, tic, tac, tac. E o que ele compreendeu bem é que, mesmo quando se repete uma matéria sonora tão idêntica a si própria quanto possível (como no caso do metrônomo, assim como dos cronômetros, relógios etc.), a contemplação desta repetição já implica a produção de uma mudança subjetiva.


Em Diferença e Repetição, o filósofo Gilles Deleuze nos propõe pensar essa articulação como efeito de sínteses passivas do tempo. A primeira é a fundação do presente que passa, na fusão dos instantes independentes do passado e do futuro: é uma síntese passiva, pois mesmo quando ouvimos repetições de elementos semelhantes, tendemos a reuni-las, agrupá-las em pequenas células rítmicas, independente de nossa tentativa consciente de fazê-lo. Tal é o caso das durações de presença da música indiana, em que as células rítmicas que são repetidas nos improvisos são compreendidas como organismos vivos e não como unidades homogêneas. Esta primeira síntese do tempo é uma síntese entre durações heterócronas; é uma síntese das diversas durações que sentimos no presente vivido. Mas o hábito já é vivido sob intervenção da memória, que Deleuze chama de segunda síntese do tempo. A memória é o fundamento do tempo, o que faz com que o presente passe, o que funde o presente vivido com o passado (pois o passado não existe somente depois de um presente que passa, mas é a totalidade do tempo). O passado fundamenta o ser, pois só o passado ‘é’. Mas e enquanto estamos sendo e deixando de ser, ao mesmo tempo? Em outras palavras, enquanto estamos sentindo as mudanças sem um fundo em que nos apoiar? O que podemos dizer? Tal é o caso de uma terceira síntese do tempo, a afirmação do futuro, de tudo o que muda, do eterno retorno da diferença. Mas como esse afundamento se faz ouvir? A emergência dessa temporalidade sem fundamento na superfície da linguagem musical é algo que remete a uma inversão no modo de abordar o tempo, que, segundo Deleuze afirma em Lógica do Sentido, foi realizada pelo pensamento estóico. Para os estóicos, só os corpos existem, o mundo é um mundo de corpos (e mesmo a alma e as palavras, por exemplo, são corpos) misturados no espaço. E os corpos são causas uns para os outros. Mas causas de quê? De efeitos incorporais. Ou seja, efeitos de outra natureza, incorpóreos, distintos dos corpos, mas que só subsistem por intermédio deles. (Mas qual? Que louco.) Conforme nos indica Deleuze, os estóicos teriam promovido uma reversão do platonismo ao sugerirem como o devir dos corpos, verdadeiro devir-louco em que os corpos se encontram misturados, poderia se expressar na linguagem. A linguagem teria então o papel de dizer o instante: “a árvore verdeja”, “Alice crescendo”, “Alice diminuindo”. Afinal, o que ali se constata é um tipo de transformação incorporal como a que vemos nos estóicos, para os quais, ao dizermos a palavra “trem”, um trem passa por nossa boca.


Os cem metrônomos de Ligeti expressam o paradoxo da produção de uma linguagem musical nova e prazerosa, a partir da repetição obstinada dos equipamentos mais simples e insuportáveis, os metrônomos. E o que a repetição do material põe em evidência são os efeitos subjetivos. Na produção de subjetividade, o material repetido pode ser extraído de quaisquer tipos de fragmentos. Mesmo de gestos simples, como o cantarolar de uma criança. Pois enquanto a criança repete o cantarolar, produz-se um efeito de subjetivação, que pode se expressar pela produção de uma espécie de fio condutor em meio ao caos imaginário; pela organização de um espaço interior (cantamos para nos sentir “em casa”, assim como cantarolamos arrumando a casa). Portanto, este paradoxo presente na repetição ligetiana dos cem metrônomos não diz respeito apenas ao campo do sonoro, à questão do ritmo musical, mas pode ter lugar na infância de um sem-número de linguagens. Pois cada gesto, ao ser repetido, pode se deslocar para um plano onde ganha certa autonomia estética, permitindo a proliferação de inúmeros sentidos que não se explicam pelos gestos motores que lhes deram origem. Efeitos de linguagem emergem de diversas maneiras, como efeitos óticos, sonoros, visuais; efeitos de bifurcação do sentido, de mudança, suspensão do sentido,de produção de paradoxos. É a vida que habita a linguagem, em sua dimensão de poiesis, de poesia, criação; é a produção da subjetividade como invenção de um estilo de vida, uma estilística de si. Alguns educadores italianos e americanos contemporâneos dizem que as crianças têm cem linguagens, ou tantas quanto nossos temperamentos nos permitam distinguir. Mas será que estamos abertos a nos comunicar com elas? A ouvir o que elas têm a nos ensinar sobre a música e a vida? Ou não será necessário um devir-criança da linguagem que aumente o grau de abertura comunicacional entre o discurso lógico-verbal hegemônico e as n linguagens minoritárias que as crianças costumam afirmar em balbucios pré-verbais? E não identifico criança aqui com um ser da criança, mas com certo estar criança na linguagem, deixando proliferar inúmeros novos sentidos para a existência. Pois, como o exemplo de Ligeti torna audível, novos sentidos podem emergir a partir da repetição de fragmentos sem sentido, ou descolados de seu sentido usual, abrindo assim novas regiões de contato com as potências virtuais de expansão presentes na linguagem musical e na vida. É uma questão de mudança na percepção (e dizem por aí que os músicos não crescem nunca).


EU NÃO LEIO DE QUALQUER JEITO Texto: Ana Elisa Ribeiro Arte: João Grando

Ou eu me aconchego na cama e ligo o abajur. Ou eu me sento no vaso e faço a pose dO Pensador. Ou eu me alinho ao espaldar da minha mais dourada cadeira e ajeito os óculos. Ou eu me deito na rede da casa dos meus amigos cearenses. Ou eu me curvo sobre uma carteira escolar. Ou eu me levanto e não faço nada disso. Eu não leio de qualquer jeito. Cada um desses momentos (dos citados e dos não) é para uma função-leitura diversa. Nada me atravessa se eu sou romance ou debate. Nada me perturba se eu sou poesia, então. Nada me distrai se eu sou fofoca. Nada me contrai se eu sou estudos. Para cada peça uma sentença. Para os técnicos, acadêmicos e menos solares, está lá meu lápis (e até minha caneta), a riscar, fraudulento, as margens de qualquer palavra. Se é poesia, cá está minha alma apoiada em meia dúzia de pilares sinonímicos. Se for prosa, nem tanto. Às vezes eu me arrebento lendo parágrafos demais. E me esforço para contê-los. E conter-me. De uns tempos para cá, tenho lido em pequenas telas de luz, assim como quem apenas telefona. Mas é mais. Tenho produzido escritas, tenho dado recados, tenho tido notícias e guardado informações. Tenho comprado e vendido. Mas eu não leio de qualquer jeito. Ou eu desligo o carro e me atrevo pelas pequenas teclas (telas touch screen) do meu aparelho multiuso. Ou eu me apoio no box para redigir cartas de vapor que só eu lerei. Ou eu me aninho no colchão à espera de um livro bem urdido. Ou eu simplesmente me esqueço disso tudo e durmo sem sonhar. Se eu sonhasse esta noite, sofreria os reveses de um marca-texto sem grandes frases para grifar. Deslendo minhas linhas.


A DINÂMICA BRUTAL DE

BRUNO MARON

Qualquer coisa que seja escrita aqui sobre Bruno Maron será um desperdício quase completo do uso pleno das funções intelectuais aplicadas para a construção eficaz deste conjunto de palavras. Porque nada é perdoado por ele. Nem a elegia barata, nem a crítica furada. Tudo e todos são alvos, sem qualquer distinção, de seu sarcasmo e de sua verborragia giratória, mais poderosas do que boa parte das armas de destruição em massa conhecidas pelo homem.

Ainda assim, as páginas completamente neurastênicas e certeiras de Dinâmica de Bruto chamaram a atenção quase instantaneamente na internet. Se esta edição de Machado tivesse saído quando Bruno enviou sua colaboração original, teria provavelmente sido sua estreia em publicações. Bruno hoje acumula aparições em veículos tão diversos como Trip, Galileu, Vice Brasil e no suplemento Folhateen, do jornal Folha de S. Paulo. Azar o nosso. Ou foi sorte?


THE ALMA/NAK ASTRO-&-LÓGICO

UNIVERSALL por O GRANDE

Exaustos por ver o CHARLATANISMO tomar conta da media, cansados da man-ipulação do h(o/í)mem das Forças da naturealeza, decidimos que era-hora-Hórus d’aprèsentar a VEDAverdade aos tERRAqueos. Nesta edi-são da MAQHADO, relevamos nosso definitivo The Alma/nak Astro-&-lógico UNIversALL, donde tudo que está escrito está REALizado, segundo a tradição do Xamanismo Irlandês Ex‑Secreto.


INSTRUÇÃO IMPORTANTE PARA LEIGOS: O GRANDE ∆ NÃO UTILIZA OS SIGNOS DISTORCIDOS DO ZODÍACO VULGAR, E SIM UMA COMBINAÇÃO DE FATORES QUÂNTICOS QUE SÃO REPRESENTADOS POR FENÔMENOS RECONHECÍVEIS NO MACROMUNDO – O MUNDO QUE CHAMAMOS DE “REAL”. A CADA HORÓSCOPO, NOVOS ASPECTOS SÃO APRESENTADOS. Notas para leigos: no modelo adotado por O GRANDE ∆, muitas pessoas vão se reconhecer em mais de um aspecto. Nesses casos, todos os aspectos devem ser somados para a leitura. Muitas vezes, as respostas para uma questão estão justamente no cruzamento de leituras. / Não é quanticamente possível que uma pessoa não se encaixe em um dos aspectos. Aí é caso de um baixo grau de autoconhecimento. / A versão escolhida pelos editores desta publicação é a simplificada, que dá acesso a mais leitores, com significativa perda dos significados múltiplos da incerteza. Para conhecer a versão elaborada, procure o site www. exsecretirishamanism.com (acessível apenas para internautas preparados para a VEDAverdade)


Leitura astrológica para o período Nascidos em dia de chuva — Bom período para desenvolver as coisas que importam de verdade. Cor: cáqui. Número: 9 Os que se chamam “Mari”, seja por registro, batismo, apelido ou reopção posterior — Um sorriso naquela manhã tão esperada fará toda a diferença, mesmo que você duvide. Cor: amarelo. Número: 4 Os que já quebraram o braço esquerdo — Ao seguir em frente, tome cuidado para não arrastar o que vem atrás. Cor: lilás. Número: 53 Os que sentem dores nos rins — Está na hora de resolver aquela questão que você guarda em segredo. Cor: marrom. Número: 16 Os que conhecem o caixeiro viajante Yussef Al Alim — A memória guarda compromissos importantes, mas quem lhes atribui essa importância toda? Cor: evite. Número: 39 Os que já visitaram a cidade de Los Angeles, EUA — Boas notícias estão por vir. Mas não basta aguardar por elas. Cor: rosa. Número: 13 Marco Antonio de Lima, filho de Cristina Rosa de Lima — Carla, sua esposa, vai traí-lo com o engenheiro José Gomes da Rocha. Ao ler esse horóscopo, ligue para o motel Veludo Branco e peça pelo quarto 34. Ela atenderá. Cor: branca. Número: 17 Os que comeram ovos no café da manhã de ontem — Não há caminho tumultuado que não possa ser evitado, mas o tumulto faz parte da vida. Cor: verde musgo. Número: 54 Os que vestem roupas vermelhas ao ler este horóscopo — Pense nesta imagem por três minutos. Ao final, você saberá o que precisa fazer.


A ARTE


IMITA A VIDA Os filmes em 3D dominam os cinemas, modificando de muitas maneiras a experiência de assistir a um espetáculo na telona. Mas eles vieram para ficar ou são uma moda passageira?

Texto: Mauricio Muniz Arte: Rod Reis e Caio Yo

Entre as várias teorias de Friedrich Nietzsche (algumas muito válidas, outras discutíveis) estava a de que tudo neste planeta é cíclico. Segundo o filósofo alemão, alguns padrões e comportamentos se repetem historicamente e a humanidade revive as mesmas situações e comete os mesmos erros de tempos em tempos. Falecido em 1900, Nietzsche dificilmente estava pensando em Hollywood e nos filmes em terceira dimensão quando formulou suas teorias, mesmo que os primeiros experimentos com a projeção de filmes em 3D datem da década anterior à de sua morte. Mas talvez o cinema em terceira dimensão, que voltou com força às nossas telas recentemente, e sua longa história, sirvam para mostrar que o alemão sabia do que estava falando.

(AGORA EM 3D)


Breve História do 3D no Cinema Quando os primeiros filmes comerciais em 3D surgiram, o próprio cinema ainda engatinhava. Algumas produções curtas foram apresentadas ao público por volta de 1915, mas o sistema da época era complicado por exigir que o filme fosse lançado sobre a tela por dois projetores ao mesmo tempo, enquanto era assistido através de óculos de lentes coloridas. A ilusão criada, pelo que se sabe, não era das melhores, mas funcionava para criar certa sensação de profundidade. Porém, se a sincronia entre os projetores se perdesse em algum momento, as imagens ficavam borradas tornando impossível assistir ao filme. Mas os produtores e empresários dos primórdios da sétima arte acabaram deixando de lado a terceira dimensão. O processo era caro, complicado e, convenhamos, não era o mais atraente chamariz para o público, que, no final das contas, gostava mesmo é de assistir, por uma hora, histórias sobre outras pessoas ou ver imagens de lugares que não poderiam visitar. E conforme o tempo passou e o cinema provou-se uma indústria extremamente poderosa no mundo do entretenimento, não era preciso mais do que um filme bom — ou às vezes nem tão bom —para atrair o público pagante. Isso, claro, até o surgimento da televisão. No final dos anos 40, um novo e devastador concorrente do cinema começou a dominar os lares do mundo, principalmente os norte-americanos, no formato de uma caixa pequena com uma tela ainda menor na qual era possível ver imagens muitas vezes ruins e desfocadas. Porém, para os consumidores norte-americanos, aquilo era como ter em casa um cineminha particular e, mais importante, sem cobrança de ingresso. O sucesso colossal daquela novidade começou a roubar uma parcela considerável do público do cinema. E os produtores e estúdios de Hollywood reagiram à concorrência da mesma forma que reage qualquer indústria grande levada a crer, durante anos, que é imbatível: entraram em desespero. O cinema não via o menor problema em ter roubado o público do rádio — a principal diversão de qualquer lar até algumas décadas antes —, mas arrancaram seus cabelos frente à aparente preferência do público médio pela chamada “caixa dos idiotas”. Em meio à crise, alguém se lembrou dos filmes em 3D e chegou à conclusão de que eles poderiam atrair de novo o público para as salas de projeção. Os primeiros filmes lançados no sistema foram alguns “clássicos” duvidosos, como o esquecido Bwana Devil, sobre uma caçada a leões assassinos na África. Melhor se saíram outras produções como Hondo, com John Wayne; Museu de Cera, com Vincent Price; O Monstro da Lagoa Negra e até Disque M para Matar, de Alfred Hitchcock. Em princípio, o esquema pareceu


funcionar, a curiosidade levou as pessoas a querer conferir aquela nova forma de assistir a um filme e os estúdios, animados, começaram a produzir outros filmes em 3D. A maioria era de filmes chamados “B”, com temas como ficção científica ou terror, mas algumas produções de primeiro escalão, como Disque M... e o musical de Cole Porter, Kiss me Kate, também foram lançadas no sistema — mesmo Hitchcock tendo ficado tão decepcionado com o resultado de seu filme que o lançou inicialmente sem os efeitos do 3D. Porém, não demorou para a novidade expirar e os exibidores perceberem que o que atraía as pessoas aos cinemas eram os bons filmes, não importando se eram ou não em 3D. Na verdade, quando algumas películas foram apresentadas tanto em versão normal quanto na versão em 3D, notou-se que boa parte do público preferia a versão normal. Para piorar, o 3D implicava o custo extra de exibir o filme ainda a partir de dois projetores e o de produzir óculos de plástico para que o filme pudesse ser assistido. O último prego no caixão do 3D foi a estreia de O Manto Sagrado, em 1953, produzido em CinemaScope, um sistema que apresentava o filme em uma tela com quase o dobro da largura. O Manto Sagrado foi um sucesso enorme de bilheteria e o CinemaScope era um processo de produção e exibição muito mais barato. Hollywood não viu motivo para continuar brincando com a terceira dimensão e o processo entrou em hibernação. Da leva de 50 filmes em 3D produzidos entre 1952 e 1955, o último foi A Vingança do Monstro, continuação de O Monstro da Lagoa Negra e que trazia, em uma pequena participação, o jovem Clint Eastwood. A partir daí, o cinema em 3D faria algumas tentativas tímidas de retorno, principalmente nos anos 80. Aqui e ali pipocavam alguns filmes no sistema, como Sexta-Feira 13 – Parte III, Tubarão 3D e Caçador do Espaço: Aventuras na Zona Proibida (esse último sendo exibido nos cinemas brasileiros de forma convencional). Esses esparsos lançamentos não ajudaram a criar um interesse renovado pelo 3D, ainda mais pelo fato de os óculos de plástico usados pelo público nos anos 50 terem sido trocados, sem cerimônia, por desconfortáveis e pouco práticas versões feitas em papel cartão. Retorno do Monstro O 3D continuou sendo usado constantemente em parques de diversão pelo mundo todo em filmes curtos, inclusive alguns ligados a franquias cinematográficas. Nos parques da Universal Studios, por exemplo, fez sucesso o curta-metragem Exterminador do Futuro 2: 3D, dirigido pelo próprio James Cameron e estrelado


por Arnold Schwarzenegger em 1996. Essa, aliás, foi a primeira experiência de Cameron com a terceira dimensão, e o diretor gostou tanto do formato que começou a pensar em produzir um longa-metragem inteiro em 3D. Falo mais sobre isso adiante. Nos cinemas, porém, a terceira dimensão começou a dar sinais de vida novamente no início do século XXI, com filmes como As Aventuras de Shark Boy e Lava Girl e as animações por computador O Expresso Polar e Chicken Little. Aliás, as animações por computador mostraram-se uma ótima mídia para o 3D. Seus mundos artificiais, mas indiscutivelmente belos, casaram bem com a ilusão de profundidade propiciada pelos novos sistemas digitais de projeção da terceira dimensão. E até os óculos melhoraram, evoluindo para uma encarnação em plástico muito mais confortável para o uso prolongado do que as versões baratas em papel. O 3D ainda parecia apenas uma opção simpática e divertida para acrescentar um “algo mais” a filmes infantis e de terror até que, em 2009, James Cameron — que não lançava nenhum novo filme desde Titanic, de 1997 — surgiu com Avatar. A ficção científica sobre um fuzileiro naval que viaja até o planeta-satélite Pandora e se envolve na luta da raça nativa contra os seres humanos transformou-se no filme de maior bilheteria da história, arrecadando 2,7 bilhões de dólares ao redor do mundo. O público se apaixonou pelo mundo criado digitalmente por Cameron e pelo efeito de profundidade criado pelo sistema que ele inventou, o 3D Fusion System (mesmo que a história e os personagens em si não tivessem lá grande profundidade psicológica). Como Hollywood adora o sucesso e tenta sempre repetir a exaustão uma fórmula vencedora, rapidamente todos os estúdios decidiram que precisavam do maior número possível de filmes em 3D. E se o filme não foi produzido originalmente para o 3D, que tal transformá-lo em 3D? Foi o que aconteceu com o novo Fúria de Titãs e Alice nos País das Maravilhas, de Tim Burton. Uma estratégia que parece acertada do ponto de vista comercial, já que esses dois filmes arrecadaram, respectivamente, 493 milhões e um bilhão de dólares nas bilheterias mundiais. Nada mal, principalmente para filmes um tanto massacrados pela crítica. E se tem algo que Hollywood gosta mais do que o sucesso é mais sucesso. E de perceber que acertou em sua aposta. Em termos práticos, isso significa que os próximos anos verão os cinemas sendo dominados por produções em terceira dimensão. Basta ver o que já aconteceu. Para os fãs de terror, Cabin in the Woods e Premonição 5. Pras crianças, as animações Megamente, Os Smurfs e Carros 2. Para fãs de histórias em quadrinhos, Lanterna Verde, Thor, Capitão América e Os Vingadores. O número de filmes


em 3D planejados até 2012 chega a 35, um número que continua subindo. Mas essa nova investida do cinema em terceira dimensão leva a algumas perguntas necessárias. Primeira pergunta: o público gosta de assistir filmes em 3D? As opiniões se dividem. E muito. Para uma parte dos frequentadores de cinema, a experiência de ver um filme em três dimensões no cinema é muito boa. É o caso de Octávio Aragão, designer gráfico e escritor: “Eu gosto. Acho que amplia o processo de imersão. Mas acho também que o projeto tem que ser pensado em 3D, não adaptado ao formato.” O jornalista Fábio Barreto, editor do site SOS Hollywood, tem opinião parecida: “Gosto do 3D, contanto que seja utilizado como linguagem, não como truque ou de forma gratuita.” Já o comerciário Yuri Goya discorda: “Não gosto do 3D porque esses filmes dão mais importância à imagem do que ao roteiro.” O cinéfilo de longa data, Gustavo Torreti, também diz não gostar do em 3D porque “nada agrega”. Segunda pergunta: os profissionais do cinema gostam do 3D? Novamente, as opiniões se dividem. O famoso crítico de cinema norte-americano, Roger Ebert, escreveu uma matéria para a prestigiada revista Newsweek com o título de “Por que odeio filmes em 3D” onde, para resumir, apresentava o argumento de que os filmes sempre foram em 3D, pois o olho humano já consegue diferenciar automaticamente o que está em primeiro plano na imagem e o que está em segundo plano. E completava: o 3D nada acrescentaria à experiência de ver um filme e o uso dos óculos necessários para ver o filme ainda causaria dores de cabeça. Por outro lado – e Ebert comenta isso na matéria -, um dos cineastas mais importantes de todos os tempos, Martin Scorsese, dirigiu um filme em 3D, o drama A invenção de Hugo Cabret. Mas se aparentemente Scorsese não vê nada de errado com o formato, o diretor Christopher Nolan, que conquistou o mundo com sua reinvenção de Batman em dois filmes e com o recente A Origem, disse que não planeja trabalhar com o 3D e que o último filme de sua trilogia sobre o Homem-Morcego não seria lançado no formato (o que acabou cumprindo). Nolan acredita que a nova moda da terceira dimensão é passageira e que logo acabará. Mas até o lendário Hayao Miyazaki, diretor de animações como Meu Amigo Totoro e Ponyo, já disse que gostaria de fazer um filme em 3D. Terceira pergunta: desta vez, o 3D veio para ficar? Ainda é cedo para responder, mas cabe aqui algo que nos furtamos a comentar até o momento — e apostamos que você nem percebeu. Qual o motivo pelo qual o 3D retornou à voga?


E, como não poderia deixar de ser, a resposta está intimamente ligada ao medo de Hollywood de que estaria perdendo espaço importante. Desta vez, porém, o vilão da história não é — apenas — a televisão, mas a internet. Um número cada vez maior de pessoas tem baixado filmes da internet, inclusive filmes novos, para assistir na comodidade de seus lares, seja na tela do computador ou em suas televisões de 50 polegadas. Não entraremos na discussão sobre a moralidade ou e legalidade de tal ato, mas o certo é que isso é uma realidade. Hollywood também teme estar perdendo a briga contra a pirataria em larga escala, já que filmes novos algumas vezes chegam às banquinhas dos camelôs e a lojas ilegais antes mesmo de serem lançados nos Estados Unidos. E se as pessoas cada vez mais parecem preferir ver os filmes em casa e, terror dos terrores, sem pagar por eles aos produtores, Hollywood resolveu novamente que precisava de um chamariz para melhorar a experiência do público dentro das salas de exibição. Volta à cena o 3D em suas novas e aprimoradas versões. Embora os estúdios, no momento, cantem graças ao 3D e divulguem o quanto seus filmes têm rendido, nem todos os filmes têm se saído tão bem, caso de Como Cães e Gatos: A Vingança de Kitty Galore, que rendeu apenas 43 milhões de dólares nos EUA contra um orçamento de 85 milhões. Outro problema: tanto médicos quanto técnicos apontam que o 3D pode causar realmente lesões oculares e dores de cabeça se a retina for exposta constantemente a ele, uma vez que o olho estará se fixando sobre uma imagem plana mas recebendo a ilusão de que está olhando para algo em vários níveis diferentes de profundidade. Para sabermos se o 3D dominará o cinema e será uma constante em nossos filmes ou se sumirá em breve, talvez devamos retornar à lição ensinada por Nietzsche de que as coisas se repetem e que tudo que já não deu certo antes, não dará certo novamente. Muitos acreditam que a nova onda do 3D irá desaparecer em mais um ou dois anos, assim que surgir um novo modismo para atrair o público. Ou quando os produtores perceberem que não é tão fácil levar alguém a assistir a um filme ruim apenas o transformando num espetáculo de três dimensões. E quem sabe também se os exibidores retornarem à antiga prática de propiciar ao público amante de cinema a possibilidade de assistir a um filme numa sala sem ter que aguentar gente tagarelando ao celular na poltrona ao lado, isso já seja o bastante? Ou alguém tem dúvida de que as pessoas também preferem baixar filmes e os ver em casa porque está cada vez mais difícil assistir um filme de maneira sossegada nos cinemas? Freud e Nietzsche explicam.


Jo達o Grando


GALERIAS


NARGHEE-LA


1) Serpente 2) CEO 3) Two Virgins


HIUTWIG


1) Clorocloro 2) Colagem de cor 3) In stereo


JOテグ GRANDO


1) Quero 2) Ficar/Fugir 3) O ano do tigre


CAIO YO


1) Siesta 2) This way! 3) Banquinho 4) Dia fraco


AGATA NOWICKA (ENDO)


1) Endo1 2) Endo2a


NEM TUDO QUE MORRE ESTÁ MORTO Manuel Calavera é um morto que se acha muito vivo. Preso a um lugar sem muito futuro, vive (se é que aquilo é vida) vendendo planos de viagem para almas afortunadas que, porventura, tenham conseguido somar muitos pontos na desencarnação e que, assim, possam desfrutar a grande viagem, aquela que é esperada por todos, em grande estilo. Manny, como é conhecido, já está cansando de trabalhar para o Departamento de Morte da cidade de El Marrow, mas o que ele pode fazer? Apenas aguardar ansioso por um morto endinheirado, que possa comprar o melhor plano de viagens, tirando Don Copal, o chefe, de sua cola.

Mas Manny começa a suspeitar que as falcatruas têm lugar mesmo após a vida quando uma cliente potencial aparece no seu caminho: Mercedes Colomar. Ela era negócio de Domino, outro agente de viagens, mas que mal faria roubar um cliente e ficar de bem com a chefia? Este pequeno atrevimento é que inicia a trama de um dos melhores jogos para computador criados pela LucasArts, Grim Fandango. Baseado na tradição mexicana de culto aos mortos, é uma aventura não-linear que resiste na memória de seus jogadores. Assim como resiste Machado, que, como Manny, talvez não morra nem mesmo depois de morta.


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Machado #02  

Edição 02 da revista Machado

Machado #02  

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