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Robert Louis Stevenson

A COSTA DE FALESÁ tradução e apresentação

Aníbal Fernandes


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TÍTULO DO ORIGINAL: THE BEACH OF FALESÀ

© SISTEMA SOLAR, CRL RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES, 2017 NA CAPA: ALMEIDA JÚNIOR, O DERRUBADOR BRASILEIRO, 1875 REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE 1.ª EDIÇÃO, MARÇO DE 2017 ISBN 978-989-8833-16-7


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É compreensível a fascinação pelos Mares do Sul no jovem escocês de vinte e cinco anos batidos por um clima áspero, e num século dezanove com as grandes distâncias enfeitadas por exotismo e mito. Stevenson teve este primeiro apelo quando encontrou em Edimburgo John Seed e ele lhe relatou, com paixão e ênfases de viajante privilegiado, a sua viagem à Nova Zelândia. Contou-nos tudo sobre os Mares do Sul, pode ler-se numa carta de 1875, e até me sinto doente com esta tão grande vontade de ir até lá; lugares maravilhosos, eternamente verdes, clima perfeito, formas perfeitas em homens e mulheres, e sem mais para fazermos do que estudar a arte oratória e os costumes, sentarmo-nos ao sol e apanhar os frutos que vão caindo no chão. Cinco anos depois, em São Francisco, esta sedução voltou a dominá-lo quando lhe foram dados a conhecer Typee e Omoo, os dois primeiros livros de Herman Melville, que tinha sabido passar a literatura de romance um amável retrato do selvagem da Polinésia e de uma vegetação em estado de luxo, presentes numa aventura de vida nas ilhas Marquesas. Nestes dias já Stevenson tinha deixado para trás o boémio de Edimburgo e do Quartier Latin, a reprovada ligação com uma prostituta; já não exibia o vestuário que o dava a conhecer nos salões da noite como «O Fato de Veludo»; já tinha preocupado e escandalizado quanto bastava o seu circunspecto pai, que sonhara para ele mais


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decência e mais assento. E como a sua tuberculose pulmonar respirava mal o ar da Escócia, foi-lhe permitida a temporada ao sol mais quente do Midi da França. Robert Lewis (que começava a preferir-se com o toque francês de um Louis no nome) teve então o grande encontro da sua vida: Fanny Osbourne, americana casada e mãe de dois filhos, com um marido que na América geria saloons; dez anos mais velha do que ele, amante de jardinagens e pintora com um talento que o convívio europeu das academias não mais conseguiria do que o achassem assim-assim. Ele… ele era um rapaz doce e frágil que prometia glórias literárias e com o ar indefeso que incita mulheres maduras a abrirem, muito abertas, as asas da protecção. O caso de amor parecia louco e sem mais remédio do que a explícita união; o suficiente para o pai Stevenson fermentar na Escócia os azedumes da sua impotência perante o filho de afectos desvairados e que na vida só queria ser escritor, abdicando das profissões decentes e com firmada tradição na família; aquele filho que rabiscava poemas e só mostrava dois livros de viagens ignorados pela crítica e onde não mais fazia do que arrastar-se, com outros como ele, por desinteressantes terras da Bélgica e da França. Entretanto, Fanny voltava à América para incitar Mr Osbourne ao divórcio — que tanto convinha à honra do proprietário de saloons atraiçoado como ao seu próprio desejo de assinar o sobrenome Stevenson. E Robert Louis seguiu-a, decidido a aguardar em São Francisco o momento que o transformaria em homem casado, com mulher e dois enteados a sustentar; todos os que iriam acompanhá-lo até ao final da sua vida. Em Maio de 1880 a união legal consumou-se, mas com imediata má resposta do corte da mensalidade que Mr Stevenson tole-


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rava para manter fora de miséria o filho transviado. Robert Louis Stevenson teria de revelar-se agora conceituado escritor; teria de pôr à prova as qualidades do seu génio para se fazer viver de letras e manter com elas Fanny e os seus dois enteados. Foi desta evidência e desta aplicação que nasceu o grande escritor escocês. Entretanto, com a nova respeitabilidade do homem casado, Robert Louis decidiu enfrentar a família que tinha em Edimburgo. Era previsível uma fria, senão hostil recepção do pai mal-humorado. Mas Fanny, a desempenhar bem o papel de maturidade e bom senso, depressa voltou o sogro renitente a seu favor. Os receios de Mr Stevenson sentiram-se apaziguados quando viu na sua nora, na influência protectora da sua nora, o desejável elemento capaz de moderar excessos de liberdade mental que pudessem surgir no comportamento e nas literaturas do seu filho. Obteve dela uma promessa: que vigiaria e impediria a publicação de qualquer obra que lhe parecesse capaz de excitar as vespas vitorianas. Fanny cumpriu com diligência o seu voto, e instituiu-se como primeira das duas censuras que iriam castrar, até ao fim da sua vida, os audaciosos voos literários de Robert Louis Stevenson. Em sete anos de Escócia e Inglaterra, o escritor em estado de graça, mas com muitos maus momentos de saúde pulmonar, publica em 1883 Treasure Island, Prince Otto em 1885, Kidnapped e The Strange Case of Doctor Jekyll and Mister Hyde em 1886. E conhece-se, com esta última novela, a primeira intervenção drástica de Fanny. A sua versão inicial (ao que se julga com pendor homossexual muito evidente) foi considerada impublicável pela esposa vigilante e queimada, sem deixar rasto, em fogo de lareira. O esposo dócil escreveu então esta segunda novela mais branda que hoje conhecemos.


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Em 1887, a família Stevenson-Osbourne regressou à América, a climas mais quentes e sem as névoas britânicas, inimigas da saúde cada vez mais preocupante do escritor; do escritor que vivia agora com suficiente folga material, concedida pelo êxito dos seus livros já publicados, e podia ceder ao incurável apelo de Mares do Sul que continuava a perturbar-lhe a imaginação e a parecer-lhe boa resposta aos maus avisos da sua tuberculose pulmonar. Esta exótica digressão prolongou-se por dois anos e quatro navios, até à derradeira paragem em Valima. A viagem começou em Junho de 1888 no Casco, velho e elegante veleiro alugado que teve como passageiros Robert Louis, Fanny e a sua mãe, o seu enteado Lloyd Osbourne e Valentine Roch, a criada. E, como seria natural nas indicações de roteiro de Stevenson, a primeira e significativa paragem seria nas ilhas Marquesas mitificadas pela sua emocionada leitura de Melville. A paixão foi correspondida. Ao sabor das suas cartas pode ficar a saber-se que a laguna de Fakarava é feita da matéria que constrói os sonhos e foi vista por um Stevenson semi-nu e tostado como uma ameixa. Lemos depois o seu êxtase: Este clima, estas travessias, estas chegadas com o esplendor da alvorada quando sobem novas ilhas no horizonte, e tantos novos portos, as rajadas de vento que passam a toda a velocidade, as formações de coral, o tão ameno acolhimento dos indígenas: o romance da minha vida parece-me hoje mais belo do que o mais belo dos poemas. E também isto a Henry James: Há na minha vida destes últimos meses mais prazer e alegria do que antes conheci, e gozo de uma saúde melhor do que a de qualquer momento desde há longos anos por mim vivido. Acontece-lhe depois Taiti e a amizade com a princesa Moé; Hawai que o retém durante seis meses e onde compreende, eluci-


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dado pelas suas conversas com o rei Kalakaua, toda a complexidade política que opõe os indígenas às potências colonizadoras. Este Pacífico é um estranho lugar, diz numa carta dessa época, em poucos locais o século XIX existe. Exteriormente a eles começa uma grande mistura de épocas e raças, barbárie e civilização, virtudes e crimes, numa espécie de terra-de-ninguém da história. […] Nunca houve quem deparasse com uma tal matéria à sua disposição, com tantas histórias rudes, violentas, com tantas cenas sublimes, com tão estranhas relações entre os seres, singulares costumes, e também uma incrível mistura de beleza e horror, selvajaria e civilização. Um ano depois, em Junho de 1889, o grupo embarcou para uma segunda viagem marítima no navio mercante Equador, em direcção às ilhas Gilbert e Samoa, e desembarcou em Apia, na ilha Upolu. A paixão, reacendida em crescendo, tem agora fulgores de uma outra luz, como pode depreender-se de uma carta do fascinado escritor à sua mãe: Comparado com o encanto das Marquesas ou de Taiti, o das Samoas não actua de imediato. Nada tem de espectacular. Apia, a capital, chegou mesmo a parecer-nos desprovida de qualquer interesse, e no entanto é um lugar com um esplendor que ultrapassa o dos nossos mais loucos sonhos. Nunca vi nada tão estranho. […] Os homens têm uma estrutura de guarda-fatos, um torso largo que mexe músculo a músculo, fazendo-o com muita lentidão. Todos usam o lava-lava, um grande pedaço de tecido de cor vermelha ou azul com flores brancas […] atado de lado e usado como os escoceses usam o kilt. Parece que esta gente cultivou a arte gestual, a plástica do movimento, como se não tivesse outras expressões artísticas além da sua natural beleza. Dir-se-á que as formas


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têm aqui um lugar crucial, o sentido estético da sua sociedade parece-me bem mais profundo do que entre nós. Cada instante da sua vida tende imperceptivelmente para um ideal de beleza. A sedução de Valima incita-o a comprar vinte hectares selvagens para a construção de uma casa. Está decidido a viver longe da civilização europeia, ligado todos os meses a Sydney por uma carreira marítima, a sofrer as demoras de um correio que leva trinta dias a chegar a Londres, a ter a Nova Zelândia a uma semana de mar. A sua saúde parece conviver melhor com o calor da Polinésia, e aquelas distâncias não lhe impedem o trabalho literário; assim tão longe consegue imaginar, escrever e publicar uma história da Guerra das Rosas (The Black Arrow — 1888), chegar à Escócia e à sombra de incesto de um dos seus mais altos momentos de escritor (The Master of Ballantrae — 1889) envolver-se no humor-negro de uma história toda construída à volta de uma troca de caixões (The Wrong Box — 1889). Começa porém a ver-se constrangido por duas censuras: a de Fanny, moderadora em excessivas liberdades que possam ferir a moralidade vitoriana, a de Sidney Colvin, o «amigo» que ele encarregou de defender os seus interesses literários em Londres. Colvin, protegido pela distância de tempo e espaço que põe Londres a um mês de Stevenson, sente a impunidade da sua vocação correctora. The Wrong Box é publicado com inúmeras alterações de forma e um capítulo a menos. Os lamentos do autor destinar-se-ão a chegar sempre tarde e a demonstrar a sua inutilidade. O terreno da futura casa de Valima precisa de ser desbastado; a construção arrastar-se-á por um período de agitações e incomodidades. Melhor será, talvez, um provisório afastamento. Em Fevereiro de 1990 os Stevenson vão até Sydney no navio S.S. Lübeck e,


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ao que parece, com o vago desejo de regresso temporário à Inglaterra. Mas não; a tuberculose do escritor reanima-se, denuncia-se com assustadoras hemoptises, e um médico australiano é peremptório: «Esqueça de vez os climas temperados e frios, volte para Valima e não saia do calor dos trópicos.» Stevenson foi incitado a considerar-se prisioneiro dos Mares do Sul; de resto uma previsível fatalidade, se atendermos ao que ficou escrito num dos seus textos sobre aquelas paragens: Muito poucos homens que vêm às ilhas as abandonam; embranquecem o cabelo onde desembarcaram, e as palmeiras e os alísios ficam a abaná-los até à morte. Talvez acariciem até ao fim o desejo de visitar o seu país, mas é raro isto acontecer, e mais raro ser apreciado, e mais raro ainda ser repetido. Nenhuma parte do mundo exerce sobre o visitante uma atracção mais forte. No seu caso — destinado apenas a quatro anos de vida — não foi convicção que tenha podido confirmar-se. A única hipótese de regresso rápido a Valima estava num velho navio Janet Nichol que balançava ao ponto de merecer a alcunha de Jumping Jenny (ou seja, «A Jenny que Salta»). Stevenson foi içado para bordo numa padiola; mas desta viagem incómoda, dos canacas da equipagem e da suspeita carga do porão souberam os Stevenson extrair um enorme divertimento (basta, para esta certeza, a leitura de The Cruise of «Janet Nichol» Among the South Seas Islands, um livro de Fanny Stevenson). Em Valima, Fanny teve de «arregaçar as mangas». Durante aquela ausência pouco trabalho fora feito no terreno adquirido por Stevenson. A grande construção prevista resumia-se a uma barraca, e como mobília eles só tinham as camas que constavam da bagagem anteriormente transportada pelo S.S. Lübeck. Robert Louis não atribuiu grande importância a este desconforto que


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acrescentava pitoresco ao seu desejo de «vida selvagem». Se dermos como não exagerado o que pensou destas instalações o historiador Henry Adams, concluir-se-á que os Stevenson viveram a sua Polinésia mantendo distante a memória do conforto europeu: «Um homem de tal forma magro, tão pálido, que diríamos tratar-se de um monte de ossos dentro de um saco, com rosto e olhos extremamente móveis e onde se lê qualquer coisa como uma inteligência mórbida. […] Anda de um lado para o outro num pijama às riscas, repelente de tão sujo, com a parte baixa das pernas metida em grossas peúgas de lã, uma castanha e a outra quase vermelha.» Quanto a Fanny, «enfarpelada com a camisa tradicional das missionárias, não mais limpa do que as calças e a camisa do seu marido — com a única diferença de se ter esquecido de calçar meias. E a notar-se, além disto, a pele escura, os olhos negros de mestiça mexicana. […] As viagens deixaram a sua mulher esgotada. Sofre de reumatismos que originam paralisias e, julgo eu, dispepsia; ela diz que a causa disto foram as viagens, mas Stevenson parece tirar um prazer perverso do desconforto. […] Em vez de ter comprado um domínio, mais valia ter comprado um sabão.» Nestes quatro derradeiros anos de comodidades selvagens e deplorável estado físico, mostrou-se com uma pena de imparável inspiração. Os seus romances foram The Wrecker (1892), Catriona (1893), The Ebb-Tide (1894); o livro de textos curtos The Island Nights Entertainments (1893) que incluiu, contra vontade sua, A Costa de Falesá.


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* Logo aos primeiros contactos com a realidade dos Mares do Sul, Robert Louis Stevenson pressentiu que ia escrever uma obra que os teria por cenário e se destacaria de todas as vozes até então surgidas na literatura com a mesma inspiração. Uma sua carta do final de1889 refere-se a este projecto: Tenho agora na mente o desenho do meu livro. Se eu conseguir chegar até ao seu fim, poucas obras haverá no mundo com tão grande ambição. Estaria a pensar no livro que veio a chamar-se In the South Seas, que reuniu artigos e ensaios sobre o Pacífico (1891) ou numa ficção? Esta obra, que veio a ser concluída com o título The Beach of Falesá (note-se que a palavra beach, no inglês transtornado da Polinésia não surgia com o apertado sentido de «praia», mas de «costa» ou até, nalguns casos, de «gente da costa»), parece ter um resultado mais modesto, depois de suceder a outro, sonhada maior na envergadura e na ambição. O seu primeiro impulso foi o de levar a cabo um extenso poema que se chamaria O Homem dos Bosques. Numa carta de Novembro de 1890 ainda afirma: A minha grande luta contra a floresta teve sobre mim um estranho efeito. A incrível vitalidade destes vegetais, a sua proliferação e a sua força, as tentativas — não encontro outra palavra — das lianas para prenderem os intrusos, para os capturar, o terrível silêncio, saber que todos os nossos esforços estão votados ao fracasso como os de um mau actor, não passam de um caso com fim rápido, que os bosques muito depressa deixarão apagado debaixo de uma qualquer florescência nova; toda esta guerra silenciosa, estes crimes, esta morte lenta das árvores a lutarem umas contra as


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outras — tudo isto esmaga a imaginação. Conservo no espírito o meu poema sobre O Homem dos Bosques, mas encontro refúgio numa nova história que me trespassou como uma bala num momento de pânico, quando me senti sozinho nesta selva mágica. A história, que teria como título O Grande Bosque de Ulufanua, acabou por ser um projecto bastante alterado no decurso da sua conturbada génese e veio a transformar-se na novela A Costa de Falesá. Foi concebido com mais capítulos (sete, e alguns deles com títulos que persistem ou têm uma evidente relação com a história de Falesá) e mereceu numa carta a Colvin esta explicação: É muito estranho e muito extravagante, devo dizê-lo, mas muito variado e pitoresco. Há nele uma bela história de amor que acaba bem. Cinco meses depois, e a sofrer consequências de difíceis momentos para a sua saúde, escreveu: Ainda me encontro em muito mau estado, e nada posso fazer; esforço-me por agarrar numa pena e a ver que tenho à minha frente o tinteiro. Voltei a atirar-me a O Grande Bosque de Ulufanua. Insisto em convencer-me de que a história é forçada e demasiado fantástica, mas quando a releio caio apaixonado pelo meu primeiro capítulo e devo, custe o que custar, ir até ao fim. É excelente, sem dúvida, bem alimentado por factos, com o tom justo e (ao menos desta vez) tornado agradável com a presença de uma bonita heroína. Miss Uma é realmente bonita. Todas as minhas outras criaturas têm sido feias de meter medo e ainda por cima morrem como o cavalo de Falconet (acabo de ler a anedota em Lockhart). Decorridos outros cinco meses pergunta a Colvin, que o aconselhava a não ser muito extenso: Por que terás tu, miserável, de falar em economias de matéria? Tenho na cabeça todo um


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mundo, toda uma nova sociedade com uma imagem final que terei de dar, embora me não sinta com pressa; em breve travarás conhecimento com a ilha de Ulufanua, onde tenho a intenção de situar várias histórias. O Matrimónio Sangrento, talvez O Grande Bosque (oh!, O Grande Bosque parece-me muito bom, embora demasiado fantástico, aqui está o problema) — e O Escravo, que será uma história política. E dias depois, anunciando o título definitivo e a decisão de expurgar do tema tudo o que ele tinha de fantástico: O Grande Bosque está em andamento! E passará a chamar-se A Costa de Falesá [Deturpação nativa da palavra portuguesa «falésia»]. Tenho a história terminada. Já estão concluídas cerca de trinta páginas, e chegará, suponho eu, a um total que ficará entre cinquenta e setenta. Não tem necessidade de sobrenatural. E até consegui evitar com facilidade o obstáculo. Não consigo imaginar por que razão me mostrei durante tanto tempo estúpido. A assinatura da carta revela-o num momento de irreprimível orgulho: Robert Louis Stevenson, autor de A Costa de Falesá. Vinte e um dias passados, bem mais esmorecido está na sua euforia: Escrevi e rescrevi A Costa de Falesá, qualquer coisa como sessenta mil palavras de sólida ficção doméstica. […] E não tenho agora vontade de voltar a pegar nela — ou sinto, pelo menos, essa impressão. Mas preciso, com desagrado, de voltar a revê-la mais uma vez. Estive todo o dia de ontem a fazê-lo; encontrei uma porção de pequenas negligências e (o que é pior neste género de coisas) algumas passagens «literárias». Um dos maiores problemas é este: tratar-se de uma narrativa na primeira pessoa — um comerciante conta as suas próprias aventuras numa ilha. Dei-me ao luxo de começar por consentir


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algumas liberdades, por recear o final; mas o final acabou por se revelar muito fácil, com possibilidade de ser escrito ao sabor do mesmo fluxo. Pareceu-me porém de repente que o começo, nalguns pontos, está um quarto de tom mais baixo do que o fim. Tenho, no entanto, a decisão quase tomada de deixar as coisas como estão. Isto é sempre um problema delicado, e o único que me aborrece nos relatos na primeira pessoa, embora sejam (estou a citar Poe) «os que mais convêm ao meu género». Há no meu relato muitos factos verdadeiros, e também um pouco de muito boa ficção. É a primeira história realista que alguma vez se escreveu sobre os Mares do Sul, e quero com isto dizer que todos os seus pormenores são os da vida como ela é, e têm o «espírito» dos Mares do Sul. Por aquilo que conheço, todos os que tentaram fazê-lo deixaram arrastar-se pelo romanesco, e acabaram por cair numa espécie de poeirento malvaísco com falsos ares de epopeia e um efeito de conjunto desastroso — sem personagens correctamente instaladas, sem sopro humano e nada que tenha a ver com uma convicção. Naquilo que me diz respeito, penso ter captado o espírito e o ar que as coisas têm. Depois de leres a minha breve história, mais ficarás a saber sobre os Mares do Sul do que depois de engolires toda uma biblioteca. Quanto a saber se alguém a vai ler além de ti, não faço a mais pequena ideia. Atravesso, ao que me parece, um período de vazio, mas é assim mesmo possível que ela interesse os leitores. Porque o tema é bom, com a dose necessária de melodrama e uma história de amor — quer dizer, segundo o meu ponto de vista. E porque Mr Wiltshire (o narrador) é o danado de um pantomimeiro; foi, pelo menos, o que tentei sugerir. Mas levanta-se sempre o problema do «exo-


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tismo» — o que faz todo o resto, a vida, o lugar, a linguagem […] e ainda os próprios comerciantes, as esperanças e os temores das personagens, tudo quanto é original arriscar-se a ser mal acolhido pelo público — essa grande, pesada e desconcertante baleia. No dia 14 de Outubro de 1891, Stevenson enviou ao editor o texto definitivo de A Costa de Falesá. Apesar da vigilância de Fanny, sobrava na história e na linguagem o suficiente para hostilizar as boas consciências vitorianas. Stevenson atrevia-se a uma história de amor consumada sem casamento oficiado por uma igreja «respeitável», ou seja, a anglicana ou, vá lá, a católica; chegava ao ponto de descrever a cerimónia de um casamento-farsa; emprestava a Wiltshire uma excitação sexual resolvida à pressa e no chão (como sugere o final do primeiro capítulo); fazia-o olhar para os nativos da ilha com um sentimento distante das boas vontades de Rousseau, nessa época no auge da sua popularidade; atrevia-se a uma linguagem «de comerciante», que chegava ao son of a gun; atrevia-se a um final em que Wiltshire se confessa subtilmente racista… Não tardou a receber de Londres propostas de alteração, a mais incisiva respeitante ao casamento, que ele teria de tornar «decente»: Em Fevereiro de 1892 escreve a Colvin: Andam a fazer todo um caso a propósito de Falesá, considerado imoral. Queixam-se, pedem-me para casar as minhas duas personagens antes da famosa noite — e recusei. Se eu aceitasse, o que restaria da história? Perante isto, Colvin pede ao editor que adie a publicação. O editor, por sua vez, lamenta-se: «Lemos a cópia que nos foi enviada […] e achamos que não pode ser publicada sem modificações. Além disto esperamos que Stevenson não persista na sua vontade de a publicar sozinha, porque chega apenas às trinta mil


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palavras, e não às cinquenta mil, como supusemos que fosse o caso.» Prevendo a hipótese da prévia publicação em fascículos numa revista, como era habitual na época, há mais uma objecção: «A história é muito “ousada”, e foi devolvida a Stevenson uma cópia, pedindo-lhe que faça alterações.» O editor insiste: «Publicado desta forma, o livro seria muito pequeno e considerado um texto muito particular, de excepcional importância; pensamos que esta impressão de grande importância, com que iria ser inevitavelmente recebido, ser-lhe-ia prejudicial.» A contragosto, Stevenson acaba por aceitar que lhe sejam acrescentadas mais três histórias — The Bottle Imp, The Isle of Voices e The Waif Woman — e que o conjunto passe a chamar-se Island Nights Entertainments. Há, porém, uma objecção de Fanny. O último destes contos conta uma história que lhe não agrada, sobretudo por aquela mulher que tão maleficamente domina o marido. O editor acaba por receber do autor este pedido: A minha mulher protesta contra The Waif Woman, e recebi instruções contra a sua inclusão, razão que me leva a fazer o mesmo junto de vós. Fanny cumpria, uma vez mais, o seu papel de anjo protector abrindo asas, não só defensoras da saúde mas dos desvarios que contaminavam a inspiração literária do seu marido. A publicação de A Costa de Falesá em revista foi alvo de cortes, alterações, e da mudança de título para Uma, o nome da principal personagem feminina. Pode ler-se numa carta o que não passa de impotente e longínqua indignação: Proíbo que se edite em volume esta história com o título Uma. É um título estúpido, ilógico. Proíbo que o contrato de casamento seja omitido. E, como se não bastasse, o texto está cheio de abomináveis erros de impressão.


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Stevenson leva o mau humor ao ponto de exigir, de repente, que o volume deixe de conter o conto The Bottle Imp: Recuso que A Costa de Falesá apareça com The Bottle Imp, uma história de inspiração completamente diferente, para a qual já imaginei uma companhia e se destina a outro volume. Era, porém, uma atitude de força com muito mar de permeio e de outro hemisfério. Depois de oito meses de avanços e recuos, The Island Nights Entertainments é publicado com The Beach of Falesá, The Bottle Imp e The Isle of Voices, simultaneamente em Londres e Nova Iorque, no mês de Abril de 1893. Stevenson deixa, com estes contratempos, de ter Sidney Colvin como seu agente, «amigo e defensor», e designa para as mesmas funções o advogado escocês Charles Baxter. A tentativa de escrever um livro de ficção que desse uma ideia realista da linguagem, da paisagem, dos costumes, dos nativos e da sua relação com o espírito dominador das potências colonizadoras, foi recebido com incomodidade pela crítica e pelos leitores da sua época. Sente-se em Wiltshire o inglês de nacionalidade apagada pela força da ilha tropical, aquilo a que lá se chamava beachcomber, o andarilho de costa a costa que destruía em si, aos poucos, toda a hipótese de regresso ao país natal; com laivos de chauvinismo e de racismo, capaz de sexualidade inter-racial, explorador da ingénua boa-fé dos nativos, eles próprios não idealizados por um olhar longínquo e teórico como o de Rousseau. Fazer dele herói de uma novela, sem o dotar de qualidades que pudessem impô-lo à decente arrumação mental vitoriana, sem lhe dar por companhia outra personagem que desviasse para ela a franca simpatia do leitor, era uma provocação. Ocorre-nos uma frase de Conrad em Heart of Darkness, que bem define esta incomodidade: «Aquilo não pare-


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cia terrestre; e os homens… não, desumanos não eram. E bem pior do que isso era a suspeita de não serem desumanos.» Depois de A Costa de Falesá, Stevenson ainda conseguiu escrever e publicar em 1894 The Ebb-Tide (com uma vaga colaboração do seu enteado Lloyd Osbourne), escrever vários capítulos de St Ives (dois anos depois da sua morte completado com o talento e a imaginação menores de Arthur Quiller Couch), chegar a nove capítulos de The Weir of Herminston, a história do juiz enforcador que talvez se destinasse a ser o mais importante de toda a sua obra literária. Pouco depois de ditar esse nono capítulo, teve a apoplexia fatal. Foi sepultado a grande altura, num monte da Valima que o recorda com o nome de Tusitala, que na língua nativa quer dizer «o contador de histórias». A.F.


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A três velhos companheiros de viagem na Oceania Harry Henderson Ben Hird Jack Buckland J.L.S.1

1 H. Henderson era um dos proprietários do navio Janet Nichol que em 1890 transportou Stevenson desde Sydney até Valima; Ben Hird, citado duas vezes no texto, era um dos seus tripulantes; J. Auckland um australiano passageiro da mesma viagem. É curioso que Ben, personagem da vida real, seja dado como amigo da personagem de ficção Wiltshire, narrador de A Costa de Falesá. (N. do T.)


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núpcias nos mares do sul

A primeira vez que vi aquela ilha não era noite nem manhã. A lua estava a oeste, a esconder-se mas ainda grande e brilhante. A leste e bem atravessada pelos raios de uma aurora muito rósea, a estrela da manhã cintilava como um diamante. A brisa da terra soprava-nos as faces e tinha um forte cheiro a lima-brava e a baunilha; mais coisas havia, mas era esta que dominava, e a sua frescura fez-me espirrar. Devo dizer que vivi durante anos numa ilha plana nas imediações do Equador, a maior parte do tempo sozinho entre nativos. Era uma experiência nova; até a língua me era completamente estranha; e a visão destes bosques e destas montanhas, e o exótico perfume que deitavam, renovavam-me o sangue. O capitão apagou com um sopro a chama da bitácula. — Olhe! — disse ele. — Sai dali uma ponta de fumo, Mr Wiltshire, atrás da brecha do recife. Aquilo é Falesá, onde o seu estabelecimento fica, a mais afastada aldeia do leste; ninguém vive no lado em que o vente bate… não sei porquê. Agarre no meu óculo e conseguirá ver bem as casas. Agarrei no óculo; as costas ressaltavam aproximando-se de mim, vi o emaranhado dos bosques e o quebrar da rebentação, os telhados castanhos e o negro interior das casas que espreitavam entre as árvores.


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— Está a reparar num pedaço de branco acolá, a leste? — continuou o capitão a dizer. — É a sua casa. Construída com coral e situada ao alto, com varanda onde pode andar a três de frente; o melhor estabelecimento do Sul do Pacífico. Quando o velho Adams o viu, agarrou na minha mão para a apertar. «A que bela coisa vim ter», disse ele; «Pois veio», respondi, «e não é sem tempo». Pobre Johnny! Só voltei a vê-lo mais uma vez, e nessa altura já a cantiga era outra… não conseguia entender-se com os nativos nem com os brancos, nem sei com quê; e na vez seguinte que aqui viemos estava morto e enterrado. Arranjei um pouco de madeira e escrevi-lhe isto: «John Adams, obit oitocentos e sessenta e oito. Passa por aqui e segue o seu exemplo.» Sinto saudades desse homem. No Johnny nunca vi nada que fosse de condenar. — Do que morreu ele? — perguntei. — De uma doença qualquer — disse o capitão. — Dá a ideia de a ter apanhado de repente. Parece que se levantou durante a noite, se encheu com um mata-dores e essa mezinha do Kennedy. Nada a fazer; já estava longe de mais para essa coisa do Kennedy. Tentou abrir uma caixa de gim. Mas isso também… não deu nada. Não tinha força que chegasse para tanto. Depois deve ter-se voltado, corrido até à varanda e dado uma salto por cima do varão. No dia seguinte, quando o encontraram estava doido varrido… não parava de dizer qualquer coisa relacionada com o facto de alguém andar a regar-lhe a copra1. Pobre John. 1 A copra é a polpa da noz de uma espécie de coqueiro de onde se extrai o óleo que dá origem ao copraol (óleo de coco) usado em supositórios, velas, etc. e na alimentação. A rega da copra com água fá-la, por absorção, aumentar de peso, o que permite obter na sua venda uma vantagem fraudulenta. Isto diminui-lhe também a qualidade. (N. do T.)


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— Pensa-se que tenha sido a ilha?… — perguntei. — Bem, pensou-se na ilha, nos seus aborrecimentos e noutras coisas — respondeu. — Nunca ouvi dizer que ela fosse um lugar doentio. O Vigours, o vosso anterior agente, nem num cabelo teve alguma vez a mais pequena coisa. Esse foi-se por causa da costa… dizia que tinha medo do Black Jack, do Case e do Whistling Jimmie, que nessa altura ainda estava vivo mas não tardou, durante uma bebedeira, a afogar-se. Quanto ao velho capitão Randall, sempre aqui tem estado desde oitenta e quatro ou oitenta e cinco. Nunca vi nada de mal no Billy, nem que se tivesse modificado muito. Dir-se-á que vai viver tanto como o velho Cafusalém. Não, acho isto saudável. — Ali vem um barco — disse eu — direito ao canal; parece uma baleeira de dezasseis pés: com dois homens brancos às escotas da ré. — É o barco de onde o Whistling Jimmie se deitou a afogar! — exclamou o capitão. — Dê-me cá esse óculo. Sim, é quase de certeza o Case com o escarumba. Ele tem uma reputação má que se farta, mas sabe que lugar é a costa quando se trata de mexericos. Eu tinha na ideia que o Whistling Jimmie era a pior coisa de todo este sarilho; e que um dia, fique a sabê-lo, ainda iria desta para melhor. Quer apostar que vêm aqui atrás do gim? Pode crer, um contra dois, que vão levar seis caixas. Quando os dois comerciantes subiram pela borda, desde logo ou quase desde logo me diverti com o seu aspecto, o aspecto de ambos, e a linguagem de um deles. Depois de quatro anos de Equador, que sempre vi como anos de prisão, anos em que estiveram sempre a fazer de mim tabu e eu a ir aos Paços


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do Conselho para me livrar dele, a encharcar-me com gim até rebentar e depois a arrepender-me disso, a ficar de noite em casa só com um candeeiro por companhia, ou a dar passeios na costa a pensar no género de louco em que eu deveria incluir-me para continuar ali onde estava, sentia-me ansioso por ver brancos perto de mim. Na minha ilha não havia outros brancos; e quando naveguei em direcção à seguinte, rudes fregueses formavam a maior parte daquela sociedade. Ver agora aqueles dois subirem a bordo, era um prazer. Um deles negro, é bem verdade, mas ambos aperaltados com pijama às riscas e chapéu de palha, e Case com um ar que até numa cidade muito bem ficaria. Era amarelo e pequenote, com um nariz de falcão em pleno rosto, olhos claros e barba aparada à tesoura. Ninguém sabia qual era o seu país, nada além de que falava inglês e pertencia, como era evidente, a uma respeitável família e tinha uma esplêndida educação. Cheio de talentos também; tocava acordeão como um virtuoso, e se lhe déssemos um cordel, uma rolha ou um baralho de cartas, mostrar-se-ia tão bom a fazer truques como um profissional. Quando para aí lhe dava, sabia ter uma conversa adequada a um salão; mas quando lhe dava para a blasfémia sabia-as piores do que as de um mestre de equipagem ianque e dizia coisas de tal ordem, que até um canaca assustariam. As maneiras que mais conviessem ao momento, eram as que Case adoptava; e pareciam sempre naturais, como se lhe pertencessem de nascença. Tinha uma coragem de leão e uma astúcia de rato; e se hoje não estiver no inferno é porque um tal lugar não existe. Só conheci àquele homem uma coisa boa: afeiçoara-se à sua mulher e tratava-a com afabilidade. Era uma mulher de Samoa que pin-


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tava o cabelo de vermelho, à maneira da sua terra. E quando ele morreu (como hei-de contar) viu-se uma coisa estranha: tinha, como um cristão, feito testamento; e como era ele quem tratava da contabilidade, tinha a sua viúva ficado com tudo; não apenas o que era dele, dizia-se, mas tudo o que pertencia a Black Jack e, ainda por cima, a maior parte do que pertencia a Billy Randall. Nessa altura ela voltou para a sua terra na goleta Mann’a; e hoje, no lugar que lhe pertence, é uma senhora. Mas nessa manhã eu não sabia mais de tudo isto do que uma mosca. Case tratou-me como a um cavalheiro e a um amigo, deu-me as boas-vindas a Falesá e pôs-se ao meu dispor; coisa da maior utilidade, devido à ignorância que eu tinha a respeito dos nativos. Passámos a melhor parte do dia sentados no camarote a beber, para ficarmos a conhecer-nos, e nunca ouvi homem com um discurso mais apropriado às circunstâncias. Não havia nas ilhas comerciante mais esperto e mais astuto. Falesá pareceu-me uma terra agradável e, quanto mais eu bebia, mais leve o coração me ficava. O nosso anterior agente tinha-se posto a andar de uma hora para a outra, embarcando ao acaso num navio que transportava mão-de-obra para o ocidente. Quando o capitão ali voltou, deu com o estabelecimento fechado, as chaves entregues a um pastor indígena da igreja e uma carta do fugitivo a confessar que tinha temido, com bastante susto, pela sua vida. A partir daí a firma ficou, claro está, sem representante e deixou de haver carregamentos disponíveis. Como o vento, além do mais, era favorável, e o capitão esperava chegar de madrugada e com boa maré à ilha mais próxima, a tarefa de pôr a minha tralha em terra foi rapidamente


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executada. Não havia razão para isso me preocupar, disse Case; ninguém tocaria nas minhas coisas; em Falesá toda a gente era honesta; só o não era tratando-se de galinhas, de uma faca ou de um rolo de tabaco fora do vulgar; quanto ao resto podia eu estar descansado até o navio partir; podia ir directamemte para a casa dele e visitar o velho capitão Randall, o pai da costa, comer do que por acaso lá houvesse, e quando fosse escuro ir para casa dormir. Era meio-dia, e a goleta aparelhou antes de eu pôr os pés na costa de Falesá. Eu tinha bebido a bordo um copo ou dois; tinha acabado de sair de um longo cruzeiro, e o chão ondulava sob os meus pés como o tombadilho de um barco. Era como se o mundo tivesse sido todo pintado de fresco, e o meu pé avançava ao som de música; Falesá bem podia ser o Fiddler’s Green1, se tal lugar existir, levando-nos a maior das razões a lamentar se isso não acontecer! Era bom pisar a erva, levantar os olhos para as montanhas verdes, ver os homens com as suas grinaldas verdes e as mulheres com as suas roupas de intensos vermelhos e azuis. Caminhámos ambos com prazer debaixo do sol forte e à sombra fresca; e todas as crianças do lugar corriam atrás de nós com cabeças rapadas e corpos morenos, soltando na nossa esteira uma espécie de gritos leves, parecidos com os de pequenos frangos. — A propósito — disse Case — temos de arranjar-lhe uma mulher. — Pois sim — disse eu. — Já nem disso me lembrava. 1 Paraíso dos marinheiros, associado aos lugares de prazer da terra, depois de grandes temporadas no mar. (N. do T.)


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Havia uma porção de raparigas à nossa volta; eu próprio me pus muito direito, passando por elas o olhar como um paxá. Estavam todas bem vestidas, em honra do navio ali ancorado; e as mulheres de Falesá formavam um conjunto agradável à vista. Se um defeito tivessem, era a carena um pouco larga; e estava eu a pensar nisto quando Case me tocou com a mão. — Esta é bonita — disse ele. Vi uma que seguia sozinha e afastada das outras. Como tinha estado a pescar, não mais trazia vestida do que uma camisa toda ensopada. Era nova e muito delgada para donzela das ilhas, com rosto comprido, testa alta e um estranho olhar tímido, quase cego, entre o do gato e o de uma criancinha. — Quem é? — perguntei. — Ela serve. — É a Uma — disse Case. Chamou-a e começou a falar-lhe na língua nativa. Eu não sabia o que ele estava a dizer-lhe, mas quando aquilo ia a meio ela deitou-me um olhar tímido e rápido como o da criança que se esquiva de uma pancada; depois voltou a baixar os olhos e fez de imediato um sorriso. Tinha uma boca larga, lábios e queixo tão bem talhados como os de uma estátua; e o sorriso por um momento visível desapareceu. Ficou depois com a cabeça inclinada, a ouvir Case até ao fim, e falou-lhe com a bonita voz da Polinésia, a olhá-lo bem de frente, a ouvi-lo e a responder-lhe; e depois, com uma reverência, foi-se embora. Limitei-me a retribuir a vénia, mas sem direito a nenhum olhar seu e sem o mais leve sinal de um sorriso. — Julgo que está tudo no bom caminho — disse Case. — Julgo que conseguirá ficar com ela. Vou arranjar as coisas com a


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velha. Um rolo de tabaco de má qualidade dá para fazermos estas escolhas no lote — acrescentou com um sorriso de desprezo. Este sorriso, que a minha memória reteve, é que me impressionou, suponho eu, porque fui incisivo ao responder com veemência: — Não me parece dessa espécie! — Não sei o que ela é — disse Case. — Acredito que se recomende. Mantém-se metida consigo, não anda para aí com o bando e tudo o mais. Oh, não, não vá interpretar-me mal… A Uma é alguém como deve ser. — Falava com calor, pensei eu, o que me agradava e surpreendia. — Aliás — acrescentou — não tenho assim tanta certeza de consegui-la; só se a sua fronha lhe tiver dado no goto. Tudo quanto tem a fazer é manter-se na sombra e deixar-me arranjar as coisas com a mãe; levo-lhe a rapariga à casa do capitão, para o casamento. A palavra casamento não era do meu gosto, e disse-lho. — Oh, nada de chocante existe no casamento — disse ele. — O Black Jack será o capelão. Nesta altura ficou à vista a casa destes três homens brancos; porque um negro conta tanto como um branco, e o mesmo acontece com um chinês! Uma ideia estranha mas vulgar nas ilhas. A casa era de tábuas, transversalmente barrada por uma varanda instável. Tinha na parte da frente a loja com balcão, balança e mercadorias o mais miseráveis possível; uma ou duas caixas de carne em conserva; um barril de biscoito; uns quantos rolos de tecido de algodão, nada que se comparasse com a minha. A única coisa bem representada era o contrabando, armas de fogo e álcool. «Se os meus rivais só forem estes», pensei, «isto


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vai correr bem em Falesá.» De facto, só com espingardas e bebidas tinham forma de me fazer concorrência. Na sala das traseiras estava o velho capitão Randall agachado no chão à maneira dos nativos, gordo e pálido, nu até à cintura, cinzento como um texugo, com olhos que a bebida tornava fixos. Tinha o corpo coberto por um pêlo cinzento onde rastejavam moscas; uma pousara-lhe no canto de um olho — mas nunca a enxotava; à volta do homem zumbiam mosquitos como abelhas. Qualquer cabeça com juízo tiraria dali aquela criatura para a enterrar; só de vê-la e pensar que tinha setenta anos, que outrora comandara um navio, tinha feito desembarques metida em bonitas farpelas, falado com voz alta em bares e consulados, que tinha estado sentada na varanda de clubes, deu-me vontade de vomitar e tornar-me sóbrio. Tentou levantar-se quando entrei, mas não havia qualquer esperança de conseguir fazê-lo; estendeu-me portanto a mão e balbuciou um comprimento qualquer. — Esta manhã já o Papá tem a sua conta — observou Case. — Há por aqui uma epidemia, e o capitão Randall toma gim como profilático… não é verdade, Papá? — Nunca tomei semelhante coisa na minha vida! — exclamou o capitão, indignado. — Mr Qualquer-coisa, bebo gim por questões de saúde… como medida de precaução. — Muito bem, Papá — disse Case. — Mas terás de pôr-te de pé. Vai haver um casamento… Mr Wiltshire, aqui presente, vai juntar os trapinhos. O velho perguntou com quem. — Com a Uma — disse Case.


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índice

Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . I. II. III. IV. V.

Núpcias nos Mares do Sul. . . . . . . . . . . . . . . . . . A exclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O missionário. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A obra do diabo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Noite no bosque. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Robert Louis Stevenson A COSTA DE FALESÁ

Robert Louis Stevenson A COSTA DE FALESÁ tradução e apresentação de

Aníbal Fernandes

Uma história que me trespassou como uma bala, num momento de pânico quando me senti sozinho nesta selva mágica.

www.sistemasolar.pt

Robert Louis Stevenson

A COSTA DE FALESÁ

Robert Louis Stevenson, A Costa de Falesá  

«Logo aos primeiros contactos com a realidade dos Mares do Sul, Robert Louis Stevenson pressentiu que ia escrever uma obra que os teria por...

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