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Paris Photo 2007/ Portfolio

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Fotografia e “Champagne”

De la série Lieux, Léa Crespi, Paris, 2004 ������

Visitar o Salão Paris Photo é participar numa experiência inebriante onde fotografia e glamour se combinam para criar um mundo pleno de códigos complexos, indecifráveis aos olhos do cidadão comum. Um universo onde a qualidade é um requisito, a discrição um imperativo e o dinheiro o motor que faz transitar de mão em mão obras artísticas de fotógrafos de todo o mundo.

Texto de Susana Paiva Fotografias gentilmente cedidas por Paris Photo 2007


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«Cockfosters», Rut Blees Luxemburg, 2007 �������

«Venus #3», Ruud van Empel, 2007 �������

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tindo ferozmente entre si, impedem o olhar pausado e atento que cada fotografia merece. Claramente concebido como um evento comercial cujo público-alvo são os coleccionadores de fotografia institucionais e privados, o Paris Photo organiza-se segundo os códigos gerais do mercado da Arte que cada participante depois se encarrega de personalizar mediante as suas práticas profissionais e convicções pessoais. Nem sempre é fácil descortinar a lógica subjacente a cada um dos expositores dado que grande maioria das galerias apresenta uma selecção desconexa das obras que representa, quiça aquelas que julga mais vendáveis. Poucos são os expositores que, como a Galeria Yvon Lambert, optam por exibir apenas um ou dois autores. Talvez por isso, não nos abstraindo da qualidade das imagens que apresenta, a galeria se destaque no meio de toda a cacofonia visual. Aí as séries “The Other Side” (1971-1974), da autoria de Nan Goldin, e “Intimate” (1979 -1986), de Andy Warhol ganham uma visibilidade extraordinária e brilham no seio de uma das mais concorridas alas do Salão. Para a premente sensação de caos geral muito contribui a multiplicidade e diversidade de dimensões das fotografias expostas, percorrendo quase todas as escalas imagináveis, do imensamente pequeno ao

«Garden», Anni Leppälä, 2007 �������

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ão múltiplas as razões que levam, ano após ano, milhares de pessoas de todo o mundo a deslocar-se ao Carrousel do Louvre, espaço onde desde há 11 anos se realiza uma das mais conceituadas feiras internacionais de fotografia. Para as 83 galerias este ano aí representadas, oriundas de 17 países, o objectivo é inequívoco e bastante claro: vender o maior número de obras dos artistas que representam ao melhor preço possível. Já para o público que gravita em torno dos diferentes espaços expositivos a motivação nem sempre é a mesma. Muitos visitantes consideram que em anos ímpares, quando o “Mois de la Photo” – a grande bienal Parisiense de fotografia – não se realiza, o Salão Paris Photo constitui um espaço alternativo para se ver boa fotografia. No entanto, não obstante o razoável preço do bilhete de acesso – 15 euros para o público geral e metade desse valor para estudantes e grupos de visitantes –, o Paris Photo está longe de ser um local privilegiado para a fruição da fotografia dado que frequentemente em pequenas áreas expositivas, envoltas em Concebido como um evento tapetes sonoros de comercial cujo público-alvo são os risos e conversas coleccionadores de fotografia, o eufóricas, se exiParis Photo organiza-se segundo bem dezenas de os códigos do mercado da Arte. obras que, compe-


«Village de montagne», Loan Nguyen, 2004 �������

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«Pemex IV», Oswaldo Ruiz, 2006 �������

Talvez seja a sua franqueza, por muitos proclamada “honestidade”, que faça com que o seu espaço esteja sempre cheio de visitantes. Aos amigos mais próximos oferece um copo de champanhe – do genuíno “Champagne” que abunda em quase todos os espaços expositivos neste dia zero de exposição à porta fechada, acessível apenas por convite e regulado segundo áreas profissionais. Entre as 4 e as 7 da tarde desfilam no Salão todos quantos o visitam por razões exclusivamente comerciais, excepção feita aos jornalistas que são livres de circular desta a primeira abertura de portas. Depois entre as 7 e as 10 da noite a entrada é facultada aos restantes convidados – artistas, amigos e outros sortudos que terão acesso privilegiado às obras em exposição. Ao público geral restará esperar pela manhã do dia seguinte, quando terá lugar a abertura oficial dos 4 dias do certame, para ter acesso à compra de tudo aquilo que não tenha sido adquirido ou reservado pelos milhares de profissionais que por lá circularam na véspera. É logo na primeira hora do dia zero que Agathe Gaillard vende a primeira obra no certame deste ano. Trata-se de “Seville 1933”, uma fotografia de Henri Cartier-Bresson, impressa nos anos 60 e autenticada com carimbo pelo seu autor. São os primeiros onze mil euros que Agathe contabiliza, por enquanto um magro contributo para amortizar o enorme investimento que significa participar no certame. No seu

«JP-22 08», Taiji Matsue, 2005 �������

«Salme», Susanna Majuri, 2007 �������

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extraordinariamente grande, bem como os diferentes estilos e suportes que tão bem reflectem o largo espectro que a feira promove – da fotografia do século XIX à fotografia contemporânea, passando pela fotografia moderna. Descortinar no seio da Paris Photo a lógica do mercado da fotografia é tarefa ingrata. A maioria das galerias opta por não afixar o preço das obras à venda obrigando os interessados a dialogar e negociar face a face com o galerista. Para galeristas como Agathe Gaillard, proprietária da mais antiga galeria exclusivamente dedicada à fotografia em Paris e membro do comité de selecção dos participantes do Paris Photo, a não afixação dos preços não só ajuda à especulação financeira como parece obnubilar a realidade que muitos pressentem – a da aplicação de diferentes preçários de acordo com a natureza do comprador. “Chez Agathe”, como todos se referem ao espaço expositivo da Galeria Agathe Gaillard, não há lugar a equívocos e a tratamentos diferenciados – os preços encontram-se todos afixados e aos clientes mais inexperientes até é facultada, numa folha de papel amarelo, um excerto da definição de “fotografia original” de acordo com o estaDescortinar na Paris Photo belecido em 1982 a lógica do mercado da fotografia pela “Associação é tarefa ingrata.A maioria das para a Defesa e galerias opta por não afixar Promoção da Fotoo preço das obras à venda. grafia Original”.

«Vectorscape - 118», Hirofumi Katayama, 2003 �������

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«Dairyland, Provincetown», Joel Meyerowitz, 1976 �������

depoimentos manuscritos pelo seu autor onde este descreve a experiência do encontro com o sujeito fotografado. No passe-partout do retrato de Chéreau pode ler-se claramente: “Muito impressionado pelas necessidades técnicas mínimas da tomada de vista, Chereau fala do seu desejo de um dia realizar um filme a preto e branco. Nanterre 1982”. Com uma postura bastante diferente de Agathe Gaillard, só após alguma insistência se consegue saber, junto da Galeria nova-iorquina Charles Cowles, qual o valor de venda a público de uma das magistrais obras que o canadiano Edward Burtynsky captou nas pedreiras de mármore do Alentejo. Um valor bastante acima da média que o galerista não deseja ver publicado na Imprensa. Igualmente prudente na comunicação dos valores das obras à Imprensa, a fim de evitar futuros equívo-

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«Chandigarh replay», Stéphane Couturier, 2007 �������

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«Tokyo», Francesco Jodice, 2003 �������

espaço os valores das imagens variam entre os mil e os doze mil euros, sendo a imagem mais cara uma outra fotografia também da autoria de Henri Cartier-Bresson. Considerada uma galerista que vende a preços moderados – num certame em que o preço médio de venda por imagem é cerca de quatro mil euros –, há na galeria de Agathe umas quantas preciosidades que merecem bem o investimento. Entre elas contam-se uma prova de contacto, datada de 1 de Janeiro de 1972, de “Martinique”, da autoria de André Kertèsz, no valor de nove mil euros, e dois retratos particularmente interessantes, um de Patrice Chéreau, em 1982, e outro de Margarite Yourcenar, em 1987, ambos da autoria de Carlos Freire. Com o valor unitário de mil e oitocentos euros, os retratos de Carlos Freire tem a particularidade de apresentar

«Sombre», Miguel Rio Branco, 2005 �������

Para Agathe Gaillard, concorrida galerista, a não afixação dos preços das obras em exposição ajuda à especulação financeira.


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Mosteiro de Tibaes Braga I, Candida Hofer, 2006 �������

«Katlego Mashiloane and Nosipho Lavuta», Zanele Muholi, 2007 �������

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cos com os clientes, é também a Galeria Filomena Soares, a única galeria portuguesa representada no Paris Photo e que este ano repete a experiência iniciada na passada edição. Um regresso a Paris que se deve, segundo Bruno Múrias, relações públicas da galeria, sobretudo a uma experiência anterior “muito satisfatória a todos os níveis”, e na altura muito saudada por permitir a visibilidade de alguma da obra fotográfica actualmente produzida em Portugal. Representando artistas como Helena Almeida – autora da mais cara obra em exposição –, Vasco Araújo, João Penalva, Júlia Ventura e Rodrigo Oliveira, a galeria exibe a quase totalidade dos autores portugueses presentes no certame. Excepção a esta representação são os trabalhos de Rita Magalhães e de Edgar Martins representados respectivamente pela Galeria Fucares, de Madrid, e pela The Photographers Gallery de Londres. Exibindo, numa área equivalente a dois módulos expositivos, cerca de 20 obras do acervo de 30 que transportou para Paris, a galeria opta pelo sistema de substituição das obras vendidas permitindo assim uma visibilidade pública a um maior número de obras e artistas. Admitindo que a participação num certame desta natureza envolve despesas muito elevadas que é necessário rentabilizar, Manuel Santos, director da galeria em parceria com Filomena Soares, garante que “nunca aposta para perder” revelando desta forma confiança na cotação internacional dos artistas que representa. Outra coisa não seria de esperar por parte da galeria que, dependendo exclusivamente de investimento privado, projecta já no próximo mês de Março 2008 participar num feira no Dubai, e que há oito anos leva a Arte Portuguesa à Arco, em Madrid, e mais recentemente, nos últimos cinco anos, marca presença como a única galeria portuguesa na Frieze Art Fair, em Londres. � Próxima edição: Paris Photo 2008 13 a 16 de Novembro Carrousel du Louvre, Paris www.parisphoto.fr

«Ouve-me» Helena Almeida, 1979 �������

Representando artistas como Helena Almeida, a Galeria Filomena Soares exibe a quase totalidade dos autores portugueses presentes no certame.

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Fazal Sheikh, Fondation Henri Cartier-Bresson

Fazal Sheikh

S.O.S. Humanidade

Vencedor da edição de 2005 do prémio bienal Henri Cartier-Bresson, Fazal Sheikh apresenta «Moksha» e «Ladli», dois projectos realizados na sequência da distinção e recentemente editados em livro pela Steidl, até ao próximo dia 26 de Agosto na Fondation Henri Cartier-Bresson.

Texto e entrevista de Susana Paiva Fotografias de Fazal Sheikh, gentilmente cedidas pela FHCB

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Ashram

as obras que Fazal Sheikh actualmente expõe em Paris, recorrendo à imagem e à palavra, testemunha-se, com grande frontalidade e extraordinária força e poesia, a condição feminina na Índia, particularmente no caso das crianças e viúvas. Em «Moksha» traça-se o retrato de um conjunto de mulheres que abandonadas após enviuvarem, e em certos casos vítimas de maus-tratos por parte dos seus familiares, rumam à cidade santa de Vrindavan e, em comunhão com outras mulheres, aí devotam a sua vida ao deus Krishna. Desde há 500 anos que a cidade santa de Vrindavan, no norte da Índia, tem sido um refúgio para as viúvas indianas desapossadas de tudo. Rejeitadas pelas suas famílias, e condenadas por uma lei que lhes nega quaisquer direitos, algumas aí decidem rumar, em condições muito difíceis, fazendo por vezes perigar a sua vida. O seu maior desejo é o de alcançar «Moksha» – o paraíso – onde se libertarão e viverão rodeadas pelos seus deuses para sempre. Em «Ladli» – significando «filha bem amada» – o projecto versa as crianças indianas do sexo feminino que, na sociedade indiana tradicional, são vistas como um fardo dado a sua família ter de constituir um importante dote para que estas se casem – frequentemente durante a infância – e integrem com dignidade a família do seu esposo. Dado este costume oneroso as raparigas são frequentemente sujeitas, desde o nascimento, a sevícias inimagináveis e frequentemente abandonadas em orfanatos. Nos últimos anos, sobretudo devido à evolução das técnicas

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Fazal Sheikh, Fondation Henri Cartier-Bresson uma tão subtil abordagem. Mesmo sabendo de antemão que se trata de um ambiente hostil, violento, a verdade é que a observação directa dos retratos, tão dignificantes, tão pacíficos, não a denuncia.Apenas quando começamos a ler os depoimentos daquelas mulheres, tão fortes, tão sofridos, nos damos realmente conta da enorme violência que os retratos encerram. Por outro lado, o outro trabalho – «Ladli» – creio que é explicitamente mais violento, mais revelador ao primeiro olhar da dor e sofrimento daquelas crianças... Fazal Sheikh – Eu não caracterizaria necessariamente o trabalho de «Moksha» como violento. O que penso ser curioso é que normalmente, no legado das imagens de guerra, as pessoas se focalizam no «momento do trauma» e não na tomada de consciência de que muitos de nós passam por diversos traumas durante a vida, que todos somos o total das nossas experiências e não apenas o indivíduo que experiencia um dado trauma. «Moksha», para mim, é a ideia de que podemos realizar uma poderosa imagem de uma mulher que relata a sua vida, e depois que esse relato possa encerrar uma grande violência. Mas não desejo, de forma alguma, reduzir essa pessoa a um episódio de violência na sua vida. Esse trabalho é também o espaço de evocação, da expressão do conforto que essas mulheres obtêm naquele lugar, no facto de estarem juntas, num ambiente que as tranquiliza. De certa forma elas estão ali, pacificamente, à espera da morte. Quando se teve uma vida muito difícil é claro que a es-

perança é a vida após a morte, a procura da liberdade, a libertação desse ciclo que trouxe dor. Quanto a «Ladli», tem razão, é um trabalho mais assertivo. Mais explícito, mesmo. Em «Moksha» podemos fazer duas leituras muito diferentes, uma se apenas virmos os serenos rostos das mulheres fotografadas, e outra se lermos, a par e passo, os seus depoimentos. Nesse caso a sensação é a de um enorme murro no estômago. Em «Ladli» a simples observação das imagens, mais «carnais», mais sofridas, é o bastante para nos demonstrar a dor das crianças fotografadas. E depois, quando lemos os terríveis relatos da violência a que foram sujeitas, apenas confirmamos o terrível sofrimento que antevíramos já no primeiro olhar. Uma sensação dura mais tempo quando resulta da complexa composição de vários níveis – e não de um único e brusco depoimento –. uma vez que assim se encontra impregnada de outros elementos como a beleza, a transcendência ou a religião. Aí, cria-se, na minha opinião, algo que perdura mais, que tem uma outra ressonância. No caso de «Ladli» o objectivo é, ao olhar nos olhos daquelas crianças, criar poderosas imagens que transmitam compreensão e um enorme respeito pelas suas duras vidas. O que é interessante é que os livros também funcionam dessa mesma maneira, se vir o primeiro – «Moksha» – é muito mais um objecto de emoções, enquanto o segundo é bastante mais clássico. Foram concebidos para ser «edições companheiras» mas acabaram por resultar muito diferentes na sua estrutura.

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Tamana

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Magazine Artes – Confesso que fiquei muito impressionada com o projecto «Moksha», e isso porque na altura desconhecia «Ladli»... Há uma enorme violência nesse trabalho, uma violência silenciosa que nos atinge fulminantemente por

Jamuna Sarkar

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de investigação pré-natais, o aborto de fetos femininos aumentou exponencialmente como forma de evitar o custo de um dote, indispensável para o casamento da rapariga. «Gastar 500 rupias hoje, economizar 50.000 amanhã» é o que afirmam frequentemente os pais que optam pelo aborto das filhas. Nascido em Nova Iorque em 1965, de ascendência queniana e indiana, Fazal Sheikh tem visto o seu trabalho recompensado com diversos e prestigiados prémios que lhe vêm permitindo continuar a sua linha de trabalho pessoal, socialmente empenhada. O seu talento de fotógrafo, e também escritor, têm-lhe permitido abordar os sujeitos não como vítimas simbólicas mas sim como personalidades individuais cujos rostos, nomes e vívidos testemunhos atestam bem o grau de intimidade e profundidade das suas abordagens. Do seu trabalho, visto como um alerta tranquilo, ressalta a beleza e extraordinária poesia com que retrata os sujeitos, não obstante as terríveis formas de violência que estes relatam. É virtualmente impossível ficar impassível perante a contrastante candura dos retratos de «Moksha» e os violentos relatos das mulheres fotografadas. O sereno rosto de Renuka, abandonada pelos seus filhos após enviuvar, ganha uma nova dimensão quanto escutadas as suas palavras – «Sonho com os meus rapazes, sonho que os alimento e que brinco com eles. Gostaria de ser capaz de esquecer o passado mas continuo com o coração destroçado. Quando sonho com Krishna, quando danço com ele, quando canto e o adoro, não sofro mais.» Em «Ladli» são os rostos das crianças – tristes, densos e lacerados – que lançam o primeiro alerta. As cicatrizes que ostentam nos corpos são as marcas mais visíveis, embora menos profundas, de todo o seu sofrimento. Os seus duros depoimentos confirmam o suspeitado – histórias de abandono, maus-tratos físicos e frequentemente venda para fins de prostituição. Relatos que nos obrigam a repensar a imagem de uma Índia socialmente estável sobretudo na actual época de grande crescimento económico.

Renuka

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Fazal Sheikh, Fondation Henri Cartier-Bresson Pode dizer-me como se interessou tanto pela condição feminina na Índia? Em 2000 voltei à fronteira da Somália, onde oito anos antes havia trabalhado, maioritariamente sobre os homens, e dei-me conta de que 80% eram mulheres e crianças e que poderia ser interessante desenvolver um projecto sobre pessoas a quem geralmente não se dá voz, nesse caso as mulheres e as crianças. Foi assim que cheguei à ideia de uma série de projectos nos quais estes se incluem, que viriam a ser sobre as mulheres e as crianças. Uma coisa que sempre me interessou foi atravessar fronteiras. Quando fiz o meu primeiro livro sobre o Quénia as pessoas relacionaram-no com as minhas raízes, com o facto de ter um pai queniano como justificação para a realização desse trabalho. Diziam que estava bem fazer esse trabalho pois tinha sido feito por um queniano, ignorando que eu estava a trabalhar em diferentes áreas linguísticas e sob diferentes perspectivas religiosas. Acabamos muitas vezes por artificialmente compartimentar dizendo que apenas uma mulher somali pode fazer isto ou aquilo... A mim interessa-me confrontar essas barreiras e fazer estes dois projectos foi um verdadeiro desafio pois eles negam o género como barreira para a realização de um certo trabalho. O que realmente conta, no final, é o trabalho que fazemos e não as nossas origens ou género. Mas sendo a Índia uma sociedade patriarcal não acredita que o facto de ser homem possa ter ajudado a cativar o interesse das mulheres fotografadas e entrevistadas para «Moksha»? Sobretudo sendo mulheres abandonadas e maltratadas...

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Sonal �������

Gulafshah

O que me surpreende é que sempre que as pessoas falam da Índia entram numa espécie de «onda yoga hippie» e sendo verdade que há coisas maravilhosas na Índia também é verdade que essa é uma das sociedades mais patriarcais e que ser mulher na Índia pode ser realmente difícil... Há pelo menos que ter em conta as duas facetas... Sobretudo porque a Índia está a ter um crescimento económico extraordinário... E celebremos isso mas tenhamos consciência que há problemas sérios que têm de ser equacionados. Toda a gente diz «Índia, está tudo perfeito!» – Mentira! É incrível como funciona... Nos Estados Unidos também se ignoram esses problemas pois é importante estar ligado economicamente à Índia. Porquê focar então esses outros níveis da sociedade? Isso enlouquece-me... Para mim, é impensável não o fazer e faz-me acreditar cada vez mais que tenho de continuar a realizar projectos desta natureza. Há alguns anos a imagem que tínhamos da Índia era de desespero total e as pessoas eram vistas como algo diferente de nós, como vítimas. E de repente, com a Índia num novo cenário económico, formou-se a ideia de que esse desespero, esses problemas desapareceram. A visão popular da Índia é agora de grande glória... Penso que, no mínimo, devemos manter estas questões em aberto... Então o seu trabalho é um alerta silencioso... Esperemos que não demasiado silencioso... É mais um alerta calmo. O meu trabalho não é concebido da mesma forma que outros trabalhos e, tendo consciência que poderá não chegar a tantas pessoas, penso que chegará de uma forma mais profunda, mais duradoura, deixando espaço para a imprescindível interpretação individual. �


Anjos do deserto

É do reino do maravilhoso que saem os personagens fotografados por Horst Friedrich, verdadeiros “anjos do deserto” como lhes chamou a escritora venezuelana Elisabetta Balasso, co-autora do livro “Doña Maria und Ihre Träume”, uma das mais telúricas obras fotográficas e literárias da actualidade.

Fotografias gentilmente cedidas por Horst Friedrich Texto de Susana Paiva

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ão poéticas e elucidativas as palavras com que Elisabetta Balasso descreve o contacto entre os autores e os habitantes do deserto venezuelano – “viemos de longe, da capital ou de além mar, de lugares míticos dos quais quem lá estava apenas tinha ouvido falar. Chegamos às terras áridas e encontramos paisagens calcinadas pelo vento, árvores iluminadas e uma bebida cheia de espírito, que convoca as sombras transparentes do desejo, e que não acalma a sede mas magnifica e produz eventos excepcionais. Chegamos e conhecemos os habitantes – anjos com rugas profundas e preciosos corações plenos de sabedoria e hospitalidade. E assim comprovamos que a realidade é bem mais mágica do que qualquer literatura, quando se penetra suavemente no tempo do deserto”. Nas palavras iniciais de “Dona Maria e os seus sonhos” se encerra, com grande mestria, o mistério e a beleza de todos quantos habitam as esquecidas paisagens do deserto venezuelano, território onde o tempo parece ter outra dimensão. “O tempo está parado em casa de Dona Ruperta, presenças fantasmagóricas parecem aguardar nas esquinas que ficaram escuras, tão fiéis e resignadas como um cão enfraquecido. Nada sucede, e no entanto tudo está cheio de sentido - o pau que serve de bastão para espantar os animais, tão seco como os seus braços, apoiado na parede; o pedaço de queijo de cabra sobre o pratito de barro; a pequena cadeira de criança, em que Ruperta se senta nas noites em que não consegue dormir; as gretas na terra das paredes que parecem querer dizernos algo que não conseguimos compreender. A casa respira com a respiração pausada e profunda de um adormecido, quem sabe sonhando por Dona Ruperta, sonhando os sonhos que ela esqueceu”. Foi este o ambiente telúrico que o fotógrafo alemão Horst Friedrich encontrou quando, há cerca de doze anos, viajou

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pela primeira vez ao deserto venezuelano. Lia na altura o romance «Cem Anos de Solidão», de Gabriel García Márquez, e estava longe de imaginar que iria encontrar o mesmo realismo mágico em terras venezuelanas. “Não se ouve nada mais do que o vento. Nem cabras nem pássaros, apenas o vento. Um céu sólido, azul infinito igual à cafeteira pousada sobre a laje de pedra assente na terra. O céu dissolve-se numas nuvens brancas ali onde a terra seca se esmigalha em rectos cactos, em yabos de mil ramificações e em cujís retorcidos”. Percorrendo, a partir de Caracas, um cenário espantoso para lá dos Andes chegou ao estado de Lara, e depois a Falcón, na costa, onde conheceu Dona Maria, Margarita, Eustiquio e família bem como tantos outros habitantes, “pessoas especiais que fabricam um artesanato precioso”, afirmou Horst. “São personagens, são heróis... Esta gente é incrível, interessante, forte. São pobres, mas felizes, pois têm sabedoria. Claro que às vezes gostariam de ter uma vida melhor mas, por exemplo, Eustiquio tem um telemóvel e eu de vez em quando telefono-lhe e ele fica feliz”. Tendo viajado múltiplas vezes a esses dois estados no noroeste da Venezuela, Horst fez-se sempre acompanhar da sua Hasselblad, uma máquina fotográfica alemã de médio formato, com a qual retratou os habitantes das povoações visitadas. Nem sempre a aproximação foi fácil pois quando inquiridos alguns populares recusavam a oferta de serem fotografados por Horst mas ainda assim este não desanimava. No ano seguinte voltava a inquiri-los, estreitando, pouco a pouco, os laços de amizade que lhe permitiriam uma aproximação incondicional. Assim foi com quase todos os populares. Alguns resistiram durante três anos mas acabaram por dar corpo e rosto às imagens de Horst e por, mais tarde, partilharem as suas histórias com Elisabetta Balasso. “São seis os filhos mas deviam ser nove.

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A voz entrecortada e trémula, os olhos húmidos, pois é difícil recordar as dores da mulher, o medo, a fatalidade, a resignação. O tempo suspendeu-se, o sol cristalizou, a abelha deteve o voo enquanto o homem contou a sua história. Custou-lhe muito, mas seguiu valentemente, como se fora necessário, como se fosse um dever, e não o era, não nos devia nada, não era indispensável contarnos nada; e agora não sei o que fazer, dá-me pudor este fio de água cristalino e secreto, correndo debaixo das pedras, este desenho de águas subterrâneas, este passarito ferido entre as mãos. Conta-me tudo e eu fico devastada com as experiências de sofrimento que o marcaram, com todas essas mortes sempre presentes, novamente presentes enquanto as rememora, presentes no pátio de trás, onde desde então se erguem duas cruzes brancas”. Construído numa simbiose perfeita entre os universos imagéticos e literários, “Dona Maria e os seus sonhos” é um exemplo maior daquilo que ainda hoje se pode criar no âmbito da fotografia documental. Justamente aclamado como um projecto ao nível dos desenvolvidos no Estados Unidos da América por fotógrafos como Walker Evans e Robert Frank, este trabalho de Horst Friedrich consagra-o como um dos grandes nomes da fotografia documental, sedimentando aquilo que já se intuía na publicação, em 1999, do seu primeiro livro “Troubadours of Allah” (Trovadores de Alá), também editado pela alemã Frederking & Thaler. Repleto de poesia e excelentes imagens, “Dona Maria e os seus sonhos” dignifica todos quantos aí estão retratados, transportando-nos para um universo humano de extrema pureza, difícil de imaginar no mundo em que vivemos hoje. “O filho mais novo de Eustiquio olha o céu, procurando nas estrelas a constelação que nos guia: O coração de Maria e Jesus, disse-me, assinalando os dois corações desenhados na noite”, escreve


Elisabetta Balasso como a contrabalançar o insustentável peso das palavras anteriores: “O céu ilumina-se aos poucos, acende-se e apaga-se seguindo a navegação das nuvens. Mais próximo da terra voa uma mosca, suspensa por asas tão rápidas que só se distingue uma sombra de cada lado do corpo. Não muito longe ouve-se um compacto zumbido de enxame. De resto, o silêncio é tão espesso que pesa no ar”. Um peso que Horst e Elisabetta souberam retratar com gran-

de beleza e sensibilidade e que certamente perdurará como um dos mais belos livros da nossa década. � «Doña Maria und Ihre Träume» (Dona Maria e os Seus Sonhos) de Horst A. Friedrichs e Elisabetta Balasso 192 páginas, aproximadamente 120 fotografias a cor e a preto e branco Formato: 24,0 x 34,0 cm Editora: Frederking & Thaler www.horstfriedrichs.com


Saul Leiter na Fondation Henri Cartier-Bresson, Paris

«Green Light Against Grey, New York, 1955»

Poeta da selva urbana

As 84 anos de idade, 60 dos quais dedicados à fotografia, Saul Leiter apresenta em Paris a sua primeira exposição retrospectiva na Europa. Uma oportunidade única para apreciar, até 13 de Abril na Fondation Henri Cartier-Bresson, a obra do fotógrafo cuja falta de ambição artística ocultou do grande público, durante cerca de 50 anos, um dos mais brilhantes e modernos Olhares da segunda metade do século XX.

Texto de Susana Paiva Fotografias de Saul Leiter gentilmente cedidas por Fondation Henri Cartier-Bresson

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© Saul Leiter/ cortesia Howard Greenberg Gallery, New York”

scutar Saul Leiter discursando sobre o seu próprio trabalho é simultaneamente uma experiência desconcertante e uma imensa lição de humildade. Ouvi-lo confessar que nunca imaginou ver o seu trabalho exposto num museu ou que jamais ambicionou criar obras de Arte causa perplexidade a todos quantos observam as suas extraordinárias fotografias de rua impregnadas de uma poética onde pontuam silhuetas em fuga, apontamentos inesperados de cor e enquadramentos improváveis. Compreender tamanha modéstia, tamanha falta de ambição artística é a principal chave para descodificar o universo de Saul Leiter, autor que ainda hoje admite, com franco sorriso, que a sua maior preocupação foi sempre “conseguir pagar as contas

de electricidade, algo que nem sempre foi possível”. Nascido em 1923 em Pittsburgh, nos Estados Unidos da América, filho de um famoso rabino, Saul Leiter decidiu, aos 23 anos de idade, abandonar os estudos em Teologia e mudar-se para Nova Iorque a fim de se consagrar totalmente à sua paixão pela pintura. Será pela mão de alguns pintores com quem privou nessa época, nomeadamente com Richard Pousette-Dart, que Saul Leiter se começará a interessar pela fotografia. Na sua memória resta ainda bem vívida a forte impressão causada, em 1947, pela exposição de Henri Cartier-Bresson no MoMA, evento a que ainda hoje atribui a causalidade da sua escolha profissional. Pleno de estímulos e munido de uma Leica começou assim a deambular pelas ruas de Nova Iorque, fotografando-as a preto e

branco. Em 1948 entra numa loja de fotografia e inesperadamente decide comprar um rolo a cores, acção que se viria a revelar determinante na sua prática fotográfica, não parando desde então de alternar entre ambos os suportes. Foi o trabalho a preto e branco de Leiter que primeiro prendeu a atenção de Steichen, na época conservador de fotografia no Museu de Arte Moderna (MoMA) em Nova Iorque, e que, em 1953, seleccionaria 25 fotografias suas, exibindo-as na exposição colectiva “Always the Young Stranger”. No entanto, a sua grande mestria, patente sobretudo na forma revolucionária como utilizava a cor, teria que aguardar 4 anos antes de ser revelada ao público nova-iorquino no âmbito da conferência “Experimental Photography in Color” proferida por Steichen no MoMA em 1957. Catálogo da exposição Prefácio de Agnès Sire Entrevista de Sam Stourdzé a Saul Leiter 50 fotografias a preto e branco e 50 fotografias a cores Edição cartonada com sobrecapa impressa 20x24 cm, 144 páginas Editado por Steidl, Paris

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“Snow, New York, circa 1960”

Com uma visão pragmática da vida e concentrado na sua sobrevivência Saul Leiter torna-se, por intermédio de Robert Frank que lhe havia apresentado Alexey Brodovitch – na altura director artístico da revista “Harper’s Bazaar” –, num bem sucedido fotógrafo de moda espelhando, ao longo de duas décadas, as suas obras “dignas de museus e não de páginas de revistas” em publicações de moda como a “Esquire” e a própria “Harper’s Bazaar”. O seu trabalho mais pessoal, centrado na fotografia de rua, acabará por permanecer esquecido aos olhos do mundo até meados dos anos 90, altura em que a galeria nova-iorquina Howard Greenberg lhe consagra uma exposição de fotografias a preto e branco. Será esta exposição, em 1993, juntamente com a publicação de “Early Color”, em 2006 – pela mão de Martin Harrison na Steidl –, que voltarão a concentrar na sua obra a atenção por parte dos especialistas internacionais. Hoje, na celebração desta brilhante re-

© Saul Leiter / cortesia Howard Greenberg Gallery, New York”

© Saul Leiter / cortesia Howard Greenberg Gallery, New York”

«Snow, New York, 1958»

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descoberta, a Fondation Henri CartierBresson apresenta oportunamente, em dois pisos do seu edifício na zona de Montparnasse, uma exposição comissariada por Agnès Sire onde através de dois núcleos expositivos, a cores e a preto e branco, se revelam uma centena de imagens da autoria de Saul Leiter. Realizadas entre 1947 e 1960, as imagens apresentadas a público são na sua maioria impressões de época, emprestadas pela Galeria Howard Greenberg e por coleccionadores privados, onde se revelam “silhuetas em trânsito, sombras, visões misteriosas e indirectas entre romantismo e filme negro” tão características do Olhar do fotógrafo que elegeu a “selva urbana” como sujeito do seu trabalho pessoal revelando assim o seu extraordinário universo “poético, onírico e calmante, sobre o qual plana a doçura da melancolia”. � Saul Leiter Fondation Henri Cartier-Bresson, em Paris Até dia 13 de Abril

«Saul Leiter» Colecção Photo Poche Edição brochada 64 páginas Editado por Actes Sud


Escutar a Natureza

«On the Edge», de Robert Adams Patente até 27 de Janeiro Fondation Cartier pour l’Art Contemporain www.fondation.cartier.com

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Fotografias de Robert Adams gentilmente cedidas por Fondation Cartier pour l’Art Contemporain

aras vezes fotografia e consciência ecológica se conjugam tão perfeitamente como na obra de Robert Adams. Actualmente em Paris, a Fondation Cartier pour l’Art Contemporain apresenta “On the edge”, a sua primeira exposição individual em França onde, através de fotografias e livros, se traçam e revelam quarenta anos de sucessivas mutações da paisagem do velho Oeste americano. É nos livros que melhor se revela a força da obra de Robert Adams. A sua eloquência espelha-se caleidoscopicamente nas 34 monografias que até hoje publicou e onde desde 1970, com o precioso auxílio da sua mulher Kerstin, Adams tem vindo a ensaiar novas narrativas para as suas séries fotográficas. Contrariamente a muitos dos seus contemporâneos que utilizam os livros meramente para catalogar os seus trabalhos, Robert Adams encontrou na edição um espaço de expressão onde activa plenamente o poder literário do medium, permitindo às suas imagens interagirem, dialogarem e criarem novas e efectivas ligações com vista à agudização da percepção e à extensão da vivência estética. Não receando protagonizar uma possível contra-corrente na fotografia contemporânea, Robert Adams tem sido um ardente defensor dos valores tradicionais da estética, sem medo de promover a “beleza”

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como virtude a aspirar. Nas suas belas imagens revela-se ainda, com grande ímpeto e fulgor crítico, a raiva que o fotógrafo sente perante as práticas anti-ecológicas do seu país, sobretudo no que concerne à sistemática destruição das paisagens naturais do Oeste americano. Em entrevista concedida a Thomas Weski em Maio de 2004, Adams relata o início da sua actividade fotográfica em 1964 como “uma resposta emotiva à paisagem”, reflexo das suas preocupações ecológicas numa “América bárbara onde a ganância é vista como uma virtude”. Para o fotógrafo, que recorda ter tido o privilégio de experienciar o natural desde a infância, pela mão do seu pai, a fotografia de paisagem ganhou força simbólica no seu activismo e expressa hoje, com grande eficiência, as suas opiniões políticas. Na exposição “On the Edge”, actualmente patente no piso inferior da Fondation Cartier pour l’Art Contemporain, em Paris, Robert Adams expressa a preto e branco, através de 150 fotografias e cerca de quarenta livros, as suas actuais preocupações ecológicas, criando um denso e contrastante universo fotográfico que oscila entre o desespero e o optimismo. Bom exemplo disso é a imagem onde um tronco decepado e desenraizado se revela solitário numa idílica paisagem da costa americana. � Por Susana Paiva


35 Uma resposta emotiva Ă  paisagem.


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A preto e branco cria-se um contraste entre o desespero e o optimismo.

Raras vezes fotografia e consciĂŞncia ecolĂłgica se conjugam tĂŁo perfeitamente.


Kai Wiedenhöfer

Kai Wiedenhöfer

O novo Muro da Vergonha

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Vencedor em 2005 da bolsa de fotografia editorial Getty Images com o projecto “Sharon’s Wall: Holly Land, Divided Land”, o fotógrafo alemão Kai Wiedenhöfer publicou recentemente, pela Steidl, o livro “Wall” reunindo 51 imagens que documentam a construção de 650 quilómetros de muros, vedações, diques e outras barreiras ao longo da fronteira entre o Estado de Israel e a futura entidade Palestiniana. Um vívido testemunho, pleno de imagens desconcertantes, que enfatiza o lado humano do conflito, revelando famílias divididas por uma barreira incompreendida.

Texto de Susana Paiva Imagens de Kai Wiedenhöfer, cortesia Steidl

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oi Christian Schimdt, escritor baseado em Zurique, quem pela sua insistência convenceu Kai Wiedenhöfer a regressar a Israel e aos territórios ocupados da Palestina. Correspondente no Médio Oriente durante mais do que uma década, Kai Wiedenhöfer, hoje com 41 anos, estava relutante em regressar. Desde os 13 anos, idade em que lera um livro sobre os conflitos políticos no Médio Oriente, que se sentia fascinado pelos problemas da região. Inevitavelmente, na primavera de 1989, acabou por viajar rumo a Jerusalém a fim de produzir um portfolio fotográfico para a sua candidatura universitária. Foi com esse portfolio que acedeu ao curso de fotojornalismo na Folkwang School, em Essen, onde concluiu os seus estudos em 1991. Ainda enquanto estudante Wiedenhöfer visitou duas vezes Jerusalém, focando o seu trabalho nos aspectos religiosos e nos problemas da ocupação, reflectidos no quotidiano da Cidade Santa. Acabada a universidade, e

compreendendo a Considerado um fotógrafo com necessidade de fa- “uma lente tendencialmente lar o idioma local anti-Israelita”, Kai dedicou caso quisesse conos 3 últimos anos a fotografar cretizar o sonho de a construção do muro... trabalhar no Médio Oriente, Kai rumou a Damasco, Síria, onde aprendeu a falar árabe no Arabic Teaching Institute for Foreigners. Munido das ferramentas mínimas necessárias, Kai Wiedenhöfer estabeleceu-se então no Médio Oriente, trabalhando como fotógrafo para a agência Suíça “Lookat Photos”. Considerado não raras vezes como um fotógrafo com “uma lente tendencialmente antiIsraelita”, Kai dedicou os 3 últimos anos a fotografar a construção do muro fronteira que divide o Estado de Israel dos territórios Palestinianos, revelando os dramas humanos daqueles que coabitam diariamente com a construção. “Erigido com um único propósito – o de manter os terroristas Palestinianos, que desejam assassinar cidadãos Israelitas, fora”, segundo o Minis-

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Optando por fotografar com uma máquina panorâmica 6x17, Wiedenhöfer criou imagens que agudizam visualmente a extensão horizontal e vertical do muro.

tro dos Negócios Estrangeiros Israelita, “Israel, uma sociedade democrática, está a construir essa vedação para proteger cidadãos de ataques mortais, não para impedir contactos pacíficos com o outro lado”. Na capa de «Wall», numa fotografia captada em 2004, Abu Adnan Schawarib, de 70 anos, passeia ao longo do muro em Nazlat Isa. Do outro lado encontra-se Baqa arRarbiya, uma localidade habitada por Palestinianos com cidadania Israelita. “A barreira cortou a cidade separando famílias. 105 lojas e 7 casas foram destruídas para construir o muro. Aí 25% da barreira de separação está construída a seguir à fronteira reconhecida internacionalmente. O resto entra profundamente nos territórios Palestinianos ocupados, dobrando praticamente a extensão da fronteira”, escreve Wiedenhöfer no seu livro. Tendo optado por fotografar este projecto com uma máquina panorâmica 6x17 cm emprestada por um amigo, Wiedenhöfer criou panoramas que agudizam visualmente a extensão horizontal e vertical do muro, crian-

do imagens extraordinariamente eficazes. Um poderoso documento que perdurará e onde ecoarão as palavras do fotógrafo alemão – “O que resta do muro de Berlim serve como recordação constante do conflito político que separou a Alemanha durante mais de 25 anos. E nesse muro, num graffiti, pode ler-se ainda «O muro da vergonha ergue-se agora em Israel»”. � Livro “Wall” de Kai Wiedenhöfer 104 páginas, 30 cm x 20 cm, capa dura publicado por Steidl ISBN: 3-86521-117-8 (www.steidlville.com)

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Edward Burtynsky

Paisagens manufacturadas

Visualizar uma obra de Edward Burtynsky é partilhar da certeza de estar perante um trabalho minuciosamente pensado, magistralmente executado, onde a falha não tem lugar. As suas fotografias, tecnicamente perfeitas, fascinam pela terrível beleza com que traduzem o frágil (des)equilíbrio entre aquilo que a Natureza produz de mais precioso e o Homem tão insistentemente explora, funcionando como espelhos onde, tão claramente, se reflecte o mundo em que vivemos.

Texto de Susana Paiva Imagens de Edward Burtynsky, cortesia Mongrel Media e Steidl

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“Shipyard #11”, Shipyard at Qili Port, Zhejiang Province, China

o stand que a editora Steidl exibe na Paris Photo todo o espaço é exíguo para folhear os dois livros onde as fotografias de Edward Burtynsky brilham. «China», de 2005, e «Quarries», de 2007, são álbuns fotográficos, tecnicamente irrepreensíveis – editados segundo o mesmo grau de exigência que Burtynsky põe nas suas imagens –, onde magníficas reproduções traduzem o melhor que o fotógrafo canadiano tem produzido nas duas últimas décadas. Inútil observá-los fugazmente, folheando-os sobre o joelho ou recorrendo ao auxílio de apenas uma mão. Os seus livros, tal como as grandes impressões fotográficas que produz, necessitam da tranquilidade da contemplação, do silêncio que promove a concentração e obriga a mergulhar nas paisagens captadas e que traduzem na perfeição o efeito de séculos de acção humana sobre os recursos naturais do planeta. Nascido em 1955, em St. Catharines, Ontário, Burtynsky atribui o seu interesse pelas intricadas relações entre indústria e Natureza à observação, desde tenra idade, da dinâmica da empresa General Motors estabelecida na sua terra natal. Fascinado pela acção humana na paisagem, Burtynsky completa os seus estudos em Fotografia na Ryerson University, em Toronto, e em Artes Gráficas no Niagara College, em Welland, fundando, em 1985, o Toronto Image Works

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Edward Burtynsky

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“Nickel Tailings #34”,Sudbury, Ontario, Canada


Edward Burtynsky – um centro educacional e de produção artística na área da imagem analógica e digital – onde inicia um extenso trabalho fotográfico que se constitui hoje como testemunho da relação evolutiva do Homem com a Natureza, perfeitamente espelhada nas paisagens industriais que constrói. Dedicando o máximo de tempo de maturação possível a cada um dos seus projectos, Burtynsky acaba de editar «Quarries», um livro onde se reúnem imagens de pedreiras – essas “arquitecturas invertidas”, como gosta de lhes chamar – captadas durante mais de uma década em países de vários continentes, entre os quais pontua Portugal com dez imagens realizadas em diversas pedreiras do sul do país. Dos seus trabalhos mais notáveis destaca-se o projecto desenvolvido na China, esse gigante cujo crescimento não conhece barreiras ecológicas, e que a premiada realizadora canadiana Jennifer Baichwal re-

gistou em 16 mm. Em «Paisagens Manufacturadas», filme projectado pela primeira vez no Festival de Cinema de Toronto em Setembro de 2006, Jennifer Baichwal acompanha Edward Burtynsky através da China, enquanto este fotografa os efeitos da massiva revolução industrial que o país protagoniza. Aproximando-se da postura de Burtynsky, o filme promove a reflexão sobre o impacto humano no planeta, evitando julgamentos simplistas ou soluções redutoras, deixando ao espectador a responsabilidade individual da tomada de consciência. Rodado maioritariamente na China, o documentário proporciona a observação dos métodos e técnicas empregues por Edward Burtynsky na obtenção das suas imagens, enfatizando as suas capacidades diplomáticas de negociação e de acesso a locais onde jamais outro fotógrafo acedera. Particularmente belas e dramáticas, aparentando um cenário apocalíptico,

Three Gorges Dam Project, Feg Jie #5, Three Gorges Dam Project,Yangtze River, China �������

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“Shipbreaking #49”, Shipbreaking in Chittagong, Bangladesh

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“Bao Steel #8”, Bao Steel in Shanghai, China


Edward Burtynsky Noah Weinzweig (China line producer, at left) and Edward Burtynsky in the Tianjin suburbs, China, Photo by Peter Mettler �������

“Manufacturing #18”, Cankun Factory, Zhangzhou, Fujian, Province, China �������

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“Dam #6”, Three Gorges Dam Project,Yangtze River, China �������

“China Recycling #9”, Circuit Boards for recycling in Guiyu, ������� Guangdong Province, China

são as imagens obtidas no local de implantação da «Three Gorges Dam» -- a maior barragem do mundo, 50% maior do que qualquer outra existente e responsável pela deslocação compulsiva de cerca de um milhão de habitantes daquela região. Reconhecendo que a grande força das imagens de Burtynsky reside «na sua recusa em as tornar didácticas» Baichwal acaba por desenvolver, em «Paisagens Manufacturadas», uma obra que prolonga de forma poética e eficaz as metafóricas imagens de Burtynsky dando assim a percepcionar, num belo estilo, o dilema da nossa existência moderna – o continuo desejo de ter uma maior qualidade de vida não obstante a tomada progressiva de consciência das consequências naturais que daí advenham. �

«China», de Edward Burtynsky 180 páginas, 80 imagens a cores 38,1 cm x 30,5 cm, capa dura com sobrecapa impressa Editado por Steidl em Novembro de 2005 «Quarries», de Edward Burtynsky 176 páginas, 80 imagens a cores 38,1 cm x 30,4 cm, capa dura com sobrecapa impressa editado por Steidl Photography International em Setembro de 2007 «Manufactured Landscapes», sobre a obra de Edward Burtynsky Realização de Jennifer Baichwai Estreia em sala em França – Novembro de 2007 Documentário, 1h26m, cor Canadá, 2006


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Gérald Bloncourt no CCB

Partiram clandestinamente de Portugal rumo a França, fugindo à miséria e opressão. Para trás deixaram família e amigos envoltos em saudade. Suportaram os tortuosos caminhos da emigração sonhando com um glorioso regresso a Portugal e lutando “por uma vida melhor”.Tudo isso documentam as imagens de Gérald Bloncourt patentes, até ao próximo dia 18 de Maio, no Museu Colecção Berardo, em Lisboa.

Texto de Susana Paiva

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ara Bernardette Caille, comissária da exposição «Por Uma Vida Melhor» que reúne no Museu Colecção Berardo, em Lisboa, cerca de 50 fotografias de Gérald Bloncourt em torno da temática da imigração portuguesa clandestina em França, não existem dúvidas acerca da importância e pertinência da mostra. «A exposição fala de uma realidade que durante muito tempo os franceses ignoraram. As duras condições de sobrevivência dos emigrantes portugueses clandestinos em França, nas décadas de 50 e de 60, é um assunto do qual ainda hoje pouco se fala, apesar de existirem no país autores como o José Vieira, documentarista português residente em

França desde 1965, que apresenta nesta mostra dois dos seus documentários e excertos de um terceiro em fase de edição e cuja cinematografia aborda sistematicamente a temática da imigração portuguesa em França». Assunto esquecido ou apenas talvez doloroso de mais para recordar, alicerçado na culpa – de todos quantos tiraram dividendos da precariedade e consequente fragilidade da imensa massa laboral portuguesa em busca da legalização –, e na vergonha – daqueles que, sujeitando-se às terríveis condições que a clandestinidade impunha, silenciaram a dura realidade dos “bidonvilles”, periféricos bairros de lata privados de electricidade, saneamento e água canalizada onde entre tá-

buas e chapas metálicas se erigiam as precárias habitações de milhares de famílias portuguesas –, as reais condições de vida dos emigrantes portugueses em França captaram a atenção de Gérald Bloncourt ainda na década de 50, altura de que datam as suas primeiras imagens temáticas. No entanto, foi apenas em 1964, ano em que Bloncourt tomou conhecimento do “bidonville” de Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris – um dos maiores bairros de lata então habitado por famílias portuguesas –, que o seu trabalhou adquiriu a proximidade e intensidade que hoje se pode testemunhar na sua exposição. Inicialmente recebido com desconfiança e hostilidade no seio do “bidonville”,


Bloncourt teve a felicidade de encontrar no bairro de lata português um homem que conhecera anteriormente e que se revelaria a chave certa para a imersão naquele mundo secreto e proibido. Com permissão para regressar e fotografar livremente, Gérald Bloncourt desenvolveu um extenso trabalho documental sobre o quotidiano dos portugueses, trabalho que enriqueceu com a abordagem fotográfica de outros momentos capitais no processo da emigração clandestina. Ainda hoje recorda, com emoção, a dureza da única viagem que fez “a salto” entre Portugal e França, seguindo um passador que guiava através dos Pirenéus um pequeno grupo de emigrantes clan-

destinos, e da qual resultariam apenas duas imagens obtidas clandestinamente e mostrando o grupo de costas tal era o receio de identificação por parte dos seus elementos. Foi por uma dessas imagens, datada de 1965, que Bloncourt resolveu começar a sua exposição fotográfica patente no Museu Colecção Berardo onde revela com sensibilidade, mas sem grandes preocupações estéticas, a dura caminhada da emigração portuguesa clandestina em França, esses “filhos dos grandes descobridores” que sonhavam um dia regressar gloriosamente a casa. Um trabalho que, não pretendendo ser moralizante, devia permitir, nas palavras de Bernardette Caille, “uma

reflexão sobre as indignas condições com que no passado a França recebeu a mãode-obra portuguesa e que hoje, um pouco por toda a Europa, não se hesita em repetir perante as novas e crescentes vagas de emigração”. � «Por Uma Vida Melhor» Fotografias de Gérald Bloncourt Projecção dos documentários «Gente do Salto» e «Os Anos da Lama», de José Vieira Museu Colecção Berardo Centro Cultural de Belém, Lisboa Todos os dias, das 10h00 às 19h00 Horário alargado à 6ª feira, até às 22h00 Entrada gratuita


Portfolio Joakim Eskildsen

Cantos nómadas

Entre 2000 e 2006 Joakim Eskildsen e Cia Rinne percorreram sete países, da Europa à Ásia, documentando a vida de diversos grupos étnicos colectivamente designados por Ciganos.Agora no livro “The Roma Journeys [Le romané phirimàta]”, materializam em imagens, palavras e sons a intensa experiência de partilha do quotidiano das inúmeras famílias ciganas com que ao longo de sete anos privaram.

Texto de Susana Paiva Fotografias de Joakim Eskildsen, gentilmente cedidas pela editora Steidl

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esde 1975, ano em que o fotógrafo Josef Koudelka publicou pela editora Aperture o lendário «Gypsies», que nenhuma outra obra fotográfica sobre a comunidade cigana se constituía como uma verdadeiramente referência internacional. Apesar de alguns trabalhos sistemáticos e consistentes na área como o do britânico Nigel Dickson, que ao longo de 12 anos fotografou diversas comunidades ciganas na Europa e nos Estados Unidos da América e que, em 2003, publicou pela Actes Sud o interessante «Sara – Le pèlerinage des gitans», obra dedicada à anual peregrinação cigana em honra da sua santa padroeira na localidade francesa de Saintes-Maries de la Mer, foi necessário esperar cerca de três décadas para que o mercado editorial voltasse a publicar nova obra de referência, desta feita através do renovado olhar do fotógrafo dinamarquês Joakim Eskildsen. Publicado pela Steidl, «The Roma Journeys [Le romané phirimàta]» é uma obra excepcional onde, longe de produzirem um trabalho documental linear, Joakim Eskildsen, através da fotografia, e Cia

Rinne, do ensaio e da recolha sonora e musical que deu origem ao cd integrado na edição, reformulam o género criando não só uma obra de importante valor documental mas sobretudo um trabalho onde a valência estética impera. Numa obra onde se traça o quotidiano dos Roma, Sinti, Calé e outros grupos étnicos colectivamente referenciados como Ciganos, existe ainda em «The Roma Journeys» espaço para a afirmação da sua diferença revelando-se, de forma brilhante, como a maior minoria da Europa se difunde através do globo, vivendo em micro universos onde cada grupo étnico é marcado por um idioma e cultura específicas. Há, nas brilhantes imagens de Eskildsen, uma força e estranheza que evidenciam traços de individualidade e solidão no seio de uma comunidade sobre a qual durante muito tempo assumimos que o colectivo se sobrepunha ao indivíduo. Há nas suas fotografias, sobretudo nas imagens a cores, uma luz improvável e estranhamente bela onde amanhecer e crepúsculo se tornam predominantes, reforçados aqui e ali por pequenos focus de luz artificial que nos remetem para o plano da

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35 irrealidade. É assim, pela poética combinação do poderoso universo imagético de Joakim Eskildsen e da incisiva prosa de Cia Rinne, que a obra editada pela Steidl veemente veicula a forma discriminatória como os Roma tem sido perseguidos e expulsos um pouco por toda a Europa, sujeitos à escravatura na Roménia e até proibidos de se expressar na sua própria lingua. Parafraseando, em jeito de conclusão, Günther Grass que no prefácio denuncia a injusta descriminação a que esse povo tem sido sujeito: «No seu permanente estado de dispersão, eles, os Roma, são de facto Europeus no sentido em que, aprisionados nas nossas estreitas nacionalidades, deveríamos ter em mente que a nossa Europa unida não se deveria desenvolver num monstro burocrático, num colosso económico todo-poderoso. Pelo menos num nível, na sua mobilidade que desafia fronteiras, os chamados Ciganos estão um passo à nossa frente. Eles deveriam ser os primeiros a receber passaportes Europeus, garantindo-lhes direito de residência da Roménia a Portugal. Nascidos Europeus, eles estão, nos seus séculos de experiência, em posição de nos ensinar como cruzar fronteiras, de abolir as fronteiras dentro e à volta de nós e de criar uma Europa sem fronteiras que não seja apenas um sujeito de vazio orátorio mas um real estado da situação». � «The Roma Journeys (Le romané phirimàta)» Fotografias de Joakim Eskildsen Prefácio de Günter Grass Introdução de Cia Rinne e Joakim Eskildsen Ensaios e gravação sonora de Cia Rinne Edição musical de Sebastian Eskildsen 416 páginas, imagens a cores e a preto e branco, 23.3 cm x 26.6 cm Capa dura com CD de gravação de som e música gravada durante a viagem ISBN: 978-3-86521-371-6 www.steidlville.com


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Sophie Calle Objectivar a dor criando Arte

Autora de algumas das mais singulares e desconcertantes obras de arte plásticas da actualidade, Sophie Calle foi, com «Prenez soin de vous», a representante francesa na última edição da Bienal de Veneza. Agora, de regresso a Paris, exibe na Bibliothèque Nationale de France a referida obra, criando com mestria novas oportunidades de atestar como pode o sofrimento ser objectivado e, mais importante do que isso, transformado em obra de Arte.

Texto de Susana Paiva Fotografias gentilmente cedidas por Bibliothèque Nationale de France Retrato de Sophie Calle da autoria de Jean Baptiste Mondino


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á 30 anos que Sophie Calle transforma publicamente a sua intimidade e vida afectiva em obras de arte, prática que lhe tem valido tão grande número de admiradores quanto de críticos. Debruçando-se sobre a sua esfera íntima, onde ao público não é possível traçar fronteira entre real e imaginário, talvez nunca venha a ser possível alcançar consenso sobre a validade da sua obra. De qualquer modo talvez não seja condição necessária o público saber a veracidade das suas premissas, digam elas respeito a rupturas amorosas, perda de entes queridos ou outros desaires emocionais, dado todos elas reflectirem uma certa universalidade em que cada um dos espectadores se poderá projectar. É precisamente nesse grande espaço de reflexão e projecção que reside o magnetismo da obra de Sophie Calle, o segredo do seu sucesso e, em última instância, a razão pela qual, ainda que subsista a dúvida da credibilidade, nos sentimos tão atraídos pelas suas desconcertantes propostas artísticas. Há na sua obra a dimensão de uma humanidade por vezes obnubilada pela Arte, um espaço para o humano tal como ele é, com as suas fragilidades, as suas feridas afectivas mas também com a sua generosidade e enorme capacidade criativa para ultrapassar adversidades. Em «Prenez soin de vous», derradeiras palavras de uma inesperada e dolorosa carta de ruptura que Sophie Calle recebeu via correio electrónico, a artista comprova isso mesmo ao fazer interpretar a referida carta por 107 mulheres de diferentes idades e profissões.. Longe de se tornar num objecto estéril onde, através do coro das mais de 100 vozes, se destila a mágoa de uma mulher face à incapacidade de responder à carta do seu amante, o projecto que Sophie Calle agora expõe na Bibliothèque Nationale de France (BNF) revela-se um objecto maior onde a pluralidade de interpretações dá lugar, entre tragédia e comédia, a interessantes performances

em campos artísticos tão diversos como a literatura, a dança, o canto lírico e o teatro sem esquecer todas as outras que são fruto de análise de disciplinas científicas ou territórios académicos como os da consultoria matrimonial, da psiquiatria, da grafologia ou do direito. Instalada na histórica Sala Labrouste, infra-estrutura da BNF fechada ao público nos últimos dez anos, a exposição comissariada e instalada in situ por Daniel Burren – comissário da exposição original apresentada durante a Bienal de Veneza de 2007 e seleccionado por Sophie Calle entre os mais de 200 candidatos que responderam ao seu anúncio nos jornais: «Sophie Calle, artista seleccionada para representar a França na 52° Bienal de Veneza, procura um candidato entusiasta para comissariar a sua exposição. Pedem-se referências. Honorários a negociar» – materializa com elegância os vídeos, fotografias e livros produzidos no âmbito do projecto, deixando ao visitante a sensação de mergulhar num universo pessoal ao qual apenas ele tem acesso. Entre os múltiplos registos desta falsa intimidade pontuam interpretações de muitas figuras públicas, entre as quais Maria de Medeiros e Mísia – ambas a residir em Paris –, que criam performances antagónicas, onde à tranquilidade da actriz Maria de Medeiros lendo a carta deitada numa chaise longue se contrapõe o inflamado registo de Mísia, onde segundo a fadista se revela impossível a interpretação à luz do fado da referida carta de ruptura. Dois bons exemplos da teoria que a artista enquanto agente provocador parece querer afirmar – que na esfera das emoções e dos afectos não há racionalização e homogeneização possível. � Sophie Calle «Prenez soin de vous» Bibliothèque nationale de France 58 Rue de Richelieu, 75002 Paris 3a a sábado, 10h-20h, domingos, 12h-20h, horário alargado à 5ª, até às 22h Até 8 de Junho

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«Topologies», de Edgar Martins

Morfologias do real

Tal como em Robert Adams é nos livros que melhor se revela a força da obra de Edgar Martins.As suas séries fotográficas ensaiam poderosas narrativas e, tal como em Adams, encontram na edição um espaço de expressão onde se activa o poder literário do médium, estimulando a interacção e um diálogo criadores de novas e efectivas ligações que agudizam a percepção e extensão da vivência estética do leitor. Ideias de força que não passaram despercebidas à Aperture Foundation que edita agora o seu livro «Topologies», uma excelente obra disponível mundialmente já a partir deste mês.

Texto de Susana Paiva Imagens gentilmente cedidas por Edgar Martins

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dgar Martins não receia o «belo». Tal como o fotógrafo Robert Adams não receia protagonizar uma possível contra-corrente na fotografia contemporânea, produzindo imagens que enfatizam valores tradicionais da estética com a «beleza» como virtude a aspirar. Nas suas imagens, simultaneamente clássicas e contemporâneas, Martins consegue recapitular a história, criando imagens que utilizam as mais antigas estratégias pictóricas para expressar uma forma nostálgica de ver e registar a paisagem, e ser um criador do seu tempo ao imbuir o seu trabalho de espantosas qualidades abstractas e de uma carga política traduzida na ansiedade reveladora do tempo em que vivemos. As suas séries apresentam frequentemente características distintas que revelam diferentes níveis de envolvimento com as tradições «Landscapes Beyond AA» �������

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«Landscapes Beyond Part 2»

históricas. Algumas fotografias são provas do mundo tal como o conhecemos enquanto outras, na opinião de John Beardsley, «obscurecem o seu sujeito através de um ilusionismo que tange a magia». As fotografias dos grandes maciços gelados mostram a sua tendência para a tradição pictorialista, revelando o artista que, tal como um explorador, cria um inventário de montanhas, rios e campos gelados com recurso a uma paleta de cores onde apenas pontuam o cinzento, o castanho, o branco e por vezes o azul.Algumas das suas imagens apresentam-se em apenas dois tons, onde sépia e cinzento parecem sugerir imagens coloridas manualmente o que, de certa forma, é verdade já que o tons creme do céu são obtidos através de uma pré-exposição da película à luz, produzindo assim um efeito de véu que acaba por ser percepcionado como uma suave tonalidade sépia. Obtendo as imagens com recurso a uma «Landscapes Beyond Part 2» �������

lente grande angular numa câmera grande formato montada em tripé, técnica um pouco anacrónica que Edgar Martins reconhece ser «uma forma pouco espontânea de trabalhar, muito estática e premeditada», esta metodologia serve na perfeição os seus projectos cujo discurso teórico é tão forte e consistente como a técnica fotográfica. Nas imagens dos fogos florestais, captadas em Portugal em 2005 e em 2006, Edgar Martins atinge na sua obra o apogeu dos efeitos da pintura, sobretudo na imagem onde o verde da vegetação é invadido por chamas, vendo-se o seu reflexo na água. Contudo, neste caso, a sua intenção não é apenas pictórica, existindo subjacente uma ansiedade reveladora dos efeitos da seca e do extremo calor, indícios que poderão ser lidos como sinal da clara mudança climática global, bem como consequência de uma má gestão florestal, conivente com a «Landscapes Beyond Part 2» �������


33 «The Accidental Theorist 2�� �������

«The Rehearsal of space 9» �������

«The Accidental Theorist 22» �������

«The Accidental Theorist 20» �������

plantação maciça de eucaliptos, espécie que para além de esgotar os recursos do solo se apresenta como altamente inflamável. Não obstante a beleza das suas imagens dos fogos florestais, é na série «The Accidental Theorist», reunindo imagens captadas em 2005 e 2007, que o documentarista Edgar Martins se transforma em ilusionista, materializando o estado entre sonho e despertar que André Breton caracterizou no seu manifesto de 1924 como «um género de realidade absoluta, uma surrealidade se assim se pode dizer». Revelando as incongruências e inconsistências de quando, à noite, a cidade encontra o oceano, Martins trabalha «num terceiro espaço – entre realidade e representação». Há ainda, nas suas imagens nocturnas da praia, um outro subtil elo com o surrealismo – a presença do «object trouvé», o objecto encontrado, que segundo «The Accidental Theorist 23» �������

«Hidden 1» �������

«Hidden 3» �������

Breton podia liberar a imaginação artística, ������� «The Rehearsal of space 10» exprimindo o maravilhoso e constituindo-se como um dos atributos de uma beleza que apelidou de convulsiva. Seja em «Landscapes Beyond», «The Burden of Proof», «The Rehearsal of Space», «The Accidental Theorist», «Approaches» ou em «Hidden» – as seis séries que Edgar Martins apresenta na obra que acabou de editar - a realidade é que todas as imagens publicadas cabem no conceito de “topologia” que escolheu para titular o livro, ora porque remetem para o estudo das propriedades das formas geométricas que se mantêm invariáveis sob certas transformações – como dobrar, esticar ou torcer – ora porque remetem para o estudo das modificações que ocorrem ao longo do tempo, mostrando assim como essas alterações afectam a história de um lugar. � «Hidden 4» �������

«Topologies», de Edgar Martins Capa dura com sobrecapa impressa, 75 imagens em quadricromia, 136 Páginas. Editado por Aperture, Nova Iorque www.aperture.org


Exhibition Road

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Exhibition Road

Onde arte e ciência se cruzam Texto e fotografia de Susana Paiva

oncebo ser o dever de toda a pessoa educada estudar e observar cuidadosamente o tempo em que vive», declarou o Príncipe Albert no discurso proferido a 11 de Outubro de 1849, na cidade de Londres, durante num banquete concedido por Lord Mayor. Nesse discurso, acentuando a importância da ciência, bem como as suas relações com a arte, apresentava «The Great Exhibition», o grandioso projecto expositivo materializado, dois anos mais tarde, em Hyde Park. Mercê dessa visão, «plena de ambição intelectual, inventividade e energia», e graças ao enorme sucesso da Grande Exposição de 1851, cujos lucros foram investidos na compra de 400 metros quadrados de terreno em South Kensignton, nasce “Exhibition Road”, «um centro nacional permanente para a educação pública». Em poucas décadas, com o apoio da Comissão da Exposição de 1851, o local tornou-se a casa de um extraordinário conjunto de reputadas instituições. Hoje, South Kensignton é um dos maiores e mais importantes centros artísticos e científicos de educação pública a nível mundial.Aí, no coração de South Kensington, se reunem três importantes museus nacionais: o Natural History Museum, o Science Museum e o Victoria and Albert Museum. No mais, aí se encontram três universidades – o Imperial College, o Royal College of Art e o Royal College of Music –, e múltiplas instituições culturais, incluindo o English National Ballet, o Royal Albert Hall e a Serpentine Gallery. Conjuntamente, estas instituições de índole variada atraem todos os anos cerca de dez milhões de visitantes, tornando a área um dos destinos culturais mais importantes de Londres. Representando o espectro total da criatividade humana, através das artes e das ciências, essas instituições representam igualmente o compromisso nacional de acesso público à cultura e educação – algo que já os Victorianos sabiam essencial para uma sociedade saudável. Actualmente, volvidos mais de 150 anos, “Exhibition Road” - actualmente conhecida como a “auto-estrada da educação” - superou as expectativas de todos quanto o projectaram e, mais do que um centro de educação nacional, transformou-se numa prestigiada referência internacional, atraindo visitantes de todas as nacionalidades que enchem, dia após dia, o Victoria & Albert e os Museus de História Natural e da Ciência. Três universos gigantes onde, gratuitamente, milhões de visitantes de todas as idades se deslumbram com as colecções permanentes enquanto muitos outros não prescidem de visitar as exposições temporárias onde, como no caso do Museu de História Natural, brilha o universo dos dinaussauros mecânicos e o famigerado T-Rex. �

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Documenta 12

Documenta 12 O museu dos 100 dias

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Encerradas as portas da 12ª edição da Documenta, no passado dia 23 de Setembro, a pacata cidade de Kassel regressa à normalidade enquanto decorre a contagem decrescente para a inauguração da próxima edição, agendada para 9 de Junho de 2012. Considerada como uma das mais importantes manifestações de arte contemporânea a nível mundial, a Documenta realiza-se desde 1955 em Kassel na Alemanha, regendo-se por critérios de alternância, a cada cinco anos, da equipa artística, que este ano contou com os alemães Roger M. Buergel e Ruth Noack, ele como director artístico, ela enquanto comissária da exposição. Fundada no período pós-II Guerra Mundial pelo artista e educador Arnold Bode, como forma de abrir a Alemanha ao mundo, o evento cedo assumiu por missão mostrar arte contemporânea das mais diversas regiões do mundo relacionando entre si as diferentes obras expostas. Concebida como uma experiência estética e educacional, a Documenta 12 apresentou exposições em diver-

sos locais e estruturas da cidade das quais se destacam os seculares Museum Fredericianum e Neue Galerie, bem como os modernos Documenta-Halle e Aue-Pavillon – uma estrutura efémera de 9500 metros quadrados, construída especialmente para aumentar o espaço expositivo normalmente oferecido pela cidade. Também designada, dada a sua duração, como “museu dos 100 dias”, a Documenta apresentou nesta edição mais de 500 obras de arte, realizadas por 109 artistas de 43 países, e beneficiou de um orçamento 19 milhões de euros, metade dos quais suportados pela cidade de Kassel, pela região de Hesse e pela Federal Cultural Fondation. Com um crescimento de 16% de entradas pagas relativamente à última edição, foram contabilizadas 754.301 visitantes na Documenta 12 tendo o evento sido coberto por 15.537 jornalistas originários de 52 países. Texto e fotografias de Susana Paiva

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Portfolio Susana Paiva