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tradução, introdução e conclusão de

Aníbal Fernandes prefácio de

T.S. Eliot André Gide: «Traz nele com que nos desorientar e surpreender, ou seja, com que perdurar.»

Charles-Louis Philippe BUBU DE MONTPARNASSE

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BUBU DE MONTPARNASSE tradução, introdução e conclusão de

Aníbal Fernandes

prefácio de

T.S. Eliot


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TÍTULO ORIGINAL: BUBU DE MONTPARNASSE

© SISTEMA SOLAR, CRL RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: PIERRE-AUGUSTE RENOIR, OS GUARDA-CHUVAS, 1886 1.ª EDIÇÃO, ????? 2013 ISBN 978-989-8566-27-0


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Thadée Natanson embaraçava-se nas asperezas do texto que Charles-Louis Philippe lhe propunha para a sua Revue Blanche. O que diriam os seus leitores, as suas leitoras, habituados a limites para uma decência de revista «séria» como era entendida nos princípios do século XX? Bubu de Montparnasse só poderia ser entregue ao público sob a forma de livro, objecto independente, em casas burguesas talvez escondido na fileira de trás da estante, desviado de excessivas inocências para a sua crueza. De facto, com a chancela Revue Blanche mas exterior à revista, foi posto à venda em Fevereiro de 1901. O seu autor estava publicado em edições pouco visíveis e pagas com magros soldos, as que iriam pesar-lhe desastrosamente na bolsa até 1909, o fim da sua vida curta de trinta e cinco anos. Era autor de Quatre histoires de pauvre amour (1897), La Bonne Madeleine et la Pauvre Marie e La Mère et l’Enfant (ambas de 1898). Paris surgia-lhe como esperança depois de uma quase desconhecida aldeia de Auvergne a esconder-se entre árvores nas florestas do Maciço Central; onde a sua avó tinha mendigado, onde a sua mãe era criada de servir, onde o seu pai («muito simples, muito ignorante, muito inteligente») fazia tamancos e, sem nenhum sobrenome para dar, perante o registo oferecera-lhe um simples Charles Philippe, mais tarde complicado com o Louis que subiria os seus nomes a três, todos muito usados em baptismos da realeza da França.


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Nessa aldeia Cérilly das florestas de Auvergne, Philippe fora excelente aluno da escola primária, e distanciava-se da pobreza familiar com uma bolsa que o reconhecia e o internava no liceu de Montluçon. No entanto, esta criança sobredotada fora desde os sete anos de idade deformada no rosto por uma osteíte do maxilar; e mais tarde, adulto, acrescentado em fealdade pelas cicatrizes de uma adenite escrofulosa e complexado por uma altura de homem que a não mais chegaria do que ao metro e cinquenta e três. «Sou pobre, feio, tímido, solitário, irascível e bondoso», escreveu numa carta a Francis Jammes. As fotografias mostram-no com barba estratégica e retocado pelo lápis do fotógrafo, mas resta-nos o implacável retrato de um médico: «A parte mais baixa do rosto era, por assim dizer, inexistente. Tinha o maxilar inferior totalmente retraído, e este maxilar mostrava do lado esquerdo uma cicatriz profunda que formava uma reentrância, com aderências que lhe esticavam para trás a boca dificultando-lhe muitas vezes a emissão da palavra e dando à fisionomia qualquer coisa como um ar trágico.» Em 1895 Philippe estava empregado numa farmácia militar em Paris; no ano seguinte estava sentado numa secretária do Município e a vigiar esgotos, e seis anos depois mais solto, menos burocrata, a fiscalizar o cumprimento de regras municipais nos espaços públicos do 7.º Arrondissement. Este degrau na carreira deveu-o a Maurice Barrès e a cordéis sensíveis à sua influência. O Philippe reconhecido não resistiu a enumerar, numa carta ao prestigiado escritor, as singularidades da sua trajectória: «A minha avó era mendiga; o meu pai, já em criança orgulhoso, mendigou desde muito novo o seu pão. Pertenço a uma geração que ainda não passou pelos livros. […] À volta tivemos o muro dos pobres e, muitas vezes, quando a Vida nos entrava em casa vinha armada com um pau. Só tínhamos como


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recurso amar-nos uns aos outros. E por isto escrevo sempre mais suave do que a cabeça me ordena. Sou na França, segundo me parece, o primeiro de uma raça de pobres que chegou às letras.» Charles-Louis Philippe, visto na literatura como «exterior às letras», nunca escondia atrás do escritor o funcionário e até entregava os seus manuscritos em papel timbrado de uma repartição. O êxito de Bubu de Montparnasse foi, por isto, uma inesperada originalidade. Vendia-se, era lido, comentado, e até chegava à honra das edições de luxo. O autor viveu o suficiente para ver em 1905 uma edição ilustrada com noventa litografias de Grandjouan, embora não lhe tivesse chegado a vida para as aguarelas de Chas Laborde, para as gravuras de Dunoyer de Segonzac, para os desenhos de Albert Marquet; ainda menos lhe foi possível ver Bubu, o filme que Mauro Bolognini em 1970 realizou seguindo com fidelidade a sua trama mas transpondo para Nápoles a história que parecia inseparável de Paris e do seu Montparnasse1. Numa carta de 1907 Philippe chegou a lamentar o favor do público: «Tive há anos a desgraça de escrever um livro com maior êxito do que eu desejaria, e desde essa época todos me atiram com ele às pernas. Já hoje parece que nunca voltarei a fazer outro Bubu de Montparnasse». Philippe tinha transportado desde a Cérilly da sua infância uma grande compaixão pelo próximo que inundaria toda a sua literatura. Sentia como verdadeiramente seu um universo de pobrezas e doenças, por se sentir feio sofria essa ausência de amor e de mulher que o marcava até à obsessão, e que viria a exprimir assim a um amigo: «Não podes imaginar as dores dilacerantes que sinto quando 1 O distribuidor deste filme em Portugal não tinha medo de incongruências. A um Bubu italiano, passado na Itália, chamou Bubu de Montparnasse.


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vejo passar e fugir uma mulher que me agradaria ter.» Imagens de Tolstoi e de Dostoievski acompanharam-no nas paredes de todos os quartos que ocupou até ao fim da sua vida no cais Bourbon da ilha Saint-Louis. Elegia-os pelas páginas dedicadas ao sofrimento humano, e como escritor bem mais seguia pela sua veia russa do que se prestava a ouvir as lições próximas dos naturalistas franceses. Jean Giraudoux, nessa altura um aluno de liceu já com sonhos de escritor e encantado por Charles-Louis Philippe, recebeu dele uma carta cheia de conselhos, entre eles este: «Lê Tolstoi e sobretudo Dostoievski. Dostoievski contém toda a compaixão humana por aqueles que sofrem, por aqueles que praticam o mal e pelos que são feios. Gostaria de ver a sua grande bondade penetrar-te no coração para o aquecer e fazer de ti um belo homem simples e compadecido.»1. A história contada em Bubu — que poderia ter-se limitado a prolongar outras histórias que em Zola ou nos Goncourt rondam os meios da prostituição — isolava-se por uma diferença. Fazia a sua denúncia com uma ambiguidade incómoda para muitos leitores dessa época, dir-se-á que escondia mal um elogio da força, que se afastava do bom exemplo moralizador e se decidia por um desfecho que dava vitória aos opressores. Philippe denunciava uma realidade parisiense do seu tempo apoiando-se em factos e em números, como se depreende de uma das suas cartas: «Continuo os meus estudos sobre a prostituição. […] E descubro coisas horríveis. Sífilis, alcoolismos, canalhice, são os fenómenos quotidianos de mais de cinquenta mil mulheres de Paris. […] Sinto sobretudo uma compaixão imensa por esta miséria.» De tudo isto o seu ro1 Mais tarde, em 1919, Jean Giraudoux faria de Charles-Louis Philippe uma das personagens do seu romance Simon le Pathétique.


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mance fez um retrato implacável mas com voz de homem seduzido pela força pessoal, incapaz de evitar uma vitória do «fortalhaço» Bubu. Que no mundo as coisas vão mal e os fortes vencem, é uma das afirmações que mais facilmente se extraem do seu texto. E Philippe diz-nos isto com algum choro, fazendo orelhas moucas ao velho conselho de Horácio: «Para arrancar lágrimas temos de não chorar.» Mostra em dois ou três momentos uma compaixão que agrava Dostoievski e lembra essa outra, de Dickens, à volta da rapariguinha infeliz em The Old Curiosity Shop. Mas é sempre salvo pelo seu estilo. Philippe é, sem dúvida, um autor de seduções verbais, de imagens inesperadas, de sujeitos diferentes em sucessivos períodos de um mesmo parágrafo, por vezes de uma fingida ingenuidade à Douanier Rousseau, de sábias oscilações entre a regra e a desordem, dando com tudo isto razão a André Gide no longo texto «A Morte de Charles-Louis Philippe» que intercalou no seu Journal: «Traz nele com que nos desorientar e surpreender, ou seja, com que perdurar.» Em toda a sua obra literária Philippe inventa pouco e constrói levemente uma ficção que olha a sua própria vida ou o que bem perto dela andou. Os factos de Bubu de Montparnasse são quase todos reais. Ele próprio foi minucioso nesta confissão: «O capítulo da igreja é uma verdade. Desde há três anos ela não punha os pés numa igreja. O engate nocturno quando o seu pai morre também é verdade. Mais espantoso: o último capítulo é verdade. E a carta é autêntica! Aliás, todo o pormenor da Berthe e do Bubu é rigorosamente exacto. Blanche também existe. O Grande Jules, esse, é que não.» Ler-se-á adiante, no prefácio de T.S. Eliot à tradução inglesa de 1932, que a personagem Pierre Hardy esconde nas suas principais características o próprio autor. A verdade é um


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pouco mais complexa. O autor distribui-se por três personagens masculinas do romance. Tal como ele, Pierre Hardy tem uma existência vazia por falta do amor de uma mulher, chega de longe e também é filho de pais pobres; mas é Louis Buisson quem mostra na altura física o mesmo metro e cinquenta e três que complexava Philippe, quem esteve interno num liceu da província, quem à noite se entrega ao estudo da filosofia e ao prazer da literatura; e mesmo Bubu, uma personagem esquiva a todas as moralidades que o autor tem como desejáveis numa vida de homem, também é de baixa estatura e ao longo do romance repete uma frase que muitos ouviam ao próprio Philippe: «Sou pequeno mas fortalhaço», a afirmação que ele gostava de contrapor à sua abalada auto-confiança. Bubu leva Philippe a assumir a maldição da sua pequena estatura transformando-a numa força. Fá-lo recusar-se à exploração do trabalho por conta de outrem e fazer-se chulo porque os ricos são fortes e «determinam as vocações» alheias. O romance oscilará entre a bondade evangélica e a desmistificação do trabalho. Numa das suas cartas Philippe confiava a um amigo: «Não foste capaz de sentir que toda a minha simpatia vai para Bubu, que lhe dou a vitória por ser a personagem activa e forte, porque condeno o seu antagonista [Pierre Hardy] destinando-lhe estas palavras finais: “Chora e morre! Não tiveste coragem que chegasse para merecer a felicidade.”» Estas três faces de Philippe movem-se à volta da prostituta Berthe, na verdade a prostituta Maria Texier, ex-empregada de uma florista por quem ele se apaixonou depois de um encontro fortuito no bulevar Sebastopol num dia 15 de Julho, como também acontece no romance. Berthe, como Maria, é internada num hospital depois de lhe ter sido diagnosticada sífilis; tem, como Maria,


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outra irmã prostituta; e é arrebatada a Pierre pelo seu chulo Bubu, como Maria foi arrebatada a Philippe por um homem que tinha sobre ela nefasto e fatídico domínio. Apesar de socialista nos seus primeiros tempos de Paris, e na época em que escreveu Bubu bastante próximo dos anarquistas, Charles-Louis Philippe sabia que à compaixão de Louis Buisson, ao amor condoído de Pierre Hardy, conviria a tonalidade cristã, a mais ligada às tradições culturais do povo francês. A compaixão de Philippe pelos «humilhados e ofendidos», centrada aqui no amor que ele próprio teve por uma prostituta, encontra na literatura os antecedentes célebres de Thomas de Quincey e da vagabunda do primeiro capítulo do seu The Confessions of an English Opium Eater (1821), ou do Livre de Monelle de Marcel Schwob (1895). Mas vive em redor de um conflito diferente, o que opõe a exploração da mulher como objecto de prazer (triunfantemente levada a cabo por Bubu) e a eficácia de um amor condoído que a proteja do mundo masculino onde lhe são negados direitos se não dispuser da sombra benfazeja de um homem que dela se ocupe. Os protagonistas deste generoso amor são Pierre Hardy e Louis Buisson, amigos, ambos com poucas graças físicas, duas faces quase idênticas de Philippe só separadas pela veemência da sua afirmação. Buisson entra e sai do romance sem papel que exceda o de oportunas argumentações. Faz discursos de amor ao próximo e de salvação moral do próximo. Mas, à mulher que ele próprio sonha, vê-a como felicidade do lar e a coser silenciosamente ao seu lado, com ele entregue a uma qualquer ocupação intelectual. Esta «eva» subsidiária na vida de um «adão» que a olha como sua costela, inspira-lhe discursos onde Cristo e o seu pai são invocados, nunca


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no mais central sentido que a religião lhes cofere, mas como exemplos abstractos de bondade e de boa palavra moralizadora do mundo. Pierre Hardy é mais profano. Para ele, o Senhor deu a mulher aos homens, que os faz parar por lhes ter sido oferecida «como um prazer». Nunca se esquece disto quando é ela chorada pelas suas tragédias e quando as acalenta com frases que talvez «não queiram dizer nada», reconhece ele, ou que nem sequer são proferidas porque apenas «dominam o ar em redor dos rostos, e passam por eles como o sopro superior das suas palavras humanas». Bubu de Montparnasse foi muito comentado na imprensa de Paris. Não deixava indiferente os mais e os menos rendidos às suas qualidades literárias. André Gide e Paul Claudel saudaram-no; Michel Arnauld lamentou-o; Jean-Paul Fargue entusiasmou-se até uma afirmação de risco: «Não há penetração tão profunda, nada de tão atormentado, tão duro em qualquer outra literatura»; e Léon Bloy, esse, exerceu-se com a sua habitual destreza em malhar no cravo e na ferradura: «Autor de uma obra-prima, Bubu de Montparnasse. Este rapaz talvez tenha génio. Aliás, certos homens têm génio como os elefantes têm uma tromba.» Depois de Bubu, Philippe ainda publicou na editora Fasquelle Le Pére Perdrix (1902), que por não ter ganho o prémio Goncourt obteve um «Goncourt virtual» decidido por um júri paralelo do jornal Gil Blas; Marie Donadieu (1904); e Croquignolle (1905), que voltou a não ganhar o prémio Goncourt apesar do forte empenho de Octave Mirbeau. Mas em Novembro de 1909 o médico-escritor Élie Faure foi chamado com urgência à sua cabeceira e diagnosticou-lhe uma febre tifóide. Transferiu-o para a clínica Velpeau, onde lhe foi diagnosticada posteriormente uma meningite.


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Élie Faure, que o tratou sem conseguir salvá-lo, depois da sua morte escreveu um texto onde reflectia sobre as relações entre Charles-Louis Philippe e os seus escritos: «Como todos os grandes artistas, este era misterioso. Parece ser destino deles não terem espírito filosófico, e cada uma das suas frases voltar uma vez mais a levantar ou a resolver, perante aqueles que o têm, os mais temíveis problemas do nosso estranho destino. E por que teria uma tão jovial alegria este pobre homem deformado que transportava consigo um ardor maravilhoso, e que passou a sua curta vida a espiar a alma vegetativa de um velho camponês, o despertar de uma rapariga, a pretender que há putas e bandidos que sofrem com mais coisas do que a fome, a recolher lágrimas que ninguém via correr? Este pobre homem por que teria gestos faustosos? Por que razão este apaixonado pelos matizes quase apagados do drama sentimental punha a arte de Miguel Ângelo acima de todas as outras? Antes de o conhecer acreditei, e continuo a acreditar depois de o amar, que a sua força jorrava do conflito erguido entre a memória de uma infância mártir, a consciência da sua deformidade, o pudor da sua miséria, e a paixão que o seu magnífico coração tinha pela mulher, a esperança de realeza intelectual que essa voz do orgulho íntimo, sem a qual não há um elevado artista, lhe abria. E também acredito que o deboche, e talvez sem ele reparar, só era nele uma forma do ideal inacessível. Mas bem no fundo, não sei. Não fiquei com a certeza de o ter compreendido. Quando lemos os seus livros ficamos sem saber se eles nos dão vontade de rir ou de chorar. Nada disso ele teria querido, sem dúvida. Tinha pelas coisas uma ternura inesgotável que as mais obscuras entre elas sentiram; e, para fazer estremecer os nossos corações, fazia-a descer até aos mais furtivos sobressaltos das vidas escondidas, das vidas secretas e miseráveis, das pobres vidas


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de que ninguém se apercebe. Era misterioso. Muitas vezes me fez lembrar uma árvore retorcida e ressequida que todos os Verões se cobrisse de folhas e de flores.» Élie Faure não conseguiu salvá-lo, e Francis Jourdain viu-o no seu fim como «uma máquina avariada, sacudida por uma sufocação, pelo esforço automático e precipitado para fazer a aspiração de um pouco de ar». Num momento de lucidez, Philippe declarou a Marguerite Audoux: «Viajo através de um mundo que se chama a febre. Faço descobertas muito importantes que hão-de ser-me muito preciosas. Acabo de dar uma queda violenta no espaço. E não posso contar-te o que vi.» Talvez se lhe possa aplicar o que ele próprio disse de uma personagem de outro seu romance: «Tinha olhos muito extensos.» A.F.


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PREFÁCIO DE T.S. ELIOT

Há muitos anos, estava-se em 1910, fui pela primeira vez a Paris e li pela primeira vez Bubu de Montparnasse. Lido numa idade impressionável e sob impressivas condições, não só o livro foi sempre para mim o melhor de Charles-Louis Philippe, mas um símbolo do Paris desse tempo. Se Philippe ainda hoje é pouco conhecido fora da França, não era então muito mais conhecido dentro dela, apesar de estar morto e este livro ter sido dez anos antes publicado. Imagino que o Paris de 1910 fosse mais parecido com o Paris de 1900 do que é com o Paris de 1932: nestes trinta e dois anos Montparnasse mudou mais do que nos dez precedentes. Para mim Bubu é agora Paris de muito mais modesta forma do que continuam alguns romances de Dickens a ser Londres1. Embora a comparação proposta seja feita entre um muito grande romancista e alguém de muito pequenas dimensões, não a acho inútil. Se Dickens ficasse confinado aos bairros de Tom, e mais nada, e à cozinha de Fagin, a comparação estaria encerrada. Em Philippe quase não há humor, se exceptuarmos algum humor sinistro que é inseparável do comportamento das suas personagens, como esse do final do livro quando o Grande Jules diz: «vai permitir-me que enrole um cigarro.» Mas tem uma intensa compaixão para com 1 A passagem de um século fez o Paris de Philippe tão inexistente como a Londres de Dickens. (A.F.)


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os humildes e os oprimidos, uma compaixão ainda mais aparentada com a de Dostoievski, o discípulo russo de Dickens; embora o pathos que nos dois existe, Dickens e Dostoievski, estremeça aqui no fio de um sentimentalismo barato. Difere dos dois grandes homens pela ausência de um qualquer fervor religioso ou humanitário: não se mostra explicitamente preocupado em fazer as coisas alterarem-se. E com isto talvez seja o que maior lealdade mostra ao ponto de vista dos humildes e oprimidos, o que é mais seu porta-voz do que defensor. Podereis olhar para as coisas através do cristianismo ou do comunismo, de acordo com a vossa predisposição, mas Philippe não é um propagandista. O género de pessoas que Philippe mais conheceu não foi das que se tornam fanáticas ou revolucionárias; limitaram-se a mourejar e a suportar, ou a tomar o mais fácil caminho de saída. Alguns anos atrás, ainda que não muito mais tarde do que 1910 — mas, de facto, a seguir à Guerra — lembro-me de ter obtido informações de um operário que passava no meu caminho numa cidade do sul da França. Com bastante cortesia indicou-me uma direcção, ainda que deitando um olhar de curiosidade ao estrangeiro; e ao despedir-se acrescentou com total espontaneidade, dando uma palmada no peito: Moi, je suis de la classe ouvrière, exploitée par les capitalistes. Quando os seres humanos despertam um estado de espírito como este, situam-se acima do estrato que constitui o genuíno material de Philippe. Quer ele trate, como neste livro, das prostitutas e dos chulos do bulevar Sebastopol, quer trate das mais pobres classes de provincianos e honestos campesinos, como na maior parte dos seus livros, fá-lo com o emudecido e o subalimentado, com os demasiadamente deprimidos para serem rebeldes. A sua obra, como a de muitos escritores menores, é largamente autobiográfica. Sem eu saber mais da sua biografia do que sei, pa-


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rece-me fácil acreditar que é ele próprio o original de Pierre Hardy. A família de Pierre Hardy a labutar com humildade e decência na sua aldeia do leste da França, com o seu mais bem sucedido filho a conseguir um lugar de funcionário público em Paris, é muito parecida com a família que ele mais autobiograficamente descreve em Charles Blanchard e La Mère et l’Enfant. A sua maior qualidade não está na imaginação: é uma sinceridade que o faz exacto registador das coisas como são e de factos como aconteceram, sem irrelevantes ou perturbadores comentários. Tem um dom bastante raro: a capacidade de não imaginar, de não generalizar. Estarmos aptos a seleccionar exteriormente à experiência pessoal o que é de facto significante, estarmos aptos a não o corromper com tardias reflexões, é tão raro como uma imaginação inventiva. Em Philippe sempre me impressionou a sua fidelidade às forças que lhe foram dadas; até nos seus piores e mais lacrimejantes momentos quase sempre diz o que teria a dizer como se não escrevese um livro. Não era un homme de lettres. Nunca achei que outro qualquer dos seus livros igualasse Bubu. O patético, mesmo quando totalmente sincero, é uma perigosa especialidade; e quando é para o próprio autor mais patético, nem sempre consegue sê-lo para o leitor. Bem pode Dickens lacrimejar copiosamente sobre a pequena Nell e a pequena Em’ly; não conseguem enternecer-me tanto como o prisioneiro no Supremo Tribunal de Justiça de Pickwick, de quem acaba por dizer: Santo Deus, conseguiu que o absolvessem! Não obstante, em Charles Blanchard, Le Père Perdrix e La Mére et l’Enfant é de tal forma evidente que o amor e a compaixão se aproximam das pessoas reais, de tal forma evidente que se trata de emoções reais e não de confecções literárias, que aos poucos obtêm de nós amor e compaixão, pos-


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samos embora sentir, por assim dizer, que mais se trata do próprio Philippe do que do mundo onde ele viveu. Marie Donadieu, que alguns consideram o seu melhor livro, sempre me deixou um tanto frio; era como se tentasse realizar qualquer coisa para a qual ele não estivesse bastante preparado, qualquer coisa mais ampla e mais impessoal, roman dans le genre. Teve a sua realidade, teve as suas frases finais quando termina (cito de memória): tu peux chercher un autre homme, Marie. Elle répondit: il faut déjà beaucoup de foi pour chercher1. Mas ao esforçar-se por chegar a qualquer coisa mais do que um romance, mais impessoal, parece-me que dá menos de si próprio, e apesar da compaixão oferece-nos por assim dizer uma atmosfera de putrefacção moral. Acho, pois, que Bubu de Montparnasse é um livro onde Philippe atingiu o que mais perfeito conseguiu fazer. Neste livro, onde ele próprio está com maior pureza, sentimo-nos submersos num atoleiro de sentimentos; e em Marie Donadieu, a sua maior «ambição», num atoleiro de corrupções. Segundo penso, o que preserva Bubu de qualquer destes extremos é a exacta realidade de duas figuras, o Grande Jules e o próprio Bubu. Cada palavra que dizem e cada palavra que a seu respeito Philippe diz são uma absoluta verdade; ele tem uma autenticidade capaz de convencer os leitores que não conhecem verdadeiros souteneurs e não possam com eles compará-los. São, um e outro, franceses autênticos e humanamente universais; dir-se-á: «se me mostrarem um homem desta classe e com este modo de vida, e em especial se for francês, terá de ser como este». Berthe ou Pierre Hardy, como eles próprios se apresen1 Podes procurar outro homem, Marie. Ela respondeu: já muita fé seria precisa para procurar. (N. do T.)


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tam, poderiam apenas aparecer-nos como a rameira sentimental ou o rapaz sentimental de uma ficção artificial; no entanto, por oposição à perversidade de Jules e Bubu, a doçura e a condescendência de Berthe não é uma versão sentimentalizada da realidade, mas a maior das realidades. Já houve muitos romances sobre a vida no seu baixo nível, sobre o vício e a degradação das grandes cidades. Romances de sentimentalismos, romances de sátira, romances de indignação, romances de reforma social, romances de luxúria. Bubu de Montparnasse consegue não ser nada disto e não pertence ao último caso, categoricamente. É certo que Philippe incomoda e demora-se, complacente, no que podemos sentir pelo mundo como ele é; mas não tem um remédio que lhe permita fazer uma argumentação. É ao mesmo tempo compadecido e desapaixonado; no seu livro não condenamos ninguém, nem sequer condenamos um «sistema social»; e ao lê-lo, até o mais virtuoso poderá sentir isto: pequei enormemente por pensamento, palavra e obra.


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No dia seguinte ao Catorze de Julho, o bulevar Sebastopol ainda estava vivo. Nove e meia da noite. No meio das fileiras de árvores, os arcos voltaicos de um branco ofuscante recortam algumas sombras ou perdem-se na folhagem. As lojas estão fechadas. Pygmalion, Petits Agneaux, Cour Batave, Le Meilleur Marché du Monde e as suas dianteiras escuras por baixo dos grandes edifícios negros, as suas fachadas que ainda há pouco o iluminavam, parece que fazem agora o passeio sombrio. As altas tabuletas douradas que durante o dia o sol tinha posto a brilhar nas varandas, as do primeiro, do segundo e dos outros pisos, perdem-se no escuro com as suas letras de madeira amarela; e parece, como o comércio por atacado, que à noite descansam. Flores e plumas, a venda de fundos de comércio, produtos alimentares, tecidos, fecharam no bulevar Sebastopol as portadas e calaram-se. É a hora em que os transeuntes deixam de olhar para as frontarias. A vida nocturna começa, e com outros objectivos. Os carros têm lanternas: os fiacres luzes brilhantes como dois olhos de prazer, e os eléctricos um farol vermelho ou verde e mugidos de multidão apressada. Vão uns atrás dos outros, cruzam-se, marcam passo e avançam. No horizonte, junto dos Grandes Bulevares a atmosfera está bastante mais clara, ergue-se no céu e parece animada por um espírito luminoso. O objectivo não está aqui, no bulevar Sebastopol, que tem as lojas fechadas.


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Charles-Louis Philippe

Os carros correm. Os que vão para os Grandes Bulevares dirigem-se à luz e apressam-se como pessoas a quem um espectáculo atrai. O bulevar Sebastopol tem toda a sua vida no passeio. No passeio largo, no ar azul de uma noite de Verão do dia seguinte ao Catorze de Julho, Paris passa e arrasta consigo um resto de festa. Os arcos voltaicos, a folhagem das árvores, os carros que correm e toda uma excitação dos que circulam, formam qualquer coisa aguda e espessa como uma vida alcoólica e fatigada. É o vulgar espectáculo de todas as noites, mas há esquinas de ruas ou fachadas de casas que guardam a memória das danças da véspera. Há alguns ruídos ou alguns gritos que lembram as canções dos bêbados. Há algumas lanternas ou algumas bandeiras que permanecem nas janelas e parecem reclamar uma continuação do prazer. Adivinha-se o que se passa nas consciências. Os que ontem se divertiram, ficam a ver se ainda lhes surge um divertimento qualquer que possam agarrar. Porque os homens que conheceram o prazer nunca mais deixam de lhe fazer um apelo. Os outros, os que são pobres, os que são feios e os que são tímidos, passeiam entre os restos da festa e procuram nas esquinas quaisquer migalhas que lhes tenham ali deixado. Porque os homens que não conheceram o prazer padecem e todos os dias o procuram, até sentirem o cansaço de nada ter possuído. Parece que à sua volta o ar se move. Jovens bem vestidos passam aos dois ou aos três, e desaparecem. Têm colarinhos postiços em bom estado, gravatas elegantes e sóbrias espetadas por um alfinete que brilha, e correm com dinheiro nos bolsos em direcção à luz. Empregados do comércio conversam uns


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com os outros: «Dançámos até à meia-noite. E ela esteve pelos ajustes. Levei-a para um hotel da rua Quincampaix. E como aquilo lhe apetecia!» Dois amigos travam o passo a duas mulheres do povo, e quando lhes dirigem a palavra são olhados com risos à socapa. Jovens com olhar fosforescente miram a mulher quando um casal passa. Homens gordos fumam com satisfação um charuto e pensam: «Sou um alto funcionário que ganha doze mil francos por ano.» Passam outros casais. É uma jovem elegante que dá o braço a um jovem elegante; ela sente-se feliz por ter ar de quem é rica; ele sente-se feliz por provocar invejas. É uma rapariga menos bem posta, com um apaixonado que lhe fala a pensar no amor. Casais ainda, marido e mulher, a olhar cada qual para seu lado e a trocarem algumas palavras; estão de corpo e espírito habituados um ao outro. Passavam. E quando uns acabavam de passar, viam-se outros. Comerciantes em passeio e a ocupar na rua tanto espaço como a dianteira das suas lojas. Um rapaz agarrava uma mulher pelo braço e acompanhava-a, servil. Sentíamo-lo disposto a segui-la até ao fim do mundo. A vaidade, a jovialidade, a luxúria andavam nas luzes. À sua custa o ar aquecia. Ah! Que importância tinham os cansaços de ontem? Chegavam sopros de ar quente causados pelas memórias da orgia, e os corações apertavam-se com desejo. Paris parecia um cão que ainda corria atrás da sua cadela. As mulheres da vida exerciam a sua profissão. Ali está a Gabrielle, que viveu durante dois anos com o Robert, o assassino da Constance. O seu amante acaba de ir para os trabalhos forçados. Ali está a Jeanne, que deve ter dezassete anos. Desde há um mês passeia no bulevar Sebastopol. Só tem no rosto


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uma leve camada de pó-de-arroz, e os seus olhos brilham com os primeiros fogos do prazer. Há muitos que a não tomam por uma prostituta. Ali estão as mulheres da vida em cabelo, e as mulheres da vida com chapéu. Umas têm andar pesado de vaca e abordam os homens com descaramento. Outras bamboleiam-se, engatam com olhares de soslaio e preparam o sorriso. Na esquina com a rua Rambuteau formou-se um grupo. Todas falam ao mesmo tempo. À esquerda vêem-se os Halles húmidos, e vêm-nos à lembrança restos de couves. Dir-se-ia que são rãs a coaxar ao pé de um pântano. Os polícias de costumes andam aos pares. É fácil reconhecê-los por causa do olhar, da desleixada maneira de vestir e do andar grave. Têm a sujidade do ofício. Andam com rigidez, como pessoas que desempenham uma função. Olham as mulheres desde a cabeça até aos pés, com uma mirada que se demora. O olhar dos transeuntes olha, o dos polícias de costumes vigia. Um moreno gordo condecorado com a medalha militar e com bigode forte que lhe acentua o fácies, ao andar põe os punhos fechados em evidência. As mulheres da vida passam direitas, sem voltar a cabeça, com a alma de escrava ciente de que a razão do mais forte é sempre a melhor. Os anúncios dos vendedores de quinquilharias. Quando um polícia se afasta, surge um vendedor. Com boné na cabeça, rosto animado, o bigode que desbotou, falam acaloradamente porque têm paixões violentas e querem ganhar que lhes chegue para comer e beber. Este, que talvez não tenha dezoito anos, enfia o boné até às orelhas, calça botas agarradas à perna, com um andar bem marcado dá voltas em redor do círculo de curiosos. Vende por dois soldos um caderno de imagens transpa-


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rentes, e passeia-as à frente dos olhos com movimentos de prestidigitador: «Meus senhores e minhas senhoras, se virem as armas da Cidade de Paris postas num boné, avisem-me para eu poder encontrar-me com elas.» A polícia persegue-os tanto como às mulheres da vida, a sua paixão mais profunda.

Depois de trabalhar todo o dia no escritório, Pierre Hardy passeava entre a multidão do bulevar Sebastopol. Um rapaz de vinte anos, só com seis meses de Paris, tem entre os espectáculos parisienses um andar inseguro. Os carros que passam, as luzes violentas, a multidão das ruas, a luxúria e o ruído, constroem uma confusão de Babel que sobressalta e põe muitas ideias a dançar ao mesmo tempo. Todos os provincianos sentiram este incómodo, e tornam-se perante ele desastrados e tristes. Garanto-vos que nos Grandes Bulevares faz má figura a bonita rapaziada da aldeia que se exibe nos bailes. Um homem que anda, leva e põe a dar voltas na cabeça todas as coisas da sua vida. Um espectáculo desperta-as, outro excita-as. A nossa carne conservou todas as memórias e misturamo-las com os nossos desejos. Percorremos com a nossa bagagem o presente, prosseguimos, e em todos os instantes estamos preenchidos. Vejam-se as ideias que nessa noite Pierre Hardy passeava: Porque tem vinte anos e só vive em Paris desde Janeiro, nos seus pensamentos Pierre Hardy compraz-se a dar voltas a uma casa de uma pequena cidade do Leste onde os seus pais são comerciantes de madeiras. A casa está no cimo de uma encosta um pouco afastada da cidade e com jardim à volta. Nas


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noites de Verão sentimo-nos bem ali, com a sombra cheia de brisas e sentados no jardim para respirar a noite. As estrelas ocupam o pensamento, vêem-se alguns clarões que são «do calor a mais» e vive-se com tranquilidade, a fumar os primeiros cigarros entre pessoas da família. Todos os pormenores encantam. À noite, quando o calor é excessivo bebe-se leite em vez da sopa: é um refresco que refresca até ao coração. A sua irmã mais velha, casada, e a pequena sobrinha, vinham por vezes passar ali oito dias. Cozinhava-se em maiores quantidades, havia um pouco mais de alegria. A irmã mais nova fazia de mamã da pequena Juliette. Levava-a a passear e comprava-lhe doces. Não lhes faltava nada. Nesta família os membros sentiam-se a formar um todo na natureza feliz. Também pensava nos três anos de escola profissional. Tinha aprendido a desenhar pontes e máquinas com feitios complicados, e a dar precisas e admiravelmente esbatidas aguadas de tinta. Os seus pais tinham mandado encaixilhar um bonito desenho que representava uma estação de caminhos-de-ferro entre duas colinas, e tinham-no posto no seu quarto. Saíra da escola como segundo melhor aluno, com um diploma e uma medalha de prata dourada. Conseguiu ser admitido como desenhador a cinquenta francos por mês numa companhia de caminhos-de-ferro. Lamentava não se ter apresentado na Escola de Artes e Ofícios, como os seus professores o aconselhavam. Tivessem os seus pais imposto a si próprios este sacrifício, e rapidamente teria chegado ao grau de chefe de repartição. Neste bulevar Sebastopol com globos eléctricos que iam em fila por ali fora, ele passeava entre milhares de transeuntes.


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As luzes perfuravam a folhagem das árvores e caíam desde a sombra dos ramos até ao passeio. Parecia-lhe que estas luzes estavam mais brilhantes e a multidão ainda mais numerosa. No meio de cem mil homens, os jovens da província julgam-se perdidos. Não conhecia ninguém, continuava a andar e novos transeuntes não deixavam de passar, todos idênticos na sua indiferença, e sem sequer olharem para ele. O seu ruído envolvia-o como o de uma multidão que lhe não dissesse respeito. Via-os em conjunto, com remoinhos e gestos, tão alegres como algumas risadas que tinha ouvido ao passar, e tão brilhantes como alguns olhares de mulher que tinha visto brilhar. Tentava agarrar-se a qualquer coisa para não ser submergido. Tinha necessidade de descer em si próprio, e perante aquilo que passava encontrar uma alegria qualquer que o não fizesse perder-se no meio da jovialidade geral. Queria contrapor um dique ao fluxo crescente, e gritar: «Também existo. Com pedras e cimento me levanto, e vou deter-vos na vossa gritaria.» Habitava numa residencial da rua de L’Arbre-Sec, um quarto no quinto andar. Estes quartos são sempre sujos porque viveram lá demasiados inquilinos. A cama, o guarda-fatos, as duas cadeiras e a mesa com rodízios, enchem-nos. Tão pequenos, parecem atravancados com estes quatro móveis. Ali, à razão de vinte e cinco francos mensais vive-se uma vida sem dignidade. Os colchões estão sujos, as cortinas da janela cinzentas como um dia de vida pobre. O empregado do edifício tem uma gazua que em qualquer momento lhe permitiria entrar no nosso quarto. Os nossos vizinhos mudam de quinze em quinze dias, e ouvimo-los através da divisória. Uns são casais alcoólicos que discutem, outros têm um cheiro a prostituição; e se alguns


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houver bem comportados, não inspiram confiança. Os pobres inquilinos das residenciais não têm casa sua. Pierre Hardy não podia dizer: «Quando estou triste tenho um refúgio, sento-me no meio de coisas que me agradam.» O seu único refúgio era Louis Buisson, um amigo que ele frequentou logo que veio para Paris. Louis Buisson tinha vinte e cinco anos e trabalhava como desenhador na repartição de Pierre Hardy. Era um homenzinho com um metro e cinquenta e três de altura e, por ser baixo, dispensado do serviço militar. Nisto havia motivo para os seus camaradas não o respeitarem muito. Consideravam-no bom rapaz mas com uma importância que só media um metro e cinquenta e três. Fora um antigo candidato à Escola Politécnica, e o estudo das matemáticas dera-lhe o hábito da análise; até aos vinte anos fora aluno interno num liceu da província, e isto fizera-o habituar-se ao sofrimento. O fracasso dos seus belos sonhos de futuro tornara-o modesto. Pensava: «Ganho cento e oitenta francos por mês. Sou um autêntico homem do povo e trabalho para pagar o que como.» À noite, depois de passear na rua e de olhar para mulheres bonitas, entretinha-se com literatura e filosofia. Dizia: «Elas correm atrás do que brilha, dos jovens ricos e dos jovens belos. Os jovens ricos habituam-nas ao luxo e os jovens belos, que as enganam, ensinam-lhes que o amor não passa de um prazer. Mais tarde vêm ter connosco. Arruinam-nos com vestidos e espectáculos, e já não lhes sobra fervor para se apaixonarem por nós e serem nossas companheiras. O meu caso é o de alguém que costuma corresponder-se com uma criada. Como ela é simples e trabalhadora, havemos de nos juntar. Quero viver como um homem do povo e com uma mulher do povo. Aliás, odeio os ricos que nos roubam os prazeres.»


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O exemplo de Bubu de Montparnasse como realidade que aspira a ficção deixa fora de texto um capítulo, um prolongamento que amacia o dramatismo enfatizado da sua última frase. Porque Berthe, aliás Maria Texier, não foi «assassinada» no sentido físico da palavra nem sequer no sentido metafórico que a ligaria ao destino moral e psicológico de uma prisioneira no campo de forças do seu souteneur Bubu. Sobre Charles-Louis Philippe há hoje disponível um conjunto vasto de informação de onde podem separar-se elementos úteis a este capítulo consumado após a publicação do seu romance. Por uma carta do autor ao seu amigo Henri Vandeputte, sabemos que a cena da invasão do quarto de Pierre Hardy e do «resgate» de Berthe se inspira noutra, paralela, que «roubou» Maria a Philippe numa residencial do cais Bourbon. E por uma carta com o mesmo destinatário, escrita em 29 de Março de 1901, que ele e outros amigos seus decidiram salvá-la da influência de Bubu: «Há um capítulo inédito. Aqui está ele: na quinta-feira passada o livro apareceu nas livrarias. Na manhã de sábado recebi uma carta da rapariga a quem chamei Berthe, a anunciar-me que acabava de abandonar Bubu e estava desde a véspera a trabalhar. Tivemos um encontro. Farta de apanhar pancada, de sofrer pelos seus três anos de engate e por não ter sido feita para aquela profissão, de tudo isto se afastara. Ocupei-me dela e encontrei alguns amigos que se dispuseram a ajudar-me. Só ha-


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via uma solução: ela sair de Paris; porque se não quisesse recomeçar a fazer a mesma vida, Bubu iria matá-la. Pagámos-lhe a viagem até Marselha, onde conhece alguém que lhe não é indiferente.» Depois da morte de Charles-Louis Philippe pôde ler-se, no número da revista Mercure de France referente a Janeiro de 1910, um artigo de Stuart Merrill que lhe era dedicado e continha esta revelação: «Philippe concebeu o propósito de afastar de Paris a senhora Bubu. Ele, Chanvin, Lucien Jean e outros1 quotizaram-se para pagar a sua viagem até Marselha, fora do alcance do seu rufia, e para lhe ser garantida a possibilidade de viver lá até encontrar um trabalho decente. Como se dava o caso de eu próprio ter de ir pouco tempo depois àquela cidade, fui nomeado embaixador extraordinário e ministro plenipotenciário junto da senhora Bubu de Marselha. «O encontro foi combinado por carta, e numa noite de Inverno fustigada pela intempérie pus-me na esquina da Cambrière e do passeio Belsunce a agarrar no guarda-chuva e, como sinal identificador, num exemplar de Bubu de Montparnasse. Saída a multidão que atravancava esse cruzamento, acabou por surgir uma mulherzinha em cabelo, pálida, morena e magricela. Era a senhora Bubu. «Fomos a um bar próximo beber um absinto, e habituada como estava a conviver não tardou que me pusesse à vontade. Confessou-me que se sentia magoada por Philippe ter reproduzido em Bubu de Montparnasse cartas suas sem lhe corrigir os erros de ortografia2. Acalmei-a afirmando que o erro ortográfico era muito comum nas damas mais distintas, e muitas vezes até nos académicos. 1 Charles Chanvin e Lucien Jean (pseudónimo literário de Lucien Dieudonné), escritores que conviviam de perto com Charles-Louis Philippe. (N. do T.) 2 Julga-se que Philippe condensou numa só carta (a do Capítulo V) várias cartas de Maria Texier.


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«Depois de ganhar confiança tranquilizou-me sobre a sua sorte; informava-me que em Marselha tinha encontrado um protector, um homem do tribunal, disse ela sem precisar se era juiz de instrução ou o rapaz do vestiário. E apesar de ser jovem mostrou-se maternalista aconselhando-me a não comer mariscos em Marselha; isto porque andava, desde que ali tinha chegado, com uma “soltura” que atribuía à ingestão insensata de ouriços-do-mar. Em suma, pude enviar um excelente relatório aos seus desinteressados protectores de Paris.» O artigo de Merrill que contém os parágrafos acima transcritos caiu mal entre os amigos do já falecido Charles-Louis Philippe. Ele olhava com humor irónico para aquela que tinha permitido a maior dureza dramática a Bubu de Montparnasse. Mostrava-a indissociável de um «protector» masculino, pudesse agora ser ameno e compadecido. A vitória literária de Bubu, o homem da força pessoal como valor sobreposto aos valores morais, com o papel de enunciar uma regra injusta mas fascinante que dominava o mundo, recebia um golpe mortal. Pierre Hardy não tinha indesmentíveis razões quando fechava a sua história a convocar a multidão para socorrer Berthe. Porque Berthe, sozinha, tinha podido enfrentar Bubu e abandoná-lo; porque os amigos de Berthe podiam, sem receio de sangrentas represálias, enfrentar Bubu e mandá-la para Marselha e para os braços de um novo e bondoso protector. Que danos causariam estes factos à construção psicológica de Bubu de Montparnasse? O seu conhecimento público que mau serviço prestaria à indignação pedida por Charles-Louis Philippe aos leitores do seu livro? A realidade é incómoda, por vezes, para a literatura da realidade. A.F.


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ÍNDICE

Introdução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Prefácio de T.S. Eliot . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Primeira Parte Capítulo I . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Capítulo II . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Capítulo III . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Capítulo IV . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Capítulo V . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

25 39 51 59 74

Segunda Parte Capítulo VI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Capítulo VII . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Capítulo VIII . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Capítulo IX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Capítulo X. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

87 94 106 118 130

Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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livros publicados

Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, tradução de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, George Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco


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REVISÃO: ANTÓNIO LAMPREIA DEPÓSITO LEGAL 000000/00 IMPRESSO NA GUIDE – ARTES GRÁFICAS, LDA. RUA HERÓIS DE CHAIMITE, 14 ODIVELAS


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tradução, introdução e conclusão de

Aníbal Fernandes prefácio de

T.S. Eliot André Gide: «Traz nele com que nos desorientar e surpreender, ou seja, com que perdurar.»

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