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Alberto Da Antas

O autor nasceu em Lisboa no ano de mil novecentos e quarenta e nove.

“Beatriz recorda-se como se fosse hoje, deitou-se só com uma camisa-de-dormir branca de tecido fino que lhe cobria o corpo e lhe aligeirava o calor húmido que naquela noite de verão se fazia sentir. (…) Beatriz sabia que aquele momento iria acontecer. (…) Distinguiu um vulto que entrava cautelosamente, fechando a porta de imediato, deu os passos necessários para se abeirar da sua cama, levantou o lençol e entrou no leito quente. Sentiu de imediato as pernas dele contra a nudez macia e aveludada das suas coxas, não gritou (…) Ao longo da noite, lentamente, tudo se foi consumando, saboreando os desejos (…) até se fundirem numa explosão luminosa de paixão carnal, abafada pelo enlaçar dos seus lábios de modo a evitar que o resfolgar daqueles corpos exaustos se tornasse escândalo na quietude daquela casa. Saiu da sua cama já (…) o dia ameaçava clarear a noite. E António foi regressando em muitas noites, até ao dia em que tudo abruptamente se modificou.”

AJUSTAR OS PASSADOS

Alberto Da Antas é um pseudónimo.

Alberto Da Antas

AJUSTAR OS PASSADOS ROMANCE

www.sitiodolivro.pt

LISBOA 2010

“Chegaram ao cimo e entraram directamente na varanda. Da opulência do passado já pouco restava, o soalho lavado mas carcomido, os cadeirões gastos continuavam no mesmo lugar, os antigos vasos de faiança com flores expostos ao longo do varandim, tinham sido substituídos por vasos de plástico, da ampla vista sobre o largo só já restava uma nesga, o advento da independência tinha permitido aquela construção que agora tapava quase toda a vista como que simbolizando a quebra de privilégios e o emergir de (...) um outro tipo de burguesia, duas crianças mestiças (...) brincavam descalças na varanda.”


Ajustar os Passados Alberto Da Antas


FICHA TÉCNICA EDIÇÃO:

Vírgula (Chancela Sítio do Livro)

TÍTULO:

Ajustar os Passados

AUTOR:

Alberto Da Antas

CAPA, REVISÃO E PAGINAÇÃO:

Paulo Silva Resende

1.ª EDIÇÃO LISBOA, 2010 IMPRESSÃO E ACABAMENTO: ISBN:

Agapex

978-989-8413-06-2

DEPÓSITO LEGAL:

316325/10

© ALBERTO DA ANTAS

PUBLICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO

Sítio do Livro, Lda. Lg. Machado de Assis, lote 2, Porta C — 1700-116 Lisboa www.sitiodolivro.pt


Para a minha m達e a Lourdes o Rui a Ana e para o meu neto Manuel


Sei que aquilo que escrevo foi escrito antes, como tudo o que fazemos já foi feito há muito tempo, antes de nós. Tudo é assim na vida. José Saramago

Encontrei quase tudo nos livros. Não sei se sou um bom ou medíocre escritor, porém sei que sou um bom leitor. Jorge Luís Borges

O mundo é um imenso livro do qual aqueles que nunca saem de casa, lêem apenas a primeira página. Santo Agostinho


Agradecimentos A Dona Maria dos Anjos por todas as histórias de vidas que me contou na varanda daquele sobrado na ilha da Boa Vista. A Manuel Lopes pela obra inigualável que escreveu sobre as gentes das ilhas e que fizeram dele um dos expoentes máximos dos escritores de língua portuguesa. A Germano de Almeida pelo seu magnífico livro A Ilha Fantástica que me possibilitou conhecer melhor a maneira de ser daquele povo. A todos os meus amigos de Cabo Verde.


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1 Pela janela do pequeno avião olhou a aproximação à sua ilha de adopção, nunca a tinha visto assim, bem por cima, há cinquenta anos que não a visitava e nessa época distante não havia aeroporto. Lá estava aquele mar verdeesmeralda límpido a afagar o imenso areal, a aridez do interior quebrada aqui e ali por algumas tamareiras e alguns coqueiros, as dunas sempre em movimento com a rasteira vegetação em risco de ser submersa pelas areias. Sobrevoou a vila de Sal-Rei, olhou para o seu pequeno núcleo histórico colonial, como estava diferente dos tempos da sua adolescência, o progresso estava a chegar com o turismo e, com ele, os benefícios e certamente também os problemas, avistou a praia de João Cristão e não pôde deixar de se sobressaltar, depois a praia de Chaves com as suas dunas a perder de vista, lá estava também a enorme chaminé da antiga fábrica de cerâmica junto à Ponta do Morro de Areia, sentiu o avião curvar suavemente, qual pássaro em pleno voo executando um bailado clássico.

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O comandante mandou colocar os cintos de segurança, Dona Beatriz cumpriu a ordem com a ajuda do seu filho Ricardo, encostou as costas à cadeira, pressentiu o avião a enquadrar-se com a pista para efectuar a aterragem, olhou ao longe para a pequena aerogare, pouco depois sentiu de forma branda as rodas a contactarem o asfalto, alguns segundos e o avião imobilizava-se na pista. Os passageiros bateram palmas, era esse o costume daquela gente para expressar o agradecimento por terem chegado. Ricardo Murtosa e sua mãe foram os últimos a saírem, desceram as escadas, o relógio marcava dez para as cinco da tarde, ainda havia sol e o calor abafava, o termómetro instalado no exterior da gare assinalava vinte e sete graus, e sentiram aquela brisa de fim de tarde que sempre suavizava a temperatura. Percorreram a pouca distância entre o avião e o terreno junto à gare onde pessoas e viaturas esperavam pelos passageiros. Os hábitos continuavam iguais, a vinda de gente da terra era sempre motivo de romaria. Ricardo cumprimentou algumas pessoas conhecidas apresentando-lhes de seguida a sua mãe. Apesar de ter vivido alguns anos naquela ilha já pouca gente se lembrava daquela senhora. O jipe que os esperava percorreu em poucos minutos os cinco quilómetros de estrada que liga o aeroporto ao centro da vila. No trajecto Ricardo ia olhando para as alterações urbanísticas que se tinham verificado: novas casas, hotéis junto ao mar, condomínios que nasciam – Como tudo está dife-


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rente, – comentou com o motorista. – Há quanto tempo o senhor não vem cá? – Vai para oito anos. – Durante esse tempo muita coisa mudou. Quase tudo o que vê por aí é investimento italiano, compram tudo, o povo diz que é lavagem de dinheiro, mas não sabemos. O senhor que é da terra sabe como esta gente gosta de falar de tudo, mesmo que não saiba do que está falando. Dona Beatriz esboçou um leve sorriso. – E quem habita nestas novas construções? – A maioria são destinadas ao turismo, as outras são para os estrangeiros reformados que as compram para viverem aqui no período do tempo frio dos seus países. O povo, aos poucos, está sendo afastado do centro para a periferia da vila. – De qualquer modo nota-se algum progresso. – Sim é verdade, o problema é saber se o povo está a usufruir de alguns benefícios, mas parece-me que não está a colher o que seria justo, – e continuou, – Os turistas já vêm com tudo pago, chegam cá, vão à praia, comem nos hotéis, fazem as visitas por terra em jipes italianos e por mar em barcos também italianos. Na vila, pouco mais tomam que uns cafés e uns refrescos. Deixam cá pouco dinheiro, – concluiu. – Mas criam empregos e esse aspecto é importante. – Sim, foram criados alguns. Só que como eles são praticamente os únicos empregadores, impõem as regras … os salários. Mas sabe o que também me deixa preocupado? É a descaracterização urbanística que a ilha está a sofrer,

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estão a ser construídas casas que nada têm a ver connosco, algumas são uns autênticos mamarrachos, nem sei como as autorizaram. Bem, o povo fala por aí que a razão porque o fizeram não foi a mais desinteressada; o senhor que vem de Portugal percebe o que o povo quer dizer. Entraram na praça principal. Estava mudada, já havia um mercado com a fachada cuidadosamente pintada, o casario ao redor com aquelas cores fortes, amarelos, azuis, grenás, verdes, dava-lhe uma dignidade de apreciar; a zona central também tinha sido renovada, deixara de ter a tradicional aridez para estar mais arborizada e florida, duas fontes em pedra jorravam água dando-lhe uma frescura que no passado não tinha. Viraram numa rua à direita, ao fundo outra vez à direita e entraram na zona mais antiga da vila e pararam numa rua que, após a independência, alguém se lembrou de chamar avenida, ladeada de sobrados de traça colonial, a maioria deles com um aspecto decadente. Dona Beatriz olhou o movimento, mulheres sentadas nas soleiras das portas, homens acolhidos na sombra de uma frondosa árvore, crianças brincando e correndo umas atrás das outras numa algazarra infantil tão característica dos fins de tarde quando o calor perde a intensidade e começa a ser substituído pelo fresco do crepúsculo. O motorista estacionou junto a uma dessas casas e ajudou Dona Beatriz a descer. Os paralelepípedos da rua misturavam-se com manchas de areia, era uma luta de sempre, por muito que as varressem o constante movimento das dunas sempre libertava areias que iam inva-


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dindo as ruas da vila. Beatriz e Ricardo olharam para a fachada da casa que, como quase todas, também aquela acusava o desgaste do tempo, e pelas suas mentes passaram emoções e recordações de cariz oposto.

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2 Passava o ano de mil novecentos e quarenta e seis, há muitos anos que a ilha tinha perdido a importância económica no contexto do arquipélago. A vila resumia-se a um casario em redor do largo da igreja, a uma pequeníssima guarnição de cabo-polícias, e, junto ao mar, a uma correnteza de casas coloniais que representavam o poder de algumas famílias que dominavam toda a actividade económica: a pesca, a fábrica de transformação de peixe em conservas, a extracção do sal, o comércio local, a importação e a exportação dos produtos para o mercado interno das outras ilhas ou para os portos de Lisboa e de Leixões. Nos botequins de odores intensos a grogue e paredes de cores imprecisas amontoavam-se homens sempre à espera de arranjarem uns dias de trabalho de modo a minorar a pobreza. A falta de chuva que se fazia sentir há muito era um sinal premonitório que a fome iria aumentar. Beatriz era uma mulher atraente, aparentava cerca de vinte anos, alta, cabelo preto liso, olhos escuros, pele ligei-


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ramente morena indiciando mestiçagem, era filha de fora de casa de um comerciante influente, Carlos Murtosa, que após a sua morte tinha ido morar com a irmã e o irmão de seu pai. O dia tinha nascido quente, Beatriz sentia o seu corpo transpirado. Apetecia-lhe tomar um banho de mar e sentir aquele ventinho. Foi ao seu quarto, vestiu o fato de banho, pegou numa toalha, passou pelo alpendre e chamou uma das empregadas mais novas para a acompanhar à praia de Frente. Desceram a escadaria de madeira envernizada, abriu a porta, saíram para a rua, o calor tinha aumentado. Meteram pela pequena travessa junto à fábrica de conservas Nascimento & Filhos, sentiram o cheiro pouco agradável do peixe esquartejado e entraram no areal. Beatriz descalçou os chinelos, a areia começava a ficar quente. Estendeu a toalha aproveitando a sombra de um barco de pesca que repousava no areal para ser reparado. Tirou o vestido, ficou em fato de banho preto e sentou-se. A sua beleza tornava-a uma mulher desejada. Passou o olhar pela praia; uns miúdos faziam sucessivos mergulhos do pontão onde atracavam os barcos de pesca, no areal alguns homens trocavam, de pé para pé, uma bola de couro castanho. Beatriz fixou um deles, estatura média, entroncado, tez branca, cabelo alourado, e instintivamente, como que sentindo-se observado, ele olhou para ela. Beatriz baixou o olhar. Levantou-se, caminhou para a água, experimentou-a com a ponta do pé, estava óptima, deu três, quatro passadas

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e mergulhou na limpidez daquele mar que adorava. Em braçadas vigorosas afastou-se para o largo, olhou em volta, assegurou-se que estava só, puxou para baixo as alças do fato de banho. Gostava do bater manso daquele mar na nudez do seu peito, sentiu o prazer dos mamilos ficarem hirtos e assim se manteve boiando durante largos minutos. De regresso ao areal, reparou que ele estava deitado olhando-a a sair do mar, e colocou uma toalha à cintura. A empregada pegou na roupa e dirigiram-se para casa.


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3 Na casa dos Murtosa registava-se uma grande azáfama; nessa noite iriam lá jantar o administrador da ilha, o professor primário, e o padre da vila. A opulência daquele sobrado fronteiro ao mar, ocupando parte de um quarteirão, com a fachada de cor clara, janelas brancas, com portadas em cor cinza, rodeadas por varandas com protecções de madeira trabalhada em branco, as lojas em baixo com altas portas em castanhoescuro, era bem a imagem do poderio económico e social da família. Dona Clarisse ia dando ordens às empregadas. A sala de jantar era ampla, com três janelas viradas para a praia, encimadas com bandeiras de vidro; no lado oposto, duas janelas de parapeito com comunicação para uma vasta varanda virada para o largo da igreja. Em baixo, no quintal, um tamarindeiro de grande porte dava uma bela sombra durante toda a tarde, amenizando o calor sufocante que habitualmente se fazia sentir.

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Nas paredes laterais da sala estavam expostos os retratos de família, chegada à ilha no início do século dezanove. As janelas encontravam-se ornamentadas com belíssimos reposteiros em veludo azul debruados a dourado velho, na parede de topo, um enorme espelho de estilo florentino enquadrava um louceiro decorado com diversas peças em prata e pratos ingleses comprados em navios que fundeavam ao largo da ilha, e na frente uma mesa de refeições em pau-preto com lugar para doze pessoas, no tecto um candeeiro de cristal veneziano com dez castiçais para velas. O jantar seria impreterivelmente servido às dezanove horas e a mesa já se encontrava elegantemente pronta para receber seis pessoas. Toalha de linho branco, pratos de faiança pérola com lista dourada à volta, reluzentes talheres de prata, copos de cristal italiano, no centro dois castiçais de prata com três velas em cada um deles e um castiçal com uma única vela. Dona Clarisse Murtosa gostava de decorar a mesa com sete velas, pois representavam a perfeição desse número bíblico. Fez uma última inspecção. Estava tudo de acordo com as suas instruções. Mandou fechar a sala. Eram dezassete horas, havia tempo para todos se arranjarem.


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Padre Francisco foi o primeiro a chegar. Nascido na Beira Alta, tinha sido colocado há dezoito anos naquela paróquia, e era um sexagenário com bonomia, um pouco curvado para a idade, que se tinha apaixonado por aquela inóspita terra. A recebê-lo estava António Murtosa, homem de ideias liberais que já tinha ultrapassado os quarenta anos, alto, cabelo preto, olhos castanhos amendoados, vestindo um fato de linho branco que lhe fazia sobressair o porte altivo. – Como tem passado, senhor padre Francisco? – Com muito calor e muitas almas para tratar e para salvar. E tu António? Pouco te tenho visto. António sorriu, gostava do clérigo. – Confesso que tenho tido o tempo muito ocupado, não a tratar das almas, tarefa para a qual, como sabe, não tenho muita vocação, mas olhe, vou tratando de coisas mais terrenas, certamente menos importantes aos olhos de Deus, mas por vezes mais

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úteis às necessidades dos homens. Foi a vez de o padre sorrir. – Estás equivocado, as obras que são úteis aos homens, também são muito apreciadas por Deus, – e continuaram a conversar animadamente. Pouco depois entrava o administrador da ilha, doutor Carlos José, de baixa estatura, filho de comerciantes da ilha do Maio. Tinha cerca de um metro e sessenta, magro, trajava um fato cinzento, com chapéu da mesma cor, camisa branca e gravata cinzenta escura. Os pais baptizaram-no com o nome de Carlos José, Carlos em memória do rei assassinado no Terreiro do Paço e José por ter sido o nome do companheiro terreno da virgem. A simbiose perfeita da monarquia e a religião. Tinha-se formado em económicas, na cidade de Coimbra, com uma nota final pouco brilhante. Mas para o jovem Carlos esse facto não era importante. O canudo sim, esse é que lhe iria permitir subir na vida, nem que para isso se tivesse de vergar a quem lhe desse a possibilidade de alcançar o seu objectivo. Dizia sempre que a sua ascensão política tinha resultado do mérito da sua competência, mas os seus detractores invocavam a sua subida como um acto de subserviência ao regime. Pouco lhe importava o que diziam, era despeito, fora nomeado por Lisboa para ocupar aquele cargo e sentia-se muito agradecido. Nunca falava em crioulo, – língua de preto, – dizia. Exprimia-se sempre na palavra de Camões; nem podia ser de outra maneira, a dignidade do cargo e o seu sentimento pátrio assim o exigiam. O último a chegar foi o professor João da Silva, filho de


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abastados produtores de café da ilha do Fogo, que exercia o ensino há quinze anos, e já tinha passado por diversas ilhas, Santiago, Sal, Brava, e há dois anos tinha sido colocado na Boa Vista. Fazia do ensino um verdadeiro sacerdócio. Todos se sentaram na larga varanda, saboreando as bebidas servidas e colhendo a frescura daquele fim de tarde. Valda, uma das criadas de dentro de casa, sussurrou a Dona Clarisse que o jantar estava pronto a ser servido. Levantaram-se e entraram na sala. Clarisse Murtosa sentou-se num dos topos da mesa, à sua direita, o padre Francisco e o professor, à sua esquerda, o administrador e a sua sobrinha Beatriz e, no outro topo, António Murtosa. Durante o jantar, as conversas fluíam sobre diversos aspectos da vida da ilha, e numa delas, António começou por perguntar ao administrador: – Então como é que a administração pensa resolver as consequências que este grave problema da seca está a gerar na nossa já tão depauperada agricultura. – Meu caro, a administração pouco pode fazer, primeiro porque não tem meios económicos, depois porque o problema não é assim tão grave. Padre Francisco interrompeu: – O senhor sabe que no passado recente morreram cerca de setenta pessoas nesta ilha devido à fome? – Claro que sei. Mas podemos agradecer a Deus por nos ter poupado de uma desgraça idêntica à que ocorreu na ilha de Santiago; foram mais de seis mil almas que se finaram e, segundo informações que disponho, se a seca se

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prolongar este ano por todo o arquipélago, as consequências poderão ser ainda mais nefastas. – Deus saberá proteger-nos de tal tragédia, – clamou Dona Clarisse. – Minha irmã, será bom que não seja só Ele a evitá-la. Eu sei que esta ilha não é tão afectada como as outras, porque numa população de pouco mais de duas mil e setecentas almas, existem poucas pessoas a viverem exclusivamente da agricultura e a maior parte sempre vai ganhando algum dinheiro nas actividades ligadas à indústria e ao comércio, o que lhes permite comprar bens alimentares vindos do exterior. Essa é uma vantagem, mas essa gente do interior que vive dos míseros bocados de terra cheia de calhaus está a morrer de fome. E o que faz o governo de Lisboa? Padre Francisco fez um sinal de concordância e acrescentou: – Para nossa desgraça a recente praga de gafanhotos destruiu o pouco que essa gente estava plantando. Uma calamidade. – Seja mais crente padre, – ironizou o administrador, – Deus há-de dar uma solução a tudo isto. António retorquiu: – Espero que, antes Dele, os homens ajudem a resolver este urgente problema. Não é justo que todas as catástrofes da humanidade Lhe caiam em cima dos seus já tão sobrecarregados ombros, não acha senhor padre? – Para um não crente, as tuas palavras não podiam ser mais sábias. João Silva, entrou na conversa. – O que aconteceu há três anos em quase todo o arquipélago foi, do ponto de


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vista humanitário, uma verdadeira desgraça e isso só foi possível pela passividade do nosso povo cabo-verdiano e do desinteresse com que Lisboa tem abordado esta questão. – O povo cabo-verdiano é português, – lembrou rapidamente o administrador. - Português, claro que sim, mas cabo-verdiano também, ou o senhor ignora que este povo das ilhas tem uma identidade cultural que nos diferencia? – António e o padre Francisco moveram as cabeças de modo concordante. Carlos José sentia-se incomodado, aquilo era conversa de intelectuais bem na vida, mas era perigosa, pensou. João continuou – Caramba, de Portugal, os navios demoram pouco tempo a chegar a estas paragens. Já não estamos no tempo das naus e, apesar disso, onde está a ajuda em bens alimentares? O administrador não resistiu. – O senhor não acha que está exagerar na sua apreciação sobre o governo central? Saímos há pouco tempo de uma guerra mundial, as finanças públicas estão depauperadas, o governo do doutor Salazar não pode acorrer a tudo o que falta por essa imensidão de terras do império. – Permita-me corrigi-lo. Não saímos há pouco tempo de guerra nenhuma, pelo simples facto de nela nunca termos entrado, ficámos de fora, mas essa é uma conversa que podemos guardar para outra altura. Carlos José emudeceu; a conversa seguia um rumo que manifestamente lhe desagradava. Beatriz escutava com atenção mas não se atrevia a proferir palavra. Tinha vindo para aquela casa há cerca de

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três anos; seu pai tinha-lhe dado escola, mas não fora habituada àquele nível de diálogos, conversa de gente rica era complicada mas admirava o modo fluente daquele falar. Na casa da sua mãe, mulher negra de Santiago, tudo era mais simples. Sentiu saudade desse tempo. Estava bonita, o vestido azul claro cintado realçava-lhe as belas formas do seu corpo, o cabelo azeviche apanhado na nuca realçava os seus olhos negros, de vez em quando sentia sobre ela o olhar de António. Após o jantar, todos se sentaram nos cadeirões que enchiam a varanda virada para a praça. Era bom estar ali, a noite estava quente e a brisa contínua aliviava o sufoco. Os homens ficaram conversando. António pediu que lhe trouxessem a caixa dos charutos. Abriu-a, retirou um puro havano e mordiscou a ponta. Gostava de sentir na boca o sabor da folha de tabaco e calmamente acendeuo, aconchegou as costas ao cadeirão, sentiu-se confortável, expeliu uma primeira vaga de fumo; o aroma ficou pairando, adorava aquele ritual. O administrador foi o único que o acompanhou, sentia-se bem, aquele era um momento importante para si, fumar naquela varanda, era um sinal da sua ascensão social. Do casario circundante vinham os sons melancólicos de uma rabeca. Beatriz pediu para recolher ao seu quarto. Dona Clarisse, com um leve inclinar de cabeça deu o seu consentimento. Despediu-se de todos. António olhou-a brevemente nos olhos.


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Joaquim das Neves nasceu na pequena vila do Redondo no Alentejo, cumpriu a tropa em Leiria, após a qual entrou para a polícia. Um dia recebeu a notícia que iria fazer uma comissão de três anos na colónia de Cabo Verde. Ficou muito preocupado, para ele todas as colónias portuguesas eram perigosas. Tinha ouvido dizer que havia muitos animais ferozes e que os brancos, naquelas selvagens, quentes e longínquas paragens contraiam doenças de difícil cura como a malária e a febre-amarela. Resignado com a sua pouca sorte, logo agora que pensava casar, embarcou no navio Quanza, da Companhia Nacional de Navegação, que fazia a carreira de Lisboa para Luanda via cidade da Praia. Joaquim saiu do cais da CNN, em Santa Apolónia, numa manhã chuvosa. Nem sequer tinha tido possibilidade de se despedir dos seus pais e da sua prometida noiva, a viagem de Leiria para o Alentejo demorava muito tempo

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e o custo ultrapassava o seu parco pecúlio. Tinha optado por escrever duas longas cartas a explicar a sua inesperada ida para a colónia e terminava fazendo uma profissão de fé num regresso cheio de saúde e com algum dinheiro para então casar. Animou-se, três anos passavam depressa e os seus pais eram de rija têmpera. Quanto à sua prometida, também não havia que temer, a terra era pequena e ela era uma mulher que se dava ao respeito e saberia resguardarse da má-língua do povo. Na amurada do Quanza, com a chuva de molha-tolos batendo-lhe na cara, Joaquim via a cidade desfilar pelo seu olhar. Bonita, mesmo com aquele tempo, Lisboa era uma cidade de apreciar, nada que se pudesse comparar com o seu pequeno burgo alentejano. Esta era uma cidade grande que impressionava, dos tempos dos mouros, diziam, porque nessas coisas ele não era muito conhecedor. Lá estava o Terreiro do Paço com a sua larga abertura para o rio, descendo para o cais das colunas, ao centro, a bela estátua de D. José I, depois o intenso movimento piscatório no Cais do Sodré, a igreja de Santos-o-Velho, o Mosteiro dos Jerónimos, logo a seguir a Torres de Belém. Joaquim pensou que hoje já não se fazia nada daquilo. Gente valente a daquela época; tinha ouvido falar que aqueles monumentos já tinham cerca de quatrocentos anos, era pena que a sua pobre casa não tivesse aquela robustez, assim os seus pais poupariam os arranjos que sempre eram necessários fazer depois de cada inverno e que tanto emagrecia as suas pequenas posses. Agora o rio alargava as suas margens, dali a pouco


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estaria no mar alto, o casario começou a ficar disperso, Lisboa já era uma pequena mancha cinzenta, ainda avistou o forte de Catalazete em Carcavelos e, pouco depois, o nevoeiro não lhe permitiu ver mais nada. Joaquim sentiu o frio gélido entrar-lhe pelo corpo e recolheu-se para o interior do navio.

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Ao quinto dia de viagem, o Quanza fundeou em frente à cidade da Praia, era já noite e estava uma aragem quente. O tempo estava bem diferente daquele que se fazia sentir em Lisboa quando embarcou. Não conheceu a cidade; um palhabote encostou por bombordo, Joaquim desceu pela escada de quebra-costas, o pau de carga do navio transferiu alguma carga e bagagem para a pequena embarcação. Duas horas depois a embarcação largou os cabos que a ligava ao Quanza, afastou-se um pouco para o largo, içou as velas, contornou-o pela popa e dirigiu-se para o barlavento do arquipélago. No convés fervilhava a agitação. As pessoas arrumavam da melhor maneira os seus haveres, balaios com comida, animais vivos, galinhas e cabras, frutas, as tradicionais encomendas para entregar a familiares e vizinhos. Aquele era um trabalho que precisava de ser feito, para depois cada um definir o seu espaço e se poder deitar.


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Joaquim estava surpreso com toda aquela colorida movimentação, homens e mulheres riam uns para os outros numa misturada de frases que se cruzavam num dialecto do qual ele só conseguia entender poucas palavras. Alguns olhavam para si e soltavam palavras que ele percebeu serem de gozação. Os tripulantes continuavam no seu trabalho de marinhagem, por vezes passando pelas mulheres e beliscando o traseiro de uma ou de outra que respondiam por entre risadas ou lhes atiravam com o que tinham à mão. Sentiu-se confuso. Afinal se diziam que Portugal ia até Timor, era impelido a pensar que nas colónias toda a gente sabia falar português; pelos vistos, o seu raciocínio estava errado. Joaquim olhou para um homem que há muito o observava e que lhe pareceu ser o capitão do barco. Este fez-lhe um sinal para se aproximar. – O que vem fazer por estas bandas? – Venho substituir um cabo-polícia que adoeceu e foi transferido para Lisboa. – Sorte a sua ir para a ilha da Boa Vista onde pouco ou nada existe para fazer. Olhe, aproveite as boas águas de mar e as mulheres que ainda são melhores. Reparei que ficou surpreendido com o linguajar desta gente. Aqui quase todos falamos português mas a língua que utilizamos entre nós é o crioulo; se nos quer compreender e ser um dos nossos, aprenda-o, e a melhor forma de o fazer é arranjar mulher. Vai ver que aprende depressa, e depois na hora de rebolar no meio das suas pernas perceberá como é sabim

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obi aquez palavrinhas naquel crioulinhe malondre. Joaquim começou a pensar que afinal talvez não tivesse tido tanta desdita em vir para a colónia. – Como é mesmo o seu nome? – Mário, mas aqui temos sempre outro nome que não é o de baptismo. Trate-me por Djonga. E o seu? – Joaquim. – Que raio de mania que o português tem de chamar tud gente de Jaquim, de Manel, ou de João. Concordou. Remoíam-lhe na cabeça ainda algumas dúvidas, que não resistiu em perguntar: – Desculpe a ousadia, mas se tudo aqui é assim tão calmo, então aonde estão os leões, os macacos e as doenças dos mosquitos de que eu tanto ouvi falar na minha terra? Djonga desatou num riso prazenteiro, – Oh Jaquim, na ilha pa onde bô ta ba o animal mais feroz é a galinha-domato, e sobre os mosquitos tropicais, fique sabendo que eles não se dão bem nas areias e nos calhaus que é o que ess terra tem más tcheu. Com o vento, por vezes somos invadidos por gafanhotos vindo do deserto do Saara, mas esses a si não o prejudicam. Achou que tinha feito figura de ignorante. Djonga percebeu e amenizou: – Não se preocupe, meu amigo, estas ilhas estão longe da capital do império e a ignorância não é só sua. Mal de nós se, para além do facto de estas terras serem inóspitas e de só darem algum alimento à custa de tcheu trabodje, ainda tivéssemos essas doenças endémicas. – Djonga emendou: – Bom, na metade do século passado existiu na Boa Vista um grande surto de febre-amarela,


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morreu imensa gente, uma delas era filha de um cônsul inglês, chamava-se Maria Patingole, e há quem diga que começou aí o declínio da ilha. A noite de lua cheia estava magnífica, viam-se com nitidez as estrelas e a brisa favorável fazia correr o palhabote sulcando águas calmas. Joaquim nunca tinha visto um espectáculo assim. – Quanto tempo demora a chegar? – Depende, nunca menos de cinco dias, mas se a brisa pára ficamos por aí de molho durante umas semanas. Joaquim estendeu a manta num recanto do convés, colocou o saco da roupa debaixo da cabeça e antes de adormecer ficou olhando aquele céu esplêndido ao mesmo tempo que, com o marear do barco, ouvia o chapinhar da água correndo de mansinho pelo bordo fora.

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Ao fim do sexto dia, Joaquim, junto à ponte de comando, começou a avistar terra. A ilha possuía uma coloração acastanhada. Djonga anunciou que estavam a chegar e foi ironizando: – Imagine se houvesse aqui leões; a única hipótese que os pobres coitados tinham de comer era peixe, mas aí meu amigo eles morriam afogados. Joaquim sorriu. Esta gente é simpática e têm o prazer do humor gozado. Djonga continuou: – Aquela capela, ali junto àquela casa, é de um dos donos da ilha, chamase Fátima, local bom, arejado; naquela praia ali na frente, praia de David, ninguém toma banho sem lhe pedir autorização. Pobre é assim, até para entrar na água de mar tem que pedinchar. Vê aquelas entradas nas rochas? Em baixo, são prainhas, boas para nadar e escondidas para se poder fazê um má criaçon ma ambdjer danada. Aquele monte lasim é Rotchinha, um dos pontos mais altos da ilha. Joaquim desviou o olhar um pouco em frente, o chão


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faiscava de tons de cristais brancos e róseos – O que é aquilo? – Salinas, meu amigo, as belas salinas de nós ilha, o sol está-se derramando sobre elas, o que as torna admiráveis. Quando estou em terra costumo ir para ali antes de ele nascer. Todos os dias encontro tonalidades diferentes, nunca me canso de as olhar, elas são o sustento que dá de comer a uma parte desta gente. O barco contornou um pouco mais a ilha; a estibordo um pequeno ilhéu, por bombordo começou a visionar-se um aglomerado de casas. Djonga apontou: – Eis a vila. Como vê não é muito grande, mas habitue-se, é aqui que vai passar alguns anos da sua vida. Joaquim olhou o lugarejo, achou-o simpático. O barco fundeou em frente da praia e da fábrica de conservas de peixe e voltou à azáfama de preparar o transbordo de pessoas e da carga para pequenos botes que já o começavam a rodear. Na praia, homens e mulheres assistiam ao desembarque, um bando de miúdos atirava-se à água e nadava freneticamente para junto da embarcação grande.

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Dona Beatriz, amparada pelo seu filho, subiu a escadaria interior da casa. As artroses que ultimamente se vinham instalando nos seus joelhos por vezes tolhiam-lhe o andar. Observou que os corrimãos já não tinham o brilho de outrora, a cor das paredes estava indefinida denunciando o longo período em que não tinham sido pintadas. No lugar do candeeiro de ferro forjado estava agora um casquilho no tecto com uma lâmpada empoeirada de pouca potência, o que transmitia um ar de penumbra decadente. Chegaram ao cimo e entraram directamente na varanda. Da opulência do passado já pouco restava, o soalho lavado mas carcomido, os cadeirões gastos continuavam no mesmo lugar, os antigos vasos de faiança com flores expostos ao longo do varandim tinham sido substituídos por vasos de plástico, da ampla vista sobre o largo só já restava uma nesga. O advento da independência tinha permitido aquela construção que agora tapava quase toda a vista como que


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simbolizando a quebra de privilégios e o emergir de um outro tipo de burguesia. Duas crianças mestiças brincavam descalças na varanda. Dona Clarisse Murtosa estava sentada num desses cadeirões acompanhada pela sua fiel criada negra que a tratava e se ocupava da limpeza da casa. A sua figura frágil tinha acompanhado a degradação da casa, mantendo porém o mesmo ar altivo apesar dos seus mais de noventa anos. Todavia, o percurso da idade tinha-lhe amaciado a rudeza do rosto. Dona Beatriz, com o semblante fechado, vagueou com o olhar à sua volta; os seus olhos, a que a passagem dos anos tinha retirado o brilho do passado, pararam em Clarisse Murtosa. Estavam finalmente frente a frente, no mesmo local de onde há cinquenta anos tinha sido expulsa, envelhecidas pelo tempo mas com os acontecimentos limpidamente presentes, como se tivessem ocorrido no dia anterior.

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Joaquim já estava ambientado ao ritmo de vida da ilha e tinha verificado que tudo o que Djonga lhe tido dito se ajustava à realidade. A vila era de uma grande calmaria, o trabalho no posto era praticamente nulo, o que lhe permitia dar umas escapadelas para tomar uns banhos de mar. Saía dos seus afazeres às cinco da tarde e quase sempre ia até ao botequim junto à Alfândega para trocar dois dedos de prosa com alguns amigos com os quais já tinha estabelecido laços de convivência. Quando estava de folga aventurava-se para fora da vila, Povoação Velha, Estância de Baixo, mas a onde gostava mesmo de ir era até ao Rabil, onde pescava um pouco na ribeira, olhava a passarada que por ali existe aos bandos e depois comia belas cachupadas na povoação, ou um arroz de atum, que também era um especialidade com que se lambuzava. Num final de tarde, estava a bebericar um dedal de


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grogue com Djonga num banco de madeira corrido que se encontrava à porta do botequim de nhô Anton, quando viu passar Beatriz. Mulher perfeita, o vestido justo realçava-lhe os ombros largos, o peito que não era muito grande notavase estar hirto, as ancas marcadas e as pernas esbeltas. Andava de olho nela há já uns tempos e sentia que não lhe era indiferente, já tinha detectado isso em fugazes olhares cruzados. Djonga percebeu o interesse e avisou: – Tome cuidado, olhe que Beatriz é mulher bonitona, mas lembre-se que pertence a gente rica, veja nos sarilhos em que se está metendo, depois existem uns rumores por aí. Aceite um aconselho, tenha prudência. Você tem por estas bandas tcheu ambdjer sabidonas que lhe darão umas boas esfregas sempre que a carne aquecer e que não lhe arranjarão metade dos problemas. Joaquim ouviu com atenção, Djonga é um homem vivido, tinha percebido logo o seu interesse por aquele pedação de mulher, por delicadeza não perguntou a que rumores se estava a referir mas não deixou de ficar intrigado. Djonga continuou: – Ela tem aquela cor de pele mas pertence a gente branca ou supostamente branca, porque, meu amigo, na nós terra, muita gente se misturou, uns foram ficando mais escuros, outros mais claros ou praticamente brancos, mas vou-lhe ensinar um modo de olhar o passado. Conde bo odja ambdjer branca por estas paragens, olhe bem para o cabelo. Se tiver uma ponta de crespo já sabe do que se trata, mas se tiver dúvidas, dirija o seu

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olhar para a polpa. Se for saída, então não tenha dúvida: a cor é falsa. Joaquim não percebeu. – Polpa? Djonga deu uma risada. – Polpa é nome crioulo e significa aquilo que todos os homens gostam de apreciar numa mulher, mas que muitas não gostam de confessar que é um bom local para nos acolher, – e deu uma sonora gargalhada. Joaquim achou graça ao termo. Pensando bem, tinha sentido, “esta gente é danada para a fornicação” ou pelo menos bazófia não lhes faltava. Agora o botequim emanava odores fortes a grogue barato e estava quase cheio de homens marcados por uma vida dura. Era sempre assim ao fim da tarde.


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