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Isabelle Eberhardt

RAKHIL

tradução e apresentação

Aníbal Fernandes


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TÍTULO DO ORIGINAL: RAKHIL

© SISTEMA SOLAR, CRL (2018) RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: NA CAPA: VAN DONGEN, MULHER DE AZUL COM COLAR VERMELHO (1911) REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE 1.ª EDIÇÃO, ABRIL 2018 ISBN 978-989-8833-26-6


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Em 21 de Outubro de 1904, Isabelle Eberhardt morreu soterrada e afogada sob uma onda do ued argelino de Aïn Sefra. Tinha vinte e sete anos de idade, era suíça, filha de pai incógnito; e a história deste vazio, que a restringiu a um único progenitor no seu registo de Genebra, desce romanescamente desde a Rússia czarista até à Europa Central. Natalia Nicolaevna Eberhardt foi uma esposa incómoda para o general e senador Pavel Karlovich de Moerder, muito próximo de Nicolau II. O seu sangue judaico, tardiamente descoberto, lançava as bases de uma insanável desavença conjugal. Moerder sentia-se traído pela prolongada ignorância desta «impureza semita» introduzida na sua vida íntima e cuidadosamente iludida pela sua mulher. Mas tinha-a regularmente engravidado; e muito consciente da sua condição de pai russo bem colocado na vida e merecedor de respeito, evitara à educação desses filhos a promiscuidade de uma escola pública contratando Alexander Tropimovski, preceptor ucraniano, ex-pope ortodoxo, amigo de Bakunin, poliglota, e que surgia no seu lar acrescentado por uma bastante apreciável beleza física. Natalia Nicoalevna não foi indiferente à proximidade deste educador erudito e com laivos de um requintado anarquismo. Essencialmente por isto, e para deixar a mais cómoda distância o semitismo e a fidelidade duvidosa da sua vida conjugal, o severo Moerder viu


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na oportunidade de um filho de pulmões fracos a boa desculpa que lhe permitiria exportar toda a sua família mais próxima para a Suíça; e, por que não, acompanhada pelas competências do acarinhado preceptor. Natalia e Tropimovski construíram longe da corte russa, nos arredores de Genebra, um novo núcleo familiar visto de sobrolho franzido pelos bem comportados helvéticos; visto como assumido adultério e animado centro de convívio para intelectuais de esquerda e políticos expatriados. E quando Isabelle nasceu, concebida longe das obras do general russo, nem Moerder nem Tropimovski quiseram oferecer-lhe uma paternidade. Ao contrário de todos os seus irmãos, com um Moerder a respeitabilizar-lhes o nome, teve de contentar-se com o que havia no lado materno. Isabelle seria, para os registos oficiais e para a literatura, Isabelle Eberhardt. Neste lar tumultuoso, governado com mão de ferro por um preceptor cada vez mais dispensado pela mãe e odiado pelos filhos-Moerder, traçaram-se trajectórias de vida rebeldes e conturbadas. Olga, a mais velha, fez um casamento bastante fora e abaixo da sua classe social; Nicolas alistou-se na Legião Estrangeira, desertou e regressou à Rússia; Natalia fugiu de casa com um amante; Wladimir viria a suicidar-se; e, dezoito anos depois do seu irmão, também Augustin se suicidou. Em 1899, Natalia Nicolaevna era uma mulher irremediavelmente distante dos prestígios da corte russa e com a fama incómoda de ter vindo satisfazer, longe dos olhos e dos sentimentos do seu marido, os apelos de uma exigente sensualidade. Isabelle, essa, era vista por Genebra como uma extravagante. Vestia-se com fardas de marinheiro e outros trajos masculinos; e como sentia uma


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sede de exotismos alimentada por leituras febris que investigavam tudo quanto havia nessa veia, desde Flaubert a Loti, e como estava irremediavelmente apaixonada por uma fé muçulmana de marcado contraponto àquela cristandade suíça, o Norte de África de Marrocos ou da Argélia, dominado pela língua francesa, mostrou-se com contornos de sonho realizável. Conduzidas pelo mesmo impulso, mãe e filha elegeram a Bône argelina como bom lugar para se arabizarem sob o confortável abrigo de uma mensalidade que poderia lá chegar sem sobressaltos. Também havia que apagar dos seus nomes o mau travo europeu: Natalia Nicolaevna passou a ser Fatma Mannubia; e Isabelle Eberhardt, vestida à árabe, transformou-se no jovem ambíguo Mahmud Sadi. Masculinamente vestida, Mahmud frequentava mesquitas e prostrava-se entre homens, com a cabeça a tocar no chão e voltada para Meca. Dormia com árabes encantados com o formoso rapaz que se despojava da gandurah e oferecia um corpo feminino ardente, com os atractivos equívocos da androginia. Robert Randau, que privou com ela, deixou escrito: «Bebia de mais. Era a única coisa que contrastava com a sua profunda aceitação da fé muçulmana. Sim, tinha a religiosidade intensa dos místicos e dos mártires. Vivia como um homem, como um rapaz, porque bem mais parecia rapaz do que rapariga. Mas era, com o seu ar de hermafrodita, apaixonada e sensual embora diferente de uma mulher. Ainda por cima com o peito completamente plano. Tinha pequenas vaidades, embora bem mais fossem as de um árabe elegante. Trazia as belas mãos sempre enfeitadas com henna, a roupa sempre imaculada, e quando tinha dinheiro punha desses perfumes intensos que os árabes adoram. […] Houve uma época em que passava dias inteiros nos suks, e ao ver um ho-


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mem que lhe acendia o desejo, engatava-o. Fazia-lhe um sinal e saíam dali juntos. Nunca era hipócrita nem escondia as suas aventuras. Que razão teria para fazê-lo? Não passavam de uma das facetas da sua personagem. Creio que tinha profundos êxtases religiosos; a estes ocultava-os, porém. Era muito rigorosa na observação dos rituais: cinco orações diárias na mesquita, na rua ou no deserto. Estivesse onde estivesse, rezava.»

Em 21 de Outubro de 1904, Mahmud Sadi morreu soterrado e afogado sob uma onda gigantesca do ued argelino de Aïn Sefra. Agora órfão de Fatma Mannubia, o jovem Sadi tinha-se aperfeiçoado ainda mais na vocação arabizante. Rapou a cabeça e copiou na aparência os beduínos. Teve um nome que se alterava ao de leve com a inspiração do dia: era sidi Mahmud, era Mahmud ben Abdalah, era Sadi ou mesmo Mahmud uld Al. E escrevia. Era contista, mas também o diarista que hoje encontramos em Notes de route, Mes journaliers ou Heures de Tunis a exprimir aquilo que a Argélia mais alto gritava aos seus sentimentos de europeu rendido ao islão, mas também ao que se acendia como maior dos seus desejos: Ir para o seio do grande oceano de mistério que é o Sara e fixar-me aí. — Um direito que bem poucos intelectuais fazem o esforço de reivindicar, é o direito à vida errante, à vagabundagem. […] Estarmos sós, sermos parcos no que necessitamos, sermos ignorados, estranhos na nossa casa e em todo o lado; e, solitários e grandes, andarmos à conquista do mundo. Esta vocação de anonimato e distância exigia, porém, na proximidade com outros homens a construção de uma atitude: Para a galeria ponho a emprestada máscara do cínico, do debochado e


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do que se está nas tintas. Até hoje ninguém conseguiu atravessar a máscara e vislumbrar a minha verdadeira alma sensível e pura que plana muito alto, acima das baixezas e dos aviltamentos onde é do meu agrado arrastar o ser físico, com desdém pelas convenções e também com uma estranha necessidade de sofrer. Mahmud voltou a ser Isabelle num interregno de Marselha, aonde teve de dirigir-se para desbloquear a herança russa que através da sua mãe lhe pertencia. E com uma consciência já tranquila, ciente de que uma confortável mensalidade em rublos seria regularmente cambiada em francos argelinos, encontrou Mohammed Rachid, um dos mais fogosos amantes da sua vida sexual tão preenchida: um Rachid que logrou, no meio de competentes e demorados folguedos sensuais, incutir-lhe uma radical posição sobre os colonizadores franceses da Argélia. De regresso ao norte de África, num momento feminino marcou em La Dépêche Algérienne a sua idealista posição: Não sou política nem agente de nenhum partido, pois acho que todos de igual forma se enganam. Sou apenas uma extravagante, uma sonhadora com o desejo de viver longe do mundo, de viver uma vida livre e nómada para contar o que vê e à frente do triste esplendor do Sara conhecer, talvez, o melancólico e enfeitiçado estremecimento. Com as competências sexuais de Rachid distantes, Mahmud teve um ainda maior deslumbramento de leito nos braços de Slimane Ehni, um sargento muçulmano argelino que chegou a ser, além de amante, seu marido. Mahmud entrou nesta época para a ordem dos sufi dos Quadria. Foi iniciado nas técnicas do êxtase místico; mas… aqueles trajos masculinos em cima de encantos quase femininos, os álcoois


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fortes naquelas mãos pintadas a henna, os sinais visíveis de uma pobreza secretamente adoçada por uma confortável desenvoltura material, causaram forte oposição entre muitos membros da ordem. Tudo o que fez Abdalá ben Ahmed, «inspirado por Deus», desferir «contra aquela causadora de desordem na religião muçulmana» a cutilada não mortal que uma corda de secar roupa amorteceu e só lhe deixou um braço ferido. Até ser aberto o processo judicial que julgaria este atentado, Isabelle foi durante sete meses para Marselha, defendendo-se assim de outros possíveis cometimentos, e trabalhou (com trajos de homem) nas descargas do porto. Abdalá foi punido com trabalhos forçados até ao fim da vida e a Isabelle foi destinado um exílio no sul da Argélia, em território dificilmente alcançável por outros vingadores da ultrajada honra sufi. Sentiu nesses dias que a sua condição de suíça vagamente russa não era suficientemente protegida numa Argélia francesa. Resolveu portanto casar-se com Slimane Ehni, cidadão argelino-francês, num acto de amor e também de estratégia consumado por registo civil e numa mesquita muçulmana. Quando precisou de explicar-se numa decisão que se ajustava mal à sua personalidade, escreveu: Ele tem um carácter doce e jovial, detesta sair de casa, frequentar cafés e ruídos; gosta do seu lar e é cioso a defender-se de toda a invasão exterior. Para mim, que estou fatigado [assim, no masculino], apesar de todas as relações que pude conservar, cansado e farto da desesperante solidão que me rodeia, Slimane é um marido ideal. Em Aïn Sefra, uma pequena cidade do Atlas perto da fronteira com Marrocos, Mahmud conheceu o general francês Lyautey, aquele que a História regista com mão firme, capaz de conseguir


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manter Marrocos como estratégica colónia da França no Norte de África. Ideias políticas inimigas uniram-nos; e havia na ambiguidade sexual de Isabelle, na sua juventude fora de todos os compêndios, quanto bastava para o general severo se enternecer. Aquele rapaz do outro sexo fascinava-o. «Ela era o que no mundo exerce em mim atracção maior: uma rebelde», lê-se numa memória sua. «Mas que encanto, encontrarmos alguém que é de facto ele próprio, sem nenhum preconceito, nenhuma concessão, nenhuma ideia feita, e a passar pela vida tão liberto de tudo como um pássaro no espaço! Eu gostava dela por aquilo que ela era e não era. Eu amava o seu prodigioso temperamento de artista, e tudo o que tinha para escandalizar os defensores da lei, os importantes, os mandarins de todas as espécies. Pobre Mahmud!» A este complexo sentimento devemos hoje a preservação de uma assinalável parte da obra literária de Isabelle Eberhardt. Porque ela vivia o seu exílio numa dessas casas, ainda hoje típicas nas regiões da Argélia, pobres em madeira e pedra, construídas com blocos de palha e lama, e de forma alguma preparadas para generosas visitas de água. No dia 21 de Outubro de 1904, a imprevisível cheia do rio Aïn Sefra matou-a debaixo de pesados escombros de barro que foram de imediato, e por diligências de Lyautey, removidos para lhe salvar o corpo e o que restava dos seus manuscritos, alguns ainda não publicados em jornais ou revistas da França e da Argélia. * Isabelle Eberhardt não era uma ficcionista entusiasmada pela disciplina dos textos longos. Os seus impulsos escolhiam neste campo a forma breve, persistiam nas dimensões do conto, encontravam nas


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virtudes da oralidade narrativa o forte aliado da sua vontade de contar. Isto talvez explique que as suas raras tentativas de escrever uma novela tenham ficado paralisadas por um desalento, um súbito desinteresse, abandonadas na fase de texto inacabado ou à espera do trabalho que lhe daria a forma definitiva. A boa vontade de Victor Barrucand, seu amigo e primeiro editor, permitiu em 1922 que a novela Le Trimardeur surgisse revista e completada por si numa edição Fasquelle. O caso de Rakhil é, no entanto, um pouco diferente. Esta novela, a que Isabelle queria dar o importante papel de razoado a favor do Corão (segundo pode ler-se no seu Journaliers), desviou-se aos poucos, e sem ela dar conta disso, para uma história de paixão sangrenta a tudo sobreposta e que nada fica a dever aos paroxismos de Carmen de Prosper Mérimée. Do programa inicial pouco resta. Há nesta novela páginas onde a autora se empenha, de facto, em louvar o Corão (como ele deve ser lido, à margem das limitações que a prática actual da cultura muçulmana impõe, por exemplo, às mulheres); mas o que sobressai na narrativa é uma construção intensamente romanesca de personagens, a única que se adequaria à sua sangrenta conclusão, e um evidente propósito de as arrumar em diversos níveis de comportamento moral, de acordo com a religião que praticam — os judeus sempre venais, exploradores e atentos ao lucro; os muçulmanos (desde que praticantes da genuína religião islâmica) dotados de sólidas qualidades humanas; ou ainda, neste texto onde não surge nenhum francês e que ela construiu dominado por uma persistente dualidade entre judeus e árabes, a decisão lateral (pouco previsível num temperamento de grande abertura aos seres oprimidos por mais poderosas civilizações) de brindar dois negros com


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adjectivos que mal não ficariam numa diatribe racista. Desviada involuntariamente do seu militante propósito, a mão da escritora Isabelle Eberhardt acabou por ser dominada por uma história de sexo e ciúme, por envolver-nos numa sangrenta sinfonia de paixão e sensual amor que escolhe, ao que parece com pouca inocência, para nome da principal personagem masculina o seu próprio nome árabe — Mahmud — e para uma das mulheres em situação emocional instável, ansiosa por um novo casamento, o nome árabe da sua mãe — Mannubia. As perplexidades da autora perante estes contornos de um intenso drama passional a sobrepor-se com força destruidora ao que teria sido um programa «ideológico», levou-a ao desânimo e a interromper por duas vezes a sua redacção. O original informa-nos de que a primeira parte de Rakhil (ou Rachel, como ela então lhe chamava) foi escrita em Novembro de 1898, a segunda em Maio de 1900 e a terceira também neste ano, em Marselha, no período em que Isabelle Eberhardt lá esteve deslocada, a aguardar a abertura do já referido processo judicial; e, por terem ficado preenchidas todas as folhas do caderno, informa a autora em fim de página que a sua continuação estava no caderno azul. Ora, este caderno azul foi provavelmente arrastado pelas águas do Aïn Sefra. São conhecidas obras literárias, deixadas incompletas pelos seus autores mas publicadas postumamente, por se considerar que o texto existente justifica a sua leitura. Conhecemos o que resta (ao que parece) de Almas Mortas de Gógol, que teve uma segunda parte destruída pelo autor poucos dias antes de morrer; de Weir of Hermiston, de Stevenson, sem nos ser dado o mais aguardado capítulo — o julgamento do filho pelo juiz seu pai; o intrigante The Mystery of Edwin Drood de Dickens, que deixa em suspenso um


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intricado problema de sentido; o que foi escrito por Kafka nas suas três tentativas de romance; The Last Tycoon de Scott Fitzgerald, a três passos do fim e retocado pela boa vontade de Edmund Wilson; o que sobrou de Felix Krull de Thomas Mann… A lista poderia ganhar em extensão se descesse para casos literários menos centrais, e teria de incluir este Rakhil. O seu texto completo mas nunca revisto existiu, e a autora tomou a decisão de não o publicar quando compreendeu que não lograva o seu propósito — argumentar a superioridade da religião muçulmana sobre as outras religiões monoteístas. No entanto, o conteúdo das páginas finais foi-nos até certo ponto transmitido pelo seu conto «O Mágico» (publicado em 1902 em Le Petit Journal Illustré e acrescentado a esta edição como apêndice), onde a autora resume drasticamente a história de Rakhil e dá-nos a conhecer, sob o ponto de vista do mágico, o essencial sobre a sua morte. O que sobra dessa vontade de enaltecer o Islão funciona frouxamente, ou mesmo pincelada com um primarismo ingénuo, distante dos seus objectivos. O leitor de Rakhil encontrará na sua história dois muçulmanos, severos observadores dos ensinamentos do Corão mas capazes, ainda assim — e de acordo com a perspectiva da leitura de Isabelle Eberhardt — de ignorar que nunca há nas suas palavras qualquer sentença que prescreva a clausura das mulheres e o seu difícil acesso à cultura; capazes também de punir a infidelidade feminina com a morte. E encontrará, sobretudo, o «muçulmano transviado», de comportamento sexual dissoluto e atribuído na sua essência a leituras filosóficas «perversas», incutidas pelo seu contacto com a civilização ocidental. Ao serviço destas esquemáticas «verdades», a história imaginada pela autora salta dos seus trilhos e carrega-se de bem mais


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curiosas sombras. Rakhil, a prostituta judia de poucas letras e rendida ao seus próprios encantos, só conhece o amor físico e cheio de competência profissional, mas sofre um dia a nefasta revelação do verdadeiro amor; Mahmud, o árabe culto impregnado pelos vícios mentais e físicos que a autora atribui a más leituras e a más vivências parisienses, preenche o vazio da sua existência pervertida com a busca de um sublime e nunca saciado prazer sexual. Este predador do sexo lembra-nos na sua insatisfação Casanova. As mulheres são derrotadas na sua resistência pelo Poder do Sedutor, por uma força indefinível e turva que lhe anuncia a qualidade sexual e, como um diapasão, faz o sexo oposto vibrar sob um magnetismo supremo, tão irresistível como o que leva a borboleta a bater as suas asas ao raios benfazejos do sol. Mahmud entra com esta perigosa vantagem erótica numa história pouco previsível em lares árabes severos, com mulheres ociosas e sem mais território do que uma eterna penumbra defendida por cortinas. Mahmud chega a ter relações sexuais simultâneas com três mulheres da casa do seu pai, receptivas a esta excitante novidade física que as distrai da sua clausura, uma delas sua cunhada, supremo desacato que estremece tudo o que poderíamos esperar de uma história passada num lar árabe convencional. Mas não tardará que este formoso anjo de sexo eréctil sinta um tédio que volúpias caseiras não matam e se entregue às competências, reconhecidas sem esforço em toda a cidade, da profissional Rakhil. Este encontro tem consequências que poderiam ser escutadas em árias cruciais de uma ópera romântica. Rakhil, a prostituta calejada pela sua profissão, venal e atenta ao lucro das suas entregas físicas, confunde a capacidade sedutora do belo macho com o verdadeiro amor; Mahmud passa por um breve instante de confu-


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são, mas bem depressa compreende que o centro do seu destino está capturado pela busca de um prazer sexual quimérico, vez a vez alcançado mas imperiosamente impelido para a procura de um novo grau de satisfação sensual. A confrontação destes dois paroxismos tem todos os germes de um drama de ciúmes e sangue. E é curioso, e também romântico, que num texto que se pretendia unicamente tecido por valores da religião islâmica, seja o seu cruel desfecho previsto por dois mágicos, um deles erudito e o outro de aceitação popular, qualquer deles conhecedor dos destinos humanos através de ciências ocultas e laterais ao Corão. O auge deste drama, localizado nas poucas páginas que faltam a Rakhil, com as suas palavras legítimas talvez lidas e lavadas pelas águas tumultuosas do Aïn Sefra, era conhecido de Victor Barrucand, seu amigo e primeiro editor que o revelou, «a título indicativo», na primeira edição desta novela, permitindo-nos ter uma ideia aproximada do seu violento desfecho. Limitamo-nos, como complemento desta tradução, a utilizá-lo até ao ponto em que nos dá as indicações necessárias a um conhecimento mínimo do seu desfecho. Nunca é levado a boa recompensa imaginarmos os braços e o gesto da Vénus de Milo, ou a cabeça que olharia altivamente os mares sobre aqueles ombros da Vitória de Samotrácia. A.F.


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No tempo em que eu era tlamid 1 na zaúiya de Anneba, gostava de vaguear e sonhar nas necrópoles silenciosas entre o mistério e a serena melancolia dos túmulos. Sentia aquela espécie de recolhimento e triste paz interior que foi sempre uma das sensações mais suaves da minha vida. Vinha gozar ali o estranho encanto que emanava desta antítese entre a vida e o aniquilamento; o grande sol de África esplendoroso, triunfante, cheio de vida e juventude eterna, que iluminava os túmulos, as covas sinistras e as coisas sombrias — que tinham sido seres — com uma desagregação a consumar-se, a aniquilar-se, a acabar de morrer… Vinha procurar ali a resignação, a serenidade da espera sem pressa e sem angústia perante a inelutável Morte. … E, coisa singular, em nenhum outro lugar estive tão perto de admitir a hipótese espiritualista, de aceitar com enternecimento profundo a existência de um além. Em nenhum outro lugar tive os meus sonhos mais isentos de amargura e sinceramente reconciliados com essa desconhecida Potência que gera e mata. … Também achei sempre que as árvores e as flores que crescem nos túmulos não se parecem com as de quaisquer ou1 Pode saber-se o significado de quase todas as palavras árabes empregadas neste texto consultando o glossário das páginas 153 a 155. (N. do T.)


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tros lugares; têm uma beleza própria muito diferente, o encanto de uma melancolia e de uma indizível paz. A oeste de Anneba, por cima do ued Dheheb há uma pequena colina muito baixa, rodeada por um pouco elevado muro de pedra. No mais alto deste montículo ergue-se uma construção vagamente parda, com uma demão de cal, uma forma muito semelhante à das kubbas funerárias. Mas a bola e o crescente não encimam a arredondada cúpula desta estranha edícula. Um dia dei um solitário passeio sob os grandes e pensativos eucaliptos que sombreiam o calmo ued Dheheb, parecido com um caminho de lápis-lazúli vagamente prateado entre as verdejantes margens. E passeava eu ao pé da pequena colina silenciosa onde os beni Israel vão dormir o seu último sono, quando fui dominado pelo desejo de franquear o pequeno muro do recinto e meter-me no meio daqueles túmulos erguidos com uniformidade cinzenta, onde se alinham geométricas inscrições da antiga Judeia, inquietantes pela estranheza do mistério do seu insociável e hermético passado. Nada ali se encontrava com a graciosa serenidade dos cemitérios do Islão, onde os túmulos multicores fazem lembrar flores desabrochadas à sombra dos ciprestes fúnebres. Aquilo era grande, na sua atmosfera de resignação, mas com um desolado ar sinistro, um silêncio pesado, quase ameaçador. Um cemitério israelita é uma necrópole de materialistas para quem tudo acaba com a morte, e que nunca irão preocupar a mais próxima das suas descendências na terra… Aliás, nos cemitérios da Europa, dissipados que estejam os seus últimos e sedutores fantasmas, uma desolação idêntica acabará por reinar, acrescentada pela universal banalidade da sua civilização.


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Eu vagueava de túmulo em túmulo a pensar em coisas bíblicas, nas singulares palavras de promessa e ameaça que tinham origem no mais estranho povo da terra e chegavam de longe, da Judeia e de Galil, e os meus pensamentos também voavam para essa Europa que os homens transformam numa vasta fábrica, antes de fazer dela uma terra de desespero ou mais do que isso: uma odiosa caserna de funcionamento mecânico, sinistra máquina que esmaga caracteres e nivela os indivíduos… E enquanto voltava a descer para o ued Dheheb com um doce e vago murmúrio que mal se chega a ouvir, reparei num espaço mais abandonado, todo coberto por um mato de silvas e ervas secas. O Verão chegava ao fim; na imobilidade do ar inflamado, uma pulverulência amarelada voltava a crescer sobre as coisas. Ali, à mistura com outeiros e outeiros sem nenhuma pedra ou só cobertos por calhaus amontoados, perto do muro da cerca a minha atenção foi despertada por uma enorme laje de granito cinzento com tosca esquadria, erguida em direcção ao céu. Nenhum ornamento e nenhuma flor; nada a indicar que essa pedra selvagem pudesse recordar um qualquer ser vivo de encarecida memória, um bem-amado desaparecido. Nem sombrio abandono, nem esquecimento profundo, quase um desdém parecia planar sobre esse lugar e essa pedra; era qualquer coisa que me causava um vago mal-estar. Nada… nada além de três letras irregulares e desmesuradas, talhadas a grandes pancadas de cinzel por uma desajeitada mão no lado da pedra orientado para o lugar do céu que correspondia a Jerusalém… as três letras que em hebreu significam Rakhil. Sentei-me no muro, a alguns passos deste singular túmulo.


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Contemplei, durante muito tempo mergulhado em estranhos pensamentos, o vale agreste e a inscrição enigmática. Quem teria sido essa Rakhil que ali tinham metido?… E que mão amiga traçara na pedra o seu nome, para o salvar mais alguns anos de um devorador esquecimento? Talvez fosse um túmulo recente… ou talvez tivessem, pelo contrário, passado longos anos sobre aquela vida com um mistério que me atraía e era para sempre impenetrável… Porque as chagas de um inverno e sóis radiosos de um verão bastam, sob o céu de África, para as coisas se cobrirem com essa pátina vetusta que mais tarde, através das idades, lhes dará um singular aspecto de imobilidade. Uma qualquer primaveril florescência teria ali força bastante para conferir à natureza um tom pitoresco? Entre os túmulos do cemitério só aquele despertara em mim essa espécie de sombria angústia que a proximidade da Morte nos causa… Perante aquela pedra erguida, eu sentia uma perturbação comparável às que já tinha tantas vezes sentido ao olhar para o retrato de certos defuntos… Vagamente penosa, por pensar que nunca chegaria a penetrar no mistério dos seus olhares mortos, dos seus sorrisos fixos; que nunca saberia nada sobre aquelas vidas suprimidas e regressadas a criminosas trevas. Mas não estaria a ser-me revelado o muito misterioso vestígio de uma alma que ali flutuava ao abandono e na solidão do lugar? A mim, único ser inquieto ali aparecido desde o dia em que a pedra cinzenta, posta por cima dela, a tinha selado para sempre no silêncio do sepulcro? Como poderei exprimir esta sensação, ao mesmo tempo sedutora e dolorosa? Destinada, como tantos pensamentos e


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tantas impressões, a fazer parte do obscuro fundo das nossas almas, e que nenhuma investigação ou razão conseguirá alguma vez penetrar e explicar. Eu suspeitava de que nada haveria parecido, na história daquela Rakhil, com uma aventura banal de homens vulgares; e sentia o ardente, o quase torturante desejo de conhecer a vida da que tinha vindo naufragar naquela cova de sombra e aniquilamento. Sem eu saber dizer porquê, parecia-me que aquela viandante desconhecida tinha vivido uma atormentada existência trágica, muitíssimo mais comovedora e surpreendente na sua amargura do que a de qualquer outro melodrama do mundo; porque era autêntica, porque estava ligada a uma realidade que, sinistra ou tristemente ridícula, seria sempre inexplicável. Tentei em vão dar mil diferentes aspectos a essa Rakhil que me surgia bela e, coisa estranha, com a muito particular beleza de algumas judias do Oriente, marcada por um selo de infinita tristeza… … Comecei, um pouco antes do pôr do sol, a afastar-me dali; e com a alma cheia de sonhos que eu, sem reparar, tinha quase inconscientemente arquitectado, voltei-me para ver uma vez mais a pedra de Rakhil. Passei, por acaso, pela escura, velha e tortuosa rua Caraman, para me dirigir ao bairro de Cartago onde tinha assuntos a tratar. Já a voz forte e sonora de Hassen, o muezzin, com uma ária de melancolia imensa que parecia soltar-se de tudo e planar acima das coisas terrestres salmodiava o azzan do Magh’reb. Passei por um escuro dédalo de ruelas e becos onde vivem os judeus de Anneba, e perto da última curva vislumbrei um cla-


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rão vermelho que transbordava para o pavimento sujo: era o velho Eliezer a pintar uma mesa com a forma arcaica das oito tábuas. O miúdo Ben-Ammi estava sentado no limiar da porta, e com voz baixa cantarolava em árabe. Reconheceu-me e veio alegremente saudar-me com um respeitoso beijo na mão. O velho Eliezer levantou a bela cabeça de patriarca para sorrir com a sua imutável e afectuosa doçura. — Marhaba bik, si Mahmud, Ruh al hanute. Sede bem-vindo e entra na minha loja. Acumulando almofadas e móveis à frente do velho, Ben-Ammi apressou-se a preparar-me um leito. Depois correu o mais que podia, para ir buscar café à casa de Mohammed Ben-Salah. Eu estava, de facto, num lugar judaico repousante e silencioso, onde gostava de divagar e conversar; conversar como no Oriente se conversa, num tom calmo, sem pressa nem paixão… a fumar e a beber café… ou a ouvir as histórias que o velho Eliezer por vezes tão bem contava. Sentia-me neste modesto reduto em minha casa. Quando tinha vontade de dormir a sesta, Eliezer e Ben-Ammi evitavam fazer qualquer ruído que pudesse perturbar-me o sono; se eu pedisse, Ben-Ammi corria para ir dizer a amigos meus que ali viessem para estar comigo, ou fazia com rapidez, discrição, eficiência e precisão os recados de que eu o tivesse encarregado. Havia num canto alguns livros, papel, tinta árabe e calums num tablar preso à parede; e no limiar da sala, à minha espera, folgadas babuchas. A amizade que Eliezer me dedicava era sincera e testemunhava uma grande deferência… Às vezes mostrava-me caracteres


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da língua judaica e ensinava-me a ler na sua velha e amarelecida Tora. … Nessa noite estendi-me no leito preparado por Ben-Ammi, e quando fechei os olhos fui invadido por uma bem-aventurada languidez, uma tranquila indolência de muçulmano que adiava para o dia seguinte o que eu tinha a tratar no bairro de Cartago. — Ya bebá Eliezer, conta-me uma história bonita! Ele sorriu. — O que queres tu que eu conte? Sidria Chelomo1 não disse que «nada de novo existe sob o sol?» Tu, tu és taleb, e de tudo sabes mais do que eu. — Diz-me, ya bebá, quem foi a Rakhil além enterrada no cemitério israelita, onde não tem mais do que o seu nome assinalado? — A Rakhil? O quê! Não conheces a história da Rakhil? Oh! Rakhil! Rakhil! Era uma bent Israel muito bela e muito amada… Já lá vai muito tempo. O meu filho Calah, irmão de Ben-Ammi, ainda era vivo… Sim, deve ter morrido há dez ou doze anos. «Era muito bela e muito amada…» Como poderei explicar que tivesse previsto, sentado acolá no pequeno muro de pedras secas, a contemplar-lhe o túmulo e com a sua desconhecida memória a pesar-me irresistivelmente na alma, que o velho Eliezer dissesse esta frase, boa para servir de epitáfio à bent Israel defunta? Muito bela e no entanto com rosto de cera e rasgados olhos de sombra que punham um selo na sua tristeza imensa… 1

O rei Shlomo HaMelech, autor de vários capítulos da bíblia hebraica. (N. do T.)


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Eu imaginara-a assim, e também assim me surgia enquanto Eliezer contava a sua história complicada e trágica. A meia-noite soava ao longe no relógio de Dar-el-Mel, quando o velho se assustou por não estar a dormir, ter falado de sangue e morte até uma hora tão imprópria; com alguma pressa pôs fim ao relato… Relato estranho, onde a indestrutível alma de Israel se reflectia, alma predestinada e engrandecida por perseguições, ensombrada no mais fundo dos negros e carunchosos casebres dos guetos… Com uma envelhecida, doce e lenta voz de vibrações moduladas que pareciam o murmúrio monótono da água sobre pedras lisas, bebá Eliezer não desconfiou que estivesse a deter-se num bem destacado episódio da luta secular que continuava, sempre a mesma, a travar-se entre os beni Israel e os goims. Impregnou o relato com a mesma ingenuidade tranquila dos contadores bíblicos que relatavam, não só as cínicas velhacarias de um Larbão, as escabrosas aventuras de uma Leia e da sua irmã Raquel, o falso e cauteloso mercantilismo dos filhos de Lot quando venderam a Abraão o terreno funerário de Sara, mas os rasgos sublimes, os incomparáveis lamentos de um Job e da hospitalidade toda oriental de um Lot a caminhar para o sacrifício. Contava as tenebrosas intrigas, os ódios cruéis, o Amor, as paixões que levam a perpetrar crimes e a consumar grandes actos, e fazia-o nesse impassível tom que nos espanta em todos os locais da Bíblia onde as imediatas paixões dos seus autores não intervêm…


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— Quando o Eliezer conta os mexericos de ontem, parece que fala de coisas antediluvianas e nos dá um muito amável curso de história antiga — dizia Aly, um nosso irónico camarada… Com os olhos fechados e uma constante surpresa, eu ia escutando a história desta Rakhil; e pensava que o povo de Israel não é, de facto, igual aos outros nem os seus destinos são iguais aos dos outros povos da terra. Nem melhores nem piores: diferentes.


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Rakhil era uma muito bela e muito amada bent Israel. Não pintava o rosto. E na expressão dos seus rasgados olhos azuis havia uma rara tonalidade nocturna… O pequeno rosto magro de tez pálida e feições finas era sério; e os rasgados olhos azuis pareciam perdidos numa intensamente dolorosa contemplação de felicidades impossíveis. Passara por uma infância de longo martírio, de humilhação contínua, de crescente revolta. E a sua beleza e a sua penetrante e atormentada inteligência iam-lhe aumentando o orgulho já profundamente ferido. Não tinha pensamentos de criança. No fundo de um escuro casebre passava as noites a sonhar; e estes sonhos enchiam-se de triunfos futuros, vinganças e esplendorosos desafios. … Fique pois a saber-se que era grande e entre as benotes Israel a mais bela, com uma beleza a desabrochar em liberdade como uma grande flor triunfante. … E sonhava o encontro com um homem belo, rico e poderoso que a amava; que a tinha desposado e levava para longe daquela cidade odiada por ser testemunha da sua miséria e da sua vergonha. Que iam para longe, para esses países maravilhosos com esplendores que os velhos tolbas, na tranquilidade dos cafés mouriscos, descrevem… Neles andava vestida como as princesas dos contos e eclipsava as outras mulheres… E com estes pensamentos de felicidade, que


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… A sua grande beleza era do género árabe-asiático, sem nada de berbere a perturbar-lhe a máscula harmonia. Uma sombria tristeza atirava porém aos grandes olhos negros e perfeitamente talhados um véu melancólico, em vez dessa resignada e tão serena calma dos verdadeiros crentes. Parou no meio da praça, como que fascinado pela espectacular apoteose de Rakhil. Adivinhara pela roupa e pelas jóias a profissão daquela judia, e a passo decidido se aproximou dela. — Quem és e o que fazes aqui? — perguntou. — Quem sou? Sou a Rakhil, e se não me conheces és estrangeiro ou uma criança que nada sabe de mulheres. — Venho de longe, da França… Não, não te conheço. Esperas alguém? — Não, estou sozinha. Aliás, não espero homens na rua. — Vê como o sol tão amorosamente te acaricia… És bela, mais bela do que qualquer outra mulher que eu tenha até hoje encontrado. És feliz, diz lá, por seres tão bela? — Não, sou triste. — Tens desgostos que te fazem triste? — Não… nenhum desgosto… Não sei… Sou triste e sinto-me aborrecida, nada mais. Surpreendido e encantado com tão estranhas palavras na boca daquela judia, o jovem disse:


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— Mostra-me onde vives. Agradas-me. Rakhil olhou-o demoradamente nos olhos sem lhe responder; e este olhar pesado, ao mesmo tempo impenetrável e penetrante, causou no muçulmano uma profunda perturbação. … Rakhil sentiu de repente a obscura e irracional necessidade de lhe repelir as ofertas e se afastar… fosse embora o mais belo e atraente dos homens que tinha até ali conhecido e sentisse que realmente o desejava. Mas qualquer coisa de estranho e desconhecido subia-lhe ao mesmo tempo desde o coração até à garganta e sufocava-a, sem ela conseguir perceber se era dor ou volúpia; e esta incapacidade de se analisar permitiu que fosse arrastada ao sabor da onda. Começou por querer fugir, por querer voltar as costas a este homem de quem ignorava tudo, até o nome. Mas sentiu que era impossível desviar-se do olhar daquele mouro e que tinha a sensação de estar completamente absorvida por ele. Empalideceu, e para escapar à angustiante sedução do momento voltou-lhe as costas; mas quando começou a andar disse-lhe: — Vem! … Quando entraram no quarto, a judia parou à frente do mouro, pôs-lhe as duas mãos nos ombros e perguntou: — Como te chamas? — Mahmud… — Também estás triste? Compreendi-o de imediato, fica a sabê-lo. Por isso te trouxe até aqui. Outro qualquer seria escorraçado, porque me sinto aborrecida. — Sim, estou triste, muito triste… e por certo mais do que tu. Mas que estranha rapariga és! Não tens o discurso que


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Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, Georges Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A papisa Joana — segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha O meu corpo e eu, René Crevel


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Manon Lescaut, Padre Prévost O duelo, Joseph Conrad A felicidade dos tristes, Luc Dietrich Inferno, August Strindberg Um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille Os ombros da marquesa, Émile Zola O livro branco, Jean Cocteau Verdes moradas, W.H. Hudson A guerra do fogo, J.-H. Rosny Aîné Hamlet-Rei (Luís II da Baviera), Guy de Pourtalès Messalina, Alfred Jarry O capitão Veneno, Pedro Antonio de Alarcón Dona Guidinha do Poço, Manoel de Oliveira Paiva Visão invisível, Jean Cocteau A liberdade ou o amor, Robert Desnos A maçã de Cézanne… e eu, D.H. Lawrence O fogo-fátuo, Drieu la Rochelle Memórias íntimas e confissões de um pecador justificado, James Hogg Histórias aquáticas — O parceiro secreto, A laguna, Mocidade, Joseph Conrad O homem que falou (Un de Baumugnes), Jean Giono O dicionário do diabo, Ambrose Bierce A viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco O caso Kurílov, Irène Némirowsky A costa de Falesá, Robert Louis Stevenson Nova Safo — tragédia estranha, Visconde de Vila-Moura Gaspar da Noite — fantasias à maneira de Rembrandt e Callot, Aloysius Bertrand Rimbaud-Verlaine, o estranho casal O rato da América, Jacques Lanzmann As amantes de Dom João V, Alberto Pimentel Os cavalos de Abdera e mais forças estranhas, Leopoldo Lugones Preceptores – Gabrielle de Bergerac seguido de O discípulo, Henry James O Cântico dos Cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema, Ernest Renan Derborence, Charles Ferdinand Ramuz O farol de amor, Rachilde Diário de um fuzilado, precedido de Palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière A minha vida, Isadora Duncan


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DEPÓSITO LEGAL 000000/18 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA RAINHO & NEVES, LDA. RUA DO SOUTO, 8 4520-612 SÃO JOÃO DE VER PORTUGAL


Isabelle Eberhardt, «Rakhil»  

Rakhil e o seu anjo eréctil. A sensualidade «islâmica» de Isabelle Eberhardt. Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

Isabelle Eberhardt, «Rakhil»  

Rakhil e o seu anjo eréctil. A sensualidade «islâmica» de Isabelle Eberhardt. Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes