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ILHA DO BORORÉ

CAPITAL PAULISTA


Resistências Confluentes É da natureza humana aventurar-se por desvelar o desconhecido. Ir ao encontro do outro para reafirmar quem somos pelas similaridades, diferenças, e alçar novos dilemas, são combustíveis aparentemente voláteis, que imprimem memórias e abastecem imaginários, nutrindo repertórios de vida. Distintas vozes ecoam e são acolhidas no programa de Turismo Social do Sesc São Paulo, propiciando vivências que abarcam as trocas simbólicas, a fruição cultural e das paisagens tanto geográficas quanto humanas. O exercício democrático do turismo envolve escolhas conscientes e um permanente compromisso com a formação do público para a corresponsabilidade da experiência. Nesse contexto, insere-se o projeto Itinerários de Resistência, que apresenta parte da rede de turismo


de base comunitária paulista realizada por grupos com identidades diversificadas como as aldeias indígenas, quilombos, assentamentos, associações e coletivos urbanos. Esses movimentos voltados para a coletividade convergem para o desenvolvimento local, bem como para o fortalecimento de lutas e objetivos comuns. Ao difundir saberes e aspectos socioculturais de tais territórios, apresentando uma das faces do turismo social em ambiente digital, o Sesc amplia os meios de acesso a essa pluralidade, acendendo um farol deflagrador de suas potencialidades. Que as narrativas e o conteúdo imagético de tais iniciativas sejam portadores de estímulos à reflexão e construção de uma sociedade mais justa e equânime, com encantamentos a serem desvelados, vividos e compartilhados. Sesc São Paulo


Conhecer esse bairro na beirada sul da cidade de São Paulo é se aproximar da energia da mobilização que propõe, a partir da Casa Ecoativa, ‘curar’ a metrópole com cultura, práticas ambientalmente justas e educação popular


“Essa represa não esteve sempre aqui, não! Foi gente quem fez.” Frase grafitada no Mural Memória da Ilha do Bororé

“Educador é aquele que confecciona asas. E voa junto.” Sergio Vaz, poeta e cocriador do Sarau da Cooperifa


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Ilha do Bororé

até 1935. Testemunhou a chegada da balsa, que ainda hoje faz a ligação entre o Grajaú e a Ilha do Bororé, localidades do extremo sul da cidade de São Paulo.

Vicka

Seu Piquinho está com 94 anos. Conheceu a pinguela por onde se atravessava o rio até a sua pequena e então isolada comunidade. Criança, viu a Represa Billings encher,

Represa Billings Ilha do Bororé, SP


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Acervo da AMIB

Pier da represa no Parque Natural Municipal Bororé, com grupo de jovens. Ilha do Bororé, SP

O Grajaú é o maior distrito paulistano quando se fala em população. Um aglomerado urbano onde vivem 361 mil pessoas em 92 quilômetros quadrados. Isso dá quase 4 mil pessoas por quilômetro quadrado. Enquanto isso, a região do Bororé tem cerca de 5 mil habitantes, média de 208 para cada um dos 24 quilômetros quadrados. A Ilha do Bororé, que na verdade é uma península, ainda hoje é eminentemente rural, de chácaras, cercada das águas da Represa Billings por quase todos os lados. Boa parte das famílias habita a localidade há pelo menos três gerações e viu a cidade se expandir para lá das margens da represa, enquanto do lado de cá as coisas permaneceram em relativa calmaria.

Essa atmosfera rural é celebrada pelos moradores. Ao mesmo tempo, a condição periférica e a localização em área de interesse estratégico da metrópole, no meio de um dos maiores reservatórios em área urbana do mundo, desde sempre obrigaram a população local a lutar por direitos básicos e respeito ao território. Por isso mesmo, a Ilha do Bororé é marcada, desde a década de 1990, pela atuação de ativistas, reunidos na Casa Ecoativa, que surgiu como um projeto de gestão ambiental e, hoje, se define como centro eco-cultural. Movimenta a comunidade com arte, busca por práticas ambientalmente justas e iniciativas de educação popular participativa.


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A escola e a rua

Acervo AMIB

Espaços da Casa Ecoativa. Na casa à frente, na imagem, um mural do artista Pixote Mushi. Na casa ao fundo, mais antiga, o graffiti da artista Mona Caron. Ilha do Bororé, SP

O gestor cultural Jaison Pongiluppi Lara é uma liderança comunitária da Ilha do Bororé. Cria da Casa Ecoativa, como diz, cresceu envolvido com as atividades educativas e artísticas desse projeto.


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Acervo AMIB

A Ecoativa foi criada em 1996 a partir da mobilização de um ativista chamado Eduardo Freire, que morava no bairro e teve participação decisiva também na criação da Associação de Moradores da Ilha do Bororé (AMIB). O foco principal naquele momento era preservação ambiental. “A população do Bororé estava criando e pressionando por políticas públicas já na década de 1990”, destaca Jaison. A Área

A grande figueira é palco de brincadeiras. Ao fundo, mural da Natalia Matarazo. Ilha do Bororé, SP


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Acervo AMIB

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Pontão da Balsa (atracadouro), na Represa Billings. Ilha do Bororé, SP

“A escola mobiliza muito o que hoje a gente chama de desemparedamento da educação e atua fortemente para territorializar o currículo” Jaison Pongiluppi Lara

de Proteção Ambiental Municipal Bororé-Colônia foi efetivamente criada em 2006; a Capivari-Monos, vizinha, cinco anos antes, em 2001. Freire foi morar em outro estado por questões familiares em 2006. Sua partida desmobilizou temporariamente os projetos. Em 2013, Jaison tinha se juntado ao coletivo Imargem, que atua no Grajaú nas pautas arte, meio ambiente e convivência. Inspirados nessa experiência, e na esteira das discussões sobre passe livre e direito à cidade que tomaram conta do debate público municipal, entre 2013 e 2014 ele e outros jovens da Ilha do Bororé encontraram na Virada Sustentável a oportunidade de reabrir a Casa Ecoativa. Conseguiram um pequeno financiamento para um projeto em parceria com a Escola Estadual Professor Adrião Bernardes.


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Essa escola pública tem um papel fundamental na comunidade. “A escola mobiliza muito o que hoje a gente chama de desemparedamento da educação e atua fortemente para territorializar o currículo”, conta Jaison, que foi aluno. “É uma escola que vai para a rua discutir os conteúdos, geografia, matemática, virou uma referência de escola aberta.” Para a reocupação da Casa Ecoativa — que funciona em um imóvel da Empresa Municipal de Água e Energia (EMAE) na beira da represa, uma situação jurídica ainda indefinida — ativistas e alunos saíram de bicicleta, de skate e a pé para mapear as histórias de moradores e colher subsídios para “construir um sonho coletivo”. “Nós fizemos uma maquete do bairro para depositar ali os nossos sonhos”, lembra Jaison. Reaberta a Ecoativa, foram surgindo, então, horta, permacultura, graffiti, parquinho, cozinha comunitária. Muitas novas parcerias — hoje, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo é uma parceira importante com o projeto de registro e memória Bororé ao Mundo. E visitantes: de outras escolas da cidade, de organizações, de Unidades do Sesc São Paulo. É como Jaison gosta de definir a atividade turística neste território: educativa. “E que precisa ser feita de acordo com princípios éticos: economia solidária, colaborativismo, floresta em pé, desenvolvimento local”, acrescenta. Por causa do tema arquitetura e urbanismo, a comunidade chegou a receber gente de 14 nacionalidades em um mesmo ano. A programação artística, cultural, de educação popular e mobilização comunitária tem sido intensa desde a retomada das atividades da Casa. “Na pandemia, ficou tudo meio abandonado, todo mundo precisava cuidar da saúde”, diz Jaison. Mas as atividades estão voltando pouco a pouco.

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“É uma escola que vai para a rua discutir os conteúdos, geografia, matemática, virou uma referência de escola aberta.” Jaison Pongiluppi Lara


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Mural da memória

A Represa Billings não esteve sempre aqui. Mas está há tanto tempo que a comunidade da Ilha do Bororé sente necessidade de lembrar que a conformação atual de seu bairro não é obra apenas da natureza: é, em grande parte, criação humana. Isso está registrado, escrito numa parede que foi convertida em importante referência local. Assista aqui ao documentário de 2012 realizado pelos alunos do curso de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi, que mostra Seu Piquinho e outros personagens da Ilha do Bororé.

O Mural Memória é um grafite com cerca de 30 metros de extensão, que registra a história da colonização desse pedacinho da cidade de São Paulo. Uma história que é “feita de pessoas, animais, plantas, de lutas e conquistas”, como também está escrito na própria obra. Criação conjunta do coletivo Imargem e da juventude local, vai da esquerda para a direita mostrando os indígenas Guaranis; os bandeirantes de armas em punho; a azul e branca capela de São Sebastião; as quermesses de antigamente.


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Vicka

Três moradores icônicos são homenageados no mural com desenhos que os representam e balões nos quais contam breves histórias. João Machado, o Seu Piquinho, aparece com a lembrança de que o pai dele trabalhou na construção da represa. Dona Nadir recorda as festas de São Sebastião. E Dona Raimunda que é mãe do ativista Eduardo Freire, identifica na construção do Rodoanel Mário Covas, que passa pelo

Mural do artista Mauro Neri, na Ilha do Bororé. Ilha do Bororé, SP


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“São Paulo pode ter um cinturão verde produzindo comida, energia e cultura” Jaison Pongiluppi Lara

Gabriela Graça

Construída em 1904, A Capela de São Sebastião é histórica na região e ponto de visitação de roteiros turísticos. Ilha do Bororé, SP

território do Bororé, mas sem dar acesso a ele, o motivo da redução da população de tucanos no território. As possibilidades de visitação começam na travessia da balsa. Incluem a mais do que centenária Capela de São Sebastião, de 1904. O mirante da ilha. Hortas Orgânicas. O antigo e turístico Sítio Paiquerê. Outros projetos oferecem possibilidades, como o Meninos da Billings, de turismo náutico na represa, e a agência Balsa Turismo, com roteiros de bicicleta. A Casa Ecoativa, ponto de referência desse turismo educativo com suas paredes grafitadas e seus espaços ao ar livre, tem uma cozinha comunitária. Nela são preparadas refeições agroecológicas, um tema caro à comunidade local. São vários os projetos focados em alimentação sem veneno, respeitosa com o meio ambiente e a saúde, e sem desperdício. O projeto O Que Cabe no Meu Prato propõe conscientização política, ambiental e autocuidado a partir de uma alimentação vegetariana e vegana; Lu ReciclAlimentos aborda eliminação do desperdício; de Parelheiros, as cozinheiras da Cozinha Amara – conheça


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Acervo AMIB

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Jovens no mapeamento do projeto Bororé ao Mundo. Ilha do Bororé, SP

mais no capítulo Acolhendo em Parelheiros desta coleção – se juntam eventualmente aos vizinhos da Ilha do Bororé para preparar refeições baseadas em ingredientes da Mata Atlântica, mais preservada por ali que no restante da cidade. A Ilha do Bororé faz parte do Polo de Ecoturismo da cidade de São Paulo, junto com os distritos de Parelheiros e Marsilac. Metaforicamente, Jaison reflete sobre esta condição e o papel do bairro na metrópole: se você olha para um machucado na pele, percebe que o processo de cicatrização começa pelas bordas, não pelo meio da ferida. De forma similar, ele vê a grande mancha cinza que é a cidade de São Paulo como um ferimento que será curado a partir de suas periferias. “São Paulo pode ter um cinturão verde produzindo comida, energia e cultura”, diz.

Veja aqui a primeira edição do jornal Folha do Bororé, editado pelo Eduardo Freire. De junho de 1994. Para saber mais sobre alguns atrativos da Ilha do Bororé, como o Sítio Paiquerê, clique aqui E sobre o turismo náutico e o projeto Meninos da Billings, acesse aqui


SP 33 0

CAMPINAS FRANCO DA ROCHA

SP 300

Comunida Quilom SP 2 80

Comuna da Terra Irmã Alberta SP 2 70

SÃO PAULO

Ilha do Bororé Acolhendo em Parelheiros

Terra Indígena Tenondé Porã SP

05

5

APA Capivai-Monos


ade Cultural mbaque BR

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PARAIBUNA

CUBATÃO

BERTIOGA SANTOS

Comunidades retratadas Águas Áreas de Proteção Ambiental

APA Bororé Colonia

Municípios em destaque Rodovias


ILHA DO BORORÉ @bororeaomundo, @casaecoativa @ilhadobororeaomundo, @casaecoativa, @cafenamatasp, @balsaturismo Informações sobre agendamento de visitas e roteiros disponíveis em — Tel: (11) 98784-3400 falar com Jaison Pongiuppi (Jai)


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