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Joseph Conrad O DUELO

Joseph Conrad O DUELO

tradução e apresentação de

Aníbal Fernandes

O duelo na sua mais estranha e mítica dimensão.

www.sistemasolar.pt

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Joseph Conrad

O DUELO

tradução e apresentação de

Aníbal Fernandes


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TÍTULO ORIGINAL: THE DUEL

© SISTEMA SOLAR, CRL RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: IMAGEM DE THE DUELLISTS, O FILME DE RIDLEY SCOTT (1977) 1.ª EDIÇÃO, NOVEMBRO DE 2014 ISBN 978-989-8566-69-0


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A palavra, ligada ao combate onde intervêm dois indivíduos, poderia levar-nos a ver na sua origem duo, o que é negado pelos etimologistas. Eles sabem que o duellum latino é sequência linguística da forma mais antiga bellum, e significa «guerra»; e o «duelo», nas suas variantes ortográficas espalhadas nas línguas europeias, só por coincidência sugere uma associação com a dualidade. Mas também há nesta luta um pormenor menos conhecido: que antes do duelo de honra, tão persistente na literatura como no cinema, e as mais das vezes pré-anunciado com a luva a bater no rosto do ofensor, existiu o duelo judicial; na França (que é onde Conrad situa a sua história) desaparecido por decreto no século XVI, quando reinava Luís XIII. O juiz, indeciso perante uma razão pouco perceptível nas alegações de dois contendores, sentenciava-os a resolverem o seu caso com um duelo. E, assistida pela justiça de Deus, a evidência que fugia à percepção dos homens ficava explícita com a vitória divinamente concedida a um dos oponentes. A proibição destes duelos vigiados por tribunais fê-los surgir reinventados pelas regras do chamado duelo de honra, que nunca desceu às classes baixas da sociedade e só fez as suas mortes, os seus ferimentos, entre aristocratas e representantes da alta burguesia. Razões que a moralidade actual considera fúteis mataram centenas, milhares de franceses que não puderam negar-se ao sinal da luva ofensivamente erguida até ao rosto. Pierre Nicole, um pensador jansenista, avisou num dos catorze volumes do seu Essais de morale: «Quem recusar bater-se é um infrequentável poltrão.»


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As estatísticas desses tempos dão-nos informações espantosas: mais de dez mil mortes entre 1588 e 1608; mais de quatrocentas entre 1685 e 1716; mais de duzentas entre 1826 e 1834. De pouco valiam as proibições da lei. Alguns monarcas seduzidos pela nobreza deste desagravo entre honras das boas classes da sociedade, assinavam perdões. (Sete mil, por exemplo, nos dezanove anos de reinado de Henrique IV.) Os duelos com espadas, adagas ou até lanças, e um pouco mais tarde com pistolas, fizeram parte dos costumes da nobreza e das classes burguesas; e sentiu-se com nostalgia que tão elevados sentidos de honra fossem impedidos de mostrar, ao amanhecer e em campo aberto, que nenhum valor a vida poderá ter se não coexistir com uma prova de virilidade capaz de apagar as manchas de uma ofensa. Esta drástica defesa da honra era pedida unicamente a homens, e surpreendeu nas raríssimas excepções à sua regra. Continua por isto a destacar-se como curiosidade o duelo que em 1718 opôs a marquesa de Nesle e a viscondessa de Polignac, primas e qualquer delas amante do marechal de Richelieu, consumado à pistola em Fontainebleau. Com a civilização europeia do século XX a modificar radicalmente as mentalidades e o conceito de honra a mostrar-se menos enfático, o duelo reduziu-se a uma memória, a um gesto apenas com sentido em pitorescas representações. Teve portanto direito a estupefacção e a comentários irónicos o muito tardio duelo de 1958, que não disfarçou quanto havia nele de rendas velhas. O Marquês de Cuevas, «proprietário» da companhia de ballet com o seu nome e onde reinava o bailarino Serge Lifar, quis modificar uma coreografia. Durante as suas altercações houve de um a outro o sinal da bofetada (directa agora, por ter passado o tempo das luvas) e a sua consequência num duelo que permitiu a Lifar, de espada em riste e com alguns passos de dança, mostrar como as suas ginásticas de bailarino de alguma coisa serviam perante a trôpega velhice do marquês. A literatura tem nas suas obras duelos célebres, e os próprios escritores por eles passaram com maiores e menores estragos físicos. Mortal foi o de


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Alexandre Puskine nos arredores de São Petersburgo, ferido no ventre por George d’Anthès, denunciado como amante da sua mulher numa carta anónima que lhe chamava «Mestre da Ordem dos Cornudos». Na França foram muitos, e alguns com escritores célebres como Sainte-Beuve, Alexandre Dumas, Victor Hugo, Maurice Barrès, Balzac… o pálido Marcel Proust num duelo inofensivo contra Jean Lorrain, que o acusava de só ter um livro de contos editado por influência das suas relações sociais; Lamartine, desafiado por um coronel italiano que sentiu a Itália ofender-se nuns versos que diziam: «Vou procurar noutro lado (perdoai, sombra romana!) / Os que são homens e já não poeira humana.» Joseph Conrad nunca participou em nenhum duelo, mas ligou-se como autor à história que lhe confere uma das suas mais estranhas e míticas dimensões. Escreveu-a num período avançado da sua carreira de ficcionista com surpreendente domínio de uma língua que ele só tinha conhecido a partir dos nove anos de idade (Conrad era um polaco naturalizado inglês), e onde já tinham surgido muitas das suas histórias de mar e distâncias, antes dele raramente soltas do baixo exotismo dos livros de aventuras, agora tecidas por complexas relações visíveis e invisíveis com a natureza — aquela natureza longínqua, implacável a castigar, a apaixonar e a determinar o destino aos homens que escolhiam viver nas suas diferenças, ou a isso forçados pelas más contingências da vida. Em 1907 Conrad já estava a tempo inteiro na literatura, fisicamente diminuído pelos reumatismos que o tinham afastado dos navios e dos mares; com o grande vazio nas suas capacidades criativas que o incitava aos lamentos hoje conhecidos pelas cartas enviadas desde uma insuportável angústia aos seus amigos. Depois de Capri tinha-se instalado com a sua família em Montpellier, no sul da França, ao sabor de uma rodagem por climas de mais sol e mais calor que o afastassem por algum tempo das névoas inglesas. «Tenho a preguiça de todos os polacos. Prefiro sonhar um romance do que escrevê-lo», dizia nos seus momentos mais optimistas,


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aqueles onde exprimia em suave o que noutras vezes lhe saía assim: «Trabalho em ponto morto. Fervem-me na cabeça as ideias, mas o meu inglês desertou.» Ou: «Vou caindo, e cada vez até mais baixo. É indescritível o estado de inquietação em que vivo e escrevo. É uma constante e insuportável tensão.» Ou até com a coragem de desagradáveis pormenores físicos: «O que mais temo é a velhice impotente. E estou gotoso, remeloso, com crostas, rabugento, estúpido, perverso, cínico e coxo.» Nestes amargurados dias de Montpellier, Conrad vivia descontente com The Secret Agent, o romance que se recusava, de revisão em revisão, à forma literária aceitável e às cintilações imprescindíveis no género em que desejava inscrever a sua história; e outro cansativo esforço lhe era exigido para chegar a pouco significativos progressos nas páginas de Chance. Tudo a surgir-lhe como inegáveis sinais de um abandono, quem saberia dizer se definitivo, das singulares capacidades que já tinham sido suas para lidar com as palavras e levar a bom termo as difíceis estruturas dos seus textos longos. Desviou-se como estratégia para outros mais curtos, que talvez pudesse fazer chegar a um fim e com possibilidades de publicação imediata em revistas. São desta época as histórias que hoje vemos coleccionadas em The mirror of the sea, A set of six, ou Twist land and sea; entre elas O Duelo, uma das mais ambiciosas e das poucas que soube construir totalmente distraído do mar. Publicada pelo Pall Mall Magazine de Janeiro a Maio de 1908, passou pouco depois a livro com o título The Point of Honour (uma edição hoje paga a alto preço quando um dos seus exemplares aparece nas estantes de alfarrabistas ingleses). Num jornal leu acidentalmente a notícia responsável por esta novela, como nos esclarece uma nota de apresentação desse conjunto de ficções a que ele chamou A set of six: «A sua origem é extraordinariamente simples. Sai de um parágrafo de dez linhas num pequeno jornal de província publicado no Sul da França. O que justificava esse parágrafo era um duelo


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com fatal desfecho entre duas bem conhecidas personalidades parisienses, e por qualquer razão referia-se ao “muito divulgado facto” de dois oficiais do Grande Exército de Napoleão, durante as grandes guerras, terem-se combatido com um pretexto fútil numa série de duelos. Este pretexto nunca foi esclarecido. Eu só tinha, portanto, de inventá-lo; e pareceu-me que bastava o absurdo carácter dos dois oficiais, que também inventei, para ele ficar com um ar suficientemente credível. Mas a verdade é que a história não passou, segundo entendi, de um sério e até bem intencionado esforço para escrever um pedaço de ficção histórica. Nos tempos da minha juventude eu tinha ouvido falar muito da grande lenda napoleónica. Tinha a sincera convicção de que iria sentir-me à vontade com ela; e o resultado disto ou desta presunção, se o leitor assim preferir, foi O Duelo. Não se tratou de um trabalho que me fizesse sentir um qualquer rebate de consciência. Claro está que a história podia estar melhor contada. Qualquer trabalho pode ser melhorado; mas o autor deve ter a coragem de rejeitar este género de reflexões se não quiser que tudo quanto concebe se limite para sempre a ser considerado uma visão pessoal, um evanescente devaneio. Quantas visões destas não vi na minha vida desvanecerem-se! Sobre esta tenho no entanto de reter um testemunho do que foi minha coragem ou, se quiserem, minha ousadia. É o que mais prazer me dá recordar e encontro-o na opinião de uns quantos leitores franceses empenhados em dizer-me que estas páginas, por volta de uma centena, conseguiram “admiravelmente” transmitir o espírito de toda uma época. Uma exagerada gentileza, sem dúvida; mas ainda que eu a tome por isto aperto-a contra o peito por ser, de facto, o que tentei apanhar na minha rede: o Espírito da Época — o que nunca foi, durante aquele estrépito prolongado de armas, puramente materialista mas juvenil, quase infantil na sua exaltação de sentimentos — com um ingénuo heroísmo na sua fé.» Com todo o receio que as afirmações categóricas podem suscitar, dir-se-á aqui que este Duelo permanece como uma das mais logradas expres-


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sões literárias da contingência da vida perante os códigos de honra a que ela, por enobrecidos absurdos de uma civilização, aceitou sujeitar-se. Nos dezasseis anos percorridos pelos seus quatro capítulos, dois militares constroem um destino de violência sem razão; nos seus intervalos de paz batem-se periodicamente em duelo, encontrando no prestígio mítico de Napoleão e num exacerbado sentido de honra a magia capaz de ressuscitar essa outra, dos momentos de guerra, que os levava à embriaguez convulsiva de morte em fumo e fogo nas cargas contra o inimigo. O desvanecimento desta energia nas tranquilidades da reforma profissional e as branduras do conforto burguês surge-lhes como um melancólico declínio. Na última página da novela compreender-se-á que existe em D’Hubert esta saudade. Ele tem consciência súbita de que os duelos da sua vida terminaram, e esta certeza atinge-o como uma perda e não como uma vitória. E talvez possa ver-se aqui um sentimento transposto: do próprio autor nesse fim de vida que o destinava a escrever romances e se deprimia por não conseguir, nas vitórias contra as dificuldades da literatura, arder no fogo de uma já perdida paixão pelas vitórias contra as tempestades do mar. Depois de O Duelo, o talento de Joseph Conrad ainda teve os altos momentos de Victory (1915) e The Shadow Line (1917). Morreu anos depois, em 1924, com o seu coração de sessenta e sete anos incapaz de resistir a um forte ataque de asma. No ano anterior tinha-se imaginado como o preferido dos que então decidiam as atribuições dos Prémio Nobel. Mas isso deu-lhe apenas a oportunidade de uma desilusão; essa que vai, com a sua persistência, ficando clássica entre os que sonham inutilmente ter nas mãos o que só é o troféu máximo da política na literatura. Quando soube que William Butler Yeats tinha sido o eleito, diz-se que Conrad comentou: «Deram-no afinal à Irlanda, que muito precisa desta distinção.»


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* Em 1977 Ridley Scott estreou-se na realização cinematográfica com The Duellists (baseado em The Duel de Joseph Conrad), um primeiro filme que não passou despercebido no Festival de Cannes. Harvey Keitel (Féraud) e Keith Carradine (D’Hubert) eram os seus principais actores, e batiam-se e odiavam-se no meio de inesquecíveis belezas formais. A.F.


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1. Napoleão I, com uma carreira que pareceu um duelo contra toda a Europa, detestava duelos entre os oficiais do seu exército. O grande militar imperador não era um espadachim e pouco respeito tinha pela tradição. No entanto, uma história de duelo que no exército se fez lenda, atravessou a epopeia das guerras imperiais. Com surpresa e admiração dos seus camaradas, dois oficiais tentaram como artistas dementes dar brilho a uma peça de ouro fino ou pintar-lhe a flor-de-lis alimentando uma querela privada nos anos de universal morticínio. Eram oficiais de cavalaria, e ela parecia especialmente adequada à ligação que eles tinham com o animal ardente, mas caprichoso, que transporta os homens nas batalhas. Seria difícil imaginar como heróis desta lenda dois oficiais de infantaria a pé, por exemplo, com a fantasia temperada por muitos exercícios no terreno e coragem de um género necessariamente mais pesado. E, no que respeita a cabeças como as de artilheiros ou de oficiais de engenharia, simplesmente impensável por se manterem frias com um regime de matemáticas. Os nomes dos dois oficiais eram Féraud e D’Hubert, qualquer deles tenente dos hussardos, embora não fossem do mesmo regimento. Féraud tinha funções regimentais, mas o tenente D’Hubert a boa sorte de estar nomeado como oficial adjunto do general que comandava a divisão. Isto passou-se em Estrasburgo, quando esta simpática e importante guarnição gozava com brio um curto intervalo de paz. Apesar de estes dois militares serem por natureza intensamente guerreiros, goza-


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vam-na por se tratar de uma paz em que se afiavam espadas e limpavam espingardas, acalentada pelos corações militares por deixar intacto o prestígio profissional e ninguém acreditar que era estável e de longa duração. Dominado por estas circunstâncias históricas tão propícias a tornar apreciado um lazer militar, o tenente D’Hubert seguia numa tarde radiosa pela rua calma de um subúrbio prazenteiro que levava ao sítio onde o tenente Féraud habitava, e que era a casa particular de uma velha solteirona com um jardim na parte de trás. Quando bateu à porta foi atendido de imediato por uma jovem criada vestida à alsaciana. O seu ar fresco e as longas pestanas de um olhar demoradamente baixo e modesto, quando viu aquele oficial de elevada estatura, incitaram o tenente D’Hubert, sensível a impressões estéticas, a temperar a fria e severa gravidade do seu rosto. Ao mesmo tempo reparou que a rapariga trazia no braço uns calções de hussardo azuis com barra vermelha. — O tenente Féraud está em casa? — perguntou num tom amável. — Oh, não, senhor! Saiu às seis da manhã. A bonita criada fez menção de fechar a porta, mas o tenente D’Hubert contrariou-lhe com delicada firmeza o movimento, e fazendo tilintar as esporas entrou no vestíbulo. — Vamos lá ver, minha querida! Quererás dizer que não voltou a casa desde as seis horas da manhã? Quando pronunciou estas palavras, o tenente D’Hubert abriu sem cerimónias a porta de um quarto muito limpo e arrumado onde o recheio, o modelo das botas, das fardas e dos apetrechos militares bastavam para se convencer de que era, de facto, o quarto do tenente Féraud. E também viu que não estava em casa. A fiel criada tinha-o seguido, e levantou para ele o rosto de olhar cândido. — Hum! — disse o tenente D’Hubert com um enorme desapontamento, porque já tinha visitado todos os lugares onde um te-


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nente de hussardos podia ser encontrado numa tarde radiosa. — É bem verdade que saiu! E por acaso sabes, minha querida, para onde foi às seis horas da manhã? — Não — foi a imediata resposta. — A noite passada entrou tarde, e ressonou. Ouvi-o às cinco, quando me levantei. Depois vestiu a farda mais velha e saiu. Em serviço, suponho. — Em serviço? Nem de perto nem de longe! — exclamou o tenente D’Hubert. — Fica a saber, meu anjo, que saiu tão cedo para se bater num duelo com um civil. Ela ouviu a notícia sem as suas pestanas escuras estremecerem. Era óbvio que todos os actos do tenente Féraud estavam acima de qualquer crítica. Durante um momento limitou-se a olhar para ele com emudecida surpresa, e desta ausência de emoção o tenente D’Hubert concluiu que ela devia tê-lo visto naquela manhã. Varreu com um olhar todo o quarto. — Vá lá! — insistiu, acentuando o seu tom familiar. — Não estará em qualquer outro lugar da casa? A criada abanou a cabeça. — Tanto pior para ele! — continuou o tenente D’Hubert num tom de quem se sentia justificadamente inquieto. — Mas esta manhã esteve em casa. Desta vez a bonita rapariga fez um leve sinal de assentimento. — Esteve! — exclamou o tenente D’Hubert. — E voltou a sair? Porquê? Não podia manter-se tranquilamente em casa? Que doido! Minha querida menina… A natural gentileza no trato e o forte sentido de camaradagem do tenente D’Hubert davam-lhe forte ajuda ao sentido de observação. Alterou o tom da voz, conferindo-lhe uma suavidade mais insinuante; e a olhar para os calções de hussardo, pendurados no braço da rapariga, fez apelo ao interesse que ela podia ter pelo conforto do tenente Féraud e


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por mantê-lo satisfeito. Foi insistente e persuasivo. Com excelente resultado recorreu aos seus olhos, que eram meigos e belos. Parecia tão genuína, a sua ansiedade em encontrar de imediato o tenente Féraud por razões do seu próprio interesse, que a resistência da rapariga acabou por ceder, fazendo-a falar. Não tinha, infelizmente, muito para dizer. Pouco antes das dez o tenente Féraud voltara a casa, fora direito ao seu quarto e deixara-se cair na cama para passar pelas brasas. Ouvira-o ressonar ainda mais alto do que às primeiras horas da manhã. Depois levantara-se, vestira a melhor farda e saíra. Era tudo quanto sabia. Ela ergueu o olhar, e o tenente D’Hubert ficou a contemplá-la com incredulidade. — É incrível! Mostrar-se com a melhor farda na cidade! Minha querida filha, não saberás que esta manhã ele despachou um civil num sítio qualquer? Serviço bem feito, como o que tu fazes à lebre no espeto. A bonita criada ouviu a horrível informação sem dar sinais de que ela a preocupava. Mas apertou os lábios com um ar pensativo. — Não anda a mostrar-se na cidade — observou em voz baixa. — Longe disso. — A família do civil faz por aí um barulho dos diabos — disse o tenente D’Hubert prosseguindo na mesma linha de pensamento. — E o general está muito furioso. É uma das melhores famílias da cidade. O Féraud devia, pelo menos, ficar em casa… — O que vai fazer-lhe o general? — perguntou a rapariga, inquieta. — Não vai cortar-lhe a cabeça, com certeza — resmungou o tenente D’Hubert. — Mas é, de facto, uma conduta indecente. Com esta espécie de bravatas não dará fim aos seus contratempos. — Mas não anda a mostrar-se na cidade — insistiu a criada com um murmúrio tímido.


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— Pois não! Agora penso que não. Não o vi em nenhum lado. Em que diabo de sítio se meteu? — Foi fazer uma visita — alvitrou a criada depois de um momento de silêncio. O tenente D’Hubert sobressaltou-se. — Uma visita? Dizes que foi visitar uma senhora? O desplante desse homem! E como é que o sabes, minha querida? Sem ocultar o seu desprezo de mulher pela opacidade da mente masculina, a bonita criada lembrou-lhe que o tenente Féraud antes de sair vestira a melhor farda. Também tinha vestido o dólman mais novo, acrescentou num tom que denunciava como tinha os nervos afectados pela conversa; com alguma brusquidão afastou-se dele. O tenente D’Hubert não questionou a pertinência do gesto, e viu que não conseguia adiantar muito o inquérito oficial. Porque o inquérito sobre o tenente Féraud tinha um carácter oficial. Não conhecia nenhuma mulher que uma criatura pudesse sentir o desejo de visitar à tarde, depois de ter limpado de manhã o sebo a um homem. Os dois jovens mal se conheciam. Mordeu com perplexidade um dedo que estava dentro da luva. — Uma visita! — exclamou. — Mas que diabo de visita? De costas voltadas para ele e a pendurar numa cadeira os calções de hussardo, com uma leve risada de enfado a rapariga respondeu: — Oh, santo Deus! À Madame de Lionne. O tenente D’Hubert assobiou baixinho. Madame de Lionne era mulher de um alto funcionário. Tinha um bem conhecido salão, e algumas pretensões a sensibilidade e elegância. O seu marido era um paisano velho, mas a frequência do salão era jovem e militar. O tenente D’Hubert não tinha assobiado por lhe ser desagradável ir procurar o tenente Féraud nesse salão com tanta fama, mas porque chegara há pouco a Estrasburgo e não tinha tido oportunidade de ser apresentado


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a Madame de Lionne. «O que terá o espadachim do Féraud lá ido fazer?», pensava ele. «Não podia ser o género de homens que…» — Tens a certeza do que dizes? — perguntou o tenente D’Hubert. A rapariga tinha toda a certeza. Sem se voltar, para olhar para ele, explicou que o cocheiro dos vizinhos do lado conhecia o maître d’hôtel de Madame de Lionne. Obtivera por essa via a informação. E era garantida. Ao mostrar esta certeza deu um suspiro. O tenente Féraud ia visitá-la quase todas as tardes, acrescentou. — Homessa! — exclamou com ironia o tenente D’Hubert. A sua opinião sobre Madame de Lionne descera alguns pontos. Não lhe parecia que o tenente Féraud fosse digno de especiais atenções de uma mulher com fama de sensível e elegante. Mas nunca se sabe… No fundo, eram todas o mesmo… muito práticas, e em bastante menor grau idealistas. No entanto, o tenente D’Hubert não se deteve muito nestas considerações. — Com um raio! O general às vezes vai lá — reflectiu em voz alta. — Se apanhar o tipo a fazer olhinhos à senhora, será uma história dos diabos! O nosso general não é pessoa para aceitar tudo, posso dizer-te. — Então despache-se! Não fique aqui parado, depois de eu lhe dizer onde ele está! — exclamou a rapariga, corando até aos olhos. — Obrigado, minha querida! Não sei o que teria feito sem ti. Depois de manifestar a sua gratidão de uma forma provocatória que ela começara por repelir com violência, e a seguir suportara com uma indiferença ainda mais desagradável, o tenente D’Hubert abandonou a casa. Foi pelas ruas com garbo e brio, cheio de aprumo militar. Não se sentia de forma nenhuma incomodado por chamar à realidade um camarada num salão de recepções onde não o conheciam. A farda é um passaporte. E a sua posição como adjunto do general aumentava-lhe a


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livros publicados

Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, George Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A papisa Joana – segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha O meu corpo e eu, René Crevel Manon Lescaut, Antoine Prévost d’Exiles O duelo, Joseph Conrad


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REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE DEPÓSITO LEGAL 000000/14 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA EUROPRESS RUA JOÃO SARAIVA, 10 A 1700-249 LISBOA


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