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Bocage e a Espiritualidade Antonio Carneiro (BĂŠlier)


FICHA TÉCNICA EDIÇÃO: Vírgula TÍTULO: Bocage e a Espiritualidade AUTO: Antonio Carneiro (Bélier) CAPA: Sítio do Livro, Lda. PAGINAÇÃO: Nuno Ferreira 1.ª EDIÇÃO LISBOA, Julho 2012 IMPRESSÃO E ACABAMENTO: Publidisa ISBN: 978-989-8413-64-2 DEPÓSITO LEGAL: 346055/12 © ANTONIO CARNEIRO (BÉLIER) PUBLICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO Sítio do Livro, Lda. Lg. Machado de Assis, lote 2, Porta C — 1700-116 Lisboa www.sitiodolivro.pt


Bocage e a Espiritualidade Antonio Carneiro (Bélier)

Prefácio Quando, em Portugal ou no Brasil, alguém faz referência a Bocage, vem logo à memória a idéia de um poeta vadio, frequentador das noites boémias de uma Lisboa ainda traumatizada com o terramoto devastador que a assolara anos antes, com a sua sociedade decadente, a sua corte de hábitos hipócritas, de cujos desvios comportamentais se valia a pena satírica bocageana como mote ideal à sua observação atenta. A maioria das pessoas, entre as quais muitos críticos literários, ainda hoje entendem que o vate sadino esbanjou o seu enorme talento em produções de baixo nível, acentuadamente satíricas, burlescas, eróticas e até mesmo pornográficas, durante longos serões da madrugada lisboeta, nos improvisados palcos das tascas e botequins locais. Ao considerar o trajeto de vida de Bocage, ver-se-á facilmente que tal caminho muito terá contribuído para o seu, por vezes, descompassado comportamento. Nascido em Setúbal, em 1765, Manuel Maria Barbosa du Bocage viu a sua mãe falecer quando tinha apenas dez anos de idade e aos dezasseis já assentava praça no regimento de infantaria aquartelado nesse seu “pátrio Sado”, como diria mais tarde. Aos dezoito anos, transferiu-se para o curso da Companhia dos Guardas-Marinhas, em Lisboa, recém-criado na altura, o qual funcionava como uma das formações ligadas à Academia Real da Marinha, que formava engenheiros navais. Ao cabo de dez meses de frequência às aulas, a 6 de junho de 1784, no livro de registo dos oficiais do Corpo da Marinha pode ler-se

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que, por ordem do senhor capitão general da Armada Real, o jovem setubalense teve “baixa por desertor”. Ora, o Arsenal de Marinha não distava muito do famoso botequim das parras, no Rossio, local conhecido como “o agulheiro dos sábios”, porque ali se reuniam na época alguns escritores e eruditos de várias áreas, tais como o morgado de Assentis (D. Gastão Fausto da Câmara Coutinho), Pato Moniz, Pedro José Constâncio, entre outros, diante dos quais Bocage não hesitava mostrar o seu incomparável génio de improvisador. Posto isto, não é difícil deduzir a razão da sua deserção das armas. O apelo das noites boémias instava-se como irresistível: de pé, quase sempre recostado a um móvel qualquer, o rapaz “magro, de olhos azuis, meão na altura”, tal como se viria a autodescrever, despejava com incrível abundância as suas envenenadas setas satíricas, envoltas em irrepreensíveis configurações poéticas, que voavam em todas as direções, para atingir os alvos preferidos: fidalgos, frades, poetas, violeiros, mulheres da corte e seus “cornígeros” maridos e tantos outros mais de quem dizia a maledicência popular, ou sussurravam os comentários “ao pé do ouvido” (as famosas “fofocas”, como se diz no Brasil). Tudo engendrado de improviso, como jamais se vira e até hoje jamais se voltou a ver. Em tal ambiente, o vate sentia-se livre, isento da rígida disciplina militar, até que ao fim de quatro anos de tanta estúrdia, do que se deduz de seus soberbos poemas, a chegada de um grande amor se fez sentir no coração do cantor das rimas, fazendo-o sonhar com uma união legítima, provavelmente com D. Ana Gertrudes Marecos, de Santarém, ou então D. Gertrudes Homem Cunha de Eça, futura esposa de seu irmão mais velho, Gil Francisco, uma delas decerto imortalizada como a famosa “Gertrúria” de alguns de seus melhores sonetos e de celebrada epístola. Assim, conquanto o seu curriculum ainda estivesse manchado pela deserção de anos atrás, e talvez por interferência de algum admirador influente, faz-se nomear guarda-marinha para o estado da Índia, aos 21 anos de 6


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idade, para lá partindo em abril de 1786, num navio com escala no Rio de Janeiro, onde pretendeu ficar, sob a proteção do vice-rei Luís de Vasconcelos Sousa Veiga Caminha e Faro. Embalde esta pretenção de última hora, seguiu viagem para Goa, não tendo ali encontrado o mesmo ambiente hospitaleiro de que desfrutara na futura “cidade maravilhosa”. Bem pelo contrário, deplora a sua sorte de ter ido parar a sítio tão abominável, “das terras a pior”, segundo escreve. Tem apenas por consolo a lembrança de sua amada que ficara em Portugal e a convicção de trilhar a mesma rota de seu ícone inspirador, o grande poeta Luís de Camões, de quem sempre se julgou inferior. Em 21 de setembro de 1787, obtém promoção a tenente de infantaria, por prémio de ação militar em que tomou parte, e é destacado para a guarnição de Damão, de onde deserta novamente, na companhia do alferes Manuel José Dionísio. Fugitivo, chega, depois de muito tempo sobre o qual pouca ou nenhuma referência há, a Macau, de onde, sob o beneplácito do governador interino, Lázaro da Silva Ferreira, regressa a Lisboa. E de novo se empenha na vida boémia e se vem a associar à famosa academia “Nova Arcádia”, instituição fundada por Belchior Manuel Curvo Semedo e Joaquim Severim Ferraz de Campos, que reunia seus membros às quartas-feiras, em sessões acolhidas no palácio do conde de Pombeiro. Nesta espécie de academia de letras ainda permaneceu por três anos, mas por último já não suportava mais as frivolidades que lá se discutiam, os elogios recíprocos dos sócios, pelo que recrudesceu novamente a veia satírica do irreverente versejador, que passou a relançar as suas críticas portentosamente envolvidas na inexcedível métrica de sua inspiração aos colegas, cujo talento menor não chegava para repudiar à altura tais observações eivadas de malícia. Neste contexto, acaba por perder o ambiente em tal sítio e volta às ruas para disparar contra os mesmos alvos habituais: os frades e sua igreja com tão rígidos dogmas, as vítimas das intrigas do povo, os assuntos triviais que se comentavam nos “cafés” e nas tascas. Se isto já não 7


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era o bastante, começa a seduzir-se pelos ecos da revolução francesa, apoiando em alguns dos seus textos as idéias revolucionárias dela oriundas, o que lhe vale a perseguição e posterior prisão, decretada pelo então intendente da polícia, Pina Manique. Permanece preso na cadeia do Limoeiro até 1797, quando é transferido para o cárcere da Inquisição, já então muito suavizada, e daí para o Hospício de Nossa Senhora das Necessidades, onde encontra finalmente o ambiente pacífico de que tanto careceu até então, propício ao desenvolvimento do edificante trabalho nos seus anos finais de vida. Consolidou então portentosa obra em tão pouco tempo, da qual são exemplos vários dos sonetos neste volume abordados. Finalmente liberto, assume responsabilidades concretas, aceitando encargos com remuneração fixa, pelo que pôde assumir-se como amparo de sua irmã D. Maria Francisca e de sua pequena sobrinha, as quais passa a sustentar na moradia modesta da travessa André Valente, no Bairro Alto, ainda hoje existente, seu último endereço no planeta, que abandonou apenas no invernoso dia 21 de dezembro de 1805, quando Lisboa consternada soube da morte de seu irreverente e inigualável prosador. A lacuna que este livro procura preencher afeta-se à necessidade imperiosa que subsiste de desfazer a tendência em vincular o sadino poeta unicamente às suas produções menos voltadas a assuntos de profundo conteúdo, muitas das quais (talvez até a maioria delas) a ele indevidamente atribuídas. E mais ainda, à notável e mui nobre intenção de mostrar uma característica invulgar do mesmo, que jamais foi enfatizada: a sua intuição da espiritualidade, numa época em que tal enfoque ficou praticamente eclipsado, sobretudo pela igreja com seus dogmas e cerimoniais. Alguns pesquisadores e sérios estudiosos da obra “bocageana” muito já escreveram sobre ela, e até muito bem. Todavia, pouco ou nada se destacou sobre o aspeto espiritualista da mesma. Por outro 8


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lado, ainda ninguém, ao que se saiba, ousou fazê-lo utilizando a mesma linguagem do poeta, ou seja, replicando cada um dos seus sonetos deste teor em seu estilo, utilizando a mesma irrepreensível técnica poética daquele que foi considerado por Olavo Bilac, o grande poeta brasileiro, como o “máximo cinzelador da métrica” em língua portuguesa. Antonio Carneiro, o Bélier, como é melhor conhecido nos meios literários, meu colega de docência, que tive o privilégio de conhecer em setembro de 2009, na Escola Secundária António Sérgio, em Vila Nova de Gaia, e a honra de vir a ter como amigo, expõe aqui 54 poemas do chamado “Elmano Sadino” da Nova Arcádia, a cada um dos quais opõe uma réplica, em trabalho portentoso e único. Certos apologistas da doutrina espírita têm qualificado, no âmbito da mediunidade, esta habilidade inata deste autor para escrever em verso, considerando que ele não teve formação académica no ramo das letras. Antes pelo contrário, fez-se engenheiro eletrotécnico e tem atuado sempre nesta área de atividade, bem como na da docência, na esfera da engenharia aplicada e das ciências exatas. A maneira, porém, que o poeta carioca utiliza para escrever as suas produções não favorece, a nosso ver, tal conclusão. Com efeito, ele é capaz de, em qualquer sítio ou sob quaisquer circunstâncias, rapidamente engendrar um poema, em geral um soneto decassílabo ou alexandrino, sob métrica exemplar, o qual, se examinado por algum estudioso dos trabalhos de Bocage, como aliás tem acontecido, é imediatamente atribuído ao vate sadino. Do fato, logo concluem estes estudiosos esotéricos, deve deduzir-se uma qualquer sintonia astral. Mas isto não pode levar a considerar-se necessariamente a interferência da aludida paranormalidade, conclusão que consideramos precipitada e talvez mesmo indevida, pois tal fenómeno, para concretizar-se, careceria de circunstâncias ambientais bem mais adequadas. Bélier, um ilustre discípulo de Bocage, nascido a 28 de junho de 1946, no Rio de Janeiro, filho de imigrantes portugueses,

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com uma brilhante carreira técnica, na qual se destaca a chefia na Petrobrás, durante cerca de 10 anos, do setor de Engenharia de Equipamentos do Departamento de Perfuração da Empresa, exímio docente em áreas como a do isolamento das máquinas elétricas (ficou para sempre como obra de referência O Problema do Isolamento nas Aplicações Off-shore), tem vindo a encantar-nos com uma já vasta e ímpar produção poética, em parte publicada no seu blog www.poemafeano.blog.com (Poemas clássicos de afeana gente), mas igualmente em livros, como o Epopéia Elvis (Canto 1), a primeira biografia do ídolo americano em língua portuguesa, toda em sonetos decassílabos. Com este Bocage e a Espiritualidade, que tive a felicidade de ler em primeira mão, Bélier, em coerência com o seu anterior livro, O Quinto Evangelho, de 2010, prossegue, de forma assaz sublime, uma belíssima linha poética, inspirada no grande Manuel Maria Barbosa du Bocage. Muito obrigado, António Carneiro, por esta tua nova pérola. José Manuel Silva Teixeira *

* José Manuel Silva Teixeira é engenheiro eletrotécnico pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto; pós-graduado em Gestão de Melhoria no âmbito do Desempenho da Educação e Formação pela Fundação Manuel Leão em colaboração com a Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (Porto); Mestre em Ciências da Educação, com especialização em Administração e Organização Escolar pela Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (Porto), para além de dedicado estudioso da obra de Bocage.

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Poemas clássicos de afeana gente (www.poemafeano.blog.com)

Nota do autor Nos idos anos setenta, por ocasião da minha conturbada passagem pela Petrobrás, em Salvador na Bahia, tive ocasião de replicar alguns sonetos de Bocage com o fito de satirizar diversos chefes e/ou superintendentes da empresa, cujo desempenho, pensava eu, carecia de melhor qualidade. Exemplo disso foi um deles, que ficou famoso entre os pares na ocasião, o qual parodiava o célebre soneto de Elmano, intitulado “Metamorfose”, composto em “homenagem” ao também poeta e conhecido trovista, o padre Domingos Caldas Barbosa, que reza assim:

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Metamorfose Lembrou-se no Brasil bruxa insolente De armar ao pobre mundo estranha peta; Procura um mono, que infernal careta Faz-lhe de longe e lhe arreganha o dente: Pilhando-o por mercê do averno ardente, Conserva-lhe as feições na face preta; Corta-lhe a cauda, veste-o de roupeta, E os guinchos lhe converte em voz de gente: Deixa-lhe os calos, deixa-lhe a catinga; Eis entre os lusos o animal sem rabo Prole se aclama da rainha Ginga: Dos versistas se diz modelo, e cabo; A sua alta ciência é a mandinga, O seu benigno Apolo é o diabo.

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A réplica que compus na altura foi a seguinte: Metamorfose “Onileva” Lembrou-se em Salvador bruxa insolente De dar ao mundo vingativo pago: Procura um mono, que na selva, vago, Exibe a vil bocarra repelente: Corta-lhe a cauda, dá-lhe todo afago, Contudo não consegue, infelizmente, Seus guinchos converter em voz de gente E o gorila imbecil resulta gago: Propaga-lhe depois fama de “cobra”, E eis na empresa o animal sem rabo, A confundir, e a dar o que lhe sobra A quem, honestamente e por bom cabo Não teme criticar a sua obra, Prole da estupidez e do diabo.

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Não é difícil deduzir que tal poema, ao difundir-se entre os colegas de serviço, e ao chegar ao conhecimento do “homenageado”, me causou sérios percalços, terminando mesmo por acarretar a minha transferência de Salvador para o Rio de Janeiro, onde, teimosa e incautamente (digo-o hoje), continuei a satirizar diversos “chefes”. Tal como o vate sadino (“Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia/Rasga meus versos, crê na eternidade!”), desta turbulenta fase de minha vida não me envaideço, talvez até mesmo me compadeça, posto que certamente dela pouco ficou de positivo em proveito de alguma qualquer causa nobre. Como exceção, diria, apenas ficou o interesse pelo melhor conhecimento da obra “bocageana”, que muito me ajudou a mudar de atitude, até por ver que ela não se constituía em absoluto apenas de tal satírico jaez. Bocage fez muito mais do que isso, deixando-nos um legado valiosíssimo de autênticas pérolas que, segundo Bilac, o grande poeta trazia nas mãos, mesmo quando mergulhava no “pego impuro das orgias”. Todavia, ficou também como bom fruto, a meu ver, a audácia que me move de parodiar o inexcedível metrificador, não em suas sátiras, mas em suas inigualáveis produções de profunda inspiração espiritual, como procuramos enfatizar neste modesto trabalho. Devo assinalar, entretanto, que muitos versos foram feitos em transmentalização com o vate, cujo espírito iluminado bem esclarece as sendas por vezes obscuras da rima e da métrica coerentes. Esta e outras obras podem ser consultadas, via Internet, a partir do link que acompanha o logotipo que acima a presente nota. Após cada réplica que fizemos a cada soneto de Bocage aparecem local e data em que estes poemas foram inseridos no sítio aludido que, por opção nossa, e atendendo a sugestão de nossos dedicados leitores “internautas”, decidimos manter no livro.

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Introdução Muito se tem escrito e muito mais ainda se há de escrever sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage. Neste contexto, será indubitável reconhecer-se que a posteridade conservou bem viva a memória do grande poeta. Sucede que, na maior parte das vezes, esta fama não corresponde à verdadeira dimensão do génio poético do vate, distorcida que ficou pela vulgarização injusta de sua obra literária, não raro conspurcada por poemas que lhe são atribuídos, dos quais a breve leitura logo descarta o indébito apontamento. Segundo Olavo Bilac, o príncipe dos poetas brasileiros, que considerava Bocage como seu “mestre querido”, tal deve-se a que Bocage em vida muito ficou famoso entre o povo, sobretudo em Lisboa, onde viveu boa parte da vida a frequentar sítios da boémia, no botequim das Parras e em outros locais, animado pelos aplausos calorosos de seus companheiros da noite, no esbanjar espontâneo do seu inexcedível talento a urdir improvisações, todas elas  sob a  irrepreensível métrica de seu verso, como jamais alguém o conseguiu. Ao contrário de Camões – desconhecido quando viveu e idolatrado depois de morto, com justa razão, quando o seu fabuloso trabalho pode ser devidamente apreciado –, que se ergue no altar dos imaculados santos da literatura universal, Bocage transitou deste mundo já rotulado com o triste epíteto de ímpio e devasso a deslustrar de modo indevido e cruel a sua imagem poética. As nossas humildes e despretenciosas produções, apostas nas linhas seguintes, tencionam de algum modo, muito debilitado 15


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no âmbito de suas limitações, demonstrar, também pelo veículo da rima a parodiar o inconfundível estilo bocageano, que tal fama não é justamente concedida ao extraordinário escritor. Não é justo, outrossim, atribuirem-se versos aleijados e rimas mal urdidas àquele que foi sem sombra de dúvida o melhor metrificador da nossa língua. Também não o é alimentar-se esta visão deturpada por veículos de comunicação, como se viu recentemente, numa revoltante e mentirosa série levada ao ar pela televisão. Urge que, tanto em Portugal como no Brasil, países em que proliferam livros grotescos e mal escritos a divulgar anedotas e poesias de baixo padrão sempre mal atribuídas ao pobre Elmano, se comece a inverter essa cruel prática, advinda de uma tradição mal estabelecida e infelizmente cada vez mais ampliada por quem frequentemente não possui o devido conhecimento necessário a qualquer manifestação abalizada de público jaez. Destarte, e ao contrário do que se diz e escreve, Bocage, mesmo em seu tempo, foi um grande espiritualista, e assim não o negam algumas de suas notáveis poesias, de que selecionamos uma parte, em sonetos decassílabos, como se pode facilmente concluir. A cada uma delas apomos uma réplica de nossa autoria, também em soneto, visando evidenciar ainda mais os carateres desta sua – pode-se dizer – quase desconhecida faceta. E que Deus nos auxilie nesse trabalho. Antonio Carneiro (Bélier) V.N.Gaia – Portugal 26/09/2009

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O fio da alma Áureo fio sutil que teve unida A corpo imaculado uma alma pura, De mimoso estalou, e a sepultura Ficou do teu despojo enriquecida: De mil graças lustrosa a doce vida Subiu ao cume da imortal ventura; Dois numes – Inocência e Formosura – Vão dando ao mundo eterna despedida: Lá onde a morte, e a terra te devoram, Na estância do silêncio, e da tristeza, Inda, Marília, corações te adoram: Longe da tua divinal beleza Aos olhos que te viram, que te choram, Um túmulo parece a natureza.   Autor: ……………………………….

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Terá sido um grande espiritualista, um poeta de seguros esclarecimentos sobre a conexão entre o corpo físico e o veículo etéreo-astral do espírito, com o qual aquele se comunica neste desterro das relatividades tridimensionais, quem escreveu este notável soneto. E foi mesmo, como é evidente para qualquer um que o lê. Poucos, porém, dentre a multidão que o conhece, admitirão que o seu autor é Manuel Maria Barbosa l`Hedois du Bocage, posto que, conhecendo-o, não o conhecem. Sabem de suas anedotas, de sua vida atribulada pelos botequins, entendem que o grande vate se perdeu no pego escuro da luxúria, emporcalhou-se no báratro dos vícios, posicionou-se na vida como um descrente das leis divinas e tudo isto o conduziu à morte prematura, entendendo os mais “letrados”, os grandes arrogantes da crítica literária, de ontem e de hoje – porque sempre os há –, que a sua obra muito ficou a dever aos lúdicos arcanos da literatura portuguesa. Estes últimos são os piores, tais como os escribas e fariseus do tempo de Jesus Cristo: guias cegos a guiar outros cegos; ladrões das chaves do Reino de Deus, onde não entram nem deixam os outros entrar; sepulcros caiados, cheios de beleza e formosura por fora, mas plenos de podridão no interior. O soneto acima, todavia, escrito por ocasião da morte de uma de suas musas, pelo que entendemos, dona de uma divinal formosura, a conhecida Marília (Ó tranças, de que Amor prisões me tece…), demonstra exatamente o contrário, a exemplo de muitos outros escritos ainda em vida pelo inexcedível versejador: um espírito extremamente lúcido e esclarecido sobre a espiritualidade, o que é espantoso, considerando-se a época em que viveu e principalmente o país em que nasceu, ainda hoje tão renitente ao estudo destas transcendentes matérias. Mostra que já então o poeta sabia da coexistência de corpos em níveis energéticos de frequência diferenciada com o veículo físico, que nada mais é do que um

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meio – ainda que portentoso – de locomoção e identificação com a matéria de físico jaez; que, como é axiomático, há destarte um elo de ligação entre estes corpos, mais precisamente entre o traje físico e o etéreo-astral, que a doutrina espírita denomina o perispírito. Isto é extraordinário, pois nem sequer o Codificador desta aludida doutrina houvera exposto ao mundo a sua mensagem, através do Livro dos Espíritos, que surgiu em abril de 1857, mais de meio século após o desencarne de Bocage. Urge resgatar o verdadeiro mérito da obra deste génio, desconhecido no seu próprio país, poupando assim a sua memória de ultrajes veiculados sempre com o mesmo espírito depreciativo, tal como foi a série televisiva que a rede pública levou ao ar recentemente. Acorda, Portugal!

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Bocage e a espiritualidade