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Antonin Artaud, «Eu, Antonin Artaud»

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CĂŠu astrolĂłgico de Antonin Artaud


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E U , A N TO N I N A RTAU D tradução, selecção e apresentação

Aníbal Fernandes


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© SISTEMA SOLAR, CRL (2018) RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA PORTUGAL tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: ANTONIN ARTAUD, AUTO-RETRATO, 1947 REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE 1.ª EDIÇÃO, SETEMBRO DE 2018 ISBN 978-989-8833-32-7

DEPÓSITO LEGAL 445305/18 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO EM ULZAMA GRÁFICAS ESPANHA


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índice

Apresentação Um rosto como este… . . . . . . . . . . . .

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ANTES DE RODEZ Em 1933, Antonin Artaud… . . . . . . . . . . . . . . O Teatro e a Peste . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Em 1781, o italiano Seraffino… . . . . . . . . . . . O Teatro de Séraphin . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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EM RODEZ Em 23 de Julho de 1937… . . . . . . . . . . . . . . . O Surrealismo e o Fim da Era Cristã . . . . . . . . [A Vida e o Ópio] (carta a Henri Parisot) . . . . O período de Rodez… . . . . . . . . . . . . . . . . . . . [As «Quimeras» de Ner val] (carta a Georges le Breton) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . DEPOIS DE RODEZ Em 23 de Maio de 1946… . . . . . . . . . . . . . . . Alienação e Magia Negra . . . . . . . . . . . . . . . . Quando Antonin Artaud saiu de Rodez… . . . . . Carta a Peter Watson . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Em Janeiro de 1947… . . . . . . . . . . . . . . . . . . Carta a André Breton . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Índice

De 4 a 20 de Julho de 1947… . . . . . . . . . . . . . [O Rosto Humano] . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O Teatro e a Ciência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Na obra escrita de Artaud… . . . . . . . . . . . . . . [O Homem-Ár vore] (carta a Pierre Loeb) . . . . [Os Seres…] . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Post-Scriptum . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Eu, Antonin Artaud, só quero escrever quando já não tiver mais nada para pensar. — Como alguém que comesse o ventre, os ventos do seu ventre por dentro. (Carta a Peter Watson)


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Um rosto como este,

belo de uma rebeliĂŁo desconhecida, que demorava olhares antes de os deixar surpreender-se com o corpo


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magro e vestido por elegâncias fora de moda, com mãos longas que a todo o instante se erguiam para domar a cabeleira solta por aplicada negligência, depois de vinte anos a traduzir sobre si próprio descomunais angústias construiu a máscara sulcada, o espelho de uma insuportável tensão, este,

que lhe reflecte o mau destino de um suicidado da sociedade. Antonin Artaud nomeia incansavelmente estas vítimas que iniciados obscuros e as suas forças difundidas no mundo arrastam


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ao suicídio ou a mortes assombradas por contornos mal esclarecidos, impedindo-as de proferir verdades insuportáveis. Lembra-se de Villon, de Gérard de Nerval, de Nietzsche, de Edgar Poe, de Lautréamont, de Van Gogh e também — um pouco mais estranho pareça — de Lenine. Todos se dispunham a abalar certezas basilares na sociedade instituída, possuidores de uma consciência sublevada, marcada para execução pelos cúmplices de uma mesma sujidade social. Também ele sublevado de consciência, sente que as possibilidades da escrita terminam antes de exprimir o mais forte e inteligível grito da sua revolta. Afirma que as palavras, mesmo as palavras em poema, já não amotinam; que foi ele quem melhor sentiu a desordem entorpecente da sua língua, nas suas relações com o pensamento. Com este incómodo na ponta da caneta, escreveu; mostrou-se implacável num limbo da literatura que percorre as duas faces de um espelho, inteligível na fronteira em lâmina que ainda o separa de uma outra realidade que nos é estranha, obscuro e turbado quando nos invectiva desde esse lado-de-lá que só a ele pertence. Este percurso dotou-o de uma lucidez a pouco e pouco hostil aos comportamentos da outra, domada e aferida pelas «normalidades»; expulsou-o do molde tranquilizador e fê-lo naufragar em instituições que corrigem ou calam estes desvios. Gritou então uma revolta imensa, não tanto por estar recluso mas sofrer a magia científica dos electrochoques que o restituíam, adormentado, ao campo de batalha onde lhe era necessário viver na maior força da sua indignação. Todos os seus escritos, durante e depois de Rodez (lugar do asilo que durante mais tempo o fechou ao mundo), são variantes desta única e central afirmação.


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Em 1946, um grupo de intelectuais conseguiu que ele deixasse de estar internado; que uma liberdade «vigiada» lhe restituísse Paris e uma nova oportunidade de reconhecimento público. Antonin Artaud foi reconhecido como digno de Obras Completas na grande editora Gallimard. Mas continuava um ser de radicais diferenças. Ele próprio se não considerava nascido; tinha explodido no mundo, e só a farsa orgânica de um parto lhe dera a mulher-mãe e uma naturalidade ligada a Marselha; não ia morrer, desapareceria numa realidade incompreensível aos homens de falso corpo que povoam a terra. Dois anos depois, em 4 de Março de 1948, o jardineiro da casa de saúde onde ele vivia encontrou-o morto, sentado ao lado da cama, dir-se-á que por ter ingerido uma dose excessiva de hidrato de cloral. Tinha deixado uma última anotação escrita num caderno: continuarem a fazer de mim este enfeitiçado eterno, etc., etc. Tem uma posteridade emocionada e inspiradora de «frases». Jean-Louis Barrault, por exemplo, chamou-lhe «uma criança incendiada por si própria», George Bataille «um rapace encolhido, com plumagem poeirenta, contraído no momento de levantar voo mas paralisado nessa posição», André Breton achou que «arrastava com ele uma paisagem de romance negro, toda trespassada por relâmpagos». Este seu físico saído do belo e transformado numa inesquecível estranheza visual, fez-se centro escolhido para a memória daqueles que o conheceram. Mas a sua obra? A sua obra parece refrear as mais conhecidas desenvolturas críticas. Uma vez, numa entrevista conduzida por Maurice Nadeau, houve este bom-senso de Roland Barthes: «A escrita de Artaud está situada a um


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tal nível de incandescência, de incêndio e de transgressão, que não há, no fundo, nada a dizer sobre Artaud. Não há livro a escrever sobre Artaud. Não há crítica a fazer sobre Artaud. A única solução seria escrever como ele e entrar no plagiato de Artaud.»


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AN TES DE RO DEZ


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Em 1933, Antonin Artaud tinha trinta e sete anos de idade e vivia há treze em Paris — depois de sofrer uma Marselha onde mal cabia com o seu abismo; abismo completo, como avisava num texto a quem lhe não reconhecia a aventura de espírito iluminada por um incêndio visionário. Já tinha entrado e saído do Movimento Surrealista, amado e desamado Génica Athanasiou, publicado Tric Trac du Ciel, L’Ombilic des Limbes, Le Pèse-Nerfs, L’Art et la Mort, aparecido como actor em peças de teatro e em dezasseis filmes (tinha sido o Judeu Errante no filme de Luitz Morat, Marat no Napoléon de Gance, o monge Massieu en La Passion de Jeanne d’Arc de Dreyer, mendigo em L’Opera de Quatre Sous de Pabst…), e perante um grupo de intelectuais da capital construía a imagem de uma personalidade «diferente», aquela que o colava a um «estatuto excêntrico», como notou Phillipe Sollers, e dir-se-ia que a combater constantemente «a mentira da razão». É, pois, natural que outra personagem singular, ela própria estudiosa de singularidades — o Dr. René Allendy (homem grande e barbudo, com ar de camponês russo, psiquiatra interessado por homeopatia e astrologia, fundador da Sociedade Francesa de Psicanálise) ficasse fascinado por este poeta que uma extralúcida visão de mundo atormentava. E também é natural, tendo como projecto umas


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quantas conferências na Sorbonne sob o signo de Ideias Novas, que o convidasse para conferencista. Em 6 de Abril desse mesmo ano, Artaud propôs-se ao público com um estranho título: «O Teatro e a Peste». A descrição pormenorizada da peste e dos seus efeitos no comportamento colectivo dos homens encontrava analogias com o teatro. Se o teatro duplica a vida, também a vida duplica o verdadeiro teatro, argumentava o autor. No palco reconstitui-se a conjunção do pensamento, do gesto e do acto num acto mágico que aspira a mostrar-se transfigurado. O texto dito, vociferado e mimado até ao grotesco por Artaud, constituiu um largo momento de estupefacção. Anos mais tarde, numa carta escrita em Rodez, ele próprio confessou que era poeta ou actor, não para escrever ou declamar poesias mas vivê-las; que ao recitar um poema não queria ser aplaudido mas sentir os corpos dos homens e das mulheres tremerem e viverem em uníssono com o dele. O título da conferência e o próprio conferencista (nessa altura ainda não marcado por comportamentos públicos imprevisíveis), não prenunciavam o espectáculo que ali, na solene Sorbonne, estava prestes a iniciar-se. Anaïs Nin ocupava um lugar no meio daquela assistência ofendida por uma provocação, e o seu Diário dá-nos um relato dessa sessão memorável: «Uma sala da Sorbonne. «Allendy e Artaud sentados atrás de uma grande secretária. Allendy apresentou Artaud. A sala estava apinhada. O quadro negro era um estranho pano de fundo. Gente de todas as idades. O público das conferências de Allendy sobre as Ideias Novas. «Havia uma luz crua. Que mergulhava na escuridão os olhos cavados de Artaud. E acentuava ainda mais a intensidade dos


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seus gestos. Parecia atormentado. Com o cabelo muito comprido, que às vezes caía para a testa. Tinha os gestos flexíveis e vivos do comediante. Um rosto magro, como se uma febre o devastasse. Um olhar que não parecia ver o público. Era um olhar de visionário. As mãos esguias, com dedos esguios. «Ao pé dele, Allendy tinha um ar prosaico, pesado e baço. Sentado atrás da secretária, maciço, concentrado. Artaud subiu para o estrado e começou a falar: “O Teatro e a Peste”. «Tinha-me pedido para estar na primeira fila. Julguei que só pretendesse intensidade, uma forma mais alta de sentir e viver. Teria querido lembrar-nos que os dias da Peste tinham trazido à luz um grande número de maravilhosas obras de arte e peças de teatro porque o homem, chicoteado pelo medo e pela morte, procura a imortalidade, a evasão, tenta ultrapassar-se? Mas Artaud, de uma forma quase imperceptível, largou então o fio que seguíamos e começou a interpretar o papel de um homem a morrer de peste. Ninguém viu em que momento começou a fazê-lo. Para ilustrar a conferência, representava uma agonia. La peste, em francês, é mais terrível palavra do que the plague em inglês. Mas não há palavras para descrever o que Artaud interpretava no estrado da Sorbonne. Esquecia a conferência, o teatro, as suas ideias, o doutor Allendy ao seu lado, o público, os jovens estudantes, a sua mulher1, os professores e os encenadores de teatro. «Tinha o rosto em convulsões de angústia e os cabelos ensopados em suor. Os olhos dilatavam-se, enrijava os músculos, os dedos lutavam para conservar a flexibilidade. Fazia-nos sentir a secura 1 Uma maneira de dizer. Trata-se da actriz Génica Athanasiou, uma «vítima» de Artaud, nessa altura a meio de uma ligação tumultuosa e «quase» branca.


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e o ardor da sua garganta, o sofrimento, a febre, o fogo das suas entranhas. Estava em tortura. Berrava. Delirava. Representava a sua própria morte, a sua própria crucificação. «As pessoas começaram por ficar de respiração cortada. Depois desataram a rir. Toda a gente ria! Assobiava. Por fim, as pessoas foram saindo uma a uma, com um grande ruído, a falar, a protestar. Ao saírem, batiam com a porta. Os únicos que não se mexeram foram Allendy, a sua mulher, os Lalou, Marguerite1. Mais protestos. E vaias também. Mas Artaud continuava, até ao último suspiro. E lá ficou no chão. Depois, quando a sala se esvaziou e só restava um pequeno grupo de amigos, veio direito a mim e beijou-me a mão. Pediu-me para ir com ele a um café. «Os outros tinham todos qualquer coisa para fazer. Separámo-nos à porta da Sorbonne. Artaud e eu saímos debaixo de uma chuva fina. Andámos, andámos ao longo das ruas escuras. Ele ficara ferido, duramente atingido e desconcertado com as vaias. Espumava de cólera: “Só querem ouvir falar de; querem ouvir uma conferência objectiva sobre o teatro e a peste, ao passo que eu quero oferecer-lhes a própria experiência, a própria peste, para ficarem aterrorizados e acordarem. Quero acordá-los. Não compreendem que estão mortos. A sua morte é total, como uma surdez, uma cegueira. Mostrei-lhes a agonia. A minha, sim, e a de todos os que vivem.” «A chuva caía-lhe no rosto, ele afastava o cabelo da testa. Tinha um ar tenso, obcecado, mas depois começou a falar calmamente. Parámos em La Coupole. Esqueceu a conferência. “Nunca 1 Marguerite S., a mulher de René Lalou, que ajudou Anaïs Nin a preparar o texto definitivo do seu Diário.


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encontrei ninguém que sinta como eu. Há quinze anos que me drogo com ópio. Deram-mo a primeira vez, ainda eu era muito novo, para acalmar as dores terríveis que tinha na cabeça. Por vezes sinto que não escrevo, que descrevo os esforços para escrever, os esforços para nascer.” «Recitou-me poemas. Falou-me da forma, do teatro, do seu trabalho. «“Os seus olhos, Anaïs, são verdes, às vezes roxos.” «Recuperou a calma e a brandura. Continuámos a passear debaixo de chuva. «Para ele, morrer de peste não era mais terrível do que morrer de mediocridade, de espírito mercantil, da corrupção que nos rodeia. Queria que as pessoas tomassem consciência de que estavam a morrer. Metê-las à força num estado poético. «“A hostilidade deles só prova que os perturbou” — disse eu. «Mas que choque, ver um poeta sensível perante um público hostil. Que brutalidade, que fealdade nesse público!» * O texto da conferência «O Teatro e a Peste» foi publicado pela primeira vez em Outubro de 1934, no n.º 253 da Nouvelle Revue Française. Em 1964, o Living Theatre inspirou-se nele para um quadro do seu espectáculo Mysteries and Small Pieces, exercício com trinta minutos de duração sobre o texto de Artaud, representação de uma aterradora agonia de empestados que se espalhava por todos os pontos da sala.


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o te a tro e a peste

Os arquivos da pequena cidade de Cagliari, na Sardenha, contêm o relato de um sucesso histórico e espantoso. Numa noite do fim de Abril ou do princípio de Maio de 1720, cerca de vinte dias antes de chegar a Marselha o navio Grand-Saint-Antoine, cujo desembarque coincidiu com a mais maravilhosa explosão de peste que pôs a borbulhar as memórias da cidade, Saint-Rémys, vice-rei da Sardenha com responsabilidades exíguas de monarca que talvez sensibilizassem os vírus mais perniciosos, teve um sonho particularmente aflitivo: viu-se pestoso1 e viu a peste devastar o seu minúsculo Estado. Sob a acção do flagelo liquefazem-se os quadros da sociedade. A ordem sucumbe. Ele assiste a todas as derrotas da moral, a todas as derrocadas da psicologia, ouve em si o murmúrio dos seus humores dilacerados em pleno desastre, e que em vertiginosa perda de matéria ficam pesados e a pouco e pouco se transformam em carvão. Será, afinal, tarde de mais para conjurar o flagelo? Mesmo destruído, mesmo aniquilado e organicamente pulverizado e queimado nas medulas, sabe que não se morre nos sonhos, que a verdade desempenha lá um papel até ao absurdo, até à negação do possível, até uma espécie de transmutação da mentira pela verdade que a partir dela se reconstrói. 1

Pestoso traduz pesteux, neologismo de Artaud. (N. do T.)


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E u , A n t o n i n A r ta u d

Acorda. Vai mostrar-se capaz de afastar todos estes ruídos de peste, que correm, e estes miasmas de um vírus chegado do Oriente. O Grand-Saint-Antoine, navio que há um mês saiu de Beirute, pede passo e propõe um desembarque. Nessa altura é que ele dá a ordem louca, a ordem que o povo e toda a sua corte julgam delirante, absurda, imbecil e despótica. À lufa-lufa manda a barca do piloto e alguns homens ao navio que presume contaminado, com ordem para o Grand-Saint-Antoine virar imediatamente de bordo e a toda a vela sair para fora da cidade, sob pena de ser afundado a tiros de canhão. A guerra contra a peste. O autocrata não estava com meias medidas. De passagem terá de referir-se a singular força de influência que este sonho exerceu nele, pois permitiu fazê-lo perseverar na ferocidade das suas ordens, apesar dos sarcasmos da multidão e do cepticismo da corte; e tendo, para isto, de saltar, não só por cima do direito das pessoas mas do mais elementar respeito pela vida humana e de toda a espécie de convenções nacionais ou internacionais que deixam, perante a morte, de ter cabimento. Seja como for, o navio continuou a sua rota, atracou em Liburno e entrou na barra de Marselha, onde lhe consentiram o desembarque. O fim que esta carga de pestosos teve, não é coisa que os serviços de inspecção, em Marselha, tenham conservado de lembrança. De forma aproximada se conhece a sorte dos marinheiros da sua equipagem, porque nem todos morreram da peste e por diversos lados se dispersaram. O Grand-Saint-Antoine não levou a peste a Marselha. Já lá estava. E num período de singular recrudescência. Mas tinha sido possível localizar-lhe os focos.


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ANTONIN ARTAUD RETRATOS E AUTO-RETRATOS


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Auto-retrato (1920)


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Auto-retrato (1925)


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Como cigano em Tarakanova de Raymond Bernard (1929)


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Como monge Jesu Massieu em La Passion de Jeanne d’Arc de Carl Th. Dreyer (1927)


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Retrato (1944)


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Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, Georges Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A papisa Joana — segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha O meu corpo e eu, René Crevel Manon Lescaut, Padre Prévost O duelo, Joseph Conrad A felicidade dos tristes, Luc Dietrich


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Inferno, August Strindberg Um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille Os ombros da marquesa, Émile Zola O livro branco, Jean Cocteau Verdes moradas, W.H. Hudson A guerra do fogo, J.-H. Rosny Aîné Hamlet-Rei (Luís II da Baviera), Guy de Pourtalès Messalina, Alfred Jarry O capitão Veneno, Pedro Antonio de Alarcón Dona Guidinha do Poço, Manoel de Oliveira Paiva Visão invisível, Jean Cocteau A liberdade ou o amor, Robert Desnos A maçã de Cézanne… e eu, D.H. Lawrence O fogo-fátuo, Drieu la Rochelle Memórias íntimas e confissões de um pecador justificado, James Hogg Histórias aquáticas — O parceiro secreto, A laguna, Mocidade, Joseph Conrad O homem que falou (Un de Baumugnes), Jean Giono O dicionário do diabo, Ambrose Bierce A viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco O caso Kurílov, Irène Némirowsky A costa de Falesá, Robert Louis Stevenson Nova Safo — tragédia estranha, Visconde de Vila-Moura Gaspar da Noite — fantasias à maneira de Rembrandt e Callot, Aloysius Bertrand Rimbaud-Verlaine, o estranho casal O rato da América, Jacques Lanzmann As amantes de Dom João V, Alberto Pimentel Os cavalos de Abdera e mais forças estranhas, Leopoldo Lugones Preceptores – Gabrielle de Bergerac seguido de O discípulo, Henry James O Cântico dos Cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema, Ernest Renan Derborence, Charles Ferdinand Ramuz O farol de amor, Rachilde Diário de um fuzilado, precedido de Palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière A minha vida, Isadora Duncan Rakhil, Isabelle Eberhardt Fuga sem fim, Joseph Roth O castelo do homem ancorado, Joris-Karl Huysmans Tufão, Joseph Conrad Eu, Antonin Artaud, Antonin Artaud Van Gogh o suicidado da sociedade, Antonin Artaud Heliogábalo ou o anarquista coroado, Antonin Artaud


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