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BELELÉU / PITOMBA


Campos de Carvalho on drugs, Lewis Carroll cyberpunk, Phillip K. Dick subdesenvolvido ou mero antropófago sem restrições alimentares? Em ERRE BALADA, Biu se apropria, descaradamente, das mais estapafúrdias referências: do universo acadêmico-científico ao pop deslavado, numa sequência vertiginosa de episódios post-mortem (como de praxe) recheados de um humor cruel, absurdo e desconcertante. Personagens esquivos percorrem cenários imaginários e as próprias páginas do livro, em mais uma demonstração gratuita de metalinguagem e hermetismo-cabeça. Como sempre, nada é o que parece. Se preparem, fellas: ERRE BALADA, definitivamente, não é para os que desistem fácil ou esperam uma viagem segura, em linha reta — mas para quem gosta de se perder pelo caminho. O Editor

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ERRE BALADA


ERRE BALADA Biu

1ª edição Rio de Janeiro 2014

beleléu | pitomba


cbna

Biu, 2014.

Edição e projeto gráfico Stêvz Revisão subjetiva Stêvz, Bruno Azevêdo e Biu

B576e Biu, 1975 Erre Balada / Biu. - Rio de Janeiro: Beleléu, Pitomba!, 2014. 104 p. ; 12 x 18 cm.

isbn 978-85-912517-4-2

1. Literatura Brasileira. 2. Lombra. 3. ?! I. Título.

CDD: B869 CDU: 82-3

2014 coleção sem figura ● Beleléu revistabeleleu.com.br Pitomba pitomba.iluria.com


Para Melius Z. Bongo


Tente outra vez. Erre outra vez. Erre melhor. Samuel Beckett

Adiante em direção ao R, mais uma vez. R... Virgínia Woolf


Saiu à toda. Não, foi saída: o cão cuspiu-lhe fora quando puxei o gatilho. Puta coice. Atingiu uma glândula pituitária de soslaio. O tálamo estatelou-se com o açoite. O hipocampo foi ceifado. Os neurônios dispararam, apolvorados – É cada um por si! ... Morri. Agora posso contar minha história.


Zero.

Morri, é vero. E daí? Nada de mais. Não compromete em nada uma história sabermos seu fim, inda mais quando se trata de morte, fim tão previsível que me faz bocejar. O caso é que todos morrem. E mesmo assim... Existem histórias e histórias. Aqui vão algumas delas. São desventuras passadas no futuro, hoje, onde recém nasci. Elas dizem respeito umas às outras, estão mais ou menos em ordem e são contadas por vários tipos, todos mortos, como eu, ou em vias de nascer, como eu. Quer-se com isso observar os fatos por diferentes ângulos, dando-lhes certa imparcialidade. É também uma maneira ardilosa de deixar a dislexia narrativa correr solta. Sendo assim, a história da bruxa e das crianças, por exemplo, é inspirada em uma engenhoca meteorológica de meu avô, pela qual tinha verdadeira fascinação quando criança, nos idos de ontem. Outras aconteceram, ou foram retiradas de notícias de jornais, de sonhos, de sonhos de sonhos, de, sei lá, que sei eu de onde vêm as histórias? Tanto quanto para onde vão. Por isso escrevo. Mas não deixe que minha confusão lhe desanime. Talvez lhe interesse a receita de tucunaré descrita mais adiante. Ou talvez você queira saber como nasço e morro, nasço, morro, nasço, e morro. 11


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Um. No momento mesmo em que você começou a ler este texto, Digitus R. Linhares, que por ora chamaremos de Sr. Finados, abriu os olhos e viu que havia algo, uma faca peixeira, cravada até a metade em seu bucho. Algumas das suas tripas mais curiosas tinham dado uma saidinha pela porta que a lâmina deixara aberta quando lhe trespassou, e fizeram amizade com umas moscas varejeiras que passeavam por ali. O sangue havia coalhado na faca. Era uma linda tarde de outono. Ao tentar sacar a faca de suas entrelinhas expostas, com as cócegas que isso lhe provocava, rindo baixinho, Sr. Finados entendeu que estava morto. Escavucando um pouco sua chaga, terminou por deixar a faca lá mesmo, ao menos por enquanto, onde ela devia estar, afinal, por alguma razão, não é mesmo? Descobriu também, remexendo em seus bolsos, que fora vítima de um crime passional – sua carteira ainda estava lá, com um monte de cédulas dentro –, e que se chamava Digitus R. Linhares, trinta e três anos, registro geral número um cinco oito cinco dois dois cinco, natural de, não importa: Linhares está morto, e livre desse nome embaraçoso. Sr. Finados, então, levanta-se e vai fazer a única coisa que resta a alguém em sua atual condição: assombrar. Estar morto não é nada de mais, mas todo mundo tem direito a um enterro, e ele também quer o seu... 13


“É como se eu estivesse morto”, pensa o Sr. Linhares com seus miolos em decomposição, fumando um careta que catou no chão, observando as pessoas passarem impassíveis por ele na rua, entrando e saindo de lojas com sacolas nas mãos. Como formigas em fila. O que levam? Aonde vão? Ele está, já há algum tempo, se esforçando por lembrar-se de alguém ou alguma coisa, mas não consegue lembrar-se de nada nem de ninguém, algo assim como um livro que acabamos de abrir e ainda vai pela página... catorze, talvez. Levanta-se então do banco de praça onde estava sentado apreciando seu careta e vai tentar achar o próprio nome em uma lista telefônica. Não havia mais ninguém com esse nome naquela cidade. Digitus R. Linhares sentiu-se a pessoa mais solitária do mundo. E, no mesmo instante, sentiu que estava sendo observado. Havia mais alguém ali com ele, alguém que o podia ver! Alguém com respostas, talvez. E no entanto o mundo, mundo, vasto mundo ao seu redor girava impassível aos 1.700 km/h habituais, mais ou menos, diminuindo à medida que nos aproximávamos dos pólos... Que merda, pensou Linhares, e decidiu ir fundo nessa quimera. Ir mais fundo até que o própio fundo: a la crack, se preciso fosse, e me parece que era. Depois de meditar por horas a fio chegou à conclusão de que aquilo “era sem condição, não podia ser e que sua situação era absurda, ou ele existia ou não, não havia meio termo para isso”. Ou havia? E se até existir for relativo? 14


Ecos genéticos, degrau por degrau, pela escadaria de Watson e Crick vamos, reverberando, seguindo em frente, andando em círculos por esse infinito desoxirriboespiral, impregnando eternamente o caos com a pergunta fatal: cromossomos quem, ou o quê, afinal? Caligramas em palimpsestos? Frases sem textos? Mônadas nômades? Aglomerados de caracteres que arrastam nonsenses em ziguezagues caminhando tortos em linhas retas rumo a um sentido ambíguo atonal? Sei lá. Vai que. Foi. Deu um pulinho em uma mãe de santo, pra ver qual era, por que não? Não pegou nada. Dona Maria de Xangô, uma novata, não soube entender o Sr. Linhares em toda sua proparoxística complexidade. Rolou um frevinho momentâneo, nada, comparado ao que rolará lá pelo capítulo vinte, com outra médium, a velha M. Todos passam bem. Digitus R. Linhares cansou, dormiu, sonhou que caminhava com uma pá a tiracolo em meio a um enorme parque de diversões: a terra dos meninos dos olhos iguais, o castelo de cristal, o navio pirata, a cidade adormecida, a floresta de fogo que consome almas… Entre a caverna do buda neanderthal e o país das corujas que comem mickeys, ele parou e começou a cavar uma cova rasa, onde deitou-se e passou a esperar pacientemente que algo acontecesse. Esperemos.

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Nada aconteceu.

Linhares acordou. A faca ainda estava lá, já unha e carne com as varejeiras. Ele ainda estava morto. E ainda com a sensação de que alguém o estava a velar. Talvez você. Talvez o Sr. Linhares, do alto de sua cova rasa, esteja profundamente equivocado. Talvez ele esteja, em sua busca pela morte, vivo, e em sua ignorância pela vida, morto, de maneira que não são os outros que não podem vê-lo, é ele que se esconde em si dos outros, que assim acabam irrelevantes nessa história, a história do funeral do Sr. Linhares. Mas os outros são os outros, e você é você, que passou até aqui a discorrer sobre as vísceras literais de Digitus R. Linhares, vítima de escrutínio. Tenha, pois, dó desse coitado e pare de comê-lo com os olhos, estanque a digitofagia, interrompa a exegese, o aruspício do Sr. Linhares e deixe cair, enfim, a última pá de cal sobre a memória oblíqua desse andarilho de linhas retas em sua viagem infinita até o ponto final, deslizando em espiral pelo ralo de um buraco negro de sete palmos-luz de profundidade, descendo cada vez mais fundo para dentro da próxima frase, e, assim... 16


Dois. O tempo escorre do relógio de parede e aos segundos, seguidos, os minutos, hora após hora, vão inundando a sala de dias. Enquanto isso, velamos o Sr. Finados. Você o conhecia? A mim? Sim. Não. Então está acompanhando Alguém. Não, Ninguém. É parente? Primo. E o senhor, Alguém? Eu. Parente? Conhecido. De Quem? Ninguém. Pensei que não conhecesse Ninguém. Não o conheço, Eu o conhece. Ah. E Você? Tampouco. Como disse, estou só acompanhando Eu, nada sei das relações de Quem com Você nem com Ninguém. Bem, agora o senhor me pôs confuso. O morto, afinal, é Quem? Você. Eu? Você. Você? 17


...E assim, passam-se os dias. Em breve, o tempo, senhor dos enganos, nos afogarรก a todos. Mas isso serรก sรณ daqui a pouco, falta muito, oitenta e uma pรกginas.

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Dois.mais.um. Chove há dias, aos borbotões. A água pinga das tábuas podres de meu caixão em minha cara. No que sobrou dela. Eu estou encharcado até a alma, morreria afogado aqui dentro se uma facada – ui, dói só de lembrar – já não o tivesse feito... E então a encosta desaba e eu ascendo. Mas não aos céus, fechados de cumulus absurdums por todos os lados: de volta à face da terra, único paraíso que há. A chuva escavucou o chão, revolveu seu útero hermético onde nos haviam socado a sete insuficientes palmos, nos espremeu, como cravos, e agora há um desfile de esquifes pelas ladeiras da cidade, canoas de Creonte regurgitadas por Gaia. O meu é de luxo, em mogno, com visor de vidro, umas firulas douradas nas bordas e acabamento interno de tecido branco, tsc tsc. Totentanz, o rolar dos dados, o eterno desenrolar dos fatos. A dança da morte é a vida. Não há paz eterna, irmãos, eis o que nossos ossos desembrulhados parecem revelar; marujos de última viagem, naus sem rota descendo a ribanceira em direção à praça pública. Formaremos um estranho grupo com as estátuas, travestis de chumbo, caricaturas de gente, mais mortas do que eu.

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Dies Irae. O dia do julgamento. Até isso será notícia de ontem se houver amanhã. Mas por ora é hoje, agora, aqui. O cortejo estanca, chegamos na praça. O cemitério estava mais animado. #chateado Arre. O quão morto tem de estar um homem até que canse de morrer? Mas, bem, é verdade: de todos os nomes, praça é o que menos apetece a esse lugar agora. Cada vez menos espaço, cada vez menos grama, cores, flores, gente, enfim – chame de outra coisa, praça já não convém. Labirinto. ! Cadê você? Ah, aí está. Veja, ali há árvores, ainda. E há também esses chalés que as escoltam ao longo do círculo por onde, len-ta-men-te, como não poderia deixar de ser, transitam, alheios, os bradipodídeos arborícolas, bichos preguiça, verdadeiros donos do lugar, se é que esse lugar tem dono. Deve ter, ninguém levanta e derruba ao bel prazer sem ao menos assim se achar: o dono da terra e do mar e do céu e do ar e desses bichos esquisitos, também. 20


Cortando ao meio o circuito das preguiças, esse autódromo da letargia por onde Darwin e Newton concorrem, há uma via que te leva até a Matriz, mais adiante à mata, e caso ainda não tenha cansado, ao mar, onde, dizem, vivem dragões e sereias. Além, após o oceano que separa cá de lá, há encantos novos e gentes outras, e se te interessam é só seguir em frente toda a vida e boa sorte em sua jornada que vou ficando por aqui, obrigado. Dragões marinhos, naves descarriladas pelo canto de afrodites, isso não é para mim, eu pertenço a esse lugar, cujo peito é aquele círculo em meio ao qual, embalsamado em concreto, pulsa, ao ritmo de uma valsinha triste, um coreto, sepulto sob uma estátua. Essa, que, juro, acabou de balançar-se.

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Três. O honorável Senhor Doutor H. nasceu, viveu, morreu, e aí resolveram passar-lhe um trote e aqui está ele novamente em formato de chumbo sobre esse pedestal. Tem uma placa lá, deve ser isso o que está escrito nela. Não sei. Não me interessa. Antes havia um coreto ali. Acerca de uma estátua estão pessoas interessadas em ídolos. Acerca de um coreto estão pessoas interessadas em música. Que diferença pode haver entre umas e outras, você pode querer saber. Que diferença pode haver entre Beethoven e Hitler? Girando ao redor deles caminha o sangue do lugar. Às vezes o encontramos sentado em um banco, cabisbaixo, pensando sabe-se lá em quê. Talvez em como o mundo é injusto, em como aquilo pôde acontecer-lhe, logo a ele, tão certo, honesto, inocente, até. Talvez em como alguém há de pagar por isso, em como eles não perdem por esperar... Daqui vejo-o, arqueado, calado, mancomunando, e penso cá com meus botões em como, enquanto ele assim pensar, no coração desse lugar sempre haverá música, e sobre ela chumbo. Essa lápide de chumbo aí, de tão belo penteado, que acabou de se mexer.

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Como o terno lhe cai bem. Que garbo. Quanta elegância... décadas inanimado, e a primeira de suas ações é sacudir a tapas o pó da casaca, alisar para trás os cabelos... o que me faz refletir que até o absurdo tem lá seu estilo. Difícil é mantê-lo. – Precisando de ajuda, amigo? – Não, obrigado, posso descer sozinho. – Olha que essa pedra aí não me parece firme... – No dia em que precisar de ajuda de um infeliz como tu é que, já, putaquepariu. Quanto maior o homem maior a queda, ainda mais se de um pedestal tão chic quanto alto como esse, e o honorável senhor doutor H. tem quase dois metros de pura maledicência, agora estabacados deselegantemente no chão da praça. – Veja pelo lado positivo, livrou-se daquela posição constrangedora. – E de uma lasca da testa. – Durepox. – Onde acho? Ainda há lá na Rua da Mangueira a galeria de Seu Francisco? – Não, agora é uma escola, e a rua tem outro nome, o de um bacana aí. – E o seu Francisco? – Morreu. – E a D. Inês, sua esposa? – Morreu. – E o Seu Joca, o Marinho, o Manoel Eustáquio, o 23


Severino Miguel? – Morreu, morreu, morreu, mataram. – Quem? – Um pé rapado, a mando de um bacana, bem em frente à Matriz. – Que bacana? – Um desses que dão nome às ruas. – Mortos? – Todos. – E tu, quem é? – Mais um. – E que tal? – Ah, não tenho do que reclamar. Não me preocupo mais com nada, e meu último cigarro já dura trinta e cinco anos.

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Quatro. Sentado aqui nesse banco de praça, não preciso olhar para ver. Eu acendo novamente meu último cigarro e cutuco novamente os buracos de bala em meu peito e me pergunto – Por quê? A morte não esclarece, apenas mata. Nem por coragem nem por estupidez. Honra, sina... só palavras, agora. Tão plausíveis quanto um morto contando histórias... Então, acho que morri de viver. E como vivi muito bem, morri igualmente, não duvide. Quantas vidas são dignas de nota? E quantas mortes dignas da vida que levaram? Aqui, poucas, ou alguém mais além daquele jovem ensimesmado e aquela caveira lustrando o trompete estariam me fazendo companhia. Eu tombei dignamente, vítima de três tiros dados à queima roupa à luz do último dia do ano da graça de 1976 em um homem desarmado que se sabia jurado. Deixei assim a vida para entrar na morte, mesmo, não na história, que isso é politicagem de gente acostumada a tudo que faz ser trampolim até o próximo posto, e de tão acostumados vêem, mesmo na morte, não o sossego de um banco de praça, mas o próximo passo na eterna campanha rumo a um outro, na Suíça, pois “o homem é o lobo do homem”. Mas coisa que não sou é algoz de ninguém. 25


Eu sou Severino Miguel. Marido, pai, vereador. Eu não terei estátuas e é essa a minha vontade. Meus filhos têm orgulho de mim. E os teus, de ti?

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Cinco. Trim! Alô? Delegado? Hein? Voltou a beber, homem? Como? Certo, verei. Trim! Opa. O quê? Quem? Como assim? O prefeito aqui é você, eu sou só o juiz. Trim! Pois não? Oh! Valha-me, deus. E o que ele vai fazer? Jura?

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Seis. Portaria nº. 8554 de 13 do 12 do corrente ano. Fica assim instituído, por motivo de bem estar social, que todo cidadão riotintense que já tenha atingido a maioridade deve, além de votar, ao menos uma vez na vida, na qualidade de estátua de praça, servir de exemplo a esta comunidade tão carente de orgulho próprio. Um sistema de sorteio será instalado e o cidadão do turno, pois, sim, haverá turnos, poderá assumir a postura que lhe convir, tendo, no entanto, de permanecer de casaco e cabelo engomado, caso o tenha, naturalmente. Levar seu próprio assento. O lanche e o refresco serão fornecidos pelo município, e o cidadão em questão terá um dia de folga não descontado de sua folha de pagamento, mas perfeitamente dedutível de seu imposto de renda, como apregoa a lei.

Mad Lex, Sed Lex.

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Meia.Nove. Foi a primeira. Mas logo seguiu-se um longo desfile de todas elas. Já haviam sido passadas em revista a omatakatham, o poththi, a putanai putana, o abraço do pavão, o bate-estaca, a picada de escorpião, o saca-rolha e suas variações: o transverso e o transverso carpado, extremamente perigosas até para iniciados de longa data – e aí vieram o candelabro italiano, a ponte e o congresso suspenso, seguidos por pula-pula e bigorna. Foi quando ela sugeriu o grand finale: cabeças giratórias seguido de peão duplo mortal de costas, este último só existindo em teoria. Sasha, então, assumindo posição, pôs-se de ponta-cabeça, tomou impulso e começou a girar, com garbo, a greta em sentido anti-horário, arreganhando-se numa escala estonteante, digna de uma cheerleader surrealista pornô mutante. Algo borbulhou, latejou e inflamou dentro dele quando, desafiando a gravidade e num pré-encaixe perfeito que deixaria Newton estupefato e faria sua tia-avó ovular horrores, em um pinote-matrix, transubstanciada em um übermensh, sua kundalini, entesada até o osso, pirou, e pairou sobre o colchão humilde onde essa odisséia fodástica estava em curso, precipitando-se sobre Miss Grey a uma velocidade próxima à da luz, só que em câmera lenta, deixando-o para trás, estupefato e eunuco. No céu, quasímodos seráficos ulularam sinos angelicais que repicaram divinas canções de amor fraternal, e no inferno canhões parlapatões em linha cuspiram barões flamejantes contra os muros da inocência. 29


No resto da criação fez-se um respeitoso silêncio. Houve paz na terra durante aquele instante, deveras, a trégua que antecede a pernada, e aí, a dois, um, meio metro, 15 centímetros do alvo: Yani, a vagina sânscrita sagrada; – Trim! O telefone tocou.

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Sete. Eu te amo, filho. Dito assim parece bobo, né? Mas é assim mesmo que soam as verdades. Diferente das mentiras, convincentes pelo sério de seu tom imposto sobre o que houver de covardia em nós. E em nós há tanto disso que corremos o risco de viver de mentiras... Verdades são espontâneas e não necessitam óleo para sua engrenagem. Não necessitam da palavra certa e da boca aberta de quem escuta e vai dizendo sim, sim, isso mesmo, como eu não pensei nisso antes, mas, como não pensei nisso antes? A verdade, muda que é, só pode se expressar pelo contraste tagarélico do engodo, da farsa, da máquina que precisa de óleo para escancarar sua boca e gerar a mentira de que um outro dia nasceu. Hoje, à meia noite, durante um minuto essa mentira soará pelo céu de Rio Tinto e em um minuto nos convencerá que amanhã é um outro dia, não por fatalmente sê-lo, mas por ser para isso que passamos o dia a nos preparar hoje. 31 do 12 de um ano qualquer – Que em breve acabará, nos diz o calendário. – Que é eterno como a primavera do Japão, ou de qualquer outro lugar onde nós não. Isso é o que ninguém diz. E é bom que não se diga mesmo. Convém a certas coisas serem assim, secretas, o berço da verdade que vem é o ninho da mentira recém.

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Daqui há pouco começarão as contrações e pela boca daquele bueiro a terra gemerá de dor enquanto pare um novo ano. Arrastará em sua agonia toda a energia do lugar, que então escurecerá por completo: suas luzes apagarão, deixando órfãs mariposas, e algumas mesas de bar com a conta por pagar. A mentira é uma operária, verdade seja dita. Durante esse minuto, trabalha como louca para que acreditemos novamente no amanhã que nunca vem, mas que, durante esse minuto, visita-nos. Por um minuto, o amanhã. Por um minuto, a primavera do Japão. E então, sós com nós mesmos até o ano que vem. Mas, antes, outra verdade: Também te amo, pai. Mário ficou um tempo ali, em pé, segurando com as mãos as abas do chapéu e olhando fixamente uma foto na parede, onde antes havia um relógio. Atentem para esse detalhe, ele é muito importante nessa história. Ou não: havia um relógio, quebrou, não teve conserto, colocaram uma foto no lugar, pronto. Para todo canto que se olha, vê-se as horas arrastando-se para o futuro, e nós com elas. Já o passado nem sempre, então, quando a rebimboca do relógio de parede de Mário despirocou, ele simplesmente pensou – Que se fôda. E pôs uma foto de família no lugar. E agora está lá olhando para seu filho e seu finado irmão com varas de pescar na mão e rindo sozinho, lembrando-se de como era estranho seu jeito de olhar, com um olho nos fitando e o outro como que perdendo o interesse e indo 32


embora sem seu par, e de como rápido desconversava quando lhe falavam em estrabismo. Comentou então isso com o filho, que estava por ali, depois se desculpou por não poder estar com ele mais tarde, quando as luzes se apagassem, aí checou as horas no seu relógio de pulso e foi fazer sua obrigação: apagar as luzes e fazer soar a sirene quando desse meia noite, dali a meia hora. Em trinta e um minutos estará tudo outra vez acabado, outra vez começado, e será um novo ano. E como sobre tempo, tempo e sobre queda, coice, aí vem ele, andando apressado em direção ao galpão onde fica a máquina de girar calendários, mas, opa, cadê as chaves do portão? Rápido correr até em casa remexer bolsos, gavetas, recantos... Este ano pelo jeito vai se romper no pé de cabra, e manda brasa nesse cadeado aí, Mário, que as champanhas baratas estão ficando impacientes para escarrar suas rolhas: pop! Meia noite. Opa. Escapuliu. Tudo bem, já são meia noite e dezesseis. Já? E por que ainda tá tudo aceso? Não era pra estar. Você pagou o moço? Paguei. E então? Não sei. E vai ficar por isso? Não. Vou mandar alguém averiguar o que diabos tá acontecendo. 33


E o que diabos está acontecendo aí, Mário? Diabo de ano que não quer acabar. Arrebenta, porra... Você continua tentando aqui que eu vou subir lá na chaminé. Enlouqueceu, homem? Então fico eu e vai você, que tal? A escada de pinos pregados nos tijolos aparentes é comprida, setenta e seis metros, e leva até o céu. E uma vez lá, de volta à terra via este negro poço por onde as almas transmigram, tubo de Krasnikov, garganta voraz de Moloch, túnel profundo e soturno; oco, frio, vazio, denso, escuro, sombrio, e sem fim.

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Oito. Hoje, em pouco, será só um rastro: a sobra da sombra do vácuo. Fogo fátuo. O lastro com que se mede o fato de que o amanhã não é de ninguém. À meia noite os dias vêm: vão, chão, clarabóia, janela, porta, calçada, estrada, passagem para o além. À meia noite hoje é ontem. Amanhã é hoje à meia noite. 11:59, e ele ali parado, deitado, de olhos fechados. E de repente ri. E aí, o bom bom bom bom bom bom bom bom bom bom bom bom e velho relógio de parede começa resfolegar. Seu pêndulo balançando para lá e para cá. Seu eco preenche a casa toda. Ele então se ergue e decide fazer alguma coisa, qualquer coisa. Uma volta, um lanche, um… bar? ri bom bar. Doze vezes. Meia noite. Bom dia. Começa chuviscar. Acende um cigarro, coça o saco, lava a louça, toma um banho, troca a roupa e põe-se a encher bexigas de ar. Enche 50 delas. Na trigésima começam estourar. pop. tic tac, soa o tempo escorrendo pelas paredes das horas enquanto, pop, vão-se indo as bexigas coloridas, abrindo espaço nessa vida para o nada se espraiar. Algumas murcham. pop! Indiferente ao bexigocídio generalizado que pulula ao seu redor, nosso herói cruza a sala e em seu meio pára e impaciente olha o relógio trabalhar. Parece com 35


pressa. Parece que, pop, já não vê a hora desse dia acabar. Nosso herói é mesmo um trouxa. Não percebe a besta que de tão quadrada não anda, se arrasta, que, mais dia menos dia, toda essa mordomia de dormir, acordar, caminhar, foder, comer, chapar, criar, respirar… mais dia menos dia, e, cada vez mais, menos são os dias, essa mordomia, pop, pop, pop, pop, ela vai terminar. Ânsia. pop! Deixe estar. E, de repente, sub-repticiamente, pop. Mais dia menos dia, tic tac, a morte, essa alegoria, tarda mas não falha em nos igualar: vão, chão, clarabóia, janela, porta, batente, escada, calçada, estrada, passagem para o além, para o inexorável fato de que o amanhã, pop. pop, pop, pop, pop, pop, pop, pop, pop, pop, um dia vem, e vai, pois o amanhã não é de ninguém. Só que ainda não deu meia noite. É, portanto, tecnicamente, hoje. Abra uma champanha barata, vamos, pop! comemorar. tim tim. É mesmo, para quê a pressa, pensou nosso herói – E voltou a deitar. E dormiu. E sonhou. No sonho chovia e, para se esconder da chuva que caía, entrava em um bar. Ao seu lado sentava-se um velho vesgo, e lhe oferecia uma pinga. Ele aceitava. E começavam a conversar. – Não há mais nada a fazer – dizia o velho. Porque... 36


Vê essa mesa de sinuca aí? Suponha que você é a bola preta, a oito, em movimento, e eu a sete, a amarela, e nós reverberamos pelas tabelas e às vezes colidimos e, quando não, passamos boa parte de nosso tempo imaginando onde estará a bola do jogo e acaba que cada hipótese é uma nova tacada, de modo que agora temos várias sinucas sobrepostas em um mesmo jogo sem bola da vez, só reflexos, como se as tabelas fossem... – E será que dá pra falar na minha língua? – Claro. Agora, esses espelhos, eles mais do que refletirem-se, eles se interpretam e atuam entre si, eles são linguagem desabrochando na informação em trânsito, eles são ato e platéia uns dos outros, de si mesmos! Percebe? – Ahã. Mas, meu cu, com isso? – Exatamente. Permaneceu encarando enquanto procurava algo no bolso de sua jaqueta, uma caixa de fósforos. Achou. De outro bolso sacou um cigarro. Riscou um fósforo e passou uns instantes vendo-o queimar. – Elas de fato não colidem, refazem-se, voltam ou vão adiante ou trocam de lugar. Fazem isso o tempo todo. A colisão é só simbólica... Acendeu o cigarro. – Teatro. Pois esse organismo, coff, ele precisa de marcadores biológicos, algo que reflita a luz... Tragou e continuou: – A realidade dá-se por contraste. Soprou umas rosquinhas de fumaça no ar: o E concluiu:

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– Por isso, a realidade, como é percebida, não passa de precipitação de intenção, naturalmente. Mas não vá fundir sua cuca, eu proponho um brinde. trim trim. Chamada local, a cobrar. – Alô? Quem? – Mário. Um trote, e dos mais manjados. – É o Mário, você precisa me ajudar. Essa é nova, pensou, e desligou o aparelho. Quando voltou ao quarto Sasha Grey nua em pêlo, a quem fodia loucamente antes de atender o aparelho – ele sequer sabe porque fez isso – lhe disse – Baby, a fellow called Mario came by. E todo sangue de seu corpo lhe fugiu de sopetão. Consequentemente broxou, empaudurado que estava até então. – E como era esse Mário? – You know... – E o que queria comigo? – You to dig something up for him. Isso já está começando a parecer estória de assombração, pensou. Vou mandá-la até a cozinha buscar um copo de água com açúcar enquanto estudo a situação... 38


– No time for this garapa thing, antecipou-se Sasha. – E por que não? – Cos you’ll wake up in a bit, bitch. – Agora quero um duplo, sem gelo – disse, de chacota, pois está tentando parar de beber. Sasha então olhou para o relógio de parede às suas costas, de onde veio isso ninguém sabe, não importa, o fato é que há pouco não estava lá, e disse-lhe que o que ele precisava desenterrar estava ali, apontando para lá. Ele então perdeu de vez a paciência e perguntou o que tinha seu cu com isso a Sasha que, sem tirar os olhos do relógio, languidamente, disse – It’s time. Acordou de um pulo. E deu de cara com uma paisagem emoldurada na parede, onde antes havia um relógio. Acordou de um pulo e deu de cara com a parede lisa, sem relógio nem quadro. Sasha havia sumido. O telefone estava tocando. Sasha, na verdade, nunca havia estado. Já o telefone, trim trim, continua tocando. Ele atende?

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Nove. Tucunaré à Pantaneira Um tucunaré de uns três quilos, limões, pimentões, pimenta do reino, cebola, salsa e alho. Sal a gosto. Para a farofa será necessário óleo, bananas, farinha de mandioca, de milho, canela e cebola, novamente. Descame o tucunaré e misture os demais ingredientes, mas não muito, e derrame no peixe pelo direito e pelo avesso, depois, frite as bananas e no mesmo óleo ponha as cebolas bem picadas, as farinhas, e, por fim, o sal, a gosto. No final coloque as bananas fritas e misture bem. Pegar o peixe e socar a farofa em seu bucho, embrulhar com papel alumínio, enterrar em uma cova rasa e então fazer uma fogueira, catar umas brasas e pô-las sobre a cova do tucunaré. Pegar a viola, cantar três sucessos românticos do momento e um das anta em volta do fogo. Contar a um casal de crianças a historinha do capítulo onze. Desenterrar o peixe. Comê-lo.

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Dez. Robalo à Tuzka Pegue um trouxa. Encha bem a bola dele. Dê-lhe drogas. Recite uma poesia. Ganhe sua confiança. Contelhe uma história triste. Peça-lhe dinheiro emprestado. Devolva no prazo. Peça novamente, mais, bem mais. Desapareça.

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Onze. E então a lua cheia surgiu de repente em uma clareira no céu carregado de cumulus absurdums e a velha bruxa amarela saiu para passear. Deixou em casa seu gato preto, levou consigo uma vassoura de palha. Pé ante pé ante pé, pois a vassoura não voa, lá vai ela caminhando pela floresta marrom em meio ao orvalho. Março. Outono. Equinócio. Ela para ante um arbusto, sente a brisa, ri baixinho e me parece feliz. Agora, já não está mais lá. Colheu umas frutinhas, fez umas mandingas, varreu o terreiro, comeu as tais frutinhas e sumiu. No chão ficou a vassoura, ao lado uma carcaça amarela, vazia. No céu, a fechadura de espiar a lua foi obstruída pela chave de fazer chover de um tal Pedro, homem santo, sujeito considerado, que, pelo que consta, quando soube que seria crucificado pelo sistema bruto, pediu para sê-lo de cabeça pra baixo, o que seus algozes, após uma conversinha sobre a viabilidade técnica do último desejo do condenado e apesar de em muito estranharem e até mesmo fazerem choça com até onde vai a excentricidade desses cristãos, acabaram por concordar, afinal cada doido com sua mania. E assim morreu Pedro, olhando o céu e com o juízo a mil, muito bem irrigado que estava pelo sangue que lhe descia à cabeça aos borbotões. Pode ser até que na ocasião tenha lhe ocorrido de passagem a lei da atra42


ção dos corpos, afinal a gravidade era uma verdade latente e latejante em sua cabeça, que a vivenciou de seu interior, ao contrário da de Newton, atingida por essa idéia via um peteleco que lhe deu uma macieira. Quem sabe? Mas, onde estava? Na terra, a carcaça e a vassoura. Em algum lugar entre o céu e a terra, a bruxa acordou disposta, só que às avessas, para dentro. Ela dorme. Mas não sabe. Então, não lhe cutuque, para não estragar a surpresa. Com toda aquela disposição o melhor mesmo era dar uma voltinha, e foi o que fez, até ser interrompida pela noite empoleirada... Onde está indo, grasnou-lhe uma voz. Foi a sua? Eu não dei nem um pio... Lugar nenhum, vociferou de volta a bruxa, que nunca passou nem perto de uma aula de etiqueta. – Sua graça? – Ninguém. E você? – Também. E o que faz aqui? – Nada. Um mau começo, convenhamos... – Não se deve vir aqui sem motivos. – Pois não os tenho. – Então por que não volta? – Porque não. – Você viu o Mickey Mouse por aí? 43


– Como? – Cauda comprida, bermuda vermelha, luvinhas brancas, gosto bom... – Esse bicho não existe. – Não. E corujas, falam? À vista daqueles negríssimos olhos brilhantes saídos do breu a bruxa acordou assustada, e dessa vez para fora de si. Penas, garras e agouros ficaram tinindo em suas idéias por um bom par de horas como farpas espetadas na memória, bolhas nas águas da lembrança. Devo ter comido frutinhas a mais, pensou. É sabido, está lá, no Manual da Bruxa Má, que “De menos não faz, de mais é mordaz”, então, juízo, fellas, a floresta negra não está lá de enfeite, ela existe desde sempre, desde antes, e, depois, quando não houver mais nada, ela ainda estará lá, esperando, eterna. Lá não chegam motosserras, lá não é como aqui. Quando se embrenharem nela, atenção no caminho, não acreditem em tudo que seus olhos disserem, lembrem-se do exemplo da bruxa... de quem, aliás, já ia esquecendo: ela está com pressa. É hora de voltar, pois “Se o galo cantar e em casa tu não se encontrar, perdida para sempre estará”. A regra é clara. Por isso muito me admira ela estar estanque ante a trilha mutante, que está impaciente por mandar-se dali para sempre, sem maiores explicações além de um “nevermore”. É que bem diante dos olhos atônitos da bruxa amarela passeia um inocente e apetitoso casal de crianças azuis, que apesar de estarem a poucos passos do sorriso de armadilha para ursos dela, não percebem seus 44


olhos chisparem, suas mãos enrijecerem em garras, seus braços esticarem rente ao corpo teso inclinandose prestes ao bote que este lobo faminto, cantando a pedra, uiva, mas que quem desfere é um galo lépido, cacarejando de algum poleiro distante. Um encontro casual sob a luz lunar. Verão. Dezembro. Solstício. Foram-se dali os azuis. Perdeu-se para sempre o amarelo. Ergueu-se novamente o verde. O peixe está pronto.

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Doze. – Pare de espernear um instante e ouça essa, Mickey: e se a vida não passar de uma exclamação, perdida em um labirinto de por quês? – Hein? – E a cada pergunta dita... – Por que você não me põe de volta no chão, pra gente poder discutir isso melhor? – ... outra parede erguida. – Eu realmente me sentiria mais confortável para conversar se... – Era uma vez o Professor Pardal, um pássaro metido a inventor que entrou numas de voar. É assim que as coisas são. Não se cria nada. Um dia, do nada, ouça, um dia, apenas lembramos o que já sabemos. Essa história, por exemplo, não faço a mínima idéia do que se trata... mas sei de sua necessidade, então, um dia, veja bem, dois mundos tão diferentes, quando entram em rota de colisão, como é o caso, por mais vagarosa e tão educadamente que se aproximem um do outro, quando estão frente à frente não dá noutra: desastre. Mas “nada como um cataclismazinho para pôr as coisas em seus devidos lugares”, não é mesmo? Cheio de idéias na cabeça e de esquemas, croquis, planilhas, cálculos, fórmulas, plantas e maquetes sob uma das asas, invadiu o escritório do Tio Patinhas e provou ao velho sovina por A + B que C = D = $, o anatidae capitalicus só entendeu a última parte, naturalmente, mas para ele é tudo o que importa e resolveu investir no passaridae especularicus. Os anos passaram 46


voando enquanto o Pardal ruminava o projeto em sua oficina que é também seu laboratório e sua garagem, pois eram épocas difíceis, aquelas, ainda bem que passaram voando... Hoje os tempos são outros, mais graves, a gravidade da situação é inegável, nove vírgula oito metros por segundo ao quadrado, mais ou menos, em uma latitude de quarenta e cinco graus. E ainda bem. Já pensou se não? Sairíamos voando. Então, felizmente, os tempos são outros, e isso se deve muito a mentes brilhantes que sacrificaram seus dias arrastando-se em busca de sonhos como o de voar... Está me acompanhando, compadre? – Prossiga... – Com gosto. Veja, hoje em dia, inferências abdutivas à parte, a ciência reconhece a aptidão congênita adquirida: é inegável a habilidade das crianças com as novas tecnologias; algo instintivo, mesmo. Dá-se um tablet a um infante e ele tateia um pouco e no momento seguinte está acessando pornografia, invadindo o pentágono ou alterando os resultados das eleições do Panamá... o Panamá ainda existe? – O que isso tem a ver com nossa história, comadre? – Você já vai saber. Falta pouco. Logo depois daquela curva ali... O senhor nunca notou, meu caro, nessas campanhas publicitárias, nesses debates da tevê, nos cadernos de cultura... quanta polêmica há no mundo, né? E tão poucas respostas. Quantas boas idéias desperdiçadas, mal utilizadas, desvirtuadas... Vê? O que quero dizer é que sabemos como conduzir, sabemos construir o veículo, mas, sabemos onde estamos indo? Você sabe onde estamos indo, rato?? 47


– Onde estamos indo?? – O que te parece, a Disney? Aqui é meu lar. Eu tenho cinco crias. Há dois dias não as vejo. Elas devem estar famintas...

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Treze. ... ando, idade, ação, mal, vai dizendo o rádio mal sintonizado enquanto entrecorta com estática as palavras do carinha que mora dentro de sua caixinha mágica. Mas, deixando pra lá todo esse bzz, bzz, bzz, e dando continuidade à nossa programação anormal, vamosnos, porém vestidos, à entrevista com o Professor P., nosso ufólogo anarcopunk de plantão. Hein? Opa. Perdão, folks, Plutão. E aí, P., um de nossos ouvintes quer saber: Seria a arte uma forma de invocar deus? Funcionando meio que como uma sacromáquina ritualística? E, em caso de uma resposta afirmativa, seu contrário é válido? Além de baixar deus a sacromáquina pode, invertidos seus transistores, funcionar como o elevador da besta, o pula-pula do capeta, um upa-upa cavalinho do cão? Quais as implicações políticas disso? Mas, antes, meu caro ouvinte, por que você está ouvindo uma rádio tão boa num volume tão baixo? Pra evitar estática. A estática que se mova, aumenta isso aí. Não posso, estou falando do trabalho. Ah, é? E onde você trabalha, meu caro ouvinte? Em uma farmácia. E, diga-me, como é trabalhar em uma drogaria? Muitas drogas? É uma farmácia. 49


Claro, claro, e, como vai seu armário de controlados? Trancado. Trincado? Trancado. Ok. Bem, um abração pra ele. Pó deixar. Qual era mesmo a pergunta? Esqueci. Eu não. Ah, P., você ainda está aí. E então? Sei lá. Eu também já trabalhei em uma farmácia. Havia umas garotas recepcionistas e um farmacêutico histérico e umas estagiárias e um dia houve uma inspeção de rotina, pra se conseguir um papel aí, ao que parece muito importante... então, no dia marcado, como é comum, nada saiu como o combinado, a começar pela data, pois não durou um, mas dois, os dias da visita e a inspeção no laboratório de cápsulas foi deixada para o segundo dia, e os relatórios do que deveriam ser os procedimentos rotineiros só haviam sido atualizados até a data anterior ao que seria a da visita, estando, portanto, todos com um dia de atraso. E isso foi o de menos. O farmacêutico, que estava responsável pela papelada nada a ver, talvez por pressa, talvez por displicência, talvez de propósito, pois daquele lá se esperava tudo, não deu importância às datas e enfiou uns domingos no meio. “Erro gravíssimo”, como diria o saudoso T., que ocupava a função então ocupada por T2, prima de Z., que ocupava a função que antes competia à K., e que também assumiu a de registrar diariamente o assunto que o inspetor Sr. Dr. Takuko Nakara 50


fez questão de abordar, pois, “haja visto que o estabelecimento não abre aos domingos, isso descredibiliza todo o processo, concorda, Sr. Farmacêutico?”. “Concordo”. Mas não pelos mesmos motivos que tu, ó infeliz. Foi o que tenho certeza que ele quis dizer, e não disse. E aquilo o consumiu. O farmacêutico já vinha surtando mais que o habitual com aquele jeito de se fazer ISO, que significa igualar, nivelar, como bem explicou a moça contratada para fazer uma palestra muito edificante sobre o tema, palestra que o farmacêutico, por incrível que pareça, prestou atenção. Pois bem, ele já vinha num stressis continuum sinistríssimo, e aquilo foi a gota d’água. Mal o Sr. Takuko havia saído do laboratório, o farmacêutico olhou para Z. e disparou: Tá vendo como mentira tem perna curta? Ao que Z., sem perder a esportiva, mas visivelmente irritada, retrucou: Devia ao menos ter pego um calendário. Eu não tô nem aí, respondeu o farmacêutico de volta a M. que já ia retirando-se, e pôs-se a praguejar, amaldiçoar e quase que literalmente rasgar-se todo. Depois, como veio foi, e ele mandou-se para o lado da copa e começou a folhear uma revista. Nós continuamos no laboratório, fingindo de ocupados e comentando sobre no que aquilo ia dar, quando, da copa, veio outro pipoco: Z., de volta do escritório e na qualidade de representante da diretoria, entregou ao farmacêutico um relatório de 51


não conformidade para ele preencher e que esse atirou para o alto aos gritos de “Eu devo dizer a verdade, hein? Hein??”. Faça como achar melhor, respondeu Z. calmamente. Ótimo, então vou colocar aqui que o trabalho que eu fazia foi assumido por você, que não o fez e me passou de volta para falsificá-lo, que tal? Eu estava sobrecarregada, retrucou Z. “E por que não me devolveu o serviço?”. A essa pergunta, Z., que já ia a meio caminho de volta e havia parado para responder aos gritos do farmacêutico, respondeu com um gesto de desdém para o alto, que ele perguntou se era Oxalá – que significa, fiquei sabendo depois, ao deus dará. O farmacêutico, então, acalmou-se como pôde e redigiu o boletim de não conformidade que segundo ele era a mentira da mentira. Redigiu enquanto nos contava que “a hipocrisia está devastando a Amazônia, é aí que está a interdisciplinaridade apregoada por essa merda de ISO”, depois do que ficou por ali lendo, e quando deram 12 horas disparou. À tarde, chegou uma hora atrasado e deu de cara com a trupe inteira reunida na recepção e passou batido por todos. Na sala contígua, pôs a mochila sobre a bancada, abriu, fingiu que tirava de lá uma arma e saiu apontando e disparando tiros imaginários em todos à sua volta, fato que passou totalmente despercebido e só comento porque soube da boca dele mesmo, tempos depois, quando aquilo tudo já havia passado e pudemos sorrir aliviados. Depois, subiu as escadas de costas, pegou as fichas de pesagem e desceu até o laboratório para conferi-las por lá. Passou um tempo e subiu com uma ficha de 23 mg de uma receita de 40 mg de Femproporex. 52


A ficha certa da receita errada. E foi logo pedindo um relatório de não conformidade a V., irmão de T., que respondeu que só se fosse muito burro para abrir uma não conformidade contra ele mesmo. E por que não? Eu acabei de fazer isso! Com a diferença que, dessa vez, seria verdade. Então leva essa receita para lá e com a ficha eu limpo o cu. Ele disse ainda vários impropérios naquela tarde, teve mesmo o descaramento de me perguntar se ainda me masturbo, revelando que gostava de “tocar punheta tirando catota do nariz”, dentre outras barbaridades que reproduzo apenas para diversão do leitor, pois o farmacêutico ficava realmente cômico quando possesso de raiva. E sabia disso. Mas não conseguia mais se controlar. Então, algum tempo depois, que transcorreu com muita apreensão por parte de todos, fomos chamados a uma reunião de encerramento. A notícia pegou o farmacêutico na copa, lendo um romance que já o consumia há dias, e foi o primeiro a subir. Lá, uma das sócias tangeu todos por um instante passado a portas fechadas e depois do qual saíram e o Sr. Takuko pôde fazer seu discurso, onde explicou que também era farmacêutico e que foi por pouco, mas as sócias comprometeram-se em sanar algumas falhas e nós conseguimos e estávamos todos, sem exceção, de parabéns. Palavras bastante esclarecedoras, em minha humilde opinião. Houve aplausos e Z. até se emocionou e 53


chorou, o que foi um tanto quanto óbvio, mas ainda assim serviu para florear o momento. Voltamos então a nossos lugares, o pano desceu, o público aplaudiu, eis o mistério da fé. bzzt! ... e agora, com vocês, o mais novo sucesso da dupla Adailton e Adhaylton: Catarse Moi, na voz do exímio intérprete Bruno Azevêdo, o psicopata apaixonado...

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Catarse. Em uma noite de fim de ano, insone após um sonho molhado bizarro que teve com corujas demagogas, filósofos zumbis pinguços e interurbanos a cobrar do além, R. ficou horas pensando no que escrever para conseguir ganhar um concurso de contos, mas não saiu do primeiro parágrafo, este. Passou horas, duas delas, os fogos ainda pipocando lá fora, olhando para as teclas que pareciam dentes sorrindo de seu infortúnio com Cléo Smith, sua ex, atual até há pouco, quando acordou com o telefone tocando e já com um mal pressentimento tilintando em sua alma. Atendeu, e ouviu a voz de Cléo do outro lado da linha, de New York, onde estava chic no último com a família curtindo o reveillon da Times Square, dizer-lhe, baby, nosso amor não pode ser, ou algo assim. A vida é dura. Mas não tanto quanto a cabeça oca de R., que tem por referência o umbigo estufado desta mesma criatura. E tanto e tão que, na falta de uma sombra sequer de criatividade, continuou a escrever este conto com o que a vida lhe dava: mágoas. E, apesar de falando de si em terceira pessoa – afinal um pouco de humildade é o que lhe faltava à perfeição –, e em um tom auto-indulgente ligeiramente cínico, para sagazmente e de modo natural, corriqueiro mesmo, demonstrar o quanto era foda; continuou a digitar essas irreparáveis e autobiográficas linhas retas, o tresloucado. Foi quando ocorreu-lhe Digitus R. Linhares. Que idéia do caralho!, pensou R. Falar de 55


si como um texto inconcluso que se escreve torto por entrelinhas retas; um organismo que precisa de um antípoda, o leitor, para vir a ser; eis aí uma metáfora perfeita da condição humana. E eu, quer dizer, ele, merecia um Oscar por isso. É um Oscar, o que dão aos gênios? Tanto faz. Ele, do alto de minha monstruosa humildade, provavelmente o recusaria. Ou mandaria uma índia gay evangélica lá em seu lugar, vocês sabem como são excêntricos os gênios... Mas vamos aos poucos, letra por letra, invadindo o niilismo da página em branco a fervorosos passos de pombo até... aqui. Aí, uma pausa para um cigarro. E então, o próximo período: Uau! Funciona. R. está tão satisfeito com seu brinquedo novo que nem viu o tempo passar, e assim, dão-se 8:15 am do dia 02 de janeiro do ano corrente, e ele está atrasado. Levanta de um pulo, imprime esta página, limpa a baba da boca e sai correndo de casa, “No almoço eu continuo”, pensa, enquanto abre a porta da farmácia onde trabalha, a Bio Exata, onde você arrisca com segurança. R.? A chefe quer falar contigo, diz Z. Bom dia pra você também... imbecil – completa, 56


enquanto sobe a escada encaracolada que leva até o escritório, onde fica sabendo que há uma semana não vai ao trabalho. Quando soube da notícia, comentada en passant pela chefe enquanto desenvolvia um lenga-lenga temperado por termos como justa causa e aviso prévio, R. mirou por sobre os ombros dela, atravessou a janela, um outdoor, e foi dar na janela do prédio ao lado onde Sasha Grey seminua e na qualidade de sua razão lhe enviava beijinhos molhados de adeus. No caminho de volta, pregou os olhos num aparato para contagem dos dias do ano ®, também desta mesma editora, que ficava pendurado na parede por trás da chefe, ao lado da janela, e, olhos fixos na data, vis à vis ao fato, abestalhou-se de um jeito só comparável ao dia em que conheceu Cléo. O nome é Cleonice, mas ela prefere que a chamem pelo apelido mais sobrenome, que neste caso, por tratar-se de família nobre, tradicional, e como dá-se muita importância a esse tipo de coisa por aí, termina por funcionar como adjetivo de substantivo próprio, caso raro em nossa gramática. Foi uma segunda de verão quando a viu pela primeira vez, como na música de Felipe Dylon. Alguém lembra dele? Ela vestia salto agulha mais calça nova comprada rasgada e top, tum, tum, bateu forte o coração de R. Seu nódulo sino atrial tornou-se mais frenético que a velha M. Não. Mais não dá. Tanto quanto. Contínuos agitados estímulos eram disparados ao 57


jovem músculo do rapaz que, rápido, em resposta, de pronto, desabrochava-se, lascivamente, em uma total e suntuosa entrega ao líquido vermelho viscoso que lhe invadia os aurículos, ventrículos, artérias adentro aos berros de Ah! Eu tô maluco! E, quando esse arrastão existencial chegou ao centro nervoso de R., ele deu-se conta, embora nunca antes tivesse admitido, nem sequer para si mesmo, que estava apaixonado. Ponto. Engraçado ele lembrar-se disso numa hora dessas. Recapitulando, ele passou uma semana em branco, ama Cléo Smith, e está desempregado. É muito de uma só vez para uma só cabeça, mesmo uma deste tamanho. Vinte e sete de maio. O que houve com o vinte e seis, o vinte e cinco, o vinte e quatro, o vinte e três, o vinte e dois e o vinte e um? Principalmente o vinte e três, o último dia de inscrição no concurso? Onde andará Cléo? Adianta alguma coisa ele conseguir um atestado médico de uma semana? Onde estão as respostas? Sentindo-se subitamente sufocado pelo redemunho de acontecimentos inusitados supracitados, R. esquece a chefe, esquece o trampo, o tempo, esquece as dúvidas, as dívidas, esquece até de si mesmo, e, descendo as escadas descascadas pelo tempo em disparado desatino desatento, corre em direção à rua, respirar ar puro. Só para descobrir, estupefato, que a rua lá fora, o bairro, a cidade inteira, virou um entruncadís58


simo labirinto criptográfico, um claustrofóbico emaranhado de letras entrameladas em palavras soltas, poucas, polkas, porcas, placas, parcas, picas, punks, ploc! R. deu de cara com um poste. Não um de cimento, alto, claro, liso, mas com a palavra poste, literalmente. A letra T, mais especificamente, que partiu-se com o impacto. R. então respirou fundo, chutou para um canto o, agora, pose, e, olhos fixos em um ponto de fuga futuro, começou a caminhar vagarosamente, diligentemente, alinhando-se a uma reta imaginária... mas não conteve-se sequer por um parágrafo e voltou a desembestar... Vejamos, Essa é definitivamente uma situação limite. Em um caso desses, segundo li em um site de parapsiquiatria aplicada às realidades subjetivas inusitadas, a mente humana tende, em um joguete autopreservacional, a instalar uma situação em que o corpo, por inaptidão, não entre em colapso. R., resumindo, precisa de referências. Um solo por onde andar seria um bom começo. Então, atendendo a pedidos, aqui vai uma dura, áspera, rústica, calçada. Sim, foi este um bom começo, deveras. R. sente-se um pouco aliviado, agora. Não o suficiente para parar de correr, por certo, mas, se, por exemplo, em seu desespero, tropeçar nas próprias pernas, não corre mais o risco de perder-se no espaço ( ... )

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Não. Ele agora tem uma dura, rude e consolidante calçada, para, ao custo de uma ou outra esfoliação, abrigar-se do vazio absoluto do mundo real. Que sorte tem R. Ele quase dá graças a deus quando suas mãos espalmadas derrapam pela tez crespa do calçamento deixando por ali, ai! impresso, ui. seu verborrágico sangue O negativo (cada vez mais) doador universal. Quando sentiu a dor em seu joelho esquerdo ele abraçou-se amorosamente às milhares de rachaduras estampadas no asfalto quente e chorou copiosamente de alegria e alívio, snif. Dor. Maravilhosa dor. Real, latejante de objetividade. Pungente. Uma pessoa nessas condições periga se acostumar com ela, e acabar até gostando.

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Catorze.e.meio. A que ponto chegamos? Este: . ? Ou,

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Catorze.quase.Quinze. – Botadepeãoédecourocintodepeãoédouradocabelo deputalôro, se guuu rapeãoboiadeiro, eeeeeeee... lá vai Mirinho pela representação da fazenda Currais Novos! Gritou o alto falante. E nosso herói de pronto imaginou alguém que, com um ovo descascado recém fervido na boca, assoviando o hino nacional de trás pra frente, vai narrando a corrida dos vaqueiros até o boi e do boi até a linha de cal, e da linha de cal do animal, além, como a dizer que o buraco é mais embaixo. E o mais estranho é que consegue, e descreve, com essa voz tacanha a bizonha corrida do puxador, do bate-esteiras, das faixas que dizem ao bicho do buraco, que sem dúvida é mais embaixo, e do bicho, que a despeito do vaqueiro e do que pensam as faixas passa direto por elas, mandando, com desdém bovino, vaqueiros, locutor, público, faixas, buraco, todos à merda. – Zero boi. Mirinho, meu filho, coma mais rapadura na próxima, eeeeeee... é isso aí. Lugar de cana é na roça. O homem é pra ter duas mulher: uma dele outra nossa. O Sr. Dr. R., como o boi, acha aquilo tudo muito maçante, e, finda a cerva da latinha em sua mão, não via mais motivo para – “valeu o boi”, gritou o locutor – continuar ali. Desceu calmamente a arquibancada, dobrou à direita e começou a dirigir-se despreocupadamente para a saída do lugar. Andou exatos dezes62


sete passos e topou com seu primo, que o convidou a mais uma lata. E como o que ele procura ele desconhece, pois mesmo em busca de um culpado pelo seu infortúnio ele sabe que não é o último rei enforcado nas vísceras do último papa, nem sua ex-patroa a afogar-se no próprio sangue, a solução. E como, no fundo no fundo, o que há é “desce mais uma, brother”, ele aceitou a cerveja oferecida pelo primo, e depois de dar-lhe um gole profundo, encarou-lhe o, desculpem a redundância, fundo, e exclamou – Tô liso. Tu paga? Vai fundo, gritou de volta o primo, atiçando-o à outra. Eu te contei da pelada maluca? Não? Não. Você não estava. Ano passado. Aqui. Vai me deixar contar? Então, ano passado, tô eu aqui, tomando minha cerveja, aí, do nada, no mei da poeira... O erro é dele, mas vamos dar um desconto que Adamastor, é esse seu nome, já vai pela sétima latinha. Poeira, estrume, gente, gado, cavalo, né que me aparece uma mulher correndo nua? Nua. Vaquejadadentro. E um monte de guardas atrás dela. Eles estão entre nós, pensou Mister Rua, mas não falou, que de UFO adamastor não entende bulhufas. E era bonita? Indagou. Disso não é preciso ter ido à escola para saber. Ao que seu primo, cursista do terceiro ano do segundo grau no Liceu, respondeu – Não sei. Resposta que não convenceu nem a um nem a outro nem à namorada do outro, que estava o tempo todo ao lado deles e ouvia com as duas orelhas em pé a conversa. Mas assim ficam todos satisfeitos. Né? É. 63


– Zero. Adamastor, meu chapa, brigado pelas cervas mas já vou indo, preciso resolver uns assuntos superurgentes aí, ou outra desculpa qualquer. A próxima é minha, hein? Levantou-se, e, veja só, que coincidência: mal dado o décimo oitavo passo, com esse trinta e cinco, em direção à saída, vinte e seis para chegar lá, avistou uma muvuca vindo em sua direção. Mais cinco passos e percebeu que a muvuca era na verdade uma comitiva, que dista da anterior por tratar-se de uma aglomeração de gente da vida pública, vereadores, prefeitos, assistentes, secretários, etc, etc, etc, e seus asseclas, esses sim, a muvuca. P Bem, lá ia ele. E lá vinha a roda de pôgo dos engomados, o fuzuê tutti frutti, a massa vazada de paletós, gravatas, lenços, cáries, chinelos, que se confundiam em meio ao poeirão que levantava. Que a muvuca levantava, permita-me retificar, pois comitiva é chic, não polui. Novamente, é de uma interação tridimensional multifocal de trocas imprevisíveis de amplo espectro que estamos a falar aqui. O que são as leis de Newton em uma situação como essa? p Estropiados, pernetas, mancos, camelôs, contrabandistas, mordidos por cães raivo-

sos, cegos de gota serena, surdos da pancada do sino, cavaleiros da triste figura, infelizes das costas ocas, ciganos, travas, rachas, monas, boys magia, decoradores de interiores, nerds, possessos, ufólogos, histéricos, hipsters, barbies, noiados, epilépticos, mentecaptos, salafrários, bêbados, velhacos, punks, haribôs, milfs, sacanistas, designers, laranjas, malandros, pistoleiros, caguetas, bufões, traíras, babões... Ufa. Agroboys, promoters, sacripantas, iconoclastas, escort girls, go-go boys, performers, larápios, desnaturados, yuppies, bastardos, junkies, lunáticos, arrebatados de sálvia, lombrados de cola, cogumelados, pós-moderninhos, rivotrilizados pelo sistema, sovinas...

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– Zero. Lá vem a biomassa. E lá vai R., perdido em meio à turba, procurando em meio ao caos social o que é câmara e o que é taipa, o que é chinelo e o que é sapato, o que é gel e o que é gomalina, o que é Chanel e o que é Avon... quem são os eleitos, quem é a lei, quem é mausoléu, e quem é cova, urna. Cem por cento de chance de uma contaminação cruzada. E quando perigava entrar em uma crise de identidade assombrada por alucinações de pesquisas, comícios, cestas básicas, promessas e siglas, muitas siglas, quando, neste estado alterado de consciência, totalmente abduzido, perigava perder, inclusive, a identidade, além da paciência, principal órgão vital avariado num caso desses, o Sr. Rua, em um gesto desesperado, gritou – Dotô! E imediatamente, junto às tapinhas que, sabe-se lá vindas de qual dos sete ou oito círculos do inferno instantaneamente estalaram às suas costas, o caos pôsse em ordem. Goma para cá, sebo para lá. Habemus Civitas, novamente. Que alegria! Uma piada, o Estado. Mas ai de quem rir. E a vida continua, a doze passos da saída do Parque de Vaquejada Balduíno Minervino de Carvalho, nome feio do cacete. Oito. Quatro. Dois. – Zero. Três. Seis. Doze. – Zero. Ôpa. Que houve? Ele está voltando? 65


O Quinze. Vide Rachel de Queiroz. Romance. Clรกssicos. Outra estante, outra pala.

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Dez.seis. É um Tribuctus Erectus, nome provisório. Um Spectro Econômicus. Meta-zaibatsus mutantes migrantes que flanam indeléveis pelos interstícios burocráticos do livre mercado neoliberal infectando tudo a sua volta. Alimentam-se de suas economias: trocos, trocas, lucros, consignações, taxas, câmbios, dívidas, juros, subornos. Alguns transmigram em idéias e tomam gosto por tendências e flutuações, esses são os mais perigosos, porque imprevisíveis. Perversos polimorfos monetários que alimentam-se basicamente de planilhas e registros. Traças de poupanças. Ratos de pequenos investimentos esquecidos. Mas o nosso animal trata-se de um Tribuctus Erectus, meu caro. Um conceito vivo germinado por espermocifras em pleno caldo cultural financeiro. Seis meses incubados em uma bolsa de valores incalculáveis. Quebram balanças comerciais, estouram contabilidades, desestabilizam bons negócios, falem redes, afundam bancos. Eles não flanam, singram. São objetivos, direcionados, obstinados, selvagens, famintos e invisíveis a olho nu. A eles não interessam pequenas abstrações inconsistentes: o jogo em si, é o que lhes dá prazer. Eles desenvolveram gosto pela caça, andam em matilhas, trustes, zaibatsus. Inteligências autônomas transmórficas que farejam medo, o medo humano. Ideologias, o substrato dessas bestas feras famélicas 67


transeuntes de infernos fiscais. Uma vez inoculados dirigem-se imediatamente às meninges do hospedeiro e uma vez lá não adianta chorar, rezar, correr, beber, nada. Resignação é o que resta a uma vítima de tais monstros comensais. Erre está tomado. Sua alma está comprometida. Um exu monetário o fez de cavalo-de-batalha e agora ele vai ter de bater cabeça no gongá do capital. Eparrêi, Money! Pensando, calcula. Noves fora, pena. Dá-se melhor com marcas que com pessoas. Quarenta graus de febre consumista degeneram qualquer caráter especulativo, e o de Erre não é dos melhores. Erre é um conceito em relação com um outro, uma história ainda não contada e já contabilizada. É de uma relação desigual de interdependência dinâmica entre duas inconsciências personalizadas de ordem zero que estamos falando aqui. Uma pororoca probiótica. Uma Dê-Erre ambulante. Uma colcha de retalhos cosida pela agulha de Buffon. Um contrato feito só de entrelinhas firmado em cartório etéreo, e assinado com sangue. Um pacto entre inimigos mortais, Erre. Ei-lo, olha-o bem: és tu. 011101010110100101... vai pensando Erre, com arritmétrica de múltipla imprecisão. Confuso e cabuloso para caralho, deveras, além de sinistramente ambi68


destro, Erre, que por vezes acerta, quase nunca no alvo, é vero, noves fora – Ecce homo: nada. Tudo em potência. Páginas em branco. Organismos pluricelulares conscientes de si pensam que são gente. Deixe que pensem. É um equívoco comum ordinário. Vidas assim apenas são. E estão sempre doentes. Gente, fina ou grossa, é outra coisa, definitivamente. Gente, só as comprovadas cientificamente. E a ciência, meu caro, é um caso raro de misticismo rebelado. Em águas turvas velejamos, e nossa quilha é cega para bússolas eletromagnéticas. Ventos digitais imagéticos sopram nossas velas derretidas pela maresia ancorada em nossos corações. Nossa carcaça oxidada, nossa bandeira negra, esfarrapada, hasteada a meio mastro, drapejando... Aporias, distopias nos guiam pelo mar revolto da história, e estamos em meio a uma maré de azar, camarada. Só que... A realidade é uma alucinação coletiva, marujo. E daí que, mais nada, só isso. Calcular é preciso. Viver, outros quinhentos. As jóias da coroa de Édipo Rei são os olhos da cara, meu caro. Se i$$o é tudo, vale nada.

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Dez.sete. Memorando 2043 de 05/03/05, pela ocasião da implantação da ISO 9000: a não-conformidade suprema. A Claudia voltou feliz das férias. E contra tudo que apregoam os manuais e dita a prudência, achou por bem – e como é comum e mesmo inevitável em tais situações – expressar essa felicidade. Isso, naturalmente, gerou uma Disfunção Morfoestética Policromática de Ordem 2.4, e, como todos sabem, esse tipo grave e agudo de desordem ambiental e suas subseqüentes idiossincrasias representam ameaça potencial latente à produtividade de qualquer empresa, ainda mais quando trata-se de uma que objetive a saúde pública. Esse fato, e suas conseqüências, não deixam de ser um curioso paradoxo em nosso sistema público de saúde. Em nosso, permitam-me a observação, tão capenga sistema público de saúde. Ora, senhores, se a felicidade sincera, e não a dissimulada com a qual já estamos acostumados e é nosso padrão diário e aceitável, é, ela mesma, um problema tão sério, como então, com todos os mil demônios dos vários infernos, podemos um dia atingir nossa meta? A outra, a que não inclui cifras. É, existe uma outra, sim, lembram? Pois. Ou alguém aí ainda duvida que a felicidade honesta de uns é a miséria real de outros? E o riso amarelo de terceiros, e a alegria histérica de vários.

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Em todo caso, sugiro como medida corretiva coercitiva uma semana de trabalho em dobro com advertência registrada em carteira para a funcionária em questão, de onde se espera que, findo o castigo, a funcionária esteja novamente cínica, infeliz e absolutamente readaptada. Um caloroso, e nem por isso sincero, tapinha nas costas a todos vocês. Att, Sr. Dr. R.

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Dez.oito. Vimos no apêndice anterior o que Caio Xana pensa sobre ética, política e justiça. Não, não vimos, é verdade, mas vamos supor que sim. Tentarei, agora, sintetizar o essencial do que Stvz pensa sobre isso. O priapismo apoplético do projeto político de Stvz combina a escatologia messiânica com o perigoso e talvez feliciânico projeto matriz da práxis xânica: o gozo descaralhado, a saber. Ora, se para Xana a vida política seria “absolutamente imanente, profana e totalmente liberada de qualquer sacralidade”, como foi assassinalado previamente, ética em Stvz concerne à idéia do “autêntico ser-se si” que diz respeito à presença nua, sendo o Bem o vínculo da messianicidade com a facticidade situacional, ou seja, é preciso voltar os olhos para sua existência pélvica e estendê-la ao léu da costa metafísico-racionalista que espraia-se ao longo de ipanêmicas paisagens estruturais dourando-se indecentemente em gálicas dunas postonoveanas. Xana não. Xana pensa diferente. Xana tem uma visão cosmodemoníaca da ética e do coito. Xana, como ao fim e ao cabo desta desventura sêmen-semântica semi-provarei, é um doente, um psicopata e um perigo para a sociedade em geral. 72


Voltando à teodicéia xanastevzoniana, a demanda profana insurgida sobrepuja diametralmente as circunvoluções sísmicas adjuntas demonstrando, por a mais b, que y igual a z, como espero ter deixado muito claro em um dos capítulos anteriores. Isso, naturalmente, implica que: Em síntese, seja como for. Para concluir, podemos, assim, ver quão heterogênica é a atitude de um em relação ao outro, e vice versa em verso e prosa. Isso significando que, de certo modo, tudo está contido no seguinte relato proferido por Xana em uma de suas infames picardias de fim de night: Eu não sei quem tocou fogo no mar, só quero comer peixe frito. O grifo é meu, e totalmente desnecessário, bem sei. Xana, como se vê, é um finfão, um embusteiro, um papa-anjo e um proxeneta. Por outro lado, é, também, contudo, um entrave necessário à cáustica castidade casuística de Stvz, que vê na qualidade formal do ato como que uma separação estratégica entre mundos e fundos, daí a ênfase no caráter disjuntor do processo kafkiano de enlabirintar-se para escafeder. Tsc tsc.

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Em outras palavras, o modo próprio do sujeito existir, segundo Stvz e colaboradores, é o de ser uma “concha vazia” ou uma “colcha de retalhos”, como querem seus inúmeros detratores. Ou ainda o exercício em nada prático de reconhecer o vazio de seu ser no excedente e inerte correlato imaterial que é o objeto anamorfótico multifacetado, tese esta reiterada por diversas matizes teóricas divergentes. Logrando logradouros virtuais anexos superpostos, Xana’s prana, cedo ou tarde, gonna get crazy, é certo, sendo que o último bastião de resistência ao descaralhamento mundial é o sacralismo crasso de Stvz, um caso clássico de eticismo amoral autofágico. Vamos aos fatos. Uma vez, sem motivo algum, enquanto andávamos displicentemente pela rua, Stvz pisou no meu pé e não pediu desculpas. Este aparente acidente contingente evidencia as fantasias fundamentais da porfiria iconoclástica stvziana que logo abaixo destrincho em três tópicos: Primeiro: o mito de que água mole em pedra dura bate, bate até que fura. Segundo: a óbvia singularidade radical da metafísica das coisas em geral. Terceiro e último: a técnica como meio de joãosembracear o sistema.

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Falar desses sujeitinhos, no entanto, não significa falar de subjetivismo psicológico decisionista volátil e nem mesmo sônico, como bem observa Pedro em um de seus apócrifos, ao conjecturar, em epístola aos Ramones, que “errou, let’s go”, em uma clara referência ao sionismo filisteu. E ao título desta novela, também, profeta que é. E mago. E illuminati. Além de provável descobridor da lei da atração dos corpos. Enfim. Stvz, não se enganem, não é santo. Mas Xana, como foi magistralmente demonstrado, não é uma opção. Oremos.

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Dez.nove. Ă“, Senhor, deus misericordioso, fulminai meus inimigos. AmĂŠm.

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Vinte. O solo balança sob os pés dos que caminham sem firmeza sobre a terra. Lá fora, onde os cães conversam e as horas passam, os dias passam, as luzes brilham e mariposas debatem-se em uma canção dodecafônica, tudo diluindo e escorrendo, segue a esteira rolante do fim, fica a estrada, e sobre ela este aladim, Erre, que caminha trôpego, bêbado que está. Ele vem tentando parar a esteira. Ele de alguma forma sabe que o tempo só pode ser fixado na parede das horas pelos ponteiros do artifício com os quais tricota um tapete mágico que – espera – o leve embora dali. Daqui de dentro, lendo, observamos a sucessão de paisagens que passam por Erre, e isso às vezes nos anima, às vezes não. Por ora, talvez por Saturno estar em quadrantura com Júpiter com a Lua em trígono, vá lá que seja, sentimo-nos dispostos a acompanhar nosso herói, eu marcando com tinta preta em forma de letras seus passos e você com os olhos, e se não lhe saltam à vista meus sinais, perdoe-me, é a pressa, Erre, apesar de trôpego, caminha rápido... lá vai: ... Desceu a Rua da Mangueira, atravessou a do Patrício, contornou a da Aurora, e, pouco antes de chegar na do Tambor, enfiou-se pelo Beco da Priquita. Desconfio que não faz a mínima idéia de onde vai. E para poupar quem se presta a acompanhá-lo e como está ao meu alcance fazer isso, vou pôr uma porta em sua frente: Toc. Toc. 77


Um breve adendo sobre quem mora aqui: Marta Mercedez M. Magnólia, a Velha M., senhoria de R., é uma senhora recatada. Religiosa, todo dia acende uma vela pra São João da Coroa Quebrada, e outra para Santa Rita de Cássia, padroeira de Rio Tinto. E outra para Shiva. Outra para Buda. Para Exu, Pomba Gira, Tranca Rua, Zé Pilintra, Darth Vader, Tiamat, Moloch, Cthulhu, Wendigo, Quimera, Incubus e Loira do Banheiro. E se por acaso você lembrar de alguma outra que não me recordo agora ou que desconheço, para esse também. Dia desses quase pega fogo junto ao oratório. Desde então nunca reza sem um extintor por perto. Mas engana-se quem acha que M. é beata e coroca. Dona M. fode bem. Dona M. cheira coca. Certa vez, de tanto pular pular pular na piroca de Seu Mendez, matou o velho de infarto, que vergonha, Dona M. E teve ainda aquela vez, que, tendo cheirado a pensão e o salário e o aluguel, insatisfeita com a dieta, seduziu o Juarez e cheirou sua bicicleta. M. tem olhos esbugalhados e uma belíssima dentadura sempre à mostra, e apesar da idade é uma senhora muito ágil e atenta a tudo que se passa ao seu redor. E de tão atenta deu um pinote da cadeira, onde se balan78


çava em frente à tevê, já ao primeiro toc. No segundo estava no quarto, entucando no criado-mudo gilete e espelho, e no terceiro olhava R. pelo olho mágico, de modo que nem foi preciso apelar para um “ô de casa”. Imediatamente após o terceiro toc a porta abriu-se num solavanco. *** – Ah, R., ô! Tu quase me mata de susto, chuchu. Eu estava agora mesmo vendo pela tevê umas indescritíveis cenas de violência e estupidez durante uma manifestação que me deixaram suscetibilíssima a um ataque de pânico propagado por qualquer ruído meio assim como quando a gente dá estricnina a um rato e bate palmas e ele fica todo duro como pedra e ainda bem que não aconteceu isso comigo porque seria realmente uma pena deixar James sozinho no mundo. James é meu criado-mudo. Que bons ventos o trazem? Disse isso de uma vez só, sabe como é, né? Não? Pergunte a James, então, que não à toa é mudo, pois seguro morreu de velho, e desconfiado ainda vive. No coração do prudente repousa a sabedoria, já dizia Luiz Gê em música de Arrigo Barnabé intitulada Tubarões Voadores. E no coração de James repousam duas pedras de haxixe, uma de emedê, seis gê de pó, uma cartela de Lexotan 6mg, uma de Alices, anfetaminas, pscilocibes cubensis e chá. O criado é mudo, mas se falasse... gritaria “cara, eu tô mui-to doi-do!” a plenos pulmões. 79


– Vim falar-lhe do aluguel. – Venceu? ... ah. Entre, vamos, entre. Aceita chá? Chá é um remédio natural, ele é uma infusão e muita gente não sabe, mas, se feito em chaleira de alumínio, corta o efeito. Alguma coisa com o pH, sei lá. R.? – Sim? – Não quer entrar? – Perdão. – Vou até a cozinha, preparar chá e já volto, fique à vontade. R. nunca antes havia falado com M. mais do que pede o vínculo contratual e não sabia o que esperar daquele encontro com uma velha esquisita. Mas certamente não esperava condescendência. Não esperava isso de ninguém. E a recíproca era verdadeira. De onde se encontrava confortavelmente instalado em um sofá bege ele ouvia a voz de M. monótona e ininterruptamente escoar para a cozinha, subir meio tom em direção ao quarto, onde fazia uma breve pausa que durava mais ou menos o tempo de abrir e fechar o criado-mudo, e recomeçar seu blá blá blá novamente na cozinha para então e sempre discorrendo sobre as propriedades mágicas da camomila e do hortelã, pelo corredor em sua direção, aumentar o tom em meio, um, dois – Ou três torrões de açúcar, R.? – Nenhum, por favor. Obrigado. – Venha. Quero lhe mostrar uma coisa.

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O corredor longo desembocava em uma cozinha simples: geladeira, pia, fogão; que por sua vez dava para um quintal que era um mundo, maior que a casa, que a rua, que o bairro, a cidade, o estado. Não se via o fim daquilo, se é que tinha fim. – Até onde vai? – Não sei, nunca pus os pés aí. M. abriu a geladeira. Lá dentro só havia uma enorme peça de carne. M. cortou a peça ao meio, devolveu uma parte à geladeira e pediu a R. que levasse a outra até uma certa altura do quintal. “Agora deixe aí e volte logo pra cá” – disse-lhe. “Agora puxe aí uma cadeira pra mim, sente-se naquele tamborete ali e aprecie o show.” Não esperaram muito. Cães, hienas, porcos, urubus e harpias, vindos sabe-se lá de onde, avançaram sobre o pedaço de carne de uma só vez. Cobiça, astúcia, malícia. Os que não abocanhavam a carne abocanhavam os outros. Murros, empurrões, pontapés. O jantar virou um bacanal, uma hecatombe, o apocalipse e, por fim, um cemitério de carcaças. Foi quando vieram as formigas, e depois se foram, em fila indiana, cada uma delas com sua porção, até que não restou nada: o vácuo perfeito, zero show, um espetáculo que você não pode ver, portanto não queira. – E então? – Não é só por vinte centavos, é para que os abutres parem de devorar-nos o fígado. – Mas o fígado regenera-se, não? 81


– Eu... não estou me sentindo muito bem. – Vai passar. Como vê, R., eu vivo aqui humildemente, apesar de minhas posses, e apesar dos convites prefiro a reclusão. O que passa é que descobri em mim um mundo muito mais vasto que o meu quintal, que quanto menos me interessa maior fica, desconfio, pois era muito mal um canteiro, antes; e assim prefiro minha companhia à das bestas, porque terminaria por virar uma também. Muitas delas eu conheci bem, inclusive, eram vizinhos, parentes, amigos... Na geladeira há sempre mais que o suficiente para o mês, então, quando a tevê me entedia, venho até aqui e atiro o que me sobra às feras, para assistir o espetáculo da decadência humana. Isso me distrai, é o meu futebol de quarta-feira... mais chá? Venha, voltemos à sala. Você crê em deus, R.? – Hã... – Deus é uma mesóclise isóscele em crise. – Hein? – Falar-lhe-ei a respeito. Veja, só emprega-se a mesóclise quando o verbo estiver no futuro do presente ou no futuro do pretérito do indicativo. Certo? Ficando o pronome obrigatoriamente intercalado ao verbo. Certo? E isóscele é um triângulo com dois lados iguais. Agora é só fazer dois mais dois. Um nodus operandi, um nó cego em curso, deus. Sacô? – Não. – Mas é tão simples. Não percebe? Os ângulos não são predeterminados e um deles está incongruente, daí a crise, o cisma, e a Queda, porque o mal faz parte desta triangulação e, mesmo não se sabendo ao certo com 82


quem está a bola do jogo, porque o sujeito é oculto, o certo é que, para existir um, tem que haver dois, e que um mais um são três, e sendo um deles incongruente, pois é um eterno vir a ser, daí o pronome intrometido auto-referente. Um interregno perrengue, um interlúdio problemático, deus. – Eu ainda não estou bem certo se... – Lingüística não é uma ciência exata, R. Mas é legítima. – E o que a legitima? – A feitiçaria, claro. – A senhora está a curtir com a minha cara? – Ou você nunca ouviu falar em vodu? – Já, mas... – Você, desculpe-me a sinceridade, é meio burro, R. – E a senhora meio louca, M. – E com quantos loucos se faz um asno, R., você sabe? – ... Três? – Era uma vez um cara com um pneu a menos ao lado de um manicômio. Ele havia perdido os parafusos do estepe. Os loucos os do juízo, mas até aí normal, é por isso mesmo que são loucos. O cara tá lá, sem saber o que fazer, aí um maluco põe a cabeça pra fora do muro tipo um Kilroy e diz – É só tirar um parafuso de cada pneu e colocar no estepe, aí você vai ter três em cada pneu, o que deve dar pra chegar até o posto mais próximo. E o cara, de cara – Mas o que você faz aí então? – É que sou doido, e não burro. – He. – É tudo tão estúpido, né? – É. 83


– Eu acabo deixando que as coisas passem por mim sem que eu as entenda. Porque, ou eu tento entendê-las ou as vislumbro, ou as vislumbro ou vou catalogá-las, selecioná-las, colecioná-las e terminar por me pós graduar em um dos quartos de cu do fulano que teve o cu torado em quatro. Do tal fulano só saberei o que aquelas um quarto de pregas me contarem, e é o que me bastará. Marina, Doralice, Sabrina e Wanessa. Eu as amarei e as servirei até que me contem seu segredo, o segredo do cu quadrangular, o segredo que passei a vida a procurar. E espero que não seja: deixe estar. Seria realmente desapontador, porque... bem, diante disso só me restaria negar o quarto cu e ir em busca de outra verdade, uma verdadeira. Ou... – Ou? – Você já tentou tapar buracos com furos? – Não que eu lembre... – Sabe no que dá? Rombos. Enormes. Eles se escondem em frestas e fissuras, e em rachaduras, também. Esta casa está cheia deles. Atrás das cortinas, dos quadros, atrás dos móveis. Eles te sugam. Pouco a pouco você vai deixando de ser você. Em seu lugar fica alguém que é igual a você, mas é um outro. Matéria Escura. É como os físicos a chamam. Mas ela vem mesmo sem chamar, porque já está. Áxions, provavelmente, ou Neutrinos, mas definitivamente um MACHO, um massive compact halo object. – Um o quê? – Desculpe, eu fiz inglês no Fisk. São grandes corpos celestes que emitem poucas ondas eletromagnéticas, como estrelas de nêutrons, ou mesmo nenhuma, 84


como buracos negros... pois é, a relação entre machos e buracos negros é estreita. Um períneo de distância, por assim dizer. Mas o caso é que a matéria escura te suga, ela é a alma da gravidade, o peso das coisas, e se alimenta de luz. Eu a chamo Lúcio, o habitante do porão, ou, melhor, o próprio porão, vazio, à espera de um. Existem mundos paralelos sobrepostos, R., eles interagem entre si pelas frestas por onde Lúcio nos espia e pelas superfícies polidas, que nos cegam para nossa surrealidade quando refletem a luz de volta aos nossos olhos ocos, opacos, cegos para setenta e três vírgula quatro por cento de tudo o que há. Nós somos rios, R., e brechas são pontes, e espelhos são portas. E é por isso que há um pano sobre cada um dos que existem nessa casa. Mas... R.? – Hein? – O que te trouxe aqui mesmo? – O aluguel. – Ah, tá. E o que tem ele? – Não posso pagá-lo. – Nunca mais? – Por ora, ao menos. – E de quanto tempo precisa? – Algum. Não sei ao certo. Acabo de ser demitido e... – Algum é incerto demais. Você tem suas contas, eu as minhas. O mundo, você já deveria saber, é movido a dinheiro. – E tanto sei que nunca peço um favor sem dar garantias. Veja, este colar está há décadas na minha família, pertenceu à minha mãe e à mãe dela também. – Que lindo. Posso ver? 85


– Claro. – Ficou bonito em mim? – E sobre o aluguel? – Não se preocupe com isso. Mais tarde, durante o julgamento, R. não soube se explicar quando indagado pelo porque de, sendo seu o colar, estar então no pescoço da velha. “A ação é inesperada, imotivada e não premeditada, com traços de furor brutal e extrema violência, seguida quase via de regra por amnésia.”, explicou seu advogado ao júri, auxiliado por um médico que ia embasando seus comentários. Mas de nada adiantou. De volta à cena do crime, M. mandou-se para o quarto para admirar-se em frente a um dos espelhos cobertos por lençóis. Para isso precisou descobri-lo, naturalmente. Ela não devia ter feito isso. Voltou outra: – R., era uma vez você e M. conversando em uma sala como esta, você sentado em um sofá bege como esse e ela em uma poltrona surrada, como esta, em frente a uma TV/PB, como esta bem aí, e tomando chá. Gostaria de continuar? – Onde quer chegar, M.? – M. não está mais aqui. –? – E se eu lhe dissesse, R., que somos personagens de sonhos de outros? – Eu, hã, não saberia o que fazer com tal informação. – Um chá, talvez? Um de camomila, que facilita a digestão... 86


– Perdão. Eu... não entendi o que disse. Há algo errado com sua voz? – Dê-me cá sua mão, garoto. – Senhora M., sente-se bem? – M. não está mais aqui. – Por favor solte-me, você está me assustando. – Assusta-se muito fácil, rapazinho... – Eu preciso ir. – O que quer lá fora que já não haja aqui? – Senhora M. ... – Não sou M., já disse. – E quem então... – Severino. – Quem? – Biu. – Quem? – O chá estava bom? – Solte-me. – Eu não queria estragar a surpresa, mas... – O quê? O que foi? – Sabe esse chá que você acabou de beber? Não era exatamente de camomila. – Solte-me! – Não! Há algo que precisa saber e é estúpido demais para descobrir sozinho, de modo que precisa de mim por agora. Escute, você precisa evitar Lúcio, você está em um momento difícil do processo, a torre está entre o suspenso e o eremita, e você, por si, não dá-se conta disso. – Mas que papo errado é esse, que torre, que Lúcio? Eu não conheço nenhum Lúcio... 87


– Não, mas ele conhece você. Escute, R., esta estória não é uma estrada de via única, ela tem mão dupla, e você é um jovem muito prepotente, isso pode pôr tudo a perder. Eu me preocupo com você porque devemos chegar juntos ao fim. Depois é cada um por si, mas, até lá, dependo de você e você de mim, então é melhor que me escute bem quando lhe digo que aquela torre, R., é você, e ela está ruindo. O que será edificado sobre seus destroços, R.? Um poço? Um obelisco? Você é uma terra fértil agora, R., veja lá o que vai semear em si. E agora basta. Vá-se daqui antes que a velha médium volte, se bem a conheço ela não será tão diligente com você ao acordar como foi há, bzzt,

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Vinte.um. Pausa dramรกtica.

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Vinte.dois. – R.? Com quem estava falando? – Senhora M.? – Vá! – Ei, quem é esse? – Severino. Vaza, R. – Que Severino? – Senhora M., eu sinto muito, mas é que... – O autor. – Saia de cima de mim. – Ainda não, M. – R., fique onde está, você me deve. – Pois é, foi justamente por isso que eu... – Sai de cima de mim, caralho! – Quieta, M., ou te mato antes da hora. – Senhora M., quer que eu peça ajuda? – Vaza de uma vez, porra. – Chame um padre, R. – Ok, M. foi você quem pediu. – Qual o telefone do padre? crrrack. – Dane-se, chamarei a polícia. – Se fosse você não faria isso. – Meu Deus! O que fez com ela? – Torci-lhe o pescoço, como se faz com galinha. E você atenda a porta. toc, toc. – Quem é você? – Alaor. – Que Alaor? – De Aparecida Blues, outro sucesso dessa mesma ilustríssima editora... – Hein?? 90


– Uma valsinha punk do mesmo autor, que teve críticas muito positivas, como o tweet d... – Meu Deus! Ele a matou! – Ele quem? – (!) Meu Deus, meu Deus, a polícia, será que chamei a polícia? – Onde fica o piano? – Não consigo lembrar! – De quê, do piano? – Não, a polícia, eu chamei? – Acho que sim, uma das músicas que vim tocar chama-se Tocata e Fuga em Ré Menor, de J. S. Bach. Foi escrita originalmente para órgão, mas farei sua execução ao piano. A adaptação é minha e... – Ahhhhhhhhh! Estão saindo cobras de seus olhos!! – Começo já a música. – Alaor? – Biu? – Antes a breve polca Tritsch Tratsch, de J. Strauss, ideal para viagens lisérgicas em momentos inoportunos. Por favor. – Claro. Como não? – E agora, e agora, e agora, o que faço? – Aceite a sugestão de Johann, ora. – Aham. Alaor? – Hein? – São ambos Johann. – hehe. Pois é... – Qual deles, qual deles?? – FOGE, poooorrra!

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R., então, tentou ejacular-se o mais rápido que pôde daquela orgia criptomnésica. Mas não conseguiu. E como ficamos sabendo depois pelo B.O., pelo prontuário, pelos jornais, pelo facebook e por pessoas que passavam por ali, R., que passou uma semana falando com mortos e personagens de histórias em quadrinhos, foi pego em flagrante delito com a mão na massa e não foi convincente o suficiente, ou simplesmente não foi capaz de explicar o que fazia ouvindo Bach ao lado de um corpo de pescoço tão belamente ornado quanto eficientemente torcido. Ninguém acreditou que ele não sabia nada sobre James, também. Foi a julgamento, culpado por unanimidade e sai hoje da cadeia após dois anos e três meses de detenção atenuados por seu bom comportamento e pela sua ficha, limpa, até a ocasião.

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Vinte.três. Em frente ao espelho, adorando-se, chapada a não mais poder, M. transmigrou, cavalo de orixá esquizofrênico que é: eu. Severino Ramos de Araújo Santos, 1585225, SSP-PB, vulgo Biu, com u, como convém a Severinos, seres ariscos, estigmatizados por uma alcunha rude dessas, nome de quem já nasce velho. Mas o que não mata engorda, e estagna, imobiliza, adoece, e, por fim, pasmem! Mata. Afinal a vida é pra ser morrida, mesmo. E se morre do que se vive, e a vida severina pode não ser das melhores, mas é digna, pode apostar. M. sabe disso, agora, que sentiu minhas esporas. A dor é professor. E eu sou repetente. Eu sei. Eu sei que quem me olha quando olho o espelho não sou eu: M. Marta Mercedez M. Magnólia, a velha médium.

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Vinte.quatro. Na caverna havia um buda. Ao seu redor reuniam-se neanderthais iluminados pelo fogo eterno. Em silêncio, embalados pelas curvas do vento e pelas mesmas estrelas que brilham em nossas noites, esmerilavam o forame magno do bebê de Taung, a mandala anatômica por onde Darwin contemplou a evolução. O vento sopra. As estrelas brilham. O fogo queima. E o buda ainda está lá. Sempre estará. Erga-se, homem.

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Vinte.cinco. Tão logo a porta de ferro de sua cela bateu às suas costas, várias outras portas abriram-se à sua frente. Metafóricas todas elas, claro. Por uma delas Erre avistou de soslaio alguns acontecimentos passados, os capítulos oito e doze, para ser mais exato, e pôde assim vislumbrar sua situação sob uma nova luz, uma de 120 watts que vivia piscando, mas que foi suficiente para clarear suas idéias. O capítulo doze, especificamente, foi bastante esclarecedor. Nele Erre se ligou: desencapou-lhe os fios. Arriou a samba-canção com estampa de vaquinhas, presente de sua tia, e aplicou uns numinosos eletrochoques neurolingüísticos em seus pobres testículos indefesos, bzzt, bzzt, bzzzzt, até enxergar finalmente a luz, outra, a fluorescente de 220 watts do ambulatório da prisão. Foi lá onde conheceu Dr. Fritz, que reconheceu em R. o louco que de fato era, e os motivos de sua loucura, descritos anteriormente no capítulo dezesseis. Erre foi enfim diagnosticado como um esquizofrênico, um cínico e um chato. Descobriu-se também que não pagava as prestações das anuidades do conselho de sua profissão há anos e que apenas justifica o voto, nunca comparecendo às eleições seja lá do que for, e isso, mais sua recém eletro-adquirida obsessão pela nudez, foi sua sorte, pois Dr. Fritz é sobrinho neto de um ex carbonário xiita, Luz de Almeida, e sócio fundador do fã clube Fiat Lux, de Luz del Fuego, além de um naturista viciado em dados, também. Fritz e Erre, entre uma aposta e outra, logo descobriram muito em comum. 95


Uma tarde, no ambulatório, Fritz, a quem Erre nunca estranhou as orelhas pontudas nem a cauda amarela, quis saber se ele não gostaria de ser dado por louco de uma vez e com isso tentar uma transferência ou um regime semi-aberto ou uma atenuação da pena ou as três coisas. Erre disse que não, não, não e que sim, e foi o que fizeram. Deu certo. Finalmente livre, e devidamente iluminado por altos ideais iluministas mil, R. começou a dar seus pulos, e em tempo recorde engrenou uma seqüência alucinante de tapinhas nas costas, indiretas, diretas, esquivas, e qualquer artifício que o impedisse de, chegado o seu outono, dar-se subitamente conta de que andara a cultivar um buraco no estômago ou uma bola no pulmão, que de nada valem essas coisas se não se pode tapar uma com a outra. Já pensou, calar os berros da úlcera com a chupeta do câncer? Erre já. O que mais teve na cadeia foi tempo pra pensar. Dito isso, entendido isso, Erre adotou o método Nietzsche para a cura da dispepsia: engolir de vez o sapo. E começou a enviar, muitas vezes verbalmente, outras literalmente, certas pessoas à merda, onde estão seus lugares. Também desistiu de tentar convencer-se que não ouvia o que ouvia, e longe de tentar iludir-se passou mesmo a ouvir atentamente as vozes em sua cabeça – três, com a minha, mais as duas que ouço, porque também as ouço, e não quero ir para o inferno sozinho –, não duvidando nunca delas, mesmo se tentassem convencê-lo das coisas 96


mais absurdas, como tentar chupar o próprio pau ou votar em quem quer que fosse. Mesmo se, por exemplo, em uma bela tarde de outono como esta, a pedido de uma delas, a número dois, digamos, minha preferida, ele acordasse mais cedo, retirasse a remela dos olhos, levantasse, ligasse para todos os seus amigos e um a um mandasse todos tomarem no cu, se masturbasse pensando na Minnie Mouse, caminhasse até a cozinha, onde, depois de remexer as gavetas e escolher uma faca, a maior, e amolá-la assoviando o hino nacional, a enfiasse lenta, oblíqua e paulatinamente no próprio umbigo estufado, cortando, da esquerda para a direita e isso por capricho da voz número um, suas próprias entranhas; e até mesmo se, tendo ele já atentado contra seu patrimônio de maneira tão brutal, a dessa vez ainda assim insatisfeita voz número três o ordenasse a estancar o sangue com a toalha de mesa xadrez, presente de sua tia, para então, após ligar a tevê e informar-se da grande sessão de descarrego que a Igreja de Jesus Cristo da Manutenção da Chama da Misericórdia Divina promoveria nessa sexta, nu, segurando contra o bucho uma toalha encharcada de seu sangue O negativo, cochilasse no sofá aos gritos de “Aleluia”, “Hosana”, e “Oh, Glória” que disparavam da tela. Oh, não, ele não hesitaria.

Mas não foi o que aconteceu. 97


Ele explodiu os miolos.


EpitĂĄlogo.

Aqui jaz Digitus Erre Linhares. Cap. 1, pag. 13 – Cap. 25, pag. 98 Sua vida foi um livro aberto.


Este livro foi impresso em Georgia corpo 10 sobre papel pĂłlen bold 90g/m2 em fevereiro de 2014, com total desprezo pelo acordo ortogrĂĄfico da lĂ­ngua portuguesa, pela moral e pelos bons costumes.


Biu é paraibano, farmacêutico e dócil quando bem alimentado. Publicou os livros Blue Note (2007) e Aparecida Blues (2011). Vive em Brasília.

ERRE HUMANUM EST


Seria a arte uma forma de invocar deus? Funcionando meio que como uma sacromáquina ritualística? E, em caso de uma resposta afirmativa, seu contrário é válido? Além de baixar deus a sacromáquina pode, invertidos seus transistores, funcionar como o elevador da besta, o pula-pula do capeta, um upa-upa cavalinho do cão? Quais as implicações políticas disso?

ISBN 978-85-912517-4-2

COLEÇÃO SEM FIGURA

Erre Balada  

de Biu Ramos, em coedição Beleléu / Pitomba, 2014.

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