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Serviço Social do Comércio - Sesc PR

Coletânea Sesc de Contos Infantis

Curitiba, 2017


Tradições da cultura paranaense reunidas em coletânea infantil Para homenagear a cultura e a arte paranaense, o Sesc Paraná organizou uma coletânea de Contos Infantis. É uma seleção de narrativas inéditas – produzidas por novos autores que estão morando no Paraná ou são nativos do estado e hoje vivem em outros lugares. Os trabalhos aqui reunidos chegaram de várias cidades. A antologia dedicada aos pequenos é composta por 10 histórias as quais foram ilustradas e representam um pouco das nossas tradições culturais. Catalogação na Fonte: Sesc Paraná - Gerência de Cultura

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Coletânea Sesc de Contos Infantis / Curitiba : Sesc PR, 2017. 68 p.: il. color.

1. Contos infantis. 2. Literatura infantojuvenil. I. Sesc PR. II. Título. CDD – 028.5

Agradecemos aos autores que dedicaram algum tempo para escrever sua história de relação com o Paraná e que a partir de agora será compartilhada com crianças e adultos também.

Boa leitura Sesc Paraná


sumário Lílian Deise de Andrade Guinski

Sueli Edina Lazari Scatolin

O tesouro da casa de lambrequins amarelos...........................................................9

Uma aventura em morretes...................42 William Bruno Correa

Ester Regina Gehlen da Silva

O encantamento da neblina...................14 Danielle Ayres Silva

Nazinho, o menino poeta!.........................22 Ana Claudia Marigliani Bogner

Como é bom ter amigos.............................29 Áurea Domingues da Luz

maria fumaça................................................36

O gigante das araúcarias........................48 Luciana do Rocio Mallon

O dia em que as lendas do Paraná foram salvas.................................................54 Danilo Furlan

O colar de ouro verde..............................60 Higor Antonio da Cunha

O bicho do Paraná.......................................66


Lílian Deise de Andrade guinski Natural de Curitiba PR. Graduada em Letras pela PUCPR, e cursou Mestrado em Estudos Literários na UFPR. Foi curadora da exposição audiovisual Newton Sampaio, Paraná e Arte Moderna, e mediadora do evento cultural Faces do Paraná: O panorama da literatura paranaense. Atua como palestrante, oficineira, pesquisadora. Obras publicadas: As patuscadas de um livro infantil (patuscadas...?); Newton Sampaio: vida, obra e silêncio; Newton Sampaio: médico escritor; Cultura e Literatura em sala de aula de língua portuguesa e estrangeira. Participa da Coletânea Sesc de Contos Infantis. Obra no prelo: A Casa Assustadonha. É membro da Academia de Letras José de Alencar - ALJA/PR – ocupa a cadeira nº 23, cujo patrono é o escritor Newton Sampaio.

Otesouro tesouro casa de O da casa da de lambrequins amarelos lambrequins amarelos Lílian Deise de Andrade Guinski


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– ão vou! Gritava o guri abraçado ao videogame, ao notebook, ao celular e outros eletrônicos. – Serão férias diferentes. Enquanto a mãe confortava o filho, o pai tentava convencê-lo. – Você vai conhecer a vida dos nossos antepassados e… – Não quero saber dos antepastados. – Passados. Retrucou o pai. – Não me interessa se os antepastados foram passados, não… – VAMOS! E a última palavra sobre o assunto ficou por conta do pai. Depois de algumas afogadas o motor do fusca funcionou e pegaram a estrada. A lua já ia alta no céu quando o carro parou e a mãe disse eufórica: – Queridos, chegamos! O piá ainda chateado entrou na casa com passos pesados e bateu a porta da sala com força, tanta força que o único quadro que enfeitava a parede caiu e desmontou-se. O pai, agora também brabo, ao ver o estrago mandou o filho arrumar a bagunça. Envergonhado e cansado, o guri fez o que o pai lhe mandara fazer, foi quando viu colado no verso da imagem um papel amarelecido pelo tempo. Desdobrou-o com cuidado e… – Um mapa do tesouro! Murmurou para ninguém ouvir. Limpou a lambança ora sonhando com um baú cheio de moedas de ouro e joias, ora com a garrafa de gênio milenar capaz de realizar os pedidos de quem o desengarrafasse. Depois correu eufórico para o quarto que ocuparia naquelas férias. 9


– Noventa passos ao sul a partir do portão. Um… dois… Quando se perdia na conta, voltava à porta e começava do um. Enfim chegou ao primeiro destino, uma plantação de árvores com lindos frutos pendurados em seus galhos. Com a fome agitando-lhe a barriga e os pensamentos, começou a procurar algo que o ajudasse a colher uma fruta, foi quando achou um par de pernas de pau. Nunca tinha visto algo parecido, calçou-as e, tentando se equilibrar, colheu vários caquis madurinhos e saborosos, que foram devorados enquanto o piá treinava caminhar nas pernas estranhas. – Trinta passos com pernas de pau para o sudoeste. Um… dois… E a contagem de passos o levou à casinha. Tinha medo do lugar, ainda não tinha usado aquele banheiro estranho, mas o mapa mandava entrar e assim o fez. Sentado, ficou olhando as paredes de madeira, as aranhas penduradas em suas teias, um ou outro inseto desconhecido, foi quando percebeu uma tábua meio solta meio presa e fuçando ali descobriu uma lata de metal. – Será o tesouro? A voz da mãe o tirou do devaneio. – Hora do café. Tem bolinho da graxa, vina e pinhão quentinho. Aff! Lave as mãos. Pernas de pau numa mão e a lata na outra, o guri correu para casa e se fartou de pinhão assado no fogão a lenha, bolinho frito na banha e café coado no saco – delícia! Mostrou a lata ao pai que ao abri-la ficou encantado. – Figurinhas da Bala Zéquinha! – Que que é? O menino nunca tinha ouvido falar das figurinhas. – É uma coleção de figurinhas lançada por uma marca de bala lá pelos anos de 1929... 30... E juntos olharam cada imagem, riram e se divertiram como há muito tempo a família não fazia.

Na manhã seguinte, pai e filho estavam na porta da casinha para recomeçar a busca pelo tesouro. – Quarenta para oeste… um… dois… Chegaram ao velho paiol e num canto da janela perceberam um ninho e nele ovos esperando para chocar. – Olha! É um ninho de gralha azul. E passaram horas observando o quebrar da casca dos ovinhos e o pai contando a história da ave símbolo do Paraná. – Um… dois… Recomeçaram a busca que os levou ao pinheiral. Cansados de contar passo por passo, brincaram de pique esconde até que – CABRUM! Não era trovoada, era uma grande pinha se rompendo e fazendo chover pingos de pinhão ao redor dos caçadores de tesouro que com os bolsos cheios da fruta voltaram para casa para saborearem as delícias caídas do céu. E a busca pelo tesouro continuou nos dias que vieram e levou os caçados à descoberta de brinquedos e brincadeiras. Bilboquê, pião, carrinho de rolimã, um mundo de alegrias e diversão. Um dia, com ajuda das pernas de pau, o pai alcançou um lambrequim amarelo do telhado e notou que ele estava meio solto e ali encontrou uma nova parte do mapa do tesouro que dizia para dar 33 giros em direção ao portão. – Um… dois… vinte e um… trinta… Pai e filho, de tão tontos com os giros, caíram no jardim em meio a bocasde-leão, lírios, jasmins, sentiram o cheiro das flores, da grama e viram o céu azul agitado pelo bater de asas dos pássaros e pelos galhos ao sabor do vento. À noite veio e com ela o brilho dos vaga-lumes e das estrelas, o cantar da coruja, a umidade do sereno. Antes de partir de volta à capital, o piá refez todo o caminho do mapa, só que recolocando as pernas de pau, figurinhas e brinquedos de onde havia tirado, dobrou meticulosamente o papel amarelado e o colocou atrás do quadro e pensou: – Quem sabe um outro menino bate a porta e descobre o tesouro da casa de lambrequins amarelos.

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Ester Regina Gehlen da Silva Ester Gehlen é residente em Curitiba e atriz formada em Artes Cênicas pela Universidade Estadual do Paraná. Foi uma das selecionadas no concurso Conto Curitiba 2017. Cresceu em uma casa abarrotada de livros, até que um belo dia descobriu que era capaz de escrever suas próprias histórias, e desde então não parou mais.

O encantamento neblina O encantamento dada neblina Ester Regina Gehlen da Silva


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quele era o último dia das férias e Catarina, no auge de seus sete anos, estava mais inquieta do que o costume. Queria aproveitar ao máximo cada instante na casa da Vó Ana, uma daquelas casas antigas, mas muito charmosas e que ficava logo ali, bem na entrada de Morretes. Todo fim de tarde a avó punha a mesa farta para café e começava a contar causos e lendas de outros tempos. A menina ouvia com atenção, enquanto mordia um pedaço quentinho de bolo de fubá: − Vou te contar algo que aconteceu há muito, muito tempo, e que nunca contei antes. Você sabia que em noites de lua cheia a Estrada da Graciosa fica toda encantada? A neta arregalou os olhos: − É, vó? − É. Se você for até lá numa noite assim pode dar de cara com uma neblina que de tão branca você não vê nada, nadinha mesmo! Mas não é uma neblina comum, essa é uma neblina mágica. O povo diz até que alguns nunca mais voltam porque ficam presos nela para sempre. Quando eu tinha a tua idade, Catarina, eu brincava com um menino que era meu melhor amigo, o Nico. A gente era muito arteiro. Uma noite, esperamos os mais velhos dormirem e combinamos de ir até a estrada só pra ver se existia alguma coisa lá mesmo... A avó se calou por algum tempo. A neta interrompeu, curiosa: 14


− Mas e daí, vó? O que aconteceu? − Ah... nada demais. Consegui foi perder um colar que gostava muito. Nunca mais encontrei. Bem, já está ficando tarde... vamos dormir, Catarina. Contrariada, a menina acatou: − Tá bom... Bença, vó. E foi para o seu quarto. Pensava na história e não conseguia dormir. Olhou pela janela: Lua cheia! Deu um sorriso maroto, levantou e saiu devagarzinho, na ponta dos pés. Lá fora, um silêncio. Sem pensar muito começou a caminhar na direção da serra. Mas antes que tivesse tempo de mudar de ideia, tudo ficou branco! Sentiu o mundo girar, viu que ia cair: − Ahhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!! Abaixada, ainda com os braços protegendo o rosto, tomou coragem e espiou. A neblina havia desaparecido, e ela podia reconhecer diante de si a estrada de paralelepípedos. − Mas o quê... Como eu vim parar aqui no meio? Eu nem andei tanto assim! Deu mais uns passos, até que o silêncio foi interrompido: Se aproximavam cavalos, puxando carroças que pareciam ter saído de um filme antigo! Ficou tão perplexa que mal conseguia se mover, quando estava prestes a ser atropelada, sentiu um forte puxão e foi parar caída, ao lado da estrada. − Você quer morrer, é? Tamanho foi o susto ao ouvir aquela voz desconhecida que Catarina deu um pulo para trás que a deixou em pé na mesma hora. − Q...q...qu...quem é... O QUÊ??? Ao seu lado estava um menino pequeno, de feição alegre e olhos pretos curiosos, pardo e mais ou menos da mesma idade dela, que realmente parecia esperar por uma resposta. − Vamos dar uma volta! Pegou a menina pela mão e foi puxando ela pelo caminho. Falou sobre a história de cada canto da estrada, mostrou as flores, as montanhas, as ruínas, e avisou

sobre o cuidado que ela deveria ter com as criaturas boas e ruins que lá habitavam em noites de lua cheia. Catarina percebeu que havia algo diferente. Tudo parecia mais luminoso do que ela se lembrava, mas estava tão maravilhada com a aventura naquele novo mundo que preferiu seguir o menino e deixou as perguntas de lado... Até que um grito arrepiante veio de dentro da mata! Depois outro, e mais outro! Ela congelou de medo, mas ele insistia: − Vamos, não pare! Esse é o Gritador chegando! Precisamos ir! − Mas eu preciso encontrar o caminho de volta! Catarina finalmente notou que havia passado muito tempo desde que saíra de seu quarto e o menino, antes alegre, agora parecia realmente preocupado. Olhou para os lados e para o céu. − Então, melhor ir rápido. Você tem que partir antes de amanhecer, ou... − Ou??? − Só tem um jeito, esperar a neblina encantada aparecer de novo. E quando isso acontecer, você pula dentro dela com tudo! Entendeu? Os gritos continuavam, um após o outro, cada vez mais próximos. Foi quando tudo voltou a ficar branco. Ela não pensou duas vezes e se preparou para adentrar a neblina antes que fosse tarde demais. Tentou puxá-lo, mas ele soltou sua mão. − Você não vem? − Não... só dá certo pra um. Espera! Você me lembra alguém. Toma! Foi o tempo de pegar o que ele lhe estendia antes que tudo girasse outra vez. Catarina abriu os olhos e olhou ao redor. A casa da avó estava apenas a alguns metros! Correu para o quarto antes que os adultos acordassem, pois faltava pouco para o sol nascer. Algumas horas mais tarde, quando estava despedindo da avó para voltar para casa, cochichou baixinho no ouvido dela: − É pra você...

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E entregou em suas mãos aquilo que o menino lhe dera. Quando o carro partiu, Catarina olhou uma última vez pelo vidro traseiro. A avó segurava um pequeno colar, e uma lágrima lhe descia pelo rosto.

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Danielle Ayres Silva Danielle Ayres Silva, nascida em Ivaiporã no ano de 1983, dedica-se ao magistério porque acredita no poder de transformação que a educação e a literatura são capazes de promover. É graduada em Letras pela Universidade Norte do Paraná; pós-graduada em Leitura, Literatura e Produção Textual pela Faculdade de Jandaia do Sul e mestre em Educação pela Universidade do Oeste Paulista. Atualmente, ministra aulas de Língua Portuguesa nas redes pública e privada do estado do Paraná e em cursos de pós-graduação do Grupo Rhema Educação.

Nazinho, menino poeta! Nazinho, oo menino poeta! Danielle Ayres Silva


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eu nome era Nazinho. Ele morava com os pais em Ivaiporã, a cidade mais gostosa de se viver! Durante as tardes de primavera, quando o sol sorria com as cócegas das gralhas-azuis e as nuvens se admiravam nos reflexos das águas do lago do Jardim Botânico, Nazinho se sentia tão livre que marcava reuniões com as borboletas e, sempre que possível, levava as estrelas no bolso. Quando ele achava que havia poucas borboletas borboleteando o céu, tratava logo de pegar a sua aquarela e pintar várias folhas das árvores da Praça Espanha. Folhas vermelhas, amarelas, azuis... Assim ele fazia uma plantação de borboletas! Às vezes, Nazinho queria cantar. Quando a cantoria não cabia mais dentro dele, ele dedilhava as cores do arco-íris – grande violão colorido do céu – e logo se formava um lindo coral de papagaios-de-cara-roxa, regido pelos dedinhos ágeis do menino-maestro! A música embalava os passos firmes do exército de soldadinhos de chumbo que se alinhavam nas plantações de araucária do Senhor Vizinho, à espera das ordens do menino: – Hoje vocês irão descosturar a linha do horizonte para o céu e o mar se encontrarem! Uma vez, quando o dia estava começando a ficar com sono, Nazinho olhou para o céu e viu que não tinha nenhuma estrela lá em cima... Chateado, foi até o jardim da avó e colocou alguns vaga-lumes no pote de geleia que estava vazio. Quando a Mãe o viu, ralhou com o menino, mas ele disse que estava colhendo sementes de sol para plantar no céu escuro. A Mãe riu e disse que ele não tinha mais jeito! Era um caso perdido... Então ela ligou para o Doutor de Branco e combinou os ponteiros do relógio com ele. O mistério estava resolvido! Nazinho tinha invencionice crônica. Era sério e a Mãe deveria comprar uma lista enorme de frases-feitas para o menino usar. Já eram dias de narizes gelados... As árvores mais pareciam grandes bonecos de neve a balançar as cabeças ao som do vento frio. Nazinho parou, desanimado, 22

em frente à loja de frases-feitas e começou a desenhar no vapor que se formava no vidro da vitrine. A Mãe entrou trazendo o menino pelo braço e foi logo escolhendo algumas frases que poderiam servir em Nazinho. Ele desejou bem forte ir embora dali... Não queria mais chatear a Mãe! Na rua de casa, ele ficou olhando um tempão para uma poça de água que se formara na calçada. – O que está fazendo aí, filho? Venha lavar as mãos para o jantar! – Estou gravando a minha imagem na água para eu chover beeeem longe daqui quando ela evaporar... – Mas, filho, você não pode ficar tão longe assim da Mamãe. – Quando a Senhora sentir saudades, veja a previsão do tempo que eles dirão onde eu estarei! Quem sabe eu chovo no Rio Ivaí e a Senhora mergulha nele para se sentir pertinho de mim?! No outro dia, Nazinho ouviu a Mãe dizendo que ele iria para a escola. Era preciso manter o garoto ocupado! Na imensa mesa da sala de jantar, a Mãe encapou os cadernos, escreveu o nome do menino, com letra bem redonda, nas primeiras páginas, e acomodou as frases-feitas no bolso da frente da mochila, que era mais fácil de abrir durante uma emergência! Ele enfiou o seu mundo dentro da mochila e, com passos ansiosos, foi à escola imaginando um montão de coloridices! Olhando para a caneta, Nazinho tentava entender como era possível entrarem tantas letras lá dentro e depois escorrerem todas no branco do papel. Será que era assim também na fábrica de frases-feitas? Então a professora pediu para cada um dizer do que mais gostava. O menino havia esquecido das frases-feitas na mochila e as palavras começaram a disputar espaço na boca dele. Logo uma família inteira delas saltou: - Eu gosto de todas as coisas que fazem cócegas no coração da gente! Todo mundo riu do menino... Onde já se viu coração sentir cócegas?! Nazinho encolheu-se encaramujando no seu mundinho... O garotinho deu 23


uma piscadinha bem forte e uma lágrima tilintou na carteira dele... Lá fora o céu também chorava. Dentro de Nazinho o sol adormecia... Por que ninguém tem os olhos que veem como os olhos dele? Mas a professora ficou brava com os colegas e disse que Nazinho era diferente porque NAZINHO ERA POETA! Ele abraçou essa ideia como quando abraçamos um novo amigo. Mostrou a língua para as frases-feitas. Saboreou a palavra POETA como se fosse o pinhão quentinho que a Mãe cozinha e fez lindos versos para ela, que conversou toda orgulhosa com a professora. O menino saiu poemando por aí... Hoje Nazinho é chamado de Dalton Trevisan, por uns, de Domingos Pellegrine, por outros, há os que o conhecem por Paulo Leminski ou Helena Kolodi! Não importa o nome que dão a ele, o que importa de verdade é que hoje Nazinho chove nos corações das pessoas e enche as páginas brancas e frias de lindas palavras.

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Ana Claudia Marigliani Bogner Nascida em São Roque, interior do Estado de São Paulo, mora em Curitiba há dois anos, sua cidade do coração! É jornalista e especialista em Gestão da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Escreveu para revistas (Nestlé e Pernambucanas), para portais (Caras Online e Terra) e já trabalhou em TV, rádio e jornal. Hoje, é assessora de imprensa na área de saúde e terceiro setor, e cria conteúdo para publicações impressas e online, além de redes sociais.

Como teramigos amigos Comoeébom bom ter Ana Claudia Marigliani Bogner


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ra o finalzinho de uma tarde de outono, um dia gelado com céu bem azul e sem uma nuvem branca, quando Cutiota, uma cutia de pelo marrom brilhante, abriu a porta da sua casinha, aos pés de uma frondosa araucária. Era hora de encontrar os amigos e brincar. Saiu pulando em meio às folhas secas e respirou tão forte o ar gelado que este acabou lhe dando um acesso de tosse. Ficou até um pouco zonza e achou melhor andar enquanto contemplava a natureza. Olhou para o alto e viu as araucárias. Ela sempre teve curiosidade em ir até lá: ao topo. Pensava como faria e, se um dia, conseguiria. Mas seus braços e pernas eram curtos. Vez ou outra agarrava o tronco da araucária e dizia: agora vai! Tentando subir. Mas não saia do lugar e ainda caia de bumbum no chão. – Seria tão bom voar... Chegaria na copa em instantes, pensava. Logo ouviu as gralhas. Uma delas sempre encarava Cutiota. O nome dela era Amália, com uma penugem azul, parecia uma bailarina quando estava voando. Rodopiava indo de um lado para o outro deslizando e se deixando levar pelo vento. Era encantador. 29


Mas Cutiota logo desviou a atenção quando seus amigos a encontraram. Eles adoravam brincar de esconde pinhão. Quando os pinhões, que nascem nos galhos das araucárias caiam por conta do amadurecimento da pinha se espatifavam no solo, era pinhão por todo lado. Na brincadeira, um dos amigos precisava enterrar e os outros tinham de encontrá-lo. Quando cansavam, abriam e comiam os pinhões. Todos se divertiram. Já cansada, Cutiota voltou para casa sozinha e, no meio do caminho, ouviu um barulho. Parecia um choro misturado com frases que ela não conseguia entender. – Vai. Entra, dizia uma voz ao longe. Cutiota foi se aproximando, sem tentar fazer barulho. Até que pisou em alguns galhos secos. – Quem está aí? Perguntou a voz chorosa e desconhecida. E, por entre as folhagens, Cutiota apareceu e fez uma cara de espanto. – Está tudo bem com você? Perguntou para Amália, enquanto observava a passarinha com um pinhão no bico e tentando segurar outro com as asas. A gralha então começou a chorar e a falar: – Sabe, todo dia lá do alto, eu, eu vejo você brincar com seus amigos, usar suas patas e unhas para cavar, você cava rápido. Você consegue se esconder. E sabe segurar o pinhão. E eu não consigo cavar, não tenho unhas. Só tenho penas. – Mas... você vive lá no alto, perto do céu, você dança entre as nuvens, pode descer ao solo e subir até o alto em poucos segundos. Eu mal consigo sair do chão – falou Cutiota com pulinhos, mostrando para Amália que mal conseguia tirar as patas do solo. – Eu queria ser você, disse Amália com voz embargada. – E eu queria ser você, retrucou Cutiota, olhando para as asas de cor azul, e continuou: – Você sabe que não dá! Nós temos de gostar de nós como somos. Mas ninguém disse que não podemos nos ajudar e realizar nossos sonhos. Eu tenho

uma ideia, falou Cutiota com um sorriso no rosto enquanto segurava a asa da passarinha. – Encontre-me aqui amanhã, no final do dia. – Mas o que você está pensando? Qual é a sua ideia? Perguntou que a gralha curiosa. – Só apareça, você não vai se arrepender. Ah, e traga alguns amigos – falou a cutia. No outro dia, no horário combinado, Amália e alguns amigos desceram da copa da alta Araucária. A ansiedade e a alegria contagiaram a todos, afinal, sempre é bom fazer novos amigos. – Nós vamos brincar de esconde pinhão todos juntos – propôs Cutiota olhando para Amália. – E você não precisa ter patas para esconder, pode fazer isso com o bico, basta enterrar no solo ou nos troncos. Amália percebeu que se voasse poderia encontrar lugares novos para escondê-los e ficou craque na brincadeira. Quando todos se cansaram e o dia estava quase chegando ao fim, Amália mostrou um pedaço grande de pano. – Cutiota, agarre-se nesse pano que eu e meus amigos vamos te levar para o alto. A cutia não acreditou no que tinha ouvido. Ela iria visitar o topo das árvores! Mais do que depressa segurou o pano com toda força do mundo enquanto as outras gralhas também o agarravam com seus bicos e pés. – No três levantamos voo, avisou Amália, olhando para seus amigos. – E gritaram: um, dois, três. E voaram. O vento lá no alto era mais gelado. Os raios de sol, mais fortes. Cutiota via um pôr do sol rosado com um céu azul. – Obrigada, falou Cutiota. Obrigada por você ser minha amiga, disse para Amália, que emendou. – Sou eu que tenho de agradecer. Descobri que tenho habilidades incríveis graças a você.

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Quando o sol se pôs no horizonte o bando ajudou a cutia a descer da araucária até o chão. Era hora de ir para a casa. – Amanhã a gente se vê, certo? Informou Amália. – Sim, respondeu Cutiota com o coração transbordando de alegria. – No mesmo horário e no mesmo local.

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Áurea Domingues da Luz Áurea Domingues da Luz nasceu em Cascavel, Paraná. É graduada em Letras e Administração, pós-graduada em Comércio Exterior e Finanças Bancárias e Mestre em Relações Internacionais. Membro da Academia de Letras, Artes e Ciências de Guarapuava, membro correspondente da Academia Paranaense da Poesia e membro fundadora do Instituto Histórico de Guarapuava. Livros publicados: Entrelinha e Reticências, Te Amo, Pois é... Poesia, Percepções Poéticas, Preto no Branco, Risadinhainfantil, Eco Lógico-infantil, Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Guará - teatro infantil, Mia-infantil, Verso e Meioinfantojuvenil, Guarapuava em Versos - coletânea. Participações: Haicais Brasileiros-coletânea, Fala Poeta coletânea, Revista Família Cristã. Jornais: Esquema Oeste, O Bravo, Diário de Guarapuava e Incentivo Cultural.

Maria Fumaça Maria Fumaca Áurea Domingues da Luz


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hegava dezembro e lá vinha minha mãe me consultar a respeito da minha vontade de ir ou não passar as férias na casa da vó Ana, em Teixeira Soares, pequena cidade do interior do Paraná. Parece que ainda ouço mamãe dizer: – Carlinhos, você vai ou não passar as férias na casa da vovó? – Eba! Sim, sim, sim. Minha resposta era sempre sim. Viajar de trem era uma aventura que eu não podia perder, sem falar no encontro com os primos, pescarias, cavalgadas, campeonato de pipas e outras brincadeiras no sítio. Antes mesmo que mamãe recomendasse, eu saía saltitando e começava a arrumar minha mochila de viagem. Meu pai trabalhava na RFFSA – Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima, uma empresa ferroviária. Ele era condutor de locomotiva, explicando melhor: ele era maquinista de Maria Fumaça. Por isso, aos dez anos eu já havia decidido, queria essa profissão para mim quando fosse grande. Você só vai me dar razão se já viajou de Maria Fumaça, ou se viajar. Eu levantava muito cedo no dia da viagem. O trem, que era a Maria Fumaça, saía de Guarapuava, cidade onde eu morava, às cinco horas da manhã, ainda era escuro. E só chegava ao meu destino final à tardinha, quase noite. Durante o dia inteiro ia parando em lugarejos e cidades por onde passava para embarque e desembarque de passageiros. Sei de cor os nomes de algumas estações do caminho percorrido para a casa da minha avó: Gões Artigas, Inácio Martins, Irati, Fernandes Pinheiro, Engenheiro Gutierrez e Teixeira Soares. 36


A maioria das estações tinha o nome do engenheiro que a construiu. A estação de Engenheiro Gutierrez era chamada de entroncamento. Ali, a gente trocava de trem para mudança de rota. Em cada estação, antes do trem sair, um funcionário da ferrovia tocava um sino para que todos os passageiros se acomodassem em seus assentos. Daí, o maquinista dava um apito de alerta e o trem partia. A gente ia acenando com a mão para quem ficava na estação e também para quem estava nas portas e janelas das casas por onde o trem passava. A máquina ou locomotiva levava um comboio de vagões de carga e na parte de trás eram os vagões de passageiros. Existiam os vagões de primeira classe e os de segunda onde as passagens eram um pouco mais baratas e os bancos não possuíam estofamentos. De vez em quando, passava pelos vagões um funcionário da empresa vendendo guloseimas. – Huuumm! Sanduíche de mortadela era o meu preferido. Eu gostava de imitar, meio cantarolando, o barulho das rodas de ferro nos trilhos: – Telelém... talalá... telelém... talalá. Esse barulho acelerava ou ficava mais lento conforme a velocidade da Maria Fumaça. Pela janela via-se a locomotiva lá em frente e uma fileira de vagões fazendo curvas, atravessando florestas e paredões de rochedos. Tudo parecia passar muito depressa pela gente. As janelas abertas permitiam que o vento batesse direto no rosto e nos cabelos, isso dava uma sensação de liberdade e divertimento. Se os trilhos tivessem subidas e descidas, era o mesmo que estar numa montanha russa de um parque de diversão. A fumaça que saía da chaminé da locomotiva se encompridava no ar e ia ficando para trás, como ficava a imaginação da gente. Quando a Maria Fumaça se aproximava de lugarejos ou estações, o trem diminuía a velocidade e apitava alto, parecia dizer:

– Chegueeeeeiii! As pessoas que aguardavam na estação tinham os rostos festivos e cheios de expectativas. O leva e traz diário de coisas e gente, de encontros e desencontros movimentava as cidades. Era assim, quando eu tinha dez anos e viajava de Maria Fumaça para a casa da minha avó, em 1965.

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Sueli Edina Lazari Scatolin Meu nome é Sueli Edina Lazari Scatolin, tenho 40 anos. Sou casada e tenho 2 filhos, um menino e uma menina. Nasci na roça, onde vivi até os treze anos. Mudei-me para a pequena cidade de Rolândia, onde moro desde então. Eu me graduei em Farmácia Generalista e sou, além de escritora, uma pequena empresária do ramo da saúde. O gosto pela leitura e escrita me acompanha desde as primeiras séries da escola. Sempre escrevi contos, músicas, crônicas e poesias. Participei de concursos e ganhei alguns. Ainda este ano publicarei meu primeiro romance, com a fé em Deus que será o primeiro de muitos. Sueli Edina Lazari Scatolin

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eitor estava agitado, era a primeira vez que visitava a Capital. A casa nova da avó era muito bonita, tinha um grande quintal, onde ele logo descobriu lugares perfeitos para brincar com seu velho companheiro de viagem. Em suas viagens, nunca deixara para trás seu cachorro gordo e preguiçoso. Pipoca era um cansado “vira latas” que já não conseguia correr a toda velocidade. Não era nada fácil para ele acompanhar o ritmo de um inquieto garoto de sete anos. O fiel amigo canino era também o confidente do menino. Era para Pipoca que Heitor confiava seus maiores segredos. Naquela manhã, em especial, o cachorro andava bastante ocupado com seu pequeno dono. Já fazia um bom tempo que os dois amigos se encontravam deitados na grama, sob uma majestosa Araucária. Heitor, muito nervoso, falava sem parar e usava não só a boca para isso, mas também as mãos. Pipoca bem que gostaria de esclarecer as dúvidas do amigo. Seria tão fácil se pudesse falar, mas não podia. O velho cachorro sentia os olhos pesados, as costas doídas, os ouvidos cansados de tanta conversa fiada. Resolveu dormir um pouco, mas foi sacudido pelo dono. – Pipoca! Você não pode dormir, ainda não resolvemos o meu problema! Heitor estava indignado! Como sua avó tinha tido coragem de preparar uma armadilha para o próprio neto? – Sabe, Pipoca, eu preciso mesmo fazer esse passeio, não dá para fugir do perigo. Ele estava ansioso para descer a serra de trem, essa parte e somente essa, 42

com certeza seria muito divertida. Queria ver a floresta lá de cima, andar sobre os trilhos que pareciam nem existir. Havia visto as fotos em um panfleto e tudo pareceu emocionante. Seria uma grande aventura que ele não perderia por nada. Cutucou o cachorro novamente, dessa vez, seus olhos demoraram para se abrir. – Eu vou, mas me recuso a comer... Não! Não mesmo! Ninguém vai me convencer. A avó gritou o nome do neto e ele se levantou do chão, passou as mãos pela roupa e se livrou da grama grudada nela. Afagou a cabeça de Pipoca, encheu o peito de ar e seguiu rumo a sua jornada. A descida de trem pela serra foi tudo o que ele imaginou. Na verdade, foi bem melhor que ele havia imaginado. Em alguns pontos, podia-se botar a cabeça para fora da janela e ver o caminho percorrido. Era de gelar a barriga, os trilhos pareciam uma linha fina à beira do precipício. Ele ria dos avós que fechavam os olhos nas melhores partes. Infelizmente a felicidade durou pouco. O passeio terminou e a prova de fogo estava prestes a começar. Ele se lembrava muito bem que havia jurado ao querido Pipoca não comer a tal comida, mas estava com tanta fome! Seu estômago roncava e doía. Entraram no famoso restaurante, o cheiro não era nada mal, teve que admitir. De repente, um garçom o olhou de longe carregando um prato nas mãos. Ele continuava olhando para o assustado menino e se aproximava cada vez mais rápido. Não tinha mais jeito, o garçom estava atrás de sua cadeira e todos riam. Riam de quê? Qual era a graça? Heitor tomou coragem, prendeu a respiração e olhou para cima. O prato estava virado de boca para baixo, sobre sua cabeça, a alguns centímetros de seus cabelos. Não tinha tampa, mas a comida não caía, parecia colada no fundo do prato. 43


O garçom agradeceu os aplausos dos empolgados clientes e serviu o menino. Heitor olhava com atenção para a comida em sua frente. Aquilo não era barro, nem lama, nem nada parecido. – Coma querido! disse a avó. – Esse é o melhor Barreado da cidade! Foi neste dia que Heitor descobriu uma verdade, Barreado não é uma comida feita de lama ou barro, mas um delicioso prato de carne e especiarias, cozido em panela de barro e servido com farinha. Ele teve que confessar para Pipoca, depois do pinhão cozido e passado no azeite, o Barreado era o seu prato predileto.

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William Bruno Correa William Correa nasceu em Guarapuava PR, em 1988. Graduado em História pela Universidade Estadual do Centro Oeste do Paraná (Unicentro) escreve agora a sua primeira obra literária voltada ao público infantil, além disso, o autor trabalha em uma pesquisa sobre cinema brasileiro da década de 1970 a qual deverá ser publicada em breve.

O gigante das O gigante dasaraúcarias araucarias William Bruno Correa


m um pequeno sítio no interior do Paraná, mais precisamente entre Prudentópolis e Guarapuava, numa pequena casinha, mora um menino chamado André Luiz junto com seu pai Seu Chico e sua mãe Dona Maria. Por não ter irmãos e morar afastado da cidade o pequeno André Luiz não tem amigos por perto, sua diversão é brincar com os bichos do sítio: a vaquinha Cinderela, a gata Juraci e o cavalo Bingo. André Luiz é um menino que adora brincar no lindo riacho que passa perto da sua casa, todo dia depois de ajudar os pais em casa ele vai até lá e passa o dia brincando, isso quando não é inverno, porque quando está frio ele monta no Bingo e vai até as Araucárias para tentar pegar pinhão. Como André Luiz é criança e bem pequeno ele não consegue subir nas altas Araucárias, então ele fica esperando o pinhão cair para levar até sua casa para a mãe Maria fazer no fogão a lenha enquanto o pai Chico prepara o chimarrão. À tarde eles sentam ao lado do fogão e comem pinhão enquanto André faz carinho na gatinha Juraci e o pai segura a cuia de chimarrão. O pequeno André leva uma vida bem tranquila e gostosa nesse sítio, mas ele se sente triste, às vezes, por não ter vários amiguinhos ou um irmão. Então quando ele vai até as plantações de Araucária montado em seu cavalo ele pensa em como gostaria de ter ao menos um amigo pra compartilhar histórias e ajudá-lo a subir na copa da árvore para levar muito pinhão para casa. Certo dia, ele estava bem triste porque queria brincar e não tinha com quem, foi aí que sua vida mudou totalmente.

Cansado, ele se encostou em uma árvore até que ouviu um barulho alto como se a terra tivesse tremendo, como André Luiz é muito corajoso ficou esperando para ver o que era. Seria um terremoto? Pensou! Alguma explosão? Será que um avião caiu? Um dinossauro? Nada disso. Ao fundo das montanhas que circulavam o sítio ele viu algo como um chapéu gigante se mexendo e vindo em sua direção, cada vez mais perto, agora ele podia ver, seria um sonho? Não! Ele estava acordado e o que via era maior do que as Araucárias, era um gigante enorme. André Luiz ficou parado olhando aquele gigante de chapéu e o gigante ficou olhando para o pequeno até que ele disse: – Oi piazinho, meu nome é Geraldo, por favor, não tenha medo de mim! Todo dia quando você está vindo eu chacoalho as árvores para que o pinhão caia e você leve para casa. Te vejo sempre triste, sem amigos, queria que você soubesse que estou aqui. Quer ser meu amigo? – Oi senhor gigante, eu sou o André Luiz e não tenho medo de você! O senhor me ajuda a subir na árvore para pegar pinhão? – Claro! Suba aqui na minha mão. Foi então que o pequeno André subiu na mão do gigante que o levou até a copa da alta Araucária para poder derrubar as pinhas, depois o gigante colocou o seu novo amigo em seus ombros e o menino pode ver todo o verde daquela região, toda a natureza, os bichos, tudo! Os dois ficaram ali conversando por horas até que uma chuva chegou e o menino teve que ir embora. Ele subiu em seu cavalo e voltou feliz para casa com a colheita de pinhão e com seu novo amigo. Ao chegar em casa ele contou aos pais que fez um novo amiguinho que morava do outro lado das montanhas. Nos dias seguintes André Luiz tentou reencontrar o amigo, mas o gigante nunca mais apareceu. André ficou triste, mas todos os dias de sua casa ele via o chapéu do gigante e imaginava que ele estava dormindo e não iria mais levantar.

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Hoje ainda é possível ver o chapéu do gigante entre Prudentópolis e Guarapuava em um lugar chamado Serra da Esperança, de lá se pode ver o Morro do Chapéu, onde está o gigante adormecido, já o pequeno André Luiz ainda sonha com o dia em que irá reencontrar seu amigo tão querido.

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Luciana do Rocio Mallon Luciana do Rocio Mallon é formada em Letras pela UFPR , Magistério pelo Colégio São José e Hospitalidade pelo CEP. Faz repentes e pesquisa lendas desde os 6 anos de idade. Lançou o livro Lendas Curitibanas em 2013. Também participou das antologias: Poetas de Curitiba, As Herdeiras de Lilith, Ossos do Ofício e Túnel do Tempo – Crônicas Curitibanas. Realiza “performances” voluntárias em eventos.

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E

ra uma vez, um estado do Brasil chamado Paraná, lá existiam várias lendas como: Gralha Azul, Santa Maria Bueno, Tatu do Bairro Tatuquara, Monge João Maria, Loira-Fantasma, Pirata Zulmiro e Donzela Maria Rosa da Guerra do Contestado. Porém, neste mesmo estado, havia uma bruxa má chamada Jaguara. Ela virava mulher durante o dia e um tipo de grande felino à noite, que gostava de entrar nos sonhos das crianças travessas. No entanto, um dia, ela disse: – Cansei de ser vista, nos causos do Paraná, como uma criatura má. Por isto darei um jeito de destruir todas as lendas deste estado. Então, ela realizou um feitiço que deixou as avós mudas! E também rasgou os livros de folclore das bibliotecas. 54

Por este motivo os personagens dos causos começaram a sentir fraqueza. A Loira-Fantasma não tinha forças para pegar táxis, o Tatu do bairro Tatuquara não conseguia mais cavar buracos de baixo da terra e o Pirata Zulmiro não podia mais carregar o seu tesouro. As lendas fizeram uma reunião para descobrir o que estava causando a ameaça no desaparecimento delas. Com as poucas forças que lhes restavam, cada personagem saiu para pesquisar sobre o ocorrido. Descobriram que as bocas das avós, contadoras de histórias, estavam lacradas com um adesivo impossível de tirar e que todos os livros sobre folclore tinham sumido das bibliotecas! A Gralha Azul decidiu voar pela floresta atrás de uma resposta. Quando de repente, ouviu a bruxa Jaguara conversando com um monstro, chamado Djanho: – Agora reinarei nas Lendas do Paraná! Eu coloquei uma venda na boca das avós e destruí todos os livros das bibliotecas sobre folclore! Então, a Gralha Azul, saiu do seu esconderijo e se manifestou: – Você não deveria ter feito isto! Já que corre o risco de desaparecer também! A feiticeira disse: – Eu? Claro que não! Afinal sempre fui discriminada. Todas as vezes que alguém, aqui do Paraná, faz algo errado, sempre aparece uma criatura para dizer: Veja o que Jaguara fez! De repente, a bruxa disse: – Que tontura! Estou sentindo uma fraqueza... A Gralha Azul explicou: – Estes sintomas estão acontecendo com a sua pessoa por causa do feitiço que você fez contra as lendas. Mas se você inventar um antídoto poderá se salvar e todos os causos do Paraná voltarão ao normal. Mesmo fraca, a feiticeira mexeu em seu caldeirão mágico e conseguiu retirar o adesivo das bocas das avós e repôs os livros de folclore nas bibliotecas. Como a bruxa estava morrendo, as outras criaturas mágicas das lendas vieram impedir o seu falecimento. 55


O Monge João Maria, a Santa Maria Bueno, a Donzela Rosa da Guerra do Contestado e o Gato Bóris trouxeram estrelas diferentes do céu e espalharam pelo corpo da bruxa. Desta maneira a feiticeira voltou ao normal, fez as pazes com as outras lendas e voltou a fazer parte do folclore do Paraná.

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Danilo Furlan Graduado em Pedagogia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), bonequeiro, contador de histórias e escritor. Sua carreira teve início em 1997 e já o levou a participar de festivais e eventos literários por todo Brasil. É autor de histórias nos seguintes livros - “Histórias do Mundo para Todo Mundo” Editora Kassol RS 2012, “Histórias ao Pé do ouvido” Ed. Giostri SP 2012, “A História de Naitá” Ed. Meu Livro 2014 e “O Menino de Boné Verde, a senhora de xale amarelo e a menina de Óculos Vermelho” Ed. Giostre 2015 e “Contação de Histórias; Tradição poética e interfaces.” Organizado por Fabio Fabio Nunes e Taiza Moraes onde assina o artigo “Contar histórias: um caminho até aqui” Ed. Sesc São Paulo SP 2016.

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O

cheiro do café vinha da cozinha. Da janela o menino olhava a plantação e ficava sem entender: – Por que será que dizem que o café é ouro verde se sua bolinha é bem vermelhinha? O menino também não entendia por que o grão do café torrado ficava marrom e o da xícara era bem pretinho. O certo é que ele amava aquele cheiro, principalmente quando acompanhado de pão caseiro e manteiga batida na hora. Que delícia era o café da tarde na fazenda! Saboreava o café fresco toda manhã à beira da janela. À tarde, ia para a escola. O menino amava sua professora do primário, dona Ilca, uma imigrante ucraniana que era sempre carinhosa e atenciosa com seus alunos. Desde criança ela sonhava em ser professora e assim que chegou ao Paraná foi lecionar para as crianças das fazendas. O menino queria muito presentear a amável professora com algo especial. Lembrou-se que sempre ouvira que o café era o ouro verde do Paraná. Foi então que teve uma ideia! Correu até os pés de café, alcançou os galhos mais baixos e um a um, foi escolhendo os mais lindos, redondos e vermelhos frutos. 60

Correu para o quarto da mãe, abriu sua caixa de costura, pegou linha e agulha e foi espetando os grãos na agulha com cuidado, alinhando os frutos de café e os unindo com delicadeza. Ao se descuidar e espetar o dedo e descobriu que os grãos eram vermelhinhos como o seu sangue, mas nada fez o menino parar até que o presente estivesse pronto: – Um lindo colar de ouro vermelho, ou, como dizem, de ouro verde, para minha linda professora! O menino o embrulhou em um tecido que a mãe comprou para costurar um vestido e com o barbante fez um cuidadoso laço. No outro dia pulou da cama bem cedo, tomou o café e esperou ansioso a hora de ir para a escola. Naquele dia correu o mais rápido que pôde, chegou à escola ofegante, entregou o presente e esperou a reação da doce professora: – Um colar de ouro verde! Ela disse. A professora acertou em cheio. – Fui eu que fiz, disse orgulhoso. A professora abaixou-se e agradeceu com um abraço apertado. O menino ficou feliz da vida, pois a professora deu toda a aula com ele no pescoço. Quando voltou à fazenda, a preocupação no rosto do pai fez o menino esquecer a alegria. – O que aconteceu, papai? – Estão dizendo que a geada chega esta noite, meu filho. – Geada? Quem é essa Geada? O pai, em um sorriso sem graça, colocou o menino no ombro e caminhava como um cavalo bravo, sacolejando o filho. Brincaram até se cansarem e por um instante o pai se esqueceu da preocupação. Na manhã seguinte, o menino correu para a mesa de café, mas parou na janela junto ao pai e ficou estático, sem mover um pedacinho de si, pois o ouro verde, a grande plantação de café amanheceu pretinha. Durante a noite a geada castigou os pés de café e não deixou nenhum grãozinho para contar história. Aquela noite tornara o colar da professora mais valioso do que o menino verdadeiramente poderia prever ou imaginar. 61


Mas aquele dia triste passou e o pai voltou a colocar a mĂŁo na terra. E com a ajuda do menino, todo o trabalho foi refeito. Um tempo depois o ouro verde voltou a brilhar e logo o cheiro do cafĂŠ enchia a sala de alegria e orgulho novamente.

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Higor Antonio da Cunha Higor da Cunha é aspirante a ator, palhaço e graduando em Artes – Licenciatura. Em 2012, integrou o Grupo Trelados, no qual atuou em algumas peças e esquetes, apresentado na região de Cascavel, além de participar de um projeto de incentivo à leitura, o “Balaio de Letras”, que entregou livros nas escolas e casas dos campobonitenses, num delivery literário. Tem formação em Contação de Histórias pelo Senac PR. Ministrou uma oficina na Universidade Estadual do Oeste do Paraná Unioeste no Campus de Cascavel, para o curso de Pedagogia. É apaixonado por tudo que envolve arte e por livros, já que foi a partir da leitura que se tornou quem é.

O bicho do Paraná O bicho do Parana Higor Antonio da Cunha


A

família de João viajava muito. O pai dele trabalhava com gado, vendia e comprava bois em todo o Brasil. Por ser criança, João não podia estar sempre viajando com ele, mas quando surgia a oportunidade sempre acompanhava o pai. Numa destas viagens, chegaram numa cidade do Paraná, para visitar uma fazenda, que ficava bem longe de tudo. Só o que João via era mato. Enquanto seu pai ia olhar os bois e as vacas, o pequeno João resolveu passear pela floresta. – “Lugarzinho sem nada para fazer!” pensava ele, enquanto caminhava e chutava folhas secas. Caminhando, percebeu umas árvores estranhas que ele só havia visto ali. Era como se elas tivessem bolas nas pontas dos galhos. O pai chamava aquelas plantas exóticas de Araucárias, mas o dono da fazenda chamava de Pinheiro. Sem saber muito bem o que eram estas árvores, resolveu chegar mais perto. Ele estava bem debaixo da árvore quando pisou num espinho. – Argh! Sabia que não era uma boa ideia ter vindo aqui! – dizia ele enquanto fazia caretas de dor. Enquanto olhava para seu pé, sentiu algo cair em sua cabeça. Era algo pontudo, marrom, parecia até uma semente grande. João analisava este “objeto” quando caiu outro em sua cabeça. Aquilo já estava muito estranho, parecia que alguém estava arremessando aquelas coisas nele. Então, resolveu descobrir de onde vinham estes pequenos objetos pontudos. Ao olhar para cima, viu um pássaro azul com a cabeça preta, num galho da árvore. Ao perceber que era este pássaro que estava derrubando as sementes nele, resolveu revidar. Pegou um destes objetos e jogou no pássaro. Quase atingiu a ave, mas ela permanecia imóvel. Não estando satisfeito, João arremessou outro. Desta vez, atingiu-a em cheio. Nisso, ouviu uma voz que disse: – Pare de me “apinchá” pinhão, seu “piá jaguara”! – Quem disse isso? – perguntou João, olhando em volta, assustado.

– “Eita”, mas é um “piá pançudo”. – nisso desce o pássaro azul que João havia visto no alto da árvore. – Você fala? – Lógico, “zoiudo”. Você ainda “tá campiando” quem “tá” falando? – É que... não é muito comum pássaros falarem. Ainda mais desse jeito estranho. – Eles falam, principalmente, quando ficam “invaretados”. Do jeito que eu estou falando é porque aqui se fala assim. Aliás, que “malinducado” eu. Deixa eu me apresentar. Meu nome é Mossurunga. – Meu nome é João, prazer em lhe conhecer. João ficou estarrecido com aquela ave. Além de falar, era divertidíssima, pois usava palavras diferentes e de um jeito diferente. De tão contente que ficou em conhecer esta criatura, resolveu acompanhar o pássaro o resto do dia. Ao longo da tarde, Mossurunga contou sobre sua vida de pássaro, que sua espécie era gralha azul, além de diversas histórias da floresta. João contava histórias sobre a cidade, sobre carros, celulares e computadores. O pássaro também explicou ao menino que aquilo que ele tinha arremessado, era chamado de pinhão. Enquanto papeavam e caminhavam pela floresta, Mossurunga comia alguns destes pinhões e enterrava outros. – Mossurunga, porque que você come uns pinhões e outros você enterra? – Porque este pinhão é a semente da araucária. Tem que “fincá” na terra, para nascer mais arvoredo. – Mas... Você deixa de comer? – Sim. – Então!? Você deixa de comer um pinhão agora para plantar uma árvore que vai demorar um tempão para dar pinhão. – Eu sei, mas muitas vezes é preciso fazer alguns sacrifícios que podem trazer uma baita recompensa. Hoje eu deixo de comer um pinhão, mas daqui um

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tempo terá um monte e não só para mim. João, então, aprendeu uma grande lição naquele dia. Entendeu que seu pai, que vivia viajando e muitas vezes tinha de deixá-lo, também estava fazendo um sacrifício. Estava plantando a semente do futuro de João. A ausência paterna era como um pinhão enterrado. João não podia aproveitar agora, mas no futuro colheria muitos outros pinhões, outras recompensas. Antes de ir embora daquela fazenda no Paraná, João resolveu despedir-se do amigo que fizera. Comeu alguns pinhões que Mossurunga colhera e sentado ao seu lado, viu o sol se por. – Porque você não vem com a gente, Mossurunga? Lá na cidade você pode ficar famoso, ter sua própria fazenda de Araucárias. Imagina! – Pare “home do céu”! Vida na cidade grande não é para mim não! A gente que nasceu no mato, no mato tem que morar.

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Serviço Social do Comércio Administração Regional do Paraná Darci Piana Presidente do Sistema Fecomércio Sesc Senac PR Emerson Sextos Diretor Regional do Sesc PR Maristela Massaro Carrara Bruneri Diretora de Educação, Cultura e Ação Social Cesar Luiz Gonçalves Coordenador Geral do NCM – Núcleo de Comunicação e Marketing Ernani Buchmann Coordenador de Jornalismo do NCM – Núcleo de Comunicação e Marketing Ivan Sória Ilustrações


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Uma história, uma criança e muitas possibilidades para falar sobre a cultura paranaense. Esta coletânea literária, fruto da segunda Seleção de Contos Infantis e Inéditos promovida pelo Sesc Paraná, mostra a diversidade e a riqueza de nossas manifestações culturais, lendas e costumes. O Sesc reconhece e valoriza os elementos da cultura paranaense presentes nas mais diversas manifestações artísticas e aqui incentiva a literatura e a formação de novos escritores. Venha ler conosco! Ana Claudia Marigliani Bogner - Curitiba Áurea Domingues da Luz - Guarapuava Danielle Ayres Silva - Ivaiporã Danilo Furlan - Maringá Ester Regina Gehlen da Silva - Curitiba Higor Antonio da Cunha - Campo Bonito Lílian Deise de Andrade Guinski - Curitiba Luciana do Rocio Mallon - Curitiba Sueli Edina Lazari Scatolin - Rolândia William Bruno Correa - Guarapuava

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