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D.H. Lawrence O RAPOSO

D.H. Lawrence O RAPOSO

tradução e apresentação de

Aníbal Fernandes

A estabilidade emocional feminina devastada pela vitalidade masculina. O homem… O homem-raposo.

www.sistemasolar.pt

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O RAPOSO tradução e apresentação de

Aníbal Fernandes


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TÍTULO DO ORIGINAL: THE FOX

© SISTEMA SOLAR, CRL RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: FRANZ MARC, RAPOSA, 1913 1.ª EDIÇÃO, SETEMBRO 2014 ISBN 978-989-8566-28-7


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«A minha grande religião é acreditar que o sangue, a carne, são mais sábios do que a inteligência.» Esta valorização do corpo e dos seus instintos, que ele transportava sem nenhuma trégua para a literatura, chegou a incomodar os guardiães da mentalidade vitoriana; a que persistia, depois de Victoria, em determinar comportamentos que preservassem a saúde moral dos Ingleses. Muito para trás estavam as Moll Flanders; tinham surgido excelências de prosa como as de Dickens, Jane Austen, Thackeray ou George Eliot, saneadas em tudo o que não coubesse na decência de um serão de família. Os seus sucessores, os Hardy, os Kipling, os James, eram cautelosos e muitos deles exímios na afirmação virtual das entrelinhas. Concordava-se que desde Tom Jones, em 1748, nenhum homem era retratado inteiro naquela literatura. James Joyce e as audácias de Ulysses estavam por escrever, ou pelo menos inéditas; e o grupo desenvolto, onde brilhava Virginia Woolf, mostrava-se bastante mais desinibido na vida do que na sua obra escrita. Tudo isto fez de D.H. Lawrence um caso solitário, o que se destinava a um primeiro sobressalto em 1915 com a apreensão do romance The Rainbow. Um grande espectáculo de polícia e tribunais respondeu à ira dos que viam nesse texto a promoção de «todas as formas do vício» e lhe reprovavam alusões claras à sodomia, ao lesbianismo, a emoções sexuais que ousavam frequentar o primeiro plano da sua história. Teve defensores: Hugh Walpole, Arnold Bennett, Clive Bell; teve os que apoiaram as autoridades da apreensão: John Galsworthy e, por muito que nos custe aqui registar, Henry James e Ezra Pound.


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Esta fidelidade ao seu próprio sangue levou Lawrence a momentos literários em que exaltou com prosa sensual o corpo masculino. Lembremos a cena do banho em The White Peacock, as demoras sobre o corpo de Aaron em Aaron’s Rod, a cerimónia iniciática em The Plumed Serpent, e sobretudo a luta dos dois homens nus em Women in Love, com um final onde «o mundo desliza e tudo desliza para as trevas». O seu interesse estético e sensual pelo corpo masculino arrastou-o a audaciosas generalizações. Numa carta de 1918 a Henry Savage pode conhecer-se esta sua perplexidade: «Gostaria de compreender por que razão todos os homens — ou quase todos — têm tendência para a homossexualidade quando se tornam célebres, admitam ou não este facto, e preferem o corpo de um homem ao de uma mulher. […] São sempre levados a encontrar a sua satisfação num homem — passando a ser-lhes o mais difícil que é possível satisfazer a alma e o corpo numa mulher — e preservam assim a sua integridade.» E ainda mais surpreendentes podem ser estes versos de Pansies: «O Ronald, por instinto pederasta, / como a maior parte dos ingleses, / receia admiti-lo / e atira-se por isso às mulheres.» Note-se que esta relação de homem a homem nunca é, em Lawrence, apenas de corpo. A sua aversão à homossexualidade reduzida ao impulso sexual mereceu-lhe em 1918 um conto cruel, «The Prussian Officer», que acrescentava à sua violência uma componente sádica e destruidora, para ser símbolo do poder nefasto da Alemanha dessa época, a que seria capaz do grande transtorno humano da Primeira Guerra Mundial. A dimensão para lá dos sentidos que ele associa ao amor por outro homem ficou bem expressa no seu texto sobre Walt Whitman incluído em Studies in Classic American Litterature: «Para os mais entendidos na matéria, para aqueles a quem o amor chega a limites extremos, a mulher faz-se insuficiente, inadequada à


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fusão definitiva. Esta fase seguinte será portanto da fusão, do amor de homem a homem. Mas ela situa-se no limiar da morte e mergulha na morte. David e Jónatas. E a morte de Jónatas.» Durante o período em que Lawrence esteve apaixonado por William Henry Hocking, um jovem camponês da Cornualha, chegou a dois textos argumentados sob uma perspectiva explicitamente homossexual: o prólogo (censurado) ao romance Women in Love, só acessível ao grande público desde 1963, e o romance Goats and Compasses que ele destruiu «numa grande fogueira», talvez como reacção ao desagrado de Ottoline Morrell e de Cecil Gray, que o leram sob a forma de manuscrito. Se é possível conhecer-se com clareza a sua posição sobre o amor de um homem por outro, porque larga referência lhe encontramos na sua obra literária, muito menos consegue saber-se do que pensava sobre o amor lésbico. A afirmação de que o sangue e a carne são mais sábios do que a inteligência parece de latitude válida para ambos os sexos, e não apenas reconhecível na sua componente masculina. No entanto, as poucas referências directas que fez ao amor lésbico fogem mal a um tom frívolo e irónico. Escolhamos como exemplo um poema seu, «Ego-Bound Women», onde ele é considerado «dos mais atraentes», o que é pouco e impreciso, e chega a estes dois versos: «Uma fúria de possessão torturada / um milhão de fúrias de ciúme torturado.» Longe destas palavras fica a ideia de «fusão» que teve ponto sublime em David e Jónatas, e é por ele invocada a propósito de Whitman. Em 1923, Lawrence publicou O Raposo, uma das suas histórias mais célebres e percorrida por uma energia que tem como foco um amor lésbico; mas talvez a sua obra literária mais pessimista sobre a viabilidade do amor entre mulheres, e do amor entre um homem e uma mulher. A que pareceu negar, a qualquer destas uniões, um direito à réplica do seu venerado exemplo: a «fusão» de David e Jónatas.


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* Em 1917, David Herbert e Frieda Lawrence foram viver para a Cornualha. A proibição do romance The Rainbow tinha-lhe fechado as portas de todos os editores ingleses, pouco interessados em apoiar um escritor de textos polémicos e com reputação de romancista obsceno. A sua saúde precária, os cuidados médicos exigidos pela tuberculose pulmonar, as dificuldades financeiras de escritor banido, levaram-nos a instalar-se na Cornualha, numa pequena casa perto de Zennor. Foram desde logo hostilizados pela vizinhança. Eram vigiados pela polícia. Frieda von Richthofen, alemã casada com um inglês que escrevia livros e usava barba num tempo de faces rapadas, que se declarava abertamente contra a guerra e cantava canções em alemão, era um caso suspeito e monstruoso nesses tempos em que a Alemanha e a Inglaterra se tinham feito inimigos com o preço de muitas vidas humanas. E ela, Von Richthofen numa época avessa a sonoridades germânicas, fazia a provocação de enunciar a todo o propósito o seu nome, de trajar à bávara e declarar à gente provinciana e mesquinha de Zennor que era baronesa alemã. Acusados de espiões ao serviço do Reich, de acender luzes atrás de janelas que eram sinais em código destinados a barcos inimigos, foram oficialmente expulsos da Cornualha por despacho do primeiro-ministro Lloyd George. Mais tarde Richard Aldington escreveria: «Os “intelectuais” afastaram-se dele, como todos os outros já tinham feito. De facto, desde 1916 a 1921 Lawrence fez de si — o que de certa maneira realmente era — um pária.» A expulsão da Cornualha obrigou o casal Lawrence a procurar outro lugar tranquilo, afastado daqueles que o repudiavam, e onde lhe fosse possível viver com despesas reduzidas ao mínimo. De sugestão em sugestão, David Herbert e Frieda encontraram Newbury no Berkshire.


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E aí conheceram Cecily Lambert Michin e a sua prima Violet Monk, que viriam a inspirar-lhe as personagens femininas March e Banford de O Raposo. Mais tarde, em declarações a Dans Nehls para a sua Composite Biography, Cecily pronunciou-se sobre alguns factos que foram incluídos na novela O Raposo: «Miss Violet Monk, uma prima minha que ajudava nos trabalhos da herdade, não tinha um carácter sociável e era atreita a mostrar-se belicosa perante estranhos. […] Uma história de amor infeliz perturbara-lhe a saúde e tinha passado, antes de vir para a herdade, por uma grave depressão nervosa. […] Na herdade usava roupa de trabalhadora agrícola (calções apertados nos joelhos, botas altas, camisa de homem e gravata). […] Mostrava-se ciumenta e possessiva em relação a mim, o que não acontecia sem provocar tensões. […] Éramos desesperadamente pobres, e não tínhamos nenhuma experiência de fazendeiras. […] Nessa época um dos meus irmãos vivia connosco; tinha sido repatriado depois de adoecer na zona de guerra da África Oriental. […] Longe de sentir sentimentos de amor pela minha prima, detestava-a enormemente. […] Julgo que ambos cortaram uma árvore (como acontece na novela). […] E lembro-me de que vivíamos infestados por raposas. […] Eles pediram emprestada uma arma mas nem uma raposa, que fosse, conseguiram matar.» São elementos que a novela aproveita com maior e menor fidelidade mas atribuindo características de Cecily a Violet, e vice-versa, elevando a uma evidência de lesbianismo o que talvez ficasse, nesta realidade inspiradora, por não mais do que antecâmara ambígua de uma ligação lésbica 1. Com O Raposo Lawrence imagina o confronto de um homem-raposo, ou seja, de uma criatura masculina dotada de fascinante vitali1 Em 1968, o filme americano de Mark Rydell (filmado no Canadá) era, ao nível da imagem, um pouco mais explícito.


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dade física, com duas mulheres que funcionam como um casal. E a nenhuma destas personagens ele permite qualquer espécie de êxito numa relação íntima e emocionadamente afectiva. Em March existem traços psicológicos associáveis à virilidade, embora com momentos de entrega a trabalhos «femininos», como o croché ou a pintura de cisnes e nenúfares sobre louça. E é neste espaço menos amplo do seu carácter que ela está disponível para o fascínio animal do raposo e, através dele, de Henry. March trava dentro de si uma luta que hesita entre a sua vida com Banford, estéril mas já estabilizada, e o que lhe parece fascinante numa ligação que ela desconhece, de mulher a homem, e destinada a incluir uma forte preponderância de masculinidade. Este combate é feito de avanços e recuos. Chega a parecer que tem vitória garantida, a que fará March viver sem hesitações ao pé de uma Banford frágil, possessiva e ciumenta, como se visse o mundo através de óculos que transtornam a percepção da realidade. Mas a vitória final será de Henry, embora com uma conquista que não ultrapassa a parte feminina de March e é constantemente contrariada pelas forças dominantes no seu carácter. March sente que o casamento a fere no que existe em si de mais genuíno; Henry acaba por não ter esperança de possuir uma mulher como ele a compreende, anulada na sua individualidade e dominada pelo seu poder de senhor e macho. Esta exigência do Henry dominador foi reconhecida como do próprio Lawrence por alguns dos seus próximos. O seu amigo Cecil Gray viria a escrever: «Pedia a um amigo mais do que há o direito de pedir — uma completa abolição da sua personalidade, aquilo que não pode pedir-se a quem um pouco de personalidade tiver.» As páginas finais da novela reflectem, como poucas na sua obra, este impasse. Sentados ambos entre penhascos da Cornualha, vemos Henry frustrado por March não ser «passiva, aquiescente», por não aceitar ficar submersa e abaixo da superfície do amor. Henry gostaria de vê-la «adormecer nele» para


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dispor de «uma vida por inteiro, como jovem e como macho, e ela a sua própria vida por inteiro, como mulher e como fêmea». O sexo terá porém aqui um papel restrito, funcional, apenas de exigência orgânica, alheio ao mais profundo das relações entre homens e mulheres, o que é centro de uma das mais claras reflexões que a tal respeito fez e pode ser lida em Women in Love: «De um modo geral, ele [a sua personagem Birkin] detestava o sexo: era uma limitação. O sexo é que transforma o homem numa metade de corpo quebrado, sendo a mulher a outra metade. Ora, ele desejava ser ele próprio, um ser completo, e que a mulher a si própria se bastasse. Queria que a sexualidade fosse levada até ao nível dos outros apetites, fosse considerada como um processo funcional, e não qualquer coisa que em si mesmo se completava. […] Por que havemos nós, homens e mulheres, de ser fragmentos separados de um todo? […] Outrora, quando o sexo não existia, estávamos misturados; cada ser era uma mistura. A grande polarização da sexualidade foi uma consequência do processus da individualização. O feminino puxou para o seu lado, o masculino fez o mesmo, mas apesar destas condições a separação continua imperfeita.» Lawrence tinha aspirado durante toda a sua vida à «fusão» noutro homem, a realização suprema do amor como ele a tinha sentido teorizada nos poemas de Whitman. Mas sete anos depois de publicar O Raposo morreu tuberculoso no sul da França sem ter conseguido encontrar o Outro, o que lhe permitiria realizar a alquimia amorosa dessa «fusão» confundida com a morte. Só conheceu a pobre morte física de uma grande catástrofe pulmonar; e destinou-se a malogrado Jónatas — um Jónatas assistido no leito de morte por Frieda, uma mulher, e sem a sombra ao seu lado de um qualquer David. A.F.


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As duas raparigas eram de um modo geral conhecidas pelos apelidos Banford e March. Tinham ambas alugado a quinta, e elas próprias tencionavam explorá-la; quer isto dizer que iam criar galinhas, garantir o seu sustento com aves domésticas, acrescentar-lhes o sustento de uma vaca e alimentar um ou dois vitelos. Infelizmente, as coisas não corriam bem. Banford era uma pequena criatura franzina e delicada, com óculos. No entanto, a principal investidora porque March dispunha de poucos ou nenhuns recursos. O pai de Banford, que era comerciante em Islington, tinha dado à sua filha o investimento inicial, não só por se preocupar com a saúde dela mas porque lhe tinha amor e não a via como mulher casada. March era mais robusta. Aprendera carpintaria e marcenaria em cursos nocturnos de Islington. Ia ser o homem da casa. Além disto o velho avô de Banford tinha começado por viver com elas. Fora em tempos fazendeiro. Mas por má sorte tinha morrido um ano depois de estar na Bailey Farm. E assim foi que as duas raparigas ficaram sozinhas. Nenhuma delas era jovem; quer-se dizer com isto que andavam perto dos trinta. Mas velhas certamente não eram. Tinham-se deitado ao empreendimento com muita coragem. Possuíam uma grande quantidade de galinhas leghorns pretas e leghorns brancas, plymouths e wyandottes; ainda alguns patos; e também duas novilhas no pasto. Mas tinham a pouca sorte de uma das novilhas se


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recusar categoricamente a permanecer nos terrenos vedados da Bailey Farm. De nada valia March aumentar a altura das vedações porque a novilha fugia, ficava em liberdade nas matas ou passava para pastagens vizinhas; e March e Banford iam para longe, abalavam atrás dela com mais presteza do que êxito. Em desespero de causa venderam-na. E logo depois, quando a outra vaca estava prestes a dar-lhes a primeira cria o velho morreu; e com receio do parto iminente as raparigas venderam-na em pânico, passando a prestar atenção apenas às galinhas e aos patos. Apesar deste pequeno dissabor, foi com alívio que deixaram de ter gado para cuidar. A vida não nos foi dada para trabalharmos como escravos. Ambas as raparigas concordavam com isto. Já lhes bastavam as aves de capoeira como preocupação. March instalara o banco de carpintaria na extremidade aberta do telheiro. Trabalhava ali a fazer gaiolas para galinhas, e portas, e outros aprestos. As aves estavam alojadas no edifício maior, que servira noutros tempos como celeiro e estábulo. Tinham uma bela casa e toda a razão para se sentir muito satisfeitas. Estavam, aliás, com bastante bom aspecto. Desagradava porém às raparigas a sua tendência para apanhar estranhas moléstias, um tipo de comportamento cheio de exigências e recusarem-se com obstinação a pôr ovos. Era March quem mais trabalhava no exterior. Quando andava lá fora de um lado para o outro com polainas e calções, casaco cintado e boné a dançar na cabeça, bem mais parecia um jovem gracioso e desempenado por causa dos ombros direitos, dos movimentos fáceis e seguros, e até de um ligeiro toque de indiferença ou ironia. Mas no seu rosto nunca havia nada de masculino. As mechas do cabelo escuro encrespado esvoaçavam à volta quando se curvava, tinha olhos escuros grandes e bem abertos; e, quando


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voltava a erguê-los, estranhos, espantados, e ao mesmo tempo tímidos e sardónicos. Também contraía a boca com uma expressão que podia parecer quase de dor ou ironia. Qualquer coisa tinha de inexplicável e esquisito. Acontecia-lhe ficar de pé, apoiada num quadril e olhar para as galinhas que esgaravatavam na detestável lama fina do pátio em declive, chamar a sua favorita galinha branca que se aproximava para responder ao apelo. Mas quando o bando de aves com patas de três dedos passava o tempo ali à volta, observado pela sua mirada fixa, havia nos seus olhos grandes e escuros um lampejo quase irónico, e na voz o mesmo tom de troça leve mas ameaçadora quando falava com a favorita Patty que lhe debicava a bota como forma de demonstrar afecto. Apesar de tudo o que March fazia na Bailey Farm pelas galinhas, elas não medravam. De manhã, quando lhes dava comida quente de acordo com o recomendado reparava que durante horas ficavam pesadas e sonolentas. No decurso da lânguida tarefa de digestão já esperava vê-las encostadas aos pilares do telheiro. E sabia muito bem que deviam andar por ali a esgaravatar e a debicar, se quisessem vir a ter préstimo para alguma coisa. Resolveu portanto dar-lhes à noite a comida quente e deixá-las nessa tarefa até adormecerem. E cumpriu-o. Mas tudo continuou na mesma. Além disso fez-se muito incómodo criar aves em tempo de guerra. A comida era escassa e má. E quando foi promulgada a mudança horária do Verão, as aves recusaram-se obstinadamente a ir para a cama às nove horas, como era nessa época habitual. Faziam-no, de facto, a hora bastante tardia, sem haver sossego antes de estarem fechadas e a dormir. Por ali andavam a passear alegremente até às dez horas ou mais tarde, sem olharem muito para o galinheiro. Nem Banford nem March achavam que se devia viver


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apenas para trabalhar. Ao fim da tarde queriam ler ou dar uma volta de bicicleta, ou March talvez quisesse pintar sobre louça cisnes curvilíneos em fundos verdes, ou mesmo fazer um maravilhoso cobre-fogo para a lareira segundo os mais elaborados processos de marcenaria artística. Porque era uma criatura de estranhos caprichos e tendências insatisfeitas. Mas de todas estas coisas se via privada por causa das estúpidas galinhas. Havia um mal maior do que todos os outros. A Bailey Farm era uma pequena herdade com um antigo celeiro de madeira e uma casa de habitação de empenas baixas, separada apenas da orla da floresta por um campo. E desde o tempo da guerra o raposo era um demónio. Levava galinhas, debaixo do nariz de March e Banford; Banford sobressaltava-se, e com olhos arregalados atrás dos grandes óculos espantava-se quando havia mesmo aos seus pés mais outro cacarejo alvoroçado. Tarde de mais! Tinha desaparecido outra leghorn branca. Era desanimador. Fizeram o que podiam para remediar o caso. Quando chegou a época em que era autorizado caçar raposas, às horas mais propícias uma e outra puseram-se de sentinela com as suas armas. Mas de nada valeu. O raposo era mais rápido do que elas. Passaram um ano e outro a viver, como Banford dizia, dos prejuízos. Houve um Verão em que alugaram a casa da herdade e retiraram-se numa carruagem de caminho-de-ferro abandonada que funcionava como uma espécie de anexo num recesso do campo. Não só se divertiram como equilibraram as finanças. Não obstante, a situação nada tinha de risonho. Se bem que fossem o mais amigas que é possível, porque Banford tinha uma alma amável e generosa apesar de nervosa e delicada, e March uma singular nobreza apesar de esquisita e metida


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consigo própria, a prolongada solidão fazia-as ficar com com tendência para se irritar e cansar uma da outra. March tinha a seu cargo a execução de quatro quintos do trabalho, e embora isto não a preocupasse e parecesse sem importância, dava-lhe por vezes ao olhar um estranho brilho. Banford, essa, mostrava mais do que nunca uma fadiga nervosa, desalentava-se, e March falava-lhe com rudeza. De certa forma parecia que perdiam terreno, e conforme os meses passavam perdiam a esperança. Sozinhas nos campos vizinhos do bosque, com aquela monótona e pardacenta terra côncava a estender-se até às muito distantes colinas arredondadas de White Horse, dir-se-ia que tinham numa grande parte de contar apenas consigo próprias. Não havia nada que pudesse animá-las — nem dar-lhes esperança. De facto, para qualquer delas o raposo tornara-se exasperante. Muito cedo, nas manhãs de Verão, logo que soltavam as galinhas tinham de agarrar nas espingardas e ficar de atalaia; e depois tinham de voltar a fazê-lo logo que a tarde começava a esmorecer. Ele era muito arguto. Rastejava na erva alta, tão difícil de ver como uma serpente. Parecia ter o deliberado propósito de iludir as raparigas. Uma ou duas vezes March vislumbrou no matagal a ponta branca da sua cauda, ou na erva alta o seu vulto avermelhado, e tinha-lhe dado um tiro. Mas o raposo mostrava-se, perante isso, indiferente. Uma tarde March estava de pé, com as costas voltadas para o poente, a espingarda debaixo do braço, o cabelo metido no gorro. Ora meio atenta, ora meio absorta. Era esse o seu estado habitual. Tinha olhos agudos e observadores, embora com a mente alheada do que via. Com a boca um tanto crispada, a todo o momento caía no seu estranho estado de devaneio. Seria caso para perguntarmos se tinha ou não consciência do lugar onde se encontrava.


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Àquela luz forte — porque era o fim de Agosto — as árvores da orla da floresta ficavam de um enegrecido verde-acastanhado. Mais adiante os troncos despidos e acobreados dos pinheiros e os seus ramos brilhavam no ar. Perto, a erva áspera com as suas compridas hastes acastanhadas todas a transformarem-se numa cintilação, estava cheia de luz. As galinhas por ali andavam — e os patos continuavam no tanque a nadar sob os pinheiros. March olhava para tudo isto, e tudo isto via como se nada visse. Ouvia Banford ao longe, a falar às galinhas — e era como se nada ouvisse. Em que estaria a pensar? Só Deus sabe. Tinha, por assim dizer, a consciência noutro lugar. Baixou os olhos e viu de repente o raposo. Com o olhar erguido a fixá-la. Tinha baixado o focinho e olhava para cima. Os seus olhares encontraram-se. E ele possuiu-a. Ficou enfeitiçada — consciente de que ele a possuía. Olhava-a nos olhos, e sentiu-se de alma perdida. Ele possuiu-a, e não se atemorizava. March lutou, voltou confusamente a si, e por cima de ramos caídos viu-o escapar-se com saltos lentos, lentos e descarados saltos. Depois ainda a olhou de soslaio, e foi-se calmamente embora. Viu-lhe a cauda levantar-se, macia como uma pena, viu-lhe as nádegas de um branco que cintilava. E lá se afastou suavemente, suave como o vento. Pôs no ombro a espingarda, mas ao contrair depois os lábios teve consciência de que era absurdo pretender dar-lhe um tiro. Começou então a caminhar vagarosamente, obstinadamente, na direcção que ele tinha tomado. Esperava encontrá-lo. No fundo de si mesma havia a decisão de o encontrar. O que faria quando voltasse a vê-lo, não a preocupava. Mas estava decidida a encontrá-lo. Por isso, com os seus olhos escuros bem abertos e vivos, e um leve rubor


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nas faces, vagueou com um andar mecânico pela orla do bosque. Não pensava. Vagueava de um lado para o outro com uma estranha apatia de espírito. Acabou por ter a certeza de que Banford a chamava. Esforçou-se por prestar atenção, virou-se para trás, e soltou como resposta um som que poderia parecer um grito. Depois voltou a caminhar com passadas largas em direcção à moradia da herdade. O sol vermelho escondia-se, as galinhas recolhiam aos poleiros. Olhava-as, seres vivos brancos e seres vivos pretos que se dirigiam para o celeiro. Olhava-as sem as ver, fascinada. Mas o automatismo da sua inteligência avisava-a no momento de fechar a porta. Entrou em casa para cear o que Banford tinha posto na mesa. Banford era por natureza tagarela. Mas pareceu que March a escutava com o seu modo distante e masculino. Dava-lhe de vez em quando uma resposta lacónica. Esteve todo este tempo enfeitiçada. E mal acabaram de cear voltou a levantar-se, e saiu sem dar nenhuma explicação. Agarrou de novo na espingarda e foi à procura do raposo. Porque ele levantara os olhos e tinha-a fixado, e o seu olhar sagaz penetrara-lhe no cérebro. Não pensava muito nele: estava possuída por ele. Tinha-lhe visto os olhos escuros, astutos e afoitos a penetrá-la, a conhecê-la. Sentia que ele era invisivelmente senhor do seu espírito. Teve consciência da forma como ele baixava a queixada quando levantava o olhar, teve consciência do seu focinho, do seu castanho-dourado e do seu branco-acinzentado. E voltou a ver a mirada de soslaio que ele lhe tinha lançado, meio convidativa, meio desdenhosa e sarcástica. E isto fê-la ir ao longo da orla do bosque com os grandes olhos espantados a cintilar, a espingarda debaixo do braço. A noite tinha entretanto caído, e uma


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admirável lua elevava-se acima dos pinheiros. Banford voltou a chamá-la. Regressou a casa. Estava silenciosa e preocupada. Examinou a arma, e com um ar ausente de quem cismava limpou-a à luz da lâmpada. Depois voltou a sair, e à luz de uma grande lua no céu foi ver se tudo estava em ordem. Quando olhou para as cristas escuras dos pinheiros contra o céu vermelho de sangue sentiu o seu coração bater de novo pelo raposo, pelo raposo. Queria persegui-lo, de espingarda na mão. Alguns dias passaram antes de contar a Banford este episódio. Mas uma tarde disse-lhe de repente: — Na noite de sábado tive o raposo mesmo ao pé de mim. — Onde? — perguntou Banford com os olhos bem abertos atrás dos óculos. — Quando estive junto do tanque. — E fizeste fogo? — perguntou Banford num tom excitado. — Não, não fiz. — Porquê? — Porquê? Fiquei muitíssimo surpreendida, suponho eu. Era a maneira de sempre, lenta e lacónica, de March falar. Durante alguns momentos Banford ficou a olhar para a sua amiga. — Viste-o? — perguntou em voz alta. — Sim, vi-o! Olhava para mim com a maior das friezas. — Não me digas! — exclamou Banford. — Que atrevimento!… Não têm medo de nós, Nellie. — Pois não — disse March. — Foi pena não lhe teres dado um tiro — disse Banford. — Foi uma pena! Desde então tenho andado à procura dele. Mas não creio que volte a aproximar-se tanto.


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— Não acho que o faça — disse Banford. E decidiu esquecer-se do caso, excepto do descaramento do ratoneiro que a indignava o mais possível. March também não tinha consciência de que pensava no raposo. Mas sempre que caía naquele semi-devaneio, quando estava com aquela espécie de arrebatamento e apenas semi-lúcida acerca do que se passara debaixo dos seus olhos, era inconscientemente dominada pelo raposo, de uma forma ou de outra possuída na parte disponível desse devaneio. Isto aconteceu durante semanas e meses. Podia ter estado empoleirada numa árvore a apanhar maçãs, ou a sacudir dos ramos as últimas ameixas, ou mesmo a tirar terra no fosso do tanque dos patos, ou a pôr ordem no celeiro; quando acabava de fazê-lo ou voltava a endireitar-se e a puxar as madeixas do cabelo para as afastar da testa, e a crispar outra vez a boca com aquela estranha contorção envelhecida de mais para os anos que tinha, era garantido que lhe acudiria ao espírito a velha fascinação pelo raposo, tal como a sentira no momento em que ele a tinha olhado. Nessas ocasiões era como se lhe sentisse o cheiro. E acontecia sempre em momentos inesperados. À noite quando ia dormir, ou quando deitava água no bule para fazer chá — o raposo vinha, vinha trespassá-la como um feitiço. E assim passaram os meses. Quando ia ao bosque continuava inconscientemente a procurá-lo. Tinha-se feito uma presença no seu espírito, um estado que lá continuava a permanecer, não de forma contínua mas com infalível recorrência. Não saberia dizer o que sentia ou pensava; apenas que esse estado de espírito a trespassava como na altura em que o raposo olhara para ela.


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Os meses passaram, as tardes escuras tinham chegado com um Novembro pesado e escuro, a altura em que March por ali andava com botas altas, tornozelos enfiados na lama, a altura em que a noite começava a descer às quatro horas e o dia não chegava propriamente a despontar. Era um tempo que as duas raparigas temiam. Temiam a escuridão quase contínua que as envolvia na pequena e desolada herdade perto da floresta. Banford sentia um medo físico. Tinha medo dos vagabundos, medo de que andasse ali alguém para as roubar. March não tinha assim tanto medo, e sentia bastante mais desconforto e perturbação. Sentia com todo o seu ser físico desconforto e tristeza. As duas raparigas tinham o costume de tomar chá na sala de estar. Quando começava a escurecer March acendia o fogo, pondo nele a madeira que tinha cortado e serrado durante o dia. E depois ficava com a longa noite escura e encharcada à sua frente, lá fora negra e solitária, um tanto opressiva e um pouco lúgubre dentro de casa. March sentia-se feliz por não falar, mas Banford não conseguia ficar sossegada. Só o facto de ouvir lá fora o ruído do vento nos pinheiros ou as gotas de água a caírem, para ela era de mais. Uma noite, as raparigas já tinham lavado na cozinha a louça do chá, March já tinha calçado os sapatos de trazer por casa e agarrara no rolo de croché que ia de tempos a tempos e lentamente fazendo. Estava mergulhada em silêncio. Banford olhava para o fogo


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vermelho, que por ser de lenha presisava de uma constante atenção. Receava começar a ler cedo porque os seus olhos não aguentavam esforços. Por isso olhava para o fogo, ouvia sons distantes, o som do gado a mugir, de um vento enfadonho, pesado e húmido, o tumulto do comboio da noite na estreita linha férrea que não ficava muito longe. Quase se fascinava com o clarão vermelho do fogo. De repente ambas tiveram um sobressalto e levantaram a cabeça. Tinham ouvido passos — um nítido ruído de passos. Banford encolheu-se com medo. March pôs-se de pé à escuta. E depois aproximou-se rapidamente da porta que dava para a cozinha. Ao mesmo tempo ouviam passos que se aproximavam da porta das traseiras. Durante um segundo esperaram. A porta abriu-se lentamente. Banford deu um grande grito. E uma suave voz de homem disse: — Olá! March recuou e tirou do seu canto a espingarda. — O que é que quer? — gritou com voz firme. Suave, suave e vibrante, a mesma voz de homem voltou a dizer: — Olá! O que é que se passa? — Olhe que eu disparo! — gritou March. — O que é que quer? — Homessa! O que é que se passa? O que é que se passa? — disse a voz suave surpreendida, um tanto assustada. E um jovem soldado avançou com a pesada mochila às costas, até ficar iluminado pela luz difusa. — Homessa! — disse ele. — Quem vive agora aqui? — Vivemos nós — disse March. — O que é que quer? — Oh! — ouviu-se dizer ao jovem soldado com voz arrastada, melodiosa, com uma entoação de espanto. — Então o William Grenfel já não vive aqui?


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— Não… bem sabe que não. — Eu?… Eu? É claro que não sei, veja lá bem. Morava aqui, era meu avô, e eu próprio há cinco anos morei aqui. Afinal o que foi feito dele? O rapaz — ou o adolescente porque não teria mais do que vinte anos — avançara e tinha ficado parado um pouco depois do limiar da porta. Já sob a influência daquela estranha voz suave e cheia de modulações, March olhava-o fascinada. Tinha um rosto redondo e vermelhusco, cabelo alourado um tanto comprido e colado à testa pelo suor. Os olhos eram azuis, muito brilhantes e vivos. Na pele avermelhada e fresca das faces tinha pêlos de uma barba loura que era uma penugem, mas dura. Dava-lhe um ar vagamente luzidio. Como aguentava nas costas uma mochila pesada, parou dobrando-se, inclinando a cabeça para a frente. Tinha o bivaque pendurado numa das mãos. Olhava para uma e outra das raparigas com olhos brilhantes e insistência, em especial para March que estava pálida e de pé, com os grandes olhos dilatados, casaco cintado e polainas, o cabelo crespo a fazer na nuca um grande rolo. Continuava com a espingarda na mão. Atrás dela Banford agarrava-se ao braço do sofá e voltava a cabeça um pouco para o lado, como se quisesse fugir. — Pensei que o meu avô ainda aqui vivia!… Pergunto a mim próprio se terá morrido. — Desde há três anos estamos aqui — disse Banford, que começava a recuperar a serenidade por ver qualquer coisa de pueril naquela cabeça redonda com o cabelo um tanto comprido e molhado pelo suor. — Três anos! Não me diga!… E não sabe quem estava aqui antes de si? — Sei que era um velho, e vivia sozinho.


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— Ah! Então era ele!… Mas afinal o que lhe terá acontecido? — Morreu… sei que morreu… — Ah! Afinal morreu! O jovem continuava a olhá-las, espantado, sem mudar de cor nem de expressão. Se havia nele alguma expressão para lá do leve embaraço do seu olhar confundido, era de penetrante curiosidade pelas duas raparigas; penetrante e impessoal, a curiosidade dessa jovem cabeça redonda. Mas para March ele era o raposo. Se isto acontecia por inclinar a cabeça para a frente, ou pela cintilação dos esbranquiçados pêlos finos nos malares vermelhuscos, ou pelos olhos vivos e penetrantes, não conseguiria dizer-se; mas para ela o rapaz era o raposo, e de outro modo não conseguiria vê-lo. — Como é possível não saber se o seu avô está vivo ou morto? — perguntou Banford recuperando a habitual perspicácia. — Ah! Boa pergunta — respondeu o jovem da voz suavemente articulada. — Saiba que assentei praça no Canadá, e durante três ou quatro anos estive sem notícias… Eu tinha fugido para o Canadá. — E agora acaba de chegar da França? — Bem… para ser exacto, de Salónica. Houve uma pausa porque nenhum deles sabia exactamente o que dizer. — E agora não tem sítio para onde ir? — disse Banford com alguma hesitação. — Olhe, conheço na aldeia algumas pessoas. Seja como for, posso ir para o Swan. — Veio de comboio, suponho eu… Quer sentar-se um bocadinho?


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— Bem… não me importava de o fazer. Quando tirou a mochila de cima de si, soltou um leve e estranho suspiro. Banford olhou para March. — Pouse aqui a espingarda — disse ela. — Vamos preparar-lhe uma chávena de chá. — Tem razão! — exclamou o jovem. — Estamos fartos de carabinas. Com ar de quem sentia algum cansaço sentou-se no sofá, inclinando o corpo para a frente. March, que tinha recuperado a presença de espírito, foi para a cozinha. E ouviu lá a voz suave e jovem murmurar: — Bem! Pensar que no meu regresso ia encontrar isto assim! — Não pareceu triste, de forma nenhuma, apenas com uma intrigante surpresa. — E como tudo está diferente, hem? — continuou enquanto olhava para a sala que tinha à sua volta. — Nota uma diferença, não é verdade? — disse Banford. — Noto… como é que não ia notar! Tinha olhos invulgares na clareza e no brilho, apesar de ser apenas o brilho de uma abundante vitalidade. Na cozinha, March afadigava-se a preparar outra refeição. Eram cerca de sete horas. Enquanto fazia esse trabalho tinha a atenção virada para o jovem que estava na sala de estar; não propriamente a ouvir o que ele dizia, mas como se lhe sentisse o suave deslizar da voz. Crispava os lábios apertando-os cada vez mais, fechava-os como se estivessem cosidos pelo supremo esforço de dominar a sua vontade. Com os grandes olhos ardentes e dilatados, mesmo sem querer perdia-se. Preparava com rapidez e descuido a comida cortando grandes fatias de pão barradas com margarina — porque não tinham manteiga. Dava voltas à cabeça para lhe ocorrer


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qualquer coisa que pudesse pôr na bandeja — mas na despensa desguarnecida só tinha pão, margarina e compota. Incapaz de um passe de magia que resolvesse o caso, voltou para a sala com a bandeja. Não queria dar nas vistas. Acima de tudo não o queria a olhar para ela. Mas quando lá entrou e pôs a mesa mesmo atrás do jovem, ele desfez a posição de abandono, voltou-se e olhou-a por cima do ombro. Ela ficou pálida e abatida. Quando March se inclinava para a mesa, o jovem observava-a; via-lhe as pernas esguias e bem feitas, o casaco cintado que caía à volta das nádegas, o rolo de cabelo preto, e uma vez mais detinha nela a sua vívida e largamente exaltada curiosidade. A luz do candeeiro era velada por um quebra-luz verde-escuro que a projectava para trás, deixando metade da sala na penumbra. O rosto dele moveu-se e brilhou sob a luz, mas March era uma ensombrada e distante aparição. Ela virou-se, embora a olhar sempre para o lado e a bater as pestanas escuras. Descerrou os lábios quando disse a Banford: — Serves tu o chá? A seguir foi para dentro da cozinha. — Quer tomar aí o seu chá — perguntou Banford ao jovem — sem ter de vir para a mesa? — Olhe — disse ele — sinto-me aqui bem instalado, não é verdade? Prefiro tomá-lo aqui, se não a incomodar. — Só temos pão e compota — disse ela. E pôs o prato perto dele, num tamborete. Sentia-se muito satisfeita por estar a servi-lo. Porque gostava de conviver. E já não o receava; era como se fosse o seu irmão mais novo. Parecia mesmo um garoto. — Nellie! — exclamou. — Tens o teu chá servido.


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March apareceu à porta; agarrou na sua chávena e foi sentar-se a um canto, o mais longe da luz que era possível. Sentia-se muito susceptível no que respeitava aos seus joelhos. Sofria por não trazer saias que os cobrissem e ser forçada a sentar-se com eles ousadamente expostos. Encolhia-se e voltava a encolher-se, esforçando-se por não ficar muito visível. E o jovem estirado no sofá deitava-lhe olhares tão demorados, persistentes e penetrantes, que chegou a estar quase decidida a desaparecer. Continuou no entanto a manter erguida a chávena, a beber chá, a contrair os lábios, voltando a cabeça para o lado. Tão forte era o seu desejo de ser invisível, que o jovem se sentiu confundido. Percebeu que não podia vê-la com nitidez. Parecia uma sombra dentro da sombra. E voltou a procurá-la com olhos investigadores, perseverantes, com uma fixidez de que ele próprio não era consciente. Num tom suave e calmo falava entretanto com Banford, que acima de tudo adorava as tagarelices e mostrava, como um pássaro, a maior vivacidade a debicá-las. E porque ele era rápido, enérgico e voraz, March foi buscar mais fatias de pão com margarina, tão desajeitadamente cortadas que Banford pediu desculpa. — Pois bem — interveio de repente March — não havendo manteiga para as barrar, de nada valeria esmerar-me no corte. O jovem, que voltara a olhar para ela, deu uma pronta e repentina gargalhada que lhe pôs à mostra os dentes e franziu o nariz. — É bem verdade, não é? — respondeu com a sua voz suave e íntima. Ficou evidente que era por nascimento e educação da Cornualha. Aos doze anos viera com o avô para a Bailey Farm, e as suas relações nunca tinham sido muito boas. Fugira por causa disso para o Canadá, e trabalhara longe no Oeste. Agora estava ali — e era esse o fim da história.


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livros publicados

Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, George Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A Papisa Joana – segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides Bom Crioulo, Adolfo Caminha


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D.H. Lawrence O RAPOSO

D.H. Lawrence O RAPOSO

tradução e apresentação de

Aníbal Fernandes

A estabilidade emocional feminina devastada pela vitalidade masculina. O homem… O homem-raposo.

www.sistemasolar.pt

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