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1ª EDIÇÃO DE

ABRIL / 2014

Semanário do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região - nº 740 - Rua Júlio Hanser, 140. Lajeado - Sorocaba/SP - CEP: 18030-320

Metalúrgicos sindicalizados estão isentos da mensalidade de março Nenhum sócio do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região deverá ter descontada no holerite a mensalidade sindical referente ao mês de março. Caso o desconto ocorra o associado deverá procurar o setor de Recursos Humanos da empresa.

A isenção da mensalidade em março vem sendo praticada pelo SMetal há três anos e tem como propósito compensar os sócios pelo desconto do imposto sindical, que acontece no mesmo mês.

O imposto sindical é uma lei federal da década de 1940 que atinge todos os trabalhadores brasileiros com carteira assinada. Por se tratar de uma taxa federal e distribuída entre vários órgãos, o SMetal não pode impedir o seu desconto. PÁG. 4

Foguinho

Metalúrgicos da Prysmian aprovam acordo de turnos PÁG. 3

Brasil mantém economia em crescimento PÁG. 2

CUT promove dia 9 a Marcha do Trabalhador PÁG. 4

DITADURA NUNCA MAIS! Debate na sede do Sindicato leva

estudantes e militantes a lembrarem o golpe de 1964

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Trabalhador lesionado é reintegrado na Macham Christian Divino foi demitido em janeiro e reconduzido ao trabalho nesta terça, dia 1º

Preechimento de IR no Sindicato vai até dia 25 PÁG. 4

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Confira nesta edição um encarte sobre os 50 anos do golpe que impôs uma ditadura militar no Brasil durante 21 anos

Veja também o hotsite com conteúdo sobre o assunto em

www.smetal.org.br/50anos


Pág. 2 Edição 740 Abril de 2014

Mercado brasileiro continua em crescimento

Por transparência e justiça na GRTE Fica a impressão que Ediclei foi penalizado por cumprir justamente aquilo que se espera de um bom Gerente Regional do Trabalho de 2013, o gerente demonstrou ser um defensor do cumprimento rigoroso das leis de proteção ao trabalhador. Fiscalizou, planejou atuações, exigiu empenho de colegas e puniu empresas que cometeram irregularidades trabalhistas. Diante disso, fica a impressão que Ediclei foi penalizado por cumprir justamente aquilo que se espera de um bom Gerente Regional do Trabalho. Somente as empresas mal-intencionadas, que têm algo a temer ou que desrespeitam costumeiramente a legislação trabalhista teriam motivos para querer ver Ediclei longe de nossa região. O desejo do empresário ganancioso de se livrar de defensores da classe trabalhadora não é surpresa. O que causa espanto é a Superintendência do Ministério do Trabalho e Emprego no Estado de São Paulo não observar o interesse

Folha Metalúrgica Diretor responsável: Ademilson Terto da Silva (Presidente) Jornalista responsável: Paulo Rogério L. de Andrade Redação e reportagem: Paulo Rogério L. de Andrade Fernanda Ikedo Fotografia: José Gonçalves Fº (Foguinho) Diagramação e arte-final: Lucas Eduardo de Souza Delgado Cássio de Abreu Freire

escuso do patrão e promover o afastamento de um servidor público competente como o senhor Ediclei. O responsável pela superintendência estadual é o ex-deputado federal Luiz Antônio de Medeiros, a quem o movimento sindical já pediu os devidos esclarecimentos. Mais que isso, os sindicatos locais estão organizando um abaixo-assinado que pede a recondução imediata de Ediclei ao cargo de gerente do GRTE de Sorocaba. O movimento pela recondução de Ediclei ao cargo une sindicatos da CUT, Força Sindical, NCST, UGT, CTB, CSB e agremiações independentes que atuam na região. Nossa estimativa é que cerca de 70 entidades representativas participem desse esforço comum por justiça e transparência na GRTE de Sorocaba. A exigência do retorno de Ediclei às suas funções é feita por nós com todo respeito a qualquer potencial substituto ao cargo. Mas a forma arbitrária e truculenta da troca é inadmissível. Caso a decisão da Superintendência não seja esclarecida e revertida, qualquer eventual sucessor de Ediclei estará sujeito a ser a próxima vítima e, dessa forma, ficará impedido de atuar a favor dos trabalhadores.

Informativo semanal do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região Sede Sorocaba: Rua Júlio Hanser, 140. Tel. (15) 3334-5400 Sede Iperó: Rua Samuel Domingues, 47, Centro. Tel. (15) 3266-1888 Sede Regional Araçariguama: Rua Santa Cruz, 260, Centro. Tel (11) 4136-3840 Sede em Piedade: Rua José Rolim de Goés, 61, Vila Olinda. Tel. (15) 3344-2362 Site: www.smetal.org.br E-mail: diretoria@smetal.org.br Impressão: Bangraf Tiragem: 42 mil exemplares

Nada mudou no cenário econômico brasileiro após a divulgação do rebaixamento da nota do país pela agência de risco Standard & Poor´s (S&P). Os investimentos estrangeiros continuaram no ritmo de crescimento como aponta dados da Bolsa de Valores, no mês de março, o mesmo da divulgação da nota. A Bolsa subiu 7,05% nesse período. Mesmo assim, a notícia do rebaixamento da classificação de BBB para BBB- despertou discussões entre economistas. O exsecretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Luiz Gonzaga Belluzo, classificou como “estelionatária” a agência S&P, em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, em 25 de março. Na avaliação dele, não há nenhuma credibilidade em uma agência que dá a maior nota para um pacote de créditos, nos Estados Unidos, em 2008, responsável por ter desencadeado a crise mundial do mesmo ano. O economista da subseção Dieese do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região, Fernando Lima, explica que essas notas de agências de risco servem para nortear os investimentos estrangeiros

no país. Para ele, não há apontamentos para nenhum estremecimento do mercado nacional. Ele ressalta ainda que a dívida brasileira é de 60% do Produto Interno Bruto (PIB), sendo que Estados Unidos e França têm dívidas maiores e mantêm nota AAA. Bem diferente da classificação da agência S&P, que sinaliza uma queda consequente de uma fragilidade econômica, a agência de risco estatal da China, Dagong Global Credit Rating, dá ao país a nota A-, três patamares acima da avaliação feita pela agência norte-americana. Essa nota foi reafirmada em janeiro deste ano. Os analistas chineses afirmam que o ambiente para a dívida brasileira é relativamente estável.

Mais Médicos já atende 33 milhões de brasileiros Divulgação

Os dirigentes sindicais de dezenas de categorias profissionais de Sorocaba estão perplexos e indignados com a recente — e inexplicável — exoneração do Gerente Regional do Trabalho e Emprego (GRTE), Ediclei José de Almeida, que vinha exercendo de forma corajosa e eficiente seu trabalho como representante do Ministério do Trabalho em nossa região. A diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos compartilha da indignação das demais entidades de classe e acrescenta que a medida contra Ediclei — e contra os trabalhadores em geral — é digna de repúdio e precisa ser esclarecida por todas as instâncias do Ministério que deram aval à exoneração. Fazia menos de um ano que Ediclei havia assumido o cargo de gerente em Sorocaba, após 16 anos de atuação no Ministério de Trabalho e um currículo impecável de serviços públicos. No comando da GRTE de Sorocaba, Ediclei adotou a prática de ouvir os sindicatos e dar atenção às denúncias de trabalhadores. Caracterizou-se no movimento sindical por ser dedicado, humilde, democrático e fiel aos seus propósitos profissionais. Nesses meses de atuação, desde junho

Araçoiaba da Serra foi uma das cidades da região que aderiram ao Programa. Na foto, a médica cubana Judislay Guerrero entre a prefeita Mara Melo (esq.) e a secretária municipal Maria do Carmo

Sete meses após sua implantação, o Programa Mais Médicos, do governo federal, já atende 33 milhões de brasileiros em 3.025 municípios e 31 distritos indígenas. Até mesmo veículos de imprensa adversários do governo, como a Folha de S.Paulo, têm admitido os benefícios do programa, inclusive no que se refere ao trabalho de médicos estrangeiros no Brasil. Segundo o instituto Datafolha, ligado ao jornal, cerca de 14 milhões de brasileiros já foram atendidos por algum médico estrangeiro do Programa, especialmente cubanos. Ainda de acordo com o

levantamento, o índice de avaliações “ótimo” e “bom” dos pacientes com o atendimento por esses profissionais é de 69%. O objetivo do Mais Médicos, iniciado em setembro de 2013, é levar médicos às regiões do País onde há falta desses profissionais. Para isso, o governo ofereceu uma série de benefícios aos profissionais brasileiros e estrangeiros para atuar na região, além de incentivar as prefeituras a aderirem ao Programa. Dos 9.501 médicos que atendem pelo Programa, 8.265 (87%) são estrangeiros.


Lesionado é reintegrado ao trabalho na Macham O metalúrgico Christian Divino Porteiro foi reintegrado nesta terça-feira, dia 1º, às suas funções na empresa Macham, em Votorantim. Ele tinha sido demitido em janeiro, apesar de ter a perna direita amputada acima do joelho devido a um acidente de trabalho ocorrido na fábrica 11 anos atrás. No dia 25 de março deste ano os trabalhadores da Macham pararam a produção por três horas para protestar contra a demissão. A manifestação foi liderada pelo Sindicato dos Metalúrgicos, que exigiu a reintegração

Foguinho

Edição 740 Pág. 3 Abril de 2014 NOTAS

Multa na Syl A juíza titular da 1ª Vara do Trabalho de Sorocaba, Maria Cristina Brizotti Zamunér, condenou a empresa S. Industrial (Syl Freios) a regularizar o FGTS de seus funcionários e pagar duas multas previstas em acordo coletivo. As multas, de R$ 100 e R$ 27,30 por funcionário, são referentes a atraso na parcela do PPR/2012 e no pagamento do salário de novembro de 2012. A ação foi movida pelo SMetal e a empresa ainda pode recorrer.

imediata do funcionário ao trabalho. Após a paralisação, a empresa iniciou negociações com o Sindicato. A base da argumentação do Sindicato foi que Convenção Coletiva dos Metalúrgicos garante estabilidade no emprego enquanto durarem as sequelas do acidente ou doença. Como as negociações avançaram, não houve necessidade de o Sindicato ingressar com ação judicial para garantir a reintegração de Christian, 36 anos, ao seu trabalho na Macham.

Trabalhadores venceram ação em 1ª instância

Danos morais Christian Divino Porteiro durante manifestação em frente à empresa no último dia 25

Os trabalhadores da Prysmian Energia e da Prysmian Draka Filial, ambas no Éden, em Sorocaba, aprovaram em assembleias, na sextafeira, dia 28, a renovação de um acordo de turnos de revezamento, em sistema 6x2, que existe na fábrica desde 1998. O acordo, negociado pelo Sindicato dos Metalúrgicos com a empresa, é válido por dois anos e garante uma contrapartida financeira aos funcionários devido ao cumprimento do horário

desgastante. Cada trabalhador que cumpre essa jornada vai receber 16 horas a mais por mês durante 24 meses, totalizando 384 horas de bonificação. Pelo acordo, o trabalho em feriados é opcional aos funcionários e os Dias dos Pais e das Mães, além do domingo de Páscoa, são considerados dias de folgas. “Os trabalhadores mais uma vez estão de parabéns pelo apoio demonstrado ao Sindicato. Agora, contamos com a participação

Foguinho

Aprovado acordo de turnos na Prysmian

A Justiça do Trabalho condenou a empresa Icder, do setor químico de Sorocaba, e seu sócio-proprietário, André Gogolla, ao pagamento de indenização por danos morais coletivos no valor de R$500 mil por assédio a funcionários. Segundo denúncias ao Ministério Público do Trabalho, o empresário comete racismo, ofende funcionários e mantém uma arma de fogo no local de trabalho para intimidar os trabalhadores.

Acordo de turnos na Prysmian existe desde 1998 e foi renovado por mais dois anos

de todos para fiscalizar o cumprimento do acordo pela empresa”, afirma José

Tarasca, membro do Comitê Sindical de Empresa (CSE) na Prysmian.

DITADURA NUNCA MAIS

Foguinho

Estudantes e militantes participam de debate no Sindicato

Miguel Trujillo Filho, Fernanda Ikedo e Chico Gomes: lembrando o golpe

Para lembrar os 50 anos do golpe de estado o Sindicato dos Metalúrgicos e o grupo Café e Educação promoveram, no dia 31, um debate sobre o tema na sede da entidade sindical em Sorocaba. O público, a maioria estudantes secundaristas das escolas Antônio Vieira Campos e Aggeo Pereira do Amaral, lotou o auditório. A mesa do debate foi composta pelo professor de história Miguel Trujillo Filho, pelo ex-ferroviário Chico Gomes e pela jornalista Fernanda Ikedo.

Trujillo ex-integrante do Partido Comunista foi preso em 1975 enquanto dava aulas em um colégio no Centro de Sorocaba e passou por sessões de tortura. Chico Gomes era militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), também foi preso e passou 15 anos no exílio para não ser assassinado pela repressão. Militantes veteranos Ambos contaram suas experiências de luta pela redemocratização do Brasil e os atra-

sos socioeconômicos impostos pelo golpe. Os militantes veteranos também comentaram sobre a situação atual do país, a necessidade de melhorias sociais, a participação dos jovens na política e os ataques atuais da direita contra a democracia. O evento contou ainda com uma intervenção teatral do Levante Popular da Juventude que, muito aplaudido, encenou a perda de liberdade e as lutas por democracia na ditadura. O grupo foi formado por jovens de Sorocaba, Salto e Itu.


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Por não concordar com o imposto sindical, mas não poder, por lei, impedir seu desconto, o Sindicato dos Metalúrgicos isentou todos os sócios da entidade da mensalidade referente ao mês de março. Caso a mensalidade sindical venha descontada do holerite, o associado deve procurar o setor de Recursos Humanos da empresa para ser ressarcido. Já o imposto sindical, descrito no holerite como “contribuição sindical”, é descontado de todos os trabalhadores desde 1940 no mês de março. Ele equivale a um dia de salário, é recolhido pelas empresas junto à Caixa Econômica Federal e dividido entre sindicatos, governo, federações, confederações e centrais sindicais.

Roberto Parizotti

Sócios do SMetal não vão pagar mensalidade sindical de março

A CUT é contra o Imposto Sindical, mas não pode impedir o desconto porque a mudança na Lei depende de aprovação no Congresso

O SMetal já tentou, inclusive, pedir na Justiça que os sócios sejam isentos do imposto, mas o judiciário local afirmou não poder

decidir sobre o assunto por se tratar de lei federal. Como forma de compensar o desconto obrigatório, há três anos a dire-

tas, presidente nacional da CUT, houve poucos avanços. “Entendemos que a mobilização é fundamental para manter a negociação e cobrar respostas concretas do governo”, afirma o dirigente em nota aos sindicatos filiados. Sindicatos filiados à CUT na região de Sorocaba, incluindo os metalúrgicos, estão organizando caravanas para participar da Marcha do dia 9 em São Paulo. Confira os itens da Pauta dos Trabalhadores em www.smetal.org.br

toria do Sindicato isenta todos os sócios da mensalidade sindical de março, que representa 1,5% do salário.

Atendimento do IR na sede vai até 25 de abril Foguinho

Centrais organizam 8ª Marcha da Classe Trabalhadora

Foguinho / Arquivo SMetal

Audiência da Região Metropolitana Nesta quinta-feira, dia 3, a partir das 15h, acontece a segunda audiência pública para debater o Projeto de Lei Complementar nº 1, de 2014, que cria a Região Metropolitana de Sorocaba (RMS). A atividade ocorre no Auditório Franco Montoro, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) e será o último passo antes de o pleito seguir para votação em plenário.

Projeto original da RMS é do deputado Hamilton

REIVINDICAÇÕES

A CUT e outras cinco centrais sindicais vão realizar, em 9 de abril, a 8ª Marcha da Classe Trabalhadora, que terá como objetivo pressionar o governo para atender as reivindicações trabalhistas e sociais dos trabalhadores. Em São Paulo, a Marcha terá concentração na Praça da Sé, às 10h. Em seguida, haverá passeata até o vão livre do MASP, na Avenida Paulista. A Pauta da Classe Trabalhadora foi entregue à presidenta Dilma Rousseff em 2013, mas, de acordo com Vagner Frei-

NOTAS

Trabalho aos domingos A portaria nº 375 do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), publicada no final do mês de março, muda algumas condições para as empresas obterem a autorização para o trabalho aos domingos. De acordo com o advogado do SMetal, Imar Eduardo Rodrigues, essa portaria não obrigada inspeção prévia na empresa por parte da delegacia do trabalho antes de emitir a autorização, mas mantém a necessidade do aval do Sindicato (que deve aumentar sua fiscalização) e de um laudo técnico para justificar a necessidade do trabalho aos domingos.

Propostas da juventude Preenchimento em Sorocaba é feito das 9h às 19h, de segunda a sexta-feira

Vai até 25 de abril o serviço de preenchimento da declaração de imposto de renda (IR) na sede do Sindicato dos Metalúrgicos em Sorocaba. O atendimento é de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h. Porém, para ser atendido após as 18h é necessário retirar senha no local até,no máximo, às 18h15. A taxa de preenchimento e envio da declaração à Receita Federal é de R$ 15 para sócios do Sindicato e R$ 50 para não-sócios.

Os documentos necessários para o IR são: informe de rendimentos de 2013; cópia da declaração do ano passado; dados completos do contribuinte e dos dependentes; comprovantes de despesas com saúde, educação e outros gastos dedutíveis. Informações sobre o IR nas sedes regionais pelos telefones: (15) 3266-1888 (Iperó); e (11) 4136-3840 (Araçariguama). Não há preenchimento de IR na sede de Piedade.

Termina nesta quinta-feira, dia 3, a campanha municipal de Sorocaba que está recolhendo propostas de jovens para melhorar as comunidades onde vivem. Realizada pelo projeto AgitAção, da prefeitura, a campanha conta com a parceria da Pastoral do Menor. As propostas podem ser em qualquer área de interesse coletivo. Para dar suas sugestões o jovem deve acessar a página www. hashtagjovem.org/projetos


Edição Especial - 50 Anos do Golpe de 1964 - é parte integrante da Folha Metalúrgica edição 740 - abril de 2014

FOI GOLPE.

• Comissão é criada pela memória, verdade e justiça pág 2 • Chico Gomes escapa da morte pelo exílio pág 3 • Sorocaba operária combate a ditadura pág 4 • A trajetória de um estudante: Alexandre Vannucchi Leme pág 5 • Sorocabanos na coordenação do Comitê Brasileiro de Anistia pág 6


“Fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Nós podemos tudo, nós podemos mais. Vamos lá fazer o que será”. GONZAGUINHA Página 2

Foguinho

Atividades marcam os 50 anos

Comissão Municipal da Verdade: em busca de memória, verdade e justiça

No dia 28 deste mês, aconteceu a primeira audiência pública da Comissão Municipal da Verdade Alexandre Vannucchi Leme, na Câmara Municipal de Sorocaba, presidida pelo vereador Izídio de Brito (PT), para debater os 50 anos do golpe e as conseqüências da ditadura no Brasil. No último dia do mês, 31, o Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região (SMetal) e um grupo de professores do projeto Café e Educação promoveram debate (foto) com o professor Miguel Trujillo Filho, o ex-ferroviário Francisco Gomes e a jornalista Fernanda Ikedo, na sede do Sindicato.

Mesa presidida pelo vereador Izídio de Brito (PT) durante a primeira audiência pública da Comissão Municipal da Verdade, em 28 de março

Neste ano em que se completa 50 anos do golpe civil militar no Brasil, militantes sociais, lideranças comunitárias, professores e profissionais liberais de Sorocaba criaram o Movimento Popular em apoio à Comissão Municipal da Verdade Alexandre Vannucchi Leme. Na manhã de sábado, dia 22 de fevereiro, os participantes se reuniram para discutir sobre as tarefas e cronograma da Comissão Municipal da Verdade, que pretende promover uma pesquisa voltada para os temas da memória, verdade e justiça, com base nos anos de 1964 a 1985, período da ditadura civil e militar. A iniciativa surgiu do professor de filosofia Daniel Lopes. A intenção, segundo ele, é a de apurar, no

No mesmo dia e horário, a UFSCar promoveu mesa de debate com os professores da universidade que sentiram na pele as consequências do golpe: Marly de Almeida Gomes Vianna, Ramón Peña Castro e Wolfgang Leo Maar.

O Centro Acadêmico Rubino de Oliveira da Faculdade de Direito (Fadi) também promoveu discussão sobre o tema. Entre as palestrantes estava a professora de história contemporânea da USP, Maria Aparecida Aquino. Para o dia 3 de abril, às 19h30, na Uniso - Cidade Universitária, haverá palestras com as professoras Maria Aparecida de Aquino, Maria Regina Vannucchi Leme, Osvaldo F. Ramos (Juruna) e o historiador Walter Cruz Swensson Junior.

gueiro com a rua Amazonas. "Lembro que quando o monumento em homenagem a Alexandre foi criado ele foi alvo de balas da polícia, houve perseguição ao vereador que deu nome à praça." Oficializada No dia 27 de fevereiro, às 9h, durante a sessão ordinária da Câmara Municipal de Sorocaba, os membros do movimento popular protocolaram o documento – lido pelo professor Daniel na tribuna popular - pela instalação da Comissão Municipal em Sorocaba. Compõem a Comissão Municipal da Verdade Alexandre Vannucchi Leme os vereadores: Izídio de Brito Correa (PT), Anselmo Rolim Neto (PP), Saulo da Silva (PRP) e Neusa Maldonado Silveira (PSDB).

Coordenador da Comissão da Verdade da UEE traz apoio à criação da comissão em Sorocaba Foguinho

No dia seguinte, 1º de abril, diversos eventos marcaram a data histórica na cidade. Na UFSCar, com a segunda mesa de debate, no campus da rodovia João Leme dos Santos. A programação completa pode ser visualizada no blog: http://50anosdogolpe. blogspot.com.br/p/blog-page.html

contexto sorocabano, os crimes cometidos nesse período com base em documentos e depoimentos de personalidades da cidade que vivenciaram a repressão da época. A reunião que deu base para a criação do movimento popular contou com a presença do deputado estadual Adriano Diogo (PT), que preside a Comissão Estadual da Verdade. Adriano foi colega do curso de Geologia, da USP, do sorocabano Alexandre Vannucchi Leme, que foi morto aos 22 anos, após sofrer torturas. Ele foi preso no dia 16 de março de 1973 e encontrado morto, na cela da delegacia (DOPS), em São Paulo, no dia seguinte. Ele lembrou da Praça Alexandre Vannucchi Leme, que fica na confluência da avenida Afonso Ver-

O estudante e líder da UEE Vitor Quarenta manifesta apoio da entidade para as investigações em Sorocaba

O coordenador da Comissão da Verdade Alexandre Vannucchi Leme da UEE (União Estadual dos Estudantes) de São Paulo, Vitor Quarenta, esteve presente na manhã de segunda-feira, dia 17, no Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região (SMetal). Antes, ele conversou com assessores de parlamentares petistas da cidade sobre as atividades desenvolvidas pela comissão neste ano e abordou a necessidade desses debates que vêm ocorrendo em todo o país sobre a verdade, memória e justiça, tendo como base o período de enfrentamento na sociedade durante a ditadura civil e militar. “Criada no ano passado, a comissão da UEE tem como objetivo trazer à tona a memória da enti-

dade na construção das narrativas de enfrentamento do movimento estudantil”, conta Quarenta, que ressaltou seu apoio à criação da Comissão Municipal da Verdade, em Sorocaba. Para ele, um dos destaques da Comissão Nacional da Verdade é a investigação de empresas que contribuíram com a ditadura no Brasil. “Tem empresas estrangeiras que chegaram no Brasil e patrocinaram uma série de equipamentos de tortura para os governos dos generais”, comenta sobre o caso da Firestone citado em estudos de pesquisadores da comissão. As ações da comissão da UEE contam com o apoio do movimento estudantil Levante Popular da Juventude.

Expediente - Edição Especial: 50 Anos do Golpe de 1964 • Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região • Diretor responsável: Ademilson Terto da Silva (Presidente) • Redação e reportagem: Paulo Rogério L. de Andrade - Fernanda Ikedo • Fotografia: José Gonçalves Fº (Foguinho) • Projeto Gráfico e Diagramação: Lucas Eduardo de Souza Delgado - Cássio de Abreu Freire • Site: www.smetal.org.br • E-mail: diretoria@smetal.org.br • Impressão: Bangraf • Tiragem: 46 mil exemplares


"Os agentes históricos, ao conquistarem a sua auto-emancipação coletiva, escolherão os rumos e a forma da nova sociedade". FLORESTAN FERNANDES. Página 3

Chico Gomes, o Beduíno Sorocabano que foi um dos primeiros a sair de Cuba com a decretação da anistia no Brasil, em 1979, foi companheiro de militância de Carlos Mariguella para ser baixado na internet www. smetal.org.br/bibliotecadigital Em 2011, o jornalista Mário Magalhães lançou o livro “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo”, pela Companhia das Letras e cita Chico Gomes no capítulo 29, na ação do trem pagador. A obra foi roteirizada para o cinema e a direção fica por conta do ator Wagner Moura. O filme será rodado em 2015. O filme, assim como o livro, deve tocar os jovens para que eles saibam o que é morrer por uma causa.

"Precisamos entender e passar a história a limpo"

Biografia do guerrilheiro, de autoria do jornalista Mário Magalhães. Chico Gomes é citado no livro

Foguinho

O ex-ferroviário Francisco Gomes, 82 anos, que saiu de Sorocaba em 1949 em busca de emprego em São Paulo, foi um dos sorocabanos que teve de ser exilado para não ser morto pela ditadura. Além de líder sindical ele militava no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e participou de diversas assembleias de trabalhadores da ferrovia, em São Paulo. Fora a perseguição e a cassação dos direitos após o golpe de estado, ele foi ameaçado de morte pelos agentes da repressão. Junto com o guerrilheiro Carlos Marighella, Beduíno, seu apelido na época, saiu do Partidão e fundou a Ação Libertadora Nacional (ALN). Entre as ações que planejaram juntos está o assalto ao trem pagador, nos trilhos da Estada de Ferro Santos-Jundiaí. Parte de sua trajetória é contada no livro “Ditadura e repressão em Sorocaba” (Linc, 2003), da jornalista Fernanda Ikedo e que o Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região lançou em versão ebook

Nas ruas, sem livro e com documento Foguinho

Arquivo / SMetal

A censura imperava no período da ditadura. Não havia notícia sobre as gestões dos militares. Mas o medo imperava e a certeza de que não se podia sair na rua sem documento, nem se discutir certos assuntos

Metalúrgicos, liderados pelo Sindicato, enfrentaram a polícia em assembleias e greves nos anos 80, final da ditadura

A maioria da categoria metalúrgica de Sorocaba e região não vivenciou o período da ditadura militar. De acordo com perfil elaborado pela subsede do Dieese do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região, com base na RAIS de 2012, o setor é ocupado em grande parte por jovens de 18 a 29 anos. Eles representam 39,83% (ou 17.098) do total de tra-

O geógrafo Paulo Celso destaca que o grande medo de ditadores é o acesso à comunicação e a informação

balhadores, seguido pelos trabalhadores entre 30 a 39 anos 33,57% (ou 14.403) e os que possuem entre 50 e 64 anos com 25,71% (ou 11.035). Os menores valores cabem aos trabalhadores com menos de 18 anos e aos que possuem mais de 65 anos, representando apenas 0,58% (ou 250) e 0,31% (ou 133) trabalhadores, respectivamente.

O geógrafo e coordenador do curso de pós-graduação de Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba (Uniso), Paulo Celso da Silva, afirma que “muita gente que viveu o período, pouco percebeu do que acontecia. Sabia que os militares estavam no poder e chamavam - chamam - o golpe de revolução. Era o cotidiano das pessoas e elas não questionavam.”

Mesmo assim, havia um medo incutido na mentalidade da sociedade em geral. Sabia-se que não podia sair de casa sem documentos, nem andar em grupos, nem discutir certos assuntos. “Em um regime onde não existem direitos civis, o documento indica que você existe para o Estado, ainda que não tenha direitos”, comenta Paulo Celso.


"Que sonha com a volta Do irmão do Henfil. Com tanta gente que partiu Num rabo de foguete" O BÊBADO E A EQUILIBRISTA - JOÃO BOSCO E ALDIR BLANC Página 4

Sorocaba na mira

Aprendizagem Um dos fundadores do PT em Votorantim, José Carlos de Campos Sobrinho, o Té, comenta que no início da ditadura poucas pessoas tinham noção do que realmente estava acontecendo. “Muitos setores estavam em uma euforia preparada, como setores da igreja, políticos e sindicatos com direção pelega”. Mas em contato com alguns sindicalistas do setor têxtil, que foram

Arquivo / SMetal

muito combativos, Té foi impactado pelas notícias de perseguições e prisões em Votorantim. Greves eram reprimidas, listas negras contendo nomes de trabalhadores que eram militantes populares eram feitas e, como consequência, esses não conseguiam mais emprego. Esse foi o caso também pelo qual passou, mais tarde, no início da década de 80, o deputado estadual Hamilton Pereira, que foi cipeiro de fábrica metalúrgica. Ele afirma que na época a mentalidade do setor patronal era ter nos policiais militares um braço da empresa para reprimir as assembleias de trabalhadores. Seu nome constou em uma dessas listas negras feitas por empresários e dirigentes e, com isso, Hamilton não conseguia emprego na cidade. “Às vezes, passava até pela entrevista, mas na hora de assumir o cargo, diziam que houve um problema na minha ficha."

Foguinho

Sorocaba sempre foi operária, com destaque para os têxteis e os ferroviários, que tinham expressivos números de trabalhadores. A partir dos anos 80 os metalúrgicos também intensificaram sua organização como mostra a foto, com trabalhadores em frente à antiga sede do Sindicato, na rua da Penha

Té, ex-líder sindical, é um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) em Votorantim

Inflação alta, situação econômica cada vez mais complicada. Hamilton contou com o apoio de dois ferroviários de quem ele é grato até hoje: Brasil Mirim (falecido) e Francisco Gomes, o Chico Gomes. Com a ajuda desses companheiros Hamilton passou a trabalhar na Estrada de Ferro Sorocabana, em São Paulo. Como não havia vagas nas oficinas ele atuou por dois anos e meio

Saiba mais lendo mais O professor de história Miguel Trujillo Filho (foto), torturado pela ditadura civil-militar ressalta: “O Brasil poderia ser hoje outro país se as propostas apresentadas por João Goulart no comício da sexta feira, 13 de março de 1964, tivessem sido implementadas. Não houve tempo. No dia 1º de abril de 1964, a direita (civil e militar) deu o golpe, dando início a uma ditadura que durou 21 anos e que deixou suas marcas até hoje”. Trujilo indica como leitura a tese de pós-doutorado do historiador carioca Oswaldo Munteal, sobre "As Reformas de Base na Era Jango", pois as Reformas de Base, 50 anos depois do golpe de 1964 continuam na ordem do dia. A obra pode ser baixada na Biblioteca Digital do site do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região. “A partir da página 129 há uma série de anexos, onde estão incluídos o discurso de Jango em 13 de março e um resumo das Reformas de Base, num artigo de Roland Corbisier”.

fazendo manutenção em dormentes de trechos da Estrada. Teve contato com muitos operários praticamente analfabetos e, com isso, teve também a oportunidade de compartilhar seu conhecimento, mesmo após horas de exaustivo trabalho. Começava assim uma longa amizade de Hamilton com os demais trabalhadores e um processo de alfabetização nos trilhos da Sorocabana. Foguinho

O artigo “Manchester PaulistaxMoscou Brasileira”, do geógrafo Paulo Celso da Silva, traz relatos de entrevistas de moradores de Sorocaba e que demonstram um pouco do aparato repressor existente na década de 60, pós golpe. A dominação e o controle do patronato sobre os operários é citado: “Lá na Votorantim, o gerente resolvia até as brigas de crianças e seus pais corriam o risco de levar suspensões ou advertências conforme a gravidade do caso. O gerente ficava de janela aberta vendo a gente brincar no pátio”. (pág. 19, da Revista Estudos Universitários v. 23, dez de 1997). No auge da exportação de tecidos, o professor e pesquisador Aldo Vannucchi, que atuou na sociedade como padre por cerca de 20 anos (1958 a 1970), lembra que a Companha Nacional de Estamparia (Cianê) “nadava em ouro e em sangue. Este, dos trabalhadores (homens e mulheres) que trabalhavam, inclusive aos finais de semana e cumpriam jornadas diárias de mais de 10 horas”. Todas essas injustiças e arbitrariedades eram situações “normais” na sociedade e no país como um todo, que se “justificava” pela ausência de direitos civis e políticos do povo diante a um estado golpeado e por uma ditadura que se prolongou por 21 anos. No Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região, o ex-presidente da entidade e atual assessor político, Geraldo Titotto Filho, que também é professor de história, conta que a ditadura manteve, pela intervenção, uma diretoria sindical que estava desvinculada dos desejos e necessidades dos trabalhadores metalúrgicos. “Omissa e sem compromisso”, declara. As eleições realizadas no pós golpe até 1980 não eram legítimas, pois as principais lideranças sindicais de oposição eram perseguidas.

Arquivo / SMetal

O golpe de estado afetou e modificou a trajetória das organizações sindicais, dos movimentos e das categorias profissionais como os ferroviários e os têxteis


"Os povos que não podem ou não querem confrontarse com seu passado histórico estão fadados a repetí-lo" DOM PAULO EVARISTO ARNS

Alexandre Vannucchi, lembrar é resistir

41 anos da morte de ‘Minhoca’ No dia 17 de março completou-se 41 anos do brutal assassinato de “Minhoca”, estudante de geologia que insistiu no sonho de uma nação soberana em meio à ditadura militar. Com formação fraternal e solidária, Alexandre Vannucchi Leme dedicou-se a pensar o Brasil como uma nação soberana, com seus recursos naturais, mantendo vivo o sonho de ver o povo tendo acesso a todos os direitos básicos, de moradia, alimentação, saúde e educação. Sorocabano, nascido em 5 de outubro de 1950 e de família tradicionalmente católica, “Minhoca”, como era chamado pelos amigos, cursava o último ano do curso de geologia da Universidade de São Paulo, quando aos 22 anos calaram sua voz na luta em defesa de seus ideais. Devido a sua engajada participação no movimento estudantil e como integrante da Ação Libertadora Nacional (ALN), Alexandre foi alvo de perseguição de agentes da repressão do governo militar, que estavão na mão do general Emílio Garrastazu Médici. Em 16 de março de 1973, o estudante foi seqüestrado e levado ao DOICODI, centro de torturas, de São Paulo. Logo sua presença foi notada por outros presos políticos que estavam em celas do corredor dessa instituição. Espancado durante sessões de bárbaras torturas, gritando de dor, Alexandre foi colocado na solitária

x-zero. No dia seguinte, foi levado pela equipe A, chefiada pelo torturador de nome “Dr. José” e pelo investigador conhecido por “Dr. Tomé”, e integrada por: “Caio ou Alemão”, “Dr. Jacó”, “Silva”, “Rubens”, comandados diretamente pelo comandante daquele departamento, major Carlos Alberto Brilhante Ulstra. As torturas seguiram até aproximadamente meio-dia, quando o levaram carregado para a cela novamente. Por volta das 17 horas, o carcereiro “Peninha” encontrou Alexandre morto. Seu corpo foi retirado da x-zero arrastado pelas pernas. Naquele mesmo dia prenderam Adriano Diogo, hoje deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT-SP). “Na solitária que eu entrei, ele acabava de sair morto, esvaindo em sangue. Foi morto lá e eu sei que ele não falou absolutamente nada”, conta Adriano, que era da mesma turma da geologia e também da ALN e ficou preso por cerca de um ano. Ele ressalta, em entrevista ao documentário “Porque lutamos” (Linc 2008), da jornalista Fernanda Ikedo, que seu amigo Alexandre sempre foi um estudioso dedicado. “Tinha uma relação de irmão com ele. O cara tinha um nível de leitura absurdo, era super diferenciado. No trote do Alexandre, ele já escreveu um texto so-

bre a transamazônica e o ferro manganês e saímos pelo campus dando palestra”, recorda. A família não sabia do desaparecimento de Alexandre. Somente após um telefonema anônimo, Dona Egle Vannucchi Leme, mãe do estudante, recebeu a informação de que seu filho tinha sido preso, mais nada. Com a atrocidade da estrutura montada pela ditadura militar e ignorando as dores da família, os torturadores tentaram cobrir o assassinato do estudante divulgando para a imprensa uma versão: o estudante teria sido atropelado por um caminhão na esquina da rua Bresser com a avenida Celso Garcia, em São Paulo. Foi desse modo, pelo jornal Folha de S. Paulo, do dia 23 de março de 1973, que parentes e amigos tomaram conhecimento do que havia acontecido a Alexandre. O laudo necroscópico dele, assinado pelos médicos Isaac Abramovitc e Orlando Brandão, afirmava a versão da polícia.

Mobilizações por todo o país reorganização do movimento estudantil. Adriano Diogo possui a mesma opinião: “a ditadura começou a cair naquele dia, no dia em que o movimento estudantil se organizou com dom Paulo”. O corpo de Alexandre foi jogado numa vala do cemitério de Perus, como indigente, ou seja, sem qualquer identificação, mesmo tendo sido publicada em diversos jornais a notícia da morte do estudante com os dados pessoais, incluindo a filiação correta. Somente dez anos depois, em 1983, a família conseguiu fazer o traslado dos restos mortais para o cemitério de Sorocaba, cidade natal do estudante. Arquivo

Tanto a comunidade católica como os estudantes mobilizaram-se realizando protestos, culminando na grande missa realizada na Catedral da Sé, que reuniu cerca de três mil pessoas e demonstrou a mobilização do povo contra a ditadura militar. Os estudantes da USP solicitaram ao cardeal dom Paulo Evaristo Arns essa missa em homenagem a Alexandre. Ela ocorreu em 30 de março, numa clara demonstração de bravura e resistência do povo. A historiadora Maria Aparecida de Aquino, professora de História Contemporânea da USP, em entrevista ao documentário, afirma que essa mobilização acarretou na

Praça na avenida Afonso Vergueiro recebe o nome do estudante. Aldo Vannucchi na solenidade na Escola Getúlio Vargas, no traslado dos restos mortais

REPARAÇÃO Justiça muda atestado de óbito de Alexandre Vannucchi Leme Em dezembro de 2013, a 2ª Vara de Registros Públicos do Tribunal de Justiça de São Paulo determinou, em sentença proferida pela juíza Renata Mota Maciel Madeira Dezem, a retificação da causa da morte do estudante Alexandre Vannucchi Leme. O pedido de retificação foi feito pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) e assinado pelo então coordenador José Carlos Dias após requerimento dos irmãos da vítima. Em ofício a CNV apresentou documentos que comprovam que a morte de Vannucchi Leme foi causada por lesões decorrentes de tortura. A magistrada deferiu o pedido e ordenou a retificação no atestado de óbito de Alexandre Vannucchi, para constar que a morte decorreu de lesões provocadas por tortura e maus tratos.


"O homem educado pela História nunca será um ser passivo, inconsequente" RAFAEL RUIZ

Tortura nunca mais

Sorocabanos na luta pelas liberdades democráticas Comitê Brasileiro de Anistia em Sorocaba apoiou protestos por melhores condições de saúde e principalmente, esteve à frente na luta pela reparação e justiça da morte de Alexandre Vannucchi Leme

Repressão O DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) juntamente com os DOI-CODI eram os organismos que prendiam ilegalmente, torturavam e matavam os opositores da ditadura no Brasil. As manifestações contra o aumento da miséria eram reprimidas durante a ditadura com perseguições e violações dos direitos civis. Entre os crimes do período 1964 a 1985 constam: prisões, torturas, mortes, desaparecimentos, fechamento do Congresso Nacional, intervenção nos sindicatos, censura a jornalistas, entre outros.

Reparação Em 2013, na presença dos chefes das Forças Armadas e da presidente Dilma Rousseff, o Congresso devolveu, simbolicamente, o mandato do presidente João Goulart (1919-1976), deposto pelo golpe.

Pouco antes, os parlamentares anularam a sessão do Congresso de 2 de abril de 1964 que viabilizou o golpe ao declarar vaga, na ocasião, a Presidência da República. A Comissão Nacional da Verdade foi instituída pelo Governo Federal para apurar crimes e arbitrariedades da ditadura.

Crime de opinião Para ela, é fundamental que se apure e denuncie todos os aparatos de repressão existentes na época em prol da memória da cidade e daqueles que lutaram para a conquista da democracia que se tem hoje. Ela destaca que durante a di-

tadura civil e militar havia o crime de opinião. Durante seu mandato na Câmara dos Vereadores de Sorocaba, no início da década de 80, pelo Partido dos Trabalhadores, diversas vezes ela e Osvaldo Noce, também vereador, foram ameaçados de serem enquadrados A deputada federal Iara Bernardi foi fundadora do CBA Sorocaba na Lei de Segurança Nacional por criticarem ações dos Carta de princípios governos local, estadual e/ou naO CBA conclamou a todos os cional. brasileiros a lutarem pela anistia ampla e irrestrita a todos os prePerseguição sos e perseguidos políticos. Era Em uma das fichas do Depar- contra o autoritarismo, contra a tamento Estadual de Ordem Polí- censura imposta pela ditadura, tica e Social (Dops), da Secretaria a favor da liberdade de associada Segurança Pública, do dia 11 ção e de reunião, pela autonomia de agosto de 1982, percebe-se que sindical, pelo direito de greve, havia policiais infiltrados em uma pela liberdade de atuação polímanifestação promovida pelo então tica e da organização partidária. combativo Centro Acadêmico Vital Os comitês espalhados pelo Brasil, da Faculdade de Medicina Brasil exigiam o fim radical e da PUC/Sorocaba. absoluto das torturas, a libertaA ficha (1217/82) denuncia que ção de presos políticos e a volta os manifestantes protestavam pelas dos cassados, dos abolidos, exiprecárias condições do Conjunto lados e perseguidos políticos. Hospitalar de Sorocaba e que entre Pela elucidação da situação eles estavam integrantes da Asso- dos desaparecidos, pela reconciação dos Médicos Residentes de quista do “habeas-corpus”, pela Sorocaba, da Associação dos Do- revogação da Lei de Segurança centes, junto de estudantes e “po- Nacional e fim da repressão e dendo-se notar a presença de Iara das normas punitivas contra a Bernardi, Osvaldo Noce, Jocélio atividade política, os militantes Drumond de Andrade e Elizabeth do CBA, enfim, apoiavam as Gonzales”, entre outros membros lutas pelas liberdades democrádo Comitê Brasileiro de Anistia. ticas no país.

Foguinho

No final da década de 70, após duros golpes como as mortes do estudante Alexandre Vannucchi Leme, em 1973, a do jornalista Vladimir Herzog, no ano seguinte e a do operário, Manoel Fiel Filho, em 1976, a sociedade passou, novamente, a unir forças e a se organizar em torno do Comitê Brasileiro de Anistia (CBA). Em Sorocaba, a coordenação do CBA contou com a participação de militantes populares, professores, estudantes e profissionais liberais. Nomes como Iara Bernardi, Osvaldo Noce, Jocélio Drumond de Andrade e Elizabeth Gonzales. Iara lembra que um dos enfrentamentos feito pela coordenação de Sorocaba foi junto com a família Vannucchi, devido à morte, após torturas, do estudante Alexandre, aos 22 anos. Em depoimento, durante a primeira audiência pública da Comissão Municipal da Verdade, no dia 28 de março, a atual deputada federal ressaltou que fará um levantamento das atas e dos livros históricos do CBA Sorocaba para levantar nomes de dirigentes da cidade, durante o período do regime, que deram apoio à ditadura.

A Praça Alexandre Vannucchi Leme fica na avenida Afonso Vergueiro com a rua Amazonas. Sua denominação, em 1978, pelo vereador João dos Santos Pereira (camisa branca) foi alvo de perseguição política ao então vereador do MDB. Uma das principais ações do Comitê Brasileiro de Anistia, em Sorocaba, foi dar o apoio à memória de Alexandre. A praça é um marco de resistência na cidade.


" Não esqueçamos jamais que as idéias são menos interessantes do que os seres humanos que as inventam, modificam, aperfeiçoam ou traem." FRANÇOIS TRUFFAUT. Página 7

O golpe foi civil e militar O apoio de setores importantes da sociedade civil contribuiu para o ciclo dos generais no poder. Sem contar que os militares contaram com extenso apoio do governo norte-americano O professor de história do Colégio tamento de Educação da UFSCar SorocaObjetivo de Sorocaba, Cacá Jacomuci, ba, Teresa Melo, destaca “um bom exemexplica que o uso da expressão ditadura plo está no filme 'Cidadão Boilesen'." civil-militar vem sendo utilizada pelos Antonio Lassance, no site Carta Maior, historiadores para designar o período de explica que qualificar a ditadura só como 1964 a 1985 como forma de destacar que "militar" escamoteia o papel dos civis. o golpe e o período autoritário não foi ca“Foram os militares que deram o golpe, pitaneado apenas pelos militares. O golque indicaram os presidentes, que comanpe contou com amplo apoio de setores da daram o aparato repressivo e deram as orsociedade civil (OAB, dens de caçar e exterminar FIESP, Associações grupos de esquerda. Mas a Comerciais, latifundiáditadura não teria se instalarios, grande imprensa) do não fosse o apoio civil e "O golpismo e o regime teve a partambém a ajuda externa do não tinha só ticipação outros setores governo Kennedy." civis. Ele ainda descreve que: tanques e fuzis. “Empresários como "o golpismo não tinha só Tinha partidos Paulo Maluf (Eucatex) tanques e fuzis. Tinha pardireitosos" e Olavo Setúbal (Itaú) tidos direitosos; veículos tornarem-se prefeitos de imprensa agressivos; biônicos (nomeados) empresários com ódio de de São Paulo. Robersindicatos; fazendeiros to Marinho ganhou a concessão de uma armados contra Ligas Camponesas, reliemissora de televisão que apoiou, até o giosos anticomunistas. Todos tão ou mais último momento, o regime de exceção. A golpistas que os militares". utilização da expressão Ditadura Militar Sem os civis, os militares não iriam tende a isentar esses setores civis de cullonge. A ditadura foi tão civil quanto mipa pela instalação e manutenção do regilitar. Tinha seu partido da ordem; sua imme, o que é um erro histórico”, explica prensa dócil e colaboradora; seus empreCacá Jacomuci. sários prediletos; seus cardeais a perdoar No mesmo tom, a professora do deparpecados.

Foguinho

A ditadura assassinou gerações

Titotto aborda a importância de se conhecer os fatos históricos

“Uma das piores consequências da ditadura no Brasil foi ter assassinado as lideranças de hoje”, afirma o professor de história e ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região, Geraldo Titotto Filho. Ele se refere ao período da ditadura (1964-1985), que perseguiu e matou a juventude da época e também a geração seguinte, ceifando seus sonhos. Por isso, Titotto, que também é assessor sindical do SMetal, ressalta ser importante promover a discussão sobre o contexto do golpe e as consequências da ditadura nos dias de hoje. “É importante fazer esse resgate da verdade histórica, principalmente, pelos jovens que vivem uma condição democrática que não foi dada e sim conquistada com muita resistência." Quando alguns jovens vão para as ruas e pedem pelo retorno dos militares no país e mostram cartazes pedindo uma “intervenção constitucional” você nota que há algo de muito errado em relação ao conhecimento histórico e, inclusive, desconhecimento da lei maior do país. “De certa forma, os militares conseguiram escon-

der as atrocidades e a completa falta de respeito dos direitos humanos. Quando algumas vozes pedem os militares no governo, novamente, é como se o período que eles governaram tivesse livre, isento de corrupção e de obras faraônicas (superfaturadas) que ligam o nada ao lugar nenhum”, destaca. Como afirma Antonio Lassance, em "A maioria artigo no site Carta da categoria Maior, “ditaduras metalúrgica não são regimes corruptos por excelência”. viveu o período Ele explica: “corrupda ditadura, mas ção acobertada pelo autoritarismo, pela precisa conhecer e ausência de mecanisestudar o período" mos de controle, pela regra de que as autoridades podem tudo”. Titotto deixa seu recado aos jovens: “É preciso sonhar e ousar. Para isso, conhecimento é o ponto de partida para qualquer reflexão e perspectiva futura”.

Saiba mais na web: smetal.org.br/50anos


"Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão", PAULO FREIRE Página 8

Presidente deposto pelo golpe foi eleito com voto popular Por desconhecimento ou má-fé, há hoje em dia quem tente minimizar a violência do golpe de 1964 alegando que o presidente deposto, João Goulart, o Jango, originalmente era vice-presidente e que, portanto, não havia sido eleito pelo voto popular. Mas qualquer livro básico de História desmente essa tese descabida. Em 1960, quando houve eleições presidenciais, os votos para presidente e para vice eram separados e independentes. O eleitor podia escolher o presidente de um partido ou coligação e o vice de outra agremiação. Para presidente, o candidato da elite conservadora e fenômeno eleitoral da época, Jânio Quadros, obteve 5,6 milhões de votos. O segundo colocado foi Henrique Teixeira Lott, com 3,8 milhões de votos. Na votação para vice, João Goulart, que se opunha à coligação de Jânio, obteve 4,5 milhões de votos. Seu concorrente direto, Mil-

Milhares comparecem ao Comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em defesa das reformas de base do governo João Goulart, em 13 de março de 1964

ton Campos, candidato dos conservadores, teve 4,2 milhões. Jango teve, portanto, mais votos para vice do que o segundo colocado para presidente. Renúncia de Jânio Quando Jânio renunciou à Presidência, depois de apenas sete meses de governo, os golpistas só aceitaram a posse de Jango mediante a implantação de um sistema parlamentarista, que reduziu os poderes presidenciais. Em 1963, após um plebiscito que decidiria se o Brasil continuaria parlamentarista ou voltaria ao modelo presidencialista, Jango provou novamente que era bom de voto e foi conduzido à presidência com os poderes constitucionais aos quais tinha direito. Outra prova da popularidade de Jango foi na eleição anterior, em 1955, quando obteve mais votos que o presidente eleito, Juscelino Kubitschek.

Fatos e imagens para não esquecer Confira abaixo alguns dos momentos registrados pela imprensa sorocabana no período de 1964-1985

Folha Metalúrgica nº 740  

1ª edição de Abril de 2014

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