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FICHA TÉCNICA TÍTULO:

Vila Baleira António Martins Matos EDIÇÃO: edições Vírgula® (Chancela do Sítio do Livro) PAGINAÇÃO:

Alda Teixeira Ângela Espinha

ARRANJO DE CAPA:

1.a Edição Lisboa, dezembro 2019 978-989-8986-09-2 DEPÓSITO LEGAL: 462733/19

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ISBN:

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AUTOR:

© ANTÓNIO MARTINS MATOS

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Todos os direitos de propriedade reservados, em conformidade com a legislação vigente. A reprodução, a digitalização ou a divulgação, por qualquer meio, não autorizadas, de partes do conteúdo desta obra ou do seu todo constituem delito penal e estão sujeitas às sanções previstas na Lei.

Esta é uma obra de ficção, pelo que, nomes, personagens, lugares ou situações constantes no seu conteúdo são ficcionados pelo seu/sua autor/a e qualquer eventual semelhança com, ou alusão a pessoas reais, vivas ou mortas, designações comerciais ou outras, bem como acontecimentos ou situações reais serão mera coincidência.

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PUBLICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO:

www.sitiodolivro.pt publicar@sitiodolivro.pt (+351) 211 932 500.

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ÍNDICE

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O ESCRITOR . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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A AMANTE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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O CONTRATO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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O ROMANCE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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PREFÁCIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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A MULHER . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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A EMPREGADA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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A FUGA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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O “GAJO” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

DESENCONTROS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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A PROFETA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109 O EDITOR . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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O FOTÓGRAFO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131 A SECRETÁRIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143

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AS MUSAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153 A CONTROLADORA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159 O REPÓRTER . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 169 OS PREPARATIVOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 191 A DESCOBERTA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 197 A CERIMÓNIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205 O FANTOCHE. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 217 O MAU TEMPO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 223 O PLANO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 229 REBOOT . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 239

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Prefácio

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Dizem os Historiadores que, no ano de 1418, a Ilha de Porto Santo foi descoberta pelos navegadores João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira. Em complemento, acrescentam ainda que a Ilha da Madeira foi descoberta um ano depois, mais propriamente a 2 de Julho de 1419. Nada a contestar. Os Historiadores sempre foram conhecidos por dizerem apenas e só as verdades. Em casos de explicação mais difícil, até são bastante bons a omitirem alguma informação mais ou menos “incómoda” ou dita “complicada”, mas nunca a deturpam. Querem um exemplo? A Ínclita Geração, os filhos de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, os quatro que aprendemos na escola, D Duarte, D. Pedro, D. Henrique e D. Fernando. Mas os filhos de D. João I eram 6. Esquecidos ficaram a Infanta Isabel de Portugal que se viria a casar com D. João II de Castela e D. João, o 3.º Condestável, que se opôs à Expedição a Tanger (1437) e que mais tarde acusou D. Henrique de nada fazer para libertar o irmão D. Fernando, preso nas masmorras marroquinas. Assunto esquecido, o prestigio do Infante D. Henrique não podia ser beliscado… Esta pequena introdução destina-se apenas a fazer um ligeiro reparo pela maneira demasiadamente seca e deslavada como os escritos dos referidos Historiadores costumam abordar os vários acontecimentos, referindo unicamente as partes ditas importantes, retirando-lhes toda a envolvente, a chamada zona sumarenta, o que a maior parte das gentes, ditas “normais”, teria interesse em saber. Bem melhor seria se, com um estudo apenas um tudo ou nada mais aprofundado, eventualmente apoiado nos cronistas da época, (os jornalistas daquele tempo), todos esses vários acontecimentos pudessem chegar até nós com um outro sabor, quiçá mais apimentado, bem mais ao agrado dos leitores. 7

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Com tudo isso, talvez o estudo da História acabasse por ser algo bem mais cativante e não aquela área que todos nós apanhámos nos Liceus da nossa juventude… chata e comprida. João Gonçalves Zarco era um Cavaleiro, fidalgo da Casa do Infante D. Henrique, filho de Gonçalo Esteves Zarco, também ele Cavaleiro da Casa de El-Rei D. João I, e de Dona Beatriz, filha de um reconhecido vedor de Santarém. Segundo consta nos livros da época, teria participado na Conquista de Ceuta em 1415, tendo como função ser um dos muitos Patrões das Barcas que tinham transportado as tropas até àquele destino africano. Ainda que numa outra Dimensão, Tempo e Continente, fora uma missão com ligeiras semelhanças ao que, muitos anos mais tarde, ficou conhecido como sendo o “Desembarque na Normandia”. Marinheiro experimentado, desempenhara a sua missão na perfeição. A sua tarefa seguinte, ordenada pelo Rei, teria sido a de patrulhar aquele pequeno pedaço de mar então já conhecido, à cata de piratas que por ali costumassem navegar. Munido do “Quadrante”, o precursor do astrolábio e que media a altura da Estrela Polar, das velas latinas e das armas da altura, tinha partido para a missão com o Tristão Vaz Teixeira e, de uma maneira bem eficaz, acabado por limpar a zona de tão peçonhentos indivíduos. Mais tarde e à falta de encontrarem algumas outras embarcações piratas para zurzir, tinham alargado as buscas até algumas outras zonas desconhecidas e … encontrado uma ilha. Um dado curioso, por vezes insinuado pelos que gostam de denegrir a nossa História. Aquela ilha acabou por lhes ser providencial, por isso mesmo a chamaram de… Porto Santo. Mas os homens não andavam perdidos, talvez apenas um pouco desorientados. Há sempre os que têm por hábito esquecer o que é factual, preferindo inventar algumas outras teses, mais a seu gosto. Que nessa altura a missão daqueles Navegadores já seria o de continuarem pelas costas de África abaixo e, outra vez o estigma, que, por causa de uma tempestade, se teriam perdido. 8

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Altamente improvável. Em boa verdade o “Quadrante” não podia indicar-lhes a longitude, mas a latitude, essa era medida com exactidão. E, naquela altura, trezentas milhas fora da rota já não era um erro aceitável para os Navegadores Portugueses. Talvez ainda uma outra teoria. Numa simples observação do dia a dia, já teriam constatado que, à medida que iam navegando para Sul, a água do oceano ia aquecendo. Uma suspeita a pairar nas suas cabeças. Acreditavam que, mais tarde ou mais cedo, aquele aquecimento acabaria por transformar o mar numa tenebrosa sopa, a escaldar, propícia ao desenvolvimento de monstros marinhos. Uma coisa era certa, eles não queriam ser cozidos e muito menos … comidos. Como solução de compromisso talvez tivessem optado por se irem esquecendo das ordens do Infante D. Henrique, personagem estranha e que, sempre sentado em terra firme, lá no Promontório de Sagres, nunca dava o exemplo, só sabia mandar “umas bocas”. Aos poucos tinham tentado desviar-se de tão peçonhentos lugares, o Gil Eanes, algarvio de Lagos, que viesse mais tarde tratar desses assuntos lá para o Sul, o passar do Cabo Bojador (1434). Já agora e para que as coisas fiquem completamente claras, uma última achega. O algarvio Gil Eanes nunca passou pelo Cabo Bojador, dobrou-o, algo bem diferente. Junto ao Cabo e devido ao mar naquela zona ser pouco profundo, faz com que a costa esteja sempre com ondas alterosas, um pouco como aquelas agora na moda, as da Nazaré. Ao chegar às proximidades do Cabo, Gil Eanes não gostou do que viu. Optou por contornar o local, bem de largo, apontado a Oeste, ao Desconhecido. Mais tarde regressou a Este, às costas de África, já bem a sul do Bojador, tudo devidamente certificado pelo seu “Quadrante”. Não se sabe quantas milhas terá ido para fora da costa africana. Naquela volta larga e na tentativa de se safar das ondas do Bojador, houvesse por ali uma outra ilha e tinha sido… uma outra descoberta. Terá sido por essa altura que os portugueses terão definido o que, em termos náuticos, viria a ser chamado de Bombordo e 9

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Estibordo (o lado esquerdo e direito de uma embarcação), mais tarde mundialmente adoptado como Port e Starboard. A explicação até é simples, indo a navegar África abaixo e no rumo Sul, a costa e os respectivos portos ficavam sempre à esquerda, do lado direito era o… desconhecido. Que os Ingleses nunca nos suportaram, já todos nós sabemos, é um facto. Quem pesquisar na Internet a palavra Starboard vai encontrar umas explicações de se lhe tirar o chapéu. Até sugerem ter algo a ver com a palavra steer (dirigir) e com marinheiros dextros e canhotos, quando, na verdade, Starboard apenas quer dizer o lado das estrelas, por oposição a Port, o lado do porto. Independentemente de todas estas teorias e conjecturas, um ano mais tarde da descoberta de Porto Santo, aqueles Navegadores tinham avançado até à outra ilha vizinha, a Madeira. Em boa verdade até já a tinham descoberto sem sequer terem de molhar os pés, já que, em dias de boa visibilidade, aquela ilha era avistada para quem estivesse no agora chamado de … Ilhéu da Cal. Como gratificação pelos seus serviços o Infante D. Henrique nomeou-os para umas belas mordomias, Zarco para ser Administrador na Capitania do porto do Funchal, Tristão Vaz Teixeira a administrar a Capitania do Machico. Ficou a faltar a administração de Porto Santo, por sinal a primeira a ser descoberta. Era uma terra árida e sem interesse, ninguém a queria. Mais tarde o Infante D. Henrique acabou por nomear um tal de Bartolomeu Perestrelo para esse cargo, regalia que não lhe terá agradado, já que o homem andara a bater-se por algum dos outros dois locais. Este fidalgo era um português descendente de famílias da Lombardia. Há quem diga que era Navegador, alguns outros, que seria apenas um rico mercador instalado no Porto. Parece que terá participado na Conquista de Ceuta, não há certezas, mas até é provável, razão mais que suficiente para o Rei lhe dar de mordomia, a Administração de Porto Santo. Aquela desilusão de ter sido escolhido para o lugar menos importante fez com que se desinteressa-se pela administração da ilha, tendo mesmo chegado a abandoná-la e regressado ao Reino. 10

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Quem não terá gostado daquele seu gesto foi o Rei. De imediato mandou-o voltar ao Cargo, com duas opções, de livre vontade ou pendurado na verga de um navio. Lá teve que cumprir as ordens… Para tentar amenizar aquele sacrifício… casou-se 4 vezes e deixou uma vasta descendência, 2 filhos e 5 filhas. A mais nova daquela prole terá sido a jovem Filipa Moniz Perestrelo, que, vá-se lá saber porquê, se viria a casar em 1478 com um genovês de nome… Cristóvão Colombo.

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No que refere ao Descobridor da América (1492), dizem alguns historiadores que terá vivido na ilha. É um mistério, calcula-se que sim, mas não há certezas se efectivamente o fez, e, a ser verdade, certamente não terá sido na casa que, hoje em dia, as entidades oficiais apresentam aos turistas. E se lá viveu… com que razão? — Sacar umas massas ao sogro? Já tinha morrido! — Dar o golpe do baú? (Não do vil metal, que também gostava, mas sim dos mapas que o sogro tinha… no baú.) — Meditar no seu fantástico plano de chegar à Índia navegando na direcção Oeste, ou, dito de uma outra maneira, pela porta dos fundos? O que se sabe do homem, é que nada se sabe, tudo suposições. Para começar, nem sequer há a certeza da sua nacionalidade… Dizem que nasceu em 1451… Genovês, Corso, Catalão, Português … Como profissão, seria navegador, corsário, tecelão… Há quem refira que não passava de um comerciante de açúcar, na altura o chamado “ouro branco”. Dizem que durante a sua estadia no Porto Santo e apoiando-se em alguns escritos do seu sogro (então já falecido), Colombo teria começado a estudar as correntes oceânicas. Para os seus estudos ia recolhendo os chamados ‘feijões-do-mar’ (sementes de plantas), trazidos desde as Caraíbas pelas “Correntes do Golfo”. Tais descobertas ter-lhe-iam permitido concluir, de um modo demasiadamente empírico, que a Índia estaria logo ali, a Oeste e ao virar da esquina. 11

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Mais que provado, se havia alguma matéria em que o homem era um completo ignorante era em conhecimentos de navegação. A comprová-lo e de acordo com um seu filho bastardo, de nome Fernando Colombo, filho de Beatriz Enriquez, este afirmava que o seu pai seria um exímio navegador. Em tempos até teria passado pela Islândia… quando afinal, mais tarde ficou comprovado que apenas estaria perto das Ilhas Faroé, um pequeno erro de apenas umas 360 milhas náuticas. Para nós, os portugueses, Colombo só nos trouxe chatices. Logo no começo das suas aventuras, o Rei mandou-o com dono. Estava na cara que o homem era demasiadamente ambicioso. Chegou à Corte Portuguesa com um sem número de petições. Para se meter ao caminho, queria ser beneficiário de 10% de todos os tesouros que viesse a encontrar e de uma oitava parte dos lucros do eventual futuro tráfico e comércio. Ficou o nosso Rei bem chateado quando o homem, ao serviço da rival Castela, descobriu uma terra a Oeste dos Açores (1492). E para nos castigar, por não termos aceite as suas petições, logo a baptizou de “Hispaniola”. Com a descoberta da América a História complicou-se. Toda aquela conversa do Mare Nostrum acabou por ir por água abaixo, o mar deixou de ser só nosso. Os castelhanos a rirem-se e a encherem o peito de ar, lá tivemos que ir a correr assinar o Tratado de Tordesilhas (1494). Ainda se estavam a rir quando os conseguimos enganar (aos castelhanos). Aquela nossa insistência para que a linha divisória do Tratado ficasse mais a Oeste, nada tinha a ver com uma futura descoberta do Brasil (1497), tretas que nos ensinaram na escola, mas sim com o conhecimento dos ventos no hemisfério sul, importantes para o estabelecimento de uma rota fiável até à Índia. Em resumo, toda a vida de Colombo não é mais que um poço de incertezas e.… lendas. Claro que Porto Santo não podia ficar indiferente perante este manancial de conjecturas, também tem a sua “Lenda do Colombo”: 12

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“… nas noites luarentas, Cristóvão Colombo, vem até à praia do Porto Santo passear a sua saudade. Diz-se que pode ser encontrado vagueando sobre as areias douradas, parando de vez em quando e sombreando com a mão o olhar em direcção ao horizonte. Diz-se ainda que ao nascer do sol esta figura dissipa-se no ar e só volta a poder ser vista noutra noite de luar”. (Wikipédia)

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Ainda nos dias de hoje, aquela ilha continua a ser um lugar de lendas e confusões, senão vejamos: — A capital da ilha é uma cidade de nome Vila Baleira, nome que a maioria dos mortais nem conhece; — É uma Cidade, mas chama-se de … Vila; — Cidade que tem menos habitantes que muitas aldeias de Portugal, mais precisamente 5483, segundo o Censos de 2011; — Uma Cidade só com um Concelho, uma Freguesia, uma farmácia; — Os seus habitantes não são conhecidos como Porto-Santenses, mas sim como Profetas, uma outra lenda:

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— Habitava na ilha, no século XVI, num lugar ermo da parte nortenha, um pastor eremita e selvagem que por ter poucas relações com os restantes habitantes era conhecido por bravio ou bravo. Valendo-se do mistério que circundava a sua vida, fez-se passar por um profeta inspirado pelo Espírito Santo, que lhe guiava os passos e ditava as palavras. Uma noite desceu ao povoado, trazendo uma campainha e alvoroçou o povo que correu de todos os lados para ver o que se passava. O Espírito Santo ocupava a alma do profeta “Fernão Nunes” mandando-o desvendar publicamente os defeitos e as culpas secretas de toda a gente. O Povo foi-se deixando levar pelo pastor, acontecendo tamanhas barbaridades. Até que um dia três habitantes da Ilha que não acreditavam nas palavras do tal profeta, foram para Machico pedir ajuda às autoridades. O pastor foi preso juntamente com a sua sobrinha Filipa, que também estava envolvida, sendo mandados para o tribunal de El-Rei. Foram condenados a estarem à porta da Sé de Évora durante a missa de terça, com círios acesos na mão e grande letreiros onde estava escrito: “Profetas do Porto Santo”. 13

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Ainda nos dias de hoje e devido a esta situação caricata, o povo do Porto Santo é alcunhado de “Profeta”. (Wikipédia)

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Umas últimas reflexões, para podermos avançar na história. Ao longo dos tempos e talvez por lhe chamarem “Ilha Dourada”, Porto Santo sempre tem sofrido variadas invasões: — De coelhos, levados pelo Bartolomeu Perestrelo e que devastou a vegetação local… — De piratas, durante vários séculos e que fizeram uma razia na já pequena população local… — Dos ventos e areias que tornaram a costa norte agreste e inabitável… — De Madeirenses, a invadirem a costa sul para lá passarem o verão… — De estrangeiros, nórdicos de cabelo amarelo, a embebedarem-se com a aguardente de cana e a torrarem na praia até ficarem do tipo lagosta… — De escritores, em busca de … imaginação.

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Foi assim que Mário Ataíde, um antigo bancário e desde algum tempo um conhecido escritor, aportou àquela ilha numa manhã de Outono, tendo como missão… escrever um romance.

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O Escritor

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Mário Ataíde nasceu em Lisboa, na Maternidade Alfredo da Costa e num dia feriado, um qualquer 25 de Abril. Viveu toda a sua infância na zona da Praça de Londres, os seus pais moravam numa pequena vivenda ali ao Bairro do Arco Cego, por detrás da Igreja de S. João de Deus. Filho de um comerciante de electrodomésticos e de uma professora do liceu, na sua juventude tinha ouvido inúmeras vezes a história que a mãe, esquerdista ferrenha, gostava de contar… Enquanto o povo gritava a Liberdade na rua, ela gritava a Vida na Maternidade. A escolha do seu nome não tinha sido nada pacifica, grossa discussão lá por casa. A mãe, a pensar no Che, tinha tentado baptizá-lo de…Ernesto. O seu pai, homem de direita, sempre gostara de fazer as vontades à mulher, mas dessa vez batera o pé e fora inflexível. Era Mário como o avô, ponto final! Na sua meninice tinha frequentado uma escola privada ali para os lados do Areeiro, com resultados excelentes, mais tarde o Liceu Camões, onde fora um mau, um péssimo aluno. Não gostava de estudar. Essa pouca vontade nos estudos valera-lhe uns grandes sermões lá em casa. O pai a ameaçá-lo de ficar a trabalhar até ao fim da vida na loja de electrodomésticos dos Ataíde, a mãe calada, que tal situação só por cima do seu cadáver. O seu menino não ia ser como o seu pai, um resignado, desiludido, frouxo e acomodado à vida. Bem ou mal e ainda que muito a custo, o Secundário lá se tinha completado. O passo seguinte seria escolher a Faculdade apropriada aos seus desejos profissionais. Uma coisa era mais que certa, para qualquer curso que pretendesse seguir, seriam pelo menos mais uns quatro ou cinco anos a queimar as pestanas… 15

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A mãe já conseguira convencer o pai, ela bem gostava que o seu menino fosse médico, o Che a voltar à berlinda, ou, em alternativa, talvez engenheiro, tantas variedades disponíveis… Antes que o pai tomasse alguma ideia disparatada, já a mãe lhe trouxera todas as brochuras do IST (Instituto Superior Técnico), a melhor escola de Engenheiros, ainda por cima mesmo ali, a dois passos de casa, quase paredes meias, até podia ir a pé. Foi por essa altura que o jovem Mário resolveu marcar a sua posição, entrando em conflito aberto com os progenitores. Não estava disposto a tais sacrifícios, já lhe bastara o liceu. Os seus sonhos da juventude há muito que se andavam a manifestar. Não era muito exigente. Não sonhava ser rico nem pretendia mudar o mundo, a classe social, ou algo parecido. Apenas queria ser independente, depressa, casar e ter filhos, constituir uma família. Caiu o “Carmo e a Trindade” quando informou os progenitores que optara por desistir da Universidade, não se queria inscrever em nenhuma das Faculdades disponíveis. Em vez disso pretendia concorrer a um Banco, na altura os seus ordenados nem eram nada maus. Uma semana com a família sem lhe falar, todos de trombas. Depois, com o tempo, a coisa lá acabou por lhes passar. Seis meses à experiência na Sede de um Banco da Baixa lisboeta, os seus primeiros vencimentos pagos pelo Empregador em vez das mesadas avançadas pelo pai, pouco tempo depois chegou-lhe um Contrato Definitivo. Os seus Planos a avançarem a passos largos. Aos vinte anos apenas completados e já tinha casamento marcado com uma sua vizinha, a Eunice Cruz, as famílias até eram amigas. Esta Eunice tinha sido a rapariga com quem, até esse momento, tinha convivido mais de perto. Conhecia-a desde os seus 16 anos, ela era mais velha, teria por essa altura uns 20. Com o feitio de maria-rapaz da moça, volta e meia iam treinando uns ensaios de luta corpo a corpo e teorias de defesa pessoal, que a moça gostava de saber dessas coisas. Tais actividades tinham-lhe 16

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proporcionado alguns contactos físicos um pouco mais íntimos que o normal. Era certo e sabido, com a família fora de casa e logo um ringue era improvisado, chegavam a mesa da casa de jantar para o lado e já passavam a ter algum espaço de manobra. A maior parte das técnicas “treinadas” eram da fase da luta já no chão, as chamadas “chaves imobilizadoras”. Em boa verdade e apesar da maior parte das lutas serem quase sempre no plano horizontal, acabou por ser num desses inocentes treinos e ainda no plano vertical que o assunto se tinha complicado... O tema que debatiam naquela altura até era simples. Ensaiavam a maneira como uma mulher se poderia defender de alguém que a quisesse subjugar, tentando imobilizá-la, abraçando-a com força. Como é que uma donzela se poderia defender numa situação em que a joelhada nos … já estivesse sem garantia de sucesso, com a cara do inimigo ali a uns escassos centímetros? Dizia a teoria que a solução para tão próximo ataque seria a “vítima” tentar agarrar o lábio inferior do atacante e puxá-lo violentamente para baixo. Com o romper dos tecidos por ali existentes, logo o meliante ficaria KO e largaria a vítima. No treino tinham começado por ensaiar o forte abraço, bem apertado. Depois era só ver se a vítima conseguia libertar uma das mãos e chegar com ela à cara do agressor, a simulação terminava nesse ponto. Ao segundo ensaio tinham chegado à conclusão que até era possível, talvez conseguisse. Só que em vez da mão no queixo do agressor, aquela vítima era fraca e desde logo se rendera. Em vez de lhe tentar tocar as beiças, oferecera-lhe os lábios, o seu primeiro beijo. Tinham mandado as teorias do livro às urtigas e ficado colados um ao outro durante uma eternidade. A partir daquele momento todas aquelas regras do manual de defesa próxima que tanto tinham estudado, tinham acabado por ficar esquecidas, entre o primeiro beijo, e o segundo, e o terceiro, e o .... Depois e como tudo nesta vida, aquela ligação tinha seguido o rumo normal das coisas. Nos treinos seguintes tinham descoberto que o chão da carpete lá da sala de jantar era demasiada17

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mente rijo, o colchão do quarto era bem mais macio. Aos poucos o amor eterno e todos os restantes adjectivos relacionados com aqueles temas tinham chegado à zona da discussão e … evoluído. Que, nestas histórias de amores furtivos, julgam eles que os velhos andam distraídos… Apesar de nunca terem confessado os seus pecados às respectivas famílias, estas também não andavam a dormir na forma, o envolvimento dos jovens não lhes passara despercebido. Entretanto, com o emprego garantido no Banco e os ordenados a entrarem, outros horizontes se lhe(s) tinha(m) aberto, o jovem tinha alugado um pequeno apartamento ali para os lados de Campo de Ourique. A partir desse momento tinham acabado definitivamente os treinos da luta livre no chão da casa de jantar e as eventuais passagens pelo quarto da moça. O amor eterno já tinha onde nidificar. Depois tinha sido o normal nestas coisas, tratar dos papéis, as famílias até aprovavam aquela União. Tinham-se casado na Conservatória, só os pais, os sogros e uma meia dúzia de amigos. Um ano depois nascera-lhes o filho, o Alexandre. Não estaria nos seus planos da altura, os ordenados ainda eram curtos, classe média baixa. Com a saída das saias das famílias, as suas vidas tinham ficado ao nível de remediadas, mais ainda com aquele nascimento. O casamento não chegara a durar três anos, a Eunice gostava de brincar à luta corpo a corpo, mas, em boa verdade, sempre sonhara com uma outra vida, mais desafogada. Aquela história do amor eterno e uma cabana não ia lá muito com ela. Quando a novidade daquele ninho de amor finalmente desaparecera, deixara de querer brincar às lutas e aos pobrezinhos e abandonara-o, levando o pimpolho. Quanto à criança, não havia problema, tinham-se separado, mas continuavam a dar-se bem, o miúdo sempre estaria melhor com a mãe. Ele podia visitá-lo sempre que quisesse. Mário sofrera um pouco (muito), mas acabara por ter que se resignar. Eunice fora o seu primeiro amor e os primeiros amores são sempre… os primeiros. 18

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Certamente não ia ser o seu derradeiro, alguns outros iriam aparecer… Tinham que aparecer!

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Dois anos mais tarde e por um feliz acaso, o Mário, já mais maduro, encontrou finalmente um verdadeiro amor para a sua vida, a Sara Correia. Tinha sido durante uma festa de aniversário de algum seu conhecido. Andara por ali, passeando-se entre o ponche, a sangria, os rissóis e os croquetes, tudo gente muito divertida, que ele não tinha paciência para os aturar… Estava a pensar sair daquela pequena festa quando ela tinha aparecido. Alta, de jeans muito justos, um peito mini e umas pernas que nunca mais acabavam, cabelo preto e muito curto, uma blusa branca e por dentro das calças, magra, eventualmente demasiado magra. Ficara fascinado com a moça e logo abortara a saída, tão só para a admirar, que falar com ela seria algo para o difícil… Todos os machos da sala de imediato a tinham rodeado, mais pareciam moscas. Tinha-se deixado ficar a um canto, calado, observando… Uma meia hora depois, uma eternidade, ela libertara-se das moscas e viera ter com ele, tinham trocado apresentações. Para além do que ele observara de início, a moça era sardenta, o que lhe dava um ar entre o lindo e o … fabuloso. Devia ter feito alguma cara estranha, ela logo se rira. Ele ficara confuso: — Que foi? — Nada, fizeste uma cara divertida… “Fizeste” … numa penada tinham passado a íntimos… — Tenho que me ir embora, dás-me boleia? Ela no meio de todas aquelas moscas, e ele a dar-lhe boleia!!! Levara-a a casa. Que pena a moça não morar no Porto, Portalegre ou mesmo em Paris, o mais longe possível. Já no carro ela dissera-lhe ser casada e ter uma filha, nascida ainda não há dois meses. Ao olhar para ele tinha desatado a rir, uma outra vez. Estava mais que visto, Mário precisava de mudar de cara, ou então pas19

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sar a andar de máscara, ou óculos escuros. Parecia que os seus pensamentos, os mais íntimos, lhe iam saindo pelas bochechas. Que o amor nunca é uma coisa rápida de acontecer, precisa de se entranhar, de amadurecer. Já a conhecia há pelo menos uma hora, quando finalmente chegara à conclusão que, após profundo estudo, se tinha enamorado da moça. Nas despedidas ela dera-lhe um beijo na bochecha. Ele ficara de lábios no ar, sem terem conseguido apontar a qualquer um dos possíveis objectivos. Dera-lhe o número do telefone mas não conseguira sacar o dela, tudo a correr mal. Em desespero de causa e já com ela a sair do carro, convidara-a para um jantar, quando ela quisesse… que não era pressa, podia ser dentro de … um dia ou dois. O resto da semana tinha sido um autêntico suplício, nada de telefonemas. Aprendera à sua custa uma das regras básicas da vida, números de telefone nunca se dão, trocam-se. Sempre gostara de analisar os factos que lhe iam acontecendo por uma vertente mais ou menos científica. Ali, dois casos se poderiam ter dado. Ou ela pura e simplesmente o tinha esquecido, ou o papel onde tinha escrito o número do telefone se tinha perdido. Casada e com uma filha, ainda havia uma terceira hipótese, também altamente provável, lembrara-se dele, fora à procura do papel e… atirara-o para o lixo, ou queimara-o, para o marido não o ver. Sabia onde ela morava, o prédio, não o andar, mas já passara aquela idade demasiadamente parva de andar a fazer esperas às casas das moças. Podia pedir informações ao tipo que organizara a festa, mas era dar o flanco… Com um nó no coração, ia desistir do amor da sua vida… Duas semanas depois, ALELUIA, ela ligara-lhe. Nessa noite e com uma proposta devidamente bem planeada de irem beber “um copo algures”, até nem precisara daquela esfarrapada desculpa da colecção de selos, das borboletas ou dos cromos das Raças Humanas. Devagar, devagarinho, tinha-a levado até ao seu apartamento de Campo de Ourique. 20

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Deixara-a sentada no sofá da sala, a ouvir um disco dos “Led Zepplin”, um dos que ele gostava, enquanto tinha ido à cozinha preparar um chá, a moça não bebia álcool. Ao regressar à sala já não a vira. Pensara que ela se assustara, com a música ou com algo que ele dissera, ou… e se fora embora. Foi só ao entrar no quarto que a voltara a encontrar, deitada na cama, nua. Os três anos seguintes tinham sido agridoces, encontros tórridos seguidos de longas ausências, mais uns tórridos… Ficara completamente apaixonado pela mulher. Ela costumava sorrir-lhe, mas, para além de suspiros e alguns ais variados, sussurrados ou gritados em situações e momentos próprios, em boa verdade, nunca lhe ouvira uma retribuição verbal digna desse nome, ainda que, com os seus olhos, o fosse informando da respectiva situação afectiva. Com o tempo a passar e a relação a não evoluir, aquela situação tinha-o desgastado. Em termos absolutos e por mais que visse o problema de diferentes ângulos, prismas e coordenadas cartesianas, ele, o Mário Ataíde, na prática, não era mais que o amante de uma mulher casada. Para complicar a história, ainda havia algo de bem mais complexo a enfrentar. Ia desenvolvendo alguns ciúmes de toda aquela situação, que o marido, esse, não se devia de importar. Um dia a moça viera com uma notícia, boa para os seus desejos. Tinha-se finalmente separado do marido. Embandeirara em arco, achara que a situação se iria finalmente definir. Fora rápido a propor que, numa primeira abordagem, ela viesse viver com ele. Devia ter tocado em alguma tecla sensível, ou nuclear, ou estragada, esperara por uma resposta que não chegara. Esperara durante imenso tempo… Muito pior, a partir desse dia, o entendimento entre eles tinha esmorecido. Mais tarde e após algumas discussões, amuos, reconciliações e ternuras variadas, finalmente houvera uma evolução, só que não funcionara como ele esperara. Ela aparecera-lhe nos braços de um outro gajo. 21

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Vila Baleira  

Numa pequena ilha do Atlântico, descoberta em 1418 por uns tais de Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, anos mais tarde habitada por um o...

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