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ESPORTE

O futebol de base em Sorocaba TRABALHO, COMUNIDADE E CIDADANIA - SOROCABA - Nº 4 - DEZEMBRO DE 2015 Trimestral

O ensino público na encruzilhada Na briga entre Governo do Estado e Município quem perde são os alunos e a sociedade, que ficam reféns do ensino particular

MERCADO

Indústria automotiva em plena expansão

ECONOMIA

Como ajustar o bolso em tempos de crise


Patulê EXPEDIENTE Uma publicação do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região Editor Paulo Rogério Leite de Andrade Redação e reportagem Daniela Gaspari Fernanda Ikedo Paulo Rogério Leite de Andrade Fotografia José Gonçalves Filho (Foguinho) Projeto gráfico e editoração Cássio de Abreu Freire Lucas Delgado Assistente de redação Gabrielli Duarte

Estagiário: Vagner Santos Endereço Rua Júlio Hanser, 140 Bairro Lageado – Sorocaba SP CEP 18030-320 Tel. (15) 3334-5400 www.smetal.org.br Impressão Bangraf Tiragem 35 mil exemplares Distribuição gratuita Diretoria Executiva Presidente Ademilson Terto da Silva Vice-presidente Tiago Almeida do Nascimento Secretário-Geral Leandro Cândido Soares Secretário de Adm. e Finanças Alex Sandro Fogaça Secretário de Organização João de Moraes Farani Diretor Executivo Silvio Luiz Ferreira da Silva Diretor Executivo Joel Américo de Oliveira

Um ano de dificuldades agravadas por golpismos Este foi um ano de desafios para a sociedade brasileira, especialmente para a classe trabalhadora. Para satisfação da oposição ao governo federal, o país entrou em uma crise econômica, que vem sendo agravada pelo clima de instabilidade política cultivado, de maneira irresponsável, pelos próprios opositores e pelos golpistas de plantão. Claro que há ajustes a serem feitos e, obviamente, a honestidade e a ética são valores indispensáveis em qualquer área do convívio humano, seja na política, no trabalho cotidiano ou na vida. A ausência desses princípios deve ser cobrada em todos os campos da civilização e, na comprovação de desvios, os autores devem ser punidos no rigor da lei. Seria bom se a ética que rege a cidadania — especialmente para quem preza a democracia — fosse adotada também pelos veículos de comunicação. Mas sob o pretexto da agilidade e da falta de espaço, muitas mídias hoje mais confundem do que esclarecem a audiência. Os pretextos operacionais, muitas vezes, escondem má-fé e interesses não revelados. Quando se trata do governo federal, em cuja política econômica o SMetal também defende mudanças, esses órgãos de imprensa primeiro escancaram a denúncia para depois, se der tempo, apurar sua veracidade ou publicar desmentidos. Mas quando se trata, por exemplo, do governo do Estado de São Paulo, essa mesma imprensa faz vistas grossas ou se limita a dar notícias curtas e sem muita repercussão. Foi assim no caso das fraudes e outras irregularidades nas obras do Metrô. Foi assim na crise da água e quase foi assim na reestruturação do ensino. A reestruturação do ensino só ganhou destaque depois que os estudantes se mobilizaram, ocuparam escolas, e a chamada “grande imprensa” não conseguiu ignorar o movimento. Mesmo assim, não perdem a oportunidade de tentar criminalizar as ações dos alunos. O ensino, aliás, é um dos destaques desta edição. Já a busca por informações para não ser ludibriado pela mídia de direita é o tema da reportagem sobre as instâncias de poder no Brasil. Na área de comunicação, a edição traz uma matéria sobre o uso saudável e seguro das redes sociais. Sobre economia, algumas dicas para fazer o salário render e não se perder em dívidas durante a crise. No campo do trabalho, há uma reportagem sobre assédio moral. E como o lazer, o esporte e a cultura também são direitos do trabalhador e fortalecem a cidadania, a edição traz também reportagens sobre esses assuntos pensando justamente na classe trabalhadora e seus familiares. Boa leitura a todos Ademilson Terto da Silva Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região Ponto de Fusão Nº4 - 2015

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Índice

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Futebol de Base

Sorocaba tem dezenas de escolinhas de futebol. Confira como funcionam algumas delas, que aliam o esporte a projetos sociais

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Mercado Automotivo

Especialistas comentam as perspectivas do setor automotivo no Brasil e suas implicações para a economia e o mercado de trabalho

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Patulê Editorial

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Drops Notas sobre sindicalismo, política, trabalho e cidadania

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Cultura Meninas fazendo Rock

8 Brasilidade

Cultura indígena

24 Estrutura do poder

Conhecimento qualificado, a base da democracia

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Reestruturação do Ensino Público

Movimentos de estudantes têm chamado a atenção da sociedade para os riscos de terceirização do ensino em Sorocaba e no estado

34 Saúde do trabalhador

Assédio moral, uma violência psicológica

36 Redes Sociais

No limite do bom senso e da Justiça

44 Entrevista

Carina Vitral, presidente da UNE

48 Em cena

Lançamentos, agenda e dicas culturais

49 Uma imagem Sonho de menino

50 Crônica Poeta do aço

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Nº4 - 2015 Ponto de Fusão

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Finanças Domésticas A reportagem traz dicas de economia doméstica e explica como funciona o impulso consumista, segundo a psicanálise


Drops Acidentes de trabalho no Brasil

SMetal é homenageado na Câmara Municipal

A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), divulgada pelo Ministério da Saúde em junho deste ano mostra que, no Brasil, 4,9 milhões de pessoas com 18 anos ou mais se envolveram em acidentes de trabalho em 2013. Esse número é seis vezes maior que o divulgado pela Previdência Social. A PNS estima também que, do total de acidentes, 1,6 milhão de trabalhadores deixaram de realizar suas atividades habituais, 613 mil tiveram sequela e/ou incapacidade e 284 mil precisaram ser internadas. Já em acidentes de trajeto, calcula-se que 1,4 milhão de pessoas sofreram lesões corporais. Segundo a pesquisa, o Estado de São Paulo contabilizou 903.333 acidentes de trabalho.

A Câmara Municipal de Sorocaba concedeu voto de congratulações ao Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região pelas ferramentas de comunicação lançadas em julho de 2015. Protocolado pelo vereador Izídio de Brito (PT), o requerimento foi aprovado por unanimidade pelos vereadores no dia 14 de julho. A homenagem foi oferecida à toda a diretoria e aos profissionais de imprensa da entidade. As ferramentas de comunicação citadas são: revista trimestral Ponto de Fusão; novo layout da Folha Metalúrgica e do Portal SMetal; TV institucional e o guia de convênio online para associados.

Empresas devem R$ 392 bi ao governo

Banco de Alimentos completa 10 anos

Lista divulgada pelo Ministério da Fazenda em outubro de 2015 mostra que a soma das dívidas de 500 grandes empresas brasileiras à Fazenda Nacional chega a R$ 392 bilhões. Entre os maiores devedores estão: a mineradora Vale; a Carital Brasil, antiga Parmalat; os bancos ItaúUnibanco, Bradesco e Santander; além da Companhia Brasileira de Distribuição, dona das marcas Pão de Açúcar e Qualitá. Com o valor da dívida daria para pagar seis vezes o déficit orçamentário estimado pelo governo federal, que é de aproximadamente R$ 64 bilhões.

No dia 16 de dezembro de 2015 o Banco de Alimentos de Sorocaba completa 10 anos e, em comemoração à data, o vereador Izidio de Brito (PT) promoverá uma sessão solene a partir das 19h, na Câmara Municipal. A entidade, que nasceu com a finalidade de diminuir o desperdício de alimentos, difundir a segurança alimentar e ajudar no combate à fome, beneficia, por mês, 17 mil pessoas assistidas por 150 entidades. Com o programa Cesta Verde, lançado em maio de 2015, o Banco passou a atender mais 900 famílias em situação de vulnerabilidade social, cadastradas nos dez Centros de Referência em Assistência Social (Cras) de Sorocaba.

Campanha Salarial 2015 A campanha salarial 2015 dos metalúrgicos da CUT no estado de São Paulo está chegando ao fim. Até o fechamento desta edição da Ponto de Fusão, dia 30 de novembro, só faltavam as fábricas de autopeças e do Sindicel (Sindicato das Fabricantes de Condutores Elétricos) firmarem acordos com a FEM e garantirem reajustes salariais de no mínimo 9,88%, que foi a inflação do período, além de melhorias nas cláusulas sociais de proteção aos trabalhadores. Porém, na região de Sorocaba, a grande maioria dos metalúrgicos em autopeças já conquistou aumento de salários, por meio de acordos diretos com o SMetal. Em www.smetal.org.br/ convencao-coletiva você encontra a íntegra das CCTs já assinadas.

Leia mais sobre esses e outros assuntos do mundo social, político e sindical no www.smetal.org.br Ponto de Fusão Nº4 - 2015

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Foguinho

Cultura

Meninas fazendo Rock

O Girls Rock Camp Brasil une o bom e velho Rock ’n’ Roll a oficinas socioculturais com o objetivo de fortalecer a autoestima e incentivar o empoderamento de meninas de 7 a 17 anos

Por Daniela Gaspari

Para Victória Barros além de aprender um instrumento, o projeto ajudou a aumentar a vontade de correr atrás de seus sonhos

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rtistas como Janis Joplin e Joan Jett, ou mesmo as brasileiras Rita Lee e Cássia Eller, são algumas mulheres que marcaram a história do Rock ’n’ Roll no mundo. Elas quebraram barreiras em um espaço predominantemente masculino e fizeram a diferença na luta pela igualdade de direitos entre os sexos, trazendo performances únicas e canções cheias de atitude, contrárias ao conservadorismo. Com a missão de fortalecer a autoestima e incentivar o protagonismo de meninas a partir do Rock e de atividades socioculturais, foi criado em Sorocaba o Girls Rock Camp Brasil. O projeto promove um acampamento musical diurno de férias só para garotas, o primeiro do Brasil e da América Latina. Segundo a idealizadora da iniciativa, a professora e socióloga Flávia Biggs, durante uma semana 60 meninas, de 7 a 17 anos, participam de oficinas, aprendem a tocar um instrumento – voz, guitarra, baixo, teclado ou bateria –, 6

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formam uma banda, compõem uma canção e fazem uma apresentação ao vivo com a presença de pais e amigos. “Além dessas atividades de música, elas também participam de oficinas de vivências socioculturais; de fanzine, que é uma revista alternativa; serigrafia; montam o logo e a estampa da banda; aprendem defesa pessoal e participam da oficina de imagem e identidade, na qual trabalhamos a desconstrução da imagem da mulher na mídia”, explica Flávia. Victória Maria Barros, de 15 anos, participou do projeto em janeiro de 2015 com a sua irmã Isabela Aparecida Barros, de 12 anos, e conta que foi uma experiência incrível. “Eu achava impossível aprender a tocar um instrumento em uma semana, fazer uma música, um som legal e apresentar para o público”, disse. No acampamento, Victória aprendeu a tocar baixo e se apresentou com a banda Black Bird. Quem as inscreveu foi seu tio, Ju-

nior Barros, que estava preocupado com a superexposição das meninas nas redes sociais. “Infelizmente, a internet abre janelas para as pessoas no geral, que podem ser perigosas”, explica. “Achava que elas iriam conseguir se valorizar mais a partir do acampamento”, completa Junior. Para ele o projeto mudou totalmente a rotina e a percepção de mundo das sobrinhas. “Ao participar de um projeto como esse, elas criam novos laços, novas amizades. E tem a parte de trabalhar o feminismo, de mostrar para as meninas que tem que lutar para que as coisas sejam iguais, que elas não são inferiores a ninguém”, disse. Depois do projeto, Victória conta que aumentou a sua vontade de “correr atrás” e começou a trabalhar como Jovem Aprendiz. “Logo depois que acabou o acampamento, a vontade de ser independente e correr atrás dos sonhos só aumentou. Eu abri os olhos para muita coisa”, lembra.


Divulgação

O projeto O Girls Rock Camp Brasil é um projeto sem fins lucrativos, formado por mulheres envolvidas com a música e movimentos sociais, inspirado no Rock ’n’ Roll Camp for Girl, de Portland (OR), EUA. A sua primeira edição no Brasil aconteceu em janeiro de 2013 e, desde então, é realizado uma vez por ano, durante as férias escolares, das 9h às 17h. Por ser o único no país, recebe garotas de diversas regiões do Brasil. O projeto é mantido com o valor cobrado nas inscrições – que na última edição teve o custo de R$

250 –, shows beneficentes, além de doações em dinheiro, materiais de papelaria e, especialmente, de instrumentos musicais. São disponíveis 60 vagas, 50 pagas e 10 gratuitas. Para concorrer à bolsa, as meninas devem estar matriculadas em escolas públicas. O valor inclui todo o material de trabalho e uniforme. Flávia Biggs conta que o projeto ainda não possui sede própria, mas é um plano para o futuro. “Se tivéssemos um espaço nosso, poderíamos ampliar ainda mais as atividades, fazer cursos mais longos

Victória (em pé, de rosa) foi a baixista da banda Black Bird, formada na 3ª edição do acampamento, em janeiro de 2015

ou mesmo no contraturno escolar”, explicou a idealizadora. A 4ª edição do Girls Rock Camp Brasil acontece entre os dias 11 e 16 de

janeiro de 2016. As inscrições ocorreram em 11 de outubro - Dia Internacional da Menina – e foram esgotadas logo no primeiro dia.

Conheça também Também com a missão de empoderar meninas e mulheres de Sorocaba, existem outros dois projetos de iniciativa da professora e socióloga Flávia Biggs: o Ladies Camp Brasil e o Viva Meninas. O “Ladies Camp Brasil” é vol-

tado para mulheres adultas e acontece no recesso escolar de julho, no período noturno. São 30 vagas e as atividades de música e arte são adaptadas para atender a mulher trabalhadora, inclusive com espaço kids. Já o “Viva Meninas” tem apoio

da Secretaria de Desenvolvimento Social de Sorocaba e trabalha nas comunidades periféricas da cidade. “Levamos as estratégias da Girls Rock Camp e, com a música, arte e audiovisual, tentamos realizar a transformação social”, disse Flávia Biggs.

Quer ajudar? Entre em contato! SITE: www.girlsrockcampbrasil.org Flávia Biggs é professora, socióloga, guitarrista e idealizadora do Girls Rock Camp Brasil

E-MAIL: girlsrockcampbr@gmail.com FANPAGE: facebook.com/girlsrockcampbrasil

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Brasilidade

Resistência cultural Indígenas passam mais de quatro anos estudando fora das aldeias, em salas de universidade para transformar o conhecimento em ferramenta de preservação da cultura

Por Fernanda Ikedo

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ukano, Guarani, Terena, Tupiniquim e Xavante, são algumas etnias indígenas, de diversas regiões do país, que estudam ou já estudaram no campus de Sorocaba da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos). O programa recebe estudantes indígenas desde 2008 no campus e neste ano se formarão os três primeiros graduandos, um em geografia e dois em pedagogia. Atualmente, 15 indígenas estão matriculados no campus Sorocaba, mas ao

todo, a UFSCar atende 91 estudantes indígenas. Para frequentar a sala de aula na universidade pública eles contam com o apoio da comunidade para irem estudar, porque têm que deixar as aldeias e seus costumes para enfrentar um choque cultural e comportamental, numa cidade de concreto e asfalto, calor abrasador ou frio excessivo e roupas demasiadas. Para o professor Hylio Lagana Fernandes, que coordena o Programa Espe-


Fotos: Daniela Gaspari

Vestibular Indígena Laerte Rupre é aluno de pedagogia

José Robri quer retornar para a tribo e contribuir para fortalecimento de sua cultura

cial de Treinamento - PET Indígena - do campus Sorocaba da UFSCar, os indígenas proporcionam trocas culturais enriquecedoras. Ele conta que quando assumiu o Programa tomou conta da “gigantesca ignorância sobre esse universo, que tem outra lógica que rege o pensamento e que, ao mesmo tempo, fascinava e incomodava”. Após uma imersão nessa cultura Fernandes acabou sendo batizado xavante. Os valores e costumes indígenas estão muito ligados à natureza. Além da alimentação natural, outro ponto forte das aldeias é a integração com o meio ambiente. Conforme Hylio observa, os alunos indígenas, na cidade, sentem uma tristeza em ver o meio ambiente sendo destruído pelo ser humano, ao invés do oferecimento de cuidados pela energia que ele nos fornece. Para os indígenas, são claras as consequências da exploração indevida, como enchentes ou falta de água, entre outras.

Riqueza desconhecida

Por meio da fala de dois estudantes ouvidos pela Ponto de Fusão, José Robri, da aldeia Hu´UHI (osso de onça) e Laerte Rupre, de Owau (água quente), ambos do Mato Grosso e estudantes de pedagogia, percebe-se a vontade de retornar às respectivas comunidades para levar o

conhecimento adquirido, mas vai muito além disso. “A gente planta o que come, mas a cultura capitalista é muito forte e acaba entrando nas aldeias e agora alguns alimentos também vêm de fora”, relata José Robri, que entrou no curso de pedagogia em 2009. A preocupação dele são as mudanças que vêm ocorrendo na sua aldeia. “Como a gente vai preparar os jovens? Tudo isso é bem difícil”. Por isso, é importante sua jornada como estudante, para retornar com a experiência e contribuir com projetos voltados à sua cultura. “A nossa jornada é um ciclo, tem que voltar para trabalhar para a comunidade. Esse é o meu propósito”. Rupre ressalta: “para nós, existem dois mundos: o mundo indígena e o mundo não-indígena. O mundo é bem chocante, tanto na língua, quanto na cultura e a mercadoria também. Estamos ainda refletindo com a comunidade como a gente vai caminhar”. Como nessa batalha de resistência cultural faltam instituições e projetos que apoiem as nações indígenas, eles utilizam a entrada na universidade para transformar conhecimento em ferramenta para se pensar na preservação da comunidade. “A busca é infinita para nós, sempre buscando um novo caminho”, afirma Rupre.

Conforme informações da assessoria de imprensa do campus da UFScar Sorocaba, há alunos indígenas, por exemplo, nos cursos de Engenharia Florestal, Ciência da Computação, Economia, Geografia, Pedagogia entre outros. A Universidade Federal oferece uma vaga em cada um dos seus cursos de graduação para indígenas. Se um curso oferecia normalmente 60 vagas, ele passou a oferecer 61 vagas para contemplar indígenas. É realizado anualmente um processo seletivo específico, o Vestibular Indígena. Ou seja, para o ingresso, os indígenas só concorrem entre eles. Neste ano, o vestibular Indígena teve suas inscrições abertas de 29 de junho a 4 de setembro.

O professor Hylio Lagana afirma que o universo indígena continua desconhecido

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Sônia Nancy

Brasilidade

Vá ao museu e conheça mais sobre as aldeias indígenas Acima o resgate de uma urna funerária na região do Éden, em Sorocaba. Ao lado peças indígenas expostas no Museu Histórico Sorocabano

Foguinho

População das principais etnias indígenas brasileiras

Conforme o arqueólogo sorocabano Wanderson Esquerdo Bernardo, autor do projeto “Gêneses Sorocabana”, o Museu Histórico Sorocabano é o único que abriga a cultura indígena na cidade. “Fora isso só resta a toponímia (os nomes indígenas de alguns bairros de Sorocaba e de alguns rios e afluentes). No entanto, Sorocaba e região contaram com várias aldeias indígenas”. Em suas pesquisas Wanderson apontou que em um mapa de 1640, o holandês Jansenius Blaeu determinou o território tupiniquim, e dentro dele a Vila de São Filipe (atual bairro do Itavuvu/Sorocaba), e o rio Sorocaba, afluente do rio Tietê. Mapa que coincide com outros mapas coloniais da época. O arqueólogo conta que quando o bandeirante Baltazar Fernandes fundou Sorocaba em 1654, construindo sua casa grande e uma capela, “as aldeias indígenas da região já não existiam (ou pelo menos restava apenas uma onde foi erigida a capela na época da fundação) por causa da sistemática escravidão que os indígenas foram submetidos”. 10 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão

As pesquisas de Wanderson se iniciaram em 1995 e ele trabalhou com objetos indígenas encontrados, acidentalmente, em sítios arqueológicos na região de Sorocaba, devido à expansão das cidades. Com eles, foi possível descobrir um pouco mais sobre a arte, os ritos, a distribuição espacial das aldeias e outras valiosas informações sobre a cultura indígena. Diferentes materiais foram encontrados em bairros de Sorocaba, como Laranjeiras e Minerão, e em cidades como Iperó e Sarapuí. Entre eles, estão urnas funerárias e alguns vasos de cerâmica. Esses objetos pertencem a antigas aldeias tupi e contam com diversos tipos de ornamentos nas cerâmicas, influência da proximidade do povo guarani, na bacia do Rio Sorocaba. A última urna funerária encontrada em Sorocaba foi em setembro de 2006, quando a prefeitura estava construindo uma praça no Jardim Vila Harmonia (Bairro do Éden). Wanderson publicou sua pesquisa, em espanhol, na edição nº 8, da Revista Textos Antropológicos, da Universidade de San Andres/Bolívia.

Ticuna Guarani Caiagangue ou Caigangue Macuxi Terena Guajajara Xavante Ianomâmi Pataxó Potiguara

35.000 30.000 25.000 20.000 16.000 14.000 12.000 12.000 9.700 7.700

No Estado A população indígena no Estado de São Paulo, segundo o Censo de 2010, é de 41.794 habitantes, que na sua maioria (37.915 índios) vive em cidades (IBGE, Censo 2010). Os índios representam 0,1% da população total do estado. As terras indígenas em São Paulo estão sujeitas a uma grande diversidade de pressões e ameaças especialmente de empreendimentos imobiliários e de interesses de mineradoras, que as colocam em situação de vulnerabilidade. Fonte: Funai (Fundação Nacional do Índio)


Mapa de 1640 do pesquisador holandês Blaeu traz referência ao Rio Sorocaba e à comunidade Tupiniquim

Philippa Villa (Itavuvu)

Rio Sorocaba

Museu Histórico Sorocabano Está situado dentro do Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, na Rua Theodoro Kaisel, 883 Vila Hortência - (15) 3227-2825

Tupiniquim

Trópico de Capricórnio Ponto de Fusão Nº4 - 2015 11


Foguinho

Futebol de Base

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O futuro quer ser visto agora

Por Paulo Andrade

Sorocaba conta com dezenas de escolinhas de futebol e milhares de garotos esperando a chance de brilhar em público e serem lembrados por equipes profissionais. Mas enquanto a prefeitura e os clubes de várzea não derem prioridade às categorias de base, o futuro do esporte continuará nas mãos da sorte e de olheiros terceirizados Sorocaba tem mais de 30 escolinhas dedicadas ao ensino do futebol de campo para crianças e adolescentes. Esse número inclui sete unidades em centros esportivos, 15 filiadas à Associação Regional dos Clubes Dente de Leite, cinco da Associação Bola da Vez e duas do Craque do Amanhã, além de outras sem relação com nenhuma das iniciativas. As escolinhas dos centros esportivos e do Bola da Vez são vinculadas à Secretaria de Esportes (Semes) e gratuitas. O projeto Craque do Amanhã, mantido por um empresário local, também não visa lucro e as aulas de futebol são gratuitas. A maior parte das escolas ligadas à Associação Dente de Leite é particular. Mesmo assim, muitas delas têm caráter social e não cobram mensalidade. Sobrevivem da contribuição espontânea dos pais e da eventual ajuda de comerciantes dos bairros para cobrir custos com transporte, organização, arbitragem e outras despesas de participação em campeonatos na região.

Das particulares, as que cobram dos alunos mensalidades e taxas obrigatórias de participação em competições, em boa parte são aquelas chamadas de franquias, que carregam o escudo de grandes clubes profissionais. Sorocaba, segundo o presidente da Associação Dente de Leite, Edgard Sérgio Longo, tem franquias de cinco clubes: São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Santos e Ponte de Preta. Somente os campeonatos anuais realizados pela Associação reúnem 2.500 crianças e adolescentes de 7 a 17 anos de idade, o que dá uma dimensão dos jovens pretendentes a craques em Sorocaba e cidades próximas. Outra opção para meninos e meninas que sonham em encantar torcidas é o futebol de salão, o futsal, que também tem tradição em Sorocaba e ganhou novo impulso com a vinda da equipe-empresa Brasil Kirin, que tem o ídolo Alessandro Falcão no seu elenco.

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Futebol de Base

Críticas à prefeitura

Sem espaço na várzea

Outra reclamação recorrente é a falta de espaço nos clubes de várzea para os jovens talentos. “Atualmente tem time varzeano com mais recursos que os clubes profissionais da cidade. Mas só investem em equipes de veteranos para ganhar aquele monte de troféus municipais destinados para equipes de jogadores mais velhos”, critica Dorinha. “Os clubes de várzea, de uns tempos pra cá, contratam jogadores de fora da cidade para ganhar taças e não se dedicam à formação e revelação da molecada dos bairros”, afirma o jornalista. Sérgio, da Associação Dente de Leite, concorda e é taxativo sobre o tema: “Não apenas sou contra esse negócio da várzea contratar jogadores de fora da cidade como luto contra isso há anos. E falta mesmo apoio da prefeitura para desenvolver a garotada da base”.

Função social

Além de presidir a Associação Dente de Leite, Sérgio mantém, há 15

anos, a escolinha gratuita de futebol Casa Verde, no bairro Aparecidinha. As instalações humildes da Casa Verde, um campo de terra bem conservado, não impediram a iniciativa de revelar jogadores para times profissionais. “Aqui o garoto aprende dominar a bola, fazer passes, lançar e defender, e quando vai disputar a partida em um bom gramado, ele arrasa”, garante Sérgio. Antes de ser o centro de treinamento, o local era um terreno abandonado, “um verdadeiro lixão”, afirma Leonil, proprietário de um sorveteria no bairro e treinador voluntário na escolinha. Sérgio acredita que sua iniciativa cumpre tripla função social: ensinar um esporte, incentivar o estudo [as notas escolares são levadas em contas na preleção para torneios] e ocupar um espaço público que antes representava um transtorno para os moradores. O treinador procura não diminuir o papel das franquias de grandes clubes, que são filiadas à sua associação, mas esclarece que o sucesso do jovem jogador independe das condições financeiras dos pais. O Centro de Futebol Dimas (CF Dimas), no Cajuru, foi fundado há 15 anos, tem atualmente 60 alunos

Foguinho

Em relação à prefeitura, uma crítica constante apurada pela reportagem é a falta de empenho político para promover o futebol infanto-juvenil. Há décadas não existem campeonatos municipais de futebol de campo para categorias de base. E essas competições são essenciais para revelar novos talentos, na avaliação dos entrevistados. No máximo, a prefeitura firma parcerias com copas de futsal organizadas por grandes veículos de comunicação. O mais tradicional é o Cruzeirinho. “Mas se acabar o apoio do jornal Cruzeiro do Sul, acaba a competição”, afirma Doraci Sola Galera, o Dorinha, jornalista esportivo da cidade com 35 anos de profissão. Uma limitação desse modelo de torneio é que a iniciativa de uma mídia não é divulgada pela concorrente. Mesmo no futsal, os Jogos Escolares de Sorocaba (JES), promovidos pelo município e que têm participação de escolas públicas e privadas, são pouco divulgados e realizados em horários nos quais os atletas mirins raramente contam com público para prestigiá-los. No setor privado, segundo a Secretaria da Fazenda, Sorocaba conta com 50 clubes sociais ou recreativos e

88 estabelecimentos de ensino de esportes. Mas não é possível distinguir quais oferecem aulas de futebol de salão ou de campo.

DoriNha:

Os clubes de várzea, de uns tempos pra cá, contratam jogadores de fora da cidade apenas para ganhar taças e não se dedicam à formação e revelação da molecada dos bairros

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Foguinho

Olheiros podem estar em qualquer lugar Para o professor Flávio Ribeiro, os olheiros de clubes profissionais procuram potenciais talentos em todas as oportunidades possíveis, inclusive em treinos e peneiras; mas os campeonatos de base facilitam o trabalho deles.

O Craque do Amanhã afirma que forma não apenas atletas, mas cidadãos

e também não cobra mensalidade. A exemplo da Casa Verde, sobrevive da colaboração voluntária de pais de alunos e parcerias com pequenos empresários e organizações sociais, como o SMetal. Na década de 70, Dimas, dono da escolinha, jogou como ponta direita em clubes como Bragantino, Ituano, Portuguesa Santista, Paulista de Jundiaí e São Bento de Sorocaba. Há 25 anos ele se dedica ao ensino do esporte para crianças e jovens. Dimas, 58 anos de idade, é irmão de Ademir de Barros, o Paraná, um dos principais destaques do futebol sorocabano de todos os tempos, que jogou no São Bento, no São Paulo e na seleção brasileira nos anos 60, ao lado de Pelé, Garrincha e outros autênticos fenômenos do esporte.

Futebol e cidadania

O Craque do Amanhã existe desde 2008 e tem mais de 200 crianças inscritas. O projeto mantém duas unidades em Sorocaba, a da Vila Haro, que tem função social e prepara os meninos para iniciar trajetória no esporte; e a unidade da Rua Aparecida, que treina as categorias de base. De acordo com o professor Flávio Ribeiro, apesar do projeto fornecer

atletas para times profissionais [até o ano passado treinava a base do Esporte Clube São Bento], a iniciativa visa acima de tudo formar cidadãos. “Independente de se profissionalizar como jogador, o garoto sai daqui com disciplina, boas notas na escola [exigência do projeto] e espírito de equipe. Sai em condições de ser um cidadão do bem em qualquer área de trabalho”, afirma Flávio. O projeto é custeado pela empresa JC Morais e, eventualmente por verbas federais de incentivo ao esporte, mas está em busca de novos parceiros para cobrir despesas, inclusive com uniformes para os garotos, e ampliar seu alcance.

Sorocaba na camisa

Faz dois anos que o Craque do Amanhã leva o nome de Sorocaba para os Jogos Regionais e os Jogos Abertos. Em 2014 o time sub-20 foi campeão dos Jogos Regionais e conquistou o terceiro lugar nos Jogos Abertos. Este ano foi vice-campeão nos Regionais e inicia os Jogos Abertos em dezembro. Desde 1954 os Jogos Abertos não são realizados em Sorocaba por falta de adesão da administração municipal.

“Tem mais possibilidade de encontrar futuros craques em jogos competitivos, onde o atleta mostra suas qualidades individuais e em grupo; e também sua capacidade de se adaptar a situações adversas. Mas isso não é uma regra absoluta”, pondera Flávio. Sérgio Longo, da Associação Dente de Leite, recomenda ao jovem atleta que, ao pisar no campo, mesmo nos treinos, demonstre garra, que acredite em cada jogada. “Se não tiver foco, disciplina e vontade cada vez que a bola está rolando, fica mais difícil evoluir e ser descoberto”, ensina. Para Dimas, do CF Dimas, para se destacar o candidato a profissional precisa, além de ser bom de bola, ter comprometimento. Não pode faltar aos treinos, tem que se dedicar e atuar em campo com muita vontade, pois ele pode estar sendo observado em qualquer espaço de jogo. “Mas ter um pouco de sorte também ajuda”, segundo o treinador. Já o professor Flávio não acredita em sorte. “Se ele tiver que ser profissional vai ser, mas tem que se dedicar ao esporte sem deixar de estudar. Tem jogador que é habilidoso, mas, quando vamos passar um treino tático ele não entende. Tem que ter talento e inteligência”. O pretendente a profissional precisa também ser perseverante. “Tem menino que vem a pé de longe para o treino porque não tem dinheiro para o ônibus. Às vezes a família faz sacrifício pra ele ir fazer avaliação em outras cidades. E o jovem atleta pode ser reprovado várias vezes antes de dar certo”, afirma Flávio. Ponto de Fusão Nº4 - 2015 15


Futebol de Base

Fala, professor! Dimas:

A maioria dos clubes hoje terceiriza o recrutamento de jogadores da base. Nós trabalhamos anos pra formar os meninos, chega o olheiro de um empresário e leva o atleta embora

Sérgio:

Não apenas sou contra esse negócio da várzea contratar jogadores de fora da cidade como luto contra isso há anos. E falta apoio da prefeitura para desenvolver a garotada da base

Flávio:

Tem que se dedicar ao esporte sem deixar de estudar. Tem jogador que é habilidoso, mas, quando vamos passar um treino tático, ele não entende. Tem que ter talento e inteligência

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A difícil questão dos contratos Dimas, do CF Dimas, sente desgosto ao ver o esporte popular se transformar cada vez mais em mero produto comercial. Ele diz que o “futebol de negócios” já atingiu as bases da modalidade esportiva. “A maioria dos clubes hoje, principalmente os pequenos, terceiriza o recrutamento de jogadores da base”. “Esses empresários é que estragaram mais o futebol da gente [do Brasil]. Nós, das escolinhas, trabalhamos anos pra formar os meninos e chega o olheiro de um empresário, oferece R$ 1 mil para o pai do garoto, e leva o jovem atleta embora [para depois negociar o contrato do garoto com algum clube]”, critica Dimas. Flávio concorda. “A escolinha pode até fazer um contrato com o menino, mas o time grande chega, questiona a validade do contrato porque o atleta tem menos de 16 anos, assedia o menino e a família e leva o jogador embora”.

Talentos revelados A conclusão dos treinadores é que o caminho para a profissionalização quase nunca é fácil. Além do talento do atleta, envolve questões que vão desde a dedicação do jovem e o apoio da família até as complicadas relações contratuais com os clubes, com os agentes e com empresas terceirizadas que vivem da venda de jogadores. Mesmo assim, vários meninos de Sorocaba têm tornado realidade o sonho de sobreviver financeiramente do futebol de campo. Sérgio, da Casa Verde, cita cinco jovens que seu projeto revelou para o futebol profissional: Everton, meia-atacante da Chapecoense (SC); Bruno, meia-esquerda que estava no Náutico (PE), mas faleceu devido a problemas cardíacos; Caíque, centro-avante canhoto que passou pelo Botafogo de Ribeirão Preto e hoje está no Atlético Paranaense. Com 20 anos de idade, Caíque inclusive foi o autor do gol da vitória do Botafogo sobre o São Bento, no estádio do CIC, em Sorocaba, pela Copa Paulista no final de 2014.


Relação de escolinhas CENTROS ESPORTIVOS

• Vila Gabriel • Brigadeiro Tobias • Maria Eugênia • Vila Angélica • Jardim Simus • Santa Terezinha • Jardim Luciana Maria (No Luciana Maria, as aulas de futebol da prefeitura acontecem na Ucens - União Cultural Esportiva Nipo-Brasileira de Sorocaba)

BOLA DA VEZ

• Jardim Betânia • Sol Nascente • Laranjeiras • Nova Sorocaba • Jardim Santo Amaro • Jardim Betânia facebook.com/Associação-Bola-da-Vez

CRAQUE DO AMANHÃ

• Vila Haro • Vila Santana (Campo de Futebol do Estrada) facebook.com/Craque-do-Amanha

CF DIMAS (Cajuru)

facebook.com/centrodefutebol.dimas

ASSOCIAÇÃO CLUBES DENTE DE LEITE

facebook.com/AssociacaoRegionalDeClubesDenteDeLeite

FRANQUIAS

São Paulo - www.saopaulofcsorocaba.com.br Corinthians - www.chuteinicialsorocaba.com.br Palmeiras - facebook.com/Academia-Palmeiras-Caca-e-Paulinho Santos - www.meninosdavilasorocaba.com Ponte Preta - facebook.com/escolinhapontepretasorocaba Foguinho

“Temos ainda um atleta nosso, o Luiz Eduardo, de 16 anos, centro avante destro, famoso ‘canelinha de sabiá’, que assinou agora contrato com a Inter de Limeira; e o Guilherme Lisboa, centro avante nato, canhoto, que está na base da Ponte Preta, em Jaguariúna”, conta Sérgio. Pelo CF Dimas passaram outros dois jogadores que hoje atuam em times profissionais: Leandro Silva, lateral direito do Figueirense; e Tiago Adan, atacante do Criciúma (SC); “além de vários meninos que estão iniciando carreira em times de base”, garante Dimas. Um dos jogadores sorocabanos mais noticiados pela imprensa nos últimos anos, Rafael Cabral, goleiro do clube italiano Nápoli, teve uma trajetória diferente. Hoje com 25 anos, ele começou no futsal aos seis anos. Atuou pela ADPM (Associação Desportiva da Polícia Militar). Aos 11 anos, após migrar para o futebol de campo, bateu na porta do Centro de Treinamento do São Paulo, em Cotia, onde foi aceito na equipe de base do tricolor. Dispensado pelo São Paulo, foi para o Interclube de Itu, depois Bahia, Ituano e, com 16 anos de idade, foi contratado pelo Santos, de onde partiu, em 2013, para atuar no time italiano. Rafael foi convocado para a seleção brasileira quatro vezes desde 2012.

Meninos esperam a vez de entrar em campo durante treinamento na Casa Verde, no bairro Aparecidinha

Ponto de Fusão Nº4 - 2015 17


Mercado

Segmento automotivo em expansão Apesar da queda nas vendas observada em 2015, as montadoras mantêm seus investimentos no Brasil para os próximos anos Por Fernanda Ikedo

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Foguinho

Em 2016, seis montadoras serão inauguradas no Brasil O novo ano que se aproxima terá inaugurações de seis montadoras de automóveis, sendo três delas no interior do Estado de São Paulo. São elas: Mercedes-Benz, em Iracemápolis (SP), Honda, em Itirapina (SP), Toyota, em Porto Feliz (SP), além de JAC Motors, em Camaçari (BA), Sinotruk, em Lages (SC) e Foton, em Guaíba (RS). Esse novo cenário deve-se à expansão do mercado brasileiro verificada nos últimos anos e ao estímulo do Inovar-Auto, regime automotivo em vigor desde 2013, que trata de política de impostos para a cadeira automotiva (montadoras, autopeças, indústrias de máquinas e equipamentos, fundição, etc.). “Conseguimos uma coisa que o Brasil não fez desde Juscelino Kubitschek que é a de domesticar as montadoras. A maior parte desses investimentos, com exceção da Toyota, em Porto Feliz, que já estava previsto, vieram por causa da Inovar-Auto”, explica o coordenador da subseção do Dieese no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Fausto Augusto Junior. O programa, que tem duração até 2017, nasceu também para fortalecer os fornecedores e incentivar as montadoras a investirem em pesquisa, engenharia e desenvolvimento tecnológico no país.

Fausto Augusto Junior, coordenador da subseção do Dieese do ABC

Total de trabalhadores em montadoras no Brasil de 2002 até 2014

Continuidade 2017-2021

A configuração do mercado nacional de veículos mudou em menos de 10 anos. Antes, as quatro grandes montadoras Volkswagen, Fiat, Ford e Chevrolet (GM) garantiam 95% de vendas no Brasil. Hoje, elas têm 60% do mercado devido à entrada de novas montadoras, como Toyota, Hyundai, Peugeot, entre outras. Quando o Inovar-Auto foi lançado o dólar estava a R$ 2, caminhando para um milhão de veículos importados, o que representaria 1/4 do mercado brasileiro. “Isso estava desmontando a cadeia produtiva aqui dentro e também a balança comercial”, relata Fausto. Nesse momento, o governo aumentou em 30% o imposto sobre os importados até a formulação do regime automotivo entrar em vigor. O Inovar até 2017 deve continuar a empurrar proporcionalmente o índice de nacionalização no país. Com a experiência adquirida, o sociólogo destaca alguns pontos que devem ser melhorados. O desafio da continuidade inclui os investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Hoje, as montadoras colocam as folhas de pagamento da engenharia como investimento em P&D. Mas segundo Fausto, isso não representa investimento direto no desenvolvimento de novas

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego - Elaboração: Dieese / SMABC

tecnologias, por exemplo. Segundo análise de Fausto, para fazer um montadora investir no Brasil nessa área é preciso novas estratégias “porque ela, como empresa de capital estrangeiro, não tem interesse em montar um centro tecnológico de desenvolvimento aqui”. Um exemplo citado por ele é do brasileiro que desenvolveu o UP (na fábrica da Volkswagen de São Bernardo do Campo) e hoje está trabalhando no Centro de Desenvolvimento da Alemanha. “A GM tem uma estação interessante de desenvolvimento, a Fiat tem uma discussão séria, mas, na média, outras não; e as japonesas raramente levam o desenvolvimento para fora do Japão”, ressalta Fausto. Outra observação é sobre os segredos industriais que restringem a entrada na fábrica, “não se consegue comprovar diversas exigências e obrigações”. Por isso, o movimento sindical já começou o debate sobre a continuidade e melhorias no regime automotivo. Ponto de Fusão Nº4 - 2015 19


Mercado

Eficiência energética e a produção de plataformas Powertrain

Um dos pontos mais destacados do regime Inovar-Auto é a questão da eficiência energética imposta às montadoras para trazerem motores melhores ao Brasil. Fausto conta que os motores brasileiros até dois anos atrás eram motores de concepção de 10 anos passados. “Então, tem motores muito mais eficientes com tecnologia muito mais avançada atualmente”. Um exemplo, é o Corolla, que na Europa roda com motor 1.3, que é o motor do Etios. “Nós rodamos aqui com motor 1.8 e 2.0. Mas, por que roda com motor 1.3? Porque o motor é muito mais eficiente e tem tecnologia embarcada. Ele roda com 110 cavalos”.

Exemplos de inovações

O motor novo do UP 1.0 é de três cilindros, que roda a 82 CV. Ao mesmo tempo, hoje já coloca um turbo (motor TSI) que chega a 110CV (que era equivalente a 1.6), com um consumo que ultrapassa 20km/litro com gasolina. É um motor absurdamente mais eficiente. O motor que roda hoje no novo KA, da Ford, tem tecnologia da Nasa (desenvolvida para foguete) dentro do sistema de distribuição dele. É um motor em alumínio, mais leve, mais eficiente. Essas melhorias são feitas devido às exigências de se acertar o índice de nacionalização e para atingir os índices de eficiência. “Não sei qual vai ser esse motor da Toyota, da nova fábrica de Porto Feliz, mas pega um motor da Honda, no FIT, é 1.3 com eficiência de motor 1.0. O FIT 2008/2009 não passava no controle de emissão por causa do motor. E a Honda teve que trazer outro motor”, explica. 20 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão

Carenagem

A segunda parte do automóvel é a carenagem (a capa metálica que cobre o carro) e cada país tem um gosto por estilo. Fausto avalia que o segmento a nível mundial caminha para se ter, cada vez mais, plataformas globais (o chassi, parte debaixo do carro), que vai suportar todo o resto. Como essas plataformas tendem a ser modulares terão poucas plataformas no mundo e os países colocam a carapaça e o powertrain que quiserem. O Gol, Voyage e a Saveiro compartilham as plataformas. De acordo com Fausto, a Volkswagen trabalha com a ideia de ter quatro plataformas no mundo. A Ford, 10 no máximo e a Fiat fala em ter oito. “O nosso embate hoje, do Inovar, é o Brasil fabricar plataformas. A produção dessas plataformas não será em todos os países, apenas três ou quatro lugares do mundo. Por enquanto, estamos com a da Ford, que é a do Fiesta. E aqui no ABC estamos lutando para trazer a da Volks em 2016 e isso deve acontecer também com a Toyota”. Como produtor de plataformas, crescem as chances do Brasil exportar para uma boa parte do mundo. Provavelmente, quem vai produzir é o país de origem da marca, mais a China por causa do mercado enorme, e devemos ter na América, que vai ser ou Brasil, Estados Unidos ou México.


Livro faz um raio-x no segmento em 10 anos A obra “As faces da indústria metalúrgica no Brasil: Uma contribuição à luta sindical”, lançada em agosto deste ano, pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) traz capítulo sobre o segmento automotivo e aborda o crescimento do mercado brasileiro. Com 496 páginas, o livro apresenta um mapeamento dos segmentos que compõem a metalurgia, como aeroespacial e de defesa, bens de capital, mecânico, eletroeletrônico, construção naval e siderurgia e metalúrgica básica. No capítulo 2 “Diagnóstico do segmento automotivo” consta a caracterização, o histórico e a evolução do segmento no Brasil, com dados comparativos mundiais. Entre os autores estão os economistas da subseção do Dieese SMetal, André Corrêa e Fernando Lima e o sociólogo do Dieese ABC, Fausto Augusto Junior. “Enquanto a produção mundial cresceu 48,1% entre 2002 e 2013, a brasileira apresentou crescimento de 107%.” No ranking dos maiores países produtores de veículos do mundo o Brasil saltou de 11º colocado (1.791.530) em 2002 para 7º colocado em 2012 (3.712.380). A obra, organizada por André Oliveira Cardoso, está disponível para download no link: www.cnmcut.org.br/ midias/arquivo/223-as-faces-da-industria-metalurgicano-brasil.pdf

Ponto de Fusão Nº4 - 2015 21


Mercado

Montadoras e as remessas de lucros As montadoras, no Brasil, não são Sociedades Anônimas e por isso, não são obrigadas a informar seus balanços. Não é como a Petrobras, Banco do Brasil, por exemplo. Esse é um grande problema para o movimento sindical, pois não há como afirmar o lucro das montadoras no país. Segundo Fausto Augusto, o que se consegue observar são os balanços mundiais que, na rubrica, alguns incluem América Latina. Nesse campo dá para intuir um dado nesse sentido de margem de lucros. Ele destaca que até pouco tempo atrás todo mundo usava os dados de remessa de lucros, do Banco Central, para dizer que as montadoras tinham uma margem de lucro extraordinária no Brasil. “De fato, as montadoras ganharam muito dinheiro ao longo de 2002 (1,6 milhões de veículos) até bater 3,6mi, quando as vendas mais que duplicaram”.

Conheça mais o Inovar-Auto •

O governo federal, por meio do Inovar-Auto, abre mão de impostos para, em contrapartida, incentivar as empresas a investirem em desenvolvimento tecnológico, pesquisa e inovação e fortalecer o setor automotivo e toda a cadeia produtiva envolvida.

O Regime estipula que das 12 etapas de fabricação do automóvel, oito devem ser realizadas no País e; das 14 etapas de fabricação de caminhões, dez sejam nacionalizadas.

Metas energéticas: a média dos veículos dos beneficiários do regime comercializados a partir de 2017 terá de consumir 12,08% menos combustível do que atualmente. Ou seja, na média, os veículos deverão passar dos atuais 14 km/litro para 17,26 km/litro para gasolina e 9,7 km/litro para 11,96 km/litro no caso do etanol.

22 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão

Mas não foi só isso, lembra: “o Brasil tinha o carro mais caro do mundo, em dólar”.

Remessa de lucro da indústria automobilística 2005-2015 (em US$ milhões) A REMESSA DE LUCRO ESTÁ DIRATEMENTE LIGADA À TAXA DE CÂMBIO

Fonte: Banco Central do Brasil - Elaboração: Dieese / SMABC


Fotos: Foguinho

Crescimento das montadoras tem reflexo em Sorocaba O economista da subseção do Dieese no SMetal, Fernando Lima, aponta que o crescimento da produção de veículos, de fato, repercute na região de Sorocaba com a geração de empregos nas fábricas de autopeças e na montadora Toyota. No gráfico 2, pode-se verificar que em 2002 o número de trabalhadores no complexo automotivo (empresas de autopeças e montadora) na base do SMetal, que inclui Sorocaba e mais 13 cidades, progrediu de 5.979, em 2002, antes do governo Lula, para 12.589, no ano passado. Essa evolução representa um aumento de 110%, com a criação de 6.610 postos de trabalho.

Fernando Lima, economista da subseção do Dieese dos Metalúrgicos de Sorocaba

“Programas como o Inovar-Auto, que privilegiam o conteúdo brasileiro, proporcionam manutenção de empregos no País e nas regiões onde as indústrias estão instaladas, geram novos investimentos e nacionalizam tecnologias utilizadas na produção”, avalia Leandro Soares, secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região (SMetal). Leandro Soares, secretário-geral do SMetal Sorocaba

Produção total de veículos no Brasil

Mudança na dinâmica do mercado de trabalho na região de Sorocaba

Fonte: Anfavea - Elaboração: Subseção Dieese SMetal

Fonte: RAIS/MTE (2014) - Elaboração: Subseção Dieese SMetal

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Estrutura do Poder

Conhecimento qualificado A D E S A BA RACIA C O M DE Por Paulo Andrade e Daniela Gaspari

A Constituição brasileira completou 27 anos em outubro deste ano. Ela é considerada por juristas uma das Cartas de Leis mais avançadas do mundo por transformar direitos sociais em direitos fundamentais de cidadania. E essa é a base da liberdade de participação popular no Brasil e das garantias à mulher, à criança, ao idoso, entre outros segmentos sociais. No entanto — e apesar de sua importância fundamental no cotidiano das pessoas — a Constituição é mais comentada do que lida pela maioria dos cidadãos. Em resposta a uma pesquisa realizada pelo DataSenado no final de 2013, apenas 5,3% dos brasileiros declararam conhecer bem o texto constitucional. Outros 35,1% dos entrevistados afirmaram ter um leve conhecimento da Carta Magna. Quase 8% disseram não ter conhecimento nenhum da principal Lei do País. Sem ter feito pelo menos uma leitura atenta da Constituição, fica ainda mais difícil o brasileiro ter noção da competência de cada Poder 24 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão

constituído (Executivo, Legislativo, Judiciário) e da responsabilidade de cada instância (municipal, estadual/ regional e federal). O resultado é o desconhecimento de como reivindicar seus direitos e a quem criticar e cobrar quando for necessário. Para alguns advogados constitucionalistas, o ensino da Carta deveria fazer parte da grade curricular das escolas no Brasil. “A confusão em torno das competências de cada Poder constituído, no Brasil, acontece principalmente por falta de informação. A nossa política educacional não prevê um trabalho com mais afinco sobre essas questões. Entre os cidadãos não ligados diretamente ao Direito, só adquire esse conhecimento quem procura o estudo extra-curricular”, afirma o advogado sorocabano Claudinei Marchioli, pós-graduado em Direito Constitucional. João Trindade, consultor na área de Direito Constitucional em Brasília, confirmou a crítica do colega sorocabano em entrevista à imprensa do Senado. Para ele, a Constituição

deveria ser matéria obrigatória nos anos finais do ensino fundamental e durante todo o ensino médio. Embora exista hoje diretrizes pedagógicas que estimulem aulas sobre cidadania, segundo Trindade, os conhecimentos abordados são quase sempre superficiais e não são vinculados diretamente à Constituição.

Mídias superficiais

Os meios de comunicação, que deveriam colaborar para a formação da cidadania consciente, não o fazem por motivos que não conseguem explicar claramente. Na opinião de Claudinei, “os jornais de rádio ou televisão costumam ser superficiais sobre o assunto. Só mostram o que interessa para eles e da maneira que interessa para eles. Não são didáticos, não querem ensinar. As vezes confundem mais do que esclarecem”, afirma. O advogado lembra que as rádios e as TVs deveriam se esforçar ainda mais do que outras mídias para popularizar a Constituição, pois esses veículos são concessões públicas.


Foguinho

Mas não dá também para jogar a culpa só em terceiros, seja no sistema educacional, na imprensa ou nos políticos, o cidadão também tem que ter iniciativa, ler a Carta, exigir os direitos nela contidos para qualificar e direcionar suas críticas. Quem quer desmotivar a leitura da Constituição brasileira reclama que ela é extensa e contém muitos termos técnicos ou jurídicos. Mas essas críticas são questionáveis.

Não é difícil de ler

Claudinei refuta essas supostas dificuldades e explica porque nossa Constituição tem 250 artigos e muitas dezenas de incisos. “O Brasil tem uma ótima Constituição, promulgada em 1988. Mas como nós estávamos saindo de um Estado totalitário na época; estávamos migrando de uma ditadura para um Estado de Direito, uma democracia ainda entre aspas na época, acabou-se por incluir na Constituição matérias que poderiam estar em leis infraconstitucionais (leis penais, civis, trabalhistas, do consumidor, etc). Para ele, como os legisladores [da Assembleia Nacional Constituinte] ainda temiam a volta do totalitarismo e sabiam que a lei infraconstitucional poderia ser mais facilmente desrespeitada diante de uma nova ameaça autoritária. Por isso incluíram o maior número possível de assuntos na Constituição. “Foi para dar mais segurança aos direitos de cidadania”, explica o advogado. Sendo assim, não é justo comparar a Carta Magna brasileira com a enxuta Constituição dos Estados Unidos da América (EUA) ou de países europeus com longa tradição democrática. A democracia brasileira ainda é nova, do ponto de vista histórico, e até hoje existem grupos no País que defendem intervenções militares no governo.

“Por causa dessa diferença, todos os direitos de cidadania têm que estar escritos em detalhes no papel. Nos EUA, muitos direitos já estão consolidados na cultura do povo. Não há histórico de contestação do Estado Democrático de Direito”, esclarece Claudinei. A primeira e única Constituição dos EUA foi elaborada em 1787 e desde então sofreu apenas 27 emendas ao texto original. O Brasil já teve sete Constituições desde sua independência, em 1822, sem contar as Cartas provisórias impostas por períodos ditatoriais. Somente a Constituição atual, de 1988, sofreu mais de 80 emendas. Em relação aos termos técnicos, que seriam outro obstáculo para a leitura, o advogado expõe o seguinte argumento em defesa da Carta: “A Bíblia também tem palavras difíceis, mas isso não é obstáculo para quem se interessa em ler o Livro. O cidadão comum lê a Bíblia e a entende. Com a Constituição é a mesma coisa. Ela é bastante compreensível para quem se interessa de fato em ler a Lei máxima do nosso País”. Atualmente, a pessoa pode aprender o significado de qualquer palavra com uma rápida consulta em ferramentas de pesquisa na internet, como o Google.

Exemplo atual

“O conhecimento da Constituição pode evitar que a opinião pública seja manipulada por interesses suspeitos da mídia burguesa e de grupos econômicos. Um exemplo local: tem oportunistas aproveitando o bombardeio contra o governo federal para promover o desmonte do ensino fundamental e médio públicos, que são de responsabilidade constitucional do governo estadual e do município”, alerta o presidente do SMetal, Ademilson Terto da Silva.

Advogado Claudinei Marchioli, pósgraduado em Direito Constitucional

Ademilson Terto da Silva, presidente do SMetal Sorocaba

Para baixar ou comprar a Constituição Para quem não trabalha diretamente com legislação, não há necessidade de decorar a Constituição. Mas uma leitura atenta da Carta proporciona ao cidadão mais clareza sobre seus direitos e sobre as competências de cada órgão e instância de Poder. É útil, inclusive, ter um exemplar em casa. A Constituição pode ser baixada gratuitamente na maioria dos sites oficiais (Planalto, Senado, Câmara Federal, Tribunais). Nas livrarias on line o exemplar impresso simples, sem comentários de juristas, custa em torno de R$ 20. Nas livrarias físicas é mais difícil de encontrar, mas sob encomenda sai, em média, por R$ 30. Ponto de Fusão Nº4 - 2015 25


Os três poderes

Estrutura do Poder As sedes máximas são em Brasília, mas o poderes estão distribuídos em instâncias municipais, estaduais e distrital (capital federal). Cada uma com suas próprias atribuições e - exceto o Judiciário sujeitas a eleições diretas de seus representantes


Arte: Cรกssio Freire

Fonte: Imprensa SMetal e Blog do Planalto


CAPA

Reestruturação do Ensino

Educação pública x descaso de governos Medidas dos governos tucanos do Estado de São Paulo e da Prefeitura de Sorocaba, que sucateiam o ensino público, colocam os estudantes em uma encruzilhada. O objetivo do fim do ensino noturno e do fechamento de escolas é a privatização

Por Fernanda Ikedo

Mais uma vez o Governo do Estado de São Paulo (PSDB) segue na contramão da qualidade da educação, com a reestruturação da rede estadual de ensino. A proposta acarreta no fechamento de 93 escolas estaduais do Estado. Em Sorocaba, a medida atinge cinco escolas: Flávio Gagliardi (Jardim Saira); Mario Guilherme Notari (Jardim Luciana Maria); Dorival Dias de Carvalho (Vila Angélica); Elza Salvestro Bonilha (Jardim Itanguá); e Salvador Ortega Fernandes (Jardim Santa Cecília). De forma autoritária e sem planejamento a longo prazo, a reestruturação pretende segmentar as escolas 28 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão

conforme o ciclo escolar (anos iniciais e finais do ensino fundamental e ensino médio). A estimativa, segundo a Secretaria Estadual de Educação, é de que no Estado 311 mil alunos tenham que mudar de escola no ano que vem. O secretário da pasta Herman Voorwald tentou justificar a reorganização como pedagógica, o que foi contestado por pesquisadores e educadores da USP, Unicamp e o Sindicato dos Professores (Apeoesp). À revista Ponto de Fusão a presidente da Apeoesp, Maria Izabel Azevendo Noronha (Bebel), afirma que essa reestruturação tem como motivo simplesmente o enxugamento da máquina. “Não tem nada de pedagógico, nem


A história se repete

estão se importando com o impacto que isso vai gerar na vida das pessoas. São cerca de 20 mil professores que devem perder o emprego, fora a transferência de alunos para escolas mais distantes de suas casas”. Outra justificativa do governo tucano de Alckmin para a mudança, é a diminuição do número de alunos na rede estadual. Dados da secretaria indicam que, de 1998 a 2014, as matrículas passaram de 6 milhões para 3,8 milhões. Para o professor e diretor estadual da Apeoesp, Alexandre Tardelli, “a lógica de ciclos tem que integrar uma etapa à outra e não fazer uma simples separação física’”, ressalta.

A presidente da Apeoesp destaca também que em 1995 uma medida parecida com essa do Governo do Estado foi feita pela ex-secretária Rose Neubaeur, quando ‘reorganizou’ o primeiro ciclo e causou 20 mil demissões de professores, desorganização, transtornos nas famílias dos estudantes e uma série de outros prejuízos à educação pública estadual.

Ponto de Fusão Nº4 - 2015 29


CAPA

Reestruturação do Ensino

Mas ao invés de se trabalhar em um Plano de Educação com participação da comunidade escolar, a reestruturação proposta tende a superlotar salas de aula e dar continuidade ao processo de municipalização do ensino.

Repúdio ao sucateamento e alerta

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e a Universidade de São Paulo (USP) emitiram notas de repúdio ao projeto de ‘reorganização’ da rede estadual. Além delas, outras entidades como o Conselho Regional de Psicologia e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) manifestam-se veementemente contra esse descaso e desrespeito à educação pública. Em nota pública, a Faculdade de Educação da USP ressaltou que esse projeto “nega, na prática, a educação como direito social fundamental, tratando-a na perspectiva da lógica mercantil e colocando a população e os profissionais diretamente atingidos como cidadãos de segunda categoria, além de praticar uma agressão a todos que trabalham em prol da educação pública de qualidade”. Para o coordenador da subsede Sorocaba da CUT, Alex Sandro Fogaça, o fechamento de salas de aula do período noturno e a diminuição de oferta de vagas como um todo prejudica diretamente os filhos dos trabalhadores. “É um descompromisso com o bem público e uma clara sinalização para a privatização do ensino”, destaca.

Estudantes mobilizados

Em protesto contra a reestruturação, por gestão democrática e transparência administrativa, os estudantes

ocuparam as ruas e mais de 200 escolas no estado todo. Em Sorocaba, foram cerca de 20 instituições ocupadas por secundaristas. “Recebemos o apoio dos pais e da comunidade, que foram solidários e doaram alimentos, além dos artistas e professores que fizeram apresentações e doaram aulas nessas escolas”, conta o estudante e diretor de grêmios da União de Estudantes Secundaristas de Sorocaba (Uses), Vinicius Viana. O plano inicial de Alckmin (PSDB), conforme informações das delegacias regionais de ensino, apuradas pela Apeoesp, quando a proposta foi anunciada em setembro, era de que mais de 150 escolas fechassem as portas. Devido à pressão popular nas ruas em diversas cidades, como Sorocaba e capital, o governo estadual recuou – pelo menos momentaneamente - e anunciou, no final de outubro, o número menor, mas não menos preocupante, de 94 instituições que terão outras finalidades. Só que a Justiça determinou que uma dessas escolas, a Braz Cubas, em Santos, não pode ser fechada por ser referência no atendimento a crianças com deficiências. Em Sorocaba, a mãe de um aluno autista, que atualmente estuda na escola Helio Del Cístia, no Jardim São Guilherme, está preocupada porque o filho será transferido para a escola Guiomar Camolesi, no Maria Eugênia, a seis quilômetros de distância de sua casa. Ela participou da audiência pública sobre o tema na Câmara de Sorocaba, no dia 6 de novembro, de iniciativa do vereador e diretor do SMetal, Izídio de Brito (PT). A mãe preferiu não se identificar, mas ressaltou que “o filho é totalmente dependente de mim, eu que levo

Foguinho

Com a reestruturação, uma das mais tradicionais, o ‘Estadão’, seria uma das escolas a eliminar o ensino médio

30 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão


Foguinho

Em Sorocaba, as escolas que serão fechadas e os respectivos destinos:

Até 30 de novembro, 19 escolas estaduais de Sorocaba estavam ocupadas por estudantes

ESCOLA

DESTINO

Prof. Dorival Dias de Carvalho Vila Santa Francisca

Centro Estadual de Educacão de Jovens e Adultos - Ceeja

Profa. Elza Salvestro Bonilha Jardim Itangua

Centro Paula Souza ou PMS

Prof. Flávio Gagliardi Jardim Saira

Centro Paula Souza ou PMS

Mario Guilherme Notari Jardim Luciana Maria

Centro Paula Souza ou PMS

Prof. Salvador Ortega Fernandes Jardim Santa Cecília

Escola Municipal

Cresce o número de escolas particulares em Sorocaba, enquanto a rede pública diminui

• Educação infantil

117 municipais e 90 particulares

• Ensino fundamental

46 municipais e 85 estaduais / 59 particulares

para a escola. Teremos que andar muito mais, mas ele toma remédio, fica sonolento de manhã. Será mais difícil”. Outra questão importante que foi desconsiderada nesse projeto de reestruturação é o vínculo que o aluno já criou nessa comunidade escolar, que tem prédio e corpo docente preparados para receber os autistas.

Fim do Ensino Médio

A escola estadual Julio Prestes de Alburquerque (Estadão), no Centro, e a escola Isabel Lopes Monteiro, na Vila Helena, estão entre as escolas que não oferecerão mais o Ensino Médio, a partir de 2016, caso o projeto de reestruturação do governador Geraldo Alckmin (PSDB) for efetivado. Essas instituições passariam a atender apenas o ciclo fundamental.

A mercantilização do ensino

Na opinião do educador e diretor da escola municipal Getúlio Vargas, José Adão Neres de Jesus, esse processo de sucateamento do ensino público é um processo estrutural e não acontece à toa. “Se o Estado oferecesse um ensino de qualidade o que seria das particulares?”, reflete.

• Ensino médio

55 estaduais e 28 particulares

Evolução do número de alunos em 6 anos Fundamental 1 (de 1º a 5º ano)

• Rede municipal (Cresceu 11,37%) 2008: 22.594 alunos 2014: 25.163

• Rede estadual (Caiu 59,55%) 2008: 13.897 alunos 2014: 8.276

• Rede particular (a que mais cresce, cresceu 31,26%) 2008: 6250 alunos 2014: 8.204

Fonte: Diretoria de Ensino de Sorocaba/ Secretaria Municipal de Educação

Ponto de Fusão Nº4 - 2015 31


CAPA

Reestruturação do Ensino

Em artigo publicado em veículos de comunicação, no dia 27 de outubro, o professor do campus Sorocaba da UFSCar, Marcos Francisco Martins, afirmou que “o que está em jogo não é a qualidade social da educação, como processo de formação humana integral, como bem simbólico garantido constitucionalmente como um direito, mas um projeto que entende a educação como mercadoria, algo característico da concepção dos que têm governado São Paulo nas duas últimas décadas, com lastro para outras regiões do País, como o Paraná, que adota o mesmo projeto e também quer fechar escolas”. No texto, ele alerta também para o perigo dessas medidas contribuírem ainda mais para a privatização da educação. “Essa prática é conhecida no meio empresarial como “downsizing”: enxuga-se a empresa para torná-la menos custosa e mais atrativa à venda. Implantado na educação, revela a concepção dos “reformadores empresariais”, que estão estrategicamente articulados

e direcionando a educação paulista, tanto que seus representantes mantiveram (consultoria McKinsey) e mantêm (Falconi) escritório dentro da Secretaria Estadual de Educação”.

Confirmação oficial

Em audiência pública feita na Câmara Municipal, no dia 6 de novembro, o diretor regional de ensino, Marco Aurélio Bugni, representando a Secretaria Estadual de Educação, confirmou que o processo de reestruturação do governador Geraldo Alckmin (PSDB) caminha para terceirizar o ensino público estadual, ou seja, transferir a responsabilidade para o terceiro setor. Outro passo já seria a privatização do ensino. Em resposta à revista Ponto de Fusão, a Secretaria Municipal de Educação, via Secretaria de Comunicação, informou que “está em discussão com a Diretoria de Ensino para possíveis ajustes, mas ainda não há definição” sobre as novas funções das escolas estaduais que passarão ao município.

Escolas de Sorocaba com ciclo único Prof. Antonio Cordeiro Antonio Padilha Antonio Vieira Campos Prof. Beathris Caixeiro Del Cistia Ezequiel Machado Nascimento Francisco Camargo Cesar Prof. Genésio Machado Prof. Guiomar Camolesi Souza Hélio Del Cistia Humberto de Campos Prof. Isabel Lopes Monteiro Jardim Santa Esmeralda João Climaco de Camargo Pires João Rodrigues Bueno Monsenhor João Soares Prof. Jorge Madureira Prof. Julio Bierrenbach Lima Dr. Julio Prestes de Alburquerque Prof. Lauro Sanchez Senador Luiz Nogueira Martins Monteiro Lobato Prof. Ossis Salvestrini Mendes Prof. Rafael Orsi Filho Prof. Roque Conceição Martins Prof. Wilson Ramos Brandão

(EM) (EM) (EM) (EM) (EM) (EM) (EM) (EM) (AF) (EM) (EM) (AF) (EM) (EM) (AF) (AF) (AF) (AF) (AF) (AF) (AF) (AF) (AF) (AF) (AF)

AF: Apenas Fundamental (5º ao 9ºano) EM: Ensino Médio

“Os pais observam que a educação pública perde qualidade e sacrifica o bolso em busca de qualidade na rede privada”

“Ao mesmo tempo que o PSDB faz projeto para fechar escola ele abre presídios e aprova um projeto de redução da maioridade penal”

“Nenhum prefeito quer assinar convênio de municipalização, nem os do mesmo partido do governador (PSDB)”

José Adão Neres de Jesus Educador e diretor de escola municipal

Vinicius Viana da União da Juventude Socialista (UJS) e presidente do grêmio da ETEC Rubens de Faria e Souza

Maria Sufaneide Rodrigues Representante da Secretaria Estadual de Educação e diretora estadual da Apeoesp

32 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão


reunião, mas no dia 23 de novembro apenas enviou um email aos professores comunicando a decisão autoritária, que ao contrário do que ele diz, não foi compartilhada”, desabafa uma professora da escola Getúlio Vargas.

A Escola Municipal Getúlio Vargas, no Santa Terezinha, uma das instituições mais tradicionais da cidade, deixará de oferecer o Ensino Médio

Fotos: Foguinho

Da mesma forma que Alckmin (PSDB) tenta impor, de forma autoritária, a reestruturação da rede estadual de ensino, a Prefeitura de Sorocaba, por meio da Secretaria Municipal de Educação, elimina o Ensino Médio da rede municipal. A partir do ano que vem quatro escolas tradicionais da cidade não vão mais aceitar matrículas para o primeiro ano do Ensino Médio na rede municipal de ensino. São elas: Getúlio Vargas (Santa Terezinha); Leonor Pinto Thomaz (Centro); Achilles de Almeida (Vila Hortência) e Professor Flávio de Souza Nogueira (Vila Progresso). “O secretário municipal Flaviano Agostinho de Lima fez reunião com os professores em outubro e colocou a questão de acabar com o fundamental 2 e Ensino Médio na rede e nós nos posicionamos contra essa proposta. Ele ficou de marcar outra

Foguinho

Em cima da hora: Prefeitura altera ensino municipal

“A desorganização que está sendo proposta tanto pelo governo do Estado quanto pela prefeitura é o maior exemplo da falta de democracia e de respeito”

“Os governos de Alckmin e Pannunzio não estão preocupados com qualidade no ensino público. Os prejudicados são os filhos de trabalhadores”

Educadora Iara Bernardi Professora aposentada e membro do Fórum da Educação

Alex Sandro Fogaça Coordenador da subsede da CUT e diretor administrativo do SMetal

“Com tanta contradição, o único caminho que vejo é o da judicialização, para barrar essa situação” Izídio de Brito Vereador de Sorocaba (PT) e dirigente sindical metalúrgico Ponto de Fusão Nº4 - 2015 33


Saúde do Trabalhador

Assédio moral: uma violência psicológica Por Fernanda Ikedo

Estado de São Paulo em números de denúncias (2015)

Janeiro Fevereiro Março Abril Maio Junho Julho Agosto Setembro Outubro

MPT 2ª Região

MPT 15ª Região

68 76 78 96 79 75 173 * * *

44 42 59 46 62 73 52 67 62 73

* Não computado

34 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão

O

assédio moral é um processo contínuo e sistemático de ofensas, hostilizações, condutas abusivas, como gestos, palavras, comportamentos ou atitudes, que se configuram como um processo de violência psicológica no ambiente de trabalho e que pode acarretar em danos à saúde física e mental do trabalhador. Até julho deste ano o Ministério Público do Trabalho (MPT) do Estado de São Paulo recebeu 1.034 denúncias de assédio moral, o que já corresponde a 85% do total verificado em 2014 (1.219). Os dados são da Procuradoria Regional do Trabalho 2ª Região, em São Paulo e da 15ª, em Campinas, que atendem todas as cidades do Estado, inclusive capital. Esse aumento do número de denúncias, que geram procedimentos para investigação, segundo o próprio MPT, deve-se, de forma relevante, à campanha sobre o assunto nos meios de comunicação. A veiculação ocorreu entre julho e agosto, tanto em mídia impressa quanto TV e rádio e foi paga com uma parte do valor (R$ 5 milhões) do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Siemens, que foi condenada justamente por práticas de assédio moral. Mas o aumento expressivo de denúncias não significa que as empresas responsáveis pelos atos de assédio moral sejam responsabilizadas.


Em 2014

• 684 denúncias no MPT 2ª Região, com 7 Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) e 11 ações civis públicas ajuizadas • 535 denúncias no MPT 15ª Região, com 36 TAC´s e 16 processos judiciais Conforme explica a psicóloga e pesquisadora do assunto, Joana Alice Ribeiro de Freitas, que atualmente estuda assédio moral no doutorado na Universidade de São Paulo (USP), as cobranças têm sido feitas a partir de um discurso muito mais sutil e que escamoteia a natureza das relações de trabalho no mundo atual, devido aos modelos de gestão atuais e todo o discurso organizacional de cooptação, que nomeia o trabalhador como ‘cola-

borador’. “Reverter de todo essa lógica nesse modelo de organização social parece difícil, uma vez que a finalidade última das empresas é o lucro. O que se pode fazer é municiar as pessoas o máximo possível com informações a respeito do assédio moral, bem como outras formas de violência, além de fortalecer os sindicatos para que possam receber, acolher e encaminhar denúncias de trabalhadores”, afirma. De acordo com a advogada do departamento jurídico do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região (SMetal), Érika Mendes, o maior problema de quem sofre assédio moral é juntar provas, como: gravações, e-mails, fotos, depoimentos e testemunhas para comprovar a prática contra o trabalhador.

As principais reclamações de assédio moral • Não atribuir nenhuma tarefa ao trabalhador; • Dar instruções erradas ao trabalhador, com objetivo de prejudicá-lo; • Atribuir erros imaginários ao trabalhador, com o fim de prejudicá-lo; • Fazer brincadeiras de mau gosto ou críticas ao trabalhador em público; • Impor horários injustificados ao trabalhador; • Transferir o trabalhador de setor para isolá-lo ou colocá-lo de castigo; • Forçar a demissão do empregado; • Retirar seus instrumentos de trabalho, tais como, telefone, computador • Proibir colegas de falar ou almoçar com o trabalhador; • Fazer circular boatos maldosos e calúnias sobre o trabalhador; • Submeter o trabalhador a humilhações públicas e em particular; • Perseguições por parte das chefias em face dos subordinados; • Punições injustas e ilegais; • Não repassar informações necessárias ao desenvolvimento da atividade

Recomendações ao trabalhador que está sofrendo assédio moral • Anotar tudo o que acontece no dia-a-dia do trabalho; • Coletar e guardar provas das situações de assédio como, por exemplo, e-mails, bilhetes do agressor e outros documentos que demonstrem tarefas impossíveis de serem cumpridas ou inúteis; • Procurar o departamento jurídico do sindicato da categoria que pode contribuir nestas situações; • Conversar com o agressor sempre na presença de testemunhas, como um colega de trabalho de confiança ou representante do sindicato; • Procurar o departamento de recursos humanos da empresa para relatar os fatos e exigir providências.

Empresa de Sorocaba é recorrente em assédio Em 2011, a empresa Flextronics International Tecnologia LTDA, fabricante de eletroeletrônicos, foi condenada pelo Ministério Público do Trabalho e teve que pagar cerca de R$ 1 milhão em Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) por controlar a ida ao banheiro dos trabalhadores. Em processos promovidos pelo departamento jurídico do SMetal, a empresa também foi condenada no dia 18 de Junho de 2012 ao pagamento no importe de R$ 10 mil, por Danos Morais. As testemunhas alegaram que os empregados somente poderiam utilizar o sanitário uma vez por dia, durante 7 minutos, sob pena de sofrer advertências e reclamações por parte do supervisor. No dia 28 de Março de 2014, a empresa foi condenada ao pagamento de R$ 10 mil, pois testemunhas comprovaram ofensas sofridas pela autora, quando a reclamante foi ofendida verbalmente perante os outros funcionários, sendo motivo de chacota no ambiente de trabalho, causando sofrimento íntimo, desgosto, aborrecimento, mágoa e tristeza. No dia 01 de Outubro de 2015, foi condenada ao pagamento de R$ 10 mil por Danos Morais. A autora foi submetida a situações humilhantes e constrangedoras. As testemunhas alegaram que a superiora hierárquica, tanto da reclamante quando dos depoentes, tratava os empregados - e principalmente a autora – aos gritos, sendo comprovado o dano à privacidade e à dignidade da autora, visto que a dor moral é inerente ao fato constatado, notadamente no que se refere ao tratamento humilhante e ao abalo psicológico constatados. Ponto de Fusão Nº4 - 2015 35


Redes Sociais História

Atenção aos limites do bom senso e da Justiça Com o aumento de usuários nas redes sociais no Brasil e no mundo, a disseminação de boatos, ofensas, ações criminosas e informações falsas também cresceu. Mas quais são os limites e as consequências dessas ações? Por Daniela Gaspari

USUÁRIOS DAS PRINCIPAIS REDES SOCIAIS NO MUNDO: Facebook

Youtube

WhatsApp

LinkedIn

1.44

1

800

347

BILHÃO 36 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão

BILHÃO

milhões

milhões


das pessoas se relacionarem praticamente em tempo real com qualquer parte do mundo. Além disso, a facilidade na busca por informações também foi um grande avanço que as mídias digitais trouxeram para grande parte da população que possui acesso à internet. O presidente da Comissão de Direito Eletrônico e Novas Tecnologias da Subseção Sorocaba da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), José Carlos Francisco Filho, alerta que a rede social, se utilizada de forma correta e positiva, é uma boa ferramenta. Porém, o mau uso pode gerar um impacto muito grande na vida das pessoas. Um caso que chocou o Brasil foi a morte da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, linchada no Guarujá, em São Paulo, após ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças, em maio de 2014. O linchamento aconteceu após publicação de um retrato falado semelhante ao da vítima na página do Facebook “Guarujá Alerta”.

Os administradores do canal alegaram que os leitores da página foram alertados de que a situação poderia se tratar de boato, mas não adiantou. Vídeos da agressão foram gravados pelos moradores e até hoje podem ser encontrados na web. Para o professor de mídias sociais de Universidade de Sorocaba (Uniso), Randolph de Souza, o problema é que algumas pessoas esquecem que a rede é uma extensão do mundo físico. “O conceito de virtual não é o que não existe ou o contrário do real, ele é uma extensão do real e tem potencialidade de ser real”, disse. Ele explica que por ser um universo abstrato, os usuários entendem que nas redes pode-se falar o que quiser, sem pensar nas consequências que tal comentário pode causar. “As pessoas têm dificuldade de lidar com essas novas tecnologias, de saber que o uso delas implicam nas mesmas regras, infrações e leis que existem no mundo presencial”, esclarece Randolph.

Instagram

Twitter

Google +

Snapchat

300

288

217

200

milhões

milhões

milhões

milhões Ponto de Fusão Nº4 - 2015 37

*Dados em dezembro de 2014

O

acesso às redes sociais vêm crescendo a cada ano e tomando grandes proporções no Brasil e no mundo. Mas, atualmente, o “mau uso” dessa ferramenta de comunicação virtual tem repercutido na sociedade e nos tribunais. A disseminação de boatos, ofensas, ações criminosas, comentários preconceituosos, informações falsas, entre outros, tem crescido junto com a internet, que já encontra-se em mais de 50% dos lares brasileiros. Hoje o Brasil é um dos líderes mundiais em número de usuários em várias redes sociais, como o Facebook, Twitter e Instagram. Só o Facebook, maior ferramenta digital de comunicação global, até o último trimestre de 2014 possuía 1,44 bilhão de usuários mensais, sendo 92 milhões no Brasil – o que corresponde a 45% da população brasileira. Essas ferramentas digitais proporcionam um relacionamento mais amplo, que ultrapassa fronteiras, dando a possibilidade


Redes Sociais

Liberdade de expressão A liberdade vai até onde começa o direito do outro de não ser ofendido JoSé carloS FraNciSco Filho, aDvogaDo

Atualmente é comum os usuários de ferramentas digitais utilizarem da liberdade de expressão como pretexto ao fazer referência sobre qualquer assunto, mesmo que ofenda ou constranja outra pessoa. Mas até que ponto esse direito está garantido? José Carlos Francisco Filho, advogado especialista no tema, explica que a liberdade de expressão existe e todo mundo tem direito, mas ela vai até onde começa o direito do outro de não ser ofendido. “Se na sua fala, comentário ou opinião você passou a ofender alguém, perde-se o direito de falar sobre aquilo”, afirma. Mas ele alerta: “esse sentimento de ser ofendido é muito subjetivo, para mim pode ser uma coisa e para você outra”. Por isso, o advogado adverte que haja cautela nas publicações em redes sociais. “É importante pensar que quando você posta algo na internet ou na rede social, é como se você estivesse publicando em um outdoor na rua. Então o que você gostaria que aparecesse naquele outdoor?”, questiona. Segundo José Carlos os chamados crimes contra a honra – ameaça, injúria, calúnia, difamação e falsa identidade – estão entre os mais comuns no meio eletrônico, junto com o vazamento de fotos e vídeos de nudez. “A maioria dos casos não tem grande repercussão, mas eles têm um impacto muito grande na vida da pessoa e da família”, explica o advogado. “Eu tive um caso que envolvia ofensas e perfil fake [falso], que a pessoa teve até que mudar de cidade”, lembra. Os crimes contra a honra na internet são combatidos com as mesmas leis que regem o universo não virtual e as penas vão de um mês até três anos de detenção e multa. Se possuir algum agravante, a pena máxima passa para quatro anos. O advogado acredita que a pena deveria ser mais dura, porque a amplitude de uma publicação na rede é muito grande. “Uma coisa é estarmos numa sala em dez pessoas e alguém ofender alguém, outra é fazer isso pela rede social, que pode virar cinco milhões de pessoas visualizando”, destaca.

Como denunciar

Para denunciar qualquer crime na internet a pessoa que se sentiu ofendida deve procurar a delegacia mais próxima de sua residência e registrar a ocorrência. É indicado levar documentos que comprovem a ofensa, como fotos com o conteúdo da página na internet ou discussões. Já para denúncias que envolvam violações de direitos humanos, como casos de pornografia infantil, racismo, homofobia, xenofobia, apologia e incitação a crimes contra a vida, entre outros, existe o Disque 100, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, ou portais como o SaferNet (www.safernet.org.br). O recebimento de denúncias no canal é anônimo. O Safernet oferece ainda, gratuitamente, orientação contra crimes e violações dos direitos humanos na internet, por meio de uma equipe formada por psicólogos e especialistas no tema. O SaferNet conta com suporte governamental, parcerias com a iniciativa privada, autoridades policiais e judiciais. 38 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão


Foguinho

O perfil e a superexposição dos usuários

Vagner Santos

Cautela em publicações e comentários é o que o advogado especialista em Direito eletrônico, José Carlos Francisco Filho, aconselha aos usuários das redes

Para o professor de mídias sociais da Uniso, Randolph de Souza, o problema é que algumas pessoas esquecem que a rede é uma extensão do “mundo real”

Além dos crimes contra a honra, outra preocupação que as redes sociais têm evidenciado é a superexposição dos usuários. “Normalmente para os mais jovens, que já nasceram nesse mundo digital, é comum que tudo o que eles pensam coloquem na rede, mas isso muitas vezes pode acabar voltando contra eles mesmos”, afirmou professor de mídias sociais da Uniso, Randolph de Souza. “Tem muita gente criticando as redes sociais porque elas não permitem a privacidade das pessoas, que exploram muito, mas são as próprias pessoas que colocam as informações pessoais”, lembrou. Segundo Randolph, mais de 60% dos usuários de canais de redes sociais tem a faixa etária de 13 a 26 anos. “Depois começa a pulverizar em outras idades e esse número só vai reduzindo, até chegar a 1% que representa pessoas com mais de 50 anos de idade”, conta. Para o professor essa geração atual, que ele denomina como “ativos digitais”, é uma geração “imagética”, que usa a imagem na busca por informações. “Eles não param para ler o texto, para saber exatamente do que se trata aquela informação. Bateu o olho na foto, imagem, e pronto. O texto, só se aquilo interessar muito”, enfatiza. O usuário deve ter cuidado também com as publicações pessoais na busca por emprego ou mesmo em comentários sobre outros funcionários, chefes ou a empresa em que trabalha. Pesquisas comprovam que a análise do perfil do candidato nas redes sociais vem se tornando prática comum e determinante na seleção de trabalhadores. Essa superexposição muitas vezes pode ser utilizada também para golpes e crimes como sequestro, assaltos, entre outros. Com isso, separamos no box ao lado alguns cuidados simples que devemos ter nas redes sociais.

Cuidados nas redes Não adicionar pessoas desconhecidas; Evitar a exposição em excesso de filhos, residência, rotinas, familiares, patrimônio, entre outros; Não publicar fotos e posts indicando a sua localização; Jamais compartilhar que está sozinho em casa; Acompanhar de perto o uso de crianças e adolescentes; Não compartilhar imagens ou conteúdos que estejam denegrindo alguma pessoa; Antes de compartilhar qualquer publicação, ler com atenção e conferir se a informação é verdadeira. Uma boa maneira é verificar se outros sites de confiança também divulgaram a mesma informação; Não divulgar telefone, endereço e dados pessoais em comentários ou publicações abertas, mesmo que seja de amigos.

Ponto de Fusão Nº4 - 2015 39


Finanças Domésticas

Por Paulo Andrade

D

esde o início dos anos 2000 os brasileiros não sabiam o que era uma crise. Existe uma geração inteira que nunca tinha vivido em um cenário de demissões em massa, recessão, inflação próxima de dois dígitos no ano e alta acelerada do dólar. Termos que eram comuns nos noticiários das décadas de 80 e 90. A partir de 2008, com base em problemas econômicos dos EUA e da Europa, a imprensa passou a anun40 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão

ciar o início no Brasil de uma crise inexistente, como se apostasse no pessimismo para conquistar audiência e desgastar o governo do PT, que jamais agradou aos donos das grandes mídias e seus parceiros políticos e comerciais daqui e do exterior. De tanto ser chamada, a crise veio. Houve erros do governo federal que colaboraram para a instalação dela, mas o clima antecipado de instabilidade plantado por opositores

potencializou os riscos. “O mercado sente os humores da sociedade, percebe a insegurança gerada pelo noticiário. O mercado, apesar de ser uma figura abstrata, fica desconfiado e responde ao clima negativo com cortes de investimentos. O resultado é a retração da economia”, explica o economista André Corrêa Barros, auxiliar técnico da subseção do Dieese no SMetal Sorocaba.


Uma forma de deixar o ato de economizar mais atraente é elaborar metas. As pequenas economias mensais podem virar uma viagem de férias, um bem de consumo desejado por todos

especial. Assim todos os integrantes terão mais força de vontade para economizar, visando o prêmio pelo sacrifício”, recomenda André.

Falsa renda

André explica que os principais vilões da economia doméstica são o cartão de crédito e o cheque especial. “Esse tipo de crédito te oferece um aumento de renda que não existe. A pessoa tem um salário de R$ 3 mil, por exemplo. O limite do cartão dela é de R$ 3 mil e ela tem um cheque especial de R$ 1 mil. Ela tem a impressão que ganha R$ 7 mil. Mas não é verdade. Ela vai pagar caro por essa ilusão”, esclarece. No fim das contas, o trabalhador vai usar parte da renda que realmente tem para pagar os juros sobre aquilo que acreditava ter. Os juros do cartão de crédito giram em torno de 368,27% ao ano, segundo a Associação Nacional dos Executivos em Finanças (Anefac). Por mês o usuário paga, em média,

Foguinho

Solução em família

O psicanalista sorocabano Ricardo Dih Ribeiro vai lançar em dezembro seu segundo e-book, chamado Movimento Selfie, que trata das relações interpessoais e inclui a influência do consumismo na vida das pessoas. Ele ressalta que, para o controle do orçamento doméstico, deve haver diálogo, união, compreensão e colaboração entre os integrantes da família. Os membros da família devem aceitar que a renda familiar é de X, e que não dá pra extrapolar esse X. Mas o controle das finanças não pode se tornar motivo para desentendimentos constantes. Não é incomum os problemas financeiros serem responsáveis por casamentos desfeitos. “Uma forma de deixar o ato de economizar mais atraente é elaborar metas. As pequenas economias mensais podem virar uma viagem de férias, um bem de consumo desejado por todos ou um final de semana

Foguinho

aNDré corrÊa barroS:

Mas, enfim, agora a prioridade é superar a crise, começando pelo orçamento doméstico. Afinal, com a alta de preços e das tarifas públicas, os salários duram cada vez menos. E apelar para os juros imorais dos bancos só agrava o problema. Para arcar com as despesas sem acumular dívidas impagáveis, o jeito é procurar se organizar e se tornar um consumidor mais consciente. As dicas convencionais de economia familiar, como pesquisar preços, fazer a contabilidade familiar e fugir dos créditos rotativos dos cartões, funcionam bem. Mas não bastam. “O ideal é que a organização das contas pessoais, a postura equilibrada diante das tentações de consumo e o combate ao desperdício sejam adotados o tempo todo, independente das condições econômicas do país. Mas em um quadro de crise essas recomendações adquirem caráter emergencial”, afirma André.

13,78% sobre o valor da compra, além das taxas de manutenção. No cheque especial, segundo a Fundação Procon, o correntista paga 12,4% de juros ao mês, em média; ou 306,62% no ano. Enquanto isso, a inflação, medida pelo INPC/IBGE, deve fechar 2015 na faixa dos 10%. “O trabalhador tem todo o direito de satisfazer suas necessidades de lazer e consumo extra. É saudável e ajuda a fazer a roda da economia girar. O que se recomenda é consumir de forma consciente e responsável”, pondera Sílvio Luiz Ferreira da Silva, diretor Executivo de SMetal e Secretário de juventude da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM). Para Silvinho, como é conhecido, a classe trabalhadora conseguiu realizar vários sonhos de consumo nos 12 anos anteriores a 2015. “Mas o momento agora requer cautela para o trabalhador não se perder em dívidas até que a economia ganhe novo impulso”, afirma.

SÍlvio Ferreira Da Silva:

O trabalhador tem todo o direito de satisfazer suas necessidades de lazer e consumo. É saudável e ajuda a fazer a roda da economia girar. O que se recomenda é consumir de forma consciente e responsável

Ponto de Fusão Nº4 - 2015 41


Finanças Domésticas

Para entender o consumismo O psicanalista Ricardo trabalha o conceito da compensação para analisar o consumismo. “O sistema natural do ser humano busca a homeostase, o equilíbrio. Esse equilíbrio é efêmero. Tem que ser administrado constantemente. Nossos conflitos cotidianos fazem parte desse conceito e a pessoa busca uma compensação para retomar o equilíbrio. Tem pessoa que o procura nas compras. Nesse caso está tentando suprir uma emoção que não desenvolveu de maneira adequada”. Ele dá um exemplo: “Às vezes a pessoa trabalha a semana toda em um trabalho que não gosta. Aí ela tenta compensar o desprazer extrapolando nos gastos de fim de semana”. O lazer, que é para ser saudável, deixa de ser porque se torna a compensação de algo desagradável que ela não consegue administrar. “A neurociência diz que 90% dos nossos processos neurológicos são inconscientes. Temos 10% de participação consciente. Tomando a compra como exemplo, o quanto da minha atitude é consciente? Eu me perguntei por que eu quero comprar isso? Vai servir para quê? É para suprir uma necessidade real ou é uma compensação?”, questiona o psicanalista.

Armadilhas

A propaganda sabe que o consumismo é emocional. Por isso carrega os anúncios com mensagens emocionais: Compre isso para se sentir melhor! Compre isso para se sentir bem sucedido! “Para se contrapor, você tem que se perguntar: que emoção está ligada à minha vontade de comprar?”, questiona Ricardo. Ele aconselha a ficar atento à mensagem subliminar da propaganda, que busca nos fazer sentir necessidade de atender ao apelo comercial. “Nós funcionamos por estímulos. Depois de um tempo, o estímulo repetitivo condiciona a agir no modo automático. Por exemplo: quando

Ricardo Dih Ribeiro: A neurociência diz que 90% dos nossos processos neurológicos são inconscientes. Temos 10% de participação consciente. Tomando a compra como exemplo, o quanto da minha atitude é consciente? 42 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão

você está aprendendo a dirigir, o cérebro vai registrando quais são os movimentos para engatar o carro, olhar nos espelhos, dar seta, frear. Isso é consciente. Mas depois que o cérebro está treinado, o consciente não participa mais. Os estímulos externos [visuais ou auditivos] fazem o motorista executar os movimentos automaticamente. Dirigir se torna uma ação condicionada”. O marketing aproveita-se da ação condicionada. “Algum estímulo vem. Faz com que o cérebro acione uma programação anterior, construída vendo TV, lendo, ouvindo. E você reage comprando o produto por reflexo. O importante nessa hora, voltan-


Dicas de controle do orçamento em casa • Cheque especial

Evite ao máximo usar

• Cartão de Crédito

Evite pagar o valor mínimo

Juros anuais Cartão de crédito 368,27% Cheque especial 306,62% Inflação 10% (aprox.)

• Planilha caseira

Elabore uma planilha com colunas de rendimentos x despesas fixas/gastos variáveis; priorize despesas fixas (água, luz, aluguel, alimentação)

• Dívidas?

Procure renegociá-las

• 13º salário

Tente adiar planos de consumo. Reserve uma parte para abater dívidas. Se possível, guarde uma parte para despesas de início de ano (IPTU, IPVA, volta às aulas).

• Crie rotinas

Planeje cardápios da semana, formas de transporte etc

• Recursos naturais do para a analogia do carro, é assumir o controle do volante e dirigir consciente, ignorando estímulos de consumo”.

Ter ou ser é a questão

O psicanalista esclarece que, ao despertar a consciência do que significa o valor embutido em cada situação, a pessoa sai do sistema consumista. Ela inicia um processo de percepção do valor real de uso e o valor de status do produto. “O jovem vai comprar um tênis porque é bom e não estraga fácil; e não para mostrar que tem a marca mais cara e badalada, que sugere uma compensação emocional”. “Não estou fazendo apologia à pobreza. Estou defendendo o equilíbrio, a razão, a satisfação real”, afirma Ricardo. De acordo com ele, a sociedade capitalista pressiona o indivíduo a valorizar mais o TER do que o SER. “Ao aceitar isso, a pessoa coloca nos objetos sua identidade. Ao invés de buscar seus talentos ou o que realmente a faz feliz, ela elege símbolos. Quando isso acontece, ela não busca mais a felicidade dentro dela, ela busca nos símbolos. O TER se torna mais importante do que o SER”, explica.

Utilize de maneira racional - Crie rotinas e limite o tempo de uso: banho, máquina de lavar, secadores de cabelo e aparelhos de chapinha

• Água

Evite lavar calçadas e carros com mangueira (Essa medida tem caráter não apenas econômico, mas também social)

• Energia

Cuidados adicionais: apague luzes de cômodos vazios, não deixe aparelhos ligados à tomada durante a noite (modo stand by consome energia) ou após o carregamento completo de baterias de celulares e notebooks, utilize lâmpadas frias

• Lista de compras

Leve anotado ao supermercado o que precisa comprar

• Alimentos

Alimente-se antes de ir ao supermercado. Estudos comprovam que a sensação de fome induz o cliente a comprar mais do que o necessário

• Pesquise preços

Produtos de maior valor, como móveis, eletrônicos e roupas devem ter preços pesquisados em pelo menos 3 estabelecimentos

• Pagamentos à vista

Sempre negocie um desconto

• Impulsos consumistas

Pratique autocontrole sobre o consumismo (inclusive em compras pela internet)

• Essencial

Envolva toda a família no processo de economia doméstica Fonte: Subseção Dieese SMetal e Ricardo Dih Ribeiro

Ponto de Fusão Nº4 - 2015 43


Entrevista

Yuri Salvador

UNE reforça seu papel como instrumento de conscientização

A universitária Carina Vitral, presidente da União Nacional dos Estudantes, fala sobre conscientização dos jovens, movimento estudantil e a luta pela democracia Por Fernanda Ikedo

C

arina Vitral tem 26 anos e um sotaque típico de quem nasceu em cidade litorânea. Natural de Santos, a estudante de economia foi eleita presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) durante o 54º Congresso da entidade, realizado em junho, em Goiânia (GO). Antes de partir para Brasília para acompanhar e protestar contra a segunda votação da redução da maioridade penal na Câmara dos Deputados, no dia 19 de agosto, ela concedeu entrevista para a revista Ponto de Fusão. 44 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão

Embaixo das árvores da Pontifícia Universidade Católica (PUC/ SP), campus Perdizes, onde estuda, ela contou sobre sua trajetória no movimento estudantil e foi enfática ao defender a juventude como um setor muito especial da sociedade para a disputa da consciência político-social (e as ocupações de escolas ainda nem estavam em pauta). Para ela, os jovens não estão apáticos, mas também frisou que há muitas mudanças e lutas pela frente para que o jovem de periferia, por exemplo, não reproduza o discurso das classes dominantes.

Até hoje, foram apenas seis mulheres eleitas presidentas da UNE em toda a história da entidade e pela primeira vez houve uma sucessão de mulher


Foguinho

MOVIMENTO Os estudantes vão se organizando em entidades representativas como DAs (diretórios acadêmicos), CAs (centros acadêmicos), DCEs (diretórios centrais), uniões estaduais de estudantes e executivas nacionais de cursos. A união destas organizações forma, há mais de 70 anos, a UNE.

Revista Ponto de Fusão: Carina, conta como você começou no movimento estudantil. Você começou em Santos?

RPF - Você vem agora num mandato com grande representatividade de mulheres e de gênero. A que se deve essa ampliação?

Carina Vitral - Isso. Teve uma gincana de cidadania e na minha escola formamos um grupo multiplicador de jovens para falar do protagonismo juvenil. Então, foi assim que eu iniciei, mas nessa época eu não tinha consciência que o que eu fazia era política. Eu até falava que não gostava de política. Aí, comecei a perceber que eu dava opinião e era uma opinião política e um engajamento grande. Conheci o movimento estudantil na universidade, na época, em Santa Catarina, e quando me transferi para São Paulo, fui presidenta da União Estadual dos Estudantes de São Paulo e, agora, eleita presidenta da UNE.

CV - Ela reflete um pouco do empoderamento das mulheres que tem acontecido no movimento estudantil desde o CA (Centro Acadêmico), DCE (Diretório Central dos Estudantes, passando pelas UEEs (União Estadual dos Estudantes) e a UNE. A gente tomou uma decisão gerencial muito forte de empoderar as mulheres porque se uma mulher chega até um determinado estágio de liderança, na mesma condição que o homem, a mulher tem mais mérito, inclusive, porque é muito mais difícil, sendo mulher, enfrentar as adversidades e o machismo cotidiano. Pra gente isso é um critério também para concorrer à presi-

dência da UNE e eu acho que uma outra questão é o fator simbólico da presidenta Dilma. RPF - Como está a estrutura da UNE hoje? Como ela atua no Brasil? CV - A gente é uma rede do movimento estudantil. A UNE é uma entidade nacional dessa rede que é composta por centros acadêmicos, DCEs e UEEs. A gente se organiza a partir dessas entidades de apoio, de base, para que a UNE possa existir. A diretoria da UNE é composta por 85 pessoas do Brasil inteiro. Além dos diretores por Estado, tem diretores por pasta, como diretores de universidade privadas, de universidades públicas, diretoria de cultura, esporte, assistência estudantil, entre outros temas. A nossa diretoria executiva se reúne perioicamente. Ponto de Fusão Nº4 - 2015 45


Entrevista

RPF – Quais são suas propostas à frente da UNE?

Carina, 26, é aluna de economia da PUC/SP e foi presidenta da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP)

elitizada. Hoje você vê negros, estudantes da periferia de São Paulo conseguindo estudar na PUC através de bolsas. Isso é um motivo que a gente precisa comemorar porque é fruto da luta do movimento estudantil. Mas agora o desafio é despertar consciência nesses estudantes porque você tem uma sociedade mais

mobilizada. Hoje, o jovem não fala que não gosta de política. Talvez, não goste dos políticos, mas ele gosta de falar sobre política e expressa suas opiniões políticas nas redes sociais. Mas o desafio agora é disputar o conteúdo para que os jovens se aliem às ideias mais progressistas na nossa sociedade.

Yuri Salvador

CV - Acho que a primeira proposta é lidar com esse tema da conjuntura política no país. A juventude é um setor da sociedade muito especial para a disputa de consciência. Ela faz toda a diferença, como mostrou em junho de 2013, e como vem mostrando que faz toda a diferença na disputa política da sociedade. A juventude ganhou muito com a luta do movimento estudantil, mas também com um diálogo que a gente teve com o governo federal para ter direitos, mudanças e políticas públicas como o Prouni, Fies, as cotas nas universidades federais e ampliação e interiorização das universidades federais. O ensino técnico e uma série de políticas que fazem com que hoje a gente tenha mais oportunidades, em especial para o estudante de baixa renda, negros, indígenas, ou seja, uma diversidade maior da nossa sociedade. Há 20 anos a PUC, por exemplo, era uma universidade muito mais

A União Nacional dos Estudantes (UNE) foi até Brasília, em outubro, para promover passeata contra o ajuste fiscal do governo federal e os recentes cortes nas áreas sociais do país, em especial na educação. A UNE defende outra política econômica para a atual conjuntura nacional e levou à capital federal o tema: “Que os ricos paguem pela crise! Nenhum centavo a menos para a educação!”. 46 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão


RPF – Tem essa pauta estudantil, de inclusão nas faculdades, do acesso e; as pautas políticas que você citou, da ampliação da consciência política dos jovens. Nessas manifestações de rua da direita, elas expõem algumas coisas como o retorno da ditadura, uma falta até de embasamento histórico. Vocês sentem essas dificuldades com os jovens também? CV – A gente tem como principal luta da UNE a defesa da democracia porque a história da UNE é a história da defesa da democracia. Os nossos líderes estudantis na época da ditadura morreram, foram torturados pela defesa da democracia, pela redemocratização do país. Portanto, é um valor simbólico muito forte e um valor que precisa ser percebido de forma permanente. A UNE também já ajudou a derrubar um presidente da República por meio de um impeachment. Mas exatamente por isso a gente sabe que para ter um impeachment precisa ter crime de responsabilidade contra o presidente da República e que não é o caso hoje. Não tem sequer nenhuma acusação contra a presidenta Dilma e não existe, por exemplo, depósito na conta de propina, como existiu da mulher do Collor. Hoje, a gente coloca a defesa da

democracia porque qualquer derrubada na presidenta Dilma, sem crime, não é impeachment, é golpe. Agora, eu acho que os jovens não se encantam pelas ideias da direita. Se você for comparar a passeata de junho de 2013, que foi uma passeata liderada, essencialmente pelos jovens, com ideias progressistas e se você for comparar com a passeata da direita; é uma passeata completamente envelhecida, onde a média etária é 40 anos. A gente tem que se perguntar por que o jovem não vai para as passeatas da direita? Por que o jovem não se embala no ‘Fora Dilma?’ porque, na minha opinião, eles sabem que é uma disputa de poder. Quem quer derrubar a presidenta não quer fazer para melhorar a vida das pessoas, para dar mais direitos à juventude. A alternativa política à presidenta Dilma não é para aprofundar as mudanças, é para tomar o lugar dela e impor seus interesses econômicos. Acho que é por isso que não encanta a juventude. Por isso, acho que o jovem não embarca na ideia do golpe. Apesar dos ditos líderes dessas passeatas serem jovens, mas são fakes [falsos, fabricados]. Quais as trajetórias dessas pessoas, o que que lutaram, surgiram da onde? São pessoas colocadas ali para dar um ar de juventude para essas passeatas.

Na Constituição, consta que a UNE representa, a nível nacional, o conjunto de estudantes do país

Foguinho

O jovem da periferia, o jovem negro que entra na PUC encontra uma universidade ainda com um formato conservador porque a gente não mudou a qualidade da universidade e o conteúdo da universidade. Então, não é incomum quando um jovem da periferia reproduz a ideologia das classes dominantes. A UNE é um instrumento forte para essa disputa de consciência.

RPF – Em relação às propostas de fomentar um debate social maior, há ações voltadas para a formação? CV –É importante que a gente consiga disputar essas idéias, portanto, a própria participação no movimento estudantil é uma ação de consciência, mas também o debate – uma característica do nosso tempo é o debate, poder debater de forma clara e consciente em nosso país é um fator importante. Ponto de Fusão Nº4 - 2015 47


Em cena

Lançamentos, agendas e dicas culturais

PH Amorim lança livro ‘O Quarto Poder’ em Sorocaba O jornalista Paulo Henrique Amorim voltará a Sorocaba em 12 de dezembro de 2015 para lançar o livro “O Quarto Poder - Uma Outra História”, que conta a sua trajetória como profissional de comunicação e os bastidores da notícia no Brasil. O lançamento será realizado na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, a partir das 9h30. No evento o jornalista fará uma palestra de 30 minutos e, em seguida, irá autografar os exemplares do livro, que poderão ser adquiridos no local. A entrada é gratuita e aberta ao público.

EP “Mapeia”, de Paula Cavalciuk está disponível na web A cantora sorocabana Paula Cavalciuk lançou em outubro deste ano seu EP de estreia intitulado “Mapeia”. O álbum possui quatro faixas: Maria Invisível, que explora a relação fria entre patrão e empregada doméstica; Inefable; Antes de Nascer e Mapeia. O trabalho teve a produção de Ítalo Ribeiro e a coprodução de Gustavo Ruiz e Bruno Buarque. Em 2015, Paula Cavalciuk venceu a 10ª edição do Prêmio Sorocaba de Música, com a sua composição “O colecionador de opiniões”. Baixe o EP “Mapeia” em www.paulacavalciuk.com.br

Barracão cultural conta com cineclube O Barracão Cultural de Sorocaba se tornou sede do “Cine Barracão”, um cineclube voltado para a exibição de filmes, curtas-metragens e documentários nacionais e populares. O projeto teve sua estreia em 19 de novembro, com a apresentação do documentário “Tarja Branca – A revolução que faltava”, do diretor Cacau Rhodem. As exibições ocorrem a cada 15 dias, sempre às 20h, e são seguidas de roda de conversas sobre o tema do filme. A entrada é gratuita. O Barracão fica na Av. Afonso Vergueiro, 310, no Centro.

6ª Festa das Tradições Nordestinas Nos dias 12 e 13 de dezembro, o Centro Cultural de Tradições Nordestinas de Sorocaba e Região (CCTN) promove a 6ª Festa das Tradições Nordestinas, unindo tradição e manifestações culturais do nordeste do país em Sorocaba. A festa acontece na Praça Coronel Fernandes Prestes, das 10h às 20h. Entre as atrações está o grupo de xaxado Cabras de Lampião, direto de Pernambuco, além de bandas como Trio Amizade, Conjunto Forrozão, entre outras. Haverá comida típica e dançarinos interagindo com o público. A entrada é gratuita. Mais informações: facebook.com/cctnsorocaba 48 Nº4 - 2015 Ponto de Fusão

Mapeamento Cultural Em outubro de 2015 os sorocabanos passaram a contar com uma nova ferramenta virtual de divulgação de artistas, serviços e produções culturais da cidade, o Mapeamento Cultural de Sorocaba. O portal na internet é abastecido de forma colaborativa pelos próprios artistas sorocabanos ou pela população em geral. A ferramenta possui 13 categorias, como: agentes culturais; atividades e espaços de bem-estar; calendário de eventos; meios de comunicação; empresas da área; entre outros. A ferramenta foi desenvolvida pelo área de tecnologia de informação da Prefeitura de Sorocaba. Acesse em: servicos.sorocaba.sp.gov. br/mapeamentocultural


À ESPERA DE OPORTUNIDADE: Durante reportagem para esta edição, o nosso fotógrafo, José Gonçalves, o Foguinho, clicou as cores e a ansiedade nos pés de meninos sorocabanos, que esperavam a vez para entrar em campo; e que esperam, mais ainda, apoio do poder público para mostrar suas habilidades em torneios municipais e regionais


Crônica

Poeta do aço

Maurício Sérgio Dias é professor, historiador e músico: mauriciosergiotoco@hotmail.com

Eu não sei se vocês são assim, mas tem coisas que eu vejo e não entendo. Gente valorizando mais objetos que pessoas: não entendo. Recusar um prato de comida a quem precisa: não entendo. Funcionamento de smartphone: não entendo. E não consigo pensar nisso sem lembrar do meu pai, seu Servídio. Nascido em 1929, era natural de Gramadinho, bairro rural de Itapetininga. Cedo, saiu de casa para trabalhar na indústria metalúrgica, que iniciava sua modernização nos anos 1950. Tornou-se um excelente ferreiro fundidor e depois caldeireiro. E “excelente” não é a minha opinião. É de quem aprendeu com ele: seu Alécio, que junto com Dito Perninha era grande soldador; Meningite, montador baixinho arretado que tinha o diabo no corpo; sr. Zé Emílio, paraibano de muito conhecimento e respeito. Com segundo ano primário, meu pai fazia cálculos trigonométricos sofisticados sem usar papel e lápis. Vi comissão de engenheiros dizer “isso não dá para ser feito” e ele responder “dá sim”. Ia lá e fazia. Certa vez, vi um molde de elevador industrial, com cerca de 150 peças interligadas e perguntei: “de onde o senhor tirou esse projeto?”; respondeu: “eu que fiz”. Orientou a construção de quilômetros de salas-forno na CBA em 18 anos de trabalho. Poeta do aço, caldeireiro de mão cheia, formou gerações de caldeireiros, soldadores, montadores. E nem tudo era solda e maçarico. Pescador apaixonado, não gostava de pescar com vara. Era armar rede e jogar tarrafa. Pesca de vara era com o Dito Perninha, que vi espe-

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Por Maurício Sérgio Dias Ilustração: Júlio Freire

rar seis horas para pegar o primeiro peixe da noite. Sabia a medida certa: tomava três pingas por dia e nunca o vi chumbado. Também tinha seu lado gambiarreiro. Minha casa sempre teve gambiarras e belos projetos. Quando era pequeno, às vezes eu chegava falando em desabalada carreira com ele. Se estava olhando pro nada, só fazia um gesto com a mão para eu esperar. Depois de alguns segundos, acenava com a cabeça dando permissão pra eu falar. Eu não entendia muito bem, mas hoje compreendo: estava matutando a construção de alguma estrutura. Um cara mental, mas quando não queria entender, empacava e não saía do lugar. Uma vez tentei ensiná-lo a ligar um aparelho três em um. Ché, nem a pau. Só compreendi isso anos depois: era seu limite, que ele mesmo colocava. Também não entendo quando muita gente pelas ruas que diz amar seu país e tentar sabotá-lo. Não entendo transformarem animais domésticos em bibelôs e, ao mesmo tempo, incitarem o ódio a nordestinos e homossexuais. Última imagem: eu com cinco anos, na esquina de frente da minha casa em Mairinque, vendo minha casa em chamas. Tudo que a família tinha, consumido pelo fogo. Meu pai chegou do trabalho, olhou a casa e perguntou para o vizinho: “alguém se machucou?”; vizinho disse “não”. Olhou para mim, me pegou no colo e seguiu, como se nada tivesse ocorrido. Um dia almejo ter a coragem do seu Servídio: mesmo com a terra arrasada seguir adiante, como se reconstruir do zero fosse só mais uma das tantas coisas que já fez.


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Ponto de Fusão nº 4  

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