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[…] Ensaio sobre os mestres


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Pedro Eiras

[…] Ensaio sobre os mestres

D O C U M E N TA


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Esta publicação é desenvolvida e co-financiada por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, no âmbito do Programa Estratégico «UID/ELT/00500/2013» e por Fundos FEDER através do Programa Operacional Fatores de Competitividade – COMPETE «POCI-01-0145-FEDER-007339»


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ESTE LIVRO se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. (Clarice Lispector 1969: 7)


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vou dizer o que sei como quem mente. (António Franco Alexandre 1983b: 175)

escrever como forma de inoculação. (William Burroughs 1986: 15)

… jogar então; fazer coincidir, uma a uma, as cartas com esta página, de forma a que, quando der por mim, esteja a escrever já sobre o valete de ouros, a fazê-lo tomar parte activa na ficção. (Luís Miguel Nava 1981a: 66) esta escrita nada representa, nada substitui nem nada medeia (Carlos Vidal 1994: 89) eu escrevo a minha leitura (Roland Barthes 1970a: 15) tudo isto, tudo isto é literatura… (Mário de Sá-Carneiro 1912: 122)

Chega-se a um momento da vida (e por coincidência a um momento do mundo que seja por linguagem o nosso) em que o poeta se interroga antes de escrever: porquê, e para quê, e para quem? (Jorge de Sena 1979: 152)

O escritor começa a fazer as contas. Escrever ou permanecer calado? Abrir a boca ou permanecer calado? Permanecer calado ou escrever? (Rui Manuel Amaral 2015: 40) – Hipócrita leitor, – meu igual, – meu irmão! (Charles Baudelaire 1857: 47)

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Entrar numa obra é mudar de universo, abrir um horizonte. A obra verdadeira dá-se ao mesmo tempo como revelação de um limiar intransponível e como ponte lançada sobre esse limiar proibido. Ergue-se um mundo fechado à minha frente, mas abre-se uma porta que faz parte da construção. (Jean Rousset 1961: II) O começo de todas as histórias é, no princípio, ridículo. Parece não haver esperança de que esta coisa acabada de nascer, ainda incompleta e tenra em todas as suas articulações, seja capaz de se manter viva na organização completa do mundo, que, como todas as organizações completas, luta por se fechar. Contudo, não podemos esquecer que a história, se tiver uma justificação para existir, tem dentro de si a sua própria organização completa até antes de estar completamente formada; por esta razão não há motivo para desesperar com o princípio de uma história; num caso semelhante, os pais teriam de desesperar com o bebé porque não tinham nenhuma intenção de trazer para o mundo este ser ridículo e patético. (Franz Kafka 1910-1923: 287)

– o vosso nome, por favor? – Lenz – Esse nome não foi já impresso? Não li eu já alguns dramas que se atribuem a alguém com esse nome? – Sim, mas peço-vos que não me julgueis por aquilo que escrevi. (Georg Büchner 1835: 27)

Os livros não me dizem nada. (Joseph Roth 1939: 66) 10


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Um

PREFÁCIO existe ? (Jacques Derrida 1972: 15)

Não existe prefácio, não existe programa, ou pelo menos todo o programa já é programa, momento do texto, texto tomando a sua própria exterioridade. (Jacques Derrida 1972: 29)


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Qualquer obra escrita pode ser considerada como o prólogo (ou antes, o molde de cera perdido) de uma obra nunca redigida e destinada a nunca o ser, porque as obras seguintes, elas mesmas prelúdios ou moldagens de outras obras ausentes, representam apenas esquissos ou máscaras mortuárias. (Giorgio Agamben 1978: 7)


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O incompleto segundo volume de Bouvard et Pécuchet tinha de ser um pantanal de citações. (Roberto Calasso 1991: 93)

Certos livros recebem um destino muito antes de existirem como livros: é o caso das Passagens, a obra inacabada de Benjamin sobre a qual se teceram muitas lendas desde que Adorno falou dela pela primeira vez num ensaio publicado em 1950. (Rolf Tiedemann 1989: 11) Deste projecto temos milhares de páginas, estudos de material que ficaram escondidos em Paris durante a ocupação. Mas não é possível reconstruir o conjunto. A intenção de Benjamin era renunciar a toda a interpretação manifesta, fazendo com que as significações se impusessem apenas através da contrastada montage do material. A filosofia tinha que acolher o surrealismo até se tornar ela própria surrealista. […] Para coroar o anti-subjectivismo, toda a obra tinha de constar de citações. […] A filosofia fragmentária permaneceu em estado de fragmento, vítima talvez de um método em relação ao qual não ficou resolvido o problema de saber se pode incluir-se no meio do pensamento. (Theodor W. Adorno 1955: 23) Pela sua constituição, Walter Benjamin era o oposto de um filósofo: era um exegeta. […] encontramos nele desde o início a imitação camuflada do exegeta, o gesto de se esconder por detrás de montões de material a comentar. Sabe-se que o seu sonho era desaparecer, no auge da sua obra, atrás de uma coacção intransponível de citações. E não me referi ainda ao pressuposto que é a violência principal e decisiva de um tal comentador: renunciar, com hipócrita modéstia, ao texto sagrado, mas ao mesmo tempo tratar qualquer outro texto que seja objecto de comentário com a mesma devoção e meticulosidade que o texto sagrado tradicionalmente exige. (Roberto Calasso 1991: 53) 13


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Passagen-Werk faz de nós detectives históricos mesmo contra a nossa vontade, obrigando-nos a tornarmo-nos activamente envolvidos na reconstrução da obra. É só acedendo ao facto de que a sua brilhante escrita, que estamos tão dispostos a canonizar, é realmente apenas uma série de captações do mundo fora do texto, que somos capazes de abrir caminhos (Susan Buck-Morss 1989: X) Não foi por acaso que se compararam as fotografias de Atget com as de um local do crime. Mas não será cada canto das nossas cidades um local do crime? (Walter Benjamin 1931: 261) Benjamin tinha a intenção, segundo Adorno, de «renunciar a qualquer comentário explícito e fazer surgir as significações apenas através da montagem do material e dos choques assim produzidos. […] Para coroar o seu anti-subjectivismo, a obra mestra devia ser constituída apenas por citações» […]. Por muito benjaminiana que esta concepção possa parecer, o editor está persuadido de que Benjamin não tinha intenção de proceder assim. Nenhuma carta corrobora esta afirmação e as duas notas das próprias Passagens […] em que Adorno se apoia dificilmente podem ser interpretadas neste sentido. (Rolf Tiedemann 1989: 12n) As provas apontam a favor da leitura de Tiedemann. (Susan Buck-Morss 1989: 74) é preciso não esquecer que Passagen-Werk não existe. Estamos verdadeiramente a confrontar um vazio. O fenómeno a que o título se aplica, volume V dos Gesammelte Schriften, fornece abundantes marcas de uma obra projectada, mas não é uma obra. Contudo, em termos de simples quantidades, este volume constitui um sexto da produção intelectual de Benjamin, e os fragmentos de investigação e comentário versam sobre aquele conjunto de preocupações que guiaram todo o seu pensamento e escrita de maturidade. (Susan Buck-Morss 1989: 47) 14


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[…] ENSAIO SOBRE (Silvina Rodrigues Lopes 1988b)

OS MESTRES (Georges Steiner 2003: 146)


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No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e Deus era o verbo. (Evangelho segundo João s/d: 1:1)


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ao princípio era o Vento, O Vento e não o Verbo. (René Crevel 1930: 27)

O que primeiro existiu foi o Caos (Hesíodo s/d a: v. 116)

A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas. (Génese s/d: 1:2) E o espírito de Deus como num livro movia-se sobre as águas. Com seu motor à popa, veloz, peixe sumptuoso, o espírito de Deus, motor de um número de cavalos, galgava a antiga face pálida das águas. (Herberto Helder 1964a: 206)

A luz opera, sobretudo, em nome do nome duma luz desconhecida. Que a si se punge, ao fundo do seu longe, a dar somente aquilo que retira para o sítio invisível para de onde em negrura nos chega. (Fernando Echevarría 2001: 28)

porém não acabaram aqui os problemas dir-se-ia que verdadeiramente começaram aqui (Alberto Pimenta 2012: 62)

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O nascimento do nosso tempo não é, por conseguinte, o nascimento do tempo. Já no vazio flutuante o tempo preexistia em estado potencial. (Ilya Prigogine 1988: 59) Primeiro plano. A temperatura do universo é 100 000 milhões de graus Kevin (1011ºK). O universo nunca mais voltará a ser tão simples e tão fácil de descrever. É constituído por uma sopa indiferenciada de matéria e de radiação, onde cada partícula coincide constantemente com outras partículas. (Steven Weinberg 1977: 119) Depois o sentido encheu a palavra. Ficou prenhe e encheu-se de vidas, tudo nascimentos e sons: a afirmação, a claridade, a força, a negação, a destruição, a morte: o verbo assumiu todos os poderes e fundiu-se existência com essência na electricidade da sua formosura. (Pablo Neruda 1962: 21)

Deus […] resolveu, numa semana em que não tinha mais nada para fazer, criar o mundo. E criou o céu e a terra e as estrelas, e viu que eram razoáveis, Mas achou que faltava vida na sua criação e – sem uma ideia muito firme do que queria – começou a experimentar com formas vivas. Fez amebas, insetos, répteis. As baratas, as formigas, etc. Mas, apesar de algumas coisas bem resolvidas – a borboleta, por exemplo –, nada realmente o agradou. Decidiu que estava se reprimindo e partiu para grandes projetos: o mamute, o dinossauro e, numa fase especialmente megalomaníaca, a baleia. Mas ainda não era bem aquilo. Não chegou a renegar nada do que fez – a não ser o rinoceronte, que até hoje Ele diz que não foi Ele –, e tem explicações até para a girafa, citando Le Corbusier («A forma segue a função»). Mas queria outra coisa. E então bolou um bípede. (Luís Fernando Veríssimo 2000: 129) Deus terá conhecimento De quanto passa no mundo? (Norberto Ávila 1976: 179)

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– É emocionante – disse Sherlock Holmes com um bocejo. – E que aconteceu depois? (Arthur Conan Doyle 1886: 53)


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O Combate

O que deixa inacabado não fica em paz. (Gilgamesh s/d: 35)

Não é vergonha admitir derrota perante um adversário valoroso. […] Tive sempre a sensação de ser um general de um exército dizimado a vaguear pelo meio do fogo, à procura do general vitorioso para lhe entregar a minha espada. (Arkady Strugatsky & Boris Strugatsky 1977: 85) quando o rei derrubado bate no tabuleiro, faz um ruído muito desagradável que gela o coração a qualquer jogador de xadrez. (Patrick Süskind 1981: 21)


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que leão me beijou boca a boca, juba e cabelo trançados numa chama única? Esse beijo afundou-se-me até às unhas. (Herberto Helder 1980: 364)


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O meu mestre Caeiro era um mestre para toda a gente com capacidade para ter mestre. Não havia pessoa que se acercasse de Caeiro […] que não viesse outro […] – a não ser que essa pessoa o não fosse, isto é, a não ser que essa pessoa fosse, como a maioria, incapaz de ser individual a não ser por ser, no espaço, um corpo separado de outros corpos e estragado simbolicamente pela forma humana. (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos 1997: 72) Cada um tem o Sócrates que merece. (Francis Wolff 1985: 13) O judeu sabe que não basta acreditar numa verdade, mas que é preciso, em cada instante, merecê-la […] O que é merecido – a partilha de um vocábulo – é, porventura, o que está selado na palavra do livro. A virtude de toda a criação está, sem dúvida, em ignorá-la. (Edmond Jabès 1973: 471) Procurava uma alma que merecesse participar no universo. (Jorge Luis Borges 1944: 469)

o que deve denominar-se sublime não é o objecto, mas sim a disposição de espírito através de uma certa representação que ocupa a faculdade de juízo reflexiva (Immanuel Kant 1790: 145)

A alma esforça-se então por atrair aquilo que se parece com ela (Friedrich Nietzsche s/d: 158) 259


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– Por que razão não entra? – Está escuro. O Mestre acendeu uma candeia e entregou-a a Ana. No momento em que ela ia a pegar-lhe, o Mestre soprou e apagou-a. (Maria Gabriela Llansol 2009: 85) Todos os seres caminham para a perfeição do conhecimento? (Fiama Hasse Pais Brandão 1988: 173)

Vós sois o sal da terra. Mas se o sal se tornar insípido, com que se salgará? (Evangelho segundo Mateus s/d: 5:13) Uma religião não requer apenas um corpo de sacerdotes que saibam o que estão a fazer, requer também um corpo de fiéis que saibam o que está a ser feito. (T.S. Eliot 1948: 26) – Leva-me contigo! – Levo – respondeu ele, e arrependeu-se no mesmo instante. (Bruce Chatwin 1980: 38)

a Josefina não quer só ser admirada, quer ser admirada exactamente da maneira que ela prescreveu, admiração por si só não lhe interessa. (Franz Kafka 1924: 306) Alguém que nos admira e nos coloca num pedestal é o nosso maior inimigo – a gente nunca tem possibilidade de se apear do plinto e comer amendoins. Ah, os olhos dos discípulos devotos, dedicados, amantes até ao sacrifício, perseguindo-nos até ao complexo de inferioridade, ao tic, à mania da perseguição, à claustrofobia, ao horror da vida em geral! Aquelas pessoas que nos consideram os mais belos, os mais perfeitos, os mais direitos ou os mais redondos ou os mais bicudos ou os mais quadrados ou não sei os mais quê e não nos deixam um minuto para estarmos no quarto minguante! (Ana Hatherly 1963: 59) 260


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Não há mal nenhum em ser um génio que consegue fascinar os jovens. Mas já há qualquer coisa de mal nos jovens que não se deixam fascinar por um génio. (Julian Barnes 2011: 67) os jovens são obstinados, estão sempre a imaginar e cabiam mal nesse espaço curto e previsível. De modo que segredavam entre si, ignoravam a censura dos mais-velhos, viravam costas a um mundo que parecia não ter solução, feito de esperas, subserviências e migalhas, e punham-se a caminho. (João Paulo Borges Coelho 2003: 112) O velho pareceu lisonjeado com o pedido. Pigarreou e deu início ao relato: – Há vinte ou trinta anos, rogavam-me muitas vezes que contasse a minha história. Hoje, a mocidade cada vez mais se desinteressa do passado… – Lá recomeças tu! Que quer dizer «desinteressa»? – atalhou Beiço Rachado. – Fala claramente, se queres que a gente entenda. Nada de frases complicadas ou de palavras difíceis. (Jack London 1912: 25)

Trabalho e trabalho para dar à luz um pai na minha solidão de depauperado arado que nada sulca porque como um comboio a que faltaram carris prévios ao meu arado são seus sulcos. Sou um filho circular. (Daniel Jonas 2005: 17)

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é o corpo de outrem que constitui o nosso (Maria Gabriela Llansol 1991c: 28)

Sozinho, o ser fecha-se, adormece, tranquiliza-se. […] O ser não procura ser reconhecido mas contestado: para existir, dirige-se ao outro que às vezes o contesta e às vezes o nega, a fim de começar a ser apenas nesta privação que o torna consciente (aí está a origem da sua consciência) da impossibilidade de ele ser ele mesmo (Maurice Blanchot 1983: 15-16) São Tomás usou a palavra abalietas. Quis indicar assim que qualquer criatura humana, nascida do outro, fundada sobre o outro, instruída pelo outro, apenas funcionava ab alio, submetida às vontades e caprichos de uma alteridade irredutível. Não passamos de produtos derivados; língua, identidade, corpo, memória, tudo em nós é derivado. A fundação do ego em nós apresenta muito mais fragilidade e muito menos volume do que a origem pelo outro, ab alio, a transmissão familiar, a instrução social, a tradição dos costumes, a religião moral, a obediência linguística. O fascínio antecede a identidade. (Pascal Quignard 2002: 132) é em Euclides que Tom Zé reconhece este sertanejo a partir do outro, isto é, para além do olhar que ele mesmo tinha para com o sertão. Nesta reviravolta ele descobre o olhar do outro, o olhar do outro que não era o mesmo olhar de seus pares e que, ao mesmo tempo, enquanto olhar de um outro, é o que também se diferia do olhar de seus pares, uma espécie de outro-outro olhar. (Demétrio Panarotto 2009: 62) 262


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A meta de toda a vida é

A Morte (Sigmund Freud 1920: 2526)

Coisas que nunca tivessem ocidente. Crianças que nunca envelhecessem. Rios que não desaguassem. Coisas sem o engodo de crescer em direcção à morte. (Inês Lourenço 2015: 160)


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Quando imaginamos o apocalipse – o fim do mundo tal como o conhecemos – o que imaginamos nunca é o nada. […] Com efeito, e tal como é confirmado pela maior parte das narrativas pós-apocalípticas, o que costuma surgir no apocalipse imaginado é essencialmente o passado repetido. Só podemos imaginar algo que seja articulado no vocabulário que já conhecemos. (Maria Manuel Lisboa 2011: 63) E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento. E eis que havia um grande terramoto, e o sol tornou-se negro como um saco de silício e a lua tornou-se como sangue. E fez-se a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento. E o céu retirou-se como um livro que se enrola e todos os montes e ilha se moveram dos seus lugares. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. (Herberto Helder 1964b: 218) todos nós deveríamos experimentar este, deixem-me chamar-lhe – embora eu seja absolutamente materialista – a experiência fundamentalmente espiritual de aceitar que um dia tudo vai acabar, que a qualquer momento o fim pode estar próximo (Slavoj Žižek 2012) Ou a vida é um acto religioso – ou um acto estúpido e inútil. (Raul Brandão 1933: 35)

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a velhice é um animal feio e feroz. (Elena Ferrante 1992: 134)

penso no fim do mês e da vida (Carlos Alberto Machado 2000: 45)

Nos «Poemas Inconjuntos» há cansaço, e portanto diferença. Caeiro é Caeiro, mas Caeiro doente. Nem sempre doente, mas às vezes doente. Inédito mas um pouco alheado. (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos 1997: 70) Ele estava velho. Já não tinha inteligência nem força para lutar. Estava cansado do mundo. Os seus amigos eram os seus inimigos; e os seus inimigos eram mais fortes do que ele. A sua mente estava obscurecida. Sentia-se só entre os homens e Deus parecia-lhe infinitamente oculto e velado. E a estrada que os faróis arrancavam das trevas, desolada entre fileiras de árvores despidas, coberta de lama, despojada pelo Inverno, escurecida pela noite, pareceu-lhe a própria imagem da sua alma. (Sophia de Mello Breyner Andresen 1962a: 85) Depois senti-me triste porque percebi que, quando as pessoas estão como que partidas, não têm conserto, e isso é uma coisa que ninguém nos diz quando somos novos e que nunca deixa de nos surpreender quando somos mais velhos e vemos as pessoas que houve na nossa vida a ir-se abaixo uma após outra. Perguntamo-nos quando será a nossa vez, ou se já aconteceu. (Douglas Coupland 1994: 159)

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Agora […], se a minha idade continuar a prolongar-se, sei que será necessário que sofra as consequências da velhice: ver pior, ouvir menos, ser mais lento a aprender e mais esquecido do que aprendi. Ora, se tiver esta percepção de que me tornarei mais fraco – continuava Sócrates – e tiver de me censurar a mim mesmo, como é que poderei continuar a viver com gosto? Mas talvez o deus – dizia ainda –, na sua benevolência, me esteja a facultar não só o momento mais agradável, na minha idade, para dar por concluída a minha vida, como também a morte mais fácil. (Xenofonte s/d a: 102-103) Já bastante inquieto por o que temia ser o progressivo declínio da minha capacidade de visão, lembrei-me de ter lido uma vez que, até bem dentro do século XIX, costumavam deitar nos olhos das cantoras de ópera antes de subirem ao palco e das jovens antes de lhes apresentarem um pretendente, umas gotas de um líquido destilado da beladona, uma planta da família das Solanáceas, com o que os seus olhos ganhavam um brilho arrebatador, quase sobrenatural, mas elas quase deixavam de poder ver. (W. G. Sebald 2001b: 35) todas essas coisas que dizem eu a falar de mim, como se o seu corpo não recebesse, todos os dias, ordem de morrer; mas, todos os dias, uma projecção de sucedidos […] tenta abrir caminho por terrenos movediços vindos do lugar onde fui criada antes de ser concebida; e eu só, a sós comigo (um sou engolido e sobressaindo à tona), tentando unificar as sombras inimigas, peço apoio ao ambo, ao texto, à floresta e aos animais (Maria Gabriela Llansol 2000a: 167) Em velhos sobra-nos Muito tempo, todo o tempo. Reunimo-nos uma vez por mês, Enganamos a demora, o arbítrio Engalanado das montras, o que já não leremos E que nos escusamos a comentar. (Francisco José Craveiro de Carvalho & Luís Quintais 2016: 9)

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Pondo-se de joelhos, começou a orar, dizendo: «Pai, se quiseres, afasta este cálice de mim […]» (Evangelho segundo Lucas s/d: 22:41-42) Suponho que, depois de decidirmos atravessar uma parede, não podemos mudar de ideias a meio. (Hilda Doolittle 1958: 82) Foi-me dado uma vez, o dom, e já não sei. (Herberto Helder 1994: 517)

Por que motivo havia de ser elevado? A terra é remexida apenas para se renovar, não para se elevar. Que a terra continue a ser terra e mantenha o seu lugar face ao céu. Era minha missão procurar elevá-la. Fiz mal em querer interferir. O arado da devastação rasgará o solo da Judeia e a vida deste camponês será remexida como os torrões nos campos. Não há homem que possa salvar a terra da lavra. É lavra, não é salvação… (D. H. Lawrence 1920: 135)

IAN Não há Deus. CATE Como é que sabes? IAN Não há Deus. Não há Pai Natal. Não há fadas. Não há Bosque Encantado. Não há porra de merda nenhuma. CATE Tem de haver qualquer coisa. IAN Como é que sabes? CATE Senão não faz sentido. IAN Não sejas burra foda-se, não faz sentido de qualquer maneira, não há razão para haver Deus só porque era melhor se houvesse. (Sarah Kane 1995: 84) Lembro-me de certa criança a quem uma bibliotecária tinha ensinado a organizar os livros da sua biblioteca escolar e que tinha colocado entre as ficções uma História das Religiões. Por mais que a bibliotecária lhe explicasse que uma História das Religiões era um livro documental, a criança continuou convencida de que aquele livro «só contava histórias». (Michel Melot 2004: 23) 383


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Dostoievski tinha escrito: «Se Deus não existisse, tudo seria permitido.» Esse é o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, e portanto o homem está abandonado, já que não encontra nem nele nem fora dele uma possibilidade de se ancorar. Não encontra, em primeiro lugar, quaisquer desculpas (Jean-Paul Sartre 1946: 39)

Se Deus existe, tudo é permitido. (Lars Gustafsson 1978: 145)

Deus ainda acredita em Deus? Pergunto por perguntar. (João Luís Barreto Guimarães 2016: 21)

eu muitas vezes pergunto a eles ateus ou como quer que eles se chamem que vão de lavar do ranço deles primeiro depois tocam a gemer por um padre quando estão morrendo e por que por que porque ficam com medo do inferno por causa da má consciência deles ah sim eu conheço eles bem quem foi a primeira pessoa no universo antes que tivesse ninguém que fez tudo quem ah isso eles não sabem (James Joyce 1922: 550)

Sade recriminou-se a si mesmo por ter servido acidentalmente a causa dos defensores de Deus, entregando ao público o romance de Justine onde todos os heróis corrompidos são filósofos ateus (Gilbert Lely 1980: 19) 384


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Uma vez, vi o falecido professor A.J. Ayer, o famoso autor de Language, Truth and Logic e um conhecido humanista, debater com um certo bispo Butler. O mediador era o filósofo Bryan Magee. A troca de palavras estava a ser bastante amável até que o bispo, ao ouvir Ayer afirmar que não via indícios que provassem a existência de qualquer deus, interrompeu para dizer, «Então, não percebo por que é que não vive uma vida de imoralidade desenfreada». Neste ponto, «Freddie», como os amigos lhe chamavam, abandonou a suave urbanidade que o caracterizava e exclamou, «Não posso deixar de dizer que penso que essa afirmação é absolutamente monstruosa». (Christopher Hitchens 2007: 221) para nos conduzirmos de maneira moral, devemos fazer em suma como se Deus não existisse ou não se ocupasse da nossa salvação […] fazer em suma como se Deus nos tivesse abandonado. (Jacques Derrida 1996b: 21)

Naquela terra, a arte da teologia atingiu tal perfeição que, para discutir até o mais pequeno aspecto de um dos deuses, era preciso estudar uma vida inteira. Foi assim decretado que a natureza completa desses deuses era sagrada para lá do conhecimento do homem, e que toda a metafísica era, por conseguinte, inútil. Com o decorrer do tempo, o colégio dos Teólogos continuou a encorajar especulações religiosas adicionais com o objectivo único de as desmantelar como sendo essencialmente inadequadas. As gerações que se sucederam concluíram que tal sistema de desmantelamento era, ele próprio, inadequado e, não sem irreverência, desmantelaram-no por sua vez. Nos desertos ocidentais, alguns académicos dissolutos ainda estão para ser encontrados, a resmungar uma ou duas proposições ontológicas; em toda a nação, nenhuma outra lembrança resta da Disciplina da Teologia. (Rhys Hughes 2004: 143) 385


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o argumento de que todos os homens são mortais nunca tranquilizou um moribundo! «Sim, estás a morrer, mas, meu caro, isso acontece a toda a gente!» Se ele tiver ainda um pouco de força, dar-lhe-á uma bofetada. (Umberto Eco 1998: 216) Qualquer morte é estúpida do ponto de vista de quem está a passar por ela, dizia Adão Um, porque, independentemente de quantas vezes fôssemos avisados, a Morte aparecia sempre sem bater à porta. Porquê agora?, é o lamento. Porquê tão cedo? É o lamento de uma criança a ser chamada para casa ao entardecer, é o protesto universal contra oTempo. Lembrai-vos apenas, queridos Amigos: para quê estou eu a viver e para quê estou eu a morrer são a mesma pergunta. (Margaret Atwood 2009: 363) suspeitara várias vezes que a Providência conspirara para lhe garantir a pior morte que pudesse encontrar, para quando chegasse a sua altura de partir. Esperava apodrecer. (Walter M. Miller Jr. 1959: 206) Com a idade, docemente empurrados pelos mais jovens – é a vida –, entramos sem nos apercebermos nesses espaços frios, solenes, onde estão encerrados os antigos, ordenados, embalsamados em honras, onde, sobrecarregados de penachos, de gládios, de rosetas, se comportam como distintos figurantes nas liturgias do poder intelectual. A sua função principal já não é agir. Aquilo a que polidamente chamamos sabedoria será algo mais do que um definhamento da actividade criadora? Tudo o que lhes é ainda consentido é aconselhar aqueles que agem. (Georges Duby 1991: 115) Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. (Raul Brandão 1919: 31) 386


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– não tivemos de facto tempo para sermos maus filhos e já somos maus pais (palavras ilegíveis como acima) (Pier Paolo Pasolini 1970: 16)

EPÍLOGO (Fiódor Dostoiévski 1866: 497)


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Disse tão pouco, não tive tempo. (Czesław Miłosz 1974: 65)

Ó Imortalidade! Certamente nada foi concluído, mas agora está tudo acabado. (Günter Grass 1986: 320)


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Cheguei ao fim. Não consegui explicar o inexplicável, tenho a certeza. Por isso mesmo me abstenho de tirar conclusões. Quem ler o escrito que as tire, se quiser (Mário de Sá-Carneiro 1912: 64)

Polónio […] Que estais a ler, meu senhor? Hamlet Palavras, palavras, palavras. (William Shakespeare 1603: 155)

Teria querido falar. Mas não encontrou palavras. Nem sequer em Shakespeare. (Aldous Huxley 1932: 241) não desprezamos a palavra. Afinal de contas, é um poderoso instrumento. […] originalmente, a palavra era magia – um acto de magia; e continua a ter muito do seu antigo poder (Sigmund Freud 1926: 27) – No seu livro – observou Juliana – você demonstrou que existe uma saída. Não era isso que pretendia dizer? – Uma saída! – ecoou ele, com ironia. (Philip K. Dick 1962, vol.2: 193)

Era agora incapaz de compreender uma palavra dos volumes que consultava; mesmo os seus olhos não queriam ler; parecia-lhe que o seu espírito, saturado de literatura e arte, se recusava a absorver mais. (Joris-Karl Huysmans 1884: 82) Quero acabar e não sou capaz. Custa acabar; quem disse que o começo é difícil? Para mim o fim custa mais. (Almeida Faria 1983: 205) 445


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Voltemos ao que estava a escrever, que era uma renúncia à escrita. (A.S. Byatt 2000: 246) E nada, e pronto, e já está. Estará? (Mário Cesariny de Vasconcelos 2013: 18) Junto desta misteriosa e imprevista Porta Aberta nos deteremos. (Eduardo Lourenço 1956a: 143)

A obra é feita. Martelo deposto finalmente. Aos artesãos que edificaram a cidade crescente Outros sucederam, ainda construindo. Tudo isto é algo, a falta de algo encobrindo. O pensamento todo não tem significado Mas jaz rente ao tempo, qual jarro entornado. (Fernando Pessoa 1920a: 142)

Notei que no dia seguinte Bartleby nada fazia a não ser estar à sua janela, de pé, em devaneio frente à parede cega. Após lhe ter perguntado por que razão não escrevia, respondeu-me que decidira não fazer mais trabalho de cópias. – Porquê? – Como? – exclamei. – Não trabalha mais? – Não. – E qual a razão? – Não vê por si mesmo a razão? – respondeu ele com indiferença. (Hermann Melville 1853: 98) – Não bebas mais, Miguel. Isso não te ajuda nada a escrever. – Escrever! Merda para a literatura! – bradará ele, magnífico no seu fracasso. – Por mim abandono o mundo aos crocodilos. (Natália Correia 1968: 268) e dito isto já não há mais nada para contar, e sinto-me muito feliz por isso, porque se eu tivesse sabido o trabalho que dava escrever um livro não me teria metido nisso e não o vou voltar a fazer. (Mark Twain 1884: 409) 446


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Bibliografia (Umberto Eco 1977: 214)

devias fazer parte de um genérico ou de um agradecimento especial. (Nuno Moura 1996: 19) Aarseth, Espen J. (1997), Cybertext. Perspectives on ergodic literature; ed. ut.: Cibertexto. Perspectivas sobre a literatura ergódica, Lisboa, Pedra da Roseta, 2005. Abélard, Pierre (s/d), Ethica sive Scito te ipsum; ed. ut.: Éthique ou Connais-toi toi-même, in Œuvres Choisies d’Abélard, Paris, Éditions Montaigne, 1945: 129-209. Abreu, Caio Fernando (1983), Triângulo das Águas; ed. ut.: Porto Alegre, L&PM Pocket, 2005. Achebe, Chinua (1964), Arrow of God; ed. ut.: A Flecha de Deus, Lisboa, Edições 70, 1979. Ackroyd, Peter (1999), The Plato Papers; ed. ut.: Os Cadernos de Platão, Lisboa, Teorema, 2001. Actos de Pedro e dos Doze Apóstolos (s/d), in Evangelhos Gnósticos. Biblioteca de Nag Hammadi II, Lisboa, Ésquilo, 2005: 223-232. Adorno, Theodor W. (1955), ed. ut.: «Caracterização de Walter Benjamin», in Walter Benjamin, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio d’Água, 1992: 7-26. — (1958), Noten zur Literatur; ed. ut.: Notas de Literatura I, São Paulo, Duas Cidades, 2003. — (1970), Ästhetische Theorie; ed. ut.: Teoria Estética, Lisboa, Edições 70, 1993. A Farsa de Mestre Pathelin (1460), La Farce de Maître Pathelin, Paris, Garnier-Flammarion, 1995. Agacinski, Sylviane (1977), Aparté. Conceptions et morts de Sören Kierkegaard, Paris, Aubier-Flammarion. Agamben, Giorgio (1978), Infanzia e Storia. Distruzione dell’esperienza e origine della storia; ed. ut.: Enfance et Histoire. Destruction de l’expérience et origine de l’histoire, Paris, Payot & Rivages, 2000. — (1985), Idea della Prosa; ed. ut.: Ideia da Prosa, Lisboa, Cotovia, 1999. — (1990), La Comunità che Viene; ed. ut.: A Comunidade que Vem, Lisboa, Presença, 1993. — (1993), «Bartleby o della contingenza»; ed. ut.: «Bartleby, ou da contingência», in Bartleby. Escrita da potência, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007. — (1998), Quel che Resta di Auschwitz; ed. ut.: Ce qui Reste d’Auschwitz. L’archive et le témoin, Paris, Payot & Rivages, 2003. — (2002), L’Aperto. L’uomo e l’animale; ed. ut.: L’Ouvert. De l’homme et de l’animal, Paris, Payot et Rivages, 2006. — (2005), Profanazioni; ed. ut.: Profanações, Lisboa, Cotovia, 2006. — (2006), Che Cos’È un Dispositivo?; ed. ut.: Qu’Est-ce qu’un Dispositif?, Paris, Payot et Rivages, 2014. — (2008), Che Cos’È il Contemporaneo?; ed. ut.: Qu’Est-ce que le Contemporain?, Paris, Payot & Rivages, 2008. Agostinho (391), De Magistro; ed. ut.: O Mestre, Porto, Porto Editora, 1995. — (397), ed. ut.: Confissões, 12.ª ed., Braga, Livraria Apostolado da Imprensa, 1990. — (s/d), ed. ut.: Vitória Final de Cristo. Apocalipse de S. João comentado por Santo Agostinho, Coimbra, s/ed., 1960. Agualusa, José Eduardo (2002), O Homem que Parecia um Domingo. Contos e crónicas, Lisboa, Dom Quixote. Aguiar, Isabel (2014), Requiem por Auschwitz, s/l, Licorne. Alba, Sebastião (1981), A Noite Dividida, Lisboa, Edições 70. Alda, Antero de (2013), A Reserva de Mallarmé. Trinta e três poemas em verso, s/l, Galápagos Fábrica de Poesia. Aldiss, Brian (1964), Greybeard; ed. ut.: O Ano do Apocalipse, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1997. Alencar, José de (1865), Iracema. Lenda do Ceará; ed. ut.: Lisboa, Vega, 1994. Alexandre, António Franco (1974), Sem Palavras nem Coisas; ed. ut.: in Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 1996: 7-68. — (1976), Relatório Um; ed. ut.: ibidem: 69-75. — (1979), Os Objectos Principais; ed. ut.: ibidem: 77-119. — (1983a), Visitação; ed. ut.: ibidem: 121-166. — (1983b), A Pequena Face; ed. ut.: ibidem: 171-230. — (1987), As Moradas 1 & 2; ed. ut.: ibidem: 271-342.

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Retábulo das Matérias (Pedro Tamen 2001)

PREFÁCIO

um pantanal de citações ......................................................... prazeres da citação ................................................................. copiar .................................................................................... metodologia .......................................................................... Uma citação é sempre uma interpretação .............................. uma paixão geométrica ......................................................... a citação é um vício ............................................................... Que livro é este? .................................................................... Todo este universo é um livro ............................................... que dês agora um salto ..........................................................

13 17 20 24 28 32 39 44 51 58

[…] ENSAIO SOBRE OS MESTRES

ao princípio era o Vento ........................................................ um Mestre com seus Discípulos ............................................ O mito ................................................................................. Não concebo uma obra desligada da vida ..............................

63 69 72 77

O Mestre este menino .......................................................................... a sua costumada prontidão divina ......................................... e o estranho ar grego, que vinha de dentro ............................ uma formidável infância ....................................................... a linguagem original da inocência .........................................

87 90 95 98 105 499


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Você se lembra da sua infância? ............................................. um selvagem .........................................................................

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O Discípulo Sinto a ausência de um mestre .............................................. onde vais descobrir um professor a esta hora da noite? .......... cai um raio na cabeça de um homem .................................... libertação .............................................................................. um mortal chamado ao convívio dos Deuses ......................... O inabordável ....................................................................... nascer outra vez ..................................................................... Então aconteceu .................................................................... isto, aqui, agora, sempre ........................................................ É um bocado zen .................................................................. que os mortos sepultem os seus mortos ................................. toda a sabedoria da terra estava reunida naquela sala .............

117 124 127 132 135 139 143 146 149 155 158 162

Aulas e Conversas O que quer dizer «pensar»? .................................................... partir do zero ........................................................................ Que sei eu? ........................................................................... penso, logo existo .................................................................. conhece-te a ti mesmo .......................................................... isso não me facilita em nada o conhecimento ........................ O que é este «eu» que eu sou […]? ........................................ Aprende a tornar-te naquilo que és ........................................ Onde invento o real .............................................................. ponto de vista ....................................................................... Sonhei a própria realidade ..................................................... E esta vasta combinação chama-se Natureza… ...................... O que é o 34 na Realidade? ................................................... A arte não passa […] de uma visão mais directa da realidade ... perseguir / ficções ..................................................................

171 178 183 187 190 194 198 204 208 213 218 224 232 236 241

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pergunto a mim próprio se mentes ou dizes a verdade ........... viver bem ..............................................................................

246 250

O Combate gente com capacidade para ter mestre ................................... é o corpo de outrem que constitui o nosso ............................ homens de pouca fé .............................................................. Eu não sou eu nem sou o outro ............................................. quase tudo em mim é obra alheia .......................................... Ao escravo ............................................................................. não compreendo ................................................................... com um ar benévolo, complacente, paternal ......................... Devorava os discípulos .......................................................... um médico procura sempre prolongar as mazelas .................. Faça de mim o que quiser ..................................................... Ah quantas máscaras e submáscaras ....................................... Eu próprio já apontei não poucas falhas em Homero ............ um maluco autodidacta ........................................................ os hospícios ........................................................................... No final, um verdadeiro Mestre deve estar só ........................ Senhor: temos medo ............................................................. alguns discípulos […] arruinaram os seus Mestres ................. – Não és Deus, pois não? ...................................................... inimigos ................................................................................ um elo de quase parentesco ................................................... mestre, / […] / Porque […] me acordaste […]? ..................... Traindo ................................................................................. Que é uma traição aos olhos de Deus? ................................... O Fantasma do Pai ................................................................

259 262 269 274 280 285 289 294 298 304 308 311 314 316 321 327 331 335 339 349 352 355 362 369 373

A Morte A velhice ............................................................................... seus últimos dias ...................................................................

381 387 501


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A morte é sempre um corte / extemporâneo .......................... os verdadeiros filósofos […] exercitam-se em morrer ............. os que estavam presentes ....................................................... órfãos .................................................................................... o trauma ............................................................................... a minha morte não tem importância nenhuma ..................... a Lua nunca morre. Regressa sempre ..................................... Ninguém é inconsolável ........................................................ os deuses partiram ................................................................. Grassa neste mundo o absurdo completo .............................. Não é tão cedo como parece .................................................

392 395 398 405 409 413 417 422 425 430 435

EPÍLOGO

Cheguei ao fim ..................................................................... livro […] rotativo .................................................................. deita fora este livro ................................................................

445 448 452

Bibliografia ...................................................................................

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© PEDRO EIRAS, 2017 © SISTEMA SOLAR CRL (DOCUMENTA) RUA PASSOS MANUEL, 67 B, 1150-258 LISBOA NOVEMBRO DE 2017 ISBN 978-989-8834-85-0 REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE DEPÓSITO LEGAL 433335/17 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA ACDPRINT RUA MARQUESA DE ALORNA, 12-A 2620-271 RAMADA PORTUGAL


Pedro Eiras, «[…] — Ensaio sobre os mestres»  
Pedro Eiras, «[…] — Ensaio sobre os mestres»