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apresentação e tradução de

Aníbal Fernandes

Cocteau: «Um perfume libertino de pó-de-arroz, vinho na toalha e cama desfeita. As duas personagens estão cobertas com o óleo que há nas penas do cisne, o que lhe permite chapinhar na água sem se conspurcar.»

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Padre Prévost MANON LESCAUT

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Antoine Prévost d’Exiles (Padre Prévost)

HISTÓRIA DO CAVALEIRO DES GRIEUX E DE MANON LESCAUT

tradução e apresentação de

Aníbal Fernandes


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TÍTULO ORIGINAL: HISTOIRE DU CHEVALIER DES GRIEUX ET DE MANON LESCAUT

© SISTEMA SOLAR, CRL RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: FRANÇOIS BOUCHER, A ODALISCA, SÉCULO XVIII (PORMENOR) REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE 1.ª EDIÇÃO, OUTUBRO 2014 ISBN 978-989-8566-63-8 ——————— DEPÓSITO LEGAL 382074/14 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA EUROPRESS RUA JOÃO SARAIVA, 10 A 1700-249 LISBOA


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A Europa do século XVIII dava aos lugares da Igreja uma utilidade oportunista. Um hábito de freira podia ser imposto para apaziguar indesejáveis consequências de uma herança ou punir as desenvolturas do amor; um padre talvez procurasse na profissão eclesiástica a segurança, a protectora inviolabilidade dos claustros, a boa mesa, o acesso fácil aos poderes que a profissão tecia em redor das realezas. Atribuem-se ao padre Prévost estas oportunidades e um duvidoso fervor católico, o que tantas vezes se apagou com arroubos militares, na traição do seu desvio anglicano, na libertina preferência pelos prazeres da mulher, nas lateralidades do seu incansável labor de romancista. O padre Prévost ficou-nos como romancista. Escreveu histórias alongadas por muitos volumes, como pedia o gosto da sua época, e em sete títulos intitulou-se «homem de qualidade que se retirou do mundo» para contar com habilidade formal enredos pretendidos como memórias, as de um marquês observador, ouvidor, condoído e apaixonado por singulares destinos que ao pé dele se denunciavam. Quando chegou ao sétimo, chegou também ao seu mais perdurável momento nas letras, o da história com nome extenso e que a popularidade reduziu a Manon Lescaut; por outros escritores muito apreciada, e conhecemos disto exemplos como os de Sainte-Beuve, Musset, Flaubert, Maupassant… entre os seduzidos pelo seu lado elegante e frívolo, pelo seu amor louco. Teve o desdém de Napoleão: «É bom para porteiras.» Teve a perplexidade de Montesquieu, que nas histórias só gostava da clareza dos bons e dos maus, e se perdia quando lhe


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davam misturadas tintas: «O herói é um gatuno e a heroína uma dissoluta.» Jean Cocteau foi dos melhores quando escreveu para este romance uma das suas frases: «Cortejo de archotes com jogadores, trapaceiros, bebedores, debochados, devassas da polícia. […] Um perfume libertino de pó-de-arroz, vinho na toalha e cama desfeita. As duas personagens estão cobertas com o óleo que há nas penas do cisne, o que lhe permite chapinhar na água suja sem se conspurcar.» Esta Manon de muitos ecos veio para música em seis óperas, e chegou às mais conhecidas com Jules Massenet em 1884 e Giacomo Puccini em 1893; esteve no cinema em filmes mudos e sonoros, mais lembrada em 1949 com Henri-Georges Clouzot a transportá-la para depois da Segunda Guerra Mundial, e em 1968 com Catherine Deneuve a renová-la em Manon 70 de Jean Aurel. Mas também está na boa memória do leitor porque o Dorian Gray de Oscar Wilde a vai lendo para matar o seu tempo na casa de lorde Henry Wotton; ou porque Stendhal põe Julien e Madame de Fervaques a ouvi-la como ópera em Le Rouge et le Noir; Alexandre Dumas Filho a inclui entre os objectos leiloados da Dama das Camélias; a prostituta de Yama, imaginada pelo russo Aleksandr Ivanovich Kuprine, a devora entre dois clientes; ou porque o exercício verbal de Finnegans Wake, lhe chama Nanon l’Escaut. O Padre Prévost: bem mais interessado por romances do que pelo santo sacrifício da missa, ou em perdoar na penumbra do confessionário pecados alheios; o perseguido pela polícia, o desculpado pelo papa, o falsificador de assinaturas, o que fugia, o que se exilava, o desse tranquilo final de vida que o engordou, amaciou, e deixou nalguns versos escritos por Crebillon Fils: «Brilhava no padre o ventre encantador / Digno da prelatura. / E tudo respirava na figura / Sentimentos e ternura.» *


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É muito raro que uma vida com movimento e névoas saiba escapar à lenda. Antes das mais sérias investigações para a biografia, o padre Prévost correu pela fama enfeitado até ao excesso no que já era um grande colorido. Chegou por exemplo a parricida, matando o pai numa escada quando o viu dar um pontapé no ventre da sua amante grávida. Mas eram, esta e outras, escusadas invenções que não chegavam ao picante das verdades garantidas. Esse pai que ele não matou era conselheiro do rei e nome sonante na boa burguesia de Artois; teve irmãos padres e magistrados, os dois ramos que então seduziam os filhos das grandes famílias. Na pia baptismal chamaram-lhe Antoine François, e ficou nesse registo como nascido a 1 de Abril de 1697. Foi desde cedo entregue à educação jesuítica; a que ele desabridamente abandonou aos dezasseis anos de idade e com ímpeto militar, para pegar em armas como voluntário. «Tudo o que de mim conseguiram foi pôr uma sotaina por cima de roupas civis», diz Antoine Hamilton em Mémoires du Chevalier de Grammont, livro que retrata uma vida em muitos passos idêntica à de Prévost; para acrescentar esta vaidade: «Eu tinha a mais bela cara do mundo, bem empoada e frisada por cima da sotaina; e por baixo botinas brancas e esporas douradas.» Por má sorte, cedendo a uma bravura que parecia desprezar este dourado das esporas, Antoine François só encontrou restos de uma guerra; a arrumação das armas e já as vitórias cantadas sobre a Espanha vencida de 1717. O regresso aos jesuítas pareceu-lhe triste mas inevitável, embora não durasse mais do que alguns meses porque o jovem Prévost, frustrado nos seus ardores militares, mesmo sem guerra continuou a ver nos quartéis um ideal. Mas um segundo alistamento mostrou-se com mais aridez do que os raptos da sua imaginação lhe tinham dado a sonhar; e assim, desiludido e sem querer saber dos perigos de uma deserção, fugiu para a Holanda — a Holanda que o obrigaria «a viver de expedientes», tenha esta expressão o


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sentido que a vontade de cada qual quiser dar-lhe. Sabe-se que privou de perto com holandesas, e com uma delas em grande paixão infeliz, chegando a parecer-lhe melhor a amnistia de Luís XIV que perdoava fugas do exército e consentia o seu regresso à França — agora a um convento de beneditinos porque o dos jesuítas não quis suportar-lhe o que já parecia uma incorrigível instabilidade religiosa. «Foi o desgraçado fim de um compromisso demasiado terno», veio a escrever em Pour et Contre, referindo-se à holandesa que desagradavelmente o traíra nas suas esperanças de amor; «acabou por me levar ao túmulo; dou este nome à respeitável Ordem onde me enterrei e durante algum tempo permaneci, tão morto que até os meus pais e os meus amigos ignoraram aquilo em que me tinha transformado.» Antoine François, agora beneditino, mostrou um bom comportamento temporário e passou a estudar teologia na Abadia du Bec. Foi ordenado padre em 1727, e até disse missas e até pregou em Évreux, onde encontrou devotas (diz-nos Bernard d’Héry) que lhe adoraram a eloquência: «Uma boa metade feminina da cidade mantinha ali o hábito de perdoar sermões que dissessem mal dela, desde que dela falassem, e acorria encantada.» Este êxito feminino foi infelizmente interrompido com uma transferência estratégica para Paris, quando os abades do Bec perceberam que ele andava metido em insanáveis intrigas. Começaram por integrá-lo no mosteiro Des Blanc-Manteaux, em 1727 passaram-no para Saint-Germain-des-Près, mas também aqui o padre Prévost foi incómodo. Entre desacatos menores, talvez desculpáveis, ficou conhecido um de maiores dimensões: Les aventures de Pomponius, uma obra literária satírica e libertina publicada na Holanda, era afinal de sua autoria. Começava assim, anónima, a carreira literária do padre Prévost, em anos seguintes com uma promissora produtividade. Antoine Prévost passava a ser um padre romancista, e romancista com tanta vocação para se


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deter nas verdades do mundo, que não poderia deixar de ser olhado sob cenhos franzidos num convento de beneditinos. Talvez esteja aqui o que mais justifica a sua vida errante, saído do convento e ao sabor de oportunidades que lhe davam as terras da França, da Holanda, da Alemanha, da Inglaterra. E até se conhece contra isto o desagrado de escandalizados beneditinos no texto que em 30 de Outubro de 1728 solicitou ao chefe da polícia de Paris a prisão de «um religioso fugitivo, chamado Antoine Prévost, homem de média altura, olhos azuis e bem rasgados, tez vermelha e rosto cheio.» Mas já andava longe, este padre à solta com uma esteira de escândalos, trapaças e prisões, uma agitação que o não impedia de passar ao papel em estilo rápido, elegante e com um talento de grande contador de histórias, o encanto de singularidades então mal conhecidas da boa literatura e que rompiam duramente, atrevidamente, o hábito dos leitores. Charles Collé, em 1868 e com ele já morto, ergueu um dedo injusto para o apontar e reduzir à imagem libertina: «O padre Prévost foi um desgraçado que viveu sempre no mais crapuloso deboche. De manhã garatujava na cama uma folha de papel, com uma rapariga à sua esquerda e um suporte de escrita à sua direita, e enviava essa folha ao impressor que lhe dava de imediato um luís. Durante o resto do dia ia bebendo. Era esta a sua vida habitual.» Na irrequieta peregrinação que nesses tempos ele cumpriu, teve dois períodos ingleses. O de uma «primeira» Inglaterra onde o padre católico Prévost não tardou a perceber que lhe era de maior vantagem ser anglicano, e sem dificuldade renegou a tutela do papa Bento XIII para se submeter à do rei Jorge II. Adquiriu a respeitabilidade religiosa que lhe permitia ser entre ingleses preceptor; e foi-o de um jovem de boas famílias e com uma irmã um pouco mais velha, logo depois envolvida no que foi visto como uma grande e inaceitável paixão por aquele estrangeiro que se mostrava suspeito de oportunismos materialistas e religiosos. Chegavam a Londres inoportunos ecos; soavam críticas que lhe eram feitas por traição


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aos votos religiosos, as que numa carta o obrigaram a esclarecer com simplicidade esta evidência: de que há votos… e votos: «Será garantido que os fiz indissolúveis? O céu conhece o fundo do meu coração, o que basta para me sentir tranquilo. Soubessem os homens o mesmo que ele, e teriam conhecimento de que […] fui forçado pela necessidade, só pronunciei a fórmula dos meus votos movido por todas as restrições interiores que podiam autorizar-me a rompê-los.» O preceptor anglicano tão incomodado ficou por ter despertado em mau sítio uma paixão inglesa, que melhor lhe pareceu regressar à Holanda — país onde vivia Lenki, a que viria a ser a mais persistente mulher da sua vida. Gautier de Fages, que a conheceu, faz este mau retrato: «Lenki, que toda Haia conhecia como uma verdadeira sanguessuga de deixar chupados a maior parte dos seus amantes, dava-se ares que nada me agradavam. Por outro lado, criatura com um tal carácter não era merecedora de nenhuma espécie de delicadezas.» Prévost sentia dificuldade em afastar de si as competências sexuais de Lenki. Mas quando viu somarem-se a esta dádiva desagradáveis contratempos, porque a mulher do livreito Néaulme, de quem era hóspede, começava a sentir no ventre os movimentos de um filho que era seu, e porque chegava a dívidas altíssimas de novecentos florins, recebeu dos seus editores uns inesperados mil e setecentos, e conseguiu regressar à Inglaterra. Não tardou, porém, que a bolsa vazia o levasse à tentação de uma trapaça que a pouco esteve de lhe ser fatal. Copiando de antigas cartas a assinatura de Francis Eyles, a apaixonada irmã do que tinha sido seu pupilo, falsificou uma ordem de pagamento de cinquenta libras. Aquela Inglaterra queria-se de moral exemplar, e Jorge II punia assinaturas falsas com a pena de morte. Prévost foi preso na véspera do Natal de 1733; e só a caridade de Francis Eyles, capaz de desculpar este delito a uma paixão não completamente cicatrizada, conseguiu com choro e a beleza do seu rosto a


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clemência do rei. Solto cinco dias mais tarde, Prévost foi intimado a abandonar a Inglaterra. Recorrendo de novo a Gautier de Fages, temos sobre estes dias algum pormenor: «Saiu de Londres para fazer um retiro em Calais e esperar, impaciente, que os seus amigos se empenhassem numa paz com a ordem eclesiástica de que ele tinha sacudido a albarda. Os seus superiores chegaram ao trabalho de obter do papa um breve apostólico que lhe permitiu a entrada noutra ordem onde era consentida uma vida mais do seu agrado. Lenki teve a informação de que ele estava em lugar seguro, e não tardou a aparecer-lhe. Foi em Paris que a união voltou a dar-se, e com ardor idêntico ao que ela lhe tinha conferido em Haia.» Este papa bondoso era Clemente XII e não negava o seu nome: teve a clemência de consentir que o incluíssem entre os padres da Grande Ordem de Cluny, benevolente para com temperamentos exteriores ao desenho ideal da sua profissão. Foi esquecida a sua guinada anglicana e ignorada a presença de Lenki em Paris. Com estas vistas largas, até Prévost podia ser o romancista de Manon Lescaut, publicada em Setembro de 1734 e apreendida um mês depois pela polícia. Agora o seu autor já não era Antoine Prévost, mas Antoine Prévost d’Éxiles, uma irónica memória dos «exílios» sofridos fora do convento e do seu país natal. Teve, nesta curta vida pública do seu livro, dois imediatos elogios: o de Voltaire (referindo-o como «o terno e apaixonante autor de Manon Lescaut»), o do Journal de la Cour et de Paris («Este homem pinta que é uma maravilha; é na prosa o que Voltaire é no verso.»). São porém muito maiores os entusiasmos do século seguinte, dos Românticos que encontravam nas personagens de Manon um anúncio das suas exaltações no amor, um herói que desmaiava duas vezes e chorava dezassete com as infidelidades e as más sortes da sua amante; mas, numa lista que poderia ser extensa, isolamos Alfred Musset por lhe ter dedicado versos onde «Cleópatra não é digna de lhe beijar os pés», e onde lhe é deixada esta declaração de amor: «Ah! Que louca me pareces! / Como te amaria amanhã, se tu vivesses!».


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O já citado juízo de Montesquieu é simplista porque pára antes de chegar à vertigem do amor louco, a um mistério para além dos acidentes da história, àquele ar de l’amour même que permite a Manon prostituir-se sem ser devassa, a Des Grieux mentir, roubar, mostrar-se trapaceiro e matar sem ser canalha, não mais do que pobre amante arrastado pelas forças do sentimento e da paixão. Manon e Des Grieux amam-se perdidamente «porque se amam sem escolha». Gilbert Lély soube dizê-lo melhor num prefácio: «No inferno destas duzentas páginas ouvimos da voz humana, e ao seu nível mais patético, os exorcismos, as ameaças, os gritos da revolta e do desespero, o sopro das encarniçadas forças de um herói de amor em luta contra as proibições da família, da religião, da ordem social e da sua própria fatalidade. Se a procura do absoluto é o que pedimos à poesia, o cavaleiro Des Grieux é um poeta da vida à procura de Manon Lescaut, o seu absoluto. Na posse de Manon Lescaut reside a sua única pacificação metafísica, a sua única justificação do universo. Com a amante desaparecida, só lhe resta morrer ou arrastar-se por uma má vida tão apodrecida como a morte.» Está nesta última afirmação de Lély o melhor conselho para duvidarmos das boas intenções morais que lemos como final do relato de Des Grieux. A história de Manon Lescaut é uma sucessão de momentos que prometem ao seu herói a virtude, desmentidos com acidentes de vida que logo depois o desviam dessas intenções. Quem poderá garantir-nos que o apaziguamento das últimas páginas deva ser, com o Des Grieux que já então conhecemos, levado a sério? Em 1734 o padre Prévost regressou como ovelha tresmalhada à Ordem dos Beneditinos, e dois anos mais tarde foi capelão do príncipe de Conti, que embora ateu e dado a libertinagens gostava de ter perto de si a religião; dava-lhe lazeres no seu castelo, os pedidos pelos voos largos da sua veia de romancista. Em 1741 andou, sem que possa saber-se bem porquê, por Bruxelas e Francfurt. E vários títulos se acrescentam à sua vasta bi-


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bliografia: Doyen de Killerine, a Histoire de Marguerite d’Anjou e Histoire d’une Grecque moderne (uma grega libertada do serralho e iniciada na moral ocidental, que parece propor-se como uma versão negra de Manon) e outras obras que não vamos aqui citar, mas todas publicadas em 1741 e 1742. Com quarenta e cinco anos de idade, este padre regressou a Paris. Viram-no subitamente calmo e mais afastado do mundo; a adquirir uma pequena casa em Chaillot e a fazer traduções. Ainda lhe deu para ser chefe de redacção do Journal Étranger e para ter a compostura exigível a um prior da diocese de Mans. Mas em 1754 instalou-se perto de Chantilly, numa casa da floresta. Leu, ouviu pássaros cantar, mas já não era escritor. E uma noite ali morreu com a ruptura de um aneurisma, embora bem aconchegado por um jantar que tinha sido farto e regado com vinhos da região. Os beneditinos sepultaram-no na sua igreja e escreveram-lhe o epitáfio num latim que passado a português fica assim: «Aqui jaz Antoine Prévost, padre, monge professo da Grande Ordem de São Bento, célebre por numerosas obras publicadas. Morreu em 23 de Novembro de 1763. Repouse em paz.» A.F.


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av i s o d o a u t o r das «memórias de um homem de qualidade»1

Embora eu pudesse incluir nas minhas Memórias as aventuras do cavaleiro Des Grieux, pareceu-me que não havendo entre umas e outras ligação útil o leitor maior satisfação sentiria vendo-as separadas. Uma narrativa com esta extensão teria interrompido por tempo excessivo o fio da minha própria história. Estando eu bem longe de pretender a qualidade de escritor exacto, não ignoro que uma narrativa deve desembaraçar-se das circunstâncias que a tornariam pesada e forçada. É o preceito de Horácio: Ud jam nunc dicat jam nunc debentia dici Pleraque differat, ac prœsens in tempus omittat2. Nem sequer é precisa tão grave autoridade como prova de uma verdade tão simples; porque é o bom senso a primeira fonte desta regra. Se o público achou alguma coisa interessante e agradável na história da minha vida, atrever-me-ei a prometer que não menos satisfeito ficará com esta adição. Verá na conduta de M. Des Grieux um terrível exemplo da força das paixões. Vou pintar um jovem cego que se recusa a ser feliz e se precipita voluntariamente nos maiores infortúnios; que 1 Este homem de qualidade é o marquês de Renoncour, narrador dos sete volumes com este título, sendo o último a história de Manon e Des Grieux. (N. do T.) 2 «Dir-se-á de imediato o que deve ser dito / e deixar-se-á de lado o que é de momento pormenor.» (De Arte Poetica) (N. do T.)


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possuindo todas as qualidades formadoras do mais brilhante mérito, por livre escolha prefere uma vida obscura e vagabunda a todas as vantagens da fortuna e da natureza; que prevê as suas desgraças sem querer evitá-las; que as sofre e é por elas esmagado sem tirar partido dos remédios que incessantemente lhe oferecem e podem a todos os momentos dar-lhes um termo; enfim, um carácter ambíguo, uma mistura de virtudes e vícios, um perpétuo contraste de bons sentimentos e más acções. Tal é o fundo do quadro que apresento. As pessoas de bom senso não olharão uma obra deste género como trabalho inútil. Além do prazer de uma leitura agradável, não poucos incidentes irão encontrar-se que não sirvam a educação dos costumes; e na minha opinião é prestar ao público um bom serviço se o instruirmos divertindo-o. Não podemos reflectir nos preceitos da moral sem deixar de espantar-nos por vê-los ao mesmo tempo estimados e negligenciados; e a nós próprios perguntamos qual a razão desta incoerência do coração humano, que o faz saborear ideias de bem e perfeição, na prática afastando-se delas. Se as pessoas com certo nível de conhecimento e amabilidade quiserem examinar qual é a mais vulgar matéria das suas conversas, ou mesmo das suas meditações solitárias, facilmente notarão que anda sempre à volta de algumas considerações morais. Passam os doces momentos da vida sozinhas ou com um amigo, a conversar de espírito aberto sobre os encantos da virtude, as doçuras da amizade, os meios para se alcançar a felicidade, as fraquezas naturais que nos afastam dela, e os remédios que podem curá-las. Horácio e Boileau assinalam este colóquio como dos mais belos traços que formam a imagem de uma vida feliz. Mas como é que tão facilmente caímos destas altas especulações para logo nos encontrarmos ao nível do comum dos homens? Ter-me-ei enganado se a isto der um motivo que não explica bem esta contradição entre as nossas


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ideias e a nossa conduta; é que todos os preceitos da moral apenas são princípios vagos e gerais, e na especialidade é muito difícil aplicá-los ao pormenor dos costumes e às acções. Exemplifiquemos a questão. As almas bem formadas sentem que a brandura e a humanidade são amáveis virtudes, e têm tendência para pô-las em prática; mas chegando o momento de actuar, põem-nas muitas vezes de lado. Será boa ocasião para as executar? Sabemos, por acaso, até onde devemos levá-las? Não vamos enganar-nos no que é seu objectivo? Cem dificuldades nos travam. Receamos tornar-nos simplórios, por ter vontade de ser benfazejos e liberais; passar por fracos ao parecermos demasiado brandos e demasiado sensíveis; numa palavra, que excedemos ou não cumprimos bastante os deveres encerrados de muito obscura forma nas noções gerais de humanidade e bondade. Nesta incerteza só a experiência ou o exemplo são capazes de determinar razoavelmente as inclinações do coração. Ora, a experiência não é uma vantagem que todos têm a liberdade de se atribuir; depende das situações diferentes em que cada um se acha colocado pela sorte. Não resta mais do que o exemplo, o único capaz de a muita gente servir de norma no exercício da virtude. É precisamente para leitores deste género que obras como esta podem ser de extrema utilidade, pelo menos quando são escritas por uma pessoa de honra e bom senso. Cada facto relatado é um degrau de luz, uma instrução que supre a experiência; cada aventura um modelo que pode formar-nos; só falta ser ajustada às circunstâncias em que nos encontramos. Toda esta obra é um tratado de moral agradavelmente reduzido à acção. Talvez um leitor severo se ofenda ao ver-me, na minha idade, agarrar na pena para escrever aventuras de fortuna e amor; mas se for sólida a reflexão que acabo de fazer, justificar-me-á; se for falsa, estará no meu erro a desculpa.


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Quanta laboras in Charybdi, Digne puer meliore flamma1!

Obrigo-me a fazer o leitor regressar à época da minha vida em que encontrei pela primeira vez o cavaleiro Des Grieux. Foi cerca de seis meses antes da minha partida para Espanha. Apesar de eu raramente abandonar a solidão, a minha filha inspirava-me uma complacência que me levava por vezes a fazer pequenas viagens; e, na medida do possível, tornava-as mais curtas. Voltava eu um dia de Ruão, onde a seu pedido eu tinha solicitado ao parlamento da Normandia para dar curso a uma causa ligada à herança de umas terras que eu lhe legara pela via do meu avô materno. E ao tomar o caminho por Évreux, onde na primeira noite dormi, cheguei à hora do jantar do dia seguinte a Pacy, cinco ou seis léguas distante. Ao entrar na povoação surpreendeu-me ver todos os habitantes em estado de alarme. Saíam precipitadamente de casa para correr em massa até à porta de uma má estalagem que à sua frente tinha duas caleças com toldo. Ainda com trela, os cavalos pareciam esfalfados de fadiga e calor, e mostravam que os dois veículos acabavam de chegar. Parei um momento para me informar sobre a causa de tão grande tumulto, mas poucos esclarecimentos obtive de uma populaça curiosa 1 Que tormentos Caribdis não sofre / Jovem digno de um mais nobre amor! (Horácio. Odes, 27. (N. do T.)


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que nenhum caso fazia das minhas perguntas, continuava a aproximar-se da hospedaria e empurrava-se no meio de uma grande confusão. Por fim apareceu à porta um archeiro de bandoleira a tiracolo e mosquete no ombro; com a mão chamei-o, fazendo um sinal para vir ter comigo. Pedi-lhe que me dissesse qual era o motivo daquele tumulto. — Nenhum, senhor — disse ele. — Trata-se de uma dúzia de mulheres da vida que eu e os meus companheiros conduzimos até ao Havre-de-Grâce, onde vamos embarcá-las para a América. Algumas são bonitas, e talvez por isso excitem a curiosidade destes bons campónios. Ouvindo esta explicação ter-me-ia retirado, se não fosse detido pelos lamentos de uma velha que saía da estalagem com os dedos entrelaçados, a gritar que era uma barbaridade, uma coisa de causar horror e compaixão. — Afinal, do que se trata? — Ah, senhor, entrai e vede se não é um espectáculo capaz de partir o coração! A curiosidade fez-me apear do cavalo, que deixei ao cuidado do meu palafreneiro. Entrei a custo na estalagem, abrindo caminho por entre aquela multidão, e vi com efeito qualquer coisa que chocava bastante. Entre as doze raparigas ligadas seis a seis pela cintura, uma mostrava ar e rosto tão pouco de acordo com a sua condição, que tê-la-ia noutra circunstância tomado por uma pessoa da mais alta classe. A sua tristeza, a sujidade da roupa interior e do casaco tão pouco a desfeiavam, que a sua imagem me inspirou respeito e compaixão. Tanto quanto a corrente permitia, ela procurava voltar-se para esconder o rosto ao olhar dos espectadores. Tão natural era o esforço para se ocultar, que ele parecia chegar-lhe de um sentimento de modéstia. Como os seis guardas que acompanhavam este desgraçado grupo também estavam no aposento, chamei o chefe de lado e pedi-lhe que


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alguma coisa me esclarecesse sobre a sorte da bela rapariga. Apenas pôde fornecer-me muito vagas informações. — Fomos buscá-la ao Hospital1 por ordem do senhor tenente-geral da polícia — disse ele — e há todas as probabilidades de não ter sido presa por boas acções. Durante o caminho interroguei-a várias vezes, mas obstinou-se a nada responder. Embora eu não tenha recebido ordem para poupá-la mais do que às outras, não deixo de manifestar para com ela certas deferências por me parecer que vale um pouco mais do que as companheiras. Está ali um rapaz — acrescentou o archeiro — que poderá elucidar-vos melhor sobre a causa da sua desgraça; tem-na acompanhado desde Paris, e está quase sempre a chorar. Deve ser seu irmão ou seu amante. Voltei-me para o canto da sala onde o rapaz estava sentado. Parecia que mergulhava num devaneio profundo. Nunca vi mais viva imagem da dor. Embora se vestisse com simplicidade, distinguia-se à primeira vista um homem bem nascido e com educação. Aproximei-me dele. Levantou-se, e tanta finura e nobreza lhe descobri nos olhos, no rosto e em todos os movimentos, que muito naturalmente fui levado a querer-lhe bem. — Não quero importunar-vos — disse quando me sentei ao seu lado — mas podereis satisfazer a minha curiosidade e dizer-me quem é esta linda rapariga que não me parece nascida para o triste estado em que a vejo? Respondeu-me com franqueza que não podia dizer quem era sem ele próprio dar a conhecer-se, mas tinha razões de sobra para querer manter-se incógnito. 1 Era um estabelecimento que disfarçava, atrás deste nome, um severo cárcere para criminosas. (N. do T.)


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— Posso no entanto dizer-vos o que estes miseráveis não ignoram — continuou, indicando os archeiros; — que a amo com uma paixão violenta, ao ponto de fazer de mim o mais desgraçado dos homens. Em Paris a tudo recorri para obter a sua liberdade. Os pedidos, a astúcia e a força foram inúteis; resolvi segui-la, mesmo que ela vá até ao fim do mundo. Embarcarei com ela; irei até à América. Mas é da maior desumanidade estes mariolas cobardes não permitirem que me aproxime dela — acrescentou ao falar dos archeiros. — Eu fazia tenções de os atacar de frente, a algumas léguas de Paris. Tinha-me associado a quatro homens que prometeram auxiliar-me mediante uma soma considerável. Mas os traidores deixaram-me de mãos vazias e fugiram com o meu dinheiro. A impossibilidade de vencer pela força fez-me depor as armas. Propus aos archeiros que me deixassem pelo menos ir com eles, oferecendo-lhes uma recompensa. O desejo do lucro levou-os a consentir. Mas querem ser pagos todas as vezes que me autorizam a falar com a minha amante. Pouco tempo bastou para eu ficar com a bolsa vazia; e agora, que estou sem um soldo, têm a crueldade de me repelir brutalmente ao menor passo que dou para me aproximar dela. Ainda há instantes me atrevi a fazê-lo, apesar das suas ameaças, e tiveram a insolência de levantar contra mim o cano da espingarda. Para satisfazer a sua cobiça e continuar em condições de fazer o caminho a pé, serei forçado a vender aqui o cavalo que tenho até agora montado. Embora parecesse fazer com muita tranquilidade esta narrativa, terminou-a deixando cair algumas lágrimas. Achei que se tratava de uma aventura das mais extraordinárias e comoventes. — Não vos forço a revelar segredos que vos dizem respeito — disse eu — mas podendo ser-vos útil nalguma coisa, com a maior das boas vontades vos servirei.


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— Ai de mim! — continuou ele. — Não antevejo um único dia de esperança. Tenho de submeter-me a todo o rigor do meu destino. Vou para a América. E pelo menos serei livre com aquela a quem amo. Escrevi a um dos meus amigos, que vai pôr no Havre-de-Grâce alguma ajuda à minha disposição. O meu único embaraço é a despesa da ida e dar a esta pobre criatura — acrescentou, a olhar tristemente para a sua amante — algum conforto durante o caminho. — Pois bem, vou tirar-vos deste embaraço — afirmei. — Aqui tendes algum dinheiro que vos peço para aceitardes. E muito pesaroso estou por não poder servi-vos de outro modo. Dei-lhe quatro luíses de ouro sem os guardas se aperceberem disso, porque muito convencido estava de que mais caro venderiam as suas condescendências se soubessem que ele os tinha. Ocorreu-me então a ideia de negociar para conseguir ao jovem apaixonado a liberdade de falar com a sua amante durante todo o tempo até ao Havre. Com um sinal ao chefe pedi para se aproximar de mim, e fiz a proposta. Apesar da insolência pareceu-me envergonhado. — Não se dá o caso, senhor, de nos recusarmos a deixá-lo falar a esta rapariga — respondeu com um ar embaraçado — mas quer estar sempre ao pé dela, e isto incomoda-nos. É muito justo que pague pelo incómodo. — Pois bem — disse eu — vejamos o que é necessário para deixarem de senti-lo. Teve o desaforo de pedir dois luíses. E imediatamente lhos dei. — Tomai no entanto cuidado, não vos escape alguma canalhice porque vou dar o meu endereço àquele jovem para me informar, se ela for feita, e ficai convencidos de que posso conseguir que vos castiguem. Tudo isto me custou seis luíses de ouro. Os bons modos e o vivo reconhecimento com que o jovem desconhecido me agradeceu, acabaram por me persuadir de que era bem


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nascido e merecia a minha liberalidade. Antes de sair dali dirigi à sua amante algumas palavras. Com tão suave e encantadora modéstia me respondeu, que ao retirar-me não pude deixar de fazer mil reflexões sobre o incompreensível carácter das mulheres. De regresso à minha solidão, nada soube das consequências desta aventura. Perto de dois anos passaram, deixando-a completamente esquecida até o acaso fazê-la renascer e eu poder conhecer em pormenor todos os seus factos. Eu acabava de chegar a Calais vindo de Londres com o marquês de…, meu discípulo. Se bem me recordo hospedámo-nos no Leão de Ouro, onde um qualquer motivo nos forçava a passar o dia e a noite seguintes. Caminhando à tarde pelas ruas pareceu-me reconhecer o rapaz que encontrara na estalagem de Pacy. Estava muito mal vestido e muito mais pálido do que da outra vez. Trazia no braço uma velha mala redonda, acabava de chegar à cidade, e como tinha uma fisionomia demasiado bela para não ser facilmente reconhecido, não tardei a referenciá-lo. — Precisamos de falar àquele jovem — disse eu ao marquês. Quando ele, por sua vez, se dirigiu a mim, teve uma alegria mais viva do que poderei dizê-lo. — Ah! Senhor! — exclamou ao beijar-me a mão. — Poder mais uma vez mostrar-vos o meu eterno reconhecimento! Perguntei-lhe de onde vinha. Respondeu que acabava de chegar por via marítima do Havre-de-Grâce, regressado há pouco da América. — Não me pareceis muito abonado — disse eu. — Ide ao Leão de Ouro, onde me hospedo, porque dentro de momentos lá irei ter. E para lá voltei, de facto, impaciente por conhecer em pormenor o seu infortúnio e o que lhe sucedera na viagem à América. Rodeei-o com as maiores provas de amizade, e dei ordens para lhe não faltarem com nada. Não esperou que eu insistisse para me contar a história da sua vida.


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— Senhor, tão nobre procedimento tivestes para comigo — disse ele — que a mim próprio não perdoaria, e consideraria reles ingratidão usar convosco de qualquer reserva. Não só quero contar-vos as minhas desgraças e os meus sofrimentos, mas os meus desvarios e as minhas mais vergonhosas fraquezas. Estou certo de que ireis condenar-me, mas sem deixardes de me lastimar. Devo nesta altura advertir o leitor de que escrevi a sua história pouco depois de a ter ouvido, podendo portanto assegurar que nada de mais exacto e fiel existe. Direi mesmo que fiel no relato das reflexões e sentimentos que o jovem aventureiro, com a maior graça deste mundo, exprimiu. Aqui tendes até ao fim a sua história, e sem nenhum acréscimo ter sido feito ao que ele próprio me disse.

Tinha eu dezassete anos e acabava os meus estudos de filosofia em Amiens, onde os meus pais, de uma das melhores casas de P…, me tinham mandado educar. E tão sensata e regrada vida eu levava, que os meus professores me apontavam como o exemplo do colégio. Não porque eu fizesse extraordinários esforços para merecer este elogio, mas porque sou dócil e sossegado por natureza. Aplicava-me no estudo por inclinação, e passavam por virtudes alguns sinais da minha natural aversão ao vício. O meu nascimento, o êxito nos estudos e algumas perfeições exteriores tinham-me tornado conhecido e estimado por toda a gente honesta da cidade. Fiz com muito geral aprovação os meus exames finais; e o senhor bispo, que a eles assistiu, propôs-me que abraçasse a carreira eclesiástica onde eu não deixaria, afirmava ele, de me distinguir mais do que na Ordem de Malta a que os meus pais me destinavam. Já me obrigavam a usar a cruz e o nome cavaleiro Des Grieux. Quando chegaram as fé-


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rias preparei-me para regressar a casa, e o meu pai tinha prometido enviar-me sem demora para a Academia1. Quando saí de Amiens, o meu único pesar era deixar um amigo a quem o maior afecto me tinha sempre ligado. Era alguns anos mais velho do que eu. Tínham-nos educados juntos, mas como eram bastante medíocres os bens da sua casa, foi obrigado a seguir a vida eclesiástica e a permanecer depois de mim em Amiens para continuar os estudos necessários a essa profissão. Tinha imensas qualidades. No decurso da minha história conhecê-lo-eis pelas melhores, e sobretudo por um zelo e uma generosidade que excedem os mais célebres e antigos exemplos. Seguisse eu os seus conselhos, e mais ajuizado e feliz seria. Tivesse eu ouvido, pelo menos, as suas censuras à beira do precipício para onde as minhas paixões me arrastavam. Alguma coisa seria salva do naufrágio da minha fortuna e da minha reputação. Mas dos seus cuidados não colheu outro fruto além do pesar de senti-los inúteis e por vezes duramente recompensados por um ingrato que se ofendia com eles e lhes chamava importunos. Eu já tinha estabelecido em que momento sairia de Amiens. Mas, ai de mim!, por que não o antecipei de um dia? Com toda a inocência teria chegado à casa do meu pai. Exactamente na véspera do dia em que teria de deixar aquela cidade, passeava eu com esse amigo, que se chamava Tiberge, vimos chegar a diligência de Arrás e seguimo-la até à estalagem onde estes carros param. Não nos movia outro motivo além da curiosidade. Apearam-se algumas mulheres, que saíram dali pouco depois. Mas uma muito nova ficou, a esperar sozinha no pátio até um homem de idade avançada, e com aspecto de lhe servir de guia, se empenhar em retirar das cestas de vime a sua bagagem. Tão encantadora me pareceu, que embora eu não pensasse até 1 Lugar onde os jovens nobres aprendiam a montar, a terçar armas, e todos os exercícios que um fidalgo devia saber executar. (N. do T.)


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àquele instante na diferença dos sexos nem olhasse para mulheres com especial atenção, dotado que era da maior sensatez e de um recato que todos admiravam, senti-me de repente inflamado até ao êxtase. Eu tinha o defeito de ser demasiado tímido e perder com facilidade o sangue-frio; mas longe de ser intimidado por esta fraqueza, aproximei-me da senhora do meu coração. Embora mais nova do que eu, retribuiu-me os cumprimentos sem mostrar embaraço. Perguntei-lhe que motivos a traziam a Amiens, e se tinha ali pessoas suas conhecidas. Ingenuamente me respondeu que os seus pais para ali a mandavam por a destinarem a uma vida de freira. O amor, tão vivo desde há momentos no meu coração, fez-me encarar este desígnio como um golpe mortal desferido pelos meus desejos. Falei-lhe de um modo que a elucidou sobre os meus sentimentos, porque era bem mais experiente do que eu. Contra vontade sua metiam-na num convento para travar, sem dúvida, uma já manifestada vocação para o prazer que depois disto foi causa das suas e minhas desgraças. Combati a cruel intenção dos seus pais com todas as razões que o meu amor nascente e a minha eloquência escolástica sugeriam. Nem rigor nem desdém afectou. Depois de um momento de silêncio disse-me que previa com bastante precisão a sua infelicidade, mas aparentemente tratava-se da vontade do céu porque nenhum meio ele lhe deixava para a evitar. A doçura dos seus olhares, um encantador ar de tristeza ao pronunciar estas palavras, ou antes, o ascendente do meu destino a arrastar-me para a minha perda, nem um instante me deixaram hesitar na resposta. Assegurei-lhe, se ela quisesse depositar alguma confiança na minha honra e na infinita ternura que já me inspirava, que toda a minha vida empregaria a libertá-la da tirania dos seus pais e a fazê-la feliz. Sem reflectir, mil vezes me admirei com a ousadia e esta facilidade em exprimir-me; mas a verdade é que


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livros publicados Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, George Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A papisa Joana – segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides Bom Crioulo, Adolfo Caminha O raposo, D.H. Lawrence


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apresentação e tradução de

Aníbal Fernandes

Cocteau: «Um perfume libertino de pó-de-arroz, vinho na toalha e cama desfeita. As duas personagens estão cobertas com o óleo que há nas penas do cisne, o que lhe permite chapinhar na água sem se conspurcar.»

www.sistemasolar.pt

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