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CHAPADA DIAMANTINA

UM UNIVERSO IMPRESSIONANTE DE ATRATIVOS, BIOMAS E CENÁRIOS CORTADOS POR INÚMERAS TRILHAS DE ANTIGOS GARIMPEIROS

MERGULHO PATAGÔNIA ARGENTINA CICLOVIAGEM LAGAMAR (SP/PR) VIDA AO AR LIVRE GO LIGHT!

ENSAIO FOTOGRÁFICO

MEIO AMBIENTE

DESIGN SUSTENTÁVEL PARTICIPAÇÃO POLÍTICA Aventura & Ação | 1

AGO/SET/2012 | Nº171| R$13,90

CONFIRA O ENSAIO DO FOTÓGRAFO RUI REZENDE QUE TRAZ UM OLHAR BASTANTE CRIATIVO SOBRE UMA CHAPADA DIAMANTINA DESCONHECIDA


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MEIO AMBIENTE

turismo de aventura PUBLISHER

Ricardo Betioli Contel ricardo@aventuraeacao.com.br

Conselho editorial

André Dib, Caio Vilela, Daniel Cotellessa, Janine Cardoso, Lucila Egydio

redação

Editora Camila Natalino Fróis (MTB 53961/SP) camila.frois@aventuraeacao.com.br Revisor Danilo Gonçalves

38 Especial Capa

Chapada Diamantina (BA) - O repórter fotográfico Tom Alves passou um mês inteiro na Chapada Diamantina para trazer um roteiro clássico que não deixa dúvidas sobre por que esse é o mais celebrado destino de aventura do País

arte

Diagramador João Domingos Lança Mapas Jonatha Jünge

Consultores

Canoagem Christian Fuchs Cicloviagem Eliana Garcia Escalada Edemilson Padilha Travessia Jorge Soto Mergulho Sandro Cesar Meio Ambiente Lucila Egydio e Marianne Costa

comercial

Ricardo Betioli Contel ricardo@aventuraeacao.com.br

Gerência

Financeiro Michelle Maciel michelle.maciel@aventuraeacao.com.br

fale conosco Assinaturas assinatura@aventuraeacao.com.br Horário de atendimento: das 9h às 18h (11) 3021-4580 Atendimento ao leitor atendimento@aventuraeacao.com.br

Números atrasados e assinaturas

Números atrasados (ao preço do último exemplar) e assinaturas devem ser solicitados a Aventura e Ação Comunicação LTDA-ME. Rua Calçada Antares, 249 – Sala 11. CEP: 06541-065 – Santana do Parnaíba (SP) ou pelo telefone (11) 3021-4580. A revista Aventura&Ação é uma publicação da Aventura e Ação Comunicação LTDA-ME, ISSN 1516-3997. Esta edição, 170JUN/JUL tem como jornalista responsável Camila Natalino Fróis (MTB 53961/SP). Artigos assinados não representam necessariamente a opinião da revista. Impressão: D’Arthy Editora e Gráfica Ltda Distribuição: DINAP Filiada à ANATEC www.aventuraeacao.com.br Nossa missão: Ser referência no segmento de aventura e democratizar sua prática de forma responsável

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16 Azimute 18 Promoção Rota das Emoções 20 Consumo 22 Desafio Aysén (Chile) 61 Escalada Nordeste

Capa: Clássica paisagem do Pai Inácio Chapada Diamantina (BA) Foto: Tom Alves

30 Entrevista

Jean Claude Razel - À frente da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura – ABETA, o alpinista francês radicado no Brasil defende o fomento da cultura da vida ao ar livre como uma alternativa à vida do ar condicionado, do shopping center ou do videogame. Para o empresário, que já viajou por mais de 60 países, o Brasil tem potencial para ser uma referência mundial em turismo de natureza


72 Mergulho

Puerto Madryn - Na Patagônia Argentina, os mares do Pacífico ganham ares de berçário natural e convidam os visitantes a um irrecusável mergulho com os simpáticos lobos marinhos, uma experiência inesquecível

64 Cicloviagem

Lagamar - O tranquilo pedal à beira-mar, com direito a sol e brisa no recortado litoral do complexo estuarino entre São Paulo e Paraná, é uma ótima pedida para quem quer estrear no mundo das viagens de bicicleta

78 Ensaio Fotográfico

Chapada Diamantina por outros ângulos - Depois de treze anos vasculhando todos os limites desse paraíso baiano, o fotógrafo Rui Rezende lançou uma obra impressionante e inusitada sobre a Chapada, incluindo inacreditáveis atrativos além dos cartões-postais. Nesse ensaio, trazemos apenas uma amostra desse trabalho baseado em um olhar poético, criativo e aguçado sobre a região

Crédito: A Casa Alternativa

sustentabilidade 88 Design Sustentável

All we need is criatividade - Quer dar uma renovada na decoração? Não se esqueça que sustentabilidade começa em casa. Abuse do bom gosto e das dicas dos designers mais descolados para reformar o que já tem e conseguir um estilo romântico, retro, vintage, rústico ou aconchegante, com muita personalidade e sem desperdiçar recursos

94 Inspiração

Participação Política - Na coluna dessa edição, Lucila Egydio aproveitou o momento das campanhas políticas municipais para trazer uma reflexão sobre o conceito de democracia participativa e a inspiração do Mandato Coletivo de Cáceres, no Mato Grosso, um exemplo inovador de cidadania

REPESCAGEM Dê uma segunda chance para os objetos que iam para o lixo, como os caixotes de feira, e use e abuse da criatividade para montar ambientes cheio de estilo

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PAIXÃO NACIONAL A

esse é um típico destino de muitas viagens. O que trazemos nessa edição, acredite, é apenas uma compilação do crème de la crème da Chapada baiana. E ainda, um ensaio do fotógrafo Rui Rezende, que há treze anos tem vasculhado cada canto da região e nos premia com um trabalho extremamente sensível e pouco óbvio sobre uma face inexplorada da Chapada Diamantina. Prestigie também a pauta de mergulho na Patagônia Argentina, que nos convida a cair na água com os simpáticos lobos-marinhos e uma cicloviagem à beira-mar, com muito sol, brisa e Mata Atlântica por incríveis ilhas entre São Paulo e Paraná. No caderno socioambiental, o destaque é a pauta de design sustentável que traz dicas para quem quer dar uma repaginada na decoração do lar doce lar, com muito estilo e personalidade utilizando recursos inusitados. E mais: em seu novo artigo, Lucila Egydio traz uma reflexão sobre cidadania e democracia participativa, em tempos de eleições municipais. Boa leitura! Camila Natalino Fróis e Ricardo Betioli Contel

Foto: Rui Rezende

edição que o senhor leitor tem em mãos é uma homenagem rasgada a um destino de natureza que, entre os amantes da vida outdoor, é uma paixão nacional tão inquestionável quanto futebol, carnaval ou cerveja para o “brasileiro padrão”, com o perdão do comparativo. Pode parecer exagero, mas existem poucos destinos tão unânimes quanto os recônditos da Chapada Diamantina e o seu célebre Vale do Pati, palco do mais popular trekking do País. Para se ter uma ideia, realizamos recentemente um concurso para premiar o melhor relato de aventura dos participantes. Mais da metade dos concorrentes nos contaram suas peripécias pelas trilhas Lençóis, Capão, Andaraí e Mucugê... Apesar de estarmos falando de um lugar tão comentado, a Aventura&Ação devia ainda aos leitores uma pauta mais completa, clássica e visual desse roteiro fascinante. Por isso, além de termos nos rendido à imperdível travessia do Pati, o repórter fotográfico Tom Alves se estendeu por mais de um mês nos limites da Chapada embrenhando-se pelas trilhas, cavernas, setores de escalada e cachoeiras mais comentadas das faces norte e sul. Ainda assim, o tempo e as quase 30 páginas da revista nos pareceram pouco, pois

CACHOEIRA DO HERCULANO Em Itaetê, a queda é um atrativo pouco conhecido da Chapada Diamantina, registrada pelo fotógrafo Rui Rezende que vasculhou o destino por mais de uma década em busca dos melhores angulos e segredos do lugar 12 | Aventura & Ação


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MEIO AMBIENTE cartas CHAPADA DOS VEADEIROS PARA EXPLORAR MAIS Realmente, a Chapada Goiana ainda tem muito a ser explorado! Além dos roteiros clássicos, dá pra encarar muitas travessias supreendentes. Cada vez que visito, volto mais apaixonado. Obrigada pela reportagem, me deu vontade de explorar mais. O pessoal do Ecomotion manda muito! Cleber Vilasboas Brasilia-DF PROJETOS FUTUROS Que vontade de criar coragem para encarar uma prova como o Ecomotion e passar por lugares alucinantes como esse, em clima de competição. Falta treinamento, mas está na minha caixinha de projetos futuros. Amanda Oliveira Salvador-BA PARQUE DAS EMAS Que lindo esse lugar! Moro em Goiás e adoro natureza, já tinha ouvido falar, mas ainda não conheço! Vou me pro-

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gramar, com certeza. Parabéns pelas imagens! Paula Anchieta Belo Horizonte-MG TOCANTINS DESTINO DE MUITAS VIAGENS Coisa de cinema mesmo! Muita gente se restringe a conhecer o Jalapão, que, é, com certeza, um roteiro incrível, mas o que poucos sabem é que o estado tem destinos, estrutura e atrativos para muitas viagens. O Cantão é um exemplo e as fotos estão demais. A reportagem ficou show! Paulo Medeiros Palmas-TO CICLOVIAGEM INSPIRAÇÃO Inspiradora essa pauta. Tenho vontade de sair por aí pedalando e sentindo a brisa no rosto em meio a esses cenários fantásticos brasileiros. Já fiz algumas viagens mais curtas, mas o sul me pareceu uma ótima opção para um roteiro mais pretensioso.

edição anterior nº 170

ERRATA CAVALCANTE A foto abaixo, publicada na edição passada na reportagem de capa, “Goiás, muito além da Chapada”, na página 43, não fica no Parque das Emas, mas em Cavalcante, Chapada dos Veadeiros.


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Foto DU ZUPPANI

MEIO AMBIENTE AZIMUTE

Uma das praias mais cobiçadas do litoral norte baiano serviu de cenário para a prova que desafiou

Mostra

Revela Bertioga

A

CLICK MATA ATLÂNTICA Mangue do Rio Itapanhaú, bromélia clicada no Parque das Neblinas e fotógrafo Palê Zuppani cruzando o Rio Jaguareguava 16 | Aventura & Ação

lém de cobiçadas praias de mar azul e areia clara, a popular Bertioga, que ficou conhecida pelo requinte do empreendimento da Riviera, revela uma face surpreendente para os interessados na fantástica combinação entre mar e Mata Atlântica. Uma ótima oportunidade para desvendar o destino, a cerca de uma hora da capital paulista, é aproveitar a mostra fotográfica Revela Bertioga que vai acontecer de 28 de novembro a 2 de dezembro. Durante esses dias, a cidade vai sediar workshops, exposições, oficinas e expedições fotográficas pela região, incluindo o pouco explorado Parque das Neblinas. Atualmente, o município já recebe expedições organizadas pelo experiente fotógrafo de natureza Du Zuppani, mas a proposta é que a cidade passe a ser um importante destino de fotografia no Sudeste. Potencial é o que não falta. Mais informações: Casa da Cultura Bertioga (13) 3317-4060.


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RESULTADO Concurso cultural

Rota das Emoções

Crédito das fotos: Denise Stehling

MEIO AMBIENTE

Na edição 168, lançamos um concurso cultural: quem relatasse a melhor aventura ganharia uma viagem com direito a acompanhante para a Rota das Emoções, um roteiro que inclui atrativos de três estados: Maranhão, Piauí e Ceará. Está aqui a nossa prestação contas! O mineiro Luciano Stehling, de Juiz de Fora, vai encarar sua nova aventura em breve. Abaixo, um resumo do relato de sua viagem de carro pela Chapada Diamantina (coincidentemente o destino de capa da edição). Do sertão ao litoral

As aventuras de “paga fogo” pela Bahia Nossa missão ao sair de Juiz de Fora, Minas Gerais, era chegarmos a salvo e com pique para aventura na Chapada Diamantina em nosso incansável Jeep Toyota Bandeirante. Para tal missão estávamos equipados com um mapa rodoviário, barraca automotiva e de chão, algumas ferramentas essenciais, alimentos, fogão e muita disposição. O nosso único compromisso era o de ser feliz e cumprir a missão de viajar, contemplar e interagir com as pessoas e com as paisagens. Ao chegar em Lençóis, portal da Chapada Diamantina, assim que nos instalamos um camping, saímos entusiasmados para fazer o reconhecimento da região, mas demos de cara com um incêndio em uma residência, que recepção! Sem pestanejar, tomei a iniciativa de apagar o fogo, mobilizei algumas pessoas que passavam, consegui uma escada, pulamos o muro e apagamos o princípio de incêndio da casa da Dona Antônia, que se tornou uma grande amiga. Acabei ganhando 18 | Aventura & Ação

Aventura Baiana Luciano e sua esposa Denise durante viagem pela Chapada Diamantina

o apelido carinhoso de “paga fogo” que carreguei pro resto da viagem. Tudo certo, se não tem bons imprevistos, não é uma boa aventura! Depois do rápido apuro, conseguimos um mapa da região e, aproveitando algumas dicas de revistas e agências de turismo, juntamos fôlego para encarar a trilha Guiné/Capão, no cobiçado Vale do Pati/Gerais do Vieira. Ao todo, percorremos em torno de 70 km durante quatro dias, pernoitando em casas de nativos, preparando nosso alimento e condicionando o corpo e a mente para os dia de longas pernadas. E sem lenga, lenga! A nossa máxima é que corpo humano é um artigo cuja vida útil é às avessas, quanto mais se usa e se movimenta, melhor fica! Tem muita gente que prefere “viajar” pela internet e deixa de testemunhar ao vivo e a cores as belezas naturais e histórias indescritíveis, por pura preguiça de colocar a máquina corpo pra trabalhar. Não é o nosso caso! Concluída a travessia Guiné/Ca-

pão começamos a explorar os outros diversos roteiros turísticos da Chapada Diamantina. Em Mucugê se era hora de se despedir do sertão e nos render aos prazeres do sem igual litoral sul da Bahia. Atraídos por Iemanjá, buscando mar e sol, cruzamos as abençoadas cidades do litoral baiano. Passamos por Vitória, no Espirito Santo, e finalizamos finalmente a expedição em nosso ponto de partida. Foram 5200 km rodados em 38 dias abusando das estratégias instintivas de sobrevivência, fortalecendo nossos relacionamentos individual, familiar e coletivo. Aprendemos que para viajar e aproveitar o que a vida nos dá de graça, basta ser econômico, ecológico e estratégico, sendo simples nas escolhas e solidário com o seu próximo e com a vida. Parabéns Luciano e boa viagem! Ficamos no aguardo do relato sobre a Rota das Emoções.


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consumo MEIO AMBIENTE

CONQUISTA Calça Bermuda Homobori

Foi desenvolvida para performance extrema, pois é fabricada com um tecido de poliamida, durável, leve e confortável, que proporciona alta dispersão de calor, diminuindo a formação de suor e deixando o corpo refrigerado. Possui bolsos traseiros, frontais e bolsos cargo nas laterais. Todos com fechamento em velcro para serem práticos de acessar. É um daqueles modelos fáceis de transformar em bermuda, mas o zipper é feito com lapela dupla para que não incomode a pele da sua perna inferior para poder vestir. Já vem com cinto e elástico na cintura para facilitar o ajuste. E também com alargador no gancho para não impedir os movimentos. Preço sugerido: 179,90 www.conquistamontanhismo.com.br

TRILHAS E RUMOS Mochila Crampon 21 A mochila mista é ideal para o dia-a-dia ou caminhadas leves. O modelo tem costas acolchoadas e ventiladas, alças anatômicas, alça de mão, cinturão e fita peitoral para maior conforto no uso. Feita em tecido de alta resistência, a abertura superior da mochila possibilita o uso para livros e notebooks. Já o bolso interno é ideal para suporte de sistema de hidratação (garrafas e cantis não incluídos). A mochila vem com capa de chuva embutida e tem capacidade de 21 litros. Preço sugerido: 128 www.trilhaserumos.com.br

GUEPARDO Lampião Recarregável 9W Super Shine

O lindo design é inspirado nos tradicionais lampiões que iluminavam as noites nas casas e fazendas antes da rede elétrica. A tecnologia é a mais moderna possível, proporcionando alta funcionalidade e praticidade, perfeito para as expedições ao ar livre. Produzido com ABS super resistente, o lampião recarregável Super Shine possui lâmpada de 9W com alta potência de iluminação (6 horas). Recarregável tanto na energia elétrica (Bivolt) quanto em 12V (carro). É resistente à água e pesa 1,036kg. Preço sugerido: 114,50 www.guepardo.net

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PEZZUTO TELECOM Headlamp Flashlight Torch

Muita práticas as lanternas de cabeça são perfeitas para as travessias, exploração de grutas ou escalada ou em qualquer aventura em que ter as mãos livres faz toda a diferença. A opção da Torch, comercializada pela Pezzuto tem de 300 a 1000 lumens. Funciona com baterias recarregáveis de alta capacidade - 3,7 v. 3000 ma, ou com 3 pilhas palito AAA comuns também recarregáveis. Possui ajuste de foco para perto ou longa distância, recarregador de bateria, vários ajustes de luminosidade, lâmpadas de led de alta capacidade e se destaca pela durabilidade. Preço sugerido: R$ 69,00 www.pezzutotelecom.com.br Tel: +55 16 3610 7434


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MEIO AMBIENTE

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Brasil

no Desafio

Aysén invernal Isolada do resto do Chile por imensos campos de gelo, a inexplorada região de Aysén atraiu 36 equipes para o desafio invernal. Entre elas estava a brasileira Quasar Lontra, que encarou trekking na neve, mountain biking e canoagem. Textos e fotos Jonatha Junge

C

huva, neve, vento, dias curtos e frio, muito frio. A previsão do tempo indicava temperatura máxima de 0ºC e mínima por volta de -10ºC durante o Desafio Aysén Invernal 2012, que aconteceu entre 16 e 18 de agosto na Patagônia Chilena. Mesmo com essas perspectivas, ousados atletas de quase toda a América Latina lançaram-se em uma das regiões menos exploradas do país para encarar 160 km de percurso em pleno rigoroso inverno austral. Entre as equipes, os brasileiros Rafael Campos e Ricardo “Xuxa” Tamaoki, da Quasar Lontra, seguraram um ritmo forte no remo e na bicicleta, mas perderam posições no trekking com até um metro de neve, onde era necessário correr com as “raquetes” (os snow shoes que evitam que seu pé afunde na neve fofa). Mesmo assim, Rafael celebrou a chegada. “O maior ganho está na qualidade e inten-

sidade de situações vividas. Conhecemos pessoas de culturas diferentes, lugares que poucos visitaram e passamos por situações que nos provam o quanto somos capazes de superar adversidades. Tudo em apenas dois dias!”. O Desafio Aysén ocorre duas vezes por ano em suas edições de verão (janeiro) e inverno (agosto), em categorias para atletas experientes (expertos) e corredores iniciantes (aventureiros). É uma ótima opção para quem quer se desafiar em uma corrida de aventura de nível internacional e ainda desfrutar os cenários da região, que está entre montanhas, pampas, rios gelados e lagos, no coração da Cordilheira dos Andes. Aysén está separada da décima segunda região de Magallanes, a última do continente, por um imenso campo de gelo, preservando paisagens primitivas que convidam a entusiasmantes jornadas ao ar livre. Aventura & Ação | 23


MEIO AMBIENTE cicloviagem

GEOGRAFIA

MODALIDADES Em sentido horário: moutain Bike em Cerro Negro, pelas estradas de rípio da Carretera Austral; remo no Lago Pollux, com margens estavam congeladas; trekking pesado e de difícil navegação pela neve, principal desafio para os brasileiros na prova. Na página ao lado, canoagem no Lago Pollux. Aapós uma noite de descanso numa vila da região, os atletas largaram na madrugada para encarar o frio patagônico de caiaque. Em destaque Xuxa e Rafael da Quasar Lontra. 24 | Aventura & Ação

A extensa e natural região de Aysén se caracteriza essencialmente por uma extraordinária e agreste geografia que acentua os contrastes de seus extensos bosques com a paisagem imponente das montanhas nevadas, que se reflete no verde esmeralda dos seus múltiplos lagos e caudalosos rios. Esta paisagem alcança uma dimensão diversa ao longo de toda a costa da região, a qual está cortada por inúmeros canais e fiordes até onde chegam os gelos milenares de seus inúmeros glaciares. O nome da região é de origem mapuche e significa “desmoronado”, uma referência a esses fiordes onde as montanhas da cordilheira terminam em lagos. Outra teoria sobre o nome Aysén remete à passagem de Charles Darwin e o capitão Robert Fitz Roy por ali. Eles teriam nomeado “ice end” a zona logo ao norte. Na internet www.desafioaysen.com


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foto Camila Natalino Fróis

MEIO AO VIDA AMBIENTE AR LIVRE

Go Light!

Travessia do Vale do Pati Um dos trekkings mais clássicos do País, com 60 km de percurso. A recomendação é que a mochila tenha no máximo 10KG para esse tipo de caminhada

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No último artigo do Especial Vida ao Ar Livre, o expert Antônio Calvo dá dicas para você aliviar o peso da mochila e aumentar o prazer das expedições na natureza, sem abrir mão da segurança. Arrisque um bivaque, deixe a parafernália tecnológica em casa, seja criativo, resgate técnicas tradicionais, customize seus equipamentos e seja feliz nas suas trilhas pelo mundo Texto Antônio Calvo Ilustrações Autorizadas por Mike Clelland de seu livro “Allen & Mikes’s Really Cool Backpacking’ Book: Traveling and Camping Skills for a Wilderness Environment”, 2001, Editora FalconGuide

N

o primeiro texto desse especial (edição 168), contei a história dos três dias de caminhada na Serra da Mantiqueira, optando por não levar barraca e sair com uma mochila de “apenas” 60 litros. Uma decisão estratégica para caminhar mais leve e desfrutar melhor os caminhos, vivenciar experiências mais intensas e autênticas na natureza e evitar o desgaste físico desnecessário. Para isso, é preciso descobrir quando vale a pena investir na tecnologia, quando é melhor optar pelas técnicas tradicionais, quando é preciso optar pela segurança, ou quando possível ser básico. Muitas vezes, quando fazemos travessias extensas, ao logo do caminho vamos descobrindo que precisamos de bem pouco para atender nossas necessidades primordiais. Com a experiência, vamos aprendendo o que é, de fato, essencial. Esse conceito simples ficou conhecido entre os mochilei-

ros de diferentes partes do mundo como o “Go Light” ou “Viaje Leve”. A febre pegou em países como os Estados Unidos, onde diversos fabricantes já produzem equipamentos com este propósito. É possível encontrar mochilas, sacos de dormir e casacos com tecidos mais finos – não menos resistentes – e, portanto, mais leves. O mesmo se aplica a fogareiros e outros equipamentos. Basta, porém, ser criativo para economizar dinheiro, pois muitas alternativas você pode encontrar em casa antes de sair para uma travessia. O mais importante neste processo é sempre lembrar que viajar mais leve não significa perder o conforto; a ideia, na verdade, é manter a comodidade e a segurança mesmo com uma quantidade menor de itens em sua mochila. O benefício mais óbvio é carregar uma mochila mais leve, o que torna todos os aspectos da viagem mais fáceis e mais divertidos.


Isso inclui Este é o método MAIS COMPLETO mas menos utilizado PESO TOTAL

Princípios básicos para uma mochila básica

1. Leve equipamento suficiente para ficar seguro, confortável e confiante O tipo de equipamento pode ser simples e básico, mas ainda assim precisa lhe prover abrigo, noites bem dormidas, vestuário com boa proteção contra as condições climáticas, alimentação adequada e purificação de água. Confiança também é importante, por isso, troque os seus equipamentos aos poucos e evite ser radical logo de primeira. 2. Saiba o peso de cada item Pese cada item antes de organizar a mochila, inclusive a própria mochila, calçados, vestuário etc.

TUDO! Roupas que irá vestir, calçados, meias e bastão de caminhada

Técnica da medição pelada

Ao comprar um produto, veja se é possível economizar alguns gramas optando por uma marca concorrente. Organize uma lista – pode ser a mesma sugerida na edição 168 (Montando a Mochila). Lembre-se que de grão em grão, a galinha enche (ou esvazia) o papo. Menos é sempre mais! 3. Sempre que possível utilize itens com múltiplas funções Um bom exemplo é a bandana que pode ser usada para proteger a nuca ou o rosto do sol (ou do frio), pode ser usada para higiene, como protetor de mãos ao pegar uma panela quente, como tecido para limpar óculos e muito mais. É um dos poucos itens de algodão bem-vindos na lista.

PESE TUDO o que é o mais leve?

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MEIO AO VIDA AMBIENTE AR LIVRE

4. Cuide primeiro dos itens pesados O maior potencial para economia de peso são os itens pesados como mochila, o sistema de dormir como saco de dormir e isolante térmico, abrigo, alimentação e sistema de cozinha como comida, fogareiro e água. 5. Quando escolher um equipamento, opte pelo menor tamanho que satisfaça as suas necessidades Equipamentos maiores normalmente são mais pesados que os menores.

Montanhista tradicional

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Montanhista superleve

6. Julgue a necessidade real de levar um equipamento respondendo a algumas perguntas É útil? É seguro? É leve? É compacto?


item por item

não

PESADO, mas um pouco mais confortável

SIM

LEVE, mas precisa de um tempinho para ajustar o conforto use a sua mochila como um isolante para os pés

colocado em baixo do torso

travesseiro

Mochila Quanto maior o número de bolsos numa mochila, maior será o seu peso. Também deve ser levado em consideração o tipo de tecido em sua fabricação. Eu adoro as mochilas tipo saco, aquelas que têm apenas um compartimento principal com, no máximo, dois bolsos na lateral externa e outro superior, nada mais. Alguns fabricantes adoram colocar diversas fitas de compressão e clipes para pendurar equipamentos, mas cuidado porque isso só acrescenta peso no produto! Abrigo É fácil entender porque a barraca é provavelmente o item mais pesado, então, antes de colocá-la nas costas certifique-se de que você precisa de uma! Por que não se hospedar sob um céu estrelado? Experimente acampar sob um toldo e aproveite para torná-lo multifunção (Princípio 3) pois, além de abrigo, um toldo bem montado serve também como área para a cozinha. Não se sentiu confortável com esta ideia? Uma alternativa são as barracas single wall de apenas um tecido, ou seja, você monta apenas o tecido que protege da chuva e do vento, deixando o mosquiteiro para trás. Sistema de dormir Opte pelos isolantes térmicos que protegem o tronco em detrimento daqueles de “corpo inteiro”. A melhor maneira de fazer isso é cortar um isolante de espuma no comprimento dos ombros aos joelhos. Já para os sacos de dormir, aproveite para levar um mais leve para temperaturas mais amenas e durma com todas as roupas que trouxe. Sistema de cozinha Espiriteiras são muito mais leves e compactas do que os fogareiros tradicionais. Utilize um corta-vento ao redor do fogo para não perder o calor e acelerar o processo. Opte por panelas sem cabo – neste caso você precisa de um pegador de panelas ou aquela bandana multifuncional. Utilize apenas uma colher, afinal, ela é muito mais multifunção que o garfo, ou você inventou uma técnica de tomar sopa de garfo? Cortante Deixe aquele canivete com kit de sobrevivência e alicate em casa. Além de ser um conjunto pesado, é desnecessário – confie em mim – você nunca usará todas as suas peças; portanto, esse não é um item que se encaixa na lista de multifuncionais vantajosos. Um canivete com apenas uma lâmina é o que você precisa.

3 Kg

450 g

LEMBRE-SE:

ao ar livre você talvez precise cortar um cordelete ou um pouco de esparadrapo...

Cachecol

Guardanapo

Bucha de cozinha

É isso aí!

Para limpar os óculos

Protetor contra o sol Lenço

Luva de cozinha

Protetor de óculos

loja virtual Armazém Aventura A loja virtual é especializada em compra e venda de equipamentos para aventura usados e ponta de estoque, comercializando equipamentos de montanhismo, camping, escalada, bike, livros, entre outros. Além de econômica, a prática de reutilizar é um dos princípios básicos da sustentabilidade, pois garante maior vida útil dos produtos e diminui a demanda dos recursos naturais. www.armazemaventura.com.br

Sobre o autor Antônio Calvo Formado em Ecologia, já atuou com corrida de aventuras e se formou como instrutor em Educação Experiencial ao Ar Livre da Outward Bound; (OBB), no Canadá. É instrutor de canoagem e guia de montanhismo formado pela Associação de Guias de Montanha Canadense. Trabalha no Brasil desde 2010, seguindo seus trabalhos na OBB e agora na loja de equipamentos Armazém Aventura.

Luz Escolha as lanternas de cabeça compactas com duas pilhas palito (AAA). Deixe em casa o holofote que herdou do avô, aquele que ilumina 100 metros e pesa uma tonelada. Navegação Aprenda a navegar com mapa e bússola para não levar o GPS caro de última geração. É muito mais gostoso “brincar” com um mapa topográfico do que ficar seguindo uma seta na tela do GPS. Aventura & Ação | 29


MEIO entrevista AMBIENTE

Jean-Claude Razel

Pela cultura da vida ao ar livre. Depois de quatro anos de gestão à frente da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (ABETA), o alpinista francês radicado no Brasil conta sobre o desafio do segmento para consolidar a cultura da vida ao ar livre no país das belezas tropicais e dos shopping centers. Por Camila Natalino Fróis

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“É preciso voltar ao verdadeiro valor das experiências, sentir, perceber, admirar, processar.”

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infância em Chamonix, nos Alpes franceses, despertou em Jean-Claude a sua contagiante paixão pelas viagens e a vida outdoor . Quando começou a andar já se lançava com o pai em suas pequenas expedições, onde aprendeu a esquiar, escalar, remar. Mais do que um delicioso passatempo, porém, as atividades de natureza ganharam um espaço privilegiado na vida de Jean-Claude. Depois de estudar Administração e Marketing na Ecole Supérieure de Commerce em Paris e rodar mais de 65 países, em 1997 ele escolheu o Brasil para viver e alimentar sua devoção pelas atividades de aventura. Com o expertise acumulado pelo mundo, fundou a Alaya Expedições, empresa referência no País, sediada em Brotas, interior de São Paulo. Em 15 anos, recorda com orgulho a liderança de uma expe-

dição ao Mont-Blanc com 12 brasileiros no cume no mesmo dia, a organização de uma corrida de aventura no Nordeste com 500 participantes de 16 nacionalidades, a abertura da longa via “Décadence avec Elégance” no Pico Maior de Salinas (estado do RJ) considerado um dos mais bonitos do Brasil e dois títulos mundiais de rafting à frente da seleção brasileira com seus condutores de Brotas. Nos últimos quatro anos, na presidência da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura – ABETA, Jean-Claude tem trabalhado pela profissionalização e crescimento do mercado. Atua na organização do setor junto aos empresários e dezenas de entidades governamentais, mas defende as mesmas experiências autênticas junto à natureza que marcaram sua infância e

DESERTOS Da esq. para dir.: Lençóis Maranhenses e escalada no Niger, um destino africano bastante inexplorado, nas proximidades do Saara Aventura & Ação | 31


FOTO Alexandre Cappi

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ATIVIDADES Acima, ao todo, JeanClaude montou mais de 50 percursos de arvorismo no País. Ao lado, o empresário a bordo de kaiak da Alaya Expedições, sua operadora sediada em Brotas-SP 32 | Aventura & Ação

motivaram suas viagens pelo mundo. “O Brasil não pode levar a sua febre consumista para as atividades de aventura! A natureza não é um fast food ! É preciso voltar ao verdadeiro valor das experiências, sentir, perceber, admirar, processar. No Brasil, ainda não cultivamos a cultura da vida ao ar livre”. Apesar da bronca, Jean-Claude é otimista. “Com uma biodiversidade como essa, o País ainda pode ser referência mundial em turismo de aventura e natureza.” Aventura&Ação: Depois de rodar tantos países, o que te instigou a se mudar para o Brasil? Jean-Claude Razel: Os grandes espaços e a sensação de que muito ainda era para ser feito em contraste com a Europa, onde muita coisa já esta pronta. No final das contas, tinha muito mais para se fazer do que imaginava!

você praticava na Europa e no mundo? JCR: Principalmente alpinismo, esqui e escalada em rocha e gelo. Tive enorme privilégio de conviver com grandes figuras da aventura e participar em muitas expedições entre 1985 e 1995, principalmente em destinos pouco explorados como Jordânia, Madagascar ou Zanskar. Também aproveitei o boom das atividades outdoor, por exemplo canionismo e corrida de aventura quando começaram, entre 80 e 90 respectivamente.

A&A. Com que idade começou a praticar atividades de natureza? JCR: Meu pai falou: sabe andar, sabe esquiar. Dito e feito!

A&A: Quais foram as principais dificuldades? JCR: Falta de gente qualificada, de equipamento, de procedimentos. Mas, de longe, o mais difícil foi a falta de cultura de vida ao ar livre. Para convencer o público

A&A: Quais as atividades de aventura

A&A: Empreender um negócio pioneiro em atividades outdoor foi uma aventura? JCR: Muito maior do que imaginava! Foi exultante e sofrido ao mesmo tempo! Fantástico do ponto de vista pessoal, difícil do ponto de vista empresarial!


a se render às atividades outdoor , levou muito mais tempo do que imaginava! A&A: Qual a proposta da ABETA para o turismo brasileiro? JCR: A entidade hoje representa 241 empresários de ecoturismo e turismo de aventura em 23 estados brasileiros. Nossa principal proposta tem sido promover, servir e qualificar o ecoturismo e turismo de aventura no Brasil. Hoje, além de uma cadeira permanente no Conselho Nacional de Turismo, temos parcerias fortes com diversas entidades e setores como a Embratur, o SEBRAE, CNC, o Ministério do Meio Ambiente, ICMBio, Braztoa, ABAV, fabricantes de equipamentos, mídias, feiras, etc. A ABETA tem hoje uma grande força institucional por ser uma entidade antenada, dinâmica, articulada e representativa do Brasil do século 21. A&A: Depois desse tempo de atuação, quais as principais conquistas da ABETA? JCR: A entidade teve um papel central na profissionalização do segmento com a criação das normas técnicas da ABNT

voltadas para as atividades de aventura. O Programa Aventura Segura é a maior iniciativa voltada ao fortalecimento, qualificação e estruturação do ecoturismo e Turismo de Aventura no Brasil. Com ele, 96 empresas já foram certificadas de um total de 130 avaliadas. Isso traz credibilidade e profissionalismo para o segmento. O Encontro Brasileiro de Ecoturismo e Turismo de Aventura- ABETA Summit , que vem sendo realizado há nove anos consagrou o segmento como um dos principais produtos do turismo nacional. Na comunicação, o site Viagem na Natureza (www.viagem-natureza.com.br) hoje é referência nacional em conteúdo de ecoturismo e turismo de aventura. A&A: Quais os benefícios do associativismo para o turismo brasileiro? JCR: O associativismo é a escola do diálogo. Nos municípios em que os atores do turismo estão organizados, conversam e estão alinhados, a chance do destino crescer, melhorar, aprimorar seus roteiros e ampliar seu público é incrivelmente maior. A&A: Vocês fizeram uma grande pesAventura & Ação | 33


MEIO entrevista AMBIENTE

quisa sobre o público-alvo da aventura no Brasil, que tem sido sempre atualizada. O que descobriram de interessante? JCR: Algumas coisas são óbvias. Os brasileiros que moram nas grandes cidades estão estressados, precisam fugir da rotina para sobreviver ao ritmo e ao caos em que vivem na maior parte do tempo. Agora algo importante que a pesquisa revelou é que essas pessoas, quando buscam os destinos de ecoturismo estão mais interessadas em atividades contemplativas do que programas mais esportivos. Poucas pessoas buscam na natureza atividades mais exigentes ou extremas.

APOSTA Com a diversidade de paisagens que o Brasil ostenta, Jean-Claude acredita que o País pode se tornar uma referência mundial em turismo de natureza 34 | Aventura & Ação

A&A: Você acredita que temos conseguido criar uma cultura da vida ao ar livre? JCR: É um processo longo, mas posso afirmar que conseguimos iniciá-lo! O maior papel da operadora de natureza, na verdade, é ser uma porta de entrada para uma vida mais saudável, com mais conexão com a natureza. É isso que temos feito: proporcionar uma primeira experiên-

cia positiva para que as pessoas se sintam instigadas a continuar. Se isso acontecer, a pessoa vai buscar clubes ou associações de esportistas para continuar praticando de forma independente aquela atividade. Isso é muito saudável, a mudança de hábitos, de qualidade de vida. Se um receptivo de turismo de aventura torna-se um agente do bem-estar para a sociedade, então ele proporciona um serviço muito valioso na época em que vivemos! A&A: Para você como é ser porta-voz desse segmento no Brasil? JCR: Para mim faz sentido ter este papel considerando a minha vivência e a minha filosofia de vida. Acredito no diálogo, no associativismo e na vida ao ar livre. No Brasil que nasce, com grande vigor econômico e obsessão pelo consumo, achei oportuno oferecer uma alternativa à vida do ar condicionado, do shopping center, do videogame, principalmente para as crianças. Nada contra essas atividades que fazem parte do nosso estilo de vida, mas devemos tomar cuidado com os exageros. Em um shopping, a experiência é da frus-


“Acredito no diálogo, no associativismo e na vida ao ar livre. No Brasil que nasce, com grande vigor econômico e obsessão pelo consumo, achei oportuno oferecer uma alternativa à vida do ar condicionado, do shopping center, do videogame.” tração porque quanto mais você compra, mais você precisa comprar! A turma do marketing é competente demais! Aquela experiência é muito efêmera, vazia de sentido, não te preenche. Um banho de cachoeira ou um pôr de sol é o contrário: intenso e repleto de sentido. Mas precisamos tomar cuidado e não banalizar as atividades de aventura, não transformá-las em uma experiência de shopping. Nós empresários estamos precisando tornar as experiências mais marcantes, mais transformadoras, nunca perder isso de vista. A&A: Você acredita que os lugares mais remotos nos permitem vivências mais intensas? JCR: Com certeza. Além disso, para

aproveitar o Brasil de verdade, não dá para ser aquele turista pipoca, que quer ver tudo correndo, ticar a sua lista. Isso é o contrario da experiência rica. Precisa ter tempo. O tempo é finito na duração mas infinito na intensidade. Aí está o segredo! A&A: É fácil vender o Brasil como um destino de aventura, ou ainda prevalece o estigma do país do samba e futebol? JCR: Esse estigma é positivo! Mas além disso, o Brasil deve também ser reconhecido como um destino de natureza exuberante, um país moderno, de gastronomia refinada, cultura variada. Isso é a surpresa boa de todo estrangeiro. O maior desafio, porém, é superar o estigma da violência. Isso sim é um problemão.

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MEIO AMBIENTE A&A: Como operador, qual a sensação de proporcionar uma autêntica experiência ao ar livre para uma pessoa que chega de um ambiente totalmente cosmopolita? JCR: É muito gratificante. Muitas vezes, as pessoas vivem grandes experiências, saem apaixonadas pelos lugares, renovadas e dispostas a mudar seus hábitos. Daí o seu trabalho faz todo o sentido. A&A: Qual a principal contribuição do turismo, especialmente do turismo de natureza para a economia brasileira? JCR: O turismo em números é a primeira indústria do mundo, fomentada por milhões de micro e pequenas empresas que tem uma capacidade gigantesca de geração de emprego e de renda. Qualquer atividade de natureza envolve ao menos uma pousada, uma operadora, um guia, um restaurante. O problema é que por ser um segmento muito pulverizado, acaba não tendo muita força política, é difícil haver interlocução com os governos. Assim, acabamos não conseguindo influenciar em questões importantes como a ambiental, por exemplo. Isso leva muito tempo. A&A: Como presidente da ABETA, quais as perspectivas para o setor nos próximos anos? JCR: Nós da ABETA estamos em um período de prestação de contas de todos os projetos que desenvolvemos nos útimos anos. Um trabalho enorme (porém previsto) que a equipe executiva, liderada pela Mariana Godinho, executa com excelência. Para o turismo de aventura, acredito que o momento é assentar tudo que foi feito. Vamos começar a sentir de forma mais efetiva as consequências positivas de todo o sério trabalho que foi desenvolvido nos últimos anos a favor do fortalecimento do setor. A&A: Você acredita que o potencial do País para as atividades outdoor é pouco explorado? JCR: Pouco sim. A questão não é pouco mas é como. Vai de encontro com a cultura. Se estimular os jovens, para frente vai crescer. Demora mas vai!

na internet www.abeta.tur.br www.viagem-natureza.com.br ADVENTURE SPORT FAIR Circuito de arvorismo montado pela ABETA durante a maior feira de aventura do País 36 | Aventura & Ação


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O mar virou sertão

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No interior do vibrante estado baiano, a Chapada Diamantina é um destino que vale por muitos. Cortado por antigas trilhas de garimpeiros que serpenteiam impressionantes serras e desfiladeiros, é um lugar de atrativos, lendas e biomas tão diversos como a Caatinga, o Cerrado e a Mata Atlântica. Não é por menos que exibe em seus limites o trekking mais bonito do Brasil: a travessia do Vale do Pati. Texto: Camila Fróis Fotos: Tom Alves

ATRATIVOS O Parque Nacional da Chapada Diamantina oferece um playground natural repleto de morros escarpados, cavernas, cânions, cachoeiras enormes, bromélias e rios de águas cristalinas

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C

omo em um oásis no deserto, na Chapada Diamantina os descampados baianos dão lugar a paisagens cercadas por muito verde, onde a água ora corre abundante por rios pedregosos entre cânions, ora se atira em saltos que formam poços de águas escuras, ou inunda diversas cavernas assumindo tons turquesas. Tanta fartura hídrica não é de hoje. Há cerca 1,3 bilhão de anos, a região onde está a Chapada já foi coberta pelo mar, por conta do choque de placas tectônicas. Com o tempo, rios e deltas desgastaram a crosta às margens do oceano que a recobriu e sumiu no tempo, transportando e depositando sedimento nos contrafortes das montanhas, vales e planícies. A ação dos rios e dos ventos acabou por moldar as paisagens únicas que arrematam os corações dos exploradores. A vegetação é igualmente intrigante. Desde a presente nos topos e nas bordas das serras do Sincorá e do Ancorado, passando por um minipantanal com fauna e flora próprias, até os brejos e matas dos vales que contrastam com as agruras do sertão baiano. E mais: tal espetáculo ultrapassa os limites do Parque Nacional da Chapada Diamantina e espalha-se pelo entorno de bucólicas cidadezinhas, que guardam a história da época do garimpo em ruas de pedras e construções do século 19. É por essas e outras que, durante muito tempo, em rankings informais que cismava promover entre amigos viajantes, aventureiros os mais diversos entusiastas dos paraísos outdoors, a Chapada baiana era quase sempre eleita como o crème de la crème do Brasil. É um desses destinos fatais, sabe como é? Daqueles que exercem fascínio incondicional nos que pisam suas terras. Não é à toa que acabou tornando-se ponto de encontro entre mochileiros dos quatro cantos do mundo. A minha expectativa para me tornar mais uma entre eles era do tamanho das paisagens que há algum tempo eu cultuava nas fotos. Por isso, ao desembarcar em Lençóis, a exatos 1823 km de São Paulo, eu sentia que aquele lugar tinha obrigação de me surpreender. A cidade porém, conquista o visitante aos poucos. A simplicidade do casario colorido e dos moradores contrasta com a complexidade de processos biológicos, geológicos e até mesmo históricos da Chapada. 40 | Aventura & Ação

LENÇÓIS Em sentido horário: Cachoeira de Capivari, Rio Lençóis, na entrada da cidade e casario colonial que remete aos ciclos do ouro e do diamante


O esgotamento do garimpo e o êxodo humano deixaram lugarejos parados no tempo, encantadoramente conservados.

A saga do ouro Antes de ser descoberta pelos ecoturistas instigados pelas paisagens cinematográficas, o destino já atraiu a atenção de outros tipos de expedicionários que protagonizaram a peculiar saga do homem em busca do ouro e diamantes. Em meados do século 19, os minerais abundavam na Chapada Diamantina e Lençóis tornou-se a terceira cidade mais importante da Bahia. Em fins do século, porém, enormes jazidas foram encontradas na África do Sul. O preço do diamante caiu e a hegemonia brasileira nesse mercado ficou comprometida. O esgotamento do garimpo e o êxodo humano deixaram lugarejos parados no tempo, encantadoramente conservados. Os moradores tiveram que se adaptar a uma nova fase econômica e cultural, fomentada por um público ávido por natureza e adrenalina. Hoje, experiente na arte de bem receber, a cidade possui várias operadoras de turismo, hotéis e pousadas para todos os gostos e bolsos, bons restaurantes e um clima eterno de celebração da vida ao ar livre. À noite, o movimento é constante em bares estilo mesa na calçada, com jovens tocando violão e uma mistura alegre de idiomas e histórias de viagens. Além dessa simpática cidade, Mucugê, Palmeiras e Andaraí também são base para se explorar o entorno do Parque Nacional que, ao todo, guarda 152 mil hectares (o que equivale a 23.030 Maracanãs). Para aproveitar o melhor da região, reserve no mínimo dez dias e pique para longas jornadas. Além de andar muito por trilhas inspiradoras, há a chance de escalar, cavalgar, fazer rapel, canoagem e até snorkel nas cavernas inundadas. Seja qual for sua atividade predileta, é importante ter em mente um checklist de atrativos obrigatórios. Aventura & Ação | 41


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Durante as travessias, o mochileiro abre mão do contato com a dita civilização e troca o sinal de celular, a internet, a cama macia e a água quente pelos banhos de cachoeira, camping ao ar livre e uma visão completamente limpa do céu estrelado e serras da Chapada.

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Cachoeira da Fumaça Saindo de Lençóis, é preciso um traslado de carro até o povoado de Caeté Açu, mais conhecido como o Vale do Capão, no município de Palmeiras. Trata-se de um pitoresco lugarejo hippie, que concentra comunidades alternativas, pousadas rústicas, campings e albergues. De lá, é só completar uma caminhada nível médio de sete quilômetros até o mirante e prepare-se. A ordem é se deitar em uma pedra e contemplar abaixo a impressionante visão das águas que caem de uma altura de quase 400 metros e nem chegam a tocar o chão, dispersando-se em uma nuvem de fumaça. Para quem quer se certificar de que não está diante de uma miragem, dá para chegar mais perto dessa que é a segunda maior cachoeira do Brasil, mas tenha fôlego para cair na trilha. Existe um acesso à parte de baixo da queda, em meio à mata fechada. A caminhada é exigente e, ao todo, dura três dias com acampamento selvagem. O ângulo da Fumaça na chegada é pra lá de exclusivo.

Pai Inácio

Ir à Chapada e não conhecer o popular Morro do Pai Inácio, no município de Pal-

meiras, não faz sentido. A cerca de 30 km de Lençóis e 1.120 metros de altitude, o mirante natural descortina a mais bela vista panorâmica da Chapada. São 360 graus de visual, incluindo as serras, gerais e chapadões. O ideal é reservar um dia inteiro para esse roteiro. As operadoras costumam levar os turistas pela manhã até uma portaria, a partir de onde é preciso caminhar 400 metros por uma trilha íngreme que liga o fim da estrada ao topo. Lá em cima, avistam-se as Serra Sincorá, Bacia e a Serra Chapadinha, que integram a Cordilheira do Espinhaço. A composição torna-se ainda mais encantadora ao sol poente. O perfil das serras verde-azuladas confunde-se com nuvens douradas, o vento é muito frio e completa a sensação de estar no topo, se não do mundo, ao menos da Chapada Diamantina. Para a volta, reserve fôlego. O plano é que o carro da agência te abandone por lá mesmo para estimular um trekking de 18 km até a cidade de Lençóis, em uma trilha aberta por garimpeiros, com direito a pequenas e refrescantes cachoeiras. Pelo caminho, prepare-se também para o impacto da vista de alguns dos principais cartões-postais da Chapada, como os morros dos Três Irmãos e do Camelo.

SEGUNDA MAIS ALTA DO BRASIL Com 380 metros, a cachoeira recebeu esse nome porque pela altura da queda, a água evapora-se antes de chegar no chão Aventura & Ação | 43


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Mundo subterrâneo Pode parecer difícil de acreditar, mas a Chapada Diamantina é tão bonita debaixo da terra quanto acima da superfície. Mais difícil ainda é conseguir escolher entre tantas opções de cavernas que o destino oferece. A Fazenda da Pratinha, por exemplo, engrossa a lista dos atrativos deslumbrantes da região, nesse caso, em Iraquara. Lá, a água sai de uma gruta e deságua em um rio cristalino azul clarinho, cheio de peixes (Rio Santo Antônio). Depois de estacionar o carro na entrada da propriedade, você escolhe entre a pequena trilha ou a tirolesa para descer até o rio. Também dá para fazer flutuação na parte interna da gruta, imperdível. Na mesma propriedade ainda vale visitar a Gruta Azul, com seu lago translúcido que ganha tons azulados entre 14h e 15h (de abril a setembro), quando um feixe de sol invade uma abertura na rocha. A refração permite visualizar o fundo da caverna, que chega a 70 metros. Ainda em Iraquara, está a Torrinha, considerada a gruta mais completa do Brasil, pela diversidade de espeleotemas que se espalham por 8.210 metros de extensão. Para explorar seus limites, existe um roteiro de três quilômetros que inclui a oportunidade de se observar raras helictites com flor de aragonita na ponta - única do mundo, segundo o zelador da caverna. No município de Itaetê, a 44 km de Andaraí, o Poço Encantado é outro atrativo que provoca brilho nos olhos dos visitantes. Para acessar a gruta é preciso descer uma longa escadaria e depois enfrentar um trecho íngreme, onde andamos lentamente segurando em cordas até nos depararmos com a visão particular. A sua cor azulada, intensa e transparente deve-se à pureza da água que forma um poço com 65 metros de profundidade. São os raios de sol, porém, que entram por meio de uma claraboia natural, os protagonistas do espetáculo. Ao transpor a rocha, o sol encanta ao iluminar a água. No inverno, o sol atinge a posição ideal para entrar no poço e o raio é mais intenso.

TRAVESSIA DO PATI

Apesar do cardápio quase infindável de possibilidades que a Chapada oferece, uma pedida imperdível é a tradicionalíssima travessia do Pati. Marcado pelo relevo antigo e desgastado pelo tempo, onde se sobressaem chapadões cortados por vales profundos, cânions e seus rios, esse é um dos trekkings mais comentados do Brasil. No Vale, há várias trilhas que se cruzam, portanto, o percurso varia e pode durar

POÇO ENCANTADO Nem mesmo seus 65 metros de profundidade são capazes de esconder as pedras e troncos caídos no fundo dessa lagoa extremamente cristalina que fica em Itaetê, a 44 km de Andaraí Aventura & Ação | 45


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EM SENTIDO HORÁRIO: Sobe e desce do primeiro dia de caminhada durante 20 km; exemplo da fauna flagrada nas trilhas da Chapada; casa da dona Léia e Gerais do Vieira sob neblina

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de três a cinco dias. Durante a empreitada, o mochileiro abre mão do contato com a dita civilização e troca o sinal de celular, a internet, a cama macia e a água quente pelos banhos de cachoeira, camping ao ar livre e uma visão completamente limpa do céu estrelado e serras da Chapada. Além da beleza primitiva de extensos campos de altitude e várias cachoeiras, a travessia ainda oferece outro atrativo igualmente enriquecedor: a vivência com os nativos e a experiência de fazer parte de um roteiro bastante sustentável, que possibilitou a permanência desses moradores dentro dos limites do Parque Nacional. Ao contrário das regiões mineradoras da Chapada, o fértil Vale do Pati experimentou o apogeu socioeconômico cultivando grandes plantações de café, quando chegou a concentrar centenas de famílias (cerca de dois mil habitantes). Com o declínio do cultivo, junto à crise de 1929, os moradores abandonaram a região e migraram para as periferias das grandes cidades. Aos poucos, porém, o vale recuperou suas matas derrubadas na época do café e as poucas famílias que resistiram à decadência econômica encontraram no ecoturismo a oportunidade de permanecer na região de maneira sustentável. Hoje, recebem visitantes de diversas partes do mundo na simplicidade de suas casas isoladas no coração da Chapada Diamantina. Para chegar até ali, só depois de longas per-

nadas. Sem estrada, tudo entra e sai nos lombos dos burros, de alimentos a objetos domésticos. O isolamento do Vale propicia uma experiência absolutamente singular para quem se lança em suas trilhas. Nossa opção para atravessar o Pati foi sair do Capão e chegar em Andaraí, depois de quatro dias, 60 km e, no meu caso, algumas bolhas nos pés. A grande dica para essa, e acredito que para quaisquer travessias, é: vá o mais leve possível, esse é o caminho para o sucesso. Vai por mim. Troque todas as outras dicas que tenha ouvido sobre o assunto por uma única frase de efeito: ”menos é sempre mais”! Além de tornar a caminhada muito mais confortável e divertida, uma mochila leve vai te mostrar o que realmente é essencial, em vários sentidos. Mochila montada (veja box), outro fator fundamental para tornar a travessia ainda mais especial e fugir das roubadas é estar acompanhado de um bom guia. Ex-hare krishna, Luciano Lago, ou Harebol, como foi batizado na época, é um guia completo! Além de dizer o que levar na mochila (e o que abandonar no albergue), ditar o ritmo da caminhada, nos socorrer com seus curativos milagrosos nos pés machucados, descolar um lanchinho estratégico nas horas certas, nos apresentar os fascinantes atrativos de cada trecho da caminhada, ele ainda nos ajudou a compor a trilha sonora da pernada com sua notória habilidade de improvisar sons com o corpo ou elementos da natureza. Realmente indispensável!


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MEIO AMBIENTE

DIA 1

JARDIM A Chapada é um verdadeiro jardim encantado por semprevivas, orquídeas, bromélias, flor de mandacaru, entre várias outras espécies 48 | Aventura & Ação

A nossa esperada trilha começou logo cedo no Vale do Capão, distrito de Palmeiras. A ideia era percorrer antes de anoitecer os 22 km até a casa da querida dona Léia, que nos acolheria no primeiro dia de Vale. Impossível não se extasiar com o céu azul, os contornos das formações como o Morrão ou o Ancorado e os jardins de miniorquídeas nos Gerais do Vieira e Gerais do Rio Preto, que são espécies de terraços elevados, cobertos com vegetação gramínea e solo pedregoso. Acabamos nos rendendo à despreocupada contemplação, enquanto alternávamos subidas e descidas bem suaves. À tarde, fomos surpreendidos por chuva e neblina. Sem visão alguma, nos conformamos em imaginar o visual que o guia nos descreveu no mirante do Morro do Castelo e seguimos viagem em clima de aventura, com o barro até as canelas. O “melhor”, porém, ainda estava por vir. Com o nosso ritmo lento por conta do


entusiasmo com fotos e filmagens, acabou anoitecendo logo. No escuro e na chuva, tivemos que “desescalaminhar” uma piramba conhecida como ‘Quebra Bunda’, que dispensa explicações. Éramos em quatro. O Tom e a Renata, experientes escaladores, desceram aquilo como em uma brincadeira de criança. Marinheiras de poucas viagens, porém, eu e a Ana Isa tínhamos que calcular cada passo nos apoiando em tudo que podíamos, tentando não escorregar na pedra molhada e nos esforçando para enxergar o que seria uma trilha, com a ajuda da lanterna. O cuidado e especialmente o apoio do guia Harebol foram valiosos. Superada a piramba, a ladeira do povoado do Bomba que nos esperava parecia moleza, mas depois da subida veio uma longa descida, depois outro enorme morro. Chegando no alto, avistei em outra ladeira bem lá na frente uma fila de luzes de lanternas de outro grupo e o Hare me disse bem animado: “olha lá! Eles estão indo pro mesmo lugar que a gente”! Eu mal podia conter minha decepção, mas já começava trabalhar os conceitos de autossuperação e limite, enquanto tentava me proteger inutilmente da chuva com a capa, por conta do frio. Foi aí que o Hare me explicou que, lá depois daquela ladeira, ainda teríamos que atravessar o rio (já o tínhamos cruzado duas vezes). Estava crente que era uma piada, até que comecei a ouvir o barulho de água. No rio, alcançamos outro grupo que parecia estar com mais dificuldade do que eu e a Ana. O Hare se ofereceu para carregar a mochila de um dos integrantes, pois o guia deles já estava com três! Para a minha primeira travessia de verdade, aquilo era uma aventura e tanto! Por isso, apesar da exaustão, o barulho da chuva e do rio, o clima de desafio e as palavras de superação e cooperação acabaram por me animar de novo. Depois de chegar à outra margem, pulando em pedras, faltava uma descida enlameada na qual caí umas dezenas de vezes. Chegamos à casa dona Léia. Com o corpo exaurido, o banho, mesmo que frio, veio muito a calhar. Na verdade, quase nasci de novo, principalmente quando pudemos partilhar um jantar farto e algumas histórias à beira do fogão à lenha com outros mochileiros e os moradores da casa. Entre famílias, amigos, jovens, viajantes solitários, o que mais se percebe é a busca de paz que parece abundante nesses recônditos esquecidos no tempo. Aventura & Ação | 49


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DIA 2

O segundo dia da travessia é um presente renovador. Depois de acordarmos atraídos pelo cheiro de café e pão assado na lenha, era só nos esbaldar. Com a luz do dia, podíamos finalmente entender onde todo aquele sobe e desce tinha nos levado. A varanda da casa simples da dona Léia fica aos pés de um incrível chapadão, desses de tirar o fôlego, com o perdão do clichê. Perto do dia anterior, nossa missão do dia era light: percorrer uma trilha tranquila de sete quilômetros até o Cachoeirão, um enorme vale profundo que converge com o Vale do Pati, onde, na época das chuvas, despencam dezenas de cachoeiras a 280 metros de altura, formando poços de água escura cercados por densa Mata Atlântica. Talvez a visão mais impressionante da Chapada Diamantina. A delicadeza de revoadas de borboletas que sobrevoam a imensidão verde naqueles imponentes paredões é uma daquelas imagens que alimentam o desejo de beleza que emana da alma de qualquer um. Nesse dia, dormimos novamente na dona Léia. No caminho de volta, um mergulho no Poço da Árvore e o lanchinho à sombra da mata nos encheram de inspiração para concluir a trilha. De novo, já ao anoitecer.

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ENCANTOS Foto com longa exposição mostra movimento das estrelas abundantes no céu do Pati; ao lado, na época das chuvas, o Cachoeirão chega a concentrar mais de 20 quedas d’água

DIA 3

No terceiro dia, passamos pelo Pati de baixo e fomos até a chamada Prefeitura, onde há um camping e uma pequena venda. De lá, avista-se o suntuoso Morro do Castelo. À tarde, seguimos para a casa do senhor Eduardo, o morador mais antigo da região e famoso acordeonista do Pati, que nos presenteou com um forrozinho, literalmente, pé de serra. Da sua casa, a paisagem ao redor, repleta de muito verde, frescor e lindíssimas formações geológicas, é simplesmente cinematográfica. A trilha até lá incluiu algumas travessias de rio, uma vegetação abundante e a vista do Morro Branco, que também pode ser admirado em espelhos d’água em poços pelo caminho. Só observando a movimentação do forró do Sr. Eduardo, ali no terraço com aquele visual que me fazia lembrar histórias de Ariano Suassuna, fiquei imaginando a paz de espírito de alguém que acorda com aquela composição na janela.

Como já era praxe, alongamos nossas peripécias pelas trilhas do Pati, nadando nos rios, cantando e compondo canções, contando casos de onças, subindo em árvores, interrogando moradores, fotografando as estrelas e, para variar, esquecemos da hora. Atravessar rios à noite só com a luz da lua já era tranquilo. Nessa noite, iríamos dormir na casa do seu Wilson, onde fomos recebidos com um verdadeiro banquete caseiro - simples, farto e saboroso.

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Dia 4

EM SENTIDO HORÁRIO: Poço Azul, onde é permitido mergulhar em suas águas translúcidas; relax durante a travessia para um pouco de contemplação; o sanfoneiro senhor Eduardo, famoso pelos animados forrós que promove em seu quintal e trecho da trilha no último dia de travessia, na despedida do Vale

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No último dia de travessia, o Hare teve a coragem de nos acordar às quatro da manhã, sem dó, nem piedade. A despedida do Pati seria no frescor da madrugada para evitar que pegássemos muito sol na parte da tarde. Aos poucos, os vales, cânions e cachoeiras ficavam pra trás, já nos deixando com um leve pesar... Esse dia foi realmente exaustivo para mim. Começou com uma subida íngreme, a Ladeira do Império, que já testou meu fôlego. Além disso, durante toda a travessia, minha bota que era nova e não tinha sido laceada, estava machucando muito meu pé, apesar dos quilos de esparadrapos com que eu tentava proteger o calcanhar. Nesse dia, a parte final do caminho é em trilha descampada, com pouca vegetação e muito sol. O calor e os machucados que estavam sangrando me castigaram até que não resisti. Terminei a trilha descalça, mas mui-

to mais feliz, apesar do terreno pedregoso. Quando meus pés ainda desnudos pisaram finalmente em Andaraí, na hora do almoço, os semblantes levemente cansados foram substituídos pelo de celebração. Tínhamos cruzado com sucesso o fantástico Vale do Pati. Ainda sobrou energia para irmos visitar (de carro) o belíssimo Poço Azul em Igatu, uma caverna inundada por águas cristalinas e azuladas que parece miragem. A profundidade chega a 16 metros e o melhor da festa: é permitido flutuar. Em alguns trechos - apesar da profundidade, dá para observar as formações rochosas incríveis debaixo da água transparente. Vá no início da tarde, quando a incidência do sol deixa as águas ainda mais azuis, especialmente nos meses de inverno. Cair naquelas águas claras foi um verdadeiro prêmio pelos dias pé na trilha.


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MEIO AMBIENTE

INTERAÇÃO No alto, o primeiro dia de trilha na Travessia do Pati; acima, o simpático Seu Cori, memória viva do garimpo; na página ao lado, além das longas caminhadas, a travessia do Pati é marcada pela interação com os moradores locais e muito trabalho em equipe; na foto superior, paisagem alagada ao lado do Poço Azul, onde encerramos a travessia 54 | Aventura & Ação

Visita ao seu Cori Em Lencóis é imperdível a visita a um garimpo cenográfico montado no quintal da casa de seu Cori, um antigo garimpeiro, que mostra aos turistas como era feita a busca pelos diamantes que abundavam na região. Com peneiras em punho, Cori faz demonstrações do ofício que exerceu dos 12 aos 78 anos. Hoje com memória viva e paciente do auge da caça aos diamantes na

região baiana. Uma graça de personagem. Com a sua simplicidade e paixão pelo ex-ofício, ele mesmo construiu um museu em sua casa. Peça para ver a simulação do processo de garimpagem. E ouça atento a história de como ele conheceu Dona Maria, sua esposa há 50 anos, no tempo em que o amor ainda era um sentimento pacientemente construído.


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MEIO AMBIENTE especial capa

Outras atrações Pantanal

ACIMA, Paisagem do Marimbus, espécie de pantanal da Chapada, que é alimentado pela confluência de vários rios numa vasta zona alagada perfeita para a canoagem; ao lado, na trilha do Ribeirão, onde deságua a Cachoeira do Sossego, cercada de exuberante Mata Atlântica 56 | Aventura & Ação

O passeio de canoa por Marimbus, região alagadiça da Chapada Diamantina, é pura contemplação. Quando o sol se põe, bandos de garças, jaçanãs e martins-pescadores tomam conta do céu. No rio, com sorte veem-se jacarés, capivaras e sucuris escondidas junto de tucunarés e bagres sob as plantas aquáticas do minipantanal. Formado por várias lagoas assoreadas e interligadas pelo rio São Antônio, o Marimbus tem em média dois metros de profundidade na seca. No meio do trajeto, as canoas param e fazemos uma caminhada de uns 15 minutos até o Rio Roncador, onde há diversas corredeiras, um lugar realmente muito muito bonito.

Mosquito

A cerca de uma hora e meia de Lençóis, a cachoeira do Mosquito é outra protagonista dali, uma queda de aproximadamente 30 metros, acessada a partir de trilha curta e fácil. A grande atração é o rapel operado em sua parede.

Relax

Para um dia mais preguiçoso em Lençóis, uma opção de caminhada tranquila é a trilha de três quilômetros até o Ribeirão do Meio. Caminhando-se por um bosque de Mata Atlântica bastante preservado, surge um enorme tobogã que desemboca em dois fartos poços de água, um convite irresistível ao mergulho. Também próximo ao centro da cidade, estão as quedas do Serrano. Além dos vários poços pra banho, os conglomerados são perfeitos para a escalada (ver box).


Aventura & Ação | 57


MEIO AMBIENTE especial capa

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Face sul Cachoeira da Fumacinha

(acesso por baixo): No extremo sul do Parque Nacional, a queda se localiza no município de Ibicoara. O acesso é por uma trilha de 18 km, aproximadamente, ida e volta, percorrida em 8 horas. O nível de dificuldade é alto, pois a maior parte do caminho é por leito de rio, saltando pedras. Há algumas quedas no caminho e diversos poços para se banhar antes da Fumacinha, propriamente dita. Essa cachoeira é considerada por muitos a mais bela do País. Toda a caminhada é realizada no cânion do Riachão das Pedras, que vai se estreitando e se aprofundando cada vez mais, até atingir o impressionante salto, de aproximadamente 100 metros, que cai numa espécie de caverna, de paredes úmidas e verdes recobertas por musgos e liquens.

Cachoeira do Buracão

Também no município de Ibicoara, a Cachoeira do Buracão tem 85 metros de queda d’água que enchem um poço no fundo de um buraco gigante formado entre as paredes de um cânion. A cascata é alcançada depois de uma caminhada fácil (de uma hora) que acompanha o Rio Manso e passa pelas cachoeiras das Orquídeas e do Recanto Verde. O cânion tem três metros de largura e 90 de altura (por onde corre o rio de águas escuras), que leva ao Buracão. Nesse ponto, há duas opções: colocar um colete salva-vidas e nadar (mais segura) ou atravessar uma pinguela em meio aos paredões, além de caminhar agarrado às pedras. Nadar próximo à queda, de 85 metros, é uma experiência incrível, especialmente se for possível entrar atrás da cortina de água (depende do volume). No caminho de volta, dois mirantes naturais descortinam a queda e o “buracão” de cima.

QUEDA Os que completam o exigente percurso até a queda, são premiados com o visual estonteante da cachoeira de cem metros de altura. Acima, Cachoeira do Buracão Aventura & Ação | 59


MEIO AMBIENTE

NA MOCHILA Se for encarar o trekking do Pati, lembre-se de que você vai carregar sua mochila nas costas por até cinco dias inteiros. Leve só o essencial. Caso vá dormir na casa de locais, melhor ainda, pois evita carregar peso de barraca. Segue uma lista de itens indispensáveis. • • • • • • •

• • • • • • •

Camisetas dry fit (que podem ser lavadas durante a trilha) Calça tectel ou de nylon Jaqueta de frio para a noite Bota confortável – importante usar antes para lacear Esparadrapos – para caso de machucados com o calçado Uma meia para cada dia de trekking (impossível reutilizá-las) e uma para dormir Lanterna de cabeça - imprescindível ter as mãos livres para as partes mais difíceis da trilha Bastão – ajuda muito nos trechos escorregadios Capa de chuva Protetor solar Repelente Óculos de sol Máquina fotográfica Carregadores (na maioria das casas há energia solar e você pode recarregar sua máquina) Itens de higiene pessoal

Chapada Diamantina: patrimônio geológico Por: *Fernando César Manosso

A região da Chapada Diamantina compreende uma área de estruturas geológicas dobradas, com altitudes entre 1.000 e 1.700 metros, que marcam o grande divisor de águas existente entre o vale do rio São Francisco, a Oeste, e as bacias hidrográficas atlânticas, a Leste. A diversidade de formações rochosas e de diferentes formas de relevo chamou a atenção de geocientistas nacionais e internacionais para estudarem a região, de modo que importantes sítios geológicos e afloramentos preservados da região foram catalogados e contribuíram para o entendimento da história geológica do território brasileiro e americano. Morros imponentes como Pai Inácio, Morro do Camelo e Morrão são importantes testemunhos erosivos históricos, pois testemunham na paisagem as antigas superfícies, formadas ainda na Era Mesoproterozóica (1,5 bilhão de anos atrás). Essa geodiversidade da área, que possui significativa importância geocientífica, passou por um intenso processo econômico através da exploração do diamante, que permitiu construir um rico processo histórico e cultural nas localidades da serra, mas que também deixou complicados impactos ambientais a serem recuperados. Atualmente, áreas naturais preservadas, áreas de mineração abandonadas ou ainda ativas, juntamente com a cultura local, formam um patrimônio geológico, ecológico, cultural e histórico de importantíssimo valor e que merece ser conservado e explorado de forma eficiente, garantindo a manutenção da geodiversidade, da biodiversidade e da cultura presente na paisagem da região da Chapada Diamantina. *Fernando César Manosso É geógrafo, professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR-Francisco Beltrão) e doutorando em Geografia – Universidade Estadual de Maringá)

No passado Onde hoje é sertão, outrora o mar reinava soberano. Há mais ou menos 1,5 bilhão de anos, o oceano cobria essa área que era um mar raso, onde desaguavam rios torrenciais, vindos de outras grandes montanhas

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ESCALADA

SETOR PIRÂMIDE Com várias vias, o setor fica próximo ao centro de Lencóis

A Chapada Diamantina é um prato cheio para os escaladores, exibindo tanto opções no conglomerado, quanto no quartzito. Os vários estilos do esporte – tradicional, esportivo e boulders, podem ser praticados em lugares de fácil acesso, com sombra e ao lado de um rio ou uma cachoeira - perfeito para os escaladores que podem se render a um delicioso mergulho entre uma escalada e outra. No Parque Municipal da Muritiba concentra-se a maior parte das vias. O principal setor fica na trilha que leva à Cachoeira da Primavera. São aproximadamente 150 opções, variando do terceiro ao décimo grau, de acordo com a tabela brasileira de graduação de escalada. Há também muitas opções para iniciantes em vias muito cênicas, onde as agências costumam operar um top-rope para que os marinheiros de primeira viagem possam aprender algumas técnicas básicas. Para quem prefere as montanhas, existem várias opções, como o Pai Inácio, em Palmeiras, o Morro do Beco, em Guiné, e o São Pedro, em Mucugê. A Vila de Igatu é o reduto do boulder, oferecendo um grande número de vias para este estilo, adicionados a mais 60 alternativas de escalada esportiva. Aventura & Ação | 61


MEIO AMBIENTE

SERVIÇOS A cidade de Lençóis é a mais estruturada da Chapada Diamantina e surpreende pelo profissionalismo e qualidade dos serviços de alguns receptivos. Nossa viagem foi organizada por um grupo de operadoras que foi o primeiro a obter a certificação ABNT (organismo certificador acreditado pelo INMETRO) de segurança em turismo de aventura. Tais empresas oferecem uma gama completa de serviços que incluem longas travessias, trekkings curtos, exploração de grutas, canoagem, escalada, rapel, snorkel, entre outras atividades com guias bastante experientes.

Lapa Doce

HOSPEDAGEM

OPERADORA

Gruta Azul

LENÇÓIS

Chapada Adventure

www.chapadaadventure.com (75) 3334-1933|3334-1933 Fora da Trilha www.foradatrilha.com.br

(75) 3334-1326 Nas Alturas www.nasalturas.net (75) 3334-1054|9833-4465

www.lencois.com.br (75) 3334-1154

Venturas & vENTURAS www.venturas.com.br

(75) 3334-1030 / (11) 3872-0362 Vertical Trip www.verticaltrip.com.br

-41°30'

-41°15'

Salvador

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Roncador

Gerais dos Vieiras

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Vale do Capão

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Poço Azul

Igatu

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Rodovias

-13°

Parque Nacional da Chapada Diamantina -13°15'

Vila Cachoeira Acidente geográfico

62 | Aventura & Ação

Pé no mato A pousada fica em um lugar bastante calmo e tranquilo, apesar de estar a apenas 200 metros da encantadora Vila do Capão, de onde se dá início a todas as trilhas e passeios. Há diferentes tipos de quarto, alguns com vista para as exuberantes montanhas que circundam o Vale do Capão.

ENSAIO FOTOGRÁFICO

Mucugê

Trajeto percorrido

Capão

www.penomato.com.br (75) 3344-1105

Poço Encantado

Bahia

www.hoteldelencois.com (75) 3334-1102

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Andaraí

BRASIL

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BA 142

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Cachoeirão

Vale do Pati

Área do Parque

-12°30'

BR 242

Palmeiras re t o

Hotel Lençóis Hotel mais tradicional da cidade, é bastante amplo e integrado com a natureza. Fica localizado na parte alta da cidade, proporcionando uma belíssima vista do casario e das ruas de pedra. Os quartos são bastante confortáveis e o atendimento é perfeito. O restaurante oferece boa gastronomia em um espaço agradável O hotel foi certificado pela ABNT como Hotel Sustentável e em 2011 venceu a etapa estadual e a nacional do Prêmio MPE (micro e pequenas empresas) do SEBRAE.

(75) 3334-2034

Morro do Pai Inácio nho Mucu g e zi Rio Diabo

Rio P

Canto das Águas Com o selo de hotel de charme, localiza-se às margens do Rio Lençóis, a poucos metros do centro histórico da cidade, onde exibe um ambiente aconchegante com uma arquitetura autêntica, cercada por muito verde. O café da manhã é uma primazia, incluindo tortas imperdíveis. O hotel recebeu a certificação da ABNT como o primeiro hotel sustentável do Brasil.

10 km

N

ENSAIO FOTOGRÁFICO Confira na página 78 o ensaio fotográfico de Rui Rezende sobre outros ângulos da Chapada Diamantina


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Foto: Alexandre Cappi

MEIO AMBIENTE

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No Santuário do Lagamar Em uma pequena expedição de quatro dias, tive o privilégio pedalar pela areia à beira-mar das praias desertas do Lagamar, rodeado de restingas, manguezais, ilhas, morros isolados, vegetação nativa e um marzão azul. Um roteiro sossegado, logo ali, pertinho da capital paulista. Texto Paulo Roberto Cunha Fotos Paulo Roberto Cunha, Kauan Lima e Alexandre Cappi

Vá de bike Na ilha do Mel, é proibido entrar carro. Em compensação, de bike, além de pedalar à beira-mar, é possível encarar excelentes trilhas de mountain bike

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Foto: Kauan Lima

MEIO AMBIENTE cicloviagem

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Foto: Alexandre Cappi Traslados Pier que serve para embarcar e desembarcar pessoas e mercadoria, além de ser usado para pesca na “Ilha das peças”; Ao lado, um dos vários traslados de barco da viagem

E

spremida entre o movimentado porto paranaense de Paranaguá e as cobiçadas praias do sul do estado de São Paulo, o Complexo Estuarino-Lagunar, ou simplesmente Lagamar, é uma faixa de 200 km de extensão, situada entre os municípios de Iguape/SP e Paranaguá/PR. O ecossistema da região, que mescla uma vasta mata verdejante recortada por rios e braços de mar, está protegido por um importante mosaico de unidades de conservação incluindo o Parque Estadual da Ilha do Cardoso, o Parque Nacional do Superagui, formado pelas ilhas de Superagui, das Peças, Pinheiro, Pinheirinho, além do vale do Rio dos Patos, o Parque Estadual e a Estação Ecológica Ilha do Mel. Explorar essa riqueza natural com o ritmo de uma bicicleta é a certeza de dias surpreendentes. E foi com essa expectativa que eu e o fotógrafo Kauan Lima embarcamos em uma cicloviagem de quatro dias pelo Lagamar. Desde que comecei a viajar de bicicleta, já encarei alguns pedais audaciosos de semanas pelo Brasil e até por outras fronteiras. Nessas jornadas independentes, às vezes passamos alguns perrengues, alguns divertidos, outros menos, seja para fazer algum reparo na magrela, encontrar um pouso, descobrir as melhores rotas ou carregar as malas. No Lagamar, porém, as coisas prometiam ser diferentes. A operadora Expedição & Aventura, que nos convidou para o pedal, providenciou tudo: transporte rodoviário, barcos alugados com pescadores, seguro pessoal, confortáveis bicicletas adaptadas para o cicloturismo, alforjes, lanche para os pit stops, reservas em agradáveis pousadas, além de todo aparato para segurança, kit de primeiro socorros e até mesmo um localizador via satélite, por meio do qual nossa localização

se tornava disponível em tempo real e podíamos pedir ajuda em caso de emergência. A única missão que nos cabia era girar os pedais ao ritmo da brisa incessante e do barulho das ondas a quebrar na praia. Seria uma viagem de primeira classe!

Cananeia

Depois de algumas horas de automóvel pela BR 116, chegamos a Cananeia, uma pequena cidade do litoral sul de São Paulo, com 12 mil habitantes. Tombado como Patrimônio Histórico em razão de sua rica arquitetura colonial, o lugar nos transporta à época dos conflitos entre os navegadores portugueses, espanhóis e franceses, que atracavam suas embarcações no local à procura de riquezas. Alguns, inclusive, dizem que Cananeia deveria ser considerada a cidade mais antiga do País: descoberta em 1502, teria abrigado um povoado em 1531 (um ano antes de São Vicente). Polêmica à parte, algumas belas construções coloniais chegaram aos nossos dias, como a bela Igreja São João Batista, de 1577. O cansaço pelo dia de viagem foi recompensado pela acolhida carinhosa que tivemos na Pousada do Sol, administrada com muito esmero pela Sra. Cleonice. No dia seguinte, ganhamos as ruas de Cananeia rumo à área portuária, onde já havia uma pequena voadeira (pequena lancha sem cabine): nos esperando.

Ilha do Cardoso

A embarcação deslizou durante uma hora em um canal de mar bordejando a vegetação densa de árvores retorcidas, típicas de manguezais. O sol forte brilhava no céu límpido e realçava o verde dos morros da Ilha. São quilômetros de praias desertas, Aventura & Ação | 67


Foto: Paulo Roberto Cunha

Foto: Alexandre Cappi

MEIO AMBIENTE cicloviagem

Mata Atlântica Durante todo o roteiro alternamos as pedaladas com traslados de barco, “cercados de muita.”muita água e mata nativa. Da esq. para dir. Ilha do Cardoso; desembarcando na Ilha de Superagui e a caminho da Cananéia 68 | Aventura & Ação

cachoeiras e trilhas pela Mata Atlântica preservada – cerca de 90% da ilha do Cardoso está em área de proteção. Desembarcamos no Núcleo Marujá, a mais conhecida comunidade caiçara do lugar, cujo sustento depende muito do turismo e por isso dispõe de boa infraestrutura (campings, pousadas familiares e restaurantes) e mantém viva a cultura tradicional. Além da própria praia que já é uma atração e tanto, a ilha ainda oferece diversos caminhos e possibilidades: trilhas, morros, costões rochosos, cachoeiras e piscinas naturais. No centro de visitantes, chama atenção um painel repleto de embalagens, a maioria plásticas, de diversos produtos; lixo recolhido na praia, proveniente dos mais afastados cantos do mundo, como países asiáticos, Europa e América do Norte. “Tudo que jogamos no mar, um dia ele devolverá”, lembrava um cartaz. Logo montamos nos selins e ganhamos as areias da praia. De um lado da bicicleta, a imensidão do mar e suas ondas; do outro, a vegetação de restinga e os morros enfileirados ao fundo. Gaivotas acompanhavam a dança das bicicletas e pequenos caranguejos corriam pela areia. Estávamos imersos numa paisagem de tirar o fôlego, que nos proporcionava uma sensação indescritível de liberdade. Pedalamos em ritmo contemplativo passando pela comunidade Enseada da Baleia, e, depois de 18 km, chegamos ao Pontal do Leste, extremo sul da ilha, onde descansamos ouvindo histórias locais do pescador Sr. Feliciano. O convívio com povoados distantes dos centros urbanos, ainda embalados por hábitos já esquecidos pelo homem das metrópoles, era um presente do roteiro.

Ilha do Superagui A comunidade do Pontal Leste é menor do que o Marujá e, por isso, a tradicional cultura caiçara é visivelmente mais enraizada. O sustento de sua população depende não só do pequeno movimento de turistas, mas também da pesca. Naquele local, entramos numa pequena embarcação previamente agendada e atravessamos as águas agitadas do Canal de Arapira, já nas proximidades do mar aberto. Em poucos minutos atracamos numa praia do Parque Nacional do Superagui. Valeu o trabalho de equipe para retirar as bicicletas do barco e carregá-las até a areia com a água na linha dos joelhos. Se na Ilha do Cardoso tive vontade de pedalar até onde minhas pernas pudessem me levar, o meu desejo no Superagui foi de permanecer naquele local, só contemplando sua natureza pura. Mas estávamos, acredite, a trabalho e tínhamos um cronograma a seguir! Prosseguimos então a viagem num ambiente tranquilo, com uma preciosa quietude, que só foi quebrada quando nos deparamos com uma cena no mínimo curiosa: um cavalo solitário perambulando pela praia deserta. Para que o animal não ficasse à deriva, o Sandro da oepradora Expedição & Aventura o puxou até as proximidades de uma casa de pescadores, que logo foi reconhecida pelo cavalo. Eu já tinha visto muita coisa esquisita nesse mundo das viagens de bicicleta, mas nunca um ciclista puxando um cavalo pela praia. À medida que o sol atingia o horizonte, a paisagem ganhava tons avermelhados. Quando a noite caiu e o céu ficou salpicado de estrelas, pensei numa antiga dú-


Foto: Paulo Roberto Cunha

vida da humanidade: afinal, existem mais estrelas no céu do que grãos de areia na praia? Felizmente, estávamos próximos à Vila do Superagui, nossa parada final daquele dia, pois a maré costuma subir no final da tarde e começo da noite, podendo comprometer qualquer tentativa de deslocamento. Nesse tipo de viagem é preciso estar muito atento ao vai e vem das marés. Depois de 24 km pedalados pela Ilha de Superagui, chegamos cansados e imundos na Pousada Bella Ilha, mas com um sorriso de orelha a orelha. Tínhamos vivido um dia fantástico de aventura numa paisagem litorânea de encher os olhos.

Ilha das Peças

Sob a brisa matutina, lubrificamos nossas bicicletas que haviam sido lavadas pelo Sandro e pelo João no dia anterior. O cuidado diário com o equipamento é outro fator importante durante as cicloviagens em regiões praianas. Embarcamos nossas magrelas em um barco de pescador sob os olhares curiosos de três crianças que brincavam com suas bicicletinhas. Em poucos minutos chegamos à Ilha das Peças, onde fizemos um pedal curto (18 km), passando por uma antiga torre de tijolos da Marinha derrubada na praia pela força do mar, até chegarmos à vila de pescadores situada em frente à Baía de Paranaguá, onde nos recolhemos merecidamente na agradável Pousada do Carlinhos. Como tínhamos muito tempo, conversamos com moradores nativos, desfrutamos de um saboroso peixe no restaurante comunitário da Associação dos Moradores e assistimos de camarote aos golfinhos que faziam um passeio gracioso por ali.

Ilha do Mel No dia seguinte, quando o sol começou a brilhar, nossas bicicletas já estavam prontas para mais uma travessia de barco. Dessa vez nosso destino era a famosa Ilha do Mel, que mescla sistemas de restinga, manguezais, brejos litorâneos e Mata Atlântica. Desembarcamos na frente de uma torre abandonada, próximo ao radiofarol da marinha, na praia Ponta do Bicho, que pertence a uma Estação Ecológica. Uma trilha curta e bem demarcada nos conduziu ao mirante da fortaleza, situado no alto do Morro da Baleia, de onde pudemos descortinar um cenário composto pela densa vegetação da ilha, pelas ondas sequenciais que atingiam as pedras da praia e pela vastidão do mar. As trincheiras cavadas para proteção dos soldados e os canhões bélicos, datados de 1893, estão completamente preservados, graças aos cuidados do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em seguida, pedalamos mais três quilômetros pela Praia da Fortaleza até chegar a um ponto onde a ilha se afunila, promovendo um encontro entre as praias de Brasília e do Istmo. Mais uma trilha curta e estavamos em um centrinho comercial da Vila do Farol.

O caminho de volta

A partir dali, começamos nosso caminho de volta, mas em vez de retornarmos pela praia, ingressamos na Vila de Brasília, seguindo por uma trilha paralela muito arborizada, perfeita para as magrelas. Desembocamos na Fortaleza Nossa Senhora dos Prazeres. De lá, a ordem era atravessar novamente o costão e seguir pela praia até o radiofarol da Aventura & Ação | 69


Foto: Kauan Lima

Foto: Alexandre Cappi

Foto: Alexandre Cappi

Foto: Kauan Lima

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Foto: Alexandre Cappi

Foto: Kauan Lima

MEIO AMBIENTE cicloviagem


marinha, onde o barco da Pousada do Carlinhos nos aguardava. Já estávamos espertos com o embarque e desembarque de bicicletas, e logo estávamos atravessando as águas da baía de volta para a Ilha das Peças. Desta vez, contamos com a companhia de inúmeros golfinhos que nadavam ao redor do barco e protagonizavam um autêntico balé aquático que tinha como pano de fundo as montanhas da serra do mar. Fizemos uma baldeação para uma lancha, onde seguimos para dentro da baía, entrando num canal de água salobra que separa as Ilhas das Peças e Superagui do continente. Ali, paramos na vila abandonada de São José do Ararapira, fundada pela Coroa Portuguesa no século 18, na então Capitania de São Paulo. A antiga igreja ainda conserva os bancos de madeira e as imagens no altar, mas não há missas, nem padres e nem fiéis, até por-

SOBRE Os AUTORes Paulo Roberto Cunha é mestrando em ciência ambiental pelo PROCAM-USP, advogado ambiental, montanhista e excursionista desde 1996 e viaja de bicicleta desde 2003. Em São Paulo, utiliza a bicicleta como meio de transporte. Escreve um blog sobre ciclismo, meio ambiente e vivência ao ar livre: www.viagensdepaulopom.blogspot.com

que a pequena vila não conta com moradores fixos. Visitamos ainda um cemitério de antigos moradores encravado no meio da mata, mas os mosquitos estavam bem vivos e rapidamente voltamos para a lancha. Logo estávamos em Cananeia, de onde partiríamos para São Paulo, ainda embalados pelo ritmo do isolamento que a natureza pulsante do Lagamar proporciona. O pedal acontece todo por lindas praias de areia batida, ou seja, em um percurso totalmente plano. Uma oportunidade e tanto para quem quer estrear no mundo das viagens de bicicleta. Por quê? Porque sobre duas rodas conhecemos melhor os roteiros, sentimos o frio, o calor, o cheiro dos lugares, além de estar e um ritmo propício para interagir com as pessoas. EXPEDIÇÃO & AVENTURA TURISMO Visa integrar práticas esportivas para iniciantes ou mesmo para aventureiros experientes, promovendo passeios ou expedições de caiaque e bicicleta em diferentes roteiros do campo ao litoral. Trabalha com grupos pequenos de 4 a 12 pessoas durante o ano inteiro com uma ótima logística. Ideal para quem está começando a fazer viagens de bicicleta e não quer se preocupar com agendamentos e infraestrutura. www.expedicaoeaventura.tur.br

Natureza e cultura Em sentido horário: Fortaleza Nossa Senhora dos Prazeres; trilha na Ilha do Mel; a caminho do Forte; golfinhos na travessia da Ilha do Mel para Ilha das Peças; canhão secular na Ilha do Mel e colorida florada da região

OPERADORA vídeo Assista ao vídeo produzido durante a viagem no site www.aventuraeacao.com.br

São Paulo 160km BR 116

são paulo

SP 226

Ilha Comprida

Cananéia

BRASIL

-25°

A.P.A de Cananéia-IguapePeruíbe Ilha do Cardoso

Paraná Percurso de bicicleta Percurso de barco Rodovias

Parque Marujá Estadual da Ilha do Cardoso

A.P.A de Guaraqueçaba

Divisa de Estados

Ilha das Peças

CO

Superagui

Parque Nacional do Superagui

Peças

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Vila

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Cidade

ba

Unidades de Conservação

GuaBraaía de queça

Superagui

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Ilha do Mel

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Brasília

25 km

CO

O fotógrafo Kauan Lima tem contato com a vida ao ar livre desde criança, onde acampava e fazia trilhas com o pai nas redondezas de Guaxupé (MG), onde nasceu. Atualmente trabalha na tv Record e cursa ensino superior em Jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo. É apaixonado por fotografia e produções audiovisuais.

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N -48°

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MEIO AMBIENTE mergulho

Mergulho com lobos Mergulhar com lobos-marinhos é uma das experiências mais fascinantes que um aventureiro pode desejar. Rodeado pelos selvagens e encantadores cenários da Patagônia, em Puerto Madryn, basta submergir para se divertir com os mais simpáticos mamíferos patagônicos. Texto Rodrigo Scapini Meurer Fotos Rodrigo Scapini Meurer e Cristian “Beduíno” Fernandez Fotos sub Cristian “Beduíno” Fernandez

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Simpática fauna Em sentido horário: elefantes marinhos tiram uma soneca ao sol; os pinguins de magalhães também compõem a rica fauna da Patagônia; trapiche na Praia de Puerto Madryn e o mergulho com os simpáticos mamíferos

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MEIO AMBIENTE mergulho

Anfitriões Da esquerda para direita: muito curiosos, os lobosmarinhos se aproximam para brincar e examinar o mergulhador; fêmea com seu filhote e barco na bela praia de Puerto Madryn

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P

uerto Madryn é uma típica cidade litorânea localizada a 1.500 km de Buenos Aires, na província argentina de Chubut, ponto mais a oeste do Guelfo Nuevo. Durante o verão, torna-se point das famílias argentinas interessadas em sol, mar, sombra e água fresca. Com um longo píer em frente à praia, é também ponto de ancoragem de grandes transatlânticos, lotados de turistas que viajam pelo oceano rumo aos mares bravios do sul do continente e, às vezes, à Antártica. O que faz de Puerto um lugar de fato entusiasmante, porém, é estar rodeada pela Patagônia Argentina, com suas reservas naturais que protegem uma incrível vegetação e animais selvagens, atraindo aventureiros mais ousados de todos os cantos do planeta. Quarenta e oito km ao norte da cidade, a Área Natural Protegida Península Valdez tem o status de Patrimônio Natural da Humanidade por conta dos pontos de reprodução de espécies como lobos e elefantes-marinhos, baleias-francas, pinguins-de-magalhães e inúmeras aves marinhas. É também morada de guanacos, de pelludos (uma espécie de tatu), de choyques (similares às emas encontradas no sul do Brasil), de maras (parentes da lebre), de zorros gris (raposas-cinzas) e de uma infinidade de outros animais silvestres. Entre os meses de junho e dezembro, a região se torna um verdadeiro berçário natural das

baleias-francas que chegam por esses mares para se reproduzirem e cuidarem de seus filhotes. Já nos meses de março e abril, é possível avistar baleias-orcas alimentando-se dos lobos-marinhos nas praias de Punta Norte, dentro da reserva, único local no mundo onde esta prática acontece, atraindo cientistas e documentaristas da National Geographic e do Discovery Channel, entre diversos outros canais. Ao sul de Puerto Madryn, a 171 km de distância, encontra-se outra área protegida: Punta Tombo, maior reserva continental de pinguinsde-magalhães do mundo, exibindo aproximadamente 400 mil casais residentes entre os meses de setembro a março, quando, então, partem para buscar águas mais quentes no litoral brasileiro. Ainda na região, vale a pena conhecer Punta Ninfas, um local bastante remoto, escolhido como morada por uma colônia de elefantes-marinhos onde, com cautela, é possível se aproximar dos animais e ficar por horas observando como descansam ao sol e entram constantemente em atrito por espaço, com os machos medindo forças a “peitadas” e urros.

Mergulho com lobosmarinhos

No mar, o encanto da Patagônia fica por conta da fantástica possibilidade de se nadar junto aos lobos-marinhos. Nos anos


80, a atividade era realizada sem nenhum controle e acabou sendo proibida por não existir um estudo preciso a respeito do impacto sobre os animais e seu hábitat, até que, há sete anos, a associação das operadoras de mergulho da cidade apresentou ao governo um projeto que regulamenta o comportamento dos mergulhadores e operadoras. Basicamente, a operação é realizada em pequenas embarcações com até seis mergulhadores, sempre no período da manhã. Os mergulhos acontecem próximo à Reserva Punta Loma e à colônia de lobos-marinhos de Punta Ameghino, liderados apenas por instrutores qualificados com treinamento específico de mergulho com mamíferos marinhos, que inclui também a aproximação com baleias. Os mergulhos são limitados a um tempo de fundo de 45 minutos e são realizados entre quatro e oito metros de profundidade. Os animais não podem ser tocados.

A experiência de mergulhar com os lobos

Na operadora, é necessário apresentar a certificação de mergulho em dia, fazer um cadastro com informações pessoais e

médicas e assinar um termo de responsabilidade. A apenas 25 minutos de lancha da praia, é só submergir e aguardar nossos anfitriões! Os lobos vêm até nós. Durante o caminho, é possível avistar parte do naufrágio do navio Folias, localizado a apenas 300 metros da Praia Paraná, a uns 12 km de Puerto Madryn. Com 60 metros, a embarcação encalhou na praia há mais de 20 anos após um incêndio a bordo, e, durante a maré baixa, é possível visualizar fora da água boa parte de sua estrutura deteriorada. Além deste, há mais dois naufrágios naturais e outros dois artificiais, entre eles um pequeno avião e a embarcação Emma, que fazia parte da expedição de Sir Ernest Shackleton à Antártida, no início dos século 20. Ela foi afundada para formar o primeiro parque aquático da região em 1947. Ao chegar ao ponto de mergulho, paramos a uns 200 metros da costa, de onde era possível ver a colônia de lobos-marinhos, machos e fêmeas adultos, e muitos filhotes e jovens a brincar. O piloto fixou a lancha em uma das boias já existentes no local. Rapidamente, agilizamos a equipagem do lastro, máscara, nadadeiras e colete, ficando prontos pra cair na água. Os cinco milímetros de neoprene foram ideais para a temperatura da água, que estava em torno de 16 graus. Em dois ou três minutos chegavam nosAventura & Ação | 75


MEIO AMBIENTE sos primeiros anfitriões, curiosos, a dar voltas ao nosso redor. Um grande macho veio exibindo sua presença, tentando entender o que se passava. De acordo com o instrutor, eles, literalmente, se aproximam para verificar o porquê do agito dos mais jovens e das fêmeas, mas basta manter-se parado e calmo que logo se afastam. Começa então a brincadeira. Os dóceis lobos, embora pareçam desajeitados fora d’água, dentro dela são muito ágeis. São como aeronaves flexíveis passando ao seu lado, dando giros, cambalhotas, voltas e, na maior parte das vezes, chegando muito perto e parando para lhe analisar. Ficam curiosos com a roupa, máscara, nadadeiras e bolhas de ar liberadas pelo regulador, chegando algumas vezes a imitar, também soltando ar pela boca. A curiosidade não para por aí. Os mergulhadores estão proibidos de tocá-los, mas a recíproca não é verdadeira. Quando menos espera, você está sendo puxado pela roupa na perna ou no braço, abraçado, cutucado e até abocanhado. As mãos chamam muito a atenção deles e, por mais de uma vez, vieram abocanhá-las para experimentar. Mas agem como cachorros brincando, que apenas seguram com a boca a sua mão, como se soubessem que não podem morder, pois irão machucar. É inevitável acariciá-los e entrar na brincadeira. Você não se cansa de observá-los mergulhando e de interagir com eles, em uma verdadeira festa. Chegamos a nos deslocar por alguns metros, para visualizar o fundo rochoso coberto por algas e anêmonas, além de alguns caranguejos e outros pequenos animais. Tivemos a oportunidade de ver um molusco nudibrânquio flutuando, algo difícil de se flagrar no local, mas a atenção fica mesmo voltada para os mamíferos marinhos mais boas-praças de toda a fauna patagônica. Já na superfície, retornando para o barco, os lobos-marinhos continuavam ao nosso redor, nadando próximo com a cabeça fora d’água e, por vezes, afundando e sumindo na profundidade, para, logo em seguida, retornar. De repente, um lobo subia a escada de apoio tentando entrar a bordo, em uma cena cômica e inesperada que nos dava a sensação de que queria retribuir nossa visita cordial. Em cenas como essas fica a certeza que a Patagônia é sempre surpreendente. A impressão é que o lugar vai ser sempre um recanto admirável, selvagem e apaixonante que proporciona um contato verdadeiro com a natureza em sua forma mais livre e espontânea. A sensação é de estar realmente vivendo o Planeta Terra.

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Sobre o autor Rodrigo Scapini Meurer, 40 anos é fotógrafo. Com uma grande paixão pela natureza e por esportes de aventura, vem desenvolvendo seu portfólio com expedições fotográficas pelo Brasil e América do Sul, registrando imagens e experiências sobre o mundo outdoor. Seu envolvimento com atividades como trekking, corridas de aventura, ciclismo e montanhismo o levaram ao desejo crescente de registrar os momentos especiais em que entusiastas e atletas dão o máximo de si nos mais diversos ambientes da natureza.

operadoras Aquatour Buceos www.aquatours.com.ar Madryn Buceo www.madrynbuceo.com Scuba Duba www.scubaduba.com.ar

Paraguay Brazil Curitiba

Porto Alegre

Uruguay

32°

ICO

Chile

NT

Buenos Aires

AT

Argentina

Golfo de San Matías Golfo de San José

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Rio C h

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Chubut

OCEAN

Golfo Nuevo

O

40°

Península de Valdés

Puerto Madryn 50 km 48°

Divisão política Rodovias

N

Cidades

400 km

64°

56°

Capital

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MEIO AMBIENTE ENSAIO FOTOGRテ:ICO

CHAPADA DIAMANTINA

POR OUTROS

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ÂNGULOS Depois de vasculhar seus limites por mais de uma década, fotógrafo revela um olhar bastante autêntico sobre as paisagens e as relações humanas na Chapada. E garante: ninguém seria capaz de identificar todos os lugares expostos no livro, não fossem as legendas.

O

fotógrafo Rui Rezende se dedicou ao longo de 13 anos para nos brindar com o livro “Chapada Diamantina: Um Paraíso Desconhecido”, uma obra que surgiu após longas caminhadas em busca de mapear os caminhos, conhecer e clicar os lugares mais inusitados do destino ao lado de guias, garimpeiros, ex-catadores de sempre-vivas e mateiros. O resultado é uma obra arrematadora, cheia de vida e poesia, que vai muito além dos cartões postais da Chapada. Na verdade, um dos principais trunfos da obra é, além de trazer uma magnífica representação das paisagens, cachoeiras e grutas, apresentar de forma pra lá de autêntica o belíssimo lado humano da região, registrado a partir das suas manifestações culturais ou mesmo em seu cotidiano, como a caça ao boi fugido, uma pescaria no Marimbus, as oferendas aos Orixás, uma junta de bois puxando o arado, ou simplesmente, num final de dia, uma criança varrendo a porta da sua casa... Para alcançar o primor de suas imagens, Rui revela a receita da paciência. “Já fiquei horas para conseguir uma foto de um urubu rei na serra da Pantomia... Inspirado nos esconderijos dos caçadores, montei uma “chocha” de palha trançada, pintei o rosto de preto e deixei apenas um pequeno buraco para colocar a lente da máquina. A espera não foi em vão. Assim consegui fotografar uma das aves mais bonitas da nossa fauna”, recorda.

SEGREDO Na foto de capa Rui Rezende não colocou legenda para ver quem é capaz de descobrir onde fica esse lugar incrível. Segundo ele, até agora, depois de cinco meses de lançamento do livro, só suposições erradas Aventura & Ação | 79


MEIO AMBIENTE ENSAIO FOTOGRÁFICO

GPS? A minha cabeça e o meu sentido de orientação é que me guiavam nestas expedições fotográficas. Em algumas, tínhamos que voltar pelo término da comida, mas nunca por estarmos perdidos.

ANDARAÍ Serra da Pantomia

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CLICKS EM BAIXA VELOCIDADE No período da Quaresma, pessoas cobertas com lençóis brancos seguem ao redor da vila de Igatu, em silêncio, e param em pontos estratégicos, onde, acompanhadas pelo som da matraca, entoam cânticos em coro, em homenagem aos seus mortos; Abaixo, imagem do Pico do Itobira, construída a partir do movimento de rotação da Terra. Cada risco que vemos no céu é uma estrela

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MEIO AMBIENTE ENSAIO FOTOGRÁFICO

REMANEsCENTES QUILOMBOLAS A comunidade Morro do Chapéu preserva tradições como o samba de roda. Entre uma foto e outra, Rui fez um pequeno vídeo, que assistiram entusiasmados por se verem. Ao lado, flamboyan refletido em poça d’água

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MEIO AMBIENTE PARA INOVAR Rui queria uma imagem inédita do Pai Inácio, já tão registrado por fotógrafos do mundo inteiro. Por isso convidou o escalador Gironha para compor a cena

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Sobre o fotógrafo

O livro

Autodidata, Rui se apaixonou pela fotografia aos 17 anos quando partiu de Amargosa (cidade natal) para Salvador, trabalhar num laboratório fotográfico. Lá, se identificou de cara com o universo das imagens e percebeu que tinha encontrado a sua vocação: viver da fotografia. Após aprender todo o processo técnico de revelação das imagens, partiu para fotografar. Começou com eventos e algumas fotos para publicidade e, em 1999, promoveu a primeira exposição em homenagem à primavera. Este trabalho já revelava sua vocação como fotógrafo de natureza. Dali em diante não parou mais.

As fotos expostas no livro estão em ampliações P&B e coloridas, acompanhadas por textoslegendas escritos pelo próprio fotógrafo; curtas explicações sobre as imagens abordando temas como: a experiência para fazer a foto, sobre o lugar ou manifestação, além de um pouco da técnica utilizada para conseguir a imagem. Ao todo são 252 páginas contemplando a fauna e flora da região, fotos em ângulos inéditos das cachoeiras da Fumaça, Fumacinha, Buracão, Fundão, Cachoeirão, Roncador, Mosquito, Pico do Itobira, Pico das Almas, Vali além da cultura do povo local.


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MEIO AMBIENTE

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Foto André Dib

Meio Ambiente

“O Parque Nacional Grande Sertão Veredas é composto por infindáveis labirintos de veredas e buritizais, a perderem--se de vista, numa das mais belas áreas de Cerrado preservado do País.”

SEMPRE VIVA Veredas do Itaguari - Parque Nacional Grande Sertão Veredas, MG. Confira na editoria Unidades de Conservação as belíssimas imagens dos parques Grande Sertão Veredas e Peruaçu, no norte de Minas Gerais

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MEIO AMBIENTE DESIGN

VERSÁTIL Carretel reformado pelo ateliê “A Casa Alternativa” vira mesa de centro 88 | Aventura & Ação

Ambientes sofisticados, estilosos, confortáveis, funcionais, personalizados e divertidos. Dê uma segunda chance para peças e materiais que estavam fadados a irem parar no lixo. Sustentabilidade começa em casa Texto Lilian Caminha e Camila Fróis


“O que mais me motiva na criação de um ambiente ou jardim é o aconchego”

F

oi-se o tempo em que a necessidade era a única a fazer as pessoas usarem e abusarem da imaginação. Reutilizar, além de uma questão de sobrevivência, agora é tendência. Quer dar uma cara nova para algum ambiente? Os móveis estão desgastados? Enjoou da decoração? Pode ter certeza, não precisa comprar tudo novo. Abuse do bom gosto para reformar o que já tem e conseguir um estilo romântico, retro, vintage, minimalista, tropical ou qualquer outro sem gastar muito ou desfazer dos móveis ou materiais antigos. Acredite, estilo e consumo consciente podem e devem andar juntos. Não há regras ou limites para a imaginação. Além dos móveis antigos, qualquer coisa que iria pro lixo pode virar artigo de luxo para um design arrojado. Isso porque, hoje em dia, os famosos “Rs” da sustentabilidade: Refletir, Reduzir, Reutilizar, Reciclar, Respeitar e Reparar vêm fazendo a cabeça de cada vez mais gente. Muitos profissionais da decoração entraram na onda e aderiram a uma forma completamente diferente de pensar o design, usando novos materiais e descartando a ideia de “jogar fora”. Afinal de

Pufe caixote quadrinhos

Crédito La Calle Florida

Cláudia Regina do La Calle Florida

LA CALLE FLORIDA Na peça corrente de bicicleta é utilizada para decorar madeira de demolição

contas, “fora”, do ponto de vista do planeta, não existe. O resultado está nas requintadas, delicadas ou divertidas peças de decoração, mobiliários e acessórios que surgem a cada garrafa pet, sapato velho, pneus, caixotes de madeira, poltronas velhas, entre outros objetos normalmente descartados. Muitas vezes os novos itens não deixam nada a desejar nos quesitos funcionalidade, praticidade ou luxo. As dicas parecem brotar em blogs, revistas e até mesmo em eventos importantes do segmento, como, por exemplo, a “Casa Cor”, que já dedicou uma edição inteira ao tema e, em todos os anos, traz as novidades verdes em destaque. Outro evento interessante para “roubar” umas ideias é o “Morar mais por menos – o chique que cabe no bolso”, que acontece em dez cidades brasileiras e tem a proposta de expor ambientes sofisticados e soluções sustentáveis a favor da racionalização e preservação do meio ambiente. Além disso, em nome da inclusão social, os profissionais que participam do evento têm o desafio de incluir em seus projetos, produtos criados por ONGs e cooperativas de artesãos. O importante, porém, além de se investir em soluções social e ambientalmente sustentáveis é apostar na personalidade dos ambientes. Cláudia Regina, da La Calle Florida trabalha com decoração há 40 anos. “O que mais me motiva na criação de um ambiente ou jardim é o aconchego”. Meu estilo? Nada préAventura & Ação | 89


DESIGN

Crédito Gustavo Xavier

DESIGN

-determinado, cada cliente é único e sua casa ou seu jardim idem. Minha função é casar sonhos com realidade e interpretá-los nem sempre é fácil”, diz. Em seu ateliê, Cláudia trabalha com reutilização, reaproveitamento e novos usos de materiais e não gosta de nada que seja muito óbvio. Ela desenvolve projetos e peças para diversos segmentos da decoração, sempre utilizando esses tipos de materiais. A designer de interiores Patrícia Ribeiro, sócia do escritório Ribeiro Grober, também não economiza na imaginação. Contratada para recriar o quarto de uma jovem gestora ambiental, usou escada como criado mudo, garrafa como abajur e outros materiais reaproveitados para compor o dormitório. A ideia era otimizar o espaço para acomodar as inúmeras revistas e livros que a cliente possuía, além de montar um escritório em seu dormitório, pois, muitas vezes, ela precisa trabalhar em casa. “O cômodo ganhou encanto graças aos pequenos detalhes. Usamos um grande tapete de sisal, fibra 100% natural e sustentável, abraçando todo o quarto e um tecido florido cobriu a parede de cabeceira, fazendo as vezes de papel de parede. Além disso, ganharam destaque peças com valor sentimental, como uma cesta de fibra trazida por seus pais de uma viagem, onde agora ela guarda lenços e cachecóis. Já um conjunto de lápis de cor feito com casca de árvore virou enfeite, uma delicada escadinha reutilizada ganhou vida como criado mudo, onde fica um abajur composto por uma garrafa de vi-

dro e cúpula. O resultado final: um quarto multifuncional cheio de charme e super bem aproveitado, com a cara da dona, além da pegada sustentável”, conta Patrícia. A decoração da nossa casa, escritório, ou qualquer outro canto que seja, diz muito sobre a nossa personalidade. Faz toda diferença estarmos em um espaço com o nosso estilo, onde sentimos prazer de chegar e ficar. Por isso, as dicas que seguem são só uma inspiração. O importante, além da economia de recursos naturais e o emprego de materiais recicláveis, é que a sua casa tenha a sua cara.

MORAR MAIS POR MENOS O evento que acontece em várias cidades do País apresenta soluções sustentáveis para diversos ambientes. Em sentido horário: copa com grade de metal reutilizada no lustre e garrafas decorativas em pedaço de tronco; banheiro com caixotes customizados usados como armário e sala de estar com escada como estante


Crédito

Crédito

Madeira Sabe aquele caixote facilmente achado ao final das feiras livres? Pois é, ele mesmo virou astro por conta do olhar sustentável dos arquitetos e designers. Com um pouco de re-desing, ele fica puro estilo na decoração de salas, quartos infantis e exteriores, sejam pintados, revestidos com tecido, papel ou outra técnica qualquer. Transformam-se em estantes, aparadores, organizadores, porta revista, suporte para vasos e o que mais sua imaginação permitir. Descartados na natureza, levariam cerca de 10 anos para se decompor. Já quando pintada, a madeira chega a levar 15 anos para dar adeus ao mundo. Falando na madeira, outras peças que podem agregar muito valor ao seu espaço são as portas e janelas velhas. Em meio ao verde e às flores coloridas que salpicam o jardim, apoiam com elegância vasos e utensílios de jardinagem. Resultado: um ar rústico e um clima acolhedor. As escadas também dão um “up” e trazem personalidade para o ambiente, além de serem muito funcionais. Podem organizar bolsas, revistas e livros, além de serem usadas como porta toalhas, mantas e tecidos e também para apoiar plantas, ou até mesmo servir de estrutura para prateleiras. Ficam charmosas até com marcas de tintas, mas, se preferir, faça uma reforma.

Metal

Outra aposta dos decoradores são as latas de alumínio, que, se jogadas no lixo, precisariam de 200 a 500 anos para se decompor. A solução é contar com elas pra se organizar! Depois de customizadas, as embalagens ficam ótimas em ateliês, oficinas ou escritórios. Podem ser fixadas na parede para se guardar materiais como tecidos, linhas, etc, ou sobre mesas e escrivaninhas com a função de porta-lápis. Ficam lindas, também, como vaso de flores. Já as latas de tinta maiores transformam-se em pufes mais criativos e as rodas velhas de bicicletas servem de porta recados super divertidos. Sobre os talheres, mesmo depois de aposentados, eles até podem continuar na cozinha, mas assumindo a forma de suportes para panos de prato e utensílios. Além de reciclagem, liberdade também é tendência! Então solte os pássaros e a criatividade. Melhor função pras gaiolas é trazer um estilo romântico para a decoração. Seja como lustre, luminárias, com flores ou velas, pintadas ou não, são poéticas, doces, e acolhedoras. Compõem super bem com um papel de parede florido ou outros motivos delicados.

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MEIO AMBIENTE DESIGN

Lugar de lixo é no lixo. Ou não!

Cortiça

Pneus

Apesar de serem lentamente biodegradáveis, nada nos impede de dar um final mais feliz para as rolhas de cortiça. Elas podem virar mural para fotos e recados, apoio de panelas, quadros, etc. Quando colocadas dentro de um recipiente de vidro, decoram com elegância qualquer adega ou espaço gourmet.

Há quem diga que eles levariam nada mais, nada menos do que 600 anos para se desfazer. Outros afirmam que esse tempo é indeterminado. Pelo sim e pelo não, que tal poupar os ambientes naturais? Pintados ou forrados com tecido, no jardim ou no quarto, como mesa ou especialmente como pufe, eles sempre surpreendem. Para isso ele pode ser encapado com sisal, tecidos, ou apenas pintados.

Flores

REPAGINADA Ao lado, ambiente cheio de estilo empregando os versáteis pallets; acima, da esq. para a dir.: porta descartada vira artigo decorativo, útil para penduricalhos em quarto descolado; as rolhas em divertida decoração com velas e pneu que virou vaso de planta no jardim

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Com elas fica bem fácil aproveitar tudo. Acredite! As flores vão bem em xícaras, bules, regadores, botas, garrafas. Em canos e nas calhas também ficam uma graça. Basta cortar o cano por inteiro na posição horizontal e plantar. Ela pode ser pendurada ou não. E fica bem elegante. As garrafas de vidro também valem a pena. Podem ser coloridas ou transparentes e estão em alta. São perfeitas para decorar uma mesa de refeições. Se preferir, pode-se criar um rótulo e deixá-la ainda mais especial. A dica é compor garrafas de cores e formatos diferentes. E fique à vontade para levá-la para o quarto, lavabo, escritório, cozinha ou sala, sem medo de ser feliz.


Não é velho, é Vintage!

ANTES E DEPOIS A namoradeira customizada pelo ateliê “A Casa Alternativa” traz um clima romântico e aconchegante para qualquer ambiente. Abaixo, quarto decorado pela designer de interiores Patrícia Ribeiro, que une sustentabilidade e personalidade

Reformar aquela poltrona antiga também está em alta! A proposta da Casa Alternativa, do Rio de Janeiro, por exemplo, é “harmonizar o antigo com o contemporâneo, o clássico com o ousado, o simples com o criativo”. A aposta dos designers é a retromania, ou o “vintage”. A origem do termo vem de “vint”, relativo à safra de uvas e “age”, de idade. O termo foi acolhido pelo mundo da moda e decoração como o melhor de cada época, de cada década. “E é isso que fazemos aqui: resgatamos antiguinhos “com potencial”, que muitas vezes poderiam ser desprezados por seu estilo pesado, fora de época, e os trazemos com uma nova roupagem: atual, colorida, ousada”, diz a idealizadora do ateliê A Casa Alternativa , Renata Canabrava. “Transformar, reciclar, reaproveitar não é moda. É uma tendência que veio para ficar. Adquirir produtos transformados, redesenhados, renovados diminui o impacto no meio ambiente e, ainda, valoriza peças impregnadas de histórias, até mesmo de toda uma época. É o consumo sustentável e o pensar consciente sobre o mundo que deixaremos para as próximas gerações”, acrescenta a designer. Nesse espírito, sempre é possível deixar a imaginação rolar e criar peças e ambientes adoráveis e repletos de conceito. Se puder, conte com a ajuda de um profissional de design de interiores. Ele irá projetar o espaço de acordo com as suas necessidades e estilo.

NA INTERNET Ateliês La Calle Florida www.lacalleflorida.blogspot.com A Casa Alternativa www.acasaalternativa.com.br Ribeiro Grober www.ribeirogrober.wordpress.com Ateliê Maria Flor www.amariaflor.com.br Eventos Morar mais por menos www.morarmais.com.br Casa Cor www.casacor.com.br

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MEIO AMBIENTE

Particip-Ação política:

aprendendo atuação democrática em Cáceres

No município de Cáceres, no Mato Grosso, o povo tem voz, opinião, vontade política e até uma cadeira na Câmara dos Vereadores, ocupada por um representante que, de fato, os representa. Em uma iniciativa pra lá de democrática, entidades e grupos populares da cidade organizaram um mandato coletivo. Texto Lucila Egydio EQUIPE Os integrantes do Mandato Coletivo discutem tudo que deve ser deliberado na Câmara

T

odo mundo já sabe que o conceito de sustentabilidade vai muito além da conservação ecológica. Por isso, nessa edição, vamos ver como se materializa, na dimensão social, um aspecto que, muitas vezes, desvinculamos da ideia de “sustentável”: nossa representatividade política e nossa ação cidadã. Vamos nos ater aqui à primeira imagem que temos do termo cidadania, que é a dos direitos políticos, ligada à ação de cada um na contribuição para a coisa pública, a participação na formação do governo e sua administração, seja por meio do voto, seja em um cargo público. Também vamos considerar que democracia pressupõe a contrapartida de deveres, já que, na vida em grupo, os direitos 94 | Aventura & Ação

de um indivíduo são garantidos a partir do cumprimento dos deveres de cada componente da sociedade. Em uma democracia representativa, como teoricamente é a nossa, nossos representantes são escolhidos por eleições livres e justas, abertas a todos os cidadãos, para defender, em nosso nome, aquilo que consideramos justo e equilibrado para nossa vida em sociedade. No entanto, cidadania não significa apenas votar e esquecer-se de quem votou; é fundamental lembrar que o sucesso ou o fracasso do governo é nossa responsabilidade, pois a verdadeira democracia não é feita somente do voto ocasional. Nossos representantes precisam do tempo e dedicação de seus cidadãos, afinal, eles estão lá para prote-


ger nossos direitos e liberdades. É aí que entra o Mandato Coletivo de Cáceres, em Mato Grosso, nossa inspiração de hoje sobre como a ação cidadã pode ser posta em prática. Para compreendê-lo de forma rápida: um vereador foi eleito, mas tanto suas decisões como sua atuação parlamentar não são direcionadas somente por sua cabeça, por seus interesses ou por seus conchavos, mas sim com base em uma discussão contínua com as bases que o elegeram. “Mas não são todos os mandatos assim?”, você pode perguntar. Infelizmente não, ainda estamos muito distantes dessa realidade e o que prevalece, geralmente, são os interesses individuais. A ideia do mandato coletivo não nasceu pronta, mas amadureceu a partir da organização social já existente em Cáceres, município à beira do Rio Paraguai, em Mato Grosso, tanto em prol de direitos sociais como ambientais. Nasceu a partir da percepção das necessidades de comunidades e sindicatos que afirmavam que, depois das eleições, nunca viam os resultados do trabalho de quem tinha recebido seus votos. Ou seja, a ideia do mandato surgiu da iniciativa popular, refletindo o desejo de prestação de contas e da viabilização da participação real da comunidade nas decisões e nas propostas discutidas na Câmara. A primeira etapa foi escolher quem seria o candidato, o que foi feito democraticamente: explicado o conceito do Mandato Coletivo, várias pessoas foram indicadas, depois cada uma foi consultada. Dos que aceitaram, foram selecionados três nomes e, destes, o mais votado pelas entidades participantes foi definido como o candidato. Além disso, os outros dois, mesmo não sendo os mais votados, comprometeram-se a serem parceiros ao longo do mandato. Os nomes não foram elencados aleatoriamente, pois a grande questão era deixar claro o que se desejava com esse mandato. Para isso, foram definidas pessoas que tivessem o

perfil adequado, como o compromisso com a base, histórico com os movimentos sociais rurais e com comunidades na cidade, a participação na luta pela reforma agrária, etc. O principal critério, porém, foi saber se cada um concordava em fazer parte de um processo em que a pessoa não fosse dona do mandato. O processo eleitoral em si foi um grande desafio: os idealizadores reuniam pessoas de diferentes bairros e assentamentos rurais, apresentavam a proposta e duas ou três pessoas tornavam-se os articuladores do mandato no bairro. Os recursos de campanha vieram de doações feitas pelas próprias comunidades. Com a otimização do dinheiro, o total gasto foi de R$2.130,00. Sim, leitores, dois mil cento e trinta reais! Houve grande envolvimento das pessoas na confecção do material de campanha e a contabilidade foi feita por um membro do grupo, que doou seu trabalho. Nesse processo, uma triste constatação: a de que não há somente políticos corruptos, mas eleitores corruptos também. Muitos eleitores na época da campanha perguntavam “o que vão pagar? O que vão dar?”. Portanto, a eleição não foi o objetivo principal da campanha, pois eleger nem sempre é o mais difícil, o importante era fazer do processo eleitoral um momento de formação política. Com 655 votos (1,3% dos votos válidos) o vereador Alonso Batista dos Santos passou a ocupar uma cadeira na Câmara de Vereadores de Cáceres. A votação não foi a mais expressiva, mas o mandato vem fazendo a diferença na cidade. Representantes do grupo ressaltam a importância do envolvimento coletivo. “A caminhada foi muito bonita, pois houve um real comprometimento dos segmentos rurais e urbanos do município”, afirma Vanda dos Santos, da equipe de assessoria ao mandato. E você, lembra-se de quem foi seu candidato a vereador na última eleição municipal? E quais eram os pontos da proposta dele que

Em uma democracia representativa, como teoricamente é a nossa, nossos representantes são escolhidos por eleições livres e justas, abertas a todos os cidadãos, para defender, em nosso nome, aquilo que consideramos justo e equilibrado para nossa vida em sociedade.

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MEIO AMBIENTE

SUSTENTABILIDADE Um dos focos do mandato coletivo é trazer à tona questões relacionadas à preservação ambiental, desenvolvimento social e sustentabilidade econômica da região

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fizeram com que você decidisse escolher aquele candidato? Hoje em dia acompanha as decisões que ele toma em seu nome na Câmara? Lembre-se de que os cidadãos numa democracia não têm apenas direitos, têm o dever de participar no sistema político. Cidadãos democráticos sabem que devem ser responsáveis por sua sociedade para poderem se beneficiar da proteção dos seus direitos. O vereador é um dos sustentáculos dos sistemas democráticos representativos, pois deve ser uma figura próxima de seus eleitores, para compreender suas necessidades e propor, deliberar, debater e aprovar leis em seu nome. Cada legislador deve equilibrar o bem-estar geral com as necessidades de sua base eleitoral. No caso dos vereadores, é mais viável ao eleitor fazer contato com seu representante, seja para levar seu apoio ou para reivindicar atos e posturas condizentes com suas expectativas. Um vereador é um porta-voz das aspirações de bairros, de associações de classe e de organizações, levando à esfera pública temas que são importantes para sua realidade ou setor. Em seu funcionamento, o Mandato Coletivo não é apenas um mandato participativo. Antes de qualquer indicação, o tema em votação é discutido na base, há um consenso se vira ou não um projeto de lei desejável e que benefícios traria. Não somente o vereador que tem o mandato oficial decide, pois, quando está ausente, o grupo de coordenação do mandato se reúne para deliberar. A reunião da coordenação do mandato é semanal, onde é discutido o que será votado e são apresentadas demandas colhidas na população. Na assembleia geral, em que cada setor (urbano ou rural) tem seus representantes, são debatidos temas mais amplos. Cada bairro ou assentamento indicou três pessoas para os re-

presentarem, formando os núcleos de base, subsidiando as discussões desde a candidatura até hoje. Há ainda uma coordenação de assessoria que ajuda em temas mais amplos, formada por lideranças mais consolidadas. A avaliação, às vésperas de um novo processo eleitoral, é de que a pressão que o grupo exerce acaba tendo efeito, pois o fortalecimento da participação popular é visível. O mandato virou referência na Câmara pois muitos vereadores não têm familiaridade com certos assuntos e Alonso, devido ao seu histórico de militância, os esclarece sempre. Alonso ainda avalia que “o processo eleitoral permitiu articulação, autonomia e liberdade de falar e questionar” em posicionamentos na Câmara, além de se destacar pela legitimidade de representação e pelo seu conhecimento da realidade rural. O jeito de fazer a campanha permitiu que isso acontecesse. Por isso, um fator muito importante foi a decisão de não somente disputar a eleição, mas antes de tudo, mobilizar aqueles que tinham o desejo de potencializar a luta pela redução de desigualdades sociais. Um ponto importante: parte do salário do vereador é usada para manter o trabalho do Mandato Coletivo, já que não há verba para gabinete no município. Ou seja, o salário também é coletivo! Além disso, por princípios éticos, o Mandato Coletivo não recebe pelas sessões extraordinárias, (pois isso já foi reprovado pelo Tribunal de Contas). Se não é lícito, o código de ética do mandato não permite. De acordo com o grupo, sua missão extrapola as decisões da Câmara, pois há necessidade de reforçar a educação para a cidadania. Isso é feito por meio de um informativo periódico e de literatura que ficam disponíveis no gabinete (desde revistas com teor político até textos e livros sobre acessibilidade, reforma agrária e meio ambiente, entre outros temas). A ideia do mandato é despertar as pessoas para o fato que a participação política não deve ser apenas eleitoral, mas diária. Hoje o grupo já emplacou alguns debates que não existiam na Câmara, tais como necessidade de um código ambiental no município, campanhas contra uso de agrotóxicos, discussões sobre a hidrovia do Rio Paraguai e afins. Embora ainda não seja perceptível uma nova postura dos vereadores, novos temas foram colocados em pauta e a voz de minorias passou a ser ouvida com muito mais respeito. Ainda é necessário mostrar que não se trata apenas de uma postura partidária, muito menos que seja de uma pessoa só. O desafio é fazer a participação popular e a pressão


O vereador é um dos sustentáculos dos sistemas democráticos representativos, pois deve ser uma figura próxima de seus eleitores, para compreender suas necessidades e propor, deliberar, debater e aprovar leis em seu nome. Cada legislador deve equilibrar o bem-estar geral com as necessidades de sua base eleitoral. social definirem rumos da aplicação e priorização dos recursos públicos. As grandes vitórias alcançadas foram os espaços ganhos na Câmara, a articulação dentro do Estado e o comprometimento dos que estão envolvidos, além de ganhos de visibilidade para questões socioambientais. Hoje, prefeito, vereadores e secretários consultam o vereador Alonso para diversas decisões, pois sabem que a comunidade está ali legitimamente representada. Adote um vereador Se você ainda não tem um mandato coletivo na sua cidade, projetos como a Rede Adote um Vereador (www.adoteumvereadorsp.com. br) estimulam que nós, cidadãos, adotemos posturas mais ativas em nosso sistema representativo e não que fiquemos esperando que vereadores, deputados e senadores ajam em nosso interesse sem que nos manifestemos a respeito. A proposta é: em primeiro lugar, escolha um vereador (também pode ser um deputado ou senador), depois, abra um blog onde sejam publicadas as informações e seus comentários sobre o escolhido. O terceiro passo é que sejam procuradas informações sobre o parlamentar nos jornais, rádio, TV, sites e blogs, que sejam mandados e-mails ou tuitadas com perguntas, que sejam feitos telefonemas para o gabinete ou feitas visitas à Câmara Municipal (ou Assembleia e Congresso) para acompanhar a atuação do representante. Dá trabalho? Pois é. Sim, dá trabalho. Mas criar leis significa criar o futuro, muitas vezes um futuro muito próximo. Em geral, não temos a dimensão de que nossos representantes estabelecem os rumos de nossas vidas ao definirem leis e ao fiscalizar o governo de nossa cidade, mas reflitam, caros leitores, sobre como essas decisões nos afetam diretamente. E o que temos feito para que essas decisões reflitam realmente nossas necessidades, interesses e princípios?

sobre o mandato coletivo Representante do Mandato Coletivo na Câmara: Alonso Batista dos Santos – Vereador Contato: alonso@camaraceres.mt.gov.br mandatocoletivo13@gmail.com

O analfabeto político (Bertolt Brecht)

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

sobre a autora Lucila Egydio, bioconstrutora, bióloga, especialista em ecoturismo, educadora ambiental e consultora da Associação Brasileira de Turismo de Aventura (ABETA) e do Instituto SOS Pantanal.

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natureza em foco MEIO AMBIENTE

BROMÉLIA

A bromélia é uma “planta hospedeira” típica da Mata Atlântica brasileira, Esse exemplar foi clicado em Bertioga-SP, que vai sediar em novembro uma mostra fotográfica que pretende revelar o lugar como um surpreendente destino de fotografia. FOTO Du Zuppani

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MEIO AMBIENTE


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