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Jules Boissière

DIÁRIO DE UM FUZILADO precedido de

PALAVRAS DE UM FUMADOR DE ÓPIO

tradução e apresentação

Aníbal Fernandes


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TÍTULO DO ORIGINAL: PROPOS D’UN INTOXIQUÉ; UNE ÂME — JOURNAL D’UN FUSILLÉ

© SISTEMA SOLAR, CRL (2018) RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: MANET, A EXECUÇÃO DO IMPERADOR MAXIMILIANO, 1867 (PORMENOR) REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE 1.ª EDIÇÃO, FEVEREIRO 2018 ISBN 978-989-8833-24-2 DEPÓSITO LEGAL 436876/18 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA EUROPRESS RUA JOÃO SARAIVA 10 A, 1700-249 LISBOA


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Os colonizadores são prudentes quando o domínio conquistado surge com civilização e hierarquias de poder bem estabelecidas, quando promete uma revolta de súbditos pouco dispostos a novos senhores, quando mostra um firme e indestrutível orgulho na sua sucessão dinástica. Estas prudências chegam de uma prática distante, de uma História bem repetida; lembram, por exemplo, que os Romanos quiseram Cleópatra no Egipto ou os Herodes na Judeia, pedindo-lhes que iludissem os poderes implacáveis do seu Império. Os Franceses, como outros, repetiram muito mais tarde esta estratégia que já se ocultava sob o nome ameno de protectorado. O colonizador «protegia» o povo vencido, impondo a sua administração «moderna e civilizada» a outras, ancestrais, submetidas ao novo senhor. Quando a França se apoderou da Indochina (hoje o Laos, o Camboja e o Vietnam) — nome inventado para designar uma terra que não era Índia nem China, que lhe negava mais direito do que ser passagem entre duas realidades geográficas e culturais bem firmadas — manteve com lugar de aparente poder os mandarins rendidos à presença colonizadora, tolerou ou perseguiu os outros que por ali andaram vigiados ou mesmo exilados numa natureza tropical indevassável. O «rei», chamemos-lhe assim, demasiado rebelde para suportar a «protecção» francesa, teve como destino um cárcere da Argélia que era ali, no norte de África, uma das mais prósperas colónias da França.


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A Indochina seduziu muitos colonos. Era quente, era exótica, consentia liberdades de comportamento e de sexo que agradavam a europeus de tendências reprimidas; permitia a muitos uma desenvoltura de meios materiais dificilmente alcançável no solo natal. E tinha ópio ao virar de cada esquina, aberto, tolerado como costume entre os anamitas, visto com olhos meio fechados pelo poder francês. A literatura dedicou-lhe obras que eram de ensaio, como em Baudelaire; que eram de ficção, como em Pierre Loti, Claude Farrère, Théophile Gautier… um pouco mais tarde em Colette, que chegou a querer que vissem Le Pur et l’impur (1932) como a sua melhor obra. Mas nestes escritores do ópio fala-se menos, e com alguma injustiça, em Jules Boissière. Paraíso artificial, chamou-lhe Baudelaire, oculto na flor das papaver somniferum, as papoilas que a irmã de Rimbaud fervia no chá e lhe abrandavam as dores do cancro terminal, as que a Maria do Frei Luís de Sousa de Garrett escondia debaixo do travesseiro para ter sonhos belos; que os Egípcios utilizavam como panaceia analgésica e remédio para os bebés gritarem menos, que os Gregos puseram como coroa na cabeça de Orfeu. O Oriente adoptou-o sobretudo como hábito, o Ocidente como vício. Cocteau cedeu-lhe para se esquecer da morte de Raymond Radiguet; Rimbaud por vocação transgressora; De Quincey para suavizar perturbações emocionais e psicológicas; Edgar Allan Poe para escrever… como Edgar Allan Poe. Jules Boissière tinha vinte e quatro anos de idade quando partiu em 1886 para a Indochina como secretário de Paulin-Alexandre Vial, representante do governo em Annam e Tonquim. O sonho do Oriente, nessa época exacerbado pela cultura europeia, o que dava solas de vento a Rimbaud, excitava Flaubert, Gautier, Ner-


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val, Loti e Farrère, fez-se-lhe irrecusável quando o seu pai abandonou por outra aventura o lar conjugal e graves dificuldades financeiras surgiram. Boissière era um jovem provençal afeiçoado ao seu dialecto, poeta na língua occitana d’oc, incapaz de afastar a sua inspiração literária da terra onde tinha nascido. Já fora avaliado pelos versos que três anos antes, em Devant l’enigme, misturavam com destreza ecos de Mallarmé a uma voz nostálgica e com apaixonados sonhos da Provença; e já se tinha mostrado em Paris numa veia paralela à da sua poesia, a de um radical-socialista que assinava artigos de entusiasmada violência juvenil no jornal La Justice. Mas a Indochina não tardaria a acrescentar-se, e até a sobrepor-se, como incontestável amor à sua Provença. E se fez lá, desviado temporariamente de Paulin Vial, o «serviço militar» obrigatório que o integrou num 11.º batalhão de caçadores capaz de mostrar aos anamitas que correriam risco de vida se justificassem uma actuação do poder bélico «protector», esgotados esses meses de marchas militares e fardas de caqui foi restituído à condição de benigno e entusiasmado civil; foi funcionário zeloso no corpo administrativo do protectorado, estimada sombra do governador geral Ernest Constans, e noutras horas jovem seduzido pela arte e pelas civilizações asiáticas; poeta em verso e em prosa, mais tarde escolhido para director da Revue Indochinoise. Boissière pediu à sua memória o esforço que o fez dominar três mil caracteres da língua chinesa; rendia-se ao povo tonquinês, e numa carta à sua mãe pode mesmo ler-se que vivia no meio de gente alegre, só pérfida porque oprimida. Mas nessas cartas encontramos outra frase onde se abrigava já a mais perigosa das convicções: Nestas terras, o ópio é necessário a quem quiser ver


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mais do que a superfície dos seres. E ainda a certeza de uma irrecusável sedução: A sua quietude favorece as sacrossantas volúpias do estudo, da meditação e da memória. Boissière, indiferente ao que distraía e alimentava naquele exotismo a vida social intensa dos seus colegas de ministério, não tardou a ver no ópio um elemento essencial para penetrar mais fundo na mentalidade anamita. Vais adormecer num sorriso; E o ópio tão doce, tão doce, É como a asa dum vampiro, lê-se no seu poema «l’Ailes et fumé», escrito mais tarde numa dedicatória pessoal do seu livro Fumeurs d’opium. Mas o ópio… Sim, vários médicos afirmavam que em doses moderadas era menos prejudicial do que o tabaco. O medido acesso aos sonhos da sua moleza era uma fuga ao pior deste mundo sem consequências físicas e psicológicas dignas de inspirar receios. A inteligência era espicaçada por uma desconhecida lucidez; a banalidade das coisas enfeitava-se de maravilhoso; o sexo esquecia a premência das suas guinadas. Mas não era nestas convicções acrescentado que o organismo perdia as suas defesas; e que o europeu, na sua luta de homem saneado contra cruéis bactérias tropicais, se destinava a soçobrar numa fácil derrota. Mais tarde, em 1907, a administração francesa chegou a fazer de conta que seria severa para com os seus cidadãos, proibindo «que todos os funcionários e agentes europeus de todos os serviços fumassem ópio, sob pena de sanções disciplinares as mais severas». Havia nisto, sobretudo, teóricas intenções passadas a lei, suavizadas por


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um ofício da hierarquia católica já com dezasseis anos de vigor (datado de Dezembro de 1891), onde era mostrada a sua caridosa brandura: «Não é o uso do ópio condenável, mas o seu abuso. […] Os fumadores de ópio podem ser admitidos aos sacramentos com prudente reserva, quando fizerem esforços para se emendar e mostrarem prontos a seguir a linha de conduta traçada pelo confessor.» Boissière, com um prestígio de funcionário que o punha a salvo de medidas drásticas, e sem necessidade de adoptar uma conduta aprovada por um confessor, cedeu ao ópio: ouvia crescer a erva, via e ouvia aqueles que a sua imaginação convocava, como se os tivesse à sua frente. Instalou na sua casa chinesa a sala retirada que se encheu de fumo e de sonhos; contratou Nam, um boy afeiçoado como ele ao cachimbo de bambu. Patrão e empregado viviam numa conivência de horas horizontais esvoaçada por visões e indiferenças pelos males do mundo. Mas este todo-apaixonado pelo Oriente foi, ainda assim, mais uma vez poeta das distâncias da terra natal: teve um ano depois (em 1887) publicadas as poesias de Provensa, que em Paris pouco eco fizeram na editora de Alphonse Lemerre. Só depois destes versos o escritor foi invadido literariamente pela Indochina. Em 1889, o Avenir du Tonquin deu a conhecer «Carnet d’un soldat», que seria mais tarde o «Carnet d’un troupier» do seu Fumeurs d’opium. Em 1890 publicou em Hanói o texto «Le Bonze Khou-Su» com o pseudónimo François-Henri Schneider, e no mesmo ano Propos d’un intoxiqué (texto espalhado a muito poucos exemplares e nunca posto à venda, incluído nesta edição com o título «Palavras de um Fumador de Ópio»), que reflecte a sua experiência pessoal de opiómano transmitida por escrito e seleccionada por um imaginário Khou-Mi, guarda de pagode.


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Em 1895, quando fez uma viagem a França — estendida aos seis meses concedidos por uma alargada licença de férias — já não estava condicionado por uma excessiva dependência do ópio. Mas era um homem diferente do que tinha de lá saído nove anos antes. Avisa numa carta a sua mãe: Vai achar-me mais intratável e selvagem do que nunca. […] Vivi três anos só com indígenas, a estudá-los, a analisá-los, e gosto mais de falar de coisas novas com um mandarim do que dizer a uma rapariga que o dia está quente. E ainda: Os Europeus têm sempre vontade de fazer o que querem, e uma maneira ingénua de ver as coisas. Gosto mais dos anamitas no que respeita a inteligência e sentido do dever. Aliás, prefiro-os em tudo. Boissière surge na Europa a fumar moderadamente e em segredo; engole sobretudo a droga em comprimidos e reduz-se ao mínimo nos sonhos. Leva com ele Nam, rapaz de olhar vago e moleza enfumada que lhe não consentem ocupações pagas por quem não souber tudo isto ultrapassar com as benevolências do afecto. Jules Boissière regressa da Europa casado. Pensava desde a adolescência em Thérèse Roumanille, uma beleza do Félibrige, ex-colega de convento da sua irmã Marinette, filha de um ardente polemista que sonhava com a restauração da monarquia. E reaparecera a esta Thérèse enfeitado por uma Indochina vivida entre os mais altos da administração francesa, poeta publicado e com uma conversa onde viviam extraordinárias memórias orientais. Houve, sem dificuldades, o casamento na igreja de Saint-Agricol d’Avignon e uma lua-de-mel destinada a anteceder de perto um regresso à Indochina, agora Indochina a três, que não tardaria a ser molestada por alguns espinhos. Thérèse não suportava o boy Nam, com uma maciez de ópio que o tornava imprestável para os trabalhos domésticos, mas uma insolência que perante ela vingava o seu perdido lugar de pro-


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tegido por um afecto sem rivalidade junto do seu senhor. Thérèse exigiu o seu despedimento; e Boissière cedeu-lhe com um pesado problema de consciência, ciente de que Nam seria incapaz de subsistir sozinho entre as asperezas do baixo quotidiano indochinês. Neste casamento já apaziguado e com o deus-ópio mantido a rédea curta, a viver uma maior largueza material por Boissière ter sido nomeado vice-residente de 1.ª classe em Hanói, ele sente-se arqui-feliz ao lado de uma esposa perfeita na inteligência, na bondade, na brandura e na alegria que lhe é natural, escreve-o numa das cartas que destina à mãe distante. Esta regra doméstica permite-lhe dar largas às suas ambições de escritor: escritor do ópio. Começa a pôr no papel as sete novelas que desde há muito vivem na sua imaginação, que contam histórias povoadas por cachimbos aspirados em leitos de campanha, as que obedecem ao título de conjunto Fumeurs d’opium. Vão ser, em 1896 e na Flammarion de Paris, as responsáveis pela sua fama literária marginal, com seduções sopradas pela forma e pelo esquisito mundo dos sonhadores do ópio. Neste conjunto de textos, o Diário de um Fuzilado destaca-se pela intransigência da sua recusa ao «politicamente correcto». Se Palavras de um Fumador de Ópio apenas nos revela a experiência pessoal do autor na sua relação com a droga, a personagem central do Diário é ficcionada nesta mesma relação com um soldado elitista e xenófobo que deserta do exército francês e se introduz no exército rebelde anamita, não por aprovar a luta desses colonizados contra o poder imperialista, mas saber que poderá nas suas fileiras fumar ópio sem as punições que o exército do seu país lhe destina para o dissuadir do vício. Sabe-se que a sua personagem foi inspirada pelo caso de Clausade, um soldado francês desertor; mas que Boissière pediu aos responsáveis da Flammarion para nunca fazerem refe-


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rência a esta «paternidade», evitando que a má memória póstuma desse soldado fosse através do seu texto reavivada. Este desertor, isento da grandeza política que poderia estar subjacente à radicalidade da sua atitude, é também confrontado com uma estranha relação de amor-ódio que o opõe ao seu companheiro de deserção, outro francês que encarna de forma explícita os sentimentos que ele próprio possui e tenta ocultar através de uma retórica habilidosamente construída. Este Doctor Jekyll incomodado pela presença inoportuna do seu Mr Hyde terá, num derradeiro sonho de ópio, a irrecusável revelação desta verdade; o desertor enfrentará as espingardas do fuzilamento esvaziado perante si mesmo de toda a sua mentirosa grandeza. Resta-lhe porém a grandeza do deus-ópio; e solicitará aos seus leitores que a ele atribuam a possível elegância do seu comportamento perante o pelotão da morte. Jules Boissière viu o grosso volume das sete novelas de Fumeurs d’opium publicado em 1896, ou seja, um ano antes da sua morte. O Oriente dominado por europeus surgia agora expurgado do pretexto do exotismo. Nada tinha dos enfeites de Loti nem de Farrère. Mostrava anamitas com um ódio ao colonizador que suplantava, sob um esforço de dissimulação, todos os outros sentimentos até ao momento inevitável em que a verdade acabaria por se revelar. As suas histórias deixavam visível, mesmo que as personagens procurassem afirmar o contrário, aquilo que um dos seus textos de Cahier de route deixou claro: Os que nunca estudaram de perto os Anamitas, que negligenciaram ou evitaram a sua convivência, desprezaram-nos como seus inferiores; mas os que estudaram a sua civilização e conheceram a fundo a sua psicologia […] estimaram-nos, e não lhes foi possível olhá-los com desprezo. Foram, de facto, ruidosamente censurados por isto; mas os idiotas que gritavam, fechando voluntariamente os olhos,


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não quiseram ver que eles estimavam e honravam os seus mandarins porque os conheciam. O último ano de Boissière em Hanói foi tormentoso. Ele e Thérèse sucumbiam aos poucos sob o trabalho das bactérias tropicais. Viviam o final do século XIX, com uma medicina inocente e indefesa perante o ataque de forças selvagens sem citação nem lugar nos conhecimentos terapêuticos europeus. Foi aconselhado por um médico a regressar à França e a viver lá um período largo, suficiente para lhe apagar o paludismo, a ruína hepática, o distúrbio intestinal. Preciso, pelo menos, de um mês à beira-mar; o médico insistiu nisto, lê-se numa carta à sua mãe. Mas esta ausência prolongada necessitava de fundos que garantissem uma subsistência condigna em terras francesas, e Boissière foi tentado a permanecer mais uns tempos naquela Indochina que cobrava paixões europeias com o seu exército de micro-organismos letais. Jules Boissière morreu subitamente no dia 12 de Agosto de 1897, aos trinta e quatro anos de idade, com uma oclusão intestinal provocada pela maldade dos trópicos e pelo ópio. E teve tempo, nessa agonia violenta, de dizer que desejava ficar sepultado num cemitério de Hanói. Thérèse, essa, penava com uma gravidez de quatro meses incomodada por rigores climáticos, e tardia nesse casamento destinado a filho único que nunca conheceria o seu pai. Boissière tinha em Paris um incondicional amigo — Stéphane Mallarmé, o que lhe tinha influenciado no tom e nos artifícios os primeiros versos. A promessa de uma saudade ficou-lhe nestas palavras: «Habitará sempre a minha memória, e não quero vê-lo como alguém que desapareceu, mas apenas foi para longe.» A.F.


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PAL AVRAS DE UM FUMADOR DE ÓPIO


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Hanói, Fevereiro de 1890. Pareceu-nos que o ópio mereceria a honra de um estudo especial. Ocupa na Indochina um lugar de dimensão bastante grande na vida dos Anamitas, dos Chineses, e até mesmo dos Europeus. No entanto, por não sentirmos muita vontade de experimentar em nós próprios os efeitos da santa droga, tivemos de solicitar as confidências de um drogado curioso, subtil e requintado erudito. Com desdém, como todos os seus semelhantes, pelos anátemas da consciência pública, não receou dedicar-nos oito volumes manuscritos de Notas e Impressões. Tentaremos recolher aqui algumas dessas páginas, embora resolvidos a impor silêncio ao narrador se as suas teorias parecerem demasiado cínicas, e for demasiado insultoso o seu riso escarninho. KHOU-Mi.


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Leitor, ouvi a profissão de fé que Baruch de Spinoza, de Amsterdão, inscreveu no primeiro capítulo do seu Tractatus Politicus: «Abstive-me de meter a ridículo as acções humanas, de ter pena delas ou odiá-las; só quis compreendê-las… Perante as paixões não vi vícios mas particulares virtudes…» É bem possível que acheis imorais muitos dos meus aforismos. Desejo que vós, como Baruch de Spinoza, em vez de me oferecerdes simpatia, que tudo consegue amar, me ofereçais a inteligência que tudo sabe compreender.


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Haiphong, 20 de Maio de 1885.

Vou demorar-me cinco ou seis dias em Haiphong, antes de ir a Ngo-teu, a minha futura residência. Tenho estado desde há dois meses em Tonquim, e passei todo este tempo em Hanói, a viver no bairro de Keu-nam, a partilhar as minhas horas entre o restaurante, o café, o escritório e o meu pequeno quarto desconfortável e triste, mobilado com uma reles cama de má madeira do país, duas cadeiras e uma mesa de escrever. Nada conheço da vida anamita porque só frequentei uns quantos europeus que jogam apaixonadamente truco e póquer. Por vezes falam de colegas com uma vida estranha e como que distante, entregues ao ópio no fundo das suas cabanas chinesas, essas cabanas estreitas e compridas onde me acontece, na penumbra, adivinhar por uma porta entreaberta os quartos escuros, os corredores sem janela e os pátios lajeados a céu aberto. O ópio? Uma vez, quando passei pela Cochinchina, para matar o tempo entrei numa casa de fumo de Cholon e tenho de lembrança uma vasta sala triste onde alguns chineses dormitavam ao correr das paredes, estendidos em leitos de campanha, mas não quero dizer que dormissem como animais. Outros mamavam sofregamente o bambu castanho-vermelho de um cachimbo. Nada disto me interessou, impressionou nem surpreendeu, porque dava resposta a todas as descrições já lidas, a todas as histórias


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já ouvidas. O fumo pesado, com volutas que se esticavam, espraiavam fechando as suas curvas regulares e depois levantavam voo em flocos ora azuis, ora pardacentos, mais propício me pareceu à enxaqueca do que ao sonho; encolhi os ombros e admirei a louvável constância dos imbecis que vinham todos os dias martirizar-se com o pretexto do divertimento e do prazer. O mesmo faziam os meus companheiros de colégio quando iam, por hábito, passar algumas horas de seguida na sala cheia de fumo de uma taberna, a beber, a fumar, a berrar como zuavos, muito orgulhosos por afrontarem a nevralgia do dia seguinte. Não conheço aqui ninguém. E é impossível estar todo o dia no hotel, no meu quarto de passagem. Os seus pavimentos engendram, alimentam a neura, e pelas vidraças com brechas sobem os inúmeros cheiros que certos charcos de Haiphong exalam. As paredes caiadas enquadram uma cama com mosquiteiro, duas cadeiras, uma mesa de pinho. Sair? O sol de Maio já pesa, e os charcos que ladeiam os aterros projectam nos olhos e nos miolos de quem passeia duros reflexos ardentes, precursores da insolação. Não podemos, aliás, achar agradável circular durante seis horas à volta das mesmas ilhotas de casas; e a cidade só tem pântanos à sua volta… Chega a hora do jantar. Através de um antigo camarada de Paris — camaradagem muito vaga, que o exílio comum firmou um pouco mais — travo conhecimento com um rapaz muito inteligente, antigo sargento, hoje funcionário, que fala correntemente o alemão, o inglês, o cantonês, o anamita, sem contarmos com o piggin dos portos cosmopolitas da China. Com ar marcial, bigode em escova, uma exótica decoração na botoeira, X… tem bom aspecto e fala bem; e quando se


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5 horas e 30.

Apareceram. Um ruído de passos e a porta aberta pararam-me a caneta neste apelo de esperança. Já bebi o vinho que um gendarme me ofereceu1, e vou assinar estas últimas linhas. Não escrevo ao meu pai nem à minha mãe — nem a qualquer outra pessoa no mundo. Já não receio ser cobarde; as terríveis horas passaram. Volto-me — muito calmo, posso jurá-lo — para a noite de onde venho, faz agora vinte anos. Adeus a todos! — E glorificai, meus amigos, os indulgentes Génios do Ópio, se vierdes a saber que no momento supremo, e apesar da temível ansiedade que sinto por sofrer na carne, nem a coragem nem o orgulho alguma vez perdi.

1 Uma contradição que escapou ao autor. No início do texto afirma que recusou esta oferta. (N. do T.)


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Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, Georges Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A papisa Joana — segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha


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O meu corpo e eu, René Crevel Manon Lescaut, Padre Prévost O duelo, Joseph Conrad A felicidade dos tristes, Luc Dietrich Inferno, August Strindberg Um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille Os ombros da marquesa, Émile Zola O livro branco, Jean Cocteau Verdes moradas, W.H. Hudson A guerra do fogo, J.-H. Rosny Aîné Hamlet-Rei (Luís II da Baviera), Guy de Pourtalès Messalina, Alfred Jarry O capitão Veneno, Pedro Antonio de Alarcón Dona Guidinha do Poço, Manoel de Oliveira Paiva Visão invisível, Jean Cocteau A liberdade ou o amor, Robert Desnos A maçã de Cézanne… e eu, D.H. Lawrence O fogo-fátuo, Drieu la Rochelle Memórias íntimas e confissões de um pecador justificado, James Hogg Histórias aquáticas — O parceiro secreto, A laguna, Mocidade, Joseph Conrad O homem que falou (Un de Baumugnes), Jean Giono O dicionário do diabo, Ambrose Bierce A viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco O caso Kurílov, Irène Némirowsky A costa de Falesá, Robert Louis Stevenson Nova Safo — tragédia estranha, Visconde de Vila-Moura Gaspar da Noite — fantasias à maneira de Rembrandt e Callot, Aloysius Bertrand Rimbaud-Verlaine, o estranho casal O rato da América, Jacques Lanzmann As amantes de Dom João V, Alberto Pimentel Os cavalos de Abdera e mais forças estranhas, Leopoldo Lugones Preceptores – Gabrielle de Bergerac seguido de O discípulo, Henry James O Cântico dos Cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema, Ernest Renan Derborence, Charles Ferdinand Ramuz O farol de amor, Rachilde Diário de um fuzilado, precedido de Palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière


Jules Boissière, «Diário de um Fuzilado precedido de Palavras de um Fumador de Ópio»  

O meu sonho flutuava no azul, no éter infinito onde o tempo e o espaço já não existem.

Jules Boissière, «Diário de um Fuzilado precedido de Palavras de um Fumador de Ópio»  

O meu sonho flutuava no azul, no éter infinito onde o tempo e o espaço já não existem.