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Luc Dietrich A FELICIDADE DOS TRISTES

Luc Dietrich A FELICIDADE DOS TRISTES

tradução e apresentação de

Aníbal Fernandes

Gostaria de me afundar como no mar. Criar com a minha boca. Que a minha mão saísse para fora das linhas…

www.sistemasolar.pt

Luc Dietrich A FELICIDADE DOS TRISTES


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Luc Dietrich

A FELICIDADE DOS TRISTES tradução e apresentação de

Aníbal Fernandes


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TÍTULO ORIGINAL: LE BONHEUR DES TRISTES

© SISTEMA SOLAR, CRL RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: VAN GOGH, O SEMEADOR (1888) (PORMENOR) REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE 1.ª EDIÇÃO, JANEIRO DE 2015 ISBN 978-989-8566-88-1


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A fragilidade física do que veio na literatura a chamar-se Luc Dietrich (o seu verdadeiro nome próprio era Raoul) tinha-o dispensado de pegar em armas contra os exércitos de Hitler. Os seus trinta e um anos de idade arrastavam a marca de bronquites, pneumonias, alcoóis, cocaínas, da luta contra uma tuberculose; e os médicos das inspecções militares abanavam a cabeça e escreviam: «Inapto para todo o serviço». Mas Raoul Dietrich não soube afastar-se do que eram na França os perigosos cenários de guerra. Tinha conhecido Hubert Bénoit, médico em Saint-Lô num hospital de mulheres loucas, e imaginou-se autor de um livro que as mostrasse em fotografias e onde pudesse discorrer sobre «os mecanismos mentais que impedem ou favorecem a capacidade associativa». Incitado por este programa literário, em Outubro de 1944 Raoul Dietrich era um convidado de Bénoit e a sua máquina fotográfica complementava sem restrições interrogatórios, entrevistas, confidências num Saint-Lô de céus muito frequentados pelos aviões ingleses e americanos que já preparavam o decisivo desembarque na Normandia. As enfraquecidas posições militares alemãs que por ali se escondiam eram dia a dia bombardeadas; tinha mesmo havido um apelo à população da cidade para se afastar, abandonar as suas casas, deixar campo livre às bombas dos Aliados. Dietrich resolveu ficar. Hubert Bénoit tinha a sua consciência de médico a prendê-lo àquelas mulheres sem local para onde pudessem ser rapidamente deslocadas, e naquele grave momento ele não podia traí-lo desviando-se egoistamente para um qualquer ponto da França mais


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seguro. A actividade de Bénoit alargou-se pela cidade de escombros e cadáveres, e o seu convidado acompanhou-o tão eficiente, tão responsável, que foi muitas vezes confundido com um médico. Num desses bombardeamentos é que a derrocada de uma parede deixou ferido um dos seus pés. O pé magoado começou por não lhe parecer digno de especial atenção, mas dias depois tinha espalhada no corpo uma septicémia. Foi transportado para um hospital de Paris onde morreu dois dias mais tarde, numa agonia registada por Lanza del Vasto: «Quando entrei no seu quarto o espectáculo que vi era de arrancar lágrimas, e fiz muito esforço para mostrar boa cara e dizer palavras de saudação. A minha voz caiu entre aquelas paredes brancas sem obter resposta. Olhava-me com olhos que ardiam, e a sua face de morto já o deixava com dentes à mostra. Falei da casa de campo que tinha preparada para a sua convalescença, do quarto, do jardim onde tudo estava à sua espera. […] Tocou no pano azul da minha roupa coberta de poeira, mas ouvia-me para lá das palavras, via-me para lá do que era a minha imagem, no além para onde já tinha passado.» * Raoul Dietrich encontrara doze anos antes Lanza del Vasto, o homem mais importante da sua vida, numa manhã de Junho de 1932 e num banco do parque Monceau, segundo o que ele próprio escreveu em Le Dialogue de l’amitié: «Tinha uma magreza tão grande como a minha, embora menos atingido pela sua devastação. Um peito chato, um rosto dilacerado, pernas roliças num corpo longo.» Dietrich viu-o como um homem de pele curtida que começou por lhe parecer de vagabundo, e a tirar da bolsa de couro gasto um pedaço de pão duro que ali mesmo mastigou. «Não se perturba, disse eu de mim para mim, por deixar exposta num jardim público a pobreza da sua refeição.» Mas estas certezas


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eram intrigadas por uma altivez quase aristocrática, pelas mãos demasiado brancas num qualquer que andasse pela sorte dos ásperos caminhos. «Faz-me o favor de dizer que horas são?», acabou por perguntar-lhe. Del Vasto arregaçou a manga, para deixar claro que não havia no seu braço nenhum relógio, olhou para o sol escondido entre ramos, e num tom que o afirmava com bastante elaborada educação, respondeu: «Entre o meio-dia e a uma e meia.» Raoul consultou por sua vez o sol, e corrigiu-o: «Entre o meio-dia e a uma menos um quarto.» «— Oh! Também sabe ler a hora dos pastores?» Alguns dias mais tarde voltou a encontrar o mesmo homem na rua Des Petites-Écuries. Soube então que era doze anos mais velho do que ele, tinha publicados um livro de poemas franceses e dois livros escritos em italiano. Este Lanza del Vasto, que ainda não era autor de Pélerinage aux Sources nem de Judas (as obras que mais iriam contribuir para a sua notoriedade literária), que ainda não podia contar-lhe nada da sua avassalora experiência junto de Gandhi, impressionou-o desde logo por uma invulgar dimensão de homem. Conhecera muito confortáveis alturas, as previsíveis num neto de príncipe siciliano com infância corrida por castelos normandos, belas casas italianas com vista para o mar, com preceptores e viagens ao estrangeiro, amigos «com títulos tão longos como o seu braço». Na educação académica chegara à tese na universidade de Pisa sobre a Santíssima Trindade. Mas de tudo isto se tinha afastado para abrir espaço ao despojado «filósofo poeta cristão», como ele próprio gostava de se intitular. Num quarto de hotel juntava-se ao seu irmão Lorenzo e à pintora Leonor Fini, pouco mais dava ao corpo do que pão seco e chá, e percorria as igrejas de Paris numa insistente procura do mistério de Deus que já o atingira com um ferimento secreto e profundo. Raoul Dietrich encontrava em Del Vasto a luminosidade física e intelectual que faltavam ao seu mundo interior, e embriagava-se no


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convívio com este homem fascinado com tudo o que reconhecia em oposição a si; mas a sua personalidade cheia de sombras e apelos carnais acabou por sobressaltar a generosidade do filósofo e fazê-lo chegar ao momento decisivo em que lhe disse: «Para mim és perfeito. Deus julga-te e também fazes o teu julgamento: arranja-te com ele e contigo próprio.» Lanza del Vasto preocupava-se por ver «alguém confiar como um cego no homem que lhe passava perto e podia ser tão cego como ele, sem se aperceber de que talvez estivesse prestes a cair num fosso»; que ele próprio poderia transformar-se «num desses a quem devemos temer mais do que os assassinos, e apenas podem tirar-nos a vida do corpo.» Para se compreender esta decisão drástica há que ter acesso a factos posteriores aos contados em A Felicidade dos Tristes, romance autobiográfico que nos entrega o inocente Dietrich entre os oito e os dezoito anos de idade, sem nos fazer suspeitar do inesperado homem que lhe sucedeu até este dia de 1932. À criança e ao adolescente que lá vemos viver um magoado e perturbado amor pela sua mãe, ao rapaz violentamente atraído pela mulher mas condenado por esse amor materno à virgindade sexual, sucedeu — depois da morte da idolatrada Madeleine Dietrich — o homem que se vinga por completo e a quem a dureza do mundo faz romper com os valores afectivos e morais dos difíceis anos da sua juventude. É uma época que levanta aos seus biógrafos nubladas incertezas, mas ainda assim com indesmentíveis evidências do toxinómano, do alcoólico, do traficante de drogas, e até mesmo do cúmplice num assassínio. O ex-amedrontado pelo sexo chega à tumultuosa ligação com a prostituta Rose Rein que o sustenta em momentos de maiores carências materiais, e percorre o leito de um grande número de outras prostitutas que desfilam com curiosas alcunhas nos seus apontamentos íntimos. Reconhece-se feio («Ah! Se eu fosse mulher, como não gostaria de mim!») mas «escravo de um falo insaciável», destinado a percorrer es-


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ses corpos «que o tempo marca como se marca o gado destinado ao matadouro». Está nos seus escritos a consciência deste programa: «Gasto-me a fazer rodapés à carne, a sugar como um zângão tísico todos estes sexos molhados, a beijar aqui, a lamber acolá, a fazer cócegas, a beliscar, a morder, a perder o meu suco vital enquanto a hora passa e o nojo vem ao de cima.» Foi este Raoul Dietrich que Lanza del Vasto encontrou a atravessar-se com uma perigosa sedução nas suas perfeições morais. A um mês de intenso convívio sucedeu a dúvida e o prolongado afastamento que levou Del Vasto à Itália. A sua atracção por Dietrich era porém forte: «Quando é que vens? Esperamos por ti.» Mas Dietrich, quase a morrer de fome em Paris, já pertencia a uma rede de traficantes. Em L’Apprentissage de la Ville conta que já tinha ido a Praga com uma mala de fundo falso carregada de cocaína. «Tu próprio confessas que não tens o sentido das proporções», escreve-lhe Del Vasto. «E não acredites que isso seja um pequeno defeito. […] Conserva os cotovelos agarrados ao corpo e vê quais são os teus limites. Sem isto não há correcção nem justiça; sem isto não há grandeza.» O seu maior sonho, o sonho de se revelar ao mundo como escritor, coexistiu com estes dias de forte miséria material e moral. A proximidade que cultivava com traficantes de droga, as noites mal dormidas em estações de caminhos-de-ferro, não o impediram de frequentar a roda de alguns escritores menores que faziam o seu tempo correr à mesa dos cafés de Paris. Raoul Dietrich começou a escrever «o seu livro». Era autobiográfico e estendia-se por quatrocentas, quase quinhentas folhas que Lanza del Vasto acabou por receber na Itália directamente das suas mãos, quando ele lhe apareceu em Prestinone acompanhado por Méran Mellerio, um seu antigo companheiro do liceu que também queria afirmar-se como escritor. Méran avisou Del Vasto: «Se não achares o livro deste pobre rapaz admirável, julgo que


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ele vai morrer. Esteve muito doente, e apesar de febril trabalhou nele catorze horas por dia. Foi a convicção de ter escrito uma obra-prima que lhe deu ânimo para ficar curado.» Mais tarde Del Vasto relembrará: «Era um destes livros que nos entregam todos os pequenos tédios do quotidiano acrescentados por outro, que é o de sermos obrigados a lê-lo. Em dois dias comi quatrocentas ou quinhentas páginas desta poeira; eu sufocava de tédio. Onde estavam as singularidades que faziam o encanto dos seus poemas em Huttes à la lisière?» (Conhecidos, acrescenta-se aqui, numa pobre edição de 1931.) Del Vasto retardava o momento da resposta. Já tinha num texto declarado o seu desprezo pelo género romanesco. Não lhe faltava porém consciência de que escrever um romance era descer a um espaço atravancado de regras, que um romancista tinha de ser um «hábil jogador», capaz de «acertar no alvo»; que o romance era uma «dança de todo o espírito», uma «perfeição simbólica e rítmica». Por um acaso, no dia em que decidiu dar a Dietrich o seu cruel veredicto ouviu dele o relato de um sonho feito na noite anterior. E a sua oralidade encantou-o. Só havia que fazer um exercício poético do texto já escrito, mantê-lo nessa difícil fronteira onde o real se transtorna com uma dimensão transgressora. Del Vasto propôs-lhe que dois meses mais tarde, no Outono, viesse ter com ele a Pian dei Giullari, a três quilómetros de Florença, a uma casa da sua mãe que permanecia desabitada. Começou assim a ser escrito L’Injuste Grandeur ou le livre des rêves (só postumamente publicado, em 1951). O «aluno» impacientava-se, embora se reconhecesse nesta verdade: «Tenho defeitos persistentes. O Grande Amigo sente que é difícil ensinar-me a sua calma, e às vezes chego a convencer-me de que ele perde a paciência.» E Del Vasto: «Eu não ignorava que às vezes a minha tirania sem eu querer pesava até deixá-lo sufocado. Eu era o carrasco, um carrasco aplicado e que sofria com a sua vítima, que a fazia sofrer e lhe dava uma ajuda para ela suportar a


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tortura.» «Ao procurar incutir-me um estilo», escreveu também Dietrich, «deu-me a medida do seu, que é todo em ângulos rectos, em paralelas, que se desdobra e depois fixa como uma lava.» Quando o texto chegou à forma considerada pelos dois definitiva, foi enviado a Jules Supervielle com esperanças de que ele soubesse fazê-lo aceitar pela N.R.F. Mas Jean Paulhan, que nesses dias ali decidia, rejeitou-o por lhe encontrar «falta de simplicidade». Chegou então a vez de La Guerre aux pavots (A Guerra às Papoilas), que em versão reduzida veio a formar a Terceira Parte do texto de A Felicidade dos Tristes, esta aventura literária semi-realista, semi-feérica, que começará por chamar-se La Leçon de vie e onde os biógrafos de Luc Dietrich viriam a reconhecer uma verdade deformada ou amplificada nos seus elementos reais, em muitos passos tecida com fios de uma completa invenção. Em Dezembro de 1934 Del Vasto e Dietrich estavam em Paris e faziam chegar uma cópia de La Leçon de vie aos editores Grasset, Denoël, Gallimard e Correa. Denoël confessou a Del Vasto que a tinha lido durante uma noite inteira; e dias mais tarde recebera Dietrich «de braços abertos». Disse porém à sua amiga Irène Champigny: «O livro daria cerca de quinhentas páginas. Cortei-o na segunda metade.» (O texto deste corte é conhecido desde 1997 com o título L’École des conquérants.) Mas a sua autoridade de editor ainda fez peremptórias sugestões: que a obra se chamasse Le Bonheur des tristes, em vez de La Leçon de vie; não fosse editada com o nome de dois autores na capa (como pretendia Dietrich), e esse autor único fosse Luc Dietrich (o nome que o narrador do romance escolhe para se identificar). Denoël argumentava que um livro autobiográfico e com um estilo tão pessoal não podia conviver com uma paternidade dupla; e a Lanza del Vasto seria dado suficiente destaque com uma dedicatória que elucidasse sobre o seu papel na elaboração do livro.


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Há razões para podermos pensar que Del Vasto recebeu com secreto prazer esta decisão. A leitura de A Felicidade dos Tristes revela-nos que o seu trabalho de aconselhador, revisor, retocador de estruturas formais menos felizes, obedeceu a um grande esforço: o da preservação de um tom (ou vários tons) que nunca reconhecemos nos seus escritos; que um autor ligado a temas de muito forte espiritualidade não gostasse de ser associado a pormenores que os leitores dessa época iriam inevitavelmente considerar obscenos; não quisesse parecer patrocinador de audaciosas descrições ligadas a excrementos. Dietrich expressou o reconhecimento ao seu mestre com esta dedicatória: «Ao meu amigo Lanza del Vasto que, testemunha de todas as minhas hesitações e temores, deu-me o seu tempo e a sua ciência para tirar de mim este livro, e trabalhou nele com um ardor igual ao meu.» A obra, de um estreante no romance que dava a ler ao público a sua própria história, não hesitava em fazê-lo associando imagens que pareceram a alguns críticos irreconciliáveis visões do mundo — as de um lirismo considerado «mutante», «com uma ingenuidade de estreita convivência com o vitríolo». Teve para estas singularidades grandes entusiasmos: os de Maurice Sachs e de René Barjavel, por exemplo; mas desagrados de um humor crítico oposto, aquele que o deixou ligado a esta saborosa definição: «um horrível acasalamento de Céline e do Grand Meaulnes» Há, no entanto, que apontar alguma pressa à leitura que conduziu a esta associação. A Felicidade dos Tristes tem momentos de um lirismo que pode fazer lembrar o da fronteira mágica onde se move o Meaulnes de Alain-Fournier; e outros, na sua última parte, onde uma crua observação de homens e uma vocação escatológica são fáceis de associar às ficções celinianas; mas nunca com a simultaneidade exigível a um «acasalamento». O romance está dividido em partes independentes, as primeiras seis dominadas pela sombra tutelar da Mãe sobre


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os bons e maus momentos da sua infância e da sua adolescência, com a maior e a menor vontade de lirismo exigidas para essa encantada visão do mundo. A sua sétima parte consuma porém uma ruptura. A Mãe deixa de existir, e a relação de Dietrich com as coisas e os homens modifica-se, fica afectada pela dureza e pelo cepticismo de um outro tom, o que foi apelidado de celiniano. É a diversidade que a alguns pareceu irreconciliável mas não passa, de facto, de um desfile sobressaltado que o autor ajustou aos matizes sucessivos das suas relações com os homens. A controversa beleza desta história chegou às votações finais do Prémio Goucourt de 1935 mas fez o seu júri hesitar, fê-lo desviar-se para a maré menos traiçoeira de outra obra, o já hoje esquecido Sang et lumières de Joseph Peyré. E no dia seguinte ao da atribuição pôde ler-se um vaticínio de Eugène Dabit: «A Felicidade dos Tristes tem mais hipóteses de perdurar do que qualquer outro livro que apenas apresente a seu favor ter ganho um prémio.» Depois de A Felicidade dos Tristes estar publicado e Luc Dietrich se sentir com prazer suspenso nas ondas de uma pequena polémica, desgostos de amor complicaram a sua saúde instável e em bastante mau estado o internaram num hospital de Paris. As suas angústias tiveram de passar sem a estabilizadora presença de Lanza del Vasto, retirado de todos os convívios para se debater com Judas (a personagem inspiradora do seu livro de 1938), mas ainda assim disposto a colaborar na revisão formal dos textos de Terre, o livro de prosa e fotografias que Dietrich publicou em 1936 com um bom acolhimento da crítica e do público. Este Lanza Del Vasto fugidio estava decidido a abandonar a Europa para descobrir (ou antes, sentir perto de si) «a verdade que ia dar um novo fôlego à vida humana», julgava ele, «e efectuar a grande renovação do mundo»; a verdade que já ia sendo pressentida nas suas concepções filosóficas e políticas mas com genuína fonte num homem que vivia a grande distância da França, um homem chamado Gandhi.


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Destituído agora do seu pai espiritual, Dietrich chegou à depressão de onde alguns dos seus amigos tentaram salvá-lo. «Quem me dera estar ao pé dele», ficou escrito no seu diário, «e como eu gostaria de senti-lo mais quente, mais humano perante a minha angústia. Sempre este temor de me matar.» Novos internamentos em hospitais fizeram-no sentir a morte perto de si. Mas queria viver, como pode concluir-se de uma carta escrita nesses maus dias: «Tenho direito à vida. Comi merda a mais e bifes a menos. Não quero este nojo, que é morrer pelas tripas. Quero, com todas as minhas forças, curar-me.» Acabou a sua cura no quarto que a excêntrica e imensamente rica condessa Lily Pastré lhe ofereceu no Mont-Blanc, com vista para uma formosa paisagem de neves. Esta amiga de Edith Piaf e Josephine Baker, amante de álcool e carros ingleses, tinha-lhe sido apresentada por Max Jacob. Abria com facilidade o seu leito a jovens intelectuais desprotegidos e tinha mãos incapazes de refrear uma incomensurável largueza. Não só pagou os internamentos em hospitais que a sua má saúde reclamava, mas a tranquilidade e o sustento que lograram reavivar-lhe o desejo de se prolongar como escritor. As páginas de A Felicidade dos Tristes tinham romanceado os dias da sua infância e da sua adolescência; iria agora contar a sua aprendizagem da cidade num livro a que daria o nome, precisamente, de L’Apprentissage de la ville. O programa de trabalho que esta decisão implicava ficou registado no seu diário: «1938 vai ser o ano de L’Apprentissage de la ville. E terá de estar terminado em Dezembro. Tenho de pensar nisto sem hesitações; Lanza vai regressar e mostrar-lhe-ei páginas definitivas, e não primeiros esboços. O Grande Leão. Acho que me chegam dele todos os impulsos — todo o conhecimento de mim que, mais forte e perdurável, posso dar ao mundo. Para o Leão o que há de melhor em mim.» Quando o Grande Leão regressou da Índia para lançar o seu Judas, estava transformado em Xântidas («o servidor da paz»), o nome


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que o próprio Gandhi lhe tinha dado. O reencontro dos dois amigos fez-se numa alternância de amargos e doces momentos: «Lanza traz a cabeça rapada, uma barba com o feitio de um pão, um fato de bombazina, pés descalços metidos em sandálias. Tenho de disfarçar um choque. Durante toda a tarde nos sentimos incomodados. Seja como for, estou contente por voltar a ver a sua cara». Depois da Índia, Xântidas quis visitar Rhodes, a Turquia, Jerusalém. Fazia a sua peregrinação às fontes. «Vamos estar de novo separados durante longos meses», escreveu Dietrich. «É bem certo que tenho para ler o Judas e novas imagens suas: O Grande Leão cheio de pêlos, o Grande Leão de cabeça rapada, etc., etc. Isto sem me esquecer do dia 21 de Junho, com o Grande Leão a assinar exemplares para a imprensa, como se estivesse a sofrer um castigo e com um ar muito ajuizado.» Esta ausência e esta distância abriram-no a outras amizades: à do escritor René Daumal e sobretudo à de Philippe Lavastine, director dos serviços de imprensa do editor Denoël, que exerceu sobre ele um fascínio quase tão forte como o de Lanza Del Vasto. Lavastine levou Dietrich a Sèvres e ao grupo que recebia ensinamentos de Madame Salzmann, a mais eficiente seguidora de Gurdjieff, o que pregava teorias sobre o «desenvolvimento harmónico do homem». E como ele não se mostrou muito permeável ao que lhe fizeram ouvir, acabou por receber de Lavastine uma carta com palavras de alguma irritação: «Odeio-te muito, Luc. Sim, odeio-te por sentir que estás muito de bem com a tua própria substância, e muito pouco inclinado a abraçar nela outra substância. […] Velho Narciso, velho adorador de ti próprio, não vês que todos os males te chegam da tua pessoa?» Madame Salzmann acabou, no entanto, por vencer. E passado algum tempo já um Luc Dietrich entusiasmado perguntava a si próprio: Por que razão Del Vasto nunca me falou assim?


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Em Junho de 1939 Del Vasto estava outra vez ao seu lado e com algum mau humor; molestava-o sentir que o «seu» Dietrich voava ao vento de Madame Salzmann, e não aprovava muito do que ele tinha escrito durante a sua ausência. Mas ia ajudá-lo; ajudá-lo-ia fixando regras: «Durante a manhã vamos trabalhar no que é teu, e terei as tardes para me ocupar do que é meu.» Ou seja, Lanza del Vasto estaria de manhã com aquela L’Apprentissage de la ville que continha, achava ele, um excessivo desfile de peripécias, e à tarde não lhe tirassem tempo para escrever o seu Pélerinage aux Sources. Subordinada a esta disciplina, durante três semanas foi refeita a cumplicidade que já antes os tinha ligado em Florença, e foi levado a cabo o desbaste, o apuramento formal deste novo romance autobiográfico que estaria um ano mais tarde em condições de ser entregue ao editor Denoël. Em Março de 1942 um escritor mais maduro surgiu, e amansado nas singularidades que tinham anteriormente dividido os seus leitores. Na sua nova relação com a vida não havia lugar para a poética melancolia de A Felicidade dos Tristes, e um tom picaresco fazia-o esquivar-se à ingénua desordem que tinha sabido fascinar e agastar (ou seja, dividir apaixonadamente) aqueles que o liam. A passagem do tempo construiu a distância necessária para se perceber isto: que L’Apprentissage de la ville é o seu mais amadurecido romance, mas Luc Dietrich destina-se a ser citado como autor de A Felicidade dos Tristes. Nos seus apontamentos íntimos encontramos bem definido um dos seus maiores desejos: «Quero descer inteiro na minha frase. Gostaria de me afundar nela como no mar. Gostaria de criar nela com a minha boca. Gostaria que a minha mão saísse para fora das linhas. Gostaria de comunicar um calor tal, que fizesse sentir ao que me lê a força do meu sangue, a vida do meu sangue.» Mas contrariou-o nesta vontade uma guerra, aquelas bombas, aquele ferimento…


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Luc Dietrich morreu no dia 12 de Agosto de 1944, com trinta e um anos de idade. E quem saberá dizer se confirmou então um seu velho sonho fúnebre? «Estou a subir, e a abóbada também sobe, e estou morto, e espero sei lá o quê.» A.F.


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i o relógio fixo 1. Na casa do tio Gustave, onde me deixaram quando eu tinha oito anos, havia flores no papel das paredes: papoilas vermelhas no meu quarto. Dizia-me o tio: «Ora aqui está a decoração apropriada a um quarto de dormir; a papoila é a flor do sono.» Eram olhos arrancados que estavam sempre a chover do tecto e caíam em cima de mim, mesmo à noite quando ficava escuro, mesmo se eu fechasse as pálpebras. * Havia grutas de várias espécies, lagartos e mochos endurecidos. Havia a boca aberta de uma trompa de cobre de onde às vezes saía, como do interior da terra, um ruído de grandes facas a serem afiadas, gritos de mulher e lamentos de gargantas a serem estranguladas. * À frente da minha cama havia um quadro assustador. Era uma praça de aldeia com telhados vermelhos, uma igreja amarela e no campanário um relógio que lá tinha sido aparafusado e marcava sempre duas horas. E perante aquilo o meu espírito parava, ou antes, naquela praça de onde ele não podia sair dava voltas


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como uma folha seca. Nessa praça rodeada de janelas fechadas, de ruas fechadas, eu sentia que poderia esperar, como naquele quarto com papel nas paredes, a impossível chegada da minha mãe, porque o relógio estava parado. * Toda aquela gente fazia um ar misterioso quando falava dela. Como é que podia dizer-se mal de alguém metida numa casa de saúde e a sofrer? Eu, eu lembrava-me da sua grande ternura1.

2. Na casa do tio Gustave havia poltronas satisfeitas, com berloques de madeira que faziam um ruído quando nos aproximávamos delas. Havia um piano barrigudo com pequenos pés, e em cima dele um homem de bronze completamente nu, com um traseiro onde o tio Gustave pousava a mão quando me dava lições de moral. Havia o tio Gustave vestido de preto e com pezinhos dentro de sapatos pretos com focinhos amarelos. Tinha uma cabeça redonda e bigodes sólidos, e quando estávamos sozinhos olhava para mim como um cão imóvel, talvez com vontade de morder. E como Nosso Senhor, desde a história da arca de Noé, só podia atribuir a cada casal um razoável espaço a que ele tinha direito, quanto mais o tio se espalhava a dar voltas no meio da vida, mais a tia Gertrude se apagava ao longo das paredes, se metia nos armá1 Madeleine Dietrich estava internada numa casa de saúde como toxicómana, e depois de ter tentado suicidar-se mergulhando na água de um poço. (N. do T.)


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rios de onde estava constantemente a sair com um cheiro a naftalina. Pelo contrário, o tio tinha um perfume parecido com o gosto açucarado que se esconde nos purgantes oleosos. Aproximava-se de mim para me beijar, e como eu voltava a cabeça picava-me ao pé da orelha com o bigode e dava-me uma leve palmada no rabo. Quando me castigavam era ele quem me açoitava. Todos os seus sentimentos, desde a cólera até ao bom humor, eram dirigidos ao meu rabo e eram-me de igual forma desagradáveis. Porque se tratava de uma coisa só a mim dirigida, e eu não gostava que me fosse dada tanta atenção. * A voz do tio era baixa, por momentos com um véu de cobre; e a tia dizia, satisfeita: «O teu tio tem um belo órgão.» Dizia-o com uma vozinha aguda e descolorida. * Às vezes ouvia os dois no quarto; a voz do tio era um zumbido: «Posso garantir-te, minha menina; eu peço-te, minha menina»; e depois baixava um tom. E depois a tia Gertrude começava a dar voltas como uma máquina de costura, e depois afrouxava a dar pequenos soluços, e de repente desatava a cuspinhar risadas, a gritar gargalhadas, e eu pensava que ele talvez estivesse a fazer-lhe cócegas na planta dos pés com o bigode. Ouvia-se um som de louça partida, e davam ambos gargalhadas, e eu achava que tinha ido parar a um muito estranho sítio. *


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Os dois faziam coro quando chegava o momento de me castigar, porque eu sempre fui um cábula, mesmo antes de ir para a escola. A tia Gertrude não me mandava ir à escola, porque a escola corrompe a alma infantil. Era ela quem me ensinava: «Os Baixos Pirenéus, a capital do distrito Pau, são como um bacio.» E a minha alma infantil sentia-se desagradada. Se fosse a minha mãe, não me ensinaria coisas tão feias. A tia fazia-me copiar palavras absurdas, e de repente dizia-me «quatro + quatro», e eu perguntava-lhe: «Quatro bananas ou quatro maçãs?» Teimava: «Eu disse quatro!» E nessa altura eu espantava-me: «Se alguém a conversar disser “quatro”, achamos que é estúpido e perguntamos: “Quatro quê?”» Ela saía disto irritada e grunhia: «Aliás, quando se tem pais como os teus!»

3. Quando o tio Gustave estava de bom humor, achava-me simpático e dava-me dez soldos. A tia Gertrude tinha mãos pequenas que encontravam sempre no meu ombro um cabelo ou uma linha que ela surripiava. Palmava-me os soldos e metia-os num mealheiro que acabava por ser partido, e toda a gente se sentia satisfeita e esfregava as mãos fazendo-me acreditar que era divertido ter tanto dinheiro. Mandavam-me contar esse dinheiro, e com ele compravam-me um fato.


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4. Compraram-me no dia catorze de Julho um fato desse pano com que se fazem sacos, ainda mais feio porque eu apanhara um castigo. Tinham-me posto na cabeça um chapéu de palha amarrado debaixo do queixo, para eu não conseguir tirá-lo. Levaram-me pela mão no meio de muita gente que ficava a olhar para mim. No Bois vi meninas minhas conhecidas que o tinham a ele, o seu homem, entre elas. Era bonito, trazia calçadas peúgas de três cores, uma gravata com pintas, uns calções curtos, azuis, um casacão vermelho com botões todos dourados, e levava na mão o chapéu como se fosse um nógado. A tia empurrou-me: «Vai dizer bom-dia aos teus amigos». Mas eu agarrava-me às suas saias: «Não, não!» «Mas o que é isto, o que é que deu a este valdevinos, vai lá…» E ambos verificaram que eu lhe tinha rebentado três colchetes, deixando à mostra um pedaço de combinação branca.

5. O pior era quando fechavam a luz e me deixavam a noite inteira sozinho no quarto das papoilas. Nessas ocasiões a fábrica que ficava à frente punha vagões a mexerem-se nos carris e atirava com luzes vermelhas através das persianas. A pele de leopardo rastejava por todo o quarto, e os relógios aproximavam-se de mim a balançar os seus cutelos por cima dos meus pés. A minha mãe chorava no campanário amarelo onde o tio Gustave a tinha aprisionado. E o leopardo subia para a minha cama; tinha grandes bigodes como o tio Gustave, e com garras de tia Gertrude raspava-me abaixo da orelha.


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Acordei e deparei com o tio em cima da cama, a meter as mãos em tudo quanto era sítio. As suas mãos subiam como água. Eu sufocava, berrava, debatia-me. A luz acendeu-se e a tia gritou: «Meu Gustave, o que te fizeram?» Ele estava com o nariz arranhado. Compôs a gravata. Disse: «A criança estava aos gritos, a sonhar, vim acalmá-la e desatou a bater-me…» E a tia encorajava: «Maltrata o seu tio e na rua tentou despir a sua tia; à noite berra…» E o tio rematava: «Esta criança é um caso perdido.» Os dois olharam para mim com um ar inquieto e retiraram-se fechando as portas à chave.

6. No dia seguinte o tio deu-me dez soldos que a tia não apanhou. Ninguém me disse que eu era estúpido. Deixaram-me ir à cozinha ver o que eles tinham para o seu almoço. Fui para a mesa ao mesmo tempo que eles, e puseram-me no prato uma sardinha e duas azeitonas da sua entrada. Em vez da sopa de puré de ervilhas, tive como eles um muito bom rosbife. Comecei com inquietação a perguntar a mim próprio o que estaria para acontecer. Durante a sobremesa o tio tossiu, fez-me uma espécie de sorriso e perguntou: «Meu menino, gostavas de ter camaradas simpáticos, estar numa pensão, numa bela pensão?» E eu: — Oh! Claro que sim!… O coro das duas vozes repreendeu-me: — O quê, afinal não gostas de nós? — É claro que gosto! — Então por que disseste: «Oh! Claro que sim!»


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— Ah! Porque é mesmo «Oh! Claro que sim!» No dia seguinte levaram-me de visita a Sainte-Anne1. * E depois deixaram-me num pátio. Estava-se-lá bem, havia flores; podíamos correr, fazer tudo o que quiséssemos. Apareceu um senhor com barba, seguido de outro que não tinha barba mas vestia uma grande blusa branca e trazia com ele um caderno. O senhor perguntou-me coisas tão curiosas que não consegui impedir-me de rir. Mas era muito simpático, não me chamou estúpido, não me disse o que eu tinha de responder. Perguntaram-me o que eu desejava fazer mais tarde, e respondi: «Quero ser cura.» — Cura, porquê? — Porque gosto de Nosso Senhor. Porque eles usam um trajo bonito e andam como se estivessem num enterro. Perguntaram-me se eu costumava rezar todos os dias. Às vezes eu esquecia-me das orações da manhã e da noite; mas como não queria que o soubessem, disse: «Sim, todos os dias», porque sentia à minha volta como que um murmúrio de admiração. O senhor ditou: «Mania religiosa», e depois passou ao seguinte. Eu cá pensava: «Manie é como vanille [baunilha], é qualquer coisa boa, e uma freira também é qualquer coisa boa, é uma espécie de grande sonho com recheio de chocolate. São muito simpáticos, estes senhores, mas uma gente um tanto esquisita!»

O tio Gabriel e a tia Gertrude eram Paul (um arquitecto) e Madeleine Franchette. Luc foi internado no Perry-Vaucluse, um estabelecimento que educava jovens «com inteligência pouco desenvolvida ou afectados por idiotismo». (N. do T.) 1


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* Quando eles se foram embora fiquei com os meus camaradas. Durante três dias divertimo-nos imenso. Eram todos muito divertidos. O Gordo era tão gordo como o tio Gustave. Tinha peúgas curtas, pretas, com elásticos brancos. Também tinha bigodes, mas que saíam do nariz como grandes fios. Era velho, tinha dez anos. Outro tricotava o ar com mãos que ele próprio ruidosamente babava; não parava de olhar para um lado e para o outro, como se representasse uma farsa, e com a baba alisava os cabelos. Aquele que era branco como um marco da estrada punha-se atrás de mim e espetava-me um dedo entre os ombros; e como eu me voltava, assustado, desfazia-se a rir e ia fazer o mesmo a outro. Quanto àquele que nos roubava os chapéus, era amigo do que tinha a cabeça rapada e estava sempre com um ar muito sério, a resmungar como uma oração: «piçapiça piçacona — piçoucupiçoucona.» * No refeitório espantava-me ver como todos comiam quanto queriam. Havia os que chafurdavam nas tigelas, e o baboso agarrava com as duas mãos no prato e só tirava de lá o nariz e a língua depois de deixar tudo limpo. No pátio não havia nada que fosse proibido; e o Gordo punha-se no meio de um vaso de gerânios e brincava a imitar um repuxo. A seguir sacudia-se com calma e voltava a abotoar-se.


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7. Depois chegou o autocarro verde da manhã. Apenas me deixaram o da cabeça rapada, e empurraram-me para dentro do veículo com outros que eu não conhecia. Alguns choravam como se os estivessem a separar de alguém. E partimos. Em Paris tudo andava à roda. Para onde é que toda aquela gente corria? Talvez lá estivesse o ajuizado chapéu do tio Gustave e a tia Gertrude que valia o mesmo que uma reguada. Outros autocarros enfiavam-se no meio das casas. Depois surgiram os subúrbios com as suas chaminés bem à mostra, e depois o campo. O céu estava com vontade de chorar. E nós não parávamos de fugir. Uma gota esmagou-se nos vidros. Lá dentro eu ofegava com aquele cheiro a azeite, a chichi, a comezainas mastigadas. Os outros iam dando murros, gritavam e de repente vomitavam. O céu baixava cada vez mais. No campo vazio elevou-se um grande quadrado com grades, onde o autocarro se meteu sem diminuir a velocidade. Havia mais grades levantadas no pátio interior.

8. Arrumaram-nos completamente nus numa sala, e estávamos envergonhados. Alguns tinham barrigas como faces de mulher velha, outros tinham rabos verdes, outros tinham no peito buracos onde podia meter-se a mão. Raparam-nos. Os meus caracóis, que as mãos da minha mãe afagavam, caíram no chão como uma coisa suja. Todos tínhamos crânios azuis. Um homem tirava de um balde uma cola negra e untava-nos com ela a cabeça e os olhos. Depois empurravam-nos, cegos, para debaixo de uma chuva de água a ferver que nos fazia berrar. Mãos esfregavam-nos, escovas esfolavam-


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-nos, panos limpavam-nos connosco completamente vermelhos; atiraram-nos para um corredor frio onde mulheres de avental carregavam montes de cordas e passavam como carroças de feno, e esmagavam-nos contra as paredes. Numa outra sala, outras mulheres entregavam-nos camisas como se fossem capachos, calças de carteiro, blusas de carteiro com grandes botões. A roupa cheirava a tia Gertrudes. Comecei a sentir saudades da tia Gertrudes.

9. Puseram-me no pátio n.º 4, tinham-me dado o número 316 e sapatos que chiavam. Mal entrei lá um aguaceiro espirrou o pátio onde as árvores perdiam as folhas, e escorraçou toda a gente para um telheiro estreito. «O novo! O novo!» Saltitavam, davam à minha volta encontrões e importunavam-me com perguntas. Havia uma que constantemente me faziam e me embaraçava: «E tu, o que tens?» Eu não tinha nada, e isso confundia-me. Tocou um sino, e como fui o último a pôr-me nas fileiras o pátio fez-se imenso. * O dormitório era uma sala branca, grande como um hangar, cheia de luz gelada, com centenas de camas alinhadas até ao fim. * Começou então a série das noites sem sono. Aqui não era a sombra que metia medo, como na casa do tio Gustave, mas aquela lâmpada eléctrica apontada aos meus olhos, e os sapatos ferrados do


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ii a felicidade dos tristes 1. Fomos em Paris muito felizes naquele pequeno quarto. Para lá chegarmos era preciso subir escadas, subir, subir. E quanto mais estafados, mais ligeiros ficávamos. Era como trepar a uma árvore, e no último ramo encontrarmos o quarto. Quando abríamos a janela, a vista fugia com os comboios aéreos por cima das árvores, até às cúpulas longínquas e às nuvens. E se à noite voltávamos para lá, depois de um longo passeio, é porque não havia no mundo um quarto mais amado. Conversávamos alegremente sobre as coisas desse dia, e às vezes também do grande dia vazio que tinha durado meses e meses, e durante o qual tínhamos estado separados; e as coisas mais tristes desse tempo também alimentavam a felicidade actual. Eu adormecia com ela a afagar-me os caracóis, e o sono chegava como um pestanejar de folhas batidas pela brisa. Mas ainda maior do que essa felicidade era a expectativa da felicidade definitiva. A minha mãe ia ser nomeada enfermeira ao domicílio numa pequena cidade do norte, e lá teríamos paz, liberdade e a dois passos o campo.


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2. — Para onde vão estes homens pretos? — perguntei à minha mãe quando estávamos a entrar na cidade onde devíamos encontrar a felicidade. — Para a mina1.

3. A casa onde íamos habitar cheirava a fechado. Abrimos a janela. — Tens a certeza, mamã, de que nunca estivemos aqui? De facto, telhados vermelhos faziam o remate das fachadas de fuligem, e as entradas das ruas pareciam muros, e a noite descia sobre a praça da igreja deserta, onde as folhas secas rodopiavam. Atirei-me, assustado, para os braços da minha mãe. * Durante todo o Inverno mantive-me na toca na sala do fogão, e de preferência debaixo da mesa grande como uma cabana e aguentada por tripés. O calor do cano lutava mal com o bolor do papel. Lá fora, montes de água gelada caíam na neve suja. *

1 Madeleine foi para Carvin, no Pas-de-Calais, uma cidade mineira onde ocupou um lugar de enfermeira assistente de higiene social. É provável que tenha abandonado o lugar anterior por ter sido apanhada, uma vez mais, a roubar drogas que alimentassem a suas exigências de toxicómana. (N. do T.)


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Um dia atrevi-me a ir até ao pátio, onde batatas apodreciam em caixotes com aberturas nas suas paredes. O quarto dos Phagon dava para lá. Vi pela porta aberta o pai a barbear-se, a Marianne a empoar-se e a mulher gorda a coçar-se debaixo das saias. O cão lambia a cabeça de um coelho que aceitava a situação com as orelhas caídas, e um canário que a sombra tornava branco agitava-se na gaiola abrindo um bico emudecido. O cheiro que aquilo deitava era tão forte, que não nos atrevíamos a olhar mais de perto. Vi no fundo do pátio o Julot debruçado numa selha. Os filhos da gata andavam lá dentro às voltas, e com um dedo ele empurrava-os para o fundo. Os bichos estendiam as patas, faziam bolhas que saíam do focinho aberto e tinham um ventre gordo.

4. A minha mãe ia logo de manhã para o trabalho e dizia-me: — Não chove, devias sair. Mas eu preferia manter-me agachado debaixo da mesa, com a colecção de velharias que tinha trazido de Paris. O gosto por coisas antigas chegara-me com uma virgem de marfim muito velha, oferecida pela minha mãe quando fiz dez anos. O resto comprei-o nos cais com as minhas moedas. * À entrada a minha mãe exclamava: — Mas que barulho! Já no pátio te ouvimos. — É que estou com toda a gente das minhas relações.


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— Não vejo ninguém. — Não te sentes nessa cadeira, porque vais estragar o granadeiro. — Só lá vejo um botão. — Sim, é ele, o botão do granadeiro que fuma cachimbo. E agora atenção, porque o Heliogábalo está a entrar. E eu punha a rolar a moeda de bronze com a sua efígie. O cavalo branco começava de imediato a galopar por todo o quarto, seguido de perto por Vercingetórix num cavalo de prata com o feitio de um relâmpago. * A minha mãe não gostava de me ver constantemente a esfregar velhas moedas. Dizia-me: — Não são brincadeiras para ti, meu filho. Na tua idade brinca-se com a bola, ao soldado, corre-se com camaradas. Por que não sais? — Porque tudo quanto aqui existe é feio. — Feio, como? — Sim, nada existe aqui de antigo. — Por que dizes que tudo quanto é novo é feio? — Sim, é feio, está coberto de tinta, é de lata, enquanto o velho é sempre como um livro de gravuras. Se nada tivermos para fazer e olharmos para uma cadeira velha, vemos lá uma maçã, uma pequena flor a um canto, e mais longe um peixe, um castelo, e os bichos fizeram um corredor debaixo do castelo. E a cadeira velha viu passar pessoas, enquanto a nova é igual em todo o lado; aborrecemo-nos a olhar, e ela não viu nada, taparam-lhe com tinta todos os olhos. «Mesmo quando não tem ninguém lá dentro, uma igreja velha está cheia. Vê-se que as plantas, as árvores, os animais, todos


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índice Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . i. O Relógio Fixo . . . . . . . . . . ii. A Felicidade dos Tristes . . iii. A Guerra às Papoilas . . . . iv. A Noiva de São Jorge . . . . v. Introdução à Vida Comum . vi. O Quarto dos Lírios . . . . . vii. O Pão de Terra . . . . . . . .

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Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, George Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A papisa Joana – segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha O meu corpo e eu, René Crevel Manon Lescaut, Antoine Prévost d’Exiles O duelo, Joseph Conrad


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DEPÓSITO LEGAL 385202/14 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA EUROPRESS RUA JOÃO SARAIVA, 10 A 1700-249 LISBOA


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Luc Dietrich A FELICIDADE DOS TRISTES

Luc Dietrich A FELICIDADE DOS TRISTES

tradução e apresentação de

Aníbal Fernandes

Gostaria de me afundar como no mar. Criar com a minha boca. Que a minha mão saísse para fora das linhas…

www.sistemasolar.pt

Luc Dietrich A FELICIDADE DOS TRISTES

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«Nós, nós somos infelizes por não andarmos nada contentes com o que somos, e também por não sabermos o que gostaríamos de ser.» [Luc Dietric...

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