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Pedro Valdez Cardoso, «História da Vida Privada»

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Pedro Valdez Cardoso HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA

texto | text

João Miguel Fernandes Jorge

D O C U M E N TA


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PA Í S LO N G Í N QU O João Miguel Fernandes Jorge

Telefona, se precisares de mim Pedro Valdez Cardoso, «Simulacro», 2004

Pedro Valdez Cardoso expõe na Galeria 111, no Outono de 2017, um conjunto alargado de obras — desenhos, objectos, colagens, bordados — de 1993 a 2017. São peças que foram em grande parte realizadas entre projectos de maior dimensão. Ocorreram, por vezes, como uma meditação, com um carácter breve — com a brevidade do risco, do sombreado, da mancha, da coloração ou do sujo, que é comum encontrarmos num desenho. Muitos dos trabalhos e instalações de maior vastidão podem encontrar nestas obras, que surgiram a par, uma expressão que é a sua síntese ou que mesmo os amplifica. O que nos é mostrado traduz-se por peças, num geral, de formatos reduzidos, cuja feitura foi muito imediata. Assinalam, nesta ou naquela outra peça, instantes de âmbito pessoal — mas haverá alguma obra que, do seu todo, consiga rasurar a biografia, os traços de uma vida? Estas peças escolhidas guardam momentos que serviram de reflexão para as exposições de grande escala. Trazem consigo um valor de referência preliminar, pois antecederam ou acompanharam e viram e assistiram à feitura de outras obras. Estiveram no atelier fazendo parte e a participarem de uma paisagem mais vasta. A sua mundividência é cartográfica — termo tão caro à obra de Valdez Cardoso — desenhada e inscrita entre territórios e confins, centro e margens, teatro e, mesmo, simbologias do sonho. Foram também elos que desencadearam projectos expositivos, a par dos múltiplos modos como a obra se foi ampliando, na acentuação ora de cariz figurativo ora valendo-se de uma relação em que o plano conceptual se sobrepõe num jogo de formas e de matérias que percorre criativamente, no espaço de uma única escultura, o minimal e o barroco. Como o consegue? Abrindo e encerrando o objecto na temporalidade de uma encenada narração. É neste seu modo de contar que entram, por vezes, muitos elementos íntimos; e só o próprio artista nos poderia dizer onde e quais esses actos do seu viver são o sangue que correu de um golpe ou da morte de alguém, amado ou não amado, que lhe foi próximo. Estas peças não têm, de um modo necessário, que ser entendidas em função das instalações de grande dimensão que executou, mesmo que as olhemos como pontos que

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as mediaram. O seu ritmo dilata-se para além desses limites, mesmo que nelas possamos reconhecer, algumas vezes, um carácter fragmentário e um desígnio que as possa inscrever, por proximidade, na margem deste ou daquele outro projecto. São objectos que deslizaram do pensamento, da sensibilidade e da factura manual de Pedro Valdez Cardoso para uma imediata realização. Tiveram um agarrar de existência semelhante a um veloz desenho — um tanto sujo, esborratado nas margens, desvalorizando os mecanismos da ordem, entrando na noite do mundo como se visionassem um fantasma. No entanto, as suas formas, as matérias em que se nos mostram são bem reais. Traz consigo, esta exposição, uma intenção antológica, que se prolonga no modo como se deixa percorrer, também, por palavras e frases grafitadas nas paredes da galeria, vindas dos títulos de anteriores trabalhos e exposições. Plásticos, sob a forma de alguidares, ossos, vegetais… Madeira, sisal, cartão, linhas, cartolina, tecido, silicone, papel fotográfico, mapas, borracha, papel-manteiga, esferográfica, cordão, fita adesiva, papel químico, cimento, couro, latas de alumínio, cerâmica, cabelo artificial, porção de rocha, vidro, pano turco, esferovite, tela, napa, marcadores… Materiais por onde se desenvolve e amplifica a criatividade na obra de Pedro Valdez Cardoso. E estarei longe de os ter esgotado. Eles são o instrumento por onde a sua arte percorre, interiorizando, em cada objecto que nos propõe, pensamentos sobre a conexão entre os instintos e um psiquismo que não se querem limitados nem pelo tempo nem pelo espaço e que evocam um aparentemente perdido mundo real. O seu país longínquo percorre, através da matéria pobre que lhe dá expressão, um colorido plástico de pulsões. Assim, «Simulacro» [impressão digital sobre papel fotográfico], «A Cabeça de S. João Baptista», 2008 [impressão digital sobre papel fotográfico], «Tears», 2016 [mapa mundo em papel, cartão e linha], «Não digas nada», 2004 [recorte sobre fotografia] ou «Servants», 2012 [frigideiras, tecido, cartão, pasta de enchimento e linha] são, por exemplo, um descer de uma memória até à representação do objecto criado, que é simultaneamente denunciadora de uma psicologia profunda de sentidos e sentimentos que se vão relacionar de modo directo com um discurso de temor. Mas país longínquo é tudo menos um território perdido nos confins da imaginação do seu autor. O que guarda e o que oferece este país longínquo? Constata, através das obras que chegam até nós, uma ligação a um constante processar histórico e ao seu continuado movimento. Há no trabalho de Pedro Valdez Cardoso, para além de uma imediata visão antropológica, muito de uma pesquisa que se exerce dentro e fora do autor e que se aproxima do trabalho de um arqueólogo. É uma forma de mobilidade que tem consigo conflito e conquista, contrato, aliança e também o tempo sereno de uma pausa, de um descanso. Evoca-se nesse sentido de repouso, de vagar, de trégua e mesmo de encantação, enquanto serenidade e sono, uma certa ligação à geografia, ao território, ao chão, à paisagem; e podemos assim aproximar-nos de «Desenho de Campo», 2013 [papel químico gra-

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D I S TA N T CO U N T RY João Miguel Fernandes Jorge

Telefona, se precisares de mim [Call me, if you need me] Pedro Valdez Cardoso, «Simulacro», 2004

Pedro Valdez Cardoso brings to Galeria 111, in the Autumn of 2017, a large selection of works — drawings, objects, collages, embroideries — from 1993 to 2017. These pieces were mostly created between larger-scale projects. They emerged, sometimes, as a brief meditation — with the same brevity as those lines, shadings, patches, colours or smears we usually find in a drawing. Many of his vaster works and installations can find in these pieces, which appeared alongside them, an expression that synthesises or even amplifies them. What is shown to us consists of generally small-sized, quickly-made pieces. Certain of them display moments of a personal nature — but can any artwork fully rid itself of biography, of a life’s traces? These selected pieces preserve moments that acted as reflections toward the largescale exhibitions. They act as preliminary references, because they preceded or accompanied and saw and witnessed the making of other works. They were in the studio, being a part of a broader landscape and taking part in it. Their world view is cartographic — a most important word in Valdez Cardoso’s work —, drawn and inscribed among territories and confines, centre and margins, the theatre and symbology of dreams. They were also links that triggered exhibitive projects, alongside the multiple ways in which the artist’s body of work grew over time, now highlighting figuration, now exploring a relationship in which the conceptual plane takes the upper hand, in a play of forms and materials that creatively encompasses, within the scope of a single sculpture, both minimalism and baroque. How does he manage that? By opening and closing the object within the temporality of a staged narration. His way of telling sometimes features many intimate elements; and only the artist himself could tell us where and which of these actions from his life experience are blood drawn by a blow or by the death of someone, beloved or not, who was close to him. These pieces do not necessarily have to be looked at in connection with the largesize installations he has created, even if we look at them as points mediating the latter. Their cadence expands beyond these limits, even if we can sometimes recognise in them a fragmentary quality and a purpose that may inscribe them, by approximation, on the

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vicinity of some other project. These objects have glided out of Pedro Valdez Cardoso’s thought, sensibility and handcraft into immediate execution. They took hold of existence like a quick drawing — slightly dirty, smudged on the edges, scorning the mechanics of order, entering the night of the world as though envisioning a ghost. However, the forms and materials in which they disclose themselves to us are quite real. This exhibition’s anthological intent extends to the way it offers the gallery walls to the inscription of words and sentences taken from the titles of previous works and exhibitions. Plastics, shaped as basins, bones, vegetables… Wood, sisal, cardboard, threads, construction paper, fabric, silicone, photographic paper, maps, rubber, waxed paper, ballpoint pen, cord, adhesive tape, carbon paper, cement, leather, aluminium cans, ceramic, artificial hair, a bit of rock, glass, terry cloth, expanded polystyrene, canvas, synthetic leather, markers… These are the materials whereby creativity is developed and amplified in Pedro Valdez Cardoso’s work. And I am probably far from having listed them all. They are the instrument that allows his art to interiorly explore, in each object he brings before us, thoughts about the connection between instincts and a psyche that should not be limited by neither time nor space in their evocation of a seemingly lost real world. For instance, “Simulacro” [digital print on photographic paper], “A Cabeça de S. João Baptista”, 2008 [digital print on photographic paper], “Tears”, 2016 [paper world map, cardboard and thread], “Não digas nada”, 2004 [cut-out on photograph] or “Servants”, 2012 [frying pans, fabric, cardboard, filler paste and thread], all exemplify the descent from a memory to the representation of the created object, which reveals a deep psychology of senses and feelings that directly relates to a discourse of fear. But distant country is everything but a territory lost in the depths of its author’s imagination. What does that distant country hold, and what does it offer us? It notices, through the works that come to us, a connection to a constant historic processing and to its continuous movement. Besides its immediate anthropological vision, the work of Pedro Valdez Cardoso largely consists of a research that takes place both inside and outside the author and is highly akin to the work of an archaeologist. It is a form of mobility that carries within itself conflict and conquest, contract and alliance, as well as the serene time of a pause, of a rest. This feeling of repose, slowness and truce, of incantation even, as serenity and sleep, suggests a certain connection to geography, to the territory, to the soil, to the landscape; in these terms, we approach “Desenho de Campo”, 2013 [inscribed carbon paper and adhesive tape on paper]. This “field drawing” is a piece that conveys to us a feeling of transformation, since that “field”, ready to receive a drawing, also presents itself as an agricultural terrain that rests between two different sowing cycles. It is a field that lays fallow, ready to receive whatever may be sown in it and ready for the future harvest of its yield. It is in this manner that Valdez Cardoso manages to capture life experiences that have gone missing, even the traces of a psyche — of a collective unconscious, if we wish — and transport them into his objects.

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OBRAS WORKS


1. Sem título, 1993 Técnica mista sobre papel Mixed media on paper 33 × 12 cm

2. Sem título, 1993 Técnica mista sobre papel Mixed media on paper 33 × 12 cm

3. Sem título, s.d. Marcador e esferográfica sobre página de revista Marker and ballpoint pen on magazine page 28 × 21 cm


4. Sem título, s.d. Esferográfica sobre papel Ballpoint pen on paper 29,7 × 21 cm

5. Sem título, s.d. Caneta de acetato sobre papel Acetate pen on paper 21 × 29,7 cm

6. Sem título, s.d. Caneta de acetato sobre papel Acetate pen on paper 29,7 × 21 cm


7. Sem título, s.d. Caneta de acetato sobre papel Acetate pen on paper 29,7 × 21 cm

8. Untitled (In the Heat of the Night), s.d. Texto impresso sobre papel Printed text on paper 27,5 × 21 cm

9. Sem título, s.d. Caneta sobre papel Pen on paper 19,5 × 20,5 cm


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262. Untitled (Fall), 2017 Papel, linha e tinta spray Paper, thread and spray paint 120 × 92 cm

263. Ficha Técnica, 2017 Madeira e tinta spray Wood and spray paint 30 × 30 × 1,5 cm

264. Pata, 2017 Linhas sobre luva de tecido Threads on fabric glove 45 × 19 × 2 cm


265. Templo, 2017 Areia e cola branca sobre cartão Sand and white glue on cardboard 6 × 19 × 41 cm

266. Untitled (An Artist Is not a Label), 2017 Impressão digital sobre papel fotográfico Digital print on photographic paper 69,5 × 46,5 cm Edição única Single print

267. Sem título, 2017 Impressão digital sobre papel fotográfico Digital print on photographic paper 30 × 21 cm Edição única Single print


268. Untitled (He Is a Girl Now), 2017 Batom sobre letras de madeira e papel Lipstick on wood lettering and paper 70 × 50 cm

269. Monstro, 2017 Bordado sobre saco de plástico Embroidered plastic bag 50 × 29 × 12 cm

270. Black Swan, 2017 Silicone líquido sobre cimento e poliuretano Liquid silicon on cement and polyurethane 36 × 39 × 20 cm


271. Pinóquio, 2017 Tinta sobre plástico Paint on plastic 46 × 14 × 13,5 cm

272. Sem título (da série | from the series A Primeira Pedra), 2017 Borracha líquida sobre plástico Liquid rubber on plastic 37 × 10 × 7,5 cm

273. Tigela, 2017 Fita adesiva de papel, alumínio e café Paper adhesive tape, aluminium and coffee diâmetro 25 × 12 cm


274. Worker, 2017 Silicone liquido, borracha, plástico, couro e poliuretano Liquid silicon, rubber, plastic, leather and polyurethane 52 × 20 × 30 cm

275. Olho, 2017 Recorte sobre batata artificial Cut-out artificial potato 5,5 × 11 × 7 cm Colecção particular Private collection

276. Sem título, 2017 Moldes de dentes em gesso Plaster teeth cast 12 × 6 × 6 cm


Pedro Valdez Cardoso Lisboa, 1974. Vive e trabalha em Lisboa. Expõe regularmente desde 2001, tendo participado em inúmeras exposições individuais e colectivas em Portugal e no estrangeiro. A obra que tem vindo a desenvolver, com um maior foco na escultura e na instalação, centra-se sobretudo em problemáticas relacionadas com a identidade (social, sexual e cultural) e questões pós-coloniais. Encontra-se representado em diversas colecções públicas, das quais se destacam: Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa; Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, Açores; Caixa Geral de Depósitos, Lisboa; Fundação Carmona e Costa, Lisboa; DA2 – DOMUS ARTIUM 2002, Salamanca, Espanha; IVAM – Institut Valencià d'Art Modern, Valência, Espanha; MUDAS - Museu de Arte Contemporânea da Madeira, Calheta, Madeira; Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto; Fundação PLMJ, Lisboa; MACUF – Museo de Arte Contemporáneo Unión Fenosa, A Coruña, Espanha. Lisbon, 1974. Lives and works in Lisbon. Since 2001, his work has been regularly featured in many solo and group shows, in Portugal and abroad. His output, largely centred in sculpture and installation, tends to deal with subjects connected to (social, sexual and cultural) identity and post-colonial issues. Several public collections feature his work; these include: Fundação Calouste Gulbenkian, Lisbon; Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, Azores; Caixa Geral de Depósitos, Lisbon; Fundação Carmona e Costa, Lisbon; DA2 – DOMUS ARTIUM 2002, Salamanca, Spain; IVAM – Institut Valencià d'Art Modern, Valencia, Spain; MUDAS – Museu de Arte Contemporânea da Madeira, Calheta, Madeira; Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto; Fundação PLMJ, Lisbon; MACUF – Museo de Arte Contemporáneo Unión Fenosa, A Coruña, Spain.


Este livro foi publicado por ocasião da exposição Pedro Valdez Cardoso: História da Vida Privada que teve lugar na Galeria 111, Lisboa entre 11 de Novembro e 30 de Dezembro de 2017 This book was publish on the occasion of the exhibition Pedro Valdez Cardoso: História da Vida Privada that took place at Galeria 111, Lisboa from November 11 until December 30, 2017

Agradecimentos | Acknowledgements Maria da Graça Carmona e Costa Fundação Carmona e Costa Arlete Alves da Silva Galeria 111 Galeria Caroline Pagès João Miguel Fernandes Jorge Manuel Rosa Nuno Moreira Inácio Patrícia Valdez Rui Brito


© Pedro Valdez Cardoso, 2017 Texto | Text © João Miguel Fernandes Jorge © Sistema Solar Crl (chancela Documenta) Rua Passos Manuel, 67-B 1150-258 Lisboa

Tradução | Translation : José Gabriel Flores Revisão | Proofreading António d’Andrade Créditos fotográficos | Photographic credits : Nuno Moreira Inácio Pedro Valdez Cardoso Daniel Malhão

Dezembro | December, 2017 ISBN 978-989-8902-00-9 Depósito legal | Legal deposit : 435809/17 Pré-impressão, impressão e acabamento | Pre-press, printing and binding : Gráfica Maiadouro SA Rua Padre Luís Campos, 586 e 686 (Vermoim) 4471-909 Maia Portugal


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Pedro Valdez Cardoso, «História da Vida Privada» by Sistema Solar - Documenta - Issuu