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a poio Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Cartoon Xira’2018 13 de abril a 21 julho de 2019 Celeiro da Patriarcal, Vila Franca de Xira www.cm-vfxira.pt

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marlene pohle Ao correr da pena With a stroke of the pen

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marlene pohle Ao correr da pena With a stroke of the pen apresentação presentation

Carlos Brito curadoria e coordenação editorial curatorship and publishing coordination

António Antunes

DOCUMENTA

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Nesta que é a vigésima edição da Cartoon Xira, voltamos a contar com a presença de uma artista internacional, numa exposição que se apresenta em paralelo com os Cartoons do Ano, e que tem este ano características muito especiais. Em 2018, lançámos o desafio à cartoonista argentina Marlene Pohle para que marcasse presença em Vila Franca de Xira em julho, nas Festas do Colete Encarnado, fazendo desenho ao vivo das pessoas e dos momentos mais marcantes e carismáticos desta Festa. A exposição Ao Correr da Pena é o resultado dessa presença e do trabalho realizado nesses dias, em que esta talentosa artista colocou nos seus cartoons as personagens e os sítios mais emblemáticos da nossa cidade. Esta é assim uma exposição inédita, que transpõe para a Cartoon Xira o registo único do olhar de Marlene Pohle sobre Vila Franca de Xira, naquele que é o momento do ano em que as nossas tradições são vividas da forma mais vibrante. As esperas de toiros e outros momentos do Colete Encarnado, mas também o Bairro dos Avieiros, as Tertúlias, o Jardim Municipal, a Praça de Toiros, Museus e Mercado Municipal, são alguns dos temas presentes em 100 cartoons que, depois desta exposição, serão generosamente oferecidos pela cartoonista ao nosso Município. Nascida em Buenos Aires em 1939 e residente na Alemanha desde 1989, Marlene Pohle tem uma longa e prestigiada carreira, desenvolvendo o seu trabalho na área do cartoon, caricatura e ilustração, em desenhos sempre marcados pelo humor e por um apuradíssimo sentido de observação. Vila Franca de Xira está muito honrada com a presença de Marlene Pohle na Cartoon Xira, numa exposição que contribui da melhor forma para a celebração dos 20 anos de existência deste importante evento cultural do nosso Concelho e também do nosso País. A Cartoon Xira continua assim a promover o desenho humorístico num plano nacional e internacional, projeto que, sem dúvida, queremos continuar a desenvolver, valorizando a Criatividade, a Liberdade de Pensamento e a Liberdade de Expressão.

In this twentieth edition of Cartoon Xira, we are once again delighted to welcome an international artist in an exhibition that is presented in parallel with Cartoons do Ano (Cartoons of the Year), and which has very special features this year. In 2018, we challenged Argentine cartoonist Marlene Pohle to visit Vila Franca de Xira in July, for the Colete Encarnado (Red Vest) Festival, drawing people live as well as the most striking and charismatic moments of this Festival. The exhibition Ao Correr da Pena (With a stroke of the pen) is the result of that visit and of the work carried out during those days, in which this talented artist populated her cartoons with the most iconic sites and people of our town. This is an unprecedented exhibition that transposes into Cartoon Xira the unique record of Marlene Pohle’s view of Vila Franca de Xira, at a time of the year when our traditions are lived out in the most vibrant way. The esperas de toiros (street release of bulls) and other moments of the Colete Encarnado Festival, but also the Avieiros (Riverside Fishermen Community) Quarter, the tertúlias (bullfighters social gatherings), the Municipal Garden, the Bullring, Museums and Municipal Market, are some of the themes portrayed in 100 cartoons that, after this exhibition, will kindly be offered by the cartoonist to our Municipality. Born in Buenos Aires in 1939 and living in Germany since 1989, Marlene Pohle has a long and prestigious career, developing her cartoon, caricature and illustration work in drawings always marked by humour and a very sharp sense of observation. Vila Franca de Xira is very honoured to welcome Marlene Pohle at Cartoon Xira, in an exhibition that contributes in the best way to the celebration of the 20 years of existence of this important cultural event of our Municipality and also of our Country. Cartoon Xira therefore continues to promote cartoons on a national and international scale, a project we undoubtedly want to continue to develop, valuing Creativity, Freedom of Thought and Freedom of Expression.

Alberto Mesquita

Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Mayor of Vila Franca de Xira

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Nota biográfica Biography

1939: Nascimento em Lomas de Zamora, Buenos Aires, Argentina 1957: Conclusão dos estudos de professora, com consequente emprego na Escola Alemã de Quilmes, Província de Buenos Aires. 1961-63: Bolseira da DAAD (Deutscher Akademischer Austauschdienst [Serviço Alemão de Intercâmbio Académico]) para aperfeiçoamento pedagógico e linguístico, em Koblenz e Heidelberg, Alemanha. Cursos de desenho na Academia de Artes de Mannheim. 1963: Regresso à Argentina, com residência em Córdoba. Visita ateliers de vários pintores argentinos. 1965: Casamento. Prossecução com a pintura, desenhos e aprendizagem de francês. 1974-80: Permanecimento em Mar del Plata, com cursos intensivos de pintura e desenho no Taller de Artistas Plásticos (Atelier de Artistas Plásticos). Primeiras exposições. 1982: Publicações na revista Hortensia, Córdoba. Participação em concursos de humor gráfico: Salão de Knokke-Heist, na Bélgica, outros em Montevideu, no Uruguai e em Buenos Aires, Rosário e Córdoba, na Argentina. 1987: Divórcio. Emprego como professora na Escola Alemã de Córdoba, com cursos no Instituto Goethe e outros. 1988: Ilustrações para um livro de histórias para escola pré-primária, de Gunther Schneider. 1989: Ilustrações para vários livros de ensino da língua alemã, editoras Verlag für Deutsch, Gilde e outras, na Alemanha. 1989: Mudança para a Alemanha, com fixação de residência em Estugarda. • Banda desenhada e ilustrações para livros de várias editoras: Diesterweg, Ernst Klett, Didier, Langenscheidt, Oldenburg, Wissenmedia, Cornelsen, etc. • Simultaneamente, participação em concursos internacionais de humor gráfico, com prémios em: Fene, Foligno, Deventer, Eindhoven, Saint-Just-le-Martel, Jonzac, Teerão, Vianden.

1939: Born in Lomas de Zamora, Buenos Aires, Argentina 1957: Completed her studies as a national school teacher and was consequently employed at the German School of Quilmes, Province of Buenos Aires. 1961-63: DAAD Scholarship (Deutscher Akademischer Austauschdienst [German Academic Exchange Service]) to improve her teaching and language skills, in Koblenz and Heidelberg, Germany. Drawing courses at the Mannheim Academy of Arts. 1963: Returned to Argentina, with residence in Córdoba. Visited the studios of various Argentine painters. 1965: Married. Continued to paint, draw and learn French. 1974-80: Settled at Mar del Plata, with intensive painting and drawing courses at Taller de Artistas Plásticos (Visual Artists Workshop). First exhibitions. 1982: Publications in the Hortensia magazine, Córdoba. Participated in cartoon competitions: Knokke-Heist Cartoon Festival in Belgium, others in Montevideo, Uruguay and in Buenos Aires, Rosário and Córdoba, Argentina. 1987: Divorced. Employed as a teacher at the German School of Córdoba, lecturing courses at the Goethe Institute and others. 1988: Illustrations for a Kindergarten storybook, by Gunther Schneider. 1989: Illustrations for various German textbooks, Verlag für Deutsch, Gilde, and other publishers, in Germany. 1989: Moved to Germany, with residence in Stuttgart. • Comics and illustrations for books of various publishers: Diesterweg, Ernst Klett, Didier, Langenscheidt, Oldenburg, Wissenmedia, Cornelsen, etc. • Simultaneously, she participated in international cartoon competitions, with awards at: Fene, Foligno, Deventer, Eindhoven, Saint-Just-le-Martel, Jonzac, Tehran, Vianden. • Solo and group exhibitions in cartoon showrooms in Argentina, Germany, France, Ibiza, Portugal, Turkey, Greece, Brazil, etc.

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• Exposições individuais e coletivas em salões de humor na Argentina, Alemanha, França, Ibiza, Portugal, Turquia, Grécia, Brasil, etc. • Jurada em concursos internacionais de humor, incluindo a Bienal de Havana, Aydin Dogan, em Istambul, Akademie der Kommunikation (Academia da Comunicação) e Stuttgart Award, em Estugarda, World Press Cartoon, em Portugal, Greekartoon, em Atenas, Eurohumor, em Itália, Bergen op Zoom, na Holanda, Niels Bugge Cartoon Award, na Dinamarca, etc. • Colóquios, workshops e ateliers sobre humor gráfico internacional em França, Alemanha, Turquia, Estados Unidos da América, Israel, China e Argentina. • Publicações em vários meios de comunicação europeus, nomeadamente na revista suíça Nebelspalter. 1997: Fundação e presidência do grupo FECO Alemanha (Federação de Organizações de Cartoonistas). 2005-09: Presidente geral da FECO. Desde 2009: Vice-presidente geral da FECO.

• Jury member in international cartoon competitions, including Havana Biennial, Aydin Dogan, Istanbul, Akademie der Kommunikation (Communication Academy) and Stuttgart Award, Stuttgart, World Press Cartoon, Portugal, Greekartoon, Athens, Eurohumor, Italy, Bergen op Zoom, Holland, Niels Bugge Cartoon Award, Denmark, etc. • International cartoon conferences and workshops in France, Germany, Turkey, United States of America, Israel, China and Argentina. • Publications in various European media, especially the Swiss magazine Nebelspalter. 1997: Founder and president of the FECO Germany group (Federation of Cartoonists Organizations). 2005-09: General president of FECO. Since 2009: General vice president of FECO.

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A título de prólogo By way of prologue

Uma vez, fui avaliada com grande humanidade numa reportagem, onde se acrescentava, felizmente, que apresento através do meu trabalho um mundo cheio de contradições e não isento de humor. É precisamente isso que vejo que me acompanha ao longo da vida, as infinitas contradições do ser humano, às quais tentamos desesperadamente dar um toque de humor. Caricaturas, sobretudo de pessoas anónimas e que não sabem que ando pelo mundo com um bloco de notas e um lápis, é o que mais gosto de fazer. Gosto das pessoas nos cafés ou num banco de praça ou daquelas que se deitam na praia, das que estão à espera de um voo atrasado e das que só se concentram nas suas mensagens eletrónicas. Em Vila Franca de Xira gostei das mulheres com penteados de cabeleireiro a comer caracóis, ou das pessoas que se enchiam de fumo a assar sardinhas. Gostei da postura de um toureiro e das pessoas que saltaram a cerca quando o touro se aproximou. Quando tinha três ou quatro anos de idade eu já desenhava o meu ambiente, isto é, a minha casa em Temperley, um subúrbio de Buenos Aires onde passei a minha infância e adolescência, os meus pais e o cão, o comboio que nos levava até à grande cidade e através de cujas janelas surgiam os rostos dos prováveis passageiros. As pessoas são o que me interessa, o ser humano, que às vezes se considera importante, mas que não para de cair em situações ridículas. Eu gosto da ironia de uma possível situação num conjunto de pessoas sérias, que também podem parecer omnipotentes ou politicamente corretas. Quando finalmente decidi que do que eu mais gostava era de humor gráfico, tive a sorte de fazer parte de um grupo de cartoonistas com um humor fino e mordaz, divertido e contundente, como a maioria das pessoas na cidade argentina de Córdoba. O meio de publicação era a revista Hortensia, muito famosa na Argentina nos anos oitenta.

I was once very humanely described in an interview and they fortunately added that, with my work, I show a world full of contradictions and not without humour. This is precisely what I see that has accompanied me throughout life, the infinite contradictions of the human being, to which we desperately try to give a touch of humour. Caricatures, especially of anonymous people and who do not know that I travel around the world with a notebook and a pencil, is what I like to do most. I like people in cafes or on a bench in a square, or those who lie on the beach, those who are waiting for a late flight and those who only concentrate on their electronic messages. In Vila Franca de Xira, I liked the women who ate snails looking as if they had just stepped out of the hairdresser, or those who were covered in smoke while grilling sardines. I liked the posture of a bullfighter and the people who jumped the fence when the bull approached. When I was three or four years old, I was already drawing my surroundings, that is, my house in Temperley, a suburb of Buenos Aires where I spent my childhood and adolescence, my parents and the dog, the train that took us to the big city and the faces of probable passengers that appeared through its windows. People are what interests me, human beings who sometimes think highly of themselves but who keep ending up in ridiculous situations. I like the irony of a possible situation in a group of serious people, who may also seem almighty or politically correct. When I finally decided that what I liked doing the most was cartoons, I was lucky enough to join a group of cartoonists with a funny, sharp, witty and wry sense of humour, like most people in the Argentine city of Córdoba have. The publishing medium was the magazine Hortensia, very renowned in Argentina in the 1980s. Then fate took me to Germany, my father’s homeland and a bit mine too because of the customs and language. Here, in the city of Stuttgart, I lived and worked as an illustrator for several publishers for 23 years, which were

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Então, o destino levou-me para a Alemanha, terra do meu pai e também um pouco minha, devido aos costumes e à língua. Aqui, na cidade de Estugarda, vivi e trabalhei como ilustradora para várias editoras durante 23 anos, que foram extremamente intensos e muito gratificantes para o meu bem-estar pessoal, para o meu espírito crítico e para os meus lápis e pincéis. Graças a uma participação ativa em concursos de humor gráfico, a visitas a salões de humor e exposições, e graças também a coincidências fortuitas e a amizades incondicionais, consegui mergulhar totalmente no mundo do cartoon, viajar pelo mundo, participando como jurada, como expositora ou simplesmente como convidada. A minha passagem pela FECO (Federação de Organizações de Cartoonistas) também me abriu muitas oportunidades, nomeadamente a de tentar construir pontes de confraternização entre nações e continentes. Sempre em nome do humor gráfico. Não pelas saudades daquele comboio em que deixei de andar, nem da Hortensia que deixou de existir, mas porque em algum momento das nossas vidas queremos voltar a ver as árvores da nossa infância, em 2015 resolvi regressar à Argentina. Continuo a visitar os cafés, lá e em todo o mundo, para captar o seriamente ridículo ou o ridiculamente sério de muitos indivíduos que andam por aí.

very intense and very rewarding for my personal well-being, for my critical spirit and for my pencils and brushes. By participating actively in cartoon competitions, visiting cartoon showrooms and exhibitions, and also thanks to fortuitous coincidences and to having forged unconditional friendships, I was able to enter fully into the world of cartoons, as well as travel the world, participating as a jury member, as an exhibitor or simply as a guest. My time with FECO (the Federation of Cartoonists Organizations) also opened many opportunities for me, especially in the attempt to build bridges of fellowship between nations and continents. Always in the name of cartoons. It is not because of nostalgia for that train that I no longer use, nor for the Hortensia magazine, which ceased to exist, but because at some point in our lives we want to see the trees of our childhood again, I decided to return to Argentina in 2015. I continue to visit the cafes, there and all over the world, to grasp the seriously ridiculous or ridiculously serious side of all the individuals out there.

Marlene Pohle

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Prefácio Preface

Quando Marlene Pohle olha à volta, desenha quem vê. Desenha quem dança um tango no Barrio la Boca, em Buenos Aires, ou quem canta um fado numa taverna do Bairro Alto, em Lisboa; quem toma um café no terraço do Flore, em Saint-Germain-des-Près, em Paris, ou quem se senta num banco da Ribeira mirando-se nas águas do Douro, no Porto; quem bebe um copo de vinho tinto num bar do Bairro Plaka, em Atenas, ou quem espera solitário um avião, não se sabe para onde, no aeroporto de Berlim; quem bebe um mojito na Bodeguita del Medio, em Havana, ou quem fuma um cigarro numa rua de Istambul; quem não faz nada num jardim em Viborg, na Dinamarca, ou quem discute coisas e loisas algures num sítio escondido em Ibiza, longe do tumulto turístico. Marlene olha e vê. Olha, vê e desenha. Desenha em poucos traços este nosso mundo em constante movimento. Arranca do mais profundo de cada um de nós aquilo de que muitos não se apercebem, talvez porque demasiado apressados pelas coisas duma vida mal vivida. E Marlene fá-lo tranquilamente, com uma acuidade e elegância raras, graças à sua profunda humanidade e à magia do seu traço aparentemente simples mas duma grande riqueza gráfica que resulta dum talento imenso e de milhares de desenhos feitos ao longo dos anos. A forma como Marlene Pohle capta as pessoas que caricatura, mulheres e homens no seu dia a dia, é duma simplicidade extrema e plena de empatia. O olhar dela nunca incomoda, bem pelo contrário, ele facilita o contacto e faz sorrir e conversar quem é desenhado, mesmo se desgraciosamente caricaturado. Marlene, ao mostrar quem somos, escondidos que estamos por trás da nossa aparência de animais sociais, pretensamente muito civilizados, põe a nu a complexidade interior que nos habita e reinventa-nos desta forma talvez um pouco mais humanos, mais iguais e mais diferentes, mais próximos uns dos outros seja qual for o lugar do planeta onde estivermos ou donde viermos. E tudo isso seguindo apenas o traço que a pena deixa ao viajar pelas folhas de papel que sempre a acompanham por esse mundo fora.

When Marlene Pohle looks around, she draws whoever she sees. She draws people dancing a tango in Barrio la Boca in Buenos Aires, or singing a fado in a Bairro Alto tavern in Lisbon; people drinking a coffee on the terrace of the Flore in Saint-Germain-des-Près in Paris, or sitting on a bench along the Ribeira looking at the water of the river Douro in Porto; people drinking a glass of red wine in a bar in the Plaka district in Athens, or waiting alone for a plane to an unknown destination, at Berlin airport; people drinking a mojito in Bodeguita del Medio in Havana, or smoking a cigarette in a street in Istanbul; people wandering about in a garden in Viborg in Denmark, or discussing this and that somewhere in a hidden place in Ibiza, far from the tourist turmoil. Marlene looks and sees. She looks, sees and draws. In just a few strokes, she draws this world of ours in constant movement. She plucks from the depths of each one of us what many do not even notice, perhaps because they are too rushed by the things of a poorly lived life. And Marlene does it quietly, with a rare acuity and elegance, thanks to her deep humanity and the magic of her seemingly simple trace but of a great graphic wealth, that stems from her enormous talent and from thousands of drawings made over the years. The way Marlene Pohle captures the people who she represents in caricature, men and women in their daily lives, is of extreme simplicity and full of empathy. Her look never bothers, quite the contrary, it eases contact and makes those she draws smile and talk, even if ungraciously caricatured. Marlene, by showing who we are, hidden behind our appearance of social animals, allegedly very civilized, exposes the inner complexity that inhabits us and reinvents us in this way, perhaps a little more human, more equal and more different, more next to each other wherever we are on the planet or wherever we come from. And all this by simply following the line that the pen leaves as it travels through the sheets of paper that always accompany her around the world.

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Acontece que Marlene Pohle foi convidada pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, segundo uma ideia de António Antunes, a focar o seu olhar para as gentes desta cidade durante a Festa do Colete Encarnado e a transformar, evidentemente, esse seu olhar em desenhos. O que ela fez passeando airosa pelas ruas da cidade, ora partilhando umas sardinhas assadas à beira do passeio, ora tomando um copo aqui ou ali, sentando-se para descansar ou melhor captar o desfilar da diversidade humana que constitui a riqueza principal desta terra. E foi assim que Marlene foi descobrindo e transpondo para o papel os homens e mulheres de Vila Franca, as ruas da cidade e as esperas e largadas de touros encaminhados pela mão de mestre dos campinos ou desencaminhados pelo agitar frenético das correrias que galvanizam toda a população local. Esta sarabanda encharcada de sol e lenços vermelhos cobertos de suor entrechoca-se nas paredes brancas ou cobertas de azulejos e segue livre pelas ruas até chegar ao papel onde Marlene a recolhe e lhe dá a forma que o seu olhar escolheu. E vem o tempo de Marlene enfrentar o touro e de retratar os verdadeiros heróis da festa, os campinos ribatejanos. Antítese flagrante dos vaqueiros de pistola à cintura inventados nas fábricas de sonhos de Hollywood para contar a falsa lenda dum país quase sem história, os campinos vindos da lezíria de pampilho em riste cavalgam conduzindo a manada até à cidade. Traje fora do tempo, ornado com as cores nacionais, o campino ribatejano, mestre na sua muito difícil arte, faz-se assim traço de união entre o campo e a cidade quando conduz o touro ao confronto físico com o citadino. Por vezes de forma trágica. Mas a linguagem gráfica de Marlene, muito raramente comporta tragédia e sempre espreita aqui e ali nos seus desenhos um pequeno sorriso que pinta de azul o eventual desvario que a realidade das coisas impõe, pois que fazendo parte intrínseca da condição humana. Mulher e artista, mais humanista que Marlene é difícil de encontrar, pois a pena é a sua única arma contra as penas deste mundo.

So Marlene Pohle was invited by the Town Hall of Vila Franca de Xira, based on an idea by António Antunes, to focus her eyes on the people of this town during the Colete Encarnado Festival and, obviously, to transform her sight into drawings. She did this wandering gracefully through the town’s streets, sometimes sharing some grilled sardines on the edge of the sidewalk, or having a drink here or there, sitting down to rest or to get a better view of the parade of human diversity that constitutes the main wealth of this town. And that was how Marlene discovered and transposed onto paper the men and women of Vila Franca, the town’s streets and the street release of bulls guided by the masterful hand of the campinos (herdsmen) or misled by the frantic hustle of all the running that galvanizes the entire local population. This sun-drenched sarabande of sweaty red scarves clashes with the white or tiled walls and runs unleashed through the streets until it reaches the paper where Marlene grasps it and gives it the shape chosen by her eyes. And it is time for Marlene to face the bull and to portray the true heroes of the festival, the campinos, herdsmen of the Ribatejo region. The blatant antithesis of the gun-to-the-waist cowboys invented in the Hollywood dream factories to tell the false myth of a country with almost no history, the campinos riding on horseback from the marsh with their prods up in the air drive the herd to town. With his timeless attire, adorned with national colours, the Ribatejo campino, a master in his very difficult art, is thus a link between the countryside and the city when he leads the bull to the physical (sometimes tragic) confrontation with the city. But Marlene’s graphic language very rarely ends in tragedy and a little smile that paints in blue the possible derangement that the reality of things imposes as an intrinsic part of the human condition always lurks here and there in her drawings. A more humanistic woman and artist than Marlene is difficult to find, for the pen is her only weapon against the sorrows of this world.

Carlos Brito

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Ao correr da pena With a stroke of the pen

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Índice Table

Introdução | Introduction, Alberto Mesquita . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Nota biográfica | Biography . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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A título de prólogo | By way of prologue, Marlene Pohle. . . . . . . . .

11

Prefácio | Preface, Carlos Brito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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AO CORRER DA PENA | WITH A STROKE OF THE PEN . . .

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© Sistema Solar, CRL (Documenta) Rua Passos Manuel, 67 B, 1150-258 Lisboa Desenhos © Marlene Pohle (2019) 1.ª edição, abril de 2019 ISBN 978-989-8902-69-6 Capa: António Antunes Revisão: Helena Roldão Depósito legal 453948/19 Este livro foi impresso na Gráfica Maiadouro, SA Rua Padre Luís Campos, 586 e 686 – Vermoim 4471-909 Maia Portugal

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Profile for Sistema Solar - Documenta

«Marlene Pohle – Ao correr da pena»  

Marlene Pohle: «Em Vila Franca de Xira gostei das mulheres com penteados de cabeleireiro a comer caracóis, ou das pessoas que se enchiam de...

«Marlene Pohle – Ao correr da pena»  

Marlene Pohle: «Em Vila Franca de Xira gostei das mulheres com penteados de cabeleireiro a comer caracóis, ou das pessoas que se enchiam de...