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Alfarim, Janeiro 2017

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Emanuele Coccia

A Vida das Plantas Uma Metafísica da Mistura seguido de

«Ser o mundo»

edição de

Pedro A.H. Paixão tradução de

Jorge Leandro Rosa iconografia de

Carla Filipe

disciplina sem nome FUNDAÇÃO CARMONA E COSTA DO CUM ENTA

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Matteo Coccia (1976-2001) in memoriam

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Entre os catorze e os dezanove anos, fui educado num liceu agrícola da província, isolado nos campos da Itália central. Estava lá para aprender um «verdadeiro ofício». Desse modo, em vez de me consagrar ao estudo das línguas clássicas, da literatura, da história e das matemáticas, como faziam todos os meus amigos, passei a minha adolescência mergulhado em livros de botânica, de patologia vegetal, de química agrária, de cultura hortícola e de entomologia. As plantas, as suas necessidades e doenças, eram o objecto privilegiado de todo o estudo nessa escola. Esta exposição quotidiana e prolongada a seres que estavam, inicialmente, tão distantes de mim marcou de forma definitiva a minha visão do mundo. Este livro é a tentativa de ressuscitar as ideias nascidas nesses cinco anos de contemplação da sua natureza, do seu silêncio, da sua aparente indiferença a tudo o que chamamos cultura.

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Il est évident qu’il y a seulement une substance, qui est commune non seulement à tous les corps, mais aussi à toutes les âmes et les esprits, et qu’elle n’est rien d’autre que Dieu. La substance d’où vient tout corps s’appelle matière; la substance d’où vient toute âme s’appelle raison ou esprit. Et il est évident que Dieu est la raison de tous les esprits et la matière de tous les corps. David d e D inant

This is a blue planet, but it is a green world. K arl J. Nikl as

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i. Prรณlogo

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1. Das plantas, ou da origem do nosso mundo Mal falamos delas e escapam-nos os seus nomes. Desde sempre, a filosofia negligencia-as, mais por desprezo do que por distracção1. São o ornamento cósmico, o acidente inessencial e colorido que campeia nas margens do campo cognitivo. As metrópoles contemporâneas consideram-nas bibelots supérfluos da decoração urbana. Fora dos muros da cidade, são hóspedes toleradas – ervas daninhas – ou objectos de produção em massa. As plantas são a ferida sempre aberta do snobismo metafísico que define a nossa cultura. O regresso do recalcado, de que precisamos desembaraçar-nos para nos considerarmos diferentes: homens, racionais, seres espirituais. Elas são o tumor cósmico do humanismo, os resíduos que o espírito absoluto não consegue eliminar. As ciências da vida também as negligenciam. «A biologia actual, concebida na base do que sabemos do animal, quase não toma em conta as plantas»2; «a literatura evolucionista padrão é zoocêntrica». E os manuais de biologia introduzem as plantas «com má vontade, como se fossem decorações na árvore da vida, em vez de as tomarem como as formas que permitiram a essa árvore sobreviver e crescer»3. Não se trata apenas de uma insuficiência epistemológica: «Enquanto animais, identificamo-nos muito mais imediatamente com os outros animais do que com as plantas»4. É assim que os cientistas, a ecologia radical e a sociedade civil se mobilizam desde há décadas pela libertação dos animais5, e a denúncia da separação entre homem e animal (a máquina antropológica de que fala a filosofia6) 21

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se tornou um lugar-comum do mundo intelectual. Inversamente, ninguém parece ter alguma vez desejado pôr em questão a superioridade da vida animal sobre a vida vegetal e o direito de vida ou morte da primeira sobre a segunda: vida sem personalidade e sem dignidade, ela não merece nenhuma empatia benévola, nem mesmo o exercício de moralismo que os seres vivos superiores conseguem mobilizar7. O nosso chauvinismo animalista8 recusa-se a ultrapassar «uma linguagem de animais que se presta mal à descrição de uma verdade vegetal»9. Neste sentido, o animalismo antiespecista é apenas um antropocentrismo que interiorizou o darwinismo e assim estendeu o narcisismo ao reino animal. As plantas não são tocadas por esta prolongada negligência: ostentam uma indiferença soberana perante o mundo humano, a cultura dos povos, a alternância dos reinos e das épocas. As plantas parecem ausentes, como que perdidas num longo e surdo sonho químico. Não têm sentidos, mas de forma alguma estão retiradas: nenhum outro ser vivo adere mais do que elas ao mundo que as rodeia. Não têm os olhos ou os ouvidos que lhes permitiriam distinguir as formas do mundo e multiplicar a sua imagem na iridescência de cores e sons que lhes emprestamos10. Participam na totalidade do mundo em tudo o que nele encontram. As plantas não correm, não podem voar: não são capazes de privilegiar um lugar específico em relação ao resto do espaço, devendo permanecer aí onde estão. Para elas, o espaço não se esfarela num xadrez heterogéneo de diferenças geográficas; o mundo condensa-se no pedaço de solo e de céu que ocupam. Ao contrário da maioria dos animais superiores, elas não mantêm nenhuma relação selectiva com o que as rodeia: estão, e não podem deixar de estar, constantemente expostas ao mundo que as rodeia. A vida vegetal é a vida enquanto exposição integral, em continuidade absoluta e em comunhão global com o meio ambiente. É com vista à maior adesão possível ao mundo que elas desenvolvem um 22

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corpo que privilegia a superfície ao volume: «O rácio muito elevado da superfície relativamente ao volume que observamos nas plantas é um dos seus traços mais característicos. É através desta vasta superfície, literalmente desdobrada no meio ambiente, que as plantas absorvem os recursos disseminados no espaço que são necessários ao seu crescimento»11. A sua ausência de movimento é simplesmente o reverso da sua adesão integral ao seu meio ambiente e ao que lhes acontece. Não se pode separar – nem física nem metafisicamente – a planta do mundo que a acolhe. Ela é a forma mais intensa, a mais radical e a mais paradigmática, do ser-no-mundo. Interrogar as plantas equivale a compreender o que significa estar-no-mundo. A planta encarna o laço mais estreito e mais elementar que a vida pode estabelecer com o mundo. O inverso também é verdadeiro: ela é o observatório mais puro para se poder contemplar o mundo na sua totalidade. Debaixo do sol ou das nuvens, misturando-se com a água e com o vento, a sua vida é uma interminável contemplação cósmica, sem dissociar os objectos e as substâncias, ou, dizendo-o de outro modo, aceitando todas as nuances, até se fundir com o mundo, até coincidir com a sua substância. Nunca compreenderemos o que é uma planta sem termos compreendido o que é o mundo.

2. A extensão do domínio da vida Elas vivem a distâncias siderais do mundo humano, como a quase totalidade dos outros seres vivos. Esta segregação não é uma simples ilusão cultural, tendo antes uma natureza mais profunda. A sua raiz encontra-se no metabolismo. A sobrevivência da quase totalidade dos seres vivos pressupõe a existência de outros vivos: toda a forma de vida exige que já haja vida no mundo. Os homens têm necessidade daquela que é pro23

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duzida pelos animais e pelas plantas. E os animais superiores não sobreviveriam sem a vida que trocam reciprocamente graças aos processos da alimentação. Viver é essencialmente viver da vida de outrem: viver na e através da vida que outros souberam construir ou inventar. Existe uma espécie de parasitismo, de canibalismo universal, que é próprio do domínio do vivo: este alimenta-se de si mesmo, só a si toma em consideração, de si necessita para outras formas e outros modos de existência. É como se a vida, nas suas formas mais complexas e articuladas, fosse apenas uma imensa tautologia cósmica: pressupõe-se a si mesma, só de si é produtora. É por isso que a vida parece só ser explicável a partir de si mesma. As plantas, essas, representam a única brecha na auto-referencialidade do vivo. Nesse sentido, a vida superior parece não ter tido nunca relações imediatas com o mundo sem vida: o primeiro ambiente de todos os viventes é o dos indivíduos da sua própria espécie, ou, em certos casos, de outras espécies. A vida parece ser necessariamente o seu próprio meio, o seu próprio lugar. Ora acontece que as plantas infringem esta regra topológica de auto-inclusão. Elas não necessitam da mediação de outros seres vivos para sobreviverem. Não a desejam. Pedem apenas o mundo, a realidade nos seus componentes mais elementares: as pedras, a água, o ar, a luz. As plantas vêem o mundo antes de este se encontrar habitado por formas de vida superiores, vêem o real nas suas formas mais ancestrais. Ou melhor, elas encontram a vida em lugares que nenhum outro organismo alcança. Transformam em vida tudo o que tocam. Fazem da matéria, do ar, da luz solar o que será para os restantes seres vivos um espaço de habitação, um mundo. A autotrofia – trata-se do nome dado a este poder de Midas alimentar, que permite transformar em alimento tudo o que se toca e tudo o que se é – não é somente uma forma radical de autonomia alimentar: é sobretudo a capacidade que as plantas têm de trans24

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[Agradecimentos]

Tive a ideia deste livro aquando de uma visita ao templo de Fushimi Inari, em Quioto, em Março de 2009, com Davide Stimilli e Shinobu Iso. Mas foi necessário esperar pela minha estadia de um ano na Italian Academy for Advanced Studies in America, da Columbia University, em Nova Iorque, para poder concretizá-la e beneficiar do tempo necessário para a sua escrita. Quero agradecer a David Freedberg e a Bárbara Faedda, que me acolheram calorosamente e, com atenção e amizade, alimentaram numerosas trocas humanas e científicas. Nada teria sido possível sem a discussão e o apoio quotidianos de Fabian Ludueña Romandini. Caterina Zanfi teve um papel essencial na génese deste livro: agradeço-lhe vivamente. Devo a Guido Giglioni a descoberta da longa tradição naturalista no Renascimento e na primeira modernidade. Nora Philippe releu e comentou uma versão preliminar do manuscrito; as suas críticas e sugestões foram decisivas. As conversas, entre Paris e Nova Iorque, com Frédérique Aït-Touati, Emmanuel Alloa, Marcello Barison, Chiara Bottici, Cammy Brothers, Barbara Carnevali, Dorothée Charles, Emanuele Clarizio, Michela Coccia, Emanuele Dattilo, Chiara Franceschini, Daniela Gandorfer, Donatien Grau, Peter Goodrich, Camille Henrot, Noreen Khawaja, Alice Leroy, Henriette Michaud, Philippe-Alain Michaud, Christine Rebet, Olivier Souchard, Michele Spanò, Justin Steinberg, Peter Szendy e Lucas Zwirner foram fundamentais. Lidia Breda apoiou e acompanhou 177

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o projecto desde o início com a amizade e a força de que só ela é capaz, pelo que lhe agradeço infinitamente. Agradeço também a Renaud Paquette que apagou todo o traço de gaguez do meu francês e permitiu que o manuscrito respirasse. Este livro é dedicado à memória do meu irmão gémeo Matteo: foi com ele e ao lado dele que comecei a respirar.

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Ser o mundo Nenhuma necessidade de abrir os olhos para o encontrar. A força e a intensidade com que ele ferve em nós são em tudo semelhantes àquelas com que se manifesta – nas suas cores, formas, ambiguidades. Nenhuma necessidade de tocar objectos que nos são exteriores a fim de o saborear. Ele atravessa-nos e estrutura cada um dos nossos gestos; ele anima o menor dos nossos movimentos. Nenhuma necessidade de o deixar penetrar as nossas vidas pela imaginação: ele submerge-nos em cada sopro, para logo se deixar penetrar, atraindo-nos numa espécie de ressalto de palavras e fricções, de sucos e de imagens, de formas e de acções. O mundo não é aquilo que começa à superfície da nossa pele para logo dela se afastar a grande velocidade, juntando-se ao horizonte mais longínquo ou indo de encontro à fronteira de uma outra consciência. Antes de tudo, ele é o primeiro habitante do nosso corpo: os seus órgãos, os seus fluidos ou parasitas são formas do mundo antes de serem acidentes da nossa anatomia e do nosso metabolismo. O mundo é também o que povoa as nossas almas: os nossos sonhos, os nossos medos, os pensamentos e as esperanças têm a mesma existência pública, real, mundana, que os objectos do nosso ambiente. Identificamo-nos com eles por medo de reconhecermos o abismo do mundo que há em nós. Antes de tudo, ele é a forma incandescente das nossas existências: as linhas que cada vida desenha ao atravessar lugares e épocas 183

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não são simplesmente as cinzas efémeras de uma experiência puramente subjectiva mas antes os nervos do corpo do universo. Não nos limitamos a estar no mundo, como se aí nos encontrássemos lançados e perdidos como quando estávamos no ventre das nossas mães. É o mundo que se encontra também lançado em cada um de nós, perdendo-se incessantemente nas nossas entranhas, nas circunvalações dos nossos cérebros, nos labirintos das nossas consciências. Ele vive em nós. Trabalha em nós. Multiplica-se sem cessar nos nossos corpos e nos nossos espíritos. O mundo nasce a cada instante em nós com a mesma imprevisibilidade com que nós nascemos em qualquer latitude do mundo. Nunca deixamos de o gerar, razão pela qual nunca poderemos coincidir exactamente connosco mesmos. Ao contrário, o mundo nunca cessa de nos fazer nascer e renascer, nunca pára de modificar o nosso rosto a todos os instantes. Há algo de extremamente paradoxal quando se imagina a vida como um acto de geração recíproca entre o indivíduo e o mundo. Com efeito, se todo o ser vivo é capaz de gerar o mundo, então a origem não é já simplesmente um acontecimento único e prévio, esse big bang longínquo e inatingível de que fala a física: ele passa a ser igualmente um facto extremamente banal, múltiplo e quotidiano, que se dá continuamente em cada objecto e em cada forma. O mundo nunca deixa de reescrever a sua história, de a bifurcar no destino de cada um dos seus habitantes, humanos e não-humanos. Estar no mundo não significa já encontrar-se no interior de uma linha de horizonte fechada e longínqua: significa, bem pelo contrário, segregar esse horizonte a partir do seu próprio corpo, engendrar o mundo e povoá-lo, minuto a minuto, com novos habitantes. Apesar das suas aparências paradoxais, esta forma de «cosmogonia simétrica» é muito mais antiga do que se imagina. Ela está no centro da doutrina que o estoicismo grego antigo havia for184

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Notas

Quando disponíveis, são referenciadas em nota as edições em língua portuguesa das obras assinaladas ou citadas. Nos restantes casos, as versões são da responsabilidade do tradutor.

1. Das plantas, ou da origem do nosso mundo 1

A única grande excepção na modernidade é a obra-prima de Gustav Fechner, Nanna oder über das Seelenleben der Pflanzen (L. Voss, Leipzig, 1848). Diante deste silêncio, começa a fazer-se ouvir a voz de um pequeno número de investigadores e intelectuais, ao ponto de alguns falarem de um plant turn. E.P. Miller, The Vegetative Soul: From Philosophy of Nature to Subjectivity in the Feminine (State University of New York Press, New York, 2002); M. Hall, Plants as Persons: A Philosophical Botany (State University of New York Press, New York, 2011); E. Kohn, How Forests Think: Toward an Anthropology Beyond the Human (California University Press, Berkeley, 2013); M. Marder, Plant Thinkink: A Philosophy of Vegetal Life (Columbia University Press, New York, 2013); Idem, The Philosopher’s Plant: An Intellectual Herbarium (Columbia University Press, New York, 2014); J. Nealon, Plant Theory: Biopower and Vegetable Life (Columbia University Press, New York, 2015). Ressalvando algumas raras excepções, esta literatura obstina-se em procurar uma verdade sobre as plantas na literatura puramente filosófica ou antropológica e fá-lo sem entrar em comunicação com a reflexão botânica contemporânea que, pelo contrário, produziu notáveis obras-primas de filosofia da natureza. Mencionando aquelas que mais me marcaram: A. Arber, The Natural Philosophy of Plant Form (Cambridge University Press, Cambridge, 1950); D. Beerling, The Emerald Planet. How Plants Changed Earth’s History (Oxford University Press, Oxford, 2007); D. Chamovitz, What a Plant Knows: A Field Guide to the Senses (Scientific American/Farrar, Strauss & Giroux, New York, 2012); E.J.H. Corner, The Life of Plants (World, Cleveland, 1964); K.J. Niklas, Plant Evolution. An Introduction to the History of Life (The University of Chicago Press, Chicago, 2016); S.S. Tonzig, Letture di biologia vegetale (Mondadori, Milano, 1975); F. Hallé, Éloge de la plante. Pour une nouvelle biologie (Seuil, Paris, 1999); S. Mancuso e A. Viola, Verde brillante. Sensibilità e intelligenza nel mondo vegetale (Giunti, Firenze, 2013). A partir da fulgurante obra-prima (centrada, é

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verdade, num cogumelo) de A. Lowenhaupt Tsing, The Mushroom at the End of the World: On the Possibility of Life in Capitalist Ruins (Princeton University Press, Princeton, 2015) a atenção às plantas tem também vindo a ser fulcral na Antropologia americana contemporânea. Como fulcrais foram os trabalhos de N. Myers e C. Hustak, «Involutionary Momentum: Affective Ecologies and the Sciences of Plant/ Insect Encounters», in Differences: A Journal of Feminist Cultural Studies, vol. 23, n.º 3 (2012), pp. 74-117. F. Hallé, Éloge de la plante, op. cit., p. 321. A par de Karl J. Niklas, François Hallé é o botânico que mais se esforçou por fazer da contemplação da vida das plantas um objecto propriamente metafísico. K.J. Niklas, Plant Evolution: An Introduction to the History of Life, op. cit., p. viii. W. Marshall Darley, «The Essence of “Plantness”», in The American Biology Teacher, vol. 52, n.º 6 (Set. 1990), p. 356: «As animals, we identify much more immediately with other animals than with plants». De entre os mais célebres, cfr. P. Singer, La Libération animale (Payot, Paris, 2012); J.S. Foer, Faut-il manger les animaux? (L’Olivier, Paris, 2011). Contudo, o debate é muito antigo: cfr. as duas grandes obras da Antiguidade, a de Plutarco, Manger la chair (Rivages, Paris, 2002) e a de Porfírio, De L’Abstinence, 3 vols. (Les Belles Letres, Paris, 1975-1977). Sobre a história deste debate, cfr. R. Larue, Le Végétarisme et ses ennemis. Vingt-cinq siècles de débats (PUF, Paris, 2015). O debate animalista, que se encontra fortemente impregnado por um moralismo extremamente superficial, parece esquecer que a heterotrofia pressupõe dar a morte a outros viventes enquanto dimensão natural e necessária de todo o ser vivo. G. Agamben, L’Ouvert. De l’homme et de l’animal (Rivages, Paris, 2006). O debate sobre os direitos das plantas existe, de forma muito minoritária, desde pelo menos o célebre capítulo xxvii de S. Butler, Erewhon ou De l’autre côté des montagnes (Gallimard, Paris, 1981), intitulado no original The Views of an Erewhonian Prophet concerning the Rights of Vegetables, até ao artigo clássico de C.D. Stone, «Should Trees Have Standing? Towards Legal Rights for Natural Objects», in Southern Californian Law Review, n.º 45 (1972). Sobre estas questões, cfr. ainda o útil resumo dos debates filosóficos publicados em M. Marder, Plant-Thinking, op. cit., assim como a posição de M. Hall, Plants as Persons, op. cit. W. Marshall Darley, «The Essence of “Plantness”», art. cit., p. 356. Cfr. também J.L. Arbor, «Animal Chauvinism, Plant-Regarding Ethics And Torture of Trees», in Australian Journal of Philosophy, vol. 64, n.º 3 (Set. 1986), pp. 335-369. F. Hallé, Éloge de la plante, op. cit., p. 325. Sobre a questão dos sentidos das plantas, cfr. D. Chamovitz, What a Plant Knows, op. cit.; R. Karban, Plant Sensing and Communication (The University of Chicago Press, Chicago, 2015). O limite destas investigações reside, contudo, em se querer obstinadamente «encontrar» órgãos «análogos» àqueles que tornam possível a percepção nos animais, sem se fazer qualquer esforço para imaginar, a partir das plan-

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tas e da sua morfologia, uma outra forma possível de pensar a relação entre sensação e corpo. W. Marshall Darley, «The Essence of “Plantness”», art. cit., p. 354. A questão da superfície e da exposição ao mundo é central em G. Fechner, Nanna oder über das Seelenleben der Pflanzen, op. cit., assim como em F. Hallé, Éloge de la plante, op. cit. Ainda sobre a questão da relação com o mundo, cfr. o belo livro de M. Marder, Plant-Thinking, op. cit., que constitui a obra filosófica mais profunda sobre a natureza da vida vegetal.

2. A extensão do domínio da vida 1

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J. Sachs, Vorlesungen über Pflanzen-Physiologie (Verlag Wilhelm Engelmann, Leipzig, 1882), p. 733. A. Trewavas, «Aspects of Plant Intelligence», in Annals of Botany, vol. 92, n.º 1 (2003), pp. 1-20; p. 16 para a presente citação. Cfr. também a sua obra-prima, Plant Behaviour and Intelligence (Oxford University Press, Oxford, 2014). Aristóteles, De Anima, 414a25. T.M. Lenton, T.W. Dahl, S.J. Daines, B.J.W. Mills, K. Ozaki, M.R. Saltzman e P. Porada, «Earliest land plants created modern levels of atmospheric oxygen», in Proceedings of the National Academy of Sciences, vol. 113, n.º 35 (2016), pp. 9704-9709.

3. Das plantas, ou da vida do espírito 1

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É a razão pela qual as plantas constituem uma fonte de inspiração importante para o design. Veja-se o livro de R. Bruni, Erba Volant. Imparare l’innovazione dalle piante (Codice Edizione, Torino, 2015). Sobre a engenharia e a física vegetal, consultem-se as obras fundamentais de K.J. Niklas, Plant Biomechanics. An Engineering Approach to Plant Form and Function (The University of Chicago Press, Chicago, 1992); Idem, Plant Allometry. The Scaling of Form and Process (The University of Chicago Press, Chicago, 1994); K.J. Niklas e H.-Ch. Spatz, Plant Physics (The University of Chicago Press, Chicago, 2012). Sobre a noção de semente na filosofia da natureza da modernidade, consulte-se o belíssimo livro de Hiro Hirai, Le Concept de semence dans les théories de la matière à la Renaissance. De Marsile Ficin à Pierre Gassendi (Brepols, Turnout, 2005). Giordano Bruno, De la causa, principio et uno, G. Aquilecchia (org.), (Einaudi, Torino, 1973), pp. 67-68 [Trad. fr.: Cause, principe et unité, trad. por É. Namer (PUF, Paris, 1982), pp. 89-91].

4. Para uma filosofia da natureza 1

Poder-se-ia objectar que não é a primeira vez. Segundo a tradição, foi Sócrates quem primeiro impôs à filosofia a necessidade de «negligenciar a natureza na sua totalidade [para] ocupar-se de questões morais (peri tá ethika)» (Aristóteles, Metafísica,

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978b2). É graças a ele que Platão teve a força de «revogar a filosofia dos céus para a colocar nas cidades, introduzindo-a nas casas [para] inquirir sobre a vida, os costumes, o bem e o mal» (Cícero, Tusculanes v, iv, 10). Cfr. também Academica i, iv, 15. Physiocide, no original [N. do T.]. Cfr., por exemplo, I.H. Grant, «Everything is Primal Germ or Nothing is: The Deep Field Logic of Nature», in Symposium: Canadian Journal of Continental Philosophy, vol. 19, n.º 1 (2015), pp. 106-124. A adopção do especialismo nas universidades é construída sobre um dispositivo de ignorância recíproca: ser um especialista não quer dizer dispor de mais conhecimento sobre um assunto mas antes ter obedecido à obrigação jurídica de ignorar as outras disciplinas. M. Untersteiner, I Sofisti. Testimonianze e Frammenti, vol. I (La Nuova Italia, Firenze, 1949), p. 148, b2. As admiráveis tentativas da Antropologia para repatriar ex post a natureza, trazendo-a ao interior das ciências humanas, ao mesmo tempo que espia todo o movimento que permitiria humanizá-la de novo ou socializá-la, parecem ser, neste sentido, a expressão mais ingénua da réplica fora de contexto [«l’esprit d’escalier» no original (N. do T.)]. Acontece que, em todas essas tentativas, a natureza permanece o espaço do não-humano, sem que seja precisado ao que corresponde a designação de humano (como ter disso a certeza depois de Darwin?) ou no que está fundada a oposição do homem ao não-humano (na razão? na palavra? no espírito?). O não-humano não é então mais do que um novo nome, mais sofisticado, mas ainda com ressonâncias mais antigas: «bestas», «irracional». Já Platão advertira contra esta repartição (Política, 263d): «Se, de entre os outros animais, houver um que seja dotado de inteligência, como o parece ser o grou ou algum animal do mesmo género, e que o grou, por exemplo, distribua os nomes como tu acabas de fazer, então ele oporia, sem qualquer dúvida, os grous, enquanto espécie à parte, aos restantes animais, dando-se assim uma primazia; e, agrupando todos os restantes, incluindo os homens, numa mesma categoria, ele não deixaria de lhes dar o nome de bestas.» O pressuposto protagoriano parece informar e inspirar também o movimento oposto de assimilação, aquele que se obstina em assimilar os animais ao homem, fazendo com que os atributos considerados especificamente humanos sejam estendidos a outras espécies animais. Também neste caso os contornos do humano foram previamente definidos, sendo o natural considerado o seu resto, caso não haja precipitação para negar seguidamente essa partilha dialéctica. Como fazer, então, para «nos conservarmos atentos a todas as falsidades deste género»? É um dos grandes ensinamentos que a obra de B. Latour nos dá a partir das suas obras-primas La Science en action (La Découverte, Paris, 1989) e Nous n’avons jamais été modernes (La Découverte, Paris, 1991). Sobre a questão da mediação técnica de um ponto de vista igualmente moral, cfr. o belo livro de P.-P. Verbeek, Moralizing Technology: Understanding and Designing the Morality of Things (The University of Chicago Press, Chicago, 2011).

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Sobre esta questão, cfr. o clássico de W. Biemel, Le Concept de Monde chez Heidegger (Vrin/Nauwelaerts, Paris/Louvain, 1950). Sobre a noção de «mundo» em Filosofia, cfr. a obra-prima de R. Brague, La Sagesse du monde. Histoire de l’éxpérience humaine de l’univers (Fayard, Paris, 1999). J.v. Uexküll, Milieu animal et milieu humain (Rivages, Paris, 2010).

5. Folhas 1

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S.S. Tonzig, Sull’evoluzione biológica (Ruminazioni e masticature), manuscrito privado (propriedade de Giovanni Tonzig), p. 18. Trata-se de uma ideia que remonta a Goethe e ao seu Die Metamorphose der Pflanzen (Cotta, Stuttgart, 1831): «Ora, quer as plantas produzam rebentos, quer floresçam, quer produzam frutos, são, no entanto, sempre os mesmos órgãos que, em múltiplas funções e sob formas muitas vezes alteradas, levam a cabo a prescrição da Natureza. O mesmo órgão, que no caule se expande como folha e assume uma forma altamente variada, contrai-se agora no cálice, expande-se outra vez nas pétalas, contrai-se nos órgãos sexuais, para se expandir pela última vez como fruto» [ed. port.: A Metamorfose das Plantas, trad. de M.F. Molder (INCM, Lisboa, 1993), p. 57 (N. do T.)]. Cfr. também L. Oken, Lehrbuch der Naturphilosophie, vol. 2, part. 3 [«Pneumatologie. Vom Ganzen im Einzelnen»], fasc. 1 e 2 (Frommann, Jena, 1810), p. 72: «Uma folha é uma planta inteira com todos os sistemas e as formações, com as fibras, as células, os troncos, os nós, os ramos, o córtex». Sobre a história deste debate, cfr. o clássico de A. Arber, The Natural Philosophy of Plant Form, op. cit., assim como os seus ensaios «The Interpretation of Leaf and Root in the Angiosperms», in Biological Review, vol. 16 (1941), pp. 81-105; «Goethe’s Botany», in Chronica Botanica, vol. 10, n.º 2, (1946), pp. 63-126. Cfr. também o texto de H. Uittien, «Histoire du problème de la feuille», in Recueil des travaux botaniques néerlandais, vol. 36, n.º 2 (1940), pp. 460-472. Para uma discussão mais moderna sobre a questão, cfr. R. Sattler (ed.), Axioms and Principles of Plant Construction. Proceedings of a Symposium held at the International Botanical Congress (Sydney, Australia, Agosto 1982); N.R. Sinha, «Leaf Development in Angiosperms», in Annual Review Plant Physiology and Molecular Biology, n.º 50 (1999), pp. 419-446; H. Tsukaya, «Comparative Leaf Development in Angiosperms», in Current Opinion in Plant Biology, n.º 17 (2014), pp. 103-109. Para uma síntese sobre a biologia da folha, cfr. o belíssimo livro de S. Vogel, The Life of a Leaf (The University of Chicago Press, Chicago, 2012). Ibidem, p. 31.

6. T ikTaalik 1

roseae

A equipa era composta por E.B. Daeschler, F.A. Jenkins e N.H. Shubin. Cfr. P.E. Ahlberg e J.A. Clack, «Palaentology: A Firm Step from Water to Land», in Nature, vol. 440, n.º 7085 (2006), pp. 747-749; E.B. Daeschler, N.H. Shubin e F.A. Jenkins, «A Devonian Tetrapod-like Fish and the Evolution of the Tetrapod Body Plan»,

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in Nature, vol. 440, n.º 7885 (2006), pp. 757-763: Idem, «The Pectoral Fin of Tiktaalik roseae and the Origin of the Tetrapod Limb», in Nature, vol. 440, n.º 7085 (2006), pp. 764-771; N.H. Shubin, Your Inner Fish: The Amazing Discovery of our 375-million-year-old Ancestor (Penguin Books, London, 2009). S.L. Miller e H.C. Urey, «Organic Compound Synthesis on the Primitive Earth», in Science, vol. 130, n.º 3370 (1959), pp. 245-251. A experiência confirma a tese abiogenética avançada por Oparin e Haldane. A ideia da sopa primordial faz a sua primeira aparição numa carta de Darwin ao botânico Joseph D. Hooker, datada de 1 de Fevereiro de 1871, onde aquele fala de uma «sopa quente diluída» (hot dilute soup) enquanto primeiro meio da vida. Cfr. J.B.S. Haldane, «The Origin of Life», in The Rationalist Annual, vol. 148 (1929) pp. 3-10; e A.I. Oparin, The Origin of Life (Macmillan Company, New York, 1938). Sobre esta questão, cfr. A. Lazcano, «Historical Development of Origins Research», in Cold Springs Harbor Perspectives in Biology [vers. 2/11/a002089 (doi: 10.1101/cshperspect.a002089)]; I. Fry, The Emergence of Life on Earth: A Historical and Scientific Overview (NJ Rutgers University Press, Brunswick, 2000). É essa a significação filosófica autêntica do livro de R. Quinton, L’Eau de mer en milieu organique. Constance du milieu marin originel comme milieu vital des cellules, à travers la série animale (Masson, Paris, 1904). Leia-se a página V: «Este livro vai estabelecer sucessivamente os dois pontos seguintes: 1) A vida animal, no estado de célula, apareceu nos mares. 2) Através da série zoológica, a vida animal tendeu sempre a conservar as células que compõem cada organismo num meio marinho, de modo que, ressalvando certas excepções hoje negligenciáveis e que parecem só se referir a espécies inferiores e diminuídas, todo o organismo animal é um verdadeiro aquário marinho onde continuam a viver, nas condições aquáticas originais, as células que o constituem».

7. Ao ar livre: ontologia da atmosfera 1

A bibliografia sobre a questão é imensa. Cfr. P.G. Gensel e D. Edwards (orgs.), Plants Invade the Land – Evolutionary & Environmental Perspectives (Columbia University Press, New York, 2001); M. Vecoli, G. Clément e B. Meyer-Berthaud (orgs.), The Terrestrialization Process: Modeling Complex Interactions at Biosphere-geosphere Interface (The Geological Society, London, 2010); J.E. Armstrong, How the Earth Turned Green: A Brief 3.8-Billion-Year History of Plants (The University of Chicago Press, Chicago, 2014). Cfr. também os manuais de história evolutiva das plantas; entre outros, K.J. Willis, The Evolution of Plants (Oxford University Press, Oxford, 2002), sobretudo os capítulos ii e iii, assim como T.N. Taylor, E.L. Taylor, M. Krings, Paleobotany: The Biology and Evolution of Fossil Plants (Academic Press, Burlington/Elsevier/London/San Diego/ New York, 2009). De entre os estudos mais recentes, cfr. J.A. Raven, «Comparative Physiology of Plant and Arthropod Land Adaptation», in Philosophical Tran-

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sactions of the Royal Society of London, series b [Biological Sciences], vol. 309, n.º 1138 (1985), pp. 273-288; P. Kenrick e P.R. Crane, «The Origin and Early Evolution of Plants on Land», in Nature, vol. 389, n.º 6646 (1997), pp. 33-39; M. Gibling e N. Davies, «Paleozoic Landscapes Shapes by Plants Evolution», in Nature Geosciences, vol. 5 (2012), pp. 99-105. Como escreveu K.J. Niklas, a afirmação da vida vegetal foi mais uma invasão do ar do que da terra. Cfr. a sua obra magistral The Evolutionary Biology of Plants (University of Chicago Press, Chicago, 1997). R.B. MacNaughton, J.-M. Cole, R.W. Dalrymple, S.J. Branddy, D.E.G. Bringgs, T.D. Lukie, «First Steps on Land: Arthropod Trackmays in Cambrian-Ordovician Eolian Sandstone, Southeastern Ontario, Canada», in Geology, vol. 30 (2002), pp. 391-394. S.J. Braddy, «Eurypterid Palaeoecology: Palaeobiological, Ichnological and Comparative Evidence for a “Mass-moult-mate” hypothesis», in Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, vol. 172 (2001), pp. 115-132. A bibliografia sobre esta questão é também muito extensa. Destacam-se as intuições fundamentais de P.E. Cloud, «Atmospheric and Hydrospheric Evolution on the Primitive Earth», in Science, vol. 160 (1972), pp. 729-736, e de H.D. Holland, «Early Proterozoic Atmospheric Change», in S. Bengston (org.), Early Life on Earth (Columbia University Press, New York, 1994), pp. 237-244; Idem, «The Oxygenation of the Atmosphere and Oceans», in Philosophical Transactions of the Royal Society: Biological Sciences, vol. 361 (2006), pp. 903-915; Idem, «Why the Atmosphere became Oxygenated: A Proposal», in Geochimica et Cosmochimica Acta, vol. 73 (2009), pp. 5241-5255. O belíssimo livro de D.E. Canfield, Oxygen. A Four Billion Year History (Princeton University Press, Princeton, 2004), oferece uma orientação no tema. Para uma explicação do grande acontecimento oxidativo a partir das causas geológicas, cfr., entre outros, M. Wille, J.D. Kramers, T.F. Nagler, N.J. Beukes, S. Schroder, T. Meisel, J.P. Lacassie, A.R. Voegelin, «Evidence for a Gradual Rise of Oxygen between 2.6. and 2.5 Ga from Mo Isotopes and Re-PGE Signatures in Shales», in Geochimica et Cosmochimica Acta, vol. 71 (2007), pp. 2417-2435. Para uma explicação biológica, cfr., entre outros, T.J. Algeo, R.A. Berner, J.B. Maynard, S.E. Scheckler, «Late Devonian Oceanic Anoxic Events and Biotic Crises: Rooted in the Evolution of Vascular Land Plants?», in GSA Today, vol. 5 (1995), pp. 63-66; J.L. Kirschvink e R.E. Kopp, «Paleoproterozoic Ice Houses and the Evolution of Oxygen-mediating Enzymes: The Case of a Late Origin of Photosystem II», in Philosophical Transaction of the Royal Society of London, series b [Biological Sciences], vol. 363, n.º 1504 (2008), pp. 2755-2765. Cfr. a literatura citada na nota anterior. Sobre a história do conceito de atmosfera, cfr. C. Martin, «The Invention of Atmosphere», in Studies in History and Philosophy of Science, part. a, vol. 52 (2015), pp. 44-54.

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Plasmabilité, no original (N. do T.). Cfr. J.v. Uexküll, Mondes animaux et monde humain (Pocket, Paris, 2004), pp. 13-15. Ibidem, p. 15. Cfr. também idem, Theoretische Biologie (J. Springer, Berlin, 1928, 2.ª edição), p. 62: «O espaço em torno de cada animal é uma bolha de sabão no interior da qual têm lugar as suas acções». Idem, Theoretische Biologie, op. cit., p. 42. Idem, Mondes animaux et monde humain, op. cit., p. 29. Idem, Die Lebenslehre (Müller & Kiepenheuer, Potsdam, 1930). F.J. Odling-Smee, K.N. Laland e M.W. Feldman, Niche Construction: The Neglected Process in Evolution (Princeton University Press, Princeton, 2003). A teoria da construção dos nichos deve muito aos escritos de R.C. Lewontin, «Organism and Environment», in H.C. Plotkin (org.), Learning, Development and Culture (Wiley, Nova Iorque, 1982), pp. 151-170; idem, «The Organism as the Subject and Object of Evolution», in Scientia, vol. 118 (1983), pp. 65-82; idem, «Adaptation», in R. Levins e R. Lewontin (orgs.), The Dialectical Biologist (Harvard University Press, Cambridge, 1985), pp. 65-84. Para uma actualização da questão, cfr. S.E. Sultan, Organism and Environment: Ecological Development, Niche Construction and Adaptation (Oxford University Press, Oxford, 2015). K.N. Laland, «Extending the Extended Phenotype», in Biology and Philosophy, vol. 19 (2004), pp. 303-325; K.N. Laland, F.J. Odling-Smee e M.W. Feldman, «Evolutionary Consequences of Niche Construction and their Implications for Ecology», in Proceedings of the National Academy of Sciences, vol. 96 (1999), pp. 10242-10247.; K.N. Laland, F.J. Odling-Smee e S.F. Gilbert, «EvoDevo and Niche Construction: Building Bridges», in Journal of Experimental Zoology, vol. 310 (2008), pp. 549-566. G.G. Brown, C. Feller, E. Blanchard, P. Deleporte e S.S. Chernyanskii, «With Darwin, Earthworms turn Intelligent and become Human Friends», in Pedobiologia, vol. 47 (2004), pp. 924-933. Ch. Darwin, The Formation of Vegetable Mould, through the Action of Worms, with Observations on their Habits (John Murray, London, 1881), p. 305. Ibidem, pp. 308-309. Ibidem, pp. 309-310. Ibidem, p. 312. K. Sterengly, «Made By Each Other: Organisms and Their Environment», in Biology and Philosophy, vol. 20 (2005), pp. 21-36. A literatura sobre a cultura animal tornou-se considerável. Cfr., entre outros, G.R. Hunt e R.D. Gray, «Diversification and Cumulative Evolution in New Caledonian Crow Tool Manufacture», in Proceedings of the Royal Society, series b [Biological Sciences], vol. 270, n.º 1517 (2003), pp. 867-874; K.N. Laland e W. Hoppitt, «Do Animals Have Culture?», in Evolutionary Anthropology, vol. 12 (2003),

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pp. 150-159; K.N. Laland e B.G. Galef Jr. (orgs.), The Question Culture (Harvard University Press, Cambridge, 2009); L. Rendell e H. Whitehead, «Culture in Whales and Dolphins», in Behaviour and Brain Sciences, vol. 24 (2001), pp. 309-324; D.F. Sherry e B.G. Galef Jr., «Social Learning without Imitation», in Animal Behaviour, vol. 40 (1990), pp. 987-989; A. Whiten e C.P.v. Schaik, «The Evolution of Animal “cultures” and Social Intelligence», in Philosophical Transaction of the Royal Society of London, series b [Biological Sciences], vol. 362, n.º 1480 (2007), pp. 603-620. Uma introdução original e importante é a de D. Lestel, Les origines animales de la culture (Flammarion, Paris, 2001). Cfr. F.J. Odling-Smee, K.N. Laland e M.W. Feldman, Niche Construction, op. cit., p. 13: «We call this second general inheritance system ecological inheritance. It comprises whatever legacies of modified natural selection pressures are bequeathed by niche constructing ancestral organisms to their descendants. Ecological inheritance differs from genetic inheritance in several important respects». K.N. Laland, «Extending the Extended Phenotype», in Biology and Philosophy vol. 19, n.º 3 (2004), p. 316: «Organisms not only acquire genes from their ancestors but also an ecological inheritance, that is, a legacy of natural selection pressures that have been modified by the niche construction of their genetic or ecological ancestors. Ecological inheritance does not depend on the presence of any environmental replicators, but merely on the persistence, between generations, of whatever physical changes are caused by ancestral organisms in the local selective environments of their descendants. Thus ecological inheritance more closely resembles the inheritance of territory or property than it does the inheritance of genes». G.F. Gause, The Struggle for Existence (William & Wilkins, Baltimore, 1934). Para a história do conceito de «nicho», cfr. A. Pocheville, «The Ecological Niche: History and Recent Controversies», in T. Heams, P. Huneman, G. Lecointre e M. Silberstein (orgs.), Handbook of Evolutionary Thinking in the Sciences (Springer, New York, 2015), pp. 547-586. Sobre a noção de influência em ecologia, cfr. o artigo clássico de R.J. Naiman, «Animal Influences on Ecosystem Dynamics», in BioScience, vol. 38 (1988), pp. 750-752, que reconhece a dificuldade em limitar a amplitude da acção dos seres vivos sobre o meio: «As a general phenomenon, this process is complicated and difficult to study because many animal population cycles occur over long periods (i.e., decades); alterations to the ecosystem are apparently subtle over short periods (i.e., increased tree mortality or altered soil formation); and shifts in biogeochemical cycles or sediment and soil characteristics are not detectable over short periods (i.e., years). Nevertheless, these successional pathways often result in a heterogeneous landscape that would not occur under the dominating influence of climate change and geology alone; they require the intervention of animal activity.» Cfr. o célebre ensaio de C.G. Jones, J.H. Lawton e M. Shachak, «Organisms as Ecosystem Engineers», in Oikos, vol. 69 (1994), pp. 373-386: «Ecosystem engi-

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neers are organisms that directly or indirectly modulate the availability of resources (other than themselves) to other species, by causing physical state changes in biotic or abiotic materials. In so doing they modify, maintain and/or create habitats. The direct provision of resources by an organism to other species, in the form of living or dead tissues is not engineering. Rather, it is the stuff of most contemporary ecological research, for example plant-herbivore predator-prey interactions food web studies and decomposition processes». Ch. Bonnet, Recherches sur l’usage des feuilles dans les plantes. Et sur quelques autres sujets relatifs à l’histoire de la végétation (Elie Luzac, Göttingen/Leyde, 1754), p. 47. Sobre tudo o que se segue, cfr. L.K. Nash, Plants and the Atmosphere (Harvard University Press, Cambridge, 1952); H. Gest, «Sun-beams, Cucumbers, and Purple Bacteria: Historical Milestones in Early Studies of Photosynthesis Revisited», in Photosynthesis Research, vol. 19 (1988), pp. 287-308; idem, «A “misplaced chapter” in the history of photosynthesis research; the second publication (1796) on plant processes by Dr Jan Ingen-Housz, MD, discoverer of photosynthesis», in Photosynthesis Research, vol. 53, n.º 1 (1997), pp. 65-72; R. Govindjee e H. Gest (orgs.), «Celebrating the millenium-historical highlights of photosynthesis research, Part 1», in Photosynthesis Research, vol. 73 (2002), pp. 1-308; R. Govindjee, J.T. Beatty, H. Gest (orgs.), «Celebrating the millenium – historical highlights of photosynthesis research, Part 2», in Photosynthesis Research, vol. 76 (2003), pp. 1-462; J. Hill, «Early Pioneers of Photosynthesis Research», in J. Eaton-Rye, B.C. Tripathy, T.D. Sharkey (orgs.), Photosynthesis: Plastid Biology, Energy Conversion and Carbon Metabolism (Springer, Dordrecht, 2012), pp. 771-800. Sobre a botânica do século XVIII, cfr. o importante estudo de F. Delaporte, Le Second règne de la nature. Essai sur les questions de végétalité au XVIIIe siècle (Flammarion, Paris, 1979). Cfr. também a súmula magistral de C. Lance, Respiration et photosynthèse. Histoire et secrets d’une équation (EDP Sciences, Les Ulis, 2013). Para uma introdução às investigações actuais, cfr. J. Farineau e J.-F. Morot-Gaudry, La Photosynthèse. Processus physiques, moléculaires et physiologiques (Éditions QUAE, Versailles, 2011). J. Priestley, «Observations on Different Kinds of Air», in Philosophical Transactions of the Royal Society of London, vol. 62 (1772), pp. 147-264, aqui p. 166. Ibidem, p. 168. Ibidem, p. 232. Ibidem, p. 193. J. Ingenhousz, Experiments upon Vegetables, Discovering their Great Power of Purifying the Common Air in the Sun-Shine, and of Injuring it in the Shade and at Night, to which is joined, a new Method of Examining the Accurate Degree of Salubrity of the Atmosphere (Elmsly & Payne, London, 1779), p. 12. Sobre Ingenhousz, cfr. G. Magiels, From Sunlight to Insight: Jan Ingenhousz, The Discovery of Photosynthesis and Science in the Light of Ecology (VUB Press, Academic and Scientific Publishers, Bruxelles, 2010).

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Ibidem, p. 9. Ibidem, pp. 14-16. Ibidem, p. 14. Ibidem, p. 31. J. Senebier, Mémoires physico-chimiques sur l’influence de la lumière solaire pour modifier les êtres des trois règnes de la nature (Barthelemi Chirol, Genève, 1782). N.Th.d. Saussure, Recherches chimiques sur la végétation (chez la veuve Nyon, Paris, 1804). Ein Beitrag zur Naturkunde (Drechsel’sche Buchhandlung, Heilbronn, 1845). Cfr. os estudos pioneiros que levaram à compreensão do dinamismo químico da fotossíntese: R. Hill, «Oxygen Evolved by Isolated Chloroplasts», in Proceedings of the Royal Society Biological Sciences, series b, vol. 127 (1939), pp. 192-210. A. Lovelock, «Geophysiology. The Science of Gaia», in Reviews of Geophysics, vol. 27 (1989), pp. 215-222, aqui p. 216. Sobre a história da noção de simbiose, cfr. O. Perru, «Aux Origines des recherches sur la symbiose vers 1868-1883», in Revue d’histoire des sciences, vol. 59, n.º 1 (2006), pp. 5-27. Para a história do conceito de simbiogénese, cfr. o estudo de L.N. Khakhina, Concepts of Symbiogenesis: A Historical and Critical Study of the Research of Russian Botanists (Yale University Press, New Haven, 1992) e a tradição do clássico de B.M. Kozo-Polyansky, Symbiogenesis: A New Principle of Evolution (Harvard University Press, Cambridge, 2010). Para as perspectivas contemporâneas, cfr. os estudos magistrais de L. Margulis, Symbiosis in Cell Evolution: Microbial Communities in the Archean and Proterozoic Eons (W.H. Freeman, New York, 1993, 2.ª edição); idem, Symbiotic Planet: A New Look At Evolution (Basic Books, New York, 1998). Sobre este tópico, cfr. A.L. Steiner et alii, «Pollen as Atmospheric Cloud Condensation Nuclei», in Geophysical Research Letters, vol. 42 (2015) pp. 3596-3602. C. Martin, «The Invention of Atmosphere», art. cit. Cfr. Fílon de Alexandria, De Confusione linguarum, 184, II, in Paul Wendland (org.), Philoni Alexandrini Opera quae supersunt, vol. 2 (Reimer, Berlin, 1897), p. 264 (S.V.F. II, 472); Alexandre de Afrodísia, Sur la mixtion et la croissance (De mixtione), trad. por J. Groisard (Les Belles Lettres, Paris, 2013). Sobre a questão da mistura, cfr. a magnífica monografia de J. Groisard, Mixis. Le problème du mélange dans la philosophie grecque d’Aristote à Simplicius (Les Belles Lettres, Paris, 2016). É o pressuposto presente na quase totalidade dos debates actuais em torno do «realismo especulativo», que somente dão conta – infelizmente – dos dois primeiros conceitos do «mundo», ignorando completamente a ideia do mundo como «mistura». Cfr., entre outros, Q. Meillassoux, Après la finitude (Seuil, Paris, 2006) e M. Gabriel, Pourquoi le monde n’existe pas (JC Lattès, Paris, 2014). Alexandre de Afrodísia, Sur la mixtion et la croissance (De mixtione), op. cit., pp. 6-7.

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J. Stobée, Eclogarum physicarum et ethicarum libri duo, i, xii, 4 (153.24 Wachsmut=SVF II 471). Quando Georges Canguilhem escreveu que «viver é irradiar, é organizar o meio a partir de um centro de referência que não pode, ele próprio, ser referido sem perder a sua significação original», parafraseava inconscientemente o conceito estóico dos pneuma (com vasta ressonância no Renascimento). Cfr. G. Canguilhem, La Connaissance de la vie (Vrin, Paris, 2006), p. 188.

8. A respiração do mundo 1

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Manuscrito da Dibner Collection (MS. 1031 B, The Dibner Library of the History of Science and Technology, Smithsonian Institution Libraries, c. 3v): «Thus this Earth resembles a great animall or rather inanimate vegetable, draws in aethereall breath for its dayly refreshment & vitall ferment & transpires again with gross exhalations». J.E. Lovelock e L. Margulis, «Biological Modulation of the Earth’s Atmosphere», in Icarus, vol. 21 (1974), pp. 471-489, aqui p. 471; cfr. também idem, «Atmospheric Homeostasis by and for the Biosphere: the Gaia Hypothesis», in Tellus, vol. 26 (1974), pp. 2-10. Sobre a história da tese de Gaia, cfr. o livro muito detalhado de M. Ruse, Gaia: Science on a Pagan Planet (University of Chicago Press, Chicago, 2013). J.E. Lovelock e L. Margulis, «Biological Modulation of the Earth’s atmosphere», art. cit., p. 485. J.B.d. Lamarck, Hydrogéologie, ou Recherches sur l’influence qu’ont les eaux sur la surface du globe terrestre; sur les causes de l’existence du bassin des mers, de son déplacement et de son transport successif sur les différents points de la surface du globe; enfin sur les changements que les corps vivans exercent sur la nature et l’état de cette surface (Agasse et Maillard, Paris, 1802), p. 5. Ibidem, pp. 167-168: «Les détritus des corps vivants et de leurs productions se consument sans cesse, se déforment et cessent à la fin d’être reconnaissables […]. Les eaux pluviales qui mouillent, qui s’embibent, qui lavent et qui filtrent, détachent de ces détritus de corps vivants des molécules intégrantes de diverses sortes, favorisent les altérations qu’elles subissent alors dans leur nature, les entraînent, les charrient et les déposent dans l’état où elles sont parvenues». J.B.d. Lamarck, Mémoires de physique et d’histoire naturelle, établis sur les bases de raisonnement indépendantes de toute théorie; avec l’explication de nouvelles considérations sur la cause générale des dissolutions; sur la matière de feu; sur la couleur des corps, sur la formation des composés, sur l’origine des minéraux, et sur l’organisation des corps vivans, lus à la première classe de l’Institut national dans ses séances ordinaires, suivis de Discours prononcé à la Société Philomatique le 23 floréal an V (Paris, 1797), p. 386. Cfr. o belo texto de J.-B. Fressoz, «Circonvenir les circumfusa: la chimie, l’hygiénisme et la libéralisation des choses environnantes (1750-1850)», in Revue d’histoire moderne et contemporaine, vol. 56, n.º 4 (2009), pp. 39-76.

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J.-B. Boussingault e J.-B. Dumas, Essai de statique chimique des êtres organisés (Fortin Masson, Paris, 1842), pp. 5-6. V.I. Vernadski, The Biosphere (Copernicus, New York, 1998), p. 122. Sobre a posição de Vernadski no interior da história do pensamento ecológico, cfr. as primeiras indicações de J.-P. Deléage, Une histoire de l’écologie (La Découverte, Paris, 1991), capítulo ix. Ibidem, p. 76. Ibidem, p. 120. Ibidem, p. 87. Ibidem, p. 44. Ver também a p. 47: «The biosphere may be regarded as a region of transformers that convert cosmic radiations into active energy in electrical, chemical, mechanical, thermal and other forms. Radiations from all stars enter the biosphere, but we catch and perceive only an insignificant part of the total: this comes exclusively from the Sun». Ibidem, p. 50. Ibidem, p. 57. Hipócrates, Airs, eaux, lieux, trad. do Grego por P. Maréchaux (Rivages, Paris, 1995). Cfr. Montesquieu, De l’Esprit des lois, terceira parte, livro XIV, capítulo X (Flammarion, Paris, 1979, vol. I), p. 382: «Ce sont les différents besoins dans les différents climats, qui ont formé les différentes manières de vivre; et ces différentes manières de vivre ont formé les diverses sortes de lois». Sobre a história da doutrina, cfr. R. Mercier, «La théorie des climats des Réflexions critiques à L’Esprit des lois», in Revue d’histoire littéraire de la France, vol. 58 (1953), pp. 17-37 e 159-175. J.G. Herder, «Ideen zur Philosophie der Geschichte der Menscheit», in Werke, tomo 6 (Deutsche Klassiker Verlag, Frankfurt am Main, 1989). W. Tetsurô, Fûdo, Le Milieu humain, trad. por A. Berque (CNRS Éditions, Paris, 2011). Cfr. R.N. Bellah, «Japan’s Cultural Identity: Some Reflections on the Work of Watsuji Tetsurô», in The Journal of Asian Studies, vol. 24 (1965), pp. 573-594; A. Berque, «Milieu et logique du lieu chez Watsuji», in Revue Philosophique de Louvain, vol. 92 (1994), pp. 495-550; G. Mayeda, Time, Space and Ethics in the Philosophy of Watsuji Tetsur, Kuki Shuzo and Martin Heidegger (Routledge, New York, 2006). J.-B. Dubos, Réflexions critiques sur la poésie et sur la peinture, part. ii (Chez Jean Mariette, Paris, 1719), p. 205. E. Guyot (ps. Sieur de Tymogue), Nouveau système du Microcosme ou Traité de la nature de l’homme (M.G. de Merville, La Haye, 1727), p. 246. G. Simmel, Sociologie, Études sur les formes de la socialisation (PUF, Paris, 1999), cap. ix, p. 639. Sobre Simmel, cfr. B. Carnevali, «Aisthesis et estime sociale. Simmel et la dimention esthétique de la reconnaissance», in Terrains/Théories, vol. 4

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(2016) [colocado online em 19 de Agosto de 2016, consultado em 20 de Agosto de 2016. url: http://teth.revue.org/686]. P. Sloterdijk, Sphères I: Bulles. Microsphérologie (Pauvert, Paris, 2002), p. 51. Ibidem, p. 51. G. Böhme, «Atmosphere as the Fundamental Concept of a New Aesthetics», in Thesis Eleven, vol. 36 (1993), pp.113-126, aqui p. 113. Do mesmo autor, cfr. também o livro clássico Atmosphäre: Essays zur Neuen Äesthetik (Suhrkamp, Frankfurt am Main, 1995). Para ter um panorama deste conceito, cfr. T. Griffero, Atmospheres. Aesthetic of Emotional Spaces (Ashgate, Farnham, 2014). Para uma leitura radical do conceito de atmosfera do ponto de vista do Direito, cfr. a importantíssima obra de A. Philippoulos-Mihalopoulos, Spacial Justice: Body, Landscape, Atmosphere (Routledge, London, 2015). L. Daudet, Mélancholia (Bernard Grasset, Paris, 1928), p. 32. Sobre Daudet, cfr. B. Carnevali, «“Aura” e “Ambiance”: Léon Daudet tra Proust e Benjamin», in Rivista di Estetica, vol. 46 (2006), pp. 117-141. Ibidem, p. 16. Ibidem, p. 86. Ibidem, p. 25.

9. Tudo está em tudo 1

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Em Blasen. Sphären I [o autor cita a tradução francesa: Bulles. Sphères I (Pluriel, Paris, 2011) (N. do T.)], Peter Sloterdijk usa a imagem da imbricação recíproca (que ele reconhece pertencer à «linhagem dos filósofos estóicos da mistura de corpos»), mas prefere concentrar-se na versão teológica, fornecida por João Damasceno, da perichoresis das três pessoas trinitárias. É uma escolha com enormes consequências. Em primeiro lugar, e ao contrário do que Sloterdijk escreve, não é suposto que a mistura divina «possa exprimir a imbricação não hierárquica e não exclusiva das substâncias na mesma secção do espaço» (Bulles, p. 645): pelo contrário, toda a tradição neoplatónica, e a cristã depois dela, tentará introduzir uma ordem hierárquica no conceito de mistura (Deus Pai não está e não poderá estar no mesmo plano do espírito). Por outro lado, trata-se, em ambas as tradições, de limitar a possibilidade da mistura às substâncias espirituais, de fazer da mistura uma propriedade que cabe principalmente aos espíritos e não aos corpos enquanto tais: assim, a mistura de Sloterdijk é um espaço puramente antropológico (ou teológico), a figura de uma relação espiritual entre sujeitos acósmicos e não a fisiologia comum de todo o ser mundano. É também a razão por que ele parece ignorar ou negligenciar a importância da referência anaxagórica. Sobre a recepção do conceito de «mistura» no neoplatonismo e na teologia cristã, cfr. as páginas importantes de J. Groysard, Mixis, op. cit., pp. 225-292. Agostinho, Confissões, x, 15-16.

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Neste sentido, a abordagem schellingiana também nos parece insuficiente. Sobre a filosofia da natureza de Schelling e do Idealismo Alemão, cfr. o belo volume de I.H. Grant, Philosophy of Nature after Schelling (Bloomsbury, London, 2006). N. Myers, «Photosynthesis», in Theorizing the Contemporary webpage, at Cultural Anthropology website (2016). url: http://culanth.org/fieldsights/790-photosynthesis. É também a tese do belíssimo livro de Ch. Bonneuil e J.-B. Fressoz, L’Événement anthropocène. La Terre, l’histoire et nous (Seuil, Paris, 2016).

10. Raízes 1

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H.J. Dittmer, «A Quantitative Study of the Roots and Root Hairs of a Winter Rye Plant (Secale cereale)», in American Journal of Botanics, vol. 24 (1937), pp. 417-420. Pelo menos até ao fim do período devoniano, as plantas vasculares pareciam ter vivido sem terem desenvolvido eixos radicais. Cfr. J.A. Raven e D. Edwards, «Roots: Evolutionary Origins and Biogeochemical Significance», in Journal of Experimental Botany, vol. 52 (2001), pp. 381-401; P.G. Gensel, M. Kotyk e J.F. Basinger, «Morphology of Above- and Below-Ground Structures in Early Devonian (Pragian-Emsian)», in P.G. Gensel e D. Edwards (orgs.), Plants Invade the Land: Evolutionary and Environmental Perspectives (Columbia University Press, New York), pp. 83-102; N.D. Pires e L. Dolan, «Morphological Evolution in Land Plants: New Designs with old Genes», in Philosophical Transactions of Royal Society, series b, vol. 367 (2012), pp. 508-518, em particular pp. 511-512; P. Kenrick e Ch. Strullu-Darrien, «The Origin and Early Evolution of Roots», in Plant Physiology, vol. 166 (2014), pp. 570-580; P. Kenrick, «The Origin of Roots», in A. Eshel e T. Beeckman (orgs.), Plant Roots: The Hidden Half (Taylor & Francis, London, 2013, 4.ª ed.), pp. 1-13 (volume absolutamente decisivo e que contém uma vasta bibliografia). G.W. Rothwell e D.M. Erwin, «The Rhizomorph of Paurodendron, Implications for Homologies among the Rooting Organs of the Lycopsida», in American Journal of Botany, vol. 72 (1985), pp. 86-98; L. Dolan, «Body Building on Land – Morphological Evolution of Land Plants», in Current opinion in plant biology, vol. 12 (2009), pp. 4-8. A origem desta imagem é muito antiga. Sobre esta questão, cfr. C.-M. Edsman, «Arbor inversa. Heiland, Welt und Mensch als Himmelspflanzen», in Festschrift Walter Baetke dargebracht zu seinem 80. Geburtstag am 28. Marz 1964 (Weimar, 1966), pp. 85-109 e L. Repici, Uomini capovolti. Le piante nel pensiero dei greci (Laterza, Bari, 2000). Aristóteles, De Anima, ii, 4, 416a2 sgs. Averróis, Commentarium Magnum in Aristotelis «De Anima» libros, F.S. Crawford (org.), CCA versio Latina, vol. vi, 1 (Cambridge, 1953), p. 190.

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Guillaume de Conches, Dragmaticon (Dragmaticon Philosophiae 6.23.4) in Opera omnia, vol. i, I. Ronca (org.), CCCM, 152 (Brepols, Turnout), p. 259; Alain de Lille, Liber in distinctionibus dictionum theologicalium, in MPL 210 c. 707-708; Alexander Neckam, De naturis rerum Libro Duo, ed. M.T. Wright c. 152 (232); Hugo Ripelin, Compendium Theologicae Veritatis 2, 57, Pais (org.), (t. 34), p. 78a. Trata-se, na verdade, de um lugar comum difundido em todas as formas do saber e da escrita; cf., por exemplo, Cornelius a Lapide, Commentaria in Danielem Prophaetam, cap. iv, v. 6, in Commentaria in quatuor Prophetas Maiores, Apud Henricum et Cornelium Verdusseni (MDCCIII), p. 1298; idem, Commentaria in Marcum, cap. viii, in Commentarius in evangelia (Hieronymi Albritii venetiis, Venezia, 1717, 2.ª ed.), p. 461. Relativamente a Francis Bacon, cfr. Novum Organum, in Collected Works of Francis Bacon, vol. 7, part. 1, pp. 278-279. Carl von Linné, Philosophia Botanica in qua explicantur Fundamenta Botanica (Joannis Thomae Trattner, Wien, 1763), p. 97: «Planta animal inversum veteribus dictum fuit». Ch. Darwin, La Faculté motrice dans les plantes (Reinwald, Paris, 1882), p. 581. Cfr. também F. Baluška, S. Mancuso, D. Volkmann e P.W. Barlow, «The “Root-brain” Hypothesis of Charles and Francis Darwin Revival after more than 125 Years», in Plant Signaling & Behavior, vol. 12 (2009), pp. 1121-1127. Cfr. A.J. Trewavas, Plant Behaviour and Intelligence (Oxford University Press, Oxford, 2014); S. Mancuso e A. Viola, Verde brillante. Sensibilità e intelligenza nel mondo vegetale (Giunti, Firenze, 2013). F. Baluška, S. Lev-Yadun e S. Mancuso, «Swarm Intelligence in Plant Roots», in Trends in Ecology and Evolution, vol. 25 (2010), pp. 682-683; M. Ciszak, D. Comparini, B. Mazzolai, F. Baluška, F.T. Arecchi, T. Vicsek, et al., «Swarming Behavior in Plant Roots», PLoS ONE (March 7, 2012): 10.1371/annotation/8e6864fcc4b7-46e7-92b3-80767f4a5d3a]. A literatura sobre o tema tornou-se extremamente vasta; cfr. F. Baluška, S. Mancuso, D. Volkmann e P.W. Barlow, «Root Apices as Plant Command Centres: The Unique “Brain-like” Status of the Root Apex Transition Zone», in Biologia, vol. 59 (2004), pp. 9-17; E.D. Brenner, R. Stahlberg, S. Mancuso, J. Vivanco, F. Baluška e E.v. Volkenburgh, «Plant Neurobiology from Stimulus Perception to Adaptive Behavior of Plants, via Integrated Chemical and Electrical Signaling», in Plant Signaling & Behavior, vol. 6 (2009), pp. 475-476; A. Alpi, N. Amrhein, A. Berti, M.R. Blatt, E. Blumwald, F. Cervone, et alii, «Plant Neurobiology: No Brain, no Gain?», in Trends in Plant Science, vol. 12 (2007), pp. 135-136; E.D. Brenner, R. Stahlberg, S. Mancuso, F. Baluška e E.v. Volkenburgh,, «Plant Neurobiology: The gain is more than the Name», in Trends in Plant Science, vol. 12 (2007), pp. 285-286; P.W. Barlow, «Reflections on “Plant Neurobiology”», in BioSystems, vol. 92 (2008), pp. 132-147; F. Baluška (org.), Plant-Environment Interactions: From Sensory Plant Biology to Active Plant Behavior (Springer Verlag, Berlin/New York, 2009); F. Baluška, S. Mancuso (orgs.), Signalling in

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Plants (Springer Verlag, Berlin/New York, 2009). Cfr. também o recente manifesto de P. Calvo, «The Philosophy of Plant Neurobiology: A Manifesto», in Synthese, vol. 193 (2016), pp. 1323-1343. Anthony J. Trewavas tenta definir um conceito não cerebral de inteligência, opondo-se ao que Vertosick chamou o «chauvinismo cerebral». Cfr. A.J. Trewavas, Plant Behaviour and Intelligence, op. cit., p. 201 e idem, «Aspects of Plant Intelligence», in Annals of Botany, vol. 92 (2003), pp. 1-20; F.T. Vertosick, The Genius Within Discovering the Intelligence of Every Living Thing (Harcourt, New York, 2002). Para algumas críticas (débeis, em boa verdade) à proposta de Trewavas, cfr., entre outros, R. Firn, «Plant Intelligence: An Alternative Viewpoint», in Annals of Botany, vol. 93 (2003), pp. 475-481 e F. Cvrcková, H. Lipavská e V. Žársky, «Plant Intelligence: Why, Why not or Where?», in Plant Signal Behaviour, vol. 4, n.º 5 (2009), pp. 394-399. A ideia da terra como um cérebro é um refrão extremamente frequente nos últimos textos de M. McLuhan, cfr. «The Brain and the Media: The “Western” Hemisphere», in Journal of Communication, vol. 28 (1978), pp. 54-60. D. Koller assinalou-o de modo muito explícito: «In this respect, all but very few plants are obligate amphibians, with part of their body permanently in the aerial environment and the remaining part within the soil. This structural differentiation in plants is based on function». D. Koller, The Restless Plant, E.v. Volkenburgh (org.) (Harvard University Press, Cambridge, 2011), p. 1. Sobre a noção de anfíbio ontológico em antropologia, cfr. o belíssimo livro de E. Kirksey, Emergent Ecologies (Duke University Press, Durham, 2015) e R.t. Bos, «Towards an Amphibious Anthropology: Water and Peter Sloterdijk», in Society and Space, vol. 27 (2009), pp. 73-86. Mas neste caso, tal como no uso ortodoxo do conceito na biologia, a ideia pressuposta é a da habitação sucessiva de dois ou mais meios. J. Sachs, «Über Orthotrope und Plagiotrope Pflanzenteille», in Arbeiten des Botanischen Instituts in Würzburg, vol. 2 (1882), pp. 226-284. Sobre o geotropismo [«gravitropisme», no original francês (N. do T.)], e para além das monografias citadas de Chamovitz, Karban, Koller, cfr. o clássico de Th. Ciesielski, Untersuchungen über die Abwärtskrümmung der Wurzel. Beiträte zur Biologie der Pflanzen, vol. 1 (1872), pp. 1-30; P.W. Barlow, «Gravity Perception in Plants: a Multiplicity of Systems Derived by Evolution?», in Plant Cell and Environment, vol. 18 (1995), pp. 951-962; R. Chen, E. Rosen e P.H. Masson, «Gravitropism in Higher Plants», in Plant Physiology, vol. 120 (1999), pp. 343-350; C. Wolwerton, H. Ishikawa e M.L. Evans, «The Kinetics of Root Gravitropism: Dual Motors and Sensors», in Journal of Plant Growth Regulation, vol. 21 (2002), pp. 102-112; R.M. Perrin, L.-S. Young, N. Murthy, B.R. Harrison, Y. Wang, J.L. Will e P.H. Masson, «Gravity Signal Transduction in Primary Roots», in Annals of Botany, vol. 96 (2005), pp. 737-743; M.T. Morita, «Directional Gravity

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Sensing in Gravitropism», in The Annual Review of Plant Biology, vol. 61 (2010), pp. 705-720. A.P.d. Candolle, Organographie végétale ou Description raisonnée des organes des plantes (Déterville, 1827), p. 240. A ideia é, desde logo, aristotélica. Cfr. Aristóteles, De Anima, ii, 4, 415 b 25 sq.: «Empédocles exprimiu-se mal quando pretendia a isto referir-se com certa precisão: segundo ele, o desenvolvimento das plantas efectuar-se-ia em sentido descendente, através do desenvolvimento das raízes; por esta razão, procede naturalmente deste modo a terra neste sentido; o crescimento, pelo contrário, desenvolve-se em sentido ascendente, podendo explicar-se por comparação com o movimento análogo do fogo» [trad. port.: Da Alma (De Anima), trad. de C.H. Gomes (Edições 70, Lisboa, 2015), p. 64 (N. do T.)]. Th. A. Knight, «On the Direction of the Radicle and Germen during the Vegetation of Seeds», in Philosophical Transactions of the Royal Society, vol. 99 (London, 1806) pp. 108-120, aqui p. 108. Antes de Knight, Henry-Louis Duhamel de Monceau (que Knight cita) tentara já fornecer uma explicação da razão pela qual «des glands déposés en tas dans un lieu humide germent, et l’on remarque constamment que, quelque situation que l’hasard ait fait prendre à ces glands, toutes les radicules tendent vers le sol, […] et toutes les plumes du genre s’élèvent». H.-L. Duhamel de Monceau, La Physique des arbres, où il est traité de l’anatomie des plantes et de l’économie végétale (Guérin et Delatour, Paris, 1758), p. 137. J. Sachs, «Über Orthotrope und Plagiotrope Pflanzenteile», art. cit. Ch. Darwin, La Faculté motrice des plantes, op. cit., pp. 199 e 575. D. Koller, The Restless Plant, op. cit., p. 46. Ch. Darwin, La Faculté motrice des plantes, op. cit., p. 200. F. Nietzsche, Also sprach Zarathustra, prólogo, §3 [ed. port.: Assim Falava Zaratustra, trad. de P.O. de Castro (Círculo de Leitores, Lisboa, 1996), p. 13 (N. do T.)]. Aristóteles, De plantis, 817 b 20-22.

11. Os astros são o mais profundo 1

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K. Timiryazen, The Life of the Plants. Ten Popular Lectures (Foreign Languages Publishing House, Moscovo, 1953), p. 341. E também p. 188: «It is not the leaf as a whole, but the chloroplast that colours it green, which serves as a connecting link between the sun and all things living upon the earth». J. Mayer, Die organische Bewegung im Zusammenhang mit dem Stoffwechsel. Ein Beitrag zur Naturkunde (Drechsler’sche Buchhandlung, Heilbronn, 1845), pp. 36-37. F. Nietzsche, Also sprach Zarathustra, prólogo, §3 [ed. port.: Assim Falava Zaratustra, trad. de P.O. de Castro (Círculo de Leitores, Lisboa, 1996), p. 13. (N. do T.)]. Desde que Deleuze e Guattari propuseram uma geofilosofia, este geocentrismo tornou-se explícito. Cfr. G. Deleuze e F. Guattari, Qu’est-ce que la philosophie? (Minuit, Paris, 1991); R. Brassier, Nihil Unbound. Enlightenment and Extinction (Palgrave, London, 2007); E. Thacker, In the Dust of this Planet. Horror of the

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Philosophy, vol. 1 (Zero Books, Winchester, 2011); B. Woodard, On an Ungrounded Earth, Towards a New Geophilosophy (Punctum, New York, 2013). Contra esta tendência, aparece como excepção o belo livro de P. Szendy, Kant chez les extraterrestres. Philophictions cosmopolitiques (Minuit, Paris, 2011). E. Husserl, «La Terre ne se meut pas» (1934), trad. do alemão por D. Franck, D. Pradelle e J.-F. Lavigne, in Philosophie (Minuit, Paris, 1989), pp. 15-16. Ibidem, p. 12. Ibidem, p. 19. Ibidem, p. 23. Ibidem, p. 21. Ibidem, p. 27. G. Deleuze e F. Guattari, Qu’est-ce que la philosophie?, op. cit., p. 82. Nicolau Copérnico, De revolutionibus libri sex, i, 10, in Gesamtausgabe, H.M. Nobis e B. Sticker (orgs.), vol. ii (Hildesheim, 1984), p. 20. Sobre a significação da revolução copernicana, existe uma literatura extremamente vasta. Cfr., entre outros, M.-P. Lerner, Le Monde des Sphères II. La fin du cosmos classique II (Les Belles Lettres, Paris, 2008); A. Koyré, La Révolution astronomique. Copernic, Kepler, Borelli (Les Belles Lettres, Paris, 2016) e S. Kuhn, La Révolution copernicienne (Les Belles Lettres, Paris, 2016). É a conclusão a que Giordano Bruno chegou a partir das conclusões de Copérnico: «Astrorum igitur unum terra est, que non minus digno altoque caelo comprehenditur quia quodcunque ex aliis aliud.» Giordano Bruno, Camoeracensis Acrotismus, Opera latine conscripta, art. LXV (F. Fiorentino, Napoli, 1971). Sobre Bruno e Copérnico, cfr. os belíssimos livros de M.A. Granada, El debate cosmologico en 1588. Bruno, Brahe, Rothann, Ursus, Röslin (Bibliopolis, Napoli, 1996) e idem, Sfere solide e cielo fluido: momenti del dibattito cosmologico nella seconda metà del Cinquecento (Guerini e Associati, Milano, 2002). Para uma perspectiva cosmocêntrica, muito diferente mas extremamente radical e original, cfr. a obra-prima de F. Ludueña, Más allá del principio antrópico. Hacia una filosofia del Outside (Prometeo Libros, Buenos Aires, 2012). Toda a obra de Ludueña pode ser entendida como uma especulação sobre o cosmos enquanto espaço abiótico.

12. Flores 1

Para uma iniciação à biologia das plantas com flor, que é extremamente complexa, cfr. os trabalhos de divulgação de P. Bernardt, The Rose’s Kiss: A Natural History of Flowers (Island Press, Washington DC, 1999); Sh.A. Russel, Anatomy of a Rose: Exploring the Secret Life of Flowers (Perseus Books, New York, 2001); W.C. Burger, Flowers: How They Changed the World (Prometheus Book, New York, 2006); S.L. Buchmann, Reason for Flowers: Their History, Culture, Biology, and How They Change Our Lives (Scribner, New York, 2015).

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H. André, «La différence de nature entre les plantes et les animaux», in Cahier de Philosophie de la nature IV: vues sur la psychologie animale (Vrin, Paris, 1930), p. 26. Embora muito documentado, é neste aspecto que se manifestam as insuficiências do livro de O. Morton, Eating the Sun: How Plants Power the Planet (Harper-Collins, New York, 2008). Sobre esta questão, cfr. a obra de Edgar Dacqué sobre a morfologia idealista. Cfr. E. Dacqué, Natur und Seele. Ein Beitrag zur magischen Weltlehre (Oldenburg, München/Berlin, 1926). Para uma perspectiva mais moderna, cfr. M. Spanò, «Funghi del capitale», in Politica e società, vol. 5 (2016). Hiérocles, Hierocles the Stoic: Elements of Ethics, Fragments and Excerpts, I. Rameli (org.) (Society of Biblical Literature, Atlanta, 2009), p. 5. Ibidem, p. 18. Sobre a oikeiosis estóica, cfr. F. Dirlmeier, Die Oikeiosis-Lehre Theophrasts (Dieterich, Leipzig, 1937); R. Radice, Oikeiosis Ricerche sul fondamento del pensiero stoico e sulla sua genesi (Vita e Pensiero, Milano, 2000); Ch.-Uh Lee, Oikeiosis, Stoische Ethik in naturphilosophischer Perspektive (Alber Verlag, Freiburg/ München, 2002); R. Bees, Die Oikeiosislehre der Stoa. I. Reconstruktion ihres Inhaltes (Königshausen und Neumann, Wurtzbourg, 2004). Sobre a auto-incompatibilidade, cfr. S.J. Hiscock e S.M. McInnis, «The Diversity of Self-Incompatibility Systems in Flowering Plants», in Plant Biology, vol. 5 (2003), pp. 23-32; D. Charlesworth, X. Vekemans, V. Castric e S. Glémin, «Plant Self-Incompatibility Systems: A Molecular Evolutionary Perspective», in New Phytologist, vol. 168 (2005), pp. 61-69.

13. O sexo é a razão 1

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Sobre a história da noção de gene, cfr. A. Pichot, Histoire de la notion de gène (Flammarion, Paris, 1999). Jan Marek Marci de Kronland, Idearum operatricium idea sive hypotyposis et detectio illius occultae virtutis, quae semina faecundat et ex iisdem corpora organica producit (Praha, 1635). Peder Soerensen, Idea medicinae philosophicae continens totius doctrinae paracelsinae Hippocraticae et galienicae (Basel, 1571). Sobre estes problemas, cfr. W. Pagel, Paracelsus. An Introduction to Philosophical Medicine in the Era of Renaissance (Karger, New York, 1958), idem, William Harvey’s Biological Ideas. Selected Aspects and Historical Background (Karger, New York, 1967) e G. Giglioni, «Il “Tractatus de natura substantiae energetica” di F. Glisson», in Annali della Facolta di Lettere e Filosofia dell’Universita di Macerata, vol. 24 (1991), pp. 137-179; idem, «La teoria dell’immaginazione nell’Idealismo biologico di Johannes Baptista Van Helmont», in La Cultura, vol. 29 (1991), pp. 110-145; idem, «Conceptus uteri / Conceptus cerebri. Note sull’analogia del concepimento nella teoria della generazione di William Harvey», in Rivista di storia della filosofia (1993), pp. 7-22; idem, «Panpsychism versus Hylozoism: An Interpreta-

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tion of some Seventeenth-Century Doctrines of Universal Animation», in Acta comeniana, vol. 11 (1995) e idem, Immaginazione e malattià: Saggio su Jan Baptista van Helmont (FrancoAngeli, Milano, 2000). Nas próprias palavras de Charles Drelincourt: «Conceptio fit in utero naturalis sicut in cerebro fit conceptus animalis» (De conceptione adversaria, 1685, pp. 3-4). O fundamento desta analogia pode ter lugar nos dois sentidos. É essa a ideia de Peder Soerensen, que escreveu, a propósito dos seus semina: «Nec laboriosam sortem obtinuerunt: sine sollicitudine defatigatione, ratiocinatione, dubitatione, pensum absolvunt, scientia ingenita vitali, ipsa denique essentia. Tales scientiae quia cognitionis consensum et conscientiam non habent, dicuntur non scire ea quae faciunt, et tamen videntur scire: operibus enim documenta ponunt divinae scientiae» (Idea medicinae philosophicae, op. cit., p. 91). «Aequivoce enim nostra scientia cum illa confertur. Nos sensibus memoriis rationum deductionibus et multa solliciitudine praecepta ordinatae coniungentes scientias acquirimus, illis innata est, non veluti accidentia subjectis innascuntur; sed est ipsa earum essentia, vita potesta ideoque validius agere potest. Nostra morta est, si cum hac conferatur» (Ibidem, p. 91). «Ex dictis autem elucescit, dari perceptionem priorem, generaliorem et simpliciorem ea sensuum et consequenter dari perceptionem naturalem. Dices, etiamsi haec perceptio non veniat ab anima sensitiva, posse tamen ab anima vegetativa commode deduci. Aristoteles enim videtur insinuare, animal primo vivere vitam plantae dein animalis. Respondeo ut se habet forma triticei ad formam plantae ex se formandae ita se habere formam ovi ad formam pulli inde oriundi; sed in utrisque formam inchoatam a perfecta solis gradibus perfectioinis differre. […] Si ergo formam ovi animam sensitivam inchoatam (quamvis sit praeter usum loquendi) vocari placuerit, per me licet: sed res eodem redit. Ejus enim perceptio non fuerit sensitiva, sed tantum naturalis. Res aperta est in grano tritici in quo simiilter inest perceptio naturalis, qua se satum in planta sui generis format, sed ad sensum nunquam aspirat. Atque adeo haec perceptio res clare distincta est a sensu» (Francis Glisson, Tractatus de natura substantiae energetica, London, 1672, s.p. Ad Lectorem). «Dico perceptionem naturalem nullo modo posse actionem suam suspendere aut se ab obiecto oblato avertere; sed perpetuo ad excitandum appetitum naturalem et facultatem motivam recta pergere» (Ibidem). L. Oken, Lehrbuch der Naturphilosophie (Friedrich Schultheiß, Zürich, 1843), p. 218. Sobre Oken e a biologia romântica, cfr. o belo estudo de S. Mischer, Der verschlungene Zug der Seele: Natur, Organismus und Entwicklung bei Schelling, Steffens und Oken (Königshausen & Neumann, Würzburg, 1997).

14. Da autotrofia especulativa 1

A bibliografia sobre a divisão disciplinar é imensa. Cfr., entre outros, J.-L. Fabiani, «À quoi sert la notion de discipline?», in J. Boutier, J.-C. Passeron e J. Revel,

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Qu’est-ce qu’une discipline? (EHESS/Enquête, Paris, 2006), pp. 11-34; D. Sperber, «Why Rethink Interdisciplinarity?» [url: www.interdisciplines.org/medias/confs/ archives/archive_3.pdf, 2003-2005]; Th.S. Kuhn, «The Essential Tension», in The Essential Tension (The University of Chicago Press, Chicago/London, 1977), pp. 320-339; J. Horgan, The End of Science. Facing the Limits of Knowledge in the Twilight of the Scientific Age (Addison-Wesley, Reading, 1996). Cfr. I. Hadot, Arts libéraux et philosophiques dans la pensée antique. Contribution à l’histoire de l’éducation et de la culture dans l’Antiquité (Vrin, Paris, 2006). Neste sentido, a estranha imbricação entre o social e o epistemológico, que a antropologia das ciências julga poder explicar como produto da modernidade e da sua constituição, é antes, e mais modestamente, o efeito de uma instituição, ou melhor, da instituição por excelência que, ao longo de séculos, geriu a administração dos saberes. Cfr. B. Latour e S. Woolgar, Laboratory Life: The Social Construction of Scientific Facts (Sage Publications, Beverly Hills, 1979) e B. Latour, «Textes à l’appui. Série Anthropologie des sciences et des techniques», in La Science en action, trad. por M. Biezunski e revisto pelo autor (La Découverte, Paris, 1989).

15. Como uma atmosfera 1

É o paradoxo do realismo especulativo: ao mesmo tempo que tenta reafirmar a existência do real em toda a sua amplidão, depura a filosofia de todo o conhecimento real do mundo, indo refugiar-se, mais uma vez, no recinto fechado dos livros, dos temas, dos argumentos tradicionais sancionados por um cânone arbitrário e culturalmente muito limitado que é dado como sendo «verdadeiramente filosófico».

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Índice

I. Prólogo 21 23 29 34

1. Das plantas, ou da origem do nosso mundo 2. A extensão do domínio da vida 3. Das plantas, ou da vida do espírito 4. Para uma filosofia da natureza

II. Teoria da folha | A atmosfera do mundo 43 50 59 85 98

5. Folhas 6. Tiktaalik roseae 7. Ao ar livre: ontologia da atmosfera 8. A respiração do mundo 9. Tudo está em tudo

III. Teoria da raiz | A vida dos astros 111 122

10. Raízes 11. Os astros são o mais profundo

IV. Teoria da flor | As formas da razão 139 147

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12. Flores 13. O sexo é a razão

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V. Epílogo 165 173

14. Da autotrofia especulativa 15. Como uma atmosfera

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Agradecimentos

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Apêndice à edição portuguesa Ser o mundo

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Notas

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Disciplina sem nome | 5 Colecção dirigida por Pedro A.H. Paixão com o apoio da Fundação Carmona e Costa

Título original | La vie des plantes Une métaphysique du mélange Edição e design gráfico | Pedro A.H. Paixão Tradução | Jorge Leandro Rosa Iconografia | Carla Filipe Fotografias | © Carla Filipe excepto | pp. 6 e 136 © Pedro A.H. Paixão © Editions Payot & Rivages (2013) © Sistema Solar (chancela Documenta) (2019) Rua Passos Manuel, 67 B, 1150-258 Lisboa Portugal isbn | 978-989-8902-61-0 depósito legal | 0000000 tiragem | 1000 exemplares Impressão | Gráfica Maiadouro, S.A.

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Profile for Sistema Solar - Documenta

Emanuele Coccia, «A Vida das Plantas — Uma Metafísica da Mistura seguido de "Ser o mundo"»  

Edição de Pedro A.H. Paixão. Tradução de Jorge Leandro Rosa. Iconografia de Carla Filipe.

Emanuele Coccia, «A Vida das Plantas — Uma Metafísica da Mistura seguido de "Ser o mundo"»  

Edição de Pedro A.H. Paixão. Tradução de Jorge Leandro Rosa. Iconografia de Carla Filipe.