Revista Especial 7

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FICHA TÉCNICA

TÍTULO | TITLE Revista Portuguesa de Enfermagem em Saúde Mental | Portuguese Journal of Mental Health Nursing

PUBLICAÇÃO E PROPRIEDADE | PUBLISHING AND PROPERTY

A Sociedade Portuguesa de Enfermagem em Saúde Mental | The Portuguese Society of Mental Health Nursing

DIRETOR | MANAGING DIRECTOR

Carlos Sequeira, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal

COORDENADOR | COORDINATOR

Luís Sá, PhD - Instituto de Ciências da Saúde - Universidade Católica Portuguesa, Porto, Portugal

COORDENADOR DA COMISSÃO EDITORIAL | EDITORIAL BOARD COORDINATOR

Francisco Sampaio, MSc – Hospital de Braga, Portugal

COMISSÃO EDITORIAL | EDITORIAL BOARD

Amadeu Gonçalves, PhD - Escola Superior de Saúde, Instituto Politécnico de Viseu Analisa Candeias, MSc - Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho Bruno Santos, MSc – Casa de Sáude do Bom Jesus - Braga Carlos Vilela, MSc - Escola Superior de Enfermagem do Porto Lia Sousa, MSc - Centro Hospital de São João, Porto Lucília Vale de Nogueira, MSc – Centro Hospitalar do Porto Luís Silva, MSc - Hospital de Magalhães Lemos, Porto Odete Araújo, MSc - Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho Olga Cunha Rocha, MSc - Escola Superior de Enfermagem do Porto (Jubilada) Regina Pires, MSc – Escola Superior de Enfermagem do Porto Rita Costa, MSc - Unidade Local de Saúde de Matosinhos, Porto Rosa Silva, MSc - Instituto de Ciências da Saúde - Universidade Católica Portuguesa, Porto

COMISSÃO CIENTÍFICA | SCIENTIFIC REVIEWERS

Agustín Simónelli Muñoz, PhD - Universidad Católica San Antonio, Múrcia, Espanha Aida Mendes, PhD - Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Portugal Alexandre Marques Rodrigues, PhD - Escola Superior de Saúde de Aveiro, Aveiro, Portugal Beatriz Araújo, PhD - Instituto de Ciências da Saúde - Universidade Católica Portuguesa, Porto, Portugal Carlos Sequeira, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Carme Ferré-Grau, PhD - Universitat Rovira i Virgili. Tarragona, Espanha Elaine Antunes Cortez, PhD - Escola de Enfermagem AAC - Universidade Federal Fluminense, Brasil Elizabete Borges, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Francisca Manso, PhD - Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, Portugal Geilsa Cavalcanti Valente, PhD - Escola de Enfermagem AAC - Universidade Federal Fluminense, Brasil Guilherme Correa Barbosa, PhD – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Brasil Graça Pimenta, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Isilda Ribeiro, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Joaquim Passos, PhD – Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Portugal José António Pinho, PhD – Centro Hospitalar do Porto, Portugal José Carlos Carvalho, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal José Carlos Gomes, PhD - Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Leiria, Portugal José Carlos Santos, PhD - Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Portugal Juan Roldan Merino, PhD - Escuela de Enfermería Sant Joan de Déu (adstrita a la UB), Espanha Júlia Martinho, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Luís Sá, PhD - Instituto de Ciências da Saúde - Universidade Católica Portuguesa, Porto, Portugal Margarida Sotto Mayor, PhD - Hospital de Magalhães Lemos, Porto, Portugal Mar Lleixà-Fortuny, PhD - Universitat Rovira i Virgili. Tarragona, Espanha Marluce Miguel de Siqueira, PhD - Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil Michell Araújo, PhD - Faculdade Católica Rainha do Sertão - Fortaleza e Hospital de M., Brasil Odete Araújo, PhD - Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho, Portugal Odete Pereira, PhD - Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, Brasil Raul Cordeiro, PhD – Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Portalegre, Portugal Teresa Barroso, PhD - Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Portugal Teresa Lluch-Canut, PhD – Escola Universitària d’Infermeria - Universitat de Barcelona, Espanha Zeyne Scherer, PhD – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo, Brasil Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 2


Público-alvo:

Enfermeiros, médicos, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e outras pessoas com interesse na área da saúde mental.

Objectivo:

Divulgação de evidências científicas sobre a promoção da saúde, prevenção de doenças, tratamento, reabilitação e reintegração das pessoas com doença mental ao longo da vida.

Âmbito:

Políticas e design dos cuidados de saúde; Avaliação, diagnóstico, intervenções e resultados de enfermagem; Sistemas de informação e indicadores em saúde mental; Direitos e deveres dos doentes mentais; Formação e investigação em enfermagem em saúde mental.

SUBSCRIÇÃO | SUBSCRIPTIONS

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ISSN:

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Nursing and Allied Health Literature

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FOTOS | PHOTOS

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Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 3


Índice

EDITORIAL CONVIDADO

1

OS COMPORTAMENTOS ADITIVOS E DEPENDÊNCIAS: UM OLHAR SOBRE A

COMPLEXIDADE DO FENÓMENO E AS INTERVENÇÕES DE ENFERMAGEM ...................... 6

ARTIGOS DE INVESTIGAÇÃO

2

STRESS E ESTRATÉGIAS DE COPING EM PROFISSIONAIS DE SAÚDE ............................... 9

3

(IN)SATISFAÇÃO COM A IMAGEM CORPORAL E ATITUDES ALIMENTARES EM ESTUDANTES

DO ENSINO SECUNDÁRIO ...................................................................................................... 17

4

ENGAGEMENT E SATISFAÇÃO DOS ENFERMEIROS DO PRÉ-HOSPITALAR ....................... 25

5

A FELICIDADE COMO CATALISADORA DOS NÍVEIS DE ANSIEDADE, DEPRESSÃO E STRESS

NO ENSINO SUPERIOR ........................................................................................................... 31

6

FELICIDADE, ANSIEDADE, DEPRESSÃO E STRESS EM BOMBEIROS PORTUGUESES .... 39

7

SATISFAÇÃO E ENGAGEMENT: (RE)PENSAR A SAÚDE E O BEM-ESTAR DOS

ENFERMEIROS

8

CUIDADOS PALIATIVOS PEDIÁTRICOS: NECESSIDADES FORMATIVAS E ESTRATÉGIAS DE

COPING DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE ................................................................................ 52

9

ESTILOS DE VIDA E BEM-ESTAR DE ESTUDANTES DO ENSINO SUPERIOR .................... 59

10

O QUE SABEM E PENSAM OS ENFERMEIROS SOBRE A DOENÇA MENTAL: ESTUDO DO

CONHECIMENTO E ATITUDES ESTIGMATIZANTES EM SAÚDE MENTAL ............................ 65

11

AS COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS NA FORMAÇÃO DO ENFERMEIRO: UM ESTUDO

........................................................................................................................ 46

SOCIOPOÉTICO ........................................................................................................................ 71

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 4


12

INTERVENÇÃO COMUNITÁRIA & RECOVERY: IMPACTO NA QUALIDADE DE VIDA, SUPORTE

SOCIAL E SATISFAÇÃO DE NECESSIDADES DA PESSOA COM DOENÇA MENTAL ........... 77

13

“SAÚDE EM CADEIA: (CO)CONSTRUÇÃO DE PERCURSOS DE LITERACIA EM SAÚDE E

QUALIDADE DE VIDA” ............................................................................................................... 85

ARTIGOS DE REVISÃO

14

INTERVENÇÕES PROMOTORAS DE ESPERANÇA EM ENFERMAGEM DE SAÚDE MENTAL E

PSIQUIÁTRICA – UMA SCOPING REVIEW

15

A PSICOEDUCAÇÃO NA ADESÃO TERAPÊUTICA EM UTENTES COM ESQUIZOFRENIA:

A SCOPING REVIEW

16

EFEITO DA TERAPIA DE REMINISCÊNCIA NA POPULAÇÃO GERIÁTRICA: SCOPING

REVIEW

17

SAÚDE MENTAL POSITIVA: DO CONCEITO AO CONSTRUTO. EVOLUÇÃO HISTÓRICA E

REVISÃO DE TEORÍAS

............................................................................. 93

.............................................................................................................. 93

................................................................................................................................... 93

........................................................................................................... 93

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 5


Editorial Convidado

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0240

1

OS COMPORTAMENTOS ADITIVOS E DEPENDÊNCIAS: UM OLHAR SOBRE A COMPLEXIDADE DO FENÓMENO E AS INTERVENÇÕES DE ENFERMAGEM | Paulo Seabra1 |

Os comportamentos aditivos e dependências (CAD) são de grande complexidade. Complexidade na sua etiologia (multifatorial), na sua expressão e gestão pessoal, na forma como inevitavelmente vão produzir danos pessoais, familiares e sociais, na forma como as pessoas se vão relacionar com as estruturas sociais e de saúde que inevitavelmente vão ter de recorrer, na forma como se vão manter num estado de difícil equilíbrio, na forma como vão trazer consequência difíceis de gerir e suportar, na forma como vão modular um sentido de vida e uma reflexão retrospetiva numa fase mais adiantada de vida. Na Europa estima-se que 92 milhões de pessoas experimentaram pelo menos uma vez, uma substância ilícita e atualmente estarão cerca de 1,2 milhões de pessoas em tratamento pelo uso de substâncias ilícitas (EMCDDA, 2018). Por outro lado a Organização das Nações Unidas identifica a Europa como a região do mundo onde mais se consome álcool, embora, a zona mais preocupante neste momento seja a região oriental da europa (WHO, 2018). O fenómeno dos CAD é global e mutável, veja-se as influências e a variabilidade que vão acontecendo em diferentes sociedades, a aproximação do sul da Europa ao consumo de metanfetaminas, do crack e Ketamina, e o crescimento na última década do consumo de opiáceos no Reino unido, Irlanda, Austrália e América do Norte onde estima-se, num recente e dramático conjunto de fatores, que existam milhões de dependentes de opiáceos e morrem mais de 100 pessoas por dia (Larney et al., 2018). Numa perspetiva mais recente e menos tradicional, há cada vez mais consciência das dependências sem substâncias, sejam do jogo a dinheiro (gambling, do jogo online (gaming), dos videojogos, da internet, das redes sociais. Estes fenómenos da dependência do jogo e dos videojogos, no passado mais na Ásia e atualmente nos países ocidentais, está em crescendo calculando-se que aproximadamente 11% dos jovens jogam a dinheiro (Commission, 2019).

Em Portugal dados do relatório da situação do pais em matéria de drogas, toxicodependências e álcool, referente ao ano 2017, revelam que a prevalência continua a crescer. No que se refere aos dados referentes a qualquer droga houve um aumento dos consumos ao longo da vida na população em geral (2012, 8,4% - 2017, 10,4%) e na população jovem (15-34 anos) (2012, 14,6% – 2017, 16%), um aumento do consumo nos últimos 12 meses na população em geral (2012, 2,4% – 2017, 4,8%) e na população jovem (2012, 5,2% – 8,4%) e um aumento do consumo nos últimos 30 dias na população em geral (2012, 1,5% – 2017, 3,9%) e na população jovem (2012, 3,1% – 2017, 6,5%) (SICAD, 2018b). O mesmo relatório diz-nos que a idade de início dos consumos da maioria das substâncias se manteve inalterada no mesmo período. Mais especificamente e sobre as substâncias mais consumida pelos portugueses (a primeira é o álcool), refira-se o aumento do consumo de cannabis nas mesmas três formas de monitorização (ex. 2,4% da população geral consome canábis todos os dias e 3,4% da população entre os 15-34) (SICAD, 2018b). A cannabis é a substâncias que em crescendo vem assumindo como a mais problemática para a nossa realidade com consequências cada vez mais comprovadas ao nível da saúde mental, veja-se, o aumento de 30 vezes mais internamentos por Psicose causada pelo uso de Cannabis entre o ano 2000 e 2015 (Gonçalves-Pinho et al., 2019). Já no que se refere ao nosso tradicional problema em relação ao álcool, o número mantém-se preocupantes pois na população de 15-74 anos, as prevalências de consumo de qualquer bebida alcoólica foram de 85% ao longo da vida, 58% nos últimos 12 meses e 49% nos últimos 30 dias, sendo um pouco inferiores nos que estão entre os 15-34 anos (83%, 52% e 41% respetivamente). Veja-se que o consumo diário/quase diário de alguma bebida alcoólica foi de 43% na população em geral.

1 Enfermeiro especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Doutor em Enfermagem; Mestre em Enfermagem; Investigador Colaborador na Unidade de investigação & Desenvolvimento em Enfermagem (UI&DE); Investigador Colaborador no CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Sistemas de Informação em Saúde, grupo de investigação “NursID: Inovação & Desenvolvimento em Enfermagem”; Professor Adjunto na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, pauloseabra@esel.pt Citação: Seabra, P. (2020). Os comportamentos aditivos e dependências: Um olhar sobre a complexidade do fenómeno e as intervenções de enfermagem. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 06-08. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 6


Já no que refere ao consumo abusivo ou dependência de álcool, verifica-se 2,8% da população tinha, nos últimos 12 meses, um consumo considerado de risco elevado/ nocivo e 0,8% apresentava sintomas de dependência, sendo as proporções correspondentes nos 15-34 anos de 2,4% e 0,4% (SICAD, 2018a). Em 2018 estiveram em tratamento na rede publica de assistência para os CAD, em ambulatório, 13422 utentes (1202 readmitidos e 3403 novos) ou seja -3% que em 2017, mas mais utentes iniciaram tratamento (+5%) sobretudo readmitidos (SICAD, 2018a). Às respostas estruturais e transversais que o país tem implementadas para estas problemáticas, são na opinião de muitos profissionais e relatórios, insuficientes e incapazes de dar uma resposta universal em diferentes zonas do país. Ao mesmo tempo que se regista um aumento do consumo de álcool e drogas, surgem dados que são a evidência disso: mais consultas; mais readmitidos em tratamento; aumento de utentes admitidos com VIH e VHC; mais internamentos para desabituação e comunidades terapêuticas, mais mortes e mais acidentes de viação relacionado com o consumo de álcool (SICAD, 2018a). Destes dados, emergem as necessidades em saúde das pessoas com CAD. Temos as necessidades que decorrem do uso e do efeito das substâncias ou outro comportamento aditivo (problemas gástricos, hepáticos, respiratórios, infeções transmissíveis, alterações do pensamento e da perceção, ansiedade, humor depressivo, etc.), as necessidades que decorrem do uso prolongado das substâncias ou outro comportamento aditivo (isolamento social, dificuldade no enfrentamento, diminuição das competências sociais, desemprego, problemas laborais ou escolares, problemas económicos, diminuição de motivação, etc.) e por fim as necessidades das famílias (diminuição da qualidade de vida, dificuldades nos processos familiares). Para estas necessidades em saúde vamos tendo evidência que muitos destes problemas, quando atendidos, são sensíveis aos cuidados de enfermagem (Seabra, Amendoeira, & Sá, 2017), com ganhos evidentes em muitos casos, obtidos pelas intervenções dos enfermeiros (Comiskey et al., 2019; Erim et al., 2016; Patrício et al., 2016). Se a estas necessidades que decorem do uso, juntarmos as necessidades em saúde que decorrem do próprio processo de envelhecimento (Seabra & Sá, 2011), visto que a média de idades dos utentes em tratamento, principalmente por drogas e álcool, não parar de aumentar (SICAD, 2018b) podemos facilmente extrapolar para crescente necessidade de cuidados de enfermagem por parte desta população (WHO, 2018). É chegado o momento em que é necessário, para responder a estas necessidades em saúde e assumir cada

vez mais um papel determinante no que se refere à prevenção junto de populações potencialmente em risco para diferentes CAD, os enfermeiros assumirem a responsabilidade e liderança de projetos de intervenção que vissem a minimização dessas necessidades em saúde, baseados na evidência do conhecimento em enfermagem. Veja-se que as necessidades principais podem ser minimizadas quando se capacita as pessoas para o autocuidado (abstinência e redução de riscos e minimização de danos (RRMD)) e para as adaptações necessárias ao impacto que estes CAD têm na sua vida e na vida das suas famílias. Veja-se que os utentes apelam a um papel mais ativo dos enfermeiros nos seus processos de acompanhamento e valorizam o respeito do cuidado e quando participam na decisão sobre seu plano de cuidados (Comiskey et al., 2019; Seabra, Amendoeira, & Sá, 2018; Seabra, Sá, Amendoeira, & Ribeiro, 2017). Os enfermeiros especialistas em enfermagem de saúde mental e psiquiátrica (EEESMP), no quadro das suas competências especificas e acrescidas, são profissionais que sem dúvida, estão munidos dos requisitos necessários para fazer todo o espectro de intervenções desde a prevenção, o tratamento, a RRMD e o recovery. Competências que vão desde a dimensão do autoconhecimento necessário para enfrentar os sentimentos que muitas vezes são gerados quando confrontados com algumas características e comportamentos dos seus utentes; assistência e ajuda ao longo do ciclo de vida em contextos muitas vezes de proximidade, adversos mas sempre complexos; realização de intervenções psicoterapêuticas, sócio terapêuticas, psicossociais e psicoeducacionais, tão necessárias para fazer face a necessidades psicoemocionais e de capacitação emergentes em diferentes fazes da doença (OE, 2018). Pensando ainda o quadro de competências do EEESMP importa refletir sobre a formação e competências especificas dos “Addiction Nurses” (Enfermeiros dos CAD). Refira-se que em Portugal, como em muitos outros países há enfermeiros com outras áreas de especialidade (especialmente de Enfermagem comunitária e saúde pública) a trabalhar nesta área de cuidados. Neste quadro importa repensar uma formação mais especifica, reforçada, baseada na evidência e até reforçada pelo aumento do número de pessoas com CAD, em risco ou em tratamento. Os CAD alteram-se a um ritmo que nos conduz a uma apreciação que provavelmente hoje, não conseguimos prever quais as consequências no futuro. A formação especifica deve ser reforçada no quadro dos enfermeiros em geral e no quadro dos EEESMP em particular. Já existe formação especifica (certificação como enfermeiros de adição) em muitos contextos (EUA, Canadá) e a Europa deve seguir o mesmo caminho. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 7


Ainda neste sentido importa a discussão sobre algo muito sensível no nosso quadro legal e de enquadramento profissional, a prescrição de medicamentos por parte dos enfermeiros devidamente habilitados. É uma evidência em muitos países, até na Europa (Inglaterra, Irlanda, Holanda, Espanha). Existe em contextos de prescrição com pessoas com doença crónica, e esta é uma delas (note-se que nos países onde esta prescrição acontece, ela surgiu sempre pela necessidade satisfazer de forma mais eficaz as necessidades das pessoas). Especificamente sobre a prescrição de medicamentos relacionados com o comportamento aditivo com substâncias, existe na Inglaterra e na Holanda (Clancy et al., 2019) e esta resposta é ainda solicitada pelos próprios utentes em outros países como a Irlanda (Comiskey et al., 2019). A discussão deve prosseguir, tal como a discussão sobre a necessidade de se aproveitar um conjunto de competências dos enfermeiros especialistas (Clancy et al., 2019) para de forma mais concreta se exercer uma enfermagem avançada, ou seja, responder com cuidados às necessidades das pessoas com maior efetividade das nossas intervenções (Woo et al., 2017). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Clancy, C., Kelly, P., & Loth, C. (2019). State of the Art in European Addictions Nursing. Journal of Addictions Nursing, 30(3), 139–148. Comiskey, C., Galligan, K., Flanagan, J., Deegan, J., Farnann, J., & Hall, A. (2019). Clients’ Views on the Importance of a Nurse-Led Approach and Nurse Prescribing in the Development of the Healthy Addiction Treatment Recovery Model. Journal of Addictions Nursing, 30(3), 169–176. https://doi.org/10.1097/ JAN.0000000000000290 Commission, G. (2019). Young People and Gambling Survey 2019. EMCDDA. (2018). European drug report 2018. www. emcdda.europa.eu/edr2018_en Regulamento de Competências Específicas do Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica, 21427 (2018) (testimony of Ordem dos Enfermeiros). Erim, Y., Bottcher, M., Schieber, K., Lindner, M., Klein, C., Paul, A., Beckebaum, S., Mayr, A., & Helander, A. (2016). Feasibility and Acceptability of an Alcohol Addiction Therapy Integrated in a Transplant Center for Patients Awaiting Liver Transplantation. Alcohol And Alcoholism, 51(1), 40–46. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 8

Gonçalves-Pinho, M., Bragança, M., & Freitas, A. (2019). Psychotic disorders hospitalizations associated with cannabis abuse or dependence: A nationwide big data analysis. International Journal of Methods in Psychiatric Research, September, 6–11. Larney, S., Hickman, M., Fiellin, D. A., Dobbins, T., Nielsen, S., Jones, N. R., Mattick, R. P., Ali, R., & Degenhardt, L. (2018). Using routinely collected data to understand and predict adverse outcomes in opioid agonist treatment: Protocol for the Opioid Agonist Treatment Safety (OATS) Study. BMJ Open, 8(8), 1–6. Patrício, S. M., Finnell, D. S., & Barroso, T. (2016). Efeito das intervenções breves na redução do consumo de álcool em indivíduos portadores do vírus da imunodeficiência humana. Revista de Enfermagem Referência, serIV(11), 41–49. https://doi.org/10.12707/RIV16052 Seabra, P., Amendoeira, J. & Sá, L. (2017). Testing Nursing Sensitive Outcomes in Out-Patient Drug Addicts, with “Nursing Role Effectiveness Model.” Issues in Mental Health Nursing, 2840(November), 1–8. Seabra, P., Amendoeira, J., & Sá, L. (2018). Testing Nursing Sensitive Outcomes in Out-Patient Drug Addicts, with “Nursing Role Effectiveness Model.” Issues in Mental Health Nursing. https://doi.org/10.1080/016 12840.2017.1378783 Seabra, P., & Sá, L. (2011). Factores determinantes para as necessidades em saúde de pessoas consumidoras de drogas.pdf. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, 5, 22–29. Seabra, P., Sá, L., Amendoeira, J., & Ribeiro, A. (2017). Satisfaction with nursing care in drug users : the evolution of a scale. Revista Gaucha de Enfermagem, 38(2), e58962. https://doi.org/10.1590/19831447.2017.02.58962. SICAD. (2018a). A situação do país em matéria de álcool. SICAD. (2018b). A situação do país em matéria de drogas e toxicodendências 2018. WHO. (2018). Global Status Report on alchool and health 2018. Woo, B. F. Y., Lee, J. X. Y., & Tam, W. W. S. (2017). The impact of the advanced practice nursing role on quality of care, clinical outcomes, patient satisfaction, and cost in the emergency and critical care settings: A systematic review. Human Resources for Health, 15(1). https://doi. org/10.1186/s12960-017-0237-9


Artigo de Investigação

2

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0241

STRESS E ESTRATÉGIAS DE COPING EM PROFISSIONAIS DE SAÚDE | Raúl Cordeiro1; António Calha2; Cláudia Mourão3; Fátima Camões4 |

RESUMO CONTEXTO: As especificidades do trabalho nas organizações de saúde e, em particular, os níveis de stress a que estão sujeitos os profissionais têm reflexos na sua condição de saúde. As medidas de redução do stress profissional inscrevem-se nas estratégias de governação clínica enquanto processo de melhoria da qualidade envolvendo princípios fundamentais da excelência, como a orientação para os resultados, melhoria contínua, responsabilidade social, focalização na saúde e bem-estar das pessoas/colaboradores. OBJETIVO: Avaliar principais fontes de stress e estratégias de coping utilizadas pelos profissionais de saúde no desenvolvimento da sua atividade profissional. MÉTODOS: Trata-se de um estudo descritivo exploratório com amostra por conveniência a diferentes profissionais de saúde. Para a recolha de dados foram utilizados dois instrumentos: Questionário de Stress nos Profissionais de Saúde; e Brief COPE. O questionário foi enviado por e-mail decorrendo a recolha entre os meses de maio e junho de 2018. Os dados foram tratados e analisados com recurso ao SPSS. Todos os procedimentos éticos foram assegurados. RESULTADOS: As dimensões de stress mais críticas referidas pelos profissionais de saúde foram: carreira, remuneração, excesso de trabalho e lidar com os clientes. As estratégias de coping mais referidas foram: coping ativo, planear e reinterpretação positiva. O uso de substâncias foi a menos utilizada. CONCLUSÕES: Os resultados obtidos permitem identificar uma vulnerabilidade particular dos profissionais de saúde a fatores de stress profissional associados à carreira e às condições de exercício profissional. Apurou-se uma resposta relativamente consensual face ao stress: o impacto negativo na saúde, em particular na saúde mental, com as consequências adversas alusivas a todo o processo de governação clínica.

PALAVRAS-CHAVE: Stress; Coping; Profissionais de saúde

RESUMEN

ABSTRACT

“Estrés y estrategias de afrontamiento para profesionales de la salud”

“Stress and coping strategies in health professionals”

CONTEXTO: Las especificidades del trabajo en las organizaciones de salud y, en particular, los niveles de estrés a que están sujetos los profesionales tienen reflejos en su condición de salud. Las medidas de reducción del estrés profesional se inscriben en las estrategias de gobernanza clínica como proceso de mejora de la calidad que involucra principios fundamentales de la excelencia, como la orientación hacia los resultados, la mejora continua y la responsabilidad social y la focalización en la salud y el bienestar de las personas / empleados. OBJETIVO(S): Evaluar las principales fuentes de estrés y estrategias de coping utilizadas por los profesionales de la salud en el desarrollo de su actividad profesional. METODOLOGÍA: Se trata de un estudio descriptivo y exploratorio con muestra por conveniencia a diferentes profesionales de la salud. Para la recogida de datos se utilizaron dos instrumentos: i) Cuestionario de estrés en los profesionales de la salud; y ii) Brief COPE. El cuestionario fue enviado por correo electrónico a través de la recogida entre los meses de mayo y junio de 2018.Los datos del fueron tratados y analizados con recurso al SPSS. Todos los procedimientos éticos se garantizaron durante el proceso. RESULTADOS: Las dimensiones de estrés más críticas referidas por los profesionales de salud fueron: carrera, remuneración, exceso de trabajo y lidiar con los clientes. Las estrategias de coping más mencionadas fueron: coping activo, planeamiento y reinterpretación positiva. El uso de sustancias fue la menos utilizada. CONCLUSIONES: Los resultados obtenidos permiten identificar una vulnerabilidad particular de los profesionales de la salud a factores de estrés profesional asociados a la carrera ya las condiciones de ejercicio profesional. También es posible determinar una respuesta relativamente consensuada frente al estrés en los profesionales de la salud: el impacto negativo en la salud mental, con las consecuencias adversas en lo que se refiere a todo el proceso de gobernanza clínica.

BACKGROUND: The specificities of work in health organizations and, in particular, the levels of stress to which professionals are subjected have consequences for their health condition. Occupational stress reduction measures are part of clinical governance strategies as a quality improvement process involving fundamental principles of excellence, such as results orientation, continuous improvement and social responsibility, and focus on the health and wellbeing of people / contributors. AIM: To evaluate the main sources of stress and coping strategies used by health professionals in the development of their professional activity. METHODS: This is a descriptive and exploratory study with convenience sample to different health professionals. Two instruments were used to collect data: Stress Questionnaire for Health Professionals; and Brief COPE. The questionnaire was sent by e-mail after the collection between the months of May and June of 2018. The data were treated and analyzed using SPSS. All ethical procedures were ensured during the process. RESULTS: The most critical stress dimensions reported by health professionals were: career, remuneration, overwork and dealing with clients. The most mentioned coping strategies were: active coping, planning and positive reinterpretation. Substance use was the least referred. CONCLUSIONS: The results obtained allow the identification of a particular vulnerability of health professionals to professional stress factors associated with career and working conditions. It was also possible to establish a relatively consensual response to stress in health professionals: the negative impact on health, in particular on mental health, with adverse consequences for the entire clinical governance process.

KEYWORDS: Stress; Coping; Health professionals Submetido em 30-12-2018 Aceite em 29-03-2019

DESCRIPTORES: Estrés; Afrontamiento; Profesionales de la salud 1 Doutor; Professor na Escola Superior de Saúde de Portalegre, Avenida de Santo António, 23, 7300-074 Portalegre, Portugal, raulcordeiro@ipportalegre.pt 2 Doutor; Professor na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Portalegre, 7300-109 Portalegre, Portugal, antoniocalha@ipportalegre.pt 3 Mestre; Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica no ACeS Médio Tejo, Unidade de Cuidados na Comunidade Almourol, 2260-400 Vila Nova da Barquinha, Portugal, claudiamourao1972@gmail.com 4 Licenciada; Assistente Social no ACeS Médio Tejo – Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados, 2260-400 Vila Nova da Barquinha, Portugal, fatimacp.1@hotmail.com Citação: Cordeiro, R., Calha, A., Mourão, C., & Camões, F. (2020). Stress e estratégias de coping em profissionais de saúde. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 09-16. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 9


INTRODUÇÃO A especificidade de trabalho no contexto das organizações de saúde representa fator primordial das condições de saúde alteradas nos seus profissionais no domínio físico e mental, derivadas da componente de stress profissional ou burnout associado ao desempenho de várias profissões, nomeadamente enfermeiros e médicos (Costa e Pinto, 2017; Friganovic et al., 2017; Gomes, 2014; Khamisa, Oldenburg, Peltzer & Ilie, 2015; Marôco, Leite, Bastos, Vazão e Campos, 2016), sendo os enfermeiros os mais suscetíveis a tais vicissitudes (Friganovic et al., 2017). A temática do stress profissional integra-se nas estratégias de governação clínica como um processo de melhoria de qualidade envolvendo princípios fundamentais da excelência, como a orientação para os resultados, melhoria contínua e responsabilidade social e focalização na saúde e bem-estar das pessoas (Pisanti et al., 2015; Rodrigues e Felício, 2017; Silva, Cunha, Macedo e Nunes, 2017). O stress é considerado um fenómeno inerente à vida, tornando-se particularmente intenso e inevitável em contextos profissionais ligados à saúde (Costa e Pinto, 2017; Gomes, 2014; Khamisa et al., 2015) podendo assumir caráter não adaptativo e não transitório, com contornos mais intensos, persistentes e de desgaste e exaustão dos recursos, energias ou forças disponíveis para desempenhar o seu papel profissional nas condições adequadas com a melhor eficácia e eficiência, visando os resultados de qualidade que se desejariam – resultados dos cuidados de qualidade, segurança, satisfação, alcance de indicadores de produtividade e consequente efetividade. “O stresse relacionado com o trabalho é a resposta que as pessoas podem ter quando apresentadas a exigências e pressões do trabalho que não são compatíveis com os seus conhecimentos e habilidades e que desafiam a sua capacidade de coping” (Pinho, 2015, p.4). “O stresse é o segundo problema de saúde relacionado com o trabalho reportado com mais frequência, afetando, em 2005, mais de 20% de todos os trabalhadores dos 25 Estados-Membros da União Europeia (UE)” (p.5). A Direção Geral da Saúde ([DGS], 2013) tem evidenciado que a conjuntura atual tem “(…) conduzido à desmotivação dos trabalhadores, bem como à redução do estado de saúde e da realização pessoal e profissional, aspetos que se refletem e comprometem a eficácia no trabalho e potenciam o desencadear de situações, atitudes e comportamentos disfuncionais no trabalho Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 10

(ex. quadros de ansiedade, desânimo e de depressão).” (p.33) e que “(…) são de destacar as questões de saúde mental no âmbito dos riscos psicossociais, frequentemente relacionadas com o absentismo, o desemprego, a precariedade, a incapacidade prolongada, os níveis de desempenho e produtividade reduzidos, pouca motivação e elevada rotatividade dos trabalhadores.” (p.33). Friganović et al. (2017), apuraram que em ambientes hospitalares, um alto nível de stress pode levar à depressão, ansiedade, diminuição da satisfação no trabalho e menor lealdade à organização. Ferreira, Medeiros e Carvalho (2017), encontraram em profissionais sofrimento psíquico e doença, como enxaqueca, stress, raiva, fadiga física, depressão, dor nas pernas, varizes, hipertensão arterial, problemas nas costas, insatisfação e insónia. As principais fontes de stress profissional constituemse, em horários longos de trabalho, excesso de trabalho, pressões de tempo, hábitos deficitários de sono, elevadas expetativas de rendimento que tornam a margem de erro mínima, lidar com os clientes, carreira e remuneração (Gomes, 2014); supervisão precária, conflitos com os pares e com os clientes, elevadas exigências, horas extra, recursos inadequados, ambientes/contextos organizacionais, riscos de segurança e falta de suporte (Khamisa et al., 2015); desequilíbrio entre as exigências do trabalho e a preparação e aptidão para um local de trabalho, falta de controlo, reconhecimento de desempenho insuficiente e exposição prolongada a stress, exclusão do processo de tomada de decisão, riscos de segurança, relação de confiança com os superiores, pares e subordinados (Friganovic et al., 2017); lidar com a dor, doenças e morte, competitividade, transformações económicas, sociais e políticas, pressão laboral e económica (Costa e Pinto, 2017); precariedade das condições de trabalho e menor tempo de exercício profissional (Marôco et al., 2017). Pinho (2015) referiu como fatores de risco psicossociais no trabalho: o seu conteúdo, a carga, ritmo e horário de trabalho, ambiente e equipamentos, cultura e função organizacional, as relações interpessoais, papel na organização, desenvolvimento da carreira, novas formas de contratação e insegurança no trabalho, intensificação do trabalho, bem como fortes exigências emocionais no trabalho. Quando confrontada com situações perturbadoras e ameaçadoras a pessoa tende a reagir e o seu corpo tenta adaptar-se e ajustar-se, conduzindo a um fenómeno denominado coping – mecanismos dinâmicos comportamentais, cognitivos e emocionais que as


pessoas utilizam para mitigar as adversidades surgidas e responder às exigências sentidas (Costa e Pinto, 2017). As estratégias de coping identificadas reportam-se a vários níveis, como sendo o suporte social (o profissional tenta encontrar apoio para enfrentar as situações de stress), solução de problemas, autorregulação, evitamento/retraimento (procura o distanciamento das situações), confrontação, reavaliação positiva (o profissional reorganiza a situação para minimizar a carga emocional dos problemas) e a aceitação da responsabilidade. Estes mecanismos têm como objetivos alterar o problema que causa o stress e controlar a resposta emocional (Costa e Pinto, 2017). Torna-se importante o apoio entre chefes e subordinados para promover a competência, a auto estima e a realização do profissional. Russo, Pires, Perelman, Gonçalves e Barros (2017), apontaram o suporte social (laços familiares e estilo de vida), autorregulação / resiliência e reavaliação positiva como estratégias para lidarem com as condições vivenciadas (carga horária, remuneração, migração). Pisanti et al., (2015) estudaram a auto eficácia laboral como influenciando a resposta dos profissionais aos acontecimentos stressantes, ou seja, como estratégia de coping. Fida et al., (2018) também afirmam a autoeficácia como estratégia de coping tendo concluído que a mesma é um fator protetor contra o comportamento negativo no trabalho. Segundo a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (2012), os empregadores são legitimamente obrigados a gerir todos os tipos de riscos para a segurança e saúde dos colaboradores, incluindo os riscos para a sua saúde mental. O objetivo desta investigação consiste na avaliação das fontes de stress mais relevantes e das estratégias de coping usualmente utilizadas por profissionais de diversas áreas da saúde no desenvolvimento da sua atividade profissional. Pretende-se, assim, um melhor entendimento do problema do stress ocupacional em profissionais de saúde que constitui uma área de investigação de crescente interesse nos últimos anos. MÉTODOS Trata-se de um estudo de natureza quantitativa, descritivo e exploratório, com recurso a uma amostra de 85 profissionais de saúde. A técnica de amostragem utilizada foi por conveniência tendo-se recorrido ao efeito de “bola de neve”, através dos contactos dos investigadores.

A recolha de dados decorreu entre maio e junho de 2018 através de um questionário, disponibilizado online, que incluía questões de caracterização pessoal (sexo, idade, profissão e anos de experiência profissional) e questões incluídas em dois instrumentos previamente validados: i) o Questionário de Stress nos Profissionais de Saúde (QSPS), que inclui 25 itens que avaliam as potenciais fontes de stress no exercício da atividade profissional dos profissionais da saúde (Gomes, Cruz e Cabanelas, 2009; Gomes, Melo e Cruz, 2000); ii) e o Brief COPE (Carver et al., 1989; versão traduzida por Pais-Ribeiro e Rodrigues, 2004). O QSPS é constituído por duas partes destintas. Numa primeira parte é solicitado aos profissionais a avaliação do nível de stress sentido no exercício da sua atividades através de um único item, variando entre 0, correspondente a nenhum stress e 4, correspondente a elevado stress. A segunda parte é constituída por 25 itens (respondidos através de uma escala de cinco pontos de tipo Likert) referentes às fontes de stress a que os profissionais estão sujeitos. Os itens distribuem-se por seis subescalas: lidar com os clientes; relações profissionais; excesso de trabalho; carreira e remuneração; ações de formação e problemas familiares. O Brief COPE, na versão traduzida por Pais-Ribeiro e Rodrigues (2004), visa aferir as estratégias de coping, sendo composto por 28 questões distribuídas por 14 subescalas: coping ativo, planeamento, utilização de suporte instrumental, utilização de suporte social emocional, religião, reinterpretação positiva, auto-culpabilização, aceitação, expressão de sentimentos negação, auto-distração, desinvestimento comportamental, uso de substâncias e humor. As respostas são aferidas através de uma escala de quatro pontos de tipo Likert. Os dados recolhidos foram posteriormente tratados e analisados com recurso ao software SPSS. Ao longo da realização da investigação os autores orientaram a sua conduta pelo escrupuloso cumprimento do Código de Ética do Instituto Politécnico de Portalegre que constitui a declaração ética formal e referência orientadora das ações para todas as partes integrantes desta Instituição. Ao longo da investigação forão seguidos os requisitos éticos que devem regular a prática científica, todos os participantes serão convidados a participar de forma voluntária, sendo previamente informados do propósito da investigação, e dando-lhes a possibilidade de abandonar a investigação em qualquer altura e sem qualquer prejuízo pessoal. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 11


RESULTADOS A amostra foi constituída por 85 participantes (N=85, sendo 16,5% do género masculino e 83,5% do género feminino). O grupo etário com maior representatividade é o grupo entre os 40 e 49 anos de idade com 36,5% dos participantes, seguido do grupo etário ente os 30 e os 39 com 30,6%, do grupo com idade inferior a 30 anos com 17,9% dos resultados e por último a faixa etária entre os 50 e os 59 anos, com um valor de 15,3%. Do total da amostra, 68 são Enfermeiros (80,0%), 10 são Técnicos de Diagnóstico e Terapêutica (11,8%), 4 são Assistentes Sociais (4,7%) e 3 são Médicos (3,5%). Relativamente aos anos de experiência profissional a maioria (40,0%) centrou-se entre os 20 e 29 anos, seguido dos profissionais com menos de 10 anos de experiência (29,4%). No QSPS aponta para cinco itens que se destacam pelos valores médios elevados obtidos, apresentando-se por ordem crescente os mesmos: a falta de tempo para realizar adequadamente as minhas tarefas profissionais (M=2,67, d.p.=0,94); a sobrecarga ou excesso de trabalho (M=2,74; d.p.=0,94); tomar decisões onde os erros podem ter consequências graves para os meus clientes (M=2,84; d.p.=0,85); salário inadequado/insuficiente (M=2,85; d.p.=0,98) e receber um salário baixo (M=2,88; d.p.=0,91). Verifica-se que os itens associados ao excesso de trabalho e o lidar com os clientes, nomeadamente o que se associa ao erro na tomada de decisão e os da falta de tempo para realizar a tarefa adequadamente e sobrecarga, são os que desencadeiam mais stress, sendo apenas ultrapassados pelos aspetos remuneratórios. O item que apresenta menor valor médio face ao stress é a falta de apoio social e emocional fora do local de trabalho (família, amigos) (M=1,45; d.p.=1,05), depreendendo-se que, neste grupo de participantes, a falta de apoio fora do local de trabalho apresenta o menor contributo para desencadear stress nos profissionais de saúde. Com base nas respostas obtidas às 25 questões incluídas no QSPS foram elaboradas 6 subescalas (tabela 1) com o intuito de aferir o tipo de fontes de stress com maior expressividade na amostra. Os valores de Alpha de Cronbach, nas 6 subescalas de stress variaram entre 0,704 (Lidar com os clientes) e 0,876 (Carreira e remuneração), significando que existe um bom índice de confiabilidade na escala aplicada em todas as dimensões. Os resultados obtidos permitem constatar que as três dimensões mais associadas ao stress dos profissionais de saúde neste grupo de participantes são: Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 12

a carreira e remuneração (M=2,62; d.p.=0,83), o excesso de trabalho (M=2,60; d.p.=0,78) e lidar com os clientes (M=2,49; d.p.=0,65). Nas restantes, as relações profissionais surgem de seguida (M=2,16; d.p.=0,81), depois a dimensão ações de formação (M=1,94; d.p.=0,88) e finalmente os problemas familiares (M=1,84; d.p.=0,87). Tabela 1 - Resultados obtidos nas dimensões da escala de stress nos profissionais de Saúde (QSPS) (Gomes et al., 2009; Gomes et al. 2000) Alpha de Cronbach

M. (d.p.)

Lidar com os clientes

0,704

2,49 (0,65)

Excesso de trabalho

0,838

2,60 (0,78)

Carreira e remuneração

0,876

2,62 (0,83)

Relações profissionais

0,854

2,16 (0,81)

Ações de formação

0,745

1,94 (0,88)

Problemas familiares

0,812

1,84 (0,87)

No que diz respeito às estratégias de coping, os resultados obtidos através da escala Brief COPE revelaram que as mais valorizadas pelos participantes foram: tomar medidas para tentar melhorar a situação (M=2,17; d.p.=0,60); tentar encontrar uma estratégia que ajude o inquirido no que tem que fazer (M=2,17; d.p.=0,46); tentar analisar a situação de maneira diferente, de forma a torná-la mais positiva (M=2,09; d.p.=0,55); concentrar os esforços para fazer alguma coisa que permita enfrentar a situação (M=2,05; d.p.=0,54) e pensar muito sobre a melhor forma de lidar com situação (M=2,01; d.p.=0,52). Quanto às estratégias de coping menos utilizadas, destacam-se: refugiar-se no álcool ou noutras drogas (comprimidos, etc.) para se sentir melhor (M=0,05; d.p.=0,28) e o uso álcool ou outras drogas (comprimidos) para ajudar a ultrapassar os problemas (M=0,04; d.p.=0,26). Na tabela 2 são apresentados os resultados das 14 dimensões relativas às formas de lidar com o stress que decorrem da escala Brief COPE. De entre as diferentes formas de coping destacam-se: o coping ativo (M=2,11; d.p.=0,44); o planear (M=2,09; d.p.=0,39) e a reinterpretação positiva (M=2,04; d.p.=0,48). Na estratégia de coping relacionada com o planeamento registaram-se diferenças estatisticamente significativas entre homens (M=1,85) e mulheres (M=2,14) (U=345,0; p=0,040).


Tabela 2 - Resultados obtidos em cada dimensão da escala Brief COPE (C. Carver et al, 1989; versão traduzida por Pais-Ribeiro e Rodrigues, 2004) M. (d.p.) Coping ativo

2,11 (0,44)

Planear

2,09 (0,39)

reinterpretação positiva

2,04 (0,48)

Aceitação

1,81 (0,53)

Humor

1,46 (0,66)

Religião

1,07 (0,97)

Utilização do suporte emocional

1,77 (0,64)

Utilização do suporte instrumental

1,82 (0,62)

Autodistração

1,63 (0,61)

Negação

0,73 (0,56)

Expressão dos sentimentos

1,70 (0,63)

Uso de substâncias

,05 (0,26)

Desinvestimento comportamental

0,57 (0,56)

Autoculpabilização

1,25 (0,65)

Também ao nível da utilização do suporte emocional como estratégia de coping se registaram diferenças estaticamente significativas (U=303,6; p=0,017) entre homens (M=1,35) e mulheres (M=1,85). Relativamente à idade verificou-se uma correlação estatisticamente significativa relativamente ao recurso à religião (r=0,244; n=84; p=0,025) e ao suporte instrumental (r=-0,252; n=85; p=0,0,20). Os valores apresentados na tabela 3, relativos aos coeficientes de correlação entre as as fontes de stress e as estratégias de coping, permitem identificar correlações entre as várias das variáveis consideradas. Tabela 3 - Nível de correlação entre as fontes de stress e as estratégias de coping Lidar com os clientes

Excesso de Carreira e trabalho remuneração

Relações Ações de profissionais formação

Problemas familiares

Coping ativo

,017

-,031

,010

-,027

,032

,021

Planear

,086

,090

-,018

,052

-,047

,074

Reinterpretação positiva

-,233*

-,134

-,035

-,350**

-,023

-,159

Aceitação

-,052

-,124

-,258*

-,267*

,227*

-,143

Humor

-,004

,004

,028

-,197

,078

-,063

Religião

-,135

-,073

-,123

-,076

,075

,052

Utilização do suporte emocional

,076

-,019

-,030

,086

-,130

-,060

Utilização do suporte instrumental

,083

,062

,021

,175

,046

,096

Autodistração

,040

,048

-,052

-,109

,020

-,173

Negação

,078

,023

,169

,173

,131

,090

Expressão dos sentimentos

,195

,176

,209

,197

,065

,200

Uso de substâncias

,162

,088

,078

,141

,235*

,149

Desinvestimento comportamental

,215*

,280**

,244*

,281*

,226*

,328**

Autoculpabilização

,270*

,202

-,099

,057

,155

,105

* p<0,05

Os resultados obtidos revelam associações, estatisticamente significativas, de baixa intensidade e de sentido negativo entre a estratégia de coping reinterpretação positiva e as fontes de stress lidar com os clientes (r=-0,233) e as relações profissionais (r=-0,350). Segue a mesma tendência a relação entre a estratégia de coping aceitação com as fontes de stress carreira e remuneração (r=-0,258), relações profissionais (r=-0,267). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 13


Foi possível identificar associações, estatisticamente significativas, de sentido positivo entre a fonte de stress relacionada com ações de formação e as estratégias de coping aceitação (r=0,227) e uso de substâncias (r=0,235). De igual modo, o stress relacionado com o lidar com os clientes surge associado à estratégia de coping auto culpabilização (r=0,270). De entre as várias tendências identificadas destaca-se o modo como o desinvestimento comportamental apresenta associação estatisticamente significativa, de sentido positivo, com todas as fontes de stress consideradas no estudo. DISCUSSÃO Horários longos de trabalho, excesso de trabalho, sobrecarga, pressões de tempo, falta de tempo para realizar a tarefa adequadamente, elevadas expetativas de rendimento que tornam a margem de erro mínima, lidar com os clientes e carreira e remuneração, foram identificadas como fontes de stress pelos participantes envolvidos no estudo, corroborando a evidência apresentada (Costa e Pinto, 2017; Gomes, 2014; Khamisa et al., 2015; Pinho, 2015). Entre os resultados obtidos nesta investigação, destaca-se a forma como os profissionais de saúde incluídos na amostra identificam a carreira e a remuneração como os principais fatores geradores de stress que os afetam. Numa outra investigação Silva et al. (2017) salientam o forte impacto que um cenário desfavorável relativamente ao plano de carreira e ao salário tem na desmotivação dos profissionais. Em sentido contrário, os problemas familiares foram considerados, pelos participantes, como a fonte de stress com menor impacto no desempenho profissional. Apesar de em outras investigações (Khamisa et al., 2015) se salientar a importância da esfera doméstica como um fator a considerar em estudos sobre o stress profissional, os resultados obtidos nesta amostra revelam que a sua importância é relativizada quando comparada com os fatores intrínsecos ao trabalho. Uma análise atenta sobre as fontes de stress que afetam a população em estudo permite observar a existência de uma diversidade de potenciais fontes de tensão. Os dados obtidos corroboram as conclusões de outros estudos que evidenciam a particular vulnerabilidade dos profissionais de saúde ao stress ocupacional. A diversidade e especificidade de problemas que afetam estes profissionais, como a sobrecarga de trabalho e os aspetos associados à carreira e remuneração, Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 14

contribuem para a ocorrência de situações de stress que, quando não avaliadas e diagnosticadas, podem repercutir-se na qualidade da prestação de cuidados. Quanto às estratégias de coping mais valorizadas pelos participantes destacam-se o coping ativo; o planear; a reinterpretação positiva; a aceitação e o suporte emocional e instrumental, de um total de 14 dimensões, apontando para o que foi evidenciado por Costa e Pinto (2017) e Russo et al. (2017). O uso de substâncias foi a dimensão menos referida. Na estratégia de coping relacionada com o planeamento e a utilização do suporte emocional, registaram-se diferenças estatisticamente significativas entre homens e mulheres, evidenciando que as mulheres apresentam maior tendência para planear e necessitam de mais suporte emocional comparativamente aos homens. A estratégia de coping encontrada na literatura que faz alusão à questão de auto eficácia não foi avaliada pelo instrumento em causa apesar de surgir como fator protetor para os profissionais de saúde (Costa e Pinto, 2017; Fallatah et al., 2017; Fida et al., 2018; Pisanti et al., 2015). Tal pode ser considerado como uma limitação mas também uma oportunidade de melhoria no futuro em outros estudos de investigação. As estratégias de enfrentamento mais referidas pelos inquiridos são reveladoras de um comportamento tendencialmente proactivo perante as situações de stress. Os resultados obtidos salientam, assim, a predominância entre os profissionais de saúde de estratégias de natureza resolutiva e com potencial adaptativo positivo perante as situações críticas. CONCLUSÃO Identificaram-se como fontes principais de stress: carreira e remuneração, excesso de trabalho e lidar com os clientes e como estratégias de coping: o coping ativo, planear e reinterpretação positiva, acompanhando a evidência. O desinvestimento comportamental foi a estratégia de coping com maior associação às fontes de stress. Concluímos que, do exposto, deriva uma resposta relativamente consensual face ao stress em profissionais de saúde: o impacto negativo nesta, em particular na saúde mental, com as consequências adversas no que concerne a todo o processo de governação clínica, sendo premente a operacionalização de programas/intervenções organizacionais individuais e/ou grupais dirigidas ao desenvolvimento de estratégias de coping segundo várias abordagens, visando o diagnóstico de situação particular de acordo com a especificidade de cada organização/contexto.


IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Apontam-se como benefícios que podem derivar do estudo a aplicação prática da avaliação diagnóstica no sentido de criar projetos de atuação junto dos profissionais de saúde dando resposta às necessidades identificadas/avaliadas e o contributo para a divulgação de evidência e reforço de dados, com vista à melhoria de práticas de qualidade, e o apostar no bem-estar dos profissionais de saúde. Seria interessante replicar o estudo com amostra maior e em diferentes contextos, de forma a concretizar o referido atrás. Também a hipótese de aplicar diferentes instrumentos relacionados com as estratégias de coping explorando a questão da auto eficácia, dado que surge como fator protetor. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (2012). Promoção da saúde mental no local de trabalho Resumo de um relatório de boas práticas. Acedido em 31-03-2018. Disponível em: https://osha. europa.eu/pt/tools-and-publications/publications/ factsheets/102 Costa, B. R. C. e Pinto, I. C. J. F. (2017). Stress, Burnout and Coping in Health Professionals: A Literature Review. Journal of Psychology and Brain Studies, 1(1), 1-8. Disponível em: http://www.imedpub.com/ articles/stress-burnout-and-coping-in-healthprofessionals-a-literature-review.pdf Direção Geral da Saúde (2013). Programa Nacional de Saúde Ocupacional (PNSOC) – 2º Ciclo 2013/2017. Lisboa: DGS. Disponíevl em: https:// www.dgs.pt/pns-e-programas/programas-de-saude/ saude-ocupacional.aspx Ferreira, D. K. S., Medeiros, S. M. e Carvalho, I. M. (2017). Psychical distress in nursing worker: an integrative review. Cuidado é Fundamental Online, 9 (1), 253-259. Doi: 10.9789/2175-5361.2017.v9i1.253-258 Fida, R., Laschinger, H. K. S. & Leiter, M. P. (2018). The protective role of self-efficacy against workplace incivilityand burnout in nursing: A time-lagged study. Health Care Management Review, 43(1), 21–29. Doi: 10.1097/HMR.0000000000000126

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Artigo de Investigação

3

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0242

(IN)SATISFAÇÃO COM A IMAGEM CORPORAL E ATITUDES ALIMENTARES EM ESTUDANTES DO ENSINO SECUNDÁRIO | Maria de Lurdes Pires1; Adília Fernandes2; Ana Maria Pereira3 |

RESUMO CONTEXTO: A autoimagem é um conceito transversal a toda humanidade, muito ligada à identidade pessoal. A preocupação permanente com a imagem corporal, leva a que os jovens procurem alcançar a aparência física perfeita, podendo adotar atitudes alimentares disfuncionais, com implicações na sua saúde. OBJETIVOS: Avaliar as atitudes alimentares e a satisfação com a imagem corporal em estudantes do ensino secundário. MÉTODOS: Estudo observacional, analítico e transversal. Foram avaliados 184 alunos aos quais foi aplicado um questionário que incluía o Questionário de Silhuetas de Collins e a escala Children’s Eating Attitude Test validada para a população Portuguesa. Os dados foram tratados recorrendo-se ao programa SPSS, versão 22.0. RESULTADOS: Verificou-se que todas as dimensões da Children’s Eating Attitude Test apresentavam valores médios baixos traduzindo-se em comportamentos alimentares normais. A aplicação do Questionário de Silhuetas de Collins revelou que 38% dos adolescentes estava satisfeito com a sua imagem corporal. Os resultados da escala de Children’s Eating Attitude Test em função da satisfação com a imagem corporal indicam que as atitudes alimentares são estatisticamente distintas entre os jovens satisfeitos e não satisfeitos com a silhueta, especificamente nas dimensões cumprimento da dieta (p=0,004) e controlo da ingestão alimentar (p=0,033). CONCLUSÕES: Os resultados obtidos revelam a predominância de insatisfação com a imagem corporal dos jovens, assim como a existência de relação entre as atitudes alimentares e a satisfação corporal. Realça-se a necessidade de implementar estratégias multidisciplinares, não apenas direcionadas aos jovens, mas alargadas à dinâmica familiar. PALAVRAS-CHAVE: Alimentação; Imagem corporal; Estudantes

RESUMEN

ABSTRACT

“(In)satisfacción con la imagen corporal y actitudes alimentarias en estudiantes de la enseñanza secundaria”

“(Dis)satisfaction with corporal image and alimentary attitudes in high school students”

CONTEXTO: La autoimagen es un concepto transversal a toda la humanidad, muy ligada a la identidad personal. La preocupación permanente con la imagen corporal, lleva a que los jóvenes procuren alcanzar la apariencia física perfecta, pudiendo adoptar actitudes alimentarias disfuncionales, con implicaciones en su salud. OBJETIVOS: Evaluar las actitudes alimenticias y la satisfacción con la imagen corporal en estudiantes de enseñanza secundaria. METODOLOGÍA: Estudio observacional, analítico y transversal. Se evaluaron 184 estudiantes quienes se les aplicó un formulario que incluía el Cuestionario Siluetas Collins y la escala Children’s Eating Attitude Test validado para la población portuguesa. Los datos fueron tratados utilizando el programa SPSS, versión 22.0. RESULTADOS: Se verificó que todas las dimensiones de la Children’s Eating Attitude Test scale presentaban valores medios bajos, traduciéndose en comportamientos alimentarios normales. La aplicación del Cuestionario de Siluetas de Collins reveló que 38% de los adolescentes estaba satisfecho con su imagen corporal. Los resultados de la escala de Children’s Eating Attitude Test scale en función de la satisfacción con la imagen corporal indican que las actitudes alimenticias son estadísticamente distintas entre los jóvenes satisfechos y no satisfechos con la silueta, específicamente en las dimensiones cumplimiento de la dieta (p = 0,004) y control de la ingesta alimentaria (p = 0,004) p = 0,033). CONCLUSIONES: Los resultados obtenidos revelan la predominancia de insatisfacción con la imagen corporal de los jóvenes, así como la existencia de relación entre las actitudes alimenticias y la satisfacción corporal. Se destaca la necesidad de implementar estrategias multidisciplinares, no sólo dirigidas a los jóvenes, sino que se amplían a la dinámica familiar.

BACKGROUND: Self-image is a transversal concept to all humanity, closely related to personal identity. The ongoing concern with self-image causes young people to try to reach the perfect physical appearance, and they may adopt dysfunctional alimentary attitudes with effects on their health. AIM: To evaluate the alimentary attitudes and satisfaction with corporal image in high school students. METHODS: Observational, analytic and transversal study. 184 students were evaluated through an application form that included the Collins and the Children’s Eating Attitude Test scale validated for Portuguese population. The data was treated using the SPSS programme, 2.0 version. RESULTS: It was verified that all Children’s Eating Attitude Test scale dimension presented low medium value translated in normal nutritional habits. The application of the Collins Questionnaire has revealed that 38% of the teenagers was satisfied with their body image. The results from the Children’s Eating Attitude Test s scale according to the satisfaction with body image indicate that alimentary attitudes statistically different between the satisfied and non-satisfied young with their silhouette, specifically in the dimensions of diet compliance (p=0,004) and dietary intake control (p=0,033). CONCLUSIONS: The obtained results reveal the predominance of dissatisfaction with body image of young people, as well as the existence of a relation between the alimentary attitudes and corporal satisfaction. It is necessary to implement multidisciplinary strategies, not only directed to the young, but also the family dynamic.

DESCRIPTORES: Alimentación; Imagen corporal; Estudiantes

KEYWORDS: Feeding; Body image; Students Submetido em 30-12-2018 Aceite em 26-03-2019

1 Mestre; Enfermeira especialista em Enfermagem Comunitária; Enfermeira no Hospital de Dia da Unidade Local de Saúde do Nordeste, E.P.E., Unidade Hospitalar Bragança, Avenida Abade Baçal, 5301-852 Bragança, Portugal, nuspires@gmail.com 2 Doutora; Investigadora na Health Sciences Research Unit: Nursing (UICISA: E); Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, Departamento de Enfermagem, 5300-253 Bragança, Portugal, adilia@ipb.pt 3 Doutora; Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, Escola Superior de Saúde de Bragança, Departamento de Tecnologias de Diagnóstico e Terapêutica, Centro de Investigação de Montanha, 5300-253 Bragança, Portugal, amgpereira@ipb.pt Citação: Pires, M. L., Fernandes, A., & Pereira, A. M. (2020). (In)satisfação com a imagem corporal e atitudes alimentares em estudantes do ensino secundário. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 17-24. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 17


INTRODUÇÃO A Organização Mundial da Saúde (2000), tem-se pronunciado sobre a existência de desequilíbrios no comportamento alimentar e da sua estrita relação com a (in)satisfação com a imagem corporal, apelando a uma ideologia de responsabilização individual relativamente às atitudes alimentares dos jovens. Este tema adquire ainda mais pertinência por se tratar de um problema de saúde pública que pode perpetuar-se ao longo de toda a vida. A imagem corporal é construída por aquilo que o indivíduo vê no espelho e que estrutura mentalmente sobre si mesmo, dependente da aprovação dos “padrões estéticos” (Silva & Lange, 2010). Outro juízo, intimamente ligado com a imagem corporal é o autoconceito, que se define pelo conhecimento que o próprio indivíduo desenvolve sobre si mesmo. É um conceito multidimensional que pode ser dividido em três componentes básicos: o cognitivo, o afetivo e o comportamental. A componente cognitiva é vista como um conjunto de características que determina a sua personalidade e o seu comportamento, podendo ser ou não real e/ou objetiva. A componente afetiva abrange os sentimentos e as emoções que o próprio individuo sente por si mesmo. A componente comportamental refere-se ao juízo que o individuo faz sobre si mesmo (Martins, Nunes & Noronha, 2008). No que se refere aos adolescentes, Fitzgerald, Heary, Kelly e Nixon (2009) referem que os mesmos têm consciência que as escolhas alimentares têm impacto na sua imagem corporal. Segundo estes autores, existem oito fatores que determinam a opção alimentar das crianças e adolescentes, nomeadamente, o conhecimento, as preferências alimentares, as perceções de alimentação saudável, ambiente familiar, influência dos pares, influência da escola, publicidade alimentar e características do estilo de vida. Arcan et al. (2007) reforçam esta ideia, referindo que os jovens ao longo da adolescência alteram as suas dietas e estas podem ser influenciadas por vários fatores. Vaz, Silva, Rego e Viana (2010) referem que o padrão alimentar, que é traduzido pelas atitudes alimentares, é gerado por um processo de desenvolvimento e socialização. Este é o resultado de influências familiares e sociais, desde o seio familiar, conhecimento escolar, acesso à multiculturalidade e nível social. Existe uma grande pressão sociocultural que estabelece padrões de beleza e ideais de perfeição associados a silhuetas magras. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 18

Nesta linha de pensamento, os adolescentes tendem a procurar alcançar a aparência física perfeita tornando-se um problema quando buscam esse ideal. A troca de hábitos saudáveis por técnicas não saudáveis de controlo de peso pode desencadear distúrbios do comportamento alimentar (Martins et al., 2008). As atitudes alimentares disfuncionais afetam uma percentagem avultada da população adolescente e atualmente começam a manifestar-se em idades mais precoces e, por vezes, permanecem toda a vida, pelo que a deteção precoce e a prevenção desses problemas são de extrema importância e prioridade (Teixeira, 2014). MÉTODOS O estudo efetuado tem uma tipologia observacional, analítica, de paradigma quantitativo, num plano transversal. Para a realização do estudo foi obtida a autorização da Direção do Agrupamento de Escola Emídio Garcia a 7/11/2016, assim como autorização de todos os encarregados de educação para aplicação do instrumento de recolha de dados. A investigação respeita os princípios éticos e pressupostos implícitos na Declaração de Helsínquia e na Convenção de Oviedo. Para a análise e identificação da satisfação corporal e das atitudes alimentares foi aplicado um questionário que incluía o Questionário de Silhuetas de Collins (Simões, 2014) e a escala Children’s Eating Attitude Test (TAAc) validada para a população Portuguesa por Teixeira et al. (2012). O Questionário de Silhuetas de Collins é utilizado para avaliar a (in)satisfação com a imagem corporal das crianças e adolescentes. Esta escala é constituída por uma sequência de sete silhuetas femininas e/ou masculinas, desenvolvidas para ilustrar o peso corporal, alterando da silhueta menos volumosa (1-muito fina) para a mais volumosa (7-obesidade). Relativamente à escala de silhuetas, considera-se a variável classificação da imagem corporal como possibilidade de resposta: satisfeito ou não satisfeito. Na opção satisfeito, estão incluídos os alunos que manifestaram satisfação com o peso na variável imagem corporal e na opção não satisfeito, estão incluídos os alunos que manifestam vontade de ganhar ou perder peso na variável imagem corporal. A discrepância entre a imagem corporal real (imagem que considera mais parecida consigo atualmente) e ideal (imagem que gostaria de ter) é utilizada como indicador de insatisfação com a própria imagem (Simões, 2014).


O Teste de Atitudes Alimentares para Crianças (TAAc) tem 26 questões e é respondido através de uma escala tipo Likert com seis opções de resposta: “nunca”, “raras vezes”, “algumas vezes”, “muitas vezes”, “muitíssimas vezes” e “sempre”. As respostas sintomáticas são cotadas com (um) “muitas vezes”, (dois) “muitíssimas vezes” e (três) “sempre”. As respostas “nunca”, “raras vezes”, “algumas vezes” são cotadas com zero (Teixeira, 2014). O TAAc tem dois itens de cotação invertida (19 e 25). A pontuação total do TAAc é calculada somando a pontuação de cada item, quanto mais elevada for a pontuação global mais disfuncionais são as atitudes e comportamentos alimentares. A pontuação total do TAAc é calculada somando a pontuação de cada item, quanto mais elevada for a pontuação global mais disfuncionais são as atitudes e comportamentos alimentares (Teixeira, 2014). Considerou-se o valor igual ou superior a 20, na pontuação total, como ponto de corte para alterações severas do Comportamento Alimentar(CA); Scores ≥10 <20 são indicadores de alterações moderadas do CA e Scores <10 são indicadores de CA normal. O instrumento de recolha de dados foi entregue para preenchimento de forma direta à população da presente investigação, constituída por estudantes do 10.º, 11.º e 12.º ano de escolaridade de uma escola de Bragança durante o período compreendido entre janeiro e novembro de 2017. A população é constituída por 563 estudantes de ambos os sexos. A amostra do presente estudo é constituída por 184 adolescentes. Para a investigação optou-se por um processo de amostragem não probabilística, acidental. Os dados foram tratados informaticamente, recorrendo ao programa de tratamento estatístico Statistical Package for the Social Science (SPSS), na versão 22.0. Foram utilizadas frequências absolutas e relativas para descrever as variáveis qualitativas. As variáveis numéricas foram descritas através das medidas: média, desvio padrão, mediana e amplitude interquartil. Na comparação de grupos, atendendo à natureza das variáveis e ao facto de não se ter verificado, através do teste de Kolmogorov-Smirnov, a normalidade das mesmas, utilizaram-se os testes de Mann Whitney e Kruskal Wallis. Para medir a fiabilidade da escala utilizou-se o coeficiente de consistência Alpha de Cronbach. Em todas as análises considerou-se com significância estatística um valor de prova inferior a 5%. RESULTADOS Neste estudo participaram 184 alunos dos quais 45,11% (83) eram do sexo masculino e 54,89% (101) do sexo feminino, com idades médias de 16,61±1,09 e 16,62±0,88 anos respetivamente. Frequentavam o 10º ano 33,7% (62); 33,2% (61) o 11º ano e 33,2% (61) o 12º ano. Na caraterização da escala TAAc, constata-se uma consistência interna razoável, com exceção da dimensão Controlo da Ingestão Alimentar que apresenta coeficiente Alpha de Cronbach inferior a 0,6. Verifica-se em todas as dimensões da escala TAAc valores médios baixos, assim como os valores da mediana não revelando atitudes e comportamentos alimentares disfuncionais (Tabela 1). Tabela 1 - Resultados psicométricos obtidos através da aplicação da escala TAAc Itens

Alpha de Cronbach

Amplitude teórica

Média (desvio Coeficiente padrão) de variação

Mediana (amplitude interquartil)

Aspetos relativos ao cumprimento dieta

1, 6, 7, 10, 11, 12, 14, 16, 17, 22, 23, 24 e 25

0,788

0 - 39

4,10 (5,01)

122,30%

2 (5)

Preocupação com comida e bulimia

3, 4, 8, 18, 21 e 26

0,692

0 - 18

1,54 (2,62)

170,04%

0 (2)

Controlo da ingestão alimentar

2, 5, 9, 13, 15, 19 e 20

0,357

0 - 21

2,97 (3,16)

106,17%

2 (3)

TAAc

Todos

0,781

0 - 78

8,61 (8,20)

95,30%

6 (9)

No que concerne à caraterização dos itens da escala TAAc (Tabela 2), verifica-se que a maioria dos inquiridos afirmaram nunca ou raramente ter os comportamentos abordados, com exceção dos itens: “assusta-me ter peso a mais” em que se destacam as opções raramente (29,3%; 54) e algumas vezes (21,2%;39); “penso em comida grande parte do dia” onde se destaca as opções raramente (38,0%; 70) e algumas vezes (31,5%; 58); Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 19


“corto a minha comida em pequenos pedaços” onde a maioria respondeu raramente (30,4%;56) ou algumas vezes (30,4%; 56); “penso em queimar calorias quando faço exercício” com destaque para raramente (38,0%;70) e algumas vezes (20,1%;37); “consigo controlar-me com a comida” com frequências mais elevadas em raramente (27,2%;51) e muitíssimas vezes (20,7%;38) e “gosto de provar novas comidas apetitosas” em que a maioria respondeu que o faz muitíssimas vezes (21,7%;40) ou sempre (32,1%;59). Tabela 2 - Caraterização dos itens da escala TAAc Itens da escala

Frequência absoluta (frequência relativa %) Nunca n(%)

Raramente n(%)

Algumas Vezes n(%)

Muitas Vezes n(%)

Muitíssimas Vezes n(%)

Sempre n(%)

Mediana

Moda

1.Assusta-me ter peso a mais

29(15,8%)

54(29,3%)

39(21,2%)

24(13,0%)

14(7,6%)

24(13,0%)

3

2

2.Evito comer quando tenho fome

56(30,4%)

93(51,1%)

23(12,5%)

5(2,7%)

5(2,7%)

1(0,5%)

2

2

3.Penso em comida grande parte do dia 10(5,4%)

70(38,0%)

58(31,5%)

12(6,5%)

19(10,3%)

15(8,2%)

3

2

4. Tem havido vezes em que me sinto incapaz de parar de comer

30(16,3%)

92(50,0%)

37(20,1%)

12(6,5%)

9(4,9%)

4(2,2%)

2

2

5. Corto a minha comida em pequenos pedaços

12(6,5%)

56(30,4%)

56(30,4%)

32(17,4%)

11(6,0%)

17(9,2%)

3

2

6. Conheço as calorias dos alimentos que como

31(16,8%)

73(39,7%)

38(20,7%)

20(10,9%)

15(8,2%)

7(3,8%)

2

2

7. Evito alimentos como pão, batatas fritas e arroz

41(22,3%)

76(41,3%)

46(25,0%)

18(9,8%)

1(0,5%)

2(1,1%)

2

2

8. Sinto que os outros gostariam que eu comesse mais

48(26,1%)

67(36,4%)

42(22,8%)

9(4,9%)

11(6,0%)

7(3,8%)

2

2

9. Vomito depois de comer

108(58,7%)

67(36,4%)

5(2,7%)

2(1,1%)

1(0,5%)

1(0,5%)

1

1

10. Sinto-me culpado depois de comer

70(38,0%)

84(45,7%)

17(9,2%)

4(2,2%)

8(4,3%)

1(0,5%)

2

2

11. Penso muito sobre querer ser magro 34(18,5%)

71(38,6%)

43(23,4%)

15(8,2%)

8(4,3%)

13(7,1%)

2

2

12. Penso em comer calorias quando faço exercício

21(11,4%)

70(38,0%)

37(20,1%)

29(15,8%)

12(6,5%)

15(8,2%)

3

2

13. Os outros pensam que estou muito magro

43(23,4%)

73(39,7%)

36(19,6%)

14(7,6%)

12(6,5%)

6(3,3%)

2

2

14. Penso muito se tenho gordura no meu corpo

27(14,7%)

77(41,8%)

42(22,8%)

17(9,2%)

15(8,2%)

6(3,3%)

2

2

15. Demoro mais tempo que os outros a comer as refeições

21(11,4%)

76(41,3%)

32(17,4%)

21(11,4%)

11(6,0%)

23(12,5%)

2

2

16. Evito alimentos com açúcar

29(15,8%)

74(40,2%)

46(25,0%)

19(10,3%)

10(5,4%)

6(3,3%)

2

2

17. Como comida de dieta

58(31,5%)

81(44,0%)

27(14,7%)

9(4,9%)

9(4,9%)

0(0,0%)

2

2

18. Penso que a comida controla a minha vida

55(29,9%)

80(43,5%)

25(13,6%)

9(4,9%)

10(5,4%)

5(2,7%)

2

2

19. Consigo controlar-me com a comida

5(2,7%)

51(27,7%)

29(15,8%)

30(16,3%)

38(20,7%)

31(16,8%)

4

2

20. Sinto que os outros me pressionam para comer

46(25,0%)

92(50,0%)

29(15,8%)

8(4,3%)

7(3,8%)

2(1,1%)

2

2

21. Gasto demasiado tempo a pensar em comida

42(22,8%)

100(54,3%)

20(10,9%)

8(4,3%)

9(4,9%)

5(2,7%)

2

2

22. Sinto-me desconfortável depois de comer doces

59(32,1%)

67(36,4%)

31(16,8%)

13(7,1%)

7(3,8%)

7(3,8%)

2

2

23. Tenho andado a fazer dietas

66(35,9%)

69(37,5%)

25(13,6%)

14(7,6%)

8(4,3%)

2(1,1%)

2

2

24. Gosto de sentir o meu estômago vazio

79(42,9%)

76(41,3%)

18(9,8%)

6(3,3%)

4(2,2%)

1(0,5%)

2

1

25. Gosto de provar comidas apetitosas

3(1,6%)

31(16,8%)

21(11,4%)

30(16,3%)

40(21,7%)

59(32,1%)

5

6

26. Tenho impulso de vomitar depois de comer

104(56,5%)

65(35,3%)

9(4,9%)

4(2,2%)

1(0,5%)

1(0,5)

1

1

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 20


Verifica-se ainda que as atitudes alimentares são estatisticamente distintas entre os rapazes e as raparigas e que os alunos do 11º ano apresentaram resultados mais elevados, quer em termos médios quer em termos de dispersão de resultados, na dimensão aspetos relativos ao cumprimento da dieta (média de 4,66±6,21); na dimensão controlo da ingestão alimentar (média de 4,11±3,13) e na globalidade da escala (média de 10,26±9,41). Os alunos do 10º ano apresentaram os resultados mais baixos na dimensão aspetos relativos ao cumprimento da dieta (média de 3,58±4,03), na dimensão preocupação com comida e bulimia (média de 1,42±2,41) e na globalidade da escala (média de 7,66±7,33). As diferenças observadas são estatisticamente significativas na dimensão controlo da ingestão alimentar (Tabela 3). Tabela 3 - Caracterização da Escala TAAc em função das variáveis Sexo e Ano de Escolaridade Variáveis

Opção

Aspetos relativos ao cumprimento dieta

Preocupação com comida e bulimia

Controlo da ingestão alimentar

TAAc

Sexo

Masculino Média (d. padrão)

3,33(4,60)

1,47(2,76)

2,76(3,47)

7,55(7,91)

Feminino Média (d. padrão)

4,73(5,26)

1,59(2,51)

3,15(2,88)

9,48(8,38)

Mann-Whitney Valor prova (p)

0,027*

0,286

0,112

0,026*

10º ano Média (d. padrão)

3,58(4,03)

1,42(2,41)

2,66(3,52)

7,66(7,33)

11º ano Média (d. padrão)

4,66(6,21)

1,49(2,13)

4,11(3,13)

10,26(9,41)

12º ano Média (d. padrão)

4,07(4,58)

1,70(3,22)

2,15(2,43)

7,92(7,61)

Kruskal Wallis Valor prova (p)

0,732

0,797

0,000**

0,212

Ano de escolaridade

*significativo a 5%; **significativo a 1%

Após determinação da satisfação da imagem corporal através da diferença entre a silhueta atual e a silhueta desejada, verifica-se que 14,1% dos alunos inquiridos manifestaram desejo de ganhar peso, por outro lado, 47,8% deseja perder peso. Constata-se que 38% dos inquiridos referiu estar satisfeito com a imagem corporal atual (Tabela 4).

Verificou-se ainda que a satisfação com a silhueta não estava significativamente associada ao sexo do aluno em estudo, nem ao ano de escolaridade (Tabela 5). Tabela 5 - Caracterização da variável Satisfação com a Imagem Corporal em função das variáveis Sexo e Ano de Escolaridade

Variáveis

Classificação Silhuetas

Satisfeito n(%linha)

Tabela 4 - Caracterização da Escala TAAc em função das variáveis Sexo e Ano de Escolaridade Variáveis

Imagem corporal

Sexo Masculino

Feminino

n(%linha)

n(%linha)

n(%linha)

frequência relativa %

frequência relativa %

frequência relativa %

Ganho de 12(46,2%) peso 14,4%

14(53,8%)

26(100%)

13,9%

14,1%

Satisfação com peso Perda de peso Total

frequência relativa %

Total

35(50,0%)

35(50,0%)

70(100%)

42,2%

34,6%

38,0%

36(40,9%)

52(59,1%)

88(100%)

43,4%

51,5%

47,8%

83(45,1%)

101(54,9%) 184(100%)

100%

100%

100%

Sexo

Total

n(%linha)

n(%linha)

frequência relativa %

frequência relativa %

Masculino

35(42,2%)

48(57,8%)

83(100%)

50,0%

42,1%

45,1%

Feminino

35(34,7%)

66(65,3%)

101(100%)

50,0%

57,9%

54,9%

Total

70(38,0%)

114(62,0%)

184(100%)

100%

100%

100%

25(40,3%)

37(59,7%)

62(100%)

35,7%

32,5%

33,7%

25(41,0%)

36(59,0%)

61(100%)

35,7%

31,6%

33,2%

20(32,8%)

41(67,2%)

61(100%)

28,6%

36,0%

33,2%

83(45,1%)

101(54,9%)

184(100%)

Ano de 10º. ano escolaridade 11.º ano 12.º ano Total

Não Satisfeito

100% 100% *significativo a 5%; **significativo a 1%

Qui-quadrado Estatística teste (valor de prova) 1,092(0.296)

1,075 (0,584)

100%

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A análise dos resultados do que se refere à relação entre as atitudes alimentares e o grau de (in)satisfação com a imagem corporal em estudantes do ensino secundário (Tabela 6), permite constatar que os jovens não satisfeitos com a sua silhueta apresentaram resultados mais elevados nos aspetos relativos ao cumprimento da dieta (4,69±5,19); no controlo da ingestão alimentar (2,62±2,83) e na globalidade da TAAc (8,79±8,32). Na dimensão preocupação com comida e bulimia foram os alunos satisfeitos com a imagem que apresentaram maior valor médio e menor dispersão (1,64±2,53). As diferenças observadas revelaram que a dimensão cumprimento da dieta e controlo da ingestão alimentar são estatisticamente distintas entre os jovens satisfeitos e não satisfeitos com a sua silhueta. Tabela 6 - Caracterização da escala TAAc em função da variável Satisfação com a Imagem Corporal Variáveis

Opção

Aspetos relativos ao cumprimento dieta

Preocupação com comida e bulimia

Controlo da ingestão alimentar

TAAc

Satisfação com imagem corporal

Satisfeito Média(d. padrão)

3,13(4,57)

1,64(2,53)

2,54(3,57)

8,31(8,07)

Não Satisfeito Média(d. padrão)

4,69(5,19)

1,47(2,68)

2,62(2,83)

8,79(8,32)

Mann-Whitney Valor prova (p)

0,004**

0,330

0,033*

0,638

*significativo a 5%; **significativo a 1%

DISCUSSÃO No trabalho atual encontraram-se valores médios baixos, assim como os valores da mediana, em todas as dimensões da escala TAAc, o que se traduz em atitudes alimentares normais. Altos índices de atitudes alimentares foram encontrados no estudo de Krepp e Ferreira (2012), tal como no estudo de Teixeira (2014), realizado em Coimbra, onde numa amostra de 978 adolescentes, 12,33% apresentava atitudes alimentares disfuncionais. Comparativamente aos estudos supracitados, o estudo atual apresentou resultados indicativos de atitudes alimentares com valores de média e moda mais baixos. Verifica-se ainda que as atitudes alimentares são estatisticamente distintas entre os rapazes e as raparigas. Estes resultados são corroborados na literatura, onde se constata que as atitudes alimentares com valores mais elevados e consequentemente mais disfuncionais, são mais frequentes no sexo feminino (Gonzáles-Juárez et al., 2007; Maor, Savag, Dahan & Hermoni, 2006; Vilela, Lamounier, Dellaretti Filho, Barros Neto & Horta, 2004). No que diz respeito à satisfação com a imagem corporal, Zordão et al. (2015), referem que na adolescência a imagem corporal é frequentemente idealizada, não correspondendo à imagem real. A perspetiva ideal de beleza, muitas vezes associada ao sucesso, difundida pelos meios de comunicação social, pode desencadear um processo de negação culminando com a insatisfação corporal. No presente estudo, 62% dos adolescentes não estavam satisfeitos com a sua imagem corporal, observando-se ainda que a satisfação com a silhueta não estava significativamente associada ao sexo. Outros estudos têm concluído que jovens do sexo feminino apresentam maior insatisfação com a imagem corporal quando comparadas aos rapazes (Teixeira, 2014). No estudo de Marques et al. (2016), foram inquiridos 223 jovens, com idades compreendidas entre os 12 e os 19 anos constatando-se que 64,6% dos jovens estavam insatisfeitos com a imagem corporal, com uma maior prevalência para o sexo feminino. Os dados nacionais da saúde dos adolescentes portugueses (Health Behaviour in School - Aged Children (HBSC) 2014) apresenta valores mais baixos, onde 53,4% dos adolescentes afirmaram que não estavam a fazer dieta, porque estão satisfeitos com o seu peso. Os rapazes consideram mais frequentemente ter um corpo ideal. No que respeita aos dados da TAAc relativamente à satisfação com a imagem corporal as diferenças observadas apresentaram evidência estatística na dimensão cumprimento da dieta e controlo da ingestão alimentar.

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Laus, Costa e Almeida (2011), desenvolveram um estudo com o objetivo de avaliar as relações entre insatisfação com a aparência e atitudes alimentares em adolescentes concluindo que indivíduos insatisfeitos com a aparência têm preocupações anormais com relação à alimentação e peso, independentemente do gênero. No estudo efetuado por Krepp e Ferreira (2012), os resultados demonstraram um significativo número de adolescentes que apresentavam comportamentos alimentares de risco e uma alta prevalência de distorção corporal grave e moderada, observando que as adolescentes que apresentam distorção de imagem corporal possuem um risco significativo de ter um distúrbio alimentar, independente do grau de distorção. Ao examinar a escala TAAc verificou-se que os alunos do 11º ano apresentaram resultados mais elevados na globalidade da escala. No que concerne a este aspeto, Barry e Lipmann (1990) referem que a prevalência das distorções alimentares é variável consoante a idade. Os estudos de Teixeira (2008) e de Miotto, De Coppi, Freza e Preti (2003) corroboram o nosso estudo, constatando-se que a faixa etária dos 16-17 anos tinha valores mais elevados nos testes de atitudes alimentares. CONCLUSÃO Os adolescentes encontram-se na sua maioria (62%) insatisfeitos com a imagem corporal, apesar de se verificar em todas as dimensões da escala TAAc, valores médios e da mediana baixos, não revelando atitudes e comportamentos alimentares disfuncionais. As atitudes alimentares são diferentes entre os jovens satisfeitos e os não satisfeitos com a sua imagem corporal. Os resultados realçam a necessidade da implementação de estratégias e intervenções socioeducativas ao nível dos fatores que conduzem à insatisfação com a imagem corporal. Esta intervenção deve ser alargada à família, tendo em consideração que os primeiros anos de vida são fundamentais para o crescimento físico, desenvolvimento psicossocial, construção de identidade, e por consequentemente, para a aquisição de hábitos alimentares, que, de acordo com as atitudes e comportamentos da família, podem definir os futuros padrões de consumo. Como limitações deste estudo referimos o facto de não ter sido solicitado parecer de uma Comissão de Ética.

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Maor, N.R., Savag, S., Dahan, R., & Hermoni, D. (2006). Eating Attitudes among Adolescents. Israel Medical Association Journal, 8(9), 627-9. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17058414 Marques, M.I., Pimenta, J., Reis, S., Ferreira, L.M., Peralta. L., Santos, M.I. Santos, S., & Santos, E. (2016). (In)Satisfação com a imagem corporal na adolescência. Nascer e Crescer, 25(.4), 217-221. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_ abstract&pid=S0872-07542016000600004&lng=pt& nrm=iso

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Miotto, P., De Coppi, M., Freza, M., & Preti, A. (2003). The Spectrun of Eating Disorders: Prevalence in an Area of Northeast Italy. Psychiatr Research, 119, 14554. Doi: 10.1016/S0165-1781(03)00128-8

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Zordão, O.P., Barbosa, A., Parisi, T. S., Grasselli, C.S.M., Nogueira, D.A., & Silva, R.R. (2015). Associação da imagem corporal e transtornos alimentares em adolescentes em Minas Gerais. Nutrición Clínica y Dietética Hospitalaria, 35 (2), 48-56. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/ articulo?codigo=5137739


Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0243

4

ENGAGEMENT E SATISFAÇÃO DOS ENFERMEIROS DO PRÉ -HOSPITALAR | Márcio Silva1; Elisabete Borges2; Patrícia Baptista3; Cristina Queirós4 |

RESUMO CONTEXTO: O engagement e a satisfação no trabalho são fatores fundamentais na manutenção e aumento dos níveis de motivação dos trabalhadores, do seu bem-estar físico e psicológico e da qualidade de vida. OBJETIVO(S): Identificar os níveis de engagement e de satisfação no trabalho dos enfermeiros que trabalham nas ambulâncias Suporte Imediato de Vida (SIV) e a sua variação em função de variáveis sociodemográficas e laborais. MÉTODOS: Estudo quantitativo, descritivo-correlacional e transversal. Aplicou-se um questionário online a uma amostra de conveniência de 57 enfermeiros, com questões de caracterização sociodemográfica/laboral, de engagement (UWES, Schaufeli & Bakker, 2003) e da satisfação no trabalho (S20/23, Mélia & Peiró, 1989; Pocinho e Garcia, 2008). RESULTADOS: Encontraram-se valores médios de engagement de 4,8 (DP=1,0) e de satisfação no trabalho de 4,5 (DP=1,0). Os enfermeiros do sexo feminino e que não percecionam o seu trabalho como stressante apresentam mais engagement total e absorção; os que exercem funções nas SIV há menos de 1 ano apresentam maior dedicação. Menor perceção de stresse corresponde a mais satisfação total, satisfação com os benefícios e políticas da organização e satisfação com a participação. Engagement e a satisfação no trabalho correlacionam-se positivamente. CONCLUSÕES: Apesar de os enfermeiros apresentarem níveis elevados de engagement e moderados de satisfação no trabalho, é importante não deixar diminuir estes valores, sugerindo analisar os fatores que promovem a satisfação no trabalho de forma a ter enfermeiros motivados e comprometidos com as suas tarefas laborais. PALAVRAS-CHAVE: Engajamento no trabalho; Satisfação no trabalho; Organização e administração; Serviços médicos de emergência

RESUMEN

ABSTRACT

“Compromiso laboral y satisfacción laboral en enfermeros de emergencia pre-hospitalaria”

“Nurses’ engagement and job satisfaction at prehospital emergency care”

CONTEXTO: La motivación laboral y la satisfacción en el trabajo son factores clave para mantener y incrementar los niveles de motivación de empleados, su bienestar físico y psicológico y su calidad de vida. OBJETIVO(s): Identificar los niveles de motivación laboral y satisfacción laboral de enfermeros que trabajan en las ambulancias Soporte de Vida Inmediato (SIV) y su variación en función de las variables sociodemográficas y laborales. METODOLOGÍA: Estudio cuantitativo, descriptivo-correlacional y transversal. Se aplicó un cuestionario online línea para una muestra de conveniencia de 57 enfermeros, con cuestiones sobre caracterización demográfica/laboral, motivación laboral (UWES, Schaufeli & Bakker, 2003), y satisfacción laboral (S20/23, Mélia & Peiró, 1989; Pocinho e Garcia, 2008). RESULTADOS: Se encontraron valores promedios de motivación de 4.8 (DP=1.0) y satisfacción laboral de 4.5 (DP=1.0). Los enfermeros mujeres y los que no evalúan su trabajo como estresante, presentan mayor motivación total, absorción y vigor; aquellos que ejercen funciones en SIV a menos de 1 año presentan una mayor dedicación. Una menor percepción de estrés corresponde à más satisfacción, total, satisfacción con los beneficios y políticas de la organización, y satisfacción con la participación. Motivación laboral y satisfacción con el trabajo se correlacionan positivamente. CONCLUSIONES: Aunque las enfermeras presentan altos niveles de compromiso y moderados niveles de satisfacción en el trabajo, es importante no dejar que estos valores se disminuyan, lo que sugiere analizar los factores que promueven la satisfacción en el trabajo, intentando tener enfermeros motivados y comprometidos con sus tareas.

BACKGROUND: Engagement and job satisfaction are key factors in maintaining and increasing levels of motivation of employees, their physical and psychological well-being and their quality of life. Aim: To identify the levels of engagement and job satisfaction of nurses working in the ambulances Life Immediate Support (SIV) and their variation according socio-demographic and labour variables. METHODS: The study is quantitative, descriptive-correlational and crosssectional. We applied a questionnaire online to a convenience sample of 57 nurses, using questions about demographic/labour characterization, engagement (UWES, Schaufeli & Bakker, 2003), and job satisfaction (S20/23, Mélia & Peiró, 1989; Pocinho e Garcia, 2008). RESULTS: We found mean values of engagement of 4.8 (SD=1.0) and job satisfaction of 4.5 (DP = 1.0). The female nurses and those who not perceived their work as stressful, presented more overall engagement, absorption and vigour; those who work in SIV less than 1 year presented greater dedication. Minor stress perception corresponds to more total satisfaction, satisfaction with benefits and policies of the organization, and satisfaction with participation. Engagement and job satisfaction correlate positively. CONCLUSIONS: Although nurses presented high levels of engagement and moderate levels of job satisfaction, it is important to not let these values decrease, suggesting to analyze the factors that promote job satisfaction, trying to have nurses motivated and committed to their tasks.

PALABRAS CLAVE: Compromiso laboral; Satisfacción en el trabajo; Organización y administración; Servicios médicos de urgencia

KEYWORDS: Work engagement; Job satisfaction; Organization and administration; Emergency medical services Submetido em 30-12-2018 Aceite em 05-04-2019

1 Mestre; Enfermeiro no Instituto Nacional de Emergência Médica, Rua do Dr. Alfredo Magalhães, 62, 4000-233 Porto, Portugal, marciodanielsilva@gmail.com 2 Doutora; Professora na Escola Superior de Enfermagem do Porto, 4200-072 Porto Portugal, elisabete@esenf.pt 3 Doutora; Professora na Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem, 05403-000 São Paulo (SP), Brasil, pavanpati@usp.br 4 Doutora; Professora na Universidade do Porto, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, 4200-135 Porto, Portugal, cqueiros@fpce.up.pt Citação: Silva, M., Borges, E., Baptista, P., & Queirós, C. (2020). Engagement e satisfação dos enfermeiros do pré-hospitalar. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 25-30. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 25


INTRODUÇÃO

MÉTODOS

A saúde no trabalho privilegia a prevenção primária, com diminuição dos riscos profissionais e o desenvolvimento de ambientes de trabalho saudáveis, como base fundamental para ter trabalhadores saudáveis e motivados para o trabalho que desenvolvem. A evidência permite afirmar, que existe uma relação direta entre condições de trabalho, saúde e produtividade (Bakker, 2017; Borges, 2018). O conceito de engagement associado ao trabalho surge no âmbito do crescente interesse da psicologia positiva, que foca as forças humanas, o funcionamento ótimo e o bem-estar dos trabalhadores e consequentemente aumento da produtividade das empresas (Hosseinpour-Dalenjan, Atashzadeh-Shoorideh, Hosseini, & Mohtashami, 2017). A relação com os colegas de trabalho, a contribuição individual para o alcance dos objetivos da organização, o significado do trabalho, a oportunidade para colocar em prática competências e capacidades, a relação com o superior hierárquico, o trabalho em si mesmo e a estabilidade financeira da organização, são alguns fatores identificados como potenciadores de engagement no trabalho (Bakker & Demerouti, 2017) O conjunto de sentimentos negativos ou positivos vivenciados pelos trabalhadores em relação ao seu trabalho é conotado como satisfação, entendida como o equilíbrio experienciado pelo trabalhador entre uma necessidade e circunstâncias que a comprometem (Pocinho e Garcia, 2008) e constitui o elemento fundamental para a produtividade, organização interna e consequentemente sucesso das empresas. Nos enfermeiros o engagement relaciona-se com a satisfação no local de trabalho, constituindo um preditor desta (Orgambídez-Ramos & Borrego-Alés, 2017). Intervenções específicas permitem potenciar os níveis de engagement dos enfermeiros (Wingerden, Bakker, & Derks, 2016) contribuindo assim para um melhor nível de satisfação no trabalho, sendo de igual modo, um indicador de qualidade dos cuidados prestados e da qualidade de vida no trabalho destes profissionais (Orgambídez-Ramos & Borrego-Alés, 2017). Este estudo pretende identificar os níveis de engagement e de satisfação no trabalho dos enfermeiros que trabalham nas ambulâncias SIV e a sua variação em função de variáveis sociodemográficas e laborais.

Realizou-se um estudo de natureza quantitativa, descritivo-correlacional e transversal, com dados recolhidos entre janeiro e agosto de 2017. A população alvo deste estudo foram os 176 enfermeiros com vínculo profissional de emprego com o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e que trabalhavam nas ambulâncias SIV em Portugal continental. Aplicou-se um questionário on-line enviado a todos estes enfermeiros convidando-os a participar no estudo, dos quais responderam 57 enfermeiros, correspondendo a 32% da população, constituindo uma amostra de conveniência com recurso a uma técnica de amostragem não probabilística. Para o questionário on-line foi utilizado o instrumento de recolha de dados desenvolvido pelo grupo de investigação do projeto “INT-SO: Dos contextos de trabalho à saúde ocupacional dos profissionais de enfermagem, um estudo comparativo entre Portugal, Brasil e Espanha”, no qual se integrou este estudo. O questionário foi constituído por três partes: caracterização sociodemográfica/profissional dos enfermeiros, avaliação do engagement e avaliação da satisfação laboral. Como variáveis sociodemográficas e profissionais selecionou-se o estado civil, idade, habilitações académicas, tipo de contrato, perceção de stress no local de trabalho e tempo de experiência profissional. O engagement foi avaliado através da UWES, de 9 itens (Schaufeli & Bakker, 2003; Sinval, Pasian, Queirós, & Marôco, 2018) organizados nas três subescalas vigor, dedicação e absorção, e avaliados numa escala de likert de 7 pontos (0-nunca a 6-sempre); a valores mais altos corresponde um nível mais elevado de engagement. A satisfação com o trabalho foi avaliada através da S20/23 (Mélia & Peiró, 1989; Pocinho e Garcia, 2008), constituída por 23 Itens, cada um deles com 7 possibilidades de resposta (1= extremamente insatisfeito e 7=extremamente satisfeito), distribuídos por cinco fatores de satisfação com: supervisão, ambiente físico do trabalho, benefícios e políticas da organização, participação e satisfação intrínseca ao trabalho, sendo ainda calculada a satisfação total. Calculou-se a fidelidade da UWES e S20/23 com recurso ao coeficiente Alpha de Cronbach obtendo-se os valores nas escalas totais de 0,92 e 0,94, respetivamente.

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 26


Para a realização do estudo, obteve-se parecer favorável da Comissão de Ética da Escola Superior de Enfermagem do Porto (junho de 2016, sem número) e do Conselho Diretivo do INEM (janeiro de 2017, sem número). Os questionários enviados via online, pelo Enfermeiro Diretor do INEM, em março de 2017 foram preenchidos de acordo com a vontade expressa dos participantes, garantindo-se o anonimato e a confidencialidade dos dados. Dos participantes 53% eram do sexo masculino, com uma média de idades de 37,2 anos (DP=6,5, mínimo 25 e máximo 57 anos), 67% com parceiro/a e com filhos, e 79% possuía bacharelato/licenciatura. A média da experiência profissional foi de 13,5 anos (DP=11), 47% apresentaram tempo de exercício profissional nas ambulâncias SIV entre 6 e 10 anos e 81% considerava o seu trabalho stressante. RESULTADOS Relativamente ao engagement os enfermeiros apresentam uma média elevada (numa escala de 0 a 6 o engagement varia entre 4,57 e 5,11, sendo o engagement total de 4,8), no que se refere à satisfação no trabalho foram encontrados valores moderados (numa escala de 1 a 7 varia entre 3,81 e 5,55, com uma média de 4,5 para a satisfação total). Encontrou-se uma correlação positiva, estatisticamente significativa entre o engagement e a satisfação no trabalho (total e dimensões) dos enfermeiros das ambulâncias SIV (Tabela 1). Tabela 1 - Análise descritiva e correlacional do engagement e satisfação no trabalho.de personas mayores Escalas UWES (0-6)

S20/23 (1-7)

Dimensões

Média

Desvio Padrão

Vigor

Dedicação Absorção

Vigor

4,81

1,24

Dedicação

5,11

0,97

0,930**

Absorção

4,57

1,22

0,727**

0,725**

Engagement total

4,83

1,06

0,952**

0,946**

0,888**

Satisfação com a supervisão

4,54

1,40

0,479**

0,490**

0,393**

Satisfação com o ambiente de trabalho

4,56

1,37

0,421**

0,483**

0,322**

Satisfação com os benefícios e políticas da organização

3,81

1,26

0,520**

0,499**

0,346**

Satisfação intrínseca no trabalho

5,55

0,87

0,690**

0,714**

0,474**

Satisfação com a participação

4,32

1,42

0,603**

0,615**

0,473**

Satisfação total

4,53

1,02

0,649**

0,671**

0,486**

*p<0,05 **p<0,01

Verificaram-se diferenças estatisticamente significativas em função do sexo no engagement total (p=0,048) e absorção (p=0,008), e em função da perceção de stress no engagement total (p=0,020), vigor (p=0,029) e absorção (p=0,017), apresentando os enfermeiros do sexo feminino e os que não percecionam o seu trabalho como stressante valores superiores. Os enfermeiros mais dedicados são os que exercem funções nas SIV há menos de um ano. Quanto à satisfação no trabalho encontraram-se diferenças significativas em função da perceção de stress, nomeadamente na satisfação total (p=0,021), satisfação com os benefícios e políticas da organização (p=0,013) e satisfação com a participação (p=0,031), correspondendo os valores superiores aos enfermeiros que percecionam menos stress (Tabela 2).

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 27


Tabela 2 - Análise comparativa do engagement e satisfação no trabalho em função do sexo, perceção de stresse e tempo de serviço. Escalas

Variáveis

UWES Absorção

Sexo

Engagement total Vigor

Perceção de Stress no trabalho

Absorção Engagement total Dedicação

S20/23 Satisfação com os benefícios e políticas da organização

Tempo serviço

Perceção de Stress no trabalho

Satisfação com a participação Satisfação total

n

Mean Rank

U e H (p)

Masculino

30

23,5

241,000 (0,008**)

Feminino

27

35,1

Masculino

30

24,9

Feminino

27

33,6

Sim

46

26,7

Não

16

38,6

Sim

46

26,5

Não

16

39,6

Sim

46

26,5

Não

16

39,5

≤ 1 ano

10

40,7

>1 e ≤ 5 anos

20

28,3

≥ 6 e ≤ 10 anos

27

25,2

Sim

46

26,3

Não

11

40,1

Sim

46

26,9

Não

11

38,7

Sim

46

26,5

Não

11

39,4

281,500 (0,048*) 147,000 (0,029*) 136,500 (0,017*) 138,000 (0,020*) 6,703 (0,035*)

130,500 (0,013*) 146,500 (0,031*) 138,500 (0,021*)

*p<0,050 **p<0,010

DISCUSSÃO Encontrou-se um nível médio de engagement total e suas dimensões, predominando a dedicação por oposição à absorção, resultados corroborados pelos estudos de Borges, Abreu, Queirós, e Maio (2017) e de Maio, Borges, e Abreu (2018). Constatou-se também, na comparação entre grupos, a existência de diferenças estatisticamente significativas em função do sexo, com as mulheres a apresentarem valores superiores, dados concordantes com os estudos de Marques-Pinto, Jesus, Mendes e Fronteira (2015) e de Maio, Borges, e Abreu (2018), que verificaram que as enfermeiras possuem maior envolvimento com o trabalho do que os enfermeiros, provavelmente associado ao carácter cuidativo da profissão, no passado associado quase exclusivamente ao sexo feminino (Marques-Pinto et al., 2015). Além disso, o tipo de tarefa desempenhada pode implicar menor absorção, sem que isso signifique cuidados de menor qualidade, sendo de realçar a elevada dedicação. O stress associado ao trabalho foi a variável com valores estatísticos mais representativos, demostrando a importância que este fator adquire em contexto laboral, exigindo a definição de um programa de controlo Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 28

eficiente pelas organizações que permita combater esta realidade, pelos custos diretos e indiretos que daqui possam advir (Queirós, Borges, Teixeira, e Maio, 2018). Sabe-se que o stress no trabalho acarreta custos elevados às organizações de saúde no que respeita ao presentismo, absentismo, conflitos interpessoais, alta rotatividade, reivindicações e queixas, taxas de infeção e taxas de erros no tratamento dos utentes (Baldonedo, Mosteiro, Queirós, Borges, & Abreu, 2018). Relativamente à variável satisfação constatou-se que os participantes evidenciam um valor médio moderado, resultados similares aos apresentados por Gilles e colaboradores (2017), destacando-se maior satisfação intrínseca e menor satisfação com os benefícios e políticas da organização, o que pode explicar os elevados níveis de engagement e a correlação positiva elevada entre engagement e satisfação, estando a menor satisfação associada a variáveis de tipo organizacional mas de ordem mais macro (ex: políticas nacionais, redução de salários pela crise socio-económica, etc.) O stress associado ao trabalho dos enfermeiros foi uma das variáveis que revelou diferenças em algumas das dimensões da satisfação no trabalho, demonstrando a importância desta variável em contexto de


trabalho e a repercussão para a vida dos enfermeiros e qualidade dos cuidados prestados (EU-OSHA, 2017). O stress continua a ser desvalorizado em contexto laboral e tem trazido nos últimos anos inúmeras consequências para os trabalhadores e consequentemente para as organizações, sendo necessário o desenvolvimento de programas de redução do stress laboral com o objetivo de criar ambientes de trabalho seguros (Borges e Ferreira 2013; Queirós et al, 2018). É percetível a importância que a satisfação com os benefícios e políticas da organização (onde se incluem os salários) apresenta na perceção e manutenção da satisfação dos enfermeiros, sendo evidente que o fator salário condiciona os níveis de satisfação dos trabalhadores. Também a crise económica portuguesa (Cabral, Duarte, Silva, Gonçalves, e Silva, 2016) com inerentes repercussões no contexto laboral dos enfermeiros, entre outros, a escassez de recursos humanos, a sobrecarga de trabalho e os valores remuneratórios alvo de pesados impostos, poderão ter sido fatores facilitadores dos resultados encontrados no presente estudo. Assim, pode dizer-se que o engagement e a satisfação constituem indicadores chave da saúde no trabalho, estando positivamente correlacionados e influenciando de forma significativa o desempenho dos trabalhadores e, consequentemente, o sucesso das organizações (Bakker & Demerouti, 2017).

no sentido de refletir sobre o impacto da saúde mental do profissional na sua prática clínica, bem como de promover estratégias que contribuam para ambientes de trabalho seguros e saudáveis. Assim, no sentido de manter uma boa prática clínica é fundamental analisar os fatores que promovem a satisfação no trabalho e perceber se estes podem ser trabalhados pelas organizações, de forma a continuar a ter enfermeiros motivados e comprometidos com as suas tarefas laborais, assegurando assim cuidados de qualidade aos utentes e trabalhadores que do seu trabalho retiram satisfação intrínseca.

CONCLUSÕES

Baldonedo M., Mosteiro, P., Queirós. C., Borges, E., & Abreu, M. (2018). Stress no trabalho em enfermeiros: estudo comparativo Espanha/Portugal. International Journal on Working Conditions, 15, 67-80.

Os dados obtidos permitem concluir que os enfermeiros apresentam níveis elevados de engagement e moderados de satisfação no trabalho, evidenciando os enfermeiros do sexo feminino níveis superiores de engagement, e tendo-se verificado também que quanto maior o nível de stress menor a satisfação no trabalho. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Os resultados obtidos permitem refletir sobre a atividade laboral, nomeadamente através do engagement e da satisfação no trabalho, como fator importante para o bem-estar psicológico e saúde mental dos enfermeiros. Considerando que a falta de saúde mental do enfermeiro pode reduzir o seu desempenho profissional ou até mesmo facilitar a ocorrência de erros, importa constituir equipa multidisciplinares nas quais exista uma participação ativa dos enfermeiros

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (EU-OSHA). (2017). Stress e riscos psicossociais. Disponível em: https://eguides.osha.europa.eu/ stress/PT-PT/ Bakker, A. & Demerouti, E. (2017). Job demands– resources theory: taking stock and looking forward. Journal of Occupational Health Psychology, 22(3), 273-285. Doi: 10.1037/ocp0000056 Bakker, A. (2017). Strategic and proactive approaches to work engagement. Organizational Dynamics, 47, 67-77. Doi: 10.1016/j.orgdyn.2017.04.002

Borges, E. (Eds.) (2018). Enfermagem do trabalho. Formação, Investigação, Estratégias de Intervenção. (1ª ed.). Lisboa: Lidel - Edições Técnicas, Lda Borges, E. e Ferreira, T. (2013). Relaxamento: Estratégia de intervenção no stress. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, 10, 37-42. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1647-21602013000200006 Borges, E., Abreu, M., Queirós, C., e Maio, T. (2017). Engagement em enfermeiros: estudo comparativo entre Portugal Continental e Açores. International Journal on Working Conditions, 14, 155-166. Disponível em: https://comum.rcaap.pt/handle/10400.26/22367 Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 29


Cabral, L., Duarte, J., Silva, D., Gonçalves, A. & Silva, E. (2016). A situação de crise em Portugal e a saúde mental dos profissionais de saúde. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, (Spe. 3), 57-62. Doi: 10.19131/rpesm.0118 Gilles, I., Mayer, M., Courvoisier, N., & PeytremannBridevaux, I. (2017). Joint analyses of open comments and quantitative data: Added value in a job satisfaction survey of hospital professionals. PLoS ONE, 12(3), e0173950. Doi: org/10.1371/journal.pone.0173950 Hosseinpour-Dalenjan, L., Atashzadeh-Shoorideh, F., Hosseini, M. & Mohtashami, J. (2017). The Correlation Between Nurses’ Work Engagement and Workplace Incivility. Iranian Red Crescent Medical Journal, 19(4), e45413. Doi: 10.5812/ircmj.45413 Maio, T., Borges, E., e Abreu, M. (2018). Bullying and engagement among nurses. ROL Enfermeria, Suplemento Digital, 41(11-12), 222-230. Disponível em: https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/ibc179967 Marques-Pinto, A., Jesus, E., Mendes, A., Fronteira, I. (2015). Estudo RN4Cast em Portugal: Work Engagement dos Enfermeiros. Disponível em: https://www. researchgate.net/publication/277009976_Estudo_RN4Cast_em_Portugal_Work_Engagement_dos_Enfermeiros Meliá, J., & Peiró, J. (1989). El Cuestionario de Satisfacción S10/12: Estructura factorial, fiabilidad y validez. The S10/12 Job Satisfaction Questionnaire: Factorial structure, reliability and validity. Revista de Psicologia del Trabajo y de las Organizaciones, 4, (11), p.179-187. Disponível em: https://www.uv.es/meliajl/Research/ Art_Satisf/ArtS10_12.PDF

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 30

Orgambídez-Ramos, A. & Borrego-Alés, Y. (2017). Social support and engagement as antecedents of job satisfaction in nursing staff. Enfermería Global, 48, 217-225. Doi: 10.6018/eglobal.16.4.260771 Pocinho, M. e Garcia, J. (2008). Impacto psicossocial das tecnologias da informação e comunicação (TIC): Tecnostress, danos físicos e satisfação laboral. Acta Colombiana de Psicologia, 11 (2), p. 127-139. Disponível em: http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_artt ext&pid=S0123-91552008000200012 Queirós, C, Borges, E., Teixeira, A., e Maio, T. (2018). Estratégias de prevenção do stress, burnoute e bullying no trabalho. In: E. Borges (Eds.). Enfermagem do trabalho. Formação, Investigação, Estratégias de Intervenção (pp. 139-157). Lisboa: Lidel - Edições Técnicas, Lda. Schaufeli, W., & Bakker, A. (2003). UWES, Utrecht Work Engagement Scale, preliminary manual. Utrecht: Occupational Health Psychology Unit, Utrecht University. Sinval, J., Pasian, S., Queirós, C., & Marôco, J. (2018). Brazil-Portugal Transcultural Adaptation of the UWES-9: Internal Consistency, Dimensionality, and Measurement Invariance. Frontiers in Psychology, 9. Doi:10.3389/fpsyg.2018.00353 Wingerden, J. Bakker, A., & Derks, D. (2016). A test of a job demands-resources intervention. Journal of Managerial Psychology, 31(3), 686-701. Doi: 10.1108/JMP03-2014-0086


Artigo de Investigação

5

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0244

A FELICIDADE COMO CATALISADORA DOS NÍVEIS DE ANSIEDADE, DEPRESSÃO E STRESS NO ENSINO SUPERIOR | Ana Galvão1; Marco Pinheiro2; Celeste Antão3; Maria José Gomes4; Eugénia Anes5 |

RESUMO CONTEXTO: A felicidade como medida do bem-estar, tem vindo a ganhar importância na última década. Contudo, o mundo moderno, impõe cada vez mais exigências aos indivíduos, promovendo altos níveis de ansiedade, depressão e stress, que por sua vez podem influenciar negativamente a felicidade. OBJETIVO(S): Identificar os níveis de felicidade, ansiedade, depressão e stress dos docentes, pessoal não docente e estudantes do ensino superior; identificar relações entre a felicidade e a ansiedade, depressão e stress. MÉTODOS: Estudo transversal, descritivo, correlacional e inferencial. Amostra de 732 indivíduos de institutos politécnicos: 189 docentes; 121 pessoal não docente; e 422 estudantes. Utilizou-se um questionário online, com questões socioprofissionais, uma parte com o Oxford Happiness Questionnaire, e a terceira parte com a Escala de Ansiedade, Depressão e Stress. RESULTADOS: Verificou-se que o cluster dos alunos é o que apresenta menores níveis de felicidade e níveis superiores de Ansiedade, Depressão e Stress. O grupo com níveis mais elevados de felicidade é dos docentes (M=4.26; DP=.663), bem como em termos de Ansiedade (M=2.56; DP=3.022), Depressão (M=3.32; DP=3.667) e Stress (M=5.94; DP=4.109). Verificaram-se diferenças estatisticamente significativas para a felicidade entre os grupos e correlações negativas baixas a moderadas entre o nível de felicidade e as dimensões de saúde mental sob estudo. CONCLUSÕES: Verificou-se uma relação entre os níveis de ansiedade, depressão e stress e o nível de felicidade. Propomos que este estudo deverá ser aprofundado para identificar as possíveis causas que provocam o baixo nível de felicidade e os altos níveis de ansiedade, depressão e stress dos estudantes.

PALAVRAS-CHAVE: Felicidade; Ansiedade; Depressão; Stress psicológico

RESUMEN

ABSTRACT

“La felicidad como catalizador de los niveles de ansiedad, depresión y estrés en la enseñanza superior”

“Happiness as a catalyst for anxiety, depression and stress levels in higher education”

CONTEXTO: La felicidad como medida del bienestar, ha venido a ganar importancia en la última década. Sin embargo, el mundo moderno, impone cada vez más exigencias a los individuos, promoviendo altos niveles de ansiedad, depresión y estrés, que a su vez pueden influenciar negativamente la felicidad. OBJETIVO(S): Identificar los niveles de felicidad, ansiedad, depresión y estrés de los docentes, personal no docente y estudiantes de la enseñanza politécnica; identificar relaciones entre la felicidad y la ansiedad, la depresión y el estrés. METODOLOGÍA: Estudio transversal, descriptivo, correlacional e inferencial. Muestra de 732 individuos de enseñanza superior: 189 docentes; 121 personal no docente; y 422 estudiantes. Se utilizó un cuestionario online, con cuestiones socioprofesionales, una parte con el Oxford Happiness Questionnaire, y la tercera parte con la Escala de Ansiedad, Depresión y Stress. RESULTADOS: Se verificó que los alumnos son los que presentan menores niveles de felicidad y niveles superiores de Ansiedad, Depresión y Stress. El grupo con mejores niveles de felicidad es el grupo de los docentes (M = 4.26, DP = .663), así como en términos de Ansiedad (M = 2.56, DP = 3.022), Depresión (M = 3.32, DP = 3.667) Stress (M = 5.94, DP = 4.109). Se verificaron diferencias estadísticamente significativas para la felicidad entre varios grupos y correlaciones negativas bajas a moderadas entre el nivel de felicidad y las dimensiones de salud mental bajo estudio. CONCLUSIONES: Se verificó una relación entre los niveles de ansiedad, depresión y estrés y el nivel de felicidad. Proponemos que este estudio debe profundizarse para identificar las posibles causas que provocan el bajo nivel de felicidad y los altos niveles de ansiedad, depresión y estrés de los estudiantes.

BACKGROUND: Happiness as a measure of well-being has been gaining importance in the last decade. However, the modern world imposes more and more demands on individuals, promoting high levels of anxiety, depression and stress, which in turn can negatively influence happiness. AIM: To identify the levels of happiness, anxiety, depression and stress of teachers, non-teaching staff and students of higher education; to identify relationships between happiness and anxiety, depression and stress. METHODS: Cross-sectional, descriptive, correlational and inferential study. Sample of 732 individuals from polytechnic institutes: 189 teachers; 121 nonteaching staff; and 422 students. An online questionnaire was used, with socioprofessional questions, one part with the Oxford Happiness Questionnaire, and the third with the Anxiety, Depression and Stress Scale. RESULTS: It was verified that the students are those with lower levels of happiness and higher levels of Anxiety, Depression and Stress. The group with the highest levels of happiness is the group of teachers (M = 4.26, SD = .663), as well as in terms of Anxiety (M = 2.56, SD = 3.022), Depression (M = 3.32, SD = Stress (M = 5.94, SD = 4.109). There were statistically significant differences for happiness among several of the groups and low to moderate negative correlations between the level of happiness and the dimensions of mental health under study. CONCLUSIONS: There was a relationship between levels of anxiety, depression and stress and the level of happiness. We propose that this study should be deepened to identify the possible causes that cause the low level of happiness and the high levels of anxiety, depression and stress of the students.

DESCRIPTORES: Felicidad; Ansiedad; Depresión; Estrés psicológico

KEYWORDS: Happiness; Anxiety; Depression; Psychological stress Submetido em 30-12-2018 Aceite em 20-02-2019

1 Doutora; Psicóloga, Investigadora no Núcleo UICISA:E da Escola Superior de Saúde; Professora Coordenadora no Instituto Politécnico de Bragança, anagalvao@ipb.pt 2 Licenciado; Especialista em Gestão Empresarial; Docente Especialmente Convidado no Instituto Politécnico de Bragança, Portugal, mpinheiro@ipb.pt 3 Doutora; Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica; Investigadora no Núcleo UICISA:E da Escola Superior de Saúde; Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Bragança, Portugal, celeste@ipb.pt 4 Doutora; Enfermeira especialista em Enfermagem de Reabilitação; Investigadora no Núcleo UICISA:E da Escola Superior de Saúde; Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Bragança, Portugal, mgomes@ipb.pt 5 Doutora; Enfermeira especialista em Enfermagem Comunitária; Investigadora no Núcleo UICISA:E da Escola Superior de Saúde; Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Bragança, Portugal, eugenia@ipb.pt Citação: Galvão, A., Pinheiro, M., Antão, C., Gomes, M. J., & Anes, E. (2020). A felicidade como catalisadora dos níveis de ansiedade, depressão e stress no ensino superior. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 31-35. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 31


INTRODUÇÃO A felicidade como medida do bem-estar, tem vindo a ganhar importância nas últimas décadas, angariando não só o interesse na psicologia, mas também noutras áreas, como por exemplo a economia, onde inclusivamente há cada vez mais países a calcularem a Felicidade Interna Bruta além dos tradicionais dados económicos do país. Contudo, o mundo moderno impõe cada vez mais exigências aos indivíduos, promovendo altos níveis de ansiedade, depressão e stress, que por sua vez podem influenciar negativamente a felicidade e consequentemente o bem-estar. A felicidade é interpretada de várias formas na literatura relacionando-se com a satisfação com a vida, a alegria, o prazer, e/ ou o bem-estar subjetivo (Jalloh, Flack, & Chen, 2014). Outros estudos indicam que a felicidade pode ser classificada em três dimensões, sendo estas: a frequência e grau de comprometimento positivo; o nível médio de satisfação com a vida durante um período de tempo; e, a ausência de emoções negativas, como a ansiedade ou a depressão (Lu & Argyle, 1994). Existem evidências que a felicidade é uma das principais componentes da qualidade de vida em todas as idades, promovendo uma atitude positiva perante a vida, um autoconceito positivo, esperança, tentativa de alcançar metas, estabilidade nas relações sociais, satisfação com os outros, melhoria do trabalho em equipa e, em geral, uma melhoria da saúde mental (Lyubomirsky, Tkach, & DiMatteo, 2006). Além da saúde física e o sistema imunológico serem positivamente afetados pela felicidade foi encontrada uma correlação positiva entre a felicidade e o desempenho académico e/ou profissional. A felicidade reduz o esgotamento, principalmente em trabalhos stressantes (Keramati, 2014). MÉTODOS Objetivou-se identificar os níveis de felicidade, ansiedade, depressão e stress dos docentes, pessoal não docente e estudantes do ensino superior e possíveis diferenças entre grupos. Simultaneamente, identificar relações entre a felicidade e a ansiedade, depressão e stress. Procedeu-se a um estudo transversal, descritivo, correlacional e inferencial, numa amostra de 732 indivíduos de institutos politécnicos (no caso das Universidades dos Açores e Aveiro, os questionários só foram preenchidos por indivíduos do ensino superior politécnico que integram essas universidades), dos quais Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 32

703 (96%) portugueses, sendo 189 (25.8%) docentes, 121 (16.5%) pessoal não docente e 422 (57.7%) estudantes, conforme apresentado na Tabela 1. Tabela 1 - Caraterização Socioprofissional Docente

n

%

Instituto Politécnico de Bragança

45

23.8%

Instituto Politécnico de Leiria

59

31.2%

Instituto Politécnico de Lisboa

1

0.5%

Instituto Politécnico de Portalegre

35

18.5%

Instituto Politécnico de Santarém 27

14.3%

Instituto Politécnico de Viana do Castelo

5

2.6%

Instituto Politécnico de Viseu

12

6.3%

Universidade de Aveiro

1

0.5%

Universidade dos Açores

4

2.1%

Feminino

126

66.7%

Masculino

63

33.3%

12

9.9%

49

40.5%

24

19.8%

Instituto Politécnico de Santarém 24

19.8%

Instituto Politécnico de Viana do Castelo

3

2.5%

Instituto Politécnico de Viseu

7

5.8%

Universidade dos Açores

2

1.7%

Feminino

91

75.2%

Masculino

30

24.8%

Instituto Politécnico de Bragança

133

31.5%

Instituto Politécnico de Leiria

166

39.3%

Instituto Politécnico de Portalegre

8

1.9%

Pessoal não Instituto Politécnico de Bragança docente Instituto Politécnico de Leiria Instituto Politécnico de Portalegre

Estudante

Instituto Politécnico de Santarém 66

15.6%

Instituto Politécnico de Viana do Castelo

22

5.2%

Instituto Politécnico de Viseu

10

2.4%

Instituto Politécnico do Porto

1

0.2%

Universidade dos Açores

16

3.8%

Feminino

321

76.1%

Masculino

101

23.9%

Como instrumento de recolha de dados utilizou-se um questionário online, composto por uma parte com questões socioprofissionais, uma segunda parte com o Oxford Happiness Questionnaire (Hills & Argyle, 2002), um questionário de autorrelato de 29 itens, respondidos numa escala de Likert de 6 pontos, e a terceira parte com a Escala de Ansiedade, Depressão e


Stress (Lovibond & Lovibond, 1995) na sua versão portuguesa (Ribeiro, Honrado e Leal, 2004), uma escala de autorrelato de 21 itens, respondidos numa escala de Likert de 4 pontos, medindo as dimensões Ansiedade, Depressão e Stress, cada uma com 7 itens. O tratamento de dados foi efetuado através do software estatístico IBM SPSS, versão 23 para macOS. RESULTADOS Para dar resposta ao primeiro objetivo do presente estudo “identificar os níveis de felicidade, ansiedade, depressão e stress dos docentes, pessoal não docente e estudantes do ensino politécnico”, procedeu-se a uma análise descritiva dos dados, sendo apresentados na Tabela 2, as pontuações médias e respetivos desvios padrão para as quatro dimensões sob estudo: stress, ansiedade, depressão e felicidade, apresentadas pelos três grupos da nossa investigação: docentes, pessoal não docente e estudantes. Tabela 2 - Médias e DP por dimensão por situação ocupacional

Docente

Pessoal não docente Estudante

Total

Stress

Ansiedade

Depressão

Felicidade

M

5.94

2.96

3.21

4.26

DP

4.109

3.534

3.667

.662

n

189

189

189

189

M

6.74

4.13

4.62

4.01

DP

4.208

3.926

4.648

.670

n

121

121

121

121

M

7.57

4.98

5.14

3.93

DP

4.881

4.462

4.963

.742

n

422

422

422

422

M

7.02

4.32

4.56

4.03

DP

4.632

4.236

4.675

.724

n

732

732

732

732

Conforme pode ser observado pelos dados apresentados na Tabela 2, são os docentes que apresentam níveis mais baixos, em média, para as dimensões stress, ansiedade e depressão e o valor mais alto no que concerne a felicidade. O grupo que apresenta piores resultados em todas as dimensões são os estudantes, sendo que para as dimensões stress, ansiedade e depressão os resultados neste grupo são considerados “ligeiros”, numa classificação que tem cinco níveis: normal; ligeiro; moderado; severo; e extremamente severo (Psychology Foundation of Australia, 2018).

Também para o pessoal não docente, os níveis de ansiedade e depressão caem na classificação de “ligeiro”. Para medir a confiabilidade dos dados recolhidos, em relação às quatro dimensões sob estudo, foram calculados os alfas de Cronbach, sendo que os resultados apresentados na Tabela 3 mostram que as quatro dimensões mostram confiabilidade boa a excelente (>.90) (Cronbach, 1988). Tabela 3 - Confiabilidade das dimensões α Ansiedade

.863

Depressão

.910

Stress

.893

Felicidade

.916

Para dar resposta ao segundo objetivo: identificar possíveis diferenças entre grupos, procedeu-se a uma análise inferencial. Optou-se por aplicar o teste não-paramétrico de Kruskal-Wallis e Mann-Whitney, uma vez que, conforme demonstrado pelos testes de normalidade na Tabela 4, os dados da amostra apresentam uma distribuição não normal (sig<.05). Tabela 4 - Testes de normalidade Kolmogorov-Smirnova Shapiro-Wilk Estatística gl Stress

Sig.

Estatística gl

Sig.

.106

732 .000

.958

732

.000

Ansiedade .154

732 .000

.873

732

.000

Depressao .177

732 .000

.855

732

.000

Felicidade .036

732 .026

.992

732

.000

a. Correlação de Significância de Lilliefors

Optou-se por testes não-paramétricos seguindo as mais recentes recomendações a nível de tratamentos estatístico (Bishara & Hittner, 2012; Ghasemi & Zahediasl, 2012). Através dos testes de Kruskal-Wallis, foi possível identificar que, para todas as dimensões, existiam diferenças estatisticamente significativas entre pelo menos um par de grupos. Para identificar os pares onde essas diferenças eram um facto, aplicaram-se testes de Mann-Whitney, sendo os resultados apresentados na Tabela 5.

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 33


Tabela 5 - Testes de Mann-Whitney por Dimensão e Situação Dimensão Stress

Ansiedade

Depressão

Felicidade

Situação

M

Docente

5.94

Estudante

7.57

Docente

2.96

Estudante

4.98

Docente

2.96

Pessoal não docente

4.13

Docente

3.21

Estudante

5.14

Docente

3.21

Pessoal não docente

4.62

Docente

4.26

Estudante

3.93

Docente

4.26

Pessoal não docente

4.01

p. .000 .004 .000 .009 .000 .000 .003

Conforme observável na Tabela 5, as diferenças identificadas no nível de stress, são estatisticamente significativas para a combinação docente-estudantes (p<.001). No que concerne à dimensão ansiedade, as diferenças em valores são estatisticamente significativas para os pares docente-estudante (p=.004) e docente-pessoal não docente (p<.001). Em relação à dimensão depressão, os pares docente-estudante (p=.009) e docente-pessoal não docente (p<.001), são os que apresentam diferenças estatisticamente significativas. Finalmente, na dimensão felicidade são os pares docente-estudante (p<.001) e docente-pessoal não docente (p=003), que apresentam diferenças estatisticamente significativas. DISCUSSÃO Tal como noutros estudos, verificou-se uma relação entre os níveis de ansiedade, depressão e stress e o nível de felicidade dos indivíduos (Cipresso, Serino, & Giuseppe, 2014; Lyubomirsky et al., 2006; Schütz et al., 2013; Tarrahi & Nasirian, 2017) Também no que diz respeito aos estudantes, os nossos resultados estão em concordância com os de vários estudos existentes, onde igualmente foram apresentados níveis acima do recomendado para as dimensões ansiedade, depressão e stress (Galvão, Noné e Gomes, 2016; Galvão, Pinheiro, Gomes e Ala, 2017). Vários estudos internacionais encontraram resultados similares com níveis baixos

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 34

de felicidade entre os estudantes do ensino superior, como é o caso no presente estudo (Stewart, Watson, Clark, Ebmeier, & Deary, 2010; Tarrahi & Nasirian, 2017). CONCLUSÕES Verifica-se que em geral os docentes têm níveis de ansiedade, depressão e stress baixos e um nível de felicidade alto, ao contrário dos estudantes, que apresentam níveis consideravelmente piores nas quatro dimensões sob estudo, tornando-se evidente a importância que deve ser dada ao reforço da capacidade de resposta dos estabelecimentos de ensino superior na vertente das consultas de psicologia. Propomos que este estudo seja aprofundado para identificar as possíveis causas que provocam o baixo nível de felicidade e os altos níveis de ansiedade, depressão e stress dos estudantes, por forma a poder recomendar medidas a implementar. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Espera-se que este estudo possa contribuir para o conhecimento das necessidades desta população, em matéria de felicidade, depressão, ansiedade e stress, para, de alguma forma se poder refletir acerca de possíveis intervenções futuras. As instituições de ensino (neste caso superior) deverão encetar o delineamento de estratégias para melhorar, ou se possível reverter, os dados obtidos neste estudo. Só fortalecendo o conhecimento baseado na evidência científica é possível desenvolver ações de promoção da saúde em geral e prevenção da doença mental em particular. Os resultados encontrados sugerem a necessidade de apoio psicológico como promotor do bem-estar e da saúde mental positiva, pelo que a existência de um gabinete clinico nas respetivas instituições de ensino é uma aposta válida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Bishara, A. J., & Hittner, J. B. (2012). Testing the significance of a correlation with nonnormal data: Comparison of Pearson, Spearman, transformation, and resampling approaches. Psychological Methods, 17(3), 399–417. Doi: 10.1037/a0028087


Cipresso, P., Serino, S., & Giuseppe, R. (2014). The pursuit of happiness measurement: A psychometric model based on psychophysiological correlates. Scientific World Journal, 2014. Doi: 10.1155/2014/139128 Cronbach, L. J. (1988). Internal consistency of tests: Analyses old and new. Psychometrika, 53(1), 63–70. Doi: 10.1007/BF02294194 Galvão, A., Noné, A. R., & Gomes, M. J. (2016). Alcoholism and coping strategies among IPB students. In S. Jesus, Proceedings of the International Congress on Interdisciplinarity in Social and Human Sciences (165–171). Algarve: University of Algarve - CIEO – Research Centre for Spatial and Organizational Dynamics Galvão, A., Pinheiro, M., Gomes, M. J., & Ala, S. (2017). Ansiedade, Stress e Depressão Relacionados Com Perturbações do Sono-Vigília e Consumo de Álcool em Alunos do Ensino Superior. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, 5(spe5), 8–12. Doi: 10.19131/rpesm.0160 Ghasemi, A., & Zahediasl, S. (2012). Normality tests for statistical analysis: A guide for non-statisticians. International Journal of Endocrinology and Metabolism, 10(2), 486–489.Doi: 10.5812/ijem.3505 Hills, P., & Argyle, M. (2002). The Oxford Happiness Questionnaire: A compact scale for the measurement of psychological well-being. Personality and Individual Differences, 33(7), 1073–1082. Doi: 10.1016/S01918869(01)00213-6 Jalloh, A., Flack, T., & Chen, K. (2014). Measuring Happiness: Examining Definitions and Instruments. Illuminare, 12(1), 59–67. Disponível em: https:// scholarworks.iu.edu/journals/index.php/illuminare/ article/view/3635 Keramati, M. R. (2014). A comparison of health-related quality of life and job satisfaction in physically active and sedentary faculty members. International Journal of Education and Applied Sciences, 1(2), 68– 77.

Lovibond, P., & Lovibond, S. (1995). The structure of negative emotional states: Comparison of the Depression Anxiety Stress Scales (DASS) with the Beck Depression and Anxiety Inventories. Behaviour Research and Therapy, 33(3), 335–343. Doi: 10.1016/00057967(94)00075-u Lu, L., & Argyle, M. (1994). Leisure satisfaction and happiness as a function of leisure activity. The Kaohsiung journal of medical sciences, 10(2), 89–96. Doi:10.1016/0005-7967(94)00075-u Lyubomirsky, S., Tkach, C., & DiMatteo, M. R. (2006). What are the differences between happiness and selfesteem? Social Indicators Research, 78(3), 363–404. Doi: 10.1007/s11205-005-0213-y Psychology Foundation of Australia. (2018). Depression Anxiety Stress Scales - DASS. Disponível em: http://www2.psy.unsw.edu.au/dass/ Ribeiro, J. L. P., Honrado, A., & Leal, I. (2004). Contribuição para o estudo da adaptação portuguesa das Escalas de Ansiedade, Depressão e Dtress (EADS) de 21 itens de Lovibond e Lovibond. Psicologia, Saúde & Doenças, 5(2), 229–239.Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_ abstract&pid=S1645-00862004000200007&lng=pt&n rm=iso Schütz, E., Sailer, U., Al Nima, A., Rosenberg, P., Andersson Arntén, A.-C., Archer, T., & Garcia, D. (2013). The affective profiles in the USA: happiness, depression, life satisfaction, and happiness-increasing strategies. PeerJ, 1, e156. Doi: 10.7717/peerj.156 Stewart, M. E., Watson, R., Clark, A., Ebmeier, K. P., & Deary, I. J. (2010). A hierarchy of happiness? Mokken scaling analysis of the Oxford Happiness Inventory. Personality and Individual Differences, 48(7), 845–848. Doi: 10.1016/j.paid.2010.02.011 Tarrahi, M. J., & Nasirian, M. (2017). Happiness and risk behaviours in freshman students of Khorramabad Universities. Iranian Journal of Psychiatry and Behavioral Sciences, 11(2). Doi: 10.5812/ijpbs.7345

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 35


Revista Portuguesa de Enfermagem de SaĂşde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 36


Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0245

6

FELICIDADE, ANSIEDADE, DEPRESSÃO E STRESS EM BOMBEIROS PORTUGUESES | Nadine Afonso1; Ana Galvão2; Marco Pinheiro3;Maria José Gomes4 |

RESUMO CONTEXTO: Sabe-se que, devido à natureza do seu trabalho, os bombeiros, estão expostos a situações adversas, assim como a eventos potencialmente traumáticos, sendo considerados um grupo de risco. OBJETIVO(S): Objetivou-se estudar o nível de ansiedade, depressão e stress, bem como da felicidade; a relação entre a ansiedade, depressão e stress na felicidade; e a relação entre a autopercepção de felicidade e o nível de felicidade avaliada. MÉTODOS: Estudo transversal, descritivo, correlacional e inferencial, numa amostra de 312 bombeiros de 18 corporações de Trás-osMontes. Como instrumento de recolha de dados utilizou-se um questionário com questões socioprofissionais, a Escala Sobre a Felicidade (ESAF) e, a Escala de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS-21). RESULTADOS: Da análise de resultados, verificaram-se: níveis baixos de ansiedade, depressão e stress e, níveis de felicidade elevados; correlações positivas entre as dimensões ansiedade, depressão e stress e uma correlação negativa entre estas três dimensões e o nível de felicidade. A relação entre a autopercepção de felicidade e o nível de felicidade medida, mostra que os indivíduos que responderam consideraremse felizes, apresentam um nível de felicidade superior comparativamente àqueles que responderam não se considerarem felizes. CONCLUSÕES: Os bombeiros da amostra apresentam níveis de ansiedade, depressão e stress normais, de acordo com a classificação dos autores da escala EADS e níveis de felicidade elevados. PALAVRAS-CHAVE: Bombeiros; Stress Psicológico; Felicidade

RESUMEN

ABSTRACT

“Felicidad, ansiedad, depresión y estrés entre los bomberos portugueses”

“Happiness, anxiety, depression and stress among Portuguese firefighters”

CONTEXTO: Se sabe que, debido a la naturaleza de su trabajo, los bomberos, están expuestos a situaciones adversas, así como a eventos potencialmente traumáticos, siendo que se consideran un grupo de riesgo. OBJETIVO(S): Se objetivó estudiar el nivel de ansiedad, depresión y estrés, así como de la felicidad; la relación entre la ansiedad, la depresión y el estrés en la felicidad; y la relación entre la autopercepción de felicidad y el nivel de felicidad evaluada. METODOLOGÍA: Estudio transversal, descriptivo, correlacional e inferencial, en una muestra de 312 bomberos de 18 corporaciones de Trás-osMontes. Como instrumento de recogida de datos se utilizó un cuestionario con cuestiones socioprofesionales, la Escala sobre la Felicidad (ESAF) y la Escala de Ansiedad, Depresión y Stress (EADS-21). RESULTADOS: Del análisis de resultados, se verificó: niveles bajos de ansiedad, depresión y estrés y niveles de felicidad altos; las correlaciones positivas entre las dimensiones ansiedad, depresión y estrés y una correlación negativa entre estas tres dimensiones y el nivel de felicidad. La relación entre la autopercepción de felicidad y el nivel de felicidad medida, muestra que los individuos que respondieron sentirse felices, presentan un nivel de felicidad superior en comparación a aquellos que respondieron no sentirse felices. CONCLUSIONES: Los bomberos de la muestra presentan niveles de ansiedad, depresión y estrés normales, de acuerdo con la clasificación de los autores de la escala EADS y niveles de felicidad altos.

BACKGROUND: It is known that, due to the nature of their work, firefighters are exposed to adverse situations, as well as potentially traumatic events, and are considered a risk group. AIM: The objective was to study the level of anxiety, depression and stress, as well as happiness; the relationship between anxiety, depression and stress in happiness; and the relationship between self-perception of happiness and the level of happiness assessed. METHODS: A cross-sectional, descriptive, correlational and inferential study was carried out on a sample of 312 firefighters from 18 Trás-osMontes corporations. As data collection instrument, a questionnaire with socio-professional questions, the Scale about Happiness (ESAF) and the Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS-21) were used. RESULTS: From the analysis of results, there were: low levels of anxiety, depression and stress and, high levels of happiness; positive correlations between the dimensions anxiety, depression and stress and a negative correlation between these three dimensions and the level of happiness. The relationship between the self-perception of happiness and the level of happiness measured shows that the individuals who responded that they felt happy, present a level of happiness superior to those who considered themselves not to feel happy. CONCLUSIONS: Firefighters in the sample have normal levels of anxiety, depression and stress, according to the authors’ EADS rating and high levels of happiness.

DESCRIPTORES: Bomberos; Estrés Psicológico; Felicidad

KEYWORDS: Firefighters; Psychological stress; Happiness Submetido em 30-12-2018 Aceite em 26-02-2019

1 Mestre; Psicóloga Estagiária na Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Bragança, Portugal, nadineteigaafonso@hotmail.com 2 Doutora; Psicóloga; Investigadora no Núcleo UICISA:E da Escola Superior de Saúde; Professora Coordenadora no Instituto Politécnico de Bragança, Portugal, anagalvao@ ipb.pt 3 Licenciado; Especialista em Gestão Empresarial; Docente Especialmente Convidado no Instituto Politécnico de Bragança, Portugal, mpinheiro@ipb.pt 4 Doutora; Enfermeira especialista em Enfermagem de Reabilitação; Investigadora no Núcleo UICISA:E da Escola Superior de Saúde; Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Bragança, Portugal, mgomes@ipb.pt Citação: Afonso, N., Galvão, A., Pinheiro, M., & Gomes, M. J. (2020). Felicidade, ansiedade, depressão e stress em bombeiros portugueses. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 37-42. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 37


INTRODUÇÃO Em Portugal, existiam, oficialmente, 27.657 bombeiros, distribuídos por 466 corporações de bombeiros (PORDATA, 2017b, 2017a). São imputadas aos bombeiros as mais diversas funções, de onde podemos destacar “a proteção de vidas humanas e bens em perigo, mediante a prevenção e extinção de incêndios, o socorro de feridos, doentes ou náufragos, e a prestação de outros serviços previstos nos regulamentos internos e demais legislação aplicável.” (Autoridade Nacional de Proteção Civil, 2018, s/p). Sabe-se que, devido à natureza do seu trabalho, os bombeiros, estão expostos a situações adversas, assim como a eventos potencialmente traumáticos, podendo estes fatores afetar o bem estar psicológico destes indivíduos (Bacharach, Bamberger & Doveh, 2008; van der Ploeg & Kleber, 2003). Neste contexto, a Organização Mundial de Saúde (WHO, 2001) refere que saúde não significa apenas a ausência de doença ou enfermidade, mas também, possuir um estado de completo bem-estar físico, social e mental, bem-estar esse que, segundo as evidências científicas, é posto em causa. A este respeito, os estudos referem, de igual modo, que os efeitos negativos sobre o bem estar psicológico, resistem ao longo do tempo, podendo levar meses ou até anos a diminuir para níveis aceitáveis (van der Ploeg & Kleber, 2003). De notar que, tal como as vítimas primárias ou diretas à exposição, também as vítimas secundárias, como é o caso dos Bombeiros, têm necessidade de apoio e acompanhamento psicológico, por serem confrontados com situações de adversidade experienciadas por outros, porém tem sido descurado o estudo destas últimas (Bacharach et al., 2008; van der Ploeg & Kleber, 2003). Estudos científicos concluem que a saúde e a felicidade estão diretamente relacionadas, isto é, a felicidade afeta a saúde e a saúde afeta a felicidade, assim como referem que o impacto da felicidade na saúde física e mental pode contribuir para a prevenção de perturbações como a depressão e a ansiedade, e pode neutralizar o possível impacto prejudicial provocado por emoções negativas no nosso organismo (Kageyama, 2012; Seligman, Rashid, & Parks, 2006). A felicidade poderá assim, desempenhar efeitos de prevenção no que diz respeito à área da promoção do bem-estar em geral e consequentemente na saúde mental e ainda, níveis elevados de felicidade que são associados ao aumento de várias capacidades, tais como, resiliência, Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 38

concentração e criatividade (Seligman et al., 2006). As exigências profissionais em bombeiros resultam em exaustão emocional e, consequentemente, intensificam o conflito trabalho-família. As longas horas de trabalho, stress e perturbações dos padrões do sono-repouso e dificuldades em dormir são consideradas pelos bombeiros como influenciadores na insatisfação parental, favorecendo o consumo de álcool compulsivo, mal-estar mental, tabagismo, depressão, mal-estar físico, uso excessivo de cafeína e má relação interpessoal (Bacharach et al., 2008; Basinska & Wiciak, 2012). Há ainda um outro conjunto de estudos os quais referem que a felicidade parece exercer um efeito preventivo ao invés de curativo, sendo assim um fator importante na saúde pública (Veenhoven, 2008). Neste sentido, a pertinência do presente estudo prende-se com o facto de existir uma necessidade de maior entendimento nesta população em particular no que diz respeito à felicidade. MÉTODOS Objetivou-se avaliar o nível de ansiedade, depressão e stress, bem com da felicidade, nos bombeiros da amostra; avaliar a relação entre a ansiedade, depressão e stress na felicidade; e, avaliar se existe diferença entre os indivíduos com uma autoperceção de felicidade positiva e os indivíduos com uma autoperceção de felicidade negativa, no que concerne e o nível de felicidade avaliada. Como Instrumento de Recolha de Dados, foi utilizado um questionário composto por três partes. A primeira parte integra questões sociodemográficas, profissionais e económicas, tais como: idade, localidade, nacionalidade, sexo, escolaridade, situação profissional, parentalidade, estado civil e classificação de saúde, situação económica e felicidade. A segunda parte integra a escala de ansiedade, depressão e stress (EADS-21), uma escala de autorrelato composto por 21 itens, divididos de modo igual e distribuídos por três subescalas: ansiedade, depressão, e stress, que são respondidas, tendo em conta a última semana, numa escala de Likert que varia de 0 (não se aplica nada a mim) a 3 (aplicou-se a mim a maior parte das vezes), em que uma pontuação mais elevada diz respeito a estados afetivos mais negativos. A escala foi desenvolvida por Lovibond & Lovibond (1995) e adaptada e validada para Portugal por Ribeiro, Honrado e Leal (2004).


A terceira e última parte a Escala Sobre a Felicidade (ESAF) desenvolvida por Barros de Oliveira (2001), uma escala de autorrelato, composta por 18 itens e respondida através de uma escala de Likert de cinco pontos significando 1 “totalmente em desacordo” e 5 “totalmente de acordo”. A pontuação total pode variar entre o máximo de felicidade (90) e, o mínimo de felicidade (18), obtendo estes valores através do somatório das pontuações atribuídas a cada um dos 18 itens. Os dados foram recolhidos nos quartéis de bombeiros, mais precisamente, pertencentes às regiões de TrásOs-Montes e Alto Douro: Bragança, Izeda, Macedo de Cavaleiros, Vinhais, Mirandela, Vila Real, Sabrosa, Alijó, Amarante, Vimioso, Miranda do Douro, Sendim, Alfandega da Fé, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta, Torre de Moncorvo, Vila Flor e Carrazeda de Ansiães. Foram atendidos os procedimentos éticos ao longo da investigação, evidenciados na Declaração de Helsínquia, estes foram garantidos através de pedido de autorização em todas as Corporações de Bombeiros, da confidencialidade e anonimato da informação dos participantes, veracidade das informações facultadas através de consentimento informado, bem como através de imparcialidade, objetividade e confiabilidade. Na Tabela 1 apresenta-se a caraterização da amostra, composta por 312 respondentes, dos quais 240 (76.9%) são do sexo masculino, o grupo etário mais representado é de 25 ou menos anos (n=66; %=21.2), a maioria tem o ensino básico ou secundário concluído (n=232; %=74.4), 147 (47.1%) dos respondentes são casados ou vivem em união de facto e a maioria tem filhos (n=169; %=54.2). Procedeu-se a um estudo transversal, descritivo, correlacional e com recurso à inferência estatística. RESULTADOS A análise descritiva que desenvolvemos na primeira parte, permitiu-nos ir ao encontro do primeiro objetivo, ou seja: avaliar o nível de ansiedade, depressão e stress, bem como da felicidade, nos bombeiros da amostra. Assim, calcularam-se as médias e desvios padrão das pontuações em cada uma das quatro dimensões sob estudo: Ansiedade, Depressão, Stress e Felicidade, dividindo a amostra entre os respondentes que consideram ser felizes e os que não se consideram ser felizes, uma vez que a autopercepção de felicidade, é uma das variáveis independentes a partir das quais se pretende também efetuar uma análise inferencial.

Tabela 1 - Caraterização Sociodemográfica da Amostra

Sexo

Grupo etário

Escolaridade

Estado_civil

Tem_filhos

n

%

Feminino

72

23.1%

Masculino

240

76.9%

Total

312

100.0%

<= 25

66

21.2%

26 – 30

61

19.6%

31 – 37

65

20.8%

38 – 44

65

20.8%

45+

55

17.6%

Total

312

100.0%

Sem escolaridade

2

0.6%

Sabe ler e escrever

2

0.6%

Ensino Primário

19

6.1%

Ensino Básico e/ou Secundário

232

74.4%

Curso Superior

57

18.3%

Total

312

100.0%

Solteiro

143

45.8%

Casado/União de facto

147

47.1%

Divorciado/Separado

20

6.4%

Viúvo

2

0.6%

Total

312

100.0%

Sim

169

54.2%

Não

143

45.8%

312

100.0%

Os resultados desta primeira análise encontram-se na Tabela 2. Tabela 2 - Pontuações Médias e DP, por “Considera-se feliz?”

Sim

Não

Ansiedade

Depressão

Stress

Felicidade

M

3.47

3.39

5.28

78.01

DP

5.101

4.766

5.018

9.871

N

299

299

299

299

M

7.08

10.62

9.92

61.85

DP

7.433

7.805

7.643

9.424

N

13

13

13

13

M

3.62

3.69

5.47

77.34

5.252

5.119

5.220

10.356

312

312

312

312

Total DP

N

Conforme pode ser observado na Tabela 2, os bombeiros da nossa amostra, apresentam, em média, níveis de ansiedade, depressão e stress baixos, de acordo com o definido pelos autores da escala original (Lovibond & Lovibond, 1995). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 39


Já no que diz respeito à felicidade, a amostra, em média, apresenta uma pontuação bastante alta (M=77.34; DP=10.356) e mesmo os respondentes que não consideram ser felizes, pontuam, em média, 61.85 (DP=9.424), substancialmente acima de metade da escala que se situa nos 36 pontos. Para responder ao segundo objetivo: avaliar a relação entre a ansiedade, depressão e stress na felicidade, procedeu-se a uma análise correlacional, utilizando para o efeito o cálculo do Rho de Spearman, uma medida de correlação não-paramétrica, uma vez que a distribuição dos dados das quatro dimensões apresentavam uma distribuição não normal, de acordo com o teste de Shapiro-Wilk, seguindo as mais recentes recomendações na área da estatística (Bishara & Hittner, 2012; Ghasemi & Zahediasl, 2012). Os resultados desta análise são apresentados na Tabela 3. Tabela 3 - Correlações - Rho de Spearman Ansiedade Depressão Felicidade

Stress .700** .673** -.425**

Ansiedade

Depressão

.604** -.333**

-.416**

**. A correlação é significativa no nível 0,01 (bilateral).

De acordo com os dados apresentados na Tabela 3, podemos concluir que, em conformidade com a literatura existente (Gideon & Rummel, 2006), existem correlações positivas moderadas a fortes e estatisticamente significativas entre a ansiedade, depressão e stress e correlações negativas moderadas a fracas entre as três dimensões aqui mencionadas e a felicidade. Finalmente, para dar resposta ao nosso terceiro objetivo: “avaliar se existe diferença entre indivíduos com uma autopercepção de felicidade positiva e os com uma autopercepção de felicidade negativa no que concerne o nível de felicidade avaliada”, procedeu-se a testes de Mann-Whitney (MW), cujos resultados são apresentados na Tabela 4. Tabela 4 - Testes de MW, por “Considera-se Feliz?”

Ansiedade Depressão Stress Felicidade

Sexo

M

p

Sim

3.47

.008

Não

7.08

Sim

3.39

Não

10.62

Sim

5.28

Não

9.92

Sim

78.01

Não

61.85

.003 .000 .000

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 40

Os dados apresentados na Tabela 4, demonstram que para as quatro dimensões em análise, a hipótese zero, ou seja, a hipótese que afirma que não há diferenças entre grupos, é rejeitada. Assim, podemos afirmar que as diferenças encontradas nas pontuações médias dos respondentes com uma autopercepção de felicidade positiva e os que têm uma autopercepção negativa, são estatisticamente significativas. DISCUSSÃO Os bombeiros da amostra apresentam níveis de ansiedade, depressão e stress normais e níveis de felicidade elevados, de acordo com as escalas utilizadas. Estes resultados não vão ao encontro da maior parte dos estudos, pois vários autores apontam níveis significativos de ansiedade, depressão e stress, ideação suicida, perturbações de sono, alcoolismo e perturbação de stress pós-traumático nos profissionais de saúde, mais concretamente, em bombeiros (Benedek, Fullerton, & Ursano, 2007). Slottje et al. (2007) apontam o envolvimento dos bombeiros em eventos traumáticos, como acarretando stress ocupacional e efeitos secundários a longo prazo, o que poderá contribuir para a diminuição da qualidade de vida no que diz respeito à saúde mental, e redução de vitalidade. Alguns autores apontam estratégias tais como, o apoio social, acreditando que pode moderar a relação entre perturbação de stress pós-traumático e ideação suicida, estratégias de coping adequadas e eficazes, que consideram ajudar a lidar com o stress relacionado à profissão (Malek, Baco, Nor, & Kamil, 2016), assim como apontam, a felicidade como tendo efeitos de prevenção na área da promoção de saúde mental (Seligman et al., 2006). Consideramos ser provável que, um estudo com uma amostra representativa sujeita aos mesmos procedimentos, porém numa altura do ano em que esta população esteja com um número de ocorrências significativas ou na altura crítica de incêndios florestais, possa evidenciar diferenças ao nível da felicidade, ansiedade, depressão e ansiedade. CONCLUSÕES Conclui-se do presente estudo que, contrariamente ao que seria de esperar pela exposição a situações adversas, assim como a eventos potencialmente traumáticos, que os bombeiros da amostra apresentam níveis de ansiedade, depressão e stress normais, de acordo com a classificação dos autores da escala EADS e apresentam


níveis de felicidade elevados de acordo com a escala ESAF. Estes resultados, em especial no que concerne às três dimensões do EADS, contrariam vários estudos existentes, levando-nos a propor um aprofundamento do estudo, de forma a identificar, entre outros, estratégias de coping que estes bombeiros em particular aplicam, por forma a poder desenhar/avaliar programas de apoio psicológico noutras corporações. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Espera-se de alguma forma que este estudo permita uma maior evidenciação e apoio a este grupo profissional. E que, no futuro, possa contribuir para uma avaliação adequada dos comportamentos destes, percebendo qual a influência na sua saúde mental, contribuindo para detetar precocemente perturbações na sua saúde mental positiva. Além disso, poderá orientar os profissionais de saúde quanto a intervenções mais eficazes e adequados, prevenindo de antemão. Os resultados deste estudo são um importante contributo para a prática clínica, pois permite caraterizar o estado de saúde mental e a felicidade dos Bombeiros, alertar os profissionais de saúde para a importância de intervir junto desta população e, pode igualmente suscitar o interesse ajudando a implementar estratégias de promoção de saúde mental mais ajustadas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Autoridade Nacional de Proteção Civil. (2018). Perguntas Frequentes. Disponível em: http://www.prociv. pt/pt-pt/BOMBEIROS/FAQS/Paginas/default.aspx Bacharach, S. B., Bamberger, P. A., & Doveh, E. (2008). Firefighters, Critical Incidents, and Drinking to Cope: The Adequacy of Unit-Level Performance Resources as a Source of Vulnerability and Protection. Journal of Applied Psychology, 93(1), 155–169. Doi: 10.1037/0021-9010.93.1.155 Barros de Oliveira, J. H. (2001). Felicidade: Natureza e avaliação (Proposta de uma nova escala). Psicologia Educação Cultura, 5(2), 289–318. Disponível em: http://pec.ispgaya.pt/index.php/publicacoes/20-volume-v-n-2/210-felicidade-natureza-e-avaliacao-proposta-de-uma-nova-escala Basinska, B. A., & Wiciak, I. (2012). Fatigue and Professional Burnout in Police Officers and Firefighters. Internal Security, 4(2), 265–275.

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Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 41


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Artigo de Investigação

7

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0246

SATISFAÇÃO E ENGAGEMENT: (RE)PENSAR A SAÚDE E O BEM-ESTAR DOS ENFERMEIROS | Sérgio Dias1; Carminda Morais2 |

RESUMO CONTEXTO: A satisfação profissional e o engagement assumem relevância na qualidade e segurança das pessoas cuidadas e na saúde mental e bem-estar dos enfermeiros. OBJETIVOS: Avaliar a satisfação profissional e o engagement dos enfermeiros; identificar variáveis profissionais preditoras da satisfação profissional e do engagement, enquanto fatores promotores da saúde e bem-estar dos enfermeiros. MÉTODOS: Estudo observacional, quantitativo, descritivo e transversal. Amostra probabilís-tica estratificada por sexo, hospital e serviço composta por 234 enfermeiros do Centro Hospitalar do Alto Minho, 204 do Hospital Santa Luzia e 30 do Hospital Conde Bertiandos, com respetivamente 171 e 24 mulheres. Utilizou-se a Escala de Satisfação dos Enfermeiros no Trabalho e a Utrecht Work Engagement Scale. RESULTADOS: Maioritariamente do sexo feminino, com média de idades ± Desvio Padrão de 42,89 ± 8,30 anos e insatisfeitos (2,83 ± 0,577). Enfermeiros com horário fixo (t=3,038; p=0,003) e exercendo especialidade (t=2,014; p=0,048) registaram médias de satisfação superiores. Enfermeiros mais experientes manifestaram-se mais satisfeitos na ‘Satisfação com a Organização e Recursos’ (t=-2,006; p=0,046) e ‘Satisfação com as Dotações’ (t=-2,192; p=0,029). No Hospital Conde Bertiandos a ‘Satisfação com as Dotações’ foi mais baixa (t=2,182; p=0,030). Revelaram níveis de engagement moderados (4,01 ± 1,027). Enfermeiros com horário fixo (t=2,097; p=0,037) apresentaram maior engagement. CONCLUSÕES: A baixa satisfação profissional, o engagement moderado e os preditores comuns, conformam desafios e práticas inovadoras da gestão das organizações de saúde, designadamente otimização das condições psicossociais em contexto de trabalho potenciadoras da emergência do capital humano.

PALAVRAS-CHAVE: Satisfação no emprego; Engajamento no trabalho; Profissionais de enfermagem

RESUMEN

ABSTRACT

“Satisfacción y engagement: (Re)pensar la salud y el bienestar de los enfermeros”

“Satisfaction and engagement: (Re)thinking about the health and well-being of nurses”

CONTEXTO: La satisfacción laboral y el compromiso son importantes para la calidad y seguridad de los cuidadores y para la salud mental y el bienestar de las enfermeras. OBJETIVOS: Evaluar la satisfacción profesional y el compromiso laboral de las enfermeras; identificar las variables profesionales que predicen la satisfacción y el compromiso profesional como factores que promueven la salud y el bienestar de las enfermeras. METODOLOGÍA: Estudio observacional, cuantitativo, descriptivo y transversal. Muestra probabilística estratificada por sexo, hospital y servicio, compuesta por 234 enfermeras del Centro Hospitalario Alto Minho, 204 del Hospital Santa Luzia y 30 del Hospital Conde Bertiandos, con 171 y 24 mujeres, respectivamente. Se utilizaron la Escala de Satisfacción en el Trabajo de las Enfermeras y la Utrecht Work Engagement Scale. RESULTADOS: En su mayoría mujeres, con edades medias ± desviación estándar de 42.89 ± 8.30 años e insatisfechas (2.83 ± 0.577). Las enfermeras con horario fijo de turnos (t=3.038; p=0.003) y la práctica especializada (t=2.014; p=0.048) registraron promedios de satisfacción más altos. Las enfermeras más experimentadas estaban más satisfechas con la “Satisfacción con la Organización y los Recursos” (t=-2.006; p=0.046) y la “Satisfacción con las Apropiaciones” (t=-2.192; p=0.029). En el Hospital Conde Bertiandos, la “Satisfacción con las Apropiaciones” fue menor (t=2.182; p=0.030). Revelaron niveles moderados de compromiso laboral (4.01 ± 1.027). Las enfermeras con horario fijo de turnos (t=2.097; p=0.037) tuvieron un mayor compromiso laboral. CONCLUSIONES: La baja satisfacción profesional, lo compromiso laboral moderado y los factores predictivos comunes configuran los desafíos y las prácticas innovadoras en la gestión de las organizaciones de salud, como la optimización de las condiciones psicosociales en un contexto de trabajo que mejora el surgimiento del capital humano.

BACKGROUND: Job satisfaction and engagement are important in the quality and safety of caregivers and in the mental health and well-being of nurses. AIM: Evaluate the job satisfaction and engagement of nurses; identify professional variables that predict job satisfaction and engagement as factors that promote health and well-being of nurses. METHODS: Observational, quantitative, descriptive and cross-sectional study. Probabilistic sample stratified by sex, hospital and service, consisting of 234 nurses from Alto Minho Hospital Center, 204 from Santa Luzia Hospital and 30 from Conde Bertiandos Hospital, with 171 and 24 women, respectively. The Nurses’ Satisfaction at Work Scale and the Utrecht Work Engagement Scale were used. RESULTS: Mostly female, with mean ages ± standard deviation of 42.89 ± 8.30 years and dissatisfied (2.83 ± 0.577). Nurses with fixed shift schedule (t=3.038; p= 0.003) and practicing specialty (t= 2.014; p=0.048) recorded higher satisfaction averages. More experienced nurses were more satisfied with ‘Satisfaction with Organization and Resources’ (t=-2.006; p=0.046) and ‘Satisfaction with Appropriations’ (t =-2.192; p=0.029). At Conde Bertiandos Hospital ‘Satisfaction with Appropriations’ was lower (t=2.182; p=0.030). They revealed moderate levels of engagement (4.01 ± 1.027). Nurses with fixed shift schedule (t=2.097; p=0.037) had greater engagement. CONCLUSIONS: Low job satisfaction, moderate engagement and common predictors, shape challenges and innovative practices in the management of health organizations, namely optimization of psychosocial conditions in a work context that enhances the emergence of human capital.

DESCRIPTORES: Satisfacción en el trabajo; Compromiso laboral; Enfermeras practicantes

Submetido em 30-12-2018 Aceite em 29-03-2019

KEYWORDS: Job satisfaction; Work engagement; Nurse practitioners

1 Mestrando em Gestão das Organizações – Ramo Gestão de Unidades de Saúde na Escola Superior de Saúde e Tecnologia do Porto; Enfermeiro especialista em Enfermagem de Reabilitação no Centro Hospitalar do Alto Minho, Viana do Castelo, Portugal, sergio.dias@ulsam.min-saude.pt 2 Doutora em Ciências da Educação; Mestre em Saúde Pública; Investigadora Colaboradora no Centro de Estudos e Investigação em Saúde da Universidade de Coimbra (UICISA-E); Professora Coordenadora no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Escola Superior de Saúde, Viana do Castelo, Portugal, carmindamorais@ess.ipvc.pt Citação: Dias, S., & Morais, C. (2020). Satisfação e engagement: (Re)pensar a saúde e o bem-estar dos enfermeiros. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 43-49. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 43


INTRODUÇÃO Nos últimos anos, a promoção das condições de trabalho e da qualidade de vida no trabalho, tem assumido prioridade crescente, designadamente através da Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho que tem vindo a convocar para os novos riscos psicossociais emergentes nos contextos de trabalho. Assumem que a globalização, a ampliação do papel da ciência e a gestão do conhecimento, a pressão tecnológica, as flutuações dos ciclos macroeconómicos, associado aos fatores relacionais, podem interagir com o funcionamento mental e bem-estar psicossocial dos trabalhadores. Estes fenómenos são transversais ao mundo do trabalho, designadamente dos enfermeiros. Neste contexto, a satisfação profissional e o engagement constituem aspetos estruturantes que importa também gerir no sentido de assegurar também aos enfermeiros respostas adaptativas a transições que decorrem nos contextos do trabalho. Por outras palavras, pretende-se promover o cuidado a profissionais do cuidado. A satisfação profissional tem ganho um crescente interesse por parte dos investigadores, devido ao seu potencial favorecedor, quer em termos da saúde, bem-estar e qualidade de vida dos trabalhadores nas organizações, quer ao nível da produtividade (Bernardino, 2018). Segundo Cabral, Duarte, Silva, Gonçalves e Silva (2016) as mudanças socioeconómicas e laborais têm sido responsáveis por um desgaste físico e mental dos enfermeiros, com consequências na satisfação profissional e com reflexo na qualidade dos cuidados prestados e bem-estar individual, sendo fundamental que os enfermeiros tenham boa saúde mental e satisfação profissional. O bem-estar físico e psicológico dos trabalhadores constitui preocupação de longa data. Do bem-estar psicológico do trabalhador será analisada a satisfação profissional e o engagement que são indissociáveis da saúde mental destes trabalhadores. Para Martinho (2015, p.26), a satisfação profissional “(…) é um fenómeno muito complexo, um conceito relacionado a um estado emocional ou a uma atitude face ao trabalho e às experiências no determi- nado contexto laboral”. Batista, Santos e Santos (2014) salientam que os recursos financeiros insuficientes, pessoal desmotivado e insatisfeito, taxas de mobilidade crescentes e o esgotamento dos profissionais de saúde, caracterizam os serviços de saúde que são custosos, centrados muitas das vezes na técnica e na doença, Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 44

esquecendo-se a pessoa, o utente, a família e o enfermeiro que cuida. A problemática da satisfação profissional encontra o fundamento legal na Lei nº 48/90 de 24 de Agosto. Esta lei refere que a satisfação profissional é um dos critérios de avaliação periódica do Serviço Nacional de Saúde a par da satisfação dos utentes, da qualidade dos cuidados e da eficiente utilização dos recursos numa ótica custo-benefício. Por sua vez, o engagement traduz o envolvimento do profissional com o seu trabalho e organização. Engagement pode ser entendido como um estado cognitivo-afetivo positivo e persistente, relacionado com o trabalho e que se carateriza por vigor, dedicação e absorção. Pinto, Jesus, Mendes e Fronteira (2015) referem que os estudos no nosso país sobre engagement nos enfermeiros são escassos. Na prática de enfermagem o engagement assume relevância crescente nas organizações, face aos desafios com que os sistemas de saúde atualmente se confrontam, como sejam, a escassez global de enfermeiros, as pressões para reduzir gastos com os cuidados de saúde, o aumento das exigências em cuidados de qualidade e com resultados positivos para os utentes (Keyko, Cummings, Yonge, & Wong, 2016). Bons níveis de engagement conduzirão a maior compromisso com a organização onde trabalham, maior produtividade, maior satisfação profissional, qualidade da prática clínica e níveis mais elevados de satisfação das pessoas, alvo das intervenções de enfermagem (Maio, 2016). Nesta prespetiva, está em jogo também a promoção da auto-estima e bem-estar dos próprios enfermeiros. A nível nacional, alguns estudos, relataram níveis de engagement moderados a elevados dos enfermeiros (Borges, Abreu, Queirós e Maio, 2017; Silva, 2017). Porém, Schaufeli (2017) referiu no seu estudo que Portugal, Grécia, Turquia e os países balcãs, são dos países europeus com mais baixos níveis de engagement. MÉTODOS O presente estudo partiu de duas questões de investigação centrais, designadamente: Quais os níveis de satisfação profissional e engagement dos enfermeiros no Centro Hospita- lar do Alto Minho?; Quais as variáveis profissionais (tempo de serviço, tipo de horário e exercer a especialidade) que influênciam a satisfação profissional e engagement dos enfermeiros do Centro Hospitalar do Alto Minho? No sentido de contribuir para a promoção da saúde e do bem-estar psicológico dos enfermeiros, bem como


para a qualidade e segurança dos cuidados prestados, foram delineados como objetivos principais avaliar a satisfação profissional e o engagement, e identificar as variáveis profissionais com influência na satisfação profissional e engagement dos enfermeiros. Para dar resposta às questões e objetivos previamente formulados desenhou-se um estudo do tipo observacional, quantitativo, descritivo e transversal. Constituiu-se uma amostra probabilística, estratificada (por sexo, serviço e Unidade Hospitalar) e proporcional. Foi critério de inclusão no estudo, todos os enfermeiros do Centro Hospitalar do Alto Minho (CHAM), composto pelo Hospital Santa Luzia (HSL) e Hospital Conde Bertiandos (HCB), sem cargo de chefia e dispostos a participar no estudo, visando 26 serviços. O universo em estudo foi constituído por 595 enfermeiros, sendo que a amostra foi de 234 enfermeiros, 204 do HSL, 30 do HCB e respetivamente 171 e 24 do sexo feminino. A representatividade dos estratos neste estudo foi proporcional à existente na população. A colheita de dados realizou-se durante dois meses, entre janeiro e fevereiro de 2018, no CHAM, através de um inquérito por questionário. O questionário foi composto por duas partes. A primeira integra dados sociodemográficos e profissionais (sexo, idade, estado civil, grau académico, Unidade Hospitalar, tempo de serviço, remuneração, tipo de horário, exercício de especialidade e opção pela mesma profissão), sendo as variáveis independentes. A segunda parte visa a avaliação da satisfação profissional e engagement, integrando duas escalas para mensuração. A satisfação profissional foi avaliada através da Escala de Satisfação dos Enfermeiros no Trabalho (ESET) de João, Alves, Silva e Ferreira (2017), com alfa de Cronbach de 0,96. Trata-se de uma escala tipo Likert com cinco opções de resposta (de 1 a 5): «absolutamente nada»; «um pouco»; «moderadamente»; «muito» e «extremamente». Considerou-se o ponto de corte o valor três, verifica-se assim a satisfação profissional para valores iguais ou superiores a três. A ESET é composta por 37 itens, distribuídos pelas suas seis dimensões: Satisfação com as Chefias (itens 5,6,10,14,17,19,21,24,28,29,33 e 35); Satisfação com a Organização e Recursos (itens 12,13,18,22,23,25,26 e 30); Satisfação com a Valorização Profissional (itens 15,16,34,36 e 37); Satisfação com os Colegas de Trabalho (itens 1,2,4,9 e 20); Satisfação com a Valorização e Remuneração (itens 3,8,27,31 e 32); e Satisfação com as dotações (itens 7 e 11).

O engagement foi avaliado através da Utrecht Work Engagement Scale (UWES-17) de Schaufeli e Bakker (2003), numa versão traduzida e adaptada para Português de Portugal por Marques Pinto em 2002, com alfa de Cronbach de 0,93. Esta escala é composta por 17 itens apresentando um constructo tridimensional: Vigor (itens 1,4,8,12,15,17); Dedicação (itens 2,5,7,10,13); e Absorção (itens 3,6,9,11,14 e 16). Para cada item era possível posicionarem-se em sete níveis: zero (nenhuma vez), 1 (algumas vezes por ano), 2 (uma vez ou menos por mês), 3 (algumas vezes por mês), 4 (uma vez por semana), 5 (algumas vezes por semana) ou 6 (todos os dias), traduzindo a frequência dos sentimentos. No tratamento estatístico foi utilizado o Statistical Package for the Social Sciences versão 21.0, para Windows. A análise inferencial foi realizada através do teste paramétrico t-Student para duas amostras independentes (quando reunidos os pressupostos), e não paramétrico U-Mann-Whitney. Assumiu-se o nível de significância estatística de 5%.Todos os pressupostos éticos e legais, para estudos desta natureza, foram assegurados, nomeadamente, a autorização da instituição hospitalar e parecer favorável da Comissão de Ética, obtenção do consentimento informado dos participantes e garantia de anonimato. RESULTADOS Participaram no estudo 234 enfermeiros, a maioria (83,3%, n=195) do sexo feminino. A idade oscilou entre 25 e 61 anos, com média (X) ± Desvio Padrão (DP) de 42,89 ± 8,30 anos e mediana de 42 anos. Verificou-se que a maioria (72,2%, n=169) trabalhava há mais de 14 anos. O horário por turnos constitui o tipo de horário laboral mais praticado (70,1%, n=164). A maioria dos enfermeiros (68,8%, n=161) não possuía especialidade. Dos 31,8% (n=73) enfermeiros com especialidade 42,5% (n=31) não estavam a exercer a sua especialidade. Relativamente à satisfação profissional dos enfermeiros, avaliada através da ESET, as dimensões que registaram maior satisfação profissional foram: a ‘Satisfação com os Colegas de Trabalho’ e a ‘Satisfação com a Valorização Profissional’ com (X ± DP) respetivamente de 3,24 ± 0,685 e 3,22 ± 0,966. As dimensões nas quais os enfermeiros se mostraram menos satisfeitos foram a ‘Satisfação com Valorização e Remuneração’ e a ‘Satisfação com as Dotações’ com respetivamente 1,61 ± 0,558 e 2,33 ± 1,219. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 45


A média global da satisfação profissional foi de 2,83 ± 0,577, revelando-se insatisfeitos. No que se refere ao engagement, avaliado pela UWES, a dimensão com X ± DP mais elevada foi a ‘Dedicação’ apresentando 4,37 ± 1,113. Os enfermeiros apresentaram um engagement considerado moderado de 4,01 ± 1,027. Os instrumentos de mensuração dos constructos revelaram uma consistência interna neste estudo considerada muito boa com valor de alfa de Cronbach de 0,95 para Escala de Satisfação dos Enfermeiros no Trabalho e 0,93 para Utrecht Work Engagement Scale. Verificou-se que os enfermeiros com ≥ 14 anos de exercício profissional estavam mais satisfeitos na ‘Satisfação com a Organização e Recursos’ (t=-2,006; p=0,046) e ‘Satisfação com as Dotações’ (t=-2,192; p=0,029). Sem diferenças estatisticamente significativas no que se refere ao engagement. Os enfermeiros que exerciam a especialidade manifestaram-se mais satisfeitos a nível da satisfação profissional na globalidade’ (t=2,014 e p=0,048) e na ‘Satisfação com a Valorização Profissional’ (t=2,606; p=0,011). Não se verificaram diferenças estatisticamente significativas no engagement. Os enfermeiros a trabalhar com horário fixo estavam mais satisfeitos na globalidade (t=3,038; p=0,003), e nas seguintes dimensões: ‘Satisfação com as Chefias’ (t=2,950; p=0,004); ‘Satisfação com a Valorização e Remuneração’ (t=2,565; p=0,012); e ‘Satisfação com a Valorização Profissional’ (t=2,979; p=0,003). Os enfermeiros com horário fixo revelaram também níveis de engagement superiores na globalidade (t=2,097; p=0,037), e nas dimensões ‘Dedicação’ (t=2,263; p=0,025) e ‘Absorção’ (t= 2,029; p=0,044). Na Tabela 1 pode-se analisar a média, desvio padrão, valores do teste t-Student e valores de p-value das dimensões das variáveis da satisfação profissional e engagement nas quais se verificaram diferenças estatisticamente significativas em função do tempo de serviço, exercer a especialidade e tipo de horário. Tabela 1 - Média, desvio padrão, valores do teste t-Student e valores do p-value das dimensões das variáveis satisfação profissional e engagement onde se verificaram diferenças estatisticamente significativas em função do tempo de serviço, exercer especialidade e tipo de horário Tempo Serviço ESET

<14 anos

UWES

p-value

DP

M

DP

SOR

2,88

0,618

3,06

0,633

-2,006

0,046

SD

2,05

1,163

2,44

1,227

-1,192

0,029

Sim

Não

SG

3,03

0,509

2,76

0,604

2,014

0,048

SVP

3,60

0,642

3,15

0,823

2,606

0,011

Tipo de Horário ESET

Teste t-Student

M

Exercer Especialidade ESET

≥ 14 anos

HF

HTR

SG

3,00

0,555

2,76

0,567

3,038

0,003

SCH

3,20

0,732

2,87

0,791

2,950

0,004

SVR

1,77

0,677

1,54

0,486

2,565

0,012

SVP

3,47

0,926

3,11

0,834

2,979

0,003

EG

4,23

1,050

3,92

1,006

2,097

0,037

Dedicação

4,62

1,114

4,26

1,099

2,263

0,025

Absorção

4,01

1,202

3,69

1,111

2,029

0,044

Legenda: (EG) Engagement Global; (ESET) Escala de Satisfação dos Enfermeiros no trabalho; (UWES) Utrecht Work Engagement Scale; (SD) Satisfação com as Dotações; (SCH) Satisfação com as Chefias; (SG) Satisfação Global; (SOR) Satisfação com a Organização e os Recursos; (SVP) Satisfação com a Valorização Profissional; (SVR) Satisfação com a Valorização e Remuneração; (HF) Horário Fixo; (HTR) Horário por Turnos Rotativo.

DISCUSSÃO A amostra é maioritariamente do sexo feminino (83,3%, n=195), em resultado da enfermagem continuar a ser uma profissão maioritariamente feminina. Facto este em consonância com os dados estatísticos da Ordem dos Enfermeiros (2017), em que dos 71802 enfermeiros ativos 58939 (82,09%) eram do sexo feminino. A idade média dos enfermeiros (42,89 ± 8,30 anos) reflete, em parte, o problema da evolução demográfica do país, acentuada no mundo laboral devido à restrição de contratação de novos trabalhadores, imposta pelo Fundo Monetário Internacional. A percentagem de enfermeiros com 14 ou mais anos de experiência (72,2%, n=169), traduz-se num capital humano de competências adquiridas que o hospital deve valorizar, desenvolvendo estratégias para promover a sua permanência na organização. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 46


Os cuidados hospitalares, nomeadamente em regime de internamentos, são prestados 24 horas por dia, é expectável que num hospital com vários serviços de internamento e atendimento urgente 24h/dia, a maioria dos seus profissionais (70,1%, n=164) trabalhem em regime de turnos. Os enfermeiros especialistas têm competências altamente diferenciadas que constituem uma mais-valia para os serviços de saúde. Contudo, a percentagem de enfermeiros especialistas que não exercem a sua especialidade (42,5%, n=31), reflete que nem sempre as entidades empregadoras enquadram estes profissionais na estrutura formal da organização, com repercussões negativas a vários níveis, nomeadamente, a nível remuneratório, de falta de autorrealização profissional (indutora de riscos psicossociais), e de privação dos utentes dos saberes e competências destes profissionais (Lopes, Gomes e Almada-Lobo, 2018; Santos, 2016). No âmbito da satisfação profissional dos enfermeiros, as dimensões que registaram maior satisfação foram a ‘Satisfação com os Colegas de Trabalho’ e ‘Satisfação com a Valorização Profissional’. Relativamente à ‘Satisfação com os Colegas de Trabalho’, pode refletir a relação satisfatória com os pares que proporcionam o suporte necessário para proporcionar um bom ambiente de trabalho, promotor de uma adequada saúde mental e satisfação profissional nos enfermeiros. A ‘Satisfação com a Valorização Profissional’ traduz-se no reconhecimento dos utentes e seus familiares/cuidadores pelo importante papel dos enfermeiros, sendo favorecedor da satisfação profissional. Por sua vez as dimensões nas quais os enfermeiros revelaram menor satisfação profissional foram a ‘Satisfação com a Valorização e Remuneração’ e a ‘Satisfação com as Dotações’. No referente à ‘Satisfação com a Valorização e Remuneração,’ dois aspetos fundamentais emergiram, a saber: a necessidade de uma remuneração justa; e a progressão a nível profissional. Relativamente às dotações, Portugal tem andado em contraciclo, enquanto os países mais desenvolvidos têm investido em cuidados de enfermagem, de modo a garantir a qualidade, a segurança, a eficiência e a efetividade, Portugal desinvestiu nestes cuidados a todos os níveis. Globalmente os enfermeiros revelaram-se insatisfeitos (2,83 ± 0,577). Ao longo dos últimos tempos, tem-se assistido a um agravamento no nível de insatisfação dos enfermeiros (Bernardino, 2018). Relativamente ao engagement dos enfermeiros a ‘Dedicação’ foi a dimensão que registou média superior (4,37 ± 1,113).

A enfermagem é caracterizada pela dedicação, mesmo em contextos complexos, como condições de trabalho frequentemente difíceis, falta de recursos humanos e materiais, contacto próximo com sofrimento e morte, elevadas responsabilidades pelos doentes, aspetos indutores de riscos psicossociais (Quintas, Queirós, Marques e Orvalho, 2017). Apresentaram uma média global de engagement (4,01 ± 1,027) considerada moderada, outros estudos revelaram altos níveis (Borges et al., 2017). No estudo das relações entre a satisfação profissional e engagement dos enfermeiros e as variáveis profissionais, constatou-se que os enfermeiros com maior experiência profissional revelarem maior satisfação profissional nas dimensões ‘Satisfação com a Organização e Recursos’ e ‘Satisfação com as Dotações’, pode em parte, ser explicado por estes enfermeiros poderem enfrentar os desafios do diaa-dia com maior resiliência, fruto da sua experiência e das estratégias de coping que, ao longo da mesma aprenderam a desenvolver (Borges, Abreu, Baptista e Felli, 2016). Os enfermeiros que trabalham com horário fixo revelaram maior satisfação na globalidade e nas dimensões ‘Satisfação com as Chefias’ e ‘Satisfação com a Valorização Profissional’, apresentando níveis superiores de engagement de forma global e na ‘Dedicação’ e ‘Absorção’. O trabalho por turnos tem consequências nefastas nos ritmos biológicos, no equilíbrio entre a vida profissional e familiar, tendo vindo a estar relacionado com os riscos psicossociais a que os enfermeiros estão expostos (Ordem dos Psicólogos Portugueses, 2018). A associar a este facto temos a desvalorização do trabalho por turnos, consubstanciada pelo facto da compensação financeira inerente à penosidade das horas de trabalho que saem do considerado horário fixo ou dito “normal” que teve lugar ao longo dos tempos, atualmente não se estar a verificar (Amaral, 2018). Os enfermeiros que exercem funções na sua especialidade manifestaram-se globalmente mais satisfeitos e também na dimensão ‘Satisfação com a Valorização Profissional’. O fundamento pode estar no facto de, quando reunidas no exercício da especialidade a variedade, a identidade, o significado, a autonomia e o feedback da tarefa, promove-se a saúde mental, motivação e a satisfação profissional. A maior satisfação profissional pode ser também devida à concretização de uma expectativa, na medida em que estes enfermeiros, ao concluírem a sua especialidade teriam certamente a expectativa de desempenhar funções no âmbito da mesma, a sua concretização gera satisfação profissional. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 47


CONCLUSÕES A avaliação da satisfação profissional e engagement é fundamental para qualquer organização de saúde, sendo uma ferramenta essencial para avaliar o desempenho dos profissionais, a qualidade dos cuidados prestados e o bem-estar dos colaboradores. Apesar de se revelarem insatisfeitos foi na ‘Satisfação com os Colegas de Trabalho’ que revelaram a sua maior satisfação. Constitui-se, assim, um suporte social que é fundamental preservar, valorizar e promover em prol de um clima organizacional que se quer promotor de boa saúde mental e de cuidados de excelência. Apresentaram um engagement moderado, mas foi na ‘Dedicação’ que registaram os valores mais elevados, evidenciando o interesse, envolvimento e entrega com que os enfermeiros tendem a desempenhar as suas práxis. Os resultados permitiram concluir que, os enfermeiros com mais anos de serviço, que trabalhavam em horário fixo e exerciam a sua especialidade manifestaram maior satisfação profissional. No engagement os enfermeiros que trabalhavam em horário fixo revelaram níveis superiores de engagement. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA As organizações devem estar conscientes que o seu melhor capital reside nos recursos humanos. Deste modo, os resultados deste estudo apontam para uma necessidade de promoção efetiva da consciencialização deste facto, com enfoque particular nos gestores, mas também da parte dos enfermeiros. Importa melhorar a adequação das condições de trabalho, através da adoção de algumas medidas, a saber: gerir a satisfação profissional através do paradigma atual da qualidade de vida no trabalho; fortalecer os recursos internos dos trabalhadores a fim de promover um ambiente de trabalho saudável e a satisfação profissional; repensar as condições de trabalho e (re)construir contextos de trabalho mais salutogénicos; estabelecer estratégias que favoreçam a proteção física e psíquica dos enfermeiros, com implementação de políticas protetoras da saúde mental; trabalhar a resiliência psicológica em contextos hospitalares; reforçar a autonomia dos enfermeiros com oportunidade de participação na decisão enquanto estratégia promotora do engagement; e promover os determinantes do desenvolvimento pessoal e profissional, designadamente através da otimização das qualificações e das competências especificas e comuns dos enfermeiros Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 48

especialistas, com consequente reconhecimento profissional e remuneratório. Neste sentido, os resultados da investigação são suscetíveis de serem mobilizados, num tríptico de sentidos: pela gestão em articulação com a saúde ocupacional e com formação em serviço, potenciando-se o que há de melhor, como a dedicação, qualificações e suporte social, melhorando aspetos de alocação de enfermeiros e aproveitamento do potencial de cada elemento, reforçando as sinergias em torno da criação/otimização de valor através dos cuidados de enfermagem e da excelência dos mesmos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Amaral, A. F. (2018). Editorial. Revista Sinais Vitais, 128, 1-1. Disponível em: http://www.sinaisvitais.pt/ images/stories/revista/RSV128.pdf Batista, V., Santos, P., & Santos, R. (2014). Satisfação profissional em enfermagem. Revista Sinais Vitais, 112, 21-31. Disponível em: http://eformasau.pt/files/ Revistas/RSV112/RSV112.pdf Bernardino, E. (2018). Satisfação profissional dos enfermeiros em Portugal. Disponível em: https://www. ordemenfermeiros.pt/media/9946/satisfação-profissional-dos-enfermeiros-em-portugal-2018.pdf Borges, E., Abreu, M., Baptista, P., & Felli, V. (2016). Relação entre resiliência e burnout: Promoção da saúde mental e ocupacional dos enfermeiros. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde mental, 16, 4148. Doi: 10.19131/rpesm.0156 Borges, E., Abreu, M., Queirós, C., & Maio, T. (2017). Engagement em enfermeiros: Estudo comparativo entre Portugal Continental e Açores. International Journal on Working Conditions, 14, 155-156. Cabral, L., Duarte, J. C., Silva, D., Gonçalves, A. M., & Silva, E. (2016). A situação de crise em Portugal e a saúde mental dos profissionais de saúde. Revista Portuguesa de Saúde Mental, (Esp.3), 57-62. Doi: 10.19131/rpesm.0118 João, A. L., Alves, C. P., Silva, C., & Ferreira, N. D. (2017). Validation of a nurse job satisfaction scale for the Portuguese population. Revista de Enfermagem Referência, 12(4), 117-130. Doi: 10.12707/RIV16066


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Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 49


Artigo de Investigação

8

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0247

CUIDADOS PALIATIVOS PEDIÁTRICOS: NECESSIDADES FORMATIVAS E ESTRATÉGIAS DE COPING DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE | Sara Paixão1; Graça Aparício2; João Duarte3; Luís Maia4 |

RESUMO CONTEXTO: Cuidar a criança com doença crónica complexa (DCC), limitante ou ameaçadora de vida é uma tarefa multidimensional, complexa e desafiante. A formação em cuidados paliativos pediátricos (CPP) é indispensável para a qualidade dos cuidados de saúde prestados à criança/família. OBJETIVOS: Identificar as necessidades de formação em CPP e analisar a relação com variáveis sociodemográficas, profissionais e com as estratégias de coping adotadas. MÉTODOS: Estudo transversal e descritivo, realizado com uma amostra não probabilística de 102 profissionais de saúde, de um hospital público do Centro de Portugal, 92,2% do sexo feminino, com média idade= 39,9 anos; (Dp= 9,6). Utilizou-se um questionário online para caracterização sociodemográfica, a adaptação da escala de Necessidades de Formação em Cuidados Paliativos, (Candeias, 2009) e a Escala de Coping - Brief COPE, de Carver (1997), validada por Pais-Ribeiro & Rodrigues (2004). RESULTADOS: Admitem necessidade moderada de formação em CPP 39,2% dos profissionais e 32,4% alta. Apenas 10,8% já fizeram formação na área, sendo esta a única variável que interferiu nas necessidades de formação. Identificadas 4 dimensões com carências de formação: Conceção dos CPP; aspetos emocionais do cuidar; trabalho em equipa e desenvolvimento de competências em CPP. As estratégias de coping mais frequentemente adotadas variam com o género, categoria e tempo de exercício profissional, sendo maioritariamente viradas para estratégias adaptativas. CONCLUSÕES: Os profissionais identificam áreas de formação com necessidades de investimento e variáveis preditoras dos recursos de coping a adotar, no sentido de encontrar equilíbrio entre as fontes de stresse e a satisfação pessoal e profissional.

PALAVRAS-CHAVE: Cuidados paliativos; Criança; Educação continuada; Ajustamento emocional, adaptação psicológica

RESUMEN

ABSTRACT

“Cuidados paliativos pediátricos: Necesidades formativas y estrategias de coping de los profesionales de la salud”

“Pediatric palliative care: Educational needs assessment and coping strategies of healthcare providers”

CONTEXTO: Cuidar al niño con enfermedad crónica compleja (ECC), limitante o amenazante de vida es una tarea multidimensional, compleja y desafiante. La formación en cuidados paliativos pediátricos (CPP) es indispensable para la calidad de la atención de salud prestada al niño / familia. OBJETIVO(S): Identificar las necesidades de formación de los profesionales en CPP y analizar la relacione con las variables sociodemográficas, profesionales y las estrategias de coping adoptadas. METODOLOGÍA: Estudio transversal e descriptivo realizado en una muestra no probabilística de 102 profesionales de la salud de un hospital público en el centro de Portugal. Se utilizó un cuestionario en línea de la caracterización sociodemográfica y profesional una adaptación de la escala de las necesidades de formación en cuidados paliativos (Candeias 2009) y Escala de Coping (Carver, 1997) validados para la población portuguesa por País y Ribeiro Rodrigues (2004). RESULTADOS: En cuanto a la necesidad de formación en CPP, el 39,2% de los profesionales admite una necesidad moderada y 32,4% alta necesidad. Sólo el 10,8% ya hizo formación en el área. Tener formación en CPP se asumió como la única variable que interfirió en las necesidades de formación de los profesionales en CPP. Identificadas 4 dimensiones con carencias de formación: Concepción de los CPP; los aspectos emocionales del cuidar; trabajo en equipo y desarrollo de competencias en CPP. Las estrategias de coping más frecuentemente adoptadas varían con el género, categoría y tiempo de ejercicio profesional, siendo mayoritariamente orientadas hacia estrategias adaptativas. CONCLUSIONES: Los profesionales identifican áreas de formación con necesidades de inversión y variables predictoras de los recursos de coping a adoptar, en el sentido de encontrar equilibrio entre las fuentes de estrés y la satisfacción personal y profesional

BACKGROUND: Caring for children with life-limiting or life-threatening, complex chronic disease (CCD) is a multidimensional, complex and challenging task. Education in Pediatrics Palliative Care (PPC) is indispensable for the quality of health care provided to the child / family in this condition. AIM: Identify the CPP training needs and analyze the relationship with sociodemographic, professional and coping variables adopted. METHODS: A cross-sectional and descriptive study carried out with a nonprobabilistic sample of 102 health professionals from a public hospital, in the central region of Portugal. An on-line questionnaire was used with sociodemographic and professional characterization questions, an adaptation of the scale of training needs in palliative care (Candeias, 2009), the coping scale (Carver, 1997) validated for the Portuguese population by Pais Ribeiro & Rodrigues (2004) RESULTS: From the professionals, 39.2% admitted a moderate need of education in Palliative care and 32.4% high needs. Only 10.8% of the professionals had educational training in the area and these were the only variable that interfered with the educational needs. We identify 4 dimensions lacking in education: Palliative care conception, Emotional Aspects of Caring, Teamwork and skills development. The coping strategies most frequently adopted vary with gender, category and time of professional exercise, and are mainly focused on adaptive strategies. CONCLUSIONS: The professionals identify areas of training and variables that predict the coping resources to adopt, in order to find a balance between the sources of stress and personal and professional satisfaction.

DESCRIPTORES: Cuidados paliativos; Niño; Educación continua; Ajuste emocional, adaptación psicológica

KEYWORDS: Palliative care; Child; Education continuing; Emotional adjustment, psychological adaptation Submetido em 30-12-2018 Aceite em 26-02-2019

1 Mestre em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica; Enfermeira no Centro Hospitalar Baixo Vouga E.P.E., Aveiro, Portugal, sarambpaixao@yahoo.com.br 2 Doutora; Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Viseu, Escola Superior da Saúde, Viseu, Portugal, gaparicio5@hotmail.com 3 Doutor; Professor Coordenador no Instituto Politécnico de Viseu, Escola Superior da Saúde, Viseu, Portugal, duarte.johnny@gmail.com 4 Licenciado em Enfermagem; Enfermeiro no Centro Hospitalar Baixo Vouga E.P.E., Aveiro, Portugal, luisrrmaia@gmail.com Citação: Paixão, S., Aparício, G., Duarte, J., & Maia, L. (2020). Cuidados paliativos pediátricos: Necessidades formativas e estratégias de coping dos profissionais de saúde. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 50-55. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 50


INTRODUÇÃO Os Cuidados Paliativos Pediátricos (CPP) são vistos como um direito fundamental da criança e família, porém a nível mundial observa-se uma discrepância na provisão e no acesso a este tipo de cuidados. Estima-se que, em cada ano, sete milhões de crianças possam beneficiar de CPP em todo o mundo, contudo o número de crianças a receber CPP especializados é desconhecido (Connor & Sepulveda Bermedo, 2014). A missão na prestação de CPP é “acrescentar vida aos anos da criança, e não simplesmente anos à vida” (American Academy of Pediatrics, 2000, p.335), baseando-se numa abordagem ativa e total de cuidados à criança/jovem, desde o diagnóstico ou reconhecimento da situação, durante toda a sua vida e para além da sua morte. Abrangem cuidados físicos, emocionais, sociais e espirituais, focando-se na melhoria da qualidade de vida e suporte à família e incluem o controlo de sintomas, a provisão de períodos de descanso dos cuidadores e o acompanhamento na fase terminal e luto (Widdas, McNamara, & Edwards, 2013). Recentemente em Portugal, os cuidados paliativos foram reconhecidos como essenciais a um Serviço Nacional de Saúde de qualidade, devendo ser prestados em continuidade a todas as pessoas que deles necessitem, ao longo do ciclo vital, e onde quer que se encontrem, designadamente nos cuidados de saúde primários, hospitalares ou continuados integrados e ser adaptados às necessidades da criança e da família (Ministério da Saúde, 2018). A especificidade e complexidade dos CPP decorre, nomeadamente, do pequeno número de casos nesta faixa etária e das particularidades relativas a cada uma, da ampla distribuição geográfica; da multiplicidade de doenças/diagnósticos e imprevisibilidade do prognóstico, da escassez de profissionais com formação específica, das dificuldades relacionadas com o luto e a perda; dos aspetos éticos e legais particulares no cuidar da criança/família (European Association for Palliative Care [EAPC], 2009; McNamara-Goodger & Rachel, 2009). As barreiras no acesso a este tipo de cuidados têm, como consequência, dificuldades ou atraso no acesso, descontinuidade dos cuidados, conflitos entre equipas e custos adicionais, levando a sofrimento e incapacidade desnecessários para a criança, luto complexo para os pais e desesperança e sensação de impotência dos profissionais. A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece a “Educação” como um dos eixos fundamentais para o

desenvolvimento de políticas de saúde em cuidados paliativos (Stjernswad, Foley, & Ferris, 2007), devendo esta ser suportada em conhecimento baseado na evidência e na reflexão crítica e ir ao encontro das reais necessidades das crianças e famílias, tentando valorizar as suas prioridades e necessidades. Na prática, os níveis de formação em CPP são enquadrados nos níveis de especialização dos serviços de saúde, sendo gerida entre o nível 1, básico, que pretende integrar os CPP em cuidados universais e transversais, realçando as especificidades da população pediátrica e destinando-se a estudantes e profissionais, no âmbito da formação pré-graduada ou na formação contínua individual, até ao nível 3, reservado a profissionais cuja atividade principal são os CPP (EAPC - Onlus, 2013). A formação e educação são, desta forma, essenciais para a tomada de decisão dos profissionais (Michelson, Ryan, Jovanovic, & Frader, 2009), e a sua carência pode indiciar inexperiência, desconforto e falta de confiança no lidar com crianças em CPP, sobretudo em fase terminal (Mandac & Battista, 2014). O coping surge como um recurso pessoal no cuidar da criança com Doença Crónica Complexa (DCC) e da família, constituindo as estratégias de coping formas, habitualmente pessoais, de lidar com as adversidades, no sentido de encontrar o equilibro e satisfação pessoal e profissional. Estratégias de coping ineficazes podem aumentar o impacto emocional negativo, abrindo caminho para o stresse e burnout do profissional, enquanto um coping efetivo e adaptativo pode ser emocionalmente protetor. Neste âmbito, este estudo teve como objetivos identificar as necessidades de formação dos profissionais de saúde na prática de CPP, relacionando-as com as variáveis sociodemográficas, profissionais e psicológicas (estratégias de coping). MÉTODOS Estudo transversal, descritivo-correlacional, desenvolvido em 2017, com uma amostra não probabilística de 102 profissionais de saúde, em funções numa Instituição Hospitalar Pública da região Centro de Portugal e que assinaram o consentimento livre e esclarecido para participação no estudo. Para recolha de dados realizou-se um questionário online, constituído por questões de caracterização sociodemográfica e profissional, pelo Questionário das Necessidades de Formação em Cuidados Paliativos, Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 51


adaptado de Candeias (2009), num total de 23 questões, avaliadas em escala tipo Likert, com quatro opções de resposta entre “concordo totalmente” com pontuação 4, e “discordo totalmente” com pontuação 1. Procedeu-se ao estudo psicométrico da escala, nomeadamente de consistência interna, que revelou um valor de Alpha de Cronbach de 0,845. O estudo da validade incluiu a análise fatorial exploratória através do método dos componentes principais com rotação do tipo varimax e análise confirmatória, tendo sido identificados 4 fatores, designados de: Conceção dos CPP, Aspetos Emocionais no Cuidar, Trabalho em Equipa e Desenvolvimento de Competências em CPP. Foi ainda utilizada a Escala de coping - BriefCOPE (Carver, 1997) validada para a população portuguesa por Pais Ribeiro & Rodrigues (2004). Esta versão é constituída por 28 itens, que medem conceptualmente 14 tipos de reações de coping, num formato retrospetivo (“tenho feito isto”), situacional (“fiz isto”) ou de traço (“costumo fazer isto”). Algumas destas reações são adaptativas, outras sentidas como problemáticas, permitindo aos investigadores um acesso rápido ao “perfil” da pessoa (Carver, 1997). No estudo atual, foi solicitado previamente ao inquirido que pensasse na forma como enfrentou a situação de maior stresse ao cuidar de uma criança com DCC e sua família. Os itens foram apresentados numa escala ordinal com quatro alternativas (de “0” a “3”) entre “nunca faço isto” até “faço sempre isto” e redigidos enquanto ação implementada “coping estado”, com resposta situacional (Pais Ribeiro & Rodrigues, 2004). No tratamento dos dados foi utilizado o programa informático Statistical Package for the Social Sciences ® (SPSS versão 24.0) e efetuada análise descritiva e inferencial, considerando-se para análise dos testes o nível de significância de 5% (p< 0,05). RESULTADOS A amostra foi constituída por 29 médicos pediatras, 64 enfermeiros, 6 assistentes sociais e 3 psicólogos, com idades entre 25 e 63 anos, (Média=39,9 anos±9,6), 92,2% do sexo feminino, tendo 37,3% idade inferior ou igual a 34 anos. A maioria dos inquiridos era casado ou vivia em união de facto (72,9%) e 86,3% residiam em zona urbana. O grupo mais representativo foi dos enfermeiros (62,7%), 28,4% médicos e os outros profissionais correspondiam a 8,8%. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 52

A maioria dos profissionais exercia funções há mais de 10 anos no atual serviço (36,3%), enquanto 33,3% exerciam há menos de 5 anos e 56,9% faziam horário roulement. Formação em CPP Da amostra, apenas 10,8% tinham formação em CPP, na sua maioria enfermeiros (6,9%), seguidos dos médicos (2,9%), mas apenas 18,2% realizaram em formato de graduação. A motivação para trabalhar com crianças com necessidades paliativas e suas famílias, situouse entre o mínimo de 1 (completamente desmotivado) e o máximo de 10 (altamente motivado), revelando o valor médio global uma motivação moderada (Média= 5,8; ± 2,3), sendo mais elevada nos médicos (Média= 6,32; ±2,1). Dos quatro factores identificados, o trabalho em equipa (Média=92,48±15,33) e a conceção dos CPP (Média=87,58±13,33) foram as áreas reconhecidas com maior necessidade de formação. A necessidade de formação em cuidados paliativos foi classificada como moderada para 39,2% dos profissionais, para 32,4% elevada e para 28,4% foi considerada baixa. Ter feito formação em CPP influencia significativamente a perceção da necessidade de desenvolvimento de competências nesta área (UMW= 271,500; p= 0,012). Estratégias de coping Pelos valores médios das 14 estratégias de coping, apurou-se que as mais utilizadas eram planear (Média=3,57 1,31), coping ativo (Média=3,40 1,24), e aceitação (Média=3,32 1,41). A menos usada foi uso de substâncias (Média=0,02 2,22) (Tabela 1). Analisando a relação entre as estratégias de coping e as variáveis sociodemográficas, verificou-se, na globalidade, que o sexo feminino utiliza mais estratégias de coping, com destaque para o suporte social e emocional, suporte instrumental e auto-distração, com diferenças significativas no coping ativo (p=0,047), planear (p=0,018), utilização de suporte instrumental (p=0,002), utilização do suporte emocional (p=0,001), expressão de sentimentos (p=0,023) e auto-distração (p=0,004). Relativamente à idade, verificou-se que os profissionais de saúde mais novos (≤34anos) são os que mais recorrem às estratégias de coping.


Tabela 1 - Estatística relativas às estratégias de coping Estratégias de coping

Min

Max

Média DP

Coping ativo

0,00

6,00

3,40

1,24 36,47

Planear

0,00

6,00

3,57

1,31 36,69

Utilizar suporte instru- 0,00 mental

6,00

2,94

1,34 45,57

Utilizar suporte social e emocional

0,00

6,00

2,72

1,29 47,42

Religião

0,00

6,00

1,74

1,38 79,31

Reinterpretação positiva

0,00

6,00

3,01

1,42 47,17

Autocupabilização

0,00

4,00

1,40

1,02 72,85

Aceitação

0,00

6,00

3,32

1,41 42,46

Expressão de sentimentos

0,00

6,00

2,41

1,40 58,09

Negação

0,00

3,00

0,69

0,96 139,13

Autodistração

0,00

4,00

2,07

1,14 55,07

Desinvestimento comportamental

0,00

3,00

0,27

0,64 237,03

Uso de substâncias 0,00 (medicamentos/álcool)

2,00

0,02

0,22 131,81

Humor

4,00

0,89

1,01 113,48

0,00

CV (%)

Pela associação entre o coping e a categoria profissional apurou-se, pelo teste Kruskal-Wallis que os médicos recorrem sobretudo ao coping ativo (p=0,019), suporte instrumental, social e emocional (p=0,015), reinterpretação positiva, auto-culpabilização (p=0,005) e aceitação (p=0,040). Os enfermeiros socorrem-se particularmente do planear (p=0,002), expressão de sentimentos, auto-distração (p=0,017), desinvestimento comportamental, uso de substâncias e do humor (p=0,015), enquanto os outros profissionais recorrem sobretudo à negação (p=0,000). DISCUSSÃO O presente estudo permitiu identificar as necessidades de formação dos profissionais, no cuidar da criança com doença crónica complexa, limitante ou ameaçadora de vida, bem como identificar se as mesmas são influenciadas por características sociodemográficas, profissionais ou psicológicas. Foi traçado um perfil sociodemográfico e profissional dos 102 profissionais de saúde e constatou-se que a equipa multiprofissional apresenta uma baixa taxa de formação em CPP (10,8%), com destaque para o “trabalho em equipa”, “conceção dos CPP” e “desenvolvimento de competências em CPP”. Estes resultados justificam um investimento formativo nesta área de cuidados, pois, tal como referem

Downing & Ling (2012), o desenvolvimento e treino de competências dos profissionais são cruciais para os cuidados às crianças com DCC e limitante de vida, face às especificidades e complexidade que lhe estão inerentes. Analisando apenas pela perspetiva de pediatras, também Michelson, Ryan, Jovanovic, & Frader (2009), referem a existência de uma inadequada formação em CPP, sobretudo a nível de discussão de prognóstico, comunicação de más notícias e controlo de sintomas. A OMS reconhece a “Educação” como um dos eixos fundamentais para o desenvolvimento de políticas de saúde públicas em CP, pois, entre outros, a formação de profissionais e a capacitação dos cuidadores, aumentam o reconhecimento, os conhecimentos e competências sobre o tema, favorecendo assim as mudanças de comportamentos. Da mesma forma, Chan et al. (2016) destacam a educação e o treino profissional como um foco de desenvolvimento da auto competência, dado que preparam os profissionais de saúde para enfrentar os desafios da prática e ajudam a controlar os aspectos emocionais do cuidar em fim de vida. No mesmo sentido, a EAPC (2007) sublinha que a formação deve constar dos currículos dos profissionais de cuidados de saúde pediátricos e que cada país deve formular um plano curricular nacional e transversal a todos os profissionais, para diferentes níveis de atuação. Para além da especificidade e complexidade associados à prática de CPP, o envolvimento emocional com a criança/família e os dilemas inerentes à tomada de decisão em fim-de vida, são fontes de stresse para o profissional de saúde, surgindo o coping como um recurso pessoal necessário ao equilíbrio emocional. Neste âmbito, o estudo revelou ser o sexo feminino e os profissionais mais novos os que mais utilizam estratégias de coping, optando particularmente por estratégias adaptativas voltadas para o trabalho, mas também de evitamento. Guido, Linch, Pitthan, & Umann, (2011) referem que a formação e o treino, sobretudo dos profissionais mais novos e com menos experiência, dotam-nos de ferramentas que lhes permitem desenvolver práticas resolutivas no seu quotidiano, minimizando assim o efeito do stresse no seu estado de saúde e consequentemente no seu trabalho. Enfrentar o stresse resultante da prestação de cuidados em fim de vida passa por “identificar o que provoca stresse”, “perceber os efeitos desse stresse” e “desenvolver técnicas de autocuidado” (Baranowski, 2006). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 53


No estudo de Chan et al. (2016), os profissionais desenvolviam estratégias de coping existenciais, baseadas numa redefinição e atualização dos significados de vida e de morte e estratégias de coping emocionais, tanto a nível pessoal, através da aceitação e manejo das próprias emoções, como a nível profissional, procurando significado no trabalho, na distinção entre o trabalho e vida pessoal e no ajustamento das expectativas. A EAPC - Onlus, (2013) e o GTCPP (2014), sublinham a importância da reflexão sobre a prática, o autocuidado e o autoconhecimento, considerando-os como um dos domínios de referência para programas de educação para profissionais com especial interesse em CPP. O grande objetivo é que o profissional consiga prestar cuidados adequados, promovendo a qualidade de vida da criança com DCC e família, fazendo uso de estratégias de coping capazes de minimizar os efeitos nocivos do stresse, atingindo assim um equilíbrio entre as exigências solicitadas e os recursos disponíveis. CONCLUSÕES Sendo os CPP um direito humano fundamental, uma necessidade na promoção do conforto e da qualidade de vida de crianças com patologias múltiplas de longa duração, observa-se que os profissionais de saúde possuem poucos conhecimentos específicos face às necessidades particulares desses cuidados. Esta realidade confronta-os com sentimentos de derrota e frustração e com perturbações emocionais e psicológicas decorrentes do stresse de lidar com a criança e família numa fase tão delicada das suas vidas. Esta investigação permitiu concluir que os profissionais que trabalham com crianças com DCC possuem pouca formação em CPP, o que pode ter impacto na qualidade da prestação de cuidados e na satisfação profissional, e reconhecem áreas específicas para o desenvolvimento de competências nesse âmbito, nomeadamente no “trabalho em equipa” e na “conceção dos cuidados paliativos pediátricos”, de forma a alcançarem a recomendação atual de que todos os profissionais de saúde devem possuir formação de pelo menos um nível básico em cuidados paliativos. Por vezes, o stresse vivenciado em todo o processo de doença da criança, coloca o profissional numa posição de evitamento ou afastamento do sofrimento da díade, ao invés dos desejados cuidados centrados na criança e na família e de suporte ao papel parental. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 54

As estratégias de coping identificadas no estudo são sobretudo adaptativas, mas pouco refletidas em termos de equipa, pelo que tendencialmente menos eficazes na apropriação àquela realidade tão complexa e delicada, aumentando o risco de depressão ou burnout. Desta forma, a equipa deve estar atenta aos sinais, identificar e atender as necessidades dos profissionais e permitir momentos de reflexão partilhada e de perspetivar as situações de uma forma positiva. Cuidar da equipa terá benefícios a curto e longo prazo na qualidade da prática de cuidados. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA O estudo realizado retrata um contexto da prática e permitiu a análise estruturada da problemática, pelo que as implicações serão sobretudo dirigidas a essa realidade, não descartando porém, a possibilidade da sua generalização a outras realidades. As necessidades de formação identificadas no estudo, fundamentam a pertinência de investimento na formação básica em CPP a todos os elementos das equipas multidisciplinares, de forma a responder à recomendação atual da constituição de uma equipa intra-hospitalar de suporte em cuidados paliativos pediátricos, em articulação com as restantes equipas locais da Rede Nacional de CP (Ministério da Saúde, 2018). Do conflito entre as necessidades da prática e os limites individuais, surgem as necessidades dirigidas aos recursos pessoais/competências emocionais. Permitir momentos de partilha e de reflexão acerca das dificuldades da prática de CPP, surge como uma opção para a identificação de estratégias de coping pessoais, mas sobretudo para reforçar a importância do trabalho em equipa. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS American Academy of Pediatrics. (2000). Palliative Care for Children. Pediatrics, 106(2), 351–356. Doi: 10.1542/peds.106.2.35110.1542/peds.106.2.351 Baranowski, K. P. (2006). Stress in Pediatric Palliative and Hospice Care: Causes, Effects and Coping Estrategies. Disponível em: https://legacy.nhpco.org/mar-06/ stress-pediatric-palliative-and-hospice-care-causeseffects-and-coping-strategies


Candeias, M. C. N. (2009). Formação dos enfermeiros em cuidados paliativos. (Dissertação de Mestrado. Instituto Politécnico de Beja). Disponível em: https:// core.ac.uk/download/pdf/61499238.pdf

Lacerda, A. (coord.). (2014). Cuidados paliativos Pediátricos. Disponível em: Retrieved from http:// www.apcp.com.pt/uploads/Relato-rio-do-GdT-deCPP.pdf

Carver, C. S. (1997). You want to measure coping but your protocol’s too long: Consider the Brief COPE. International Journal of Behavioral Medicine, 4(92). Doi: 10.1207/s15327558ijbm0401_6

Guido, L. de A., Linch, G. F. da C., Pitthan, L. de O., & Umann, J. (2011). Estresse, coping e estado de saúde entre enfermeiros hospitalares. Revista Da Escola de Enfermagem Da USP, 45(6), 1434-1439. Doi: 10.1590/ S0080-62342011000600022

Chan, W. C. H., Fong, A., Wong, K. L. Y., Tse, D. M. W., Lau, K. S., & Chan, L. N. (2016). Impact of Death Work on Self: Existential and Emotional Challenges and Coping of Palliative Care Professionals. Health and Social Work, 41(1), 33-41. Doi: 10.1093/hsw/ hlv077 Connor, S. R., & Sepulveda Bermedo, M. C. (2014). Global Atlas of Palliative Care at the End of Life. Genebra: World Health Organization. Disponível em: https://www.who.int/nmh/Global_Atlas_of_Palliative_Care.pdf Downing, J., & Ling, J. (2012). Education in childre´s palliative care across Europe and internationally. International Journal of Palliative Nursing, 18(3), 115120. Doi: 10.12968/ijpn.2012.18.3.115 European Association for Palliative Care. (2007). IMPaCCT: normas para a prática de cuidados paliativos pediátricos na europa. European Journal of Palliative Care, 14(3), 109–114. Disponível em: https://www. eapcnet.eu/home/ArtMID/1395/ArticleID/405/portuguese-impacct-normas-para-a-pr%C3%A1tica-decuidados-paliativos-pedi%C3%A1tricos-na-europa European Association for Palliative Care. (2009). Cuidados paliativos para recém-nascidos, crianças e jovens. Factos. Roma: Fondazione Maruzza Lefebre D’Ovidio Onlus. Disponível em: http://spp.pt/UserFiles/file/Comissoes_SPP/Cuidados_Paliativos_RN_ Criancas_Jovens.pdf European Association for Palliative Care Onlus. (2013). Core competencies for education in Paediatric Palliative Care. Milano: Istituto Nazionale dei Tumori. Disponível em: https://eapcnet.wordpress.com/2014/10/13/ developing-core-competencies-for-childrenspalliative-care-eapc-publishes-new-white-paper/

Mandac, C., & Battista, V. (2014). Contributions of Palliative Care to Pediatric Patient Care. Seminars in Oncology Nursing, 30(4), 212–226. Doi: 10.1016/j. soncn.2014.08.003 McNamara-Goodger, K., & Rachel, C. B. (2009). Children’s and young people’s palliative care: good practice guidelines. Primary Health Care, 19(2), 40-48. Doi: 10.7748/phc2009.03.19.2.40.c6898 Michelson, K. N., Ryan, A. D., Jovanovic, B., & Frader, J. (2009). Pediatric Residents’ and Fellows’ Perspectives on Palliative Care Education. Journal of Palliative Medicine, 12(5), 451-457. Doi: 10.1089/jpm.2008.0263 Portaria nº66/2018 de 6 de Março. Diário da República n.º 46/2018, Série I. Ministério da Saúde. Lisboa. Disponível em: https://dre.pt/home/-/dre/114822275/ details/maximized Pais Ribeiro, J. L., & Rodrigues, A. P. (2004). Questões Acerca Do Coping: a Propósito Do Estudo De Adaptação Do Brief Cope. Psicologia, Saúde & Doenças, 5(1), 3-15. Disponível em: http://repositorio.ispa.pt/ handle/10400.12/1054 Stjernswad, J., Foley, K. M., & Ferris, F. D. (2007). The Public Health Strategy for Palliative Care The Need for Palliative Care. Journal of Pain and Symptom Management, 33(5), 486-493. Doi: 10.1016/j.jpainsymman.2007.02.016 Widdas, D., McNamara, K., & Edwards, F. (2013). A core Pathway for Children with Life-limiting and LifeThreatening Conditions. (3a Ed.). Bristol: Together for Short Lives.

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 55


Revista Portuguesa de Enfermagem de SaĂşde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 56


Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0248

9

ESTILOS DE VIDA E BEM-ESTAR DE ESTUDANTES DO ENSINO SUPERIOR | Carminda Morais1; Isabel Amorim2; Cândida Cracel Viana3; Salomé Ferreira4 |

RESUMO CONTEXTO: O estudo dos estilos de vida no ensino superior tem especificidades decorrentes da interpenetração de múltiplos fatores, colocando-se a saúde e bem-estar dos jovens na agenda política das instituições. OBJETIVO(S): Avaliar estilos de vida e bem-estar psicológico dos estudantes do IPVC; Comparar os estilos de vida e o bem-estar psicológico dos estudantes do sexo feminino e masculino; Correlacionar os estilos de vida e bem-estar psicológico. MÉTODOS: Estudo quantitativo, correlacional e transversal. Recorreu-se a questionários de caraterização sociodemográfica, Bem-estar Psicológico (QGBEP-R) e Estilo de Vida FANTASTICO, a traduzidos e validados para a população portuguesa RESULTADOS: Dos 291 respondentes, a maioria é do sexo feminino (80,8%), média de idade 22,49 ± 7,035 anos, 44,3% encontra-se deslocado da residência, 11,7% considera ter vícios/dependências. A maioria considera o estilo de vida “Muito Bom” (52,6%). No item “Família/Amigos” 82,2% responde “não tem/tem às vezes” com quem falar coisas importantes”, 76,5%” não deu/às vezes deu e recebeu afetos” e 61,5% “não se considera membro de um grupo comunitário” Da análise das dimensões do “Fantástico” e o sexo, verifica-se que as estudantes obtêm maior pontuação nos itens “família/amigos”, “tabaco” e no “comportamento sexual e de saúde”. Os estudantes pontuam melhor na “atividade física/associativismo”, “sono” e na “introspeção”. Relativamente ao bem-estar, o valor medio foi de 24,204+4,920, sendo superior nos rapazes. Bem-estar Psicológico e Estilos de Vida encontram-se positivamente correlacionados. CONCLUSÕES: A maioria dos estudantes perceciona o estilo de vida “Muito bom”. Estilos de vida e Bem-Estar Psicológico estão positivamente associados, com fortes interpenetrações de género, convocando a intervenção efetiva.

PALAVRAS-CHAVE: Estilo de vida saudável; Educação superior

RESUMEN

ABSTRACT

“Estilos de vida y bienestar de los estudiantes universitarios”

“Higher education students’ lifestyles and welfare”

CONTEXTO: El estudio de los estilos de vida en la enseñanza universitaria reviste especificidades derivadas de múltiples factores, siendo la salud y el bienestar de los jóvenes puntos importantes en la agenda política de las instituciones. OBJETIVO(S): Evaluar los estilos de vida y bienestar de los alumnos del IPVC. Comparar y correlacionar estilos de vida y bienestar psicológico de alumnos y alumnas. METODOLOGÍA: Estudio de tipo cuantitativo, analítico y transversal. Se utilizaron un cuestionario sociodemográfico, de bienestar psicológico (QGBEP-R) y el Estilo de Vida FANTÁSTICO, traducidos y validados para la población portuguesa. RESULTADOS: De los 291 que respondieron, la mayoría es del sexo femenino (80,8%), promedio de edad 22,49 ± 7,035 años, el 44,3% se encuentra desplazado del área de residencia, el 11,7% considera tener dependencias, el tabaco el más frecuente. La mayoría considera el estilo de vida “Muy Bueno” (52,6%). Del análisis de las dimensiones del “Fantástico” y el sexo, las estudiantes obtienen mayor puntuación en los ítems “familia / amigos”, “tabaco” y en el “comportamiento sexual y de salud”. Los estudiantes puntuan mejor en la “actividad física / asociativismo”, “sueño” y “introspección”. En relación al bienestar, el valor medio fue de 24,204+4,920, siendo superior en los chicos. Ambos, bienestar psicológico y estilos de vida están positivamente relacionados. CONCLUSIONES: La mayoría de los estudiantes perciben el estilo de vida como “Muy bueno”. Los estilos de vida y bienestar psicológico están positivamente asociados, con fuertes interpretaciones de género, solicitando una intervención eficaz.

BACKGROUND: The study of lifestyles in higher education has specificities due to multiple factors, being both welfare and lifestyles of young people, present on the political agenda of the institutions. AIMS: Evaluate IPVC students’ lifestyles and psychological welfare; Compare lifestyles and psychological welfare of female and male students. Correlate both lifestyles and psychological welfare. METHODS: Quantitative, analytical and cross-sectional study. A questionnaire with a sociodemographic characterization, psychological welfare (QGBEP-R) and the FANTASTICO lifestyle were used, translated and validated for the Portuguese population. RESULTS: Of the 291 respondents, the majority are female (80.8%), mean age is 22.49 ± 7.035 years, 44.3% are from the area of residence, 11.7% consider having addictions, the most frequent tobacco. Most consider their lifestyle “Very Good” (52.6%). In the item “Family / Friends” 82.2% answered “do not have / have sometimes” to the question with whom to speak important things” 76.5%”did not give / sometimes gave and received affections” and 61.5% “did not consider themselves members of a community group and / or self-help group”. From the analysis of the dimensions of the FANTASTICO and the sex, the students scored higher on the “family / friends” items, “tobacco” and “sexual and health behaviour”. The students scored better in “physical activity / associativism”, “sleep” and in “introspection”. Concerning welfare, the mean value was 24,204 + 4,920, being higher in boys.

DESCRIPTORES: Estilo de vida saludable; Educación superior

KEYWORDS: Healthy lifestyle; Higher education Submetido em 30-12-2018 Aceite em 25-03-2019

1 Doutora em Ciências da Educação; Investigadora no CEISUC e Colaboradora na UICISA-E; Professora Coordenadora no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Escola Superior de Saúde, Viana do Castelo, Portugal, carmindamorais@ess.ipvc.pt 2 Doutora em Saúde Mental; Investigadora na UICISA-E; Professora Coordenadora no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, isabelamorim@ess.ipvc.pt 3 Mestre em Ciências da Educação-Especialização em Promoção da Saúde; Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, candidaviana@ess.ipvc.pt 4 Doutora em Psicologia; Investigadora na UICISA-E; Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Escola Superior de Saúde, salomeferreira@ess.ipvc.pt Citação: Morais, C., Amorim, I., Viana, C. C., & Ferreira, S. (2020). Estilos de vida e bem-estar de estudantes do ensino superior. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 57-64. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 57


INTRODUÇÃO Este artigo surge na sequência dos desenvolvimentos inerentes à integração do IPVC no Programa da Rede Ibero-americana das Universidades Promotoras da Saúde. Entende-se por Instituições de Ensino Superior Promotoras da Saúde (IESPS), as organizações que desenvolvem uma cultura organizacional norteada pelos valores e princípios inerentes ao movimento global da promoção da saúde com o fim de assegurar o desenvolvimento humano e melhorar a qualidade de vida, não só das pessoas que aí trabalham e estudam como também melhorar os múltiplos contextos de vida, do trabalho, das famílias e da comunidade. Esta perspetiva assenta nas premissas da saúde positiva, pela promoção da interação de fatores psicossociais facilitadores do alcance de auto nível em bem-estar psicológico, aspeto profundamente enraizado com a saúde mental. Trata-se de reunir esforços no sentido de concretizar o preconizado em diversas orientações políticas, quer nacionais, quer internacionais, com enfoque para a carta de Otawa. Os fatores que, de uma forma ou de outra, influenciam a saúde, designados por determinantes da saúde, são inúmeros, pelo que a Organização Mundial de Saúde considera ser necessário pensar sobre a saúde, desde as suas políticas, ao ambiente e aos estilos de vida saudável e da necessidade de orientação para a promoção da saúde e prevenção da doença. Sensibilizar as pessoas para a adoção de estilos de vida saudáveis é muito importante. A adoção de um estilo de vida saudável deve ser vista como uma oportunidade da pessoa e da comunidade, empoderando-os assim, no sentido da adotação uma atitude salutogénica nos múltiplos contextos de vida. Nesta perspetiva o bem-estar é parte integrante da conceção de saúde. Por sua vez, o conceito de bem-estar psicológico articula-se com o de saúde mental, que inclui outras dimensões positivas como a autonomia, a perceção de autoeficácia ou a competência Nos termos propostos por Antonovski (1987), as IESPS saudáveis inscrevem-se numa perspetiva salutogénica, em que a saúde é entendida como um bem maior, suscetível de ser criada e ser vivida nos contextos quotidianos das pessoas. Ainda de acordo com Tsouros (2013), os contributos destas instituições geram potencial incrementado de saúde de diferentes formas, nomeadamente: i) pelo facto de estas abrangerem um público alargado e orientado para aspetos da vida distintos (aprender, trabalhar, socializar e usufruir de Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 58

tempos livres e de lazer), utilizar serviços variados (alojamento, transportes, refeitórios, entre outros), que por este facto escamoteiam um potencial de proteção e promoção do bem-estar e da saúde de estudantes, docentes e funcionários e da comunidade envolvente que pode ser desenvolvida através de políticas e práticas; ii) Os estudantes, pela formação diversificada, poderão ser no futuro profissionais, decisores políticos, entre outros, com capacidade para influenciar as determinantes sociais da saúde; iii) de acordo com o guia das universidades saudáveis e outras IESPS, estas incorparam a promoção de saúde no seu projeto educativo e de trabalho. Com base nestes pressupostos, as instituições envolvidas comprometem-se com referenciais de boas práticas em Educação pelos Pares e Promoção da Saúde em contexto escolar e recreativo, envolvendo, entre outros, jovens estudantes. Neste sentido o Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC), tem potencial para se constituir como uma instituição promotora de saúde, comprometida com a promoção da literacia em saúde conducente à tomada de decisão consciente e intencional na adoção de estilos de vida e bem-estar adequados. Este processo de integração assenta no modelo PEER-IESS (Education Engagement and Evaluation Research -Instituições de Ensino Superior Salutogénicas), de Brito e Mendes (2009), que por sua vez tem por base os pressupostos teórico-metodológicos de intervenção no modelo PRECED- PROCEED (Green & Kreuter 1991). Este modelo envolve várias fases, designadamente a fase de diagnóstico epidemiológico, onde se inscreve o presente estudo, no âmbito da avaliação dos estilos de vida e bem-estar psicológico. Os estilos de vida (EV) constituem uma das principais determinantes da saúde, em particular quando perspetivados em termos de prevenção. Constituem uma “variável dependente da definição de risco, ou seja, não se definem por si só, mas em relação com riscos subsequentes” (Silva, 2017, p. 73) Cockerham (2012) desenvolveu um conceito holístico de estilos de vida, e por conseguinte, associados à saúde das comunidades e que envolve aspetos diversificados como educação, ocupação, rendimentos, englobando posteriormente o estatuto socioeconómico. Os estilos de vida são influenciados por múltiplos fatores, designadamente por valores, cultura, motivação e oportunidades. Os estilos de vida no ensino superior revestem-se de


especificidades decorrentes da interpenetração de uma multiplicidade de fatores biopsicossociais e culturais, numa etapa de vida, frequentemente, marcada pela separação física da família. Estes são vistos como maneiras de agir, pensar e sentir, constituindo-se como traves mestras da vida e da ação humana e simultaneamente uma alavanca na construção e promoção da saúde e bem-estar. Por sua vez, definir bem-estar é difícil, uma vez que pode ser influenciado por variáveis tais como idade, sexo, nível socioeconómico e cultura. Para Ryff e Keyes (1995) o bem-estar será um conceito multidimensional composto por seis componentes de funcionamento psicológico positivo: avaliação positiva de si mesmo e do período anterior de vida (autoaceitação), um sentido de crescimento contínuo e desenvolvimento como uma pessoa (crescimento pessoal), acreditar que a vida possui objetivo (sentido) e significado (sentido de vida), possuir relações de qualidade com outros (relações positivas com outros), capacidade de manejar efetivamente a vida e o mundo ao redor (domínio do ambiente), e sentido de autodeterminação (autonomia). Assim o bem-estar psicológico pode ser visto como os recursos psicológicos que a pessoa detém (processos cognitivos, afetivos e emocionais) que contribuem para um bom estado de saúde física e psicológica (Ryff, 2013). Assim, este projeto de promoção da saúde, assente nos pressupostos de empoderamento dos cidadãos para a participação na (co)construção dos seus projetos de saúde, visa, não só a adoção de estilos de vida saudáveis e bem-estar psicológico, como compromete os estudantes com o presente e futuro da sociedade. MÉTODOS O desenho de investigação assentou nos pressupostos enunciados, sendo que este estudo tem como objetivos: avaliar os estilos de vida e o bem-estar psicológico e dos estudantes do IPVC; comparar os estilos de vida e o bem-estar entre os estudantes do seco feminino e masculino; correlacionar os estilos de vida e bem-estar psicológico. Realizou-se um estudo quantitativo, transversal e analítico-correlacional, utilizando-se na recolha de dados três instrumentos: um questionário de caraterização sociodemográfico; o Questionário Estilo de Vida FANTASTICO versão traduzida e adaptada de Lange e Vio (2006), Life-style Assessment Questionnaire (LAQ) (Hettler, 1982) – “O meu estilo de vida”

validada para a população portuguesa (Silva, Brito & Amado,2014); e o Psychological General Well-Being Index-Short version (PGWB-S) Grossi et al. (2006) versão traduzida e adaptada para a população portuguesa por Rainho et al. (2018). De acordo com Silva et al., (2014) o Questionário FANTASTICO é um instrumento de autopreenchimento composto por 30 itens, de resposta fechada, e explora 10 domínios da componente física, psicológica e social dos estilos de vida. Cada domínio identifica-se com a sigla “FANTASTICO”: F - Família e Amigos (itens 1,2); A - Atividade Física/Associativismo (itens 3,4,5); N - Nutrição (itens 6,7,8); T - tabaco (itens 9,10); A - Álcool e outras drogas (itens11,12,13,14,15,16); S - Sono/stress (itens 17,18,19); T - Trabalho/Tipo de personalidade (itens 20,21,22); I - Introspeção (itens 23,24,25); C - Comportamentos de saúde sexual (itens 26,27,28); O - Outros comportamentos (itens 29,30). Os itens possuem três opções de resposta, 0,1 ou 2 pontos e a soma de todos os pontos, resultante de todos os domínios varia ente 0 e 120 pontos e quanto menor a pontuação obtida, maior será a necessidade de reequacionar os estilos de vida. A interpretação dos resultados é efetuada com base em 4 categorias, a saber: “Excelente” (103-120), indica que o estilo de vida exerce uma elevada influência sobre a saúde; “Muito Bom” (85-102), indica que o estilo de vida exerce uma adequada influência para a saúde; “Bom” (73-84), indica que o estilo de vida traz muitos benefícios para a saúde; “Regular” (57-72), indica que o estilo de vida proporciona algum benefício para a saúde mas com alguns riscos; “Necessita melhorar” (0-46), indica que o estilo de vida apresenta muitos fatores de risco para a saúde. Para a avaliação do bem-estar utilizou-se a versão abreviada do questionário Bem-estar Psicológico (QGBEP-R) constituída por 6 itens. Este questionário assume um formato tipo Likert, com seis alternativas de resposta: a cotação dos itens varia entre 0 e 5 pontos, com a cotação invertida nos itens 2, 3 e 6. O nível de bem-estar psicológico pode assim variar entre o mínimo de 0 e o máximo de 30, correspondendo o valor 0 ao nível mínimo e 30 ao nível máximo de bemestar psicológico. Relativamente aos procedimentos, numa primeira fase todos os estudantes, em sede de sala de aula, foram informados dos objetivos, natureza e âmbito da participação, garantidas a confidencialidade dos dados recolhidos, privacidade e anonimato, sendo também assegurada a possibilidade de os mesmos poderem desistir do estudo a qualquer momento. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 59


Após aceitarem participar no estudo, através das suas contas institucionais de correio eletrónico, foi disponibilizado um link com acesso aos questionários para preencher. A recolha decorreu entre fevereiro e abril de 2018. Participaram no estudo 291 estudantes do 1º ano das Licenciaturas em Enfermagem e de Educação Básica, das Escolas Superiores de Saúde (ESS) e de Educação (ESE) do IPVC, Curso Superior Profissional de Termalismo e Bem-estar e Mestrados em Enfermagem. Para o tratamento de dados foi utilizado o programa SPSS, versão 21, recorrendo-se à estatística descritiva e inferencial, respeitando os pressupostos de normalidade e da mensuração das variáveis, sendo o nível de significância definido de 5%. Tendo a presente investigação resultado da extensão do estudo Estilos de Vida em Estudantes no Ensino Superior na Zona Centro (Silva, 2017) a várias instituições de Ensino Superior, designadamente ao IPVC, assumiram-se os pressupostos aprovados pela Comissão de Ética da The Health Sciences Research Unit: Nursing (UICISA-E). Foram, assim, respeitadas as recomendações das Declarações de Helsínquia e das revisões de Tóquio, Veneza, Hong Kong, Sommerset West, Edimburgo e Seul para investigações envolvendo pessoas. RESULTADOS Integraram o estudo 291 estudantes do Ensino Superior (estudantes do 1º ano da ESS e ESE), havendo 84,2% a frequentarem uma licenciatura, 11,4% a frequentar um mestrado e 4,5% um CTeSP. A grande maioria dos estudantes (80,8%) são do sexo feminino e 56 estudantes (19,2%) são do sexo masculino, com idades compreendidas entre os 18 e os 56 anos, cuja média de idades é de 22,73 anos e um desvio padrão de 6,683. A maioria destes estudantes não trabalha (67,0%) e uma percentagem de 33,0% refere trabalhar, sendo que 16,8% trabalha a tempo integral e 15,8% a tempo parcial. A maior parte dos estudantes mantêm-se na sua residência habitual (55,7%), enquanto 129 estudantes (44,3%) estão deslocados da sua residência habitual. A grande maioria (88,3%) refere não ter vícios ou dependências e 34 estudantes (11,7%) considera ter vícios/dependências, sendo os mais representativos o consumo de tabaco (21 estudantes - 7,2%), o consumo de café (4 estudantes - 1,4%) e o consumo de açúcares e doces (3 estudantes - 1,0%). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 60

Os outros vícios/dependências (bebidas energéticas e fast food, dinheiro, cigarros eletrónicos, sair à noite, telemóvel, comida) são todos referidos com a mesma percentagem (0,3%). Relativamente aos resultados obtidos através do FANTASTICO, os resultados maioritariamente apontam para muito bom (52,2%, n=153), bom (26,8 % n=78), excelente (13,7% n=40). Dito de outro modo, 93,1% (n=271) perceciona o seu estilo de vida como adequado e 6,9% (n=20) como não adequado. Verifica-se que as áreas de estilo de vida mais comprometidas, em que o valor médio obtido se distancia mais do valor máximo são nos domínios “trabalho/ tipo de personalidade”, “atividade física e associativismo”, “nutrição” e “sono e stresse”, sempre com piores resultados para as respondentes do sexo feminino. No entanto, identifica-se nos respondentes masculinos também uma área comprometida que é “comportamento de saúde e sexual”. Na análise da influência do sexo nos estilos de vida dos estudantes, é possível verificar diferenças estatisticamente significativas no que diz respeito aos itens “família/amigos” com as estudantes a obterem maior pontuação (t=-3,051; p=0,003), “tabaco” (t=-2,587; p<0,012) no “álcool e drogas” (t=-3,615; p<0,001), e “comportamento sexual” (t=-2,795; p=0,006). Os estudantes do sexo masculino pontuam melhor na “atividade física/associativismo” (t=2,629; p=0,009), sono (t=3,511; p=0,001) e na “introspeção” (t=-2,358; p=0,019), como consta da Tabela 1. Relativamente ao bem-estar psicológico, verifica-se um o valor medio de 18,13 ± 4,920, configurando-se com um valor satisfatório. Quando se faz a comparação entre sexos é possível verificar que os rapazes apresentam um valor superior (19,79 + 5,450) relativamente às raparigas (17,74 + 4,712) com diferenças estatisticamente significativa (t= 2,835, p=0,005) como consta da Tabela 2. Quando se procede ao estudo da correlação entre as variáveis em estudo (Bem-estar psicológico e Estilos de vida) verifica-se uma correlação positiva alta com elevado significado estatístico (Rp = 0,706; p<0,001), ou seja, a um estilo de vida melhor corresponde melhor perceção de bem-estar psicológico.


Tabela 1 - Resultados das dimensões do FANTASTICO segundo o sexo, valores do teste t de Student e significância estatística Sexo feminino

Sexo masculino

Total

n=235

n = 56

n=291

t Student

Significância

M(DP)

M(DP)

M(DP)

t

p

Total – “FANTASTICO”

89,62(11,130)

88,93(13,846)

89,48(11,678)

-0,346

0,730

Min-Máx

58-118

48-112

48-118

Sub-Total – “F”

3,52(0,823)

3,05(1,069)

3,43(0,893)

-3,051

0,003

Min-Máx

0-4

0-4

0-4

Sub-total – “A”

3,37(1,457)

3,95(1,600)

3,48(1,500)

2,629

0,009

Min-Máx

0-6

0-6

0-6

Sub-Total – “N”

3,60(1,189)

3,61(1,384)

3,60(1,226)

0,062

0,950

Min-Máx

0-6

0-6

0-6

Sub-Total – “T”

3,58(0,9049)

3,07 (1,412)

3,48(1,038)

-2,587

0, 012

Min-Máx

0-4

0-4

0-4

Sub-Total – “AA”

11,36(0,878)

10,55(1,617)

11,21(1,104)

-3,615

0,001

Min-Máx

7-12

5-12

5-12

Sub-Total – “S”

3,80(1,517)

4,57(1,346)

3,95(1,514)

3,511

0,001

Min-Máx

0-6

0-6

0-6

Sub-Total – “TT”

3,39(1,346)

3,63(1,229)

3,44(1,326)

1,185

0,237

Min-Máx

0-6

1-6

0-6

Sub-Total – “I”

4,06(1,439)

4,55(1,347)

4,15(1,433)

2,357

0,019

Min-Máx

0-6

0-6

0-6

Sub-Total – “C”

4,33(1,285)

3,80(1,212)

4,23(1,286)

-2,795

0,006

Min-Máx

0-6

1-6

0-6

Sub-Total – “O”

3,81(0,571)

3,68(0,636)

3,78(0,585)

-1,401

0,165

Min-Máx

0-4

2-4

0-4

Tabela 2 - Resultados da perceção de bem-estar psicológico segundo o sexo, valores do teste t de Student e significância estatística Sexo feminino

Sexo masculino

Total

t Student

Significância

n=235

n = 56

n=291

M(DP)

M(DP)

M(DP)

t

p

Bem-estar Psicológico

17,74 (4,712)

19,79 (5,450)

18,13 (4,920)

2,835

0,005

Min-Máx

4-29

1-30

1-30

DISCUSSÃO Os resultados obtidos referem-se maioritariamente a estudantes da licenciatura e predominantemente do sexo feminino. Estes factos poderão ser explicados, pelo menos em grande medida, por um lado, por o ensino superior, designadamente nas áreas da saúde e da educação, continuar a ser maioritariamente frequentado por mulheres e, por outro, os cursos de licenciatura constituem o “core” desta instituição e funcionam maioritariamente em regime presencial, o que poderá favorecer a participação no estudo. Acresce ainda o facto de o estudo ser liderado por uma equipa de investigação de uma Escola Superior de Saúde e naturalmente, nesta fase inicial, pode constituir-se um fator igualmente favorável à adesão maioritária da população feminina. Esta é uma realidade a merecer atenção acrescida, dado que se pretende integrar progressivamente outras Unidades Orgânicas da Instituição, onde as questões do género estão muito presentes. Tanto mais que o estudo dos estilos de vida, constitui apenas uma parte do diagnóstico epidemiológico, segundo o modelo PEER-IESS (Brito & Mendes, 2018), a suportar a intervenção que se perspetiva numa lógica de pesquisa – ação participada em saúde (ibidem; Morais, Brito e Tomás, 2018). Um aspeto a merecer atenção acrescida, designadamente em termos de intervenção, prende-se com o facto de 44,3% da população se encontrar deslocado da sua residência habitual. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 61


Reconhecidamente, trata-se de um território em que as acessibilidades estão comprometidas com potencial impacto, particularmente vivido numa fase que, frequentemente, coincide com a entrada no ensino superior. Dito de outro modo, trata-se de uma etapa de adaptação frequentemente fomentadora de crises ou problemas emocionais, implicando mudanças de hábitos e estilos de vida por parte dos estudantes (Gonçalves e Carvalho, 2007; Tassini, Vale, Candico & Bachur, 2017). Urge que, com os estudantes, por antecipação, sejam criadas condições promotoras de respostas adaptativas às transições. Dos resultados obtidos, salienta-se a perceção de um estilo de vida “Bom e/ou Muito Bom”, apontando para uma previsibilidade de maior adequação dos estilos de vida sobre a saúde. No entanto, salienta-se o facto de 6,9% dos estudantes os percecionar (estilos de vida) como inadequados. Apesar de esta frequência ser bastante inferior ao encontrado em outros estudos nacionais (Monteiro, Rainho e Barroso, 2018; Silva, 2016) e internacionais (Bonfim, Mafra, Gharib, De-Carli & Zafalon, 2017), implica a necessidade de uma intervenção específica a esta fase da vida. Relativamente às dependências referenciadas, surge o tabaco como mais frequente, o que é corroborado por outros estudos (Sequeira, Carvalho, Borges e Sousa, 2013). Importa futuramente perceber se este hábito se agrava ou não com a entrada no ensino superior. Em termos de relações entre os estilos de vida avaliados pelo FANTASTICO e o sexo, constata-se que não há diferenças estatisticamente significativas em relação ao score global. Contudo, os resultados obtidos na maioria dos domínios apontam para uma indelével influencia das questões de género. Neste contexto, importa referir que as estudantes evidenciam melhores resultados, com diferenças estatisticamente significativas, nos aspetos relacionados com “família/amigos”, “tabaco”, “álcool e drogas” e “comportamentos sexual”, parecendo evidenciar que as raparigas poderão vivenciar e expressar os afetos, pelo menos de forma mais explícita, e estão menos expostas a riscos para a saúde relacionados com o consumo destas substâncias e comportamentos sexuais inadequados. Estes resultados são corroborados pelo estudo de Ferreira (2018) mas contrariam os obtidos por Rodriguez-Gázquez, ChaparroHernandez e González-López (2016). Relativamente aos domínios “atividade física/associativismo”, “sono e stresse” e “introspeção” existem igualmente diferenças estatisticamente significativas, sendo que os rapazes Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 62

apresentam melhores resultados, traduzidos pelas médias mais elevadas, aspetos que são corroborados pelo estudo de Ferreira (2018). Estes resultados parecem apontar para o maior envolvimento dos rapazes em atividades da esfera pública (concretamente atividades físicas e associativismo) e maior perceção da capacidade para lidar com as emoções, sentimentos, gestão do stress e melhor qualidade de sono. Estes resultados são fortemente mediados pelas questões culturais e relações sociais de género, mas que poderão ter eventual tradução na forma de viver os tempos livres e de lazer. No que se refere ao bem-estar psicológico, a média obtida é ligeiramente mais baixa em comparação com outros estudos em instituições de ensino superior (Silva, 2016; Monteiro, Rainho e Barroso, 2018). Contudo, a par com as diferenças das dimensões dos estilos de vida, verifica-se uma associação positiva alta entre os estilos de vida e o bem-estar psicológico, sendo as estudantes do sexo feminino as que obtêm valores médios substancialmente mais baixos do que os estudantes do sexo masculino. Nesta medida, a comunidade educativa confronta-se com vários desafios, designadamente o combate das desigualdades de género, em prol da maximização do funcionamento psicológico positivo, na globalidade das componentes defendidas por Ryff e Keyes (1995). Neste contexto, evidencia-se a necessidade de estudos longitudinais de modo a compreender a evolução dos estilos de vida numa etapa da vida marcada pela conquista de autonomia e responsabilidade, mas também de transição com ambiente de proximidade e afeto familiar, implicando a necessidade de intervenção em (co)construção e com envolvimento ativo de pares (Tassini, Vale, Candico & Bachur, 2017). CONCLUSÕES Apesar da maioria dos estudantes percecionar os estilos de vida como “Muito bom/bom” e o bem-estar psicológico obtido ser satisfatório existe ainda uma proporção com algum significado a sugerir intervenções conducentes a uma promoção da saúde e do funcionamento psicológico positivo mais efetivo. A partir das diferenças de estilos de vida e do bemestar psicológico entre rapazes e raparigas, conclui-se ainda da existência de um forte atravessamento das relações sociais de género também na vida académica. Estes aspetos, associados a um conjunto de fatores afetivos, emocionais, socioculturais e económicos, configuram determinantes sociais da saúde suscetíveis de


ser modificados de forma intencional e crítica pelos próprios estudantes. De facto, a habilidade social combinada com o otimismo facilita não só a integração na vida académica como também atitude e determinação face à consecução dos objetivos nas várias dimensões da vida. Neste sentido este estudo constitui-se uma das primeiras etapas de um processo de mudança e transformação no âmbito da cidadania em saúde, ou seja, numa lógica em que a comunidade académica (onde os estudantes são o foco central) é atora e autora de todo o percurso. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLINICA Este estudo constitui a fase inicial do diagnóstico epidemiológico em torno dos estilos de vida dos estudantes de duas Unidades Orgânicas do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, prevendo-se o alargamento faseado às restantes Unidades. Passar-se-á, de seguida, à fase da socialização dos resultados e construção do plano de intervenção com a comunidade educativa e órgãos de gestão. Está em jogo a inclusão e mobilização da promoção da saúde e bem-estar psicológico no projeto educativo e laboral, a equidade, a sustentabilidade e a promoção de ambientes de vida e aprendizagem saudáveis. Desta forma, constitui-se condição para prosseguir a implementação de políticas de bem-estar e qualidade de vida na instituição. A comunidade académica, em particular os estudantes, passam a ter condições para assumir um papel ativo em todo o processo, na gestão organizacional da própria instituição e na criação de políticas de promoção da saúde e bem-estar através da sua ação, enquanto educadores pelos pares e peer- research. Esta forma de intervir é por si só promotora do desenvolvimento das competências dos enfermeiros de cuidados gerais, sobretudo no que se refere às questões da cidadania em saúde. Perspetiva-se assim a base de reorientação de “pensar” e “fazer” a formação em enfermagem num compromisso efetivo, entre outros, com os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável 2020-2030, da OMS. Só assim se poderá contribuir para um “desenvolvimento científico e tecnológico igualitário, inclusivo e orientado para o futuro” (ponto 1, alínea c, da Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação, 2018-2030)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Antonovsky, A. (1987). Unraveling the Mystery of Health: How People Manage Stress and Stay Well. San Francisco: Jossey Bass. Bonfim, R.A, Mafra, M. A., Gharib, I.M., De-Carli, A. D., & Zafalon, E. J. (2017). Factores associados ao estilo de vida fantástico de universitários brasileiros: uma análise multinível. Revista CEFAC, 19 (5), 601610. Doi: 10.1590/19820216201719518716 Brito, I., & Mendes, F. (2018). Como estruturar um projeto de Pesquisa-Ação-Participativa em Saúde. In I. Brito (coord.), Pesquisa-Ação Participativa na (co) criação de instituições de Ensino Superior Promotoras de Saúde (77- 93). Coimbra: Palimage. Brito, I., & Mendes, F. (2009). PEER-IESS: Instituições de Ensino Superior Salutogénicas. Coimbra: Unidade de Investigação em Ciências da Saúde. Cockerham, W. (2012). Medical sociology. (12th ed.). Boston: Prentice Hall. Ferreira, F.P., (2018). Contributos da pesquisa-ação participativa na transformação de uma Escola Superior de Enfermagem num contexto promotor de Saúde. (Tese de Doutoramento, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Universidade do Porto). Green, L.W., & Kreuter, M.W. (1991). Health Promotion Planning: an educational and Environmental Approach. Patient Education and Counseling, 19 (3), 298. Doi: 10.1016/0738-39991(92)90152-9 Hettler, B. (1982). Wellness promotion and risk reduction on university Campus. In M. M. Faber, & A. M. Reinhardt (Eds.), Promoting health through risk reduction (07-238). New York: Collier Macmillan Publishers. Monteiro, M.J.F.S.P., Rainho, M.C.A. & Barroso, I.M.A.R.C. (2018). Bem-estar psicológico e estilo de vida saudável em estudantes da Universidade de Trásos-Montes e Alto Douro (UTAD). In I. Brito (coord.), Pesquisa-Ação Participativa na (co)criação de instituições de Ensino Superior Promotoras de Saúde (119125). Coimbra: Palimage. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 63


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Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/ 10.19131/rpesm.0249

10 O QUE SABEM E PENSAM OS ENFERMEIROS SOBRE A DOENÇA

MENTAL: ESTUDO DO CONHECIMENTO E ATITUDES ESTIGMATIZANTES EM SAÚDE MENTAL | Daniel Carvalho1; Ana Querido2; Catarina Tomás3; João Gomes4; Marina Cordeiro5 |

RESUMO CONTEXTO: O estigma em saúde mental continua a ser uma realidade. Devido ao papel que desempenham, as atitudes estigmatizantes dos enfermeiros são muitas vezes mais prejudiciais. Fatores formativos e o conhecimento são responsáveis por alterações nos níveis de estigma. OBJETIVO(S): Descrever o conhecimento sobre saúde mental e os níveis de atitudes estigmatizantes dos enfermeiros de um Centro Hospitalar da região centro de Portugal; Analisar em que medida as atitudes estigmatizantes se relacionam com os conhecimentos sobre saúde mental. MÉTODOS: Realizou-se um estudo quantitativo, descritivo-correlacional, transversal. A amostra, do tipo não probabilístico por conveniência, foi constituída por 83 enfermeiros. O questionário, para além da caraterização sociodemográfica dos participantes, integrava uma questão sobre a perceção do conhecimento e outra sobre a perceção do estigma em saúde mental; a versão portuguesa da Mental Health Knowledge Schedule; e a versão portuguesa da Mental Illness Clinician’s Attitudes Scale. RESULTADOS: Os enfermeiros consideram o seu estigma em saúde mental muito baixo e o nível de conhecimento mediano. Os níveis de atitudes estigmatizantes da amostra são baixos e o nível de conhecimento é elevado. Existe uma correlação negativa entre os níveis de atitudes estigmatizantes e a perceção do conhecimento, e positiva com o nível de estigma percebido. Os enfermeiros que exercem funções em serviços não psiquiátricos apresentam mais atitudes estigmatizantes. CONCLUSÕES: Os enfermeiros revelaram conhecimento razoável em saúde mental e níveis de atitudes estigmatizantes baixos, contudo estes valores pioram nos enfermeiros que não exercem funções em serviços de psiquiatria.

PALAVRAS-CHAVE: Profissionais de enfermagem; Conhecimento; Estigma social

RESUMEN

ABSTRACT

“Lo que saben y piensan los enfermeros sobre una enfermedad mental: Estudio del conocimiento y actitudes estigmatizantes en salud mental”

“What nurses know and think about a mental illness: Study of knowledge and stigmatizing attitudes in mental health”

CONTEXTO: El estigma en salud mental sigue siendo una realidad. Debido al papel que desempeñan, las actitudes estigmatizantes de los enfermeros son a menudo más perjudiciales. Los factores formativos y el conocimiento son responsables de cambios en los niveles de estigma. OBJETIVO(S): Describir el conocimiento acerca de la salud mental y los niveles de actitudes estigmatizantes de los profesionales de enfermería en un centro hospitalario de la región central de Portugal; Analizar en qué medida las actitudes estigmatizantes se relacionan con los conocimientos sobre salud mental. METODOLOGÍA: Estudio cuantitativo, descriptivo correlacional, transversal. La muestra, del tipo no probabilístico por conveniencia, fue constituida por 83 enfermeros. El cuestionario, además de la caracterización sociodemográfica de los participantes, integra una cuestión sobre la percepción del conocimiento y otra sobre la percepción del estigma en salud mental sentido; la versión portuguesa de la Mental Health Knowledge Schedule y la versión en portugués de la Mental Illness Clinician’s Attitudes Scale. RESULTADOS: Los enfermeros consideran su estigma en salud mental muy bajo y el nivel de conocimiento mediano. Los niveles de actitudes estigmatizantes de la muestra son bajos y el nivel de conocimiento es elevado. Hay relación negativa entre los niveles de actitudes estigmatizantes con la percepción del conocimiento y relación positiva con el nivel de estigma percibido. Los enfermeros que ejercen funciones en servicios no psiquiátricos presentan más actitudes estigmatizantes. CONCLUSIONES: Los enfermeros revelaron conocimiento razonable en salud mental y niveles de actitudes estigmatizantes bajos, sin embargo, estos valores empeoran en los enfermeros que no ejercen funciones en servicios de psiquiatría.

BACKGROUND: Stigma in mental health continues to be a reality. Because of their role, nurses’ stigmatizing attitudes are often more harmful. Learning factors and knowledge are responsible for changes in stigma levels. AIM: To describe the knowledge about mental health and the levels of stigmatizing attitudes of nurses working in a Hospital in the central region of Portugal; To analyze the extent to which stigmatizing attitudes correlate to mental health knowledge. METHODS: The sample is non-probabilistic for convenience, being constituted by 83 nurses. The questionnaire, besides the sociodemographic characterization of the participants, integrates a question about the perception of knowledge and another about the perception of stigma in mental health; the Portuguese version of the Mental Health Knowledge Schedule; and the Portuguese version of the Mental Illness Clinician’s Attitudes Scale. RESULTS: Nurses consider their stigma in mental health too low and their level of knowledge medium. The levels of stigmatizing attitudes of the sample are low and the level of knowledge is high. There is a negative relationship between the levels of stigmatizing attitudes and the perception of knowledge and a positive relationship with the level of perceived stigma. Nurses who work in non-psychiatric wards have more stigmatizing attitudes. CONCLUSIONS: Nurses showed reasonable knowledge of mental health and low levels of stigma, but these values worsen in nurses who do not work in psychiatry wards.

KEYWORDS: Nurse practitioners; Knowledge; Social stigma Submetido em 30-12-2018 Aceite em 09-05-2019

DESCRIPTORES: Enfermeras practicantes; Conocimiento; Estigma social 1 Mestre em Enfermagem de Saúde Mental; Investigador no CINTESIS – Nurs-ID; Assistente Convidado no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde; Enfermeiro especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica no Centro Hospitalar de Leiria, Hospital de Santo André, Santa Catarina da Serra, drscarvalho@gmail.com 2 Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Doutora em Enfermagem; Investigadora no CINTESIS – Nurs-ID; Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde, Leiria, Portugal, ana.querido@ipleiria.pt 3 Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Doutora em Enfermagem; Investigadora no CINTESIS – Nurs-ID; Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde, Leiria, Portugal, catarina.tomas@ipleiria.pt 4 Enfermeiro especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Mestre em Enfermagem de Saúde Mental; Assistente Convidado no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde; Enfermeiro com Funções de Chefia no Centro Hospitalar de Leiria, Hospital de Santo André, Santa Catarina da Serra, joaomfg@gmail.com 5 Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Mestre em Enfermagem de Saúde Mental; Assistente Convidada no Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Saúde; Enfermeira no ACeS Pinhal Litoral, Leiria, Portugal, marinasscordeiro@gmail.com Citação: Carvalho, D., Querido, A., Tomás, C., Gomes, J., Cordeiro, M. (2020). O que sabem e pensam os enfermeiros sobre a doença mental: Estudo do conhecimento e atitudes estigmatizantes em saúde mental. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 65-71. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 65


INTRODUÇÃO O estigma pode ser definido como um conjunto de atitudes, crenças e pensamentos negativos que levam a rotular uma pessoa ou conjunto de pessoas e consequentemente influenciam a opinião do outro, originando comportamentos de medo, rejeição, evitamento, preconceito e discriminação e que resultam geralmente de medos, falsas crenças, desconhecimento e falta de compreensão (Mikolon, Kreiner, & Wieseke, 2016; Ordem dos Enfermeiros, 2011; Pinto-Foltz, & Logsdon, 2009). No caso da doença mental, a estigmatização leva à discriminação de doentes/familiares/ profissionais, podendo ter consequências ao nível do acesso aos cuidados de saúde, educação, emprego, habitação e oportunidades de vida (Mikolon et al., 2016), ou ainda ao comprometimento da autoestima, autoconceito, qualidade de vida, suporte social, empoderamento, e ao aumento dos índices de ansiedade e stress (Fonseca, 2018; Mikolon et al., 2016; Xavier, Klut, Neto, Ponte, & Melo, 2013). No caso dos profissionais de saúde, a problemática é mais complexa, uma vez que estes podem ser estigmatizantes, alvo do estigma ou agentes de desestigmatização (Schulze, 2017). Devido ao papel que desempenham e ao contacto próximo com o doente/família, as atitudes e comportamentos estigmatizantes dos enfermeiros são por vezes mais prejudiciais (Reavley & Jorm, 2011), podendo provocar sentimentos de rejeição e o estabelecimento de uma barreira aos cuidados de saúde, tendo como consequências dificuldades de acesso aos cuidados, sub-tratamento e o comprometimento da relação entre o doente/família e o profissional (Corrigan, 2004; Modgill, Patten, Knaak, Kassam, & Szeto, 2014). Profissionais mais especializados e com maiores conhecimentos na área da saúde mental demonstraram menores níveis de estigma comparativamente com os restantes, percebendo-se que os fatores formativos poderão ser responsáveis por estas diferenças nos níveis de estigma (Batista, 2013; Ihalainen‐Tamlander, Vähäniemi, Löyttyniemi, Suominen & Välimäki, 2016; Lammie, Harrison, Macmahon & Knifton, 2012), até porque um dos principais motivos que levam os profissionais a demonstrar atitudes estigmatizantes para com a pessoa com doença mental é precisamente a falta de treino e preparação para lidar com este tipo de população (Batista, 2013). É ainda consensual que a educação e consequente promoção da literacia em saúde mental (LSM) é uma das Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 66

estratégias eficazes de combate ao estigma, sendo geralmente o ponto de partida de qualquer programa de intervenção sobre esta temática (Arboleda-Florez, & Stuart, 2012; Fonseca, 2018). Assim, a partir do problema resumidamente enunciado, pretende-se desenvolver uma investigação cujos objetivos são: descrever o conhecimento sobre saúde mental e os níveis de atitudes estigmatizantes dos enfermeiros de um Centro Hospitalar da região centro de Portugal; analisar em que medida as atitudes estigmatizantes se relacionam com os conhecimentos sobre saúde mental. MÉTODOS Participantes Para a concretização dos objetivos propostos realizouse um estudo quantitativo, descritivo-correlacional e transversal. A amostra do estudo é do tipo não probabilístico por conveniência, sendo constituída por 83 enfermeiros a exercer funções numa Unidade Hospitalar da Região Centro de Portugal, nos serviços de Urgência, Psiquiatria, Medicina Interna, Gastroenterologia, Pneumologia, Cardiologia e Urologia. Como critérios de inclusão definiram-se: participação voluntária no estudo, trabalhar há mais de 2 anos e saber ler e escrever em português. Instrumento de colheita de dados Utilizou-se um questionário de autopreenchimento, constituído por três secções: a primeira de caraterização sociodemográfica dos participantes (género, idade, tempo de exercício profissional, habilitações académicas e profissionais, história de perturbação mental e contacto com pessoas portadoras de perturbação mental); a segunda constituída por duas questões para avaliar a perceção do conhecimento e estigma sobre saúde mental, ambas pontuadas numa escala ordinal de 0 (nenhum) a 10 (excelente/total). A terceira secção integra a versão portuguesa da Mental Health Knowledge Schedule (MAKS) (elaborada na sua versão original por Evans-Lako et al. (2010), traduzida e validada para a população portuguesa por Tomás, Querido, Gomes, Carvalho, Cordeiro e Gomes, atualmente a aguardar publicação), e a versão portuguesa da Mental Illness Clinician’s Attitudes Scale (MICA-4) (elaborada na sua versão original por Gabbidon et al. (2013), traduzida e validada para a população portuguesa por Tomás, Querido, Carvalho, Cordeiro e Gomes, atualmente a aguardar publicação).


A MAKS é um instrumento que permite avaliar o conhecimento em saúde mental. É constituída por duas partes, integrando 12 itens, cotados numa escala tipo Likert de 5 pontos (1 – discordo fortemente; 5 – concordo fortemente), onde valores mais elevados de pontuação correspondem a maiores níveis de conhecimento. A primeira parte é composta por 6 itens e avalia os conhecimentos relacionados com o estigma nas áreas da procura de ajuda, reconhecimento, apoio/suporte, emprego, tratamento e recuperação. A segunda parte integra os restantes 6 itens e avalia o conhecimento acerca das doenças mentais. A MICA-4, cujo objetivo é a avaliação das atitudes estigmatizantes perante as pessoas portadoras de perturbação mental, é constituída por 16 itens, avaliados numa escala tipo Likert de 6 pontos, (Concordo plenamente a Discordo plenamente), permitindo pontuações de 16 a 96 pontos (pontuações mais elevadas indicam perceções mais estigmatizantes). Aprovação ética Todos os princípios éticos e formais inerentes à investigação foram assegurados. Foi obtida previamente a autorização da Comissão de Ética e do Conselho de Administração da Unidade Hospitalar onde se realizou o estudo, bem como de todos os enfermeiros chefes dos serviços envolvidos. A participação foi voluntária e a confidencialidade foi assegurada em todo o processo, sendo garantida tanto ao nível das respostas como do anonimato dos participantes. Análise estatística Para análise estatística dos dados recorreu-se ao SPSS, versão 24, com recurso a testes paramétricos. Considerando o tamanho da amostra do estudo, assumiu-se a adesão das distribuições à normalidade. Em termos descritivos analisaram-se as frequências absolutas (n) e relativas (%), média, moda, mediana, desvio padrão (DP), máximos e mínimos. Para análise inferencial utilizaram-se o teste One Way-Anova (diferenças entre mais de dois grupos ou amostras independentes), Coeficiente de correlação de Pearson e o teste t-student (diferenças entre duas amostras independentes) e One Way-Anova (análise de regressão). Assumiu-se como nível de significância, p<0,05 para resultados significativos e p<0,01 para resultados muito significativos. A probabilidade máxima aceitável para a ocorrência de Erro Tipo I foi definida em 0,05.

Resultados Os 83 enfermeiros que participaram no estudo pertenciam na sua maioria ao género feminino (n=62; 74,7%), apresentando uma idade média de 41,27 anos (DP=10,15). Dos enfermeiros inquiridos, 62 (74,7%) exercem funções em serviços não psiquiátricos, enquanto 21 (25,3%) trabalham em serviços de psiquiatria. Considerando a sua formação, 64 (77,1%) eram licenciados, 18 (21,75%) mestres e apenas um tem o bacharelato. A maioria dos enfermeiros da amostra não tem especialidade profissional (n=63; 75,9%). Dos restantes, 9 são especialistas em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica, 8 especialistas em Enfermagem Médico-cirúrgica e 3 especialistas em Enfermagem de Reabilitação. A maioria dos enfermeiros (98,8%) exerce há mais de 6 anos. Quando questionados acerca de sofrerem ou já terem sofrido de alguma perturbação mental, 9 (10,8%) responderam afirmativamente, sendo que destes, 7 referem a depressão e 1 a ansiedade. Também 40 (48,2%) enfermeiros referem ter alguém da família ou próximo com perturbação diagnosticada, nomeadamente mãe (n=9) e pai (n=6), primos (n=6) e tios (n=6). A maioria dos enfermeiros (n=63; 75,9%) referem também ter tido contacto recente com colegas colaboradores da mesma instituição com perturbação mental diagnosticada. Relativamente à questão “Como considera o seu nível de conhecimentos acerca da Saúde/doença Mental”, as respostas obtidas traduzem pontuações que variaram entre 3 e 10 pontos (M = 6,1; DP=1,858). Quando questionados acerca de “Como consideram o seu nível de estigma em relação ao doente e doença mental”, as respostas variaram de 0 a 9 pontos, com média de 2,69 (DP=2,311). Como forma de avaliar os conhecimentos acerca da saúde mental foi aplicada a MAKS e para avaliar as atitudes estigmatizantes dos profissionais de saúde utilizou-se a MICA-4, obtendo-se os resultados indicados Tabela 1. Tabela 1 - Medidas de tendência central e variabilidade das variáveis ‘conhecimento em saúde mental’ e ‘atitudes estigmatizantes’ da amostra Média

Mediana

Moda Desvio Padrão

Míni- Máxmo imo

Conhecimento em saúde mental

23,99

24

24

2,482

18

28

Atitudes estigmatizantes perante a pessoa com perturbação mental

35,82

34

34

8,925

20

58

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Quando avaliada a correlação entre o conhecimento em saúde mental e a perceção dos enfermeiros sobre o seu nível de conhecimento, de estigma ou a sua idade, não se encontraram correlações estatisticamente significativas. Considerando as atitudes estigmatizantes e a sua correlação com a perceção dos enfermeiros inquiridos acerca do seu conhecimento e do seu estigma, as correlações são as indicadas na Tabela 2. Podemos verificar que uma menor perceção de conhecimento está relacionada com aumento das atitudes estigmatizantes (correlação negativa fraca), e que o nível de atitudes estigmatizantes está positivamente correlacionado com a auto perceção do nível de estigma. Tabela 2 - Coeficientes de correlação linear simples entre as variáveis ‘atitudes estigmatizantes’ e ‘perceção do nível de estigma’ (Teste da significância do r de Pearson) Idade

r

P

Perceção do nível de estigma em saúde mental

Perceção do nível de conhecimento em saúde mental

r

r

P 0,166

P

Conhecimento em saúde mental

-0,137 0,217

0,046 0,679

0,153

Atitudes estigmatizantes perante a pessoa com perturbação mental

0,036

0,265 0,015*

-0,283 0,010*

0,747

Tabela 3 - Distribuição dos valores de atitudes estigmatizantes tendo em conta o serviço em que os enfermeiros exercem funções (Teste de t-student) Média ConheServiços 23,38 cimento em psiquiátricos saúde mental Serviços não 24,19 psiquiátricos

2,559

Atitudes estigmatizantes perante a pessoa com perturbação mental

Serviços 32,19 psiquiátricos

7,567

Serviços não 37,05 psiquiátricos

9,069

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 68

p

1,302 0,196

2,442 2,413 0,020*

Legenda: * p<0,05; **p<0,01

A análise dos resultados apresentados na tabela 4, referentes ao teste One Way-Anova para análise de regressão linear simples, revela que o serviço onde os enfermeiros exercem funções é um preditor do nível de atitudes estigmatizantes perante a pessoa com perturbação mental, explicando 5,7% da sua variância. Tabela 4 - Influência do exercício de funções em serviços de psiquiatria nos valores de atitudes estigmatizantes (Teste One Way-Anova)

Legenda: * p<0,05; **p<0,01

Verificou-se também a influência das variáveis ‘grau académico’, ‘estado civil’, ‘detenção do título de especialista’, área de especialização’, ‘presença de diagnóstico de perturbação mental’ e ‘contacto próximo ou profissional com pessoas com perturbação mental’, nos níveis de conhecimento e de atitudes estigmatizantes dos enfermeiros. A análise dos dados amostrais não revelou a existência de diferenças com significado estatístico nos níveis de conhecimento em saúde mental e nas atitudes estigmatizantes perante a pessoa com perturbação mental. Parece, contudo, haver diferença em função das áreas de atuação dos enfermeiros, considerando o serviço onde exercem funções, nomeadamente se é ou não da área psiquiátrica. Assim, tal como se verifica na Tabela 3, os enfermeiros a exercer funções em serviços de Psiquiatria apresentam níveis inferiores de atitudes estigmatizantes.

Desvio t Padrão

Atitudes estigmatizantes perante a pessoa com perturbação mental

Preditor

R

R2

Soma dos quadrados

Quadrado médio

F

P

Serviço onde exerce funções

0,238

0,057

370,196

370,196

4,866

0,030*

Resíduo

6162,093

76,075

Total

6532,289

Legenda: * p<0,05; **p<0,01

Procurando a relação entre o nível de conhecimento em saúde mental e de atitudes estigmatizantes perante pessoas com perturbação mental não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas, bem como qualquer predição significativa da primeira em relação à segunda.


DISCUSSÃO A amostra do estudo revela um bom nível de conhecimento relacionado com o estigma face à doença mental, embora relativamente aos conhecimentos percebidos acerca da Saúde/doença Mental tenha sido obtido um score médio de 6,01, que será um valor razoável. Seria expectável que os enfermeiros a desempenhar funções em serviços de psiquiatria revelassem maiores níveis de conhecimento face aos que trabalham em serviços não psiquiátricos. Não obstante a maior cotação nas áreas de conhecimento face à doença mental e na capacidade de reconhecimento e de suporte da pessoa com doença mental, as pontuações finais mais baixas dos enfermeiros dos serviços de psiquiatria nas áreas respeitantes ao tratamento e recuperação são reveladoras de conhecimento associado ao estigma que pode ser alvo de intervenção. No geral os níveis de estigma são relativamente baixos, tanto nas respostas à escala de atitudes face à doença mental como nos resultados obtidos na autoperceção do estigma através da pergunta “Como considera o seu nível de estigma em relação ao doente e doença mental?”. Estes níveis baixos de estigma poderão estar relacionados com as caraterísticas da amostra nomeadamente o facto de a maioria dos enfermeiros exercer há mais de 6 anos (98,8%). Estudos têm demonstrado que um maior tempo de experiência profissional parece influenciar de forma positiva as atitudes dos profissionais de enfermagem face à doença mental (Chambers et al, 2010). A existência de enfermeiros que têm ou já tiveram alguma perturbação mental também contribui para níveis inferiores de estigma dado que estes profissionais podem não querer ver também eles a sua própria liberdade limitada enquanto doentes (Covarrubias & Han, 2011), contudo, os dados deste estudo não corroboram esta evidência. O contacto e a proximidade com pessoas com doença mental são aspetos referidos por diversos autores como fatores que favorece a adoção de atitudes mais positivas face às pessoas com doença mental, (Corrigan, Green, Lundin, Kubiak, & Penn, 2001; Dessoki, & Hifnawy, 2009). Também a este nível, os resultados deste estudo não corroboram esta evidência. Por outro lado, grande parte da amostra (48,2%) referiu ter alguém da família ou próximo com perturbação mental diagnosticada, ou ter tido contacto recente com colegas colaboradores da mesma instituição com perturbação mental diagnosticada (75,9

Ainda que não tenha sido observada diferença significativa no estigma, o contacto e a proximidade com as pessoas com doença mental por parte da maioria dos enfermeiros pode justificar os baixos níveis de estigma no global. Os resultados demonstram ainda a relação entre a perceção do conhecimento e do estigma em saúde mental, e as atitudes estigmatizantes perante a pessoa com perturbação mental. Segundo os resultados encontrados, a perceção do estigma por parte dos enfermeiros está positivamente correlacionada com as atitudes estigmatizantes. Por outro lado, quanto maior o nível de conhecimento percebido, menos atitudes estigmatizantes serão demonstradas face à pessoa com doença mental. O nível elevado de conhecimento dos participantes poderá explicar esta relação uma vez que o conhecimento influencia a formulação de atitudes mais positivas perante as pessoas com doença mental (ArboledaFlórez & Stuart, 2012; Barrantes, Violante, Graça, & Amorim, 2017; Batista, 2013; Ihalainen‐Tamlander et al., 2016). O estudo revelou ainda diferenças no estigma entre os enfermeiros de diferentes áreas de atuação considerando o serviço onde exercem funções, sendo que os enfermeiros da área da psiquiatria apresentam níveis mais baixos de atitudes estigmatizantes face aos restantes. Este facto é corroborado por estudos anteriores que indicam que profissionais mais especializados na área da saúde mental demonstram graus menores de estigma comparativamente aos restantes (Batista, 2013; Smith & Cashwell, 2010). CONCLUSÕES Os enfermeiros revelaram um bom conhecimento em saúde mental relativo ao estigma nas áreas de procura de ajuda, reconhecimento, apoio/suporte, emprego, tratamento e recuperação e níveis de atitudes estigmatizantes baixos. Contudo, as atitudes estigmatizantes são mais evidentes nos enfermeiros que não exercem funções em serviços de psiquiatria. Percebe-se a necessidade de intervenção com vista à melhoria da LSM, e consequente melhoria de atitudes, parecendo positivo o envolvimento dos enfermeiros que exercem nos serviços de psiquiatria na mudança de atitudes dos colegas dos restantes serviços.

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IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA A evidência da relação entre o conhecimento percebido, o estigma e as atitudes estigmatizantes, salienta a necessidade de aumentar o conhecimento e a LSM, bem como aumentar o autoconhecimento dos enfermeiros face ao estigma. Os resultados obtidos com este estudo são um importante contributo para a prática clínica, em especial na área da enfermagem de saúde mental. É necessário desenvolver junto dos profissionais de enfermagem ações de sensibilização e a implementação de programas anti estigma que possibilitem a mudança de atitudes, de forma a diminuir os níveis de estigma face à doença mental. Além disso, parece ainda ser importante o desenvolvimento de estratégias e ações que permitam a melhoria da LSM de todos os enfermeiros da instituição hospitalar onde foi desenvolvido o estudo. Os resultados parecem também indicar que o conhecimento e as atitudes dos enfermeiros que trabalham nos serviços de psiquiatria podem ser uma mais-valia se colocadas ao dispor em todo este processo a implementar. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Arboleda-Florez, J., & Stuart, H. (2012). From sin to science: fighting the stigmatization of mental illness. Canadian Journal of Psychiatry, 57(8), 457-463. Doi: 10.1177/070674371205700803 Barrantes, J., Violante, C., Graça, L., & Amorim, I. (2017). Programa de Luta contra o estigma: resultados obtidos na formação nos profissionais de saúde mental. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, (Spe. 5), 19-24. Doi:10.19131/rpesm.0162 Batista, L. (2013). Os profissionais de saúde e o estigma da doença mental. (Dissertação de Mestrado, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto). Disponível em: https://sigarra.up.pt/fcnaup/pt/pub_geral.pub_view?pi_pub_base_id=30496 Chambers, M., Guise, V., Valimaki, M., Botelho, M., Scott, A., Staniuliene, V., & Zanotti, R. (2010). Nurses attitudes to mental illness: a comparison of a sample of nurses from five European countries. International Journal of Nursing Studies, 47(3), 350-62. Doi: 10.1016/j.ijnurstu.2009.08.008

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Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0250

11 AS

COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS ENFERMEIRO: UM ESTUDO SOCIOPOÉTICO

NA

FORMAÇÃO

DO

| Thainá Oliveira Lima 1; Cláudia Mara Tavares2 |

RESUMO CONTEXTO: A investigação sobre as emoções no cuidar, na enfermagem, revela que o trabalho com as emoções é essencial na relação com o paciente. É uma dimensão da atividade prática dos enfermeiros, para que consigam mostrar sensibilidade afetiva e compreensão pelo outro e lidar, simultaneamente, com a influência das emoções em si mesmos. Ressalta-se que o desempenho do desenvolvimento das competências socioemocionais em enfermagem incorpora ações inscritas no processo de cuidado com perspetivas afetivo-emocionais, que visam transformar positivamente as vivências dos sujeitos envolvidos nos cuidados, na intenção da promoção do bem-estar global. OBJETIVO: Identificar os conteúdos e estratégias de ensino-aprendizagem relacionados às competências socio emocionais em cursos de graduação em enfermagem, verificando sua presença efetiva nos currículos académicos. MÉTODO: Estudo de abordagem qualitativa, na perspetiva sociopoética. Participaram do dispositivo do grupo-pesquisador 13 alunos, dos 2 últimos períodos do curso de graduação em enfermagem, regularmente matriculados, maiores de 18 anos e de ambos os sexos. A pesquisa faz a análise qualitativa dos dados mediante a transcrição, categorização e verificação dos resultados. RESULTADOS: Revelaram-se inexistentes as orientações sobre emoções na graduação, pois não há, no currículo, um conteúdo, disciplina ou atividade que aponte para este tema e nem mesmo uma perspetiva docente/académica que considere essa abordagem de forma transversal e contínua. CONCLUSÃO: Este estudo proporcionou analisar a dimensão socioemocional dos alunos de enfermagem, identificando que não são trabalhados na graduação, abrindo a possibilidade de sugerir mudanças curriculares e a abertura de novos espaços de discussão do tema no ambiente universitário.

PALAVRAS-CHAVE: Emoções; Educação em enfermagem; Alunos de enfermagem; Inteligência emocional

RESUMEN

ABSTRACT

“Las competencias socioemocionales en la formación del enfermero: Un estudio sociopoético”

“The socioemotional skills in nurses’ training: A sociopoetic study”

CONTEXTO: La investigación sobre las emociones en el cuidado, en la enfermería, revela que el trabajo con las emociones es esencial en la relación con el paciente. Es una dimensión de la actividad práctica de los enfermeros, para que consigan mostrar sensibilidad afectiva y comprensión por el otro y tratar, simultáneamente, con la influencia de las emociones en sí mismos. Se resalta que el desempeño del desarrollo de las competencias socioemocionales en enfermería incorpora acciones inscritas en el proceso de cuidado con perspectivas afectivo-emocionales, que apuntan a transformar positivamente las vivencias de los sujetos involucrados en los cuidados, en la intención de la promoción del bienestar global. OBJETIVO: identificar los contenidos y estrategias de enseñanza-aprendizaje relacionados a las competencias socioemocionales en cursos de graduación en enfermería, verificando su presencia efectiva en los currículos académicos. METODOLOGÍA: Estudio de abordaje cualitativo, en la perspectiva sociopoyética. Participaron del dispositivo del grupo-investigador 13 estudiantes, de los 2 últimos períodos del curso de graduación en enfermería, regularmente matriculados, mayores de 18 años y de ambos sexos. La investigación hace el análisis cualitativo de los datos mediante la transcripción, categorización y verificación de los resultados. RESULTADOS: Se revelaron inexistentes las orientaciones sobre emociones en la graduación, indicando que no hay, en el currículo, un contenido, disciplina o actividad que apunte a este tema y ni siquiera una perspectiva docente / académica que considere ese enfoque de forma transversal y continua. CONCLUSIONES: Este estudio proporcionó analizar la dimensión socioemocional de los alumnos de enfermería, identificando que no son trabajados en la graduación, abriendo la posibilidad de sugerir cambios curriculares y la apertura de nuevos espacios de discusión del tema en el ambiente universitario.

BACKGROUND: The study about emotions in nursing care reveals that to work with them is essential for the relationship with the patient. It is a dimension of the practical activities of nurses, so that they can show an affectionate sensitivity and comprehension towards the person, while at the same time dealing with the influence of emotions within themselves. The performance of the development of socioemotional skills in nursery includes actions inscribed into the care process with affectionate-emotional perspectives that seek to positively transform the experiences of the subjects involved, with the intention to promote global well-being. AIM: To identify the content and strategies of the teaching-learning related to socioemotional skills in undergraduate nursing education, verifying its effective presence in academic programs. METHODS: Research of a qualitative approach in the perspective of sociopoetics. For the research group device, 13 students participated, effectively enrolled in the last 2 semesters of nursing school, over 18 years old, both genders. The research performs the qualitative analysis of data according to the transcription, categorization and verification of the results. RESULTS: Orientations regarding emotions in undergraduate education revealed to be inexistent, given that in the program there is no content, credit subject or activity that points to this theme, neither a faculty/academic perspective that considers this approach in a transversal and continuous way. CONCLUSION: This study provided the analysis of the socioemotional dimensions of nursing students, identifying that these dimensions are not developed during undergraduate education, opening, therefore, the possibility of curricular program changes to emerge and make way for new spaces for its discussion in university contexts.

DESCRIPTORES: Emociones; Educación en enfermería; Estudiantes de enfermería; Inteligencia emocional

KEYWORDS: Emotions; Nursing education; Nursing students; Emotional intelligence Submetido em 30-12-2018 Aceite em 17-03-2019

1 Enfermeira; Mestre; Doutoranda em Ciências do Cuidado em Saúde na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Rua Dr. Celestino, 74 – Centro, Rio de Janeiro, Brasil, oliveira.thina@hotmail.com 2 Pós-doutora; Professora Titular na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiatria, Rio de Janeiro, Brasil, claudiamarauff@gmail.com Citação: Lima, T. O., & Tavares, C. M. (2020). As competências socioemocionais na formação do enfermeiro: Um estudo sociopoético. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 72-80. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 72


INTRODUÇÃO Pode-se constatar que o processo de formação do enfermeiro evoluiu bastante desde a época de Florence Nightingale até aos dias atuais. Inicialmente, essa formação estava ligada aos aspetos de controlo do ambiente, a teoria ambientalista de Florence, passando depois para uma fase em que havia ênfase maior na aprendizagem de questões técnicas, com o foco em tarefas e procedimentos de enfermagem. A fase de cunho científico teve início com o ensino voltado para o desenvolvimento de procedimentos alicerçados em princípios científicos (Souza, Muniz, Silva, Monteiro e Fialho, 2006). O ensino científico direcionado para aprendizagem dos aspectos técnicos reforça o modelo biomédico e dificulta uma maior aproximação com o cliente, pois, quando formados, os profissionais tendem a ter maior preocupação em atender às necessidades biológicas do indivíduo, colocando em segundo plano o envolvimento com outras dimensões do ser humano. O comum, na prática profissional, são os enfermeiros aproximarem-se dos clientes, quando vão realizar algum tipo de procedimento, preocupados com outras necessidades ligadas à manutenção da hemodinâmica do indivíduo, com a observação rigorosa dos sinais vitais, do funcionamento adequado dos equipamentos, aprisionando os profissionais ao aparato tecnológico, o que geralmente é reforçado pelas instituições e pela própria legislação profissional (Souza, Cavalcanti, Monteiro e Silva, 2003). Entretanto, a ideologia do cuidar em enfermagem é simultaneamente humanista e científica, e essa ciência não deve permanecer indiferente às emoções humanas – dor, alegria, sofrimento, medo, raiva (…) (Watson, 2005). Qualquer organização, quer seja uma escola, quer seja uma empresa, por ser um organismo vivo, é feita de pessoas que têm crenças, valores, sentimentos, inteligência e, principalmente, diferenças. Em qualquer ambiente profissional, encontramos pessoas com habilidades diferentes e aspetos motivadores distintos. O modelo organizacional do século XXI é formado por equipes e redes de equipes, principalmente na enfermagem. As mais modernas e mais preparadas para esse novo cenário valorizam os seus recursos humanos e promovem oportunidades para que possam desenvolver conhecimento sobre sua inteligência emocional (Goleman, 1995).

O conceito de inteligência emocional foi desenvolvido ao longo do último meio século, surgindo pela primeira vez em 1990, com Peter Salovey e John D. Mayer, que ao redefinirem as inteligências pessoais de Gardner cartografaram o modo de trazer inteligência às emoções, criando o conceito. Mayer e Salovey (1997) afirmam que a inteligência emocional é o conjunto de quatro capacidades distintas que interagem entre si: a percepção emocional, a facilitação emocional do pensamento, a compreensão emocional e a gestão emocional, com a finalidade de promover melhores emoções e pensamentos (Nunes-Valente e Monteiro, 2016). De acordo com Casassus (2009), a inteligência emocional, na sua gestão mais interna, resulta no desenvolvimento das competências socioemocionais, que incluem um conjunto de comportamentos e sentimentos individuais como uma espécie de padrão constante ou tendência de responder de determinada forma em determinados contextos e situações cotidianas, como ao gerenciar as próprias emoções ou tentar atingir um objetivo. Em geral, essas competências podem ser divididas em cinco domínios: conscienciosidade (expressa em atitudes de responsabilidade, persistência, resiliência e outras), abertura a novas experiências (presente em comportamentos de curiosidade, criatividade, não ter medo de errar etc.), amabilidade (presente em cooperação, por exemplo), estabilidade emocional (na capacidade de autocontrole e outras) e extroversão (como a sociabilidade) (Damásio, 2011). A autora Pam Smith (2011) é a primeira a iniciar os estudos sobre a dimensão emocional na enfermagem e afirma que os enfermeiros têm necessidade de gerir as emoções como parte do seu trabalho, que decorrem das situações problemáticas vividas pelos clientes, da relação de cuidados e até mesmo da formação académica. A grande maioria dos estudos sobre as emoções em saúde tem enfoque na maternidade (infertilidade, parto, perda do bebé), cuidados paliativos, doenças crónicas, cuidados na comunidade e na área da neonatologia. Paradoxalmente, essa dimensão está pouco explorada no contexto da formação em enfermagem (Diogo, 2012). A investigação sobre as emoções no cuidar, na enfermagem, revela que o trabalho com essas emoções é essencial na relação com o paciente. É uma dimensão da atividade prática dos enfermeiros, para que consigam mostrar sensibilidade afetiva e compreensão pelo outro e lidar, simultaneamente, com a influência das emoções em si mesmos.

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Ressalta-se que o desempenho do desenvolvimento das competências socioemocionais em enfermagem incorpora ações inscritas no processo de cuidado com perspetivas afetivo-emocionais, que visam transformar positivamente as vivências dos sujeitos envolvidos nos cuidados, na intenção da promoção do bem-estar global (Diogo, 2012). Com essa perspetiva, a formação em enfermagem passa a ter outros significados que não aqueles atribuídos pelas dimensões científicas, pois é preciso perceber a necessidade de se recuperar um ser humano que seja capaz de cultivar seus instintos e sua emoção. Assim, o objetivo deste estudo é identificar os conteúdos e estratégias de ensino-aprendizagem relacionados às competências socioemocionais nos cursos de graduação em enfermagem e verificar se constam efetivamente dos currículos académicos. MÉTODOS Este artigo apresenta um estudo de natureza qualitativa, de abordagem sociopoética. A sociopoética é um modo de abordagem do conhecimento, do ser humano e da sociedade, que transforma poeticamente a realidade em estudo para compreendê-la. Como método de pesquisa, visa à produção de subjetividade, utilizando a sensibilidade, a criatividade, a arte e a relação com o outro (Gauthier, 2012). O método foi criado pelo filósofo e pedagogo Jacques Gauthier a partir das suas vivências compartilhadas no movimento de luta dos Kanak, povo indígena da Nova Caledónia, por sua independência contra o colonialismo francês. Do ponto de vista epistemológico, é gerado por meio de uma combinação de conhecimentos trazidos da pedagogia do oprimido (de Paulo Freire), da análise institucional (de René Lourau e George Lapassade) e da esquizoanálise (Gilles Deleuze e Felix Guattari). O método segue cinco princípios básicos: o grupopesquisador (GP) como dispositivo; a importância das culturas dominadas e de resistência; a importância do sentido espiritual e humano, das formas e dos conteúdos no processo de construção de saberes; a importância do corpo como fonte de conhecimento; e o papel da criatividade no aprender, no conhecer e no pesquisar. Utilizou-se o dispositivo do GP para produção de dados (comum a toda pesquisa sociopoética), que reuniu os seguintes passos: 1) apresentação dos membros do grupo;

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2) assinatura do termo de livre consentimento, com autorização para gravação de dados de som e/ou imagens, e negociação do tema gerador; 3) apresentação do diário de itinerância (neste estudo, os alunos optaram por não usar), com os objetivos da pesquisa e orientações gerais sobre a experimentação; 4) relaxamento: é empregada uma técnica para relaxamento mental e corporal; 5) orientação ao grupo sobre a experimentação que será realizada; 6) produção e registo de dados sobre o que foi vivido na experimentação, relacionados com o tema gerador da pesquisa; 7) pré-análise dos dados produzidos pelo próprio grupo-pesquisador/discussão; 8) agendamento da contra-análise, momento em que ocorre a validação dos dados; 9) momento de estudo pelos facilitadores, pessoas que não são os participantes e auxiliam, no decorrer do desenvolvimento, o grupo pesquisador; 10) momento da contra-análise, com novas discussões e achados; 11) encerramento do grupo- pesquisador/partilha (Tavares, 2016). O grupo pesquisador é um método inovador de fazer uma pesquisa científica, pois transforma os sujeitos em copesquisadores, mobilizando-os a participarem de todas as etapas requeridas para a realização de um estudo dessa natureza. Para promover a integração do saber racional com a experimentação estética (dimensão corporal, o corpo como fonte de conhecimento) é recomendável a utilização de técnicas artísticas e variadas de produção de dados (Gauthier, 2012). Três encontros foram previamente agendados, dois grupos-pesquisadores e uma contra-análise (um dos momentos que integram o método, conforme apontado anteriormente). Neles, os sujeitos da pesquisa foram convidados a participarem de um espaço dialógico (o primeiro contato e a seleção dos participantes ocorreram com auxílio da coordenação da Escola de Enfermagem, para que fosse possível localizar os alunos). O primeiro contato procedeu de forma direta entre o pesquisador e os participantes, com o convite para participar da pesquisa. Após a explicação do que seria realizado, 20 alunos se comprometeram a participar, porém só 13 compareceram nos dias da produção dos dados.


Os encontros ocorreram nos meses de outubro e novembro de 2016 e fevereiro de 2017, com aproximadamente 10 horas de duração e um total de 13 alunos participantes. O primeiro encontro seguiu os princípios da “Técnica da História a Continuar”, própria da sociopoética. Nessa dinâmica, são apresentadas ao grupo pesquisador 5 histórias/relatos sobre questões emocionais vivenciadas pelos académicos de enfermagem (essas situações foram extraídas do resultado da pesquisa intitulada “A Educação Emocional na Formação do Enfermeiro”, realizada pela autora deste artigo como trabalho de conclusão de curso, que levantou a necessidade dos estudos em relação às emoções na formação). As situações foram lidas pelos alunos e foi proposto a eles que escolhessem uma das histórias para traçar/reescrever, individualmente, um novo desfecho. Após, os diferentes términos propostos foram discutidos ou teatralizados. A dinâmica proposta aos participantes, no segundo encontro, partiu de uma adaptação da técnica da “Árvore do Conhecimento”, também própria da sociopoética, e foi nomeada pelos alunos de “Árvore das Emoções”. Nessa ação, foram oferecidos, individualmente, aos alunos, cinco pequenos pedaços retangulares de papéis e em cada recorte de papel estava escrito o nome de uma das partes que compõe uma árvore (raíz, tronco, galhos, copa e céu – parte final da árvore, para além das folhas). Em seguida, foi proposto ao grupo que respondesse às seguintes perguntas em cada papel correspondente à estrutura da árvore, por exemplo: “Na sua vida, o que está relacionado às emoções são as raízes e alimentam todos os outros?” Após expressarem a construção de sua árvore imaginária, o grupo foi estimulado a confeccionar uma árvore coletivamente (ficaram livres para essa construção), colocando nas diferentes partes das árvores o que fora questionado anteriormente. Para isso, foram disponibilizados pincéis, tinta, cartolina, tesoura, purpurina, canetinhas coloridas, lápis, lápis de cor, giz de cera, entre outros materiais. Ao final, o grupo construiu uma grande árvore com os aspetos emocionais alocados em suas partes, e foram estimulados a discutir a dinâmica e seus efeitos junto ao tema gerador. O terceiro encontro tratou da contra-análise. A contraanálise é um momento dialógico, em que não se trata de saber quem tem razão no caso de divergências entre copesquisadores e facilitadores, e sim de ampliar as visões, introduzindo maior diferenciação.

Gauthier (2012, p.73) indica que “o diálogo exige uma relação horizontal onde não haja hierarquização de saberes, onde estes possam encontrar, se expressar, serem trocados e refeitos”. A inspiração para essas dinâmicas encontra-se no livro O Oco do Vento, de Jaques Gauthier (2012), em que também explicita sobre o rigor metodológico de tais estratégias. Para atender à necessidade da pesquisa, utilizou-se como campo de estudo a Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa (EEAAC), pertencente à Universidade Federal Fluminense (UFF), localizada no estado do Rio de Janeiro, no município de Niterói. Os critérios para inclusão dos participantes foram: a) alunos do 8° e 9° períodos do curso de graduação (pois são alunos que já cursaram a maior parte das disciplinas teóricas e práticas da graduação, portanto acreditou-se que eles teriam um número maior de vivências e experiências a serem desveladas e exploradas na pesquisa); b) regularmente matriculados no curso; c) maiores de 18 anos e de ambos os sexos. Como critério de exclusão, estabeleceu-se que alunos ouvintes, monitores da disciplina de saúde mental/psiquiatria e participantes de PIBICs (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica) na área de saúde mental/psiquiatria não participariam da pesquisa, pois já possuem uma grande interação com o tema em questão, podendo desta forma causar certa influência nos resultados do estudo. Os depoimentos dos alunos foram gravados e posteriormente transcritos, o que possibilitou uma análise mais atenta do que foi discutido. Para analisar os dados, foi utilizada a análise temática de conteúdo categorial. Trata-se de “um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores que permitam inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção destas mensagens” (Bardin, 2009, p.83). A análise sociopoética dos dados é uma metodologia recente (aproximadamente 20 anos do seu surgimento), de certo modo, e não tradicional. Por isso não se optou por utilizá-la, compreendendo que poderia gerar estranhamentos e questionamentos por parte da comunidade académica. Para o desenvolvimento do estudo, foram atendidas as exigências da Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, que normatiza a realização de pesquisas envolvendo seres humanos, de modo a assegurar os preceitos éticos.

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Essa Resolução incorpora, sob a ótica do indivíduo e das coletividades, referenciais da bioética, tais como autonomia, não maleficência, beneficência, justiça e equidade, entre outros, e visa assegurar os direitos e deveres que dizem respeito aos participantes da pesquisa, à comunidade científica e ao Estado (Resolução n° 466 de 12 de dezembro de 2012). O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética da CAAE sob o número 57072416.3.0000.5243. RESULTADOS Os resultados da pesquisa estão dispostos a seguir, através do “Perfil dos Participantes” e “Descrição das experiências relacionadas à dimensão socioemocional” – apresentada em duas categorias de análise: a) as tensões emocionais no processo de aprendizagem teórico e prático da formação e b) o autoconhecimento das emoções a partir do simbolismo da árvore. Perfil dos participantes do estudo O estudo contou com o total de 13 alunos. Em relação ao sexo, 12 dos participantes eram do sexo feminino. Em relação à idade, tinham entre 23 e 30 anos. De acordo com quem residiam, 6 alunos moravam com a família (pais e irmãos), 5 alunos com companheiro (cônjuge) e outros 2 alunos viviam sozinhos. Sobre a situação conjugal, 9 alunos encontravam-se solteiros, 3 casados e 1 aluno em união estável. A renda mensal era de 1 salário mínimo para 2 alunos, de 2 a 3 salários mínimos para 5 alunos e acima de 3 salários mínimos para 5 alunos. Descrição das experiências/ vivências da dimensão socioemocional na formação do enfermeiro. Neste momento os alunos são questionados sobre as suas experiências durante a formação em enfermagem. Em seguida, os alunos descrevem através das falas as situações nas quais tiveram dificuldades emocionais no processo de aprendizagem teórico e prático da formação a fim de oportunizar posteriormente o autoconhecimento para transformação da dimensão emocional. a) As tensões emocionais no processo de aprendizagem teórico e prático da formação Os depoimentos abaixo estão relacionados à dinâmica da “História a Continuar”, teatralização realizada pelos alunos. Nela, em um erro (acidente) de procedimento num cuidado de enfermagem, os alunos interpretam eles mesmos enquanto estagiários. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 76

Assim, conseguem expor a tensão quando algum procedimento da prática do enfermeiro foge aos trâmites previstos. Os alunos narram a situação e deixam evidentes algumas questões em relação às tensões emocionais vividas durante a aprendizagem teórica e prática, no que diz respeito às estratégias de ensinoaprendizagem e à assimilação dos conteúdos do curso de graduação em enfermagem, que a seguir estão transcritas. “Porque a gente sempre tem aula de como fazer os procedimentos, mas não temos aula caso esse procedimento ocorra de forma errada... O que você vai fazer? Não temos nenhum momento em que nos falem sobre isso na graduação, só falam que deu tudo certo. Mas 90% das vezes não dá certo de primeira!” (Tristeza) “Deu errado, você faz o quê? Chora, sai correndo, grita, resolve, não resolve?” (Tristeza) “Eu acho que o apoio emocional do professor é fundamental quando você está na prática. E acho que é o mais importante. Às vezes, o aluno sabe qual é o procedimento, ele sabe exatamente o que tem que ser feito, mas ele tem insegurança e fala que não sabe. E [se] aconteceu um imprevisto, não tira o aluno de cena, deixa ele para saber lidar com o problema. Você vai resolver o problema ou vai ajudar [referindo-se ao professor]. Viu que não dá, mas não tira ele. Eu acho que você não tem que tirar o [aspecto] acadêmico: ‘ah, deu problema, deixa que eu assumo’. [O professor] tira o aluno e vai assumir. Não, vamos resolver! É um momento a mais do professor estar com o aluno (...).” (Raiva) As narrativas questionam a ausência de conteúdos e iniciativas que auxiliem a aprendizagem nas situações de erros e/ou crises do estágio da prática profissional que possam influenciar nos aspetos emocionais. Muitas situações imprevistas podem ocorrer no momento do aprendizado prático. Nem todas as experiências podem ser conhecidas, e até mesmo monitoradas pelo professor, então, como preparar-se para enfrentar essas situações quando do exercício real da profissão? Os depoimentos anteriores permitem esta reflexão. Nos depoimentos a seguir, os alunos relatam a necessidade de articulação entre prática e teoria a fim de sugerir o melhor aprendizado, torná-lo mais eficiente. “Porque assim, com o estudo de caso, a gente foca muito na teoria, você fica um tempo com o paciente, escreve aquele caso e enfim, faz aquela teoria toda. Só que eu vejo uma separação: antes do quarto período, você tem nota dez no conteúdo, [para] quem estuda


e se interessa está ótimo. Depois você vai esquecendo aquilo e só foca na prática. De que forma a gente pode adequar isso para que possamos sair um enfermeiro legal? Digamos assim... eu sei a teoria e eu sei a prática.” (Ansiosa) “Durante a graduação, eu diversas vezes me perguntava o porquê de eu estar repetindo [ser reprovada] tanto? Por que eu não estou dando conta? Fulana cansou de falar: você está com muita coisa para fazer (...). Então, eu tive um momento na faculdade que eu precisei olhar e falar assim: não dá, essa disciplina aqui eu não entendo. Esse conteúdo eu não consigo, eu já li isso 300 mil vezes, eu já estudei isso 4 vezes e eu vou fazer essa disciplina de novo. No momento [em que] eu paro para decidir isso, também é muito difícil. É um caminho muito grande e muito doloroso.” (Terna) Na colocação acima, o aluno expõe sobre a fragmentação do ensino de enfermagem entre teorias e práticas, abordando os riscos que isto pode acarretar no seu desempenho na vida académica e na sua saúde emocional. b) O exercício do autoconhecimento das emoções a partir do simbolismo da árvore Nessa segunda categoria, os alunos trazem a dimensão de si através da representação da árvore, traduzem nos discursos os segmentos que compõe uma árvore, os elementos que constroem a compreensão da sua dimensão emocional, de acordo com a dinâmica proposta da ‘’Árvore das Emoções’’. Destacam-se alguns conteúdos das narrativas: “Eu enquanto árvore, não estou estacionada, a minha raíz e o meu tronco seriam minha fase de crescimento. Eu nasci, alguns ensinamentos eu tenho da minha família, dos meus amigos, mas eu tenho os ensinamentos deles como a minha raíz. O meu tronco vai ser a minha estadia com o convívio social. Aí já vão ter algumas interferências e vão começar os aprendizados, algumas emoções já vão estar notificadas, e aí os meus galhos já são um outro amadurecimento, ao meu ver um amadurecimento pessoal, profissional (...) então a minha visão de árvore foi mais essa de montar ela ao longo [do crescimento]... Como eu fui percebendo a minha vida. Já quando eu venho para copa, nos meus galhos eu tenho todos os ensinamentos não teóricos relacionados à parte funcional. Eu abri mão das sensações, sensações de escuta, de perceção de alguns outros momentos que não estão ali visivelmente sendo ditos na nossa cara e mostrados.” (Alegre)

“No lugar dos meus galhos, eu botei um pouco parecido com o da Fulana... mas assim, lembrando que eu pensei na árvore em si, a árvore mesmo personificada, e os galhos têm o mesmo conhecimento que eu adquiri aqui, de habilidades manuais, técnicas, coisas que eu vou utilizar no futuro para poder cuidar de alguém.” (Medo) DISCUSSÃO Pode-se destacar que a participação dos alunos era maioritariamente feminina. Isto se deve ao facto da profissão de enfermagem ainda ser predominantemente feminina – por estar socialmente relacionada a aspetos maternais, de sensibilidade, de afetividade e de cuidado. Esse é um dado importante, pois a mulher é comumente vista como mais emotiva que o homem – ainda que isso careça de comprovação científica. O facto é que essa característica de expressar as emoções, muitas vezes podendo fazer uso delas para a compreensão das necessidades dos pacientes, é fundamental para o exercício da enfermagem (Alves, Ribeiro e Campos, 2012). Outro ponto importante é a idade dos alunos, a faixa etária entre 23 e 30 anos é um período em que muitos dos jovens adultos estão adquirindo maturidade emocional, fase de maior autonomia pessoal e profissional, que pode gerar experiências que necessitem de melhor gestão das emoções. O facto de ainda residirem com os pais é um dos aspetos que pode contribuir para imaturidade emocional, visto que os alunos que moram sozinhos tendem a acumular responsabilidades, sendo muitas vezes obrigados a administrar os afazeres diários, necessitando o desenvolvimento de competências em diversas dimensões. A questão financeira pode gerar instabilidade emocional à medida que indivíduo não é provido de recursos que atendam as suas demandas de sobrevivência, gerando agravos na saúde emocional. No período da produção dos dados, os alunos estavam em vias de apresentar o trabalho de conclusão de curso, então era percetível a ansiedade e stresse que isso causava, o que pode ter gerado algumas implicações aos depoimentos. Estudos têm demonstrado que a emoção influencia os processos cognitivos como a atenção, a memória e a recuperação de conhecimentos. Então, podemos concluir que as emoções são preditoras da aprendizagem e esses resultados permitem inferir que, em situação de aprendizagem, o direcionamento da atenção, os conteúdos Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 77


armazenados e a forma como eles serão compreendidos e recuperados sofrerão influência de um componente emocional, mesmo que isso não ocorra de forma consciente para o aprendiz (Phelps, 2006). Muitos problemas de saúde mental podem surgir no curso de graduação em enfermagem devido a stressores crónicos e de sofrimento emocional. Muitos alunos com dificuldades de aprendizagem não conseguem corresponder às expectativas sociais porque sua neurodiversidade não é respeitada nem compatibilizada com as exigências das aprendizagens escolares. Jovens sujeitos a muitos stresses provocados pela academia podem vir a sofrer de problemas emocionais como: ansiedade, depressão, desmotivação, vulnerabilidade, baixa produtividade etc., aspetos que podem interferir em seu rendimento escolar presente e futuro. As relações das emoções com as aprendizagens escolares/ académicas são muito íntimas, daí a necessidade de explorar algumas das suas implicações recíprocas (Fonseca, 2016). Os depoimentos apresentados neste estudo também ressaltam a importância de uma melhor articulação entre teoria e prática para haver melhor aprendizagem e fixação de conteúdos. Essa articulação, posteriormente, pode auxiliar no alívio da tensão emocional, visto que as narrativas apontam certa insegurança e preocupação com a qualidade da formação do profissional enfermeiro em função do modelo de ensino instituído/disseminado. Seriam necessárias outras formas de ensino e aprendizagem? Dessa forma, o sistema educacional e o docente de enfermagem precisam estar abertos às mudanças na sua forma de trabalhar, apesar das dificuldades que nascem no meio e de uma constante mudança de paradigmas; também é preciso atenção às metodologias ativas e às novas práticas pedagógicas, que extrapolam o simples repassar de informação/conteúdo. É essencial priorizar as construções de conhecimentos de cada um, a escuta e o acolhimento nas relações, para que os futuros profissionais possam comungar com uma prática profissional humanista, incluindo as emoções (Araújo e Vieira, 2013). Ao conhecer as diferentes situações vivenciadas pelos alunos, poderemos também avaliar a questão da competência ou incompetência emocional proposta por Juan Casassus (2009), que demonstra como agimos em relação ao enfrentamento e reconhecimento das nossas emoções, para que, a partir daí, possamos estar aptos à educação emocional que é traduzida como: Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 78

“(...) um conjunto de habilidades que o indivíduo adquire para auxiliar no desenvolvimento das suas emoções e sentimentos, ensinando-o a manifestá-las de uma maneira melhor, orientando o indivíduo a ter certo manejo sobre o seu comportamento emocional” (Casassus, 2009, p.131). O exercício humano de apreensão e compreensão da própria existência, e do universo, sempre dispôs de inúmeras formas de interpretação da realidade. Na maioria das vezes, essas diferentes formas de representação utilizam-se de imagens que visam representar as experiências vividas pelos indivíduos e pelos grupos. No passado, assim como ainda hoje, esse exercício constituiu a origem do conhecimento abstrato humano, ou seja, a ideia de que a experiência vivida pode ser de alguma forma perenizada por meio de um símbolo que expresse o seu valor. Os ritos e rituais que caracterizam o caminho iniciático são, em grande parte, o resultado dessa tentativa humana de transmitir a experiência vivida aos seus descendentes, utilizando para isso símbolos, como o da árvore, capazes de expressar os ciclos da vida e a conexão com o processo de criação através de sua representação (Xavier, 2010). Neste sentido, as descrições dos alunos relacionadas à confeção da árvore apontam para aspetos relacionados às habilidades necessárias à formação do enfermeiro que não necessariamente emergem da formação académica, mas sim das relações, da família, dos afetos. Apresentam-se elementos que não são formativos ou educativos transmitidos exclusivamente pela instituição, mas que fazem parte de um contexto mais amplo; o da autoperceção, o da autorregulação. Esse momento proporciona, ainda que minimamente, a proposta de desenvolvimento das competências socioemocionais, pois através da categoria analisada é possível compreender como os alunos, de forma simples e sensível, trazem a perceção de si. É nesse sentido que os alunos começam a perceber o que são competências e correlacioná-las aos aspetos socioemocionais da constituição do ser humano e das suas influências na prática de enfermagem. Neste sentido, debater tais questões remete à apreensão de um conjunto de determinantes que atuam nesse processo, envolvendo questões macroestruturais, como a análise de sistemas e unidades escolares, bem como ao processo de organização e gestão do ensino académico, que implica questões como condições de estudo, processos de gestão da escola, dinâmica curricular, formação e profissionalização docente, entre outras.


É fundamental ressaltar que a educação se articula com as diferentes dimensões e espaços da vida social sendo, ela própria, elemento constitutivo e constituinte das relações sociais mais amplas. A educação, portanto, é perpassada pelos limites e possibilidades da dinâmica pedagógica, económica, sociocultural, socioemocional e política de uma dada sociedade (Dourado e Oliveira, 2009). CONCLUSÃO Este estudo possibilitou identificar/constatar que não há estratégias de ensino para o desenvolvimento das competências socioemocionais dos alunos de enfermagem da Universidade Federal Fluminense (UFF). Restou evidente que os alunos respondentes da pesquisa realizada acreditam na importância e ênfase dos aspetos emocionais e no benefício que isto pode resultar para a formação em enfermagem. Através das categorias analisadas, foi possível perceber a inexistência de orientações sobre as emoções durante o curso de graduação em enfermagem por parte dos docentes. O currículo do curso não apresenta conteúdos, disciplinas ou atividades que apontem para este tema. É possível dizer que o desenvolvimento das competências socioemocionais não é formalmente mobilizado na formação do enfermeiro. No desenvolvimento da pesquisa, observamos que o próprio dispositivo do grupo-pesquisador e a abordagem sociopoética constituíram uma estratégia para a valorização da abordagem socioemocional com alunos de graduação de enfermagem, provocando a mobilização das competências socioemocionais entre os participantes. Isso mostra que dispositivos simples, que requerem pouco tempo, podem ser adotados no curso de graduação para criar processos de desenvolvimento de competências socioemocionais. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA A oportunidade de discutir e refletir acerca dimensão socioemocional configura uma possibilidade de instrumentalização dos alunos para lidar com as diversas questões que a temática pode desencadear, bem como realizar o cuidado em enfermagem de forma mais segura, sensível e criativa.

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Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0251

12 INTERVENÇÃO

COMUNITÁRIA & RECOVERY: IMPACTO NA QUALIDADE DE VIDA, SUPORTE SOCIAL E SATISFAÇÃO DE NECESSIDADES DA PESSOA COM DOENÇA MENTAL | Ermelinda Macedo1; Filomena Gomes2; Analisa Candeias3; Carla Azevedo4; Sílvia Peixoto5; Bárbara Pires6 |

RESUMO CONTEXTO: O recovery é entendido como um processo subjetivo que pressupõe as dimensões clínica e pessoal. Os programas de intervenção comunitária na promoção do recovery devem basear-se em aspetos importantes como a qualidade de vida, suporte social e necessidades. OBJETIVOS: Avaliar o impacto de um programa de intervenção individualizado na qualidade de vida, suporte social e satisfação das necessidades, em pessoas com doença mental. MÉTODOS: Estudo quase-experimental com desenho antes-após de grupo único, com três momentos de avaliação com 16 sessões implementadas durante 4 meses. A amostra é constituída por 25 pessoas com doença mental selecionadas a partir da alta clínica de um hospital psiquiátrico da região Norte de Portugal. Utilizaram-se como instrumentos: Questionário de Avaliação Sociodemográfica e Clínica; Instrumento de Avaliação de Necessidades, construídos pelos investigadores; EQ-5D e; Escala de Satisfação com o Suporte Social. A Investigação foi aprovada pela Comissão de Ética da instituição onde foram recolhidos os dados. Foi utilizado o SPSS, versão 25.0, com recurso a medidas descritivas e testes de diferenças de médias não paramétricos - Friedman e de Wilcoxon - com um valor de significância de p<.05. RESULTADOS: Verificou-se uma evolução positiva relativamente às variáveis avaliadas, com diferenças estatisticamente significativas ao longo dos três momentos de avaliação para: qualidade de vida - EQ-5D; Dimensão Doença do IAN, e Dimensão Ambiente. CONCLUSÕES: Intervir no recovery da pessoa com doença mental é uma intervenção morosa e exigente, mas com resultados positivos desde que a intervenção seja direcionada às necessidades das pessoas.

PALAVRAS-CHAVE: Saúde mental; Recuperação; Qualidade de vida; Suporte social

RESUMEN

ABSTRACT

“Intervención comunitaria & recuperación: Impacto en la calidad de vida, soporte social y satisfación de las necesidades de la persona con enfermedad mental”

“Community intervention & recovery: Impact on quality of life, social support and needs’ satisfaction of the person with mental illness”

CONTEXTO: La recuperación es un proceso subjetivo que presupone las dimensiones clínica y personal. Los programas de intervención comunitaria en la recuperación deben basarse en la calidad de vida, el apoyo social y las necesidades. OBJETIVOS: Evaluar el impacto de un programa de intervención individualizado en la calidad de vida, apoyo social y satisfacción de las necesidades, en personas con enfermedad mental. METODOLOGÍA: Estudio casi experimental con diseño antes-después de grupo único, con tres momentos de evaluación con 16 sesiones implementadas durante 4 meses. La muestra se compone de 25 personas con enfermedad mental seleccionados a partir del alta clínica de un hospital psiquiátrico en el norte de Portugal. Se utilizaron como instrumentos un cuestionario sociodemográfico y clínico, el Instrumento de Evaluación de Necesidades, construidos por los investigadores, el EQ-5D y la Escala de Satisfacción con el soporte social. La investigación fue aprobada por la Comisión de Ética de la institución donde se recogieron los datos. Se utilizó el SPSS, versión 25.0, con medidas descriptivas y pruebas de diferencias de promedios no paramétricos - Friedman y Wilcoxon - con un valor de significancia de p<.05. RESULTADOS: Se observó una evolución positiva con respecto a las variables evaluadas, con diferencias estadísticamente significativas a lo largo de los tres momentos de evaluación para: calidad de vida - EQ-5D; Dimensión de la enfermedad del IAN, y la dimensión ambiental. CONCLUSIONES: Intervenir en la recuperación de la persona con enfermedad mental es algo moroso y exigente, pero con resultados positivos desde que la intervención se dirija a las necesidades de las personas.

BACKGROUND: Recovery is understood as a subjective process that presupposes clinical and personal dimensions. Community intervention programs in the promotion of recovery should be based on important aspects such as their needs, quality of life and social support. AIM: To evaluate the impact of an individualized intervention program on quality of life, social support and needs satisfaction in people with mental illness. METHODS: Quasi-experimental study with before-after design of single group, with three evaluation moments with 16 sessions implemented during 4 months. The sample consists of 25 people with mental illness selected from the high clinic of a psychiatric hospital in the Northern region of Portugal. The sociodemographic and clinical evaluation questionnaire, the Needs Assessment Instrument (NAI)., constructed by the researchers, the EQ-5D and the Social Support Satisfaction Scale were used as instruments. The investigation was approved by the Ethics Committee of the institution where the data were collected. SPSS, version 25.0 was used, using descriptive measures and tests of non-parametric mean differences - Friedman and Wilcoxon - with a significance level of p<.05. RESULTS: There was a positive evolution regarding the evaluated variables, with statistically significant differences during the three evaluation moments for: quality of life - EQ-5D; Dimension Disease of the NAI, and Environment Dimension. CONCLUSIONS: Intervening in the recovery of the person with mental illness is a time-consuming and demanding intervention, but with positive results if the intervention is directed to the needs of the people.

DESCRIPTORES: Salud mental; Recuperación; Calidad de vida; Apoyo social

KEYWORDS: Mental health; Recovery; Quality of life; Social support Submetido em 30-12-2018 Aceite em 01-03-2019

1 Doutora em Psicologia; Professora Adjunta na Universidade do Minho, Escola Superior de Enfermagem, Campus de Gualtar, Braga, Portugal, emacedo@ese.uminho.pt 2 Doutora em Enfermagem; Professora Coordenadora na Universidade do Minho, Escola Superior de Enfermagem, Braga, Portugal, fgomes@ese.uminho.pt 3 Mestre em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquátrica; Mestre em Gestão; Professora Adjunta na Universidade do Minho, Braga, Portugal, acandeias@ese.uminho.pt 4 Mestre em Enfermagem; Enfermeira nas Irmãs Hospitaleiras, Casa de Saúde do Bom Jesus, Braga, Portugal, carla.bcl@hotmail.com 5 Mestre em Enfermagem; Enfermeira nas Irmãs Hospitaleiras, Casa de Saúde do Bom Jesus, Braga, Portugal, silvia_llp@hotmail.com 6 Mestranda em Enfermagem na Universidade do Minho, Escola Superior de Enfermagem, Braga, Portugal, barbara.8.pires@gmail.com Citação: Macedo, E., Gomes, F., Candeias, A., Azevedo, C., Peixoto, S., & Pires, B. (2020). Intervenção comunitária & recovery: Impacto na qualidade de vida, suporte social e satisfação de necessidades da pessoa com doença mental. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 81-87. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 81


INTRODUÇÃO O recovery é entendido como um processo subjetivo que pressupõe as dimensões clínica e pessoal. Assim, e inseridas na primeira, encontram-se as dinâmicas que compreendem a recuperação das funções sociais, bem como o tratamento dos sintomas relacionados com a doença. Na segunda dimensão, estão patentes aspetos mais subjetivos e individuais, como a manifestação da experiência vivida com a doença mental, com ênfase na mudança de atitudes, de valores, de sentimentos, de capacidades, no delineamento de objetivos pessoais, e na mudança e adaptação a novos papéis, ou aos já existentes (Slade, 2013). O conceito de recovery compreende, deste modo, um processo subjetivo e vasto. Este facto indica-nos que o recovery se deve centrar numa avaliação individual, fornecendo dados que permitam uma intervenção direcionada às necessidades/potencialidades de cada pessoa. A avaliação individual inicial neste processo visa compreender quais os aspetos a incluir num programa de intervenção posterior, e que este seja orientado, em conjunto com a pessoa, de uma forma concreta e objetiva – embora tendo em conta algumas variáveis que o poderão condicionar, como por exemplo a qualidade de vida (QdV), o suporte social e as necessidades da própria pessoa. Em relação à QdV, esta tem sido encarada como um resultado em saúde, tanto no que diz respeito à mortalidade como à morbilidade. A Organização Mundial de Saúde definiu QdV como “a percepção do indivíduo sobre a sua posição na vida, dentro do contexto dos sistemas de cultura e valores nos quais está inserido e em relação aos seus objectivos, expectativas, padrões e preocupações” (WHOQOL Group, 1996, p. 354). A QdV tem tido uma atenção especial por parte dos investigadores, embora esta atenção seja mais recente na saúde mental e psiquiatria. Apesar disso, já se observam alguns trabalhos envolvendo população diversa, como por exemplo, pessoas com diagnósticos psiquiátricos como depressão major (Gameiro, Carona, Silva e Canavarro., 2010, Macedo, 2013); doença bipolar (Figueira, Leitão e Gameiro, 2010; Macedo, 2013); a esquizofrenia (Vaz-Serra, 2010) ou; sintomatologia depressiva (Gameiro et al., 2008; Macedo, 2013). Ao longo da vida, o suporte social é construído através das relações estabelecidas com os membros da família, colegas de trabalho e pessoas da comunidade e, em caso de presença de necessidades especiais, de um membro resultante de profissões de ajuda (Cobb, 1976). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 82

Estudos efetuados para analisar o efeito do suporte social em pessoas com doença mental revelam que este tem um efeito positivo na adaptação destas pessoas, reduzindo também os sintomas psiquiátricos e o número de hospitalizações (Huang, Sousa, Tsai, & Hwang, 2008). Um suporte social mais baixo é uma razão importante para a diminuição da satisfação com a vida e igualmente uma razão para o aumento de sintomas depressivos entre a população mais idosa (Newson & Schulz, 1996). Em pessoas com doença mental, o contacto com a rede social e maiores níveis de suporte social foram associados à utilização de menos serviços dentro do âmbito da psiquiatria (Maulik, Eaton, & Bradshaw, 2009). As necessidades das pessoas com doença mental são abrangentes e incluem a QdV, relações interpessoais, domínio social, autoeficácia, definição e realização de objetivos e a estabilização de sintomas psiquiátricos (Gelkopf et al, 2016). Ainda no que diz respeito ao processo de recovery, existem programas orientados para a maximização dos resultados e centrados no modelo comunitário, que visam a integração da pessoa com doença mental nos contextos comunitários. Estes programas devem basear-se em aspetos como a orientação e envolvimento da pessoa no processo, a autodeterminação e a perceção de potencialidades por parte dos profissionais de saúde que estão a acompanhar o processo (Anastácio, & Furtado, 2012), dados que são fornecidos através de uma avaliação que anteceda o programa de intervenção que deve incluir dimensões da vida que vão para além daquelas que o recovery clínico pressupõe. Tendo em conta os pressupostos do processo de recovery da pessoa com doença mental, o objetivo deste trabalho foi avaliar o impacto de um programa de intervenção individualizado na qualidade de vida, suporte social e satisfação das necessidades nesta população. MÉTODOS Trata-se de um estudo quase-experimental com desenho antes-após, de grupo único (Fortin, 2009), inserindo-se numa investigação mais alargada, cujo objeto de estudo é o recovery da pessoa com doença mental. O estudo foi realizado contando com uma equipa multidisciplinar e insere-se na terceira fase da investigação, que diz respeito à seleção da amostra e implementação de um programa de intervenção individual domiciliário.


O programa de intervenção englobou 16 sessões (1 sessão por semana, durante 4 meses), realizando-se três momentos de avaliação: avaliação inicial (M0), efetuada aquando a alta hospitalar e antecedendo a intervenção; avaliação intermédia (M1), efetuada na 8ª sessão, coincidindo com o 2º mês após a alta hospitalar e avaliação final (M2), efetuada após a implementação das 16 sessões do programa de intervenção, coincidindo com o 4º mês após a alta hospitalar. O programa de intervenção desenhou-se a partir do M0, isto é, através dos resultados que se obtiveram com a aplicação dos instrumentos de avaliação, e foi-se aferindo de acordo com a evolução dos participantes nas dimensões inicialmente identificadas como as mais vulneráveis. Esta maior vulnerabilidade, globalmente, incidiu sobre as dimensões: relações sociais; doença; psicológica; serviços de saúde e profissionais e ambiente e; económica, sendo delineados objetivos para cada participante em cada sessão e, consequentemente, aferidas as intervenções em função dos resultados obtidos. Foram aplicados os mesmos instrumentos de recolha de dados nos diferentes momentos de avaliação, nomeadamente: Questionário de Dados Sociodemográficos e Clínicos (construído pela equipa de investigação). Para avaliar a QdV aplicou-se o EQ-5D, instrumento genérico multidimensional. Da aplicação deste instrumento, é gerado um Índice do Estado de Saúde (IES), com valores entre -0,59 a 1, sendo que os valores negativos correspondem a estados de saúde piores que a morte, o 0 corresponde ao estado de saúde igual à morte, e o 1 corresponde à saúde perfeita. Para além deste índice, existe uma Escala Visual Analógica (EQVAS), em que a pessoa classifica o seu Estado de Saúde no Momento (ESM), com scores entre 0 (pior saúde imaginável) e 100 (a melhor saúde imaginável). O EQ5D apresenta ainda uma questão que pretende comparar o estado de saúde atual com o estado de saúde de há um ano atrás (Ferreira, Ferreira, Pereira, 2013). A avaliação da satisfação do suporte social foi realizada com recurso à Escala de Satisfação com o Suporte Social (ESSS) (Pais-Ribeiro, 2011). Esta Escala é constituída por 15 itens, e score total final entre 15 e 75. Foi também utilizado um Instrumento de Avaliação de Necessidades (IAN), igualmente construído pela equipa de investigação com base num trabalho prévio de revisão da literatura e análise de entrevistas a peritos na área da saúde mental com experiência no âmbito do recovery, com 44 itens distribuídos em seis dimensões:

Dimensão Relações Sociais (RS), Dimensão Doença (D), Dimensão Económica (E), Dimensão Serviços de Saúde e Profissionais (SSP), Dimensão Psicológica (P) e Dimensão Ambiente (A). Os casos foram selecionados no momento da alta hospitalar, a partir de uma técnica de amostragem não aleatória (conveniência) (N=25). Para este estudo foram incluídos todos os indivíduos que participaram nas 16 sessões do programa de intervenção ao longo dos 4 meses de implementação, tendo sido alvo de avaliação nos 3 momentos de avaliação do estudo. Foram eleitos como critérios de inclusão: pessoas com doença mental em internamento, com alta prevista para domicílio, com idade igual ou superior a 18 anos e a residirem na região da instituição onde os participantes foram sujeitos a internamento. Excluíram-se os casos com diagnósticos de demência, problemas de adição e debilidade intelectual. Para o tratamento e análise dos dados foi utilizado o Statistical Package for the Social Sciences, versão 25.0, com recurso a medidas descritivas e medidas inferenciais não-paraméticas - testes de Friedman e Wilcoxon – testes estes utilizados para averiguar se existem diferenças de médias nos valores das variáveis avaliadas, respetivamente, nos 3 momentos de avaliação do estudo (M0 M1 M2) e entre o 1º e 3º momento (M0 M2), considerando um valor de significância de p<.05 (Pestana e Gageiro, 2008). O estudo foi avaliado, aprovado e financiado pela FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia, e obteve aprovação da Comissão de Ética da instituição onde foi selecionada a amostra. Todos os procedimentos éticos inerentes à investigação foram explicados a todos os participantes: os objetivos, o desenho e os procedimentos do estudo. Os participantes assinaram o consentimento informado livre e esclarecido, sendo garantida a confidencialidade dos dados, bem como o anonimato. RESULTADOS No que diz respeito à caraterização sociodemográfica da amostra, a totalidade é do sexo feminino, a média de idade é de 49,4 anos (DP=±12,08); 56% são casadas e 28% concluiu o 3º ciclo, sendo que, 36% encontramse empregadas e 32% encontram-se reformadas. 76% pertence a uma família nuclear. O diagnóstico médico mais frequente pertence às perturbações do humor (44%).

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 83


Tabela 1 -Caraterização Sociodemográfica e Clínica dos Participantes Caraterização Sociodemográfica e Clínica Sexo Idade

%

Masculino

0

0,0

Feminino

25

100,0

Média

49,4

Máximo

69

Mínimo

22

Desvio Padrão Estado civil

12,08 14

56,0

Solteiro

7

28,0

Viúvo

2

8,0

Divorciado/separado

2

8,0

0 6

0 24,0

Ensino básico - 2.º ciclo (6 anos)

2

16,0

Ensino básico - 3.º ciclo (9 anos)

7

28,0

Ensino secundário (11 ou 12 anos)

5

20,0

Ensino superior

3

12,0

Estudante

1

4,0

Empregado(a)

9

36,0

Reformado(a)

8

32,0

Desempregado(a)

7

28,0

Tipo de família

Isolado

6

24,0

Família nuclear

19

76,0

Diagnóstico médico

Perturbação psicótica

9

36,0

Perturbação do humor

11

44,0

Perturbação da personalidade

5

20,0

Situação profissional

Quando se aplicam as medidas descritivas, nos resultados obtidos nos três momentos de avaliação, verificouse que todas as variáveis recorrentes dos instrumentos de avaliação sofreram, sem exceção, uma evolução positiva (Tabela 2). Atendendo aos sores possíveis do EQ-5D (-0,59 a 1) que a presentam scores favoráveis nos três momentos de avaliação, ou seja, mais próximos de 1. Relativamente ao ESSS, com scores entre 15 a 75 e não tendo a escala ponto de corte, parece que os sujeitos apresentam valores satisfatórios também nos três momentos. A qualidade de vida apresenta, contudo, uma evolução mais favorável. Em relação ao IAN, com pontuações entre 0 e 100, verifica-se que a Dimensão económica é a dimensão mais fragilizada, seguida da Dimensão SSP e da dimensão ambiente.

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 84

Momentos de Avaliação M0 (Média±DP)

M1 (Média±DP)

M2 (Média±DP)

EQ-5D

0,69±0,32

0,84±0,12

0,93±0,09

ESSS

47±11,85

47,16±9,03

50,80±10,71

Dimensão RS

16,56±3,78

16,68±3,35

17,76±2,73

Dimensão D

43,64±9,95

45,8±5,0

51,08±5,95

Dimensão E

12,28±3,74

12,72±2,75

13,00±1,87

Dimensão SSP 14,72±3,35

15,96±3,0

16,52±2,29

Dimensão P

41,68±10,24

41,76±8,31

44,12±6,09

Dimensão A

19,44±4,19

20,12±3,22

21,68±2,27

IAN

Casado/união de facto

Habilitações Analfabeto literárias 1.º ciclo (4 anos)

Tabela 2 -Análises descritivas dos três momentos de avaliação relativas à QdV, Suporte Social e Satisfação das Necessidades, (N=25)

Através do Teste de Friedman (Tabela 3) foi possível verificar diferenças estatisticamente significativas ao longo dos três momentos de avaliação na a QdV - EQ-5D (p<.001); na Dimensão Doença (p<.001) e; na Dimensão Ambiente (p=.001) do IAN. O Teste de Wilcoxon permite-nos verificar se existe alguma alteração posicional em termos dos valores médios obtidos nos momentos de avaliação e, para este estudo, na maioria, esta alteração ocorreu. Assim, comparando os momentos de avaliação M0 e M2, verificou-se esta evolução e em que sentido esta se realizou. Como se pode observar, o score do instrumento EQ-5D (p<.001), as dimensões D (p<.001), SSP (p=.005), e A (p=.005), do IAN, apresentaram diferenças estatisticamente significativas.


Tabela 3 -Comparação dos três momentos de avaliação relativa à QdV, Suporte Social e Satisfação das Necessidades (N=25) Momentos de Avaliação M0

M1

Teste de Teste de Friedman Friedman (OMa; p) (OM; p)

M2

M0 M2

Teste de Friedman (OM; p)

Teste de Wilcoxon (p)

2,58

Positivos**= 18 Negativos***= 1 Empates****= 6

EQ-5D 1,42

2,00 p<.001*

ESSS

1,78

2,04

p*<.001 2,18

p=.350

Positivos= 15 Negativos= 10 p=.170

IAN Dimensão RS

1,90

Dimensão D 1,56 Dimensão E

Positivos=14 Negativos= 8 Empates=3

p=.094

p=.107

1,66

2,78

Positivos=22 Negativos=3

p<.001* 2,00

Dimensão SSP

1,72

p<.001* 2,28

p=.119 1,74

1,96

2,04

1,82

2,30

1,62

1.82 p<.001*

Positivos=15 Negativos=7 Empates=3 p=.005*

2,14

p=.508

Dimensão A

Positivos=15 Negativos=8 Empates=2 p=.257

p=.104

Dimensão P

2,32

1,78

Positivos= 11 Negativos=14 p=.388

2,56

Positivos= 19 Negativos= 4 Empates= 2 p=.005*

*p<.05; ** M2>M0; ***M2<M0; ****M2=M0; aOM=Ordem Média

DISCUSSÃO Apesar da evidência ser parca relativamente a programas de intervenção na promoção do recovery da pessoa com doença mental, podemos afirmar que, de acordo com a evidência existente, este estudo vai ao encontro de outros estudos que nos indicam que as necessidades das pessoas com doença mental são abrangentes e incluem a QdV, relações interpessoais, domínio social, autoeficácia, definição e realização de objetivos e a estabilização de sintomas psiquiátricos (Gelkopf et al., 2016). Anastácio & Furtado (2012) adiantam que estes programas devem ser orientados para o envolvimento da pessoa no processo, pressupondo

uma avaliação que antecede o programa de intervenção e que devem incluir aspetos da vida que ultrapassem o recovery clínico. Este aspeto corrobora o desenho deste programa de intervenção, que pretende ir ao encontro das necessidades das pessoas, à perceção da QdV e à satisfação com o suporte social avaliadas no início do programa de intervenção (M0), sendo os participantes do estudo ativos em todo o processo, promovendo, assim, também a sua autonomia A QdV é uma dimensão importante a avaliar porque, sendo multidimensional, também nos fornece dados para a intervenção dirigida às dimensões que apresentam scores mais baixos. Tendo como referência estudos efetuados no que se refere à avaliação da QdV da pessoa com doença mental (Gameiro et al., 2010, Macedo, 2013; Figueira et al., 2010; Macedo, 2013; Vaz-Serra et al., 2010; Gameiro et al., 2008; Macedo, 2013), pareceu-nos importante que se desse um passo em frente, intervindo nesta dimensão e que os participantes alterassem positivamente, através do programa de intervenção, a perceção da QdV, facto que se veio a observar neste estudo. Relativamente à satisfação com o suporte social podemos afirmar que também se observou uma evolução positiva nos três momentos de avaliação, embora sem significado estatístico. Apesar disso, não podemos deixar de valorizar este resultado pois, os objetivos do programa de intervenção também preconizaram a melhoria dessa perceção, sendo estes dados corroborados por Huang, et. al. (2008), que nos indicam que o suporte social em pessoas com doença mental tem um efeito positivo na adaptação e reduz o número de internamentos e sintomas psiquiátricos. Não podemos deixar de exprimir que este estudo permitiu intervir no recovery da pessoa com doença mental, dando resposta à filosofia implícita neste processo sendo uma intervenção morosa e exigente, pois implica uma adaptação constante às dificuldades que as pessoas vão apresentando ao longo da intervenção. Torna-se evidente que é um processo em que estão envolvidas diferentes variáveis, diferentes momentos de avaliação e que os profissionais e investigadores têm de estar preparados para o imprevisto e para a reformulação das intervenções, tendo em conta os indicadores que se vão encontrando. Como limitações do estudo podemos considerar: o grupo de indivíduos estudado ter sido sujeito a uma técnica de amostragem conveniência, o que pode traduzir uma dificuldade em comparar as mudanças nas variáveis dependentes após a introdução da intervenção (Fortin, 2009); Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 85


O IAN construído pela equipa de investigação não ser alvo de validação, uma vez que o N amostral foi insuficiente para a realização deste procedimento e; a ausência de grupo de controlo e consequente repartição aleatória dos participantes, o que limita a avaliação da verdadeira eficácia da implementação da intervenção. CONCLUSÕES Tendo em conta o objetivo do estudo, constatou-se que a implementação do programa de intervenção delineado teve um impacto positivo nos participantes do estudo, com particular relevância nas dimensões com significado estatístico: QdV (EQ-5D), Dimensão Doença e na Dimensão Ambiente, do IAN. A análise inferencial permite-nos concluir que existe evolução positiva com grande significado na QdV (EQ-5D), na Dimensão Doença e na Dimensão Ambiente, do IAN. Apesar das limitações apontadas, os resultados deste estudo devem ser interpretados tendo em conta a investigação mais alargada que ainda está a decorrer. No entanto, concluímos que o programa de intervenção referido neste estudo atendendo à QdV, ao suporte social e à satisfação das necessidades de pessoas com doença mental, após um período de internamento, revela resultados positivos com grande potencial para a definição de modelos de intervenção personalizados, promotores do recovery nesta população. Parece-nos que o desenho do(s) programa(s) de intervenção, quer no que diz respeito ao número de sessões, quer no que diz respeito aos objetivos propostos para cada dimensão a trabalhar com os participantes, se revelou eficaz. Neste programa em concreto, os indicadores de resultado são importantes, mas o que moveu os investigadores foram os indicadores de processo, porque foi através deles que o desenho da intervenção foi sendo reformulado. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Como já foi referido, e tendo em conta a pesquisa prévia que os investigadores realizaram, a evidência relativa a programas de intervenção na promoção do recovery da pessoa com doença mental ainda é muito reduzida. A intervenção nesta área, e tendo em conta as políticas nacionais e internacionais no que respeita à saúde mental e psiquiátrica, coloca-nos alguns desafios.

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 86

Desde logo, é necessário ter em conta que o acompanhamento das pessoas com doença mental não termina no internamento. Pensamos que, assim, se consegue dar resposta aos seus problemas e simultaneamente às diretrizes existentes para a assistência à pessoa com doença mental. Este estudo pretende oferecer um aporte aos profissionais para o acompanhamento da pessoa na comunidade (domicílio), após a alta hospitalar, tendo em vista a sua recuperação máxima. As variáveis aqui estudadas são importantes para incluir nos programas de intervenção, podendo ser incluídas outras que o investigador possa considerar pertinentes. Financiamento Este artigo foi desenvolvido no âmbito do projeto (NORTE-01-0145-FEDER-023855), cofinanciado pelo Programa Operacional Regional do Norte (NORTE 2020), através do Portugal 2020 e do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Anastácio, C., Furtado, J. (2012). Reabilitação psicossocial e recovery: conceitos e influências nos serviços oferecidos pelo sistema de saúde mental. Cadernos Brasileiros de Saúde Mental, 4(9):72-83. Disponível em: http://incubadora.periodicos.ufsc.br/index.php/ cbsm/article/view/2126/2919 Cobb, S. (1976). Social support as a moderator of life stress. Psychosomatic Medicine, 38(5), 300-314. Doi: org/10.1097/00006842-197609000-00003 Ferreira, P., Ferreira, L., Pereira, L. (2013). Contribution for the Validation of the Portuguese Version of EQ-5D. Acta Médica Portuguesa, 26(6), 664-675. Disponível em: https://www.actamedicaportuguesa.com/ revista/index.php/amp/article/viewFile/1317/3908 Figueira, M., Leitão, J., & Gameiro, J. (2010). Qualidade de vida em doentes bipolares. In M. C. Canavarro & A. Vaz Serra (Coord.). Qualidade de vida e saúde: uma abordagem na perspectiva da Organização Mundial da Saúde (pp. 283-298). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian Fortin, M-F. (2009). Fundamentos e etapas do processo de investigação. Loures: Lusodidata.


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Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0252

13 SAÚDE

EM CADEIA: (CO)CONSTRUÇÃO DE LITERACIA EM SAÚDE E QUALIDADE DE VIDA

PERCURSOS

DE

| Carminda Morais1; Maria Amorim2; Cândida Viana3; Maria Cerqueira4; Maria Calvinho5 |

RESUMO CONTEXTO: Considerando que a cidadania em saúde consagra o direito e dever dos cidadãos participarem ativamente no processo de cuidados de saúde, procurou-se promover nos reclusos a literacia em saúde e qualidade de vida numa lógica de investigação-ação. OBJETIVOS: desenvolver competências cognitivas, sociais promotoras da tomada de decisão em saúde; incentivar à procura/mobilização da informação em saúde; reforçar as determinantes individuais e coletivas na gestão da doença crónica. MÉTODOS: Estudo quasi-experimental com recurso a metodologias participativas e quantitativas. Efetuaram-se entrevistas à Direção de um Estabelecimento Prisional do Norte de Portugal e a focus group com os reclusos. Aplicaram-se questionários de Literacia em Saúde, Avaliação de Qualidade de Vida e um Instrumento de caraterização sociodemográfica. RESULTADOS: No Grupo de Intervenção a idade média é de 39,2 + 10,8 anos, variando entre os 19 e os 55 anos. Na Qualidade de Vida, as dimensões “Saúde Geral” e “Função Física” apresentaram respetivamente valores mais baixo (47,4%) e mais elevado (71,3%). O nível de literacia “inadequado/problemático” foi o mais frequente, nas várias dimensões. A (co)construção do programa de “educação terapêutica” configurou-se em 4 eixos: saúde global, higiene, bem-estar; alimentação e saúde; gestão doença; e gestão/compreensão da informação em saúde CONCLUSÕES: o projeto centrou-se na cooperação intersectorial, multiprofissional, em lógicas de whole-of-government e whole-of-society. Os resultados são norteadores da intervenção prioritária, mantendo-se o enfoque na lógica de botton-up, orientada para os domínios da saúde geral e emocional, com recurso ao team building. Encontra-se em fase de reavaliação, com recurso às estratégias utilizadas no diagnóstico inicial.

PALAVRAS-CHAVE: Qualidade de vida; Literacia em saúde; Prisões

RESUMEN

ABSTRACT

“Salud en cadena: (Co)construcción de recorridos de alfabetización en salud y calidad de vida”

“Chain health: (Co)construction of literacy courses in health and quality of life”

CONTEXTO: Considerando que la ciudadanía sana consagra el derecho y el deber de participar activamente en el cuidado de la salud, se intentó promover en los internos la alfabetización en salud y en calidad de vida dentro de la investigación- acción. OBJETIVOS: Desarrollar competencias cognitivas, sociales promotoras de toma de decisión en salud; fomentar la búsqueda y la movilización de la información sanitaria; reforzar determinantes individuales y colectivos en gestión de la enfermedad crónica. MÉTODOS: Estudio cuasi experimental con recurso a metodologías participativas y cuantitativas. Se recurrió a la entrevista a la Dirección del Prisión del Norte de Portugal, un focus group con los reclusos. Se aplicaron cuestionarios de “Alfabetización en Portugal,” Calidad de Vida y evaluación de herramientas de caracterización sociodemográfica. RESULTADOS: En el Grupo de Invervención la edad media es 39,2 + 10,8 años, variando entre los 19 y los 55 años. El nivel de alfabetización inadecuado/ problemático, más frecuente, en diferentes dimensiones. En la QV, las dimensiones “Salud General” y “Función Física” presentaron respectivamente los valores más bajos y elevados (47,4%), (71,3%). La (co)construcción del programa de “educación terapéutica” se configuró en 4 ejes: salud global, higiene, bienestar; alimentación y salud; gestión de enfermedad y Gestión/comprensión de información de la salud. CONCLUSIONES: el proyecto se centró en la cooperación intersectorial, multiprofesional, en lógicas de whole-of-government y whole-of-society. Los resultados son orientadores de la intervención prioritaria, manteniéndose el enfoque en la lógica de botton-up, orientada a dominios de salud general y emocional, recurriendo al team building.

BACKGROUND: Considering that citizenship in health enshrines the right and duty of citizens to actively participate in the health care process, it was sought to promote literacy in health and quality of life in the inmates, in a logic of action research. AIM: to develop cognitive, social skills that promote health decision making; encourage the search/mobilization of health information; individual and collective determinants of chronic disease management. METHODS: Quasi-experimental study using participatory and quantitative methodologies. We resorted to the interview with the Directorate of a prison establishment in the North of Portugal and the focus group with the inmates. We applied questionnaires of “Health Literacy in Portugal”, Quality of Life Assessment and an instrument of sociodemographic characterization. RESULTS: The average age of prisoners is 39.2 + 10.8 years, ranging from 19 to 55 years. The level of “inadequate/problematic” literacy was the most frequent in the various dimensions. In QOL, the “General Health” and “Physical Function” dimensions presented the lowest values (47.4%) and the highest (71.3%). The (co) construction of the “therapeutic education” program was set up in four areas: global health, hygiene, well-being; food and health; disease management; and Management/understanding of health information CONCLUSIONS: the project focused on cross-sectoral, multiprofessional cooperation in whole-of-government and whole-of-society logics. The results are guiding the priority intervention, keeping the focus on a bottom-up logic, oriented to the domains of general and emotional health, using team building. It is in the reassessment phase, resorting to strategies used in the initial diagnosis.

DESCRIPTORES: Calidad de vida; Alfabetización en salud; Prisiones

Submetido em 30-12-2018 Aceite em 11-03-2019

KEYWORDS: Quality of life; Health literacy; Prisons

1 Doutora em Ciências da Educação; Investigadora no CEISUC e Colaboradora na UICISA-E; Professora Coordenadora no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Escola Superior de Saúde, Rua D. Moisés Alves de Pinho, Viana do Castelo, Portugal, carmindamorais@ess.ipvc.pt 2 Doutora em Saúde Mental; Investigadora na UICISA-E; Professora Coordenadora no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, isabelamorim@ess.ipvc.pt 3 Mestre em Ciências da Educação – Especialização em Promoção da Saúde; Investigadora na UICISA-E; Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Escola Superior de Saúde, Viana do Castelo, Portugal, candidaviana@ess.ipvc.pt 4 Doutora em Ciências de Enfermagem; Investigadora na UICISA-E; Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, manuelacerqueira@ess.ipvc.pt 5 Doutora em Psicologia, Especialidade Psicologia Clínica e da Saúde; Investigadora no Centro de Estudos das Migrações e Relações Interculturais da Universidade Aberta; Investigadora Colaboradora na UICISA-E; Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Escola Superior de Saúde, Portugal, saletecalvinho@ess.ipvc.pt Citação: Morais, C., Amorim, M. I., Viana, C. C., Cerqueira, M. M., & Calvinho, M. S. (2020). Saúde em cadeia: (Co)construção de percursos de literacia em saúde e qualidade de vida. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 88-96. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 88


INTRODUÇÃO A privação da liberdade individual em prisões, como condenação social à transgressão das normas orientadoras da conduta em sociedade, é uma forma de punição, mas também um lugar onde os reclusos poderão ter oportunidade para desenvolver capacidades favorecedoras da sua reintegração na sociedade. Contudo, segundo a Ordem dos Enfermeiros (OE, 2012) a prisão também expõe os reclusos a riscos acrescidos de doenças graves, muitas das quais transmissíveis, e é um espaço onde existe perigo de se desenvolverem comportamentos que favorecem o aparecimento de determinadas doenças. A estes riscos acrescem constrangimentos, o facto de cada recluso “se despir do seu eu” e ficar impedido de estabelecer contactos sociais com o mundo exterior. De acordo com Goffman, com a entrada numa instituição prisional o “eu é, sistematicamente, embora muitas vezes não intencionalmente, mortificado” (Goffman 2001, p.24). O Observatório Português dos Sistemas de Saúde já, em 2003, apelava à melhoria das condições prisionais, atendendo às particularidades inerentes às áreas da saúde dos reclusos mais preocupantes e aos riscos para a saúde pública, como os comportamentos aditivos e as doenças transmissíveis (OPSS, 2003). O relatório da Provedoria da Justiça, As Nossas Prisões, em 2003, apontava para o facto dos problemas da saúde prevalecentes, nos reclusos institucionalizados, estarem muitas vezes relacionados com o seu percurso de vida, condições sociais desfavoráveis, baixa escolaridade, índice de pobreza, doença mental e desequilíbrios psiquiátricos e com as doenças infeciosas, associadas, direta ou indiretamente, ao consumo de drogas. O ambiente prisional representa, por diferentes razões, um risco elevado para a saúde dos reclusos (Goomany & Dickinson, 2015; Royal College of Nursing, 2009; World Health Organization, 2014a). Partindo-se da especificidade deste contexto encetouse a (co)construção do projeto “Saúde em Cadeia”, cujo desenho e resultados preliminares dão corpo a este artigo. Assim, a promoção da saúde e literacia em saúde, bem como a Qualidade de Vida (QV), constituem-se conceções estruturantes pelo que nos propomos revisitar de forma sumária. Saúde, Promoção da Saúde e Literacia em Saúde O conceito holístico de saúde preconizado pela Organização Mundial de Saúde é “(…) um estado de

completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste somente na ausência de doença ou enfermidade” (WHO, 1948). Este conceito foi inovador, à época, por considerar os aspetos da subjetividade, da abordagem positiva e da multidimensionalidade. Contudo, foi criticado pela utopia e carater estático conferido pelo termo “completo”. Mais tarde, a definição foi alargada para englobar a extensão em que o indivíduo ou grupo é capaz de realizar as suas aspirações e satisfazer as suas necessidades e também de modificar e lidar com o meio que o envolve. Assim, a saúde requer intervenção e responsabilidades repartidas e complementares dos decisores políticos e dos profissionais do terreno, para que no âmbito das suas intervenções integrem o processo de saúde e de doença em toda a sua abrangência, à luz do conceito positivo de saúde preconizado na Carta de Ottawa. A saúde é proclamada como um recurso para a vida diária, sendo a responsabilidade sobre ele compartilhada pelos cidadãos e pelos profissionais em exercício em todas as estruturas sociais, políticas, económicas e ambientais. Neste âmbito, a promoção da saúde é um conceito fundamental que visa o envolvimento da sociedade global com o objetivo de permitir a todos um maior controlo sobre a sua saúde e a aquisição e desenvolvimento de habilidades que permitam melhorá-la A 9ª Conferência Global sobre Promoção da Saúde, em 2016, reiterar os princípios para a promoção da saúde para o séc. XXI, entre os quais destacamos: promover a responsabilidade social, que se pretende assumida nas políticas e nas práticas, quer do setor público como do privado para que a saúde seja promovida e defendida; aumentar a capacitação (empowerment) dos indivíduos, ou seja, dotar as pessoas de habilidades individuais que lhes permitam tomar decisões e controlar a sua própria vida, relativamente à saúde e a capacidade para a mobilização coletiva que vise influenciar condições que favoreçam a saúde da comunidade. Para proteger, melhorar e aumentar a saúde, são imprescindíveis práticas profissionais que impulsionem as atitudes individuais positivas para a saúde, favorecidas por decisões políticas para melhorar a QV das populações, como por exemplo a equidade de acesso a cuidados de saúde que a promovam, que previnam e tratem a doença reabilitando os indivíduos, e condições socioeconómicas e ambientais promotoras de bem-estar individual e coletivo. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 89


A Organização Mundial de Saúde advoga a literacia em saúde como fundamental para a manutenção e melhoria da saúde dos indivíduos e populações e define-a como um conjunto de competências cognitivas e sociais e a capacidade dos indivíduos para aceder, compreender e utilizarem a informação de modo a promover e manter a saúde (WHO, 1998). Estas competências são consideradas essenciais para que cada pessoa seja capaz de lidar com os assuntos relativos à sua saúde, nas opções do seu quotidiano, na procura e utilização dos serviços de saúde e na integração prática e responsável das informações para preservar e melhor a própria saúde. A literacia em saúde assenta na interação das aptidões dos indivíduos com os múltiplos contextos de vida. Nesta perspetiva, a literacia em saúde resulta de vários setores sociais que a devem assumir de forma partilhada. Requer ainda, que se estabeleçam redes de conhecimento entre investigadores e profissionais do terreno que facilitem a circulação e congregação do conhecimento que suporte políticas e intervenções sustentadas na evidência e capazes de ultrapassar barreiras sociais no âmbito da saúde (WHO, 2014b). Está em jogo a alteração intencional e critica de percursos complexos de relação entre “a(s) pessoa(s), a literacia em saúde e a capacitação para a transformação positiva das determinantes sociais da saúde e das condições de vida das comunidades” (Morais, Brito & Tomás, 2018: 69). Educação para a Saúde como Contributo para o Empowerment A saúde depende de múltiplos eixos confluentes das políticas públicas, como a saúde, a educação, o desenvolvimento socioeconómico e cultural, o meio ecológico e ambiental, entre outros. É um processo de construção permanente no continuum da vida, imbricado no projeto de vida de cada indivíduo, é multidimensional e convida à interação, participação e análise crítica na linha do estilo de educação para a “consciência crítica” preconizada por Paulo Freire (Freire, 2011). Assim, neste projeto, a Educação para a Saúde (EPS) é entendida como “comprises consciously constructed opportunities for learning involving some form of communication designed to improve health literacy, including improving knowledge, and developing life skills which are conducive to individual and community health” (WHO, 1998, p.14). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 90

Favorece aprendizagens e experiências que estimulem cada indivíduo ou grupo a adotar comportamentos saudáveis de uma forma voluntária e informada. A EPS é uma atividade intencional, que requer um programa assente na análise da realidade ou definição do problema. A partir do desenvolvimento do pensamento reflexivo e crítico, propiciador da autonomia e da responsabilidade face à sua saúde (ibidem), pretende favorecer a adoção consciente de hábitos e estilos de vida saudáveis e responder às necessidades em saúde identificadas atendendo às especificidades da pessoa, família, grupo e comunidade. As escolhas no âmbito da saúde são, muitas vezes, condicionadas por recursos individuais, socioeconómicos e ambientais. Nesta equação, a capacitação individual (empowerment) pode e deve ser incrementada através de intervenções que favoreçam a aquisição de competências para a tomada de decisão, a autoconfiança e competências interpessoais para compreender, procurar e usar a informação, a autoestima e a perceção para controlar e capacidade para decidir a sua própria vida. Aumentar a literacia em saúde favorece a capacitação do individuo para agir sobre a sua saúde e a dos que de si dependem, contribuindo para ambientes mais saudáveis e estilos de vida favoráveis à qualidade de vida. Qualidade de Vida e Reclusão Prisional O conceito de QV introduzido por Pigou associa o bem-estar humano com a economia, que a influência, como publicou na obra The Economics of Welfare, em 1920. Este autor chamou, pela primeira vez, a atenção para a influência das condições de vida sobre a qualidade com que as pessoas viviam e deu o mote para que estudos académicos contribuíssem para mostrar que várias são as condições que influenciam a vida das pessoas. A QV é um conceito subjetivo e não universal, pelo que é variável no significado que tem de pessoa para pessoa, no tempo histórico e nas diversas culturas, condições de vida, crenças, entre outros. Os fatores que a determinam são de várias ordens e natureza, designadamente: materiais (remuneração, capacidade financeira para fazer frente aos custos de vida); e/ou de ordem individual e pessoal (a felicidade, o prazer, o amor e a realização pessoal). É uma importante dimensão da saúde, influencia-a e inscreve-se no conceito de saúde que a WHO, adotou, em 1948.


No conceito da WHO a QV é a perceção do indivíduo sobre a sua vida, em estreita relação com o contexto cultural em que está inscrito, com os seus objetivos e expectativas de vida. Não sendo completamente consensual, este conceito incluí três aspetos fundamentais que o caracterizam por consenso: a subjetividade, a multidimensionalidade e a bipolaridade. A melhoria da QV dos reclusos merece atenção constante para serem superadas as condições adversas dos estabelecimentos prisionais de modo a que nesse espaço e tempo, seja possível contribuir para a sua reintegração responsável na vida em sociedade. Para Saraiva e Lopes (2011) a reinserção implica que o ex-recluso saiba viver em sociedade e tenha adquirido capacidades para se auto cuidar e, para isso, o investimento na literacia em saúde é fundamental. Nos estabelecimentos prisionais o quotidiano é organizado por atividades que obedecem a uma regulamentação programada e planificada. Cada recluso fica submetido às regras da vida na prisão e, como tal, assimila a cultura prisional (Barreto, 2006). O estudo de Rocheleau (2013), sobre a exploração da vida prisional e a sua associação ao mau comportamento e envolvimento em violência, evidenciou que as pessoas que consideravam especialmente difícil lidar com o tédio, com as preocupações com sua segurança e com os conflitos com funcionários, estavam em maior risco de apresentar mau comportamento e violência. Os reclusos têm resistência na reprodução da sua história de vida e de mostrar as suas próprias fraquezas, o baixo nível de instrução é, de certa forma, decorrente do alto índice de portadores de transtornos cognitivos, o que se traduz na redução das capacidades cognitivas necessárias para obter, processar e utilizar as informações adequada e oportunamente (ibidem). Na população a viver as circunstâncias da vida em reclusão, limitante da atividade pessoal e das relações sociais, o conhecimento da QV é um indicador para a implementação de programas de escolarização e de estratégias de educação, particularmente na área da saúde. Partindo-se destes pressupostos teóricos, procedeu-se à construção do projeto “Saúde em Cadeia”. MÉTODOS Partindo-se do princípio que a cidadania em saúde, nos termos da Declaração de Alma-Ata consagra o direito e dever das populações em participar individual e coletivamente em todas as etapas do processo de cuidados de saúde, procura-se promover a literacia em

saúde e a QV dos reclusos. O projeto emergiu na sequência da colaboração com um Estabelecimento Prisional do Norte de Portugal (EPNP), numa lógica de pesquisa-ação participativa em saúde conducente à construção e validação de um programa de “educação terapêutica” (PET) tendo por objetivos: desenvolver competências cognitivas e sociais promotoras da tomada de decisão fundamentada em saúde; incentivar à procura e mobilização da informação em saúde; e reforçar as determinantes individuais e coletivas na gestão da doença crónica. O projeto teve por base um estudo “quasi-experimental”, constituindo-se dois grupos: o Grupo de Intervenção (GI) e um Grupo de Controlo (GC), nos quais foi avaliada a literacia em saúde e a QV na fase precedente e seguinte à implementação do PET. Encontrando-se a última em curso pelo que não será integrada neste artigo. O GI foi constituído por reclusos que voluntariamente se disponibilizaram para a construção do PET e o GC, de entre os restantes, de forma aleatória, obedecendose ao emparelhamento com base na idade e escolaridade. Para recolha de dados aplicaram-se três instrumentos: - Instrumento de caraterização sociodemográfica, construído para o efeito; - Escala de avaliação de Qualidade de Vida “Estado de Saúde MOS SF – 36 v2” (Ferreira, 2000), instrumento desenvolvido sob a forma de escala de likert, constituído por 36 itens de autorresposta, dividida em 2 componentes (Componente física e Componente Mental) e 8 dimensões (Função física, Desempenho Físico, Dor, Saúde Geral, Vitalidade, Função Social, Desempenho Emocional e Saúde Mental). As pontuações finais de cada dimensão variam entre 0 – 100, com as pontuações mais elevadas a corresponder a melhor estado de saúde possível. - Questionário Europeu de Literacia em Saúde (Espanha, Avila & Mendes, 2016), constituído por 47 questões cuja escala de resposta varia entre 1 e 4 valores (do muito difícil ao muito fácil),na qual a pessoa diz o grau de dificuldade que sente na realização de tarefas relevantes na gestão da sua saúde. O instrumento integra três domínios da saúde – cuidados de saúde, promoção da saúde e prevenção da doença – e quatro níveis de processamento da informação essenciais à tomada de decisão – acesso, compreensão, avaliação e utilização. Para a construção do PET, recorreu-se ainda à entrevista semiestruturada à Direção do EPNP, Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 91


a um focus group e a um world caffé com reclusos, para identificação das necessidades/possibilidades e negociação das estratégias/compromissos do tipo e natureza de envolvimento individual e do grupo. Recorreu-se à estatística descritiva e inferencial, respeitando na última os pressupostos de normalidade e nível de mensuração das variáveis. O nível de significância definido foi de 5%. Foram respeitadas as recomendações da Declaração de Helsínquia, com as revisões de Tóquio, Veneza, Hong Kong, Sommerset West, Edimburgo e Seul para a investigação envolvendo pessoas. Assim, aos participantes foram explicitados os objetivos, natureza e âmbito da participação, garantindo a confidencialidade dos dados recolhidos, privacidade e anonimato, sendo também assegurada a possibilidade dos mesmos poderem desistir a qualquer momento. Ao EPNP foi garantido o anonimato e negociados os termos de caraterização do contexto organizacional a ter em conta na divulgação científica e comunitária dos desenvolvimentos. RESULTADOS Relativamente ao perfil sociodemográfico do GI, verifica-se que a idade média é de 39,2 anos + 10,8,variando entre os 19 e os 55 anos, 40% não sabe ler ou possui o 1º ciclo de escolaridade, a maioria (95,0%) participa em outras atividades programadas e do ponto de vista clínico 50% refere ter, pelo menos, uma patologia, sendo a mais frequente a hepatite C. Quanto ao grupo de controlo, a média de idades é de 36,85 ± 8,2 anos, com uma idade mínima de 25 e máxima de 52 anos, 30% não sabe ler ou possui o 1º ciclo de escolaridade, 85% participa em outras atividades programadas e 25% refere possuir, pelo menos, uma patologia, sendo a mais frequente a obesidade. Comprova-se a equivalência dos grupos quanto à idade (t Student =3,121; p =0,447) e quanto à escolaridade (x2F; p=0,235). No que se refere à QV, verifica-se que a dimensão Saúde Geral apresenta o valor médio mais baixo (menor QV percecionada) tanto no GI como no GC, respetivamente 47,7+7,2 e 49,8+6,8. A dimensão Função Física regista o valor médio mais elevado nos dois grupos (71,9+32,3 no GI e no 89,5+19,4 GC) (Tabela 1). Não se observam diferenças com significado estatístico entre os grupos nas várias dimensões, à exceção da Função Física, em que o GC apresenta um valor mais elevado (U=101,0; p=0,01).

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 92

Tabela 1 - Medidas de tendência central, por dimensão do MOS SF-36v2, segundo o grupo Grupo de Intervenção

Grupo Controlo

Qualidade de Vida (SF-36)

m + dp

Min - Máx

m + dp

Min Máx

Função Física

71,9 ± 32,3

0 – 100

89,5 ± 19,4

20 – 100

Desempenho Físico

64,8 ± 24,1

6,3 – 100

70,1 ± 30,5

0 – 100

Dor Física

68,8 ± 34,5

0 – 100

62,4 ± 27,1

20 – 100

Saúde Geral

47,7 ± 7,2 40 – 60

49,8 ± 6,8 40 – 60

Vitalidade

64,7 ± 18,9

25 – 90

65,4 ± 17,9

35 – 95

Função Social

71,1 ± 27,3

25 – 100

73,8 ± 22,5

25 – 100

Desempenho Emocional

64,5 ± 26,9

8,3 – 100

70,4 ± 28,1

8,3 – 100

Saúde Mental

55,2 ± 24,6

12 - 96

61,0 ± 20,7

20 - 96

No que diz respeito à literacia em saúde, constata-se que o nível “inadequado/problemático” é o que regista maior frequência, quer em termos dos domínios quer em termos do Índice Geral. Verifica-se ainda, que o domínio da Prevenção da Doença, embora tenha registado uma frequência absoluta inferior no nível “inadequado/problemático” comparativamente aos demais domínios, é também o que apresenta maior frequência de “não resposta” (Tabela 2). Não se verificam diferenças com significado estatístico entre os grupos. Estes resultados foram orientadores da reflexão necessária e conducente ao planeamento e operacionalização dos eixos a desenvolver. Assim, a (co) construção do PET configurou-se em torno de 4 eixos: Saúde global, higiene e bem-estar; Alimentação e saúde; Gestão da doença - novos e velhos desafios; e Gestão/compreensão da informação em saúde. Incluindo desde dinâmicas de desconstrução de estigmas, a sessões de relaxamento, passando pela construção de hortas verticais, entre outras, o projeto desenvolveu-se num total de 12 sessões, com a duração de 1 hora. Os assuntos foram desenvolvidos em espaços/tempo de reforço das “vozes” e da partilha dos saberes experienciais. A descoberta de sentidos e a qualidade das interações estabelecidas constituem um das marcas mais relevante do projeto.


Tabela 2 - Distribuição absoluta e relativa dos grupos por domínios e índice geral da literacia em saúde Literacia em Saúde

Grupo em Programa

Grupo Controlo

N

%

N

%

Inadequado/Problemático

12

60

12

60

Suficiente

3

15

5

25

Excelente

3

15

2

10

Sem resposta

2

10

1

5

Inadequado/Problemático

7

35

11

55

Suficiente

3

15

2

10

Excelente

3

15

3

15

Sem resposta

7

35

4

20

Inadequado/Problemático

10

50

12

60

Suficiente

5

25

4

20

Excelente

3

15

2

10

Sem resposta

2

10

2

10

Inadequado/Problemático

12

60

12

60

Suficiente

2

10

2

10

Excelente

2

10

2

10

Sem resposta

4

20

4

20

Cuidados de Saúde

Prevenção da doença

Promoção da Saúde

Índice Geral

Foram os reclusos que, revendo-se no caráter sistemático da abordagem proposta, nomearam o projeto como “Saúde em Cadeia” e fizeram questão de elaborar o logotipo. DISCUSSÃO A população do projeto caracteriza-se por uma faixa etária ampla (19-55 anos) e com número expressivo de elementos sem alfabetização ou com a escolaridade ao nível do 1º ciclo (40%). Estas condições influenciam as dimensões da literacia em saúde estudadas e a capacidade individual para a participação nas sessões de intervenção em grupo, requerendo das investigadoras adaptação da linguagem e estratégias que favoreçam a inclusão e participação dos elementos presentes. A baixa escolaridade da população com que trabalhamos sobrepõe-se ao retrato do país e inscreve-se numa problemática nacional de baixa literacia em saúde (Sorensen, et al 2012; WHO, 2013; Espanha, Ávila & Mendes, 2016).

Os dados sobre as condições da saúde no grupo de reclusos participantes mostram que existe pelo menos uma patologia diagnosticada, em metade dos elementos e que a Hepatite C é a mais frequente. Identificamos outras problemáticas de saúde como o consumo de álcool e de tabaco. Estes dados são corroborados nos relatórios quer nacionais (designadamente no relatório “As Nossas Prisões” da Provedoria da Justiça, em 2003) quer internacionais (WHO, 2014a) onde as doenças transmissíveis, associadas a comportamentos e condições de vida em comum, apresentam uma expressão considerável. Da mesma forma são expressos comportamentos aditivos de forma significativa, nomeadamente no que diz respeito ao tabagismo e álcool. Há uma crescente tomada de consciência de que os níveis de literacia são determinantes indeléveis dos níveis de saúde da população (WHO, 2013; Nutbeam, 2000). A gestão da saúde requer capacidades para aceder a informação e avaliá-la, interpretá-la e compreendê-la para os indivíduos a poderem utilizar nas situações relacionadas com a saúde, na compreensão das indicações e prescrições para controlo de doenças, nos cuidados de saúde preventivos e opções promotoras da própria saúde e dos que coabitam e/ou deles dependam (Sorensen et al 2012; Espanha, Ávila & Mendes, 2016). Relativamente à literacia em saúde, os resultados obtidos no nosso estudo evidenciam que é problemática na população reclusa estudada. O índice de literacia geral e o índice de cuidados de saúde situa-se num nível “inadequado/problemático” (n=12, em cada um). O índice prevenção da doença revelou “inadequado/ problemático” em 7 casos com o mesmo número de “sem resposta”. No índice promoção da saúde o nível inadequado/problemático evidenciou n=10 e n= 2 “sem resposta”. Os resultados obtidos a este nível, no nosso estudo, ainda que mais baixos, apontam no mesmo sentido do estudo sobre literacia em saúde, em Portugal (Espanha; Ávila & Mendes, 2016). Nesse estudo verificouse que o índice geral de literacia em saúde se encontra ligeiramente abaixo dos 8 países europeus estudados, com 11% da população num nível inadequado e 38% num estado problemático.

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No que se refere às dimensões, verifica-se: no índice de literacia em cuidados de saúde, que quase metade da população está num nível inadequado ou problemático; no índice de literacia sobre prevenção de doenças – a capacidade para a prevenir doenças revelou-se limitada com 45,5% da população em situação de literacia inadequada ou problemática; e no índice de promoção sobre promoção da saúde – os valores são ligeiramente superiores aos países da UE estudados. Em síntese, os resultados obtidos apontam para a necessidade de capacitação efetiva dos reclusos na promoção da saúde e na prevenção e gestão das doenças, com vista à melhoraria do bem-estar e da QV. Pretende-se ainda contribuir para o desenvolvimento das capacidades e preparação para a reinserção na comunidade, designadamente pela adequada utilização dos recursos em saúde. A avaliação da QV, nesta população, revelou que a dimensão da Saúde geral foi percecionada como baixa (47,7 ± 7,2) e que a dimensão avaliada como mais alta foi a perceção da Função Física (71,9 ± 32,3). Nas dimensões relacionadas com a saúde mental e social evidenciou-se que as perceções mais baixas são nas dimensões Desempenho Emocional (64,5 ± 26,9) e Vitalidade (64,7 ± 18,9) e a Função Social é a melhor percecionada (71,1 ± 27,3). Estudos da QV na população prisional em Portugal são escassos. Numa revisão da literatura realizada para explorar o modo como o clima prisional influencia a saúde mental de reclusos adultos, verificou-se que o clima nas prisões não é favorável à manutenção da saúde mental (embora não tivesse acontecido de forma sistemática) e pode não responder adequadamente às necessidades dos reclusos diagnosticados com problemas de saúde mental (Goomany & Dickinson, 2015). São, pois, necessárias mais pesquisas para compreender como o clima nas prisões pode contribuir para melhorar ou manter a saúde mental dos residentes e apontar estratégias para operacionalização da promoção da saúde mental e a gestão dos problemas de doença mental dos residentes. CONCLUSÕES O grupo de intervenção demonstrou um comportamento pró-ativo, evidenciando interesse nos temas das sessões efetuadas, colocando questões e partilhando situações/experiências que contribuíram para o enriquecimento da sessão e desenvolvimento da aprendizagem em torno dos temas abordados. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 94

Os resultados reforçam a importância das intervenções capazes de promoverem a capacidade para a melhoria da saúde em geral e pelo desenvolvimento de estratégias pessoais para gestão das emoções e reforçam a pertinência do plano de ação em torno dos 4 eixos norteadores da investigação-ação. O projeto centrou-se na cooperação intersectorial e multiprofissional, em lógicas de whole-of-government e whole-of-society. A relevância social e económica que a saúde comporta, requer o desenvolvimento de mais estudos e de políticas institucionais e públicas favorecedoras da manutenção da saúde dos reclusos e da oportunidade que o período de reclusão representa para o desenvolvimento das capacidades de literacia em saúde, gestão da doença e melhoria do seu bem-estar físico e mental, reinserindo pessoas mais habilitadas a gerir a sua saúde e a contribuírem para a saúde no seio familiar. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Os resultados são norteadores da intervenção prioritária nos domínios da saúde geral e na dimensão emocional, variando desde cuidados com a alimentação, consumos aditivos, gestão do stress. O projeto encontra-se em fase de reavaliação, com recurso às estratégias utilizadas no diagnóstico inicial e na sua continuidade prevemos a integração de atividades de team building e consulta de cessação tabágica. A lógica Botton-up que norteou o projeto foi favorecedora da (co)construção de toda a intervenção e resultou da franca descoberta de sentidos entre a comunidade reclusa e a equipa de investigação. Neste sentido, todo o processo se revelou dinâmico e surpreendentemente empoderador, consubstanciado pelo agir transformador, intencional e crítico, de todas as partes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Barreto, M. L. (2006). Depois das grades: um reflexo da cultura prisional em indivíduos libertos. Psicologia, Ciência e Profissão, 26 (4), 582-593. Doi: 10.1590/ S1414-98932006000400006 Espanha, R., Ávila, P., & Mendes, R. (2016). Literacia em Saúde em Portugal. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.


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Revista Portuguesa de Enfermagem de SaĂşde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 96


Artigo de Revisão

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0253

14 INTERVENÇÕES PROMOTORAS DE ESPERANÇA EM ENFERMAGEM

DE SAÚDE MENTAL E PSIQUIÁTRICA – UMA SCOPING REVIEW | Catarina Dias1; Olga Valentim2; Paulo Seabra3; Maria José Nogueira4 |

RESUMO CONTEXTO: A esperança tem um papel central na vida dos indivíduos influenciando várias dimensões da mesma, porque se desenvolve na relação com os outros. O Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica detém o saber relacional que lhe permite instilar/ manter a esperança nos diversos contextos de prestação de cuidados. Importa sistematizar o conhecimento sobre Intervenções Promotoras de Esperança (IPE), para que seja possível transferi-lo para a prática clínica. OBJETIVO(S): Identificar intervenções especializadas de enfermagem de saúde mental na promoção de esperança. MÉTODOS: Scoping review seguindo os critérios do Joanna Briggs Institute. Realizada uma busca nas plataformas EBSCO, PubMed e Google académico, entre Abril e Setembro de 2018, com os descritores hope AND mental health AND nurse OR nursing e esperança AND saúde mental AND enfermagem. RESULTADOS: Identificaram-se cinco estudos (três artigos, um relatório de estágio, uma tese de doutoramento), em diversos contextos (hospitalares, comunitários, forenses), apresentando-se variadas abordagens para pôr em prática as IPE (individuais ou de grupo), que podem ser mais ou menos estruturadas. CONCLUSÕES: Os estudos apresentam dois aspetos comuns: a relação terapêutica e a necessidade dos enfermeiros que praticam IPE deterem elevados níveis de esperança. As estratégias para operacionalizar as IPE dependem dos contextos e da orientação teórica do profissional. É essencial avaliar a altura mais propícia para aplicar IPE aos utentes. Esta revisão confirma a necessidade de se realizarem mais estudos em diferentes cenários, com diversas populações adequando as IPE aos vários contextos de prestação de cuidados. PALAVRAS-CHAVE: Esperança; Enfermagem; Saúde mental

RESUMEN

ABSTRACT

“Intervenciones promotoras de esperanza en enfermería de salud mental y psiquiátrica – una scoping review”

“Hope promoting interventions in psychiatric / mental health nursing – a scoping review”

CONTEXTO: La esperanza tiene un papel importante en la vida de las personas influenciando-la envarias dimensiones, dado que se desarrolla en la relación con los demás. El Especialista en Enfermería de Salud Mental y Psiquiátrica tiene el conocimiento relacional que le permite instilar/ mantener la esperanza en varios contextos. Es importante sistematizar el conocimiento sobre Intervenciones Promotoras de Esperanza (IPE), para que sea posible trasladarlo a la práctica clínica. OBJETIVO(S): Identificar intervenciones especializadas de enfermería de salud mental en la promoción de la esperanza. METODOLOGÍA: Se hizo una scoping review según el Joanna Briggs Institute. Se hizo una búsqueda en las plataformas EBSCO, PubMed y Google Académico, entre abril y septiembre de 2018, con los descriptores hope AND mental health AND nurse OR nursing. RESULTADOS: Se identificaron cinco estudios (tres artículos, un informe de prácticas, una tesis doctoral) en diversos contextos (hospitalarios, comunitarios, forenses) y diversos enfoques para poner en práctica las IPE (individuales o de grupo), que pueden ser más o menos estructuradas. CONCLUSIONES: Los estudios tienen dos aspectos en común: la relación terapéutica y que los enfermeros que practican IPE tengan altos niveles de esperanza. Las estrategias a usardependen de los contextos y de la orientación teórica del profesional y también es esencial respetar la altura más propicia para los usuarios. Esta scoping review confirma la necesidad de más estudios en diferentes escenarios y poblaciones, adecuando las IPE a los diversos contextos de atención.

BACKGROUND: Hope plays a central role in people’s lives and influences various dimensions of it, as hope is developed in the relationship with others. The Psychiatric and Mental Health Specialist Nursing holds the relational knowledge that allows him(her) to inspire/maintain hope in a multiplicity of caring settings. It is important to systematize the knowledge about therapeutic interventions in the promotion of hope (IPE) so that it can be operationalized in clinical practice. AIM: To identify specialized mental health nursing interventions regarding hope promotion. METHODS: A scoping review was conducted, as recommended by Joanna Briggs Institute. The search was conducted in EBSCO, PubMed and Academic Google platforms, between April and September 2018, with the descriptors hope AND mental health AND nurse OR nursing. RESULTS: Five studies were identified (three articles, one internship report, one doctoral dissertation), in diverse contexts (hospital, community, forensic), presenting various approaches to implement IPE (individual or group), which can be more or less structured. CONCLUSIONS: Studies have two common aspects: the therapeutic relationship and the need for IPE nurses to have high levels of hope. The IPE approaches depend on the context and on the theoretical orientation of the practitioner as well. It is vital to respect the patients’ agenda. This scoping review confirms the need to produce more studies in different settings and populations, adjusting IPE to the multiple contexts of caring.

DESCRIPTORES: Promoción de la esperanza; Enfermería; Salud mental

KEYWORDS: Hope; Nursing; Mental health Submetido em 30-12-2018 Aceite em 03-04-2019

1 Licenciada em Enfermagem; Enfermeira no Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, Estrada do Forte do Alto do Duque, Lisboa, Portugal, kaleidoscoppio@gmail.com 2 Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; PhD em Enfermagem; Investigadora no Centro de Pesquisa em Tecnologia e Serviços de Saúde (CINTESIS - NursID); Professora Adjunta na Escola Superior de Saúde Atlântica, Barcarena, Portugal, ommvalentim2@gmail.com 3 Enfermeiro especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; PhD em Enfermagem; Professor Adjunto na ESEL, Lisboa, Portugal, pauloseabra@esel.pt 4 Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Doutora em Enfermagem; Investigadora no Centro de Pesquisa em Tecnologia e Serviços de Saúde (CINTESIS - NursID); Professora Adjunta na Escola Superior de Saúde Atlântica, Barcarena, Portugal, nogueira.mjc@gmail.com Citação: Dias, C., Valentim, O., Seabra, P., & Nogueira, M. J. (2020). Intervenções promotoras de esperança em enfermagem de saúde mental e psiquiátrica – uma scoping review. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 97-102. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 97


INTRODUÇÃO Segundo o International Council of Nurses [ICN] (2019) a esperança é uma “emoção com as caraterísticas específicas: sentimento de ter possibilidades, confiança nos outros e no futuro, entusiasmo pela vida, expressão de razões para viver e de desejo de viver, paz interior, otimismo; associada ao traçar de objetivos e mobilização de energia”. A literatura associa a esperança a maiores níveis de coping e melhoria da qualidade de vida com resultados positivos ao nível do sistema imunitário. Pelo contrário, a desesperança segue a par com maior incidência de doença física, depressão e ideação suicida (Herth & Cutcliffe, 2002). O Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica (EEESMP) é um profissional de saúde que, ao intervir junto dos indivíduos, famílias e comunidades, pratica uma abordagem holística assente nos princípios da relação de ajuda; são dos mais capacitados para compreender “os processos de sofrimento, alteração e perturbação mental do cliente assim como as implicações para o seu projecto de vida, o potencial de recuperação e a forma como a saúde mental é afectada pelos factores contextuais” (Regulamento nº 356/2015 de 25 de Junho, p. 17034). As pesquisas preliminares em bases de dados permitiram identificar duas revisões de literatura no sentido de compreender o papel da esperança no âmbito da saúde mental (Cutcliffe & Koehn, 2007; Querido e Dixe, 2016), tendo já identificado estudos que contemplavam intervenções de enfermagem promotoras de esperança (IPE) em vários contextos de prestação de cuidados. Neste sentido pretende-se identificar intervenções especializadas de enfermagem de saúde mental na promoção de esperança. MÉTODOS A metodologia utilizada na realização desta revisão foi a scopingreview, que permite mapear rapidamente os conceitos-chave de uma área de pesquisa, bem como os tipos de fontes e investigação disponível (Dijkers, 2015). Seguiram-se as orientações do Joanna Briggs Institute [JBI] (2015) que recomenda seguir cinco etapas metodológicas: identificar uma questão de investigação, identificar estudos relevantes, seleccionar os estudos, mapear a informação e compilar, resumir e relatar os resultados.

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Partiu-se da questão de investigação com base nos elementos que permitem a construção do acrónimo PCC (População, Conceito e Contexto) que direcionam a definição dos critérios de inclusão: Quais são as intervenções especializadas de enfermagem de saúde mental para promoção da esperança? Por forma a identificar estudos relevantes, realizouse uma pesquisa em diversas plataformas entre Abril e Setembro de 2018. Acedeu-se à plataforma EBSCO através do site da Ordem dos Enfermeiros (Medline, MedicLatina e CINAHL Complete) e da Universidade Católica Portuguesa (Social Sciences Citation Index, Psychology and Behavioral Sciences Collection, Directory of Open Access Journals e RCAAP) e acedeuse à PubMed. Introduziram-se termos de pesquisa e os operadores booleanos: hope AND mental health AND (nurse OR nursing) e ainda esperança AND saúde mental AND enfermagem; todos os termos foram pesquisados nos campos de título (TI) e assunto (SU). Limitou-se a pesquisa a artigos dos últimos cinco anos, pois a última revisão de literatura tinha identificado artigos até 2014 (Querido e Dixe, 2016), em Português e Inglês, que incluíssem um resumo e texto completo. Procedeu-se ainda a uma pesquisa no motor de busca Google académico, com os mesmos termos de pesquisa e operadores booleanos, tendo surgido um relatório de estágio e uma tese de doutoramento que respondiam à questão de investigação e respeitavam os critérios de inclusão, pelo que foram incluídos na revisão final. Foram incluídos os artigos que responderam à pergunta de investigação e excluídos os artigos que reportavam intervenções de profissionais não enfermeiros, se não aludissem ao papel do EEESMP, se definiam apenas o conceito de esperança, se avaliassem o efeito da esperança noutras dimensões (como o conforto ou bem-estar), se o objectivo fosse a validação de escalas e se se tratassem de editoriais e artigos de opinião. Através deste protocolo foram identificados 94 artigos. Para identificar estudos relevantes os títulos, resumos e texto completo dos artigos foram analisados até se chegar aos incluídos na scoping review (Figura 1).


Figura 1 - PRISMA processo de seleção dos artigos (adaptado de Moher, Liberati, Tetzlaff, &Altman 2009)

RESULTADOS O primeiro estudo constitui uma revisão crítica de literatura desenvolvida por Monteiro (2014), no qual o autor divide a esperança em três dimensões, reflectindo sobre as IPE a serem desenvolvidas pelo EEESMP. Na dimensão da confiança – considera essencial reaprender a confiar para se promover o desenvolvimento de relações pessoais significativas (tarefa central nos processos de recovery). Na dimensão do futuro – realça a importância do desenvolvimento de IPE centradas na relação terapêutica e ancoradas na experiência prévia dos utentes. Sugere ainda ajudar o utente a reflectir sobre o seu percurso de vida (por ex.: através da biografia e auto narrativa, promover e reforçar as relações significativas com os outros, facilitar a expressão de crenças espirituais e práticas religiosas, construir um kit de esperança, estimular o empréstimo de esperança e construir um legado).Na dimensão da paixão do possível – aborda a definição de objectivos específicos e realistas (por ex.: sugere-se elaborar planos criativos que inspirem a esperança, apoiar na manutenção ou descoberta de interesses pessoais, estimular a definição de objectivos, encorajar o desenvolvimento de competências de controlo da pessoa sobre o momento presente e reforçar a identificação dos aspectos positivos do aqui e agora). A instilação de esperança é centrada na pessoa, como ponto de partida e alvo dos cuidados.

No segundo estudo Niebieszczanski, Dent & McGowan (2015) desenvolvem uma grounded theory para identificar experiências e crenças dos EEESMP sobre a forma de instilar esperança em contextos forenses. Este modelo consiste numa categoria abrangente – agarrar a esperança –, três categorias principais – ser a intervenção, praticar esperança razoável, impacto emocional – e factores de moderação – crenças de esperança, ambiente restrito, viagem com a pessoa. Este estudo integra as crenças pessoais sobre esperança dos enfermeiros, as práticas que desenvolvem por forma a promover a esperança e o impacto emocional que isto tem na esperança pessoal dos enfermeiros postulando que existe uma relação recíproca entre as “esperanças” (dos enfermeiros e utentes) e as actividades que os enfermeiros desenvolvem para nutrir a sua própria esperança e dos utentes. Assim, os enfermeiros devem, eles próprios, ser pessoas esperançosas para poderem desempenhar eficazmente as IPE. O terceiro estudo (Herrestad, Biong, Mccormack, Borg,& Karlsson, 2014) remete para a abordagem filosófica da esperança, numa base de pragmatismo. As IPEsão sensíveis ao contexto, logo podem exercer-se de diversas formas. Analisam-se os conceitos de esperança em diferentes tempos e contextos de prestação de cuidados para corroborar a necessidade de uma abordagem pragmática e não semântica no que concerne àsIPE. Os autores mencionam estudos contemporâneos nesta área que concluem que a esperança foi considerada uma ferramenta que estimula o utente para a acção, permitindo-lhe delinear um plano para operacionalizar suas expectativas, realistas ou não. O quarto estudo é um Relatório de Estágio de Querido (2015) para a obtenção do título de EEESMP, onde analisa as competências desenvolvidas ao longo de dois estágios realizados: um em contexto comunitário, com o objectivo de promoção de saúde na área da saúde escolar, e outro no contexto hospitalar, com enfoque na intervenção na crise, em que se propõe a criação de um grupo de ajuda mútua centrado na promoção de esperança. Este grupo teve por objectivo disponibilizar IPE “às pessoas com depressão através do suporte emocional, informativo/ formativo e instrumental” (Querido, 2015, p.146).

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Organizou-se em três domínios: (1) intervenção na promoção da esperança – na relação estabelecida entre os elementos do grupo ou entre estes e os enfermeiros, pretende-se a valorização do sentido das experiências de esperança das pessoas; (2) intervenção baseada na esperança enquanto factor de resiliência – reforça-se a capacidade mutualista do grupo e seus indivíduos para superar vivências problemáticas e aceitar a doença, integrando-a de forma positiva no seu projecto de vida; e (3) intervenção baseada nos fatores de ameaça à esperança – implementar técnicas de resolução de problemas para transformar a culpa em soluções construtivas. O EEESMP actua como orientador e facilitador das várias actividades desenvolvidas pelo grupo. No quinto estudo, Marques (2014) desenvolve um Programa de Promoção de Esperança dirigido aos Cuidadores de pessoas com doença crónica e avançada (PPE-C) que decorre ao longo de três sessões na presença do enfermeiro e sob sua orientação. Trabalhou quatro dimensões: (1) identificar recursos e ameaças à esperança – identificação de áreas de esperança e modelos de esperança; (2) relembrar memórias do passado – revisão da vida/ reminiscência, identificação de recursos espirituais, encorajar o cuidador a elaborar um legado; (3) viver melhor o presente (com dois subgrupos) – “viver um dia de cada vez” (focar-se nas alegrias/ ganhos do presente, encontrar um significado na situação) e “viver o momento” (recorrer a afirmações positivas, experiências estéticas, refletir sobre hábitos e rotinas, solicitar ajuda, técnica de relaxamento/ imaginação guiada); e (4) planear o futuro –identificação de áreas da vida importantes para a autoestima/ autoeficácia, estabelecer objetivos realistas, identificar recursos para atingi-los, e reforçar a sua consecução. O PPE-C foi eficaz no aumento da esperança, do conforto e da qualidade de vida, e pode ser uma intervenção autónoma de enfermagem nessa população. Pode consultar-se no Quadro 1 o instrumento de registo para sumarizar e mapear a informação recolhida nos trabalhos incluídos na análise. Quadro 1 - Mapeamento das 5 referências incluídas

Revisão crítica de literatura (Artigo Científico) Groundedtheory (Artigo Científico) Revisão de Literatura (Artigo Científico)

2014 2015 2014

Herrestad, Biong, Mccormack, Borg &

Niebieszczanski, Dent&McGowan

Monteiro

AUTOR ANO TIPO DE OBJECTIVO DO ESTUDO ESTUDO

RESULTADOS

LIMITAÇÕES

CONCEITO DE ESPERANÇA

IPE

Reflectir sobre a utilização de IPE em enfermagem de saúde mental e psiquiátrica, a partir de uma revisão crítica da literatura.

Processo existencial que pode ser construído no contexto de uma relação terapêutica; Estratégias concretas promotoras de esperança podem ser implementadas.

Estudos sobre intervenções de esperança em contextos clínicos incidem normalmente sobre amostras reduzidas.

Esperança enquanto confiança; esperança enquanto futuro; esperança como paixão do possível.

Narrativas terapêuticas, técnicas de resolução de problemas, estratégias de contacto com a realidade, terapias de grupo.

Compreender como os EEESMP em contexto forense instilam a esperança; identificar estratégias que os utentes usam para desenvolver a esperança.

A relação terapêutica é um meio de desenvolver a esperança; é vital que os enfermeiros sejam, eles próprios, pessoas esperançosas.

É necessária mais investigação para testar a universalidade do modelo; é provável que os enfermeiros que tenham fortes sentimentos sobre a esperança se voluntariem mais facilmente para esta pesquisa.

Expectativa de futuro para alcançar objectivos pessoais significativos; resiliência psicológica e bem-estar; componente essencial do modelo de recovery.

Desenvolver a relação interpessoal; Promover uma abordagem de orientação para o futuro.

Defender uma abordagem pragmática da ciência da esperança.

As definições de esperança dependem dos vários contextos, e as práticas sociais que para elas remetem permitem acções particularizadas para cada contexto.

O ponto de partida do estudo é a afirmação de que uma definição universal de esperança a priori é desnecessária para o estudo da esperança.

É considerada desnecessária a tentativa de definir esperança pela sua especificidade e particularidade em cada contexto.

Não há respostas generalizadas para determinar as IPE mais adequadas.

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Revisão de literatura e Estudo de caso (Relatório de Estágio) (Tese de Doutoramento)

2015 2014

Querido Marques

Reflexão crítica sobre o desenvolvimento de competências especializadas de Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica

A esperança pode ser ensinada e usada como mediador em contextos educacionais; A esperança faz parte do processo de recovery da pessoa com doença mental.

Tempo disponível para implementação e avaliação das intervenções em contexto escolar. Tipo de grupo de ajuda e orientação psicanalítica utilizada na sua condução, grupo formado unicamente por mulheres.

Motiva para ajudar a iniciar e manter acções que levem ao alcance de objetivos; relacionada com a felicidade, perseverança, conquistas pessoais e a saúde.

Criação de um grupo de ajuda mútua na depressão e propostas de intervenções organizadas em três domínios.

Avaliar a efetividade de um programa de intervenção de enfermagem (PPE-C).

Os intervenientes evidenciaram a contribuição do programa para o processo espiritual/ transcendente, experiencial, relacional e racional da esperança

Estudo não randomizado com pouca representatividade; não inclui efeitos de terapia medicamentosa ou intervenções de outros profissionais que não enfermeiros; não realização de entrevista de follow-up.

Emoção multidimensional relacionada com os cuidados, orientada para o futuro e altamente personalizada para cada indivíduo.

Implementação de um programa de promoção de esperança, desenvolvendo actividades em quatro áreas de intervenção.

DISCUSSÃO A esperança é um conceito multidimensional, particular e por isso único para cada indivíduo. Além disso depende do contexto social, uma vez que pode ser influenciada externamente (Cutcliffe & Grant, 2001). Herrestad et al. (2014) consideram irrelevante definir o conceito como base para a sua investigação. A necessidade de os cuidadores formais apresentarem uma esperança genuína e mantida é consensual, bem como a importância da relação terapêutica estabelecida entre o enfermeiro e o utente (Niebieszczanski et al., 2015). Verifica-se que em três estudos não existem modelos de intervenção estruturados (Herrestad et al., 2014; Monteiro, 2014; Niebieszczanski et al., 2015). A esperança faz parte do processo de recovery na saúde mental e tem de ser vista no contexto da experiência de vida do indivíduo, incluindo o que ele considera não só importante como atingível (Cleary, Sayers, Lopez, & Shattell, 2016). Os autores extraem recomendações para as IPE baseadas na qualidade da relação terapêutica. Considerando o objectivo do trabalho desenvolvido por Querido (2015), desenvolver competências específicas do EEESMP, parece ser adequado replicar ou adaptar o seu trabalho em futuras pesquisas e não se colocam questões éticas ou deontológicas para a promoção de esperança assente neste programa, por parte dos EEESMP.

A replicação do trabalho desenvolvido por Marques (2014) nos contextos da prática está limitada pela obrigatoriedade de o enfermeiro orientador do PPE-C ter formação avançada em cuidados paliativos e, no mínimo, dois anos de experiência de prestação de cuidados a utentes com doença crónica, avançada e progressiva. Porém, a investigadora nada opõe ao desenvolvimento isolado de actividades do guia que criou para este programa. Todos os estudos consideram a individualidade e multidimensionalidade inerente à esperança, bem como a capacidade que os contextos têm de influenciar e ser influenciados pela esperança dos seus actores. De acordo com Cutcliffe (2009, citando Vaillot, 1970), a instilação de esperança no contexto da enfermagem é mais que uma obrigação moral; trata-se de uma prática diária, pelo que é essencial que os enfermeiros procurem mais e melhores meios de inspirar esperança nos utentes; neste seguimento os estudos incluídos nesta revisão são bidireccionais: por um lado argumentam no sentido de criar processos formais de instilação de esperança, por outro destacam a importância da intervenção dirigida e personalizada para cada utente. Esta dualidade relaciona-se intimamente com a prática do EEESMP que se desenvolve tanto num contexto sistémico como no contexto das relações interpessoais. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 101


CONCLUSÕES Os estudos abordam a esperança quer como conceito, quer no que respeita a IPE. É salientada a influência que a esperança dos enfermeiros tem na relação terapêutica destacando que estes profissionais devem possuir elevados níveis de esperança para que sejam capazes de instilá-la e mantê-la. A operacionalização das IPE depende dos contextos e da orientação filosófica do profissional, podendo ocorrer em diversos cenários, com várias abordagens e com actividades que podem ser mais ou menos estruturadas. Além disso, é igualmente essencial respeitar a altura mais propícia para intervir com os utentes, como ponto de partida para o sucesso da intervenção. Assim, as intervenções especializadas de enfermagem de saúde mental, para a promoção da esperança, identificadas nesta revisão são: a criação de narrativas terapêuticas; o desenvolvimento de estratégias de contacto com a realidade; as técnicas de orientação para o futuro estabelecendo objetivos realistas; implementação de programas de promoção da esperança assentes na identificação de recursos e ameaças à esperança, relembrar memórias de esperança do passado, aprender a viver melhor o presente e planear o futuro. No seguimento das sugestões comuns aos vários estudos destaca-se a necessidade de aprofundar a investigação sobre IPE em diferentes contextos de prestação de cuidados e diversas populações-alvo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Cleary, M., Sayers, J. M., Lopez, V., & Shattell, M. M. (2016). Hope and Mental Health Nursing. Issues in Mental Health Nursing, 37(9), 692–694. Doi: 10.1080/01612840.2016.1221676 Cutcliffe, J. R. (2009). Hope: The eternal paradigm for psychiatric/mental health nursing: Commentary. Journal of Psychiatric and Mental Health Nursing, 16, 843-847. Doi: 10.1111/j.1365-2850.2009.01490.x Cutcliffe, J. R., & Grant, G. (2001). What are the principles and processes of inspiring hope in cognitively impaired older adults within a continuing care environment? Journal of Psychiatric and Mental Health Nursing, 8(5), 427–436. Cutcliffe, J. R., & Koehn, C. V. (2007). Hope and interpersonal psychiatric/mental health nursing: a systematic review of the literature? part two. Journal of Psychiatric and Mental Health Nursing, 14(2), 141–147. Doi: 10.1111/j.1365-2850.2007.01055.x Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 102

Dijkers, M. (2015). What is a scoping study? Disponível em: http://www.methods.manchester.ac.uk/ events/whatis/scopingstudy.pdf Herrestad, H., Biong, S., Mccormack, B., Borg, M., & Karlsson, B. (2014). A pragmatist approach to the hope discourse in health care research. Nursing Philosophy, 15(3), 211–220. Herth, K., & Cutcliffe, J. (2002). The concept of hope in nursing 3: hope and palliative care nursing. British Journal of Nursing, 11(14), 977–982. Doi: 10.12968/ bjon.2002.11.14.10470 International Council of Nurses (2019). ICNP browser: esperança. Joanna Briggs Institute (2015). Methodology for JBI Scoping reviews. Marques, R. (2014). A promoção da esperança nos cuidadores de pessoas com doença crónica e avançada – efectividade de um programa de promoção da esperança no conforto e na qualidade de vida. (Tese de Doutoramento). Universidade Católica Portuguesa, Portugal. Moher, D., Liberati, A., Tetzlaff, J., & Altman, D. G. (2009). Systematic Reviews and Meta-Analyses: The PRISMA Statement. Annulas of Internal Medicine, 151(4), 264–269. Doi: 10.1371/journal.pmed1000097 Monteiro, A. P. (2014). Da desesperança à esperança - intervenções de enfermagem de saúde mental. Hospitalidade, 78(303), 31–37. Niebieszczanski, R. J., Dent, H., & McGowan, A. (2016). ‘Your personality is the intervention’: a grounded theory of mental health nurses’ beliefs about hope and experiences of fostering hope within a secure setting. Journal of Forensic Psychiatry and Psychology, 27(3), 419–442. Doi: 10.1080/14789949.2015.1134626 Querido, A. I. F. (2015). A Esperança na Prática Especializada de Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria. (Relatório de Estágio). Instituto Politécnico de Leiria, Portugal. Querido, A., & Dixe, M. A. (2016). A esperança na saúde mental: uma revisão integrativa da literatura. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, 3, 95-101. Doi: 10.19131/rpesm.0124 Regulamento nº 356/2015 de 25 de junho. Diário da República II Série Nº 122. Regulamento dos Padrões de Qualidade dos Cuidados Especializados em Enfermagem de Saúde Mental. Ordem dos Enfermeiros, Lisboa


Artigo de Revisão

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0254

15 A PSICOEDUCAÇÃO NA ADESÃO TERAPÊUTICA EM UTENTES COM

ESQUIZOFRENIA: UMA SCOPING REVIEW | Tânia Vilar1; Maria José Nogueira2; Olga Valentim3; Paulo Seabra4 |

RESUMO CONTEXTO: A esquizofrenia é uma doença crónica que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. A não adesão aos projetos terapêuticos está presente em 50% dos utentes com doença crónica.Torna-se necessário recorrer a uma intervenção que capacite os indivíduos a aderirem ao tratamento, sendo a intervenção mais indicada, a psicoeducação. A efetividade desta intervenção junto de pessoas com esquizofrenia é, no entanto, desconhecida com rigor. OBJETIVO(S): Mapear os efeitos da psicoeducação na adesão terapêutica em pessoas com esquizofrenia. MÉTODOS: Realização de uma scoping review, com base nas recomendações do Joanna Briggs Institute. Realizou-se uma pesquisa na plataforma EBSCO e nas bases de dados PubMed e Scielo em junho 2018, procurando-se estudos no período temporal de seis anos (2012 a 2018). RESULTADOS: Foram identificados 15 artigos e após a aplicação dos critérios de inclusão previamente definidos, foram selecionados três estudos para análise final. As intervenções realizadas nesses estudos foram: a aplicação do Nursing Psychoeducation Program; a visualização de filmes produzidos pela Alliance Psychoeducation Program e a realização de sessões de psicoeducação (com role – play). Em todas elas, usando medidas específicas antes e após as intervenções psicoeducacionais, verificou-se um aumento do conhecimento sobre a perturbação mental e uma mudança de atitude face à adesão ao regime medicamentoso. CONCLUSÕES: Destaca-se a efetividade das técnicas psicoeducacionais em pessoas com esquizofrenia e salienta-se a relevância dos enfermeiros especialistas de saúde mental e psiquiátrica na equipa interdisciplinar no planeamento de intervenções psicoeducacionais. PALAVRAS-CHAVE: Psicoeducação; Esquizofrenia; Enfermagem; Adesão terapêutica

RESUMEN

ABSTRACT

“La psicoeducación en la adhesión terapéutica en usuarios con esquizofrenia: Una scoping review”

“The effects of psychoeducation on therapeutic adherence in people with schizophrenia: A scoping review”

CONTEXTO: La esquizofrenia es una enfermedad crónica que afecta a millones de personas en todo el mundo. La no adhesión a los proyectos terapéuticos está presente en el 50% de los pacientes con enfermedad crónica. Es necesario recurrir a una intervención que permita a las personas a adherirse al tratamiento, siendo la intervención más indicada, la psicoeducación. La efectividad de esta intervención en personas con esquizofrenia es, sin embargo, desconocida con rigor. OBJETIVO(S): Mapear los efectos de la psicoeducación en la adhesión terapéutica en personas con esquizofrenia. METODOLOGÍA: Realización de una scoping review, con base en las recomendaciones del Joanna Briggs Institute. Se realizó una investigación en la plataforma EBSCO y en las bases de datos PubMed y Scielo en junio de 2018, buscando estudios en el período temporal de seis años (2012 a 2018). RESULTADOS: Se identificaron 15 artículos y después de la aplicación de los criterios de inclusión previamente definidos, se seleccionaron tres estudios para el análisis final. Las intervenciones realizadas en estos estudios fueron: la aplicación del Nursing Psychoeducation Program; la visualización de películas producidas por la Alliance Psychoeducation Program y la realización de sesiones de psicoeducación (con rol - play). En todas ellas, tras la aplicación de medidas específicas antes y después de las intervenciones psicoeducativas, se verificó un aumento del conocimiento sobre la perturbación mental y un cambio de actitud frente a la adhesión al régimen medicamentoso. CONCLUSIONES: Se destaca la efectividad de las técnicas psicoeducativas en personas con esquizofrenia y se destaca la relevancia de los enfermeros especialistas de salud mental y psiquiátrica en el equipo interdisciplinario en la planificación de intervenciones psicoeducativas.

BACKGROUND: Schizophrenia is a chronic that affects millions of people around the world. Non-adherence to therapeutic projects is present in 50% of patients with chronic disease. It is necessary to resort to an intervention that enables individuals to adhere to treatment, being the most indicated intervention, psychoeducation. The effectiveness of this intervention among people with schizophrenia is, however, strangely unknown. AIM: To map the effects of psychoeducation on therapeutic adherence in people with schizophrenia. METHODS: Scoping review, based on the recommendations of Joanna Briggs Institute. A survey was conducted on the EBSCO platform and the PubMed and Scielo databases in June 2018, looking for studies over the six-year timeframe (2012 to 2018). RESULTS: Fifteen articles were identified and after the application of the previously defined inclusion criteria, three studies were selected for final analysis. The interventions carried out in these studies were: the application of the Nursing Psychoeducation Program; viewing films produced by the Alliance Psychoeducation Program and conducting psychoeducation sessions (with role - play). Using specific measures before and after psychoeducational interventions, for all studies, there was an increase knowledge about mental disorder, as well, a change in patient’s compliance. CONCLUSIONS: The effectiveness of psychoeducational techniques in people with schizophrenia is discussed, as well the relevance of the mental and psychiatric nurse’s psychoeducational interventions in the scope of the health care team.

DESCRIPTORES: Psicoeducación; Esquizofrenia; Enfermería; Adhesión terapéutica

KEYWORDS: Psychoeducation; Schizophrenia; Nursing; Patient compliance Submetido em 30-12-2018 Aceite em 01-04-2019

1 Licenciada em Enfermagem; Mestranda em Enfermagem com especialização em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica na Universidade Católica Portuguesa, Palma de Cima, Lisboa, Portugal, vilar1992@hotmail.com 2 Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Doutora em Enfermagem; Investigadora no Centro de Pesquisa em Tecnologia e Serviços de Saúde (CINTESIS - NursID); Professora Adjunta na Escola Superior de Saúde Atlântica, Barcarena, Portugal, nogueira.mjc@gmail.com 3 Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Doutora em Enfermagem; Investigadora no Centro de Pesquisa em Tecnologia e Serviços de Saúde (CINTESIS - NursID); Professora Adjunta na Escola Superior de Saúde Atlântica, Barcarena, Portugal, ommvalentim2@gmail.com 4 Enfermeiro especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Doutor em Enfermagem; Investigador na Unidade de Investigação e Desenvolvimento em Enfermagem (UI&DE); Professor Adjunto na Escola Superior de Enfermagem, Lisboa, Portugal, pauloseabra@esel.pt Citação: Vilar, T., Nogueira, M. J., Valentim, O., & Seabra, P. (2020). A psicoeducação na adesão terapêutica em utentes com esquizofrenia: Uma scoping review. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 103-108. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 103


INTRODUÇÃO A esquizofrenia é uma doença crónica que afeta quase 24 milhões de pessoas em todo o mundo (World Health Organization [WHO], 2012, citada por Chagani, 2015). Esta patologia abrange um conjunto de variadas características que provocam alterações na pessoa a diversos níveis, a associar ainda ao estigma social existente (Galuppi, Turola, & Mazzoni, 2012, citados por Ngoc, Weiss, & Trung, 2016). Muitos utentes com esquizofrenia necessitam de estabilização duradoura com medicação para prevenir recaídas, contudo, a não – adesão está presente em 50% dos utentes com doenças crónicas (WHO, 2012, citada por Al Batran, 2015), independentemente da sua etiologia. Entende-se por adesão o comportamento de uma pessoa coincidente com as recomendações de um prestador de cuidados de saúde (Ordem dos Enfermeiros, 2009). Isto é, cumpre indicações relativas à toma da medicação, no cumprimento dos ensinos/consultas, na procura de cuidados de saúde e nas mudanças dos estilos de vida. O comprometimento da adesão é influenciado pela relação entre o utente e o profissional (Day et al., 2005, citados em Matsuda & Kohno, 2016); pelos efeitos secundários dos anti-psicóticos (Dibonaventura, Gabriel, Dupclay, Gupta & Kim, 2012; Eticha, Teklu, Ali, Solomon & Alemayehu, 2015, citados por Matsuda & Kohno, 2016); pelas crenças acerca dos efeitos da medicação (Higashi et al., 2013, citado por Matsuda & Kohno, 2016); pelo reduzido insight e conhecimento acerca dos sinais e sintomas da sua patologia. (Barkhof, Meijer, Sonneville, Linszen, & Haan, 2012; Higashi et al., 2013; Novick et al., 2015, citados por Matsuda & Kohno, 2016). As estimativas do incumprimento das prescrições farmacológicas e não farmacológicas são significativas, revelando-se um desafio diário, para os profissionais de saúde (Byrne, Cardoso, & Xavier, 2016). Assim, torna-se essencial intervir de forma a capacitar o indivíduo para aderir ao tratamento. A medicação, as sessões de aconselhamento e educação, podem ser implementadas, contudo, de todas as intervenções, a mais promissora é a Psicoeducação (Bauml, Frobose, Kraemer, Rentrop, & Pitschel-Walz, 2006, citados por Matsuda & Kohno, 2016). O termo ‘Psicoeducação’ surgiu na área da Psiquiatria (com George Brown, 1972), através de trabalhos desenvolvidos com familiares Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 104

de utentes com esquizofrenia e mais tarde foi desenvolvida com Carol Anderson em 1980, como tratamento adjuvante da esquizofrenia (Srivastava & Panday, 2016). A Psicoeducação é uma intervenção psicoterapêutica designada para promover o coping nos utentes e familiares (Lincoln, Wilhelm, & Nestoriuc, 2007, citado em Srivastava & Panday, 2016) e é considerada um processo que permite ensinar os utentes com perturbação mental e as suas famílias, sobre a natureza da doença (etiologia, progressão, consequências, prognóstico e alternativas de tratamento) (Barker, 2003, citado em Srivastava & Panday, 2016). No que se refere aos benefícios da Psicoeducação junto de pessoas com esquizofrenia, verifica-se que é desconhecida com rigor, o que torna relevante a realização de uma revisão de literatura com o objetivo de sintetizar e sistematizar o conhecimento existente acerca dos efeitos da psicoeducação em pessoas com esquizofrenia. Face a esta evidência, surge a questão: Quais os efeitos da psicoeducação na adesão terapêutica em pessoas com esquizofrenia? MÉTODOS A metodologia usada para esta revisão tem por base o Manual de Joanna Briggs Institute (Peters et al, 2015), considerando os passos para a realização de uma scoping review: (1) Identificar a questão de pesquisa; (2) Identificar os estudos relevantes; (3) Selecionar os estudos; (4) Mapear os dados; (5) Recolher, sintetizar e relatar os resultados. Primeiramente, foi definida a questão de pesquisa (Passo 1), baseada no PCC (População, Conceito e Contexto), assim como os critérios de inclusão: P – População: pessoas adultas, com idades compreendidas entre os 18 e os 65 anos, portadoras de esquizofrenia; C – Conceito: psicoeducação, enquanto intervenção psicoterapêutica; C – Contexto: qualquer contexto. Para esta revisão foram considerados estudos primários, revisões de literatura e literatura cinzenta. Posteriormente, de forma a identificar-se os estudos relevantes (Passo 2), que pudessem dar resposta à questão de investigação, foi realizada uma pesquisa desde 1 a 16 de junho de 2018. Numa primeira fase, foi realizada uma pesquisa na plataforma EBSCO, de forma a encontrar-se os termos de pesquisa mais usados nos artigos, que melhor servissem o propósito da pesquisa.


Os termos de pesquisa selecionados foram: psychoeducation e intervention e os descritores (DeCS e MeSH) nursing, schizophrenia e patient compliance. Numa segunda fase, como estratégia de pesquisa, foi realizada uma pesquisa em duas bases de dados distintas: Pub – Med (usados os descritores MeSH) e SciELO e na plataforma EBSCO (usados os descritores DeCS), com os seguintes termos e operadores booleanos: ‘Psychoeducation’ AND ‘Patient compliance OR adherence’ AND ‘schizophrenia’ AND ‘intervention OR treatment OR therapy’ AND ‘nursing OR nurses OR nurse OR nursing care OR nursing practice’. Para os termos psychoeducation e schizophrenia, a pesquisa foi delimitada por: Título; período de seis anos (2012 – 2018); artigos na língua portuguesa, inglesa e espanhola; e artigos disponíveis em texto integral de livre acesso. Os estudos foram selecionados (Passo 3) e os dados foram mapeados (Passo 4), analisando os títulos e os resumos, baseado nos critérios de inclusão previamente definidos. Da pesquisa efetuada obteve-se um total de 15 artigos: 2 deles foram excluídos por serem duplicados; 6 foram excluídos pelo título quer por o grupo alvo não corresponder aos critérios de inclusão, quer por não focarem a psicoeducação, enquanto intervenção psicoterapêutica, para a adesão terapêutica; 4 artigos foram excluídos pelo resumo, quer por serem tipos de revisões de literatura que não se enquadravam nos critérios de inclusão, quer por não incidirem em específico na psicoeducação. Assim sendo, foram incluídos 3 artigos para a análise integral, os quais cumpriam os critérios de inclusão. RESULTADOS De modo a atingir-se o Passo 5 recomendado pelo Manual de Joanna Briggs Institute (Peters et al, 2015), é apresentada de seguida, no Quadro 1, a síntese dos dados recolhidos nos artigos incluídos na revisão. Quadro 1 - Síntese dos artigos incluídos na revisão Autor (es) Ano, Nome do artigo

Desenho de Estudo e Amostra

Matsuda e Kohno (2016) Effects of the Nursing Psychoeducation Program on the Acceptance of Medication and Condition – Specific Knowledge of Patients with Schizophrenia Maffei, Gorges, Kissling, Schreiber, e RummelKluge (2015) Using films as a psychoeducation tool for patients with schizophrenia: a pilot study using a quasi – experimental pre – post design

Choe, Sung, Kang, e Yoo (2015)

Objetivo do estudo

Intervenções Psicoeducacionais

Resultados

Quase experimental Avaliar a utilidade clínica de um programa de psicoeducação (NPE 43 utentes (idade - Nursing Psychoeducation Pro≥20) com esquizogram) na adesão à medicação e no frenia aumento do conhecimento sobre a (dois hospitais patologia e efeitos secundários da psiquiátricos do medicação. Japão)

* Aplicação do programa NPE (dirigido por 2 enfermeiros com formação no programa); * Aplicação de instrumentos de avaliação antes e após a intervenção para avaliar a evolução.

* Maior score nos questionários (sobre medicação) aplicados após a intervenção de psicoeducação; * O NPE é útil para promover a adesão à medicação em utentes com esquizofrenia, mas não contribui diretamente para o aumento do conhecimento da patologia.

Quase experimental Testar a viabilidade e uma nova forma de psicoeducação (uso de 102 utentes filmes) em utentes com esquizo(média de idades frenia. de 35,1 anos) com esquizofrenia (um hospital psiquiátrico na Alemanha)

* Visualização de 6 filmes, produzidos pela Alliance Psychoeducation Program (presença sempre de um enfermeiro): - Sessão de 35 minutos (17 minutos de filme + 18 minutos de debate). * Aplicação de escalas antes e após a intervenção para avaliar a evolução

* Maior score nas escalas de avaliação após a intervenção da psicoeducação: - Aumento do conhecimento acerca da medicação e da patologia; - Aumento do insight para a doença; - Mudança de perceção para a qualidade de vida. * A perceção dos efeitos secundários da medicação não diminuiu. * A frequência e a duração das (re) admissões no hospital, não mudaram significativamente após a intervenção. * Os utentes, após alguns meses da aplicação da intervenção, ainda se recordavam das informações que receberam.

* Sessão de Psicoeducação (conduzida por 2 enfermeiras com formação própria na área): - 6 semanas de psicoeducação (1 sessão por semana) - Uso de material áudio – visual para complementar a sessão.

* Maior score nas escalas de avaliação após a intervenção da psicoeducação: - Aumento significativo do conhecimento sobre a patologia; - Melhoria significativa da atitude face à medicação.

Quase experimental Testar a viabilidade e uma nova forma de psicoeducação (uso de 61 utentes filmes) em utentes com esquizoImpact of Psychoeduca- (35 com esquizofrenia. tion on Knowledge of frenia e 26 com Avaliar os efeitos da intervenção and Attitude Toward perturbação esqui- psicoeducacional focada na proMedications in Clients zoafetiva, de um moção de conhecimento e atitudes With Schizophrenia and hospital psiquiátri- face à medicação anti – psicótica Schizoaffective Disorders co da Coreia do Sul) em utentes com esquizofrenia (ou com perturbação esquizoafetiva).

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DISCUSSÃO A análise dos artigos selecionados para a revisão, permitiu examinar diferentes formas de aplicação da psicoeducação. Apesar das três abordagens serem distintas, todas elas apresentavam a mesma base de aplicação, focando-se nos principais temas a abordar nas sessões psicoeducacionais: conhecimento da esquizofrenia (definição, causas, sintomas); conhecimento da medicação (mecanismo de ação e efeitos secundários) e estratégias de coping para lidar com a patologia. Os três estudos evidenciaram a importância da presença do enfermeiro com formação específica na área de saúde mental e psiquiatria, conduzindo as sessões, e apontando a relação enfermeiro – utente como sendo um dos fatores influenciadores do sucesso da sessão. Como nos mostra a evidência: a não adesão é influenciada pela relação entre o utente e o profissional (Day et al, 2005, citados por Matsuda & Kohno, 2016). No estudo de Matsuda e Kohno (2016), em que se aplicou um programa psicoeducacional de enfermagem (NPE – Nursing Psychoeducation Program), ainda que houvesse um aumento de conhecimentos e uma mudança de atitude face à medicação, o programa não contribuiu diretamente para aumentar o conhecimento sobre a esquizofrenia, facto referido no estudo pela possibilidade de ser influenciado pelo insight dos indivíduos face à sua situação e pelo prévio conhecimento do tema. Ainda assim, tem-se tornado cada vez mais evidente que a aquisição de conhecimentos é necessária, mas não o suficiente para a modificação comportamental em utentes com esquizofrenia. Mudar as atitudes dos utentes é mais importante que promover o seu conhecimento (Ministry of Health, Labour and Welfare, 2000, citados por Matsuda & Kohno, 2016). Com os resultados deste estudo, através da aplicação de instrumentos de avaliação (MPS – Medication Perception Scale for Patients with Schizophrenia; DAI - Drug Attitude Inventory – 10 Questionnaire; KIDI – Knowledge of Psychiatric Illness And Drugs Inventory), tornou-se claro que, em utentes em contexto de internamento (o próprio estudo refere como limitação não abranger a área do ambulatório), a intervenção psicoeducacional tem repercursões significativas na atitude face à adesão à medicação. A acrescentar ainda que o papel do enfermeiro foi evidenciado, na medida em que o programa foi conduzido por dois especialistas na área de saúde mental e psiquiatria, tendo tido formação específica no programa NPE Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 106

(com acesso a leituras, exemplos práticos de psicoeducação através de meios audiovisuais e ‘role – play’). Futuramente torna-se necessário determinar o efeito a longo prazo do programa psicoeducacional, visto o NPE ter sido aplicado durante 4 dias. No estudo de Maffei, Gorges, Kissling, Schreiber, & Rummel-Kluge (2015), em que a intervenção psicoeducacional teve por base a visualização de 6 filmes (3 filmes por semana, durante 2 semanas), também os resultados foram significativos. Neste estudo, os resultados mostraram que houve um aumento do conhecimento acerca da medicação e da própria patologia, do insight para a doença e da perceção para a qualidade de vida (mas não da perceção negativa sobre os efeitos secundários da medicação), contrariamente ao estudo de Matsuda e Kohno (2016) que mostrou resultados ao nível da adesão à medicação e não tão significativos no aumento do conhecimento sobre a esquizofrenia. Tal como no estudo de Matsuda e Kohno (2016), também este recorreu ao uso de instrumentos de avaliação para avaliar os momentos antes e após a intervenção psicoeducacional: MARS – Medication Adherence Rating Scale; The Knowledge Of Illness about Schizophrenia Questionnaire e a Visual Analogue Scale (para a perceção de qualidade de vida). Além disso, dois meses após a alta dos utentes, verificou-se que ainda mantinham os conhecimentos bem assentes. Os dois meses iniciais após a alta clínica são fulcrais para a adesão ao tratamento e redução de readmissões (Markowitz, Karve, Panish, Candrilli,& Alphs, 2013, citados por Maffei et al., 2015). Assim, contrariamente aos estudos de Matsuda e Kohno (2016) e de Choe et al (2015), o estudo de Maffei et al (2015) investiu não só no acompanhamento do utente no momento do internamento, como no pós alta, o que foi um fator importante na medida em que, há resultados que evidenciam a influência da psicoeducação na taxa de recaídas e readmissões (Pekkala & Merinder, 2002, citado por Choe et al., 2015). O estudo de Choe et al (2015) também teve uma abordagem psicoeducacional que trouxe repercurssões no utente com esquizofrenia, semelhantes aos estudos anteriores, nomeadamente no aumento significativo do conhecimento sobre a patologia e na mudança de atitude face à medicação, tendo este último estudo, o maior período temporal de aplicação da intervenção psicoeducacional – 6 semanas. Mais uma vez existiu a aplicação de instrumentos de avaliação antes e após a sessão de psicoeducação: DAI – Drug Attitude Inventory – 10 Questionnaire e o Knowledge Instrument.


Contudo, tal como nos outros estudos, também este envolveu uma amostra não representativa da população (limitação referida). Ainda assim, os três estudos traduzem a importância da Psicoeducação para a adesão terapêutica nos utentes com esquizofrenia, sendo que o estudo de Maffei et al (2015) faz a anotação de abranger também a família. A importância da educação aos familiares tem sido demonstrada em diversos estudos, todavia ainda é uma área em crescimento, pelo estigma e exclusão social existente na área da saúde mental (Bauml et al., 2006; McFarlane, Dixon, Lukens, & Lucksted, 2003; Farrely et al., 2014, citados por Maffei et al., 2015).

É necessário continuar a investir na pesquisa neste campo de atuação, considerando a necessidade de estudos em Portugal.

CONCLUSÕES

Byrne, M., Cardoso, A., & Xavier, M. (2016). Adesão ao tratamento nas perturbações psiquiátricas: o impacto das atitudes e das crenças em profissionais de serviços de psiquiatria e saúde mental em Portugal. Parte I: aspetos conceptuais e metodológicos. Revista Portuguesa de Saúde Pública, 34, 209-219. Doi: 10.1016/j.rpsp.2016.05.004

Partindo da questão de investigação quais os efeitos da psicoeducação na adesão terapêutica em pessoas com esquizofrenia? os estudos demonstram que a intervenção Psicoeducacional permite o aumento de conhecimentos, no utente com esquizofrenia, sobre a sua doença e a necessidade de aderir ao regime medicamentoso. A Psicoeducação permite a mudança de comportamentos face à adesão à medicação e à perceção sobre a doença mental. Além disso, paralelamente à intervenção psicoeducacional, durante o período de internamento, é igualmente necessário um seguimento na pós-alta e o envolvimento da família do utente com esquizofrenia, de forma a aumentar a adesão por parte do utente e, consequentemente, reduzir as taxas de recaída e readmissões. Destaca-se a relevância dos enfermeiros especialistas de saúde mental e psiquiátrica na equipa interdisciplinar no planeamento de intervenções psicoeducacionais. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Futuramente, torna-se essencial realizar estudos que abarquem uma amostra representativa do universo de utentes, de tal forma que permitam a generalização dos resultados para a população. Torna-se também necessário investir nos estudos sobre a psicoeducação na área concreta da esquizofrenia e do ambulatório, apostando-se na adesão ao tratamento dos utentes com esta doença crónica (com envolvimento também da família) e apostando-se no futuro da profissão e nos cuidados de enfermagem de saúde mental e psiquiatria na comunidade

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Artigo de Revisão

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0255

16 EFEITO

DA TERAPIA DE REMINISCÊNCIA GERIÁTRICA: SCOPING REVIEW

NA

POPULAÇÃO

| Andreia Plexa1; Maria José Nogueira2; Paulo Seabra3; Olga Valentim4 |

RESUMO CONTEXTO: A Terapia da Reminiscência (TR) tem vindo a ser utilizada com o objetivo de promover o bem-estar, a cognição e o humor. A população geriátrica tem habitualmente associadas patologias como demência e/ou depressão e é frequentemente alvo de TR. Contudo, uma pesquisa preliminar revelou que os dados relativos aos efeitos desta terapia e a forma como esta deve ser implementada, encontram-se dispersos na literatura sendo difícil a sua apreciação. Por conseguinte decidiu-se realizar uma scoping review com a seguinte questão de investigação: “Qual o efeito da terapia da reminiscência na população geriátrica?”. OBJETIVO(S): Mapear a evidência científica acerca dos efeitos da TR na população geriátrica. MÉTODOS: Scoping Review orientada pela metodologia proposta pelo Joana Briggs Institute. Entre 1 e 17 de junho de 2018, foram pesquisados os descritores “reminiscence therapy”, “reminiscence” e “life review” nas plataformas EBSCO, B-on, e nas bases de dados PubMed e SciELO. A seleção dos artigos foi realizada de acordo com critérios pré-definidos: idade dos participantes superior a 65 anos, aplicação de TR, artigos gratuitos e disponíveis em texto integral em Português, Espanhol e Inglês. RESULTADOS: Foram analisados 4 artigos num total de 73. A TR produz efeitos na redução da sintomatologia depressiva e na sobrecarga dos cuidadores, no comportamento, desempenho cognitivo e no bem-estar. CONCLUSÕES: Existe pouca evidência científica que comprove os efeitos da TR na população geriátrica, e a forma como esta deve ser implementada, pelo que é necessário desenvolver estudos longitudinais com amostras significativas, por forma a melhor compreender o efeito da TR. PALAVRAS-CHAVE: Terapia narrativa; Terapia; Rememoração mental; Saúde mental

RESUMEN

ABSTRACT

“Efecto de la terapia de reminiscencia en la población geriátrica: Scoping Review”

“Effects of reminiscence therapy on the geriatric population: Scoping review”

CONTEXTO: La Terapia de la Reminiscencia (TR) ha sido utilizada con el objetivo de promover el bienestar, la cognición y el humor. La población geriátrica generalmente está asociada a la demencia y depresión y está frecuentemente sometida a RT. Una investigación preliminar reveló que los datos sobre los efectos de esta terapia y cómo debe implementarse están dispersos en la literatura y son difíciles de evaluar. Consiguiente, se decidió realizar una scoping review con la siguiente pregunta de einvestigación: “Cuál es el efecto de la terapia de reminiscencia en la población geriátrica?” OBJETIVO(S): Mapear la evidencia sobre los efectos de la TR en la población geriátrica. METODOLOGÍA: Scoping Review usando la metodología propuesta por el Instituto Joanna Briggs. Entre el 1 y el 17 de junio de 2018, se usaron los descriptores “reminiscence therapy”, “reminiscence” y “life review” en las plataformas EBSCO y B-on, en las bases PubMed y SciELO. La selección de artículos se llevó a cabo de acuerdo con criterios previamente definidos: edad de los participantes superior a 65 años, participantes se sometieron a la TR, y artículos disponibles en texto completo en portugués, español e inglés. RESULTADOS: Se analizaron 4 artículos de un total de 73. La TR produce efectos en la reducción de la sintomatología depresiva y sobrecarga de los cuidadores, en el comportamiento, cognición y el bienestar. CONCLUSIONES: Hay poca evidencia científica que demuestre los efectos de la TR en la población geriátrica y de cómo debe ser implementada. Consiguiente es necesario realizar más estudios longitudinales y con muestras significativas para comprender mejor el efecto de la TR.

BACKGROUND: Reminiscence Therapy (RT) has been used to promote wellbeing, cognition and mood improvement. The geriatric population is usually associated with pathologies such as dementia and/or depression and is often targeted for RT. However, preliminary research has shown that data regarding the effects of this therapy and how it should be implemented are scattered in the literature. Therefore, we decided to carry out a scoping review with the following research question: “What is the effect of reminiscence therapy on the geriatric population?” AIM: To map the scientific evidence about the effects of the RT in the geriatric population. METHODS: A Scoping Review guided by the methodology proposed by the Joanna Briggs Institute. From the first of June to the 17th of 2018, we search for the “reminiscence therapy”, “reminiscence” and “life review” descriptors in the EBSCO and B-on platforms, at PubMed and SciELO databases. The papers were selected according to predefined criteria such as participants’ age of over 65 years, participants submitted to RT, papers with free full text in Portuguese, Spanish and English. RESULTS: 4 articles were selected and analyzed from a total of 73. The RT produces effects on the reduction of depressive symptoms and caregivers’ overload, behavior, cognition, and well-being. CONCLUSIONS: There is a lack of evidence to substantiate the effect of the RT on the geriatric population, as well as how it should be applied. Therefore, further longitudinal studies with significant samples are necessary to better understand the effect of RT in the geriatric population.

DESCRIPTORES: Terapia narrativa; Terapia; Recuerdo mental; Salud mental

KEYWORDS: Narrative therapy; Therapy; Mental recall; Mental health Submetido em 30-12-2018 Aceite em 11-03-2019

1 Estudante de Mestrado em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica na Universidade Católica Portuguesa; Enfermeira no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, Avenida do Brasil, 53, Lisboa, Portugal, andreiaplexa@chpl.min-saude.pt 2 Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Doutora em Enfermagem; Investigadora no Centro de Pesquisa em Tecnologia e Serviços de Saúde (CINTESIS - NursID); Professora Adjunta na Escola Superior de Saúde Atlântica, Barcarena, Portugal, nogueira.mjc@gmail.com 3 Enfermeiro especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Doutor em Enfermagem; Investigador na Unidade de Investigação e Desenvolvimento em Enfermagem (UI&DE); Professor Adjunto na Escola Superior de Enfermagem, Lisboa, Portugal, pauloseabra@esel.pt 4 Enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Doutora em Enfermagem; Investigadora no Centro de Pesquisa em Tecnologia e Serviços de Saúde (CINTESIS - NursID); Professora Adjunta na Escola Superior de Saúde Atlântica, Barcarena, Portugal, ommvalentim2@gmail.com Citação: Plexa, A., Nogueira, M. J., Seabra, P., & Valentim, O. (2020). Efeito da terapia de reminiscência na população geriátrica: Scoping review. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 109-114. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 109


O artigo “The life review: an interpretation of reminiscence in the aged” publicado em 1963 por Robert Butler, foi pioneiro a contrariar os efeitos nocivos que eram atribuídos ao processo de reminiscência. Segundo o artigo, na época existiam opiniões díspares acerca da natureza e funcionalidade da reminiscência, sendo a mesma desencorajada por se acreditar que poderia conduzir a deterioração mental. Butler (1963) defendia que a reminiscência era um processo mental, natural e universal; de regresso progressivo de experiências passadas à consciência, com enfoque em conflitos não resolvidos, para que pudessem ser integrados promovendo assim, a integridade do ego. O investigador defendia ainda que este processo era acelerado pela aproximação da morte, conduzindo a uma reorganização interna. Merriam (1993) contraria esta afirmação, referindo que a reminiscência não é um processo universal, precipitado pela aproximação da morte, dado que as pessoas com 100 anos de idade incluídas no estudo realizado não apresentaram maior evidência de reminiscências comparativamente às pessoas de 60 anos. O estudo comprovou ainda que nem todas as pessoas desenvolveram processos de reminiscência, pelo que esta poderá não assumir um carácter universal. Erikson (1959) e Butler (1963) afirmaram que a revisão da vida é uma tarefa a ser realizada em idades avançadas, e esta tem vindo a ser utilizada como intervenção terapêutica, promovendo a autoaceitação e saúde mental das pessoas (Pinquart & Forstmeier 2011). Os termos reminiscence e life review surgem na literatura como estando relacionados com o mesmo processo, no entanto são conceitos distintos. Butler (1963) identifica reminiscence como um processo de pensar sobre si, sendo transversal e inerente à pessoa, e life review como um processo estruturado e intencional de mobilização de eventos passados com objetivo terapêutico. Wong & Watt (1991) diferenciaram seis tipos de reminiscência: integrativa (obter um sentido de autovalor, coerência e reconciliação com o passado), instrumental (contribui para a perceção subjetiva de competência e continuidade), transmissiva (transmissão de heranças culturais e legado pessoal), escapista (tendência a glorificar o passado e depreciar o presente), obsessiva (insucesso na integração de experiências passadas), e narrativa (fornece informação biográfica). No entanto também Webster, Bohlmeijer, & Westerhof (2010) e Westerhof, Bohlmeijer, & Webster (2010) realizaram uma distinção entre diferentes tipos de reminiscência. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 110

Esta distinção distingue a reminiscência simples, revisão de vida e terapia de revisão de vida. A reminiscência simples apresenta-se como uma narrativa de memórias autobiográficas não estruturada. A revisão de vida consiste numa intervenção mais estruturada, habitualmente realizada de forma individual, trabalhando memórias positivas e negativas. A terapia de revisão de vida consiste numa abordagem mais terapêutica, focando-se em promover uma visão positiva do passado. Habitualmente integra também técnicas da terapia cognitivo-comportamental, técnica de resolução de problemas ou terapia narrativa. A aplicação de terapia de reminiscência na população geriátrica é frequente. Os efeitos atribuídos a esta terapia passam pela melhoria da qualidade de vida, bemestar, e desempenho cognitivo. Contudo, os estudos que corroborem estas afirmações são escassos. Assim, esta scoping review é realizada com o intuito de mapear o conhecimento presente na evidência científica acerca do efeito da terapia da reminiscência na população geriátrica, respondendo à questão: “Qual o efeito da terapia da reminiscência na população geriátrica?”. MÉTODOS Tendo em conta o método de elaboração da questão de investigação preconizado pelo Joana Briggs Institute (População, Conceito e Contexto (PCC)), foi identificada a população em estudo (população geriátrica), o conceito (efeitos da terapia da reminiscência) e contexto (pessoas sob intervenção em comparação com pessoas não submetidas à intervenção terapia da reminiscência), resultando na questão de investigação: “Quais os efeitos da terapia da reminiscência na população geriátrica?”. Relativamente aos critérios de elegibilidade para seleção dos artigos foram determinados os seguintes: amostra com pessoas com idades superiores a 65 anos, dado que se procura apurar a evidência relativa à intervenção na população geriátrica; aplicação de terapia de reminiscência, excluindo a implementação simultânea com outras terapias; artigos disponíveis em texto integral e gratuito; limite temporal dos últimos dez anos, a fim de se apurar a evidência mais recente; e artigos escritos em português, inglês e espanhol, por serem idiomas compreendidos pelos investigadores. No que diz respeito à tipologia de estudos foram excluídos artigos de opinião, revisão de literatura narrativa, conferências e estudos de caso por não responderem a uma metodologia estruturada. A pesquisa foi efetuada no período de 1 a 17 de junho de 2018.


No que concerne à estratégia de pesquisa foi realizada uma primeira pesquisa com os descritores “reminiscence therapy”, AND “life review” AND “geriatric” (optamos por manter os conceitos na sua forma original como forma de ampliar a identificação de artigos). Os resultados foram escassos, pelo que se repetiu a pesquisa inserindo o descritor “reminiscence”. Contudo o resultado não se alterou significativamente. Assim, alteraram-se os descritores para “reminiscence therapy” AND “reminiscence” AND “life review”, obtendo um resultado mais satisfatório. Foram pesquisados os descritores anteriormente referidos, nas plataformas EBSCO (bases de dados CINAHL Complete Full Text e MEDLINE Complete Full Text) e B-on. Na SciELO (Portugal), os descritores utilizados foram “reminiscência” e “saúde”. A pesquisa perfez um total de 73 artigos - EBSCO: 26; B-on: 32; PubMed: 11; SciELO PT: 4 (Figura 1). Após a remoção de artigos duplicados permaneceram 31 artigos em análise. A seleção destes artigos foi realizada pela leitura do título, excluindo os artigos sobre temáticas não relacionadas com a TR; pela leitura do resumo, excluindo os artigos sem evidência de metodologia estruturada ou referência à origem da informação; pela leitura integral do texto, seguindo o protocolo PRISMAScR (Tricco et al., 2018). Importa referir que nesta fase final a seleção foi realizada sempre com a validação de pelo menos dois dos investigadores de forma independente. O total dos artigos apurados foi quatro (Figura 1).

RESULTADOS Após a seleção dos artigos, procedeu-se à extração sistematizada da informação relevante para a temática em estudo, que pode ser consultada no Quadro 1. Quadro 1 - Extração de resultados Autor/ ano

Desenho Objetivo do estudo

Amostra

Resultados

Pinquart & Forstmeier 2011

Meta análise

Integrar resultados de estudos clínicos aleatórios controlados (RCT) relativamente a determinadas variáveis (9) nas fases de pós-intervenção follow up.

128 RCT No pós-intervenção – melhoria de todas as variáveis. No follow-up 6 das 9 variáveis mantiveram melhoria. Terapia de revisão de vida apresenta maior eficácia. Intervenção individual não produz melhores efeitos que a de grupo.

Preschl et al. 2012

Estudo clínico aleatório e controlado

Comparar TR presencial com TR com recurso a uso do computador.

36 pessoas

Diminuição de sintomatologia depressiva. Aumento de bemestar. Sem alterações significativas na qualidade de vida.

Lopes, Afonso e Ribeiro 2014

Revisão integrativa da literatura

Efetuar uma revisão integrada da literatura sobre os principais efeitos da reminiscência em pessoas com demência.

28 artigos

Melhoria de cognição, comportamento, humor, diminuição de sintomatologia depressiva, aumento de bem-estar, qualidade de vida, comunicação, capacidade funcional e diminuição sobrecarga dos cuidadores.

Jonsson et al. 2016

Revisão Sintetizar evisistemáti- dência sobre ca eficácia, segurança e custo do tratamento psicológico da depressão, e avaliar a qualidade da evidência encontrada.

22 RCT

Melhoria de sintomatologia depressiva, qualidade de vida, sendo que apenas um deles teve efeito positivo nesta variável.

A meta análise de Pinquart & Forstmeier (2011) englobou 128 estudos clínicos aleatórios e controlados dos quais 82 diziam respeito a reminiscência simples, 37 de revisão de vida e 18 de terapia de revisão de vida. Estes 128 estudos dizem respeito a uma amostra total de mais de 4000 participantes, quer nos grupos experimentais, quer nos grupos de controlo. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 111


Na maioria dos estudos selecionados foi aplicada a terapia em grupo; a distribuição da amostra foi realizada de forma aleatória pelos dois grupos; em média foram praticadas 10 sessões de terapia de reminiscência (médias variaram entre 8 a 9 semanas). Na avaliação realizada no momento pós-intervenção, todas as variáveis haviam melhorado significativamente, pela seguinte ordem: integridade do ego, sintomatologia depressiva, propósito de vida, preparação para a morte, mestria, saúde mental, bem-estar, interação social e cognição. No follow up este efeito positivo persistiu em seis das nove variáveis: na sintomatologia depressiva, saúde mental, bem-estar, integridade do ego, cognição e preparação para a morte. Segundo os investigadores este decréscimo também pode estar relacionado com a escassez de estudos (27 em 128) que efetuaram avaliação no follow up. Importa referir que as variáveis analisadas pelos investigadores foram sujeitas a aplicação de instrumentos de avaliação. Preschl et al. (2012), conduziram um estudo clínico aleatório e controlado com o objetivo de comparar a aplicação da TR com a aplicação da mesma com recurso a computador. A amostra foi recrutada através de anúncios em diversos locais como jornais, lojas, e farmácias; seguindo-se uma seleção dos participantes de acordo com critérios previamente estabelecidos. Os sujeitos com défice cognitivo, depressão grave, ideação suicida, diminuição acentuada da acuidade visual e auditiva, e a receber psicoterapia foram excluídos. A alocação aos grupos foi feita de forma aleatória. A intervenção teve a duração de 6 semanas. A avaliação das variáveis foi realizada no pré e pós-intervenção e no follow up (três meses). Verificou-se que a sintomatologia depressiva diminuiu de forma significativa, inclusive ao momento do follow up. A mobilização de reminiscência de tipo obsessivo diminuiu, e verificouse ainda aumento do bem-estar sentido pelos participantes. Os investigadores especularam acerca da possibilidade dos participantes terem continuado a usar estratégias aprendidas durante a intervenção, e assim o desenvolvimento de melhores mecanismos de coping, o que justificaria os resultados positivos obtidos no follow up. A hipótese colocada de que a reminiscência integrativa poderia aumentar falhou, não se observando alterações significativas. A qualidade de vida sentida pelos participantes também não sofreu alterações significativas. Como limitações foram apontadas a amostra reduzida, e o facto de 30% da mesma ter sido submetida previamente a psicoterapia. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 112

Lopes, Afonso e Ribeiro (2014) realizaram uma revisão integrativa da literatura com o objetivo de identificar os principais efeitos da reminiscência em pessoas com demência. Dos 28 estudos incluídos na revisão, 11 eram estudos experimentais, 6 quase-experimentais e 11 não experimentais. Os domínios cognição, comportamento, depressão/humor, comunicação, qualidade de vida, bem-estar e atividades de vida diárias foram avaliados com instrumentos de avaliação prédefinidos. A variável cognição apresentou melhoria significativa em 5 dos 18 estudos, comportamento melhorado verificou-se em 11 dos 16, depressão diminuída em 5 de 8 estudos, humor melhorado em 3 dos 6, comunicação com efeito positivo em 4 de 5, a qualidade de vida promovida em 3 de 5, bem-estar aumentado em 4 de 5, e finalmente as atividades de vida diárias beneficiaram em 1 dos 5 estudos encontrados. Relativamente ao impacto da reminiscência nos cuidadores um estudo apresenta uma diminuição na sua sobrecarga. O stresse e a saúde em geral não apresentam melhorias significativas nos estudos consultados pelos investigadores. Como limitações são apontadas as amostras reduzidas dos estudos, critérios de inclusão pouco definidos e falta de desenhos longitudinais. Jonsson et al. (2016) realizaram uma revisão sistemática com o objetivo de sintetizar evidência sobre eficácia, segurança e custo do tratamento psicológico da depressão. Dos 22 estudos clínicos aleatórios e controlados apenas 3 diziam respeito a TR. Estes apresentavam amostras pequenas. O número de sessões aplicadas foi heterogéneo, bem como as características das intervenções. Os 3 estudos apresentaram efeitos positivos na sintomatologia depressiva, 2 estudos incluíram também a qualidade de vida, sendo que apenas 1 deles teve efeito positivo nesta variável. Os investigadores consideraram como limitações a amostra reduzida nos estudos e possíveis enviesamentos nos estudos que comprometeram a sua qualidade. DISCUSSÃO Os resultados encontrados nos artigos demonstram claramente que a terapia da reminiscência é uma intervenção que promove o bem-estar, a qualidade de vida e a melhoria da saúde mental das pessoas. Pinquart & Forstmeier (2011) afirmam que a terapia da reminiscência produz ligeiras a moderadas melhorias na sintomatologia depressiva e noutras variáveis referentes à saúde mental.


Esta meta análise apresentou efeitos moderados na integridade do ego, o que apoia a sugestão de Butler (1963), que afirmava que as intervenções baseadas em reminiscência são úteis no desenvolvimento de uma atitude de autoaceitação. No entanto, os investigadores lamentam existirem poucos estudos com diferentes formas de reminiscência. Ainda assim, nos resultados apresentados, a reminiscência simples não promoveu alterações significativas quando comparada com a reminiscência enquanto processo não-terapêutico. Ainda de acordo com Pinquart & Forstmeier (2011) a terapia da reminiscência pode ser utilizada também para promoção de bem-estar, e não apenas quando se pretende intervir em sintomatologia depressiva. No entanto, estes autores ressalvam as suas limitações na prevenção, apresentando alterações pouco significativas quando se fala em promoção de bem-estar e prevenção de patologias. Este resultado corrobora o estudo realizado por Ercan-Sahin & Emiroglu (2018) que estudou o impacto da terapia de reminiscência na qualidade de vida de idosos institucionalizados sem patologia psiquiátrica e defeito cognitivo (critério de exclusão). Os investigadores concluíram a terapia de reminiscência não conduziu a melhoria da qualidade de vida dos participantes. Como possível justificação dos achados os autores apontam questões culturais, dado que a sociedade em estudo prefere a permanência no domicílio à institucionalização. A revisão de literatura de Lopes et al. (2014) refere que a terapia da reminiscência tem um impacto positivo nos participantes dos estudos analisados que sofriam de demência e seus cuidadores. Os mesmos investigadores produziram um estudo quase-experimental (2016) que atesta melhorias a nível da cognição, diminuição da sintomatologia depressiva e ansiedade no grupo experimental, comparativamente ao grupo de controlo. Estas variáveis vão de encontro às variáveis avaliadas pela meta-análise de Pinquart & Forstmeier (2011). Preschl et al. (2012) conduziram um estudo pioneiro na aplicação da terapia da reminiscência com recurso a um programa informático, apresentando alterações muito significativas no decréscimo da sintomatologia depressiva. Contudo referem não poder generalizar os resultados do seu estudo, atendendo ao tamanho da amostra, ao risco de enviesamento pela homogeneidade dos participantes, e pela ausência de tratamento aplicada ao grupo controlo.

Jonsson et al. (2016) referem que as intervenções de domínio psicoterapêutico, que incluem a terapia da reminiscência, apresentam-se como eficazes a integrarem o tratamento da depressão nas pessoas idosas, e apontam como limitações encontradas nos estudos selecionados a falta de coerência conceptual, utilizandose termos como “reminiscence” e “life review” como “quase” sinónimos; escassez de estudos relativos a diferentes tipos de reminiscência; amostras pouco significativas; e escassez de estudos longitudinais. Lopes et al. (2014) apontaram ainda como limitação o facto de os instrumentos de avaliação por vezes utilizados não serem sensíveis a patologias como a demência. Relativamente às limitações desta scoping review, os autores consideram que pode ser apontada como limitação a não utilização de descritores DeCS ou MeSH, o que conduziu possivelmente a um número reduzido de artigos, no entanto, tal deveu-se ao facto do termo “reminiscence” não estar incluído no browser MeSH mas ser utilizado na literatura como termo de referência. Também, o facto de não ter sido usada qualquer combinação de Thesaurus, os idiomas, e os tipos de estudos selecionados podem ter ainda limitado o acesso a artigos com relevante evidência científica. CONCLUSÕES Com esta scoping review foi possível identificar alguns dos efeitos que a terapia de reminiscência produz nas pessoas idosas, apresentando-se com elevado potencial terapêutico, principalmente na população idosa com demência ou síndrome depressivo. Contudo, é necessário a realização de mais estudos, metodologicamente consistentes, com amostras significativas, principalmente de tipo longitudinal, por forma a compreender melhor os efeitos desta terapia, além do seu efeito imediato. A concordância em termos de clareza concetual também é um fator a estudar, bem como, a necessidade de se investigar modelos estruturados de intervenção no âmbito da terapia de reminiscência. A evidência proveniente do único estudo primário encontrado revela a efetividade desta técnica na diminuição da sintomatologia depressiva e aumento de bem-estar, indicando que esta revisão traz implicações para a prática clínica e para a investigação. Também o facto de se terem encontrado poucos artigos em 2017 e 2018, que cumpram os critérios pré-definidos, pode justificar a necessidade de mais estudos, pelo que esta revisão pode ser um contributo importante como ponto de partida. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 113


IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA A utilização da terapia de reminiscência, enquanto intervenção psicoterapêutica com a população idosa, apresenta indícios de produzir efeitos positivos, na sintomatologia depressiva, no bem-estar, na capacidade cognitiva, no autoconceito, pelo que a sua implementação deve ser mantida, a par do seu estudo, e partilha de achados. Acresce nesta reflexão para a prática clínica a evidência do seu efeito na diminuição da sobrecarga dos cuidadores de pessoas com demência. Portanto, considera-se que esta tipologia de intervenção, que carece à partida de uma clarificação conceptual, deve ser implementada por diferentes grupos profissionais que trabalham com pessoas idosas e adultas. Há evidência de benefício, existem programas estruturados que podem ser implementados ou replicados. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Butler, R. (1963). The life review: an interpretation of reminiscence in the aged. Psychiatry. 26(1), 65-76. Doi: 10.1080/00332747.1963.11023339 Ercan-Sahin, N., & Emiroglu, O. N. (2018). Quality of life of nursing home residents before and after reminiscence therapy. Educational Gerontology, 44, 99107. Doi: 10.1080/03601277.2017.1415115 Erikson, E. (1959). Identity and the life cycle: Selected papers. Psychological Issues, 29(1),105-126. Doi: 10.1080/21674086.1960.11926165 Joanna Briggs Institute. (2015). Joanna Briggs Institute Reviewers Manual 2015. South Australia: Autor. Disponível em: https://nursing.lsuhsc.edu/JBI/docs/ ReviewersManuals/Scoping-.pdf Jonsson, U., Bertilsson, G., Allard, P., Gyllensvärd, H., Söderlund, A., Tham, A., & Andersson, G. (2016). Psychological treatment of depression in people aged 65 years and over: a systematic review of efficacy, safety, and cost-effectiveness. Plos One, 11(8), e0160859. Doi: 10.1371/journal.pone.0160859 Lopes, T., Afonso, R., e Ribeiro, O. (2014). Impacto de intervenções de reminiscência em idosos com demência: revisão de literatura. Psicologia, Saúde & Doenças, 15(3), 597-611. Doi: 10.15309/14psd150304

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Lopes, T., Afonso, R., e Ribeiro, O. (2016). A quasi-experimental study of a reminiscence program focused on autobiographical memory in institutionalized older adults with cognitive impairment. Archives of Gerontology and Geriatrics, 66, 183-192. Doi: 10.1016/j. archger.2016.05.007 Merriam, S. (1993). Butler’s life review: How universal is it? International journal of aging and human development, 37, 163-175. Doi: 10.2190/RTKY-8VUDHBEG-12L8 Pinquart, M., & Forstmeier, S. (2011). Effects of reminiscence interventions on psychosocial outcomes: a meta-analysis. Aging & Mental Health, 16(5), 541558. Doi: 10.1080/13607863.2011.651434 Preschl, B., Maercker, A., Birgit, W., Forstmeier, S., Baños, R., Alcañiz, M., Castilla, D., & Botella, C. (2012). Life-review therapy with computer supplements for depression in the elderly: a randomized controlled trial. Aging & Mental Health, 16(8), 964-974. Doi: 10.1080/13607863.2012.702726 Tricco, A. C., Lillie, E., Zarin, W., O’Brien, K. K., Colquhoun, H., Levac, D., Moher, D., Peters, M.D.J., Horsley, T., Hempel, S., Akl, E.A., Chang, C., McGowan, J., Stewart, L., Hartling, L., Aldcroft, A., Wilson, M.G., Garritty, C., Lewin, S., Godfrey, C. M., Macdonald, M.T., Langlois, E.V., Soares-Weiser, K., Moriarty, J., Clifford, T., Tunçalp, O., & Straus, S.E. (2018). PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMAScR): Checklist and Explanation. Annals of Internal Medicine,169(7), 467–473. Doi: 10.7326/ M18-0850 Webster, J., Bohlmeijer, E., & Westerhof, G. (2010). Mapping the future of reminiscence: a conceptual guide for research and practice. Research on Aging, 32, 527-564. Doi: 10.1177/0164027510364122 Westerhof, G., Bohlmeijer, E., & Webster, J. (2010). Reminiscence and mental health: a review of recent progress in theory, research and interventions. Ageing & Society, 30, 697-721. Doi: 10.1017/ S0144686X09990328 Wong, P., & Watt, L. (1991). What types of reminiscence are associated with successful aging? Psychology and Aging, 6, 272-279. Doi:10.1037/0882-7974.6.2.272


Artigo de Revisão

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0256

17 SALUD MENTAL POSITIVA: DEL CONCEPTO AL CONSTRUCTO.

EVOLUCIÓN HISTÓRICA Y REVISIÓN DE TEORÍAS | Jaione Santiago1; Elena Bernaras2; Joana Jaureguizar3 |

RESUMEN CONTEXTO: Definir la Salud Mental Positiva (SMP) y conocer la “etiología de la Salud Mental” sigue resultando difícil. Los estudios para conceptualizar y operacionalizar la promoción de la Salud Mental han aumentado exponencialmente, originándose múltiples conceptos afines como Bienestar Psicológico, Florecimiento o SMP. OBJETIVO(S): (1) Analizar la SMP como concepto para describir su evolución histórica. (2) Analizar la SMP como constructo, explorando en paralelo sus dimensiones y factores propuestos en los diversos modelos teóricos existentes. METODOLOGÍA: Revisión de la literatura mediante búsqueda en las bases de datos Web of Science, PubMed, Scielo, PsycINFO y Psicodoc, cuyos criterios de inclusión fue: estar escritos en inglés, español o portugués, disponibles en full-text y cuya temática trate de la SMP. Los términos de búsqueda fueron: Salud Mental Positiva, Promoción de la Salud Mental, Bienestar, Bienestar Psicológico, Bienestar Emocional y Flourish. RESULTADOS: Se obtuvieron un total de 128 artículos que daban respuesta a los objetivos, aunque finalmente se utilizaron 20 para la realización de este trabajo. Tras el análisis categorial de la información obtenida, se establecieron dos apartados para dar respuesta a los objetivos. CONCLUSIONES: La SMP como concepto ha encontrado su espacio en el ámbito de la Salud Pública, y de la Psicología, siendo equiparable a términos como Bienestar o Flourish. Como constructo, Hedonía y Eudamonía se constituyen como sus principales componentes. DESCRIPTORES: Salud mental; Promoción de la salud; Teoría psicológica; Revisión

RESUMO

ABSTRACT

“Saúde mental positiva: Do conceito ao construto. Evolução histórica e revisão de teorías”

“Positive mental health: From the concept to the construct. Historic evolution and theories review”

CONTEXTO: Definir a Saúde Mental Positiva (SMP) e conhecer a “etiologia da Saúde Mental” permanece difícil. Estudos para conceptualizar e operacionalizar a promoção da Saúde Mental têm aumentado exponencialmente, dando origem a múltiplos conceitos relacionados, tais como bem-estar psicológico, “flourish” ou SMP. OBJETIVO(S): (1) Analisar a SMP como um conceito para descrever sua evolução histórica. (2) Analisar a SMP como construto, explorando em paralelo dimensões e fatores propostos nos diversos modelos teóricos existentes. MÉTODOS: Revisão da literatura por meio de busca nas bases de dados Web of Science, PubMed, Scielo, PsycINFO e Psicodoc, cujos critérios de inclusão foram: ser escrito em inglês, espanhol ou português, disponível em texto integral e cujo assunto trata da SMP. Os termos da pesquisa foram: Saúde Mental Positiva, Promoção da Saúde Mental, Bem-estar, Bem-estar Psicológico, Bem-estar Emocional e Flourish. RESULTADOS: Foram obtidos um total de 128 artigos que responderam aos objetivos, embora 20 tenham sido utilizados para a realização deste trabalho. Após a análise categorial das informações obtidas, foram estabelecidas duas secções para responder aos objetivos. CONCLUSÕES: A SMP como conceito tem encontrado seu lugar no campo da Saúde Pública e Psicologia, sendo comparável a termos como Bem-estar ou Flourish. Como construto, Hedonía e Eudamonía são seus principais componentes.

BACKGROUND: Defining Positive Mental Health (PMH) and knowing the “etiology of Mental Health” remains difficult. Studies to conceptualize and operationalize the positive aspect of Mental Health have increased exponentially, giving rise to multiple related concepts such as Psychological Wellbeing, Flourishing or PMH. AIM: (1) To analyze the PMH as a concept, to describe its historical evolution. (2) To analyze the PMH as a construct, exploring in parallel its dimensions and factors proposed in the various existing theoretical models. METHODS: Literature review by means of search in the Web of Science, PubMed, Scielo, PsycINFO and Psicodoc databases, whose inclusion criteria were: to be written in English, Spanish or Portuguese, available in full-text and whose subject matter deals with the SMP. The search terms were: Positive Mental Health, Mental Health Promotion, Well-being, Psychological Well-being, Emotional Well-being and Flourish. RESULTS: A total of 128 articles were obtained that gave answer to the objectives, although 20 were finally used for the accomplishment of this work. After the categorial analysis of the information obtained, two sections were established to respond to the objectives. CONCLUSIONS: The PMH as a concept has found its place in the field of Public Health, and Psychology, being comparable to terms such as WellBeing or Flourish. As a construct, Hedonia and Eudamonia constitute themselves as its main components.

PALAVRAS-CHAVE: Saúde mental; Promoção da saúde; Teoria psicológica; Revisão

KEYWORDS: Mental health; Health promotion; Psychological theory; Review Submetido em 30-12-2018 Aceite em 12-03-2019

1 Enfermeira especalista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Professora na Universidad del País Vasco, Escuela Universitaria de Enfermería de Vitoria-Gasteiz, Calle Jose Atxotegi, Vitoria-Gasteiz, Espanha, jaione_santiago001@ehu.eus 2 Doutora em Psicologia; Professora Titular de Universidad na Universidad del País Vasco, Facultad de Educación, Filosofía y Antropología, Espanha, elena.bernaras@ehu.eus 3 Doutora em Psicologia; Profesora Agregada na Universidad del País Vasco, Facultad de Educación, Filosofía y Antropología, Leioa, Espanha, joana.jauregizar@ehu.eus Citação: Santigao, J., Bernaras, E., & Jaureguizar, J. (2020). Salud mental positiva: Del concepto al constructo. Evolución histórica y revisión de teorías. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe7), 115-121. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 115


INTRODUCCIÓN Numerosas disciplinas científicas que estudian la Salud Mental están realizando un cambio hacia un paradigma positivo. Esto podría deberse al aumento progresivo de la prevalencia de las enfermedades mentales (EM) y su gran impacto en la calidad de vida, superior al de enfermedades crónicas como la diabetes o las cardiopatías (OMS, 2017). Por otro lado, numerosos estudios han demostrado que niveles elevados de bienestar están relacionados con resultados positivos como el aumento de productividad, conducta pro-social o aumento de la salud y esperanza de vida, entre otros (Huppert y So, 2013). Parece necesario, pues, explorar nuevas áreas de actuación más acordes con las líneas estratégicas de salud planteadas por la Organización Mundial de la Salud (OMS, 2013) que suponen una alternativa sólida para incrementar la Salud Mental de las personas y disminuir, en consecuencia, la aparición de algunas EM o las secuelas de las mismas. Antecedentes y Estado de la Cuestión El inicio de esta nueva perspectiva, promovida por la transición epidemiológica-sanitaria, tuvo lugar tras la Segunda Guerra Mundial. Gracias a los avances científico-médicos, se produjo una doble transformación; por un lado, los perfiles de las enfermedades del momento pasaron de ser agudas, infecciosas y letales en su mayoría, a crónicas, originando, en consecuencia, el aumento de la esperanza de vida. Así, se pasó de un Modelo Patogenicista, basado en la concepción de la salud únicamente como la ausencia de enfermedad (Keyes, 2007), a un Modelo Salutogénico propuesto por Antonovsky (1996) y caracterizado por tener como objetivos la atención centrada en la persona y el desarrollo de sus activos de salud (Botello et al., 2013). Por tanto, se le otorgan mayor relevancia a aquellas capacidades humanas que permiten a las personas incrementar el control sobre su salud y se ponen en entredicho los conceptos de salud y enfermedad que hasta el momento prevalecían. A partir de la segunda mitad del siglo XX, Marie Jahoda utilizó por primera vez el concepto de Salud Mental Positiva (SMP) e identificó 6 componentes clave de la misma (Jahoda, 1958). Posteriormente, referentes como Diener (1984) y su Teoría del Bienestar Subjetivo, Ryff (1989) y su Teoría del Bienestar Psicológico o Seligman (2002), considerado el padre de la Psicología Positiva, se han dedicado a su estudio. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 116

La Enfermería, quien lleva implícita en su ADN profesional la tarea de cuidar y ayudar al individuo a alcanzar el mayor grado de desarrollo personal (Orem y Vardiman, 1994), también ha manifestado interés por el paradigma positivo. Su posicionamiento estratégico en el sistema sanitario la convierte en un agente de salud privilegiado a la hora de interactuar con la comunidad. Así, aboga por la promoción de la salud física o mental no sólo durante la administración de cuidados, sino también a través de actividades dirigidas a reforzar, potenciar y mantener el máximo nivel de salud posible (Wand, 2013). Objetivos Analizar la “Salud Mental Positiva” como concepto, describiendo la evolución histórica del mismo. En segundo lugar, analizar la “Salud Mental Positiva” como constructo, explorando en paralelo las distintas dimensiones propuestas en los principales modelos teóricos. METODOLOGÍA Se ha llevado a cabo una Revisión de la Literatura en las siguientes bases de datos: Web of Science, Google Scholar, Medline, y PsycINFO. Los términos de búsqueda utilizados fueron: Salud Mental Positiva, Promoción de la Salud Mental, Bienestar, Bienestar Psicológico, Bienestar Emocional y Flourish y los criterios de inclusión: tener como tema de investigación la SMP, estar disponible en full-text, y estar escrito en español, inglés o portugués. Asimismo, se estableció un periodo amplio de búsqueda (desde 1950 hasta la actualidad). RESULTADOS Se obtuvieron un total de 128 artículos que cumplían los criterios de inclusión. Para la realización de este trabajo, se seleccionaron 20 artículos priorizando la fecha y tipo de publicación, con el fin de obtener datos actualizados y de la mayor evidencia científica posible. Tras el análisis categorial de la información obtenida, se establecieron dos apartados para dar respuesta a los dos objetivos del estudio. En el primer apartado se explica el desarrollo del concepto a lo largo de las últimas siete décadas, mientras que en el segundo, se ha realizado un estudio comparativo de las principales teorías buscando paralelismos entre las dimensiones que cada una de ellas adjudican a la SMP como constructo.


Aproximación Conceptual a la Salud Mental Positiva: Evolución Histórica La conceptualización del término SMP sigue resultando una empresa de difícil concreción. En primer lugar, porque es necesario superar la tendencia patogenicista propia del colectivo sanitario. Como afirman Kobau et al. (2011), este enfoque centrado en las EM –sus causas, síntomas y consecuencias- tiene como resultado la aparición y prolongación en el tiempo de actitudes estigmatizantes entre los y las profesionales de la salud. Asimismo, Lluch-Canut (2008) establece que, si bien la terminología utilizada en nuestro sistema sanitario es positiva, el resto de aspectos vinculados a la salud mental son negativos o inmersos en la enfermedad y el trastorno mental, lo que nos lleva a un uso eufemístico del término. Por otra parte, encontrar información en Medline ha resultado complejo debido a la ausencia de descriptores en su tesauro. Efectivamente, ningún término relacionado con la SMP, ni tan siquiera el de “bienestar”, lo tiene. Esto dificulta la realización de revisiones sistemáticas y refleja que aún prevalece el modelo biomédico-patogenicista. Por último, el análisis del material obtenido revela numerosos conceptos de significado similar al de la SMP. Así, encontramos términos que se refieren sólo a algún componente de la SMP, como “optimismo”, “afectos positivos” o “satisfacción con la vida”, mientras que otros, fundamentados en modelos teóricos que los avalan, representan una visión global del concepto. Entre estos últimos encontramos “Salud Mental Positiva”, propuesto por Jahoda (1958) y recuperado por Lluch-Canut (2002), “Bienestar”, cuyas diversas categorías -bienestar emocional, subjetivo, o psicológicohan sido ampliamente estudiadas por varios autores (Diener, 1984; Ryff, 1989), “Complete Mental Health” sugerido por Keyes (2007) y “Flourish”, en español florecimiento, término rescatado por Seligman (2002) y Diener et al. (2010) para la construcción de sus teorías. De hecho, estos autores y otros referentes en el campo de la Psicología Positiva utilizan indistintamente los términos “Bienestar Global”, “Salud Mental Positiva” y “Flourish”, considerándolos equivalentes (Diener et al., 2010; Huppert y So, 2013; Keyes y Simoes, 2012; Kobau et al., 2011; OMS, 2013; Seligman, 2012). Evolución del Concepto “Bienestar”. Inicialmente, el análisis del bienestar se centró principalmente en el estudio de la presencia o ausencia de emociones positivas.

Autores como Bradburn (1969) o Diener (1984) realizaron numerosas investigaciones en torno a las emociones positivas y la satisfacción con la vida. Es lo que se conoce con el nombre de bienestar subjetivo, y constituirá uno de los principales elementos del componente hedónico del constructo. En 1989, Ryff desarrolló nuevas perspectivas del bienestar relacionadas con el funcionamiento óptimo de las personas, dando lugar a la descripción del componente eudamónico del bienestar (Keyes y Simoes, 2012). Sin embargo, éste resultó ser aún insuficiente para otros autores, que destacan la importancia de incluir aspectos sociales que intervienen en el estado de SMP de la persona. Así, Keyes (2007) establece que este segundo componente eudamónico deberá incluir aspectos como el nivel de contribución o integración social, entre otros. En esta misma línea, destacan cuatro autores que describen en sus modelos teóricos la SMP como un constructo multidimensional: en primer lugar, LluchCanut quien, recuperando el término acuñado por Jahoda en 1958, desarrolla el “Modelo Multifactorial de Salud Mental Positiva” (Lluch-Canut, 2002); Keyes, quien describe en su “Modelo del Estado Completo de Salud” el bienestar como la suma del bienestar emocional, el bienestar psicológico y el bienestar social (Keyes, 2007). Entre 2005 y 2009 Diener amplía sus investigaciones en torno al bienestar subjetivo, incluyendo también componentes de funcionalidad y de contribución con la sociedad (Diener et al., 2010). Por último, Seligman (2012) propone el modelo PERMA constituido por los 5 pilares en los que se sustenta el Florecimiento (“Positive emotions”, “Engagement”, “Positive Relationships”, “Meaning” y “Accomplishments”). En definitiva, la SMP podría definirse como “El concepto que denomina ese algo más que ausencia de enfermedad” (Lluch-Canut, 2008, p. 38); es decir, una entidad que difiere de y significa más que la simple ausencia de enfermedad, es equiparable al bienestar e incluye emociones positivas y negativas, activos y habilidades psicológicos que facilitan la adaptación y habilidades sociales que favorecen el funcionamiento positivo en relación con los otros y con la sociedad. Salud Mental Positiva como Constructo: Revisión de Teorías Para la consecución de este segundo objetivo se reunieron los conceptos relacionados con los aspectos positivos de la salud mental, encontrándose los siguientes: Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 117


felicidad, optimismo, bienestar, bienestar psicológico, bienestar emocional, bienestar social, florecimiento -flourish- y SMP. A continuación, se exploraron los modelos teóricos que sustentan dichos conceptos, con el fin de enumerar las dimensiones que las constituyen (Tabla 1).

Keyes (2007)

Teoría del Floreciestado miento completo de salud. Modelo de los dos continuum

1.Afectos positivos 2. Calidad de vida percibida 3. Auto-aceptación 4. Propósito en la vida 5. Autonomía 6. Relaciones interpersonales positivas 7. Dominio del entorno 8. Crecimiento personal 9. Integración social 10. Aceptación social 11. Contribución social 12. Actualización social 13. Coherencia social

Diener et al. (2010)

Florecimiento

Desarrolla un concepto de bienestar que engloba los 3 componentes ( emocional, psicológico y social) que llama Florecimiento y un instrumento de medida

Seligman (2012)

Teoría del PERMA Bienestar

Tabla 1 - Conceptos y Dimensiones de los Principales Modelos Teóricos de la Psicología Positiva Autor y año

Teoría

Concepto

Dimensiones

Jahoda (1958)

Modelo de Salud Mental Positiva

Salud Mental Positiva

1. Actitudes hacia uno mismo 2. Crecimiento y autoactualización 3. Integración 4. Autonomía 5. Percepción de la realidad y sensibilidad social 6. Dominio del entorno

Bradburn (1969)

Felicidad Afectos positivos y negativos

Escala de balance afectivo

Diener (1984)

Bienestar Subjetivo

1. Balance afectivo: Presencia de afectos positivos y ausencia de afectos negativos 2. Satisfacción con la vida

Ryff (1989)

Teoría del Bienestar Bienestar Psicológico

1. Auto-aceptación 2. Propósito en la vida 3. Autonomía 4. Relaciones interpersonales positivas 5. Dominio del entorno 6. Crecimiento personal

Keyes (1998)

Teoría del Bienestar Bienestar Social Social

1. Integración social 2. Aceptación social 3. Contribución social 4. Actualización social 5. Coherencia social

LluchCanut (2002)

Modelo Multifactorial de Salud Mental Positiva

Salud mental positiva

1. Satisfacción personal 2. Actitud prosocial 3. Autocontrol 4. Autonomía 5. Resolución de problemas y autoactualización 6. Habilidades de relación interpersonal

Seligman (2002)

Teoría de la Felicidad

Teoría de la Auténtica Felicidad

1. Emociones positivas 2. Compromiso 3. Significado de la vida

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1. Emociones Positivas 2. Compromiso 3. Relaciones interpersonales positivas 4. Significado de la vida 5. Establecimiento de metas

Por último, se compararon los modelos teóricos y las dimensiones de los constructos con el fin de establecer relaciones categóricas. También se enumeraron los instrumentos desarrollados por dichos autores para la medición de los constructos estudiados. Atendiendo a los componentes del Bienestar descritos a nivel conceptual (Hedonia y Eudamonia), se clasificaron los modelos teóricos analizados en dos grupos. En el primero (Tabla 2), encontramos aquellos autores que se refieren al concepto de bienestar únicamente de manera parcial.


Tabla 2 - Grupo 1-Modelos Parciales de Bienestar Jahoda (1958) Modelo de SMP

Ryff (1989) Teoría del Bienestar Psicológico

Keyes (1998) Seligman Teoría del Bien- (2002) Teoría estar Social de la Auténtica Felicidad

1. Felicidad 2. Afectos Positivos

1. Balance afectivo: Presencia de afectos positivos y ausencia de afec3. Afectos Nega- tos negativos tivos 2.Satisfacción con la vida

Comp. afectivo Componente Psicológico

Bradburn (1969) Diener (1984) Bienestar PsiTeoría del Biencológico estar Psicológico

1. Actitudes hacia uno mismo 2. Crecimiento y autoactualización 3. Integración 4.Autonomía 5. Percepción de la realidad, empatía y sensibilidad social 6. Dominio del entorno

1. Emociones Positivas 2. Significado de la vida

1.Auto-aceptación 2.Propósito en la vida 3.Autonomía 4.Crecimiento personal 5.Relaciones interpersonales positivas 6.Dominio del entorno

3.Compromiso

1. Integración 2. Aceptación 3. Contribución 4. Actualización 5. Coherencia

Comp Social

EUDAMONIA

DIMENSIONES

HEDONIA

MODELOS TEÓRICOS

ESCALAS

Escala de Balance Afectivo (ABS)

Escala de Satisfac- Escala de Bienestar ción con la vida Psicológico (PWBS) (SWLS)

Escala del Bienestar Social (SWBS)

En el segundo grupo se incluyeron los modelos teóricos que analizan el concepto de manera global, es decir, que comprenden elementos afectivos, psicológicos y sociales como dimensiones del constructo (Tabla 3). Tabla 3 - Grupo2-Modelos Globales de Bienestar

ESCALAS

Comp. afectivo Componente Psicológico Comp Social

EUDAMONIA

DIMENSIONES

HEDONIA

MODELOS TEÓRICOS

Lluch-Canut (2002) Keyes (2007) Modelo Multifactorial Teoría del Estado Completo de Salud de SMP

Diener (2010) Florecimiento

Seligman (2012) Teoría del Bienestar

1. Satisfacción Personal

1. Afectos positivos 2. Calidad de vida percibida

1. Significado de la vida

1. Emociones Positivas 2. Satisfacción con la vida

2. Autocontrol 3. Autonomía 4. Resolución de problemas y autoactualización 5. Habilidades de relación interpersonal

3. Auto-aceptación 4. Propósito en la vida 5. Autonomía 6. Relaciones interpersonales positivas 7. Dominio del entorno 8. Crecimiento personal

2.Compromiso 3. Capacidad de resolución de problemas 4. Relaciones Interpersonales positivas

3. Compromiso y puesta en marcha de fortalezas 4. Logros y establecimiento de metas

6. Actitud Prosocial

9. Integración social 10. Aceptación social 11.Contribución social 12.Actualización social 13. Coherencia social

5. Contribuir a la Felicidad de la comunidad 6. Ser respetado por la comunidad

5.Relaciones interpersonales positivas

Cuestionario de Salud Mental Positiva (CSMP)

Escala de Salud Mental Positiva (PMH-SF)

Escala de Florecimiento (FS)

PERMA Profile

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Teniendo en cuenta lo anteriormente descrito, se puede afirmar que la Salud Mental Positiva es un constructo constituido eminentemente por 2 componentes, el hedónico y el eudamónico. El componente hedónico está formado principalmente por la satisfacción con la vida, emociones positivas y negativas y el balance entre ambas. Por otro lado, el componente eudamónico engloba tanto aspectos psicológicos relacionados con la autonomía y resolución de problemas de la vida diaria, como aspectos sociales, que indican el grado de aceptación social y contribución a la sociedad que percibe cada persona, entre otros. DISCUSIÓN De acuerdo a los estudios revisados, se observa una tendencia, iniciada por Lluch-Canut (2002) y consolidada en la segunda década del siglo XXI, a cuestionar los modelos de bienestar existentes hasta el momento y a desarrollar sus propios modelos basados en un concepto globalizador, así como los respectivos instrumentos de medida (Diener et al., 2010; Keyes, 2007; Lluch-Canut, 2002; Seligman, 2012). En lo referente a la construcción del concepto, todos los autores apoyan la hipótesis de los 2 componentes, Hedonia y Eudamonia, a excepción de Lluch-Canut que no tiene en cuenta dicha distribución al describir su constructo. Si bien es cierto que no existe consenso en los elementos internos que constituirían cada uno de los componentes, el análisis en profundidad de los modelos teóricos ha revelado semejanzas entre los mismos. Por otro lado, autores como Diener et al. (2010), Huppert y So (2013) o Kobau et al. (2011) proponen la SMP como una alternativa interesante para medir el grado de desarrollo de una nación; Seligman (2008) va más allá al sugerir que podría incluso sustituir al indicador actual, es decir, al Producto Interior Bruto (PIB). Este hecho abre nuevas líneas de investigación que confluyen con las actuales estrategias de los sistemas sanitarios, en los que el nuevo foco de atención se centraría en atender a un número extraordinariamente mayor de clientes potenciales, es decir, la persona sana. Asimismo, es necesario implantar y evaluar programas de intervención para elevar la SMP de la población general y conocer su repercusión frente al desarrollo de enfermedades.

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CONCLUSIONES La SMP como concepto es un término que, aunque no es reciente, no ha sido tomado en cuenta por la Psicología Positiva hasta hace relativamente pocos años. En esta revisión queda de manifiesto que la propuesta de Lluch-Canut permanece vigente. Se han identificado numerosos términos que, aunque referidos a ideas similares, no son necesariamente idénticos. Entre otros, se subrayan nociones como las emociones positivas, el optimismo que, aunque pertenecen al paradigma positivo, sólo describen parcialmente la idea de SMP, pudiendo ser consideradas algunas de ellas como componentes de la misma. Por otro lado, la Salud Mental Positiva como constructo posee un componente hedónico, relacionado con el bienestar emocional, y un componente eudamónico, relacionado con el funcionamiento psicológico de cada persona y su grado de aceptación y contribución social, principalmente. Sólo 2 de los constructos analizados cumplen estas características descritas, que son SMP, recuperado por Lluch-Canut (2002) y Keyes (2007), y el concepto de Florecimiento, planteado por Diener et al. (2010) y Seligman (2012). Todos ellos alternan indistintamente el constructo que estudian con el de Bienestar, aunque sólo Seligman ha utilizado este término en concreto para describir su teoría. IMPLICACIONES PARA LA PRÁCTICA CLÍNICA El cambio de paradigma genera nuevas inquietudes en torno a la “etiología de la SMP” de las personas. Por otra parte, enlazando con la idea del ser humano como ser bio-psico-social, comienzan a adquirir mayor importancia los factores circunstanciales y contextuales que juegan un papel en el establecimiento de la SMP. Así, se entiende que la SMP de un individuo no depende exclusivamente de los recursos genéticos, biológicos o psicológicos con los que llega a este mundo, sino que los aspectos sociales constituyen una carga de gran peso en el mismo. Incluso la propia Psicología Positiva supera su propio paradigma individualista para fijarse ahora en un objetivo más amplio, la Salud Mental Positiva y su concepción comunitaria. Al incidir en el estudio de los aspectos positivos de la Salud Mental, se reconoce la SMP como un campo histórico, socialmente determinado y ne¬cesario para la promoción de la salud y direccionamiento de las políticas públi¬cas en salud mental.


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18 NORMAS

DE PUBLICAÇÃO DA ENFERMAGEM DE SAÚDE MENTAL

REVISTA

PORTUGUESA

DE

A Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental é publicada duas vezes por ano, em junho e dezembro, tratando-se de uma revista indexada em bases de dados nacionais e internacionais. A Revista apresenta, atualmente, as seguintes secções: Artigos de Investigação; Artigos de Revisão (Narrativa, Sistemática e Integrativa) da Literatura; Artigos de Boas Práticas/Reflexão. 1 – Procedimentos de Submissão do Artigo: 1.1 – Submissão eletrónica: os artigos devem ser sempre submetidos eletronicamente no sítio da Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental: http://www.aspesm.org/. 1.2 – Para a submissão dos artigos, deverão sempre ser enviados os seguintes documentos: a) Artigo integral, obedecendo às normas da revista; b) Checklist de autoverificação, preenchida na totalidade c) Declaração de Cedência de Direitos de Autor e de Observação dos Princípios Éticos da Investigação, provando que os autores concordam que o artigo, uma vez aceite, fique da propriedade d’ ASPESM, não podendo, por isso, ser publicado noutra fonte, e que foram cumpridos todos os princípios éticos inerentes a um trabalho de investigação. Nota: a Direção da Revista reserva-se o direito de retirar um artigo do processo de revisão ou das bases de dados (no caso dos artigos publicados), sempre que se verifique que os autores publicaram uma versão idêntica noutra Revista. 2 – Processo de Revisão: Os artigos propostos são apreciados num processo Double Blinded (duplamente cego). Neste processo, o artigo é enviado por dois Peer Reviewers (Pares Revisores), os quais o examinam e arbitram sobre a sua qualidade, dando as recomendações que julgarem convenientes. Sempre que não se verifique acordo entre os dois revisores, o Diretor da Revista reserva-se o direito de indicar um terceiro revisor. A Direção da Revista enviará ao autor informação sobre a eventual aceitação definitiva, aceitação com alterações, ou não aceitação. No caso da aceitação com alterações, os autores receberão os pareceres e recomendações sugeridas pelos Peer Reviewers. O autor deve efetuar as alterações e reenviar o documento, via eletrónica, no tempo regulamentado. Nota: caso não se verifique o cumprimento rigoroso do tempo estipulado para correção do artigo, este pode ser excluído do processo de revisão. Cada artigo será, posteriormente, verificado pelo Diretor e Coordenador da Revista, que analisam a primeira versão do artigo e a versão corrigida, em função das recomendações dos Peer Reviewers. O processo de revisão será efetuado online. As fases do processo de revisão e recomendações encontram-se descritos no quadro abaixo: Fase Receção do Artigo Revisão Reformulação do Autor Verificação Redatorial Publicação

Procedimento Após o envio do artigo, este será submetido a um processo de revisão técnica (revisão dos aspetos formais e de normalização, de acordo com as normas de publicação da Revista). O artigo é enviado para 2 Peer Reviewers, que o examinam e arbitram sobre a sua qualidade, dando as recomendações convenientes. A Direção da Revista enviará ao autor informação sobre a aceitação definitiva, aceitação com alterações, ou não aceitação, bem como os pareceres e recomendações dos Peer Reviewers. As alterações a efetuar pelo autor deverão ir, rigorosamente, de acordo com as recomendações dos Peer Reviewers. Cada artigo deverá ser verificado pelo Diretor e pelo Coordenador da Revista, que analisam a primeira versão do artigo e a versão corrigida, em função das recomendações dos Peer Reviewers. A oportunidade de publicação é da inteira responsabilidade da Direção da Revista.

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3 – A decisão final acerca da oportunidade de publicação dos artigos é da responsabilidade do Diretor da Revista. 4 – O artigo: 4.1 – Tipo de artigo: devem ser artigos científicos originais e versarem temas de saúde mental, Enfermagem de saúde mental ou educação em saúde mental. O conteúdo dos artigos é da exclusiva responsabilidade dos seus autores, aos quais compete respeitar os princípios éticos da investigação e cumprir as normas da edição da Revista. A Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental poderá incluir artigos em língua portuguesa, espanhola, inglesa ou francesa, consoante a origem dos artigos. 4.2 – Estrutura do artigo 4.2.1 - Título: o artigo deverá incluir um título informativo (que vá de encontro ao âmbito do trabalho) e sucinto (em português, espanhol e inglês); máximo de 16 palavras, sem abreviaturas e sem a indicação da localização geográfica da investigação. 4.2.2 - Autores: os autores devem estar devidamente identificados, com o nome, habilitações académicas, categoria profissional, instituição onde exercem funções, contactos (morada, e-mail e telefone institucionais) e informação no caso de o artigo ser extraído de Dissertação ou Tese (indicando o título, ano e instituição onde foi apresentada). O nome e afiliação dos autores deve surgir imediatamente após o título em português. As afiliações devem estar por extenso (ex.: Local de Trabalho – Escola Superior de Enfermagem do Porto). Os endereços de correio eletrónico dos autores dos artigos devem estar com hiperligação (com link disponível). 4.2.3 - Resumo: o resumo do trabalho deve ser apresentado em português, espanhol e inglês, e não deve exceder as 250 palavras, devendo incluir a descrição do contexto, objetivo(s), metodologia, resultados e conclusões. 4.2.4 - Palavras-Chave: o artigo deve apresentar, no máximo, 4 palavras-chave, transcritas de acordo com os descritores MeSH (em português, ver DeCS), em português, espanhol e inglês. 4.2.5 - Corpo do artigo: O artigo (tratando-se de um trabalho de investigação) deve ser estruturado em secções, devendo incluir os seguintes capítulos: Introdução, Metodologia, Resultados, Discussão, Conclusão, e Implicações para a Prática Clínica). Os artigos de revisão e de boas práticas/reflexão não têm que obedecer, necessariamente, a esta divisão. 4.3 - Formato: • O texto deve ser apresentado em formato Word, letra Arial, tamanho 11, espaçamento 1,5, páginas em formato A4, em coluna única, evitando negritos e sublinhados, variação do tipo de letra, fundos de cor, etc.; • Todas as margens devem ter 2,5 cm.; • Não devem ser incluídas notas de rodapé. • O artigo não deve ultrapassar as 15 páginas incluindo resumo (em português, espanhol e inglês), referências, tabelas, quadro e figuras. • O artigo não deverá ser paginado. • Os parágrafos não devem ser indentados. • O artigo deve ser redigido de acordo com o Novo Acordo Ortográfico (caso não o seja, a Comissão Editorial reserva-se o direito de realizar a conversão). Nota: caso o(s) autor(es) se recuse(m) a redigir o artigo segundo o Novo Acordo Ortográfico devem, aquando do seu envio, manifestar essa posição de forma clara e inequívoca. • Na primeira utilização de uma sigla esta deve estar, primeiramente, por extenso, por exemplo: Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). • Quando se realizarem citações de três a cinco autores, todos os nomes devem ser mencionados na primeira vez que a citação é feita (ex.: Bradley, Ramirez, & Soo, 1999). Nas vezes seguintes, deve utilizar-se apenas o nome do primeiro autor seguido de “et al.” (ex.: Bradley et al., 1999). Caso a citação seja de seis ou mais autores, logo na primeira vez em que a citação é feita deve utilizar-se apenas o nome do primeiro autor seguido de “et al.”. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 124


• No corpo do artigo, ao citar autores coletivos, na primeira vez que a citação é feita, deve ser mencionado o nome por extenso (ex.: National Institute of Mental Health [NIMH], 2003). Nas vezes seguintes, pode ser utilizada a abreviatura (ex.: NIMH, 2003). • Os títulos dos capítulos devem seguir a seguinte estrutura: Nível do Título Formato 1 Centrado, Negrito, com Maiúsculas e Minúsculas 2 Alinhado à Esquerda, Negrito, com Maiúsculas e Minúsculas 3 Indentado, negrito, em minúsculas terminando com ponto final. 4 Indentado, negrito, itálico, em minúsculas terminando com ponto final. 5 Indentado, itálico, em minúsculas terminando com ponto final. 4.3.1 - Tabelas, quadros, gráficos e figuras: devem ser incluídos apenas os que sejam absolutamente essenciais para a compreensão do artigo e numerados por ordem de inclusão no texto, em função de cada tipo. As tabelas e quadros devem apresentar o título em cabeçalho e os gráficos e figuras devem apresentar o título por baixo. Para tabelas e quadros o tamanho da letra pode ser reduzido até um mínimo de 9 e sem espaçamentos. As tabelas, quadros, gráficos e figuras devem surgir imediatamente após o parágrafo em que é feita referência às mesmas. 4.3.2 - Citações: todos os autores citados no artigo devem constar da lista de referências bibliográficas. Exemplo: Sequeira (2006), (Sequeira, 2006), ou “Em 2006, Sequeira (...)”. Deve indicar-se o número de página, no caso de citação textual, tal como nos exemplos: Sequeira (2006, p. 32) ou (Sequeira, 2006, p. 32). Quando citar dois ou mais autores numa mesma paráfrase, deve ordená-los por ordem alfabética, tal como no exemplo: (Miller, 1999; Shafranske & Mahoney, 1998). Nota: utilizar o símbolo “&” apenas nas paráfrases em que os autores citados sejam de países em que o português não é uma língua oficial (ex.: EUA, Reino Unido, etc.). 4.3.3 - Referências Bibliográficas: • As referências selecionadas devem permitir evidenciar as publicações mais representativas do “estado da arte” da problemática em estudo (últimos 5 anos, extensíveis a 10 anos para problemáticas que tenham sido pouco estudadas), resultando da pesquisa de bases de dados de revistas indexadas nacionais e internacionais. • As referências bibliográficas devem estar elaboradas de acordo com as normas da 6ª Edição da American Psychological Association (APA). Todas elas deverão estar citadas no artigo. • Nas referências bibliográficas, independentemente do número de autores, estes devem ser todos referidos, não sendo permitido o uso de “et al.”. • O título das revistas nunca deve ser abreviado nas referências bibliográficas. Por exemplo, não se deve escrever “RPESM”, mas sim “Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental”. • Sempre que se inclua um site nas referências bibliográficas, a sua hiperligação deve estar presente e funcionante. Nota: as fontes devem ser alvo de seleção criteriosa, em função da sua pertinência, e não devem ultrapassar um total de 20 referências, organizadas por apelido do autor e ordenadas por ordem alfabética. APA 6ª Edição (Exemplos – consultar http://www.apastyle.org/) 4.3.3.1 Modelo de referências (indicar o nome de todos os autores – não usar “et al.”): Livros Shotton, M. A. (1989). Computer addiction? A study of computer dependency. London, England: Taylor & Francis. Trabalho académico (Dissertação/Tese) Healey, D. (2005). Attention deficit/hyperactivity disorder and creativity: An investigation into their relationship. Tese de Doutoramento, University of Canterbury, Christchurch, New Zealand. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 125


Trabalho académico (Dissertação/Tese) Healey, D. (2005). Attention deficit/hyperactivity disorder and creativity: An investigation into their relationship. Tese de Doutoramento, University of Canterbury, Christchurch, New Zealand. Editor literário Barkley, R. A. (Ed.) (2008). Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: Manual para diagnóstico e tratamento (3ª ed.). Porto Alegre: Artmed. Capítulos de livros Haybron, D. M. (2008). Philosofy and the science of subjective well-being. In M. Eid & R. J. Larsen (Eds.), The Science of subjective well-being (pp. 17-43). New York, NY: Guilford Press. Autor coletivo American Psychological Association. (2010). Publication manual of the American Psychological Association (6ª ed.). Washington, DC: Author. Artigos de publicações periódicas Com DOI Herbst-Damm, K. L. & Kulik, J. A. (2005). Volunteer support, marital status, and the survival times of terminally ill patients. Health Psychology, 24, 225-229. doi: 10.1037/0278-6133.24.2.225 Sem DOI Light, M. A. & Light, I. H. (2008). The geographic expansion of Mexican immigration in the United States and its implications for local law enforcement. Law Enforcement Executive Forum Journal, 8(1), 73-82. Documentos eletrónicos Livros Schiraldi, G. R. (2001). The post-traumatic stress disorder sourcebook: A guide to healing, recovery, and growth [Adobe Digital Editions version]. doi: 10.1036/10071393722 Artigos de publicações periódicas Wheeler, D. P. & Bragin, M. (2007). Bringing it all back home: Social work and the challenge of returning veterans. Health and Social Work, 32(1), 297-300. Acedido em http://www.naswpressonline.org Outros (póster, comunicação livre, etc.) Leclerc, C. M. & Hess, T. M. (2005, agosto). Age diferences in processing of affectively primed information. Póster apresentado na 113ª Annual Convention of the American Psychological Association, Washington, DC. Nota: no caso de os autores serem de países de língua oficial portuguesa, nas referências bibliográficas o “&” deve ser substituído por “e”. 5 – Formato Padrão do Artigo a submeter: Primeira Página • Título (em português, espanhol e inglês) • Nome dos autores (separados por ponto e vírgula); • Afiliações dos autores (uma afiliação por linha); • Indicação caso o artigo seja extraído de Dissertação/Tese. Nota: esta página, posteriormente, é retirada pelo Coordenador da Comissão Editorial, sendo atribuído um número codificado que identifica o artigo junto dos revisores Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 7 (DEZ.,2019) | 126


Segunda Página • Titulo (em português); • Resumo (em português); • Palavras-Chave (em português); • Título (em espanhol); • Resumen; • Descriptores; • Titulo (em inglês); • Abstract; • Keywords. Páginas Seguintes: • Introdução; • Metodologia; • Resultados; • Discussão; • Conclusões; • Referências bibliográficas; • Apêndices (se existentes), agradecimentos (se existentes), conflitos de interesses (se existentes), fontes de financiamento (se existentes), e contribuições dos autores (se aplicável).

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