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a poio Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Cartoon Xira’2017 3 de março a 8 julho de 2018 Fábrica das Palavras, Vila Franca de Xira www.cm-vfxira.pt

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oscar grillo desenhos desordenados jumbled drawings comissariado e coordenação editorial commissioner’s office and publishing coordination

António Antunes

DOCUMENTA

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Celebramos com esta edição da Cartoon Xira, o décimo ano de internacionalização desta grande exposição dedicada ao Cartoon, ao Humor e à Liberdade de Expressão. Oscar Grillo é o nosso convidado internacional deste ano, presença que muito nos honra e que representa uma mais-valia que ultrapassa largamente as fronteiras do Município de Vila Franca de Xira. Nascido em Buenos Aires em 1943, com raízes lusitanas, já que a sua mãe era portuguesa, é a primeira vez que Oscar Grillo expõe em Portugal. Dedicado à pintura, à ilustração e à animação desde os 16 anos de idade, o seu trabalho vive da espontaneidade e da audácia. Residente em Londres desde 1971, continua a trabalhar em ilustração e pintura, perseverando no objetivo de não ter qualquer «estilo» e despojando-se de quaisquer rótulos ou classificações que representem uma normalização do seu trabalho. É com muita satisfação que Vila Franca de Xira acolhe este conjunto de trabalhos de Oscar Grillo – todos eles originais –, o que valoriza ainda mais a sua presença nesta exposição. A Câmara Municipal de Vila Franca de Xira orgulha-se de ter na Cartoon Xira um evento de características únicas no panorama cultural do nosso País, que ao longo de todas estas edições tem vindo a divulgar o que de melhor se faz, nacional e internacionalmente, no âmbito do desenho humorístico.

With this edition of Cartoon Xira, we celebrate the tenth anniversary of the internationalization of this great exhibition dedicated to Cartoon, Humour and Freedom of Expression. Oscar Grillo is our international guest this year, a presence that honours us and represents an added value that goes far beyond the borders of the Municipality of Vila Franca de Xira. Born in Buenos Aires in 1943, with Portuguese roots, since his mother was Portuguese, it is the first time that Oscar Grillo exhibits in Portugal. Dedicated to painting, illustration and animation since the age of 16, his work thrives on spontaneity and boldness. Based in London since 1971, he continues to work in illustration and painting, pursuing the goal of not having any “style” and stripping himself of any labels or classifications that standardize his work. It is with great satisfaction that Vila Franca de Xira welcomes this set of works by Oscar Grillo, all of which are original, further enhancing their presence in this exhibition. The Town Council of Vila Franca de Xira is proud to have Cartoon Xira as a unique event in the cultural sphere of our country, which, throughout all these editions, has been disseminating the best national and international cartoons.

Alberto Mesquita

Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Mayor of Vila Franca de Xira

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Nota biográfica Biography

OSCAR nasceu em Lanús, Província de Buenos Aires, em 1943. Depois de estudar na Escola Pan-Americana de Artes, começou a trabalhar em animação aos 16 anos. Ao mesmo tempo, a sua carreira aventurou-se na publicação de desenhos humorísticos para revistas satíricas, como a Tía Vicenta, na ilustração de livros e na pintura. Em 1969, viajou para a Europa, onde trabalhou como ilustrador em Espanha e Itália antes de se radicar em Londres, em 1971, onde retomou a sua carreira como animador. Durante os anos seguintes, Oscar dirigiu e animou inúmeros anúncios publicitários, bem como curtas-metragens animadas, incluindo Seaside Woman, com música de Linda e Paul McCartney, que receberam a Palma de Ouro em Cannes em 1980. Nesse mesmo ano, Oscar fundou a Klactoveesedstene Animations com Ted Rockley. O seu trabalho na área da ilustração e da pintura continua e, ao longo dos anos, realizou exposições na Argentina, em Espanha, Itália, França e Reino Unido, além de publicar os seus desenhos diariamente em vários blogues e no Facebook.

OSCAR was born in Lanús, Buenos Aires, Argentina, in 1943. Having attended Pan-American School of Art at the age of 16 he began working in animation and his career was broadened into publishing cartoons in satirical magazines, such as Tía Vicenta, illustrating books and painting. After moving to Europe in 1969, he illustrated books in Spain and Italy before settling in London, where his career as animator re-started in 1971. During the ensuing years Oscar directed and animated countless commercials and also some animation shorts. He designed, directed and animated Seaside Woman with music by Linda and Paul McCartney, which won the Palme d’Or at Cannes in 1980. That same year Oscar and Ted Rockley created Klactoveesedstene Animations. Oscar continued his work as illustrator, painter – he held exhibitions in Argentina, Spain, Italy, France and United Kingdom – and, more recently, blogger and posts daily works in Facebook.

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A título de prólogo By way of prologue

Supõe-se que os catálogos de exposições ou monografias devem ser escritos por um amigo distante do expositor, que o conhece muito mal e pouco e não percebe nada de arte; no meu caso, vou tentar fazer o que Walt Whitman fez no seu magnífico poema e vou cantar-me e celebrar-me a mim mesmo. Eu também não percebo nada de arte e desconheço-me o suficiente para poder escrever sobre a minha obra gráfica com autoridade absoluta.

Exhibitions catalogues or monographs are supposed to be written by a distant friend of the exhibitor who hardly knows him and knows nothing about art; in my case, I will try to do what Walt Whitman did in his magnificent poem and I will celebrate myself and sing myself. I myself know nothing about art and I know so little about myself as to be able to write about my graphic work with absolute authority.

Nasci em Buenos Aires, Argentina, em 1943, filho de uma senhora portuguesa e de um pai argentino, filho de calabreses. No meu bairro, Villa Industriales, as ruas eram de terra batida e ficavam lamacentas quando chovia. Quando o sol raiava e o quintal da minha casa começava a secar, escolhia um pedacinho de arame enferrujado e desenhava no chão intermináveis histórias em quadradinhos, que acompanhava com sons e resmungos, que eram a banda sonora das minhas aventuras gráficas. Recordo que as histórias começavam sempre com a partida de uma nave espacial e a sua chegada a um planeta dominado por um déspota cruel que submetia a tripulação a terríveis torturas. Claro, as minhas fantasias plagiavam as aventuras de Flash Gordon da série Republic, que via no cinema Las Flores, na rua Coronel D’Elia.

I was born in Buenos Aires, Argentina, in 1943, to a Portuguese mother and an Argentine father whose parents were from Calabria. In my neighbourhood, Villa Industriales, the streets were dirt roads and got muddy when it rained. When the sun came out and my backyard started to dry out, I would pick a piece of rusty wire and draw endless cartoons on the floor while I made noises and snorting sounds that were the soundtrack to my graphic adventures. I remember that stories always began with a spaceship taking off and landing on a planet dominated by a cruel despot who subjected the crew to terrible torture. Of course, my fantasies plagiarised Flash Gordon’s adventures in the Republic serials that I saw in the Las Flores cinema on Colonel D’Elia Street.

Nessa altura, tinha quatro ou cinco anos de idade. Às terças-feiras, os meus pais compravam uma revista «cor-de-rosa» e de crónica cinematográfica chamada Antena e também El Pato Donald (O Pato Donald), ao qual, sob a censura antiestrangeira do governo, fora acrescentado o subtítulo El Pato Donaldo y otras historietas (O Pato Donaldo e outras

I was four or five years old at the time. On Tuesdays, my parents would buy a film chronicle and “gossip” magazine called Antena and also El Pato Donald (Donald Duck) which, under the Government’s anti-foreign censorship, was complemented by the subtitle El Pato Donaldo y otras historietas (Donaldo Duck and Other Cartoons). I was thrilled by the drawing

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histórias em quadradinhos). Era apaixonado pelos desenhos das histórias em quadradinhos do Mickey e do Donald; descobri mais tarde que os meus cartoonistas favoritos eram Carl Barks e Floyd Gottfredson. O meu tio António era alguns anos mais velho do que eu e comprava mais revistas, humorísticas e de aventuras. As visitas à casa da minha avó eram um festival de leitura. Eu subia ao telhado com uma coleção de revistas e, naquela solidão ensolarada lia, horas a fio, todo o tipo de histórias; as mais memoráveis eram as de Flash Gordon, Dick Tracy, Mandrake o Mágico, Li’l Abner e o Capitão Marvel. Superman e Batman apareceram mais tarde, com as revistas mexicanas da Editorial Novaro.

of Mickey and Donald cartoons; I later found out that my favourite cartoonists were called Carl Barks and Floyd Gottfredson. My uncle António was a few years older than me and bought more comic and adventure magazines. Visits to my grandmother’s house were a reading festival. I would go up to the roof with a collection of magazines and read all sorts of stories for endless hours in that sunny solitude; the most memorable were those of Flash Gordon, Dick Tracy, Mandrake the Magician, Li’l Abner and Captain Marvel. Superman and Batman appeared later with the Mexican Editorial Novaro magazines.

Na casa do vizinho do outro lado da rua tive a surpresa de ver pela primeira vez a revista Chiquitos, com as belas e sofisticadas ilustrações infantis de alguém que mais tarde vim a descobrir ser Juan Angel Cotta. Os desenhos deste mestre eram estilizados e angulares e faziam-me lembrar principalmente os desenhos animados que vira em Las Flores e que me fascinavam e hipnotizavam: um era sobre um menino que não podia falar e dizia apenas “Boing Boing” (Gerald McBoing-Boing da UPA) e o outro era sobre uma menina rebelde numa escola francesa (Madeline); os dois filmes eram produzidos pela UPA e realizados por Bobbe Cannon. Ambos os acontecimentos me levaram a consultar uma enciclopédia que o meu pai tinha na biblioteca e ali, como num relâmpago lustroso, apareceu Pablo Picasso e a sua pintura L’Aubade. Tudo misturado, começou a fazer sentido para mim. A realidade podia ser vista de diferentes formas: os ângulos e as fraturas de Cotta, as animações da UPA e as desconstruções de Picasso falavam-me com a mesma voz, eram reflexos num espelho quebrado que ainda refletia a realidade. A figura deitada na cama em L’Aubade e os narizes triangulares dos filmes da UPA representavam seres humanos, tal como os cães vestidos de fato e gravata que povoavam os desenhos animados da Disney…

At our neighbour’s house across the street, I was surprised to see the Chiquitos magazine for the first time, with the most beautiful and sophisticated children’s illustrations by someone who I later learned was Juan Angel Cotta. This master’s drawings were stylized and angular and mostly reminded me of some cartoons I had seen in Las Flores, which I found fascinating and hypnotic: one was about a child who couldn’t speak and only said “Boing Boing” (UPA’s Gerald McBoing-Boing) and the other was about a rebellious girl in a French school (Madeline); these two films were produced by UPA and directed by Bobbe Cannon. Both events led me to look through an encyclopaedia that my father had in the library and there, as in a flash of lightning, Pablo Picasso and his painting L’Aubade appeared before me. All this began to make sense to me. Reality could be seen in different ways: Cotta’s angles and fractures, UPA’s animations and Picasso’s deconstructions spoke to me with one voice, they were reflexes in a broken mirror that were still reflecting reality. The figure lying on the bed of L’Aubade and the triangular noses of UPA’s films portrayed humans just like the dogs dressed in suit and tie that populated Disney cartoons... I’ll be brief: Since then, I knew what I was going

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Serei breve: desde então, eu sabia o que iria fazer quando fosse «grande». Ia desenhar figuras divididas em mil pedaços. Com Picasso ao ombro, acabei por descobrir Saul Steinberg, George Herriman, Miró e Klee. Estudei desenho humorístico na famosa Escola Pan-Americana de Arte, onde conheci Hugo Pratt, Alberto Breccia, Pablo Pereyra, Enrique Vieytes e, em particular, fui orientado pelo melhor professor de desenho do mundo, o mestre dos mestres: Carlos Garaycochea. Garaycochea era um homem de apenas trinta anos, mas que já havia quebrado a tradição do desenho humorístico com narizes grandes e olhos esbugalhados. Os desenhos de Garaycochea eram divertidos, mas evocavam graficamente a arte de Steinberg, Hokusai e Kandinsky. Na sua primeira aula, Garaycochea escreveu no quadro de giz os nomes dos cartoonistas que, na sua opinião, eram os melhores dessa altura. Era uma lista generosa e abundante. Ele sugeriu que copiássemos e procurássemos as obras dessas pessoas para nos familiarizarmos com as diversas tendências a que pertenciam e encontrarmos aquelas que se aproximavam da nossa maneira de ver as coisas… Naquela noite, andei a pé da escola até Talcahuano e Corrientes, onde havia um alfarrabista chamado El Rebusque. Lá, entre as pilhas de papéis, livros e revistas, encontrei uma pilha de Punch, a eminente e veterana publicação inglesa. As capas tinham cores vibrantes e belos desenhos. Ao folhear as suas páginas, fiquei agradavelmente surpreendido por encontrar muitos dos nomes na lista: Ronald Searle, Thelwell, Fougasse, Hoffnung, Bosc, Chaval, Sempé... Mas o que trespassou o meu cérebro e ficou cravado na minha consciência até hoje foi a obra de André François, nomeadamente as suas capas de cores. François trabalhava com energia, expressividade e, o que me parecia mais importante, sem afetação; linhas tracejadas desenhadas com a parte de trás de um pincel e tinta texturizada

to do when I “grew up”. I was going to draw figures broken into a thousand pieces. With Picasso on my shoulders, I ended up discovering Saul Steinberg, George Herriman, Miró and Klee. I studied comic illustration at the renowned Pan-American School of Art, where I met Hugo Pratt, Alberto Breccia, Pablo Pereyra, Enrique Vieytes and, in particular, I was guided by the best drawing teacher in the world, the master of masters: Carlos Garaycochea. Garaycochea was only thirty years old, but had already broken with the tradition of comic illustration with big fat noses and bulging eyes. Garaycochea’s drawings were fun but graphically evoked the art of Steinberg, Hokusai and Kandinsky. In his first lesson, Garaycochea wrote on the blackboard the names of the cartoonists who, in his opinion, were the best of that time. It was a generous and abundant list. He suggested that we copy and search for these people’s works to become familiar with the different trends they followed and find those which approached our way of seeing things... That night, I walked from the school to Talcahuano and Corrientes, where there was a second-hand bookshop called El Rebusque. There, among the piles of papers, books and magazines, I found a pile of Punch, the eminent and veteran English publication. The covers had vibrant colours, with beautiful drawings. Flicking through their pages, I was amazed to find many of the names on the list: Ronald Searle, Thelwell, Fougasse, Hoffnung, Bosc, Chaval, Sempé... But what pierced my brain and remained stuck in my consciousness to this day was the work of André François, especially his colour covers. François worked with energy, expressiveness and, what seemed to me more important, without affectation; broken lines drawn with the back of a brush and textured paint that extended over the edge of the lines. Wonderful, he drew like me, I who am incapable of making a drawing

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que transbordava as linhas. Que maravilha, ele desenhava como eu, eu que sou incapaz de fazer um desenho sem o encher de manchas e borrões. Que lufada de ar fresco! Que alívio saber que no mundo havia alguém que desenhava como eu fazia na lama do quintal da minha casa, em Lanús! Tornei-me fã da sua obra, ainda sou, e tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente. Comprei várias cópias de Punch e mostrei-as a Garaycochea que, para a aula seguinte, me trouxe um livro de François intitulado The Half Naked Knight, com o qual começou a guiar-me pelo caminho que eu escolhera. Foi assim, juntamente com os meus colegas de turma, reunidos num bar em longas discussões sobre quem era quem, ou o melhor, ou o não tão mau, que me fui forjando como jovem artista. Desta forma, conheci também outras coisas, o cinema da Nouvelle Vague, Fellini, Bergman, Norman McLaren, os livros de Dostoiévski, Roberto Arlt, Neruda. Os tangos de Aníbal Troilo, Pugliese, Salgan e Astor Piazzolla. As pinturas de Soutine, Picasso, Kate Kollwitz, Georg Grosz e De Kooning. Naquela altura, comecei a trabalhar num estúdio de desenhos animados, mas essa é uma história MUITO longa e a minha vida como animador deveria ser contada noutro lugar e a pessoas com muita paciência. Comecei a colaborar em revistas humorísticas e a ilustrar livros, a trabalhar como ilustrador publicitário, etc. Fiz tudo o que era possível fazer como artista gráfico para ganhar a vida e me divertir. Quero concentrar-me aqui no meu trabalho como desenhador livre... Com alguns amigos da escola e do café, alugámos um pequeno estúdio, onde nos encontrávamos depois do trabalho para conversar, tomar mate, ouvir tangos e, acima de tudo, desenhar. Um dos rapazes, Ángel Costa, tinha um pai talhante e trazia papel de embrulho. Era um papel barato e esponjoso, que deixava a tinta passar para a folha inferior

without filling it with blots and smudges. What a breath of fresh air! What a relief to know that in the world there was someone who drew as I did in the mud in the backyard of my house, in Lanús! I became a fan of his work… I still am and have had the pleasure of meeting him in person. I bought several copies of Punch and showed them to Garaycochea who, for the next class, brought me a book by François entitled The Half Naked Knight, with which he began to guide me along the path I had chosen. So this is how, along with my classmates, in long café discussions about who was who, or the best, or the not so bad, I developed as a young artist. This is how I also came to learn about other things, such as the films of La Nouvelle Vague, Fellini, Bergman, Norman McLaren, the books of Dostoyevsky, Roberto Arlt, Neruda. The tangos of Aníbal Troilo, Pugliese, Salgan and Astor Piazzolla. The paintings of Soutine, Picasso, Kate Kollwitz, Georg Grosz and De Kooning. At that time, I started working in a cartoon studio, but that is a VERY long story and my life as animator would have to be told elsewhere and for very patient people. I began to collaborate in cartoon magazines and to illustrate books, to work as an advertising illustrator, etc. I did everything that is possible to do as a graphic artist to earn a living and have fun. Now I want to focus on my work as a freehand cartoonist... With a few friends from school and the café, we rented a small studio where we would meet after work to chat, drink mate, listen to tangos and, above all, draw. One of the boys, Ángel Costa, had a butcher father and brought wrapping paper. It was a cheap and spongy paper that let the ink pass to the bottom sheet and filled it with streaks and blotches, but it was perfectly suited to draw as I liked. We used a very greasy and thick cheap ink that had a delicious toxic smell; viewed from a certain angle, the drawing shone like a jewel. The best

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e ficava cheio de linhas e manchas, mas era perfeitamente adequado para desenhar como eu gostava. Usávamos uma tinta barata, muito gordurosa e espessa, que tinha um delicioso cheiro tóxico; visto de um certo ângulo, o desenho brilhava como se fosse uma joia. A melhor coisa era que, com materiais tão baratos, não havia necessidade de nos preocuparmos com o que fazíamos. Desenhávamos muito livremente e sem qualquer outra pretensão que não fosse estar na companhia uns dos outros e ir «aquecendo o pulso». Creio que nunca mais experimentarei o prazer que sentia ao desenhar dessa forma, como quando o fazia no chão do quintal da minha casa, mas é uma sensação que procuro incessantemente. Todos os amigos tinham formas diferentes de desenhar, mas estávamos unidos pelo enorme entusiasmo com que o fazíamos. Visitávamos exposições de arte na rua Florida e pegávamo-nos por causa dos pintores e com os pintores. Nas vernissages, um dos amigos ficava no meio da galeria e gritava: «Isto é uma Merda!», o que, embora fosse grosseiro, na maioria das vezes era verdade. Não pertencíamos a nenhuma escola artística, a nossa «arte» nascia da audição repetida dos tangos de Celedonio Flores e Homero Manzi, da leitura das páginas delirantes de Arlt e das caminhadas noturnas pelas ruas de Buenos Aires, onde havia tantos «fantasmas da canção» e os grotescos do dia a dia. Vou continuar a ser breve. Muitas coisas aconteceram, boas e más. Casei, trabalhei muitos anos em animação e ilustração e, em 1969, viajámos para a Europa: Barcelona, Milão e, finalmente, estabeleci-me em Londres, onde ainda vivo com a minha mulher. Nunca deixei de desenhar para mim, mesmo enquanto trabalhava profissionalmente e, ao longo dos anos, essa foi-se tornando a «minha obra». O que é a «minha obra»? A minha obra é o resumo gráfico de todas as linhas que tracei por prazer, capricho ou curiosidade desde tenra idade. Sempre me vangloriei de não ter estilo. Gosto de desenhar de TODAS as formas que me

part was that, with such cheap materials, there was no need to worry about what was done. We drew very freely and with no other pretension than to be in company and “warm up the wrist”. I think I will never again experience the pleasure I got from drawing like that, like I did on the ground of my backyard, but I pursue it relentlessly. All the friends had different ways of drawing, but we were united by our enormous enthusiasm for it. We visited art exhibitions on Florida Street and we fought for and with the painters. At vernissages, one of the friends would stand in the middle of the gallery and shout: “This is a piece of Shit!” which, although rude, was true most of the time. We did not belong to any artistic movement, our “art” was born from the repeated auditions of Celedonio Flores’ and Homero Manzi’s tangos, from reading Arlt’s delirious pages and from the evening walks through the streets of Buenos Aires, where there are so many “ghosts of songs” and everyday grotesques. I will continue to be brief. Many things happened, good and bad. I got married, I worked for many years in animation and illustration and, in 1969, we travelled to Europe: Barcelona, Milan and, finally, I settled in London, where my wife and I still live. I have never stopped drawing for myself, even while working professionally, and, over the years, it has become “my work”. What is “my work”? My work is the graphic summary of all the lines that I have drawn for pleasure, whim or curiosity since my early youth. I have always boasted about not having style. I like to draw in ALL the ways I possibly can. I do not believe in technique, but I do believe in spontaneous creation, that the drawing comes out and goes to the place where it wants to go. It is preferable that the artist accompanies the work rather than having the work follow the artist along well-lit paths. I like to lose myself. The subconscious is the best author; it is as if one were the spectator who witnesses the lines coming out of the pen.

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são possíveis. Não acredito na técnica mas, sim, acredito na criação espontânea; que o desenho saia e vá para o lugar onde quer ir. É preferível que o artista acompanhe o trabalho do que o trabalho acompanhe o artista ao longo de caminhos bem iluminados. Gosto de me perder. O subconsciente é o melhor autor; é como ser um espectador que testemunha a saída das linhas ao emergirem da caneta. Anos depois, ao rever os meus trabalhos, descubro qual o meu estado mental narrativo enquanto trabalhava em cada um deles, e então, finalmente, cada um me conta a sua história. Acho que muito do que faço faz parte das coisas que vi; no entanto, não representa eventos específicos, mas vem da minha imaturidade intelectual e do que Lévi-Strauss apelida de «pensamento selvagem». Eu não sou um artista plástico nem um humorista. Gosto de acreditar que as minhas linhas são bem desenhadas no sentido estético e que o meu sentido de humor tem como objetivo o sorriso e não a gargalhada. Creio que não escrevi tudo o que queria escrever, nem sei se o que contei é verdade. Vou deixar que os desenhos tomem a palavra. Agora cabe aos espectadores trabalhar a sua própria imaginação. Gostaria de acreditar que Kafka poderia ter gostado de algum destes trabalhos.

Years later, when reviewing my works, I discover what my narrative mental state had been when working on each of them and, then, finally, each one tells me its story. I think that a lot of what I do is part of the things I have seen; however, it does not represent specific events but stems from my intellectual immaturity and from what Lévi-Strauss calls the “savage mind”. I am neither a visual artist nor a humourist. I like to believe that my lines are well drawn in the aesthetic sense and that my sense of humour is for the smile and not for the laughter. I do not think I have written everything I wanted to write or know if what I have told is true. I will let the drawings take the floor. Now it’s up to the spectators to work their own imagination. I would like to believe that Kafka might have liked some of these works. Thank you very much.

London, December 2017

Muito obrigado.

Londres, dezembro de 2017

Oscar Grillo

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Quarto de tango | 1960 | Tango room

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O anjo da puta que trabalha na IBM | 1963 | The angel of the whore who works at IBM

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Figura romântica | 1963 | Romantic figure

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ConferĂŞncia noturna | 1964 | Night conference

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Cavalo | 1965 | Horse

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A louca | 1993 | The crazy woman

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A cantar tangos | 1993 | Singing tangos

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Stride piano | 1996 | Stride piano

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O estilo de Chicago | 1996 | Chicago style

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«The Devil’s gonna git yah» | 1996 | “The Devil’s gonna git yah”

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Os meninos na esquina fazem pouco da feia (tango-canção)

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The boys on the corner tease the ugly lady (tango song)

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Eva | 1996 | Eve

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Bernardette Boop, a irmã de Betty em «Wanna be a member?»

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| 2001 |

Bernardette Boop, Betty’s sister in “Wanna be a member?”

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«Für Elise» (Para Elisa) | 2015 | “Für Elise” (For Elisa)

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«Dia de Leão» | 2015 | “Lion Day”

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Mulheres de outros tempos: Elvira RĂ­os (cantora mexicana de boleros)

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Women of other times: Elvira RĂ­os (Mexican bolero singer)

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O diabo sabe, por ser diabo… | 2016 | The devil knows because he’s the devil…

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O cĂŁo andaluz | 2017 | The Andalusian dog

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A antiga ordem | 2017 | The old order

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O cavalo de batalha | 2017 | The war horse

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O irmão mais novo de Dom Corleone | 2017 | Don Corleone’s younger brother

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EquilĂ­brio simples | 2017 | Simple balance

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Índice Table

Introdução | Introduction, Alberto Mesquita . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Nota biográfica | Biography . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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A título de prólogo | By way of prologue Oscar Grillo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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DESENHOS DESORDENADOS | JUMBLED DRAWINGS . .

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© Sistema Solar, CRL (Documenta) Rua Passos Manuel, 67 B, 1150-258 Lisboa Desenhos © Oscar Grillo (2018) 1.ª edição, março de 2018 ISBN 978-989-8902-07-8 Capa: António Antunes Revisão: Helena Roldão Depósito legal 437956/18 Este livro foi impresso na Gráfica Maiadouro, SA Rua Padre Luís Campos, 586 e 686 – Vermoim 4471-909 Maia Portugal

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Oscar Grillo, «Desenhos Desordenados»  

Oscar Grillo: «Eu não sou um artista plástico nem um humorista. Gosto de acreditar que as minhas linhas são bem desenhadas no sentido estéti...

Oscar Grillo, «Desenhos Desordenados»  

Oscar Grillo: «Eu não sou um artista plástico nem um humorista. Gosto de acreditar que as minhas linhas são bem desenhadas no sentido estéti...