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O FAROL DE AMOR


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Rachilde

O FAROL DE AMOR tradução e apresentação

Aníbal Fernandes


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TÍTULO DO ORIGINAL: LA TOUR D’AMOUR

© SISTEMA SOLAR, CRL (2018) RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: ANTON MELBYE, O FAROL DE EDDYSTONE (PORMENOR), 1846 REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE 1.ª EDIÇÃO, FEVEREIRO 2018 ISBN 978-989-8833-23-5


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A literatura de Rachilde, essa vermelha e ardente loucura. Léon Bloy

Quem percorrer os limbos da Literatura e tirar a febre aos livros encalhados longe do favor dos manuais, terá por vezes a compensação de um sobressalto. O Farol de Amor é um grande sobressalto. No século XIX escrevia-se bem. Porque a leitura era a ocupação preferida de quase todos os que soubessem ler, vivia-se uma idade de ouro que activava, onde se acolhessem, os grandes talentos de contar. Dessa feira resta um caos onde nos perdemos. A montanha de literatura que o final daquele século nos deixou incita à atitude perdulária; mas ainda assim se recuperam, vai-não-vai, ficções excelentemente dominadas, imprevisíveis apuros de orquestração verbal que lá estavam à espera da justiça póstuma, escritores só menores à penumbra de tantos brilhos que lhe fiavam próximos. O Farol de Amor é agora mal-esquecido depois de uma assinalável presença no favor do público, do registo de algum arrepio na inteligência da época. Laurent Tailhade, por exemplo, sucumbia numa carta à emoção: «Uma obra-prima… que li de uma assentada, seduzido e apavorado ao mesmo tempo, um Farol de Amor que é obra-prima da literatura e do terror também.»


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Se falarmos de Rachilde, haverá que deixar um ponto bem claro: tentar recuperar-lhe um «título» é apenas prolongar com um salto a evidência que o tempo interrompeu. Rachilde — Marguerite Eymery em solteira, e Marguerite Valette depois de casada com o fundador da editora Mercure de France — se não teve talento que lhe garantisse, junto das sumidades literárias da época, uma memória vitalícia, mereceu do seu tempo um olhar rendido, ou de recusa, ou de reserva, mas nunca de indiferença. A escritora Rachilde, agora um pouco esquecida, foi o contrário do insucesso público: somou num vasto percurso de edições uma admirável quantidade de best-sellers.

Quem ama o raro, há-de examiná-la com inquietação. Maurice Barrès

Meia centena de anos bastou para as suas ficções diferentes passarem a ser olhadas como um veneno, talvez antiquado, com os tiques do fim do século oitocentista. E se muitas sim, talvez tenham qualquer coisa que não cede a lentejoulas da escrita decadente mas entretém raridades de um requinte luxuoso e sufocante, de um gosto deixado para trás, salva-se noutras tudo ou quase tudo. E dois, e três, e cinco dos seus romances surpreendem hoje e talvez para sempre. (René Lalou, apesar de tão sucinto no seu Roman Français depuis 1900, reserva quatro linhas para afirmar que duas obras de Rachilde vão resistir ao grande desgaste do tempo. E cita, quando as nomeia, Le Meneur de Louves e O Farol de Amor.)


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9 A única mulher de letras que é realmente um escritor. J.K. Huysmans

Conquistou uma cadeira de poder na Mercure de France, sacerdotisa que intrigava na sombra a boa e a má sorte dos editados. Se Alfred Jarry e Léon Bloy lhe devem a coragem de patrocinar edições suas de antemão votadas ao não-êxito de vendas; se pagava a Jean Lorrain mais um livro para lhe dar de comer; se fazia ao Verlaine no seu fim de vida o favor de uma edição que ia poupar-lhe alguns dias de abismo, vemos Hughes Rebell num pólo oposto a contar que os azedumes de Rachilde lhe entravaram a publicação de um livro porque poderia esbater o impacto de outro que ela própria assinava — Les Hors-Nature. No entanto, antes destas glórias e destas exibições de um poder de topo que a editora do seu marido lhe conferia, sabemo-la numa estrada difícil de primeiros passos, vencendo dificuldades com um pulso forte habilidosamente oculto na aparência de fragilidades (cultivadas) que lhe construíam a desejada imagem de indefesa adolescente da província. Rachilde era de Cros, na indecisa posição astrológica de uma Aquário-quase-Peixes do ano 1860. O seu pai, oficial de carreira, tinha sonhado descendências varonis e fora forçado a consolar-se com esta filha única «vestida à rapaz». Se Marguerite Eymery deu pulos e cavalgou, foi também prodígio com uma estreia nas letras aos doze anos de idade; um conto, ao que foi dito «muito talentoso», publicado num jornal. Esta amazona estreia-se como romancista numa época bastante descrente de talentos literários na Mulher. Desde as Madames de la Fayette e Stael, desde George Sand, nada via em letras no feminino que merecesse respeito — e ser-lhe-ia exigido algum


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tempo de espera até ao abalo de Colette. Mas Rachilde, com dezoito anos ingénuos neste ambiente de suspeição, foi desde logo capaz de uma Madame Sangdieu, sua estreia no romance, que é a sua primeira «maldade». E como encontra o patriarca Victor Hugo numa mesa de pé-de-galo, pede-lhe entre visitas de espíritos a cunha que decidiu Arsène Houssaye a um prefácio — o prefácio do seu segundo romance Monsieur de la Nouveauté. A virgem-amazona está com vinte anos de idade e mão ligeira que não teme as canseiras da escrita. Os espíritos que rondam as pés-de-galo ditam-lhe a oportunidade de sucessivos temas. Mademoiselle Rachilde começa a impor aos poucos a sua imagem de «perversa». Nono, de 1885, já disfarça alguns demónios que mal ousam mostrar-se à luz do dia; em 1886 provoca com La Virginité de Diane, em 1887 atreve-se a La Marquise de Sade, em 1888 dá a vez a Madame Adonis e no ano seguinte, aos vinte e seis anos o seu escândalo chamar-se-á Monsieur Vénus.

Tanto nos ofereces heróis como deuses, E procurando fazer de nós únicos dândis, Sobes os nossos orgulhos a cumes radiosos, Não mais do que essas lareiras de turvos incêndios. Paul Verlaine (Hino a Mademoiselle Rachilde)

Era frequente os literatos franceses irem fazer o seu escândalo a Bruxelas. Mostravam-se interessados por uma editora belga, e quando as autoridades da Bélgica levantavam o processo verificavam, desiludidas, que o pecado morava ao lado. A consequência mais incómoda deste litígio não punido era os réus deixarem de


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poder ultrapassar aquela fronteira e privarem-se de Bruxelas, apenas uma parvónia a dois passos de Paris. Pauvre Belgique! — exclama Baudelaire num texto que se destinou a póstumo. Monsieur Vénus foi editado na Bélgica e condenado pelos tribunais belgas. Mas Rachilde vivia na França. Em 1869, puxar para páginas de romance um herói transexual e feiticismos doentios, ainda por cima inventados por uma solteira de vinte e oito anos, era excessivo e altamente provocatório. No seu livro Los Raros, Ruben Darío ainda se escandaliza ao longo de todo um capítulo. Tiramos dele expressões como «cultivadora de orquídeas venenosas» e «amansadora de víboras». Mas ao lermos hoje Monsieur Vénus somos levados a uma surpresa menos áspera. Ao nível da escrita ainda não é a Rachilde exercitada pela grande prática do romance; o tema está longe de parecer (outra vez Darío) uma «das criações mais invulgares e equívocas de um cérebro malignamente feminino e peregrinamente infame»; e a partir da sua segunda edição tudo isto surgirá ainda mais domesticado por um prefácio amaciador de Maurice Barrès. As invulgaridades de Monsieur Vénus andam agora num quotidiano mais próximo, banalizado e destituído de arrepios demoníacos. Rachilde vai colhendo em Paris os benefícios do escândalo. Dá entrevistas cândidas e mostra-se tímida; faz mais intrigantes as singularidades da sua imaginação. Jean Lorrain quis conhecê-la e chegou espantado ao seu caderno de cronista: «Um ser estranho e pálido, mas de uma palidez de colegial estudiosa, uma verdadeira menina a dar para o magro, com ar débil, mãos de inquietante pequenez, perfil correcto de efebo grego ou jovem francês apaixonado… e olhos — oh!, que olhos! — grandes, grandes, carregados com pestanas inverosímeis e de uma claridade de água, olhos que


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ignoram tudo, ao ponto de acreditarmos que ela não vê com esses olhos e tem outros, na parte de trás da cabeça, para descobrir e revelar os pimentos raivosos que põe no tempero das suas obras1.» Pornógrafa, admito, mas com uma tal distinção… Barbey d’Aurevilly

O ano de Monsieur Vénus é também o ano em que Rachilde se casa com Alfred Valette — crítico literário e ensaísta, antes de ser editor — e casa-se apenas civilmente, nessa época decisão ousada e pouco vulgar que leva Léon Bloy, católico iracundo, a explodir: — «Você não passa agora da concubina legal do senhor Valette.» Pouco depois, Rachilde já colabora com o seu marido na fundação da Mercure de France (revista primeiro e depois editora). Madame Rachilde constrói então um confortável lugar no mundo das letras. Domina uma revista onde todos querem aparecer, uma editora onde todos querem ser editados. Recebe às terças no seu salão e tem a coragem de «manter» escritores invendáveis que o seu gosto e o seu afecto elegem; tem estofo, também, para combater na sombra os que detesta ou teme (Rebell, Léautaud…). Rémy de Gourmont diz que era editorialmente perigoso aparecer na Mercure de France sem lhe dar uma especial atenção ou conversar à parte com outras celebridades. Paralelamente a tudo isto Rachilde escreve muito, ao ritmo de um romance por ano (além do trabalho regular de crítica na 1 O tempo, «esse grande escultor» (com permissão de Yourcenar) tirou a Rachilde todas estas suavidades, como pode avaliar-se pela imagem da página 4, que a transforma em megera de conto infantil.


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revista Mercure de France). Quando se entrega às suas ficções ninguém a vê, tomada por uma febre que a consome dia e noite até cair esgotada. Um mês de frenesi deixa-lhe o romance acabado no mais difícil da sua estrutura; depois regressa combalida ao mundo e retoma as rédeas de outras actividades que a absorvem — a crítica, o papel de mundana das letras — mas também inicia o mais demorado trabalho, polir o seu próximo romance. A comprida lista dos títulos que nos deixou é um espectáculo de insólita e subtil provocação. Alguns foram atrás referidos, mas lembramos outros que seriam em português: A Animal, Nossa Senhora dos Ratos, Os Fora do Natural, A Hora Sexual, Madame Lydone Assassino, A Sangrenta Ironia, O Homem dos Braços de Fogo, As Volúpias Imprevistas… Depois de muitos anos de efervescente vitalidade, Rachilde envelheceu e ficou com a pena pesada. A morte de Alfred Valette põe um fim aos tempos áureos da Mercure de France; os desgastes da sua energia na escrita foram compensados com a estratégia de escrever «a meias», amparando a obra de novatos com a grande prática do seu saber-contar, com os fulgores que ainda lhe acendiam a imaginação. Assinou romances a par com um tal André David, com um Jean-Joe Lauzach, e ainda (em 1923) com o fascista-monárquico português Homem Cristo Filho, que ficou a dever-lhe a sua parte de autoria em dois romances, Le Parc du mystère e Au Seuil de l’enfer, colaboração de uma mulher já sexagenária com um jovem de trinta e um anos de idade. Rachilde morreu velha de noventa e três anos, e cansada de tanto escrever.


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… o horror fúnebre do guarda de O Farol de Amor… André Gide

O Farol de Amor foi publicado pela primeira vez em 1899 (esta edição segue o texto de 1916), e a autora não se iludiu ao tomá-lo como ponto importante da sua teia de ficções. Recebeu cartas que lhe cantaram a rendição de muitos leitores, felicitações que a adulavam na sua cátedra da Mercure de France. A recensão crítica é que foi menos entusiástica, como se fazia costume em relação às obras assinadas com o seu nome. A sua qualidade literária, tantas vezes estimável, sufocava atrás de temas de um rebuscado sensacionalismo. Há um testemunho pessoal desta fatalidade, publicado por ela própria na revista Mercure de France e, como era habitual, falando de si na terceira pessoa: Rachilde passa a justo título por romancista imoral porque não tem reconhecida religião de utilidade pública nem sentimentalismo mundano, e pouco se enternece com a fome, a sede e a pobreza, misérias normais. Não acham as famílias que o seu nome seja recomendável, e os seus melhores colegas das letras têm por costume dedicar-lhe um desprezo onde misturam uma certa deferência pelo seu «real talento». O público, esse, fascinava-se com o Farol de Amor, que encontrou percorrido por uma linguagem de oralidade naturalista de boa carreira na escola de Zola, rendida embora a uma sinfonia romântica recuperada, sentia-se, dos juvenis infernos de Victor Hugo no seu primeiro romance Han de Islande, e dos momentos mais bravios de Petrus Borel. O seu lado feiticista e necrófilo acrescentava a este quadro a «pimenta fim-de-século» que andava em Paris pelo ar.


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O farol de Ar-Men (no dialecto bretão, «O Rochedo») não é uma ficção e levanta-se à distância de oito milhas da ilha de Sein. Da sua construção resta uma fama de dificuldades técnicas só vencidas ao fim de um longo tempo perdido em lutas com a pedra e o oceano. Começou a funcionar com uma estreia de tempestades violentas, oito anos antes deste romance ter a primeira publicação, e os habitantes de Sein puseram-lhe o nome de Ar Vered Né, ou seja, O Novo Cemitério, devido aos inúmeros naufrágios que os seus fachos de luz não conseguiam evitar. A má celebridade destas ondas chegou a um provérbio bretão: «Os que vêem Sein, vêem o fim.» Dois anos depois de O Farol de Amor ser publicado, os Annales Médico-Psychologiques lembraram-se dele a propósito de Victor Ardisson, o necrófilo de Muy: «Ainda há pouco Rachilde, romancista com talento, abordou este tema. Tratava-se de um faroleiro que violava os cadáveres atirados pela tempestade ao seu rochedo. E é curioso que o tio Mathurin — o herói do romance — cortasse, como o necrófilo de Muy, a cabeça de uma vítima e a conservasse num lugar escondido e quase inacessível do farol, ao qual subia para ir vê-la e beijá-la [afirmação abusiva quanto ao beijo, acrescente-se aqui]. A ficção da romancista parece ter previsto a abominável realidade.» Este romance continua a impor-se como fabulosa ficção de ventos e ondas em fúria, de uma loucura em progressão que nos intromete num mundo de horror. O seu cenário central, um falo gigantesco e solitário, desafia o mar. O seu «fantástico realista» não sobrepõe formas imaginárias à realidade; perturba-a nos mais íntimos elementos saturando-a com os hálitos de uma respiração misteriosa que transporta até à luz os seus lados ocultos.


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O farol, símbolo fálico, e as águas, símbolo matricial feminino, passam em Rachilde por uma relação demente; e o que apreendemos como metáfora neste Farol de Amor resulta em grande parte de uma escolha nada inocente de palavras, de uma sugestão de cheiros e cores. A violência deste desvario é-nos denunciada com as febres de um sexo doente e de exacerbada misoginia: «O casamento com uma mulher traz sempre infelicidade», lê-se neste livro; casamento com uma mulher, para aquela época uma aparente redundância mas que é, afinal, uma visão de vida assombrada pela grande melancolia do necrófilo. A.F.


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i. Quando me apresentei pela terceira vez às autoridades do porto, mandaram-me entrar no gabinete sem me deixar muito tempo esquecido nos danados daqueles bancos que a minha memória não esquece. Ainda vejo a sala pintada de amarelo e cheia de moscas varejeiras a zumbir à roda dos tinteiros. O calor era muito, apesar da janela aberta ao ancoradouro e aos barcos que gingavam como patas quando eram batidos por um vento oeste. Havia lá dois Senhores, um deles pequeno e seco, o outro gordo e atarracado. O gordo e atarracado usava um boné pródigo em galões de ouro. O pequeno e seco olhava para as suas unhas. Antes de falarem, mexeram na papelada e observaram-me de baixo para cima como às pipas quando queremos ver se elas pingam. E eu continuava ali de pé, todo teso. Cheio de medo. Aquilo até me lembrava o dia do meu primeiro embarque. Não conseguia desviar os olhos dos meus sapatos engraxados há pouco e que me subiam até aos tornozelos. Por sorte, aqueles senhores ficaram bem impressionados com a forma como eu me comportava. Vestia a cota nova de ajudante, castanha e


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bem luzidia, calças de pano com joelheiras de couro, e ainda há pouco comprara num bazar de Brest uma linda gorra azul com borla enorme, do tamanho de uma couve. Os senhores mexiam, tornavam a mexer na papelada, e eu a dar voltas, a dar voltas à minha gorra… sabe-se lá o tempo que aquilo ia demorar; mas por fim o gordo e atarracado, o que tinha os galões, o chefe do gabinete, disse: — O Jean Maleux é você? — Tenho essa graça — respondi muito delicado, porque naquela tasca não era prudente falarmos assim como nos dava. — Escolhemo-lo, meu rapaz, entre dez concorrentes, espero não haver ocasião para nos arrependermos da escolha. Foi colocado no Ar-Men. Ah! Afinal era para o Ar-Men! Respirei como se me tirassem um peso de sessenta quilos de cima do estômago. Eu fazia lá ideia do que me esperava. A coisa agradava-me tanto, que era de dançar a giga à frente deles. Tinham terminado o daqui-para-ali, as aprendizagens. Sentia-me instalado, seguro de mim numa propriedade do Estado, lugar respeitável que me traria sossego. — Vejo que nem trinta anos fez, que é novo… — diz-me assim o pequeno e seco. E, sem tirar os olhos das unhas, afagava a barba. Parecia que procurava piolhos, para os matar. — A gente envelhece — respondi como alguém que quisesse gracejar. — No Ar-Men as pessoas envelhecem depressa — disse o chefe galonado, que não se riu, talvez consciente do que afirmava. — Só o admitimos por causa do outro que lá vive, que vai


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ficando gasto. Apesar da experiência, precisa de um pândego qualquer que o ajude. O Ar-Men só se aguenta se tiver abastecimento de reserva. Ó meu corajoso! Sabia isto, por acaso? Eu cá não sabia nada, a não ser que estava contente. — Oh! — digo eu assim, muito honesto. — Plantado no mar ou de passeio em cima dele, é sempre a mesma salmoura. Trabalheiras não me assustam, e mais duras do que esta já cá cantam algumas. — Creio que andou nas escalas do Levante, como fogueiro do capitão Dartigues? — Andei, sim senhor. E pus-me ali, todo empertigado. Ele vasculhava os meus papéis pessoais, vi-lhe na manápula o certificado de habilitações e a carta do meu último embarque. — Parece que é refilão, você… Pronto! Só faltava isto… a história da minha zaragata com o segundo-maquinista naquele famoso dia em que eu tinha um bem visível grão na asa. Pensarmos que um dia de estroinice chega para sermos censurados toda a vida. — Quando me meto um pouco na pinga é possível, meu comandante. Mas não chegámos mais longe do que uns açoites de corda. E o meu camarada reconheceu que estava tão bêbado como eu. Bolas! Vínhamos de longe, e compreende como é… íamos ver mulherio. Um homem fica sempre afogueado, com sua licença. Pregaram comigo no porão mais tempo do que eu merecia. (E logo de seguida, a morder a língua:) Foi justo, lá isso… — Bem, bem — disse o pequeno e seco. — Tome lá os papéis. Estão em ordem. Vai amanhã para o seu posto. E antes


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que me esqueça: vai substituir o companheiro do velho Maturin Barnabas, que morreu… de acidente e foi preciso abrir um pequeno inquérito. Mas o velho safou-se às mil maravilhas. É uma excelente criatura, digo-lho já para ficar a sabê-lo. E alusões ao tal… acidente, nenhumas. Ouviu? — Agradeço-lhe a atenção — respondi, confuso. Podem acreditar que eu nessa altura não compreendia nada daquilo. Que diabo tinha eu a ver com as manigâncias em que o velho andava metido? Chegado há pouco dos Chineses, o que eu não queria era voltar a cabotar. Sete anos de espirros no paiol do carvão, eram de deixar um homem farto. Estava na altura de assentar arraiais em mar firme. Ah! Sorte marreca! Não me ter enforcado no último mastro do último navio cuja caldeira acendi. Depois começaram as conversas do salário. Uma bonita soma para trabalhar tão pouco. Eu devia ter desconfiado logo. Mandaram-me fechar bem a trouxa da roupa, como se eu fosse dar um mergulho com ela, e no dia seguinte estar pronto à segunda salva do forte. Atira-me assim o pequeno e seco, num tom de mel e vinagre: — Nada de vadiagens, entendido? Histórias de saias nenhuma, meu rapaz. Queremos pessoas sérias, a quem a vida ensinou o bastante para não se lamentarem. Tem toda a consciência da sua responsabilidade, não tem? Eu tinha lá reflectido, desde que chegara ao mundo! Os mestres estavam a chatear-me, que se fartavam, com as suas recomendaçõezinhas. Eram como o zumbido das varejeiras, até davam sono. Como se eu parecesse alguma menina. Também me fizeram notar que eu era um privilegiado, escolhido num


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xiii. Como também tenho medo de me esquecer do alfabeto, pus-me a escrever no grande livro do farol a minha história. Menciono os navios perdidos, os barcos de pesca que vão passando com a barriga para o ar, todas as recordações de amor que soçobram, uma a uma, na tristeza eterna. Apesar de tudo, lá vou cumprindo o meu dever. Estou de pedra e cal no meu posto. A ideia fixa do dever é o começo da loucura. … E doido estou, porque já não espero mais nada, absolutamente mais nada… nem mesmo a formosa afogada da maré alta!…


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Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, Georges Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A papisa Joana — segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha


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O meu corpo e eu, René Crevel Manon Lescaut, Padre Prévost O duelo, Joseph Conrad A felicidade dos tristes, Luc Dietrich Inferno, August Strindberg Um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille Os ombros da marquesa, Émile Zola O livro branco, Jean Cocteau Verdes moradas, W.H. Hudson A guerra do fogo, J.-H. Rosny Aîné Hamlet-Rei (Luís II da Baviera), Guy de Pourtalès Messalina, Alfred Jarry O capitão Veneno, Pedro Antonio de Alarcón Dona Guidinha do Poço, Manoel de Oliveira Paiva Visão invisível, Jean Cocteau A liberdade ou o amor, Robert Desnos A maçã de Cézanne… e eu, D.H. Lawrence O fogo-fátuo, Drieu la Rochelle Memórias íntimas e confissões de um pecador justificado, James Hogg Histórias aquáticas — O parceiro secreto, A laguna, Mocidade, Joseph Conrad O homem que falou (Un de Baumugnes), Jean Giono O dicionário do diabo, Ambrose Bierce A viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco O caso Kurílov, Irène Némirowsky A costa de Falesá, Robert Louis Stevenson Nova Safo — tragédia estranha, Visconde de Vila-Moura Gaspar da Noite — fantasias à maneira de Rembrandt e Callot, Aloysius Bertrand Rimbaud-Verlaine, o estranho casal O rato da América, Jacques Lanzmann As amantes de Dom João V, Alberto Pimentel Os cavalos de Abdera e mais forças estranhas, Leopoldo Lugones Preceptores – Gabrielle de Bergerac seguido de O discípulo, Henry James O Cântico dos Cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema, Ernest Renan Derborence, Charles Ferdinand Ramuz O farol de amor, Rachilde Diário de um fuzilado, precedido de Palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière


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Rachilde, «O Farol de Amor»  

O farol, símbolo fálico, e as águas, símbolo matricial feminino, passam em Rachilde por uma relação demente; e o que apreendemos como metáfo...

Rachilde, «O Farol de Amor»  

O farol, símbolo fálico, e as águas, símbolo matricial feminino, passam em Rachilde por uma relação demente; e o que apreendemos como metáfo...