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Revista E - Abril 2026

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Revista E | abril de 2026 nº 10 | ano 32

Saúde Desafios de comunicar em tempos de desinformação

Fotografia O racismo pela lente de Eustáquio Neves

Trilhas Ecoturismo na cidade ganha força

Roda Lia de Itamaracá revisita sua história

9 a 19 de abril de 2026

Rodas de conversa, ofi cinas, vivências, cursos e apresentações propõem refl exões sobre saúde e práticas de cuidado individual e coletivo em 31 unidades do Sesc em São Paulo.

abertura

Saber de Si, Saber de Nós –Letramento e Comunicação em Saúde

Bate-papo com Benedita Casé e Carlos Ruas. Mediação: Naruna Costa.

9/4 | Quinta, 19h30 | Sesc Ipiranga

Saiba mais em sescsp.org.br/inspira

CAPA: Detalhe da Trilha dos Guaianás, nova opção de lazer e ecoturismo inaugurada em fevereiro, na zona Leste de São Paulo. O percurso tem doze quilômetros e atravessa a Área de Proteção Ambiental (APA) Parque e Fazenda do Carmo, interligando o Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo, o Parque do Carmo – Olavo Egydio Setúbal, o Planetário Municipal do Carmo – Professor Acácio Riberi e o Sesc Itaquera.

Crédito: Nilton Fukuda

Leia também a revista em versão digital na sua plataforma favorita:

Portal do Sesc (QR Code ao lado)

Ações educativas no tempo presente

APP Sesc São Paulo para tablets e celulares

Legendas Acessibilidade

Em estabelecimentos de uso coletivo é assegurado o acompanhamento de cão-guia. As unidades do Sesc estão preparadas para receber todos os públicos.

Promover o bem-estar da população está no cerne das ações do Sesc – Serviço Social do Comércio desde sua criação, em 1946. Trata-se de um compromisso firmado com os trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo, seus dependentes, bem como de toda a comunidade, convidada a integrar e usufruir de uma extensa e diversificada programação nos campos do lazer, da cultura, dos esportes, do turismo, da saúde e alimentação.

As atividades oferecidas nas 44 unidades presentes em todo o estado buscam integrar, aproximar e proporcionar novas experiências que geram encontros e ampliam o repertório sociocultural. São cursos, oficinas, vivências, bate-papos e apresentações artísticas planejadas e desenvolvidas a partir das premissas de uma ação educativa permanente, com foco na multiplicidade de vozes e de saberes, e ancoradas em consonância com a sustentabilidade e com a acessibilidade, reverberando as urgências e as necessidades do tempo presente.

Ao garantir esforços e recursos na permanência dessa iniciativa emancipadora, o empresariado do setor, mantenedor da entidade, reafirma cotidianamente seu protagonismo na construção conjunta de uma sociedade com oportunidade para todos.

Abram Szajman Presidente do Conselho Regional do Sesc no Estado de São Paulo

Comunicar a saúde

Entre os inúmeros desafios que se impõem no tempo presente, está o de fazer a gestão do volume de informações a que temos acesso. Se, por um lado, as tecnologias facilitam o alcance ao conhecimento, por outro, permitem a circulação de conteúdos falsos, que confundem a população e geram a desinformação, num fenômeno chamado de infodemia. No campo da saúde, cresce a preocupação pelo alto teor de notícias fraudulentas que circulam nos ambientes midiáticos. São, não raras vezes, orientações sem embasamento científico ou falsamente atribuídas a nomes conhecidos da área médica, que propõem tratamentos, produtos e soluções sem o necessário compromisso ético, colocando em risco o bem-estar e a própria vida das pessoas.

Como o domínio dos processos de comunicação pode contribuir para a saúde? Essa pergunta tem motivado um número cada vez maior de profissionais do setor, em busca de criar meios seguros e confiáveis de circular informações nesse campo. Reportagem desta edição da Revista E discute o tema e traz exemplos de iniciativas de projetos bem-sucedidos nesse propósito, servindo de parâmetro da acessibilidade informacional em saúde. Trata-se de uma ação que visa o cuidado integral, com responsabilidade, ampliando o senso crítico para realizar uma comunicação precisa, assertiva e que gere impacto real. Boa leitura!

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC

Administração Regional no Estado de São Paulo Av. Álvaro Ramos, 991 – Belenzinho

CONSELHO REGIONAL DO SESC EM SÃO PAULO

Presidente: Abram Abe Szajman

Diretor do Departamento Regional: Luiz Deoclecio Massaro Galina

Efetivos: Arnaldo Odlevati Junior, Benedito Toso de Arruda, Dan Guinsburg, Jair Francisco Mafra, José de Sousa Lima, José Maria de Faria, José Roberto Pena, Manuel Henrique Farias Ramos, Marcus Alves de Mello, Milton Zamora, Paulo Cesar Garcia Lopes, Paulo João de Oliveira Alonso, Paulo Roberto Gullo, Rafik Hussein Saab, Reinaldo Pedro Correa, Rosana Aparecida da Silva, Valterli Martinez, Vanderlei Barbosa dos Santos. Suplentes: Aguinaldo Rodrigues da Silva, Antonio Cozzi Junior, Antonio Di Girolamo, Antônio Fojo Costa, Antonio Geraldo Giannini, Célio Simões Cerri, Cláudio Barnabé Cajado, Costabile Matarazzo Junior, Edison Severo Maltoni, Omar Abdul Assaf, Sérgio Vanderlei da Silva, Vilter Croqui Marcondes, Vitor Fernandes, William Pedro Luz.

REPRESENTANTES JUNTO AO CONSELHO NACIONAL

Efetivos: Abram Abe Szajman, Ivo Dall’Acqua Junior, Rubens Torres Medrano Suplentes: Álvaro Luiz Bruzadin Furtado, Marcelo Braga

CONSELHO EDITORIAL | Revista E

Adriana Martins Dias, Amanda Martins Jacob, Ana Carolina Rodrigues, Andrea de Oliveira Rodrigues, Antonio Carlos F Barbosa, Bruna Gavioli Ramos, Bryan Alan Belati Pinheiro, Camila Oliveira Silva, Caroline Figueira Zeferino, Cibele Camachi, Cinthya de Rezende Martins, Cristina Berti Ribeiro, Deborah Dias Matos, Diego Polezel Zebele, Diogo de Moraes Silva, Elmo Sellitti Rangel, Fabia Lopez Uccelli dos Santos, Fabiane Emilio dos Santos, Felipe Silva Pasqua, Fernanda Porta Nova Ferreira da Silva, Flavia Dziersk de Lima Silva, Flavio Aquistapace Martins, Francisca Meyre Martins Vitorino, Gabriela Camargo das Graças, Gabriela Grande Amorim, Giovanna Alves Facci, Giovanna Cordeiro Nunes, Giulia Maria de Campos Manocchi, Gleiceane Conceicao Nascimento, Henrique Vizeu Winkaler, Isadora Vasconcelos de Oliveira Silva, Ivy Beritelli Jose de Souza, Ivy Granata Delalibera, Janete Bergonci, Juliana Neves dos Santos, Karen Leal da Silva, Laise Ferreira Guedes, Laudo Bonifacio Junior, Leandro Aparecido Pereira, Leonardo Thomaz Pereira da Silva, Leticia Yamashita Weigand, Livia Lima da Silva, Luana Brito Lima, Marcelo Baradel, Marcos Afonso Schiavon Falsier, Marcos Villas Boas, Milena Ostan da Luz, Monica Calmon Braga Mendonça, Monique Mendonça dos Santos, Natalia de Souza Freitas, Patricia Helena de Sousa, Renan Cantuario Pereira, Renata Barros Da Silva, Ricardo Lemos Antunes Ribeiro, Roseane Silveira De Souza, Sandra Ribeiro Alves, Sara Maria da Silva, Sawil Danrley Ramos Cordeiro, Stephany Tiveron Guerra, Talita Ferreira dos Santos, Tarianne da Silva Pinto Bertoza, Tulio Magno de S. P. Costa, Valeria Mantovani de Andrade Alves, Vinicius Silva de Azevedo, Vivianne de Castro, Wellington Luiz Siqueira.

Coordenação-Geral: Ricardo Gentil

Coordenação-Executiva: Ligia Moreli e Silvio Basilio

Editora-Executiva: Adriana Reis Paulics • Edição de Arte e Diagramação: Lucas Blat • Edição de Textos: Adriana Reis Paulics, Diego Olivares, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Revisão de Textos: Pedro P. Silva • Edição de Fotografia: Nilton Fukuda • Repórteres: Diego Olivares, Lígia Scalise, Luciana Oncken, Luna D'Alama, Marcel Verrumo, Marina Pereira e Rachel Sciré • Coordenação Editorial Revista E: Adriana Reis Paulics, Marina Pereira, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Propaganda: Edmar Júnior, Jefferson Santanielo, Julia Parpulov e Vitor Penteado • Apoio

Administrativo: Juliana Neves dos Santos e Talita Ferreira dos Santos • Arte de Anúncios: Alexandre Calderero, Flávia Castanheira, Jucimara Serra, Leandro Vicente, Luciana Facchini, Mildred Conde Gonzalez, Walter Souza e Wendell de Lima Vieira • Supervisão Gráfica: Rogerio Ianelli • Criação Digital Revista E: Cleber Paes e Rodrigo Losano • Circulação e Distribuição: Vanessa Zago

Jornalista responsável: Adriana Reis Paulics (MTB 37.488).

A Revista E é uma publicação do Sesc São Paulo, sob coordenação da Superintendência de Comunicação Social

Distribuição gratuita. Nenhuma pessoa está autorizada a vender anúncios. Esta publicação está disponível para retirada gratuita nas unidades do Sesc São Paulo e também em versão digital, em sescsp.org.br/revistae e no aplicativo Sesc SP para tablets e celulares (Android e IOS). Fale conosco: revistae@sescsp.org.br

No mês do Dia

Mundial do Lazer, simpósio sobre o tema no Sesc São José dos Campos é um dos destaques da programação

Aos 80 anos, musicista e arte-educadora

Doroty Marques comenta trajetória e trabalhos em comunidades em situação de vulnerabilidade

Os desafios de profissionais de saúde e comunicadores em meio a uma epidemia de desinformação

Trilhas com diferentes características ganham adeptos entre quem busca contato com a natureza sem sair da cidade grande

Dona de uma voz marcante e temperamento inquieto, Angela Ro Ro construiu carreira à sua maneira

Com sua lente fotográfica e linguagem autoral, Eustáquio Neves revela fissuras da experiência negra no Brasil

dossiê entrevista saúde bio gráfica turismo

Marcelo Costa Braga (Entrevista); Everton Amaro/FIESP (Bio); Eustáquio Neves (Gráfica)

Naruna Costa conversa sobre vivência no teatro, cinema, TV e música

Os impactos sociais e ambientais da inteligência artificial são debatidos em artigos de Sergio Amadeu da Silveira e Marcelo Tas

Paula Fábrio (carta) e Laura Athayde (ilustração)

em pauta encontros inéditos

Formada nas rodas de ciranda, Lia de Itamaracá celebra conquistas e projeta novos sonhos

Um passeio visual por diferentes tipos de árvores frutíferas espalhadas pelas ruas da capital paulista

Deborah Dias Matos

CURADORIA

LUCAS MENEZES

LORRAINE MENDES

RISCADURA DE FOGO

Visitação Até 2 de agosto de 2026

Local Área de convivência

Grátis. Livre.

Terça a sábado, das 10h às 21h

Domingos e feriados, das 10h às 18h

Sesc Pompeia

Rua Clélia, 93 – São Paulo tel +55 11 3871 7700 /sescpompeia sescsp.org.br

Os visitantes do Sesc Santos puderam prestigiar o espetáculo Fernanda Montenegro lê Simone de Beauvoir, leitura dramática realizada por um dos grandes nomes da dramaturgia brasileira. Em cinco sessões, entre os dias 20 e 22/2, o evento marcou a reabertura do teatro da unidade, inaugurado em 1986 e que, ao longo de 2025, passou por uma reestruturação no palco, nos bastidores e na infraestrutura técnica.

Matheus
José Maria

21 abril a 3 maio

Shows e encontros que celebram a diversidade do choro, um dos grandes gêneros da música brasileira. Sesc 24 de Maio | Centro de Pesquisa e Formação

sescsp.org.br/choraco

DOSSIÊ

Em 16/4, Dia Mundial do Lazer, Sesc São Paulo reúne especialistas nacionais e internacionais durante o simpósio Viver o Lazer: Direitos, Espaços e Cidadania

Direito ao lazer

Sesc promove na unidade de São José dos Campos simpósio sobre as dimensões do lazer e seus impactos na qualidade de vida das populações

Abordar a relação entre lazer, políticas públicas, ocupação e democratização dos espaços públicos está entre as propostas do simpósio Viver o Lazer: Direitos, Espaços e Cidadania, realizado no Sesc São José dos Campos em 16 de abril, data que celebra o Dia Mundial do Lazer. O evento reúne especialistas, gestores e pesquisadores para refletir sobre o lazer como direito fundamental e basilar da promoção da qualidade de vida, contribuindo para a construção da cidadania.

Entre os participantes está Makhaya Malema, PhD em Ciências do Esporte, Recreação e Exercício, e professor sênior na Universidade do Cabo Ocidental, que realizará a palestra Lazer como direito: políticas públicas e práticas comunitárias, compartilhando sua experiência em projetos de lazer com comunidades do sul global.

A programação é complementada por eventos sobre as intersecções do lazer com os diferentes contextos sociais, a arquitetura

e o campo da cultura. “O lazer, quando associado à participação ativa da sociedade, torna-se uma ferramenta estratégica de transformação social. O simpósio amplia esse debate ao reunir especialistas e gestores para refletir sobre políticas públicas, inclusão e acesso universal, reforçando o compromisso do Sesc com práticas que promovam equidade, pertencimento e qualidade de vida nos diferentes territórios”, afirma Carol Seixas, gerente da Gerência de Desenvolvimento Físico-Esportivo do Sesc São Paulo.

O Dia Mundial do Lazer é uma iniciativa de alcance global promovida pela World Leisure Organization (WLO). Em 2026, chega à sua sexta edição com o tema “Lazer que inspira mudanças", convidando organizações a refletirem sobre o lazer como agente de transformação social.

Confira a programação completa do simpósio Viver o Lazer: Direitos, Espaços e Cidadania e inscrevase em: sescsp.org.br/unidades/ sao-jose-dos-campos

O lazer, quando associado à participação ativa da sociedade, torna-se uma ferramenta estratégica de transformação social

Carol Seixas, gerente da Gerência de Desenvolvimento Físico-Esportivo do Sesc São Paulo

DOSSIÊ

Quintetinho Caracaxá apresenta-se no Choraço, no Sesc 24 de Maio.

REFERÊNCIAS DO CHORO

De 21/4 a 3/5, o Sesc 24 de Maio realiza a sétima edição do projeto Choraço que, por meio de apresentações, oficinas e bate-papos, reverencia esse gênero musical enraizado em diferentes regiões do país e reinventado por músicos e coletivos tradicionais e contemporâneos. A partir de diferentes regiões do país, a edição de 2026 propõe olhar o choro para além do eixo Rio–São Paulo. O evento se organiza em seis shows que homenageiam nomes fundamentais da história do

ARTE DO FOGO

gênero, como Paulo Moura (1932-2010), Canhotinho, Laércio de Freitas (1941-2024), Copinha (1910-1984), Raphael Rabello (1962-1995), Dino 7 Cordas (1918-2006) e Pixinguinha (1897-1973). Entre os destaques da programação estão o grupo Choro Mulheril, de Santa Catarina; Ruy Godinho, de Brasília; Caetano Brasil, de Minas Gerais; e Choro do Norte, do Pará, com participações das cantoras Patrícia Bastos e Leila Pinheiro. Saiba mais em: sescsp.org.br/sesc24demaio

O Sesc Interlagos realiza LABAREDA Mostra

Circense de Arte do Fogo, de 24 a 26/4, reunindo artistas, educadores e o público em uma experiência imersiva por meio da pirofagia. A programação traz espetáculos, intervenções, uma ação formativa e um bate-papo que exploram a arte e a técnica do fogo nas linguagens do circo e da performance. Como prévia da mostra, nos dias 11 e 12/4 será apresentado o projeto “Pirofagia

Segura, com Barbara Francesquine e Isis Talismã, uma aula-espetáculo que propõe ao público uma introdução sobre essa prática, abordando a preparação, os limites e o respeito ao fogo como linguagem artística. Confira a programação completa em: sescsp.org.br/labareda

Gestão do esporte para educadores

Para qualificar gestores que atuam no campo do esporte, o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo promove o curso Gestão do Esporte e suas interfaces com a prática pedagógica. A formação é híbrida (aulas presenciais e online, em formato síncrono) e foi estruturada para profissionais que desejam aprimorar suas habilidades, abordando temas como direitos humanos e diversidade, políticas públicas, planejamento, gestão de projetos e articulação intersetorial. A atividade tem carga horária de 50h e será realizada entre os dias 12/5 e 10/7, às terças e quintas, das 14h30 às 17h. As inscrições são online, de 6 a 10/4, e podem ser feitas em: sescsp.org.br/cpf

Técnica e emoção aquecem a LABAREDA Mostra Circense de Arte do Fogo, de 24 a 26/4, no Sesc Interlagos.

Maria Vitoria (Referências do choro); Danilo Ferrara (Arte do fogo)
O

DOSSIÊ

Literatura

em circulação

Desde março, a cada mês, uma autoria da literatura brasileira circula por unidades do Sesc da capital, interior e litoral do estado, para compartilhar reflexões sobre a produção literária e suas obras mais recentes, no projeto Leituras Circulantes. Os bate-papos são inspirados por clubes de leitura realizados no mês que antecede os encontros. Em abril, a autora Aline Bei conversa com públicos

do Sesc Consolação (11/4) e do Sesc Birigui (23/4) sobre seu livro mais recente, Uma delicada coleção de ausências (Companhia das Letras, 2025), e realiza um curso no Centro de Pesquisa e Formação (9 e 16/4). As programações seguem com Socorro Acioli, em maio, e Julián Fuks e Sérgio Vaz, em junho. Consulte as informações sobre as atividades em: sescsp.org.br/leiturascirculantes

Caio Blat e Ricardo Blat dividem o palco do Sesc Bom Retiro em texto inspirado na obra de Kafka.

FAMÍLIA EM CENA

O Sesc Bom Retiro apresenta até 26/4 o espetáculo teatral

Subversão Kafka, baseado em contos de Franz Kafka (1883–-1924), como "Um Artista da Fome" (1922). Considerado o mais autobiográfico do autor, o texto foi reeditado em livro póstumo

homônimo, depois que um amigo não seguiu as orientações para que os manuscritos fossem queimados. A produção, que teve estreia de temporada no mês passado, reúne, pela primeira vez, uma família de artistas de teatro: Ricardo Blat na atuação,

Caio Blat na direção e atuação, e Rogério Blat na dramaturgia. Na peça, dois atores transformam atrasos e imprevistos em jogo cênico, narrando histórias absurdas inspiradas no universo do circo. Mais informações: sescsp.org.br/bomretiro

Carlos Costa

FAÇA SUA CREDENCIAL PLENA

A Credencial Plena do Sesc é um benefício gratuito para pessoas com registro em carteira, que são estagiárias, temporárias, se aposentaram ou estão desempregadas há até dois anos em empresas do comércio de bens, serviços e turismo e seus dependentes familiares. Com a Credencial Plena você tem acesso prioritário e descontos na programação e serviços pagos do Sesc.

Qual

é a validade da Credencial Plena?

A Credencial Plena tem validade de até 2 anos - para desempregados, a validade é de 24 meses contados a partir da data de rescisão do contrato de trabalho.

Como fazer a Credencial Plena?

On-line pelo aplicativo

Credencial Sesc SP ou pelo site centralrelacionamento.sescsp.org.br

Se preferir, nesses mesmos canais, é possível agendar horários para realização desses serviços presencialmente, nas Centrais de Atendimento das unidades.

Quem pode ser dependente na Credencial Plena?

• Cônjuge ou companheiro de união estável de qualquer gênero

• Filho, enteado, irmão, neto, tutelado e pessoa sob guarda com até 24 anos

• Pai, mãe, padrasto e madrasta

• Avôs e avós

Relacionamento com Empresas

É o programa que facilita o acesso ao credenciamento dos funcionários das empresas parceiras dos ramos do comércio de bens, serviços e turismo. Nessa parceria, além do credenciamento, os aproximamos de nossa vasta programação e serviços. Saiba mais em sescsp.org.br/empresas

Acesse o portal para saber sobre a Credencial Plena do Sesc

Ricardo Ferreira
Marcelo Costa Braga

Arte como missão

Aos 80 anos recém-completados, a cantora Doroty Marques consolida um percurso que integra expressão artística, pedagogia e mobilização comunitária

Musicista, educadora e ativista social, Doroty Marques fez da arte sua profissão. Pioneira, foi uma das primeiras mulheres a gravar um álbum independente no Brasil, o LP Semente, lançado em 1978, acompanhada do irmão, Dércio Marques (1947-2012), com quem já dividia os palcos em apresentações musicais. Na contracapa do disco, a apresentação do produtor e pesquisador musical Marcus Pereira (1930-1981) dava a dimensão da singularidade de seu estilo. Para ele, os shows da dupla de irmãos eram “riquíssimos na dimensão do talento, da voz, da emoção e do violão de Dércio Marques. E do talento, da voz, da emoção e do bumbo de Doroty Marques”.

Andarilha por natureza, nasceu em 1946, na cidade de Araguari, no Triângulo Mineiro (MG), morou ainda na infância no Rio de Janeiro (RJ) e passou parte da adolescência no Uruguai, terra natal de seu pai, indígena do povo Guarani. Voltou ao Brasil em 1964, poucos dias antes do golpe militar. A partir daquele momento, sua atuação passaria a dialogar, de maneira cada vez mais direta, com o contexto político e cultural brasileiro.

Nos anos seguintes, Doroty circulou por diferentes frentes, aproximando-se de músicos, educadores e grupos teatrais. Fiel ao que sempre cantou, colocou em segundo plano sua presença nos palcos para se dedicar a projetos de impacto social. “Eu sempre vivi no povo. Até que uma hora percebi que a maioria dos artistas chegava, cantava e ia embora. Faltava alguém que realmente mostrasse que existe uma forma melhor do ser humano”, conta. E revela: “Decidi ir para onde precisam mais de mim”.

Na década de 1980, desenvolveu ações em escolas públicas, comunidades periféricas e instituições voltadas à infância e adolescência. Atuou em diferentes estados brasileiros, propondo oficinas e processos coletivos de criação que integravam canto, movimento, percussão corporal e composição, entendendo a arte como instrumento de formação crítica e de organização comunitária.

Participou ainda da estruturação de iniciativas públicas voltadas à proteção de menores em situação de vulnerabilidade, colaborando com a criação da Secretaria do Bem-Estar do Menor em São Paulo.

Ao longo dos anos, seu trabalho foi reconhecido por

entrevista

instituições nacionais e internacionais, chegando a receber da Organização das Nações Unidas (ONU) o prêmio de melhor trabalho em educação alternativa.

Desde 2003, Doroty vive na Vila de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, onde coordena o projeto Turma Que Faz. Ali, mantém um espaço de formação artística e convivência, reunindo crianças, jovens e adultos em processos contínuos de criação.

No último dia 28 de março, Doroty Marques completou 80 anos com um show no Sesc 24 de Maio, inaugurando a temporada 2026 do projeto Viva Viola! [leia mais em Educação pela viola]. Nesta Entrevista, a artista fala sobre a arte como força transformadora, a importância do respeito à natureza e as consequências das novas tecnologias na sociedade.

Como foram suas primeiras experiências com a música, a forma de arte que escolheu para atuar?

Sou filha de pai de origem indígena e mãe cabocla. As pessoas na escola, quando descobriam que eu era mestiça, já não me tratavam igual. Mas eu as conquistava por meio da minha música. Isso era importante porque eu sempre tinha que ganhar a simpatia das pessoas, em cada lugar que passava. A gente mudava muito de cidade naquela época. Meu pai vivia falando: “chega, vamos para outra cidade, começar tudo de novo.” Eu e meus irmãos perguntávamos: “mas e a escola?”. “Escola tem por todos os lados”, ele respondia. “E os amigos?” “Amigos se faz por todos os lados”. A vida toda foi assim. Quando estava no Rio de Janeiro, com 12 anos, me apresentava em programas de TV. Cheguei a cantar ao lado da Wanderléa, que

Me lembro de experiências como na Floresta Amazônica, quando eu tocava e os seringueiros todos choravam. Eles não tinham rádio, nada, nenhum som a não ser o silêncio e os bichinhos da floresta.
Eu cheguei com minha sanfona e com a minha viola e conquistei todos ali.

na época tinha 14 anos. Quando eu era menina, a única rádio que tinha lugar para você ver os artistas era a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Eles tinham um auditório com acesso gratuito. A família podia levar as crianças, era genial. Eu vi todos os nomes mais importantes: Angela Maria (1929-2018), Emilinha Borba (1923-2005), Cauby Peixoto (1931-2016), Marlene (1922-2014), Francisco Alves (1898-1952). Minha universidade foi essa.

Como você se engajou com discussões sociais? Eu tenho ascendência indígena. E o índio é muito unido. Meu pai era dos Guarani do Uruguai, e vivi três anos lá, dos 15 aos 18 anos. Quando voltei para o Brasil, em 1964, os militares tomaram o poder. Cheguei no dia do meu aniversário, 28 de março, em Porto Alegre, e o [Leonel] Brizola (1922-2004, governador do Rio Grande do Sul de 1959 a 1963), estava contratando artistas que cantassem para manter o povo junto. Eu sempre vivi no povo. Até que uma hora percebi que a maioria dos artistas chegava, cantava e ia embora. Faltava alguém que realmente mostrasse que existia uma forma do ser humano ser melhor, mais útil, gostar mais de si próprio e não ser apenas mais um número. Então, decidi ir para onde precisam mais de mim.

E como veio a decisão de passar menos tempo rodando o Brasil, se apresentando nos palcos, e trabalhar mais com arte em comunidades carentes, presídios e até na Amazônia?

Depois de gravar o disco Semente (1978), lancei, em 1980, o segundo disco, Erva cidreira, que chamou a atenção de alguns críticos, como o [José Ramos] Tinhorão (1928-2021) no Rio de Janeiro e o Maurício Kubrusly em São Paulo. Era um momento em que a crítica costumava ocupar meia página de jornal. Foi aí que comecei a fazer mais shows, viajei pelo sertão com a Marinês (1935-2007), que era conhecida como a “rainha do xaxado”. Mas de repente me dei conta de que estava sendo apenas mais uma artista no meio de tantos outros. Enquanto isso, ninguém olhava para as prisões, para locais como a Febem [Fundação Estadual Para o Bem-Estar do Menor, hoje Fundação Casa], para as crianças ou para os adolescentes. Concluí que seria mais importante como artista se fosse para onde as pessoas estão. E foi a esses lugares que me dediquei. Me lembro de experiências como na Floresta Amazônica, quando eu tocava e os seringueiros todos choravam. Eles não tinham rádio, nada, nenhum som a não ser o silêncio e os bichinhos da floresta. Eu cheguei com minha sanfona e com a minha viola e conquistei todos ali.

Como foi o período em que trabalhou dentro de comunidades vulnerabilizadas?

Eu trabalhei por mais de 25 anos nas maiores favelas deste país, montando operetas. No começo dos anos 1990, junto com o governo do estado de São Paulo, montamos um projeto para reestruturar a Febem, incluindo ações culturais no dia a dia das crianças. Chegamos a receber a Princesa Diana (1961-1997). Quando ela chegou com todo aquele ritual e se ajoelhou para ficar do tamanho das crianças, eu chamei toda a meninada para o palco. Eles cantaram uma música que a letra tinha tudo ao contrário dos contos de fadas. Ela se deliciou. Dali a alguns meses, na Eco-92 [Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992], levei 150 meninos representando São Paulo, com uma opereta chamada O dia em que nasceu a noite. E o que a gente mostrava? O cuidado com a água, cuidado com a mata, cuidado com as crianças. Na peça, o sol não nascia mais. Ela mostrava um sol aborrecido, falando “vocês não querem cuidar, então se virem, eu volto daqui 90 dias e esse é o tempo que vocês têm para se acertar”. Aí todos os personagens tinham que se unir para encontrar uma solução.

Seu trabalho está muito ligado à natureza. O que podemos aprender com ela?

A amar e cuidar. O grande erro do homem foi que ele deixou de ser parte integrada ao ambiente natural e passou a consumir a natureza para viver. O ser humano, infelizmente, está deixando de ser um ser natural, um ser criado por Deus e pela Mãe Terra para ajudar a natureza. Talvez para isso ela tenha nos dado a capacidade de pensar, escolher, distribuir, manejar, criar. Eu acho que não era para fazer isso que nós fizemos do mundo. Uma coisa que me entristece é quando eu vejo os turistas que vêm para cá – porque aqui a gente vive do turismo – e chegam já de celular na mão. Eu chamo isso de algema invisível. Eu olho e me dá uma tristeza. Aqui no meio de tanto sabiá, beija-flor, rolinha, tico-tico, arara, tucano, como é que a criança vai ficar olhando aquele troço em cima da mesa? Talvez se houvesse mais sensibilidade essas novas tecnologias não escravizassem tanto. Eu não sou contra as

novas tecnologias, mas eu não gosto da forma que ela foi colocada para a população e da forma que ela está sendo usada. Isso me preocupa. Assim que a meninada daqui começou a poder comprar celular, eu falei: “Na minha turma, não quero isso não”. E a turma nunca mais levou. Sessenta dias depois, o governo proibiu celular na escola.

Como a arte pode transformar as pessoas?

Arte é emoção humana, é o sentimento humano, e Deus colocou a arte em todos os seres. Todos têm uma forma de viver, uma maneira de viver. Se você parar para analisar todas as formas de vida, o ritmo delas, irá observar que é um tipo de arte que a Mãe Terra criou, vamos dizer assim. A arte é vital, assim como é você aprender a escrever, aprender a falar. Porque a arte vai te ensinar a aprender a sentir coisas, não só olhar e saber que aquilo é uma árvore, ou que aquilo é um prédio, ou que aquilo é um rio, mas sim qual é a vivência daquilo com você, qual é a troca que você tem que ter com aquilo.

Como a educação pode contribuir para estimular essa percepção de mundo?

Eu andei por esse país, cantei em quase todas as capitais, e vi que muitos jovens não gostam de ir para escola. Por quê? Se a escola fosse mais aberta, tivesse mais espaço para eles também dizerem quem são, o que sentem, as coisas seriam diferentes. O próprio espaço físico já está errado, é uma cadeia para o professor e para o aluno. Já a minha escola é anárquica, a Turma Que Faz [projeto que coordenada em Vila de São Jorge (GO)] é debaixo das árvores, tem uma mesona que cabem vinte meninos de cada lado e, embaixo dessas árvores, tem uma lona de circo. É um espaço onde os meninos chegam e fazem as leis. Eu só faço uma: não pode agredir o amigo. Trabalhar com arte é a minha guerrilha. Porque é amor, é companheirismo, é amizade. Estou fazendo 80 anos, e nessa idade é impossível alguém olhar para trás e dizer que fez absolutamente tudo certo. Mas eu posso dizer que tenho orgulho de mim. Ao acompanhar o crescimento das pessoas desde que cheguei aqui na Vila e a criação dessa comunidade em torno da Turma Que Faz, sinto que não morro. Eu não fico velha. Você quer herança maior? Eu não conheço.

Percebi que a maioria dos artistas chegava, cantava e ia embora. Faltava alguém que realmente mostrasse que existia uma forma do ser humano ser melhor, mais útil, gostar mais de si próprio e não ser apenas mais um número. Então, decidi ir para onde precisam mais de mim.

Marcelo Costa Braga

para ver no sesc / entrevista

EDUCAÇÃO PELA VIOLA

A música e o processo criativo de Doroty Marques são inspiração para uma série de atividades neste mês

A cantora e arte-educadora Doroty Marques é a homenageada desta edição do projeto Viva Viola!, com programações neste mês nas unidades do Sesc 24 de Maio e Belenzinho. Entre as atividades, estão apresentações musicais entremeadas por rodas de conversa, mediações para crianças, espetáculos de e | 22

teatro infantil, cursos e oficinas, entre outras, todas inspiradas na trajetória da artista.

A própria Doroty é convidada do show do grupo Raíces de América, dia 18/4, no Sesc 24 de Maio, promovendo um encontro entre a viola brasileira e os ritmos latino-americanos.

O uso desse instrumento para além do cancioneiro tradicional é o foco da oficina Os caminhos da viola na música brasileira, em 4 e 5/4, na mesma unidade. O objetivo é oferecer às pessoas participantes técnicas para aplicar seus conhecimentos da música raiz em outros estilos musicais.

Outro destaque da programação é o Laboratório de composição musical, no Sesc Belenzinho, ministrado pela cantora, compositora e instrumentista Lucina, autora de músicas gravadas por artistas como Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Nana Caymmi. Serão três encontros, de 7 a 9/4, para instigar o potencial criativo por meio de exercícios.

Confira a programação completa em: sescsp.org.br/projetos/vivaviola-doroty-marques-80-anos

24 DE MAIO

Os caminhos da viola na música brasileira

Com Leticia Leal. 4/4, das 9h30 às 13h e das 14h às 18h; 5/4, das 9h30 às 13h30. GRÁTIS. Inscrições em sescsp.org.br/24demaio

Raíces de America

Com participação especial de Doroty Marques. 18,4, às 20h. Saiba mais em sescsp.org.br/24demaio

BELENZINHO

Laboratório de composição musical

Com Lucina. De 7 a 9/4, das 18h às 21h. Inscrições em sescsp.org.br/belenzinho

Consuelo de Paula & Socorro Lira

Show “Erva Cidreira - Viva Doroty Marques!”. 24/4, às 21h. Ingressos em sescsp.org.br/belenzinho

Projeto Viva Viola!, nas unidades do Sesc 24 de Maio e Belenzinho, homenageia a cantora e arte-educadora Doroty Marques

Quando o fi m é recomeço

Neste livro, o paleontólogo Michael J. Benton traça um amplo e atualizado panorama da história da Terra, com base nas mais recentes descobertas da biologia, da química, da física e da geologia. Ao revelar como grandes catástrofes ambientais moldaram a trajetória da vida no planeta, o autor conecta as convulsões do passado às crises ambientais atuais e detalha como, até aqui, a vida encontrou caminhos para resistir, se transformar e evoluir.

saiba mais

DESINFORMAÇÃO Vacina contra a

Em meio à epidemia digital de notícias falsas, profissionais têm o desafio de abordar assuntos relacionados à saúde de forma acessível e acolhedora

POR LUCIANA ONCKEN

Theo Ruprechet, do podcast Ciência Suja, aposta em grandes narrativas e investigações de campo para combater notícias falsas.

Durante as noites mais incertas da pandemia de covid-19, a falta de sono tornou-se presença silenciosa nas vielas de Heliópolis, a maior favela de São Paulo, na zona Sul da capital. Por meio de pesquisas, o projeto Observatório de Olho na Quebrada revelou que a insônia vinha, sobretudo, da angústia profunda sobre o futuro, do medo do desemprego e do desespero de não saber como pagar as contas no final do mês.

Diante do problema, a solução encontrada foi criada no próprio território. Em vez de apenas noticiar a situação, a Rádio Comunitária de Heliópolis transformou a dor coletiva em ação, utilizando o levantamento de dados para dar visibilidade às urgências locais. Munidos de informações precisas, mobilizaram parcerias que se converteram em comida na mesa e amparo psicológico para os moradores.

Com o mesmo compromisso, a comunidade mudou o modo de informar. Quando fake news começaram a circular dizendo que a população não deveria usar máscaras de proteção, a rádio percebeu que apenas desmentir a notícia não seria suficiente. A solução foi contratar costureiras locais para produzir as máscaras ali mesmo, gerando renda e desmistificando o medo.

Em Heliópolis, a proposta da rádio comunitária não é apenas ter uma grade de programação, mas ser uma

rede de sobrevivência, acolhimento e cuidado. Como resume o coordenador da rádio, Reginaldo Gonçalves, representante da União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (Unas), “a gente não é a voz da comunidade, mas potencializa essa voz existente no território”. Para ele, é escutando essa voz que a verdadeira promoção da saúde acontece.

PARA ALÉM DA DOENÇA

O êxito de Heliópolis aponta para uma necessidade de resgatar o conceito de saúde no imaginário social. Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) defina seu significado como “um completo estado de bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”, o médico Marco Akerman, sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (FSP/USP), observa que a lógica de mercado reduziu esse imaginário ao consumo de hospitais, planos e medicamentos. Para o especialista, “a saúde real deve extrapolar o tratamento de doenças, consolidando-se no direito à cidade, ao saneamento, à cultura, à educação e ao lazer.”

Para que a comunicação traduza isso na prática, a disciplina de promoção da saúde, comunicação e educação da FSP/USP, tirou seus alunos das salas de aula, propondo as “andanças semióticas” em busca do conceito de saúde. Ao caminharem por São Paulo, os estudantes puderam traduzir as desigualdades e as potências do território

Nilton Fukuda
Reginaldo Gonçalves na sede da Rádio Comunitária de Heliópolis, tornou-se uma peça fundamental na comunicação sobre saúde na região.
saúde

em formatos inovadores, como zines de protesto, aplicativos e perfis interativos nas redes sociais. O exercício revelou que “a saúde pública funciona como um catavento: uma estrutura que só ganha movimento e gera energia quando todas as suas pás (educação, assistência social, segurança e cultura) giram juntas”, como apresenta o guia Promoção da Saúde em Ação, do Centro de Estudos, Pesquisa e Documentação em Cidades Sustentáveis (CEPEDOC/USP).

COMUNICAR COM CONTEXTO

Historicamente, um dos desafios da comunicação em saúde foi criar pontes. Em muitos casos, veículos de comunicação e instituições de saúde abordaram o tema a partir de uma lógica autoritária, ditando regras sobre o que fazer e exigindo que a população cumprisse as orientações, desconsiderando suas vivências.

Pesquisadora e doutora em Saúde Pública, Monique Oliveira desconstrói frontalmente modelos de comunicação que não levam em consideração o contexto social dos indivíduos. “Comunicação não é troca de informação. Comunicação é um encontro de sentidos e de mundos”, defende. Ela argumenta que, no ato de comunicar, desconsiderar a complexidade da população não gera saúde, mas distanciamento: “Eu chego em uma comunidade e falo: ‘Lavem as mãos’. Mas, e se ali ninguém tiver água? É preciso estar comprometido com os sujeitos e os contextos”, pondera.

Sob essa ótica, o conceito de “letramento em saúde” ganha um significado muito mais democrático.

A pesquisadora defende que o letramento serve para “abrir uma ponte de negociação onde esses mundos possam conversar”, colocando a pessoa como protagonista de suas escolhas.

Exemplo de ações nessa linha é o projeto JuventudeS e Saúde, realizado no Grajaú (extremo da zona Sul de São Paulo). Ao perceber que os adolescentes da região evitavam os serviços de saúde por medo de represálias e constrangimentos ao falarem sobre sexualidade e prevenção do HIV/aids, o projeto propôs uma solução analógica e simples: instalar caixas de perguntas anônimas nas escolas, permitindo que as dúvidas reais sobre prazer, HIV/aids e identidades emergissem longe do olhar repressor. A iniciativa trouxe aos

adolescentes a dimensão do protagonismo, deixando de ser meros objetos de estudo e se transformando em comunicadores de suas próprias realidades.

A ESCUTA QUE QUEBRA TABUS

No programa da rádio Heliópolis Saúde das mulheres nas ondas do rádio, comandado pela locutora Vera Lúcia Pereira da Silva, um batepapo com uma enfermeira e uma assistente social abriu um tema até então inesperado e que tomou conta do episódio daquele dia: a sexualidade das pessoas idosas. Revelou-se ali uma demanda reprimida e silenciosa. O sucesso do tema foi tamanho que precisou ser repetido em mais três programas, forçando a rádio a alterar sua grade de planejamento para atender ao clamor do território.

Como o tema carrega um forte peso moral, a rádio funcionou como um porto seguro, um lugar onde o anonimato foi respeitado. A adesão só foi possível porque o tom adotado fugiu do jargão clínico. “A gente procurou fazer um bate-papo com uma linguagem simples, nada muito técnico. Era para acolher, para abraçar a comunidade mesmo”, explica Vera Lúcia.

O retorno dessa abordagem humanizada extrapolou os microfones e materializou-se nas ruas de Heliópolis. Dias após o programa ir ao ar, ao caminhar pela comunidade, ela foi parada por uma ouvinte: “Veio uma senhora com os seus oitenta e poucos anos me abraçar e dizer que finalmente alguém falou aquilo que ela queria ouvir. Ela se sentiu representada”.

LINGUAGEM IMPORTA

O processo de comunicação é amplo e envolve a linguagem acessível e livre de julgamentos também no ambiente de atendimento clínico. A revolução na comunicação em saúde, para ser completa, precisa adentrar os consultórios.

A jornalista Cristiane Segatto, ganhadora do Prêmio Esso de Jornalismo por duas vezes, resume a regra de ouro para esse ambiente: “A comunicação não é aquilo que você diz, é aquilo que o outro entende do que você diz”. Recentemente, ela traduziu em linguagem acessível o tema da endometriose, com o livro Dores

femininas: a jornada humana de um médico contra a endometriose (Matrix Editora, 2025), em coautoria com o médico ginecologista Rubens Paulo Gonçalves Filho.

O médico Luis Fernando Correia, comentarista de Saúde da CBN e TV ConnectUSA, pontua: “Na hora que você tem o dado científico mostrando que mais da metade dos pacientes sai da consulta do médico sem entender o que aconteceu, algo está errado. A culpa não é do paciente, é responsabilidade do médico, que não soube explicar”.

A escolha das palavras no ambiente clínico e na mídia tem um grande peso na adesão aos

tratamentos. Essa mudança de postura encontra amparo em um movimento global caminhando nessa direção. Um exemplo é o guia Linguagem importa, endossado por diversas sociedades médicas. O documento orienta profissionais a abandonarem termos estigmatizantes que reduzem o indivíduo à sua condição. Em vez de rotular alguém como “diabético” ou “obeso”, a orientação é usar “pessoa com diabetes” ou “pessoa com obesidade”. “A existência de uma pessoa não se resume a um diagnóstico”, lembra o médico endocrinologista Fernando Valente, à frente do departamento de Educação da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), uma das sociedades que assinam o documento.

Com ilustrações que naturalizam seu cotidiano com diabetes tipo 1 e deficiência auditiva, Nathalia de Souza faz com que outras pessoas na mesma situação se sintam representadas.

Nilton

saúde

Outro ponto crucial é a eliminação da culpa. O guia recomenda abolir expressões como “trapacear na dieta”. O endocrinologista lembra que essas palavras imprimem um julgamento moral severo, gerando vergonha e afastando o paciente do cuidado. “A linguagem deve reconhecer que viver com uma doença crônica é complexo e que as pessoas fazem o melhor que podem dentro de suas circunstâncias sociais”, observa o médico, que é criador e apresentador do primeiro podcast de saúde do Brasil, criado em 2015 pela SBD.

O SUBMUNDO DA DESINFORMAÇÃO DIGITAL

Se no território físico, o desafio envolve escuta e empatia, no território digital a saúde também enfrenta um inimigo invisível, rápido e que movimenta

muito dinheiro: a indústria da desinformação. O alerta vem do estudo da NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ): “não se trata de ingenuidade, mas de um modelo de negócio”.

O estudo coletou, entre abril e maio de 2025, 170 mil anúncios na principal plataforma de redes sociais, tendo analisado detalhadamente uma amostra de 6.579 dessas peças. O resultado apontou que 4.997 anúncios (76%) eram fraudulentos. A coordenadora de projetos no NetLab/UFRJ, Nicole Sanchotene, uma das responsáveis pelo levantamento, explica que essa indústria utiliza o “populismo comercial”: vende soluções mágicas e fáceis para problemas reais e complexos, frequentemente acusando a medicina tradicional e a indústria farmacêutica de esconderem a cura da população.

O médico Fernando Valente, à frente do departamento de Educação da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), defende mudanças na linguagem médica para evitar perpetuar preconceitos.

Leandro
Godoi

saúde

NA HORA QUE VOCÊ TEM O DADO CIENTÍFICO MOSTRANDO QUE MAIS

DA METADE DOS PACIENTES

SAI DA

CONSULTA DO MÉDICO SEM ENTENDER O QUE ACONTECEU, ALGO ESTÁ ERRADO

O perigo é potencializado pelo uso de inteligência artificial. Golpistas clonam a voz e a imagem de figuras de alta credibilidade para vender suplementos inúteis ou chás milagrosos. “Tem gente ganhando muito dinheiro com isso. Existe um mercado e um sistema muito organizado de desinformação”, adverte Nicole.

Esse mercado da fraude é tão sofisticado que raramente nega a ciência de forma explícita; pelo contrário, ele a sequestra. O jornalista Theo Ruprecht, criador do podcast Ciência Suja, alerta que a desinformação frequentemente se apropria do jargão acadêmico para ganhar credibilidade. “As pessoas não estão negando a ciência, estão propondo uma leitura alternativa, completamente enviesada, porque a ciência oferece um selo que todo mundo quer usar”, reflete o jornalista.

O impacto disso na vida real pode ser significativo. Nesse cenário, um paciente recém-diagnosticado pode estar mais vulnerável, como avalia Valente. “A informação errada é pior do que não ter informação. Quando a pessoa recebe um diagnóstico, está muito vulnerável, muito sensível, e infelizmente essas pessoas se aproveitam da fragilidade para ganhar dinheiro”, lamenta o médico.

"Um dos maiores perigos dessa engrenagem é achar que estamos imunes", destaca Nicole. Ela explica que o ecossistema digital permite a microssegmentação, ou seja, direcionar a propaganda exata para a fraqueza exata de cada usuário – e isso exige uma vigilância. “Em muitos casos, as pessoas enxergam isso como uma coisa dos outros: ‘as outras pessoas é que caem, eu não caio’. Mas é um mercado tão grande que atinge todos os perfis possíveis”, sinaliza a pesquisadora.

Para Correia, da CBN, o principal sinal de alerta de desinformação na internet é o uso do pânico como ferramenta de engajamento. “Se a primeira mensagem que você recebeu é para te causar medo, pare por aí”, ensina. Ele lembra que a verdadeira comunicação em saúde busca orientar, e não assustar. “A informação de saúde não pode levar medo para as pessoas, deve educar”, explica.

Cristiane propõe ainda ações que visem a educação para a saúde desde a infância, nas escolas. “Assim como aprendem português, matemática, as crianças tinham que aprender também a como cuidar da saúde, como ter discernimento para saber se uma informação é confiável ou não”, considera a jornalista.

saúde

ANTÍDOTO NA PRÁTICA

Diante de um ecossistema digital que lucra com o medo, como a ciência pode reagir? A resposta tem vindo de comunicadores que subvertem a lógica do algoritmo. O Ciência Suja aposta em grandes narrativas e investigações de campo para prender a atenção do público e criar um efeito vacina contra fraudes futuras. “A gente acredita que é possível, por meio de recursos narrativos, trazer conceitos de ciência que ajudam a desmontar a desinformação estruturalmente, servindo como proteção para os próximos casos”, explica Ruprecht.

Na internet, o cirurgião-dentista Luiz Rodolfo May dos Santos, criador do perfil Dicas odonto, adotou a roupagem do momento para traduzir ciência. Incorpora os memes em alta e o humor para combater a desinformação. “É preciso pegar as informações científicas atuais e corretas e roteirizá-las de forma leve, usando humor e uma boa narrativa”, aposta.

A arte também surge como uma poderosa ferramenta de letramento. A ilustradora e comunicadora Nathalia de Souza, que vive com diabetes tipo 1 e deficiência auditiva, utiliza seus traços para dar visibilidade a

corpos e situações reais. Um exemplo prático dessa postura foi sua contribuição visual para o e-book Criança de férias – guia para manter a alimentação equilibrada e incentivar a atividade física, uma publicação da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) também disponível em audiobook. Fugindo dos bancos de imagens com modelos que pouco conversam com a realidade da população brasileira, a artista ilustrou diferentes biotipos, etnias e constituições familiares. Em sua página Sweet ilustra, ela expande esse trabalho naturalizando o uso de bombas de insulina e aparelhos auditivos em situações de lazer, de trabalho e do cotidiano. “O fantástico, às vezes, está no simples. Se sentir representado também é saúde”, resume Nathalia.

Seja pelo meme que ensina sobre saúde bucal, pela ilustração que reforça a diversidade, pelo podcast que descomplica a ciência ou pelo microfone de uma rádio na favela que acolhe as dores da comunidade, comunicar a saúde no século 21 transcende o repasse de diagnósticos ou a informação sobre doenças. Envolve escuta, diálogo, acolhimento e letramento, para ser capaz de saber de si a partir do olhar para o coletivo.

A GENTE ACREDITA QUE É POSSÍVEL, POR MEIO DE RECURSOS NARRATIVOS, TRAZER

CONCEITOS DE CIÊNCIA QUE AJUDAM A DESMONTAR A DESINFORMAÇÃO

Theo Ruprecht, criador do podcast Ciência Suja

para ver no sesc / saúde

CONHECIMENTO QUE PROMOVE BEM-ESTAR

Projeto Inspira, realizado em 31 unidades do Sesc na capital, interior e litoral, aborda os desafios da comunicação no campo da saúde

Desde 2018, o projeto Inspira, realizado pelo Sesc São Paulo, convida o público a refletir sobre a saúde de forma integral, transcendendo a mera ausência de doenças e abordando o bem-estar físico, mental, social e ambiental. Na edição de 2026, o projeto adota o tema “Saber de si, saber de nós – Letramento e comunicação em Saúde”.

Por meio de centenas de ações em 31 unidades do estado, o projeto fomenta o senso crítico e a autonomia para que as pessoas tomem decisões

conscientes sobre a própria saúde. A programação é realizada de 9 a 19 de abril. Acesse as atividades em: sescsp.org.br/inspira

Confira destaques do projeto:

IPIRANGA

Saber de si, saber de nós: comunicação em saúde

Roda de conversa sobre a produção de conteúdos digitais e caminhos rumo a uma comunicação segura e confiável na área da saúde. Com Benedita Casé e Carlos Ruas, e mediação de Naruna Costa. Dia 9/4, quinta-feira, às 19h30. GRÁTIS.

CASA VERDE

De Dentro Pra Fora

Em diálogo com a história do bairro, a instalação do Ateliê Mata Adentro é um cantinho de refazimento, um ambiente sensível que articula natureza, memória e cuidado. De 10 a 21/4, terças a sextas, das 10h às 18h30, sábados, domingos e feriado, das 10h às 17h30. GRÁTIS.

SANTO AMARO

A saúde mental em tempos de cólera Palestra com Natália Sousa e Marcos Lacerda sobre os desafios emocionais em um mundo marcado por pressões sociais, competitividade, incertezas e intensos fluxos de informação. Dia 16/4, quinta, das 19h às 21h. GRÁTIS.

tema da comunicação e saúde.

Em 31 unidades do Sesc no estado de São Paulo, projeto Inspira promove reflexões e práticas sobre o

Sem pedir LICENÇA

Angela Ro Ro abriu caminhos, enfrentou preconceitos, remodelou a MPB e viveu com intensidade absoluta

POR LÍGIA SCALISE

Elas tinham um plano. Angela Ro Ro (1949-2025) e Lana Braga imaginavam envelhecer juntas, com calma, depois de tantas curvas e reencontros que atravessaram mais de quatro décadas. Quando Angela deixasse o hospital, a ideia era respirar ar puro, se recolher perto da natureza e recuperar forças, retomando uma rotina simples e afetuosa – conciliando vida e criação artística ao lado de Lana.

“Nos conhecemos quando eu tinha só 23 anos. Angela esteve na minha vida por 45, entre idas e vindas, mas sempre por perto”, conta Lana, produtora, ex-empresária e ex-companheira da cantora. “Achamos que teríamos tempo para viver essa velhice e o nosso grande amor, lado a lado. Ela estava compondo de novo, queria gravar, queria começar outra fase, mas foi tudo muito rápido.” Entre o que se sonhou e o que não se pôde viver, resiste a memória de uma artista que transformou a música brasileira com sua voz rouca e uma presença inconfundível.

MPB DO AVESSO

Ao despontar no final dos anos 1970, Angela Ro Ro trouxe para a música popular brasileira uma dramaticidade visceral, influenciada por blues, jazz e rock. Para o jornalista e escritor Augusto Diniz, aquilo foi uma

O timbre inconfundível e a personalidade sem papas na língua foram marcas de Angela Ro Ro.

ruptura inesperada. “Quando ela apareceu, mudou o jogo. Trouxe referências internacionais e fez sucesso como cantora e compositora, o que era raro para mulheres naquela época. E, além disso, manteve a força emotiva do samba-canção, algo que só Ro Ro sabia fazer”, afirma.

Segundo Augusto, Angela não apenas abriu espaço: ela alterou o formato. “Foi uma outsider que obrigou a MPB a se expandir”. Capaz de ir do rock à canção romântica com igual intensidade, e de imprimir dramaticidade em cada interpretação, Angela Ro Ro foi uma artista de extremos.

ROUCA E VISCERAL

Nascida na cidade do Rio de Janeiro, em 1949, filha única, pianista desde os sete anos, Angela ganhou o apelido “Ro Ro” pela rouquidão herdada da mãe, Conceição. Ainda jovem, para escapar da ditadura militar, passou uma temporada em Londres, na Inglaterra, onde

Ao longo de uma carreira de quase cinco décadas, a cantora se reinventou diversas vezes, sem amansar sua personalidade.

trabalhou como garçonete e faxineira em hospital. Lá conviveu com Glauber Rocha (1939-1981), que a apresentou a Caetano Veloso – então, exilado.

De volta ao Brasil, na segunda metade dos anos 1970, começou a participar de festivais de música, como o de Saquarema, em 1976. Fugiu o quanto pôde de se lançar como cantora profissional porque “sabia que ia dar merda”, disse ela anos mais tarde, justificando sua resistência à fama. Mas quando lançou seu álbum de estreia, Angela Ro Ro (1979), a artista não apenas entrou na MPB, ela escancarou todas as portas com canções como “Amor, meu grande amor”, “Tola foi você”, “Não há cabeça”, “Balada da arrasada”, “Agito e uso” e “Gota de sangue”. Um repertório inaugural que condensava confissão, fúria, romantismo e melancolia em igual medida.

Rodrigo Faour, jornalista, professor, autor de livros sobre a MPB e um dos profissionais que mais entrevistou a artista, lembra-se da primeira vez que a viu: “Ela apareceu sem pedir licença”. Paulinho Lima, produtor, compositor e

cantor, que a empresariou no início dos anos 1980, também recorda o impacto que sentiu ao vê-la e ouvi-la. “Quando ouvi aquelas primeiras músicas, naquela voz, pensei: tem algo aqui que não existia antes. Uma artista completa, de voz e personalidade únicas.” Assim chegou Angela Ro Ro: com um canto rouco e confessional, sofisticado e popular ao mesmo tempo. Seu segundo disco, Só nos resta viver (1980), consolidou o nome da artista no cenário musical brasileiro.

FEITO UM TROVÃO

Depois de ter seu nome estampado nas manchetes de jornal por uma briga com a namorada da época – a cantora Zizi Possi –, Angela lançou o álbum Escândalo, com música composta por Caetano especialmente para ela. “Se ninguém tem dó / Ninguém entende nada / O grande escândalo sou eu aqui, só.” Versos que pareciam lhe servir como autobiográficos. A palavra “escândalo” a acompanharia para sempre, por vezes, como marca injusta; por outras, como afirmação de potência.

Em A vida é mesmo assim (1984), Angela atingiu um dos pontos mais altos da carreira. Para Augusto Diniz, foi o momento em que ela surgiu musical e emocionalmente inteira. Foi também sua consagração como autora ao ser gravada por Maria Bethânia, com a canção “Fogueira”, que a própria cantora baiana considera um ponto alto de sua discografia.

Durante as décadas de 1980 e 1990, Angela viveu sua fase de multidões: palcos lotados, público hipnotizado, crítica fascinada. Era presença magnética e metia medo em muita gente por seu humor cortante. “Ela tinha sacadas rápidas e ácidas, era dona de uma inteligência brilhante e uma

espontaneidade absurda. O show de Angela era música e anedotas hilárias. O repertório se repetia, mas ela sempre foi imprevisível, feito um ‘trovão trepidanteʼ, descreve Faour. “Angela era terrível, mas também transformava dor em riso e tragédia em música com excelência”, pondera. Faour ressalta, ainda, o lado doce da artista: “Cuidava de bichos, defendia o meio ambiente quando isso nem era pauta e abriu caminhos para outras artistas e mulheres que amam mulheres”.

Desde o começo, Angela Ro Ro assumiu publicamente sua homossexualidade, quando isso significava perder contratos, espaços e alianças com produtoras da época. “Enfrentando a tudo e a todos, ela nunca deixou de ser quem era – e pagou caro por isso. Mas foi absolutamente necessária, na música e na vida, por sua coragem em ser inteira”, reforça Paulinho Lima.

OUTRA REVIRAVOLTA

Nos anos 1990, após perdas familiares, Angela reapareceu muito mais magra e em busca de sobriedade. Voltou a fazer sucesso com a canção “Compasso”, na qual dizia que estava “bebendo água pra lubrificar”, mas que, agora, tinha como alvo a paz. Com o apoio de Lana, retomou a carreira, gravou com grandes nomes, reencontrou plateias.

Iniciou uma reconstrução profissional e afetiva que incluiu projetos no Sesc, shows emblemáticos, encontros com artistas de outras gerações e a retomada de sua presença no circuito da música popular brasileira. “Foi lindo acompanhar essa reconstrução. Ela tinha passado por uma fase muito difícil, mas voltou com força e por amor à arte. Viveu uma belíssima reviravolta, intensa, corajosa e vivaz, bem à la Angela”, lembra a ex-empresária, produtora e companheira.

Quando ouvi aquelas primeiras músicas, naquela voz, pensei: tem algo aqui que não existia antes. Uma artista completa, de voz e personalidade únicas.
Paulinho Lima, produtor, compositor e cantor

Em 2017, a artista lançou Selvagem, seu último álbum de estúdio. E em 2024, dois singles autorais, “Cadê o samba?” e “Planos do céu”, que mostravam como sua voz continuava pulsando. Mas, fragilizada, passou a enfrentar dificuldades financeiras e de saúde. Em 2025, pediu ajuda publicamente, gesto que comoveu e dividiu opiniões, como quase tudo o que fazia. “Foi doloroso acompanhar a vulnerabilidade de uma das maiores compositoras, sem exagero, da história da MPB”, desabafa Paulinho Lima.

HORA DA PARTIDA

Angela Ro Ro morreu na capital fluminense, em 8 de setembro de 2025, aos 75 anos, após 75 dias de internação, em decorrência de uma grave infecção pulmonar. “Ela se recuperava da cirurgia, mas não resistiu”, disse Lana. Sem herdeiros, seu acervo aguarda definição judicial. “Quero criar um instituto para preservar a obra, os arquivos e os registros de sua trajetória. É o que ela merece e eu vou lutar por isso”, acrescenta a produtora.

Com a intenção de manter viva a memória da artista, um documentário sobre a vida de Ro Ro, dirigido por Liliane Mutti, está previsto para ser lançado em 2026. O filme já estava em curso e traz imagens inéditas, arquivos recuperados, bastidores e cenas especialmente produzidas, inclusive, de Angela ao piano, à beira-mar. “Ela participou intensamente de todo o processo, no qual narra a própria história”, conta Liliane.

Com sua partida, reverbera o eco rouco que deixou, sobretudo nas vozes femininas. Zélia Duncan declarou que Angela foi “pioneira absoluta e farol para todas nós”.

E a cantora Ana Carolina disse que ela foi “revolução estética e emocional, e será sempre reverenciada”. Talvez a mais bonita definição da artista seja o simples fato de concordarem que Angela Ro Ro não cabia em medida alguma. Nem de voz. Nem de corpo. Nem de amor. Nem de música. Nem de tempo. Nem de tradução. Uma artista brasileira que – como todos que conviveram com ela reforçam – viveu sem freio, sem pedir licença, uma vida que valeu a pena.

Responsável por uma revolução estética e emocional, Angela Ro Ro é tida como um farol por artistas de seu tempo.

para ver no sesc / bio

ENCONTRO DE GERAÇÕES

Gravado em 2013, em show realizado no Sesc Pompeia, programa do SescTV reúne Angela Ro Ro e o cantor e compositor pernambucano Lirinha

Ao longo de sua carreira, Angela Ro Ro esteve presente em shows nas unidades do Sesc São Paulo, trazendo seu repertório vasto em diferentes formações e arranjos. Uma de suas apresentações ocorreu em 2013, no Teatro do Sesc Pompeia, no qual dividiu o palco com o cantor e compositor pernambucano Lirinha. A atração foi gravada e transformada em programa do SescTV, disponível sob demanda no Sesc Digital.

Dirigida por Daniela Cucchiarelli, a produção traz versão editada do show, além de entrevistas com Angela e Lirinha, em que falam sobre suas influências e a admiração mútua. “Acho Angela ancestral e do futuro. Ela é rock‘n’ roll, bolero, uma reunião de coisas que seriam antagônicas”, descreve Lirinha. “As músicas de Angela Ro Ro me influenciaram muito em composição e em interpretação”, completa. O programa traz ainda trechos do ensaio que antecedeu o show, em que Angela Ro Ro, além de cantar, também mostra seu talento ao piano.

No repertório, músicas próprias da cantora, como “Renúncia” e “Amor Meu Grande Amor” e de Lirinha em parceria com outros compositores, como “Sidarta”, de coautoria com Jorge Du Peixe, e “Memória”, criação em conjunto com Fábio Trummer.

Em julho de 2020, durante a pandemia de covid-19, Angela Ro Ro participou do projeto Em casa com Sesc, com um show solo em que, ao piano, interpretou sucessos de sua autoria como “Cheirando a Amor”, “Mares da Espanha” e “Tola foi Você”, entremeadas por clássicos da música internacional, entre elas, “Smile”, de Charles Chaplin, “Summertime”, de George e Ira Gershwin e “Help Me Make It Through The Night”, de Kris Kristofferson. A gravação pode ser vista no canal do Youtube do Sesc.

SESC DIGITAL

Angela Ro Ro e Lirinha

Show gravado em 2013, no Sesc Pompeia. Dia 11/04, às 21h, no SescTV. Sob demanda em: sesc.digital/conteudo/musica/ angela-ro-ro-e-lirinha

Assista à gravação de 2020 que integrou o projeto Em casa com Sesc, realizado na pandemia.

Ribeiro
Disponível sob demanda no Sesc Digital, programa do SescTV traz versão editada de show de Angela Ro Ro e Lirinha, gravado em 2013 no Sesc Pompeia.

NAVIOS CONTEMPORÂNEOS

Descendente de pessoas escravizadas, Eustáquio Neves retrata as ressonâncias da diáspora africana com linguagem fotográfica autoral

POR MARCEL VERRUMO

Fotografia da série Arturos (1993-1995).

Após uma visita ao Museu do Escravo, em Belo Vale (MG), Eustáquio Neves observava imagens que havia fotografado de máscaras impostas a pessoas escravizadas no Brasil. Notou que, coincidentemente, o ângulo de alguns de seus registros era o mesmo de fotografias antigas da própria mãe, e teve a ideia de sobrepor as imagens da exposição às do rosto da matriarca. “Nas fotografias resultantes, minha mãe passou a vestir máscaras que se perpetuaram historicamente e ainda incidem, por meio do racismo estrutural, sobre as pessoas negras”, conta o fotógrafo, revelando detalhes do processo criativo da série Máscara de punição (2004).

Nesse novo trabalho, Neves deu continuidade a uma pesquisa e produção fotográficas autorais que havia iniciado há mais de uma década, marcadas pela inovação na linguagem e pelo registro das vivências de populações negras no contexto da diáspora africana. Embora o tema estivesse presente em seu ambiente familiar desde o início de sua existência, essa dedicação foi iniciada em Arturos (1993-1995), série na qual registrou sua ancestralidade, celebrando a cultura e a sabedoria de quem resistia em comunidades quilombolas. Já em Boa aparência (2000), relembrou quando buscava o primeiro emprego e encontrava anúncios de vagas que pediam candidatos com “boa aparência”, mesmo termo usado em anúncios de compra e venda de pessoas escravizadas durante o período colonial; na série, o artista partiu de um autorretrato e sobrepôs a ele imagens de arquivos coloniais, denunciando a permanência daquelas palavras sobre os corpos negros. Trabalhos como esses estão reunidos no livro recém-lançado Outros navios: Eustáquio Neves (Edições Sesc São Paulo, 2025), organizado por Eder Chiodetto [leia mais em Farol para novas gerações].

A fotografia surgiu na vida de Neves como um passatempo na década de 1980. Após se mudar para a pequena cidade de Niquelândia (GO), começou a trabalhar como técnico em química industrial. No novo endereço, adquiriu uma câmera fotográfica para se distrair e começou a aprender a usá-la

por meio de um curso de fotografia publicado em fascículos editoriais vendidos em bancas de jornal. Tornou-se o fotógrafo da cidade, registrando eventos como casamentos, formaturas e nascimentos. Após alguns anos, deixou o emprego de técnico de química industrial e, com o dinheiro da rescisão, investiu em equipamentos para abrir o próprio estúdio, ainda especializado em fotografias sociais.

No início da década de 1990, em Belo Horizonte, durante o tradicional Festival de Inverno UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), teve a oportunidade de fazer um curso com um profissional renomado, Eduardo Castanho, e ampliou o portfólio para apresentar em aula. Teve a ideia de registrar o metrô de Belo Horizonte, recém-inaugurado em 1986. “Como era proibido fotografar, tive pouco tempo e simulei uma pessoa que anda apressada no metrô. Fiz imagens borradas, que simulavam a rapidez daquele lugar, o veículo e os corpos em movimento”, conta. Durante a leitura do portfólio, o professor o elogiou e afirmou que aquilo era uma fotografia que identificava um autor, reconhecimento que o ajudou a se entender como artista.

Fotografia da série Máscara de punição (2004).

Pouco tempo depois, foi selecionado para expor no mesmo festival, ocasião em que fez sua primeira exposição solo, com a série Caos urbano (1991). A visibilidade conquistada no evento resultou em convites para expor em outros estados e países, marcando também sua transição de profissional dedicado a registros de eventos sociais para o de trabalhos que o tornariam conhecido no universo da fotografia. No laboratório, passou a unir os conhecimentos e referências fotográficos aos saberes e práticas como técnico em química industrial, investindo em experimentações, sobrepondo e amalgamando imagens e explorando diferentes processos de revelação, contribuindo, desse modo, para ampliar os limites da linguagem fotográfica e criar uma estética própria. “A fotografia é a minha ferramenta para pensar o mundo e discutir as minhas questões. É como a caneta para o escritor. É a ferramenta com a qual eu me expresso melhor”, reconhece Neves, recém-selecionado para expor seu trabalho e representar o Brasil na Bienal de Veneza.

Acima: Fotografia da série Caos urbano (1991).

À direita: fotografia da série Objetificação do corpo (1994-1995).

Fotografia da série Futebol (1995-2004).
Fotografia da série Encomendador de almas (2007).
Acima: fotografia da série Boa aparência (2000).
À direita: fotografia da série Retrato falado (2019-2020).

para ver no sesc / gráfica

FAROL PARA NOVAS GERAÇÕES

Edições Sesc São Paulo lançam Outros navios:

Eustáquio Neves e celebram carreira de fotógrafo

Fotografia da série Cartas ao mar (2015).

Cerca de quatro décadas de carreira e a quase totalidade da produção artística do fotógrafo mineiro Eustáquio Neves são apresentadas na obra Outros navios: Eustáquio Neves, recém-lançada pelas Edições Sesc São Paulo. Com organização de Eder Chiodetto, o livro de fotografias faz um panorama visual da produção do artista e é um desdobramento da exposição Outros navios: fotografias de Eustáquio Neves, que também teve curadoria de Chiodetto e foi realizada nas unidades do Sesc Ipiranga e Rio Preto.

Ao longo de 240 páginas, o livro apresenta séries fotográficas marcantes da jornada de Neves. Entre elas, estão o registro de uma comunidade quilombola, em Arturos (1993-1995); do silenciamento histórico da população negra, em Máscara de punição (2004); e da exclusão social e disputa territorial urbana, em Futebol (1995-2004). Há, ainda, a série inédita Sete (2023), criada após a realização da exposição e que questiona processos de catequização e dominação cultural.

De acordo com o organizador, o livro é uma oportunidade de eternizar a vida e a obra de um artista incontornável da história da fotografia no Brasil. “Eustáquio é um farol para as novas gerações. No campo ideológico, representa a reparação histórica de que necessitamos em um país onde o racismo estrutural ainda se arrasta. No campo da linguagem, é indicativo da experimentação, da expansão da linguagem a partir de experiências com revelações químicas e misturas incomuns, colagens e outros processos que levam a fotografia a um lugar escultórico”, defende Chiodetto.

Afora as dezenas de fotografias, a obra traz um texto introdutório de Chiodetto sobre o artista e as séries mostradas. Também

há uma apresentação assinada por Luiz Deoclecio Massaro Galina, Diretor Regional do Sesc São Paulo, e artigos escritos por profissionais como a fotógrafa

Barbara Copque, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, curador camaronês responsável pela 36ª Bienal de São Paulo (2025-2026); e Edimilson de Almeida Pereira, escritor, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e amigo de Neves. A publicação ainda apresenta um texto escrito pelo diretor-curador Emanoel Araujo, uma entrevista exclusiva do artista e uma cronologia elaborada pela historiadora Lilian Oliveira.

Segundo Chiodetto, além da contribuição ao campo da fotografia, o livro é um manifesto pela democracia e um reconhecimento a pessoas sequestradas na África e escravizadas em território brasileiro, à sua resistência e ao que seus descendentes criaram. “Ajuda a pensar a democracia no Brasil e pontos de nosso passado e presente, em um momento em que há uma negação da nossa história”, finaliza.

EDIÇÕES SESC SÃO PAULO

Outros navios: Eustáquio Neves

Organização de Eder Chiodetto. 2025, 240 páginas. sescsp.org.br/editorial/outrosnavios-eustaquio-neves

sescsp.org.br/relicario

GUARABYRA

AO ViVO NO SESC _ 1979

Gravado no Sesc Consolação pela dupla criadora do "Rock Rural".

Relicário: Sá & Guarabyra (ao vivo no Sesc 1979)

Disponível em

Visite a loja virtual e conheça o catálogo completo sescsp.org.br/loja /selosesc

Nas trilhas DA CIDADE

Sem sair da metrópole, é possível explorar caminhos de terra, combinando atividade física, contato com a natureza e momentos de pausa

Inaugurada em fevereiro, a Trilha dos Guainás tem início no Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo, na zona Leste de São Paulo, e chega a uma altitude de 860 metros.

São muitos os motivos que levam uma pessoa a fazer uma trilha: praticar uma atividade física, integrar-se a um grupo, silenciar a mente, respirar ar puro, chegar até uma cachoeira, praia ou topo de uma montanha. Percorrer esses caminhos ajuda também na conexão com o meio ambiente e na conscientização da importância de todo o ecossistema para a vida no planeta. A boa notícia é que não é preciso sair das cidades para encontrar esses oásis, uma vez que, em geral, os municípios brasileiros abrigam trilhas dentro do perímetro urbano, com distâncias variadas e trajetos de diferentes intensidades.

Desde o fim de fevereiro, quem é fã de caminhadas na natureza ganhou mais uma opção de lazer e atividade físico-esportiva na zona Leste da capital paulista, com a inauguração da Trilha dos Guaianás. Trata-se de um percurso de doze quilômetros que atravessa a Área de Proteção Ambiental (APA) Parque e Fazenda do Carmo e interliga o Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo,

o Parque do Carmo – Olavo Egydio Setúbal, o Planetário Municipal do Carmo – Professor Acácio Riberi e o Sesc Itaquera. O nome da trilha faz referência às raízes do povo de etnia indígena que habitou a região da Serra do Mar e estendeu-se até o Rio de Janeiro. Dos Guaianás, também surgiu a palavra Guaianases, que batiza o distrito e a subprefeitura homônimos no extremo da zona Leste de São Paulo. A Trilha dos Guaianás tem início no Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo, em Itaquera, com formato circular, alta dificuldade, trechos de subida e mata fechada. Chega a uma altitude de 860 metros, contém placas de sinalização e pode ser concluída em cerca de quatro horas – dependendo do ritmo e das paradas.

Esse caminho ao ar livre faz parte do projeto Trilhas da APA do Carmo, que mapeou doze circuitos existentes nessa área e lançou, também em fevereiro, um guia chamado Mosaico de Trilhas da APA do Carmo, desenvolvido pelo Sesc São Paulo em parceria com a Fundação Florestal do Estado de São Paulo,

a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, Conselhos Gestores Locais, movimentos sociais, organizações não governamentais (ONGs) e lideranças da sociedade civil. O material reúne informações aos visitantes, quais são as trilhas da região e as formas de acesso.

Para quem tiver interesse em desbravar esses doze caminhos naturais, o guia funciona também como um “passaporte”, que poderá ser carimbado a cada trajeto. Alguns são autoguiados, enquanto outros precisam de agendamento prévio. Os visitantes poderão solicitar o seu carimbo no local onde cada percurso começa. Há sinalização em todos os trechos, contendo 120 placas feitas à mão por conselheiros e pelo público espontâneo do Sesc. “As pessoas vão poder se identificar, conscientizar, engajar e experimentar a prática de trilhas como uma ferramenta de bem-estar e qualidade de vida”, destaca Amanda Martins Jacob, conselheira representante do Sesc Itaquera e uma das idealizadoras do Mosaico de Trilhas.

ENTRE PREGUIÇAS E BROMÉLIAS

Segundo Gustavo Feliciano Alexandre, gestor da APA Parque e Fazenda do Carmo, a APA onde se concentram os doze circuitos do Mosaico de Trilhas foi criada em 1989, na bacia do rio Aricanduva. No século 16, a área onde está a APA era conhecida como Fazenda Caaguaçu. Em 1722, chegaram monges fluminenses da Ordem dos Carmelitas (daí o nome Carmo), que ficaram no local até o início do século 20. A partir de então, o terreno – que ia de onde hoje está localizado o Sesc Itaquera até o atual estádio do Corinthians – foi desmembrado em várias glebas (porções de terra) e, nos anos 1950, parte foi adquirida pelo engenheiro Oscar Americano (1908-1974), que transformou o local em espaço de lazer. Com o falecimento de Americano, a Prefeitura de São Paulo comprou a área dos herdeiros, e a parte da fazenda onde ficava a sede foi transformada no Parque do

Carmo, inaugurado em 1976. “A população, então, mobilizou-se para impedir o funcionamento de um aterro sanitário, que havia sido implantado numa parte do terreno em 1983, e evitar que fossem construídos conjuntos habitacionais na área", explica. Uma década depois, foi aprovado o Projeto de Lei nº 6.409/89 para a criação da APA, que completa 37 anos no dia 5 deste mês.

Nessa unidade de conservação, que compõe o maior remanescente de Mata Atlântica da zona Leste, abrigam-se espécies de árvores nativas como jequitibás, jatobás, embaúbas, bromélias, dentre outras. Também são encontrados animais como preguiças, esquilos, morcegos, cobras etc. “A APA tem ao todo 867 hectares, o equivalente a 1.200 campos de futebol. Em 2017, tive a ideia de criar a primeira caminhada ecológica nessa área –precursora da Trilha dos Guaianás, feita apenas uma vez por ano, no

mês de aniversário da APA. Em 2019, o Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo, criado em 2003, abriu para a população geral. Hoje, existe até um mirante sobre o antigo aterro sanitário desativado”, conta Alexandre.

O projeto Trilhas da APA do Carmo teve início em 2025, com vistorias técnicas e reuniões. A nova Trilha dos Guaianás, por exemplo, agrega trechos de vários circuitos preexistentes. “Há alternativas para todas as pessoas e condicionamentos físicos: desde a Trilha da Jataí, de baixa dificuldade e com 850 metros de extensão, que podem ser percorridos em apenas sete minutos; até a dos Guaianás, com doze quilômetros, e a do Urubu, com quatro quilômetros, de dificuldade moderada e tempo médio de 1h30", cita o gestor da APA.

Para fazer essas trilhas, Alexandre recomenda estar acompanhado

A Trilha dos Guaianás integra o projeto Trilhas da APA do Carmo, que mapeou doze circuitos existentes nessa área.
Nilton Fukuda

e optar pelo uso de roupas e calçados adequados, protetor solar, repelente contra insetos, e levar capa de chuva, água e um pequeno lanche. Também não se deve pegar espécies da mata (como plantas, flores ou animais) nem deixar lixo pelo caminho, incluídas cascas de frutas. “São Paulo tem inúmeras áreas verdes para desfrutarmos. Quanto mais gente conhecer esses lugares e usufruir deles, maior será a preocupação em preservá-los”, completa.

Além de roteiros a pé na APA

Parque e Fazenda do Carmo, há trilhas que podem ser feitas de bicicleta, como as conduzidas no Parque Natural Municipal Fazenda do Carmo pelo coletivo Reserva Natural Park, que reúne praticantes de ciclismo em montanha. Criado em 2024 como instituto, o Reserva Natural Park agrega pessoas que curtem trilhas, natureza e bicicletas, com foco em lugares da zona Leste paulistana. “Ter trilhas dentro ou perto da cidade facilita

a nossa logística, ajuda a incluir e conscientizar as pessoas, a difundir esse esporte radical. Além disso, o Parque Natural [assim como o do Carmo] é público, não cobra ingresso, tem um bom manejo do solo, e qualquer necessidade de resgate se torna acessível”, considera Thiago Oliveira, um dos sete membros à frente do grupo.

DICAS PARA TRILHEIROS

Para especialistas e trilheiros, ao fazer as caminhadas, é importante respeitar os limites e o ritmo do próprio corpo, ainda que o praticante esteja em grupo. Recomenda-se verificar o histórico médico e condições de saúde antes da largada, atentar-se às condições climáticas (evitando dias de chuva e vento forte) e, em caso de acidentes ou emergências, ligar 193 (Corpo de Bombeiros), 153 (Guarda Civil Metropolitana) ou 192 (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – Samu).

Segundo Amanda Alvernaz, trilheira e cofundadora do projeto Mulheres e Montanhas, em São Bento do Sapucaí (SP), a cerca de 200 km da capital paulista, fazer trilhas habitualmente pode ajudar no autoconhecimento, na transformação pessoal, na presença e no acolhimento de si e dos outros. “Criamos, em 2019, esse espaço para as mulheres se fortalecerem, ganharem autonomia e autoconfiança, e exercitarem a tomada de decisões a partir da prática de caminhadas, trail running (corrida em trilhas), pedaladas, escaladas e rapel. Andamos em conjunto, somos responsáveis pela segurança umas das outras, e ninguém fica para trás”, elucida. Ela também recomenda instalar no celular algum aplicativo de geolocalização, que funcione offline, para rastreamento de rotas e segurança.

Em sintonia com Amanda, está a paulista de Votuporanga (SP) Inah Ribeiro, à frente de uma agência na

TRILHAS LIGADAS A PARQUES INCENTIVAM

Rosângela Martins, pesquisadora da área de turismo

capital voltada ao ecoturismo e do projeto Trilhe Como uma Garota, ao lado da sócia e instrutora de rapel Dayane Medeiros. A iniciativa atende tanto homens quanto mulheres, mas as guias são sempre do gênero feminino. Os trajetos incluem locais em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná. “Nesse tipo de aventura, você não vive individualmente, mas acompanha os outros, o grupo. É um apoio mental e físico: ninguém solta a mão de ninguém”, analisa Inah. Para a criadora do Trilhe Como uma Garota, a melhor época para a prática de trilhas em montanhas vai de abril a setembro, período de clima seco, ameno e com melhor visibilidade. “A natureza possibilita o reencontro com nós mesmos. Além disso, por um instante, você deixa de ser um indivíduo para

vivenciar questões do grupo. É muito mais sobre o trajeto do que sobre o destino. E dali nascem amizades, momentos únicos e muita diversão”, enfatiza.

DIREITO AO LAZER

No dia 16 de abril é celebrado o Dia Mundial do Lazer, que destaca o lazer como um direito humano fundamental e essencial à saúde, ao bem-estar e à transformação social. Na visão de Rosângela Martins, pesquisadora de parques urbanos, esses espaços e suas trilhas estão intimamente conectados a esse conceito de lazer. “Trilhas ligadas a parques incentivam a promoção da atividade física, são um atrativo turístico e uma forma de a população

conhecer e valorizar a cidade onde mora. Também proporcionam uma experiência de pausa no centro urbano. Isso também tem a ver com políticas públicas de saúde, com a criação de grupos e a promoção de atividades comunitárias”, explica a pesquisadora.

Rosângela, que também é conselheira do Parque Piqueri, no Tatuapé (zona Leste de São Paulo), acredita que, além da evidente proteção ambiental, os parques contam a história de uma cidade, têm valor cultural, histórico e arqueológico. “Quando falamos em direito ao lazer, é no sentido de as pessoas entenderem os seus direitos e oportunidades nesses ambientes naturais, e a importância da conexão com o meio ambiente”, finaliza.

Marina Gomes
O grupo Mulheres e Montanhas exercita a autonomia e autoconfiança feminina por meio da atividade física e contato com a natureza.

para ver no sesc / turismo

CAMINHOS VERDES

Sesc São Paulo conta com trilhas urbanas nas unidades de Itaquera, Interlagos e Bertioga

Pessoas interessadas em trilhas podem frequentar três unidades do Sesc São Paulo (Itaquera, Interlagos, na capital paulista, e Bertioga, no litoral) para praticar atividade física em meio à vegetação nativa.

Em Itaquera, a Trilha da Samambaiaçu é autoguiada com placas e pode ser feita pelo público de quarta a domingo, das 9h às 17h. O agendamento de grupos com acompanhamento de educadores ambientais está disponível às quartas e quintas-feiras, às 10h ou às 14h. Nela, o visitante poderá observar, no caminho de 800 metros, juçaras, embaúbas, paus-ferros e paus-jacarés, além de animais como esquilos, saguis, lagartos, artrópodes, aves e insetos diversos.

Já no Sesc Interlagos, a Trilha Billings é autoguiada e conta com sinalizações de percurso para orientar o público espontâneo. A visita pode ser realizada conforme

o horário de funcionamento da unidade, sem necessidade de agendamento prévio, respeitando as orientações disponíveis ao longo do trajeto. Para grupos de adultos e de crianças a partir de 6 anos, há possibilidade de agendamento prévio para atendimento mediado, realizado às quartas, das 14h às 16h, e às quintas e sextas, das 10h às 12h.

No litoral, a Reserva Natural do Sesc Bertioga reúne duas trilhas em 60 hectares de floresta urbana protegida: a Trilha do Sentir, que tem quase um quilômetro de extensão e conta com uma estrutura em deck por dentro da mata, com três opções de trajeto (120m, 450m e 960m); e a Trilha do Tucum, com 370 metros de comprimento e percurso a pé pelo chão da floresta. A Reserva Natural abriga mais de 600 espécies de plantas e animais, e os dois circuitos proporcionam a observação de uma amostra da

biodiversidade presente no bioma Mata Atlântica. A Trilha do Sentir possui recursos de acessibilidade, além de placas em relevo e escultura tátil com amostras de espécies da fauna e flora locais. Também há peças de comunicação com informações em braile, mapas táteis e vídeos com audiodescrição e interpretação em Libras.

Confira destaques da programação:

ITAQUERA

8ª Caminhada Histórico-Ecológica da APA do Carmo

Saída do Jardim de Inverno da unidade. Dia 4/4, sábado, às 9h30. GRÁTIS, com distribuição de senhas meia hora antes. Atividade não indicada para menores de 15 anos.

Trilha da Samambaiaçu

A caminhada ecológica, com grau de dificuldade baixo, será acompanhada por agentes de educação ambiental do Sesc. Ponto de encontro: Jardim de Inverno. Dia 5/4, domingo, às 10h. GRÁTIS, com distribuição de senhas meia hora antes. Livre.

Trilha dos Guaianás

Com o gestor da APA Gustavo Feliciano Alexandre e agentes de educação ambiental do Sesc. Dia 4/4, sábado, às 8h. GRÁTIS.

INTERLAGOS

Projeto Observando os Rios

Com educadores do Sesc. Dia 18/4, sábado, às 10h. GRÁTIS.

BERTIOGA

Trilha do Sentir – Reserva Natural Sesc Bertioga

Com educadores do Sesc. Dias 5 e 19/4, domingos, às 10h. GRÁTIS.

Nilton Fukuda

IMPACTOS DA INTELIGÊNCIA

ARTIFICIAL

Conforme crescem as formas de utilização da inteligência artificial (IA) no cotidiano das pessoas, intensificam-se também as discussões sobre suas implicações. Desde o impacto no comportamento social dos indivíduos até a preocupação com suas consequências na aniquilação de postos de trabalho, são muitos os aspectos que despertam conversas profundas quando o assunto é tratado.

Um ponto fundamental é o custo ambiental para manter em funcionamento as bases de dados que são espinha-dorsal das ferramentas de IA. “Um data center de hiperescala pode chegar a ter mais de 1 milhão de servidores. Em geral, sua capacidade é medida em megawatts. Praticamente 40% de seu gasto de energia é para processar dados e outros 40% são necessários para refrigerar o ambiente. Além disso, essas estruturas são altamente consumidoras de água. Em 2020, somente o data center do Google da cidade de The Dalles (Estados Unidos) consumiu 355,1 milhões de galões de água”, explica o sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, mestre e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).

Ao mesmo tempo em que há muito a ser regulamentado numa área ainda nova, as empresas de IA crescem em ritmo acelerado enquanto prometem mudar de forma radical a experiência humana. Tal expectativa pode gerar, por um lado, deslumbramento e, por outro, receio.

“Recentemente, apareceu um motorista de táxi para iluminar a minha dúvida: por que os humanos sofrem com mudanças? Sem desviar a atenção do volante, o condutor respondeu com uma lucidez assustadora: ‘o ser humano, meu amigo, não gosta de mudança nem quando é para melhor’. Como sempre, o taxista fica com a razão. A dúvida, com o passageiro. Afinal, por que as mudanças incomodam tanto os humanos?”, provoca o comunicador Marcelo Tas, membro da I2AI - International Association of Artificial Intelligence(I2AI), associação sem fins lucrativos que visa a adoção de IA sustentável no mundo.

Neste Em Pauta, Silveira e Tas apresentam suas visões sobre os motivos pelos quais a inteligência artificial merece um olhar atento e criterioso por parte da sociedade, trazendo dados e contextualizações para um debate que parece estar apenas começando.

IA e o seu impacto socioambiental

Existe uma expressão idiomática, muito popular no Brasil, que pode ser utilizada quando observamos os elementos e as dinâmicas que compõem a chamada inteligência artificial (IA). Falo da expressão “varrer a sujeira para debaixo do tapete”. Em geral, a IA é apresentada como algo limpo, avançadíssimo, neutro, superbenéfico, autônomo e que ora irá salvar a humanidade de seus males, ora dominá-la a partir da superinteligência maquínica. Aqui, neste breve artigo, inspirado nas pesquisadoras Kate Crawford e Jose Van Dijck e no pesquisador Matteo Pasquinelli, pretendo levantar o tapete e mostrar o que está sendo deliberadamente escondido.

A IA atual não é um software ou um aplicativo qualquer que instalamos no nosso celular ou computador. Em geral, quando utilizamos uma IA, temos que acessá-la pela internet. Isso porque a IA realmente existente necessita de um grande poder computacional para ser treinada. O que é treinar uma IA? É colocar grandes bases de dados em contato com algoritmos aprendizes que utilizam a estatística e a probabilidade para extrair padrões, correlações e realizar predições. A abordagem principal das chamadas inteligências artificiais atuais, baseadas em dados, são variações do aprendizado de máquina profundo.

Quando termina o treinamento de uma IA, surge um modelo que será testado e ajustado por cientistas e engenheiros. Uma vez que os donos do modelo o considerarem pronto, ele é implementado em servidores para a realização de inferências, consultas de milhares ou milhões de usuários. Não existe um grande modelo de linguagem que acessamos a partir de um chat, como o GPT, o Gemini, o Grok, entre outros, que não seja fruto do trabalho de milhares de pessoas mal remuneradas para taguear frases e imagens, e de centenas de cientistas de dados, engenheiros da computação e outros profissionais.

O insumo fundamental da IA realmente existente são os dados. Recentemente, o The Washington Post relatou que a Anthropic, dona da IA chamada Claude, adquiriu milhões de livros para remover suas lombadas, com o objetivo de digitalizá-los com maior rapidez, dando à empresa uma base de dados superior à dos seus concorrentes. Esse era o Projeto Panamá, a destruição dos livros físicos para obter dados para o chatbot Claude.

A disputa por dados só avança e mobiliza a OpenAI, Microsoft, Google, Amazon, Grupo Meta e outras. Além disso, como demonstrou Kate Crawford, no Atlas da IA (Edições Sesc São Paulo, 2025), a extração de dados é uma forma de colonialismo contemporâneo. Realizado pela apropriação massiva e não consentida de informações pessoais, sociais e culturais extraídas constantemente de diversos sites, redes, plataformas e dispositivos digitais.

Levantando ainda mais o tapete, Crawford nos traz a materialidade e os impactos socioambientais da IA. Como exemplo, o CEO da OpenAI, Sam Altman, em abril de 2025, afirmou que agradecer ao ChatGPT ou escrever “por favor” gera milhões de dólares de custos para a empresa. Isso porque o GPT não é nada além de um grande modelo de linguagem que utiliza probabilidades estatísticas para realizar suas inferências. Uma pergunta sobre “Washington”, dependendo de como é feita, gerará uma resposta sobre o general, sobre uma cidade, sobre um estado ou sobre algo que fará sentido conforme os padrões do treinamento. O sistema automatizado funciona como se fosse uma gigantesca máquina de completar sentenças. Quando enviamos em um prompt [comando de texto] “obrigado”, isso implicará em uma mobilização do modelo para dar uma resposta. O problema é que esse ato de boa educação gera um gasto de energia para o processamento da informação.

No dia 10 de junho de 2025, Altman escreveu em seu blog quanto seria o consumo de energia de uma pergunta ao chatGPT: “uma consulta média utiliza cerca de 0,34 watts-hora, o equivalente ao consumo de um forno em pouco mais de um segundo, ou de uma lâmpada de alta eficiência em alguns minutos”.

As tecnologias são expressões da cultura de uma sociedade. Precisamos inserir nossa cosmovisão e nossas perspectivas no desenvolvimento tecnológico.

para inferência no chip e equipamentos altamente consumidores de lítio, silício, terras raras e outros minerais. Como afirmou Kate Crowford, as cadeias de suprimento e extração mineral que sustentam a IA são sistemas globais profundamente marcados por desigualdades socioambientais, dependem da exploração intensiva de territórios, geralmente no Sul Global, e de formas precárias e inaceitáveis de trabalho humano.

O chefe da OpenAI nos informa que uma mera pergunta gera um gasto de eletricidade equivalente ao consumo de 3 minutos e 24 segundos de uma lâmpada LED de 6W. Isso não é nada se pensarmos em uma pessoa, mas em 800 milhões de usuários por semana ou uma média de aproximadamente 114 milhões de usuários por dia, segundo números divulgados pela própria empresa, teremos um impacto energético expressivo. Além do mais, não existe somente a OpenAI. Há o Gemini, Claude, Grok, DeepSeek, só para falar de IAs bem conhecidas.

Não existe IA sem data centers nas atuais abordagens conexionistas. Em 2020, havia cerca de 600 data centers de hiperescala no mundo. Com o embalo da IA generativa e dos grandes modelos de linguagem (LLMs) esse número saltou para 1.136, em 2024. Um data center de hiperescala pode chegar a ter mais de 1 milhão de servidores. Em geral, sua capacidade é medida em megawatts. Praticamente 40% de seu gasto de energia é para processar dados e outros 40% são necessários para refrigerar o ambiente. Além disso, essas estruturas são altamente consumidoras de água. Em 2020, somente o Data Center do Google da cidade de The Dalles (Estados Unidos) consumiu 355,1 milhões de galões de água.

Nesse cenário, há alguns paradoxos. Os chips e processadores estão cada vez mais eficientes do ponto de vista energético, mas o gasto de energia das empresas de IA não para de crescer. Isso porque há uma bolha, uma crença de que os dados serão a solução para tudo. Há um uso crescente de GPUs (unidades de processamento gráfico), de servidores que usam aceleradores de IA, de placas da Nvidia

Isso pode ser diferente? Sem dúvida. As tecnologias, em grande parte, são ambivalentes. Mas, para alterar as tecnologias, precisamos romper com a sua mistificação e reconhecer os processos como são desenvolvidos. Precisamos também superar a ideia de que o que é bom para as big techs é bom para o Brasil. As tecnologias são expressões da cultura de uma sociedade. Precisamos inserir nossa cosmovisão e nossas perspectivas no desenvolvimento tecnológico. Podemos construir data centers federados, de baixo impacto ambiental e podemos avançar nas tecnociências para criarmos soluções automatizadas que reduzam a degradação ambiental.

Sérgio Amadeu da Silveira é sociólogo, mestre e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. É professor associado da Universidade Federal do ABC (UFABC). É membro do Comitê Científico Deliberativo da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber). Integrou o Comitê Gestor da Internet no Brasil. Coordenou o Governo Eletrônico da Prefeitura de São Paulo e criou o projeto Telecentros-SP. Presidiu o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (2003-2005). Pesquisa as implicações tecnopolíticas dos sistemas algoritmos; inteligência artificial e ativismo. Integra a rede de pesquisadores Tierra Común. Autor dos livros As Big techs e a guerra total (Hedra, 2025) e Democracia e os códigos invisíveis: como os algoritmos estão modulando comportamentos e escolhas políticas (Edições Sesc, 2019), entre outros. É pesquisador do CNPq /Produtividade em Pesquisa – 2.

Quem tem medo da IA?

Transformação tecnológica é treta. Do fogo à eletricidade, da internet à inteligência artificial, as mudanças chegam para bagunçar o que antes parecia arrumado. Recentemente, apareceu um motorista de táxi para iluminar a minha dúvida: por que os humanos sofrem com mudanças? Sem desviar a atenção do volante, o condutor respondeu com uma lucidez assustadora: “o ser humano, meu amigo, não gosta de mudança nem quando é para melhor”. Como sempre, o taxista fica com a razão. A dúvida, com o passageiro. Afinal, por que as mudanças incomodam tanto os humanos?

Mudanças chegam sem avisar. É o caso da inteligência artificial. Até ontem, ninguém falava nela. Hoje, ninguém para de falar. A IA, como é tratada na intimidade, virou papo de botequim. O debate volumoso adiciona mais ruído que entendimento. Na minha visão, falta um ingrediente na conversa: o medo.

Medo é ferramenta vital. Sem ele, ninguém atravessa a rua com segurança. O medo é um alerta do corpo de que algo importante pode acontecer e estragar tudo. Sem encarar o medo, ninguém decide se casar ou se separar; ninguém muda de emprego ou de cidade. Encarar o medo é crucial para avançar para a próxima fase do joguinho. Faça uma busca na história da Olivetti. A marca italiana de máquinas de escrever, verdadeira joia do design e eficiência, era adorada, com razão, por escritores e jornalistas. Quando os computadores e a internet chegaram, alguns escribas se agarraram às suas Olivettis como se fossem boias para se salvar da inundação de dados. A dificuldade compreensível entre tecnologia e realidade continua. Assim como o Instagram não é retrato da vida, o computador não é um concorrente da máquina de escrever. É outra máquina com funções e capacidades mais complexas que precisa ser conhecida. Até para ser criticada e eventual-

mente regulamentada, como deve ser a internet, a IA e as redes sociais. O medo da mudança limita a percepção do mundo e a qualidade das conversas.

A primeira mudança exponencial na tecnologia da informação foi a prensa de tipos móveis de Gutenberg. O protótipo que mudou a história adaptou tecnologias já existentes como a engenhoca de prensar uvas para fazer vinho, tradição da região onde o inventor nasceu, o vale do rio Reno, onde hoje é a Alemanha. Assim como na cultura maker contemporânea, Gutenberg experimentou, combinou e remixou tecnologias já existentes. A prensa do alemão me inspira a celebrar a gambiarra brasileira, que precisa ser valorizada.

Antes de Gutenberg, os livros já existiam. Só na Europa, estima-se em cerca de 5 milhões de exemplares. Feitos à mão, um a um, por monges copistas, eram guardados em mosteiros e palácios, com acesso restrito ao público. Pós-Gutenberg, em apenas 50 anos, as prensas estavam em mais de 200 cidades e vilarejos europeus. Ao final do século 18, o número de livros impressos batia em 1 bilhão, de acordo com levantamentos de fontes como o Centre for Economic Policy Research. A circulação de informação e opiniões causou conflitos e avanços. A igreja perdeu o monopólio da interpretação dos textos sagrados. A comunicação acelerada impulsionou a Reforma Protestante. Vieram guerras religiosas nas quais morrem milhões. Por outro lado, a troca ágil conectou cientistas e pensadores. Seguiu-se um período abundante em surgimentos: de descobertas científicas, do jornalismo, das artes visuais e da ideia de opinião pública. Por conta dos avanços, o período recebeu o nome de Renascença. Para você, o período que vivemos vai virar uma nova Renascença ou um apocalipse zumbi?

A disrupção que é considerada o início da história humana, a escrita, traz mais uma pista para encarar a treta atual. Encontrados em Uruk, na antiga Pérsia, por volta de 3,5 mil a.C., os códigos rabiscados em argila permaneceram um mistério por muito tempo. Especulava-se que seriam profecias, estratégias militares, fórmulas de bruxaria... Só em 1973, a pesquisadora franco-estadunidense

Hoje, IA e a própria internet estão sob controle de poucos, com baixa ou nenhuma transparência. Há evidências científicas cabais do uso proposital de algoritmos para viciar crianças nas telas.

Denise Schamandt-Besserat comprovou que eram registros do comércio de grãos, azeite, tecidos, animais... Uma espécie de planilha à lenha para dar conta do crescimento vertiginoso das primeiras cidades da história. E cobrar os impostos, claro. Com a escrita, a informação ganhou materialidade. Uma nova casta de burocratas e sacerdotes assumiu o monopólio de registar e, portanto, controlar a sociedade. A humanidade entrou na era da aceleração dos negócios, do espalhamento de mentiras documentadas e da elaboração de leis para garantir o poder nas mãos dos mesmos. Soa familiar?

Teoria matemática da comunicação, um artigo científico de 1948, mostra como transformar a realidade em números. O engenheiro Claude Shannon criou uma fórmula para medir, tratar e prever os ruídos na transmissão de dados. É considerado um dos pilares da inteligência artificial moderna. Há outros mais antigos. Jean Baptiste Joseph Fourier, físico francês, traduziu no século 18 as vibrações sonoras e ondas de calor em equações. Hoje, o app Shazam usa Fourier na sua IA para identificar qual é a música que você está ouvindo. A startup brasileira Tractian, fundada por três jovens engenheiros da USP, usa Fourier para prever quando uma máquina industrial irá quebrar. Com clientes no Brasil, México e Estados Unidos, representa caso raro de sucesso brasileiro em hardware tech, setor dominado por China e Estados Unidos.

Todos os dias, aplicativos de IA são oferecidos gratuitamente na internet. “Gratuitamente”, com aspas reforçadas. Na chegada das redes sociais, se deu o

mesmo. Em 2003, no entusiasmo de participar da democratização prometida pela internet, escrevi no primeiro post do Blog do Tas um dos pioneiros no portal UOL: “Finalmente, virei o Roberto Marinho de mim mesmo". Só que não, né? Hoje, IA e a própria internet estão sob controle de poucos, com baixa ou nenhuma transparência. Há evidências científicas cabais do uso proposital de algoritmos para viciar crianças nas telas. Finalmente, alguns poderosos das big techs começam a frequentar o banco dos réus nas altas cortes dos Estados Unidos e Europa. Não podemos ficar paralisados sem pressionar bilionários gulosos e plataformas que teimam em turbinar o desenvolvimento da IA fugindo da responsabilidade dos efeitos danosos ao ambiente e à mente dos humanos.

Já que IA virou papo de botequim, converse com quem está ao seu lado, não fique paralisado pelo medo, assuma a responsabilidade das suas escolhas. E anote o alerta do meu amigo, grande pensador brasileiro, Ailton Krenak: sem as abelhas, estamos ferrados.

Marcelo Tas é comunicador e educador, graduado em Engenharia pela POLI-USP. Atua como palestrante e mentor em empresas. Atualmente, apresenta o Provoca, na TV Cultura. É membro do Conselho Consultivo da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) e da I2AI (International Association of Artificial Intelligence), associação sem fins lucrativos que visa a adoção de IA sustentável no mundo.

VOAR sem sair do chão

Ancorada nas origens, a atriz, cantora e diretora Naruna Costa compartilha as motivações de sua trajetória artística

POR RACHEL SCIRÉ

FOTOS NILTON FUKUDA

Com os pés enraizados na periferia de Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo, e o olhar voltado para um horizonte descortinado por artistas como Léa Garcia (1933-2023), Ruth de Souza (1921-2019) e Elza Soares (1930-2022), Naruna Costa tem firmado presença na cena brasileira. Só nestes primeiros meses do ano, a atriz pode ser vista na telenovela Coração acelerado (Rede Globo, 2025) e no longa Salve geral: irmandade (2026), derivado da série Irmandade (Netflix, 2019-2022), que protagonizou.

Apesar da visibilidade midiática, Naruna se nutre do teatro, especialmente no Espaço Clariô, sede do grupo de teatro de mesmo nome, do qual é uma das fundadoras. É ali, no munícipio em que cresceu, que ela coloca "os pés no chão para poder voar mais alto". Criado em 2002, com o intuito de realizar produções que dessem conta de abordar "as trajetórias

daquela população, daquele elenco, naquele lugar", o grupo teatral buscava inverter a lógica: "em vez de a periferia ir para o centro consumir arte, fazer um movimento do centro para periferia", conta.

Essa demanda dialogava com a própria história da atriz, cantora e diretora, que teve acesso às artes cênicas apenas na adolescência, a partir de oficinas da União Teatral Taboão (UTT). Formou-se no Senac e ingressou na Escola de Artes Dramáticas da Universidade de São Paulo (EAD/USP), em 2004, na qual aguçou o olhar crítico diante da carência de representatividade preta e periférica no curso e nas produções em cartaz.

Nos palcos, ganhou destaque em montagens como Hospital da gente (2008), do Clariô, Garrincha: uma ópera das ruas (2016), do diretor estadunidense Bob Wilson (1941-2025), quando viveu Elza Soares, e no espetáculo Elza, o musical

(2025). Algumas participações mais recentes no audiovisual são Hoje eu quero voltar sozinho (2014), Marighella (2019), as telenovelas Beleza fatal (HBO Max, 2025) e Todas as flores (Globoplay, 2022).

Pela direção teatral de Buraquinhos ou o vento é inimigo do picumã, do coletivo Carcaça de Poéticas Negras, Naruna tornou-se a primeira mulher negra a conquistar o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), em 2018 Em 2024, também ganhou o Prêmio Shell de Teatro pela direção musical de Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto, do Grupo Clariô. Sobre essa trajetória fecunda e engajada, Naruna Costa fala neste Encontros

ORIGENS

As memórias da minha infância e juventude traduzem o jeito como vejo e penso a arte hoje. Me afirmo a partir do ponto de partida de uma criança que cresceu em um ambiente rural, em um bairro em Taboão da Serra. Meu pai foi um dos primeiros moradores, era um local com pouca estrutura, sem asfalto e saneamento – tenho muito forte a imagem de buscar água em outro bairro, com as nossas latas. Ao mesmo tempo em que estava vivendo um momento lúdico, de

relação com a natureza, com os animais que meu pai criava, existia a situação de sempre deparar com algum tipo de notícia ou de violência explícita normalizada naquele ambiente. Minhas memórias são de um pai preto que, sem dizer, trazia referências da religiosidade afro, afetado também por essas violências, com bastante reza, a presença de uma misticidade em casa, muitos cantos dele e de minha mãe. A relação com a cultura nordestina, que é o que a minha mãe traz como herança de Alagoas e Pernambuco, região da família dela, e as comidas, cantorias e a religiosidade de Minas Gerais, de onde veio meu pai. Trago um balaio que traduz um pouco o meu jeito de fazer teatro hoje.

REPRESENTAR

Vejo o meu ofício enquanto atriz do mesmo jeito que enxergo o teatro: a possibilidade de ser muitas coisas. O teatro é a casa de todas as artes, a gente consegue colocar todas

as linguagens lá dentro. Acredito na representação enquanto representatividade, nesse aporte do próprio corpo para poder somar em outras frentes. Existe um lugar de atuação no sentido de agir, não de falsidade. Como diretora também, porque ofereço para o elenco e para o trabalho um ponto de vista de fora, mas com muito material de quem entende o teatro por dentro. Ser atriz de teatro de grupo faz toda a diferença.

TRAVESSIA

A maioria dos meus projetos como diretora tem sido com elencos negros. Minha mediação é tentar fazer com que a tradução dos nossos sentimentos e anseios consigam ser feitos sem passar pelo emocional do artista que está no palco. Nós estamos lutando por muitas coisas, quando um artista negro vai para cena, falar de questões que lhe dizem respeito, é muito arriscado. A estética desse trabalho precisa ser muito bem

construída para que ele não paire no palco e fique sozinho ali, fazendo terapia. Para traduzir essas dores para a plateia, a gente precisa criar artifícios estéticos, essa é a minha maior pesquisa. Tenho investido em uma linguagem de travessia, que ultrapasse nossas dores e chegue na plateia de forma nítida, para que, em vez de ter dó de quem está no palco, o público reflita. Por isso gosto muito de textos que são gostosos de serem ditos, têm fluidez na fala, muitas imagens. Isso evita de se entrar na catarse desde o início e ficar morando nela, sem conseguir dar conta depois de refletir sobre essa sociedade que a gente está vivendo ou gostaria de viver.

RECONHECIMENTO

É muita responsabilidade ser a primeira diretora negra a ganhar o APCA, depois de mais de 50 anos de existência da premiação. Esse reconhecimento também está relacionado ao fato de termos

estado em cartaz no centro de São Paulo. Mesmo com 20 anos de Grupo Clariô, muita gente não conhecia meu trabalho, porque as estreias e temporadas sempre foram em nosso espaço. A nossa pesquisa é de mais de 20 anos e muita coisa interessante aconteceu com o fortalecimento do movimento de cultura periférica de São Paulo e a formação dos grupos pretos, que são Os Crespos, o coletivo das Capulanas, o Coletivo Negro, Os Inventivos e o Grupo Clariô de Teatro. Todos são de uma mesma geração e foram fundamentando uma linguagem um pouco mais fortalecida, para que outros grupos pudessem hoje escrever as suas dramaturgias. Quando uma geração mais jovem me convida para dirigir, está dialogando com isso. Juntos, vamos pensar as motivações atuais, porque antes talvez fosse necessário denunciar as violências diretas que a gente sofria. Agora as subjetividades são outras, é possível colocar no palco emoções, outras demandas da população negra.

AUDIOVISUAL

A linguagem do audiovisual é muito importante politicamente para a população negra, é um jeito de reforçar ou ressignificar nossas imagens. Tem um lugar ali de formação política e cultural, em que a televisão e o cinema são responsáveis pela imagem que a gente representa para a sociedade. A maneira como cada personagem é abordado, como as produções estão pensando essas narrativas, envolve uma responsabilidade

muito grande. Há uma luta, desde Ruth de Souza, Léa Garcia, e me sinto responsável por dar continuidade à caminhada delas. Fora que existe uma visibilidade na comunidade, é legal chegar na quebrada e ser a mina da novela, tem as tias, as pessoas da família, gente que eu convivo e fala: “nossa, você estava na televisão!”. Parece que cria uma ponte, uma esperança de outras perspectivas.

CHÃO

São muitas as delícias e as dores de manter um teatro, o Espaço Clariô, de pé durante duas décadas. Não é fácil financeiramente, estruturalmente e politicamente. Existe uma questão também de liberdade criativa e de conexão com as nossas raízes, que é o lugar simbólico mais importante do Clariô. Eu faço teatro e me penso artista enquanto uma pessoa preta e periférica, que vem de uma periferia muito específica, que abraça muitos lugares do Brasil. Essa multiculturalidade é material de trabalho para mim e de recuperação das minhas forças enquanto artista brasileira. Eu vou para um monte de lugar, mas quando volto para casa, reorganizo a minha arte, a minha história, reconecto com a minha ancestralidade, meus objetivos espirituais e políticos. Coloco meus pés no chão para poder voar mais alto. Não é só um lugar concreto. Mas é claro que a gente valoriza muito ver três gerações crescerem lá dentro, jovens que tinham perspectivas muito diferentes do que têm hoje, se formando

artisticamente, entrando na profissão a partir da referência do espaço, crianças que entendem o acesso ao teatro como um direito, o que não foi meu caso.

CLARIANAS

O Clarianas é um projeto musical que nasceu do espetáculo Hospital da gente, o primeiro do Grupo Clariô, e teve uma repercussão muito grande. A gente ia de casa em casa, cantando, bater na porta do povo, chamar para assistir à peça. A pesquisa de sonoridade vocal nasceu para o espetáculo, não tínhamos ainda os textos, não sabíamos o que montar e fomos olhar para as nossas ancestrais, inclusive as que estão mais perto, mães, avós, o que elas cantam, como são as vozes. Chegamos em um universo de cantos de trabalho, de cura. A gente fala que a música é um jeito de estar mais perto de Deus, e Deus é uma mulher negra. Então a música nos conecta com aquilo que a gente não tem acesso direto, porque nos foi tirado no modo como esse país foi construído.

A artista Naruna Costa esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 26 de fevereiro. A mediação do bate-papo foi da jornalista Rose Silveira, que integra a Gerência de Estudos e Desenvolvimento do Sesc.

inéditos

CARTA À SOBRINHA

POR PAULA FÁBRIO ILUSTRAÇÕES LAURA ATHAYDE

Minha querida menina,

Espero que esta carta a encontre bem, mesmo às vésperas de uma nova guerra. Porém, como li em alguns livros e vi em certos filmes, a vida teima em prosseguir perante grandes catástrofes. Talvez estejamos vivendo algo semelhante à cena na qual a orquestra toca enquanto o Titanic afunda. E se tudo estiver afundando ao nosso redor, é bom que se diga o que há para se dizer, e quanto antes, melhor.

Sendo assim, minha querida, preciso compartilhar com você uma descoberta recente. Sou uma pessoa de Humanas e acabo de compreender que a matemática é uma coisa engraçada. Veja só: quando você nasceu, eu era vinte e cinco vezes mais velha que você. Naquela época, enquanto você ainda estava no berço do hospital, eu pensava em me casar, construir uma casa de tijolos aparentes em algum interior do Brasil e ter um filho cujo nome seria Vinicius, ou Vitor, ou Henrique. Naqueles anos, o mundo era tão bonito como agora, e intratável na mesma medida. Entretanto, as calotas de gelo não derretiam como hoje, e o Perito Moreno até crescia. De minha parte, eu tinha alegria para tudo e uma esperança inexplicável no futuro. No entanto, também tinha medo do desconhecido e alguma dúvida se eu seria capaz de caminhar pelo mundo, nesse tracejado incerto que é a vida da gente.

Em meados da década de noventa — quando você veio à luz e o seu avô paterno anunciou com um sorriso raro nos lábios que você havia nascido bonita, contrariando a lógica dos bebês cara de joelho —, naquele tempo havia vagas em abundância para se estacionar o carro nas ruas de São Paulo, embora o ar da cidade já contivesse monóxido de carbono em quantidades impensáveis; salvo engano, você veio ao mundo mais ou menos na mesma época em que os catalisadores tornaram-se itens obrigatórios nos veículos nacionais. Note bem: isso não é um simples dado jornalístico ou científico, é para você saber que nem tudo está sempre perdido. A humanidade joga um jogo perigoso consigo mesma, com frequência dá dois passos pra trás e um pequeno salto pra frente, e assim caminha em círculos malucos.

Mas voltando aos anos noventa, aquele era um mundo curioso: a gente comprava ingresso na bilheteria do cinema poucos minutos antes da sessão e, assim que as portas se abriam, corríamos feito patos em busca de um bom lugar, porque as poltronas não eram marcadas. Todavia, eu não saberia dizer se preferia isso a comprar um tíquete pelo celular usando inteligência artificial. E naquela época, muito embora houvesse guerra e invasões do outro lado do oceano, não imaginávamos que o mesmo pudesse acontecer com algum país vizinho ao nosso. Antes que você me conteste, sim, eu sei, havia Cuba e o embargo. E a herança de um colonialismo que esperávamos curar brevemente, com a inocência larga e a memória estreita da juventude. Entretanto, o grande problema da minha geração era a aids. Enquanto você aprendia a andar, eu vi um amigo morrer com as tais feridas no rosto e os gânglios do pescoço maiores que duas laranjas-pera. Alguns conhecidos não quiseram carregar o caixão, com medo do contágio. O medo, assim como a matemática e o tempo, por assim dizer, também é uma abstração, mas os gânglios, esses eram palpáveis. E a vida deu alguns saltos depois disso. A minha, a sua, a do planeta. Houve a virada do milênio e um bug que não ocorreu. De repente eu deixei de ser tão mais velha que você. Agora eu tinha trinta e cinco, e você, dez anos de idade. Seus avós já haviam morrido, seus pais estavam separados, e eu parei de falar com meu irmão (seu pai). A você, a você coube ser forte. Seu pai, meu irmão, tinha defeitos conhecidos por toda a família. Mais do que podíamos suportar. Então tive uma coragem súbita e mudei-me de endereço e telefone, sem avisar a ninguém. Na ocasião desse rompimento familiar, o país até estava bem, inflação controlada e longe do mapa da fome, apesar das Torres Gêmeas já terem desabado nos Estados Unidos e, com elas, parte da economia ocidental. Já haviam descoberto o pré-sal? Creio que não. Naquela época, pensei que nunca mais iríamos nos ver. E a nave seguiu, ligeira. Depois, acredite, a gente faz tanto aniversário que chega aos cinquenta e cinco anos num instante. Confesso, julguei, mais de uma vez, que você poderia ter saído ao seu pai. Sempre fui um pouco pessimista, é verdade. Todavia, quase sempre nossas preocupações se mostram infundadas.

inéditos

Quando soube que meu irmão falecera, um gelo subiu pela minha coluna. Passaram-se vinte e cinco anos do rompimento, justamente o mesmo número de anos da minha idade quando você veio ao mundo. Vinte e cinco. Talvez seja um número auspicioso. Porque apesar da morte ser algo terrível, com ela chegou uma notícia capaz de mudar o rumo da minha vida: eu que estava sozinha no mundo, agora tinha uma sobrinha! Nunca é tarde para coisas boas acontecerem. Hoje eu tenho cinquenta e cinco anos. Você, trinta. Parece até que está me alcançando. Mas é como se toda essa conta não fizesse sentido algum e tudo começasse agora, do zero. Não deixa de ser uma artimanha matemática. Tudo do zero e eu tendo que lhe responder em atraso. Ou contar-lhe sobre coisas que você não se lembra de sua família por parte de pai. Dizer-lhe por exemplo que sua avó a amava tanto, a ponto de a carregar nos braços fracos e enfermos fazendo um esforço extraordinário, enquanto todos nós, sobretudo sua mãe, ficávamos sem respirar, com medo que você pudesse cair no chão. Seria tão bom poder lhe contar que seu avô passava tardes inteiras com você, perdendo incontáveis vezes no jogo da memória, apenas para ver o seu sorriso se abrir ao final de cada partida. Talvez fosse importante dizer que certa vez parei o carro num semáforo e lhe comprei de presente um boneco de pelúcia do Po, um personagem de desenho animado, do qual talvez você nem se lembre mais. Naquela ocasião, todos riram de mim, exceto você, que dormiu com o boneco enorme por noites a fio. Então vieram aqueles vinte e cinco anos em que eu não pude acompanhá-la até o ponto de ônibus para ir à escola, quando você atravessava sozinha aquele pontilhão ermo perto da sua casa enquanto sua mãe trabalhava. Aqueles vinte e cinco anos em que eu não vi você crescer e se tornar mais alta que eu. Não vi você ir aos shows de rock, pois eu estava no samba. E agora sinto uma vontade irreprimível de recuperar o tempo perdido. Mas talvez seja tarde para dizer tudo o que uma mulher de cinquenta e cinco anos pode falar para uma mulher de trinta.

Uma mulher de cinquenta e cinco é ávida por dar conselhos. E isso é um disparate, pois quando eu tinha a sua idade, não sabia ouvir nenhum tipo de recomendação, mas de alguma forma eu as guardava, as recomendações, pois a cada queda, eu recordava uma a uma as palavras antes proferidas, especialmente aquelas ditas por minha

mãe. Por essa razão, não darei conselhos a você, direi a mim mesma o que eu gostaria de ter compreendido antes, algo como: menina, nunca permita que estraguem sua meiguice com cinismo barato; não deixe que a amargura alheia impregne o mais doce dos seus sentimentos; seja inteira com você mesma; não negocie o inegociável; viva o instante-já, sempre; pense que o mal pode lhe fortalecer; lembre-se da impermanência das coisas, da abstração do tempo; não calcule muito, apenas o necessário; sorria; não se obrigue a nada, tampouco permita que a sociedade a obrigue; seja inteira com a vida; chore; confie no passar do tempo e na clareza que isso nos traz; sempre que puder, assista ao pôr do sol com o coração limpo; cometa uma poesia de vez em quando; e um tanto de amor. Pois a vida pode ser tudo, mesmo sem garantias.

Portanto, não se demore.

Afetuosamente,

Sua tia.

Paula Fábrio é autora de Desnorteio (Patuá, 2012), que lhe rendeu o Prêmio São Paulo de Literatura. No gênero juvenil, sua obra No corredor dos cobogós (SM, 2019) foi distinguida com a láurea Orígenes Lessa de Melhor Livro Jovem, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. O romance Casa de família (Companhia das Letras, 2024) integra as leituras obrigatórias da Fuvest (2032-2033).

Laura Athayde é quadrinista e desenhista. Seus trabalhos já circularam em diversas publicações nacionais e internacionais. Já foi agraciada com o Troféu HQ Mix e o Prêmio Angelo Agostini, além de ter sido finalista do Prêmio Jabuti de Ilustração e da Ilustrofest de Belgrado, na Sérvia. Natural de Manaus (AM), atualmente vive em Belo Horizonte (MG).

MESTRA DA RODA

Artista que carrega Itamaracá no nome revisita sua trajetória e celebra a ciranda como legado, missão e destino

Lia de Itamaracá é um dos nomes mais importantes da cultura popular brasileira. Reconhecida nacionalmente como Rainha da Ciranda, detentora do título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, concedido pelo Governo do Estado, e homenageada com distinções como o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ela ocupa um lugar central na preservação e difusão das tradições populares brasileiras.

Mas, antes de qualquer reconhecimento público, ela é Maria Madalena, filha de dona Matilde, uma mulher que criou sete filhos sozinha, com trabalho duro e coragem. Foi ela quem ensinou à Lia o gosto pela cozinha, o rigor da responsabilidade e a

alegria da música. Matilde morreu antes de ver o sorriso e o nome da filha estamparem o mundo, mas continua presente em tudo o que a artista faz. “Ela vem na minha frente, olha para mim… e depois some. Sinto a presença da minha mãe em todos os palcos que eu subo”, diz Lia de Itamaracá, que canta acompanhada dessa espécie de bênção materna silenciosa.

Aos 82 anos de vida e mais de 60 de carreira, Lia demorou a ganhar a fama do seu tamanho de artista. Hoje, vive o reconhecimento tardio com gratidão e, entre discos, turnês, participações especiais e uma agenda intensa, comemora o lançamento de seu último álbum, Pelos olhos do mar (Selo Sesc, 2025), em parceria com a cantora paulista Daúde. “A gente canta juntas e parece reza, parece celebração”, entusiasma-se.

Neste Depoimento, a pernambucana revisita sua história, saboreia o gosto de suas conquistas e deixa um recado: “Eu sou Lia. De Itamaracá. Recife. Pernambuco. Brasil. Sou Lia e estou pronta para conquistar o mundo! Ai, mamãe!”.

matilde

Minha mãe, Matilde, foi quem me criou e me ensinou a viver. Ela chegou em Itamaracá com sete filhos e encontrou uma família, os Monteiro de Barros, que ofereceu trabalho e casa. Ali, ela fez tudo por nós. Mas não foi nada fácil, viu? Meu pai era agricultor, tinha outros onze filhos, e era mulherengo. Foi minha mãe quem deu conta, sozinha, e nunca nos maltratou ou abandonou. E era uma cozinheira de mão fina. Me ensinou feijoada, baião de dois, peixada. Eu era agarrada na saia dela. Todo mundo dizia: “tira essa menina daí”, e ela respondia:

Marcela Guimarães

depoimento

“deixa, ela quer aprender”. Aprendi a cozinhar e a me virar na vida. Minha mãe não viu meu sucesso. Morreu cedo, sem saber até onde eu ia. Mas hoje, quando eu canto, ela aparece para mim. Vem na minha frente, olha… e depois some. Quando recebi meu título de doutora, em cima do palco, senti a presença dela, como se dissesse: “minha filha está salva”. Ela anda comigo, e eu digo: “mãe, nada que a senhora viu se perdeu. E se não viu, eu estou aqui mostrando. Deu certo”.

merendeira

Eu me aposentei como merendeira. Cozinhava para 270 crianças numa escola estadual. Era uma maravilha. Botava a comida no fogo e, enquanto cozinhava, levava as crianças para cantar e dançar ciranda. Foi assim por muitos anos. Nunca pensei em desistir de nada, nem da escola, nem da música. Quando eu saía para fazer show, pagava outra mulher para ficar no meu lugar. Aí, as crianças faziam greve de fome porque não gostavam da comida dela. “Dona Lia, a gente quer a sua comida”, diziam. Era um aperto. Quando eu voltava, enchia os pratos de comida e de amor. Botava mais água no feijão para render para todo mundo. Conheço cada criança da Ilha de Itamaracá, e hoje já estão todos grandes. Foram 30 anos trabalhando como merendeira. E se me chamarem para ir lá cozinhar um feijão, um arroz, uma carne, eu vou, viu? Eu gosto demais daquele lugar. E nunca me esqueço das crianças cantando: “essa merenda que me fez foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá…”, brincando com a ciranda que leva meu nome.

ciranda

Ninguém na minha família canta ou dança. O dom da música nasceu só em mim. É um presente de Deus, uma graça de Iemanjá. Comecei a me interessar por música com 12 anos e, com 19, soube que meu destino era cantar. Foram anos cantando e representando Itamaracá e Pernambuco. Tive muita fama e pouco dinheiro, mas a ciranda me transformou. Me deu responsabilidade, missão e ensinamentos de vida. Sempre

digo que a ciranda não tem preconceito: dança preto, branco, pobre, rico, criança, velho. É democrática. Quando você entra na roda, está em casa. A roda cura. A roda une. A roda abre caminho. Eu sou feliz dentro dela. O mundo inteiro já me deu a mão.

sucesso

Levei tempo para ter o reconhecimento que tenho hoje. Tempo demais. Mas não me revolto, não. Para que vou colocar coisa ruim

Aos 82 anos, Lia de Itamaracá segue levando sua roda de ciranda pelo Brasil afora e sonha em se apresentar na África.

Marcela Guimarães

QUANDO VOCÊ ENTRA NA RODA, ESTÁ EM CASA. A RODA CURA. A RODA UNE. A RODA

ABRE CAMINHO. EU SOU FELIZ

DENTRO DELA. O MUNDO INTEIRO JÁ ME DEU A MÃO.

dentro da minha cabeça? O mar ensina: tudo vem na onda certa. Hoje recebo homenagens, disco novo, títulos importantes. Minha agenda está cheia, as pessoas batem na porta da minha casa, e minha voz está em todos os lugares. Toinho, meu esposo, diz que “a casa de Lia é o avião”. E eu acho graça, porque sempre quis isso. Sempre lutei por isso. Com mais de 80 anos nas costas, posso dizer que realizei muitos sonhos e já fui para lugares que nunca imaginei pisar. Até pra Miami eu já fui. Meu próximo destino, se Deus quiser, é a África. Eu sonho abrir uma roda de ciranda por lá. Eu vou e volto para minha terra. Itamaracá é meu lugar.

laços

Toinho chegou na minha vida como quem já vinha decidido. Antes dele, tive um marido, que botei para correr. Toinho, não: correu foi para perto de mim. Se apaixonou quando me viu numa reportagem do Fantástico. Depois, conseguiu tocar

comigo e entrou no meu camarim furando a segurança (risos). Gostei da insistência. Aí chegou de mala e cuia para Itamaracá e nunca mais saiu. Já são quase 40 anos de convivência. Passamos por coisas difíceis quando perdemos nossa casa num incêndio, mas o amor vence. Não pude ter filhos de sangue, mas tenho filhos de criação, sobrinhos, alunos, uma comunidade inteira que me chama de Mãe Lia. E agora tem Pietra, minha sobrinha-neta, pequenininha, de três anos. Ela dança que só uma carrapita. Danada. Vou fazer a cabeça dela. Vai dançar e cantar ciranda no mundo. E o coração fica como? Essa vai ser a continuação de Lia. avante

Eu sou uma mulher feliz e realizada. Nunca tive medo da vida. Quando a coisa tá difícil, eu digo: “levanta e vai”. O passado já passou, eu só olho para frente. Tem gente que se agarra no que dá errado. Eu não. Eu quero paz espiritual, alegria,

continuar cantando, estar perto dos meus fãs, da minha equipe. A vida é para saber viver. Para mim, isso significa boas noites de sono, boa comida e bom amor. Isso é riqueza. Quando me pedem conselho, eu digo: lute para vencer. E digo isso porque muita gente me aconselhou a desistir, mas eu logo avisei: isso não funciona comigo, não. Olha eu aqui.

futuro

Estou com 82 anos e tenho o sonho de ir à África. Minhas raízes vêm de lá. Quero ver aquelas crianças, fazer uma roda de ciranda, botar todo mundo para dançar – com fome ou sem fome, doente ou não, porque a ciranda levanta qualquer um. Já vivi tanta coisa nessa vida, passei por altos e baixos, mas agora é só alegria. Enquanto Deus não me chamar, vou tocar o barco para frente. Vou cantar. Vou amar. Vou dançar com o mundo. Quando eu olho no espelho e enxergo a minha imagem, digo para mim mesma: “eu sou Lia de Itamaracá e ainda tem muita coisa pra acontecer”.

Assista a trechos desse

Depoimento com a artista Lia de Itamaracá, realizado em 27/11, em São Paulo, por ocasião do lançamento do álbum Pelos olhos do mar, do Selo Sesc, gravado em parceria com a cantora Daúde.

ALMANAQUE

Bananeira na rua Berna, na Vila Mariana, na zona Sul, em frente ao Museu Lasar Segall. Entre os meses de janeiro e abril, é a época da banana maçã e nanica. Já entre setembro e dezembro, é a vez dos pés de banana prata.

Frutos da metrópole

Conheça algumas árvores frutíferas encontradas nas calçadas, praças e canteiros da cidade de São Paulo

POR MARINA PEREIRA

FOTOS NILTON FUKUDA

Em meio ao concreto e ao asfalto que caracterizam a cidade de São Paulo, a natureza encontra suas brechas. Entre calçadas e canteiros, é possível notar diversas árvores frutíferas como amoreiras, pitangueiras, goiabeiras, jabuticabeiras, laranjeiras, entre tantas outras, que compõem o cenário urbano, servindo de abrigo, refúgio e alimento para a fauna que habita a metrópole. Mudam a paisagem, colorindo e perfumando o cenário com sua diversidade de cores e de sabores.

“A cidade precisa ser um lugar cada vez mais vivo”, defende a engenheira agrônoma Luciana Cavalcante Pereira, da Secretaria Municipal das Subprefeituras da Prefeitura de São Paulo. “Nós percebemos que existe um crescimento da demanda pelo plantio de árvores na cidade, e que as pessoas têm cada vez mais valorizado essa prática porque entendem como é importante. É uma mudança de consciência ambiental, que ocorreu nos últimos vinte, trinta anos”.

As árvores têm o papel não só de atrair e alimentar a fauna, principalmente as aves, mas também de fortalecer a cadeia ecológica, ajudar a restaurar áreas degradadas, trazer conforto térmico e amenizar as ilhas de calor, comuns em regiões com muito concreto. “A diferença entre a sombra artificial e a sombra de uma árvore está justamente no fenômeno conhecido por evapotranspiração. Nessa sombra natural existe também a umidade da própria árvore que consegue criar um microclima próprio, além do tamanho da copa, que se torna um tipo de 'guarda-chuva' local”, explica Luciana.

E cada morador da cidade pode contribuir para o plantio de árvores, por meio dos Conselhos de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Cades). A solicitação pode ser feita diretamente à Prefeitura, pelo portal 156, que possui outros serviços de manejo arbóreo. Neste Almanaque, conheça algumas árvores frutíferas flagradas pelas vias paulistanas. Saiba mais em bit.ly/portal156arvores

Abacateiro na avenida Domingos de Moraes, na Vila Clementino, na zona Sul. Diversas variedades de abacate dão fruto ao longo do ano.

Pé de acerola, árvore que geralmente dá frutos entre setembro e dezembro. Na foto, na rua Nuno Pereira do Vale, na Aclimação, no Centro.

ALMANAQUE

A amora pode ser encontrada mais facilmente entre os meses de setembro e dezembro. Na foto, amoreira na rua Luis Delfino, no Jardim da Glória, na zona Sul da capital.

Goiabeira na praça Rosa Alves da Silva, na Vila Mariana, na zona Sul. A época de goiaba está chegando ao fim: de janeiro até abril, essa fruta pode ser encontrada com mais facilidade.
Com safra entre dezembro e abril, jaqueira em frente ao Jardim da Luz, no Bom Retiro, na região central de São Paulo.
Romãnzeira na rua Professor Macedo Soares, no Jardim da Glória, na zona Sul. Para quem quer aproveitar a melhor época de romã, considere os meses de setembro a dezembro.
Videira na rua Borges Lagoa, na Vila Clementino, na zona Sul. O melhor período para se aproveitar as uvas é de setembro a dezembro.

Sobre poder entender

Uma memória que eu tenho da infância é ir com minha mãe ao posto de saúde retirar cartilhas e informativos sobre diversos assuntos quando tínhamos que fazer algum trabalho de ciências. Ainda que fôssemos com frequência às bibliotecas públicas para realizar pesquisas, ela entendia que o conteúdo trazido por aqueles informes era de fácil entendimento e, o mais importante, confiáveis.

Outra coisa que minha mãe fazia era nos pedir para explicar o que tínhamos feito da lição de casa, com as nossas palavras. Dessa forma, ela conseguia saber se estávamos progredindo na leitura dos materiais e criando nosso próprio entendimento sobre os temas. Mas, acima de tudo, ela queria que falássemos com nossa própria voz e não apenas reproduzíssemos a fala de outras pessoas. Hoje eu percebo o quanto isso foi importante na construção do meu senso crítico.

Tendo uma trajetória acadêmica nas ciências biológicas, essa criticidade foi cada vez mais trabalhada para buscar entender o porquê das coisas, aliada a um “faro” para desconfiar de informações muito sensacionalistas ou promessas milagrosas. Depois, minha trajetória profissional na educação trouxe essa percepção de que não adianta somente saber falar, é preciso também possibilitar a compreensão.

É nesse lugar que reside a importância de discutir um tema como letramento e comunicação em saúde. Em um mundo cercado de diferentes fontes de informação, é preciso que cada pessoa esteja atenta àquilo que pode contribuir para o bem-estar coletivo e a qualidade de vida e o que é estratégia para vender mais ou engajar curtidas. Ou ainda o que é desinformação, que causa medo e insegurança.

O letramento vem para que todas as pessoas sejam capazes de compreender de forma crítica informações recebidas e aplicar novos conhecimentos

de forma prática em sua realidade. A comunicação é necessária para que a informação seja acessível a todas as pessoas e para a construção de uma cultura de produção coletiva de cuidado e saúde. Letramento e comunicação são essenciais para que não seja somente saber falar, mas poder entender.

Em um momento em que nunca se produziu tanto conteúdo, saber avaliar criticamente se a informação é confiável é uma habilidade importante para a promoção da saúde coletiva. Da mesma forma, evitar a disseminação de notícias falsas ou checar a informação antes de compartilhar deveria ser premissa de responsabilidade de todas as pessoas. A boa informação precisa encontrar espaço para ser trazida de forma simples e acessível.

O Projeto Inspira em 2026 defende que eu preciso saber de mim para entender se o que eu vejo ou leio serve realmente para o meu bem-estar. Essa autopercepção gera autonomia e decisões conscientes. E saber de nós é um convite à ação para a responsabilidade compartilhada, refletindo sobre os impactos que uma informação equivocada pode trazer para a coletividade.

Espero que o despertar para a importância dessa discussão alcance cada vez mais pessoas e seja caminho para a construção de dias mais saudáveis e solidários. Desejo também que cada um possa encontrar em si e no diálogo com sua realidade o conhecimento necessário para suas decisões em saúde e que encontre também suas próprias palavras para descrever o que sente e do que precisa, assim como me ensinou minha mãe.

Deborah Dias Matos é bióloga, especialista em educação ambiental e atua como técnica na área de Educação em Saúde da Gerência de Saúde e Odontologia do Sesc São Paulo.

Túlio Cerquize
ABRIL 2026

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Marco Antônio (foto); Lucas Blat (colagem)

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