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chupa manga zine

número 5 ● junho 2017

TIRAGENS LIMITADAS EM VINIL! MÚSICA PARA CRIANÇAS

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COMO DISCUTIR CIVILIZADAMENTE 22 NA INTERNET

E MAIS: STRAVINSKY LEONARD BERNSTEIN SONGBOOK NOITES DE PARIS


chupa manga zine

número 5 ● junho 2017

EXPEDIENTE editor-chefe Stêvz colaboram nesta edição Roberta AR Piogo Doelzig

cbna

Stêvz é o nosso fantástico editor, e apesar de preferir não empregar superlativos, referir-se a si mesmo na primeira pessoa do plural ou na terceira do singular, é exatamente isso que está fazendo agora. Assina todos os textos deste zine, exceto onde indicado.

fale conosco chupamangarecords@gmail.com chupamanga.tumblr.com

Impresso, dobrado e grampeado em casa, no inverno chuvoso de 2017

Chupa Manga Records Porto Alegre • Brasil

na capa: a imagem aleatória de um homem desconhecido tocando acordeon


e

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to

ri

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Chegou mais uma edição quentinha do informativo offline da Chupa Manga! Enquanto nos preparamos para mais um rigoroso inverno, aproveitamos para continuar a excêntrica saga editorial que nos trouxe até aqui, divulgando os últimos lançamentos do selo e apresentando tópicos de interesse para o ouvinte e apreciador melômano moderno. Pois partamos às novidades: agora temos disponíveis mais três títulos em vinil, com tiragem limitadíssima e riscados um a um. O glorioso formato analógico de sete polegadas volta ao nosso estoque logo após termos anunciado resignadamente a nossa desistência de investir nele novamente, mas tudo bem. Se tudo der certo, ainda teremos outros num futuro próximo. Quanto ao resto do zine, como sempre, preferimos investir antes em conteúdo relevante do que em experimentalismos gráficos herméticos, e para isso trazemos uma matéria sobre o maestro e educador americano Leonard Bernstein, uma seleção de trechos de palestras do compositor russo Igor Stravinsky sobre a composição e o fazer artístico, um relato da colaboradora Roberta AR sobre a inicialização musical infantil, do ponto de vista da maternidade, e uma conversa eletrônica interceptada em 2015 em que podemos apreciar uma discussão civilizada sobre gostos, com troca intensa de referências e material para pesquisa. Como se não bastasse, uma transcrição da faixa "Hortaliças", da Chapa Mamba, e uma resenha afetiva de um disco austríaco com música francesa comprado em um bazar de igreja no Rio de Janeiro completam a edição. Esperamos que divirtam-se!


últimos lançamentos O Brasil está pegando fogo, é verdade, mas nem isso impedirá que continuemos gastando o nosso precioso tempo compondo, gravando, mixando e disponibilizando o nosso suado material musical pelo mundo, pra quem quiser ouvir. Se já havíamos nos conformado

com a mera plataforma de streamings e downloads, a novidade é que agora conseguimos, finalmente, riscar alguns sons no plástico duro da história, para intrigar as futuras gerações de arqueólogos. Se as cópias já não tiverem acabado, temos alguns títulos em vinil.

CHUPA.016 Hakaima Sadamitsu Discard Pile

CHUPA.017 Stano Sninský Landscapes

CHUPA.018 Temer\/\/ave Segundo Ato

Um disco eletrônico minimalista com experimentos do amazonense Henrique Amud, radicado no Rio de Janeiro. Oito faixas em 23 minutos para não fazer ninguém dançar.

Segundo álbum do nosso eslovaco favorito com curadoria da Chupa Manga Recs., agora focado nos instrumentais viajandões e com muitos momentos acústicos. Um lindo disco instrospectivo.

Em mais um esforço patriótico desumano, escutamos alguns dos discursos mais recentes e enfadonhos do presidente decorativo para criar a continuação desse projeto paralelo de terror. Para masoquistas.


SESSÃO MARMELADA

VINIL!

CHUPA.019 Bagdá Mirim Demos

CHUPA.020 Stvz Dentadura

Reunimos as poucas demos gravadas por essa banda punk de apartamento em um disco curto e direto ao ponto. 6 faixas em 5 minutos numa onda meio Coneheads do terceiro mundo, vai que cola?

Nosso último lançamento até o fechamento desta edição, esse compacto maroto com 4 músicas inéditas do Stvz ainda conta com a participação de Stano Sninský na bateria.

Riscado em vinil de 7 polegadas com tiragem limitadíssima! Aproveitando a mesma leva, passamos pra formato físico as demos da Bagdá Mirim e o Le Lab de Lux Sessions, do Chapa Mamba, que foi o nosso primeiro lançamento oficial. COMPRE ENQUANTO É TEMPO: chupamanga.iluria.com


ENTREGANDO O OURO

professor bernstein

Além da sua própria música e do trabalho como regente de orquestras pelo mundo inteiro, o americano Leonard Bernstein (aquele mesmo de West Side Story) sempre foi, acima de tudo, um educador, tendo se dedicado a ensinar em palestras e na televisão desde a música clássica para as crianças até a música pop para os adultos. Muitas dessas lições estão disponíveis na íntegra no YouTube, como os seus "Concertos para a Juventude" ou a célebre série de palestras ministradas em Harvard em 1973 entituladas "The Unanswered Question"[1] (em referência à obra homônima de Charles Ives). Nas quase 12 horas de material desta última, o didático Bernstein faz um paralelo entre música e linguística, em especial nos aspectos em comum com a poesia [2], sempre exemplificando tudo ao piano, ou por meio de obras clássicas, na regência da Boston Symphony Orchestra. Dividas em seis partes (Fonologia Musical, Sintaxe Musical, Semântica Musical, Os Deleites e Perigos da Ambiguidade, A Crise do Século XX, e A Poesia da Terra), trata-se sem dúvida de um tesouro para qualquer interessado em música. Após todas as aulas, caso Bernstein ainda não responda o PORQUE, certamente explica COMO.


Em outra empreitada [3], o professor demonstra, em rede nacional, as virtudes e ambiguidades da música jovem de então. Tenta responder, em pouco menos de uma hora o porque dessa música enfurecer tanto os adultos de uma certa idade apesar dele mesmo gostar tanto dela. Apresentando canções dos Beatles, Bob Dylan, Rolling Stones, Byrds, Herman's Hermitts e muitos outros, ele explora brevemente os méritos musicais de cada um: as expressões vocais, modulações, camadas sônicas, instrumentações não-usuais e letras. Após ponderar que a popularização do registro fonográfico, do disco, possibilitou essa revolução cultural de uma juventude que faz ouvir a sua voz com uma música que não é apenas decorativa — como a de seus pais, com Tin Pan Alley e salões de coquetéis —, o programa vai a campo entrevistar alguns dos jovens artistas de Los Angeles e ver o que eles têm a dizer. Sua principal mensagem: o amor universal, a liberdade e o anti -establishment, tudo isso em meio ao medo da bomba atômica e à paranóia da ameaça nuclear constante. Este provavelmente foi um dos primeiros programas televisivos a apre-

sentar para os EUA a música pop como uma forma de arte legítima, com um apresentador tarimbado e simpático como Bernstein emprestando sua legitimidade intelectual ao processo e, novamente, educando o público. Além de uma rara performance de "Surf's Up" com um jovem Brian Wilson ao piano, temos até a participação de um Frank Zappa completamente cínico — mas lúcido, diga-se — quanto à revolução possível em meio às drogas e ao paz-e-amor daquela geração. Um outro vídeo [4], de 1988, em que Bernstein ensaia a Sagração da Primavera de Stravinsky com a Schleswig-Holstein Orchestra — uma orquestra jovem alemã — nos chamou especialmente a atenção por oferecer alguns excelentes insights sobre essa obra fundamental, mesmo não se tratando de um programa educativo em si, mas da sua própria prática como regente. Aqui podemos ver o processo do velho maestro em preparar os jovens músicos não apenas técnica, mas psicologicamente, para a execução. É uma peça famosa por sua dificuldade, a começar pela abertura, o solo de fagote em um registro altíssimo e desconfortável.


"O solista desacompanhado, completamente sozinho, como um toureiro entrando na arena, só, na mão dos deuses." Na sua concepção, a Sagração da Primavera é "toda sobre sexo e reprodução, e os cheiros lá de fora, tudo significa crescimento." Após um aquecimento tímido com escalas simples e algumas dinâmicas para entrosar os instrumentistas, Bernstein passa logo ao que interessa, não sem parar o tempo todo para explicar algumas passagens de maneira pouco ortodoxa — e tanto mais interessante —, como "essa parte deve ser pesada como os dinossauros", "estão comportados demais, é preciso ser bestial", "o urro primal das tubas tem que me fazer sentir doente", e discorrer sobre o vigor da adolescência, o sentimento da primavera, as memórias pré-históricas da Rússia e do mundo animal e as influências do jazz e dos ritmos africanos. Ainda sobra espaço para algumas anedotas, como no súbito silêncio ao fim da primeira parte, em que ele sempre se recorda de uma senhora na platéia terminando a frase "... eu sempre uso banha" quando apresentou a peça pela primeira vez; ou compara-

ções inesperadas, como "isso não é um lick de Duke Ellington?" (para uma frase da "Invocação dos Ancestrais"), a lembrança dos animais no filme Fantasia (na passagem de "As Rodas Misteriosas das Jovens Meninas" para o "Regozijo dos Escolhidos"), ou a combinação de charme e horror que o remete a Veludo Azul de David Lynch (além de todas as trilhas de Danny Elfman, para ficar no campo do cinema), na Coda da "Dança do Sacrifício" (trecho, por sinal, roubado da Sonata nº5 para Piano de Skrjabin, como ele entrega). "Há orquestras que respondem muito bem a ensinamentos interdisciplinares, e há outras que não", afirma Bernstein. Nós certamente não nos importamos.

[1] youtu.be/MB7ZOdp__gQ?list= PLFjonLo8gYHIXC35K4Ujrbu6XHchNDCv9 [2] Algumas das questões levantadas por ele também podem ser encontradas no pensamento de outros autores, como no excelente O Som e O Sentido: Uma Outra História das Músicas, de José Miguel Wisnik (Cia. das Letras, 1989). [3] Inside Pop: The Rock Revolution (CBS, 1967) youtube.com/watch?v=afU76JJcquI [4] youtube.com/watch?v=5Kyso5VmZ6g


CHUPA MANGA PLAY ALONG

A partir desta edição passaremos a disponibilizar, exclusivamente, além das cifras para violão, a partitura de várias das memoráveis canções do nosso vasto repertório de grandes e inesquecíveis sucessos, para que o público possa também desfrutar da sua execução particular, no conforto do próprio lar, seja ao redor do piano ou do instrumento de sua preferência. Não precisa agradecer.


hortaliรงas


CHUPA MANGA PLAY ALONG


* Notação aproximada, a partir desse ponto vira improviso. Essa música começou pelo baixo, com uma ideia do Bruno, depois veio a harmonia, e por último a melodia. A quarta linha que aparece ocasionalmente é uma segunda guitarra solo fazendo contraponto.

© E.Vieira, B.Lima

Chapa Mamba - O Campo Sutil (2015) CHUPA.004


XEROCÃO

a composição da música A maioria dos amantes de música acredita que o que põe em movimento a imaginação criadora de um compositor é um certo distúrbio emotivo geralmente designado pelo nome de inspiração. (...) a inspiração não é de forma alguma condição prévia do ato criativo, e sim uma manifestação cronologicamente secundária. (...) Não está claro que tal emoção é apenas uma reação da parte do criador às voltas com essa entidade desconhecida que ainda é apenas o objeto de sua função criativa, e que deverá tornar-se uma obra de arte? Passo a passo, elo a elo, ele terá a oportunidade de descobrir a obra. (...) Toda criação pressupõe, em sua origem, uma espécie de apetite provocado pela antevisão da descoberta. Esse gosto antecipado do ato criativo acompanha a captação intuitiva de uma entidade desconhecida já possuída mas ainda não inteligível, uma entidade que só tomará forma

definitiva pela ação de uma técnica constantemente vigilante. Esse apetite despertado em mim pela simples idéia de colocar em ordem elementos musicais que atraíram a minha atenção não é absolutamente uma coisa fortuita como a inspiração, mas algo de tão habitual e periódico, mesmo não sendo tão constante, quanto uma necessidade natural. (...) A idéia de um trabalho a ser feito está, para mim, tão estreitamente ligada à idéia do arranjo dos materiais e do prazer que a confecção concreta da obra proporciona que, se o impossível acontecesse, e a obra de repente me fosse dada numa forma perfeita e completa, eu ficaria embaraçado e perplexo com isso, como ficaria com uma fraude. Temos um dever em relação à música, que é inventá-la. (...) Assim, o que nos interessa aqui não é a imaginação em si mesma, mas antes a imaginação


do livro Poética Musical em 6 Lições de Igor Stravinsky tradução Luiz Paulo Horta (Jorge Zahar, 1996)

criativa: a faculdade que nos ajuda a passar do nível da concepção para o da realização. Ao longo de meus trabalhos, muitas vezes esbarro em algo inesperado. Esse elemento inesperado me atinge. Tomo nota do que ocorreu, e, no devido tempo, transformo isso em alguma coisa de útil. O dom do acaso não deve ser confundido com aquele lado caprichoso da imaginação que em geral chamamos fantasia. A fantasia implica o desejo prévio de nos abandonarmos a um capricho. Mas a ajuda do inesperado a que acabo de fazer alusão é algo de bastante diferente. É uma colaboração intimamente ligada à inércia do processo criativo, e está repleta de possibilidades que não foram solicitadas e que vêm apropriadamente temperar o inevitável excesso da vontade pura. (...) Um modo de composição que não estabelece limites a si mesmo torna-

se pura fantasia. (...) E isso pressupõe que a vontade do compositor esteja voluntariamente paralisada. Pois a imaginação é não apenas a mãe do capricho, como também a serva da vontade criativa. A função do criador é selecionar os elementos que ele recebe daí, pois a atividade humana deve impor limites a si mesma. Quanto mais a arte é controlada, limitada, trabalhada, mais ela é livre. Quanto a mim, sinto uma espécie de terror quando, no momento de começar a trabalhar e de encontrar-me ante as possibilidades infinitas que se me apresentam, tenho a sensação de que tudo é possível. Se tudo é possível para mim, o melhor e o pior, se nada me oferece qualquer resistência, então qualquer esforço é inconcebível, não posso usar coisa alguma como base, e consequentemente todo empreendimento se torna fútil. (...) Superarei esse terror, e


na página ao lado, Stravinsky por Picasso

encontrarei segurança no pensamento de que tenho à minha disposição as sete notas da escala e seus intervalos cromáticos, que tempos fortes e fracos estão a meu alcance, e que em tudo isso eu possuo elementos sólidos e concretos que me oferecem um campo de experiência tão vasto quanto a perturbação e a vertigem infinita que me assustavam. É nesse terreno que aprofundarei minhas raízes, plenamente convencido de que combinações que têm a seu dispor doze sons em cada oitava e todas as possibilidades rítmicas me prometem riquezas que toda a atividade do gênio humano jamais será capaz de exaurir. (...) Não tenho uso para um liberdade teórica. Dêem-me algo de finito, definido — matéria que pode prestar-se à minha operação apenas na medida em que é proporcional às minhas possibilidades. E essa matéria se apresenta a meu exame acompanhada de suas limitações. Devo, de minha parte, impor minhas próprias

regras. (...) No entanto, quem de nós ouviu falar de arte como outra coisa senão o reino da liberdade? Essa espécie de heresia está uniformemente difundida, porque se imagina que a arte está fora dos limites da atividade ordinária. Bem, em arte, como em tudo o mais, só se pode construir sobre uma fundação resistente: aquilo que cede constantemente à pressão acaba por tornar o movimento impossível. Minha liberdade, portanto, consiste em mover-me dentro da estreita moldura que estabeleci para mim mesmo em cada um de meus empreendimentos. (...) Toda arte pressupõe um trabalho de seleção. Normalmente, quando começo a trabalhar, meu objetivo ainda não está definido. Se me perguntassem o que quero nesse estágio do processo criativo, teria dificuldade em responder. Mas sempre daria uma reposta exata se me perguntassem o que eu não queria.


RESENHAS ALEATÓRIAS

noites de paris Quando ainda morávamos na praça da Cruz Vermelha, no centro do Rio, a igreja luterana vizinha costumava organizar um bazar mensal com roupas usadas, livros, eletrodomésticos e outras tralhas. Por lá encontramos todas as fitas cassete do Método Cibernético de impostação vocal, dicção e oratória do professor Simon Wajntraub, uma edição caseira de autor dos anos 1970 sobre a matemática dos cubos mágicos, uma coleção quase completa do Dicionário Enciclopédico Ilustrado Formar e outras excentricidades a preço de banana. Os discos eram uma atração à parte, e tão baratos que podíamos comprar apenas por curiosidade, depois de passar na feira da Carlos Sampaio. Eram vendidos por um ou dois reais, desde temas de novela a hits dos anos 80, passando, claro, pela música clássica e alemã. Com o tempo os preços inflacionaram, mas conseguimos descobrir algumas pérolas antes disso. Uma delas foi um 10 polegadas surrado da Copacabana, com a capa embolorada e um carimbo apagado da Vitale Discos na rua do Ouvidor: Liane com Boheme Bar Trio - Noites de Paris (CLP-3007). É um lindo álbum. Invocando uma verdadeira fantasia enfumaçada da vida noturna parisiense, as canções se emendam umas nas outras passando por clássicos populares franceses, Piaf, Trenet e Debussy até Gershwin e Monk, sempre com a linda voz da cantora acompanhada pelo excelente trio jazzístico de piano, contrabaixo e violão ou o eventual acordeon. Aparentemente a austrogermânica Liane Augustin (1927-1978) fez sucesso durante o pós-guerra no Boheme Bar em Viena, frequentado por espiões e agentes da subsequente Guerra Fria, cantando em várias línguas e recebendo pedidos dos estrangeiros saudosos de suas terras. Na verdade a coisa estava mais próxima de um Rick's Cafe em Casablanca do que de um cabaré em Paris. Algum tempo depois, encontramos outro disco dela na Cidade do México, bem mais caro, mas não compramos na hora e depois ele havia sumido. Uma pena.


Eu sempre me perguntei: pra que fazer essas versões “infantis” de músicas pop? Além de esquisitas (e assustadoras, em alguns casos), por que crianças não podem ouvir os originais? Não estou falando aqui de canções infantis, de ciranda ou de roda, mas de “Ramones para crianças”, “Beatles para crianças” e por aí vai.


“mamaini, essa música não” por roberta ar

Tem uma linha de trem perto da minha casa, junto a um parquinho público e uma pista de caminhada. Estava andando por ali um dia desses e comecei a ouvir uma pianola, um sonzinho fraco que parecia uma caixinha de música, com uma canção conhecida, que depois de algum tempo percebi ser dos Beatles, em versão canção de ninar. Posso dizer o quanto aquilo parecia uma cena de filme de terror? Um dia nublado, no fim da tarde, um parquinho com balanços ao vento e essa música assustadora de fundo. Eu sempre ouvi punk rock com meu filho, desde meses de vida. Teve parente me dando bronca que aquilo ia “perturbar a criança”, mas ele nunca pareceu perturbado. Quando começou a balbuciar sons mais controlados (ficou um bom tempo falando por onomatopeias), soltou um “ocai, oait”, que era o refrão de Sixteen, dos Buzzcock. Achei engraçado, ele todo feliz cantando isso pela casa. Depois foi a vez de “chamar a barca”, o refrão de Preta Pretinha. Ele está aprendendo a falar agora, então tenho colocado mais músicas em português. Os Mulheres Negras, que eu gostava muito quando era criança, o disco Acabou Chorare (que, vejam só, foi feito para crianças), Gal Costa, Rita Lee, tudo faz sucesso, até Itamar Assumpção, que parece ser um dos seus favoritos, surpreendentemente.


Podia emendar sobre o quanto acho meu filho um prodígio musical, de sensibilidade sobrenatural e coisas do tipo, mas eu sei que toda criança é assim e que seus gostos podem ser mais amplos e variados do que podemos imaginar, a limitação é nossa mesmo. Não é preciso simplificar música para crianças, nem nada. É claro que é bom estar atento a conteúdos adequados, histórias de mortes brutais, sexo e coisas do tipo não fazem bem e não devem ser compartilhadas com crianças. Mas que mal faz um ieieiê? Eu costumo falar muito sobre isso, mas é que essa é a coisa que mais se reafirma ao criar um filho: nós não controlamos nada. Quando meu filho tinha uns seis meses, rolou uma oficina de musicalização para bebês com um maestro estrangeiro que fazia experiências com crianças até um ano de idade, uma lindeza na

sensibilização dos pequenos. Estava toda empolgada, achando que ele ia arrasar nos instrumentinhos, mas foi chegar e ouvir o primeiro acorde de violino que um choro sentido começou, até virar um choro alto e cheio de lágrimas. Tentamos sair e voltar umas duas vezes, o maestro já tava ficando putaço, até que percebemos que era a música que estava deixando ele daquele jeito. Era assim com saxofone também, não podia ouvir que começava a chorar sentido, ativava uma chave da tristeza nele. Parecia um adulto na fossa ouvindo um brega romântico, algo o deixava muito abalado. E tinha o agudinho do sertanejo universitário, que o deixava tão puto que começava a gritar com raiva, isso com uns três ou quatro meses. Fizemos alguns testes para confirmar se não era viagem da nossa cabeça, mas a audição trazia outras coisas além de lágrimas.


Foram muitas as crises de choro acalmadas com música, também. Acabou Chorare acabava o chorare quase sempre, parecia mágica, um relaxamento que vinha até o choro parar. Agora, perto dos três anos, ele começou a ouvir cantigas infantis com joguinhos de palavras. Adora o sítio do Seu Lobato com seus iaiaô e os sons dos bichos. Mas fui tentar colocar o disco do Zeca Baleiro, e mais uns outros de cantores com versões de músicas famosas para crianças, e ele mandou tirar na hora, todas as vezes. Odiou. Ele ainda prefere as versões originais. Falei das minhas preferências musicais, mas tem as do pai também, que gosta de metal, coisa que nunca ouvi e nunca gostei. O menino está apaixonado por Amorphis, faz performance imitando. Tem até a versão de “iaiaô” com voz gutural, que tem sido o grande hit do momento.

Sabe o que acontece? Ele é uma pessoa. Todo dia isso se confirma. Veja bem, eu sei que estou falando o óbvio aqui, mas saber disso e praticar isso não é a mesma coisa. Meus desejos e anseios não querem dizer nada para ele, o que eu posso fazer é dividir as coisas que são importantes para mim, vivermos essa experiência de ouvir músicas e dançar juntos. Ele sente como eu, canta e se emociona também, não precisa simplificar nada, o que ele não gosta, ou o que o deixa incomodado, ele pede para tirar. E eu não preciso fantasiá-lo de roqueiro ou de David Bowie para realizar minha fantasia bizarra de dizer para todo mundo “esse é o meu filho mesmo”. Meus gostos não vão ser a prioridade nos gostos dele. A coisa já está tomando forma, bem aqui no comecinho da vida, e às vezes eu tenho que ouvir “shh, mamaini, essa (música) não”.


ESPECIAL apresentando:

como discutir civilizadamente na internet Piogo Doelzig

TW pode ser. Eu so vi bandas tocando mesmo 3 cordas

Soundcloud, você é repugnante. Bandcamp, você é onda certíssima

TW Emoticon wink

6 h · Editado ·

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PD só o filé: https://chondriticsound. bandcamp.com

PD Tsc, hipster schmister. Soundcloud é podre, do player a organização, passando pela interface. Tudo ruim. O Bandcamp é user friendly, sem burocracia e tem 10000000x mais bandas e selos bacanas por lá TW no Soundcloud se tem que pesquisar e gostar de musica electronica PD https://www.facebook.com/ metalbandcamp PD Tem muuuuita coisa eletronica no bandcamp PD Faça uma pesquisa por tags

TW vou ver ouvir Pulse Emiter TW elas lacam fita casette...porque?

TW mas com um poucinho groove?

PD Influência da cultura Industrial/ Noise, Preço de produção baixo e alta durabilidade

PD http://beerontherug.bandcamp. com

PD Mas rola Vinil também, depende do artista

PD escuta o Pulse Emitter

TW Eu lembro duribilidade de fita casatte. alta nao foi

TW nao achei ainda Tom Wray nao concordo. Tem menos hipster no soundcloudb Emoticon wink

TW to brincando

TW https://soundcloud.com/koansound este e groove TW https://soundcloud.com/ okmalumkoolkat PD chovendo no molhado Tom: http://koansound.bandcamp.com/ album/forgotten-myths TW Emoticon smile ok PD eu não curto breakbeats e essas paradas

PD E digital, todos, claro. PD sério? as minhas tão rolando até hoje TW Vinil eu entendo por causa de qualidade de som e pra mexer no pickup TW vc cuida melhor que eu PD o cassete é para ser NOISE mesmo, ruido, sujeira PD quebrar o digital

TW eu sei ta preso nos anos 70s

PD imperfeições

PD ???

TW Meu walkman stragou muitos quando ficou velho

TW rock morreu nos anos 70s PD chondritic sound é o selo mais avant garde de eletronica que existe

PD mercadolivre.com TW Vai gostyra de glitch hop entao


PD não curto glitch hop, ruído digital, sem vida

estridente 90's/00's, falta charme e mistério.

TW mine; http://en.wikipedia.org/ wiki/King_Tubby

PD gosto de minimalismo eletronico

TW vai gostar este cover de joy Division https://www.youtube.com/ watch?v=d1CfJIySqEE

PD Dub é outra história...

PD e barulheira TW tem gustos pra tudo mundo

TW Vivendo no passado...

TW Eu gosto de dancar

TW https://www.youtube.com/ watch?v=puWapHzP44o

TW e raiz muito importnate pra musica electronica inglesa

PD Eu também! so não concordo que groove = dança sempre, acredito que dá para dançar até sem música. Eu pessoalmente curto quando rola uma atmosfera na parada: https://www.youtube.com/ watch?v=sJRvxw8LQ3M PD https://www.youtube.com/ watch?v=v39DQbJBWKQ TW Problema que tenho com este musica (Paula Templke) e que o ritmo e simples de mais e falta espaco. PD é a proposta dela. Repetição e textura PD Esse moleque manda muito: http://meiavida.bandcamp.com/ album/jejum TW proposta que dar dor de cabeca a mim PD bingo!

PD Ví isso, também não é exatamente minha praia

PD Quem inventou o Dub para mim foram os etíopes : https://www.youtube.com/ watch?v=GV6gPW9uTmg...

TW https://www.youtube.com/ watch?v=z-7luawIUSM

PD os jamaicanos influenciados, aprimoraram

TW https://soundcloud.com/ ethiopianrecords/sheger-mix

TW foi o inventador da roda

PD Gosto disto: https:// www.youtube.com/ watch?v=mAY1WF5evzs

PD globalização dá nisso TW sou fao. Crescei em Londres

PD essa mais ainda: https:// www.youtube.com/ watch?v=W11hJhNu214

TW https://soundcloud.com/1432-r/ qen-sew-for-my-father

TW da hora! Valeu TW minha pegada TW https://www.youtube.com/ watch?v=xphLgcPeXks&index=2...

TW boom boom TW jazz electronico https://www. youtube.com/watch?v=Rzl8cLmgMJg

TW https://www.youtube.com/ watch?v=1qvvGISqIEc

PD Conheço e não curto

PD https://www.youtube.com/ watch?v=iKVEEdmye0o

PD não preciso ser salvo Emoticon smile

TW agora os etipes estao fazendo reggae dub e dubstep

TW este eu gosto

PD https://www.youtube.com/ watch?v=_QYjYxUrxXw

TW Nao tem como salvar o senhor

TW ele inventou

TW comecou com o boom boom de novo mas melhorou

TW https://www.youtube.com/ watch?v=9_NqFgYJWn8

PD Bryn Jones Profile: June 17, 1961 - January 14, 1999 ...Ver mais

PD não curto essa produção

PD Meu herói

PD falou em Londres e Dub, só penso nesse cara, gosto demais: https://www.youtube.com/ watch?v=Tm9Az8zm7kA TW andava com primo dele PD Esse som ai em cima é bacana. gostei TW ele e berm opld school mas bom demais TW https://www.youtube.com/ watch?v=BaROjQLZ7_0 TW mais moderno. super espacioza Estêvão Vieira rapaz, vou salvar essa conversa 2 min · Curtir · 2 material coletado no dia 7 de junho de 2015


última hora Infelizmente, a mini-turnê do Chapa Mamba por São Paulo foi CANCELADA. Não há previsão de apresentação da banda no futuro próximo, portanto, mas tem disco novo a caminho assim mesmo. A banda já divulgou o single abaixo.

lr. mb o a.tu ssara : g A a Ç an OU pam naop s chu /ele com


Chupa Manga Zine nº5  

Junho / 2017 http://chupamanga.iluria.com

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