Ecos da Memória
Amor à Prova do Tempo e da Guerra


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título: Ecos da Memória
autor: João José Barroso Henriques
edição: edições Vírgula ® (Chancela Sítio do Livro)
revisão: Susana Malagueiro
grafismo de capa: Ângela Espinha
paginação: Alda Teixeira
1.ª Edição
Lisboa, março 2026
isbn: 978-989-9284-11-1
depósito legal: 559643/26
© João José Barroso Henriques
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Aos meus pais.
Ao meu pai, que partiu, e à minha mãe que continua presente, exemplos de luta, dignidade e amor.
Foi pelo esforço de ambos que recebi educação e valores que hoje são o meu farol de vida.
Esta é uma história de amor e resistência, de sonhos contrariados e de cicatrizes profundas. Uma história de gente simples, moldada pela terra, pela guerra e pelo tempo, mas nunca vencida:
Nos anos sessenta, nas aldeias e vilas do Alto Alentejo, a vida não se escolhia, herdava-se. Muitos jovens nasciam com o destino previamente traçado, moldado pelo labor sob o sol inclemente, pelo rigor do inverno e pela vontade de quem possuía a terra e, com ela, os corpos que a trabalhavam. As gerações sucediam-se curvadas, aprendendo o mundo ao compasso da vida no campo. O tempo media-se pelas estações e pelas colheitas, raramente pelos sonhos, a existência parecia confinada a um horizonte onde a terra começava e terminava.
Crescia-se cedo demais, num ambiente em que a obediência, o silêncio e a resignação eram virtudes inculcadas desde o berço, reforçadas pela pobreza, pela religião e pelo medo do juízo alheio. Contrariar esse desígnio era visto como um desvio da ordem natural. A escola, para muitos, assumia um
lugar secundário, algumas vezes preterida em favor da sobrevivência imediata e da continuidade de um modo de vida considerado inevitável.
Ainda assim, havia sempre quem sonhasse desafiar o destino que lhe haviam escrito. Joaquim e Maria, os protagonistas da história que aqui se conta, eram dois desses casos. Tinham uma inteligência viva, uma curiosidade inquieta, e uma capacidade de imaginar uma vida diferente, ainda que não soubessem bem como a alcançar. Apaixonaram-se cedo, com a intensidade própria de quem sente que o amor é, talvez, a única forma de liberdade possível.
Foi também na década de sessenta que Portugal mergulhou numa guerra nos territórios ultramarinos, embora muitos tentassem dissimulá-la. A guerra colonial levava os rapazes das aldeias, vilas e cidades para longe, arrancando-os às terras que conheciam e atirando-os para um conflito que não compreendiam. Joaquim foi um deles, deixando Maria agarrada à esperança de que o amor fosse suficiente para resistir a tudo.
Em África, os soldados portugueses conheceram a guerra em toda a sua brutalidade, aprenderam a conviver com o medo constante, as emboscadas, o som dos tiros e a tensão permanente entre a vida e a morte. Criaram laços fortes entre si, uma camaradagem que se tornou uma irmandade, porque ali dependiam uns dos outros para sobreviver. Muitos morreram, outros ficaram feridos, mutilados no corpo e na alma. Essas experiências deixaram marcas profundas, traumas invisíveis e imagens que nunca mais os abandonariam.
Foi assim que, como tantos outros antigos combatentes, a guerra seguiu Joaquim até casa, e este foi deixado à sua sorte, abandonado por um Estado que o enviara para a guerra, mas que nada lhe oferecia no regresso. Só a família pôde valer a estes heróis.
Maria foi o porto de abrigo de Joaquim, e lentamente, reconstruiram o que a dor e a guerra tinham destruído, sempre sustentados pelo amor que nunca se quebrou.
O reconhecimento pelo Estado dos traumas deixados pela guerra do Ultramar só aconteceu passadas mais de duas décadas. Joaquim e muitos outros puderam ter finalmente acesso a terapias de grupo para antigos combatentes. No entanto, apesar de a terapia trazer maior paz e tranquilidade, foram poucos os casos em que as sombras da guerra desapareceram por completo.
Joaquim Lopes Candeias teria hoje setenta e oito anos. Nasceu em 1948, em Veiros, uma pequena vila encravada no coração do Alentejo a escassos passos da raia que separa Portugal de Espanha. O seu primeiro choro ecoou num tempo de terra seca e montes dourados. Era o auge do verão quando o calor impiedoso castigava cada ser que ousava mover-se na vastidão da planície. Mal deixara o berço e já começava a testemunhar o alargar da família, recebendo irmãos como quem recebe ramos de uma árvore que insiste em florescer. Com o passar dos anos viu-se na condição de primogénito de uma ninhada de oito irmãos matematicamente divididos, quatro rapazes e quatro raparigas. Desde a infância que o povo da vila lhe chamava Joaquim Pé-de-Galo. Não era um nome escolhido ao acaso, mas uma herança, uma alcunha passada de pai para filho. O pai, nos seus anos de juventude, conquistara a fama de dançarino com um jeito especial para mover os pés como se fossem as patas de um galo em pleno cortejo, e, assim, o nome Pé-de-Galo, tal como a memória dos passos de dança do pai colou-se a Joaquim, que desde
cedo parecia destinado a carregar nas pernas o peso da identidade familiar.
Na modesta casa de família, as paredes caiadas de branco abraçavam a simplicidade do seu interior. À entrada dos quartos, as cortinas de pano-cru ondulando ao menor sopro de ar substituíam as portas, ocultando camas de ferro sobre as quais repousavam colchões de palha e mantas de lã alentejana que ajudavam a guardar o calor nas noites frias. Ao lado das camas, as cómodas de madeira marcadas pelas cicatrizes do tempo guardavam as roupas do dia-a-dia e as outras, as mais finas, reservadas para as festas e momentos mais cerimoniosos como casamentos e batizados. No coração da cozinha erguia-se a velha mesa de madeira, centro e testemunha de tantas vidas e conversas. O tampo gasto pelo tempo conservava um brilho baço, vestígio de tantas mãos que o haviam tocado, de tigelas ali pousadas e cotovelos apoiados. As bordas alisadas pelo uso também guardavam as marcas do dia-a-dia que faziam daquele o mais quotidiano e ao mesmo tempo o mais sagrado dos lugares da casa.
À sua volta alinhavam-se cadeiras e bancos de assento em ráfia trançada, cada um no sítio que parecia ser o seu por direito, como se o reconhecesse desde sempre. As cadeiras mais antigas rangiam num rumor quase cúmplice sempre que alguém nelas se sentava. Havia espaço para todos, os pais nas cabeceiras como guardiães do lar e os oito filhos dispostos em redor enchendo a cozinha com vozes e risos entrecruzados.
Ao jantar, a mesa convertia-se em território vivo, o tilintar Preview
dos talheres, as conversas, a sopa a fumegar, tudo se misturava como se o tempo abrandasse o passo.
Diante da chaminé, encostado à parede, um modesto aparador guardava uma parte do inventário da vida daquele casal, pratos, alguns lascados, copos, canecas e travessas desbotadas, um conjunto humilde de objetos do quotidiano. Sob a chaminé onde o lume de chão mantinha presença quase constante, repousava um pequeno arsenal, o canudo soprador que despertava o fogo adormecido, a tenaz que revolvia as brasas vivas e uma vassoura para varrer as cinzas. Ao lado, as panelas de ferro dispostas sobre as trempes sempre prontas para servir a dupla missão de cozinhar e aquecer a água, eram também testemunhas silenciosas da vida que pulsava naquela cozinha.
Francisco José Candeias, mais conhecido na vila por Chico Pé-de-Galo e Luzia Maria Lopes, pais de Joaquim, faziam parte do contingente de almas que dia após dia se entregavam à dura faina nos extensos campos da Quinta do Leão. Um latifúndio que se estendia até onde o olhar se perdia no horizonte e entrelaçava as terras das aldeias vizinhas através de um território imenso que sustentava, à custa de suor e sacrifício, a maior parte dos habitantes daquela vila em troca de pouco mais do que o pão parco de cada dia.
Os pais de Joaquim não sabiam ler nem escrever, mas carregavam no peito o desejo de oferecer aos filhos a oportunidade que lhes fora negada. Sonhavam vê-los escapar ao analfabetismo que pairava como uma maldição sobre tantas Preview
famílias pobres naquele tempo. A luta pela sobrevivência sufocava os sonhos mais simples, como o de frequentar a escola.
Muitas vezes, sob a luz ténue do candeeiro e já de cabeças pousadas nas almofadas, Francisco e Luzia trocavam palavras baixas naqueles instantes de quietude que precedem a entrega ao sono.
Luzia, fico pensando no nosso Joaquim, com aquele olhar vivo que Deus lhe deu, até parece que não nasceu para ficar a vida toda no cabo da enxada.
Luzia deixou escapar um breve sorriso enquanto os olhos acompanhavam o bailado trémulo das sombras que o pavio do candeeiro desenhava no teto.
O gaiato tem uma cabeça esperta, parece que quer engolir o mundo com os olhos.
Francisco Pé-de-Galo suspirou como se as palavras carregassem o peso das suas próprias memórias.
Não quero que ele tenha o mesmo destino que nós. A idade de ir à escola está a chegar… temos de o mandar a aprender a ler e a escrever. Há de ser o primeiro, depois hão de ir os outros.
Após um instante em silêncio, Luzia, como se o peso do desejo fosse tão grande que precisasse de ser dividido, sussurrou:
Que aprenda o que nós nunca aprendemos, talvez um dia leia um livro pra gente.
Um dia… um dia… — respondeu Francisco, com a voz carregada de esperança.
A seguir permaneceram os dois mergulhados no silêncio, como se juntos contemplassem o futuro que sonhavam para os filhos.
Eram pais de mãos calejadas e vidas humildes. Talvez não tivessem plena consciência do gesto que praticavam, não agitavam bandeiras, nem entoavam palavras de ordem, mas ao mandarem o filho à escola desafiavam a tirania do analfabetismo, essa sombra que durante gerações aprisionava consciências e destinos. Faziam-no com a mais desarmada e poderosa das armas, a educação.
No início dos anos cinquenta, quase metade da população portuguesa não sabia ler nem escrever. Embora, em termos formais, a escolaridade básica fosse obrigatória durante quatro anos, a realidade quotidiana do mundo rural dizia outra coisa. Desde tenra idade, mal ganhavam corpo, rapazes e raparigas eram lançados ao trabalho e afastados da escola, como se o labor precoce fosse uma lei natural e inevitável.
Num país mergulhado na sombra espessa de uma ditadura que prosperava na ignorância e na obediência cega, o gesto de Francisco e Luzia era, assim, uma recusa muda de aceitar que o destino dos seus filhos fosse o mesmo que o deles.
Numa manhã fresca dos primeiros dias de outubro, a vila de Veiros, aninhada entre campos de oliveiras e sobreiros, despertava envolta numa névoa suave. Joaquim Pé-de-Galo, que completara seis anos havia pouco mais de três meses, Preview
levantou-se ainda envolto no torpor do sono, vestiu as calças remendadas, uma blusa de lã, um casaco que o abrigava do orvalho matinal e calçou os sapatos que lhe sobravam nos pés.
A mãe ajeitou-lhe o cabelo com ternura e com um sorriso de esperança, e disse-lhe: Vais aprender a ler e a escrever. Como eu gostaria de saber ler e escrever, mas a vida nunca me deixou cruzar os portões daquela escola.
Sentindo o peso de uma nova etapa, caminhou rumo à escola ao lado da mãe com o coração a oscilar entre a excitação e o receio do desconhecido. À medida que se aproximava do edifício de paredes amarelas e janelas largas, cruzava-se com outros gaiatos, amigos de correrias e brincadeiras, que, tal como ele, caminhavam com passo hesitante rumo ao primeiro dia de escola. Havia nos rostos uma mistura de receio, como se cada um soubesse que a escola não era apenas um lugar onde se aprendia a ler e a escrever, mas um espaço onde se aprendia a obedecer.
As raparigas, as «gaiatas» ocupavam uma sala à parte, como mandava a moral e os bons costumes de então. A separação entre os sexos não era apenas uma prática educativa, era uma doutrina. Os rapazes sentavam-se alinhados em carteiras de madeira sob o olhar da professora; do outro lado do edifício, num espaço semelhante, as raparigas sentavam-se da mesma forma, aprendiam as mesmas letras e números, embora sob uma luz mais delicada, quase doméstica. Gaiatos e gaiatas nunca se cruzavam nas salas de aula e viam-se
apenas no recreio, a convivência era desencorajada, quase proibida, como se de tal proximidade pudesse nascer algum desvio.
Dona Catarina Machado, a professora, esperava-os à porta da sala com a habitual expressão impenetrável. Figura respeitada na vila, era mulher de voz firme e modos austeros, há muitos anos dedicada à missão de ensinar. Não era dada a sorrisos, estes pareciam-lhe gestos supérfluos, mas possuía uma forma particular de bondade dura e contida. Uma bondade feita de exigência, enraizada numa crença inabalável na ordem e na disciplina.
Alguns meses depois, o pequeno Pé-de-Galo já se destacava entre os demais com os seus olhos vivos e curiosos. Enquanto muitos dos colegas se mostravam mais desejosos de escapar da sala de aula e mergulhar nas brincadeiras do recreio, e outros se perdiam na apatia do cansaço e no entorpecimento do sono, às vezes interrompido pelo castigo impiedoso da régua, ele examinava como um explorador cada letra, cada número, cada símbolo escrito no quadro negro de Preview
Naquela sala de aula, e em tantas outras espalhadas pelo país, não se formavam apenas leitores e calculadores, forjavam-se cidadãos obedientes, crianças moldadas sob o olhar vigilante do Estado Novo. Os castigos, frequentes, não eram vistos como crueldade, mas como necessidade. A escola era uma extensão da Pátria, e nela aprendia-se a respeitar hierarquias, a calar o impulso da dúvida, a aceitar a autoridade como um bem sagrado.
ardósia. No recreio, ele era um gaiato como qualquer outro, um furacão de energia, corria, jogava e participava nas brincadeiras, nas brigas, que muitas vezes ultrapassavam a linha do permitido, chegando aos ouvidos da professora que recorria à régua para impor a ordem.
As palavras, antes indecifráveis, ganhavam forma e sentido sob os seus olhos atentos, e com surpreendente rapidez pavimentaram o caminho fácil da leitura e da escrita.
Não tardou para que fosse reconhecido como «um excelente aluno». Estas palavras, como a brisa suave que atravessa os vastos campos da vila alentejana, viajavam para além das paredes da sala de aula alcançando os ouvidos dos pais que as acolhiam com alegria contida, pessoas humildes habituadas ao trabalho árduo da terra. Com um pequeno brilho nos olhos, sabiam que o filho estava a conquistar algo que nenhum deles havia tido a oportunidade de fazer, aprender a ler e a escrever.
O rapaz aprendera como quem respira, com naturalidade, avidez e uma alegria tranquila que contrastava com o desinteresse de muitos dos seus colegas, para quem a escola era um fardo diário. Tinha uma centelha rara, uma inteligência desperta, viva, que parecia sempre pronta a absorver o que lhe era ensinado, como se cada nova palavra, cada conceito, cada história, fossem chaves para mundos ocultos que ele desejava abrir com as próprias mãos. Não tinha heranças de saber que lhe preparassem o caminho, apenas a curiosidade insaciável e uma intuição que o guiava no ofício de aprender. A profesPreview
sora não tardou a perceber o brilho que havia nele e passou a apontá-lo como exemplo.
Naquela altura, passava em Veiros a biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian, que, cruzando estradas, aldeias e vilas, levava o mundo dos livros aos recantos mais esquecidos do país. Uma vez por mês, o furgão Citroën cinzento estacionava na praça do Marquês da Praia e Monforte, no coração da vila, transportava consigo uma grande quantidade de livros para que os leitores pudessem levá-los emprestados até ao dia em que a carrinha regressasse àquele local. Nas prateleiras alinhavam-se histórias infantis, romances e outros géneros que aguardavam um leitor para os despertar.
A professora Catarina Machado acompanhava com entusiasmo este movimento, do mesmo modo que impunha a assiduidade na catequese, insistia, de igual modo, para que os seus alunos frequentassem a biblioteca itinerante. Nas vésperas da chegada da carrinha falava-lhes com brilho nos olhos sobre as aventuras que se escondiam entre as páginas dos livros e a possibilidade de conhecer mundos de fantasia sem sair da Preview
À volta da carrinha formava-se habitualmente pouco a pouco um pequeno grupo de velhos já vencidos pelo tempo e por décadas de trabalho, as mãos calejadas pousavam agora sobre bengalas ou nos bolsos coçados do casaco, não vinham para requisitar livros, mas para assistir àquela agitação, observavam o que ali acontecia e de quando em quando, um deles murmurava: Ah, eu também gostava de levar um livro… mas nunca aprendi a ler.
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