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REVISTA

EDIÇÃO 10 3º TRIMESTRE

2018 ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE DISTRIBUIÇÃO E DRENAGEM DE ÁGUAS

AÇÃO

COMUNIC E EDUC ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE DISTRIBUIÇÃO E DRENAGEM DE ÁGUAS


Edição APDA

Projeto Gráfico OTNovesete Comunicação

Diretor Nelson Geada

Diretora Criativa Sandra Souza

Conselho Editorial Arnaldo Pêgo Paulo Nico Pedro Béraud Pedro Laginha

ONDE ESTAMOS SITE www.apda.pt SOCIAL facebook.com/apda.pt twitter.com/APDA_PT

Coordenação Ana Antão Colaboração Especial Eduardo Paulino

ÓRGÃOS SOCIAIS DA APDA ASSEMBLEIA GERAL Presidente: Francisco Oliveira Secretário: Francisco Marques Secretário: Gertrudes Rodrigues

EDITORIAL

# FICHA TÉCNICA

CONSELHO DIRETIVO Presidente: Rui Godinho Vice-Presidente: Frederico Fernandes Vice-Presidente: J. Henrique Salgado Zenha Vice-Presidente: Maria José Batista Vice-Presidente: Rui Marreiros CONSELHO FISCAL Presidente: Carlos Pinto de Sá Secretário: Jorge Nemésio Secretário: Vitor Lemos

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte pode ser reproduzida, no todo ou em parte, por qualquer meio, sem indicação da respetiva fonte. Revista APDA é uma publicação trimestral. Para mais informações sobre publicidade ou informações gerais, Tel.: (+351) 218 551 359 ou E-mail: geral@apda.pt APDA - Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas Av. de Berlim, 15 - 1800-031 Lisboa - Portugal • Tel.: (+351) 218 551 359 • E-mail: geral@apda.pt


Não há, naturalmente, moedas com uma face só. Dito de outra forma, a comunicação sempre serviu todos os senhores e todas as causas. Hoje, a evolução tecnológica e a própria evolução das ciências da comunicação permite que o seu efeito, nomeadamente quando associado ao marketing, seja quase instantâneo e quase universal. De facto, é iniludível que a economia, a política e até a geopolítica, integrando nesse universo a vida de nós todos e como a vivemos, estão intimamente associados à comunicação e aos meios que tem ao seu dispor. A evolução do homem e das sociedades, definida como o caminho para uma maior felicidade individual e coletiva, obedece – parece – a um certo determinismo lógico. Isto é, há, considerando o mundo na sua globalidade, um progresso natural que não dependeu nunca da existência individual de personagens a que se possam atribuir exclusivamente as grandes mudanças que se foram operando na história e na vida dos povos e das coletividades. A partir dos anos cinquenta do século passado começou a revelar-se que o desenvolvimento das sociedades, principalmente o associado à melhoria das suas condições de vida, poderia não estar em consonância com a capacidade do meio em suportar, por exemplo, o aumento imparável do consumo, em grande parte do consumo supérfluo. Hoje temos plena consciência de que o nosso desenvolvimento, em termos de acesso aos bens materiais, provocou e continua a provocar a insustentabilidade do próprio

planeta. As questões relacionadas com a escassez de recursos hídricos, o efeito de estufa, as alterações climáticas, etc., … são a consequência daquilo a que nos referimos como o determinismo lógico. É hoje indiscutível que o homem como ser individual e coletivo terá de contrariar ou inovar no sentido de inverter as consequências ambientais de um desenvolvimento, naturalmente sem regras. A comunicação, a educação ambiental, tema deste número da nossa revista, reveste-se assim de uma importância inusitada. Pretende-se mudar o homem para que contrarie, por vontade própria, aquilo que seria o desenvolvimento dito “normal” da humanidade.

Nelson Geada Diretor Revista APDA


CONSELHO DIRETIVO

ESPAÇO RUI GODINHO Presidente do Conselho Diretivo da APDA


Comunicar a Importância e o Valor da Água 1. A Água é o bem tangível mais valioso da Terra¹, quando comparada com todos os restantes recursos, matérias primas e “commodities” existentes no Planeta.

Estaremos, no entanto, realmente conscientes da importância e do valor da Água? E quando falamos de “valor” qual é a perceção dominante? O preço que os consumidores pagam pela água que consomem, e que raramente comparam com os preços, muito mais elevados, que pagam pelas outras “utilities” que utilizam no seu quotidiano, é o que prevalece. Por exemplo, o nexo água/saúde/energia/agricultura/território/ambiente/redução da pobreza obriga a lidar com informação direta e cruzada, e por vezes complexa, relativamente a todos estes setores onde a água intervém como “fator essencial”, em diferentes fases das respetivas cadeias de valor, ampliando em muito a sua fundamental importância, aliás bem patente nos 12 “Princípios da Boa Governança da Água da OCDE”², elaborados e aprovados no âmbito do Projeto “OECD Water Governance Initiative”, com a participação da APDA, e adotados em junho de 2015 pelo respetivo Segmento Ministerial no Fórum Mundial da Água de Daegu (Coreia do Sul). Enfrentar os desafios futuros da água e o seu “valor” levanta, portanto, não só a questão de “o que fazer?”, mas também as de “quem faz o quê?”, “o porquê?”, “a que nível de governo?” e “como?”, tendo em conta o ambiente de incerteza em que vivemos, com tendência para se acentuar, à medida que as ameaças dos efeitos das “alterações climáticas” se converteram em realidades já bem sentidas. As respostas das políticas da água, assim, só serão adequadas se forem coerentes e assentarem em legislação moderna que inclua todos os avanços do conhecimento; se as partes interessadas forem devidamente envolvidas; se existirem quadros regulatórios bem desenhados e operacionalizados; se houver suficiente capacitação, integridade, transparência e “accountability”; e se dispuserem de “informação fiável e acessível a todos”, com a garantia em permanência do fluxo de informação e comunicação.

Qual o valor do nosso Planeta? TV Canal História, 2015 Princípios da OCDE para a Boa Governança da Água: OCDE, Divisão da Governança Pública e Desenvolvimento Territorial, 2015 (versão portuguesa)

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# ESPAÇO DO CONSELHO DIRETIVO Para estarem preparadas para o futuro, as instituições precisam de se adaptar à evolução das circunstâncias, e por isso a vontade política e a continuidade das políticas públicas são elementos chave na transição para práticas inclusivas e sustentáveis, englobando-se aqui conceitos tão determinantes como a “segurança hídrica”, o reforço da “resiliência dos sistemas e dos serviços”, a indispensabilidade da constante permanência da “inovação”. 2. Detenhamo-nos, então, no “Princípio 5: Produzir, atualizar e partilhar em tempo útil dados e informação consistentes, comparáveis e politicamente relevantes para as políticas da água e com ela relacionados, e usá-los para orientar, avaliar e melhorar essas políticas, por meio de: a) Definir requisitos para a produção e formas de partilha, sustentáveis e custo-eficazes, de dados e informação de alta qualidade sobre a água e áreas relacionadas, como por exemplo o estado dos recursos hídricos, o financiamento, as necessidades ambientais, as características socioeconómicas e o mapeamento institucional; b) Promover uma coordenação e uma partilha de experiências eficazes, entre organizações e agências produtoras de dados relativos à água que envolvam produtores, utilizadores e os diferentes níveis de governo; c) Promover o envolvimento das partes interessadas na conceção e implementação dos sistemas de informação sobre a água, disponibilizando orientação sobre a forma como essa informação deve ser partilhada para promover transparência, confiança e comparabilidade (por exemplo, bancos de dados, relatórios, mapas, diagramas, observatórios); d) Encorajar a conceção de sistemas de informação harmonizados e consistentes à escala das bacias, incluindo os casos de águas transfronteiriças, por forma a promover a confiança mútua, a reciprocidade e a comparabilidade no âmbito dos acordos celebrados entre os países ribeirinhos; e) Rever os processos de recolha de dados e sua utilização, partilha e disseminação, com vista a identificar sobreposições e sinergias e detetar sobrecargas desnecessárias de dados.”³ Como se verifica, este “Princípio 5” da “Boa Governança da Água” contém em si mesmo uma estratégia de “informação e comunicação”, a ser tida em conta pelas Entidades Gestoras e outras instituições do setor da água, tendo em vista promover, difundir e partilhar boas práticas (“as melhores práticas”) nos domínios que integram o planeamento e a gestão da água em todo o seu ciclo.

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Idem

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COMUNICAR A IMPORTÂNCIA E O VALOR DA ÁGUA

3. Contudo, para além da informação e comunicação que interessa a todos os intervenientes diretos e indiretos nos processos associados à gestão da água, importa também agir perante e com os consumidores e a população em geral, no que toca a fomentar uma consciência sustentada de que estamos a lidar com um “recurso escasso”, o “bem mais valioso”, como a APDA divulga e acentua desde há muito tempo. Esta ação continuada, aliás, concretizou-se recentemente na criação do Grupo de Trabalho de “Comunicação e Educação Ambiental”, já a desenvolver iniciativas concretas, acrescentando assim, nesta forma organizada de intervir, uma área fundamental para o envolvimento da população, dos diferentes “stakeholders” (Stakeholder Engagement⁴) e da sociedade em geral, na promoção de atitudes corretas no uso eficiente da água em todas as suas vertentes. Trata-se de prosseguir objetivos e práticas estruturantes numa sociedade que se pretende adulta, esclarecida e atuante quanto aos pilares fundamentais da vida de hoje e do futuro, através de projetos de sensibilização e educação ambiental, inseridos em estratégias sólidas e continuadas de atuação, baseadas no conhecimento técnico e científico. A sua incidência deverá privilegiar os níveis local e regional, por forma a que se articulem com os diferentes ramos de intervenção integrantes de uma verdadeira e moderna política de ambiente, sendo efetivamente portadores de reais conteúdos de mudança em termos de perceção dos aspetos ambientais – neste caso da importância e do valor da água – e estimulem alterações comportamentais associadas. Tais programas e projetos deverão ganhar espaço crescente nas autarquias, nas estruturas do Estado aos mais diversos níveis, nas escolas, nas coletividades e organizações não governamentais, nos órgãos de comunicação social e também nos programas escolares, e abranger todos os grupos etários da sociedade, vencendo preconceitos e medos, travando a progressão do “falso conhecimento”⁵ que, por vezes, ainda é espalhado em Portugal, nomeadamente quanto à garantia da qualidade da “água da torneira” (99% segura) e dos serviços de água e saneamento em geral. Sendo a “gestão da água”, seguramente, um dos mais relevantes problemas com que nos defrontamos, agora e no futuro, o envolvimento de todos a todos responsabiliza, não havendo ninguém dispensado de assumir o seu papel no “encontrar das melhores soluções”, tanto em termos locais e regionais, como nacionais e globais, como a APDA vem fazendo em toda a sua atividade.

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Stakeholder Engagement for Inclusive Water Governance: OECD Water Governance Initiative, 2014 George Bernard Shaw: “Cuidado com o falso conhecimento: ele é mais perigoso que a ignorância” REVISTA APDA_2018

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ÍNDICE

# DESTAQUE # atualidade

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MERCÊS FERREIRA E FRANCISCO TEIXEIRA

Agência Portuguesa do Ambiente

20 LUÍSA SCHMIDT

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Instituto de Ciências Sociais - Universidade de Lisboa SANDRA SOUZA

28

OT Comunicação PEDRO REBELO

36

República Portuguesa MARCOS BATISTA

44

Águas do Tejo Atlântico Jorge Dias

50

ANPC Teresa Fernandes

58

Águas do Algarve

# QUADRO LEGAL # EVENTOS # CURIOSIDADES

66 LEGISLAÇÃO PORTUGUESA

68

LEGISLAÇÃO COMUNITÁRIA

70 72 76


3 de 10 pessoas não têm acesso a serviços de água potável geridos de forma segura

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destaque MercĂŞs Ferreira Vogal do Conselho Diretivo da AgĂŞncia Portuguesa do Ambiente


MERCÊS FERREIRA Licenciada em Engenharia do Ambiente, Ramo de Engenharia Sanitária, pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa em 1986. MPA-Master In Public Administration, pela Universidade Católica do Porto/ Universidade de Aveiro. Curso de Alta Direção em Administração, ministrado pelo CEFA, Centro de Estudos e Formação Autárquica. Vogal do Conselho Diretivo da Agência Portuguesa do Ambiente desde 5 de maio de 2018. De outubro de 2017 a fevereiro de 2018, integrou o Gabinete de apoio ao Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. De 2009 a outubro de 2017, foi Vereadora de Ambiente no Município de Vila Nova de Gaia. Secretária da Assembleia Geral da Águas de Gaia e Parque Biológico. Foi Presidente da Assembleia Geral da ENERGAIA - Agência de Energia do Sul da Área Metropolitana do Porto. De 2009 a 2017, foi representante dos Presidentes de Câmara em exercício, na Área Metropolitana do Porto, nos Conselhos de Vereadores do Ambiente. De 2002 a 2009, foi Diretora do Departamento Municipal de Salubridade e Ambiente na Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. De 2000 a 2002, foi Chefe da Divisão Municipal do Ambiente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. De 1997 a 2000, foi Diretora Técnica de Exploração da SULDOURO. De 1989 a 1997, foi técnica Superior da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. De 1986 a 1989, desempenhou funções de Técnica Superior da Câmara Municipal de Sintra.


destaque Francisco Teixeira Diretor do Departamento de Comunicação e Cidadania Ambiental da Agência Portuguesa do Ambiente


FRANCISCO TEIXEIRA Diretor do Departamento de Comunicação e Cidadania Ambiental da Agência Portuguesa do Ambiente, desde outubro de 2009. Integra o Grupo de Trabalho de Educação Ambiental para a Sustentabilidade que acompanha a cooperação entre as tutelas da Educação e Ambiente. Foi Chefe da Divisão de Formação Ambiental do Instituto de Promoção Ambiental/ Instituto do Ambiente entre 1996 e 2003. Foi Subdiretor dos Cadernos de Educação Ambiental (1997-2000). Foi docente da Pós-graduação em Ecoturismo, módulo Ética, Sensibilização e Interpretação Ambiental promovida pelo Instituto Superior de Línguas e Administração de Lisboa e Ordem dos Biólogos (2004-1011). Desempenhou funções de chefia na área da sensibilização e comunicação na Autoridade Nacional de Proteção Civil - Ministério da Administração Interna (2003-2009). Desempenhou funções técnicopedagógicas no Instituto Português da Juventude (1989-1996). Cumpriu a componente letiva do Mestrado em Filosofia da Natureza e do Ambiente (Faculdade de Letras da U Lisboa), a licenciatura em Filosofia (Faculdade de Letras da U Lisboa) e o curso do Magistério Primário (EMP da Guarda/I Politécnico da Guarda). Curso de Alta Direcção em Administração Pública (INA); Diploma de Especialização em Comunicação e Marketing Públicos (INA). Cofundador (e ex-dirigente) da Sociedade de Ética Ambiental. Integrou a Direcção Nacional da Liga para a Proteção da Natureza (2000-2003).


# DESTAQUE

ENEA 2020: Continuar a Educar (Hoje) 1 para Sustentar o Futuro ! MERCÊS FERREIRA Vogal do Conselho Diretivo FRANCISCO TEIXEIRA Diretor do Departamento de Comunicação e Cidadania Ambiental AGÊNCIA PORTUGUESA DO AMBIENTE

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“ A ENEA

2020 visa estabelecer um compromisso colaborativo, estratégico e de coesão na construção da literacia ambiental em Portugal ...”


ENEA 2020

P

ortugal, a 8 junho de 2017, em reunião de Conselho de Ministros sobre Ambiente e culminando um processo participativo de quase um ano, adotou uma Estratégia Nacional de Educação Ambiental (ENEA 2020), compromisso fundamental para o futuro comum sustentável. A concretização desta Estratégia privilegia, em contínuo, um trabalho

temático e transversal capaz de garantir os compromissos nacionais e internacionais assumidos por Portugal no domínio da sustentabilidade, dos quais se destaca o Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030. Para tal, apresenta 16 medidas enquadradas pelos objetivos estratégicos, Educação Ambiental + Transversal,

Educação Ambiental + Aberta e Educação Ambiental + Participada. Esta aposta em projetar uma sociedade mais inovadora, inclusiva e empreendedora, estimula um genuíno debate público sobre os valores associados ao desenvolvimento sustentável. Aliás, a ENEA 2020 foi sujeita a um processo ímpar de participação que pretendeu promover a sua efetiva

1 A Conferência Intergovernamental das Nações Unidas sobre Educação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável TBILISSI+35 tinha, em 2012, o lema Educar Hoje para Sustentar o Futuro.

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# DESTAQUE apropriação e consequente responsabilização da sociedade civil. Este procedimento consolidado em dois momentos, o primeiro, de participação pública que recebeu exposições de 49 entidades e particulares e, o segundo, de consulta pública que recebeu 35 exposições.

tão ampla aceitação e rápida difusão como o de Educação Ambiental: surgido nos anos 60 do século passado, o conceito, que junta Educação com Ambiente, ganhou estatuto de compromisso planetário por iniciativa das Nações Unidas, a partir de 1972. A Educação Ambiental assume-se, desde os seus primeiros passos, como aprendizagem multidisciplinar ao longo da vida e processo integrado em todas as formas de educação, incluindo os contextos laboral, económico e de consumo. A Educação Ambiental articula-se com a democracia, os direitos humanos e a equidade e assume-se como processo inclusivo e participativo.

A promoção e a supervisão desta estratégia é assegurada pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), em articulação com a DireçãoGeral da Educação (DGE), de acordo com as diretrizes emanadas pelos membros do Governo responsáveis pelas áreas do Ambiente e da Educação.

Portugal sempre esteve envolvido nos compromissos internacionais em matéria de Educação e Ambiente e mantém uma dinâmica intensificada pelo trabalho de escolas, organizações-não governamentais de ambiente, autarquias e empresas.

A ENEA 2020 visa estabelecer um compromisso colaborativo, estratégico e de coesão na construção da literacia ambiental em Portugal que, através de uma cidadania inclusiva e visionária, conduza a uma mudança de paradigma civilizacional, traduzido em modelos de conduta sustentáveis em todas as dimensões da atividade humana.

DIMENSÕES DA EA

| PARTICIPAÇÃO CONTÍNUA | intervenção crítica, responsável e permanente | consciência | atitudes | conhecer e irradiar dinâmicas | SENSIBILIDADE | INFORMAÇÃO | COMPETÊNCIAS | MOTIVAÇÃO |

• potenciar aprendizagem e ação • usar meios afetivo-cognitivo-psicomotores • considerar, inscrever e conhecer conteúdos

Há poucos conceitos que tenham conseguido 1977 Dimensões da EA, Tbilissi

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ENEA 2020

A nossa Constituição da República consagrou o direito fundamental ao Ambiente e Qualidade de Vida, assim como determinou a necessidade de promoção da Educação Ambiental e o respeito pelos valores do Ambiente. O nosso país consolida agora a responsabilidade de conjugar experiências, agregar prioridades e partilhar recursos em três eixos temáticos: • Descarbonizar a sociedade; • Tornar a economia circular; • Valorizar o território. Acompanhando o dinamismo da evolução de conceitos a nível mundial, a EA constitui-se como um processo determinante para

plena e interveniente, capacitando crianças e jovens, mas também os agentes económicos e decisores, para estes (novos) desafios ambientais em que todos são agentes de Educação Ambiental.

a integração transversal dos objetivos ambientais nos diferentes sectores do desenvolvimento. Consolidaram-se, neste contexto, como princípios orientadores da Estratégia Nacional de Educação Ambiental: • Educar tendo em conta a Experiência Internacional; • Educar tendo em conta a Experiência Nacional; • Educar para a capacitação da sociedade face aos desafios ambientais; • Educar para a Sustentabilidade; • Educar para uma Cidadania Interveniente.

Estão já comprometidos, até 2020, mais de 18 milhões de euros para financiar iniciativas e projetos de educação ambiental afirmando a ENEA 2020, quer como instrumento essencial na promoção da política de Ambiente e de Educação e demais políticas nacionais, quer como uma oportunidade de potenciar o reconhecido trabalho já desenvolvido pelos diferentes atores de educação ambiental.

Esta intervenção estratégica no domínio da Educação Ambiental visa uma cidadania

Promoção de iniciativas de reflexão e debate

8

Promoção da participação Pública Elaboração de Programas Municipais de Educação Ambiental

7 5

Dinamização de programas e atividades de EA

15

Promoção de campanhas de comunicação dirigidas aos cidadãos Formação do Setor Empresarial

1

Formação da Administração Pública Central e Local Valorização Curricular da participação em ações de EA

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2 1

Valorização do voluntariado ambiental

9

Envolvimento dos Cidadãos no seu km2 de ação 13 Incentivos à difusão de Equipamentos de EA e das empresas

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AVISO N.º 3771-A/2018, “PROMOVER O USO EFICIENTE DA ÁGUA” Medidas REVISTA APDA_2018

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# DESTAQUE Total

Associações e Fundações

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Setor Empresarial do Estado e Local Universidades e Institutos Politécnicos Empresas independentemente da sua forma jurídica Organizações Não Governamentais de Ambiente e equiparadas

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6

1 2 3

Administração Direta, Indireta e Autónoma

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AVISO N.º 3771-B/2018, ”REPENSAR RIOS E RIBEIRAS” Tipologia das entidades financiadas

Só o cofinanciamento disponibilizado pelo Fundo Ambiental em 2017 e em 2018 (no total de mais de €3 milhões) assegurará

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intensificada capacitação aos diferentes agentes de educação ambiental através de incentivos ao desenvolvimento de programas, projetos e ações:

Apoiar uma Nova Cultura Ambiental, Repensar Rios e Ribeiras, Promover o uso eficiente da água e Promoção de uma Nova Cultura Cívica Territorial.


ENEA 2020

Municípios, escolas, empresas ou organizações não-governamentais de ambiente ampliaram o seu esforço, prosseguindo uma ampla realização das Medidas preconizadas. Reconhecer o valor de aprender a viver de forma sustentável parece ser estímulo assumido por todos e campo fundamental da educação ambiental; o repto maior é mesmo como maximizar em cada um de nós essa responsabilidade².

Serge Latouche, autor do Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno (2007), aponta um círculo virtuoso de oito “R” visando um decrescimento sustentável: reavaliar, conceptualizar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reduzir, reutilizar e reciclar.

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ATUALIDADE


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# atualidade

EDUCAÇÃO AMBIENTAL - uma agenda inadiável Luísa Schmidt Socióloga e investigadora principal no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

Socióloga, investigadora principal no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, onde coordena o OBSERVA - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade. É membro do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e do European Environment Advisory Council. Integra o Comité Científico do Programa Doutoral interdisciplinar em “Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável” iniciado em 2009. Autora de vários artigos e livros; colaboradora regular do Jornal Expresso. Entre os seus livros mais recentes destaca-se “Ambientes de Mudança: erros, mentiras e conquistas”, Ed. Temas e Debates, Lisboa 2016. Recebeu o Prémio Ciência Viva Media 2016.

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“... são os mais jovens - que correspondem em Portugal aos mais escolarizados -, quem evidencia

níveis de preocupação mais elevados com temas como a biodiversidade e alterações climáticas...”


EDUCAÇÃO AMBIENTAL

A

literacia ambiental já faz parte integrante da cultura geral das gerações mais novas. Mesmo que o desempenho da Educação Ambiental ainda sofra de falta de meios e de descontinuidades, o facto é que o alastrar galopante da importância e escala dos problemas ambientais tem contribuído para consolidar o tema nos currículos. É certo que, por vezes, no

ensino formal resta pouca margem para mais uma tarefa nas escolas. Estas, vivendo à beira de um ataque de nervos para alcançarem resultados mínimos com coisas sempre consideradas tão mais importantes como a matemática ou mesmo as estrofes do hino nacional, demoraram a entender que a Educação Ambiental vem facilitar em vez de complicar. Mas entenderam, e a situação

alterou-se. Fosse pela vocação e protagonismo de muitos professores, fosse pela sensibilidade deste ou daquele conselho directivo, fosse sobretudo pelo esforço continuado das Organizações Não Governamentais de Ambiente (ONGA), a verdade é que as questões ambientais se instalaram nos conteúdos pedagógicos, contribuindo para criar uma geração mais atenta e interessada. REVISTA APDA_2018

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# atualidade Já no início da década de 2000, alguns inquéritos do OBSERVA vieram evidenciar que a população mais jovem revelava enorme preocupação com o ambiente, embora, paradoxalmente, pouco participasse civicamente para intervir nele (Almeida, 2000, 2004; www.observa.ics. ulisboa.pt). À escala europeia, os Eurobarómetros e outros estudos comparativos, confirmavam um maior índice de conhecimento e formação nesta matéria por parte das gerações mais novas. Uma análise evolutiva aos 25 anos de Eurobarómetros, concluía que são os mais jovens - que correspondem em Portugal aos mais escolarizados -, quem evidencia níveis de preocupação mais elevados com temas como

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a biodiversidade e alterações climáticas, bem como maior adesão presente e futura às energias renováveis e a consumos mais ecológicos (Schmidt e Delicado, 2014). O ultimo Inquérito Social Europeu que incluía um conjunto de questões sobre alterações climáticas e energia, também comprova este ‘efeito geracional’: são de novo os inquiridos mais jovens que apresentam maior preocupação com o problema das alterações climáticas e seus impactos e os que mais aderem às energias renováveis – com mais de 90% a considerar que a electricidade consumida no país deve ser produzida a partir de fontes renováveis e limpas como a solar e a eólica (ESS, 2018).

Temos, assim, os jovens mais preocupados com o ambiente, mais conhecedores sobre os problemas e as suas soluções e com mais recursos cognitivos para descodificar problemas complexos como são os ambientais. O que resulta da influência mediática, dado que os meios de comunicação social passaram a projectar os problemas ambientais regularmente, mas também das múltiplas oportunidades curriculares que permitem aos jovens aceder, no quadro da educação formal, a muita informação ambiental por via das ciências da natureza e da geografia, por exemplo. E resulta dos vários programas das ONGA, como o Eco-Escolas, ou o Projecto Rios, ou a Carta


EDUCAÇÃO AMBIENTAL

da Terra, ou o Coastwatch, que têm conseguido uma consolidação assumida pelas próprias escolas onde decorrem. Muitas autarquias e algumas empresas nas áreas das águas, energias e resíduos, puseram também em marcha projectos que envolvem centenas de escolas. O que continua talvez a faltar, é a articulação destas competências com uma formação nos domínios dos processos de participação cívica, das regras do jogo democrático, e dos direitos e deveres de consciência. Mas mesmo aí podemos identificar a emergência de alguns projectos como é o caso do ‘Nós Propomos’, lançado pelo IGOT-ULisboa e que põe jovens estudantes a pensar e intervir no espaço público próximo. A Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (DEDS) proclamada pela UNESCO para 2005-2014, também criou uma oportunidade única e a Comissão Nacional da UNESCO deu o seu contributo envolvendo os diversos stakeholders na produção de um documento que visou implicar as escolas, as autarquias, as empresas,

os meios de comunicação social e as ONGAs (UNESCO 2006). Algumas iniciativas então preconizadas já fizeram o seu caminho, mas faltava um programa coordenado e assumido pelas instâncias oficiais e que a Estratégia Nacional de Educação Ambiental - ENEA 2020 -, aprovada em 2017, pretende colmatar. O programa de trabalhos desenha-se, pois, com nitidez para o futuro próximo. Ao nível do ensino formal escolar, é perfeitamente possível estimular a transversalidade disciplinar do ambiente para as disciplinas de história, de português, de filosofia... Não basta integrar o ambiente nas ciências da natureza e geográficas; é urgente que as outras disciplinas integrem as dimensões ambientais dos vários problemas que se ensinam. Desde a Lei das Sesmarias, à história florestal portuguesa; de Aristóteles até à filosofia crítica contemporânea. Tudo matérias que estão nos programas escolares, mas que raramente focam o ângulo ambiental. Depois, é absolutamente

urgente que as crianças e jovens comecem cedo a compreender o mundo em que vivem hoje e no futuro próximo. Neste sentido, seria muito útil que uma Educação para a Cidadania lhes explicasse as linhas com que se cose a vida organizacional do planeta, e, em particular, a da União Europeia. Neste ponto, a importância dos acordos internacionais e comunitários, bem como as instituições que os regem, para além de todas as directivas e legislação que têm a ver com o ambiente, com o ordenamento do território e com as alterações climáticas – encontrariam um excelente lugar de divulgação e de estímulo à responsabilização cívica global e local. Sem esquecer a estrutura político-administrativa do país, entrando em primeira linha as questões ambientais e de ordenamento do território, dos direitos e dos deveres. Tal implicaria uma abordagem cívico-política ao ambiente – com menos ‘folclore’ e mais ‘responsabilização’ – e talvez fosse uma maneira segura de ensinar os “pupilos” a serem cidadãos em vez de subordinados ou protegidos. REVISTA APDA_2018

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# atualidade Ainda no ensino formal, outra peça vital, é a continuação e multiplicação enérgica de programas estruturantes para o futuro do país com destaque para a importantíssima Ciência Viva e também a Sociedade de Informação. Por outro lado, é importante incutir a presença das questões ambientais no conjunto das iniciativas locais e regionais que habitualmente promovem brios de identidade, no que respeita aos patrimónios culturais e até mesmo naturais. Através deste tipo de iniciativas, mais depressa se mobilizam os jovens para saber mais e intervir melhor. As Áreas Protegidas espalhadas por todo o território têm de ter capacidade para protagonizar a mobilização cívica neste aspecto: urge criar uma paixão pública pela natureza – humanizada, claro – em vez de continuar a fazer deslizar toda uma juventude para uma natureza que começa na esplanada e acaba na areia da praia debaixo do chapéu-de-sol. O mesmo se podia aplicar aos rios, ao mar, ao enorme problema das alterações climáticas, bem como aos Objectivos de

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Desenvolvimento Sustentável (ODS) e suas metas estabelecidas pela ONU para 2030 e que constituem um desígnio que nos desafia a todos nos próximos 12 anos. A nível organizativo, seria importante criar programas estruturais que promovam a efectividade da Educação Ambiental mais articulada à ciência e à cidadania ambiental. As novas técnicas de comunicação e a própria cultura comunicacional dos jovens, só esperam que uma iniciativa deste género vá ao seu encontro. Tanto mais que nos encontramos perante desafios específicos ao nível das práticas de um consumo mais sustentável. É preciso promover novas formas e novas tácticas – exemplos exemplares - para a educação ambiental. Numa sociedade de comunicação há que utilizar técnicas comunicacionais eficientes e também continuar os alicerces já criados por esforços anteriores. Todos - associações ambientalistas, empresas, autarquias, famílias - são necessários nesta enorme tarefa. As ONGAs podem ser mobilizadas para muitas das tarefas de divulgação e

vigilância ambiental; para envolver as associações de pais, as empresas locais, as autarquias. Também a Administração Central deveria fornecer uma informação pró-activa, constante e fiável numa matéria cada vez mais complexa a que os meios de comunicação social generalistas dão cada vez mais importância, embora ainda não os aprofundem de forma desejável e desejada – apesar dos cidadãos em geral e dos jovens em particular manifestarem cada vez mais interesse pelos problemas e temas ambientais. Acresce que a Educação Ambiental deveria abranger públicos cada vez mais diversificados em contexto extra-escolar. A começar desde logo pelas cadeias de decisão aos vários níveis da Administração – desde as juntas de freguesia às autarquias, aos diversos ministérios; desde os agentes da segurança e militares aos agentes da justiça e de saúde pública. Contudo, é novamente às escolas que se torna impossível não regressar em qualquer programa de Educação Ambiental. É urgente dotá-las de meios


EDUCAÇÃO AMBIENTAL

para que elas sejam exemplos de inteligência ambiental e verdadeiros laboratórios de sustentabilidade – desde a racionalização energética à deposição dos lixos; desde a limpeza ao arranjo paisagístico dos recreios e das envolventes, e também à alimentação e aos comportamentos e padrões de consumo. As ementas nas cantinas escolares necessitavam, aliás, de uma total reciclagem, pois são um péssimo exemplo para a educação das crianças, além de um atentado à saúde pública juvenil. Aproveitese o balanço das novas medidas europeias que visam promover uma dieta alimentar mais saudável – como é o caso da já instalada distribuição de uma peça de fruta a cada aluno europeu diariamente (de preferência proveniente da agricultura biológica) e as actuais tendências de aproximar a produção e o consumo alimentares. Tudo isto ajudaria a que os jovens se tornassem uma correia de transmissão ímpar entre a educação ambiental e as gerações que já não vão a tempo de a receber. E assim teríamos tanto uma cultura moderna sobre os valores naturais, como cidadãos mais

preparados para uma maior e mais eficaz intervenção pública. A educação ambiental pode não ser a varinha de condão para o futuro do país, mas passam por ela seguramente muitas das oportunidades que nos sobram para ter futuro.

Referências Almeida, J. F. coord. (2000), Os Portugueses e o Ambiente – I Inquérito Nacional às Representações e Práticas dos Portugueses sobre o Ambiente. Oeiras: Celta. Almeida, J. F. coord. (2004), Os Portugueses e o Ambiente – II Inquérito Nacional às Representações e Práticas dos Portugueses sobre o Ambiente. Oeiras: Celta. Comissão Nacional da UNESCO (2006), Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2005-2014) – Contributos para a sua Dinamização em Portugal. Lisboa: Comissão Nacional da UNESCO – Portugal. OBSERVA – Observatório de Ambiente, Território e Sociedade, ICS-ULisboa, www.observa.ics.ulisboa.pt. Schmidt, L., J. Guerra, e J. G. Nave (2010), Educação Ambiental: balanço e perspectivas para uma agenda mais sustentável. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais. Schmidt, L. e Delicado, A. (2014), Ambiente, Alterações Climáticas, Alimentação e Energia – a opinião dos portugueses em perspectiva comparada, Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais. Nota: Este artigo é escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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# atualidade

O BRANDING NUM MUNDO EM MUDANÇA Sandra Souza Diretora Geral da OT Comunicação

Licenciada em Comunicação Social com especialização em Publicidade, Propaganda e Marketing pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUCC. Com muitos anos de experiência na área de comunicação, exerceu funções em grandes agências como: FCB, BMZ Park e Saatchi&Saatchi. Desde 2008 até ao presente, exerce a função de Diretora Geral na agência OT Comunicação. É uma profissional com experiência nas áreas da publicidade e propaganda, marketing e eventos corporativos e culturais.

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“Os novos tempos requerem estratégias empresariais mais sintonizadas com a sustentabilidade e

menos comprometidas com o consumismo. “


O BRANDING

A origem do Branding Seria bastante precipitado da minha parte tentar afirmar onde começou o uso do termo Branding com o sentido atual, mas a finalidade deste texto é levantar algumas questões, hipóteses que possam gerar reflexões sobre um conhecimento que, a meu ver, ainda está em formação. Parto do princípio que as coisas surgem antes de

serem nomeadas, ou seja, antes de se falar e escrever a expressão Branding, com o uso ligado a aspetos de construção de marca, a forma em si já existia e a palavra já era usada com outros significados. Vamos começar indo buscar a etimologia da palavra. O termo é gerúndio do verbo da língua inglesa to brand (marcar) e possui relação com a prática de marcar os animais (gado, cabras, cavalos e ovelhas) para atestar a origem do

produto. Foram encontradas referências a este hábito em imagens de bois marcados com hieróglifos em lápides que datam de 3000 A.C.. Igualmente no ano de 1346, durante a guerra dos Cem Anos, os cavalos ingleses eram identificados com uma marca imperial, posteriormente conhecida como a marca do rei. Entretanto, somente nos Estados Unidos esta prática foi inspirada por interesses comerciais. As marcas eram REVISTA APDA_2018

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# atualidade registadas no Livro de Marcas do Estado. Procedeu-se ao desenvolvimento de regras, com o objetivo de especificar como e onde os animais deveriam ser marcados e como as marcas seriam descritas verbalmente. (Mollerup, 1998).

O Branding hoje Atualmente, podemos considerar que além de ser uma representação gráfica com uma finalidade comercial, a marca também é um símbolo que pode atribuir uma personalidade e construir relacionamentos com os seus públicos. Por esta razão, hoje em dia é tão importante registrar uma marca, definir o seu posicionamento e gerir o seu desempenho no mercado, pois a marca tem valor (brand equity).

“OS PRODUTOS SÃO CRIADOS NA FÁBRICA. AS MARCAS SÃO CRIADAS NA MENTE”. Walter Landor

As marcas, como as conhecemos hoje, têm o poder de associar-se a propriedades intangíveis, que ajudam a diferenciar a sua empresa e os seus produtos no mercado e na mente dos consumidores. Algumas marcas são tão influenciadoras que reorganizam fluxos financeiros, para além de orientarem hábitos e valores para a sociedade. Para realmente entendermos a influência das marcas no nosso quotidiano, e assim conseguir explorar as suas possibilidades nas nossas tarefas empresariais, é preciso perceber que as marcas de hoje podem transmitir mais do que atributos físicos dos produtos e serviços. As marcas podem evocar emoções e preencher vazios individuais e coletivos, e este é um campo fascinante que deve ser melhor explorado pelos profissionais da área. Os momentos de interação, tanto bons quanto menos bons, são chamados no mundo contemporâneo dos negócios de experiência de marca. No Branding, trabalhamos a marca a partir de um posicionamento, definindo assim qual será a estratégia que compõe o “mix” de uma marca. O reconhecimento é muito importante para os negócios, principalmente ao se levar em consideração a intensa competição que os produtos enfrentam em quase todos os setores do mercado.

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“YOUR BRAND IS WHAT PEOPLE SAY ABOUT YOU WHEN YOU’RE NOT IN THE ROOM” Jeff Bezos, CEO Amazon


O BRANDING

O Branding está intrinsecamente relacionado com as estratégias de marketing, que representam técnicas e métodos destinados à potencialização das vendas, principalmente a partir do uso da comunicação. Por este motivo, o Branding envolve funções de investigação, estratégias, criação de conteúdo, design e, por fim, a gestão estratégica da marca, com o intuito de acompanhar as suas “expressões” e otimizar relações com os respetivos públicos-alvo, pretendendo aumentar não apenas o valor económico, mas, principalmente, o valor simbólico da marca na mente do consumidor.

AFINAL, UMA MARCA É O QUE OS OUTROS FALAM SOBRE ELA E NÃO O QUE ELA DIZ SOBRE SI MESMA.

O futuro incerto do Branding Quando falamos de Branding, o futuro tem sido desenhado em cima das últimas grandes revoluções, como a tecnologia mobile e Big Data, determinantes para redefinir o perfil do consumidor, que espera cada vez menos: pode pesquisar e comprar quando quiser e de onde estiver. Podemos contar também, hoje em dia, com uma capacidade cognitiva mais aperfeiçoada das máquinas (o conceito de Machine learning). Marcas totalmente personalizadas para cada consumidor, criadas a partir de inteligência artificial e capazes de viver dentro de cada um de nós, são apenas algumas das possibilidades desse futuro ainda incerto.

DE ACORDO COM ALGUNS ESPECIALISTAS, EM CINCO ANOS, MUITO DO QUE SABEMOS SOBRE BRANDING PRECISARÁ SER REVISTO.

Para aqueles que desejam realmente sair à frente, é preciso começar a conhecer as tendências dessa área de conhecimento, para tomar as decisões corretas desde já. Vivemos o início de uma era que traz consigo o papel de eliminar qualquer tipo de atrito entre marcas e consumidores.

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# atualidade COMO SE PODERÁ TORNAR A REALIDADE DENTRO DE 5 ANOS 1. Marcas vão viver também dentro de nós Dispositivos cada vez menores e de pequeno impacto passarão a fazer parte de nossas vidas. Mais do que isso: serão instalados em nossa própria pele para acompanhar hábitos e entender nossos comportamentos. Uma forma das marcas nos monitorarem 24 horas por dia, para nos atenderem cada vez melhor, e de forma totalmente personalizada. Na Suécia, isso já é realidade. Uma empresa chamada Epicenter implantou microchips NFC nas mãos de 150 dos seus funcionários, para a abertura automática de portas, liberação do uso de impressoras e para a realização de pagamentos no restaurante interno. 2. Inteligência artificial para construir marcas Será que, um dia, a inteligência artificial será capaz de desenvolver marcas e experiências? Com o avanço da tecnologia 3D, muitos especialistas acreditam que o trabalho de desenvolvimento de identidades visuais poderá ser totalmente automatizado. Isso não significa dizer que designers e criativos perderão o seu espaço. A ideia é que a execução da ideia fique a cargo da máquina. Com isso, os profissionais poderão estar 100% focados no trabalho criativo e na garantia da originalidade de cada projeto.

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O BRANDING

3. Vida após a morte para marcas Outro reflexo da disrupção tecnológica é o nascimento, crescimento, assim como o desaparecimento rápido e estrondoso de tantas marcas. No passado, quando uma empresa falia, era necessário apenas fechar as portas para deixar de existir. Na era digital, no entanto, à medida que a lista de fracassos avança e que as marcas declaram a sua morte, um longo histórico de experiências, comunicações, informações oriundas de consumidores e dados advindos de tantas outras fontes seguirão disponíveis, funcionando como aprendizagem para os que vierem a seguir. 4. Marcas vão-se desenvolver como memes A prática que anda tão na moda atualmente, o Crowdsourcing, que consiste em um trabalho colaborativo e voluntário, também chegará ao Branding. Não se tratará mais de algo restrito a organizações. Pessoas, grupos organizados, movimentos culturais e políticos, por exemplo, serão capazes de transformar suas crenças, bandeiras e objetivos em marcas fortes e relevantes para a sociedade. Com isso, marcas que nasceram a partir de um negócio terão que se reinventar para refletir valores e culturas verdadeiramente únicas e criar conexões reais com consumidores. 5. Experiência no lugar de identidade

Este futuro pode ainda parecer distante por se tratar de tendências que estão diretamente relacionadas à tecnologia e soar como algo restrito para grandes empresas. Mas o objetivo aqui é propor uma reflexão maior. O mundo em que vivemos mudou. E continuará em mudança numa velocidade cada vez mais acelerada. Por isso, é preciso estar preparado. Conhecer seus consumidores, saber do que gostam, suas necessidades e expectativas é o primeiro grande passo. Isso porque cada vez mais lhes são oferecidas mais opções de produtos, mais canais de vendas, mais plataformas sociais. Nesse cenário, sairá na frente a empresa que souber fazer as escolhas de forma pioneira e com segurança.

Identidades mutantes e instituições com ciclos de existência mais curtos. Com isso, uma marca não poderá restringir-se àquilo que a sua logomarca ou slogan traduzem. Caso contrário, perder-se-á no meio de tantas outras e não conseguirá alcançar diferenciação. Será necessário pensar em experiências em série, capazes de fazer com que consumidores usufruam de vivências e sentimentos que os marquem verdadeiramente. Estamos a falar, portanto, de reconhecimento de marca a partir de interações direcionadas, consistentes e repetitivas, que acontecem num nível quase individual, para construir imagem e reputação.

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# atualidade O Branding dos novos tempos O futuro do Branding talvez não seja o que foi mencionado anteriormente. Existem espaços e oportunidades para novos modelos, os quais podem trazer novas nomenclaturas que estejam distantes das nossas realidades. Os novos tempos requerem estratégias empresariais mais sintonizadas com a sustentabilidade e menos comprometidas com o consumismo. Até porque o elogio à vida simples e o incentivo a comprar o suficiente, tem transformado as relações de consumo. Isso não significa acabar com o consumo, mas dar um novo significado de forma a criar modelos económicos mais equilibrados, menos excessivos e mais respeitosos ao consumidor e ao ambiente.

PARECE UM CONTRA SENSO PROPOR QUE O MARKETING NÃO INCENTIVE O CONSUMO, MAS É NAS FRESTAS DO DISCURSO QUE RESIDE O FUTURO.

Lembre-se sempre: menos é mais. Não é tornar mais complexo os seus esforços de Branding, mas de fazer o que é certo para alcançar os seus objetivos. Esses mesmos consumidores que precisamos entender, estão cada vez mais críticos e digitais. E buscam marcas verdadeiras, que proporcionem experiências diferenciadas e que, a partir daí, estejam dispostos a criar conexões reais. ESSA É A HORA DE REVER AS SUAS ESTRATÉGIAS E REPENSAR O SEU PRÓXIMO PLANO DE MARKETING

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O BRANDING

O QUE PENSAM DA CRIATIVIDADE QUE PORTUGAL TRAZ AO BRANDING Entrevistado pela Briefing, Steve Harrison disse estar muito impressionado com a criatividade que Portugal traz ao branding. “Vocês podem dar ao mundo uma lição de como pegar num produto commodity e agregar valor apenas pela forma como se posiciona e marca.” Citou como um dos melhores exemplos os sabonetes Ach Brito que, aparentemente, era um negócio que estava morto e foi reavivado apenas pela forma como apresentou os seus produtos ao mundo – transformando uma commodity básica num item de luxo. Outro dos grandes exemplos citados foi a marca de sardinhas em lata Cego de Maio. “Quem imaginaria que se podia tornar sexy as sardinhas em lata? Mas foi feito. Para mim, isso é a verdadeira criatividade – e é algo que Portugal pode ensinar ao resto do mundo. Steve Harrison, copywriter britânico, diretor de criação e autor considerado pela Campaign Magazine como o maior criador de marketing direto de sua geração. Ganhou mais prémios Cannes Lions do que qualquer outro diretor de criação do mundo

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# atualidade

A Cultura Digital como imperativo no processo comunicacional atual 59% dos links partilhados nas redes sociais online não chegaram a ser lidos.” “... cerca de

Pedro Rebelo Digital Strategist no Governo Português

Ligou-se à Internet em 1992 e nunca mais quis estar offline. Passou por Direito, mas licenciou-se em Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde atualmente é mestrando em Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias. Era a evolução natural para uma carreira profissional há muito ligada à comunicação e às novas tecnologias. Formador e consultor de Social Media e Cultura Digital, tem como campos de trabalho a Estratégia de Social Media, Escrever para a Web, Gestão de conteúdos, Gestão de Comunidades e Reputação Online. Foi Digital and Content Strategist no Millenniumbcp, Innovation Strategist na Agência Digital NEUTRO e Social Media Strategist no SAPO. Atualmente exerce funções como Digital Strategist no Governo português.

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A CULTURA DIGITAL

H

oje em dia é muito difícil fugir ao tema Digital quando se fala de Comunicação. Por vezes chega a parecer que não se pode falar de uma coisa sem falar da outra.

todo e qualquer esforço de Comunicação Digital, independentemente do medium ou plataforma utilizada: Cultura ou mais concretamente, a expressão Cultura Digital.

Infelizmente, numa conversa sobre Comunicação Digital, raras são as vezes que ouvimos uma referência a outra palavra que, na minha opinião, devia preceder

São várias as interpretações que se fazem de Cultura Digital. O conceito não é fácil de definir, até porque é um conceito em constante desenvolvimento mas, com

base numa ideia mais lata de Cultura, como a que nos é dada pela Antropologia, onde a Cultura nos é apresentada como o conjunto de conhecimentos, costumes e capacidades, adquirido pelo Homem enquanto membro da sociedade, vamos, de forma a mais facilmente empreendermos este exercício, entender como Cultura Digital a parte dessa Cultura mais lata que REVISTA APDA_2018

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# atualidade se relaciona diretamente com o advento e recorrente desenvolvimento da tecnologia digital. Numa abordagem mais aprofundada, começaríamos a tratar a Cultura Digital com referências a partir do início do século XIX, com a criação das máquinas de cartões perfurados ou a partir dos anos 30 do século XX, com a máquina de Turing. Uma vez mais, afunilemos o âmbito, e focando a nossa atenção na época da Internet. Assim, a Cultura Digital a que me refiro é, essencialmente, o conjunto de conhecimentos, costumes e capacidades que fomos adquirindo sobre a temática da Internet e da Sociedade Online.

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Metáforas originais Mas voltemos por uns instantes ao mundo analógico. Todas as pessoas que estejam interessadas em guiar um veículo automóvel, têm, obrigatoriamente (pelo menos para cumprir os requisitos legais), de aprender a guiar. E ainda antes de se sentarem ao volante têm de aprender o código da estrada, as regras de condução. Só depois de darem provas de que conhecem o suficiente do tema, são reconhecidos como condutores, aptos a conduzir. Este processo de aprendizagem é um bom exemplo, de entre tantos outros, da forma como a sociedade evoluiu no sentido

de se regular e facilitar a convivência social. No entanto, quando falamos da Internet, da forma como a abordamos e do uso que lhe damos, o processo é radicalmente diferente. Geralmente, não vamos para a escola aprender a usar um browser no computador ou a pesquisar no Google. Aliás, muitos dos novos primeiros acessos à Internet nem são através de um browser, nem são num computador. Conheço várias pessoas que me disseram que passam “o dia na Internet, no Instagram desde o levantar até ao deitar” (dizia-me alguém que já “tinha tentado o Facebook, mas aquilo era muito confuso”). Ora, não sendo falso que estão na Internet, a visão que transmitem


A CULTURA DIGITAL

da mesma é por demais redutora. Por outro lado, conheço também algumas pessoas que me disseram não usar a Internet, garantindo-me que só usam o Facebook e o e-mail. Certamente que entendem o paradoxo da situação. Considerando o nível de responsabilidade que hoje é atribuído a uma presença online, é para mim surpreendente que seja, por grande parte dos utilizadores, descurado todo e qualquer processo de entendimento sobre o que os levou até à Internet, à rede social online que estão a visitar ou ao vírus informático que lhes bloqueou o ecrã com a promessa de que será desbloqueado após o pagamento, via bitcoin, de uma módica quantia. Em julho deste ano, o The Digital, Culture, Media and Sport Committee, da Casa dos Comuns do Parlamento Britânico, publicou um estudo onde se lê¹: “A maioria dos utilizadores não compreendem como

chega até eles o conteúdo que estão a ler, mas aceitam-no sem qualquer questão. Uma parte significativa da literacia digital é a perceção de como os media sociais online funcionam, e de como o conteúdo que cada utilizador lê aparece, como resultado de um algoritmo específico.” Voltando à metáfora da condução, os utilizadores abordam as “autoestradas da informação” mal sabendo conduzir e desconhecendo as regras da condução. E hoje, com um qualquer smartphone ou um computador portátil de saldo, estamos ao volante de um topo de gama e facilmente nos ofuscamos com a velocidade que alcança e com o quão longe nos leva. John Naughton, investigador no Centre for Research in the Arts, Social Sciences and Humanities da Universidade de Cambridge, escreve no seu livro From Gutenberg to Zuckerberg: What You Really Need to Know About the Internet, que no que se refere às tecnologias da comunicação, “as pessoas

tendem a sobrevalorizar o impacto a curto prazo das novas tecnologias e a subvalorizar as suas implicações a longo prazo”. Tal como no entendimento que fazemos habitualmente de Cultura, também no que se refere à Cultura Digital, no sentido em que aqui a abordo, o contexto é relevante. Não esperamos que um neurocirurgião tenha exatamente as mesmas referências culturais que um violinista, mas concordaremos que existirá um conjunto de conhecimentos comuns a ambos, numa esfera a que podemos chamar Cultura Geral. Assim, numa sociedade onde o direito à conectividade começa a ser entendido como um direito básico do ser humano (já em 2010, Hillary Clinton, enquanto Secretária de Estado, defendia esta ideia no seu discurso Remarks On Internet Freedom2), deverá ser legítimo pretender que um conhecimento geral sobre esta conectividade integre essa esfera a que chamamos

Disinformation and ‘fake news’: Interim Report, no Arquivo de Documentação do Parlamento Britânico em https:// publications.parliament.uk/pa/cm201719/cmselect/cmcumeds/363/363.pdf consultado em 18 de setembro de 2018. 2 No Arquivo do Departamento de Estado dos Estados Unidos da América, em https://2009-2017.state.gov/ secretary/20092013clinton/rm/2010/01/135519.htm consultado em 18 de setembro de 2018. 1

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# ATUALIDADE de Cultura Geral. Em 1964, quando Marshal McLuhan publicou Understanding Media, the extensions of man, escreveu na introdução da obra que o Homem se aproximava da época em que “o processo criativo de conhecer seria coletiva e corporativamente estendido a toda a Humanidade”. Será que já lá chegou?

Tem o seu cartão de crédito à mão? Em 2015, num processo de seleção e recrutamento, deparei-me com um candidato a Gestor de Comunidades online, que me disse estar no Facebook “quase desde o início, já há uns 5 ou 6 anos”. Faz parte da Cultura Digital, no contexto deste utilizador, saber que aquela rede social online existe desde 2004. No entanto, já em 2018, milhões de pessoas das mais variadas origens e com os mais diversos graus de conhecimento, se admiraram ao saber que podiam configurar as permissões de acesso às suas informações pessoais, numa

rede que usavam diariamente e onde expunham toda a sua vida. Num processo de comunicação noutros media que não os media sociais online, numa entrevista a um jornal por exemplo, pensariam duas vezes antes de expor determinada informação. Se lhes pedissem a morada, perguntariam talvez para que precisavam dela, se a iriam publicar e com que grau de detalhe. Mas frente ao monitor, toldados por uma falsa sensação de simplicidade e segurança, dizem tudo, sem questionar razões. Para muitos, “a informação já veio tarde”, diziam. Mas a informação estava lá, disponível, mais ou menos acessível, mais ou menos escondida, mas estava lá. Para esses muitos, foi mais fácil carregar no botão onde se lia “seguinte”, ou colocar a cruz na caixa que indicava “aceito”. E ainda que muitas pessoas digam que com elas isso não acontece, as evidências parecem apontar no sentido contrário. Os professores Jonathan Obar, da Universidade York em Toronto, e Anne Oeldorf-Hirsch

da Universidade do Connecticut, realizaram um estudo3 onde propunham aos participantes a adesão a uma nova rede social online, NameDrop. No processo de adesão recebiam uma mensagem que os informava que ao selecionarem o botão “Aderir” estariam obrigados a cumprir os termos de serviço da rede em questão. Todos os participantes no estudo o fizeram. Nenhum reparou no ponto 2.3.1, onde se comprometiam a entregar à NameDrop o primeiro filho que tivessem. Faz parte da Cultura Digital saber que não se clica em nada sem ler. É importante que os utilizadores da Internet conheçam as estórias dos príncipes nigerianos que nos querem dar dinheiro. Porque os príncipes mudam, as nacionalidades também e, não conhecendo a história, corremos maior risco de fazer asneira. Alguns certamente reconhecerão nas nobres missivas, argumentos semelhantes a outros que chegavam também por e-mail, 25 anos atrás,

The Biggest Lie on the Internet: Ignoring the Privacy Policies and Terms of Service Policies of Social Networking Services, https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/1369118X.2018.1486870, consultado em 17 de setembro de 2018.

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A CULTURA DIGITAL

quando jovens de Leste nos escreviam diariamente, dando conhecimento do seu imenso desejo de casar connosco. Bastava para tal que lhes enviássemos dinheiro suficiente para que pudessem deixar o seu país. Este exemplo é uma abordagem simples e relativamente cómica ao que é importante saber no mundo online, mas é ao mesmo tempo uma forma de abordar a necessidade de literacia digital, de saber qual o assunto, qual o momento, qual o sujeito e quais as influências que tudo isso tem na nossa experiência. Isto é Cultura Digital e ajuda a combater um dos mais graves problemas da Comunicação atual: a desinformação.

Todo o mundo conectado “Chegado o ano de 2025, a maioria da população mundial terá passado, numa só geração, da ausência de qualquer acesso a informação não filtrada ao acesso a toda a informação

mundial mediante um dispositivo que caberá na palma de uma mão. Se o ritmo atual de inovação tecnológica se mantiver, a totalidade dos previstos oito mil milhões de pessoas à face da Terra estarão online.” Eric Schmidt e Jared Cohen, in A Nova Era Digital

Neste mundo conectado, a desinformação é crescente e apresenta-se como uma verdadeira ameaça. É importante notar que falo de desinformação, algo que vai muito além das tão badaladas fake news. Dos genuínos enganos de jornalistas ou dos títulos sensacionalistas às maliciosas maquinações tecnológicas que levam à adulteração de algoritmos, passando obviamente pelas “fábricas” de conteúdo falso, manipulado, colocado fora de contexto, apresentando opiniões como factos ou até, fazendo-se passar por terceiros, para intencionalmente causar dano ou proveito ilícito. Agora, a necessidade de conhecimento que nos ajude a destrinçar o verdadeiro

do falso, o certo do errado, o útil do completamente fútil, é assim cada vez maior e a Cultura Digital é peça fundamental desse conhecimento, até para que os nossos esforços de comunicação resultem em informação mais correta, útil e engajadora. Em março deste ano, um grupo de especialistas reunido pela Comissão Europeia publicou um estudo4 referindo que a literacia para os media se tornou uma competência essencial pois “é o ponto de partida para o desenvolvimento do pensamento crítico e para as boas práticas no discurso online, e consequentemente também no mundo offline.” Esta necessidade é transversal a todos, independentemente da sua condição social ou grau académico. Refere ainda o atrás mencionado relatório que “a literacia para os media não se deve limitar aos jovens, mas sim abranger adultos, tais como professores e profissionais dos media que frequentemente não conseguem acompanhar o ritmo da transformação

A multi-dimentional approach to disinformation disponível no Arquivo de Publicações da União Europeia, em https:// publications.europa.eu/en/publication-detail/-/publication/6ef4df8b-4cea-11e8-be1d-01aa75ed71a1/language-en consultado em 18 de setembro de 2018 4

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# ATUALIDADE digital, induzido pela rápida evolução das tecnologias de comunicação”. É particularmente importante esta referência pois muitas vezes temos a ideia de que quem está mais diretamente ligado às temáticas da Comunicação, está inerentemente mais atualizado sobre as mesmas. Nem sempre é assim.

C.S.I. – Comunicação Suficientemente Informada Não se pretende uma sociedade desconfiada por natureza, onde à priori se requer a validação de cada palavra ou imagem que nos é apresentada, mas, tal como em tempos se assumia uma validade distinta entre um jornal de curiosidades e escândalos e um semanário de renome, também hoje deve existir essa capacidade de distinção. Não se espera que haja em cada um de nós um técnico forense,

que vestindo uma bata branca e óculos protetores, num qualquer laboratório científico, investiga e descobre as artimanhas por trás de cada publicação online, mas a observação de alguns detalhes pode fazer toda a diferença. Nicholas Carr, no seu livro The Shallows – How the Internet Is changing the way we think, read and remember, escreve que “nunca houve um medium que, como a Internet, fosse programado para de forma tão ampla e insistente, dispersar a nossa atenção”.

• Onde encontrámos a publicação? Num site? Numa rede social online? E qual a sua origem? Quem a publicou primeiro? Por vezes é tudo quanto precisamos. No passado dia 15, o Presidente da República da Sérvia apresentou um comunicado de desculpas por ter dito que a cada 10 segundos morria um lavador de janelas nos Estados Unidos da América5. Citava uma “notícia” publicada pelo The Onion, o mais famoso site satírico do mundo6.

Estamos perante uma tarefa quase hercúlea, mas, sabendo disso, deve ser nossa responsabilidade focar no essencial e, sem invalidar a possibilidade de desenvolver e implementar outros processos e tecnologias, podemos começar por ações relativamente simples, mas que garantidamente farão toda a diferença na comunicação:

• Lemos a publicação por inteiro antes de a partilhar? A revista Forbes7 refere um estudo realizado pelos cientistas Arthi Ramachandran, da Universidade de Columbia, e Arnaud Legout, do Instituto Nacional Francês, onde se conclui que cerca de 59% dos links partilhados nas redes sociais online não chegaram a ser lidos.

Vucic apologises for false statement on window washers in US em http://rs.n1info.com/a420205/English/NEWS/Vucicapologises-for-false-statement-on-window-washers-in-US.html, consultado em 19 de setembro de 2018. 6 Study: Every 10 Seconds A Skyscraper Window Washer Falls To His Death em https://www.theonion.com/study-every10-seconds-a-skyscraper-window-washer-fall-1819572451/amp?__twitter_impression=true, consultado em 19 de setembro de 2018. 7 59 Percent Of You Will Share This Article Without Even Reading It em https://www.forbes.com/sites/ jaysondemers/2016/08/08/59-percent-of-you-will-share-this-article-without-even-reading-it/#3463ab892a64, consultado em 18 de setembro de 2018. 5

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A CULTURA DIGITAL

A NPR (National Public Radio) partilhou na sua página do Facebook, um artigo do seu site intitulado Why Doesn’t America Read Anymore8. No espaço de poucas horas a publicação tinha já centenas de partilhas e comentários, muitos deles (hoje apagados ou editados) criticando a NPR pela publicação, pela qualidade do texto, pela falta de provas que corroborassem a afirmação do título. Quem clicasse no link da partilha iria parar ao artigo onde se pode ler: Parabéns, genuínos leitores, e um feliz dia das mentiras. Por vezes temos a impressão de que algumas pessoas comentam as histórias da NPR sem realmente as ler. Se está a ler isto, por favor faça Like na publicação e não a comente. Veremos depois o que as pessoas têm a dizer acerca desta “história”.

Einstein disse que, se as abelhas desaparecessem da face da Terra o homem só viveria 4 anos.” Foi o mote para o trabalho, passado pela professora. Uma breve pesquisa no Google foi o suficiente para que a apresentação dela fosse a única na turma a referir que não há qualquer prova de que Einstein tenha alguma vez dito tal frase e que, se o tivesse feito, muito provavelmente estaria errado. Estes são só alguns exemplos, práticos, da importância da Cultura Digital nos nossos

processos comunicacionais. Um melhor conhecimento dos factos, processos e tecnologias, permite uma melhor análise dos mesmos e, consequentemente, um melhor entendimento e a possibilidade de uma mais clara explanação. Tendo em conta a penetração desta realidade online em quase todos os aspetos da nossa sociedade, e em particular, da nossa Comunicação, é imperativo que a Cultura Digital se torne uma prioridade para a mesma.

• Verificámos a fonte? Quem escreveu? Já escreveu mais alguma coisa? A minha filha tem 14 anos e um destes dias ao preparar um trabalho para o início do 9º ano disse-me: “O

8 Disponível no site da NPR, em https://www.npr.org/2014/04/01/297690717/why-doesnt-america-readanymore?t=1537379588083, consultado em 19 de setembro de 2018.

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# atualidade

AINDA ONTEM ERA HOJE!

Marcos Batista Diretor de Desenvolvimento e Comunicação da Águas do Tejo Atlântico Assessor da Administração da Águas de Portugal

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“Apesar do “senso comum” e “sabedoria geral” que todos os profissionais do setor (e não só) detêm, o século XXI

trouxe a consolidação do profissionalismo desta área do saber.”


AINDA ONTEM ERA HOJE!

N

as últimas décadas o setor da Água teve uma evolução quantitativa e qualitativa muito relevante. Tão relevante que houve até quem a apelidasse de “milagre”! Os milagres, para serem consagrados, têm de ter uma comunicação coletiva eficiente, seja ela consciente ou inconsciente, direta ou indireta. Na verdade, a comunicação do setor teve uma evolução ainda

mais acelerada do que o consumo de água da torneira. A consciência ambiental da população aumentou, a exigência dos consumidores desenvolveu-se exponencialmente, o setor modernizou-se e multiplicou-se e, ainda para tornar tudo mais complexo, as formas e meios de comunicação têm evoluções de paradigma “diárias” que levam a que as certezas

de ontem o deixem de ser hoje, e vice-versa. Por vezes penso que o desafio para os profissionais responsáveis pela comunicação do setor é como a água reciclada… ainda ontem era hoje.

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# ATUALIDADE É com satisfação que posso afirmar que participei e acompanhei as últimas décadas do setor da água na 1ª fila do 1º balcão da “Comunicação e Imagem”. Antes “departamento” ou “área”, vai hoje tomando proporções de “direção”, uma vez que foi ganhando o seu espaço por direito, criando a sua necessidade e contribuindo inequivocamente para a eficácia da gestão e valorização da atividade das organizações. Paralelamente, é uma área que se foi adaptando às aceleradas dinâmicas dos tempos e das tecnologias de informação, assim como às exigências dos consumidores e poluidores. Deixou de ser um assessório (note-se que esta palavra é relativa a “assessoria”, não sendo por isso um “acessório”) e tornou-se uma diretiva. Se nos anos 90 me dissessem que chegaríamos às dinâmicas de comunicação de hoje, diria que muitas delas eram ficção! E eu que gosto de futurologia e de estar na “frente” do tempo sinto-me muitas vezes surpreendido pela criatividade e profissionalismo no setor. E ainda bem! Esse é um fator que, na minha opinião,

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contribui para o futuro sustentável da Água e do Ambiente. No final do século passado era um feito digno de registo e de plena visão de gestão apresentar e aprovar um Plano Global de Comunicação. Um Plano desenhado estrategicamente, repleto de certezas e das teorias vigentes de mercado. Bem sustentados em Philip Kotler e Cª, cientes de que o marketing e a comunicação podem ser usados para influenciar mudanças de comportamento em benefício das comunidades, surgem exemplos a seguir, regras a cumprir, caminhos a trilhar e tudo excelentemente documentado em casos práticos, agregados e compilados como, por exemplo, nas distintas primeiras edições do Mercator e do Publicitor. Atravessávamos nessa época, neste setor, um Paradigma Comunicacional que se poderia considerar Institucional, caracterizado por grandes investimentos, por um boom de infraestruturas da Água e pela tendência para a universalidade territorial do abastecimento de

água e tratamento de águas residuais, onde a comunicação vivia de processos (mais) previsíveis, de comportamentos passíveis de enquadrar ou padronizar e de momentos programáveis ou geríveis. Os influenciadores sociais moviam-se pelos meios tradicionais, eram profissionais credíveis, com opiniões estruturadas e sustentadas - uns Gurus, à semelhança das boas bandas e da boa música dos U2 ou dos Rolling Stones, com vários êxitos, álbuns reconhecidos e muitos seguidores. Ainda existem. Estes princípios sólidos entraram pelo século XXI e garantiram que a comunicação e a gestão da imagem das empresas prestadoras deste serviço de utilidade pública representavam a sua qualidade operacional e que, paralelamente, também a promoviam através da informação em que envolvia a população, contribuindo para a alteração de hábitos de consumo. Apesar do “senso comum” e “sabedoria geral” que todos os profissionais do setor (e não só) detêm, o século XXI


AINDA ONTEM ERA HOJE!

trouxe a consolidação do profissionalismo desta área do saber. Neste novo século a consolidação estrutural poderia ser a definição paradigmática no que respeita à comunicação e imagem do setor. Esta realidade levou a que municípios, empresas públicas, empresas privadas e as instituições e organismos da água e do ambiente se organizassem internamente no sentido de estruturar a informação e a divulgação dos seus investimentos, infraestruturas e operações. Ao mesmo tempo, o público em geral, mais educado e informado, exigia resultados, fiscalizava situações e questionava permanentemente o interesse coletivo. A primeira década deste nosso século despertou a Educação Ambiental, as excelentes e decisivas parcerias com Associações Ambientais e ONGA’s e levou a que a criatividade quebrasse barreiras psicológicas e dogmáticas, que vingaram anteriormente no setor. Um bom exemplo é a promoção da “Água da torneira”! Hoje um assunto óbvio. Mas a verdade é que dou muitas vezes comigo

a procurar uma justificação para que pouco se falasse neste tema até ao final do século XX – note-se que encontro sempre várias explicações apesar de nenhuma delas me satisfazer. A grande maioria dos sistemas tinha (ou começava a ter) uma fiabilidade significativa na maior parte do território,

nomeadamente nos centros urbanos com maior número de habitantes: Então porque não apelar massivamente o seu consumo e não apenas à sua fiabilidade e necessidade de poupança? O óbvio de hoje é o improvável de ontem. E não só na Água, mas em todo o setor do ambiente… A recolha seletiva de RSU REVISTA APDA_2018

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# ATUALIDADE passou por idêntica evolução. O que hoje é comum em todos os lares e recolhas municipais foi um propósito complexo nos anos 80 e 90. Felizmente alguns dos nossos Gurus anunciaram o óbvio da nova geração, quem sabe, ao sabor da Redemption Song de Bob Marley. Esta evolução é um bom sinal do interesse geracional crescente por temas ambientais, das preocupações coletivas com a saúde pública e com os ecossistemas, bem como a emergência da responsabilidade social e empresarial, fruto da cavalgante assimilação das problemáticas ambientais pelos indivíduos. Uma conquista que, acredito, teve um contributo decisivo das áreas de marketing, comunicação e imagem das utilities municipais e supra municipais que integram a APDA e do setor em geral. A partir desta incorporação do tema, iniciou-se um caminho que nos leva de uma “comunicação” com perspetiva geral e soluções globais, para uma realidade comunicacional mais próxima e direta das realidades locais e regionais, mesmo quando enfrenta as vagas

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de preocupações globais e planetárias. A intervenção local e imediata faz-se hoje com uma opinião registada em qualquer espaço. A participação coletiva passou a ter vozes e contributos reais e diretos. Passou a ser um tema das pessoas, gerido por cada um de acordo com a informação disponível e assimilada, cada vez mais dinâmica e diversificada em meios e formas. E onde fica a comunicação do setor? Resposta: Com uma responsabilidade ainda maior. E como se consegue controlar a situação? Resposta: Essa é a pergunta errada! Se tivermos mesmo que responder, a pergunta certa é “Do que é que temos controlo?”. A explosão de meios digitais, a queda e reinvenção dos meios tradicionais, a multiplicação de canais pessoais e diretos para micro comunidades espontâneas traduzem-se em alterações de paradigma “quase diárias”, onde as tendências têm inflexões pouco previsíveis e o sucesso de uma mensagem ou conteúdo pode depender do horário mais adequado ou, simplesmente, de um bom comentário. Sim, os

logaritmos do Google e do Facebook (para não falar das restantes plataformas digitais) variam de forma não anunciada e nem os estudos comparativos ou de impacto podem ser um seguro instrumento de análise comunicacional… são o possível. Do que é que temos realmente controlo? Da produção de água e de águas residuais, da sua distribuição e rejeição, da sua qualidade para reciclagem e reutilização. Conhecemos os resultados analíticos e os impactes internos e externos que a adequada gestão do setor previne, promove e contribui. Detemos a competência e a responsabilidade da comunicação do setor. Queremos comunicar, pois felizmente nesta azáfama de conteúdos há espaço para todos, através de mensagens estruturadas adequadas a cada meio. A distinção faz-se pela qualidade e credibilidade. Para que outros venham “beber” informações e partilhas, para que outros aprendam, apreendam e tornem as mensagens como suas, adaptando-as ou replicando-as. Dando continuidade ao paralelismo


AINDA ONTEM ERA HOJE!

usado, os novos canais digitais de distribuição musical, apesar de acelerar e diversificar processos de consumo, mantêm a coexistência entre as bandas “ocasionais”, sejam elas de covers ou originais, e as grandes bandas. Ruído musical sempre existiu. Da Roof, da roof, da roof is on Fire! Follow the leader, leader… Quem não se lembra? E quem sabe o nome da Banda? Pois é… Uma banda holandesa que em 1998 fez um só sucesso. Música com poucos acordes e com uma mensagem (não consigo escrever poema) vazia, mas divertida, que levou os Soca Boys a número 1 no Mundo inteiro. 20 anos depois, em 2018, estas situações são constantes e vertiginosamente repetidas. Surgem bandas com um único single que são ouvidas repetidamente durante semanas (ou apenas dias?) e desaparecem tão repentinamente como apareceram. Muitas nem gravam, apenas aparecem em vídeo nas redes sociais. O primeiro single da Banda de k-pop BTS, “Fake Love” (conhecem?), entrou para história dos clipes mais assistidos nas primeiras 24

horas, voando direto para o top 10 da Billboard. Sinais dos tempos. Felizmente, as grandes bandas continuam a fazer o seu caminho com novos hit e tours, deixando o seu rasto e mensagem estruturada. Como exemplos, o Nobel da Poesia de 2016 para Bob Dylan ou o recente êxito dos Coldplay com os The Chainsmokers: Something Just Like This. O volume do mundo da comunicação aumentou e aumenta diariamente. Felizmente, há espaço para todas e para todos. Todas as gotas contam. Nunca gostei que a “gota” fosse o símbolo do setor. A gota pode representar um pingo que é exatamente aquilo que não queremos que nos saia da torneira (quando há água ou quando esta faltava). Mas estou rendido. Pingos há muitos e das gotas fazem-se rios. Os rios levam o que ainda ontem era hoje. Lavam ideias e retomam ciclos. Vamos tratando, limpando, lavando e reciclando para, de forma credível, atingir os objetivos globais de m/l prazo através de medidas locais, muitas delas inovadoras e passíveis de gerar novos ciclos.

Seja qual for o paradigma comunicacional vigente e mesmo que no curto prazo nem tudo se consiga padronizar e concretizar como o plano exige e o Excel determina, uma comunicação sustentada nos pilares da credibilidade, transparência e criatividade permite reinventar processos sempre que seja necessário e descobrir formas de a comunicação contribuir decisivamente para os objetivos do setor. A prova? Está nos profissionais do setor, no Grupo de Comunicação recentemente criado pela APDA, nos vários ciclos ultrapassados construtivamente e nos resultados atingidos que nos fazem acreditar numa boa perspetiva futura.

Nota: Parte deste artigo, que é apenas representativo das minhas opiniões e sentimentos pessoais sobre o tema, foi escrito a ouvir Richie Campbell, ‘Cause you see through me like water’. O restante artigo teve o contributo de outras músicas que foram passando, umas boas, outras nem tanto.

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# atualidade

AS CRISES NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS “a informação em situação de emergência tem um valor funcional Jorge Dias Chefe de Divisão de Comunicação e Sensibilização da ANPC

Quadro superior da Administração Pública desde 1989. Atualmente exerce funções na Autoridade Nacional de Proteção Civil como Chefe da Divisão de Comunicação e Sensibilização. Anteriormente exerceu funções como dirigente na Autoridade para as Condições do Trabalho, entre 2007 e 2012, no Instituto da Construção e do Imobiliário (ex-IMOPPI e atual IMPIC), entre 2000 e 2007, e no Serviço de Informações Estratégicas de Defesa e Militares (SIEDM), entre 1997 e 1999. É um profissional experimentado nas áreas do marketing público, da comunicação institucional e das relações públicas.

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equivalente ao ato de salvar vidas.”


AS CRISES NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS

V

ivemos rodeados de inúmeros riscos. Aos riscos de outrora somam-se hoje os resultantes do desenvolvimento e do progresso das sociedades humanas. Frequentemente, os riscos dão origem a crises1.

As crises são episódios excecionais cada vez mais comuns, que desafiam a capacidade de liderança e a gestão da comunicação exigível para fazer face às situações de emergência².

Desde o início deste milénio sucederam-se inúmeras crises planetárias, que têm sujeitado os países e os povos de todo o mundo a enormes provações e desafios. Os atentados terroristas às Torres Gémeas

Por crise entendemos o acontecimento, ou sucessão de acontecimentos, súbito e inesperado suscetível de ameaçar a continuidade imediata (de curto prazo) e/ou a sobrevivência (de médio/longo prazo) de uma organização ou comunidade, pondo em causa a imagem, a reputação e as relações estabelecidas entre os seus stakeholders, por força de colocar em perigo os destinatários da sua atuação e/ou a população em geral. 2 Por emergência entendemos o acontecimento súbito e inesperado que requer o empenhamento urgente de meios apropriados para superar e resolver uma dada situação excecional, de modo a proporcionar o pronto retorno à normalidade de vida de uma comunidade afetada. 1

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# ATUALIDADE do World Trade Center, Nova Iorque, em 2001, a Gripe Asiática, em 2003, o Tsunami do Índico, em 2004, o Furacão Katrina, em 2005, a erupção do Vulcão Islandês Eyjafjallajökull, em 2010, o Sismo de Tohaku (seguido de Tsunami e de acidente na Central Nuclear de Daiichi), em 2011, são tudo exemplos ilustrativos avulsos, entre tantos outros, da miríade de acidentes graves e catástrofes que têm sido responsáveis por crises com impactos globais significativos. A magnitude, o efeito em cascata, o impacto económico e social e a afetação de extensas regiões do globo, sem consideração pelos limites político-administrativos dos Estados, são alguns dos aspetos a que importa atender na contextualização das inúmeras crises passadas, presentes e futuras. A disrupção dos sistemas globais, altamente complexos, interligados e interdependentes, segundo os quais se estrutura e organiza a sociedade contemporânea confere às crises uma dimensão sistémica, não podendo os problemas e desafios que se

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colocam a nível planetário ser ignorados, especialmente quando estão, cada vez mais, em causa comunidades vulneráveis e muito expostas aos mais diversos riscos. Portugal não se manteve à margem desta tendência global no que toca à ocorrência de crises. O colapso da Ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios, em 2001, ilustra como um acidente grave acabou por ter enormes consequências políticas, conduzindo à exoneração do Ministro do Equipamento Social, Jorge Coelho, e fragilizando o Executivo governamental do Primeiro-Ministro, António Guterres, dando assim esteio a uma nova solução governativa. Hoje em dia, o escrutínio constante dos órgãos de comunicação social e a vasta disseminação de informação através das redes sociais coloca enorme pressão sobre os poderes públicos, que têm o dever de zelar pela proteção e garantir a segurança dos seus cidadãos, exigindo aos Governos uma postura responsável, aberta e transparente que se paute por elevados padrões éticos na gestão da coisa pública, logo,

também, na gestão das crises suscitadas por acidentes graves ou catástrofes. Daí ao inquestionável direito à informação que assiste aos cidadãos, atributo das sociedades abertas, livres e democráticas, vai um curtíssimo passo. Existe hoje um amplo consenso social que reconhece aos cidadãos o direito de serem informados em caso de crise sobre o que aconteceu, o que está a suceder e como vão as autoridades públicas responder à situação de emergência e às suas consequências. Numa crise, a existência de informação sobre o evoluir dos acontecimentos é tida como um fator crítico de sucesso. Uma forma de assistência vital que visa assegurar às pessoas afetadas um fluxo contínuo, tempestivo, rigoroso, completo e oficial de informação que se revela tão importante quanto essencial, à semelhança dos bens de primeira necessidade indispensáveis à sobrevivência de qualquer ser humano: água, alimento, agasalho e abrigo, medicamentos, etc.. Por isso, pode afirmar-se perentoriamente que a


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informação em situação de emergência tem um valor funcional equivalente ao ato de salvar vidas.

FACTORES QUE CONCORREM PARA A EFICÁCIA DA COMUNICAÇÃO Comunicamos a todo o instante. Fazemo-lo nas várias dimensões da nossa existência, em função dos diversos papéis que assumimos no dia-a-dia ao longo da nossa vida. A comunicação é uma característica inata ao ser humano, à sua condição gregária, enquanto ser eminentemente social. Esta consideração é especialmente importante e crítica em situação de emergência, quando estamos perante condições extremas que exigem medidas excecionais para se alcançarem resultados concretos e efetivos, nomeadamente ao nível da indução de comportamentos e atitudes, as quais cumpre à função comunicação assegurar. Quanto mais importante, prestigiado e reconhecido

for o emissor maior é a possibilidade de aceitação e impacto da mensagem veiculada a uma audiência. No entanto, há a considerar que uma mesma mensagem difundida por diferentes atores produz naturalmente impactos diferentes nos recetores. A credibilidade é também um fator crítico de sucesso. Refere-se à confiança do recetor na fonte, no conhecimento, competência e perícias que demonstra e o capacitam para gerir a situação de emergência em causa. Significa o reconhecimento de aptidão para prestar a informação correta, completa e adequada, ou seja, o savoir-faire para fazer face ao problema. Lembremos também que em situação de emergência uma mensagem repetida com frequência tem mais condições de produzir os efeitos desejados. Repetir à saciedade a informação desejada, ainda que com cambiantes, é uma estratégia suscetível de garantir que somos escutados e seguidos nos nossos conselhos e recomendações. No entanto, mandam o bom senso e sensibilidade que a repetição

da mensagem não seja levada à exaustão, para que não se crie o efeito de saturação no recetor e este acabe por se desconectar. Banalizar a mensagem não é, pois, uma estratégia a ser seguida. Melhor será, porventura, diversificar suportes e canais e modificar o tom e o conteúdo da mesma, de modo a garantir um impacto mais profundo e efetivo nos respetivos destinatários. Igualmente importante é passar a mensagem de forma simples e clara. Note-se que sob a influência de fatores de risco geradores de stress psicológico, quadro situacional comum em contexto emergencial, a perceção, retenção e assimilação da mensagem entre os adultos encontra-se francamente diminuída, havendo inclusive estudos que apontam para uma redução de até 80% na perda dessas faculdades. Ora, se o emissor não for suficientemente hábil e capaz de simplificar e clarificar a mensagem, o desafio que se lhe coloca torna-se inalcançável. Não é de menosprezar também o efeito de distorção provocado à mensagem REVISTA APDA_2018

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# ATUALIDADE quando o número de fontes de comunicação é elevado ou o tempo de reação é longo. Trata-se de handicaps que para serem ultrapassados exigem sempre uma concentração de esforços e meios e uma reação rápida para se garantir maior eficácia da função comunicação.

é razão justificativa para ocultarmos a verdade. Antes pelo contrário, devemos expôr com frontalidade e franqueza as incertezas com que nos deparamos, de modo a não comprometermos irremediavelmente o capital de credibilidade de que sejamos detentores.

Inadmissível é, seja qual for a circunstância, faltar-se à verdade. A criticidade em causa numa situação de emergência – a salvaguarda da vida e integridade física das pessoas e a proteção dos seus bens e haveres – não admite que se falte à verdade. O aforismo «a mentira tem perna curta» tem especial acuidade neste contexto. Não é possível esconder a realidade de uma crise num mundo hiperligado e em que os órgãos de comunicação social e as redes sociais exercem um escrutínio permanente e apertado sobre tudo o que se passa. Vale a pena recordar a este propósito a citação atribuída a Winston Churchill: «uma mentira dá a volta ao mundo antes mesmo de a verdade ter a oportunidade de se vestir». Atenção, pois, a esta realidade insofismável! A condição de incerteza que possamos defrontar não

Não descurar a construção da mensagem para alcançar os objetivos visados também parece óbvio.

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Uma mensagem cujo assunto não seja familiar ou suscite interesse à audiência em causa tem mais possibilidade de produzir os efeitos desejados se for feita no início da comunicação. Esta modalidade de ação permite capturar de forma mais imediata a atenção dos destinatários. Em contrapartida, se o tema for familiar ou controverso para a audiência, a consideração da mensagem no final da comunicação pode revelar-se bem mais eficaz aos fins desejados. Não obstante, parece ser mais seguro conjugar ambas as modalidades descritas, de molde a obtermos resultados mais amplos e expressivos com a comunicação a fazer.

Por último, importa salientar que a linguagem não verbal desempenha um papel crucial, não despiciendo no processo de comunicação. As expressões faciais, o tom de voz, os gestos e os movimentos do corpo são traços pessoais que concorrem para o sucesso ou insucesso de uma dada comunicação. Em situação de emergência esse efeito é amplificado pelos fatores tensionais presentes. É preciso, pois, balancear de modo harmonioso todos estes atributos, para conseguirmos extrair a melhor resultante de todo o conjunto. Igualmente imprescindível é garantir a absoluta congruência entre a mensagem veiculada e a linguagem não verbal adotada. Só assim se pode garantir que a audiência fica atenta e recetiva à mensagem. A eventual dissonância entre ambas – linguagem verbal e não verbal –, demonstrará inconsistência nestes dois tipos de linguagem, levando o recetor a formular um juízo negativo sobre a credibilidade do emissor e, consequentemente, a rejeitar a informação veiculada.


AS CRISES NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS

COMUNICAÇÃO DE CRISE. UM DESAFIO PARA A AÇÃO Vivemos num mundo em constante mudança, sujeito aos mais variados riscos: naturais (sismos, tsunamis, temporais, inundações, ondas de frio e de calor, etc.) e antrópicos (incêndios florestais, acidentes industriais e com transportes de matérias perigosas, etc.). As crises surgem a todo o instante em consequência da materialização desses riscos.

A comunicação de crise é o processo que envolve a emissão e receção de mensagens destinadas a informar uma organização, os seus stakeholders e o público em geral sobre uma situação de emergência suscetível de causar danos potenciais com repercussões na reputação, imagem pública, continuidade de negócio e, porventura, podendo afetar o modo de vida de uma comunidade ou extensas áreas de um território. Regra geral está associada à necessidade de se informar o

público acerca de um dado evento, dos seus efeitos e das medidas destinadas a superar a excecionalidade com vista a proporcionar o rápido retorno à normalidade da vida comunitária. Representa um dever-obrigação, que usa de persuasão para levar a população a agir de determinada forma. Na fase inicial a comunicação de crise centra-se especialmente nos grupos atingidos ou suscetíveis de serem afetados. Os órgãos de comunicação social desempenham um papel

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# ATUALIDADE crucial na mediação desse processo. Manter o fluxo regular de informação, assegurar a coerência e consistência das mensagens, articular parceiros e coordenar todo o esforço de comunicação são tarefas essenciais na gestão de qualquer crise. Lembremo-nos, pois, que perante uma crise: Devemos tomar a iniciativa.

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Sermos os primeiros. Marcarmos o compasso. Liderarmos o processo. As crises são sensíveis à marcha do tempo. Quem se adianta marca a agenda, ganhando a possibilidade de tornar-se a referência, de ser escutado. É comum afirmar-se que a natureza tem horror ao vazio. Em matéria de comunicação de crise tal é inquestionável. Se não comunicarmos outros o farão na nossa vez, porventura estando menos

habilitados que nós para o efeito. Temos de ser verdadeiros e rigorosos para conferirmos credibilidade à nossa comunicação, condição necessária para o desempenho eficaz dessa função estratégica. Ainda que sem possuirmos informação completa sobre o que se está a passar, nunca devemos deixar de comunicar. Expliquemo-nos. Digamos o


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que está a passar-se, quais os efeitos plausíveis, o que está a ser feito para enfrentarmos o problema. Sejamos honesto. Não escondamos nada sobre o assunto. A informação prestada deve ser verosímil, ter aderência à realidade envolvente e confirmar aquilo que é percecionado pelas pessoas. A factualidade é indesmentível. Não devemos contraditar o que é evidente e salta à vista de todos. Mostremos empatia. Uma crise gera impactos não menosprezáveis. É preciso ir ao encontro dos sentimentos das pessoas. Agindo assim é meio caminho andado para sermos escutados e respeitados pela audiência. As crises fragilizam as pessoas, por isso exigem àqueles com a missão de comunicar o engenho e a arte de mostrarem apoio e conforto a quem dele mais necessita, com tempestividade e compaixão. Vamos dar um sentido às coisas. Apontemos o rumo. Incentivemos a ação. É comum dizer-se que a ociosidade é a mãe de todos os males. Numa crise, a existência de um farol que

alumie o caminho é uma dádiva, um fator de conforto que reduz a ansiedade e ajuda a restabelecer a ordem e a sensação de autocontrolo. Por último, tenhamos em consideração que a informação é vital no processo de superação da crise, auxiliando a mitigar as manifestações psico-somáticas suscetíveis de surgir: cognitivas (falta de concentração; confusão, desorientação; perda de memória, etc.), emocionais (choque, depressão, sensação de abandono, etc.), físicas (náusea, tremores, dores da cabeça, etc.) e comportamentais (irritabilidade, mudança de

humor, abuso de substâncias ilícitas, etc.). Em conclusão, para se ser um bom comunicador em situação de crise, como em tudo na vida, é preciso praticar, praticar e praticar… Não esmoreça! Não deixe de insistir! Ninguém nasce um bom comunicador, mas com esforço e dedicação pode vir a tornar-se com o tempo um exímio comunicador. Boa sorte!

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# atualidade

O Planeta está a pedir Socorro!!!! Alguém está a ouvir? Teresa Fernandes Diretora de Marketing da Águas do Algarve e Coordenadora do Grupo de Trabalho de Comunicação e Educação Ambiental da APDA

Licenciada em Marketing Empresarial e com uma PósGraduação em Marketing pela Faculdade de Economia da Universidade do Algarve. Possui desde 2016 o Grau de Especialista em Marketing, conferido pela Associação Portuguesa de Profissionais de Marketing. Com mais de 20 anos de experiência na área do Marketing e Comunicação, começou a sua atividade profissional no ano de 1995 e até ao ano 2000, enquanto responsável pelo Marketing e Comunicação da empresa Águas do Sotavento Algarvio. Desde o ano 2000 até ao presente, está na empresa Águas do Algarve, sendo a responsável pelo Marketing, Comunicação e Educação Ambiental, tendo recebido ao longo dos anos prémios de mérito, de âmbito nacional, pelo desenvolvimento de vários projetos ligados à sua função. Coordenadora do Grupo de Trabalho de Comunicação e Educação Ambiental da APDA.

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“As mudanças climáticas são a maior ameaça ambiental do século XXI, e todos sem exceção somos responsáveis.”


O PLANETA ESTÁ A PEDIR SOCORRO!

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ão é necessário ser um especialista na matéria para se perceber e sentir naquelas que são as nossas rotinas diárias, que as alterações climáticas que o Planeta está a viver são reais e incontestáveis, e de tal ordem que não existem precedentes desta natureza. De acordo com a NASA, 97% dos cientistas são unânimes a atestar que as mesmas são reflexo da atividade

humana, essencialmente com o aumento dos gases com efeitos de estufa, que estão a gerar graves impactos globais nos sistemas humanos e naturais. As maiores evidências têm exatamente a ver com o aumento do número de eventos climáticos e cada vez mais extremos, como a subida das temperaturas do ar, secas extremas e trombas de água repentinas, acidificação e

aumento do nível da água dos mares, derretimento das calotes polares, entre tantos outros. Também o consumo de água doce tem vindo a aumentar a um ritmo alarmante nunca antes verificado. O quadro disponibilizado pela UCAR (University Corporation for Atmospheric Research), apresenta o índice de severidade de seca, prevista REVISTA APDA_2018

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# ATUALIDADE

para os anos 2030-2039. Os números positivos apresentam condições húmidas numa determinada região, e os números negativos apresentam regiões com condições excecionalmente secas. Uma leitura de -4 ou abaixo é considerada seca extrema, como é o caso de Portugal. As Regiões assinaladas a azul ou verde apresentam um provável menor risco de seca, enquanto aquelas com espectro vermelho e roxo poderão enfrentar condições de seca extrema mais frequentes.

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Estamos perante um desafio gigante, em desenvolver uma resposta que seja verdadeiramente significativa para um desenvolvimento sustentável do planeta, e acima de tudo, para a sua e a nossa sobrevivência.

A Educação ambiental e a necessidade de um RESET cerebral Resolver os desafios da água do planeta nunca foi tão urgente, exigindo-se uma resposta global para a qual não existem precedentes. Afinal, é a Água que sustenta

todos os aspetos da existência humana e ambiental. Esta não é uma questão recente que apareceu repentinamente no nosso quotidiano. São situações com as quais o planeta sempre conviveu, e de alguma forma acabou por se adaptar. Infelizmente, nos últimos 50 anos, as alterações climáticas ganharam uma proporção como nunca antes havia sido identificada e a tendência é que continue a ganhar proporções ainda mais caóticas se não forem tomadas medidas urgentes e imediatas.


O PLANETA ESTÁ A PEDIR SOCORRO!

Vamos dizer basta de manter uma atitude inerte e apática perante estas questões. Se nada for alterado, as consequências serão nefastas para o Planeta, desencadeando danos irreversíveis em todos os ecossistemas terrestres. As mudanças climáticas são a maior ameaça ambiental do século XXI, e todos sem exceção somos responsáveis. A nível local, quem é que ainda não viu o desrespeito de alguns cidadãos para com o equilíbrio ambiental da nossa sociedade, das nossas cidades, das nossas aldeias, da nossa rua? É tão comum assistir a situações de pessoas que tem certamente dificuldades em perceber que o lixo é para ser colocado dentro do contentor e não no chão ou junto às vias públicas, que os contentores da reciclagem estão lá por algum motivo e que têm cores diferenciadas não para fazer de arco-íris, mas porque recebem materiais distintos (…). Atitudes inconsequentes de um total desprezo pelas regras da boa conduta, educação e muita irresponsabilidade social. Pese embora as ações de comunicação e sensibilização

que vão sendo desenvolvidas um pouco por todo o lado, há quem insista em querer confirmar aquele velho ditado que diz “Burro Velho não aprende línguas”. Não acredito nisso, e replico com outro ditado também popular “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. A Educação Ambiental assenta nestes princípios, sendo persistente e incansável na obtenção da boa vontade ambiental informada, individual e coletiva. É inquestionável a necessidade de uma mudança urgente de postura. Vamos fazer um reset ao nosso cérebro adaptando-o à realidade dos nossos dias. O que era ontem, já não pode continuar hoje. Se nada for feito, estaremos a convergir a passos largos para atingir a “gota de água” do nosso Planeta, deixando-o tal como um campo minado para os nossos filhos e todas as gerações vindouras. Dificilmente o planeta suportará o ritmo atual no consumo de água potável. Se a humanidade quer sobreviver, com qualidade de vida, é necessário que se respeite este bem de forma diferente do que se tem feito até agora.

Uma alteração radical de comportamentos é determinante para construir novos cenários e diminuir todas estas incertezas no futuro. O papel da Educação ganha aqui dimensão colossal sendo essencial na consciencialização da população, buscando o estímulo necessário para se encontrar soluções que resolvam este problema. É certamente um processo lento e contínuo, sabendo-se que a velocidade de reação perante os processos corretivos e preventivos que se auguram, estão ainda longe de acompanhar a velocidade atual da degradação provocada pelos atuais comportamentos inconsequentes. Mas a Educação Ambiental vai muito para além do presente. É também pensar a longo prazo. Criar uma cultura ambiental, através de estímulos e atitudes continuadas, com alternativas ao consumo tantas vezes inoportuno para a natureza, sem significar uma mudança na qualidade de vida da população. Poupar hoje, para não nos faltar amanhã!

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# ATUALIDADE

Consequentemente, e a par destas preocupações, a necessidade de existência de uma maior uniformidade da comunicação por parte de todos os atores nesta matéria, que resulte numa maior eficácia e capacidade de mobilização comportamental na educação ambiental a nível nacional, são um dos principais motivos que levaram a APDA – Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas, a criar o Grupo de Trabalho de Comunicação e Educação Ambiental.

e elevado investimento na sustentabilidade, no entanto desgarradas de outras iniciativas idênticas que se promovem mesmo ao lado, e que acabam por perder o efeito escala que deve ser alcançado. Esquecemo-nos de que uma boa e correta comunicação é a ferramenta fundamental para dar voz e visibilidade à sustentabilidade das ações, não olhando apenas para o nosso próprio umbigo. De que adianta a prática de todas estas ações no terreno, se a comunicação não funcionar, ou está mal feita, e os resultados são fracos? A necessidade de comunicar de forma agregada a uma só voz em todo o País, Continente e Arquipélagos da Madeira e Açores, é basilar. Elementar em variadíssimos aspetos destaca-se, contudo, o papel da comunicação no maior alcance dos objetivos educacionais propostos e a consequente mensuração das reais mudanças de hábitos e comportamentos dos cidadãos, tão fundamental para a melhoria contínua que se pretende impulsionar.

Existem já por todo o país várias iniciativas ambientais com planeamento, organização

Veja-se que estamos a tratar de questões que estão a ameaçar e a afetar os nossos ecossistemas

O Grupo de Trabalho de Comunicação e Educação Ambiental da APDA A gravidade das ameaças ambientais que ocorrem um pouco por todo o planeta, não sendo Portugal exceção, e a crescente importância que as temáticas de prevenção e educação para a preservação do ambiente e da água em particular estão a assumir, são uma realidade inquestionável e urgente.

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e inclusivamente a saúde humana. Urge fazer da água e da sua gestão, a sua proteção e uso eficiente, uma preocupação de todos. São por isso urgentes a criação de políticas mais eficientes, bem como a criação de projetos agregadores voltados para conscientização da população e para a redução e irradicação dos problemas ambientais do nosso país. Não existem dúvidas de que este Grupo tem à sua frente desafios muito ambiciosos e, simultaneamente, de elevada complexidade, não fossem as questões ambientais um dos maiores desafios atuais da humanidade. Contudo, a motivação dos vários elementos que o constituem é objetiva e focada na criação de gerações com consciência crítica e ambientalmente responsáveis, numa perspetiva de mudança e desenvolvimento do futuro. Da minha parte, fica o compromisso de que farei o que está ao meu alcance para atingir com rigor e responsabilidade os nossos objetivos, contribuindo para o sucesso conjunto que atende na transformação da sociedade, que queremos mais verde e mais sustentável para as gerações futuras!


O PLANETA ESTÁ A PEDIR SOCORRO!

Testemunhos do Grupo de Comunicação A criação do Grupo de Trabalho de Comunicação e Educação ambiental reflete o objetivo de realizar trabalho em equipa e de forma participativa, por parte de um significativo grupo de profissionais e técnicos do setor, que utilizam as ferramentas da comunicação e da educação ambiental como instrumentos para o diálogo permanente com as populações em torno da temática ambiental e em particular do recurso água. Acredito que iremos contribuir para uma maior profissionalização das estratégias de diálogo que permitam às comunidades sentirem-se parte do meio onde estão inseridas. Face às alterações climáticas no nosso planeta, é urgente promover mudanças sociais e de sustentabilidade. Ana Santos, Museu da Águas de Coimbra, EM

Nos últimos anos, o setor da Água tem vindo a impor-se através do desenvolvimento de iniciativas e planos de comunicação em defesa deste recurso escasso e essencial à vida, tentando envolver a população de forma ativa. A educação ambiental, aliada a uma comunicação apelativa, divertida e até, por vezes, chocante, pode constituir uma poderosa chamada de atenção para este bem essencial, que é um direito de todos e que todos temos de proteger. O Grupo de Trabalho de Comunicação e Educação Ambiental é, por isso, de extrema importância. Filipa Fernandes e Susana Tavares, Águas do Porto, EM

Falar água é mais do que sensibilizar para a utilização racional deste recurso. A água é finita, limitada, escassa, e como tal a sua preservação é essencial. Comunicar esta ideia torna-se mais difícil quando temos no nosso país um serviço de qualidade, fiável, seguro e sobretudo, contínuo. Mais difícil se torna quando várias vozes querem dizer o mesmo, mas não o dizem adequadamente, ou pior, o dizem mal. Por isso, a existência de um Grupo de Comunicação do setor é essencial para difundir uma mensagem que se quer clara e transparente como a água. Falar água é falar a uma mesma voz, com a mesma mensagem, dedicada a todos os públicos: eficaz, concisa e limpa. É isso que queremos fazer e vamos conseguir, de norte a sul, passando pelas ilhas, fazendo chegar aos portugueses a ideia de que a água é de todos e é um dever saber usá-la. Lénia Almeida, Águas de Portugal, SGPS, SA

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# ATUALIDADE Ao contrário do que muitos ainda (infelizmente) pensam, a comunicação é muito mais do que um simples folheto, publicidade ou evento. A imagem e personalidade de uma empresa depende de uma boa comunicação. A criação do Grupo de Trabalho de Comunicação da APDA é, assim, mais um passo na valorização desta profissão, mas também a oportunidade de melhorar a comunicação no setor da água de dentro para fora.

Lisete Oliveira, Águas do Centro Litoral, SA

A água volta a ser um elemento agregador. Como foi no passado, contribuindo para o desenvolvimento das comunidades e dos territórios. Por ser um recurso tão precioso, temos que ter a capacidade para assumir no presente compromissos que tenham impacto no futuro, ao nível da sustentabilidade. Este Grupo de Trabalho, irá seguramente ter um papel crucial na promoção para uma cidadania mais ativa e para uma maior consciencialização do papel de cada um na construção de um mundo mais sustentável. Miguel Esteves Barriga, EMAS de Beja, EM

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O PLANETA ESTÁ A PEDIR SOCORRO!

ÁGUA, ONDE A VIDA SE MULTIPLICA

30 ANOS A VALORIZAR A ÁGUA E A VIDA

APDA - Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas Avenida de Berlim, 15 | 1800-031 Lisboa - Portugal Tel.: (+351) 218 551 359 | Fax: (+351) 218 551 360 geral@apda.pt | www.apda.pt

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE DISTRIBUIÇÃO E DRENAGEM DE ÁGUAS

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QUADRO LEGAL

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# QUADRO LEGAL Portaria n.º 118-A/2018, de 2 de maio Procede, para o ano de 2018, à identificação das águas balneares costeiras e de transição e das águas balneares interiores, fixando as respetivas épocas

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LEGISLAÇÃO PORTUGUESA

balneares, e à qualificação, como praias de banhos, das praias marítimas e das praias fluviais e lacustres em território nacional, bem como à identificação das praias de uso limitado. Decreto-Lei n.º 30/2018, de 7 de maio Estabelece as regras a que devem obedecer as aquisições de serviços de viagens e alojamento no âmbito de deslocações em serviço público. Resolução do Conselho de Ministros n.º 55/2018, de 7 de maio Aprova a Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030. Decreto-Lei n.º 32/2018, de 8 de maio Considera revogados diversos decretos-leis, publicados entre os anos de 1975 e 1980, determinando expressamente que os mesmos não se encontram em vigor, em razão de caducidade, revogação tácita anterior ou revogação efetuada pelo presente decreto-lei. Portaria n.º 127/2018, de 9 de maio Aprova os estatutos do Instituto de Proteção e

Assistência na Doença, IP (ADSE) e revoga a Portaria n.º 122/2013, de 27 de março. Decreto-Lei n.º 33/2018, de 15 de maio Estabelece as normas de execução do Orçamento do Estado para 2018. Decreto-Lei n.º 34/2018, de 15 de maio Estabelece os termos da integração dos trabalhadores da Administração Pública que prestam serviço nos programas operacionais, nos organismos intermédios e no órgão de coordenação dos fundos europeus. Portaria n.º 160/2018, de 6 de junho Atualiza os montantes do abono de família para crianças e jovens, do abono de família pré-natal, e respetivas majorações e do subsídio de funeral. Decreto-Lei n.º 39/2018, de 11 de junho Estabelece o regime de prevenção e controlo das emissões de poluentes para o ar, transpondo para a ordem jurídica interna a Diretiva n.º (UE) 2015/2193, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 25 de novembro de 2015, relativa

à limitação de emissões para a atmosfera de certos poluentes provenientes de médias instalações de combustão. Lei n.º 25/2018, de 14 de junho Procede à segunda alteração da Lei n.º 31/2009, de 3 de julho, que aprova o regime jurídico que estabelece a qualificação profissional exigível aos técnicos responsáveis pela elaboração e subscrição de projetos, pela fiscalização de obra e pela direção de obra, que não esteja sujeita a legislação especial, e os deveres que lhes são aplicáveis, e à primeira alteração à Lei n.º 41/2015, de 3 de junho, que estabelece o regime jurídico aplicável ao exercício da atividade de construção. Decreto-Lei n.º 52/2018, de 25 de junho Altera o Registo Nacional de Pessoas Coletivas e cria a certidão online das Pessoas Coletivas. Portaria n.º 186/2018, de 27 de junho Estabelece o Sistema de Incentivos à Inovação na Gestão Pública (SIIGeP).

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# QUADRO LEGAL

LEGISLAÇÃO COMUNITÁRIA

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LEGISLAÇÃO comunitária

Decisão Delegada (UE) 2018/771, da Comissão, de 25 de janeiro Relativa ao sistema aplicável para avaliar e verificar a regularidade do desempenho de dispositivos de amarração utilizados em obras de construção para impedir que as pessoas caiam de alturas ou para parar essas quedas nos termos do Regulamento (UE) n.º 305/2011, do Parlamento Europeu e do Conselho (JO, L129, de 2018/05/25).

do Parlamento Europeu e do Conselho, e revoga a Decisão de Execução (UE) n.º 2015/495, da Comissão [notificada com o número C(2018) 3262] (JO, L141, 2018/06/07). Diretiva (UE) 2018/851, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 30 de maio Altera a Diretiva n.º 2008/98/ CE relativa a resíduos (JO, L150, 2018/06/18).

Decisão de Execução (UE) 2018/820, da Comissão, de 31 de maio Concede uma derrogação solicitada pelos Países Baixos, nos termos da Diretiva n.º 91/676/CEE, do Conselho, relativa à proteção das águas contra a poluição causada por nitratos de origem agrícola [notificada com o número C(2018) 3222] (JO, L137, 2018/06/04). Decisão de Execução (UE) 2018/840, da Comissão, de 5 de junho Estabelece uma lista de vigilância das substâncias a monitorizar a nível da União no domínio da política da água, nos termos da Diretiva n.º 2008/105/CE, REVISTA APDA_2018

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EVENTOS


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# EVENTOS Eventos APDA Colóquio “O Valor da Água” APDA Local: Centro de Empresas Inovadoras de Castelo Branco Dia: 20 novembro 2018 Encontro “Combate aos ilícitos para uma gestão mais eficiente” APDA Local: Cascais Dia: 6 dezembro 2018

Eventos nacionais V Congresso Iberoamericano de Laboratórios Relacre e FELAB Local: LNEC, Lisboa Dia: 17 e 18 outubro 2018 Seminário “Incêndios florestais & Atividades económicas – Impactes sobre os Recursos Hídricos” APRH Local: Biblioteca José Saramago, Leiria Dia: 18 outubro 2018

eventos

I Congresso Internacional de Avaliação da Conformidade - Presente e Futuro Relacre e FELAB Local: LNEC, Lisboa Dia: 19 outubro 2018

Para mais informações www.apda.pt

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Seminário “Avaliação dos riscos nos sistemas de abastecimento de água” APRH Local: CIMAC, Évora Dia: 23 outubro 2018 “TEJO VIVO - Seminário para a recuperação do Rio Tejo e seus afluentes” proTEJO - Movimento pelo Tejo Local: Parque Tejo, Abrantes Dia: 27 outubro 2018


APDA, NACIONAIS E INTERNACIONAIS

Eventos INTERnacionais 16th EUROPE-INBO 2018 - International Conference for the Implementation of the European Water Directives INBO – International Network of Basin Organizations e Hydrographic Confederation of Guadalquivir Local: Sevilha, Espanha Dia: 17 a 20 outubro 2018 7th Africa Water Week African Ministers Council on Water (AMCOW) Local: Libreville, Gabão Dia: 29 outubro a 2 novembro 2018

Rio Water Week 2018 ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental Local: Rio de Janeiro, Brasil Dia: 26 a 28 novembro 2018 Water Knowledge Europe 2018 WssTP - Water Supply and Sanitation Technology Platform Local: Bruxelas, Bélgica Dia: 28 e 29 novembro 2018

OECD Water Governance Initiative OCDE Local: Saragoça, Espanha Dia: 12 e 13 novembro 2018 iWATER Barcelona – Salón Internacional del Ciclo Integral del Agua Fira de Barcelona Local: Barcelona, Espanha Dia: 13 a 15 novembro 2018 Conferência Aquashare e Expoplama 2018 PLAMA – Plataforma Moçambicana da Água Local: Maputo, Moçambique Dia: 21 a 23 novembro 2018 EWA Seminar: A Guide to the EU Water Policy EWA – European Water Association Local: Bruxelas, Bélgica Dia: 26 novembro 2018

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CURIOSIDADES

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alguns dados de 2018 sobre os objetivos do desenvolvimento sustentรกvel Fonte: The Sustainable Development Goals Report 2018 (United Nations)

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ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE DISTRIBUIÇÃO E DRENAGEM DE ÁGUAS

Revista APDA #10 - 3º trimestre 2018  

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