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Para John


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Os Nephilim estavam na Terra naqueles dias — e também

depois — quando os anjos vieram para as filhas dos homens e geraram filhos através delas.

Eles foram os heróis de antigamente, homens de renome.

— Gênesis 6:04


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Prólogo No começo, havia um menino parado nas árvores. Ele tinha em torno da

minha idade, naquele espaço entre criança e homem, talvez com 17 anos de idade. Eu não sei como eu sei disso. Eu só posso ver a parte traseira de sua cabeça, seu cabelo escuro ondulava molhado contra seu pescoço. Eu sinto o calor seco do sol, tão intenso, emergindo vida de tudo. Há uma estranha luz laranja enchendo o céu oriental. Há o forte cheiro de fumaça.

Por um momento eu estou cheia de uma tristeza tão sufocante que é difícil

respirar. Eu não sei por quê. Dou um passo em direção ao garoto, abro minha boca para chamar seu nome, só que eu não sei qual é.

O chão se amassa debaixo dos meus pés. Ele me ouve. Ele começa a girar.

Só mais um segundo e eu vou ver seu rosto.

É quando a visão me deixa. Eu pisquei, e ele foi embora.


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1 PROPÓSITO Na primeira vez, 06 de novembro para ser exata, eu acordei às duas horas

com um formigamento na minha cabeça como pequenos pirilampos dançando por detrás dos meus olhos. Sinto o cheiro de fumaça. Me levanto e ando de sala em sala para me certificar de que nenhuma parte da casa está em chamas.

Tudo bem, todo mundo dormindo, tranquilo. É mais como fumaça de

fogueira, de qualquer maneira, afiada e com cheiro de bosque. Eu marquei isso como a estranheza habitual que é a minha vida. Eu tento, mas não consigo voltar a dormir.

Então eu vou lá embaixo. E estou bebendo um copo de água na pia da cozinha,

quando sem qualquer outro aviso, eu estou no meio da floresta em chamas. Não é como um sonho. É como se eu estivesse lá fisicamente. Eu não fiquei muito tempo,

talvez trinta segundos, e então eu estou de volta na cozinha, de pé em uma poça de água, porque o copo caiu da minha mão.

Imediatamente eu corro para acordar mamãe. Sento–me ao pé de sua cama

e tento não hiperventilar enquanto passo por cima de todos os detalhes da visão que consigo me lembrar.


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– É tão pouco, realmente, apenas o fogo, o menino. – Muito de uma vez seria esmagador – ela diz. – É por isso que isso vem a você desta forma, em pedaços. – Era desse jeito quando você recebia o seu propósito? – Isso é como é para a maioria de nós – ela diz, se esquivando perfeitamente da minha pergunta. Ela não vai me dizer sobre o seu propósito. É um daqueles temas fora dos

limites. Isso me incomoda, porque somos próximas, nós sempre estivemos próximas, mas há esta grande parte que ela se recusa a compartilhar.

– Me conte sobre as árvores em sua visão – ela diz. – O que elas parecem? – Pinheiro, eu acho. Agulhas, não folhas. Ela balança a cabeça, pensativa, como se esta fosse uma pista importante.

Mas, eu não estou pensando sobre as árvores. Eu estou pensando sobre o menino. – Eu queria ter visto seu rosto. - Você vai. – Eu me pergunto se eu deveria protegê-lo.

Eu gosto da idéia de ser sua salvadora. Todos os com sangue-de-anjos têm

própositos de diferentes tipos – alguns são mensageiros, alguns testemunhas, alguns com a intenção de confortar, apenas fazendo algumas coisas que fazem com que


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outras coisas aconteçam – mas guardiã tinha soado belamente para ela. Ela se sentia particularmente angelical.

– Eu não posso acreditar que você tem idade suficiente para ter o seu

propósito – a mãe diz com um suspiro. – Me faz me sentir velha. – Você está velha.

Ela não podia argumentar com isso, sendo que ela tinha mais de uma centena, mesmo que não parecesse ter mais de quarenta anos. Eu, por outro lado, me

sentia exatamente como eu sou: uma ingênua (se não exatamente comum) de

dezesseis anos de idade, que ainda tinha escola de manhã. No momento eu não me sinto como se houvesse qualquer vestígio de sangue-de-anjo em mim. Eu olho para minha mãe, linda e vibrante, e eu sei que o que quer que fosse seu propósito, ela deve ter enfrentado com coragem, bom humor e habilidade.

– Você acha. . . – Digo depois de um minuto, e é difícil conseguir que a

pergunta saísse, porque eu não quero que ela ache que eu sou uma total covarde. – Você acha que é possível que eu seja morta pelo fogo? – Clara. – Sério. – Por que você diz isso? – É só que quando eu estava ali de pé atrás dele, me senti tão triste. Eu não

sei por quê.


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Os braços da mamãe vieram ao meu redor, me puxando pra perto para que

eu pudesse ouvir a batida forte e constante de seu coração.

sussurro.

–Talvez a razão pela qual eu esteja tão triste é que eu vou morrer – eu

Seus braços se apertam. – É raro – ela diz calmamente. – Mas isso pode acontecer. – Nós vamos descobrir isso juntas. – Ela me abraça e tira o meu cabelo do

rosto do mesmo jeito que ela costumava fazer quando eu tinha pesadelos quando era criança. – Agora você deve descansar.

Eu nunca me senti mais desperta em minha vida, mas eu me estiquei na

cama e a deixei puxar as cobertas sobre nós. Ela colocou o braço em volta de mim. Ela está quente, irradiando calor como se estivesse de pé no sol, mesmo no meio da noite.

Aspiro o cheiro: água de rosas e baunilha, o perfume de uma velha senhora. Ele sempre me faz me sentir segura.

Quando eu fecho meus olhos, eu ainda posso ver o menino. Parado lá

esperando. Por mim. O que pareceu mais importante do que a tristeza ou a possibilidade de uma horrível e ardente morte. Ele está esperando por mim.

Eu acordo com o som da chuva e suave infiltração de luz cinza através das

persianas. Acho mamãe de pé no fogão da cozinha mexendo ovos em uma tigela, já

vestida e pronta para o trabalho como qualquer outro dia, seu longo cabelo castanho ainda molhado do chuveiro. Ela está cantarolando para si mesma. Ela parece feliz.


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– Bom dia – eu anuncio. Ela se vira, derruba a espátula, e cruza o linóleo para me dar um rápido

abraço. Seu sorriso é orgulhoso, como naquela época que eu ganhei o concurso de

soletração do distrito na terceira série: orgulho, como se ela nunca esperasse nada menos.

– Como você está esta manhã? Aguentando? – Sim, eu estou bem.

– O que está acontecendo? –Meu irmão, Jeffrey, disse da porta. Nos viramos para olhar para ele. Ele está encostado no batente da porta,

ainda amarrotado pelo sono, fedido e mal–humorado como de costume. Ele nunca foi o que se pode chamar de uma pessoa da manhã.

Ele olha para nós. Uma centelha de medo atravessa o seu rosto, como se

estivesse se preparando para uma notícia horrível, como se alguém que conhecemos tivesse morrido.

– Sua irmã recebeu o seu propósito. – Mamãe sorri novamente, mas menos

alegre do que antes. Um sorriso cauteloso.

Ele me olha de cima a baixo, como se fosse ser capaz de encontrar provas

divinas em algum lugar do meu corpo. – Você teve uma visão?

– Yeah. . . Sobre um incêndio florestal. – Fechei os olhos e vi tudo de novo: a

encosta cheia de pinheiros, o céu alaranjado, a fumaça rolando para cima. – E um menino.


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– Como você sabe que não era apenas um sonho? – Porque eu não estava dormindo. – Então, o que isso significa? – ele pergunta. Todas essas informações

relacionadas com anjo é novo para ele. Ele ainda está naquele momento em que as coisas sobrenaturais podem ser excitantes e legais. Eu invejo isso dele.

– Eu não sei – digo a ele. – Isso é o que eu tenho que descobrir. Eu tenho a visão de novo dois dias depois. Eu estou no meio da volta de uma

corrida ao redor da borda externa do ginásio Mountain View High School, e de

repente isso acontece, assim de repente. O mundo como eu conheço – Califórnia, Mountain View, o ginásio – logo desaparecem. Estou na floresta. Posso realmente sentir o fogo. Desta vez, eu vejo as chamas coroando o cume. E então eu quase bato em uma líder de torcida. – Cuidado, imbecil! – ela diz. Eu cambaleei para o lado para deixá–la passar. Respiração difícil, eu

encostei na arquibancada e tentei obter a visão de volta.

Mas é como tentar voltar à um sonho depois que você está completamente

acordada. Desapareceu.

bom.

Crap. Ninguém nunca me chamou de imbecil. Derivado de idiota. Não é

– Sem parar – chamou a Sra. Schwartz, professora de Educação Física. –

Queremos obter um registro preciso de quão rapidamente você pode correr um


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quilômetro. - Isso significa você, Clara. Ela deve ter sido um sargento em outra vida. – Se você não fizer isso em menos de dez minutos você terá que executá–lo

novamente na próxima semana – ela grita.

Eu começo a correr. Tento me concentrar na tarefa em minhas mãos

enquanto eu viro na próxima curva, mantendo o meu ritmo rápido para compensar um pouco do tempo que perdi. Mas minha mente vagueia de volta para a visão. As

formas das árvores. O chão da floresta sob os meus pés repleto de pedras e agulhas de

pinheiro. O garoto de pé ali, de costas para mim, enquanto ele observa a aproximação do fogo. De repente meu coração começa a bater muito rápido. – Última volta, Clara – diz a Sra. Schwartz. Eu acelero. Por que ele está lá? Pergunto-me, não fechando os olhos, mas ainda vendo

a sua imagem como estivese gravada em minhas retinas. Será que ele vai se surpreender ao me ver? Minha mente corria com perguntas, mas debaixo de todas elas tudo o que existia era uma só: Quem é ele?

Nesse ponto eu passo pela Sra. Schwartz, correndo arduamente. – Bom,

Clara! – ela diz. E então, um minuto depois: – Isso não pode estar certo.

Desacelerando para uma caminhada, eu retorno para saber o meu tempo. – Eu fiquei entre os dez minutos?


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– Eu marquei em cinco e quarenta e oito. – Ela soava realmente chocada.

Ela me olha como se também estivesse tendo visões de mim na equipe de atletismo. Opa. Eu não estava prestando atenção, não estava segurando. Vou tomar uma grande bronca se mamãe descobrir. Dou de ombros.

– O relógio deve ter confundido – eu explico, para tentar descontrair,

esperando que ela engula isso, mesmo que isso signifique que eu vou ter que executar a estúpida coisa na próxima semana.

– Sim – ela diz, balançando a cabeça distraidamente. – Eu devo ter iniciado

errado.

Naquela noite, quando mamãe chega em casa ela me acha largada no sofá

assistindo reprises de I Love Lucy1. – Tão ruim, hein?

– É a minha reserva, quando não consigo encontrar Touched by an Angel2

– eu respondo com sarcasmo.

1

I Love Lucy é uma série em preto–e–branco. Lucy é ingênua e ambicioça, com uma imaginação fértil e um

dom para se meter em apuros. Conhecida por seu cabelo vermelho impetuoso, Lucy aparece como uma dona de casa com a capacidade ímpar de transformar uma tarefa de familiar comum em um desastre completo e sem precedentes. No entanto, debaixo da capa de seu comportamento selvagem e de loucura, ela anseia honestamente para o estrelato. Ela sonha em se juntar ao marido no show business, apesar de sua recusa em cooperar. Quando as coisas dão errado, ela tende a dizer " Eca ". 2

Tocada por um Anjo é uma série dramática norte–americana. Ao longo da série, Monica é incumbida de trazer

orientações e mensagens de Deus para várias pessoas que estão em uma encruzilhada em sua vida. Como a série


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Ela retira um litro de Ben and Jerry‖s Chubby Hubby3 de um saco de papel.

Como se lesse a minha mente.

– Você é uma deusa – eu digo. – Não é bem assim. Ela tinha até um livro: As árvores da América do Norte, Um Guia de

Identificação em Campo.

– Talvez minha árvore não esteja na América do Norte. – Vamos começar com isso. Nós levamos o livro para a mesa da cozinha e nos curvamos juntas,

procurando o tipo exato de pinheiro da minha visão. Para alguém de fora parecia como nada mais que uma mãe ajudando a filha com sua lição de casa, e não um par de metade–anjos pesquisando uma missão do céu.

– É isso – digo finalmente, apontando para uma foto no livro e, em seguida,

balançando para trás em minha cadeira, sentindo muito satisfeita comigo mesma. – O lodgepole pine4.

progride, os casos que Monica trabalha a ajuda na transição de ser um novato "assistente social" para ser promovida a supervisora depois de seu último caso no final da série. 3

Sorvete:http://1.bp.blogspot.com/LFYXH9PZi_s/Sf9m9JWrUtI/AAAAAAAABb0/ppD2kgpcw4o/s320/chubby+hubby.jpg 4

Norte.

Lodgepole Pine, Pinus contorta, também conhecida como Shore 0inus, é uma árvore comum na América do Como

todos

os

pinheiros,

http://www.nationalgeographic.com/lewisandclark/images/species/high_408.jpg

é

perene.


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– Agulhas Tortas, amareladas encontradas em pares – Mamãe lê o livro. –

Marrom, com cone em forma de ovo?

– Eu não consegui um olhar mais atento sobre as pinhas, mãe. É apenas a

forma certa, com os ramos começando parcialmente do tronco assim, é isso, está certo. – eu respondo em torno de uma colher de sorvete.

– Ok – Ela consulta o livro novamente. – Parece que o pinheiro lodgepole é

encontrado exclusivamente nas Montanhas Rochosas e na costa noroeste dos EUA e Canadá. Os nativos americanos gostavam de usar os troncos para o suporte principal

de suas cabanas. Daí a nome lodgepole. E – ela continua – aqui diz que os cones

necessitam de extremo calor — como, digamos, de um incêndio florestal — para abrir e liberar as sementes.

– Isso é tão educativo– Eu gracejo. Ainda assim, a idéia de uma árvore que

só cresce em lugares queimados enviou um tremor de excitação por mim. Até mesmo a árvore tem um tipo de significado predestinado.

– Ótimo. Então, nós sabemos mais ou menos onde isso vai acontecer –

mamãe diz. – Agora tudo o que temos a fazer é reduzi-lo.

– E depois? – Eu examino a imagem do pinheiro, de repente, imaginando os galhos em chamas. – Então nós vamos nos mudar. – Mudar? Como em deixar a Califórnia? – Sim – ela diz. Aparentemente, ela estava falando sério.


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– Mas – eu cuspi. – E quanto à escola? E os meus amigos? E seu trabalho? –

– Você vai para uma escola nova, eu imagino, e fazer novos amigos. Vou conseguir um novo emprego ou encontrar uma maneira de fazer o meu trabalho em casa. – E que tal Jeffrey? Ela dá uma risadinha e acaricia minha mão como se fosse uma pergunta

tola. – Jeffrey virá também.

– Ah sim, ele vai adorar isso – eu digo, pensando em Jeffrey com seu

exército de amigos e seu interminável desfile de jogos de baseball, luta grecoromana, treinos de futebol e tudo mais. Temos vidas, Jeffrey e eu. Pela primeira vez,

me ocorre que eu estava indo para muito mais do que esperava. Meu próposito vai mudar tudo.

Mamãe fecha o livro sobre árvores e encontra meus olhos solenemente

através da mesa da cozinha.

– Isso é uma coisa grande, Clara – ela diz. – Esta visão, este propósito, é por

isso que você está aqui.

– Eu sei. Eu só não achei que nós teríamos que mudar. Eu olho através da janela para o quintal onde eu cresci brincando, o meu

velho balanço onde mamãe nunca chegou perto de derrubar, a linha de roseiras contra a cerca que estiveram lá por tanto tempo quanto posso me lembrar. Atrás do

muro eu mal podia fazer o contorno das nebulosas montanhas distantes que sempre

foram as bordas do meu mundo. Eu posso ouvir o burburinho Caltrain5 quando ele 5

Caltrain (Reportagem marca JPBX) é uma linha de trens urbanos da Califórnia em San Francisco, Península no vale de

Santa Clara (Silicon Valley), nos Estados Unidos


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cruza a Shoreline Boulevard6, e, se me concentrar bastante, consigo escutar a música fraca do Great America a duas milhas de distância. Pareceu impossível que nós alguma vez deixaríamos este lugar.

Um canto da boca de mamãe se levanta em um sorriso simpático. – Você pensou que podia simplesmente voar para algum lugar no fim de

semana, completar o seu propósito e voar de volta?

Jeffrey?

– Sim, talvez. – Olhei para longe timidamente. – Quando você vai dizer a

– Eu acho que devo esperar até nós soubermos para onde estamos indo. – Posso estar lá quando você contar a ele? Vou trazer a pipoca. – Jeffrey mudará quando chegar a hora – ela diz, uma tristeza sem som

vindo dos seus olhos, aquele olhar que ela tem quando acha que nós estamos crescendo rápido demais. – Quando ele receber o seu propósito, você terá que lidar com isso também.

– E então nós iremos nos mudar de novo? – Nós iremos onde o seu propósito nos levar. – Isso é loucura – eu digo, balançando a cabeça. – Isso tudo parece loucura.

Você sabe disso, né?

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Avenida costeira...


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– Caminhos Misteriosos Clara. – Ela pega a colher e cava um grande

pedaço de Chubby Hubby7 fora da caixa. Ela sorri, e se transforma em um brincalhona e travessa mãe bem diante dos meus olhos. – Caminhos Misteriosos.

Nos próximas semanas a visão se repetiu a cada dois ou três dias. Eu estava

cuidando da minha vida e, em seguida, bang! Eu estava em um anúncio de serviço do Smokey the Bear8. Eu meio que esperava isso em horas estranhas, no passeio da

escola, no banho, almoço. Outras vezes tinha a sensação sem a visão em si. Eu sentia o calor. Sentia o cheiro de fumaça.

Meus amigos perceberam. Eles me deram um novo e infeliz apelido: Cadete,

como em Space Cadet. Eu acho que poderia ser pior. E meus professores perceberam. Mas deixava o trabalho feito, então eles não me deram muita dor de cabeça quando

eu passava o período de aula rabiscando no meu caderno sobre o que não poderia ser anotações da matéria.

Se você olhasse para o meu caderno há alguns anos atrás, aquele felpudo

diário rosa que eu tive quando tinha doze anos com a Hello Kitty na capa, trancado com uma frágil chave de ouro que ficava em uma corrente ao redor meu pescoço

para mantê-lo seguro dos olhos curiosos de Jeffrey, você veria as divagações de uma menina perfeitamente normal. Havia rabiscos de flores e princesas, comentários

sobre a escola e o tempo, filmes que eu gostava, música que eu dançava, meus sonhos de interpretar, a fada de açúcar em O Quebra–Nozes9, ou como Jeremy Morris

enviou um de seus amigos para me pedir para ser sua namorada e, claro, eu disse que

7

8

Sorvete, já mencionado... Smokey Bear (muitas vezes informalmente denominada Smokey the Bear) é um mascote do Serviço Florestal dos

Estados

Unidos

criado

para

educar

o

público

sobre

os

perigos

http://en.wikipedia.org/wiki/File:Smokey3.jpg) 9

Original: the Sugar Plum Fairy in The Nutcracker. Se alguém quiser ver:

http://www.youtube.com/watch?v=m5Y0wFJDFOg

dos

incêndios

florestais.


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não, porque eu iria querer sair com alguém muito covarde para me perguntar pessoalmente?

Em seguida, vem o diário anjo, que eu comecei quando eu tinha quatorze

anos. Essa é um caderninho espiral azul meia–noite com uma imagem de um anjo sobre ele, um anjo, serena e feminina que parecia estranhamente com a mamãe, com cabelo vermelho e asas douradas, de pé em um pedacinho da lua crescente rodeada

por estrelas, raios de luz irradiando de sua cabeça. Nele eu anotava tudo que mamãe me contou sobre os anjos e aqueles com sangues de anjo, cada fato ou especulação

que eu pude ouvir dela. Gravei minhas experiências, como a vez que eu cortei meu braço com uma faca só para ver se eu iria sangrar (o que eu fiz, litros) e cuidadosamente observando quanto tempo demorou para cicatrizar (cerca de 24 horas, desde quando eu fiz o corte até quando a linha rosa

desaparecia

completamente), o dia que falei Swahili10 para um homem no aeroporto de San

Francisco (imagine a surpresa para nós dois), ou como eu podia fazer 25 grands

jetés11 para frente e para trás por todo o chão do estúdio de balé sem ficar sem fôlego.

Isso foi quando minha mãe começou a me dar sérios sermões sobre como

me manter indiferente a isso, pelo menos em público. Foi quando comecei a me

encontrar, não só a Clara menina, mas a Clara com sangue de anjo, a Clara sobrenatural.

Agora o meu diário (simples, preto, de algodão) se concentra totalmente no meu propósito: esboços, anotações e os detalhes da visão, especialmente quando 10

Suaíli (conhecido como Kiswahili) é uma língua bantu falada por diversos grupos étnicos que habitam

várias grandes extensões do litoral do Oceano Índico norte do Quênia no norte de Moçambique, incluindo as Ilhas Comores. suaíli é uma língua nacional ou oficial, dos quatro países, nomeadamente na Tanzânia, Quênia, Uganda e República Democrática do Congo. Dentro do Congo, como em grande parte do leste da África, que muitas vezes funciona como uma língua franca. 11

Grand jeté – Um salto em distância horizontal, a partir de um pé e pouso no outro. Pode ser realizada en avant (para

frente), à la seconde (ao lado), en arrière (para trás), e en tournant (girando en dedans). Acho q é isso (http://www.youtube.com/watch?v=VVaem02ZcRo&feature=related)


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envolvia o misterioso garoto. Ele sempre permanece nas bordas da minha mente, exceto para aqueles momentos de desorientação quando ele se move cegamente no centro do palco.

Eu comecei a conhecê-lo através de sua forma em minha mente. Eu

conhecia o comprimento de seus ombros largos, seu cabelo cuidadosamente

despenteado, que era de um escuro e quente marrom, o suficiente para cobrir seus

ouvidos e ondular contra a gola nas costas. Ele mantinha as mãos enfiadas nos bolsos do casaco preto, que era um pouco felpudo, eu notei, talvez lã de ovelha. Seu peso sempre levemente deslocado para um lado, como se estivesse se preparando para ir embora. Ele parece magro, mas forte. Quando ele começa a girar, eu posso ver o

menor esboço de seu rosto, e ele nunca deixa de fazer meu coração bater mais rápido e minha respiração ficar presa em minha garganta.

O que ele vai pensar de mim? Eu me pergunto. Eu quero ser inspiradora. Quando eu aparecer para ele na floresta, quando

ele finalmente se virar e me ver lá, eu quero, pelo menos, parecer parte de um anjo. Eu quero ser toda esvoaçante e flutuante, como a minha mãe. Eu não sou feia, eu sei.

Aqueles com sangue de anjo são um grupo bastante atraente. Eu tenho a pele boa e os

meus lábios são naturalmente rosados, assim nunca uso nada mais que brilho. Eu tenho joelhos muito bons, ou é o que eu digo. Mas sou muito alta e muito magra, e

não do tipo supermodelo willowy, mas meio que tipo cegonha, toda braços-e-pernas

no caminho. E os olhos, que parecem como nuvem cinza de tempestade em alguns pontos e azul metálico em outros, parecem um pouco grandes demais para o meu rosto.

Meu cabelo é a minha melhor característica, longo e ondulado, dourado

brilhante com um toque de vermelho, arrastando atrás de mim onde quer que eu vá, como uma reflexo tardio. O problema com o meu cabelo é que é também completamente indisciplinado. É emaranhado. Ele pega nas coisas: zippers, portas de

carro, comida. Amarrá-los para trás ou trançá-los nunca funciona. É como uma coisa


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viva, tentando se libertar. Momentos depois de prendê-los para baixo, há fios vertendo no meu rosto, e dentro do intervalo de uma hora, geralmente desliza completamente para fora de seus limites.

Ele leva a palavra incontrolável a um nível totalmente novo. Então, com a minha sorte, eu nunca vou conseguir salvar a tempo o menino

na floresta porque meu cabelo vai ficar preso num galho de árvore uma milha atrás. – Clara, seu telefone está tocando! – mamãe berra da cozinha.

Eu pulo, assustada. Meu diário está aberto na mesa à minha frente. Na

página está um esboço cuidadoso da parte de trás da cabeça do menino, seu pescoço, seu cabelo desgrenhado, o contorno da bochecha e cílios. Não me lembro de desenhar isso.

– Ok! – Eu gritei de volta. Eu fecho o diário e o deslizo sob o meu livro de

álgebra. Então eu desço as escadas. Tinha cheiro de uma padaria. Ação de Graças12

amanhã, e minha mãe estava fazendo tortas. Ela estava usando seu avental de dona de

casa dos anos cinqüenta (que ela tinha desde os anos cinqüenta, embora não fosse uma boa dona de casa naquela época, ela nos garante) e estava polvilhada com farinha. Ela segura o telefone para mim. – É seu pai. Eu levanto uma sobrancelha para ela em uma pergunta silenciosa.

12

O Dia de Ação de Graças , conhecido em inglês como Thanksgiving Day, é um feriado celebrado nos Estados Unidos e

no Canadá, observado como um dia de gratidão, geralmente a Deus, pelos bons acontecimentos ocorridos durante o ano. Neste dia, pessoas dão as graças com festas e orações.


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da sala.

– Eu não sei – ela diz. Ela me dá o telefone, então se vira e sai discretamente

– Oi, pai – eu digo ao telefone. – Oi. Há uma pausa. Três palavras em nossa conversa e ele já não tem coisas

para dizer.

– Então, qual é a ocasião? Por um momento ele não disse nada. Eu suspiro. Por anos eu costumava

praticar este discurso sobre como eu estava brava com ele por deixar a mamãe. Eu

tinha três anos quando eles se separaram. Não me lembro deles brigando. Tudo o que

eu me lembro dos momentos em que eles estavam juntos são alguns breves flashes. Uma festa de aniversário.

Uma tarde na praia. Ele em pé na pia se barbeando. E depois há a memória brutal do dia que ele saiu, eu de pé com a mamãe na

entrada da garagem, ela segurando Jeffrey no quadril e chorando com o coração quebrado quando ele foi embora. Eu não posso perdoá-lo por isso. Eu não posso perdoá-lo por um monte de coisas.

Por se mover por todo o país para ficar longe de nós. Por não telefonar o

suficiente. Por nunca saber o que dizer quando liga. Mas acima de tudo eu não posso deixar passar o jeito que o rosto de mamãe se aperta quando ouve seu nome.

Mamãe não vai discutir o que aconteceu entre eles mais do que ela nos contaria sobre o seu propósito. Mas aqui está o que eu sei: Minha mãe está tão perto de ser a mulher

perfeita como este mundo nunca viu. Ela é meio anjo, afinal, apesar do meu pai não


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saber disso. Ela é linda. Ela é inteligente e engraçada. Ela é mágica. E ele lhe deixou. Ele deixou nós todos.

E que, no meu conceito, faz dele um tolo. – Eu só queria saber se você está bem – ele diz ele, finalmente. – Por que eu não estaria bem? – Ele tossiu. – Quero dizer, é duro ser um adolescente, certo? Ginásio.Garotos. –

Agora esta conversa passou de incomum para completamente estranha. – Certo – eu digo. – sim, é duro. – Sua mãe diz que suas notas são boas. – Você falou com a mamãe? Outro silêncio.

– Como é a vida na Big Apple? – Eu pergunto, para orientar a conversa

para longe de mim.

–O de sempre. Luzes brilhantes. Cidade grande. Eu vi Derek Jeter, no

Central Park ontem. É uma vida terrível.

Ele pode ser encantador também. Eu sempre quero estar brava com ele, lhe

dizer que ele não deveria se incomodar de tentar um vínculo comigo, mas eu nunca

consigo manter isso. A última vez que o vi foi há dois anos atrás, o verão em que fiz

quatorze anos. Eu estava praticando a minha fala de eu-odeio-você por todo tempo no aeroporto, no avião, fora da porta, no terminal. E então eu o vi à minha espera na


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esteira de bagagem, e eu me enchi com essa bizarra felicidade. Lancei-me em seus braços e disse a ele que eu sentia falata dele.

– Eu estava pensando – ele disse agora. –Talvez você e Jeffrey poderiam vir

até Nova York para os feriados.

Eu quase ri de seu timing. – Eu gostaria – eu digo – mas eu meio que tenho algo importante acontecendo agora. Como localizar um incêndio florestal. O que era a minha única razão de

estar na Terra. O que eu nunca serei capaz de lhe explicar em mil anos. Ele não disse nada.

– Desculpa – eu digo, e eu me choquei de realmente querer dizer isso. – Eu vou deixar você saber se as coisas mudarem. – Sua mãe também me disse que você passou Driver's Ed.– Ele está

claramente tentando mudar de assunto.

– Sim, eu fiz o teste e estacionar em paralelos e tudo. Estou com dezesseis

anos. Eu estou legal agora. Só que minha mãe não me deixar pegar o carro.

– Talvez seja a hora de vermos sobre obter um carro de sua preferência. Minha boca caiu aberta. Ele é cheio de surpresas. E então eu cheiro fumaça.


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O fogo deve estar mais longe desta vez. Eu não vejo isso. Eu não vejo o

menino. Uma rajada de vento quente corajosamente envia meu cabelo voando para fora do rabo de cavalo. Eu tusso e desvio da explosão, jogando o cabelo do meu rosto.

Isso foi quando eu vi um caminhão prata. Eu estou parada a poucos passos

de distância de onde ele está estacionado na beira de uma estrada de terra. AVALANCHE, diz em letras prata na parte traseira. Era um enorme caminhão com uma carga coberta. É o caminhão do garoto. De alguma forma eu sabia.

Olhe a placa do carro, eu digo a mim mesma. Concentre-se nisso. A placa é bonita. A maioria é azul: céu, com nuvens. O lado direito é

dominada por uma montanha rochosa de topo plano que se parece vagamente

familiar. À esquerda está a silhueta negra de um vaqueiro montado em um cavalo

bucking13, acenando com o chapéu no ar. Eu já vi isso antes, mas eu, automaticamente, não sei isso. Eu tento ler os números da placa. No começo tudo o

que posso ver é o grande número empilhado na lateral esquerda: 22. E então os quatro dígitos do outro lado do cowboy: 99CX.

Esperava me sentir loucamente feliz então, animada por ter uma parte tão

imensamente útil de informações entregue a mim tão facilmente. Mas eu ainda estou

na visão, e a visão está se movendo. Eu me afasto do caminhão e ando depressa no meio das árvores. Fumaça derivando por todo o chão da floresta. Em algum lugar perto escutei um estrondo, como um galho caindo. Então eu vejo o menino, exatamente o mesmo que ele sempre foi.

13

Bucking é um movimento realizado por um cavalo ou touro em que o animal abaixa a cabeça e levanta

seu traseiro para o ar, geralmente ao chutar para fora com as patas traseiras. Se poderosa, que pode destronar o piloto o suficiente para que ele cai.( http://www.centraliowamachine.com/Bucking%20horse2.gif).


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Suas costas voltadas. O fogo de repente lambendo o topo da colina. O

perigo tão evidente, tão perto.

A esmagadora tristeza cai sobre mim como a queda de uma cortina. Minha

garganta se fecha. Eu quero dizer o nome dele. Eu dou um passo na direção dele. – Clara? Você está bem?

A voz de meu pai. Eu flutuo de volta para mim. Estou encostada na geladeira, olhando pela janela da cozinha, onde um beija-flor paira perto da água de minha mãe, um borrão de asas.

Ele se estabiliza, toma um gole, depois sai voando. – Clara? Ele parece assustado. Ainda atordoada, eu levanto o telefone ao ouvido.

– Pai, eu acho que vou ter de ligar de volta.


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2 AQUELE É JACKSON HOLE No caminho para o Wyoming, existem muitas placas. A maioria delas

avisam sobre algum tipo de perigo: CUIDADO COM OS VEADOS. ATENÇÃO PARA A

QUEDA DE ROCHAS. CAMINHÕES VERIFIQUEM OS FREIOS. SINTONIZE O RÁDIO PARA O CASO DE FECHAMENTO DE ESTRADAS. ALCES CRUZANDO A PISTA NAS PRÓXIMAS DUAS MILHAS. ÁREA DE DESLIZAMENTO DE NEVE, PROIBIDO PARAR E

ESTACIONAR. Eu dirijo meu carro atrás do da mamãe, por todo o caminho da Califórnia com Jeffrey no banco do passageiro, tentando não perder o bom senso

sobre como todos os sinais apontam para o fato de que estamos indo a algum lugar selvagem e perigoso.

No momento eu estou dirigindo por uma floresta composta inteiramente de

pinheiros. Falando sobre o surreal. Eu não consigo superar a visão de todas as placas

de Wyoming nos carros acelerando para passar, muitos com o número fatídico 22 no

lado esquerdo. Esse número nos trouxe um longo caminho, através de seis curtas semanas de louca preparação, vendendo nossa casa, dizendo adeus aos amigos e

vizinhos que conheci a minha vida inteira, e fazer as malas e se mudar para um lugar

onde nenhum de nós conhece uma única alma solitária: Teton County, Wyoming, que de acordo com o Google é o número 22 do condado, a população de pouco mais


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de 20.000. Isso é aproximadamente cinco pessoas por milha quadrada.

mim.

Estamos nos mudando para um lugar remoto e afastado. Tudo por causa de Eu nunca vi tanta neve. É aterrorizante. Meu novo Prius14 (cortesia do meu

velho pai querido) está recebendo um treinamento real na estrada cheia de neve da montanha. Mas não há volta agora. O cara no posto de gasolina nos garantiu que a

passagem através das montanhas é perfeitamente segura, desde que uma tempestade não apareça. Tudo o que posso fazer é agarrar o volante e tentar não prestar atenção à maneira como a montanha mergulha a poucos metros da beira da estrada.

É isso.

Eu localizo a placa BEM–VINDO AO WYOMING. – Ei – eu digo a Jeffrey. – Ele não responde. Ele despenca no banco do passageiro, a música batendo

com raiva de seu iPod. Quanto mais longe ficamos da Califórnia e suas equipes de

esportes e de seus amigos, mais ele se torna sombrio. Depois de dois dias na estrada, está ficando velho. Pego o fio e puxo um dos seus fones de ouvido. – O quê? – ele diz, olhando para mim. – Estamos em Wyoming, idiota. Estamos quase lá. – Woo desgraça hoo – ele diz, e enfia o fone de ouvido de volta. Ele vai me

odiar por um tempo. Jeffrey era um garoto bem tranquilo, antes de descobrir sobre a coisa de anjo. Mas eu sei como isso é. Em um minuto você é uma pessoa de quatorze

anos feliz – bom em tudo que você tenta, popular, divertido - no próximo você é uma aberração com asas.

14

Veiculo da marca Toyota. http://www.digitaltrends.com/wp–content/uploads/2010/08/prius.jpg


29

É preciso algum ajuste. E foi somente um mês depois que recebi a notícia

que eu recebi a minha pequena missão do céu. Agora nós estamos o arrastando para Nowheresville15, Wyoming, em janeiro, nada menos, bem no meio do ano letivo.

Quando a minha mãe anunciou a mudança, ele gritou: – Eu não vou! – Com os punhos cerrados ao seu lado como se quisesse bater em alguma coisa.

Meu celular toca. Eu cavei em meu bolso e atirei o telefone para Jeffrey. Ele

o pega, assustado. – Você poderia atender essa? – Peço docemente. – Eu estou dirigindo.

Ele suspira, abre o telefone e o coloca na orelha. – Sim – ele diz. – Tudo

bem. Sim. Ele fecha o telefone.

– Ela diz que estamos prestes a chegar a Teton Pass. Ela quer que a gente

encoste-se ao mirante.

Bem na hora chegamos a uma esquina e o vale onde viveremos se abriu em

uma série de baixas colinas e montanhas azul e branca denteadas. É uma vista

incrível, como uma cena de um calendário ou um cartão postal. Mamãe encosta-se a um desvio para o “mirante" e eu faço uma parada cuidadosa ao seu lado.

Ela praticamente pula para fora do carro. – Acho que ela quer que a gente saia – eu digo a Jeffrey. Ele apenas olha para o painel. Abro a porta e me balanço para o ar

montanhoso. É como entrar em um freezer. Puxei a minha de repente fina demais blusa com capuz da Stanford16 sobre minha cabeça e minhas mãos apertadas nos

15

A tradução para o trocadilho pode ser ―Vila no Meio do Nada‖ ou algo do tipo.

16

Standford University localizada em Palo Alto, California.


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bolsos. Eu posso literalmente ver minha respiração flutuando para longe de mim cada vez que solto o ar. Mamãe caminha até a porta de Jeffrey e bate na janela.

– Saia do carro – ela ordena com uma voz que diz que significava negócios.

Ela gesticula em direção ao cume, onde uma grande placa de madeira

mostra um desenho de um cowboy apontando para o vale abaixo. COMO VAI

ESTRANHO, ele diz. ESTÁ CHEGANDO A JACKSON HOLE. O ÚLTIMO DO VELHO OESTE. Há uma dispersão de edifícios em ambos os lados de um rio brilhando como prata. Isso é Jackson, nossa nova cidade.

– Lá é o Parque Nacional Teton e o Yellowstone17. – Mamãe aponta em

direção ao horizonte. –Temos que ir lá na primavera dar uma olhada.

Jeffrey se junta a nós no cume. Ele não está vestindo uma jaqueta, apenas

jeans e uma t-shirt, mas ele não parece ter frio. Ele está muito chateado para tremer.

Sua expressão enquanto ele avalia nosso novo ambiente é cuidadosamente neutra. Uma nuvem se move sobre o sol, lançando sombras sobre o vale. O ar de imediato

parece dez graus mais frio. Eu estou subitamente ansiosa, como se, agora que cheguei oficialmente a Wyoming, as árvores fossem explodir em chamas e eu terei que cumprir meu propósito na hora. Tanto é esperado de mim neste lugar.

– Não se preocupe. – Mamãe coloca as mãos em meus ombros e aperta brevemente. – É àqui que você pertence Clara. – Eu sei. – Tento reunir um sorriso corajoso. – Você – ela diz, indo para Jeffrey – Vai amar o esporte aqui. Esqui na neve

e esqui aquático e escalada e todos os tipos de esportes radicais. Eu te dou permissão 17

O Parque Nacional de Yellowstone é um parque nacional estadounidense localizado nos estados de Wyoming,

Montana e Idaho. É o mais antigo parque nacional no mundo.


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total para se lançar nas coisas. – Eu suponho – ele murmura. – Ótimo – ela diz aparentemente satisfeita. Ela tira uma foto rápida de nós.

Então ela se move rapidamente de volta para o carro. – Agora vamos embora. –

Eu a sigo enquanto a estrada curva para descer a montanha. Outro sinal chama a minha atenção.

CUIDADO, CURVAS APERTADAS MAIS À FRENTE. Mesmo antes de chegarmos a Jackson viramos para Spring Gulch Road18·,

que nos leva para outra estrada longa e tortuosa, esta com um grande portão de ferro

que só conseguimos passar com um código de pasagem. Essa é a minha primeira

impressão de que a nossa humilde morada vai ser muito chique. Minha segunda pista são todas as enormes casas de madeira que eu vejo escondidas entre as árvores. Sigo o carro de Mamãe enquanto ela dispensa uma entrada recém arada e se dirige

lentamente através de uma floresta de pinheiros, bétulas, e árvores de Aspen, até que chegamos a uma clareira onde a nossa casa descansa em uma pequena elevação.

olhe.

– Uau – eu suspiro, olhando para a casa através do pára–brisa. – Jeffrey,

A casa é feita de sólidos troncos e pedras de rio, o telhado coberto com um

manto de neve branca pura como o que você vê em uma casa de gengibre, completa com um conjunto perfeito de pingentes de gelo brilhantes pendendo ao longo das

bordas. É maior do que a nossa casa na Califórnia, mas de alguma forma mais

aconchegante, com um grande alpendre coberto de enormes janelas que têm uma visão assustadoramente espetacular da serra coberta de neve. 18

Pela tradução literal seria algo como: Estrada para a Ravina da Primavera


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– Bem vindos ao lar – mamãe diz. Ela está encostada em seu carro,

assimilando nossas reações atordoadas quando saímos do caminho circular. Ela está tão contente com ela mesma por encontrar essa casa que ela está praticamente

estourando em música. – O nosso vizinho mais próximo é quase um quilômetro de distância. Este pequeno bosque é todo nosso.

Uma brisa agita as árvores para que punhados de neve flutuem pelos

ramos, como se a nossa casa estivesse em um globo de neve repousando sobre uma

lareira. O ar parece mais quente aqui. É absolutamente tranqüilo. Uma sensação de bem-estar corre sobre mim.

Este é um lar, eu acho. Nós estamos seguros aqui, que vem como um alívio

enorme, porque, depois de semanas de nada a não serem as visões, perigo e tristeza, a incerteza de se mudar e deixar tudo para trás, a loucura de tudo isso, eu finalmente

posso nos imaginar tendo uma vida em Wyoming. Ao invés de apenas me ver caminhar para um incêndio.

Olho para minha mãe. Ela está literalmente brilhando, ficando mais e mais

brilhante a cada segundo, um baixo zumbido de prazer angelical saindo dela. A qualquer momento seremos capazes de ver as suas asas.

Jeffrey tosse. A visão ainda é nova o suficiente para fazê-lo pirar. – Mãe –

ele diz. – Você está fazendo a coisa da glória. Ela escurece.

– Quem se importa? – Eu digo. – Não há ninguém por perto para vê-la.

Podemos ser nós mesmos aqui.


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– Sim – diz Mamãe calmamente. – Na verdade, o quintal seria perfeito para

praticar algum vôo.

Encaro-a com espanto. Mamãe tentou me ensinar a voar exatamente duas

vezes, e ambas foram completos desastres. Na verdade, eu basicamente tinha desistido da idéia de voar e aceitado que vou ser um anjo-de-sangue que fica preso à terra, uma ave que não voa, como uma avestruz talvez, ou, neste tempo, um pinguim.

– Talvez seja preciso você voar aqui – Mamãe diz um pouco dura. – E você pode querer experimentar – ela acrescenta para Jeffrey. – Eu aposto que você será um natural.

Eu posso sentir meu rosto ficando quente. Claro, Jeffrey será um natural

quando eu nem sequer consigo sair do chão.

– Eu quero ver o meu quarto – digo e fujo para a segurança da casa.

Naquela tarde, fomos pela primeira vez ao calçadão da Avenida Broadway em Jackson, Wyoming. Mesmo em janeiro, há uma abundância de turistas. Carruagens e

coches puxados por cavalos passam em todos os poucos minutos, juntamente com uma sequência interminável de carros. Eu não posso evitar procurar por um particular carrinho prateado: o misterioso Avalanche com a matrícula 99CX.

– Quem sabia que teria tanto trânsito? – Eu observo enquanto observo os

carros passam. – O que você faria se o visse agora? – mamãe pergunta. Ela está usando um chapéu de vaqueiro de palha nova que ela foi incapaz de resistir na

primeira loja que entramos. Um chapéu de vaqueiro. Pessoalmente eu acho que ela está levando essa coisa de Velho Oeste um pouco longe demais.

– Ela provavelmente desmaiaria – disse Jeffrey. Ele bate os cílios

descontroladamente e se abana, então finge desmoronar contra a mãe. Os dois riem.

Jeffrey já comprou uma camiseta com um praticante de snowboard nela e está


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deliberando sobre um verdadeiro e genuíno snowboard que ele gostou em uma

vitrine. Ele está com um humor muito melhor desde que chegou à casa e viu que nem tudo está totalmente perdido. Ele está agindo muito parecido com o antigo Jeffrey, aquele que sorri e brinca e às vezes fala em frases completas.

– Vocês dois são hilários – digo, revirando os olhos. Eu corro à frente em

direção a um pequeno parque que noto do outro lado da rua. A entrada é um arco enorme feito de chifres de alce.

– Vamos por aqui – eu chamo mamãe e Jeffrey. Apressamo–nos pela

calçada direita quando uma pequena mão laranja começa a piscar. Então, nós demoramos um minuto sob o arco, olhando para toda a treliça de chifres, que

lembram vagamente ossos. No alto, o céu escurece com nuvens e um vento frio se erguia.

– Sinto cheiro de churrasco – diz Jeffrey. – Você é apenas um estômago gigante. – Ei, eu posso evitar se eu tenho um metabolismo mais rápido do que as

pessoas normais? Que tal comermos lá. – ele aponta para a rua, onde uma fila de pessoas está esperando para entrar no Bar Million Dollar Cowboy.

– Claro e eu vou te comprar uma cerveja, também – mamãe diz. – Sério? – Não. Enquanto eles brigam sobre isso, sou atingida com a súbita vontade de

documentar esse momento, então eu vou poder olhar para trás e dizer que este foi o


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começo. Uma parte do propósito de Clara. Meu peito se enche de emoção com o pensamento. Um novo começo, para todos nós.

– Com licença, senhora, você se importaria de tirar uma foto nossa? – Peço

a uma senhora que passa caminhando. Ela concorda e pega a câmera da minha mãe.

Temos uma pose sob o arco, mamãe no meio, Jeffrey e eu de cada lado. Nós sorrimos.

A mulher tenta tirar uma foto, mas nada acontece. Mamãe vai até lá para lhe mostrar como funciona o flash.

É quando o sol sai de novo. De repente, eu me torno super consciente do

que está acontecendo ao meu redor, como se tudo desacelerasse para que eu

encontrasse pedaço por pedaço: as vozes das outras pessoas no calçadão, o flash de

dentes quando eles falam, o barulho dos motores e o pequeno guinchar de freios, carros param no sinal vermelho. Meu coração está batendo como um lento e

barulhento tambor. Minha respiração se arrasta para dentro e fora dos meus

pulmões. Sinto o cheiro de estrume de cavalo e sal de rocha, o meu próprio shampoo de lavanda, o perfume de baunilha da mamãe, o desodorante masculino do Jeffrey,

até mesmo o fraco aroma de apodrecimento que ainda se agarra às galhadas acima de nós.

Música clássica emana por debaixo das portas de vidro de uma das galerias

de arte. Um cachorro late ao longe. Em algum lugar um bebê está chorando. Parece demais, como se eu fosse explodir tentando assimilar tudo isso. Tudo é brilhante demais. Há um pássaro pequeno, escuro empoleirado em uma árvore no parque atrás

de nós, cantando, afofando as penas contra o frio. Como eu posso vê–lo, se ele está atrás de mim? Mas eu sinto seus olhos negros afiados em mim; eu o vejo entortar a

cabeça de maneira que, me observando, é observado, até que de repente ele voa da árvore e rodopia no céu aberto como um pouco de fumaça, desaparecendo no sol. – Clara – Jeffrey sussurra urgentemente próximo ao meu ouvido. – Ei!


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Eu me empurro de volta à Terra. Jackson Hole. Jeffrey. Mamãe. A senhora

com a câmera. Estão todos olhando para mim.

– O que está acontecendo? – Estou confusa, desconectada, como se uma

parte de mim ainda estivesse no céu com o pássaro.

– Seu cabelo está meio que, brilhante – murmura Jeffrey. Ele olha para

longe como se ele estivesse envergonhado. Eu olho para baixo. Arfo. Brilhante não é a palavra. Meu cabelo está um motim iridescente de ouro prateado de luz e cor. Ele resplandece. Ele captura a luz como um espelho refletindo o sol. Eu deslizo minha

mão para baixo nos fios quentes e luminosos, e meu coração, que parecia bater tão devagar alguns momentos antes, começa a bater dolorosamente rápido. O que está acontecendo comigo?

– Mãe? – Eu chamo fraca. Eu olho em seus grandes olhos azuis. Então ela se

vira para a senhora, todos perfeitamente compostos.

– Não é um dia bonito? – Mamãe diz. – Você sabe o que eles dizem: Você

não gosta do clima em Wyoming, aguarde dez minutos

A senhora acena distraída, ainda olhando para o meu cabelo

sobrenaturalmente radiante como se ela estivesse tentando descobrir um truque mágico. Mamãe passa por mim e rapidamente recolhe o comprimento do meu cabelo

na mão como um pedaço de corda. Ela coloca-o na coleira do meu capuz e puxa o capuz sobre minha cabeça.

– Fique calma – ela sussurra enquanto se move para ocupar o lugar entre

Jeffrey e eu. – Tudo bem. Estamos prontos agora.

A senhora pisca algumas vezes, balança a cabeça como se estivesse

tentando limpá–la. Agora que meu cabelo estava coberto, é como se tudo voltasse ao


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normal, como se nada de anormal tivesse acontecido. Como se tivéssemos imaginado tudo. A senhora levanta a câmera.

– Diga Xis – ela nos instrui. Eu faço o meu melhor para sorrir. Terminamos em Mountain High Pizza

Pie para o jantar, porque era o lugar mais fácil e mais próximo. Jeffrey devorou sua

pizza enquanto minha mãe e eu escolhíamos a nossa. Nós não falamos. Eu me sinto como se eu tivesse sido pega fazendo algo terrível. Algo vergonhoso. Eu uso minha

capa sobre o meu cabelo o tempo todo, mesmo no carro enquanto nós fazíamos o nosso caminho lentamente de volta para casa.

Quando chegamos em casa mamãe foi direto para seu escritório e fechou a

porta. Jeffrey e eu, por falta de coisa melhor para fazer, começamos a procurar algo

na TV. Ele continua olhando para mim como se eu estivesse prestes a explodir em chamas.

– Quer parar de encarar? – Eu finalmente exclamo. – Você está me

enlouquecendo.

– Isso foi estranho, lá atrás. O que você fez? – Eu não fiz nada. Simplesmente aconteceu. Mamãe aparece na porta com seu casaco. – Eu tenho que sair – ela diz. – Por favor, não saiam de casa até eu voltar. –

Então, antes que pudéssemos questioná-la, ela se foi. – Perfeito – resmunga Jeffrey.


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Eu lanço–lhe o controle remoto e começo a subir as escadas para o meu

quarto. Eu ainda tenho um monte de desempacotação para fazer, mas minha mente fica piscando de volta para aquele momento em baixo do arco, quando parecia que o

mundo inteiro estava tentando entrar na minha cabeça. E o meu cabelo! Celeste/Divino19. O olhar na cara da senhora quando me viu assim: intrigada no início, confusa, então com um pouco de medo, como se eu fosse algum tipo de criatura alienígena que pertencia a um laboratório com cientistas olhando o meu deslumbrante cabelo sob um microscópio.

Como se eu fosse uma aberração. Eu devo ter adormecido. A próxima coisa que eu sei é que vi mamãe em pé

na porta do meu quarto. Ela lança uma caixa de Clairol, tintura de cabelo na minha cama. Eu o pego.

– Sunset Sedona20? – Eu li. – Você está brincando comigo, certo? Vermelho? – Ruivo. Como o meu. – Mas por quê? – Eu pergunto. – Vamos corrigir o seu cabelo – ela diz. – Então, vamos conversar. – Vai ser essa cor para a escola! – Eu lamento enquanto ela trabalha a

tintura no meu cabelo no banheiro, me sento no vaso sanitário fechado com uma toalha velha em torno de meus ombros.

19

20

(Unearthly)

acho q seria cor do por do sol de Sedona que é um lugar no arizona!


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– Eu amo o seu cabelo. Eu não iria pedir se não achasse que isso é

importante. – Ela dá um passo para trás e examina a minha cabeça para os pontos

que ela poderia ter perdido. – Pronto. Tudo feito. Agora nós temos que esperar para a cor se definir.

– Ok, então você vai me explicar isso agora, certo? Por cinco segundos ela

pareceu nervosa. Então, ela se sentou na borda da banheira e dobrou as suas mãos em seu colo.

– O que aconteceu hoje é normal – ela diz. Isso me lembra de quando ela

me contou sobre a minha mestruação, ou quando ela abordou o tema de sexo, toda

clínica e racional, perfeitamente escrito para mim, como se tivesse ensaiado o discurso por anos.

– Hum, olá, quão normal foi hoje? – Ok, não é normal – ela diz rapidamente. – Normal para nós. Como suas

habilidades começam a crescer, o seu lado angelical vai começar a se manifestar de forma mais perceptível.

– Meu lado angelical. Legal. Como se não tivesse o suficiente para lidar. – Não é tão ruim – diz a mamãe. – Você vai aprender a controlar isso.

Ela ri.

– Eu vou aprender a controlar o meu cabelo?

– Sim, eventualmente, você vai aprender a escondê–lo, a modificá-lo para

que não possa ser percebido pelo olho humano. Mas, por agora, tingimento parece a maneira mais fácil.


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Ela sempre usa chapéu, eu percebi. Na praia. No parque. Quase toda vez

que saímos em público, ela usa um chapéu. Ela é proprietária de dezenas de chapéus e bandanas e lenços. Eu sempre assumi que era porque ela era antiquada. – Então isso aconteceu com você? – Eu pergunto. Ela se vira em direção à porta, sorrindo ligeiramente. – Venha, Jeffrey. Jeffrey esgueira no meu quarto, onde ele estava escutando.

A culpa em seu rosto não durou muito tempo. Ele passou direto para a

curiosidade desenfreada.

– Será que vou ter isso, também? – Ele pergunta. – A coisa do cabelo? – – Sim – ela responde. – Acontece com a maioria de nós. Para mim, a

primeira vez foi 1908, em julho, se eu me lembro. Eu estava lendo um livro num banco de jardim. Então – Ela levantou o punho até o alto da cabeça e abriu a mão, como uma espécie de explosão.

Eu me inclino para ela avidamente. – E era como se tudo estivesse mais

lento, como se você pudesse ver e ouvir coisas que não deveria ter sido capaz? – Ela se vira para olhar para mim. Seus olhos eram um profundo anil do céu logo após que a escuridão cai, pontuada com minúsculas luzes como se ela estivesse literalmente sendo iluminado por dentro. Eu posso me ver neles. Eu olhei preocupada. – Foi isso para você? – Ela pergunta. – O tempo ficou lento?


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Eu aceno. Ela faz um pensativo barulho de hmm e coloca a mão quente sobre a

minha. – Pobre garota. Não é à toa que está tão abalada.

– O que você fez quando isso aconteceu com você? – Jeffrey pergunta. – Eu coloquei no meu capuz. Naqueles dias, adequadas jovens senhoras

usavam chapéis fora de casa. E, felizmente, no momento em que não era mais verdade, tintura de cabelo tinha sido inventada. Eu fui uma morena por quase 20 anos. – Ela rugou o nariz. – Isso não me agradou.

– Mas o que é isso? – Eu pergunto. – Por que isso acontece? Ela faz uma pausa como se estivesse pensando em suas palavras com

cuidado. – É uma parte da glória que temos que passar. – Ela pareceu um pouco

desconfortável, como se nós não fôssemos completamente confiáveis com esta informação.

– Agora, isso é aula o suficiente por hoje. Se esse tipo de coisa acontecer

mais uma vez, em público, eu quero dizer, eu acho que funciona melhor apenas agir normalmente. Na maioria das vezes, as pessoas se convencem de que eles realmente não viram nada, que era um truque da luz, uma ilusão. Mas não seria uma má idéia para você usar um chapéu com mais freqüência agora, Jeffrey, para estar seguro.

– Tudo bem – ele diz com um sorriso. Ele praticamente dorme em seu boné

do Giants.

– E vamos tentar não chamar a atenção para nós mesmos – ela continua,

olhando–o incisivamente, claramente se referindo à maneira como ele sente a

necessidade de ser o melhor em tudo: arremessador, zagueiro, todo o estrela do time


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do colégio. – Não se exiba. Sua mandíbula se aperta. – Não deve ser um problema – ele diz. – Não há nada para fazer em janeiro,

não é? As eliminatórias de luta greco–romana foram em novembro. Beisebol não é até a primavera.

– Talvez seja o melhor. Dá–lhe algum tempo para ajustar antes de pegar qualquer coisa extra. – Certo. Para o melhor. – Seu rosto era uma máscara de mau humor

novamente. Então ele recua para o seu quarto, batendo a porta atrás dele.

– Ok, então isso está resolvido – mamãe diz, virando-se para mim com um

sorriso. – Vamos lavar.

Meu cabelo acabou laranja. Como uma cenoura descascada. O momento

que eu vi, considerei seriamente raspar minha cabeça.

– Nós vamos corrigir isso – Mamãe promete tentando não rir. – A primeira coisa amanhã. Eu juro. – Boa noite. – Eu fecho a porta na cara dela. Então me jogo na cama e choro

por um bom tempo. Tanta coisa para a minha chance de impressionar o Garoto

Misterioso com o meu lindo cabelo castanho ondulado. Depois de me acalmar, eu deito na cama ouvindo o vento bater em minha janela. As madeiras de fora parecem

enormes e cheias de trevas. Eu posso sentir as montanhas, a sua presença maciça

aparecendo atrás da casa. Há coisas que estão acontecendo agora, que eu não posso


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controlar, estou mudando, e eu não posso voltar ao que era antes. A visão vem a mim, então, como um amigo familiar, varrendo meu quarto

para longe e depositando-me no meio da floresta esfumaçada. O ar está tão quente, tão seco e pesado, difícil de respirar. Eu vejo a prata Avalanche estacionada ao longo

da borda da estrada. Automaticamente eu viro em direção às colinas, orientando-me para onde eu sei que vou encontrar o menino. Eu ando. Eu sinto a tristeza, então, uma dor como se meu coração estivesse sendo cortado, crescendo a cada passo que dou. Meus olhos se enchem de lágrimas inúteis. Eu pisco e continuo caminhando, decidida

a alcançar o menino, e quando o vejo, eu paro por um minuto e simplesmente

compreendo. A visão dele ali, parado tão inconsciente me enche com uma mistura de dor e saudade.

Eu penso, eu estou aqui.


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3 EU SOBREVIVI À PESTE NEGRA A primeira coisa que prendeu meu olhar enquanto eu dirigia no

estacionamento da Jackson High School foi uma grande camionete prata estacionada na parte de trás do estacionamento. Eu olho de soslaio para ver a placa.

– Uou! – Jeffrey grita quando eu quase colidi na traseira de outra

camionete azul velha e enferrujada demais na minha frente. – Aprenda a dirigir já!

– Desculpe. – Tento acenar apologeticamente para o cara dirigindo a

camionete azul, mas ele grita algo de sua janela que eu tenho certeza que eu não

quero entender e saí guinchando pelo estacionamento. Eu estaciono o Prius cuidadosamente em um espaço vazio e sento por um minuto, tentando me recompor. Jackson Hole High não se assemelha a uma escola tanto como um resort,

um grande edifício de tijolos moldados por uma série de enormes vigas de toras ao

longo da frente, tipo como pilares, mas com um toque mais rústico. Como todo e resto em nossa nova cidade, é o cartão postal perfeito, todas as janelas brilhando e

uniformemente espaçadas, árvores de troncos brancos que são bonitas mesmo sem


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folhas, sem contar as belíssimas montanhas imponentes ao fundo em três lados. Mesmo as nuvens fofas brancas no céu pareciam deliberadamente colocadas.

– Mais tarde – diz Jeffrey, pulando para fora do carro. Ele pega sua mochila

e anda com ar superior em direção à porta da frente da escola como se fosse dono do

lugar. Algumas meninas no estacionamento se viram para examiná-lo. Ele cintila um sorriso fácil para elas, que imediatamente começam a coisa de sussurrar/dar risadinhas que sempre o seguia na nossa antiga escola.

– Tanta coisa para não chamar a atenção para nós mesmos – murmuro. Eu aplico outra camada de gloss e inspeciono o meu reflexo no espelho

retrovisor, me encolhendo pela cor humilhante do meu cabelo. Apesar dos melhores

esforços meus e de minha mãe durante a semana passada, ele ainda está laranja. Tentamos de tudo, retingi–lo por cinco vezes, até mesmo tentei tingi–lo de preto piche, mas a cor sempre clareia para o mesmo laranja horroroso de perfurar os olhos. É como um tipo de piada cósmica cruel.

– Você não pode sempre confiar em sua aparência, Clara – mamãe disse,

após a tentativa fracassada número cinco. Como se ela pudesse falar. Como se ela já tivesse parecido menos linda um dia em sua vida.

– Eu nunca confiei na minha aparência, mãe. – Tenho certeza que confiou – disse ela um pouco animada demais. – Vocês

não são vãos sobre isso, mas ainda assim. Você sabia que quando os outros alunos em Mountain View High olhavam para você, eles viam esta linda loira arruivada.

– É, agora eu não sou loura arruivada ou bonita – eu disse miseravelmente.

Sim, eu estava chafurdando. Mas o cabelo é tão horrivelmente laranja. Mamãe

colocou um dedo embaixo do meu queixo e forçou minha cabeça para olhar para ela.


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– Você poderia ter o cabelo verde neon, e isso não tiraria o quão linda você é – disse ela.

– Você é minha mãe. Você está legalmente obrigada a dizer isso. – Vamos tentar lembrar que você não está aqui para ganhar um concurso

de beleza. Você está aqui para o seu propósito. Talvez esse problema de cabelo

significa que as coisas não vão ser tão fáceis para você aqui como eram na Califórnia. E talvez haja uma razão para isso.

– Certo. Uma razão muito boa, eu tenho certeza. – Pelo menos a coloração vai cobrir a coisa brilhante. Então, você não terá

que se preocupar em manter o cabelo coberto. – Yay para mim.

– Você apenas tem que fazer o melhor possível, Clara – ela disse. Então aqui estou eu, fazendo o melhor possível, como se eu realmente

tivesse uma escolha. Saio do carro e ando furtivamente para a parte de trás do

estacionamento para inspecionar a camionete prata. AVALANCHE, lê–se em letras prateadas em todo o pára-choque traseiro. Placa 99CX. Ele está aqui. Eu me forço a respirar. Ele está realmente aqui. Agora não há mais nada a fazer senão caminhar para a escola com o meu

louco, indisciplinado e insanamente brilhante cabelo laranja. Eu observo os outros

estudantes correrem para dentro do prédio em seus pequenos grupos, rindo e conversando e brincando. Todos totalmente estranhos, cada um deles. Exceto um.


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Embora eu seja uma estranha para ele. Minhas mãos estão suadas e pegajosas ao mesmo tempo. Um bando de borboletas se agita em meu estômago.

Eu nunca estive tão nervosa na minha vida. Você conseguiu isso, Clara, eu

penso. Perto do seu propósito, essa coisa da escola deve ser moleza. Então eu endireito meus ombros, tentando a confiança de Jeffrey, e sigo para a porta. Meu primeiro erro,

eu percebi quase imediatamente, foi assumir que, mesmo com o designer exterior, esta escola seria essencialmente como qualquer outra. Cara, eu estava sempre errada.

A escola é de tão alta qualidade no interior quanto parece do lado de fora.

Quase todas as salas de aula têm janelas do chão ao teto com vista para a montanha.

O refeitório é um cruzamento entre o interior de uma estância de esqui e um museu de arte. Há pinturas, murais, colagens em praticamente canto e gretas do lugar. Ela

ainda cheira melhor do que as escolas regulares: Pinho e giz e uma mistura

perfumada de perfumes caros. Minha escola antiga de alvenaria na Califórnia parece uma prisão em comparação.

Eu me meti sem querer na terra de gente bonita. E eu que pensei que eu

vinha de uma terra de gente bonita. Você sabe como, às vezes na TV, mostram uma

foto de uma celebridade no colégio e essa pessoa parece perfeitamente normal, não realmente mais atraente do que ninguém? E você pensa, o que aconteceu? Por que Jennifer Garner é tão gostosa agora? Eu vou te dizer: o dinheiro que aconteceu.

Tratamentos faciais, penteados extravagantes, roupas de grife, e personal trainers aconteceram.

E as crianças em Jackson Hole High tinham aquele polimento de

celebridade, com exceção de uns poucos aqui e ali que pareciam cowboys

verdadeiros, completos com Stetsons21, botões de pérola em suas camisas xadrez ao

21

Marca de amplificadores de som automotivo.


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estilo western, calças Wranglers apertadas demais, botas de cowboy arranhadas. Além disso, o currículo é extravagante. Claro, você pode ter uma aula de

arte, se você sentir vontade de aprender a desenhar, mas você também pode escolher

arte de estúdio avançada, que prepara você para entrar no cenário vívido de arte de Jackson Hole. Há uma classe chamada Power Sports, que ensina você a afinar a sua motocicleta, quadriciclo ou snowmobile.

Você pode aprender como iniciar seu próprio negócio, projetar sua casa dos sonhos, desenvolver a sua paixão pela culinária francesa, ou dar seus primeiros passos para se tornar um engenheiro. Apenas no caso de você quiser obter sua

licença de piloto, a escola oferece alguns cursos de aerodinâmica. O mundo é sua ostra em Jackson Hole High.

E definitivamente vai levar algum tempo para eu me acostumar. Eu pensei que os outros alunos estariam animados para me ver, ou curiosos

no mínimo. Eu sou carne fresca, afinal, e da Califórnia, e talvez eu tenha alguma

sabedoria da cidade grande para oferecer os nativos. Errado de novo. Para a maior parte, eles me ignoram completamente. Depois de eu passar por três períodos (trigonometria, Francês III, Química Preparatória para a Faculdade), onde ninguém

sequer se incomoda com um simples olá, eu estou pronta para correr para o meu carro e ir direto para a Califórnia, onde conheço todo mundo desde sempre e eles me conhecem, onde neste minuto meus amigos e eu estaríamos contando tudo sobre nossas férias e comparando horários, e eu ser bonita e popular. Onde a vida é normal. Mas então eu o vejo. Ele está de pé, de costas para mim perto do meu armário. Uma onda de

eletricidade sibila por mim quando eu reconheço os seus ombros, seu cabelo, o

formato de sua cabeça. Em um instante eu estou na visão, vendo-o tanto no casaco de


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lã preto entre as árvores e o real, no corredor, simultaneamente, como se a visão fosse um fino véu colocado por cima da realidade. Dou um passo em direção a ele, minha boca se abrindo para chamar seu nome. Então eu me lembro que eu não sei. Como

sempre, é como se ele me ouvisse de qualquer maneira e começa a se virar e meu coração pula uma batida quando eu não acordo, mas ver seu rosto agora, sua boca se

curvando em um meio sorriso quando ele brinca com o cara ao lado ele. Ele olha

para cima e seus olhos encontram os meus. O corredor se derrete. É só ele e eu agora, na floresta. A visão vem de trás dele, o fogo sobre a encosta rugindo em nossa direção, mais rápido do que poderia ter acontecido. Eu tenho que salvá-lo, eu penso. É quando eu desmaio. Eu acordo com uma menina com longos cabelos castanho-dourados

sentada no chão ao meu lado, com a mão na minha testa, falando em voz baixa como

se estivesse tentando acalmar um animal. – O que aconteceu? – Eu procuro em volta o menino, mas ele se foi. Algo duro pinica minhas costas, e eu percebo que estou deitada no meu livro de química.

– Você caiu – diz a menina, como se isso não fosse óbvio. – Você tem

epilepsia ou algo assim? Parecia que você estava tendo algum tipo de ataque repentino. As pessoas estão olhando. Eu sinto o calor que sobe no meu rosto. – Estou

bem – eu digo, me sentando.

– Calma. – A menina pula e estende a mão para me ajudar. Eu pego sua

mão e a deixo me puxar para ficar em pé.

– Eu sou meio desajeitada – eu digo como se explicasse isso.


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– Ela está bem. Vão para a classe – a menina diz para as crianças que ainda

estão curiosas. – Você comeu esta manhã? – Ela me pergunta. – O quê?

– Pode ser uma coisa de açúcar no sangue. – Ela coloca o braço em minha

volta e me conduz para o corredor. – Qual é seu nome? – Clara. – Wendy – ela diz em resposta. – Onde estamos indo? – Enfermaria.

– Não – eu me oponho me libertando de seu braço. Eu me endireito e tento

sorrir. – Eu estou bem, de verdade. – O sinal toca. De repente, o corredor está deserto. Então do canto apressa–se uma mulher roliça de cabelos amarelos vestindo roupas de enfermagem azuis, andando rápido. Atrás dela está o garoto. Meu garoto. – Lá vai ela de novo – diz Wendy quando cambaleio para ela. – Christian – ordena a enfermeira rapidamente enquanto se apressam em

minha direção.

Christian. Seu nome.


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Seu braço está sob meus joelhos e ele me levanta. Meu braço está ao redor

dos seus ombros, meus dedos a centímetros de distância do local onde o pescoço encontra o seu cabelo. Seu cheiro, uma mistura de sabão Marfim e alguma colônia maravilhosa, picante, corre por mim. Eu olho em seus olhos verdes, tão de perto que

eu posso ver manchas de ouro neles. – Oi – ele diz. Que o céu me ajude, eu penso quando ele sorri. É demais.

– Oi – murmuro, desviando o olhar, ruborizando até as raízes do meu

cabelo solto, muito laranja.

– Segure-se em mim – ele diz, e então ele está me carregando pelo

corredor. Sobre seus ombros Eu vejo Wendy me olhando, antes que ela se vire e

caminhe em outra direção. Quando chegamos à enfermaria, ele me coloca com

cuidado sobre uma cama. Eu faço meu melhor para não bocejar para ele. – Obrigada – eu gaguejo.

– Sem problema. – Ele sorri novamente de uma maneira que me deixa

contente que estou sentada. –Você é muito leve.

Meu cérebro atrapalhado tenta dar sentido a estas três palavras e colocá–

las em ordem, com pouco sucesso.

– Obrigada – digo novamente, sem jeito. – Sim, obrigado, Sr. Prescott – diz a enfermeira. – Agora vá para aula. Christian Prescott. Seu nome é Christian Prescott. – Até mais – ele diz, e assim, ele está indo embora. Aceno, como ele dá a

volta no canto, então me sinto como uma idiota.


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– Agora – diz a enfermeira, voltando-se para mim. – De verdade – eu digo. – Eu estou bem. Ela não parece convencida. – Eu poderia fazer polichinelos – é quão eu estou bem – digo, e não

consigo tirar o sorriso idiota do meu rosto.

Assim, eu chego atrasada em Inglês de Honras. Os alunos puxaram suas

cadeiras em um círculo. O professor, um homem mais velho com uma barba curta e branca, acena para eu entrar.

– Puxe uma cadeira. Senhorita Gardner, eu presumo? – Sim. – Eu sinto toda a turma olhando diretamente para mim quando eu

pego uma mesa na parte de trás da sala e a arrasto para o círculo. Eu reconheço Wendy, a menina que me ajudou no corredor. Ela move sua mesa para dar espaço para mim

– Eu sou o Sr. Phibbs – diz o professor. – Estamos no meio de um exercício

que tem grande parte para seu benefício, por isso estou feliz que você possa se juntar a nós. Cada um deve dar três fatos únicos sobre si mesmos. Se alguém no círculo tiver

um em comum, eles levantam a mão, e a pessoa que tenha a vez tem que escolher

outra coisa. Estamos atualmente em Shawn, que estava terminando, alegando que ele tem a mais... Bamboleante prancha de snowboard em Teton County... – Sr. Phibbs levanta as sobrancelhas espessas. – Que Jason aqui contestou.

– Eu monto a bela dama rosa – gaba-se o menino que eu assumo é Shawn.


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– Ninguém pode argumentar que é único – diz o Sr. Phibbs com uma tosse.

– Então agora nós vamos para Kay. E diga seu nome, por favor, para a nova garota.

Todo mundo olha para uma pequenina morena com grandes olhos

castanhos. Ela sorri como se fosse a coisa mais natural do mundo para ela ser o centro das atenções.

22

fudge

– Eu sou Kay Patterson – ela diz. – Meus pais possuem a mais antiga loja de

em Jackson. Eu encontrei Harrison Ford várias vezes – acrescenta ela como

sua segunda coisa, – porque o nosso fudge é o seu favorito. Ele disse que eu pareço Carrie Fisher de Star Wars.

Então, ela é vaidosa, penso. Embora se você a vestisse com um vestido

branco e colocasse os coques de rolinhos de canela em cada lado de sua cabeça, ela

realmente poderia se passar pela Princesa Léia. Ela é muito atraente, definitivamente uma das pessoas bonitas, com uma aparência de pêssegos e creme e cabelo castanho

que cai de seus ombros em cachos perfeitos, tão brilhantes que quase não se parece com cabelo.

– E – acrescenta Kay como seu toque final – Christian Prescott é meu

namorado. – Eu já não gosto dela.

– Muito bom, Kay – diz o Sr. Phibbs. A próxima é Wendy. Ela está corando, obviamente mortificada estar

falando na frente de toda a classe sobre si mesma. – Eu sou Wendy Avery – ela diz com um encolher de ombros. – Minha família administra um rancho nos arredores de Wilson. Eu não sei mais o que é único sobre mim. Eu quero ser uma veterinária, e

não é uma grande surpresa porque eu amo cavalos. E eu faço a minha própria roupa 22

É um doce de chocolate.


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desde que eu tinha seis anos. – Obrigado, Wendy – diz Phibbs. Ela se balança para trás com um pequeno

suspiro de alívio. Da mesa ao lado dela, Kay abafa um bocejo. É um gesto pequeno, elegante, mas isso me faz antipatizar com ela ainda mais. Silêncio. Oh merda, eu percebo, eles estão esperando por mim. Todas as coisas que tenho considerado voam do meu cérebro.

Em vez disso eu penso em todas as coisas que não posso lhes contar, como

eu posso falar qualquer língua do planeta fluentemente. Eu tenho as asas que

aparecem quando eu lhes peço, e eu deveria ser capaz de voar, mas eu estrago tudo. Eu sou loira natural. Eu tenho um impecável senso de direção, que eu acho que é

para ajudar com a coisa voar, mas não ajuda. Ah, e eu estou aqui em uma missão para salvar o namorado da Kay.

Eu limpo minha garganta. – Então eu sou Clara Gardner, e me mudei para

cá da Califórnia. – Os outros alunos riem quando um cara do outro lado do círculo levanta a mão.

– Este é um dos fatos únicos do Sr. Lovett – diz o Sr. Phibbs – só que você

não estava aqui quando ele disse isso. Você verá que existem muito poucos alunos aqui que migraram do Golden State.

– Está bem, deixe-me tentar novamente. – Especificidade é obviamente a

chave aqui. – Eu me mudei para cá, da Califórnia cerca de uma semana atrás, porque eu ouvi coisas excelentes sobre o fudge. – A classe ri, até mesmo Kay, que parece


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satisfeita. De repente eu me sinto como um comediante que acaba de contar a piada de abertura.

Mas qualquer coisa é melhor do que ser conhecida como a dorkina ruiva

que desmaiou no meio do corredor depois do terceiro período. Então, será a piada. – os pássaros são estranhamente atraídos para mim – eu continuo. – Eles meio que me perseguem aonde quer que eu vá. – Isso é verdade. Minha teoria atual sobre isso é porque eles sentem o cheiro das minhas penas, embora seja impossível saber com certeza.

– Você está levantando a sua mão, Ângela? – pergunta o Sr. Phibbs. Assustada, olho à minha direita, onde uma menina de cabelos negros

vestindo uma túnica violeta sobre leggings pretas está abaixando rapidamente a mão.

– Não, só alongando – diz ela casualmente, olhando para mim com graves

olhos de cor âmbar. – Eu gosto da coisa do pássaro, no entanto. Isso é engraçado. – Mas ninguém está rindo desta vez. Eles estão olhando para mim. Eu engulo.

– Ok, mais uma, certo? – Eu digo um pouco desesperada. – Minha mãe é

uma programadora de computador, e meu pai é um professor de física na

Universidade de Nova York, o que provavelmente significa que eu deveria ser boa em matemática. – Faço uma cara pesarosa. A idéia de que eu não posso fazer matemática é falso, é claro. Eu sou boa em matemática. É uma linguagem, afinal, é por isso que

mamãe entende o modo como os computadores conversem entre si sem ter de

trabalhar para isso. E provavelmente porque ela foi atraída para o papai, para começar, que é como uma calculadora humana, mesmo sem uma gota de sangue dos anjos correndo em suas veias. Jeffrey e eu achamos ridiculamente fácil.


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Isso não começa um riso, também, só uma risada de pena de Wendy. Eu

aparentemente não sou feita para ser uma comediante. – Obrigado, Clara – diz o Sr. Phibbs.

O último aluno a nomear suas três coisas é a menina de cabelos negros que

me olhou tão atentamente quando eu mencionei a coisa estranha com os pássaros. Seu nome, diz ela, é Angela Zerbino. Ela enfia sua franja puxada de lado para trás da

orelha e lista suas três únicas coisas rapidamente. – Minha mãe é proprietária da Pink Garter. Eu nunca conheci meu pai. E sou uma poetisa. Outro silêncio constrangedor. Ela olha ao redor do círculo como se ela

estivesse desafiando alguém a desafiá–la. Ninguém encontra seus olhos.

– Bom – diz o Sr. Phibbs, limpando a garganta. Ele examina suas notas. –

Agora que conhecemos melhor uns aos outros. Mas como as pessoas realmente conhecem uns aos outros? É com fatos, os específicos sobre nós mesmos que nos distinguem dos outros seis bilhões e meio de pessoas neste planeta? É o nosso cérebro

que nos torna diferentes, da forma como cada pessoa é como um computador

programado com uma combinação diferente de software, memórias, hábitos e

constituição genética? É o que fazemos, as ações que tomamos? Quais teriam sido suas três coisas, eu me pergunto, se eu lhe dissesse o nome da maioria das ações definidas que você tomou em sua vida? Vejo um clarão de fogo no olho da minha mente. – Nesta primavera iremos passar muito tempo discutindo o que é ser único

– continua o Sr. Phibbs. Ele fica ali e atrapalha–se até a mesa pequena no fundo da sala, onde ele pega uma pilha de livros e começa a passá-los para eles.


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– Nosso primeiro livro do semestre – diz ele. Frankenstein. – Ele está vivo! – grita o rapaz com a dama rosa em sua prancha de

snowboard, segurando o seu livro como se ele espera que seja atingido por um raio. Kay Patterson revira os olhos.

– Ah, você está canalizando o Dr. Frankenstein já. – Mr.Phibbs se volta para a lousa e escreve o nome de Mary Shelley com o marcador preto, junto com o ano de 1817. – Este livro foi escrito por uma mulher não muito mais velha que vocês são agora, que estava refletindo sobre a batalha entre a ciência e o mundo natural.

Ele se lança em uma palestra sobre Jean–Jacques Rousseau e o impacto que

suas idéias tiveram na arte e na literatura no momento em que Mary Shelley estava

escrevendo. Eu tento não olhar fixamente para Kay Patterson. Eu me pergunto que tipo de garota ela é, para pegar um cara como Christian. E então, já que eu não sei

nada sobre ele além de como a parte de trás de sua cabeça se parece, e que ele gosta

de resgatar meninas que desmaiam no corredor, eu me pergunto que tipo de garoto Christian é.

Eu percebo que estou mastigando a borracha do meu lápis. Eu abaixo o meu lápis. – Mary Shelley queria explorar o que é que nos faz humanos – conclui o Sr.

Phibbs. Ele olha pra mim, encontra meus olhos como se soubesse que eu não ouvi nada que ele dissera pelos últimos dez minutos, em seguida, desvia o olhar.

– Eu acho que nós vamos descobrir – ele diz, enquanto segura o livro, e

depois o sinal toca.


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– Você pode sentar na minha mesa no almoço, se você quiser – Wendy

oferece quando estamos saindo da sala de aula. – Você embalou seu almoço? Ou você estava planejando sair do campus?

– Não, eu pensei que eu ia conseguir alguma coisa aqui. – Bem, acho que hoje é filé de frango frito. – Faço uma careta. – Mas você sempre pode comprar pizza ou um sanduíche de manteiga de amendoim. Esses são alimentos de primeira necessidade da JHHS23. – Saudável. Eu me misturo na fila para pegar minha comida e sigo Wendy até sua

mesa, onde um monte de garotas de aparências quase idênticas olha para mim com

expectativa. Wendy lista seus nomes: Lindsey, Emma, e Audrey. Elas parecem bastante amigáveis. Definitivamente não gente bonita, todas vestindo camisetas e jeans, tranças e rabos de cavalo, não um monte de maquiagem. Mas agradáveis. Normais.

– Então, vocês são como um grupo?– Pergunto quando me sento. Wendy ri. – Nós nos chamamos as Invisíveis.

23

Sigla da Jackson Hole High School.


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–Oh... – digo, sem saber se ela está brincando ou como responder. – Nós

não somos piradas ou geeks24 – diz Lindsey, Emma, e Audrey, eu não posso dizer qual. – Somos apenas, bem, você sabe, invisíveis. – Invisível para... – O povo popular – diz Wendy. – Eles não nos vêem.

Ótimo. Eu me encaixo bem com os Invisíveis. Do outro lado da lanchonete tenho um vislumbre de Jeffrey sentado com um bando de caras com jaquetas

esportivas. Uma pequena menina loura está olhando para ele com adoração. Ele diz algo. Todo mundo na sua mesa, ri.

Inacreditável. Em menos de um dia, ele é o Senhor Popular. Alguém puxa

uma cadeira próxima de mim. Eu me viro. Lá está Christian, com uma perna de cada lado da cadeira. Por um momento, tudo que eu posso focalizar são seus olhos verdes. Talvez eu não seja tão invisível afinal.

– Então eu ouvi que você é da Califórnia – ele diz. – Sim – eu murmuro, apressando-me a mastigar e engolir um pedaço de

sanduíche de manteiga de amendoim. A sala está mais quieta agora. As meninas na

mesa Invisíveis estão olhando para ele com os olhos arregalados, como se ele nunca

tivesse cruzado seu território antes. Na realidade, quase todo mundo no refeitório está olhando para nós, um olhar curioso e quase predatório. Tomo um gole rápido do leite e dou–lhe o que eu espero ser um sorriso sem comida.

24

Geek (do inglês geek, pronuncia "guik": IPA /gi:k/) é uma expressão idiomática da língua inglesa, uma gíria

que define pessoas peculiares ou excêntricas obcecadas com tecnologia, eletrônica, jogos eletrônicos ou de tabuleiro e outros.


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– Nós nos mudamos para cá de Mountain View. Fica ao sul de San

Francisco – eu conduzo.

– Eu nasci em Los Angeles. Moramos lá até que eu tinha cinco anos, embora

eu realmente não me lembre de muita coisa.

– Legal. – Minha mente dispara para uma resposta adequada a essa

informação, de alguma forma a reconhecer esta coisa maravilhosa que temos em comum. Mas eu não consegui nada. O máximo que consigo chegar é a uma risadinha nervosa.

– Eu sou Christian – ele diz suavemente. – Eu não tive a chance de me

apresentar antes.

– Clara. – Eu estendo minha mão para apertar, um gesto que ele parece

achar encantador. Ele pega minha mão, e é como se a minha visão e o mundo real

batessem palmas em conjunto neste momento. Ele sorri seu sorriso esplêndido e torto. Ele é real. Sua mão em volta da minha é quente e confiante, a quantidade certa de pressão. Estou instantaneamente tonta.

– Prazer em conhecê-la, Clara – ele diz , apertando minha mão. – Totalmente. Ele sorri novamente. Gostoso não é realmente uma palavra bastante

adequada para esse cara. Ele é loucamente lindo. E é mais do que sua aparência – as ondas intencionalmente bagunçadas de seu cabelo escuro; as sobrancelhas fortes que

fazem a sua expressão um pouco séria mesmo quando sorri; seus olhos, que eu

percebo que podem parecer esmeraldas em uma luz e cor de mel em outra; os ângulos docemente esculpidos do seu rosto; a curva de seus lábios cheios. Eu o tinha


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visto de frente por dez minutos no total e já estou obcecada por seus lábios. – Obrigado por antes – eu digo. – De nada. – Ei, pronto para ir? – Kay chega e coloca a mão na sua nuca, em um gesto

decididamente possessivo, espetando os dedos por seu cabelo. Sua expressão é tão cuidadosamente neutra que poderia ter sido pulverizada, como se ela não pudesse se

importar menos com quem seu namorado está falando. Christian se vira para olhar para ela, seu rosto praticamente alinhado com seus seios. Em torno de seu pescoço

balança um meio coração brilhante prata com as iniciais CP estampadas nele. Ele sorri.

Magia efetivamente quebrada. – Sim, apenas um segundo – diz ele. – Kay, esta é... – Clara Gardner – ela diz, acenando com a cabeça. – Ela está na minha aula

de Inglês. Ela se mudou para cá da Califórnia. Não gosta de pássaros. Não é boa em matemática.

–Sim, essa sou eu em poucas palavras – eu digo. – O quê? Perdi alguma coisa? – Christian pergunta, confuso. – Nada. Apenas um exercício estúpido que fizemos na aula do Phibbs. É

melhor irmos se quisermos voltar antes do próximo período – ela diz, então se vira para mim e sorri, um flash de perfeitos dentes brancos. Eu apostaria dinheiro que ela usou aparelhos em algum momento.


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– Há este grande lugar de comida Chinesa que gostamos de aparecer para o

almoço cerca de um quilômetro daqui. Você vai ter que experimentar isso algum dia com seus amigos. – Tradução: Você e eu nunca seremos amigas. – Eu gosto de comida chinesa – digo.

Christian pula para cima da cadeira. Kay enfia o braço no dele e sorri para

ele sob os cílios e começa a levá–lo para fora da lanchonete.

– Prazer em conhecê-la – ele grita de volta para mim. – de novo. E então ele se foi. – Uau – comenta Wendy, que está sentada ao meu lado o tempo inteiro sem

fazer um som. –Tentativa impressionante de flerte.

– Eu acho que estava inspirada – eu digo um pouco atordoada. – Bem, eu não acho que há muitas meninas aqui que não são inspiradas por

Christian Prescott – ela diz, o que faz as outras meninas rirem em silêncio.

– No primeiro ano eu tinha essa fantasia de que ele me convidasse para o

baile e eu seria coroada rainha – suspira aquela que eu acho que é Emma, que então se cora em vermelho brilhante. – Eu superei isso agora. – Eu apostaria em Christian como rei do baile neste ano. Wendy franze o nariz. – Mas Kay é a rainha. É melhor tomar cuidado. – Ela é tão ruim assim? – Wendy ri, então dá de ombros. – Ela e eu éramos

boas amigas na escola, dormíamos na casa da outra e tínhamos chás com as nossas

bonecas e tudo isso, mas quando chegamos à escola secundária, foi como... – Wendy


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sacode a cabeça tristemente. – Ela é mimada. Mas é boa o suficiente quando você começa a conhecê-la, eu acho. Ela pode ser muito doce. Mas não fique perto do seu lado ruim.

Eu tenho certeza que eu já estou no lado ruim Kay Patterson. Eu poderia

dizer pela forma como ela manteve sua voz leve, amigável, mas por baixo era uma tendência de desprezo. Olho ao redor do refeitório. Eu observo a menina de cabelos pretos do Inglês, Angela Zerbino. Ela está sentada sozinha, o almoço intocado na sua

frente, lendo um livro grosso preto. Ela olha para cima. Ela acena, só o mais ínfimo aceno de sua cabeça, como se ela quisesse me reconhecer. Eu prendo o seu olhar por um momento, depois desvio o olhar. Ela volta a ler seu livro.

– E ela? – Pergunto a Wendy, inclinando a cabeça para indicar Angela. – Angela? Ela não é uma rejeição social ou qualquer coisa. É como se ela

preferisse ficar sozinha. Ela é meio intensa. Concentrada. Ela sempre foi desse jeito. sabe...

– O que é Pink Garter? Parece uma... Você sabe, um lugar onde... Você

Wendy ri. – Um bordel? –Sim – eu digo, envergonhada. – É um teatro-restaurante na cidade – diz Wendy, ainda rindo. – Cowboy melodramas, poucos musicais. – Oh – digo, finalmente entendendo. – Eu pensei que era estranho quando

ela disse na aula que sua mãe tinha um bordel e ela não conhecia o seu pai. Um pouco informação demais, se você sabe o que eu quero dizer.


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Agora todo mundo na mesa está rindo. Eu olho novamente para Angela,

que se virou um pouco, então eu não posso ver seu rosto.

– Ela parece legal – eu bato em retirada. Wendy acena. – Ela é. Meu irmão teve uma queda por ela por um tempo. – Você tem um irmão? – Ela bufa como se desejasse que pudesse dar uma

resposta diferente.

– Sim. Ele é meu irmão gêmeo, na verdade. Ele também é um saco.

novos.

– Eu conheço o sentimento. – Eu olho para Jeffrey em seu círculo de amigos

– E falando no diabo – diz Wendy, agarrando a manga de um rapaz que

está passando pela nossa mesa.

– Ei – ele protesta. – O quê? – Nada. – Eu estava dizendo à nova garota sobre o meu irmão maravilhoso

e agora aqui está você. – Ela abre um sorriso enorme para ele, do tipo que diz que ela

não poderia estar dizendo toda a verdade. – Veja, Tucker Avery – ela me diz, apontando para ele.

Seu irmão se parece com ela em quase todos os sentidos: os mesmos vagos

olhos azuis, o mesmo bronzeado, o mesmo cabelo castanho dourado, exceto o seu

cabelo que é curto e espetado e ele é cerca de trinta centímetros mais alto. Ele é definitivamente parte do grupo de cowboy, embora atenuada por alguns dos outros,

vestindo apenas uma camiseta cinza, jeans e botas de cowboy. Ainda quente, mas de uma maneira completamente diferente de Christian, menos refinado, mais bronzeado


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e musculoso e com uma insinuação de barba por fazer em seu queixo. Parece que ele trabalhou sob o sol a vida inteira.

– Esta é Clara – diz Wendy. – Você é a menina com o Prius que quase bateu na traseira da minha

camionete esta manhã – ele diz.

– Oh, desculpe por aquilo. – Ele me olha de cima a baixo. Sinto–me corar, provavelmente, pela centésima vez naquele dia.

dele.

– Da Califórnia, certo? – A palavra da Califórnia parece um insulto vindo

– Tucker – adverte Wendy, puxando seu braço. – Bem, eu duvido que eu teria feito qualquer dano à sua camionete se eu

tivesse batido em você – retruco. – Parece que a traseira está prestes a enferrujar.

Os olhos de Wendy se arregalaram. Ela pareceu genuinamente alarmada. Tucker zomba. – Aquela camionete enferrujada provavelmente rebocará você de um banco de neve da próxima vez que houver uma tempestade. – Tucker! – exclama Wendy. – Você não tem uma reunião da equipe do

rodeio ou algo assim? – Eu estou ocupada tentando pensar em um retorno

envolvendo a incrível quantidade de dinheiro que vou poupar este ano dirigindo meu Prius em oposição à sua camionete beberrona de gasolina, mas as palavras certas não estão se formando.


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– É você queria conversar – ele diz a Wendy. – Eu não sabia que você iria agir como um porco. – Tudo bem. – Ele sorri para mim. – Prazer em conhecê-la, Cenoura – ele

diz, olhando diretamente para o meu cabelo. – Oh, eu quero dizer Clara. – Meu rosto pega fogo.

– Igualmente, Enferrujado – Eu disparo em troca, mas ele já está indo

embora. Ótimo. Eu estive nessa escola há menos de cinco horas e eu já fiz dois inimigos simplesmente por existir. – Disse que ele era um saco – diz Wendy. – Eu acho que poderia ter sido um atenuante – digo, e nós duas rimos.

A primeira pessoa que vejo quando entro na minha próxima aula é Angela

Zerbino. Ela está sentada na primeira fila, já inclinada sobre seu caderno. Eu me sento algumas fileiras para trás, olhando ao redor da sala de aula para todos os retratos da

monarquia britânica, que estão grampeadas ao topo das paredes. Uma mesa grande na frente da sala exibe um modelo da Torre de Londres de palito de picolé e uma réplica do Stonehenge25 em papel machê.

Em um canto está um manequim vestindo um terno de cota de malha26, do

outro, uma grande placa de madeira com três buracos: paliçadas27de verdade. Parece que isso poderia ser interessante. Os outros alunos entravam lentamente. Quando o sinal toca, o professor sai a passos lentos uma sala de trás. Ele é um cara magro, com

longos cabelos puxados para trás em um rabo de cavalo e óculos grossos, mas de 25

http://www.enciclopedia.com.pt/images/Stonehenge.jpg

26

Aquela malha metálica utilizada nas armaduras dos soldados medievais

27

http://www.enonhall.com/images/08172003/stockade.jpg


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alguma forma ele parece legal, vestindo sua camisa e gravata preta com jeans e botas de cowboy.

– Oi, eu sou o Sr. Erikson. Bem-vindo ao semestre de primavera da história

britânica – ele diz. Ele pega uma jarra da mesa e agita as folhas dentro. – Primeiro eu pensei que íamos começar por se dividir em cidadãos britânicos. Neste reservatório estão dez pedaços de papel com palavra servo nele. Se você puxar um desses, você

será basicamente um escravo. Lide com isso. Há três pedaços de papel com a palavra

clérigo, se você tirar esses, você faz parte da igreja, uma freira ou um padre, o que for apropriado. Ele olha para o fundo da sala onde um aluno acabou de deslizar pela porta. – Christian, excelente que você se juntou a nós. – Precisou toda minha

força de vontade para não me virar.

– Desculpe – ouço Christina dizer. – Não acontecerá de novo. – E se acontecer você passará cinco minutos do lado de fora. – Definitivamente não acontecerá de novo. – Excelente – diz o Sr. Erikson. – Agora onde eu estava? Oh, sim. Cinco

pedaços de papel têm as palavras senhor/senhora. Se vocês puxaram uma dessas, meus parabéns, vocês possuem terra, talvez até um escravo ou dois. Três dizem

cavaleiros – vocês entenderam a idéia. E há um, somente um papel com a palavra rei, e se você paxar essa, você comanda todos nós. – Ele segura a jarra para Angela. – Eu vou ser rainha – ela diz


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– Nós veremos – diz Sr. Erikson.

Senhora.

Angela puxa a um papel do jarro e o lê. Seu sorriso se desvanece. –

– Eu não reclamaria disso – Sr. Erikson diz a ela. – É uma vida boa,

relativamente falando.

– Claro, se eu quiser ser vendida para o homem mais rico que se oferece para casar comigo. – Touché – diz Sr. Erikson. – Senhora Angela, todos. – Ele faz seu caminho

ao redor da sala. Ele já conhece os alunos e os chama pelo nome. – Hmmm, cabelos ruivos – diz ele, quando chega em mim. – Poderia ser uma bruxa.

Alguém relincha atrás de mim. Eu roubo um olhar rápido sobre o meu

ombro para ver o irmão detestável de Wendy, Tucker, sentado no banco atrás do meu. Ele me joga um sorriso diabólico. Eu puxo um papel. Clérigo.

– Muito bom, Irmã Clara. Agora você, Sr. Avery. – Viro-me para observar

Tucker retirar do jarro.

– Um cavaleiro – ele diz, parecendo satisfeito consigo mesmo. – Sir Tucker. O papel do rei vai para um cara que eu não conheço, Brady, que é, a julgar

pelos músculos e a maneira como ele aceita o seu papel como se ele o merecesse em vez de puxá-lo por acaso, um jogador de futebol.

Christian vai por último. – Ah – diz ele falso luto, lendo o papel. – Sou um

servo. – Sr. Erikson segue com isso dando a volta na sala com um conjunto de dados e

nos fazendo rolar para ver se vamos sobreviver à Peste Negra. As chances de


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sobrevivência não são boas para os servos, ou clérigos, pois eles cuidam dos doentes,

mas por um milagre eu sobrevivi. Sr. Erikson me recompensa com um crachá laminado que se lê:

EU SOBREVIVI À PESTE NEGRA Mamãe vai ficar tão orgulhosa. Christian não conseguiu. Ele recebeu um crachá decorado com um crânio e ossos cruzados, que se lê: EU PERECI NA PESTE NEGRA. Sr. Erikson marca sua morte em um caderno que ele tem que manter o

controle de nossas novas vidas. Ele nos assegura que as regras normais de vida e

morte não são aplicáveis no que diz respeito a este exercício. Ainda assim, eu não

posso evitar, mas tomo a morte imediata de Christian como um mau sinal. Mamãe está nos esperando na porta da frente quando chegarmos em casa.

– Conte-me tudo – ela exige, logo que eu cruzo o limiar. – Eu quero saber

todos os detalhes. Será que ele vai para a sua escola? Você o viu?

– Oh, ela o viu – diz Jeffrey antes que eu possa responder. – Ela o viu e ela

desmaiou no meio do corredor. A escola toda estava falando sobre isso. – Os olhos dela se arregalaram. Ela se vira para mim. Dou de ombros. – Eu disse que ela ia desmaiar – disse Jeffrey. – Você é um gênio. – Mamãe se mexe para amarrotar o seu cabelo, mas ele

se esquiva dela e diz: – Muito rápido para você – antes que a mão dela abaixe. – Eu coloquei batatas fritas e molho para você na cozinha – ela diz. – O que aconteceu? – Pergunta depois que Jeffrey vai encher a cara.


70

– Muito do que disse Jeffrey. Simplesmente tombei na frente de todos. – Oh, querida. – Ela me oferece um beicinho complacente. – Quando acordei, houve uma garota que me ajudou. Eu acho que ela

poderia ser uma amiga. E então... – Eu engulo. – Ele voltou com a enfermeira e me carregou para a enfermaria. – Sua boca caiu aberta. Eu nunca vi seu olhar tão espantado.

– Ele carregou você? – Sim, como uma donzela em perigo. – Ela ri. Eu suspiro. – Você já contou a ela o nome dele? – Vem a voz de Jeffrey da cozinha. – Cala a boca – grito. – Seu nome é Christian – que ele grita de volta. – Você pode acreditar

nisso? Viemos até aqui para que Clara pudesse salvar um cara chamado Christian. – Eu estou ciente da ironia. – Mas você sabe o nome dele agora – mamãe diz baixinho. – Sim – Eu sou incapaz de segurar um sorriso. – Eu sei o nome dele.

– E tudo isso acontecendo. As peças estão se encaixando. – Ela parece mais

séria agora. – Você está pronta para isso, criança? – É tudo que tenho pensado por

semanas, e eu sabia pelos últimos dois anos que minha hora iria chegar. Mas ainda assim, eu estou pronta?


71

– Eu acho que sim? – Eu digo. Eu espero.


72

4

ENVERGADURA28 Tinha catorze anos quando a Mãe me contou sobre os anjos. Uma manhã,

durante o café da manhã, me disse que não iria à escola nesse dia e que faríamos uma

saída de mãe e filha, apenas eu e ela. Deixamos Jeffrey na escola e viajamos cerca de cinco quilômetros, da nossa casa em Mountain View, para Big Basin Redwoods State

Park, nas montanhas, perto do oceano. A minha mãe estacionou no parque principal, colocou uma mochila ao ombro, e disse:

– A última a chegar lá acima é uma molengona – e partiu imediatamente

por um trilho pavimentado. Quase tive de correr para acompanhá-la.

– Algumas mães levam as suas filhas para furar as orelhas – eu gritei, atrás dela. Não havia mais ninguém na trilha. O nevoeiro deslizava por entre as

sequóias. As árvores chegavam a ter quase sete metros de diâmetro, e eram tão altas

que não conseguíamos ver onde terminavam, apenas as pequenas aberturas entre os ramos, onde os raios de Sol escorriam, enviesados, para o solo da floresta. – Para onde vamos? – perguntei, quase sem fôlego. 28

é a maior distância entre as pontas das asas de um objeto


73

– Para Buzzards Roost – respondeu a Mãe, por cima do ombro. Como se isso me ajudasse. Caminhamos por espaços de acampamento abandonados, saltamos entre os

rios, nos abaixamos para passar por baixo de troncos gigantescos e musgosos nos

lugares onde as árvores tinham caído por cima do caminho. Mamãe estava calada. Não era um momento de ligação mãe–filha como aqueles em que me levara a Fisherman's Wharfl29, à Winchester Mystery House30 ou ao IKEA. A quietude da floresta era pontuada apenas pelo som da nossa respiração e pelo roçar dos nossos

pés no trilho, e fazia um silêncio tão pesado e sufocante que me fazia querer gritar apenas para quebrá–lo.

Ela não voltou a falar até chegarmos ao enorme afloramento de pedra que

se espetava para fora da encosta da montanha como um dedo de rocha apontando para o céu. Para chegar ao topo tivemos que subir cerca de sete metros de rocha nua, o que a Mamãe fez depressa, com facilidade, e sem olhar para trás.

– Mãe, espera! – chamei, e me apressei para segui–la. Nunca subira sequer

a parede de pedra do ginásio. Os sapatos dela fizeram deslizar uma chuva de cascalho pelo declive. Ela desapareceu no topo. – Mãe! – gritei. Ela baixou o olhar para mim. 29

30

Zona turística de São Francisco Mansão californiana em tempos pertencente a Sarah Winchester, viúva de William Winchester, o

fabricante das afamadas armas de fogo com o mesmo nome, da qual se dizia ser assombrada e que agora é uma atracção turística


74

– Consegue fazer, Clara – ela disse. – Confia em mim. Vai valer a pena.

Não tinha alternativa. Estiquei-me, agarrei a face do penhasco e comecei a

subir, me dizendo para não olhar para baixo no lugar onde a montanha se abria sob os meus pés. E depois estava no topo. Estava de pé, ao lado da Mãe, arfando. – Uau – eu exclamei, olhando para fora. – É espantoso, não é?

Por baixo de nós se estendia o vale de sequóias circundado pelas mon-

tanhas distantes. Aquele era um dos lugares do topo do mundo, de onde se via a quilômetros de distância em qualquer direção. Fechei os olhos e abri os braços,

deixando que o vento passasse por mim, cheirando o ar – uma combinação forte dos

odores das árvores, do musgo, e de coisas em crescimento, um vestígio de terra, a água de um riacho, e oxigênio puro e limpo. Uma águia contornou a floresta num

círculo lento. Podia imaginar como seria deslizar pelo ar, com nada entre mim e o interminável céu exceto pequenos tufos de nuvens.

– Se senta – pediu a Mamãe. Abri os olhos e voltei para vê-la sentada em

cima de uma pedra. Bateu levemente no espaço vazio a seu lado. Sentei-me a seu lado. Ela remexeu na mochila e retirou para fora uma garrafa de água, a abriu, bebeu profundamente, e depois me ofereceu. Aceitei e bebi, olhando para ela. Ela estava distraída, os seus olhos distantes, perdida nos seus pensamentos. – Estou metida em algum problema? – perguntei. Ela sobressaltou-se, e depois deu uma gargalhada ansiosa.

só isso.

– Não, querida – ela disse. – Tenho uma coisa importante para te contar, é


75

contar.

A minha cabeça pensou em todas as coisas que ela poderia ter para me

– Há muito tempo que venho para este lugar – ela confessou. – Conheceu alguém – adivinhei. Pareceu-me uma possibilidade realista. – De que está falando? – perguntou a Mãe. A Mãe nunca saíra muito, embora todas as pessoas que a conhecessem

gostassem imediatamente dela, e os homens a seguissem com o olhar. Ela gostava de

dizer que estava muito ocupada para ter um relacionamento sério, envolvida com o seu emprego na Apple31 como programadora de software informático, e demasiado

ocupada a ser uma mãe solteira o resto do tempo. Eu achava que ela ainda estava apaixonada pelo Pai. Mas talvez ela tivesse um caso amoroso que estivesse prestes a

confessar–me. Talvez daí a dois meses eu estivesse com um vestido cor–de–rosa e flores no cabelo, a vê–la casar com um tipo qualquer ao qual deveria chamar Pai. Acontecera a duas das minhas amigas.

– Me trouxe aqui para me falar de um cara que conheceu, para me dizer

que ama ele e que quer se casar com ele, ou qualquer coisa do gênero – eu disse,

rapidamente, sem olhar para ela porque não queria que ela visse como eu detestava a idéia. – Clara Gardner. – É sério, por mim não há problema.

31

A Apple Inc. é uma empresa multinacional norte-americana que atua no ramo de aparelhos eletrônicos

e informática famosa principalmente pela fabricação do computador de marca registrada, Macintosh, com seu próprio sistema operacional, Mac OS, entre outros produtos.


76

– É muito querida Clara, mas está errada – ela disse. – Te trouxe aqui

porque penso que é suficientemente crescida para saber a verdade. – Está bem – respondi ansiosa. Parecia ser algo de muito importante. – Qual verdade? Ela inspirou profundamente, expirou, e se inclinou para mim. – Quando eu tinha a sua idade, vivia em São Francisco com a minha avó –

ela começou.

Eu conhecia um pouco daquela história. O seu pai desaparecera antes de

ela nascer, e a sua mãe morrera durante o parto. Sempre me pareceu um conto de fadas, como se a minha mãe fosse a heroína trágica e órfã de um dos meus livros.

– Vivíamos em uma grande casa branca em Manson Street – continuou ela. – Porque ainda não me levou lá? – Íamos muitas vezes a São Francisco, pelo

menos duas ou três vezes por ano, e ela nunca dissera nada sobre uma casa em Manson Street.

– Queimou há muitos anos – ela respondeu. – Agora acho que existe uma

loja de lembranças no seu lugar. De qualquer modo, numa manhã acordei com a casa tremendo violentamente. Tive que me agarrar à cabeceira da cama para não ser atirada para o chão.

– Um terremoto – assumi. Tendo crescido na Califórnia, passara por alguns terremotos, nenhum dos

quais durara mais do que alguns segundos ou provocara qualquer dano sério, mas continuavam a ser bastante assustadores. A Mãe afirmou com a cabeça.


77

– Conseguia ouvir os pratos caírem do armário e as janelas se partirem por

toda a casa. Depois se ouviu um enorme rugido. A parede do meu quarto cedeu, e os tijolos da chaminé caíram em cima de mim e da minha cama. Olhei fixamente para ela, horrorizada.

– Não sei quanto tempo fiquei ali – continuou a Mamãe passado um mi-

nuto. – Quando abri os olhos novamente vi o vulto de um homem acima de mim. Ele se inclinou para baixo e disse: “Fica quieta, filha."

Depois me pegou no colo, e os tijolos deslizaram do meu corpo como se não

pesassem nada. Levou-me até a janela. O vidro se partiu, e ele saltou para fora, e eu vi pessoas correrem das suas casas para a rua. E depois aconteceu uma coisa estranha, e estávamos em outro lugar. Ainda se parecia com o meu quarto, mas era diferente,

como se lá morasse outra pessoa, e estava intocado como se o terremoto nunca tivesse acontecido. Do lado de fora da janela havia tanta luz e tão forte que doía olhar para ela.

– E depois o que aconteceu? – O homem me colocou no chão, sobre os meus próprios pés. Fiquei

espantada por conseguir estár de pé. A minha camisa de dormir estava uma bagunça, e eu estava um pouco aturdida, mas, fora isso, estava bem.

– Obrigada – lhe agradeci. Não sabia mais o que dizer. Ele tinha cabelo

dourado que reluzia à luz como algo que nunca tinha visto antes. E era alto, o homem mais alto que alguma vez vira, e muito bonito.


78

Ela sorriu com a lembrança. Eu esfreguei a pele arrepiada dos meus braços.

Tentei imaginar aquele cara alto e bem bonito com cabelo louro brilhante, como uma

espécie de Brad Pitt que aparecera para salvar a minha mãe. Franzi a sombracelha. Aquela imagem me deixava desassossegada, e não sabia bem por que. – Ele disse: – Não tem de quê, Margaret – continuou a Mãe. – Como é que ele sabia o teu nome? – Foi o que eu própria pensei. Lhe perguntei. Ele me disse que era amigo do

meu pai. Que trabalharam juntos, ele disse. E disse que olhava por mim desde o dia em que eu nascera.

– Uau. Como o teu anjo da guarda. – Exatamente. Como o meu anjo da guarda – respondeu a Mãe, afirmando

com a cabeça. – Embora ele não se identificasse como tal, claro. Esperei que ela continuasse.

– Era isso que ele era, Clara. Quero que compreenda. Ele era um anjo. – Sim, claro – eu respondi . – Um anjo. Com asas e tudo, com certeza. – Só vi as suas asas mais tarde, mas sim. Ela parecia estar falando muito sério.


79

– Sim, claro – eu respondi. Imaginei o velho e grande anjo que estava no

vitral da janela da igreja, com um halo e uma túnica púrpura, e enormes asas douradas abertas atrás. – E depois o que aconteceu?

Não pode ficar mais estranho, eu pensei. E depois ficou. – Ele me disse que eu era especial – continuou ela. – Especial como? – Ele disse que o meu pai era um anjo, que a minha mãe era humana, e que

eu era uma Dimidius, que significa metade. Ri. Não consegui evitar.

– Ah tah. Está brincando comigo, certo?

verdade.

– Não. – Ela olhou para mim com firmeza. – Não é uma piada, Clara. É a

Olhei fixamente para ela. Acontece que eu confiava nela. Mais do que em

qualquer outra pessoa. Tanto quanto sabia, ela nunca mentira pra mim, nem mesmo com aquelas pequenas mentiras inofensivas que muitos pais dizem aos filhos para que eles se comportem bem ou acreditem na fada dos dentes, ou seja o que for. Ela

era a minha mãe, claro, mas era também a minha melhor amiga. É clichê, mas é verdade. E agora estava me contando uma história maluca, impossível, e olhava para mim como se tudo dependesse da minha reação.

– Então, está me dizendo... Está me dizendo que é meio anjo – eu disse,

lentamente.


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–Sim. – Mãe, por favor, vamos. – Queria que ela se risse e me dissesse que aquela

história do anjo era um sonho que ela tivera, como em O Feiticeiro de Oz onde Dorothy acorda e descobre que tudo o que se passou em Oz foi uma grande e

colorida alucinação que aconteceu por ter batido com a cabeça. – E o que aconteceu depois?

– Ele me trouxe de volta à Terra. Me ajudou a encontrar a minha avó, a qual nessa altura estava convencida que eu fora esmagada. E quando os fogos

incendiaram o nosso bairro, ele nos ajudou a evacuar para Golden Gate Park. Ficou conosco durante três dias, e depois só voltei a vê-lo depois de muitos anos.

Fiquei calada, incomodada pelos detalhes da sua história. Cerca de um ano

antes, a minha turma fez uma visita de estudos ao museu de São Francisco porque este tinha inaugurado uma grande exposição sobre o grande terremoto da cidade.

Observamos muitas fotografias de edifícios caídos, de carros elétricos atirados para fora dos seus bairros, de esqueletos negros de casas queimadas. Ouvimos velhas

gravações de pessoas que tinham estado lá, as suas vozes entrecortadas e trêmulas enquanto descreviam a terrível catástrofe.

Se falou muito muito sobre isso nesse ano, porque era o centenário do terremoto. – Disse que houveram incêndios? – perguntei. – Incêndios terríveis. A casa da minha avó foi completamente queimada. – E quando foi isso? – Em Abril – ela disse. – De 1906. Senti que estava prestes a vomitar.


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– Isso quer dizer que tem, o quê, cento e dez anos? – Faço cento e dezesseis este ano. – Não acredito em você – balbuciei. – Eu sei que é difícil. Me levantei. A Mãe estendeu a mão para pegar na minha, mas a afastei

com um safanão. Vi nos seus olhos que a magoara. Também se levantou, e deu um

passo para trás, me dando algum espaço, acenando ligeiramente com a cabeça, como se compreendesse perfeitamente aquilo que eu estava a passando. Como se soubesse que estava a desenredar tudo.

Me senti como se me faltasse o ar nos pulmões.

Ela estava louca. Era a única explicação que fazia sentido. A minha mãe,

que até aquele momento me parecera a melhor mãe de sempre, a minha própria

versão de Gilmore Girls32, invejada por todos os meus amigos, com o seu cabelo acobreado, a sua pele fabulosa e orvalhada, e o seu sentido de humor astuto, era na verdade uma doida varrida.

– O que está fazendo? Porque me está me dizendo isso? – perguntei,

pestanejando para afastar as lágrimas de fúria.

– Porque precisa saber que também é especial. Olhei fixamente para ela,

incrédula.

32

Série de televisão americana protagonizada por uma mãe e uma filha.


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– Sou especial – repeti. – Porque se você é meio anjo, isso faz de mim o quê,

um quarto de anjo?

– Os quarto-de-anjo se chamam Quartarius. – Quero ir para casa, agora – eu exigi, apática. Precisava de telefonar para meu Pai. Ele saberia o que fazer. Precisava

encontrar ajuda para a minha mãe.

– Eu também não teria acreditado – esclareceu ela. – Sem provas, não. Primeiro pensei que o Sol pudesse ter despontado por detrás das nuvens,

iluminando repentinamente a saliência onde observávamos a vista, mas depois

compreendi, lentamente, que aquela luz era mais forte. Virei e protegi os olhos da

visão da minha mãe com luz irradiando dela. Era como olhar para o Sol, tão intenso que os meus olhos lacrimejaram. Depois esmoreceu um pouco e vi que tinha asas, enormes asas brancas de neve que se abriam atrás dela.

– Isto é a glória – ela explicou, e eu compreendi as palavras embora ela não

estivesse falando em inglês, mas numa língua estranha cujas sílabas pareciam o soar

de duas notas musicais, tão misteriosa, assustadora e alienígena que fez os cabelos se arrepiarem na minha nuca. – Mãe – sussurrei, impotente. As suas asas se abriram como se tivessem literalmente a apanhando o ar, e

bateram uma vez. O som produzido foi como o de uma única batida do coração, lá

em baixo, na terra. O meu cabelo voou para trás com a força. Ela levantou vôo lentamente, com uma graciosidade e uma leveza impossíveis, ainda toda ela reluzia. De repente, arrancou por cima da linha das árvores, encaixando o corpo para cima e


83

movendo–se rapidamente ao longo de todo o vale até se transformar num ponto brilhante no horizonte. Fiquei abismada e sozinha, a saliência rochosa vazia e silenciosa, mais escurecida agora que ela não estava lá para a iluminar. – Mãe! – chamei. Vi ela dar a volta e deslizar de volta para mim, desta vez mais lentamente.

Ela subiu precisamente para o lugar onde a montanha terminava e pairou,

caminhando sobre o ar com gentileza.

– Acho que acredito em você – eu disse. Os olhos dela brilharam. Não sei porquê, mas não conseguia parar de chorar. – Querida – ela garantiu – vai ficar tudo bem. – É um anjo – ofeguei por entre as lágrimas. – E isso quer dizer que eu... –

Não conseguia dizer as palavras.

– Isso quer dizer que você também é parte anjo – concluiu ela. Naquela noite, fiquei de pé no meio do meu quarto com a porta fechada e

chamei as minhas asas. A Mãe me assegurara que seria capaz de as chamar, dentro

de algum tempo, e até de usá-las para voar. Não conseguia imaginar. Era muito louco. Fiquei na frente do espelho de corpo inteiro, vestida com uma curta camisa de

dormir e calcinha, e pensei nos modelos de Victoria‖s Secret nos anúncios com anjos, com as asas enroladas de forma sensual à sua volta. Não apareceram quaisquer asas.

Queria rir daquela idéia ridícula. Eu, com asas saindo das minhas costas. Eu, parte anjo.


84

A história da minha mãe ser parte anjo fazia muito sentido – tanto quanto

podia fazer sentido a minha mãe ser um ser sobrenatural. Ela sempre me pareceu

muito bela. Ao contrário de mim, com a minha teimosia chocante, os meus acessos de mau gênio, o meu sarcasmo, ela era graciosa e ponderada. Perfeita ao ponto de ser irritante. Não era capaz de lhe encontrar um único defeito.

A menos que conte que mentiu pra mim a vida inteira, pensei, deixando me

levar por um lampejo de amargura. Não devia haver uma regra qualquer, segundo a qual os anjos não pudessem mentir?

Mas, na realidade, ela não me mentira. Nunca me disse “Sabe o que mais?

Não és diferente das outras pessoas”. Sempre me dissera o oposto, na verdade. Sempre dissera que eu era especial. Só que eu nunca acreditara até àquele momento.

– É melhor do que a maioria das pessoas em vários aspectos – ela me disse,

enquanto estávamos de pé no topo de Buzzards Roost. – É mais forte, mais rápida, mais inteligente. Nunca reparou nisso?

– Bem, não – respondi, prontamente. Mas não era verdade. Sempre sentira que era diferente das outras pessoas. A Mãe tem um filme de vídeo no qual estou andando com apenas sete meses de idade.

Aprendi a ler com três anos de idade. Era sempre a primeira da turma a dominar a tabuada e a memorizar os cinqüenta estados, e esse tipo de coisas. E também era boa nas atividades físicas. Era rápida para caminhar e correr. Conseguia saltar alto e

atirar com força. Todos me queriam na equipe deles quando jogávamos jogos coletivos nas aulas de Educação Física.

No entanto, não era como uma menina prodígio nem nada que se pare-

cesse. Não era excepcional em nada. Quando era bebê não jogava golfe como Tiger


85

Woods33 nem compunha sinfonias com cinco anos de idade, nem jogava xadrez em competição. Geralmente, as coisas eram um pouco mais fáceis para mim do que para

os outros garotos. Reparei claro, mas nunca pensei muito nisso. Se pensei algo, foi que

era melhor em algumas coisas porque não passava muito tempo sentada vendo porcarias na televisão. Ou porque a minha mãe era uma daquelas mães que me fazia praticar, estudar e ler livros.

Naquele momento, eu não sabia o que pensar. Estava tudo se encaixando no

lugar. E fora do lugar, ao mesmo tempo. A Mãe sorriu.

– Muitas vezes só fazemos o que é esperado de nós – ela disse. – Quando

somos capazes de muito mais.

Nessa altura, fiquei tão aturdida que tive que me sentar. E a Mãe começara

novamente a falar, a me explicar o básico. Asas: certo. Mais forte, rápida, e inteligente: certo. Capaz de muito mais. E havia duas regras: Não conte nada a Jeffrey

– ele não tem idade suficiente para saber. Não diga aos humanos – não acreditam e, mesmo que acreditassem, não saberiam lidar com isso. O meu pescoço ainda se arrepiava quando me lembrava da forma como ela dissera "humanos", como se a

palavra tivesse repentinamente deixado de se aplicar a nós. Depois ela falou do propósito e de como, dentro em breve, eu receberia o meu. Era importante, ela disse, mas não era algo que ela pudesse explicar com facilidade. Depois disso, se calou e

parou de responder às minhas perguntas. Haviam coisas, ela me disse, que eu teria que aprender ao longo do tempo. Através da experiência. E havia outras coisas que não precisava saber tão cedo.

– Porque não me contou tudo isto antes? – lhe perguntei. 33

Jogador de golfe profissional


86

– Porque queria que tivesses uma vida normal durante o máximo de tempo

possível – ela respondeu. – Queria que fosse uma menina normal. Não voltaria a ser normal. Isso era óbvio.

Olhei para o meu reflexo no espelho do quarto. – Está bem – eu disse. –

Apareça... Asas! Nada.

– Mais rápida que uma bala! – anunciei ao reflexo, fazendo a minha

melhor pose de Super-Homem.

Depois o meu sorriso esmoreceu e a garota que estava do outro lado olhou

para mim com ceticismo.

– Vai lá – eu disse, abrindo os braços. Rodei os meus ombros para a frente

para que as minhas asas saíssem para fora, fechei os olhos com força e pensei

intensamente nas asas. As imaginei rompendo de mim, perfurando a minha pele, se desdobrando atrás de mim, da mesma forma que as da Mamãe tinham feito no topo da montanha. Abri os olhos.

Ainda não tinha asas. Suspirei e me atirei para cima da cama. Apaguei a luz do abajur. Haviam estrelas que brilhavam no meu teto, as quais me pareceram muito

disparatadas naquele momento, muito infantis. Olhei de relance para o meu despertador. Já passava da meia–noite. Tinha escola no dia seguinte.

Tinha de fazer um teste de ortografia ao qual faltara no terceiro tempo, o

que ainda parecia mais ridículo.


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Q-U-A-R-T-A-R-I-U-S. Clara é uma Quartarius. Pensei na língua estranha da minha mãe. Angélico, ela disse.

Tão sobrenatural e bela, como as notas musicais de uma canção. – Apareça

minhas asas – eu disse.

A minha voz parecia estranha dessa vez, como se existissem ecos mais

agudos e mais graves em torno das palavras. Ofeguei.

Conseguia falá-la. E depois senti as minhas asas debaixo de mim, me le-

vantando ligeiramente, uma dobrada debaixo da outra. Chegavam quase nos

calcanhares, e eram de um branco brilhante mesmo na escuridão. – Diabos! – exclamei, e depois tapei a boca com ambas as mãos. Muito lentamente, com medo de fazer as asas desaparecer, me levantei e acendi a luz. Depois fiquei na frente do

espelho do quarto e olhei para as minhas asas pela primeira vez. Eram verdadeiras – asas verdadeiras com penas verdadeiras, pesadas, palpitantes e a prova absoluta de que o que acontecera anteriormente com a minha mãe não era qualquer piada. Eram tão belas que o meu peito se apertou só de olhar para elas.

Gentilmente, as toquei. Estavam quentes, vivas. Conseguia mexê-las,

descobri, da mesma forma que conseguia mexer os meus braços. Como se fossem

uma verdadeira parte de mim, um par de membros extra que eu desconhecera a vida inteira até àquele momento. Pensei que tinham entre três e quatro metros de envergadura, mas era difícil ter a certeza. O espelho não mostrava as asas completas de tão grandes que eram.

Envergadura, eu pensei, abanando a cabeça. Tenho uma envergadura. É uma loucura.


88

Examinei as penas. Algumas eram muito longas, lisas e afiadas, outras mais

suaves, mais arredondadas. As penas mais curtas, as que estavam mais perto do meu

corpo, no lugar onde as minhas asas se ligavam aos ombros, eram pequenas e felpudas, aproximadamente do tamanho do meu polegar. Agarrei numa e puxei até se libertar, e isso doeu tanto que os meus olhos se encheram de lágrimas. Olhei

atentamente para a pena que tinha na mão, tentando mentalizar que ela tinha saído de mim. Por um momento, ficou simplesmente ali, na palma da minha mão, e depois,

lentamente, começou a se dissolver, como se estivesse evaporando no ar, até não restar nada.

Eu tinha asas. Eu tinha penas. Eu tinha sangue de anjo dentro de mim. E

agora? me interroguei. Aprendo a voar? Me penduro em uma nuvem e toco harpa? Irei receber mensagens de Deus? Senti o pavor se alastrar na minha barriga. A nossa

família não era propriamente religiosa, mas eu sempre acreditara em Deus. Mas

começava a descobrir nessa altura que havia uma grande diferença entre acreditar em Deus e saber que ele existe e que, aparentemente, tem grandes planos para a

minha vida. Era bastante assustador, para dizer no mínimo. O meu entendimento do universo e do meu lugar nele foi completamente virado de cabeça para baixo em menos de vinte e quatro horas.

Não sabia como fazer as asas desaparecerem, por isso as dobrei contra as

costas, o mais apertadas possível, e me deitei na cama, posicionando os braços de

forma que dava para sentir as asas debaixo de mim. A casa estava silenciosa. Parecia

que todas as outras pessoas da terra estavam dormindo. Todos estavam iguais e eu havia mudado. Nessa noite, só consegui ficar ali deitada, com essa noção,

maravilhada e assustada, acariciando gentilmente as penas que estavam em baixo de mim, até adormecer.


89

5 BOZO Christian e eu só temos uma disciplina em comum, por isso chamar sua a

atenção não é tarefa fácil. Todos os dias, tento escolher o meu lugar em História das

Ilhas Britânicas de modo a que haja uma hipótese dele se sentar a meu lado. E, até

agora, no espaço de duas semanas, as estrelas alinharam-se exatamente três vezes e ele acaba de sentar-se à mesa ao lado da minha. Sorrio e o cumprimento. Ele sorri de

volta e diz olá. Por um momento, há uma força inegável que parece nos atrair um para o outro, como ímã. Mas depois, ele abre o seu caderno ou olha para o seu celular debaixo da mesa, e isso significa que a nossa conversa fiada sobre o tempo chegou ao

fim. É como se, naqueles segundos cruciais, um dos ímãs fosse virado ao contrário e o empurrasse para longe de mim. Não é antipático nem nada disso; mas não está muito interessado em me conhecer. E porque estaria? Não faz idéia do futuro que o espera.

Por isso, durante uma hora, todos os dias, o observo, tentando memorizar

tudo o que posso, sem ter a certeza do que poderá me ser útil um dia. Ele gosta de

usar camisas com botões, com as mangas enroladas casualmente à altura dos

cotovelos, e o mesmo modelo de calças de ganga34 Seven com tons ligeiramente diferentes de preto ou de azul. Usa cadernos feitos com papel reciclado e escreve com 34

Calças jeans do tipo boca-de-sino


90

uma esferográfica verde. Sabe quase sempre a resposta certa quando o senhor

Erikson lhe faz uma pergunta e, quando não sabe, diz uma piada, o que significa que é inteligente, humilde e divertido. Ele gosta de Altoids35. De vez em quando, estende a mão para o seu bolso traseiro, retira para fora a latinha prateada, e enfia uma bala de menta dentro da boca. A mim, isso diz que ele espera ser beijado.

Relativamente a isso, Kay se encontra com ele na saída da sala todos os dias.

Como se tivesse visto a forma como a aluna nova olhou para o seu homem no refeitório no primeiro dia, e ela não queira que ele seja novamente sujeito a isso. Por

isso, só me restam os preciosos minutos antes da aula e, até agora, não há nada que

eu tenha feito ou dito que tenha arrancado uma resposta significativa da parte de Christian. Mas amanhã é o dia das t–shirts. Eu preciso de uma camisa que inicie um diálogo.

– Não se preocupe com isso. – Wendy diz depois das aulas, enquanto experimento uma série de t–shirts diante dela. Está sentada no chão do meu quarto, junto à janela, com as pernas dobradas debaixo de si, a verdadeira imagem da melhor amiga tentando ajudar a tomar uma decisão muito importante sobre moda.

– Deverá ser uma banda? – pergunto. Estendo uma t–shirt preta de uma digressão das Dixie Chicks. – Essa não. – Por quê? – Confia em mim.

35

Balas de menta.


91

Pego uma das minhas preferidas, com um tom verde floresta com uma

estampa de Elvis à frente, a qual comprei na viagem que fiz a Graceland há alguns anos. O jovem Elvis, a brasa do Elvis, inclinado sobre a sua guitarra.

Wendy emite um ruído que indica que é uma possibilidade. Levanto uma camisola cor de rosa choque que tem escrito, TODOS

ADORAM UMA MENINA DA CALIFÓRNIA. Poderá ser a escolha certa, uma oportunidade de jogar com o que eu e Christian temos em comum. Mas também entra em choque com o meu cabelo cor de laranja. Wendy zomba.

– Acho que o meu irmão está planejando usar uma camisa que diz: "Volta para a Califórnia".

– Que surpresa. Afinal, o que é que ele tem contra os californianos? – Ela

encolhe os ombros.

– É uma longa história. Basicamente, o meu avô era dono do Lazy Dog

Ranch, e agora o dono é um californiano rico. Os meus pais apenas o gerem, e Tucker tem dificuldade em controlar a sua raiva. Além disso, ofendeu Bluebell.

– Bluebell?

– São essas bandas, não pode desrespeitar o carro de um homem sem que

isso te traga conseqüências medonhas. Rio.


92

– Bem, ele devia parar com isso. Ontem, tentou me queimar em um ato de

fé em História das Ilhas Britânicas. Lá estava eu cuidando da minha vida e sendo uma menina bem comportada e, do nada, Tucker levanta a mão e me acusa de ser uma bruxa.

– Isso é mesmo do Tucker – admite Wendy. – Tiveram que votar para decidir. Mal escapei com a minha vida de freira.

É óbvio que vou ter que lhe retribuir o favor.

Christian, me lembrei satisfeita, votou contra. É claro que o voto dele não

conta muito porque é um servo de gleba. Mas mesmo assim, não queria me ver morta, mesmo em teoria. Isso deve contar para alguma coisa. – Sabe que isso apenas o encorajará, certo? – diz Wendy.

– Eh, tô cansada do seu irmão. Além disso, há um prêmio para os alunos

que conseguem sobreviver o semestre inteiro. E eu sou uma sobrevivente. Agora é a vez de Wendy rir.

– Sim, está certo, mas Tucker também é. – Não consigo acreditar que partilharam o mesmo útero. Ela sorri.

– Há, definitivamente, momentos em que eu também não acredito – ela comenta. – Mas é um bom garoto. Só que, às vezes, o esconde bem. Ela olha de relance pela janela, com o rosto cor de rosa. Será que eu a

ofendi? Apesar de todas as suas brincadeiras sobre como Tucker é chato, ela é


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sensível em relação à ele? Posso entender por que. Posso gozar com Jeffrey tanto quanto quiser, mas que mais ninguém se meta com o meu irmão mais novo.

– Então, é o Elvis? Estou ficando sem opções. – Pode ser. – Ela encosta-se à parede e estica os braços por cima da cabeça, como se a conversa a tivesse deixado exausta. – Ninguém repara nisso. – Sim, mas você mora aqui desde sempre – relembrei-a. – Já foi aceita. Eu

sinto que, se der um passo em falso, poderei ser expulsa da escola por uma multidão enraivecida.

– Oh, por favor. Será aceita. Eu te aceitei, não aceitei? Isso é verdade. Passadas duas semanas, ainda almoço na mesa das Invisíveis. Até agora, identifiquei dois grupos principais na Escola Secundária de

Jackson Hole: Os Que Têm – as pessoas bonitas, constituídas pelos habitantes abastados de Jackson Hole, cujos pais são donos de restaurantes, de galerias de arte e

de hotéis; e os muito menos e mais discretos Que Não Têm – os pequenos cujos pais trabalham para os ricos de Jackson Hole. Para ver a grande separação que existe

entre estes dois grupos basta olhar para Kay, com o seu penteado perfeito e as suas

unhas compridas e pintadas, para Wendy; que, embora inegavelmente bonita, usa habitualmente o seu cabelo manchado pelo Sol preso em uma trança que cai pelas suas costas, e cujas unhas são curtas e não têm esmaltes. E eu, onde me encaixo? Começo a pensar que a nossa grande casa com vista para as montanhas

significa que temos dinheiro, algo que a Mãe nunca referiu quando vivíamos na Califórnia. Ao que parece, estamos cheios de papel. No entanto, a Mãe nos criou sem

qualquer idéia de riqueza. Afinal, ela passou pela Grande Depressão, e insiste que


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poupemos parte da nossa mesada, nos faz comer cada migalha de comida que temos

no prato, remenda as meias e remenda a nossa roupa, e coloca o termostato em uma temperatura baixa para podemos sempre usar a mesma camisa mais de uma vez.

– Sim, você me aceitou, mas ainda estou tentando descobrir por que. - digo eu a Wendy. – Acho que deve ser uma aberração. Ou isso ou está tentando me converter à sua religião secreta dos cavalos.

– Que um raio caia sobre mim – exclama ela de forma teatral. – Descobriu

o meu plano malévolo.

– Eu sabia! Gosto de Wendy. É astuta e gentil, e é mesmo boa pessoa. E me salvou de ser

rotulada de aberração ou de solitária, bem como da dor da saudade das minhas amigas da Califórnia. Quando lhes telefono, já me sinto como se agora não tenhamos

muito para conversar, como quem está fora do cenário. É óbvio que estão andando para frente com as suas vidas, sem mim.

Mas não consigo pensar nisso ou sobre se sou uma Que Tem, ou uma Que

Não Tem. O meu verdadeiro problema não tem nada haver com o ser rico ou pobre,

mas com o fato de que a maioria dos alunos da Jackson High se conhece desde a préescola. Há muitos anos que decidiram as suas empatias. Embora a minha inclinação natural seja a de me manter junto das pessoas mais modestas, Christian é uma das

pessoas bonitas, e por isso é aí que eu preciso estar. Mas existem obstáculos. Enormes obstáculos gritantes. O primeiro é o almoço. Os ricos geralmente saem da escola.

Claro. Quem tem dinheiro e carro vai ficar na escola comendo bifes de frango fritos? Acho que não. Eu tenho dinheiro e carro, mas na primeira semana de aulas fiz um

ângulo de cento e oitenta graus na estrada coberta de gelo a caminho da escola.


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Jeffrey disse que tinha sido melhor do que o Six Flags36·, aquele pequeno pião que fizemos no meio da auto-estrada.

Agora usamos o autocarro37, o que significa que não posso sair da escola

para almoçar a menos que alguém me faça um convite e as pessoas não estão propriamente fazendo fila para me convidar. O que me leva ao obstáculo número dois: ao que parece, sou tímida, pelo menos junto de pessoas que não me dão muita

atenção. Nunca percebi isso na Califórnia. Nunca precisei ir ao encontro das pessoas na minha velha escola; os meus amigos parecem ter gravitado naturalmente na

minha direção. No entanto, aqui é outra história, muito por causa do obstáculo

número três: Kay Patterson. É difícil arranjar amigos quando a garota mais popular da escola me olha com desprezo.

Na manhã seguinte, Jeffrey entra na cozinha vestido com uma t–shirt que

diz, SE OS IDIOTAS PUDESSEM VOAR, ESTE LUGAR PARECERIA UM AEROPORTO.

Sei que todos na escola vão achar que é engraçada e que não vão ficar ofendidos, porque gostam dele. As coisas são tão fáceis para ele.

– Hei, posso dirigir hoje? – ele pergunta. – Não quero caminhar até a

garagem do autocarro. Está muito frio.

– Quer morrer hoje?

coisas.

– Pode ser. Eu gosto de arriscar a minha vida. Ajuda-me a organizar as

Atiro-lhe o meu pãozinho e ele o apanha em pleno vôo. Olho para a porta

fechada do escritório da Mãe. Ele sorri, esperançado. 36

Cadeia americana de parques temáticos

37

Algo como ônibus escolar


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– Está bem – eu falo. – Vou aquecer o carro. – Está vendo – ele diz, enquanto percorremos lentamente a longa estrada íngreme até a escola. – Você consegue conduzir na neve. Em breve, estará uma profissional.

Está sendo muito simpático.

quer?

– Está bem, o que está acontecendo com você? – lhe pergunto. – O que

– Entrei para a equipe de luta livre. – Como conseguiu isso se a seleção foi feita em Novembro? Ele encolhe os ombros como se não fosse nada de especial.

– Desafiei o melhor lutador da equipe. Ganhei. A escola é pequena. –

Precisam de lutadores de competição.

– A Mãe sabe? – Disse a ela que tinha entrado para a equipe. Não ficou encantada. Mas

não pode nos proibir de praticar todas as atividades extracurriculares da escola, certo? Estou farto dessa treta do "é melhor não darmos nas vistas, ou alguém pode

descobrir que somos diferentes". Afinal, se eu ganhar um desafio, as pessoas não vão dizer, "quem é aquele garoto, é muito bom lutador, deve ser um anjo”.

– Certo, concordo, pouco à vontade. Mas a Mãe não é o tipo de pessoa que

faz regras só porque pode. Deve haver uma explicação para a sua cautela.


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– O que acontece é que preciso de uma carona para alguns dos treinos – ele diz, se mexendo no assento desconfortavelmente. – Na verdade, para todos. Durante um minuto, se faz silêncio, e o único som é o do aquecedor que

sopra sobre as nossas pernas.

– Quando? – pergunto, por fim. Preparo-me para as más notícias. – Às cinco da manhã. –Ah! – Oh, vamos! – Pede à Mãe que te leve. – Ela disse que se eu insistisse em ficar na equipe de luta livre, teria de

encontrar quem me levasse. Que teria de assumir a responsabilidade da minha escolha.

– Bem, boa sorte com isso – eu rio. – Por favor. Será apenas durante algumas semanas. Depois o meu amigo Darrin fará dezesseis anos e poderá ir me buscar em casa. – Tenho a certeza que a Mãe vai adorar isso.

– Vamos, Clara. Está em dívida comigo – ele diz, calmamente. E estou mesmo. É por minha causa que a vida dele está virada ao contrário.

Não que ele pareça estar sofrendo muito com isso.

– Não te devo nada – digo. – Mas... Está bem. Durante seis semanas, no

máximo, e depois vai ter de arranjar outra pessoa para ser seu motorista.


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Ele parece genuinamente feliz. Poderemos estar a caminho de ter a mesma

relação que tínhamos antes, eu e ele. Redenção, não é assim que lhe chamam? Seis semanas acordando de madrugada não parece ser um preço muito elevado para ele deixar de me odiar.

– Mas com uma condição – lhe digo. – Qual? Coloco o meu CD da Kelly Clarkson.

– Temos de ouvir a minha música. Wendy estava vestida numa t–shirt que tem escrito, OS CAVALOS

COMERAM OS MEUS TRABALHOS DE CASA.

– Está anormal – sussurro enquanto deslizamos para os nossos lugares em

Inglês. A sua nova paixonite, Jason Lovett, olha fixamente na nossa direção do outro lado da sala. – Não olhe agora, mas o Príncipe Encantado está olhando para você.

– Fica quieta. – Espero que ele saiba montar, uma vez que deveriam partir a cavalo,

juntos, em direção ao pôr do sol.

de aula.

A campainha toca e o senhor Phibbs se apressa para chegar à frente da sala

– Darei pontos extras ao aluno que conseguir identificar corretamente a

citação da minha camiseta - anuncia ele.


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Endireita–se e coloca os ombros para trás para que possamos ler as pa-

lavras escritas no seu peito. Todos nos inclinamos para frente para lermos de olhos semicerrados a minúscula letra de imprensa: SE A CIÊNCIA NOS ENSINA ALGO, NOS

ENSINA A ACEITAR OS NOSSOS FRACASSOS, BEM COMO OS NOSSOS SUCESSOS, COM CALMA, DIGNIDADE E GRAÇA.

Fácil. Acabamos o livro na semana passada. Olho ao redor, mas não há

mãos no ar. Wendy tenta não estabelecer contato ocular com o senhor Phibbs, para

que ele não possa perguntar a ela. Jason Lovett tenta estabelecer contato ocular com Wendy. Angela Zerbino, com a qual podemos contar para voluntariar a resposta

certa, escrevia no seu caderno, provavelmente compondo qualquer poema épico retorcido sobre as injustiças da sua vida. Alguém ao fundo da sala assoa o nariz, e

uma menina começa a tamborilar as suas unhas no tampo da sua mesa, mas ninguém diz nada.

– Alguém quer responder? – pergunta o senhor Phibbs, desanimado. Ele se

deu ao trabalho de mandar fazer aquela camiseta e nenhum dos seus alunos de Inglês sabe identificar a passagem de um livro que acabaram de estudar. Que diabos. Levanto a mão.

– Menina Gardner – diz o senhor Phibbs, se animando. – Sim, é do Frankenstein, certo? A ironia da citação é que o doutor

Frankenstein diz momentos antes de tentar estrangular o monstro que criou. Lá se vai a dignidade, imagino.

– Sim, é bastante irônico – o senhor Phibbs ri. Toma nota dos meus dez pontos extra. Tento parecer satisfeita com isto.

Wendy faz deslizar um pedacinho de papel para a minha mesa.


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Levo um momento para desdobrá-lo discretamente.

Espertalhona, está escrito. Adivinha quem não está aqui hoje? Desenhou

uma cara sorridente na margem. Perscruto a sala de novo. Depois percebo que não há ninguém tentando fazer um buraco na minha nuca com o olhar. Kay não está. Sorrio. Vai ser um dia lindo.

– Trouxe o caderno para o estágio de veterinária de que te falei – me diz

Wendy; quando a campainha anuncia a hora de almoço. Ela me segue enquanto eu

disparo em direção ao corredor, me apresso para descer as escadas, e me dirijo para o refeitório. Ela tem de correr para me acompanhar.

– Calma, está esfomeada, ou quê? – ela pergunta sorrindo, enquanto eu manuseio o fecho da minha mochila. – Hoje é dia de sanduíche de almôndegas. Isso e as batatas assadas recheadas são os melhores pratos que aparecem na escola o ano inteiro.

–O quê? Estou distraída, observando o mar de rostos que passa, à procura de um par

de olhos verdes familiares.

– De qualquer maneira, o estágio é em Montana. Vai ser espectacular. Ali. Ali está Christian, de pé junto ao seu carro. E não há nem um sinal de

Kay. Ele veste o seu casaco de pele preta! – e pega nas suas chaves. Uma descarga de emoção trêmula dispara em direção ao meu estômago. – Penso que hoje vou almoçar fora – digo rapidamente, pegando na minha mochila.


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A boca de Wendy forma um pequeno O de surpresa.

– Dirigiu até aqui? – Sim. Jeffrey me convenceu a lhe dar carona nas próximas semanas. – Muito bom – ela diz. – Poderíamos ir ao Bubba's. Tucker trabalhou lá, por isso sempre me fazem um desconto. Come–se bem, confia em mim. Deixa eu ir buscar o meu sobretudo.

Christian está de saída. Não tenho muito tempo.

– Na verdade, Wen, tenho uma consulta marcada – digo, insegura,

esperando que ela não me pergunte para que médico.

– Ah – diz ela. Percebo que ela não sabe se acredita em mim.

– Sim, e não quero chegar atrasada. – Ele está quase na porta. Fecho a minha mochila e me volto para Wendy, tentando não olhá-la diretamente nos olhos. Não sei mentir. Mas agora não tenho tempo para me sentir culpada. Afinal, isto tem a ver com o meu propósito. – Te vejo depois das aulas, está bem? Tenho de ir. E depois quase corro em direção à saída. Sigo a Avalanche prateada de Christian para fora do parque de estaciona-

mento, mantendo dois carros entre nós para não parecer que estou o seguindo. Ele conduz até um Pizza Hut, a alguns quarteirões da escola. Desce da cabine com um tipo que eu reconheço vagamente da minha aula de Inglês.


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Planejo a minha abordagem. Vou fingir que os encontrei por acaso.

– Oh, olá – murmuro comigo mesma, me olhando no espelho retrovisor, fingindo estar surpreendida. – Também costumam vir aqui? Importam-se que me sente com vocês?

E depois ele olhará para mim com aqueles líquidos olhos verdes e dirá que

sim numa voz ligeiramente rouca, e irá chegar para o lado para arranjar espaço para mim na mesa, e o assento ainda estará quente com o calor do seu corpo. E eu, não sei

como, desenferrujarei a língua e direi algo espantosamente espirituosa. E ele verá finalmente quem eu sou na realidade.

Não é um plano inabalável, mas é o melhor que consigo planejar com tão

pouco tempo de antecedência.

O restaurante está lotado de gente. Localizo Christian na parte de trás, se

enfiado dentro de uma cabine com outras cinco pessoas. Não há definitivamente espaço para mim, nem qualquer forma de eu poder passar por lá casualmente sem dar a entender descaradamente as minhas intenções. Plano frustrado, mais uma vez.

Encontro uma mesa minúscula em um canto, na entrada, de frente para as

máquinas de jogos. Escolho a cadeira que não está voltada para Christian, para que ele e os seus amigos não vejam o meu rosto, embora esteja certa de que reconhecerão

o meu cabelo selvagem e cor de laranja se olharem para mim, nem que seja de relance. Tenho de pensar num novo plano.

Enquanto espero que alguém me atenda, Christian e os outros dois tipos

que estão na mesa dele se levantam em um salto e correm para as máquinas de jogos como se fossem meninos pequenos saindo para o recreio. De repente, os vejo

claramente enquanto se juntam em torno de uma máquina de pinball, Christian no meio enfiando as suas moedas lá dentro. Observo-o se inclinar para a máquina


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enquanto joga, as suas sobrancelhas fortes unidas num esforço de concentração, as

suas mãos se voltando rapidamente contra os lados. Ele está com uma t–shirt de mangas compridas de cor azul-marinho que tem escrito, QUAL É O SEU SÍMBOLO? em letras brancas; tem uma risca branca atravessada no peito com os símbolos de um

diamante negro, de um quadrado azul, e de um círculo verde. Não faço idéia do que significa.

– Oh, não. – Os outros tipos grunhem com se fossem um grupo de

trogloditas complacentes quando Christian aparentemente deixa a bola passar por

entre as alavancas, não apenas uma, mas duas, e três vezes. As máquinas de pinball não são, obviamente, o seu forte.

– O que está acontecendo com você hoje? – pergunta o carinha da minha

aula de inglês, Shawn, acho que é esse o seu nome, o que tem a obsessão desmedida

pela sua prancha de snowboard. – Está em péssima forma, meu. De onde saiu esses teus reflexos relâmpago?

Christian não responde imediatamente, por que ainda está jogando. Depois

grunhe e volta para o lado.

– Hei, tenho muito em que pensar neste momento – ele responde. – Sim, como em fazer canja de galinha para a pobrezinha da Kay – goza o

outro cara.

Christian abana a cabeça.

mim.

– Gozem, mas as mulheres adoram sopa. Mais do que flores. Acreditem em Tento arranjar coragem para falar com ele. Na Califórnia todos sabiam que

eu era boa em jogar pinball. Posso vir a ser aquela pequena menina que dá um baile


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nas máquinas de jogos. É muito melhor do que aparecer na mesa dele como se fosse um cachorrinho perdido. É a minha oportunidade.

Bozo?

– Hei – diz Shawn, enquanto me levanto para ir ter com eles. – Não é a

Quem? – O quê? – pergunta Christian. – O que é a Bozo? – Você sabe, a aluna nova. A que veio da Califórnia. O que é triste é que levo um minuto a perceber que ele está falando de

mim. Às vezes é uma chatice ter uma audição sobrenatural extremamente boa.

– Ela está olhando fixamente para você, meu – diz Shawn. Rapidamente, desvio o olhar, para a tristeza que fica no meu estômago

como cimento molhado. Bozo. Como o palhaço. Poderia não voltar a mostrar a minha cara (ou o meu cabelo) em público para o resto da vida. E os idiotas não param.

– Tem olhos grandes, não tem? Como uma coruja – diz o outro menino. – Hei, talvez ela esteja te perseguindo, Prescott. Quer dizer, ela é legal, mas

é meio estranha, não acham? Shawn riu.

– Meu. Bozo Pega. O melhor apelido de todos.


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Eu sei que ele não estava tentando ser mau para mim; é natural que ele

assuma que eu não o consigo ouvir do outro lado de um restaurante barulhento. Mas

ouço as suas palavras como se ele estivesse falando no microfone. Um lampejo de

calor intenso dispara da minha cabeça até aos meus pés. O meu estômago se contrai

violentamente. Tenho de sair daqui rapidamente, porque quanto mais tempo aqui ficar mais certa estarei que uma de duas coisas vai acontecer: ou vou vomitar ou vou chorar. E preferia morrer a fazer qualquer uma das duas na presença de Christian Prescott.

almoçar.

– Parem com isso – Christian fala. – Tenho a certeza que ela veio aqui para Sim, vim. E agora estou de saída. História das Ilhas Britânicas, já tinha começado a trinta minutos. Me sentei

na mesa mais afastada da porta. Tento não pensar na palavra Bozo. Gostaria de ter um capuz com o qual pudesse tapar o meu cabelo de palhaço.

O senhor Erikson está sentado na extremidade da mesa, usando uma t–shirt

preta enorme que tem escrito, AS MENINAS GOSTAM DE HISTORIADORES.

– Antes de começarmos a aula de hoje, quero lhes apresentar seus parceiros para os projetos especiais que irão fazer – ele anuncia, abrindo o seu livro de ponto. – Juntos, terão de escolher um tópico – vale qualquer um desde que esteja relacionado com a história da Inglaterra, do País de Gales, da Irlanda ou da Escócia – pesquisá-lo ao longo dos próximos meses, e depois apresentar os resultados da aprendizagem ao resto da turma.

Alguém dá um pontapé na parte de trás da minha cadeira.


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Olho de relance por cima do ombro. Tucker. Como é que ele sempre vem

parar atrás de mim? O ignoro.

Ele dá outro pontapé na minha cadeira. Com força.

– Qual é o seu problema? – sussurro, por cima do ombro. – Você. – Pode ser um pouco mais específico? Ele sorri. Resisto à tentação de virar e lhe bater com o meu pesado manual,

Oxford Illustrated History of Britain, na cabeça. Em vez disso, uso uma frase clássica: – Pára com isso. – Há algum problema, Irmã Clara? – pergunta o senhor Erikson.

Contemplo a idéia de lhe dizer que Tucker está tendo dificuldade para

manter os pés quietos. Sinto todos os olhos se voltarem para mim, que é a última coisa que quero que aconteça. Hoje, não.

– Não, estou apenas entusiasmada com o projeto – minto. – É bom que esteja entusiasmada com a disciplina de história – responde o senhor Erikson. – Mas tente se conter até eu lhe atribuir um parceiro, está bem? Mas não me faça ficar com Tucker, rezo, uma prece tão séria como qual-

quer outra que já fiz. Me interrogo se as preces dos sangue-de-anjo valem mais do


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que as das pessoas comuns. Talvez se eu fechar os olhos e desejar de todo o coração

ser parceira de Christian, aconteça miraculosamente. Depois teremos de passar tempo um com o outro depois das aulas, para trabalhar no nosso projeto, tempo com o qual Kay não poderá interferir, tempo no qual poderei lhe provar que não sou nenhuma menina estranha, Bozo, com olhos de coruja, e conseguirei finalmente fazer alguma coisa certa.

Christian, peço aos céus. Por favor, acrescento, só para ser educada.

Christian fica com o Rei Brady.

– Não te esqueça que é um servo de gleba – diz Brady. – Não, majestade – replica Christian, humildemente. – E, por fim, pensei que a Irmã Clara e a Lady Angela poderiam formar um duo dinâmico – diz o senhor Erikson. – E agora, por favor, falem com os seus parceiros durante alguns minutos para planejarem algum tempo para trabalharem nos seus projetos.

Tento sorrir para mascarar o meu desapontamento. Como é habitual, Angela está sentada na mesa da frente. Deixo-me cair no

assento ao lado do dela e aproximo a minha mesa.

– Elvis – ela diz, olhando para a minha t-shirt. – É legal. – Ah. Obrigada. Também gosto da sua. A camisa dela tem uma cópia daquela pintura de Bouguereau com os dois

pequenos anjos nus, o anjo menino se inclinando para beijar o anjo menina na face.

– Isso é Il Primo Bacia, certo? O Primeiro Beijo?


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– Sim. – A minha mãe me arrasta para a Itália todos os Verões, para

visitarmos a sua família. Comprei esta camisa em Roma por dois euros.

– Legal. – Não sei que mais dizer. Observo a sua camisa com mais cuidado.

Na pintura, as asas do menino anjo são minúsculas e brancas. Seria completamente

impossível que conseguisse levantar o seu corpo rechonchudo do chão. A menina anjo está olhando para baixo, como se não se interessasse minimamente pelo beijo. É mais alta do que o menino, mais magra, mais madura. As suas asas são cinzentas escuras.

– Pensei que podíamos nos encontrar na segunda-feira na sala de teatro da minha mãe, The Pink Garter. Não há nenhum espetáculo a ser ensaiado neste momento, por isso teremos muito espaço para trabalhar - diz Angela.

– Excelente – eu digo, sem uma ponta de entusiasmo. – Então, depois das aulas na segunda–feira? – Tenho ensaio da orquestra. Saímos por volta das sete. Talvez possa me encontrar com você no Garter às sete e meia? – Ótimo – eu respondo. – Lá estarei. Ela está olhando fixamente para mim. Me interrogo se ela também me

chamará Bozo, igual os amigos dela, sejam eles quem forem.

– Está bem? – ela pergunta. – Sim, desculpa. – Sinto o meu rosto tão quente e esticado como se tivesse

enfiado ele em uma panela de agua fervente. Consigo lhe dar um sorriso mortiço. Tem sido um dia para esquecer.


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Nessa noite sonho com o incêndio florestal. É o mesmo de sempre: os pi-

nheiros e a fumaça, o calor intenso, as chamas que se aproximam, Christian de costas voltadas a observá–la. A fumaça tomando o ar. Eu caminho para ele.

– Christian – o chamo.

Ele se vira para mim. Os seus olhos prendem os meus. Ele abre a boca para

dizer alguma coisa. Eu sei que o que ele dirá será importante, outra pista, algo crucial para compreender o meu propósito.

– Te conheço? – ele pergunta. – Estudamos na mesma escola – digo, para o fazer relembrar. Nada.

– Estou na sua turma de História das Ilhas Britânicas. Continua sem me

reconhecer.

– Me levou no colo para a sala de enfermagem no primeiro dia de aula.

Desmaiei no corredor, se lembra?

– Ah, sim, eu lembro de você – ele diz . – Como se chama? – Clara. – Não tenho tempo para o relembrar da minha existência.

braço.

O fogo se aproxima. – Tenho que te tirar daqui – digo, o agarrando pelo

Não sei o que devo fazer. Apenas sei que temos de sair dali.


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– O quê? – Estou aqui para te salvar. – Me salvar? – ele pergunta, incredulamente. –Sim. Sorri, e depois leva a mão à boca e ri.

– Desculpa – ele diz. – Mas como é que você poderá me salvar? – Foi apenas um sonho – diz a Mãe. Me serve uma caneca de chá de framboesa e se senta no balcão da cozinha,

parecendo tão serena como sempre, ainda que um pouco cansada e amarrotada, o

que é justo visto que são quatro da manhã e a sua filha acabou de a acordar em pânico.

– Açúcar? – ela oferece. Balanço a cabeça. – Como sabe que foi um sonho? – lhe pergunto. – Porque parece que a sua visão acontece sempre quando está acordada.

Alguns de nós sonham as suas visões, mas você não. E porque tenho dificuldade em acreditar que Christian não se lembre do seu nome.

Encolho os ombros. Depois, porque é isso que faço sempre, lhe conto tudo.

Conto a forma como me sinto atraída para Christian, das poucas vezes que nos

falamos na aula, e de como nunca sei o que dizer. Lhe falo sobre Kay, sobre a minha


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brilhante idéia de me convidar para almoçar na mesa de Christian, e de como o tiro me saiu pela culatra. E lhe conto sobre o Bozo.

de falar.

– Bozo? – ela pergunta, com o seu sorriso calmo, quando finalmente acabo – Sim. Embora um dos meninos tivesse decidido que Bozo pegaria melhor. – Suspiro e bebo um gole de chá. Queima a minha língua. – Sou uma

aberração.

legal.

A Mãe me dá um encontrão de brincadeira. – Clara! Eles te chamaram de

– Bem, não propriamente – digo. – Não sinta muita pena de si mesma. Devemos pensar nos outros. – Nos outros? – Nos outros nomes que poderão te chamar. Então se voltar a ouvi-los

estará preparada para uma resposta.

– O quê? – Cabeça-de-Abóbora. – Cabeça-de-Abóbora – repito, lentamente. – Era um grave insulto, quando eu era garota. – Quando, em 1900? Ela se serve de mais chá.


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– Me chamaram de Cabeça-de-Abóbora muitas vezes. Também me

chamavam Pequena Órfã Annie, que era um poema popular naquela altura. E Larva. Eu detestava quando me chamavam Larva.

É difícil para mim imaginá-la quando era criança, muito menos uma com a

qual os outros meninos gozavam. Me faz sentir ligeiramente (mas apenas ligeiramente) melhor por me chamarem Bozo.

– Está bem, que outros nomes sabe? – Deixa-me ver. Cenoura. Esse é outro que é comum. – Há alguém que já me chama disso – admito. – Oh, oh, Pipi das Meias Altas. – Oh, raios – eu ri. – Continua, Cabeça-de-Fósforo! E assim continuamos, para a frente e para trás, até estarmos ambas a rindo

às gargalhadas e Jeffrey aparecer na entrada da porta, de olhos esbugalhados.

damos?

– Desculpa – diz a Mãe, ainda a rindo descontroladamente. – Te acor-

– Não. Tenho treino de luta livre. – Passa por nós em direção à geladeira,

retira para fora um pacote de sumo de laranja, se serve de um copo, o bebe em cerca de três goles, e o coloca no balcão, enquanto nós tentamos nos acalmar. Não consigo evitá-lo. Me viro para a Mãe.


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– É um membro da família Weasley38?– lhe pergunto. – Essa é boa. Ruivaça – dispara ela de volta. – O que é que isso significa? Mas você tem, definitivamente, ruivite. E começamos outra vez a rir, como duas hienas.

– Têm de pensar seriamente em cortar a cafeína. Clara, não se esqueça que vai me levar ao treino daqui a vinte minutos – relembra Jeffrey. – Está certo, mano. Ele sobe para o andar de cima. As nossas gargalhadas esmorecem por fim.

Limpo os olhos. Com dor de cabeça.

– Você é o máximo, sabia? – eu digo para a Mãe. – Foi divertido – ela diz. – Há muito tempo que não ria assim. Faz–se silêncio.

– Como é o Christian? – ela pergunta depois, descontraidamente, como se estivesse apenas conversando fiado. – Já sei que ele é podre de legal e que, ao que parece, tem o complexo do herói, mas como é que ele é? Nunca me disse. Corro.

– Não sei – digo, encolhendo os ombros desajeitadamente. – É um grande mistério, e sinto que é meu dever desvendá-lo. Até a t-shirt que ele usava hoje parecia estar em código. Dizia, «Qual é o teu símbolo?» e por baixo havia um

38

Família de Ron Weasley, o melhor amigo de Harry Potter, todos eles ruivos.


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diamante preto, um quadrado azul, e um círculo verde. Não faço idéia do que isso significa.

– Hmm – diz ela. – Isso é um mistério. Se dirige rapidamente para o seu escritório durante alguns minutos, e

depois emerge sorrindo, com uma página que imprimiu da internet. Parece que a

minha mãe com cem anos de idade consegue usar o Google tão bem como os melhores.

– Esqui – ela anuncia, triunfante. – Os símbolos estão colocados em sinais

verticais no topo das pistas de esqui para indicar a dificuldade da descida. O diamante preto é difícil, o quadrado azul é intermédio, e o círculo verde é, supostamente, fácil. Ele é um praticante de esqui.

– Um praticante de esqui – digo. – Está vendo? Eu nem sequer sabia isso. Quer dizer, eu sei que ele é canhoto, que usa Obsession, e que faz rabiscos nas margens do seu caderno quando está entediado nas aulas. Mas não o conheço. E ele

realmente não conhece a mim.

– Isso mudará – ela garante. – Ah, sim? Será que deverei sequer conhecê–lo? Ou apenas salvá-lo? Me interrogo constantemente, porquê? Porquê ele? Quer dizer, morrem

pessoas em incêndios florestais. Talvez não muitas pessoas, mas algumas, todos os anos, tenho certeza. Então, porque é que fui enviada aqui para salvar a ele? E se eu não conseguir? O que acontece depois?

– Clara, me escuta. – A Mãe se inclina para a frente e pega as minhas mãos.

Os seus olhos já não estão reluzentes. As suas íris estão tão escuras que quase

parecem roxas. – Não foi enviada para uma missão que não tem poder para


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empreender. Tem que encontrar esse poder dentro de você, o que tem que fazer e refiná–lo. Foi feita para este propósito. E Christian não é qualquer rapaz aleatório que tem que encontrar sem qualquer razão. Existe uma razão para tudo isto.

– Acha que Christian poderá vir a ser alguém importante, um dia, como ser

presidente ou descobrir a cura para a Aids? Ela sorri.

– Ele é muito importante – afirma ela. – E você também. Quero muito acreditar nela.


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6 ESQUIAR EU VOU Domingo de manhã nós dirigimos para Vila Teton, uma grande, famosa

estância de esqui umas poucas milhas além de Jackson. Jeffrey cochila no banco de

trás. Minha mãe parece cansada, provavelmente por causa de muitas noites trabalhando e muitas discussões sérias com sua filha nas primeiras horas da manhã;

– Nós viramos antes de chegar a Wilson, certo? – ela pergunta, segurando o

volante com as mãos e tentando ver pelos pára-brisas como se o sol estivesse machucando seus olhos.

– Sim, é como Auto Estrada 380, à direita. – É 390 - Jeffrey diz – seus olhos ainda fechados. Minha mãe coça a ponta de seu nariz, pisca algumas vezes, então ajusta

suas mãos no volante.

– O que você tem hoje? – eu pergunto. – Dor de cabeça, tem um projeto para o trabalho que não está acontecendo

do jeito que eu planejei.


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– Você com certeza está trabalhando bastante. Que tipo de projeto? Ela vira com cuidado na auto-estrada 390. – Agora para onde? – ela pergunta Eu consulto o mapa vendo as direções que eu imprimi. – Somente continue indo por mais 5 milhas até chegarmos à estância em

algum lugar à esquerda, não somos capazes de errar.

Nos dirigimos por alguns minutos, passamos por restaurantes e áreas de

negócios, alguns ranchos.

De repente a área de ski se abriu do nosso lado, subindo uma montanha

por trás da estrada cortando grandes linhas brancas entre as árvores, o bonde percorrendo todo o caminho até o topo. Isso parece louco de íngreme, tudo isso, tipo o íngreme do Monte Everest.

Jeffrey senta direito para olhar melhor. – Essa é uma “montanha perversa” ele diz como se não pudesse esperar

mais um minuto para lançar seu corpo nela. Ele olha seu relógio.

– Vamos lá mãe – ele diz – Você tem que dirigir como uma velha? – Você precisa de dinheiro? – minha mãe pergunta ignorando seu

comentário. – Eu dei a Clara algum dinheiro para as aulas.


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– Eu não preciso de aulas, eu só preciso chegar lá em algum momento do

próximo milênio.

– Cai fora idiota – eu disse – Nós chegaremos lá, estamos a menos de uma

milha agora.

– Talvez vocês devessem me deixar sair e ir andando, seria mais rápido. – Vocês dois fiquem quie... – minha mãe começa a dizer, mas então nós caímos no gelo, ela pisa no freio e nos dirigimos para o lado, ganhando velocidade.

Eu e minha mãe gritamos quando o carro saiu da pista passando por um banco de

neve. Nós paramos à borda de um pequeno campo. Ela respira fundo, respiração entrecortada.

– Hei, você é a única que disse que amaríamos o inverno aqui – eu

relembrei ela. a porta;

– Perfeito – Jeffrey diz ironicamente. Ele solta seu cinto de segurança e abre O carro estava parado há aproximadamente dois passos da neve, ele olha

em seu relógio de novo – Isso é perfeito.

– O que! Você tem uma reunião importante para ir? – eu perguntei. Ele me lança um olhar de desgosto. – Oh eu entendi – eu digo – Você está indo encontrar alguém. Qual é o

nome dela?

– Não é da sua conta.


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Minha mãe suspira e coloca o carro na ré. O carro anda como um passo e

então os pneus deslizam, ela puxa para frente e tenta de novo, sem sorte.

Estamos presos em um banco de neve, em plena vista do morro de esqui,

isso realmente não pode ficar mais humilhante.

– Eu poderia sair e empurrar – Jeffrey diz . – Espere um pouco – mãe diz – Alguém irá aparecer. Bem na hora, uma caminhonete pára ao lado da estrada, um cara sai e

corre pela neve em nossa direção, minha mãe abaixa a janela.

– Bem, bem, bem, o que nós temos aqui? – ele pergunta. Meu queixo cai, Tucker inclina na janela, sorrindo de orelha à orelha. Ah! Sim, pode ficar mais humilhante. – Hei Carrots39 – ele diz – Jeff. Ele acena a cabeça para meu irmão como se fossem amigos. Jeffrey acena de volta. Minha mãe mostra um sorriso à ele. – Eu não acho que nos conhecemos – ela diz – Eu sou Maggie Gardner. – Tucker Avery – ele diz. – Você é o irmão da Wendy. 39

Cenoura


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– Sim senhora. – Nós realmente precisamos de alguma ajuda – ela diz sorrindo enquanto

eu escorrego no banco desejando estar morta. – Claro, só sente e espere.

Ele corre de volta para sua caminhonete e volta com cabos de reboque. Os quais ele amarra rapidamente ao nosso carro, como se ele já tivesse feito isso um

milhão de vezes. Ele volta a seu carro, e prende os cabos a ele. Então ele nos reboca suavemente para a estrada, tudo isso em menos de cinco minutos.

Minha mãe sai do carro e gesticula para eu fazer o mesmo. Eu olho para ela

como se fosse louca, mas ela persiste.

– Você pecisa agradecer – ela diz sussurrando. – Mãe. – Agora. – Tá bom – eu saio. Tucker está ajoelhado na neve tirando os cabos de sua

caminhonete, ele olha para mim e sorri novamente revelando uma covinha em sua bochecha esquerda.

– No caso de você não ter reparado, essa foi minha caminhonete tirando

você do banco de neve – ele disse.

– Muito Obrigada – diz minha mãe, ela olha afiado para mim.


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– Sim, obrigada – Eu digo entredentes. – Você é bem vinda – ele diz cordialmente, e naquele momento eu pude ver

que Tucker pode ser charmoso quando ele quer ser.

– E diga a Wendy que mandamos um oi – minha mãe diz.

– Direi, prazer em conhecê-la senhora – Se ele estivesse vestindo seu

chapéu de caubói ela teria tocado nele. Então ele volta pro seu carro e vai embora sem mais nenhuma palavra.

Eu olho pra colina de esqui, a mesma direção que Tucker seguiu,

repensando em tudo o que tinha acontecido.

Mas Christian é um esquiador, eu relembro. Então uma esquiadora eu serei. – Esse Tucker parece ser um bom jovem – minha mãe diz enquanto

andamos de volta ao carro – Como você nunca disse nada sobre ele antes? – Quinze minutos depois eu estou parada na área onde estudantes são supostos de se

encontrarem com seus instrutores, que está lotado de crianças, crianças gritando usando capacetes e óculos, me sinto completamente fora do quadro, como um

astronauta antes de seus primeiros passos em um planeta alienígena. Eu estou usando esquis alugados, botas de esqui alugadas que me fazem sentir-me estranha e apertada e me faz andar engraçado, fora todos os outros artigos de neve que minha mãe me convenceu a usar.

Eu coloco os óculos de proteção e enfiei a touca de lã que não me faz jus no

bolso, mas do pescoço para baixo toda parte de mim estava coberta e acolchoada. Eu

não sei se consigo me mexer, muito menos esquiar. Meu instrutor, o qual era suposto

a me encontrar às nove em ponto, já está cinco minutos atrasado. Eu só olho para o meu irmão-dor-na-bunda pular do teleférico no esqui como se não fosse nada demais e abrir seu caminho abaixo alguns minutos depois como se tivesse nascido em


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um snowboard, com a loira ao seu lado. A vida é uma droga, isso e meu pé está congelando.

– Desculpe o atraso – diz uma voz atrás de mim – Eu tive que tirar alguns

Californianos de um banco de neve.

Isso não pode ser verdade, destino não é tão cruel, eu giro para ver os olhos

azuis de Tucker.

– Sorte deles – eu digo.

humor.

Seus lábios se contorcem tentando não rir, parece que ele está de bom

– Então você anda por aí tirando idiotas da neve e ensinando eles como

esquiar – eu disse.

Ele dá de ombros – Isso me mantém durante a temporada. – Você é bom nisso? – Tirando idiotas da neve? Eu sou o melhor. – Ha-ha, você é hilário, não, ensinando eles a esquiar. – Eu acho que você vai descobrir. Ele começa direto em uma lição de como balancear, minha posição nos

esquis, virar e parar, ele me trata como qualquer outro aluno, o que é ótimo, eu até

relaxo um pouco, tudo parece simples quando você descobre, mas então ele diz para pegar a corda de reboque.


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– Isso é fácil, somente segure firme e deixe isso te levar até o topo, quando

você chegar lá é só soltar.

Ele aparentemente acha que eu sou uma idiota, eu ando sem jeito até a

linha, onde o cabo de óleo negro se arrasta através da neve, me abaixo e agarro isso, isso puxa meus braços, eu vou para frente e quase caio, mas de alguma forma eu

consigo manter meus esquis em linha reta e deixo isso me puxar para o topo. Lanço

um olhar sobre meus ombros para ver se Tucker ainda está rindo. Ele não está, ele parece como um juiz olímpico pronto para dar a nota final, ou como um cara a ponto de testemunhar um acidente horrível. No topo do morro eu solto o cabo e luto para sair da frente antes da

próxima criança bater em mim, então eu paro por um momento olhando para baixo.

Tucker espera na ponta, não é uma encosta íngreme, e não há arvores para

bater, o que é confortante, mas atrás do Tucker a encosta continua caindo, passando

o teleférico, o alojamento, as pequenas lojas alinhadas ao estacionamento, eu subitamente tenho uma imagem de mim caída embaixo de um carro. – Vamos lá! – Tucker grita – A neve não vai morder. Ele acha que estou com medo, ok, eu estou com medo, mas a idéia do Tucker pensando que sou uma covarde faz meu maxilar apertar em determinação,

posicionei meus esquis em um cuidadoso V da forma que ele me mostrou, então eu desci.

O ar frio bate em meu rosto, pega meu cabelo e o joga atrás de mim como

uma bandeira, eu coloco um pouco de pressão em um pé e deslizo lentamente para a

esquerda, eu tento de novo dessa vez inclinando para a direita, dessa forma fazendo meu caminho descendo o morro, eu vou reta por um tempo, pegando um pouco de velocidade e então tento de novo.


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Fácil, quando chego perto do Tucker, eu coloco meu peso sobre os dois pés

e puxo o V do jeito que ele me ensinou, eu parei, brincadeira de criança.

– Talvez eu deva tentar de outro jeito – eu digo – Com meus esquis em

linha reta.

foi.

Ele me encara, suas sombrancelhas juntas, o bom humor aparentemente se

– Eu acho que você quer que eu acredite que é a primeira vez que você

esquia – ele diz.

Eu olho em sua cara, assustada, claro que ele não esperava que eu caísse

naquele pequeno morro? Eu olho para trás e vejo os outros iniciantes, eles lembram

um bando confuso de patinhos, tentando não esbarrar uns nos outros. Ele estava acostumado a ver os iniciantes cair.

Eu devia mentir para o Tucker, dizer a ele que eu já tinha feito isso antes,

isso seria a coisa mais suja a se fazer, mas eu não minto para outro Avery essa semana.

– Eu deveria tentar de novo? – Sim – ele diz – Eu acho que você deveria tentar de novo. Dessa vez ele sobe atrás de mim e quando eu desço, ele está bem atrás de

mim, ele me deixa tão nervosa que quase caí algumas vezes, mas eu fico lembrando o quão humilhante seria cair na frente dele e consigo ficar em pé.

Quando chegamos ao final ele exige ir outra vez, dessa vez esquiando em

estilo paralelo, o qual eu prefiro, é mais gracioso e divertido.


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– Eu venho dando aula por dois anos – ele diz quando chegamos ao final

pela quinta vez – e essa é a primeira vez que alguém faz a hora toda sem cair pelo menos uma vez.

– Eu tenho um bom balanço – eu explico – Eu costumava dançar, na

Califórnia, balé.

Ele me olha com os olhos apertados, como se ele não conseguisse descobrir porque eu inventaria essa história, a menos que eu quisesse aparecer, ou talvez ele estivesse perplexo por alguns californianos serem bons em alguma coisa a não ser compras no shopping.

– Bom, é isso aí – ele diz do nada – Fim da lição. Ele gira em direção à pousada. – O que eu devia fazer agora? – eu pergunto. – Tente o teleférico – ele diz então esquia para longe. Por um tempo eu fico do lado de fora da fila para o teleférico dos iniciantes olhando as pessoas subindo, eles fazem isso parecer fácil demais, é tudo sobre o tempo, eu desejei que Tucker não tivesse sido tão sacana, seria legal ter algumas instruções sobre essa parte.

Eu decido ir, vou até a fila, quando estou perto do começo um empregado

põe um buraco no meu tíquete.

– Você tá sozinha? – ele pergunta.


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– Sim. – Sozinha! – ele grita de volta para a fila – Nós temos uma sozinha aqui! Tão constrangedor que de repente desejo ter óculos. – OK – diz o cara do teleférico, alguém acenando para frente, quando o

cara gesticula para mim eu vou até a linha desenhada na neve, posiciono meus esquis, olho sobre meu ombro, e nervosamente vejo a cadeira chegando, ela bate forte no meio da minha perna, eu sento e a cadeira me levanta no ar.

Então eu estou subindo rapidamente a montanha, balançando um pouco,

eu respiro um suspiro de alívio e me viro para ver quem está sentado comigo, todo o ar some rapidamente, eu estou subindo o teleférico com Christian Prescott. – Oi – eu digo. – Oi Clara – ele repete. Ele lembra meu nome, como um sonho, um sonho estúpido. – Bom dia para encostas, né – ele diz.

– Sim – meu coração está batendo como louco em minha orelha, ele parece

em casa na cadeira do teleférico com sua jaqueta verde floresta e sua calça preta de esqui, uma touca preta com óculos em cima de sua cabeça e algum tipo de cachecol em seu pescoço, ele parece o perfeito garoto propaganda do esqui. Seus olhos estão

maravilhosos contra a jaqueta, um verde esmeralda, ele está tão perto que consigo sentir o calor vindo dele.

– Eu não te vi na pizzaria outro dia? – ele pergunta.


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Ele tinha que lembrar daquilo, meu rosto se aquece, ele poderia estar

olhando para o meu cabelo agora mesmo pensando no Bozo, Bozo o palhaço. Porque eu não tinha colocado uma touca sobre meu estúpido cabelo?

– Sim, talvez – eu gaguejo – Quero dizer, eu estava La, talvez você tenha me

visto, eu acho que você me viu né? Quer dizer eu vi você. – Você devia ter dito oi.

– É eu acho que devia – eu olho para o chão correndo por nós, esperando

por um tópico para conversar, ele está usando um esqui diferente preto com um tipo de curva neles, que parecem bem diferentes do meu.

– Você não pratica snowboard? – eu pergunto. – Sim – ele diz. – Mas eu esquio mais, eu estou no time de corrida você

quer uma ―jolly rancher‖? – Uma o que?

Ele enfia suas mãos em sua coxa e tira suas luvas, então abre o ziper do

bolso de sua jaqueta, procura dentro e tira uma mão cheia de doces.

– Eu sempre os deixo em meu bolso para esquiar – ele diz. Minha boca está incrivelmente seca – Claro, eu quero um. – Vermelho quente ou cereja? – Vermelho quente.


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Ele abre uma bala e coloca em sua boca, então ele segura outra para mim,

eu não consigo nem pegar isso com minhas luvas.

– Eu faço isso – ele abre a bala e inclina-se para mim, eu tento tirar o

cabelo do meu rosto.

– Abra – ele diz segurando a bala. Eu abro a boca, cuidadosamente, ele coloca a bala na minha língua, nossos olhos se encontram por um momento quando ele fechou minha boca, ele senta de volta na cadeira.

– Obrigada – eu digo com a bala na boca, eu tusso, a bala é surpreendente

ardente, eu desejo ter pedido a de cereja.

– De nada – ele coloca suas luvas de volta. – Então, você tem que praticar esqui toda semana se você está no time de

corrida? – eu pergunto.

– Eu venho aqui nos finais de semana para esquiar por diversão, a maior

parte, e pelas corridas quando elas acontecem aqui. Durante as noites da semana eu pratico no Rei da Neve. – Wow, você consegue esquiar de noite? Ele ri.

– Claro, eles colocam luzes ao longo da pista, eu amo isso à noite,

atualmente. Não é cheio, é quieto, você pode ver as luzes da cidade é lindo. – Parece mesmo lindo.


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Nenhum de nós falou por algum tempo, ele bate um esqui no outro

gentilmente jogando neve no chão abaixo de nós, é irreal balançando no meio em uma montanha com ele ao meu lado, vendo-o de perto, ouvindo sua voz.

pergunto.

– Rei da Neve é aquela área de esqui dentro de Jackson Hole? – eu

– Sim, ele tem somente cinco pistas, mas é um bom morro para praticar, e

quando tem corrida para o campeonato estadual os garotos da escola podem nos ver do estacionamento. Eu estou a ponto de dizer que quero vê-lo correr, mas percebo que estamos

nos aproximando de uma pequena cabana na montanha e os esquiadores estão descendo.

– Oh! Merda. – O que? – ele pergunta. – Eu não sei como descer daqui. – Você não... – É minha primeira vez esquiando – eu digo, pânico subindo por minha

garganta, a cabana chegando cada vez mais perto – O que eu faço?

– Mantenha as pontas do seu esqui para cima – ele diz rápido – Nós vamos

até o topo, quando se achatar você levanta e vai para o lado, tem que ser bem rápida para sair do caminho de quem vem atrás.

– Oh! Cara, eu não sei se isso é uma boa idéia.


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– Relaxa – ele diz – eu vou te ajudar.

tensos.

Estamos a uns segundos da cabana, todos os músculos do meu corpo estão

– Coloque seus bastões – ele instrui. Você pode fazer isso, eu digo a mim mesma, segurando os pólos do esqui firmemente, você tem sangue de anjo, forte, rápida, esperta, use isso de uma vez. – Levanta – Christian diz. Eu levanto meus esquis, nós seguimos até o morro e então assim como ele

disse, chegamos à parte reta.

– Levante-se – Christian ordena. Eu brigo com meus pés, a cadeira bate na minha panturrilha me

empurrando para frente.

– Agora vá para o lado – ele diz indo para a esquerda, eu tento segui-lo colocando meus bastões na neve e empurrando com toda força, tarde demais eu vejo

que ele quis dizer para eu ir para a direita enquanto ele ia para a esquerda, ele se vira

para ver como estou indo quando eu bato direto nele já perdendo o equilíbrio, meus esquis passam pelo dele, eu desequilibro me agarrando em seu ombro.

– Oh!! – ele grita, tentando se manter em pé, mas não tem jeito, nós

deslizamos por um lado e caímos em uma pilha.


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– Eu sinto muito – eu digo, estou caída em cima dele, minha bala Jolly

Rancher está caída perto de sua cabeça na neve, sua touca e óculos de proteção estão perdidos, meus esquis se soltaram e meus bastões sumiram, eu me esforço para sair de cima dele, mas eu não consigo colocar meus pés no chão. – Fica parada – ele diz firme. Paro de me mover, ele coloca seus braços em minha volta e nos gira para

um lado, então ele se abaixa e tira o esqui que ainda está debaixo da minha perna e rola para longe de mim, eu fico deitada na neve esperando abrir um buraco para me esconder pelo resto do ano letivo, possivelmente para sempre, eu fecho meus olhos. – Você tá bem? – ele pergunta. Eu abro meus olhos e ele está abaixado, seu rosto perto do meu, consigo

cheirar a bala em sua respiração, atrás dele uma nuvem passa pelo sol, iluminando o céu como se estivesse abrindo, eu de repente me sinto a par de tudo: meu coração

bombeando sangue em minhas veias, a neve lentamente começando a derreter debaixo de mim, os movimentos, as árvores com o vento, a mistura dos pinhos com o perfume do Christian e algo que poderia ser cera de esqui, o barulho das cadeiras

passando pelo pólo do teleférico e Christian com chapéu, rindo de mim com os olhos, me deixando sem fôlego.

Eu não penso no fogo, ou no meu propósito, eu não penso sobre salvar ele,

eu imagino como deve ser beijar ele? – Eu estou bem.

– Aqui – ele tira uma mecha de cabelo do meu rosto, sua mão nua passando

por minha bochecha – Isso foi legal – ele diz – Não fazia isso há algum tempo.


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No começo eu acho que ele se refere ao meu cabelo, mas então percebo que

ele se refere à queda.

– Eu acho que eu vou ter que praticar a parte do teleférico – digo. Ele me ajuda a sentar. – Talvez um pouco – ele diz – Você foi muito bem por ser a primeira vez, se

eu não tivesse em seu caminho você teria feito isso. – Certo então você é o problema.

– Com certeza – ele olha para o cara que está sentado na cabana, que está

falando ao telefone, provavelmente chamando a polícia do esqui para me tirar da montanha.

– Ela está bem Jim – Christian diz para o homem, então ele acha meus

esquis e bastões que, por sorte, estavam por perto.

cabeça.

– Você tinha uma touca? – ele pergunta achando a sua e colocando na

Ele ajusta seus óculos em cima, eu balanço a cabeça, então ele se aproxima

e cuidadosamente toca meu cabelo que mais uma vez saiu do elástico e está em torno dos meus ombros cheios de neve.

– Não eu não tinha uma touca. – Eles dizem que noventa por cento do calor do seu corpo escapa pela

cabeça – ele diz.


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– Eu tentarei me lembrar disso. Ele alinha meus esquis na minha frente e ajoelha-se para me ajudar a

colocá-los, eu seguro em seus ombros para equilibrar. – Obrigada – eu digo olhando para ele.

Mais uma vez meu herói, e eu quem era para salvar ele. – Sem problemas – ele diz olhando para cima, seus olhos estreitos, como se

estivesse estudando meu rosto, um floco de neve cai em sua bochecha e derrete, sua

expressão muda, como se do nada ele lembrasse de algo, se levanta e coloca seus esquis rapidamente.

– Naquela direção tem uma pista para iniciantes, algo não muito inclinado

– ele diz apontando atrás de mim.

– É chamado de Ursinho Pooh. – Ah! Que ótimo – meu sinal é um círculo verde. – Eu ficaria para ajudar, mas já estou atrasado para percorrer o curso de corrida mais acima da montanha – ele diz – você acha que tudo bem para descer?

– Claro – digo rapidamente – Eu estava indo bem na pista do coelho, não

caí nenhuma vez até agora, como você sobe mais a montanha?

– Há outro teleférico ali embaixo – ele aponta para onde com certeza outro

enorme teleférico está levando pessoas a uma subida incrivelmente íngreme – e tem outro depois desse.

– Loucura – digo – Nós poderíamos ir até o topo.


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– Poderíamos, mas não é para iniciantes. O momento com certeza acabou. – Certo, então obrigada de novo – eu digo sem jeito – por tudo. – Não diga isso – Ele já está se afastando, esquiando em direção ao próximo

teleférico – Vejo você por perto, Clara – ele diz por cima dos ombros.

Eu olho ele esquiar até o teleférico se inclinar na cadeira quando ela chega,

a cadeira balança para trás conforme sobe pelo ar gelado, eu olho até sua jaqueta verde desaparecer.

– Sim você irá – eu sussuro. É um grande passo, nossa primeira conversa de verdade, meu peito se

enche de uma emoção tão forte que eu sinto lágrimas nos meus olhos, é constrangedor, algo como esperança.


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7 VOANDO JUNTAS

Domingo por volta das sete e meia, eu dirigi ao Pink Garter para me

encontrar com Angela Zerbino, o teatro está completamente escuro, eu bato na porta, mas ninguém vem atender. Eu pego meu celular e então percebo que nunca peguei o

número dela, eu bato mais forte dessa vez, a porta abre tão depressa que eu pulo, uma mulher baixa e magra com longos cabelos pretos me encarando. – Estamos fechados – ela diz. – Eu estou aqui para ver a Angela. Ela levanta uma sobrancelha. – Você é amiga dela? – Uh. – Entre – a mulher diz, segurando a porta, é desconfortável o silêncio, o

interior cheira a pipoca e serragem, eu olho em volta, uma caixa-registradora muito


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velha está em cima de um vidro com vários doces alinhados dentro dele, as paredes são decoradas com cartazes emoldurados das antigas produções, os quais são na maioria de cowboys.

– Belo Lugar – digo, e então bato em uma corda de veludo no poste e quase

faço todos eles caírem no chão. Eu consigo arrumar o poste todo antes de começar

uma reação em cadeia, eu tremo e olho para a mulher, que está me olhando com uma

estranha e ilegível expressão, ela se parece com a Angela com excessão dos olhos, os quais são castanhos ao invés de âmbar, e ela tem profundas rugas ao redor da boca o que faz com que ela pareça mais velha que seu corpo sugere, ela me lembra aquelas ciganas de filmes antigos.

– Eu sou Clara Gardner – eu digo nervosa – Eu estou fazendo um projeto

para a escola com a Angela.

Ela acena, eu percebo que ela está usando uma grossa cruz em volta do

pescoço, daquelas que têm o corpo de Jesus.

– Você pode esperar por aqui – ela diz – Ela não vai demorar. Eu a sigo, então uma piscina de luzes aparece no palco. – Sente em qualquer lugar – ela diz. Uma vez que meus olhos se ajustam eu vejo que o teatro é cheio de mesas

redondas cobertas com toalha branca, eu caminho até a mais próxima e me sento.

foi.

– Quando você acha que a Angela chega – eu pergunto, mas a mulher se


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Eu esperei por uns cinco minutos, completamente assustada nesse ponto,

quando Angela entra explodindo por uma porta lateral.

– Wow, desculpa – ela diz – Orquestra foi até tarde. – O que você toca? – Violino. É fácil imaginar ela com um violino nos ombros, tocando longe uma

música lúgubre romana.

– Você mora aqui? – Sim, em um apartamento em cima. – Somente você e sua mãe? Ela olha para suas mãos – Sim – responde – Só eu e minha mãe. – Eu também não moro com meu pai – digo – Só minha mãe e meu irmão. Ela me olha e meio que me examina por alguns segundos – Porque vocês se

mudaram pra cá? – ela pergunta sentando em uma cadeira de frente pra minha e me

encara com solenes olhos cor de mel – eu presumo que você não tenha queimado sua última escola?

– Como? – eu digo. Ela me olha com simpatia – Esse é o boato de hoje. Você quer dizer que não

sabia que sua família teve que sair da Califórnia por sua causa?


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Eu riria se não estive tão assustada. – Não se preocupe – ela diz – Isso vai durar pouco, os boatos da Kay sempre

duram, estou impressionada como o quão rápido você ficou em sua lista negra.

– Hum, obrigada – eu digo sorrindo – E deixando a minha óbvia

delinqüência, nós mudamos por causa da minha mãe, ela estava ficando doente na Califórnia, como ela ama montanhas, decidiu que queria nos criar em algum lugar onde não podemos ver o ar que respiramos, você sabe?

Ela ri da minha piada, mas isso é para ser educada, um sorriso de pena,

após outro longo silêncio.

– Ok, então chega de papo – eu digo inquieta – Vamos falar sobre o projeto,

eu estava pensando no reinado da rainha Elizabeth, nós poderíamos falar sobre como era ser uma mulher, mesmo uma mulher com muito poder naquele tempo, tipo uma

emancipação feminina – por alguma razão eu penso que isso vai até o beco da Angela.

– Atualmente – ela diz – Eu tenho outra idéia. – Tá, diz. – Eu pensei que poderíamos fazer uma apresentação dos Anjos de Mons.

toda.

Eu quase fiquei em choque, se estivesse bebendo água cuspiria pela mesa

– O que são os Anjos de Mons? – pergunto.


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– É uma história da primeira guerra mundial, aconteceu essa grande

batalha entre Alemanha e Inglaterra, a qual estava em menor número, mas venceu, após isso ouve um rumor se espalhando sobre esse homem fantasma que apareceu para ajudar os britânicos, esse misterioso homem atirou nos alemães com arco e

flecha, uma versão diz que esse homem parou entre os dois exércitos estava brilhando com uma luz extrema.

– Interessante – consegui dizer. – Isso claro foi uma farsa, algum escritor inventou isso e acabou crescendo

demais, é como uma versão inicial de OVNIS, uma história doida que ficam contando e contando.

– Tudo bem – digo, respirando – Parece que você entende do assunto. Eu imagino a cara da minha mãe quando eu contar pra ela que o projeto

que vamos fazer é sobre anjos da história britânica.

– Eu pensei que talvez fosse interessante para a classe – Angela diz – Um

momento específico do tempo como o professor Erikson sugeriu, eu também acho que podemos relacionar isso com o tempo de hoje.

Queimei meus neurônios tentando achar um jeito diplomático de recusar a

idéia dela.

– Então né... Eu realmente gostaria da Elizabeth, mas –– estou pensando, me

debatendo.

Ela Sorri. – O quê?


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– Você deveria ver sua cara, você está realmente assustada. – O quê?? Não eu não tô. Ela levanta e caminha ao lado da mesa. – Eu quero pesquisar anjos – ela diz – Mas tem que ser britânicos, porque é

história britânica ao final das contas e essa é a melhor história britânica de anjos que existe, e não seria louco se fosse verdade? Meu coração parece que está caindo no meu estômago. – Eu pensei que você disse que era uma farsa. – Bem, isso é, isso é o que eles queriam que todos pensassem, não? – Quem são eles? – Os descendentes de anjos. Levanto-me. – Clara, sente-se, relaxa – então ela diz – eu sei. – Você sabe o q... – Sente-se – ela diz em voz angélica. Meu queixo cai.


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– Como você...? – O que, você pensou que era única? – ela diz ironicamente, olhando para

as unhas, me jogo na cadeira, eu acho que isso é classificado com a real, honesta revelação, nunca em um milhão de anos eu esperaria esbarrar em outro descendente

na escola Hole High School, estou passada, Angela por outro lado está tão energizada que está praticamente soltando faíscas.

Ela me examina por um minuto, então pula – Vamos – diz saltando para o palco, ainda sorrindo daquele jeito que o gato sorri pro passarinho, ela acena

impacientemente para eu ir lá, me levanto e lentamente subo as escadas para o palco olhando para o teatro vazio. – O que? Ela tira seu casaco e joga em um canto escuro, então ela anda alguns passos

para trás, quase um braço de distância de mim, ela se vira e me encara. – Tudo bem – ela diz. Estou começando a ficar alarmada. – O que você tá fazendo? – Mostre-se – ela diz em angélico.

Tem um flash de luz, como uma câmera fotográfica, eu pisco e tropeço com

o repentino peso das minhas asas nos meus ombros, Angela está parada com suas próprias asas totalmente estendidas, sorrindo para mim.


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– Então é verdade! – ela diz excitada, lágrimas brilhando em seus olhos, ela

franze as sobrancelhas um pouco e suas asas desaparecem num piscar de olhos – diga as palavras .

– Mostre-se – digo. O flash aparece de novo e então ela está com suas asas à mostra novamente,

ela bate deliciada suas mãos. Estou travada.

– Como você soube?

eles.

– Os pássaros me deram a dica – ela diz – o que você disse na sala sobre

Tanto para ninguém descobrir, minha mãe vai me matar. – Pássaros me deixam louca também, mas eu não sabia se era uma puta

coincidência ou não, então eu ouvi que você era um gênio em Francês – ela diz.

– Eu faço espanhol, eu sou muito boa nisso porque eu falo italiano fluente, pela família da minha mãe, passo todos os verões na Itália, é igual. Amo romance, linguagem e outros enfeites. Essa é a minha história, afinal.

Eu não consigo parar de encarar suas asas, é um grande choque para mim

vê-las em outra pessoa que não conheço, uma louca justaposição: Angela com seu brilhante cabelo preto caindo de um lado de seu rosto, um top preto, calças jeans

cinzas com buracos nos joelhos, lápis de olhos e batom escuros, unhas roxas, e então aquelas brilhantes asas brancas esticadas atrás dela, refletindo os luzes do palco radiante como é possível para um ser celestial.


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– Eu realmente não sabia com certeza, embora, até seu irmão vencer o time

de luta – ela diz.

– O time inteiro? – Não era a versão que ouvi do Jeffrey. – Você não sabia disso? Ele foi até o treinador e pediu para entrar no time,

o treinador disse não, que as eliminatórias foram em novembro, melhor sorte na próxima vez, então o Jeffrey disse ―Eu vou lutar com os melhores caras da equipe para

cada categoria de peso. Se eles me baterem, tudo bem, vou tentar novamente no

próximo ano. Se eu vencê-los, eu estou no time‖ Isso foi como a história circulou. Eu

tenho educação física no primeiro período, então eu estava lá na hora, mas eu não prestei muita atenção até estar no meio dos pesos médios, praticamente a escola inteira parou para olhar ele ganhar do campeão dos pesos pesados Toby Jameson, aquele cara é um monstro, isso foi uma coisa maravilhosa de se olhar, Jeffrey simplesmente o derrubou, nem parecia cansado, e quando eu vi ele desse jeito eu

sabia que ele não podia ser inteiramente humano. Então depois eu vesti uma camiseta

de anjos na aula de história britânica e observei seu rosto ficar tenso e chocado quando você olhou para mim, então eu estava bem confiante que tinha acertado. – Era tão óbvio? – Para mim isso era – ela diz – Mas eu estou feliz, eu nunca conheci mais

ninguém igual a mim.

Ela ri e antes que eu consiga processar tudo o que ela está me dizendo, ela

dobra os joelhos e desce até fora do palco, deslizando facilmente sobre o escurinho do cinema e até nas vigas. – Vem – ela diz.


144

Eu olho atrás dela, pensando na enorme quantidade de dano que eu

provavelmente faria se tentasse.

– Eu não acho que o seguro daqui vai cobrir os danos se eu tentar voar. Ela cai ligeiramente para trás para baixo para o palco. – Não posso voar – admito. – É difícil no começo – ela diz – Eu perdi todo o ano passado, subindo no

alto de montanhas à noite para eu poder pular da ponta e pegar algum ar, isso levou meses anter de eu conseguir realmente voar.

voar.

Essa é a primeira coisa que alguém disse que me faz sentir melhor sobre

– Tua mãe não te ensinou? – pergunto. Ela sacode a cabeça violentamente, como se achasse a idéia divertida. – Minha mãe é quase tão humana como eles. - Vem, quero dizer, que

descendente de anjo chamaria sua filha de Angela? Eu reprimo um sorriso.

mim.

– Ela tem imaginação eu acho – ela diz – Mas ela sempre esteve lá para

– Então é seu pai. A expressão dela fica instantaneamente escura – Ele é um anjo.


145

– Um anjo? Então isso quer dizer que você é metade anjo, um Dimidius. Ela acena, o que significa que ela é duas vezes mais forte que eu e ela pode

voar e seu cabelo é de cor normal, eu sou um poço de inveja.

– Então sua mãe não é humana – ela diz – Isso quer dizer que voce é. – Eu sou apenas um quarto, minha mãe é uma Dimidius e meu pai é só um cara normal. Eu subitamente me senti um pouco exposta estando no palco com minhas

asas abertas, então eu as fechei e fiz elas desaparecerem, Angela fez o mesmo, por um minuto ficamos olhando uma para a outra.

– Você disse na classe que nunca conheceu seu pai – eu digo. O rosto dela fica em branco. – Claro que não – ela diz com naturalidade – Ele é um anjo negro. Eu acenei como se compreendesse o que ela estava falando, mas não entendia. Angela se afasta e caminha para fora da piscina de luz sobre o palco em um dos cantos escuros.

– Minha mãe uma vez foi casada, mas seu marido morreu de câncer pouco

antes de ela fazer trinta, ele era um ator e ela era sua tímida designer de roupas, esse teatro era dele, eles não tiveram filhos, depois que ele morreu, ela fez uma peregrinação à Roma, ela é católica, e Roma é um lugar muito importante para ela,

alem do que, ela tem familia lá. Uma noite ela estava voltando para casa da missa

vespertina e um homem a seguiu, ela tentou ignorar no começo, mas ela estava


146

sentindo algo estranho sobre ele. Ele começou a andar rápido, então ela correu, ela não parou ate chegar à casa da família.

Angela se senta à beira do palco, com as pernas balançando no fosso da

orquestra. Ela mantém seus olhos baixos, enquanto ela conta a história, seu rosto ficou um pouco longe, mas a voz dela é estável.

– Ela pensou que estava à salvo – ela disse – Mas naquela noite ela sonhou

com o homem parado nos pés da cama, sua face era como uma estátua, ela diz como David de Michelangelo, frio, com tristeza nos olhos, ela começou a gritar, então ele

disse algo em uma língua que ela não entendia, suas palavras a paralisaram ela não conseguia se mexer ou falar, ela não conseguia acordar. Eu sentei ao seu lado.

sonho.

– E então ele a estuprou – ela murmura – e ela realizou que isso não era um

Ela olha para cima, envergonhada. Um canto da boca elevado. – Assim, a desvantagem é que nao fui concebida com amor – ela diz. –

Mas o lado bom é que eu tenho todos esses poderes incríveis.

– Certo – eu digo, balançando a cabeça. Perguntando-me quantos anos

tinha quando sua mãe lhe contou essa história, não é realmente o tipo de história que

você quer ouvir de sua mãe. Eu nunca ouvi falar de tal coisa acontecer. Um anjo

estuprar uma mulher? Eu não consigo imaginar. Eu sinto como se a noite estivesse começando a assumir uma espécie estranha de Twilight Zone40. Eu vim para trabalhar em um projeto de história, e agora estou sentada à beira de um palco com

40

é uma série de televisão americana criada por Rod Serling e dirigida por Stuart Rosenberg, apresentando histórias de ficção científica, suspense, fantasia e terror.


147

outra descendente de anjo enquanto ela derrama toda a história de sua vida para mim. Isso é surreal.

– Sinto muito, Angela – eu digo. – Isso. . . É uma merda.

mente.

Ela fecha os olhos por um instante, como se pudesse ver tudo isso em sua

– Então, se sua mãe é humana e você nunca viu seu pai, como você mesmo sabe que é descendente de anjos? – eu pergunto. – Minha mãe me disse. Ela disse que uma noite, poucos dias antes de eu

nascer, outro anjo lhe apareceu e lhe contou sobre os descendente de anjos. Ela pensou que era um sonho louco por um tempo. Mas ela me disse assim que percebeu que havia algo diferente em mim. Eu tinha dez anos.

Eu penso no jeito que minha mãe me contou sobre os descendentes, há

apenas dois anos, e como era difícil de aceitar. Isso esvaziou minha mente, pensar o que eu teria feito se ela tivesse surgido com esse tipo de informação sobre mim quando eu era criança. Ou se ela tivesse sido estuprada.

– Isso me tomou um longo tempo para descobrir qualquer coisa – Angela diz – minha mãe não sabia nada sobre anjos a não ser o que diz na Bíblia, ela disse que eu era uma Nephillim como no Genesis, e eu podia ser uma heroína como nos dias de Sansão.

– Sem cortes de cabelo para você então. Ela ri e passa seus dedos por seus cabelos escuros. – Mas você sabia sobre os Dimidius e os Quartarius e tudo o mais – eu digo.


148

– Eu peguei informações aqui e ali, eu me considero um pouco de anjo

historiadora.

Ficamos em silêncio por um tempo. – Wow – eu digo. – Eu sei. – Eu ainda acho que devemos fazer nosso projeto sobre a rainha Elizabeth. Ela ri, e se vira para mim e coloca suas pernas de forma a sentar igual

índio, tão perto que seus joelhos tocam os meus.

– Nós seremos melhores amigas – ela diz. Eu acredito nela, eu tenho que estar em casa às dez, o que não nos dá muito

tempo para falar, eu mal consigo pensar em onde começar, as perguntas vem tão

rápido, uma coisa é clara, Angela sabe muito sobre anjos, muito sobre as histórias, os poderes que eles dizem ter, os nomes dos diferentes rankings de anjos que aparecem

em literatura e textos religiosos, mas por outro lado, coisas sobre anjos e descendentes que você só consegue pela família ela não sabe nada, ela e eu podemos aprender

muito uma com a outra, eu realizo, começando a acreditar que minha mãe só me conta o que ela acha que é extremamente necessário.

– Você fez todas essas pesquisas em Roma – eu pergunto. – A maioria – ela diz – Roma é um bom lugar para descobrir sobre anjos,

há muitas histórias lá, apesar de que eu conheci um Intangere em Milão ano passado e eu aprendi mais com ele que em qualquer outra fonte.


149

– Espera um pouco, o que é um Intangere? – Boba – ela diz como seu tivesse advinhado – Isso é a forma latim de dizer

um puro sangue, isso literalmente diz inteiro, intacto, completa em si mesma, então há os Intangere, Dimidius, Quartarius, você sabe.

– Ah!! Certo – eu digo como se minha mente tivesse clareada – então você

conheceu um anjo de verdade?

– Sim, eu o vi e acho que não era para ter visto, nós estávamos um pouco

fora do caminho da igreja, e eu o vi ali tipo brilhando, então eu disse ―Olá‖ em angélico, ele olhou para mim, me agarrou pelo braço e de repente estávamos em outro lugar, como se ainda estivéssemos ali, mas ao mesmo tempo em outro lugar. – Parece com o céu. Ela franze a testa e inclina-se mais como se ela não tivesse me ouvido

corretamente.

– O quê? – Parece que ele te levou para o céu. Seus olhos se arregalaram com a compreensão repentina. – O que você

sabe sobre o céu? – pergunta ela. Eu coro.

– Bem não muito, eu sei que é dimensional, que existe bem em cima do

topo da terra como uma cortina, minha mãe diz, um véu. Ela esteve uma vez lá, quero dizer um anjo a levou.


150

– Você é tão sortuda por ter sua mãe – Angela diz com inveja em seus olhos

– Eu tenho que batalhar para conseguir toda informação enquanto você só tem que perguntar.

– Bom eu posso perguntar – eu digo desconfortável – mas não significa que

ela tem que responder minhas perguntas. Ela me olha de perto. – Por que ela não iria?

– Eu não sei, ela diz que eu tenho que descobrir essas coisas sozinhas, por

experiência, ou alguma bobagem como essa, como mais cedo que você disse que seu pai era um anjo negro, eu não tenho idéia do que isso seja, eu assumi que é algum tipo de anjo ruim, mas minha mãe nunca mencionou isso. Angela pensa por um momento.

– Um anjo negro é um anjo caído – ela finalmente diz – Eu acho que eles

caíram há um longo tempo atrás, perto do começo. – Começo do quê? – Do tempo.

– Oh! Certo, suas asas são realmente pretas? – Eu acho que sim – ela responde – é como você os vê, asas brancas é igual

a anjos bons, asas pretas a anjos ruins.


151

Loucura, quanta coisa eu nem sabia, isso me faz parecer tola e

desconfortavelmente curiosa e assustada.

–Você simplesmente vai e pede para eles deixarem você ver suas asas? – Você os comanda em angélico para se mostrarem. – E eles têm que fazer isso? – eu pergunto. – Pareceu como se você tivesse escolha quando eu te comandei? – Não, só aconteceu. – É dessa forma para eles também, um tipo de ferramenta para imediata

identificação que é pré-programada – ela diz – muito útil, não? – Como você sabe tudo isso?

– Phen me contou, ele é o anjo que eu conheci na igreja, ele me alertou

sobre os anjos negros.

Ela para e abaixa os olhos. – O que? – eu gentilmente pergunto – O que ele disse?

procurar.

Ela fecha seus olhos forte e então os abre – Ele disse que um dia eles vão me

– Mas porque eles iriam querer te achar? Ela olha para cima.


152

– Porque meu pai era um, e porque eles nos querem – ela diz seus olhos

dourados estão subitamente ferozes – eles estão construindo um exército.

– Mãe! – eu grito no minuto que a porta de casa se fecha atrás de mim ela

vem correndo de seu escritório, com a face alarmada. – O que? O que é? Você está machucada?

– Porque você não me disse que há uma guerra entre anjos? Ela pára – O que? – Angela Zerbino é um descedente – eu digo, ainda fora de mim – e ela me

disse que há essa guerra acontecendo entre anjos bons e ruins. – Angela Zerbino é uma descendente? – Dimidius, agora me responde.

– Bem, querida – ela diz ainda olhando confusa – Eu assumi que você sabia. –Como poderia saber se você nunca me disse? Você nunca me diz nada! – Há bons anjos e maus anjos nesse mundo – ela diz depois de uma longa

pausa – Eu te disse isso.

Eu posso ver como cuidadosamente ela escolhe suas palavras, até mesmo

agora, isso é irritante.


153

– Sim, mas você nunca me disse sobre os anjos negros – eu exclamo – Você

nunca me disse que eles vão aos lugares recrutando ou matando os descendentes que cruzam seu caminho. Ela recua. – Então isso é verdade. – Sim – ela diz – Apesar de que eu acho que eles estão mais interessados nos Dimidius. – Certo, porque Quartarius não têm muito poder – eu digo sarcasticamente

– Eu acho que deveria me sentir aliviada então.

Mãe ainda está processando – Então Angela Zerbino te contou que era uma

descendente, ela simplesmente te disse?

– Sim, ela me mostrou suas asas e tudo. – Que cor elas eram? – Suas asas? Brancas. – Como branca? – ela pergunta atentamente. – Elas eram perfeitas, branco de doer os olhos, porque isso importa?

– A sombra de nossas asas reflete a nossa posição na luz – ela diz – Anjos bons tem asas brancas, claro, anjos ruins têm asas pretas, para a maioria de nós no meio, a prole, nossas asas têm uma variação de cinza.


154

– Suas asas sempre parecerem bem brancas para mim – eu digo, estou

instantaneamente impressionada para abrir minhas asas, para ver a cor que elas são, para descobrir como meu estado espiritual está, eu com certeza não sei.

– Minhas asas são claras – mãe adimite – mas não como a neve. – Bem, as de Angela eram brancas – eu digo – eu acho que isso significa

que ela é pura de alma.

Minha mãe vai até o armário e pega um copo. Ela enche com água na pia,

então fica bebendo devagar. Calmamente.

– Um anjo negro estuprou a mãe dela – eu olho para seu rosto para ver

alguma reação, nada.

– Ela está preocupada que algum dia eles vão aparecer para pegá-la, você

deveria ver sua cara quando ela me contou isso, assustada, como realmente assustada. Ela coloca o copo para baixo e olha para mim, ela não parece nem um

pouco alterada por nada que eu contei, o que me chocalha ainda mais, então eu percebo.

– Você já sabia sobre a Angela – eu digo – Como? – Eu tenho minhas fontes, ela não está exatamente tentando esconder suas

habilidades para alguém tão preocupada com os anjos negros, ela não está sendo cuidadosa, e se revelar a você como ela fez é imprudente.

Eu a encaro, naquele momento totalmente clareia em mim o quanto minha

mãe não me disse.


155

– Você vem mentindo para mim – eu digo. Ela me olha nos olhos, assustada com minha acusação – Não eu não tenho,

há apenas algumas coisas que...

– Há muitos descendentes em Jackson Hole? Ela parece ferida pela minha pergunta - ela não responde. Eu pego minha mochila onde eu havia jogado no chão da cozinha e vou

para meu quarto.

– Ei – minha mãe diz – eu ainda estou falando com você. – Não, aparentemente você não está. – Clara – ela me chama com uma voz exasperada – Se eu não te digo tudo,

é para sua própria proteção.

– Isso não faz sentido, como ser ignorante me protege? – O que mais Angela te contou? – Nada. Vou para o meu quarto e bato a porta, tiro meu casaco, e jogo ele na cama,

lutando para não gritar ou chorar ou os dois, então vou até o espelho e chamo

minhas asas, as colocando em minha frente para eu ver as penas mais de perto. Elas

são bastante brancas, eu penso, correndo a mão sobre elas. Não é como a neve recémcaída, como dizia minha mãe, mas ainda é branco, não tão branco como as de Angela.


156

Eu ouço minha mãe vir até o hall, ela pára na frente da minha porta, eu

espero ela bater ou entrar e me dizer que não quer que eu ande com a Angela mais,

para minha própria proteção, mas ela não vem, ela só fica lá por um minuto e então vai embora.

Eu espero por um tempo, quando tenho certeza que minha mãe está no

andar debaixo, então eu vou para baixo no hall, para o quarto do Jeffrey, ele está sentado em sua mesa com seu laptop, teclando, conversando com alguém pelo que

parece, quando ele tecla alguma coisa muito, muito rápido e então pula para me ver, eu abaixo um pouco a música de forma que consiga ouvir meus próprios pensamentos. – Você disse para ela “you´d b-r-b”41? – eu digo com uma piscada – Qual é

o nome dela, de qualquer forma? Não adianta negar, isso só será mais embaraçoso para você se eu tiver que perguntar na escola.

– Kimber – ele diz imediatamente – O nome dela é Kimber – Sua expressão

continua neutra, mas eu consigo ver um pouco de vermelho em suas orelhas. – Bonito nome. A garota loira eu presumo? – Você não veio aqui para me encher, certo?

– Bem, isso é bem divertido, mas não, eu queria te dizer uma coisa – eu

movo uma pilha de roupas sujas de sua cama para o chão. Sem respirar por um

momento, eu estou quebrando uma regra a mais importante da mamãe ―não diga

nada às suas crianças‖, mas eu estou cansada de viver na escuridão e estou incomodada, incomodada com tudo, em toda a minha vida de baixa qualidade e todas as pessoas nela. Eu preciso desabafar.

41

Algo como “Você voltaria em breve” ou “Você estaria de volta”. Sigla para “You would be right back”.


157

– Angela Zerbino é uma descendente – eu digo. Ele pisca. – Quem?

solitária.

– Ela é uma menina, alta, longo cabelo preto, tipo EMO, olhos dourados,

Ele olha para o teto, pensativo como se estivesse chamando o rosto de

Angela em sua mente – Como você sabe que ela é descendente?

– Ela me disse, mas essa não é a pergunta correta, Jeffrey. – O que você quer dizer? – O que você deveria estar perguntando é porque Angela Zerbino me disse

que era uma descendente, e se você me perguntar isso eu poderia te responder que ela me disse, porque ela sabia que eu era uma descendente?

– Hã? Como ela sabia que você era uma descendente? – Vê, agora essa é a pergunta certa – eu digo me inclinando para frente –

Ela sabia, porque ela viu você batendo no time de luta livre semana passada, ela assistiu você ganhar do Toby Jameson, o qual provavelmente pesa uns 90 kilos, sem

nem ao menos suar e ela disse para si mesma, nossa, aquela cara é bom lutador, ele deve ser um anjo.

Seu rosto empalideceu, na verdade. É levemente satisfatório. É claro que

estou deixando de fora alguns dos outros detalhes incômodos, minha coisa estúpida

sobre os pássaros e minha aula de francês e do jeito que eu olhei sua camisa de anjo


158

caindo tão bem na sua armadilha. Mas Jeffrey foi o pivô. Ela apenas teve a certeza de

que estávamos algo mais além que humano depois de observá-lo na luta livre naquele dia.

– Você contou para a mamãe? – ele parece meio verde agora, porque se eu

contei para a mamãe, seria o final para o Jeffrey, sem mais luta livre, ou baseball no verão, ou o futebol que ele estava sonhando no outono. Ele provavelmente seria amarrado até a faculdade.

– Não – eu digo – No entanto ela está para fazer essa questão ela mesma,

cedo ou tarde.

É meio estranho, pensando nela, que ela não me perguntou isso ainda.

Talvez suas fontes já lhe disseram isso também.

– Você vai contar para ela? – ele pergunta, tão gentilmente que quase não

consigo ouvir ele com a música, sua expressão realmente patética, onde momentos antes havia raiva de mim, agora eu via cansaço e tristeza.

– Não, eu só queria te falar, eu não sei porque, eu queria que você soubesse. – Obrigada – ele diz, ele dá uma risada curta sem humor – eu acho. – Não mencione isso, eu digo nunca, de verdade – eu me levanto para sair. – Eu me sinto como uma fraude – ele diz então – todas as medalhas e

troféus que ganhei na Califórnia não significam nada, é como se tivesse tomando esteróides, ainda que não sabia disso.

Eu sei exatamente o que ele quer dizer, é por isso que larguei o balé, apesar

de amar aquilo e porque eu nunca voltei a fazer em Jackson, parecia desonesto, fazê-


159

lo facilmente, tão naturalmente, o que as outras garotas têm que trabalhar tão duro para conseguir. Foi injusto, pensei, para ter a atenção longe deles quando eu tinha uma vantagem tão grande. Então eu parei.

– Mas se eu me segurar, eu me sinto uma fraude – Jeffrey diz – E isso é pior. – Eu sei. – Eu não vou fazer isso – ele diz, olhando em meus sérios olhos cinza, ele engole, mas continua me encarando – Eu não vou me segurar, eu não vou pretender ser menos do que sou.

– Mesmo se isso nos colocar em perigo? – eu pergunto olhando para longe. – Que perigo? Angela Zerbino é perigosa? Isso é quando eu tenho que lhe contar sobre os anjos negros. Existem anjos

maus agora, anjos que nos caçam e às vezes nos matam. Há tons de cinza que não sabia antes, e isso é algo que eu deveria dizer a ele, algo que ele precisa saber, mas seus olhos estão pleiteando comigo para não tirar mais nada dele.

A mamãe nos disse que somos especiais, mas que tipo de "dom" vem com uma guerra

entre anjos, como as cordas ligadas? Talvez eu não queira mais nada tirado de mim também. Talvez eu não queira ser notável, não quero fazer ou falar alguma língua

bizarra de anjo ou salvar o mundo com um cara quente em um tempo. Eu só quero ser humana.

– Cuide-se, tá bem? – Eu digo para Jeffrey. – Eu vou – então ele diz – Obrigada, você acerta algumas vezes, você sabe.


160

– Lembre-se, da próxima vez que você me acordar às cinco da manhã – eu

digo cansada – Diga a Kimber que eu disse oi.

Então eu escapo para meu quarto e me deito no escuro pensando nas

palavras anjos negros mais e mais na minha cabeça.


161

8 GAROTA DO QUADRADO AZUL Esta manhã o sol está tão brilhante que parece que estou em pé sobre uma

nuvem congelada. Estou no topo de uma colina chamada Wide Open. É um duplo

quadrado azul – mais difícil que o círculo verde, mas não ao nível do losango preto.

Estou chegando lá. O vale abaixo é tão branco e sereno que é difícil acreditar que é a primeira semana de março.

Eu reajustei meus óculos, deslizei minhas mãos em minhas hastes, flexionei

para frente em minhas botas para testar as ligações. Tudo pronto. Lanço-me para

baixo na montanha. O ar frio chicoteia a parte exposta do meu rosto, mas estou sorrindo como uma idiota. É tão bom, o mais próximo que eu posso vir a voar. Eu

quase sinto a presença das minhas asas em momentos como este, mesmo que elas não

estejam lá. Há uma seção de mongóis de um lado da pista, e eu tento sair deles, levantando e caindo dentro e fora. Isso me faz consciente da força dos meus joelhos,

minhas pernas. Estou ficando boa em mongóis. E em ficar de pé, que é literalmente como empurrar através da nuvem, afundando até seus joelhos na fofa neve branca

que voa atrás de você enquanto você cai. Eu gosto da sensação de correr, como a primeira coisa de manhã logo após uma nova neve, para que eu possa gravar o meu próprio caminho através da fresca poeira.


162

Eu tenho feito, isso é ruim para esquiar. Pena que a temporada está quase

acabando.

Wide Open me depositou em South Pass Traverse, uma trilha que corta

quase horizontalmente a montanha. Eu endireitei meus esquis e empurrei para ganhar impulso, cortando através das arvores. Há um pássaro cantando lá em algum

lugar, e quando eu passo por ele, a pista se abre para outra ladeira habilitada,

Werner, uma das minhas favoritas, e eu parei na borda. Pessoas estavam montando os portões para slalom gigante42 na colina. Para a corrida de hoje.

O que significa que Christian estaria aqui. – Que horas é a corrida? – Perguntei a um dos rapazes que estava fazendo

a instalação.

– Meio-dia – ele respondeu de volta. Eu verifiquei meu relógio. Estava há poucos minutos antes das onze. Eu

devia ir comer, em seguida pegar a grande cadeira quadrangular43 acima para o topo da Werner e assistir a corrida.

No alojamento eu localizei Tucker Avery almoçando com uma garota. Esta

foi uma nova revelação. Eu passei quase todo fim de semana este inverno em Teton

Village44 (obrigada mamãe por não zombar na estação ridiculamente cara para 42

Slalom gigante: uma das modalidades do esqui alpino, contrapondo-se as modalidades de pura velocidade.

Descida livre e super gigante. 43

Se referindo ao teleférico.

44

região localizada no estado norte americano de Wyoming, aproximadamente 2000m acima do nível do

mar.


163

passar a temporada) e quase todo fim de semana eu vejo Tucker em algum momento

da tarde, depois que ele faz seu ensino sobre o morro do coelho. Mas não é como se eu chocasse contra ele por toda parte na montanha. Ele é mais um esquiador de áreas remotas, longe das pistas preparadas. Eu não tentei esse tipo de coisa ainda,

aparentemente exige um parceiro para isso, se algo terrível acontecesse com um de vocês o outro poderia ir pedir ajuda. Eu não estou nas coisas extremas, meu objetivo é me tornar uma garota do losango preto, nada extravagante.

Teton Village é divertido, com seus avisos sempre nos lembrando que ESTA MONTANHA NÃO É NADA QUE VOCÊ TENHA EXPERIMENTADO ANTES, E SE VOCÊ

NÃO SABE O QUE ESTÁ FAZENDO, VOCÊ PODE MORRER. Os avisos das áreas remotas dizem coisas como ALÉM DESTE PONTO É UMA ÁREA DE ALTO RISCO, QUE TÊM MUITOS RISCOS INCLUSIVE, MAS NÃO SE LIMITANDO PARA, AVALANCHES,

PENHASCOS E OBSTÁCULOS OCULTOS. VOCÊ PODE SER RESPONSÁVEL PELO CUSTO DO SEU RESGATE, e eu acho, hum, não obrigado. Eu escolho a vida.

Essa garota conversando com Tucker agora era sua parceira de área

remota? Dei alguns discretos passos para o lado então eu podia ver o seu rosto. Era

Ava Peters. Ela está na minha aula de química, definitivamente uma das pessoas mais bonitas, um busto um pouco grande com aquele super leve cabelo loiro que quase

parece branco. Seu pai é dono de uma empresa de rafting45 de águas claras. Não me

surpreende ver Tucker com uma menina popular, mesmo que ele seja definitivamente um sem-nada. Na escola eu notei que ele era um daqueles caras que parecem se darem bem com todo mundo. Todo mundo menos eu, que seja.

Ava estava usando muita maquiagem no olho. Eu me perguntava se ele

gosta desse tipo de coisa.

45

prática de descida em corredeiras em equipe, utilizando botes infláveis e equipamentos de segurança..


164

Ele olhou para mim e sorriu antes de eu ter chance de desviar o olhar. Eu

sorri de volta, depois tentei passear até o balcão de frios, mas eu não pude me puxar para longe. É impossível passear em botas de esqui. ***

Eu fiquei de pé com alguns espectadores ao lado da corrida Werner e assisti

Christian lançar-se aos portões, às vezes esbarrando neles com seus ombros enquanto

passava. Era graciosa, a maneira como seu corpo inclinava-se em direção ao portão, seus esquis chegando sobre suas bordas e seus joelhos quase roçando a neve. Seus movimentos tão cuidadosos, tão decididos. Seus lábios franzidos em concentração.

Depois que ele soprou através da linha de chegada eu andei igual pinguim

até onde ele estava assistindo os outros pilotos fazerem o curso e dizer olá. – Você ganhou? – eu perguntei

– Eu sempre ganho. Exceto quando eu não posso. Essa foi uma das vezes –

Ele deu de ombros como se não importasse, mas eu podia dizer por seu rosto que ele estava insatisfeito com seu desempenho.

– Você pareceu bem para mim. Rápido- eu digo. – Obrigado – ele disse. Ele mexeu com seu número que estava preso em seu

peito: nove. Isso me fez pensar em 99CX, sua placa.

– Você está treinando para as Olimpíadas?

esqui.

Ele sacudiu sua cabeça. Não. Eu estou na equipe de esqui, não no clube de


165

Devo ter parecido confusa, porque ele sorriu e disse: – A equipe de esqui do

ensino médio é o time oficial, que apenas compete com outros times de Wyoming. O clube do esqui é onde todas as pessoas dedicadas vão, os esquiadores que conseguem patrocinadores e reconhecimento nacional e tudo isso. – Você não quer ganhar medalhas de ouro? – Eu estive no clube, por um tempo. Mas é um pouco intenso demais para

mim. Muita pressão. Eu não quero ser um esquiador profissional. Eu apenas gosto de esquiar. Eu gosto de corrida – Ele sorriu de repente. – A velocidade é muito viciante.

Sim, é. Eu sorri. – Eu ainda estou tentando conseguir descer a colina em um

único pedaço.

– Como está indo? Pegando o jeito dela? – Melhor a cada dia. – Muito em breve você estará pronta para a pista de corrida, também. – Sim, e então é melhor você tomar cuidado. Ele sorriu. – Tenho certeza que você vai me esmagar. – Certo. Ele olhou em volta como se ele estivesse esperando alguém se juntar a nós.

Isso me deixou nervosa, como se a qualquer momento Kay fosse se materializar fora do fino ar e me dissesse para se afastar do seu namorado. – Kay esquia também? – eu perguntei


166

Ele deu uma curta risada. – Não, ela é um coelhinho na toca. Embora ela

venha de algum modo. Ela sabe como esquiar, mas ela diz que fica com muito frio.

Ela odeia as temporadas de esqui, porque eu não posso realmente fazer coisas com ela nos fins de semana.

– Isso é uma droga. Ele olhou em volta novamente. – Sim – ele disse. – Kay está na minha aula de Inglês. Ela nunca fala muito. Eu sempre me

pergunto se ela ainda lê os livros – Ok, então minha boca está completamente desconectada do meu cérebro. Eu olhei para rosto dele para ver se o ofendi. Mas ele somente riu novamente, um longo, caloroso sorriso dessa vez.

– Ela faz aulas de honra para ficar bem nos aplicativos da faculdade, mas os

livros não são realmente a coisa dela – ele disse.

Eu não queria pensar sobre o que poderia ser sua coisa. Eu não queria

pensar em Kay sobre tudo, mas agora que estávamos falando sobre ela, fiquei curiosa. – Quando você e Kay começaram a sair?

– Outono, segundo ano – ele respondeu. – Ela era líder de torcida, e

naquela época eu jogava futebol, e no jogo de reencontro ela conseguiu se machucar

fazendo a torcida da liberdade. Eu acho que é como isso é chamado – Kay normalmente conta a história. Mas ela caiu e machucou o tornozelo.


167

– Deixe-me adivinhar. Você carregou-a para fora do campo. E então foram

felizes para sempre.

Ele olhou para longe, envergonhado. – Algo como isso – ele disse. E houve o silêncio constrangedor, corrigindo o palpite. – Kay parecia... – Eu queria dizer ―bem‖, mas eu não achei que pudesse

puxar isso para fora. – Ela parece que está realmente na sua.

Ele não disse nada por um minuto, apenas olhando o curso onde alguém

estava descendo agora em um snowboard46.

– Ela está – ele disse pensativo, como se ele estivesse falando mais para ele

mesmo do que para mim. – Ela é uma boa pessoa.

– Ótimo – eu falei. Eu particularmente não queria que Kay fosse uma boa

pessoa. Estou perfeitamente confortável pensando sobre ela como uma bruxa malvada.

Ele tossiu incomodado, e percebi que estava olhando para ele com meus

grandes olhos de coruja. Eu pisquei e olhei para cima na colina onde um esquiador de snowboard estava cruzando a linha de chegada. – Boa corrida! – Christian gritou. – Fumegante!

– Obrigado cara – o esquiador falou de volta. Ele tirou seus óculos. Era

Shawn Davidson, esquiador de snowboard Shawn, o cara da Pizza Hut que me

chamava de Bozo. Ele olhou de mim para Christian e vice-versa. Eu senti seu olhar em mim como um holofote. 46

prancha para descer na neve.


168

– É melhor eu ir – Christian disse. – A corrida acabou. O treinador vai

querer comentá-la conosco no barracão de esqui, assistir os vídeos e tudo mais. – Ok – eu disse. – Prazer em...

Mas ele já tinha ido, rasgando seu caminho colina abaixo, deixando-me

mais uma vez para fazer o resto da descida da montanha sozinha. ***

No final de março atingimos um período mais quente, e a neve no vale

derreteu no espaço de cerca de dois dias. Nossos bosques se encheram de aglomerados de flores silvestres vermelhas e roxas. Brilhantes folhas verdes surgem

nos álamos47. A terra, que tem sido tão silenciosamente pura todo o inverno, enche-se com cor e ruído. Eu gosto de ficar em nossa varanda dos fundos e ouvir como o vento agita as árvores em um rítmico sussurro, o riacho que atravessa em todo o canto da

nossa terra borbulhando felizmente, pássaros cantando (e ocasionalmente mergulho

nesse bombardeio), esquilos tagarelando. O ar cheira como flores e pinheiros aquecidos no sol. As montanhas atrás da casa ainda estão brancas com a neve, mas a primavera está definitivamente brotando.

Com ela vem a visão, em pleno vigor. Todo inverno aquele formigamento

particular na minha cabeça tem estado tranqüilo; na verdade, ele só veio para mim duas vezes desde o primeiro dia na escola quando eu vi Christian no corredor. Eu

pensei que estava sendo dado um pequeno intervalo divino, mas aparentemente

aquilo foi mais. Estou a meio caminho para escola uma manhã quando de repente (poof!) estou de volta naquela floresta familiar, caminhando através das árvores em direção a Christian. 47

nome de árvore


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Eu chamo seu nome. Ele se vira em minha direção, seus olhos de um verde

ouro na luz da tarde inclinada.

– É você – ele disse roucamente. – Sou eu – respondi. – Estou aqui. – Clara! Eu pisco. A primeira coisa que vejo é a mão de Jeffrey sobre o volante do

Toyota Prius. Meu pé ainda está descansando levemente sobre o acelerador. O carro se move muito lentamente para o lado da estrada.

– Sinto muito – eu suspirei. Eu encostei imediatamente e estacionei. –

Jeffrey, eu sinto muito.

– Está tudo bem – ele murmurou. – É a visão, certo? – Sim. – Depois não é como se você pudesse controlar quando isso acontece. – Sim, mas você não acha que isso poderia acontecer num momento em

que não pudesse realmente me matar? E se eu batesse?

– Mas você não bateu – ele disse. – Eu estava aqui. – Graças a Deus.


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caminho?

Ele sorriu maliciosamente. – Então isso significa que posso dirigir o resto do

Quando eu falar para minha mãe sobre o retorno da visão, ela começará

falando sobre me ensinar a voar novamente, usando a palavra ―treinamento‖ tantas vezes que nossa casa se sente como se tivesse sendo convertida em uma espécie de

acampamento. Ela fica em um humor vibrante todo o inverno, passando a maior parte do seu tempo em seu escritório com a porta fechada, bebendo chá e encurvada em uma manta de crochê. Sempre que eu bato ou enfio minha cabeça ela sempre fica

com aquele olhar tenso, como quem não quer ser incomodada. E, sinceramente, tenho estado quase a evitando desde o primeiro dia com a Angela, quando se tornou

tão claro que mamãe intencionalmente me manteve no escuro. Gastei muitas tardes

na Pink Garter com Angela, a qual mamãe não gosta, mas como é tecnicamente relacionada com a escola (estamos trabalhando em nosso projeto Rainha Eliz depois

de tudo) ela não pode formalmente contestar. E nos fins de semana, eu tenho estado

nas pistas de esquis. Que é, em minha opinião, relacionado a Christian e, portanto, objetivo relacionado. Portanto, é tecnicamente treinamento, certo.

Só que agora a neve sobre a montanha está ficando muito fina. *** Wendy toma um clima quente como uma oportunidade para me convencer

a andar a cavalo. Então me encontro na fazenda Lazy Dog sentada na garupa de uma égua preta e branca chamada Sassy. Wendy disse que Sassy é um bom cavalo para

aprender, porque ela tem cerca de trinta anos de idade e não tem muita luta restando nela. Isso é ótimo para mim, então eu imediatamente me senti confortável na sela, como se eu tivesse montado toda minha vida.


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– Você está indo muito bem – Wendy disse, observando-me da cerca

enquanto eu montava o cavalo lentamente ao redor da beira do pasto. – Você é uma amazona natural.

As orelhas de Sassy se animaram. À distância eu vi dois homens a cavalo,

galopando em direção ao grande celeiro vermelho no fim do pasto. O som deles rindo flutuou em direção a nós através do campo.

– Aqueles são meu pai e Tucker – Wendy disse. O jantar estará pronto em breve. É melhor trazer Sassy para dentro. Eu dei um leve chute em Sassy e ela partiu em direção ao celeiro. – Hey vocês! – o Sr Avery nos cumprimentou assim que nos aproximamos.

– Parecem bem.

– Obrigada. Eu sou Clara. – Eu sei – o Sr Avery disse. Ele parecia muito com Tucker. – Wendy tem

estado falando sobre você sem parar por meses já – Ele sorriu, o que o fez parecer ainda mais com Tucker.

– Pai – Wendy resmungou. Ela caminhou até o cavalo de seu pai e esfregou-o sob o queixo. – Oh senhor – Tucker riu. – Ela montou na velha Sassy. Eu prometi a mim mesma que estava indo me acalmar ao redor de Tucker

hoje, pelo bem da Wendy, não importa o que ele jogue em mim. Sem comentários grosseiros. Sem represálias. Estarei no meu melhor comportamento.


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Sassy.

– Eu gosto dela – eu me inclinei para frente e passei a mão no pescoço de

– Ela é o cavalo em que colocamos as crianças pequenas em cima. –Tucker, cala a boca – Wendy disse. – Mas é verdade. Aquele cavalo não se moveu mais rápido que um caracol

em cerca de cinco anos, eu acho. Sentar-se sobre ela é praticamente como sentar-se em uma cadeira. Bem vamos mostrar a ele. – Boa garota – eu disse para Sassy, muito suavemente em angélico. Suas

orelhas chicotearam por toda parte para ouvir minha voz. – Vamos correr – eu sussurrei.

Fiquei surpresa com a rapidez com que ela obedeceu. Em segundos

estávamos em pleno galope, chicoteando através de todo o pasto. Por um momento o mundo desacelerou. As montanhas ao fundo irradiavam um pêssego ouro, iluminada

pelo sol poente. Eu aproveitei o ar fresco da primavera acariciando minha pele, o

forte, árido tato do cavalo debaixo de mim, suas pernas estendendo-se como se ela estivesse puxando a terra debaixo de nós enquanto corria, o vai e vem do bufar de seu hálito de feno perfumado. Era maravilhoso.

Em seguida uma rajada de vento soprou meus cabelos através do meu rosto

e por um momento de pânico não pude ver uma coisa, e tudo estava indo muito

rápido. Eu me imaginei sendo jogada fora, e que aterrisava de cara em um monte de

estrume, Tucker caindo sobre si mesmo rindo. Eu balancei minha cabeça freneticamente, e meu cabelo de repente saiu dos meus olhos. Recuperei meu fôlego.


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A cerca estava invadindo nossa direção, e Sassy não mostrou nenhum sinal de abrandamento.

– Você pode saltá-la? – eu perguntei, ainda sussurrando. Ela era, afinal, um

cavalo muito velho.

Senti seu franzido debaixo de mim. Falei uma pequena oração e me

inclinei sobre seu pescoço. Em seguida estávamos no ar, apenas transpondo a cerca.

Descemos tão forte que meus dentes tiniram juntos. Eu virei o cavalo em direção ao celeiro, puxando as rédeas um pouco para diminuí-la. Trotamos até Tucker, Wendy, e Sr Avery, que estavam olhando para mim com suas bocas entreabertas. Tanta coisa para estar no meu melhor comportamento. – Uou – eu disse, e puxei as rédeas até Sassy parar. – Caramba – Wendy suspirou. – O que foi isso?

cavalo.

– Eu não sei – forcei uma risada. – Acho que foi principalmente idéia do

– Isso foi incrível! – Eu acho que ela ainda tem um pouco de atrevimento depois de tudo –. Eu

olhei triunfante para Tucker.

Pela primeira vez Tucker ficou sem palavras. – Isso sem dúvidas – disse Sr Avery. – Eu não sabia que esta velha garota

tinha isso dentro dela.


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– Há quanto tempo você tem estado cavalgando? – perguntou Tucker. – Essa é sua primeira vez, não é fantástico? – Wendy disse. – Ela é natural. – Certo – Tucker disse, encontrando meu olhar regularmente. – Natural. ***

– Então, você já convidou Jason Lovett para o baile de formatura? – eu

perguntei a Wendy enquanto escovávamos a penugem de Sassy no celeiro alguns minutos depois.

Ela ficou imediatamente da cor de uma beterraba. – O baile – ela disse com

uma leveza forçada. – Ele deveria me convidar, certo?

– Todo mundo sabe que ele é o tipo tímido. Ele provavelmente está

intimidado por sua beleza. Então você deve convidá-lo.

– Mas talvez ele tenha alguma namorada na Califórnia. – Relação de longa distância. Está condenada. De qualquer forma, você não

tem certeza. Pergunte a ele. Então você vai descobrir. – Eu não sei...

– Wen, vamos lá. Ele gosta de você. Ele olha para você por toda aula de

Inglês. E eu sei que você tem excitação por ele, também. O que há com você e os californianos, de qualquer maneira?

Fez-se um silêncio por um minuto, o único som constante era do cavalo

respirando. – Então o que está acontecendo com você e meu irmão? – Wendy perguntou. Completamente fora do ar.


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– Seu irmão? O que você quer dizer com... Acontecendo? – Parece que está acontecendo algo por lá. –Você está brincando, certo? Nós só gostamos de mexer um com o outro,

você sabe disso.

– Mas você gosta dele, não gosta? Minha boca caiu aberta. – Não, eu... – eu parei. – Você gosta de Christian Prescott – ela finalizou por mim, arqueando uma

sobrancelha. – Sim, eu posso dizer. Mas ele é como um deus. Você venera os deuses, mas você não sai com eles. Você só gosta de caras como esses à distância. Eu não sabia o que dizer. – Wendy... – – Olha, eu não estou empurrando você para meu irmão. Isso me dá

arrepios, sinceramente, minha melhor amiga namorando meu irmão. Mas eu queria dizer a você, caso esteja interessada, que estaria tudo bem. Poderia comunicar isso. Se você quiser sair com ele...

– Mas Tucker não gosta mesmo de mim – eu falei apressadamente. – Ele gosta de você. – Poderia ter se enganado. – Na escola primária, você já não tinha um menino socando você no braço?


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– Tucker era um menininho no colégio. – Ele ainda está na escola primária, confie em mim – ela disse. Eu olhei para ela. – Então você está dizendo que Tucker é assim um idiota

porque ele gosta de mim? – Exatamente. – Sem chance.

Eu balancei minha cabeça em descrença. – O pensamento nunca passou por sua cabeça? – Não! – Huh – ela disse. – Não vou ficar no caminho nem nada, está tudo bem. Meu coração estava batendo rápido. Eu engoli. – Wendy, eu não gosto do

seu irmão. Não dessa maneira. Nem de qualquer maneira. Sem ofensa.

– Não me ofendi – ela disse com um encolher de ombro casual. – Eu apenas

queria que soubesse que estou bem com isso, a coisa de você e Tucker, se houver sempre uma coisa entre você e Tucker.

coisa?

– Não há uma coisa entre eu e Tucker, OK? Então podemos falar de outra

– Claro – ela disse, mas podia dizer pelo olhar pensativo em seu rosto que

ela queria dizer mais coisas.


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9 VIDA LONGA À RAINHA – Consigo entrar nisso sozinha? – eu pergunto.

resto.

– Coloque o máximo que conseguir – Angela diz – e eu vou te ajudar com o

Eu contemplo o vestido e todas as suas partes, as quais estão penduradas em

um cabide no camarim do Pink Garter, isso parece complicado, talvez nós devêssemos ter seguido com a idéia dos Anjos.

– Quanto tempo eu tenho que usar isso amanhã? – eu perguntei colocando

as meias de seda e amarrando com uma fita abaixo do joelho.

– Não muito – Angela respondeu – Eu vou te ajudar a colocar isso antes da

apresentação e então você irá usar durante a apresentação inteira.

– Só para que você saiba, isso pode me matar, eu talvez tenha que sacrificar

minha vida para nós termos uma boa nota nesse projeto.


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– Tão nobre de você – ela diz. Eu luto com o espartilho e os loucos arcos longos da anágua, então pego o

cabide com o vestido e marcho para o palco.

digo.

– Eu acho que eu preciso amarrar o espartilho antes de colocar o resto –

Ela pula para me ajudar, isso é uma grande coisa sobre a Angela, ela nunca faz nada pela metade, ela puxa os cordões. – Não tão apertado, eu ainda tenho que respirar, lembra? – Para de chorar, você tem sorte de não encontrarmos barbatanas de

verdade para essa coisa.

Quando ela solta o vestido pela minha cabeça eu sinto o que tenho em cada

peça da roupa na liga. Ela anda em minha volta puxando as peças para baixo para se certificar que está tudo certo, ela se afasta – Wow! Isso é bom, com a maquiagem e o penteado certo, você irá parecer igualzinha à rainha Elizabeth.

– Ótimo – eu digo sem entusiasmo – Eu irei parecer uma azeda pálida. – Ah! Eu esqueci o babado. Ela pula para baixo do palco e corre até uma caixa de papelão no chão, ela

pega um colar duro rodado que se parece com aquela coisa que colocam no cachorro para não deixar ele se lamber, tem mais dois para os pulsos.

– Ninguém disse nada sobre babados – eu disse me afastando.


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Ela pula em mim, suas asas saindo como um flash e batendo algumas vezes

levando-a facilmente para o palco, em seguida desaparecendo. – Sai fora.

gênio.

– Agüenta – ela coloca o babado final na minha manga – Minha mãe é um

Como se tivesse sido chamada Ana Zerbino vem do hall de entrada com uma pilha de toalhas de mesa, quando ela me vê pára no corredor.

a baixo.

– Então serviu – ela diz, seus olhos escuros sem alegria me olhando de cima

– É otimo – digo – Obrigada por todo o seu trabalho. Ela acena. – O jantar está pronto lá em cima. Lasanha. – Ok, então terminamos a prova – digo para Angela – Me tira dessa coisa.

– Não tão rápido – sussura Angela, olhando para sua mãe por cima dos ombros – Nós não fizemos muito sobre nossa outra pesquisa. Ela é tão previsível, sempre com a pesquisa sobre anjos. – Vamos lá – eu digo – Lasanha. – Nós já vamos subir, mãe – Angela diz, ela finge brincar com meu colar

até sua mãe sair do teatro, assim que estamos sozinhas ela diz – Eu descobri algo bom.


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– O quê? – Anjos, digo anjos completos, são todos homens. –Todos homens? – Não há mulheres. – Interessante, agora me ajuda a tirar esse vestido. – Mas eu acho que anjos podem parecer mulheres se quiser, eu acredito

que eles podem mudar de forma, como mutantes – ela diz, seus olhos dourados dançando de excitação.

– Então eles podem virar gatos, passarinhos e coisas? – Sim, mas mais que isso – ela diz – Eu tenho outra teoria. – OH! Aqui vamos nós – eu gemo. – Eu acho que todas as histórias sobre criaturas sobrenaturais, como

vampiros, lobisomens, fantasmas, sereias, alienígenas, você nomeia isso, poderiam ser relacionadas aos anjos, humanos não sabem o que estão vendo, mas isso poderia ser um anjo em outras formas.

Angela tem algumas teorias, mas elas nem sempre são legais para

considerar.

– Terrível – digo – Agora vamos comer. – Espera – ela diz – eu também achei algo sobre seu cabelo.


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– Meu cabelo? – A coisa brilhante que você me contou – ela anda ao lado da mesa e pega

suas anotações, olhando nelas –É chamado de Comae Caelestis. Os romanos usavam essa frase para descrever "brilhantes raios de luzes emanando dos cabelos, um sinal de ser divino".

– O que, você achou isso na internet? – eu pergunto rindo, ela concorda, como sempre Angela pegou um pedaço de informação que eu dei para ela e transformou em uma mina de ouro.

– Eu queria que isso acontecesse comigo – ela diz, torcendo uma mecha de

cabelo em seu dedo – Eu aposto que é bonito.

– É demais, ok! E você teria que pintar seu cabelo. Ela gesticula como se aquilo não fosse ruim para ela. – Então o que você tem para mim essa semana? – Essa é uma grande, uma

coisa que provavelmente eu devia ter falado antes, apesar que eu especialmente não

queria falar sobre propósito, porque eu teria que falar sobre o meu, mas agora eu já tinha falado para ela literalmente tudo o que eu sabia, eu até abri meu diário angélico e mostrei minhas notas antigas, secretamente eu esperava que com seu infinito conhecido ela já soubesse sobre propósito. – Defina propósito – ela diz. Sem nenhuma sorte. – Primeiro me tira dessa coisa – eu falei batendo as mãos no vestido.


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Ela se moveu em minha volta rapidamente, tirando e abrindo todos os laços

e cordões, vou para os bastidores para trocar de roupa, quando eu volto, ela está sentada em uma mesa batendo sua caneta no caderno. – Bem – ela diz – Me diga. Eu me sento na frente dela. – Todo descendente tem um propósito na Terra, geralmente isso vem de

uma visão.

Ela escreve furiosamente no caderno. – Quando você tem as visões? – ela pergunta. – É diferente para cada um, mas às vezes entre treze e vinte anos,

geralmente isso acontece depois que seus poderes se manifestam, eu só tive o meu ano passado.

– E você só recebe um propósito? – Até onde eu saiba. – E o que acontece quando você completa isso? – você pode viver uma vida

normal, uma vida feliz?

– Eu não sei – eu digo de novo – Minha mãe não me diz nada sobre isso. – Qual é o seu? – ela pergunta ainda escrevendo.


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segredo?

Ela olha para cima quando eu não respondo – Ah!! Isso é para ser um

– Eu não sei, é só que é pessoal. – Tudo bem – ela diz – você não tem que me contar. Mas eu quero contar para ela, eu quero falar sobre isso com outra pessoa a

não ser minha mãe.

– É sobre Christian Prescott. Ela derruba a caneta, seu rosto tão surpreso que quase rio. – Christion Prescott? – ela repete como se eu estivesse brincando. – Eu vejo uma floresta pegando fogo e então eu vejo o Christian parado nas

árvores, eu acho que supostamente eu tenho que salvar ele. – Nossa. – Eu sei. Ela fica quieta por um tempo. – É por isso que você se mudou para cá?

– Sim, eu vi o carro dele na visão e consegui ver a placa, dessa forma sabia

que tinha que vir para cá. – Nossa.


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– Você pode parar de dizer isso. – Quando isso é para acontecer? – Eu adoraria saber, durante a temporada de queimada é tudo o que eu sei. – Agora entendo sua obsessão por ele. – Ange! – Ah! Vamos lá, você fica hipnotizada olhando para ele durante toda a aula

de história britânica, eu pensei que você só estava com uma paixonite, como toda a escola, estou feliz em descobrir que você tem uma boa razão.

– Bem, chega de papo de anjo – eu digo me levantando, eu tenho certeza

que estou bem vermelha nesse ponto – nossa lasanha tá ficando fria.

– Mas você não me perguntou sobre meu propósito – ela diz. Eu paro. – Você sabe seu propósito? – Bom, eu não sabia até agora que isso era meu propósito, mas eu venho

tendo a mesma visão toda vez, por aproximadamente três anos. – O que é? Se você não se importa em me dizer. Ela parece séria do nada.


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– Não, tudo bem – ela diz – Há um grande campo e eu estou andando para

lá rápido, quase correndo, como se estivesse atrasada, tem um monte de pessoas em volta, pessoas com bolsas e copos de café, então eu acho que é um campus

universitário ou algo assim, é de manhã, eu corro por uma rua de pedras e no topo tem um homem de terno cinza, eu coloco minha mão em seu ombro e ele se vira.

Ela para de falar, olhando o teatro escuro como se estivesse tendo a visão. – E? – pergunto. Ela me olha incomodada. – Eu não sei, eu acho que tenho que entregar uma mensagem para ele, há

palavras que eu tenho que dizer, mas eu nunca consigo lembrar o que é.

– Você vai lembrar, quando for o tempo – eu digo parecendo minha mãe. O que é bom sobre Angela, eu penso quando deito na cama, é que ela me

lembra que não estou sozinha, talvez eu não deva me sentir sozinha, de qualquer forma desde que eu tenha minha mãe e Jeffrey, mas me sinto, como se fosse a única pessoa no mundo que tem um propósito divino, e agora eu não sou mais, e Angela

com toda sua sabedoria não sabe mais do que eu sobre seu propósito, e nenhuma pesquisa ou teoria pode ajudá-la, ela simplesmente vai ter que esperar a resposta, saber isso me faz sentir melhor.

– Hei você – minha mãe diz colocando a cabeça em meu quarto – Você teve

um bom tempo com a Angela? – sua expressão neutra como sempre quando o assunto é a Angela.

– Sim, nós terminamos o projeto, estaremos apresentando amanhã, então

acho que não iremos nos encontrar muito mais.


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– Bom, assim teremos tempo para lições de vôo. – Demais. Ela franze a testa – eu estou feliz sobre a Angela – ela entra no meu quarto

e senta perto de mim na cama – Eu acho maravilhoso que você possa ter um descendente como amiga. – Você acha? – Claro, você tem que ter cuidado, isso é tudo. – Certo, porque tudo mundo sabe o quão rebelde é a Angela.

– Você sente que pode ser você mesma perto dela – ela diz – eu entendo

isso, mas descendentes são diferentes, eles não são como seus amigos normais, você nunca sabe qual é a verdadeira intenção deles. – Muito paranóica? – Só tenha cuidado – ela diz.

Ela nem conhece a Angela ou seu propósito, ela nem sabe como divertida e

inteligente Angela é, todas as coisas legais que eu aprendi com ela.

– Mãe – eu digo hesitante – Quanto tempo você demorou em juntar as

peças de seu propósito? Quando você teve certeza o que você tinha que fazer? – Eu não tinha.


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Seus olhos estão tristes por alguns segundos, e então sua expressão se torna fechada,

seu corpo endurecendo por todo o caminho até seu rosto. Ela acha que já falei demais. Ela não vai me dar outra coisa. Eu suspiro.

– Mãe, porque você simplesmente não me diz? – Quero dizer – ela continua como se não tivesse me ouvido – que eu não

tinha certeza absoluta, o processo todo é bem intuitivo.

Ouvimos uma explosão de música quando Jeffrey saiu de seu quarto e foi

trombando seus pés enormes no corredor até o banheiro. Quando eu olho para mamãe.

Vejo que ela é seu próprio sol. – Em alguma parte disso você tem que ter fé – ela diz. – Sim eu sei – eu digo resignada, um nó se formando na minha garganta.

Eu tenho tantas perguntas. Mas ela não quer respondê-las. Ela nunca deixa me entrar em seu mundo secreto de anjo, e eu não entendo o porquê.

amanhã.

– Eu devo dormir – digo – Grande apresentação de história britânica

– Tudo bem. Ela parece exausta, com olheiras, eu até percebo algumas finas linhas em

volta de seus olhos que nunca havia visto, ela pode se passar por quarenta agora, o que é bom considerando que ela tem 118 anos, mas eu nunca a vi tão esgotada.


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– Você está bem? – pergunto, coloco minha mão na dela, sua pele está

gelada e úmida, o que me assusta.

– Estou bem – ela tira sua mão da minha – está sendo uma longa semana. Ela levanta e vai para a porta. – Você está pronta? – ela alcança o interruptor. – Sim. – Boa Noite – ela diz apagando a luz.

corredor.

Por um momento ela fica parada na porta, sua silhueta formada pela luz do – Eu te amo Clara – ela diz – Não se esqueça, ok? Eu quero chorar, como deixamos aparecer esse buraco tão grande entre nós

em tão pouco tempo?

– Eu te amo também, mãe. Ela sai e fecha a porta, então estou sozinha no escuro. – Mais um casaco – diz Angela. – Seu cabelo é tão. . . Agravante! – Eu te disse – eu digo. Ela solta outra nuvem tóxica de spray de cabelo na minha cabeça. Eu tossi. Quando

meus olhos param de arder eu olho para o espelho. A rainha Elizabeth me olha de volta, ela não parece divertida.


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– Eu acho que nós podemos tirar um A. – Alguma vez você duvidou? – Angela diz, arrumando seus óculos no nariz

– Eu estou fazendo a maior parte de falas lembra? Você só tem que ficar parada e parecer bonita.

– Isso é facil para você falar – eu resmungo – Essa roupa deve pesar uns

cem quilos.

Ela rola os olhos. – Espera um minuto – eu digo – Quando você começou a usar óculos? Você

tem uma visão perfeita.

– É meu personagem, você é a rainha e eu a estudiosa nerd que sabe

exatamente tudo sobre a época de Elizabeth.

– Nossa, você tem problemas, sabia? – Vamos – ela diz – O sinal está para tocar. Os outros alunos abriram passagem para mim enquanto seguia Angela pelo

corredor, eu tentei sorrir quando eles apontavam e cochichavam, nós paramos bem na porta fechada da aula de história. Angela se vira e começa a mexer com o meu vestido.

– Bela gola – ela brinca. –Você me deve tanto.


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– Espera aqui – ela parece um pouquinho nervosa – Eu vou te anunciar. Depois que ela desliza para a sala eu fico no corredor ouvindo, esperando,

meu coração começa a bater depressa, eu ouço a Angela falando e o senhor Erikson respondendo, a classe ri de algo que ele diz, eu espio sobre a pequena janelinha

retangular da porta, Angela está parada na frente da classe, apontando para o pôster

que arrumamos com a vida da rainha Elizabeth, ela irá me anunciar depois da morte da rainha Mary, a qualquer minuto agora, eu respiro profundo e arrumo meu corpo o mais reto que consigo sobre o pesado vestido.

Christian está lá, eu posso vê-lo pela janela, sentado na primeira fila, com

sua cabeça em suas mãos. Christian tem o melhor perfil.

– Então sem mais delongas – Angela diz alto – Eu lhes trago sua alteza real

Rainha Elizabeth da primeira da casa de Tudor, Rainha da Inglaterra e Irlanda... Tucker abra a porta.

A porta se abre e eu ando para dentro com toda a pose que consigo,

cuidadosamente para não pisar na saia do vestido, vou até o centro e paro atrás de Angela, a classe parece tomar um suspiro coletivo.

Claro que nós não conseguimos a réplica exata de nenhum dos vestidos dos retratos de Elizabeth que imprimimos pelo Wikipedia, os mesmo encrustados com esmeraldas e rubis e feitos com metros e metros de tecidos caros, mas a mãe da Angela fez uma ótima imitação.

O vestido é de uma cor dourada profunda, com um padrão de brocado de

prata e uma camisola de seda branca que cutuca com as mangas. Nós colamos pérolas falsas e jóias de vidro em todas as bordas. O espartilho termina em um

pequeno triângulo na frente e, depois, a saia parece ter chamas para fora e para baixo até o chão. As golas em meu pescoço e punhos são feitas de renda branca dura,


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também decorada com pérolas artificiais. Para completar, meu rosto é pintado quase

branco, algo que é suposto representar a pureza de Elizabeth, com lábios vermelhos. Angela partiu meu cabelo no meio e rolou em um coque elaborado trançado nas

costas, então fixadas em um pequeno capacete em forma de coroa feitas de arame e pérolas, com uma pequena pérola que oscila bem no meio da minha testa, e um longo pedaço de veludo branco paira ao lado das costas, como um véu de noiva.

A classe me encara como se eu fosse a verdadeira rainha Elizabeth,

transportada pelo tempo, eu subitamente me sinto bonita e poderosa, como se realmente tivesse sangue real em minhas veias, eu não sou mais o Bozo. – A rainha Mary está morta – Angela diz – Vida longa à rainha Elizabeth. Agora é minha vez, eu fecho meus olhos, pego todo o ar que consigo com o

espartilho, então levanto a cabeça e olho para a classe como meus súditos leais.

– Meus lordes, as leis da natureza se manifestam para eu lamentar por

minha Irmã – eu digo no melhor sotaque britânico que consigo – O fardo que cai sobre mim me faz maravilhada e ainda considerando que sou uma criatura de Deus,

ordenada para obedecer seus desejos, eu irei fazer o melhor que puder, desejando do fundo do meu coração que eu talvez possa ter a assistência de sua graça para ser o ministro .

A classe está quieta, eu olho para Christian o qual está me encarando como

se nunca tivesse me visto antes, nossos olhos se encontram, ele sorri. Eu subitamente sinto um cheiro de fumaça no ar.

Agora não, eu penso, como se eu mandasse na visão, as próximas linhas do

meu discurso voam da minha cabeça, eu começo a ver as pontas das árvores.


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Por favor, eu penso na visão desesperada, vai embora. Sem chance, eu estou com Christian na floresta, eu olho em seus olhos

dourados, ele está tão perto dessa vez, tão perto que posso sentir seu cheiro

maravilhoso de sabonete, eu poderia levantar a mão e tocá-lo, eu quero, eu não acho que já quis tanto algo em minha vida, mas eu sinto a tristeza me consumindo, a dor é

tão forte e dolorosa que meus olhos instantaneamente inundam de lágrimas. Eu quase tinha esquecido da tristeza. Eu abaixo minha cabeça, e é quando vejo que ele está segurando a minha mão, os dedos longos de Christian estão ao redor dos meus, seu

polegar se arrastando sobre meus dedos, eu respiro fundo chocada. O que isso significa?

Eu olho para cima e estou na classe de novo, encarando o Christian. Alguém resmunga, o Sr. Erickson olha para mim com expectativa. Eu posso

sentir a tensão de Angela, levantando-se para fora dela, em ondas. Ela quer me dar as notas, talvez não fosse uma má idéia.

– Sua majestade? – solicita o Sr Erickson. Eu de repente lembro minhas falas. – Tome o coração – eu digo rápido, sem conseguir tirar os olhos de

Christian, ele sorri de novo, como se estivéssemos tendo nossa própria conversa.

– Eu sei que tenho o corpo de uma mulher fraca e frágil – eu sigo – mas eu

tenho o coração e o estômago de um rei.

– Aqui, aqui – Angela diz, seus olhos dourados arregalados atrás dos óculos

– Vida longa à rainha.


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– Vida longa à rainha – o professor repete, e então a classe inteira está

dizendo isso.

Eu não consigo deixar de sorrir, Angela parece aliviada que minha parte

está feita, começa a entrar nos detalhes do reinado de Elizabeth, agora eu só tenho que ficar lá parada e parecer bonita, como ela me disse, e tentar acalmar a corrida no meu coração.

– Claro que por um longo tempo todos na Inglaterra pareciam interessados em achar o marido ideal para Elizabeth – Angela diz, olhando para o Sr. Erickson

como se estivesse provando uma teoria – Todos duvidaram que ela seria capaz de

governar sozinha, mas ela acabou se tornando a melhor e mais reverenciada monarca da história, ela deu início a uma era dourada na Inglaterra.

– Sim, mas ela não morreu virgem? – Tucker pergunta do fundo da sala. Angela não vacila. Ela imediatamente se lança em seu material sobre a

Rainha Virgem, a forma como Elizabeth usou a imagem da virgem para fazer seu estado de solteira mais atraente.

Tucker está de pé na parede de trás, sorrindo. – Senhor Tucker – eu digo de repente, interrompendo Angela. – Sim? – Eu acredito que a resposta correta é sim, SUA MAJESTADE – Eu digo no

meu tom arrogante. Eu não posso deixá-lo zombar de mim na frente de toda a classe, posso?

– Sim, sua majestade – ele diz sarcasticamente.


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– Ela é a rainha hoje – o Sr. Erickson diz, indo para sua cadeira – Eu ficaria

quieto se fosse você.

– Você poderia tirar seu título – sugeriu Brady, aparentemente não ligando

por ter sido usurpado de seu trono – Faça dele um servo.

– Sim – diz Christian – Faça dele um servo, ser um servo é um saco. Como servo o pobre Christian tinha sido morto várias vezes em nossa

classe, fora ter morrido de peste negra em seu primeiro dia, ele morreu de fome, teve

suas mãos cortadas por roubar e foi atropelado pelo cavalo de seu mestre apenas por diversão, ele é tipo o quinto Christian agora.

– Ou você poderia se livrar dele, jogando ele da torre de Londres, mandar

esquartejá-lo ou talvez, mandar fazer uma lavagem intestinal – diz Sr. Erickson rindo, você tem que admirar um professor que sugere uma lavagem intestinal.

– Talvez devêssemos pôr isso em votação – digo olhando friamente para o

Tucker, lembrando que ele quase me queimou como bruxa, doce vingança.

– Todos a favor da morte do senhor Tucker, o herege, levantem a mão – Angela diz rapidamente, eu olho pelas mãos levantadas da sala, é unânime, com excessão de Tucker que continua no fundo com os braços cruzados. – Lavagem intestinal, então – eu digo. – Eu irei anotar isso – o Sr. Erickson diz alegremente. – Agora que isso está acertado – Angela continua, me olhando afiado –

deixe-me dizer sobre a derrota da Armada Espanhola.


195

Eu jogo um olhar triunfante para o Tucker, o canto de sua boca se forma

em um meio sorriso, ele acena para mim, como se dizendo Touché, ponto para Clara,

– O que foi aquilo? – Angela silva enquanto nos dirigimos para o banheiro. – O lance com o Tucker? Eu sei! Eu não consigo entendê-lo. – Não, a parte onde você viajou no meio da apresentação e me deixou plantada na frente da classe toda. – Desculpe – eu digo – eu tive a visão hoje, por quanto tempo fiquei fora? – Algo em torno de dez segundos, mas esses foram os dez segundos mais

longos da minha vida, eu pensei que ia ter que te dar um tapa.

– Desculpe – disse de novo – não é algo que possa controlar. – Eu sei, está tudo bem – nós entramos no banheiro feminino e ficamos no

corredor, enquanto Angela desmontava o vestido e eu passava fora dele. Ela desata o espartilho e eu suspiro de alívio, finalmente capaz de tomar uma respiração completa.

– Voce viu a floresta? – ela pergunta, olhando para ver se estamos

realmente sozinhas.

– Não, não dessa vez.

Christian.

Ela sorri maliciosamente quando ela me dá a minha camiseta. – Você viu o


196

Sinto um rubor subindo pelo meu rosto. – Sim. – Eu removo cuidadosamente a parte de cima para entregá-lo à

Angela, em seguida, puxo a camisa sobre a minha cabeça.

– Então você está tipo olhando o Christian na aula e, em seguida, você

estava olhando para ele no futuro. Isso é bárbaro, C.

– Me fale sobre isso – eu coloco minha calça jeans e vou ao espelho para ver os danos ao meu cabelo – Ai, eu preciso de um banho. – E no futuro, o que acontece? – Nada – digo rápido – Foram apenas dez segundos, se lembra? Não ouve

tempo para acontecer nada.

Dirijo-me para a pia e abaixo a cabeça para jogar água no rosto,

observando a maquiagem branca se dissolvendo em minhas mãos e indo para o ralo. O legal é que a água se sente bem na minha pele corada. Angela me entrega uma

toalha de papel para me secar, em seguida, limpei o batom vermelho brilhante. Ela pega uma escova de sua mochila e começa a puxar os pinos do meu cabelo.

– Nada de novo, hein? – diz ela, sua mira com os olhos no espelho. –

Nenhuma parte da nova visão?

Eu suspiro. Eu poderia muito bem dizer-lhe. Angela tem uma maneira de

desentocar a verdade de uma forma ou de outra. Ela não é nada se não for perspicaz e persistente.

– Ele era – eu comecei com suavidade. – Nós estávamos. . . De mãos dadas.


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– Cale a boca! – exclama Angela. – Então, vocês dois são como namorados! – Não! – eu protesto. – Quero dizer, talvez. Eu não sei o que somos. Nós

estamos de mãos dadas, e daí? Isto não necessariamente significa alguma coisa.

– Ah, certo. – Angela olha para mim incrédula quando ela puxa a escova de

cabelo através do meu spray de cabelo saturado. – lembra. – Você sabe que está totalmente apaixonada por ele.

– Eu nem o conheço muito bem. Ouch! Cuidado! – Bem, eu o conheço desde infância – diz Angela, ignorando meus protestos

de como ela trabalha o emaranhado dos meus cabelos. – E confie em mim quando digo que Christian Prescott é tudo o que é para ser. Ele é inteligente, engraçado, simpático, e, oh, yeah, mais quente que o inferno em julho.

– Parece que talvez você esteja apaixonada por ele – eu indico. – Oitava série – diz Angela. – Festa de aniversário da Ava Peters. Brincamos

de girar a garrafa. Minha garrafa parou no Christian, nós nos beijamos. – E então? – digo.

– E ele estava bem. Mas não houve faíscas. Sem química. Nada. Foi como

beijar meu irmão. Não se preocupe, ele é todo seu, C.

– Ei, essa visão é um emprego, lembre-se – eu digo. – Não é uma data. E eu

acredito que ele é todo da Kay, então chega de papo furado.

Ela zomba – Kay é bonita, e ela é boa o bastante para ter a atenção dele, mas

ela é só uma garota normal, você é um ser angélico, você é inteligente e mais atrativa


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que ela de várias formas, você é genéticamente superior, tá, tem essa coisa com o seu cabelo, é uma cor horrível, distrai as pessoas, que seja, mas você é totalmente hot, você tem todo um jeito Scarlett Johansson em você, com excessão dos seios, todos os

caras daqui sabem quem você é, acredite em mim – e então ela continua – além de que o Christian e a Kay estão praticamente acabados.

– O que você quer dizer? O que você ouviu? – Nada – ela diz alegremente. – É apenas uma linha do tempo, você sabe? Esse tipo de relacionamento tem uma vida útil definida. – Que tipo de relação é essa exatamente? Ela olha para mim calmamente. – O tipo físico. O que, você acha que

Christian se sente atraído pela sagacidade deslumbrante de Kay?

– A data de validade está quase terminando. Confie em mim – ela diz,

quando eu não respondo, o canto da boca se torce em seu sorriso mal. É inacreditável que suas asas são mais brancas que a minha.

– Você é estranha, sabia? – Eu digo, balançando a cabeça. – Esquisita. – Espere – diz ela. – Você vai ver. Logo ele vai ser todo seu. Ele é o seu

destino, depois de tudo. – Ela agita os cílios.

– Ah! Realmente, você acha que o meu propósito é sobre conseguir um

namorado? Isso seria muito bom e tudo, porque claro que eu poderia usar alguma ajuda na parte romântica, mas você não acha que o mundo é um pouco maior do que eu e o Christian e nossa vida amorosa?


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– Talvez – ela fala, e é impossível dizer se ela está ou não brava. – Você

nunca sabe.

Depois da escola, eu esperei no estacionamento pela Wendy. Estamos indo

de volta para minha casa para estudar para um exame de Jane Austen para a aula do

Phibbs. Eu ia passar, mas encontrei a caminhonete do Christian, estacionada na traseira como sempre.

Wendy olha para cima e divertidamente me soca no braço. – Tucker me

disse que você foi a rainha de hoje - diz ela.

Eu arrasto o meu olhar longe da caminhonete de Christian. – Sim, eu

dominei. Literalmente.

– Eu gostaria de ter visto você na sua fantasia – diz ela. – Você deveria ter

me chamado no almoço. Eu poderia ter ajudado você a se preparar.

– Oh, você não precisa me ajudar com as coisas da aula de história – eu

respondo como se eu não quisesse impor à ela. Mas a verdade é que eu não sei como lidar com Angela e Wendy no mesmo espaço. É estranho falar sobre coisas normais,

como a escola e os meninos agora quando eu estou tão acostumada a falar sobre coisas de anjo com Angela? As últimas semanas tenho visto principalmente Wendy em sala de aula e na hora do almoço, onde eu ainda sento na mesa dos invisíveis. Eu

estive ocupada com Angela trabalhando no nosso projeto nos últimos dias depois da escola.

– Pronta para Jane Austen? – Eu pergunto. – Você sabe que estou esmagando o Sr. Darcy, grande tempo – diz ela. – Oh, certo – eu digo distraída, porque acabei avistando o Christian e Kay.


200

Eles estão de pé ao lado do caminhão de prata, conversando. Kay está sorrindo para ele. Ela se inclina para ele enquanto ela fala, praticamente se jogando sobre ele. Ele

não parece se importar. Eles se beijam, não um beijinho, mas um longo e prolongado beijo onde ela envolve seus dedos no pescoço e ele enrola os braços em torno de sua

cintura e puxa-a para cima e perto. Ele se afasta, passa a mão em seu rosto,

colocando uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha, ele diz alguma coisa, ela concorda, ele abre a porta do motorista da caminhonete e ela sobe para dentro, ele sobe atrás dela e fecha a porta, eu nao tenho uma boa vista do que acontece depois, mas a caminhonete não se mexe, eles não estão indo a lugar nenhum. Eles não parecem um casal a ponto de separarem, eles parecem felizes. – Voce não está me escutando, está? – Wendy grita. Eu pulo assustada e olho para ela, sua cabeça está inclinada para um lado e

seu olhar estreito.

– Me desculpe – eu digo e sorrio – O Tucker te contou que eu o executei

hoje? É bom ser uma rainha.

Eu esperava que ela fosse ficar animada, e fazer algum comentário inteligente, mas ela simplesmente agita a cabeça. – O que? – Christian tem uma namorada, a qual você deve ter notado – ela diz – Eu

sugiro que você supere isso.

Minha boca se abre, entao fecha e abre de novo.


201

– Olá, rude – eu finalmente digo. – É verdade. – Você não sabe nada sobre isso – eu digo de volta. – Bem, talvez eu soubesse, se você se incomodasse em falar comigo de novo

– ela diz cruzando os braços no peito.

–Ah! Entendi você está com ciúmes agora, rainha da rudeza. Ela desvia o olhar rapidamente de uma forma que o confirma, ela está com

ciúmes de Angela e todo o tempo que nós temos passado juntas. – Estou cansada de ver você babar Christian Prescott como se ele fosse um pedaço de carne, é tudo. Tem sido um longo dia. E assim eu perco a paciência.

– O que é isso para você, Wen? É a minha vida. Por que você não deixa de

ser invisível de uma vez e começa a sua própria?

Ela olha para mim por um longo momento, seu rosto lentamente vermelho,

seus olhos brilhando com o início das lágrimas, que ela é teimosa demais para deixar cair. Ela se vira. Eu posso ver seus ombros começando a tremer. – Wen. – Esqueça isso – diz ela. Ela pega sua mochila e coloca por cima do ombro. – Eu pensei que era sua amiga, de verdade, não apenas até que encontrasse

alguém melhor. Meu erro.

– Whoa, Wendy, você é minha amiga – eu digo, dando um passo para trás.


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– Eu... – Sem ofensa, Clara, mas às vezes isso não é tudo sobre você. Eu fico olhando para ela. – Eu vou pegar o ônibus para casa – ela diz, passando por mim.


203

10 LIÇÃO DE VÔO Gostaria de ter tido umas férias divertidas na Primavera, de ter feito uma

viagem maluca a Miami ou até um simples passeio de carro com as minhas amigas.

Mas Wendy ainda não falava comigo (Deus, aquela garota consegue mesmo ser rancorosa!) e Angela estava ocupada ajudando a mãe a fazer as limpezas de

Primavera no The Pink Garter. Por isso, as férias da Primavera consistiram em sete

semanas muito divertidas, enfiada em casa com Jeffrey, o qual foi proibido de sair de casa por ter vencido o Campeonato Regional de Luta Livre. Duas semanas sem ver televisão, sem telefone, sem internet. Achei que era um pouco excessivo. Jeffrey estava

furioso, a Mãe estava mal-humorada, e não houve tempo passado ao Sol no alpendre de trás que compensasse o frio que se sentia dentro de casa.

É um alívio estar de volta à escola. Na hora do almoço, estou sentada

esperando que Angela apareça. Uso um guardanapo para tirar o excesso de gordura

de uma fatia de piza de pepperoni quando Wendy quase saltita para dentro do refeitório. Se coloca na fila para o peixe e acena com a mão para as garotas que estão

sentadas à mesa das Invisíveis, um tanto desarticuladamente. Tem no rosto a

expressão do mal-posso-esperar-para-contar. Imagino que tenha a ver com o baile dos finalistas.


204

Dou uma dentada na pizza gordurosa e relembro que não quero ir ao baile

de finalistas. Prefiro ficar em casa tomando refrigerante vendo filmes de romance com a Mãe, que precisa mesmo de repouso e de recuperação. Porque é que este plano me deprime tanto? – Nem adivinham o que me aconteceu – consigo ouvir Wendy dizer,

enquanto se atira para cima de uma cadeira, na mesa das Invisíveis, a alguns metros de distância.

Por um instante, o olhar dela encontra o meu, e sei que ambas gostaríamos

de ter ultrapassado a nossa briga estúpida e de ter feito as pazes, e nessa altura ela podia me contar as suas novidades empolgantes.

– Tem um par para o baile dos finalistas? – pergunta Emma. Os olhos azuis de Wendy brilham. Interrogo-me se é uma ocasião que

requeira um gritinho de vitória da melhor amiga.

– Não – diz ela. – Bem, sim. Vou com Jason Lovett. Mas não é essa a minha

grande novidade. Consegui o estágio!

– O estágio – repete Lindsey, sem convicção.

Claro! O estágio em Montana do qual ela tem falado ininterruptamente desde que soube da sua existência! Aquele no qual todos os veterinários se graduaram na universidade de Washington State. Vamos, pessoal! E se dizem amigas dela? – No Hospital Veterinário All West – explica ela.


205

– Ah, certo – responde Lindsey, vagamente. – O que fica em Bozeman? – Sim – ela confirma, parecendo um pouco sem fôlego. – Faria tudo para

conseguir aquele estágio. Quase todos os veterinários se graduaram na universidade de Washington State, a minha faculdade de sonho, como sabem.

Ela me olha de relance novamente. Eu faço um sorriso esmorecido. Ela

desvia o olhar.

– Parabéns! – exclamam quase todas as meninas da mesa, em uníssono. – Obrigada. Ela parece estar genuinamente feliz, orgulhosa e empolgada em relação ao

futuro, mesmo sem o gritinho de vitória.

– Espera, isto quer dizer que vai ficar sozinha durante o Verão inteiro? –

pergunta Audrey, franzindo a sombracelha. – De Junho até ao final de Agosto.

– Isso é ótimo – diz Emma. – Agora conta como é que Jason Lovett te convidou. Quase consigo ouvir Wendy corar. – Na verdade, fui eu que o convidei. Inclino-me para frente e pouso o queixo em minhas mãos, como se

estivesse muito entediada e não estivesse ouvindo tudo o que se passa. Estou feliz por Wendy. Jason parece ser um rapaz simpático, um pouco baixo, encorpado, com olhos


206

castanhos e esperançosos e uma suave voz de tenor, a qual eu espero, para bem dele, que se torne mais grave com a idade. Mas simpático. Alguém que irá tratar Wendy bem.

Angela aparece por fim. Ela atira o saco de papel castanho com o almoço na

mesa à minha frente e desliza para cima de uma cadeira. Intuitivamente, os seus olhos se desviam para a mesa das Invisíveis, onde Wendy e as amigas ainda falam sobre como ela convidou Jason.

– Devia fazer as pazes com ela – diz Angela. – Ela já ultrapassou, fosse o

que fosse. O que foi, afinal, que a deixou tão zangada?

– Acho que foram, sobretudo, ciúmes do tempo que eu passava com você –

respondo, subitamente.

– Não posso te ajudar em relação a isso. Afinal, sou espantosa. – Sorrio. – Eu sei. – Ah! E por falar em eu ser espantosa, tenho novidades para você. – Ela se

inclina para frente, os seus olhos ainda brilhantes e maliciosos. – Ouvi dizer que Christian e Kay tiveram sérios problemas durante as férias da Primavera – ela sussurra, teatralmente. Olho rapidamente pelo refeitório. Demoro um segundo, mas encontro

Christian sentado sozinho mesmo no final da sala. Sem qualquer sinal de Kay. Sem amigos. Interessante.

– Que tipo de problemas?


207

– O tipo de problemas de gritarem um com o outro numa festa, em frente

de umas cem pessoas. Há um boato muito interessante, que corre por aí sobre

Christian ter andado com uma menina da equipe de esqui de Cheyenne nos Campeonatos Estatais.

– Quem iniciaria um boato desses? Ela sorri com aquela expressão irritante no olhar.

tempo...

– Eu te disse, não disse? Com ou sem boato, era apenas uma questão de

É nessa altura que Kay Patterson entra na sala. Kay está vestida com uma blusa que eu tenho a certeza que viola o código

de vestuário da escola, e mais maquiagem do que é habitual, parecendo quase um

guaxinim na zona dos olhos, e os seus lábios com um tom de vermelho bronzeado e

profundo. O seu olhar procura Christian de imediato. Ele parece estar completamente concentrado nos seus Tater Tots48, não erguendo o olhar, mas consigo perceber pela

sua postura que ele sabe que ela está ali. E ela sabe que ele sabe. Por um momento, penso que ela se irá desfazer em lágrimas. Depois, começa a andar e se dirige para um grupo de rapazes do terceiro ano de tipo atlético que está em um canto. O refeitório inteiro se volta para olhar para ela. Escolhe um dos tipos ao acaso e lhe diz

algo num tom de voz baixo, ao estilo de uma recepcionista de linha telefónica erótica. Passa os dedos pelo cabelo dele.

Depois volta e se senta no colo de Jeffrey. Acho que o queixo de todos cai ao mesmo tempo. 48

Marca de cubos de puré de batata fritos


208

Isto está muito além de Christian e Kay terem problemas. Isto é Kay se

inclinar para cima do peito de Jeffrey e lhe dizer algo no ouvido, tão perto que

poderia tê-lo lambido. Os seus olhos cinzentos se abrem de espanto, mas ele está obviamente tentando manter a calma. Não se mexe. Eu me levanto. – Me dá licença por um minuto – digo, educadamente, para Angela, como se fosse apenas retocar a minha maquiagem. Mas estou vendo tudo vermelho. Pretendo chegar lá e usar a minha super

força angélica para dar um soco no nariz empinado de Kay Patterson, por uma série

de razões, na verdade, sendo que uma das quais é ela ter escolhido o meu irmão mais novo para o seu jogo perverso, e é bom que ninguém se meta com o meu irmão mais novo.

– Espera. – Angela me agarra no braço com um apertão de aço. – Se

acalma, C. Jeffrey já é crescidinho. Sabe tomar conta de si.

Jeffrey tem aspecto de quem está prestes a engolir seu pomo-de-adão. – Onde está Christian? – ele pergunta. – Não sei onde está o Christian – ronrona Kay, como se não estivesse

minimamente interessada. – Você sabe?

Obrigo-me a desviar o olhar da nova versão ordinária de Kay. Christian

parou de comer e está colocando as suas coisas em cima da bandeja. Se levanta, caminha em direção aos carrinhos das bandejas, se vira e dirige um olhar de desdém a Kay, e depois se encaminha para a porta.


209

Ele faz bem, penso, enquanto ele abre a porta com brusquidão. Esta se fecha

com um estrondo depois de ele sair. Observo–o através da janela enquanto ele

caminha em passadas largas ao longo do corredor, em direção à entrada principal, a sua fúria deixando um rasto atrás dele, tão claro como o fumo. Depois desaparece. – Agora é a sua oportunidade – sussurra Angela. – Vai atrás dele. Poderia lhe dizer alguma coisa. Mas o quê? – Neste momento, ele deve querer estar sozinho – digo a Angela. – Você não

iria querer?

– Covarde – responde ela. Olho–a com os olhos arregalados. – Não – eu lhe digo, de repente tão furiosa que mal consigo fazer as

palavras passar pelos meus dentes cerrados. – Me. Chame. De. Covarde.

Sacudo a mão de Angela e caminho pelo refeitório em direcção a Kay. Lhe

toco no ombro.

– Desculpa – digo. – O que pensa que está fazendo? Ela ergue o olhar, com uma expressão calculista. Sorri. – Está com algum problema, Pipi? Pipi. Como a Pipi das Meias Altas. O riso ressoa pelo refeitório. Mas a Mãe

tinha razão. Não me afeta. Já o ouvi antes.

– Uau. Que original. Agora sai de cima do meu irmão, por favor.


210

Alguém me agarra no braço e o aperta com gentileza. Me viro e vejo

Wendy a meu lado.

– Você não é assim, Kay – diz Wendy. E é verdade. Por muito que eu queira acreditar que Kay é a encarnação do

mal, por muito que uma parte de mim queira ver esta pequena exibição como uma

demonstração de quem ela é na realidade, Kay não é assim. É uma fachada muito óbvia e patética. Parece o ripostar de um animal ferido. Ver isso com clareza me tira a vontade de lhe dar um soco de fazê-la perder os sentidos.

– Sei que está chateada, Kay, mas... – começo a dizer. – Não sabe nada. Ela afrouxa um pouco o aperto que exercia sobre Jeffrey e me olha com os

olhos cor de chocolate arregalados. Os olhos de Jeffrey dizem algo completamente diferente: Não faça isso. Está me envergonhando. Vai embora.

– Christian não está aqui – continuo. – Foi embora. Por isso de que vale

estar babando para cima do namorado de outra pessoa? Está tentando nos tirar o apetite ou o quê? Se Kay parece envergonhada ou em dúvida, dura apenas um milésimo de

segundo. Se volta para Jeffrey.

– Tem namorada? – pergunta ela, num tom açucarado. Ele olha para Kay com os seus perigosos olhos contornados a negro e depois

volta o seu olhar para Kimber, que estava na fila da pizza quando tudo isto


211

aconteceu. Faz me lembrar um elfo Keebler49 com o seu cabelo de um louro quase

branco, trançado e enrolado em torno da sua cabeça como a menina do chocolate quente Swiss Miss50. Mas parece estar bastante chateada. O seu rosto está pálido, com duas manchas vermelhas na face, e os seus olhos lançam faíscas.

Afinal, talvez não seja eu quem vai dar um soco na Kay. – Sim – diz Jeffrey, os cantos dos seus lábios se curvando na sugestão de um

sorriso. – Kimber Lane. É ela a minha namorada.

O olhar que Jeffrey e Kimber trocam nesse momento parece precisar de

uma música rômantica. Ah, eu penso. O meu irmão mais novo está apaixonado. Também acho isso um pouco nojento.

– Está certo, então – diz Kay, com uma delicadeza forçada. Levanta-se e endireita a saia, depois levanta a cabeça e dá uma gargalhada

forçada, como se tudo não tivesse passado de uma brincadeira divertida, mas que se tornou entediante.

– Até depois – ela diz para Jeffrey, e depois parte, sendo rodeada pelo seu

pequeno séquito no momento em que se afasta de nós. Abandonam o refeitório, e

depois se dá uma explosão de barulho quando todos os outros alunos começam a falar ao mesmo tempo.

Wendy larga o meu braço. – Olá – eu digo, me voltando para ela. – Desculpa por todas as coisas

estúpidas que te disse anteriormente. 49

Imagem de marca da Keebler, empresa produtora de vários tipos de bolachas e biscoitos

50

Marca de vários tipos de chocolate instantâneo e de pudins


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– Eu também peço desculpa. – Quer fazer qualquer coisa depois das aulas? Ela sorri. – Claro – responde. – Adoraria. Wendy e eu nos enfiamos no meu quarto para fazer o dever de casa juntas,

nos debruçamos sobre os nossos livros sem falar muito, erguendo o olhar ocasionalmente para sorrirmos ou para fazermos uma pergunta. Eu, claro, não estou

pensando na minha aula de aerodinâmica ou nas três teorias da física que explicam o vôo. A disciplina é só números e ângulos, nada que se pareça com o que é voar na vida real, mas, ironicamente, sou boa.

Não consigo deixar de pensar em Christian. Não apareceu na aula de

História das Ilhas Britânicas.

– Ouvi dizer que vai ao baile de finalistas com Jason Lovett – digo para

Wendy, fechando o meu livro. Não consigo suportar ficar presa aos meus próprios

pensamentos, nem mais um minuto. – Isso merece um grande grito de vitória, ou quê?

– Sim – diz ela, com um sorriso satisfeito. – O que vai vestir? Ela morde o lábio. Parece que ela não tem nada no guarda-roupa. – Ainda não tem vestido? – pergunto.


213

– Tenho um – ela diz, tentando parecer animada. – Costumo usá–lo para ir

à igreja, mas acho que consigo transformá–lo em algo de mais sofisticado.

– Oh, não. Não vai com um vestido de igreja. – Me levanto em um salto e

corro para o fundo do meu closet, onde pego em dois vestidos de cerimônia que usei em bailes na Califórnia, e depois marcho novamente para junto de Wendy. Seguro um vestido de cada lado. – Escolha aquele que mais gostou.

Wendy fica, de repente, com dificuldade de me olhar nos olhos. – Então, e você? – pergunta ela. – Eu não vou. – Não acredito que ainda ninguém te tenha convidado. Encolho os ombros. – Então, porque você não convida alguém? Quer dizer, de que vale a

liberdade feminina se não podemos usá–la para convidar os garotos para os bailes? Eu convidei Jason.

– Não há ninguém com quem eu queira ir. – Tem sim. – O que é? – Vou deixar passar essa.


214

– De qualquer modo, Jason Lovett vai ser o seu Príncipe Encantado na noite

do baile de finalistas, e vai precisar de um vestido de Cinderela. Por isso, escolhe um.

Ela já está olhando para o vestido cor-de-rosa claro, que tenho na minha

mão esquerda, com olhos esfomeados.

– Acho que vai ficar o máximo – digo, lhe acenando com o vestido. – Sério? Não acha que ficarei com um aspecto ridículo? – Experimenta–o. Ela o arranca da minha mão e corre para o closet para experimentá-lo. – É muito alta – se queixa ela, através da porta. – É para isso que servem os saltos altos. – Tem os seios maiores que os meus. – Impossível. A porta se abre. Ali está ela, incerta, com o seu longo cabelo castanho

dourado a caindo em torno do pescoço e dos ombros. O vestido se enruga junto aos pés, mas não é nada que uma bainha não resolva.

– Está espetacular. – Remexo na minha caixinha de jóias à procura do colar

brilhante para completar. – Amanhã devíamos ir a Jackson à procura de uns brincos.

É uma pena que o centro comercial mais próximo fique em Idaho Falls. A Claire tem os melhores acessórios para bailes de finalistas. Fica a duas horas de distância, não é?


215

– Duas e meia – responde ela. – Mas eu não tenho as orelhas furadas. – Acho que consigo encontrar uma batata e uma agulha afiada. Ela arqueja e levanta as mãos para cobrir os lóbulos das orelhas. – Como se divertia antes de eu aparecer? – pergunto. – Derrubava vacas. Houve uma batida aguda na minha porta e a Mãe enfia a cabeça dentro do

quarto. Wendy cora imediatamente até à raiz dos cabelos e começa a recuar em direção à porta do closet, mas a Mãe entra de rompante para a ver.

ela.

– O quê? Estão experimentando roupas! E não me convidaram? – exclama

– Baile de finalistas. De sábado. Eu te disse, se lembra. – Ah, sim – diz ela. – E você não vai. Parece desapontada. – Queria alguma coisa, Mãe? – Sim, queria te lembrar que tínhamos combinado praticar yoga esta noite. Levo um segundo a compreender. E piro um pouquinho. – Não podemos fazê-lo outra hora? Estou um pouquinho ocupada neste...


216

– Eu sei que estão se divertindo muito, mas tenho que te roubar para

passarmos algum tempo juntas.

– De qualquer forma, eu tenho de ir embora – Wendy fala. – Tenho de

acabar os trabalhos de casa.

– Está linda, Wendy – elogia a Mãe, sorrindo abertamente para ela. – E os sapatos? – Acho que posso usar os meus sapatos de salto alto pretos. A Mãe abana a cabeça. – Sapatos de salto alto pretos não ficam bem com esse vestido. – Amanhã vamos a Jackson para procurar uns brincos – me ofereço. – Poderíamos procurar também uns sapatos. Wendy começa se retorcer com tristeza perante a minha sugestão. Não

existem sapatarias em Jackson que não cobrem preços para turistas.

– Ou – diz a Mãe – podemos deixar Jackson de lado e ir mais longe. - Um passeio de carro a Idaho Falls este fim-de-semana? Não consigo perceber se ela esteve escutando a nossa conversa ou se eu e

ela pensamos na mesma freqüência de onda.

– Às vezes – lhe digo – é como se lesse os meus pensamentos.


217

– Wendy não tem muito dinheiro, sabe? – explico à Mãe depois de Wendy

ter ido embora. O Sol se põe atrás das montanhas. Estou no alpendre de trás vestida com uma camisa sem mangas e calças de treino, tremendo, tentando enrolar um

cachecol de lã em torno do pescoço. – Por isso, com esta coisa de irmos a Idaho Falls à

procura de sapatos, não nos arraste para nenhuma loja fina. Ela ficaria envergonhada.

– Estava pensando no Payless51 – responde a Mãe, afetadamente. – Achei

que poderia ser bom passar algum tempo com as suas amigas. Não tem feito muito desde que nos mudámos para cá. – Está bem.

o baile?

– Também pensei que poderia trazer a Angela. Ela tem acompanhante para

Paro de mexer no cachecol e olho fixamente para ela. – Sim. Tem. – Assim, também pode vir. –Porquê? – Quero conhecer as suas amigas, Clara. Traz a Wendy aqui em casa

muitas vezes, mas nunca traz a Angela. Por isso, quero conhecê-la. Acho que está na hora. 51

Significa, literalmente, «pague menos» e é uma cadeia de sapatarias com sapatos a preços acessíveis


218

– Sim, mas... – Eu sei que está ansiosa em relação a isso, mas não deve estar – esclarece

ela. – Irei me portar bem.

Não é bem com a Mãe que estou preocupada. Ou talvez seja. – Está bem, vou convidá-la. – Excelente. Tira o cachecol – diz a mãe. – Está um gelo! – Poderá rasgar. Ela tem razão. Retiro o cachecol. – Temos que fazer isto agora? Estou fazendo uma disciplina na escola sobre

aerodinâmica, sabia. Sou boa, a propósito.

– Isso é sobre aviões. Isto é sobre você precisar treinar, Clara. Deixei passar o Inverno para que se adaptasse. Agora precisa se concentrar no teu propósito para estar preparada quando a estação dos incêndios começar. É daqui a poucos meses. – Eu sei – respondo de mau humor. – Agora, por favor. – Está bem, como quiser.


219

Abro as minhas asas atrás de mim. Há algum tempo que não as abria. Pelo

menos, já tenho mais facilidade em chamá-las. Já não preciso dizer as palavras em angélico. Ainda acho que as minhas asas são lindas - suaves, brancas e tão perfeitas como as de uma coruja. Mas neste momento me parecem enormes e disparatadas, como um adereço foleiro de um filme barato. – Boa, agora as abra – diz a Mãe. Abro-as tanto quanto possível, até o seu peso começar a sobrecarregar os meus ombros. – Para descolar do chão tem que ficar leve. Ela está sempre dizendo isto e eu tenho de adivinhar como fazê–lo. – A seguir vai me polvilhar com pó mágico e me dizer para pensar em

coisas boas – resmungo.

– Clareia a sua mente. – Feito. – A começar pela atitude. Suspiro. – Tenta se descontrair. Olho fixamente para ela, impotente.


220

– Tenta fechar os olhos – sugere ela. – Inspira profundamente pelo nariz e

expira pela boca. Imagina-se ficando mais leve, os teus ossos a pesarem menos. Fecho os olhos. – Isto se parece mesmo com o yoga – comento.

pesam.

– Tem que te esvaziar, abdicar de todas as coisas que mentalmente te

Tento clarear a minha mente. Em vez disso, vejo o rosto de Christian. Não o da visão, rodeado de fogo e fumo, mas a um sopro de distância, como

quando ele se debruçou sobre mim na pista de esqui. As suas pestanas espessas e escuras. Os seus olhos com as suas manchas douradas. Cheios de calor. A forma como os cantos da sua boca se enrugam quando sorri.

As minhas asas já não parecem tão pesadas. – Muito bem, Clara – incentiva a Mãe. – Agora tenta levantar vôo. –Como? – Bate as asas. Imagino as minhas asas apanharem o ar da forma que as dela o fizeram

daquela vez em Buzzards Roost. Penso em disparar em direção ao céu como um foguetão, passando pelas nuvens, varrendo o topo das copas das árvores. Seria maravilhoso, não seria lindo voar assim? Responder ao chamamento do céu? Nada se mexe.


221

– Se conseguir será bom abrir os olhos – diz a Mãe, com uma gargalhada.

Abro os meus olhos. Batam, ordeno silenciosamente às minhas asas. – Não consigo – arfo, passado um minuto. Estou transpirando, apesar do ar gelado.

– Está pensando muito. Se lembre que as tuas asas são como os teus braços. Não precisa pensar para mexer os braços, simplesmente mexê–los. Olho para ela de olhos arregalados. Os meus dentes cerram em sinal de

frustração. Depois as minhas asas começam a bater lentamente para a frente e para trás.

– É isso mesmo – diz a Mãe. – Está conseguindo fazê–lo! Mas, na verdade, não estou. Os meus pés continuam firmemente plantados

no chão. As minhas asas estão se mexendo, agitando o ar, soprando o meu cabelo para cima do meu rosto, mas não estou levantando vôo. – Sou muito pesada. – Tem que ficar leve. – Eu sei!

Tento pensar novamente em Christian, nos seus olhos, no seu sorriso, em

qualquer coisa de tangível, mas, de repente, só consigo imaginá-lo na visão, voltado de costas para mim. O fogo se aproximando.


222

E se eu não o conseguir fazer? penso. E se tudo depender da minha

capacidade de vôo? E se ele morrer?

– Vamos! – grito, me esforçando ao máximo. – Voa! Dobro os joelhos, salto, e consigo me erguer alguns metros do chão. Durante cinco segundos penso que talvez tenha conseguido. Depois caio

com força, torcendo o tornozelo. Em desequilíbrio, despenco no relvado, num emaranhado de membros e asas.

fôlego.

Por um minuto, fico ali deitada na relva úmida, tentando recuperar o – Clara – diz a Mãe. – Não diga nada. – Está ferida? Sim, estou ferida. Faço as minhas asas desaparecerem. – Continua tentando. Vai acabar conseguindo – diz a Mãe. – Não, não continuarei. Hoje, não. Levanto-me com cuidado e sacudo a terra e o mato das minhas calças, me

recusando a olhá-la nos olhos.

– Está habituada que tudo seja fácil para você. Vai ter de trabalhar para

conseguir fazer isto.


223

Gostaria que ela parasse de dizer isto. Cada vez que tento, o rosto dela fica

com esta expressão, como se a tivesse desiludido, como se esperasse mais. Me faz sentir um fracasso como anjo, ao que se espera, que seja notável – bela, rápida, forte,

equilibrada, capaz de fazer qualquer coisa que seja pedida. Como um anjo não estou a conseguir mostrar ser magnífica. E como uma menina, sou simplesmente normal.

– Clara. – A Mãe avança para mim, abrindo os braços como se nos fôssemos

nos abraçar e tudo iria ficar bem. – Tem que tentar outra vez, você consegue. – Para de ser tão motivadora, está bem? Me deixa em paz. – Querida... – Me deixa em paz! – gritei. A olho nos olhos sobressaltados. – Está bem – diz ela.

Vira e caminha rapidamente de volta pra casa. A porta bate com força.

Ouço a voz de Jeffrey na cozinha, e a voz dela, baixa e paciente, respondendo. Esfrego os meus olhos ardentes. Quero fugir, mas não tenho para onde ir. Por isso fico ali, com o pescoço, os ombros e o tornozelo doendo, sentindo pena de mim mesma até que o pátio escurece e não há mais nada que eu possa fazer senão mancar para casa.


224

11 IDAHO FALLS Ângela apareceu em nossa casa uma hora antes na manhã de Sábado, e no

minuto em que eu a vi em pé na varanda eu soube que esta idéia "dia das meninas

fora" foi um grande erro. Ela parecia como uma criança na manhã de Natal. Ela estava totalmente assustada-animada para conhecer minha mãe.

– Basta falar com calma, tudo bem? – Eu disse a ela antes de deixá-la

entrar. – Lembre-se do que falamos. Casual. Nenhuma conversa de anjo. – Tudo bem.

– Eu quero dizer isso. Nenhuma pergunta relacionada a anjo,

absolutamente.

– Você me disse isso uma centena de vezes já.


225

– Pergunte a ela sobre Pearl Harbor52 ou algo assim. Ela provavelmente

gosta disso.

Ângela revirou os olhos. Ela parecia não compreender o fato de que nossa amizade em grande parte

dependia de como desinformada ela parecia para minha mãe. Isso porque se mamãe soubesse o que eu e a Angela estivemos falando sobre todas essas tardes depois da escola, a pesquisa de anjo e as perguntas e as teorias malucas de Ângela, eu provavelmente nunca seria autorizada a ir para o Pink Garter novamente.

– Talvez seria melhor se você não falasse de qualquer modo – eu disse. Ela

colocou sua mão em seu quadril e me olhou fixo. – Tudo bem, tudo bem. Venha comigo.

Na cozinha, mamãe estava colocando um grande prato de panquecas na

mesa. Ela sorriu.

– Olá, Angela. –Oi, Sra Gardner –. Ângela disse isso nesse tom completamente reverencial. – Me chame de Maggie – mamãe disse. – É muito bom finalmente conhecêla cara-a-cara. – Clara me falou muito sobre você, sinto como se já a conhecesse. – Coisas boas, eu espero.

52

É uma base naval e quartel general da frota estado-unidense que fica na ilha do Havaí. O ataque a Pearl Harbor foi uma operação aeronaval de ataque a base norte-americana de Pearl Harbor, efetuada pela marinha imperial japonesa, na manhã de 7 de dezembro de 1941


226

Olhei para mamãe. Nós dificilmente dissemos três frases uma para outra

desde a fracassada lição de vôo. Ela sorriu sem mostrar os dentes, seu sorriso empresa.

– Clara não tem realmente me falado muito sobre você – ela disse. – Oh – Ângela disse – bem, não há muito que dizer. – Tudo bem, então panquecas! – eu digo. – Angela deve estar faminta. Mamãe se virou para pegar um prato do armário, e eu atiro um olhar de

advertência a Angela.

– O quê? – ela sussurrou. Ela estava completamente fascinada por minha mãe. Ela olhou para todos

através do seu café da manhã. Qual teria sido bem – estranho, mas tudo bem – exceto que depois de duas mordidas na panqueca ela deixou escapar: – Quão alto pode voar um anjo de sangue? Você acha que pode voar no espaço?

Mamãe apenas riu e disse naquele tom legal, mas ela tem certeza que ainda

precisamos de oxigênio. – Nem o Super-homem viajou para a lua – ela disse.

Elas sorriram uma para outra, o que me incomodou. Se eu fizesse essa

pergunta, mamãe diria que não sabia, ou que não era importante, ou ela mudaria de

assunto. Eu sabia o que ela estava fazendo. Ela estava tentando descobri-la. Ela queria saber o que Angela sabia. O que eu definitivamente não queria que acontecesse.

Mas não havia como parar Angela. – E sobre a coisa da luz? – ela

perguntou.

– A coisa da luz?


227

– Você sabe, quando os anjos brilham com a luz celestial? O que é isso? – Chamamos isso de glória – mamãe respondeu. – Então, qual o sentido disso?– Angela perguntou. Mamãe depositou seu copo de leite e agiu como se fosse uma questão

profunda que requer algum pensamento sério. – Ela tem muitos usos – ela disse finalmente. – Eu aposto que a luz vem a calhar – disse Angela. – Como sua própria

lanterna pessoal. E isso faz você parecer angelical, é claro. Ninguém duvidaria se você mostrasse as asas e a glória. Mas você não deveria fazer isso, certo?

– Nós nunca iremos nos revelar – mamãe disse olhando para mim por um

instante. – Embora haja exceções. Glória tem um efeito estranho em seres humanos. – Como o que? – Apavora-os. Sentei-me um pouco. Eu não sabia disso, e nem Angela.

– Oh, eu vejo – Angela disse, realmente cozinha com gás agora. – Mas o

que é a glória? Tem que ser mais do que apenas luz, para ter esse tipo de efeito, certo?

Mamãe limpou a garganta. Ela estava em território desagradável agora,

coisas que ela nunca disse a mim.


228

– Você está sempre dizendo o quão mais fácil voar seria se eu pudesse tocar

na glória. – Eu aumentei a voz, não a ponto de deixá-la fora de controle. – Você fez parecer como uma fonte de energia.

Ela deu um suspiro pouco perceptível. – É como nos conectamos com Deus. Eu e Angela ponderamos sobre aquilo. – Como? – perguntou Angela. – Como quando as pessoas rezam? – Quando você está na glória, você está conectado com tudo. Você pode

sentir as árvores respirando. Você pode contar as penas nas asas de um pássaro. Você sabe quando vai chover. Você é parte disto, desta força que une toda a vida.

– Você vai nos ensinar como fazê-lo?– perguntou Angela. Toda essa

conversa estava claramente soprando sua mente. Ela estava morrendo por sacar seu notebook e tomar algumas notas importantes.

– Isso não pode ser ensinado. Você tem que aprender a acalmar-se, livrar-

se de tudo, apenas a essência do que faz você, você. Não se trata dos seus pensamentos ou sentimentos. É a própria pessoa embaixo de tudo isso. – Tudo bem, assim soa difícil.

– Eu tinha quarenta anos quando fui capaz de fazê-lo bem – mamãe disse.

– Alguns anjos de sangue nunca chegam a esse estado, depois de tudo. Embora possa ser desencadeado por eventos ou sentimentos poderosos.

– Como a coisa do cabelo da Clara, certo? Você disse a ela que pode ser

desencadeado por emoções – Angela disse.


229

Mamãe se levantou da mesa e cruzou para a janela. – Oh. Meu. Deus. Cale a boca. – Eu declamei para Angela. – Há uma caminhonete azul na entrada da garagem – mamãe disse depois

de um momento. – Wendy está aqui.

Abandonei mamãe e Angela e corri ao encontro de Wendy, que, sem saber,

vai me salvar dessa conversa de anjo.

Tucker dirigiu para ela. Ele estava encostado contra a campainha na

entrada da garagem, olhando para a floresta, e de alguma forma parecia como se ele

não devesse ser permitido estar aqui. Não deveria ser permitido espreitar em minha floresta ou ouvir meu riacho ou desfrutar dos meus pássaros cantando.

– Ei, Cenoura! – ele disse quando me localizou. Eu olhei em volta para

Wendy, quem eu encontrei remexendo em torno do caminhão por alguma coisa. – Belo dia para fazer compras – ele acrescentou.

Ele estava zombando de mim, eu pensei. Eu não tinha uma retribuição. – Sim – eu disse. Wendy bateu a porta do caminhão e caminhou para cima da varanda bem

quando Angela saía da casa. – Ei, Angela – ela disse brilhantemente. Ela estava

aparentemente determinada a ser amigável com esta outra melhor amiga minha. – Como vai?

– Ótima – Angela disse. – Estou tão animada para ir a Idaho Falls. Eu nunca estive lá.


230

– Eu também não. Tucker não estava partindo. Estava olhando para minha floresta

novamente. Contra meu melhor juízo, eu desci da varanda e andei em direção a ele.

– Compras para vestidos de baile, né? – ele perguntou enquanto eu vinha

ao lado dele.

– Hm, tipo isso. Wendy precisa de sapatos. Ângela está atrás de acessórios,

uma vez que sua mãe está fazendo seu vestido. E eu estou de carona, eu acho. – Você não vai ao baile?

– Não –. Eu olhei para longe desconfortável, de volta em direção a casa,

onde de repente Wendy parecia muito incômoda em sua conversa com Angela. – Por que não? Eu dei a ele um – Por que você acha? – olhei. – Ninguém convidou você? – ele olhou para mim. Eu balancei minha cabeça. – Chocante, certo? – Sim, na verdade, é.

Ele esfregou a parte de trás de seu pescoço, em seguida olhou para a

floresta. Ele limpou a garganta. Por um segundo eu tive a idéia louca que ele poderia

estar prestes a me convidar para o baile, e meu coração fez todos os tipos de estúpidos saltos inconstantes no meu peito de puro terror com a idéia. Porque eu teria que


231

rejeitá-lo bem na frente de Wendy e Angela, que estavam agindo como se estivessem conversando, mas eu podia dizer que elas estavam prestando atenção, e então ele seria humilhado. Não tenho nenhum desejo real de ver Tucker humilhado.

– Vá desacompanhada – ele disse em vez disso. – Isso é o que eu faria. Eu quase sorri de alívio. – Eu imagino. Ele se virou e chamou Wendy. – Eu tenho que partir. Venha aqui um segundo. – Clara vai me levar para casa, então não vou mais precisar dos seus

serviços hoje, Jeeves – Wendy disse como se ele fosse seu motorista. Ele concordou e pegou no braço dela e levou-a para o lado do caminhão onde ele falou em voz baixa.

– Eu não sei quanto custa os sapatos do baile de formatura, mas isso pode

ajudar – ele disse.

– Tucker Avery – Wendy disse. – Você sabe que não posso aceitar isso. – Eu não sei de nada.

aceitar.

Ela bufou. – Você é um doce. Mas isso é o dinheiro do rodeio. Não posso

– Vou ganhar mais. Ele deve ter continuado segurando o dinheiro para ela, porque em seguida

ela não disse mais nada energicamente.


232

– Ok, tudo bem – ele resmungou. Ele lhe deu um rápido abraço e foi para

seu caminhão, puxou ao redor do círculo, e parou, em seguida desceu o vidro e inclinou-se para fora.

– Divirtam-se em Idaho. Não provoquem nenhum agricultor de batatas. – Certo. Porque isso seria ruim. – Oh, e Cenoura... – Sim? – Se você acabar indo ao baile salve-me uma dança, Ok? Antes que eu tivesse tempo de processar o pedido, ele se afastou. – Homens – Angela disse ao meu lado. – Eu acho que isso foi legal – Wendy disse. Eu suspirei perturbada. – Apenas vamos. De repente, Wendy suspirou. Ela puxou uma nota de cinqüenta dólares do

bolso do seu suéter.

– Aquele pequeno fedido – ela disse, sorrindo. No segundo que eu coloquei os olhos no vestido, eu me apaixonei por ele.

Se eu fosse ao baile, seria esse. O único. Às vezes você apenas conhece a respeito de vestidos. Eles chamam você. Este era uma inspiração Grega, sem alças com uma


233

cintura estilo império e uma pequena faixa de tecido que subia a frente e sobre um ombro. Era um azul profundo, um pouco mais brilhante que o da Marinha.

– Tudo bem – disse Angela depois que eu estive olhando-o na prateleira

por cinco minutos. – Você tem que experimentá-lo. – O quê? Não. Eu não vou ao baile.

– Quem se importa? Ei, Maggie, Wendy!– Angela chamou através da loja de departamentos para Wendy, quem estava no departamento de calçados com minha mãe olhando através do espaço dos saltos. –Venham ver o vestido de Clara.

Elas largaram tudo e vieram ver o vestido. E suspiraram quando o viram. E

insistiram para eu experimentá-lo.

– Mas eu não vou ao baile – eu protestei do provador enquanto eu puxava

minha camisa sobre a minha cabeça.

– Você não precisa de uma companhia – Angela disse do outro lado da

porta. – Você pode ir desacompanhada, você sabe.

– Certo. Sozinha para o baile. Então eu posso ficar em volta e assistir todo mundo dançar. Soa fantástico. – Bem, nós sabemos de uma pessoa que vai dançar com você – Wendy disse

fracamente.

– Ele acabou de romper com sua namorada, você sabe – Mamãe disse. – Tucker? – Wendy perguntou confusa.


234

– Christian – mamãe respondeu. Meu coração disparou, e quando Angela e Wendy não responderam, eu

abri a porta do provador e enfiei minha cabeça para fora. – Como você ficou sabendo sobre Christian rompendo com Kay?

Ela e Angela trocaram um olhar. Eu só lhes deixei juntas sozinhas por cinco

minutos nesta manhã e Angela já tinha apresentado a sua hipótese "Christian e Clara são almas gêmeas". Eu me perguntava o que mamãe pensava sobre isso.

– Se eu fosse Christian você não me pegaria em qualquer lugar perto da

dança – disse Wendy.

– Seria como um ninho de cobras para ele. Isso é verdade. Esta última semana na escola Christian parecia fora – nada

muito perceptível, mas eu o observava muito, então eu notei. Ele não contou nenhuma de suas habituais piadas em História Britânica. Ele não tomou notas durante as aulas. E então ele esteve ausente por dois dias em uma fileira, o que nunca

aconteceu. Atrasado, sim, mas Christian nunca se ausentou. Acho que ele deve estar muito chateado sobre Kay.

Eu deslizei o vestido sobre minha cabeça. Serviu. Como se fosse feito para

mim. Tão injusto.

– Vamos, deixe-nos vê-lo – ordenou Angela. Eu saí e fiquei em pé na frente

do grande espelho.

– Gostaria que meu cabelo não fosse laranja – eu disse, removendo um

indomável fio fora do meu rosto.


235

– Você deve comprá-lo – Angela disse. – Mas eu não vou ao baile – repeti.

Wendy.

– Você deveria ir ao baile apenas para poder usar este vestido – disse

– Totalmente – concordou Angela. – Você está tão bonita – mamãe disse e depois para minha total surpresa,

ela cavou em sua bolsa por um tecido e tirou o brilho de seus olhos. Em seguida disse,

- Vou comprá-lo. Se você não vai ao baile este ano, você pode usá-lo no próximo. É realmente perfeito, Clara. Fez seus olhos ficarem centáurea-azul53deslumbrantes.

Não havia raciocínio com elas. Então quinze minutos mais tarde estávamos

saindo da loja de departamento com o vestido pendurado sobre meu braço. Foi quando nos separamos, dividir e conquistar, mamãe chamava assim. Ângela e eu verificamos as lojas de jóias, e Wendy e mamãe se dirigiram em direção aos sapatos,

uma vez que não há nada no céu e na terra que minha mãe ame tanto como sapatos

novos. Combinamos de nos encontrar novamente na entrada do shopping em uma hora.

Eu estava com um humor estranho. Achei irônico Angela e Wendy que

ambas iam ao baile e a única coisa que compramos até agora nessa viagem foi um

vestido para mim. E eu não ia. E também estava irritada porque não podia usar

brincos autênticos porque furos em minhas orelhas não funcionavam – eles curam muito rápido. Eu não gostava de nenhum dos brincos não perfurados que eu via. Eu queria algo sedutor e dramático para esta dança que eu não iria.

53

pequena planta anual de flor azul a violeta, nativa da Europa. Também chamada aqui no Brasil de chicória


236

Estava me sentindo enjoada e tonta de repente, então Angela e eu paramos

no Pretzel Time e cada uma pegou um pretzel de canela, esperando que alguma

comida no meu estômago ajudaria. O shopping estava lotado e não havia nenhum

lugar para sentar, então nos encostados na parede e comemos nossos pretzels, observando fluxo das pessoas dentro e fora da Barnes e Noble54. – Você está brava comigo? – Angela perguntou. – O quê? Não. – Você não disse duas palavras para mim desde o café da manhã. – Bem, você não deveria falar coisas de anjo, lembra? Você prometeu. – Desculpe – ela disse. – Apenas suavizar um grau ou quatro com minha mãe, tudo bem? Tanto

com o olhar e as perguntas e tudo.

– Eu estou a encarando? – ela ruborizou. – Você parece uma boneca Kewpie55. – Desculpe – ela disse novamente. – Ela é a única Dimidius que eu já

conheci. Eu quero saber como ela é.

– Eu disse a você. Ela é como uma parte avançada em trinta e poucos, sendo

uma parte angélica tranqüila e uma parte de velha senhora excêntrica. 54

Loja de departamentos americana.

55

são bonecas baseadas em figuras cômicas


237

– Eu não vi essa parte velha senhora. – Acredite em mim, está lá. E você parece uma parte adolescente louca, uma

parte angelical e uma parte detetive privada.

Ela sorriu. – Vou tentar me comportar. Foi quando eu o vi. Um homem, me observando da porta do GNC. Ele era alto, com cabelo escuro puxado para trás em um rabo de cavalo. Ele estava usando

um jeans desbotado e um casaco de camurça marrom que pendurava fora de seu

corpo livremente. Fora todas as pessoas passando por aquela multidão no shopping, eu podia não ter percebido-o exceto pelo quão intensamente ele olhava para nós.

– Angela – eu disse fracamente, meu pretzel caindo no chão. Um onda

terrível de tristeza caiu sobre mim. Eu tinha que lutar para não duplicar mais com a

súbita intensidade de emoção. Minhas mãos cerraram em punhos, minhas unhas penetrando dolorosamente em minhas palmas. Eu comecei a chorar.

– Ei, qual o problema C? – Angela disse. – Eu juro, eu vou me comportar. Tentei responder. Eu tentei pressionar através da tristeza para formar as palavras. Lágrimas derramaram por meu rosto. – Aquele homem – eu sussurrei. Ela seguiu meu olhar. Em seguida ela sugou uma respiração irregular e

olhou para longe.

– Vamos – ela disse. – Vamos achar sua mãe.


238

Ela colocou seu braço ao redor do meu ombro e conduziu-me rapidamente

para baixo do corredor. Chocamo-nos com as pessoas, empurrando nosso caminho através das famílias e grupos de adolescentes. Ela olhou para trás novamente.

– Ele está nos seguindo? – não consegui falar nada mais alto que um

sussurro. Eu me sentia como se eu lutasse para manter minha cabeça em uma piscina no escuro, água gelada, gelando até os ossos, mais cansada a cada passo que dava, e isso era demais. Eu queria me afundar e deixar esta escuridão me levar. – Eu não consigo vê-lo – Angela disse.

Então, como uma prece atendida, encontramos minha mãe. Ela e Wendy

estavam saindo da Payless56, ambas carregando sacolas de compras.

– Ei, vocês duas – mamãe disse. Então ela notou nossos rostos. – O que

aconteceu?

– Podemos falar com você um minuto? – Angela segurou o braço de

mamãe e puxou-a para longe de Wendy, que pareceu confusa e um pouco ofendida

enquanto caminhamos para longe. – Há um homem – ela sussurrou. – Ele estava olhando para nós, e Clara apenas... Ela só...

– Ele estava tão triste – eu conduzi. – Onde? – mamãe exigiu. – Atrás de nós – disse Angela. – Eu perdi a pista dele, mas ele está lá em

algum lugar.

56

Loja de sapatos


239

Mamãe fechou seu agasalho e puxou seu capuz para cobrir sua cabeça. Ela

caminhou de volta para Wendy e tentou sorrir.

– Está tudo bem? – Wendy perguntou. – Clara está se sentindo doente – mamãe disse. – Devemos voltar. Não era mentira. Eu era quase incapaz de colocar um pé na frente do outro

enquanto fazíamos rapidamente nosso caminho em direção à loja de departamento.

– Não olhe para trás – mamãe sussurrou em meu ouvido. – Caminhe Clara.

Mova seus pés.

Apressamos-nos através do departamento de cosméticos e lingerie,

passando pela seção de roupas formais, onde começamos o dia. Dentro de alguns

momentos entramos no estacionamento. Quando ela viu nosso carro, mamãe partiu em uma completa corrida, rebocando-me atrás dela.

– O que está acontecendo? – Wendy perguntou enquanto corríamos. – Entrem no carro – mamãe ordenou, e todas nós subimos dentro. Nós disparamos para fora do estacionamento. Não foi até que estávamos a

poucos quilômetros de distância de Idaho Falls que a tristeza começou a dissipar, como um levantamento de cortina. Respirei fundo, estremecendo.

confusa.

– Você está bem? – perguntou Wendy, ainda parecendo extremamente

– Eu apenas preciso chegar em casa.


240

– Ela tem remédios em casa – interrompeu Angela. – É um problema

médico que ela tem.

– Problema médico? – repetiu Wendy. – Que tipo de condição médica? – Uh... Mamãe atirou um olhar exasperado para Angela. – É um tipo raro de anemia – Angela continuou suavemente. –Algumas

vezes faz ela se sentir doente e vacilante.

Wendy acenou como se ela entendesse. – Como no dia em que ela

desmaiou na escola.

– Exatamente. Ela precisa tomar suas pílulas. – Por que você não me contou? – Wendy disse. Ela olhou para Angela e

depois de volta para mim, como se ela realmente estivesse dizendo – Como você contou a Angela sobre isso e não para mim? – Ela pareceu magoada.

– Normalmente, não é grande coisa – eu disse. – Estou me sentindo muito melhor agora. Eu e Angela trocamos um olhar. Especialmente dada a forma como mamãe

reagiu, ambas sabíamos que era uma coisa muito, muito grande.

Quando chegamos em casa três horas depois, após primeiro deixar Wendy

no Lazy Dog, mamãe nos disse – Tudo bem. Vá para seu quarto. Espere por mim lá. Eu vou estar lá em um momento.


241

Eu e Angela fomos para dentro de casa. Não era escuro ainda, mas eu tive a

urgência de acender todas as luzes enquanto nos retirávamos para meu quarto. Sentamo-nos juntas em minha cama. Ouvimos mamãe batendo na porta do Jeffrey.

– Ei – ela disse quando ele respondeu. – Eu pensei em deixá-lo ir ver um

filme em Jackson, desde que eu mimei sua irmã o dia todo. É justo.

Depois que eles se foram, Angela colocou seus braços em volta de mim e

puxou minha colcha em torno de nós, porque eu não conseguia parar de tremer. E nós esperamos. O carro da mamãe estalou pela entrada da garagem cerca de uma hora depois. A porta bateu. Nós escutamos o cuidadoso rangido de seus pés nas escadas. Então ela bateu, muito levemente. – Entre – eu resmunguei. Ela sorriu quando nos viu amontoadas juntas. – Você não deveria ter levado Jeffrey embora. E se o cara estiver lá fora?

– Eu não quero que vocês duas fiquem assustadas, tudo bem? Estamos

seguras aqui.

– Quem era ele? – Angela perguntou. Mamãe suspirou, uma conformada, cansada exalação. – Ele era um Black

Wing. As chances são que ele estava só de passagem.

disse.

– Um anjo caído passando tempo no shopping em Idaho Falls? – Angela

– Quando eu o vi, eu... – comecei a me engasgar, lembrando.


242

– Você sentiu sua tristeza. – A tristeza dele? – Angela repetiu. – Os anjos não têm o tipo de livre-arbítrio que eu ou você temos. Quando

eles vão contra sua concepção, fazem com que cause uma enorme quantidade de dor física e psicológica. Todos os Black Wings sentem isso.

– Por que você ou Angela não sentiram isso? Eu perguntei. – Alguns de nós são mais sensíveis do que outros à presença deles – ela

disse. – Na realidade é uma vantagem. Você pode senti-los vindo. – E o que devemos fazer, se nós virmos eles? – Você faz o que fizemos hoje. Você corre.

– Podemos lutar com eles? – Angela perguntou, sua voz mais aguda que o

normal. Mamãe sacudiu sua cabeça. – Nem mesmo você?

– Não. Anjos são quase infinitamente poderosos. O melhor que você pode fazer é fugir. Se você tiver sorte, e hoje tivemos sorte, o anjo não vai considerá-lo digna de seu tempo.

Ficamos todas em silêncio por um minuto. – A melhor defesa é passar despercebida – mamãe disse. – Então por que você não queria que eu soubesse sobre eles? – eu não pude

manter a acusação fora de minha voz. – Por que não quer que Jeffrey saiba?


243

– Porque sua consciência lhes chama, Clara. Se você está ciente de sua

existência, você é mais provável de ser descoberta.

Ela olhou firmemente para Angela, que atendeu seu olhar durante alguns

segundos antes de se afastar, seus dedos apertando na borda da minha colcha. Ângela foi a única que me contou sobre os Black Wings. – Eu sinto muito – Angela sussurrou. – Está tudo bem – mamãe disse. – Você não sabia.

Mais tarde me rastejei para a cama com mamãe. Eu queria me sentir segura

próxima ao seu calor radiante, mas ela estava fria. Seu rosto estava pálido e

esquelético, como se ela estivesse desgastada ou tentando ser a única corajosa e inteligente, tentando nos proteger. Seus pés eram como blocos de gelo. Eu coloquei meus pés contra os dela, esperando aquecê-los.

– Mamãe – eu disse no escuro. – Eu estava pensando. – Huum.

Wings?

– Em minha visão quando de repente eu me sentia tão triste, eram os Black

Silêncio, em seguida, outro suspiro. – Quando você falou sobre a tristeza que sentiu, a maneira que descreveu,

parecia como uma possibilidade – Mamãe agarrou minha cintura e me puxou para

mais perto. – Não se preocupe Clara. Você não vai ajudá-los preocupando-se. Você não sabe seu propósito ainda. Você ainda está trabalhando com algumas peças muito


244

pequenas. Eu não quero encher sua cabeça com preconceitos antes de você ver tudo por si mesma.

Outro arrepio passou por mim.


245

12 CALA-TE E DANÇA Quando chegou a segunda-feira, tudo parecia estar de volta ao normal.

Caminho pelos corredores da Escola Secundária de Jackson Hole com os mesmos

alunos, e freqüento as mesmas aulas entediantes (à exceção de História das Ilhas Britânicas, claro, onde observo Christian e Brady fazerem uma apresentação sobre William Wallace e me deixo levar por uma fantasia em que vejo Christian com uma

saia escocesa) e, rapidamente, o Asa Negra parece um pesadelo, e me sinto novamente segura.

No entanto, decido que devo levar esta coisa do propósito mais a sério.

Chega de fingir que sou uma garota normal. Não sou. Sou uma sangue-de-anjo. Tenho um trabalho para fazer. Preciso parar de me queixar, de parar de empatar, de parar de questionar tudo. Preciso fazê-lo.

Por isso, na quarta-feira depois das aulas, encontro Christian junto ao seu

armário. Me dirijo diretamente para ele e o toco no ombro. Um pequeno choque me atravessa como se fosse eletricidade estática. Ele se vira e me olha com aqueles olhos verdes. Não parece estar com disposição para conversa.


246

– Olá, Clara – ele diz. – Posso te ajudar?

passada.

– Pensei que eu podia te ajudar. Reparei que não veio às aulas na semana

– O meu tio me levou para acampar. – Quer as minhas anotações de História das Ilhas Britânicas? – Claro, isso seria ótimo – ele diz, como se não se interessasse minimamente

por História das Ilhas Britânicas e estivesse me fazendo um favor.

Nem parece ele, não faz piadas, não tem auto-confiança, não se balança

subitamente enquanto caminha. Está com olheiras.

Lhe entrego o meu caderno. Quando ele pega ele, um grupo de garotas

passa por nós, garotas populares, amigas de Kay. Sussurram entre si e lhe lançam olhares desagradáveis. Os ombros dele ficam tensos.

– Vão acabar esquecendo – lhe digo. – Hoje é notícia de primeira página,

mas espera mais uma semana. Irá acalmar.

– Sim? E como é que você sabe tanto? – Ah, sabe como é. Sou a rainha dos boatos. Desde que cheguei aqui, todas

as semanas parece haver um novo boato a meu respeito. Faz parte de ser a aluna nova, suponho. Já ouviu aquele em que seduzi o treinador de basquetebol? É o meu preferido.

– Os boatos ao meu respeito não são verdade – afirma Christian,

acaloradamente. – Fui eu que acabei com Kay, e não ao contrário.


247

– Ah. Segundo a minha experiência, geralmente os boatos não são... – Eu estava tentando fazer o que era certo. Não podia ser quem ela

precisava, e estava tentando fazer o que era certo – ele diz, com uma temeridade nos

olhos que me lembra o aspecto dele na visão, uma mistura de intensidade e vulnerabilidade, o que o torna ainda mais gostoso, se isso é possível. – Não tenho nada a ver com isso – respondo. – Não sabia que ia ser assim. Estamos no corredor enquanto os outros alunos passam por nós. No teto,

quase por cima da cabeça de Christian, está um estandarte que anuncia o baile de finalistas. AMOR MÍTICO está escrito em letras de um azul vivo. Sábado, das sete à meia-noite. Amor Mítico.

A minha mente começa a girar a um milhão de quilômetros por hora, como

a roda, na Roda da Fortuna. Depois pára.

– Quer ir ao baile de finalistas comigo? – pergunto de rompante. – O quê? – Eu não tenho par, e você não tem par, por isso talvez possamos ir juntos. Ele me olha fixamente. Se o meu coração bater mais que isto, desmaio.

Tento aparentar calma, como se não fosse muito ruim se ele dissesse que não.

– Ninguém te convidou? – ele pergunta. Porque não param de me

perguntar isto?


248

– Não. Se acende uma luz nos seus olhos. – Claro, porque não? Um encontro com a Rainha Elisabeth. Ele sorri. Não consigo evitar sorrir de volta. – Ao que parece, é sábado, das sete à meia-noite. Gesticulo em direção ao estandarte. Ele se vira e olha para cima. – Nem sequer sei onde ir te buscar – diz ele. Digo rapidamente o meu endereço e explico – lhe como chegar lá. Ele me

faz parar, expirando enquanto ri. Abana a cabeça e enfia a mão dentro do bolso para retirar uma caneta. Depois pega no meu pulso e, instantaneamente, sinto um formigueiro de calor elétrico na nuca.

– Me envie o seu endereço por e-mail – ele pede. Desdobra os meus dedos e escreve o seu e-mail na palma da minha mão

com tinta verde.

– Está bem – digo, com a voz repentinamente aguda e vacilante. Uma madeixa de cabelo cai no meu rosto e o afasto para trás da orelha.


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Ele recolhe a caneta e a atira na mochila por cima do ombro. – Às sete horas? – Está bem – digo, novamente. Parece que um único toque me reduziu a monossílabas. Talvez Angela

tenha razão. Talvez a mão dada que vejo na minha visão signifique que parte do meu

propósito é fazer com que este tipo gatíssimo seja meu namorado. Não seria nada mal. – Muito bem, agora tenho de ir – ele diz me acordando do meu devaneio. A sua boca forma aquele sorriso retorcido que ele dedica a todas as garotas.

De repente, se parece com ele próprio, esquecendo o assunto de Kay por um momento.

– Te vejo no sábado – ele diz. – Até lá. Enquanto ele se afasta, fecho a minha mão em torno do seu e– mail. Sou um

gênio, penso. Esta é uma idéia genial.

Vou ao baile de finalistas com Christian Prescott.

A Mãe está novamente chorando. Estou de frente para um espelho de corpo

inteiro no quarto dela, a alguns minutos das sete, na noite do baile de finalistas, e ela

está chorando, não está soluçando porque isso era pouco dignificante para ela, mas as

lágrimas caem pelo seu rosto. É alarmante. Num minuto está me ajudando a colocar


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dois laços prateados no cabelo, algo no estilo grego, ela disse, e no minuto seguinte está sentada na extremidade da cama chorando silenciosamente. – Mãe – digo impotente. – É que estou tão feliz por você – ela funga, envergonhada. – Certo. Feliz. – Não consigo evitar o sentimento desconcertante de que ela

se está revelando ultimamente. – Se controle, está bem? Ele chegará a qualquer momento. Ela sorri.

de baixo.

– Há uma Avalanche prateada subindo o caminho – grita Jeffrey, do andar

A Mãe se levanta.

pouco.

– Você fica aqui – diz ela, limpando os olhos. – É bom que ele espere um

Me dirijo para a janela e, às escondidas, observo Christian se aproximar da casa e estacionar. Endireita a gravata e passa uma mão pelo seu cabelo escuro e

desalinhado antes de se dirigir para a porta. Olho-me uma última vez ao espelho. O

termo Amor Mítico devia fazer lembrar mitos de deuses e deusas, Hércules, e esse tipo de coisas, por isso o meu vestido de inspiração grega é perfeito. Deixei o meu cabelo

cair sob a forma de ondas pelas minhas costas para não ter de forçá– lo a um penteado. Em breve, terei de pintá-lo outra vez. As minhas raízes douradas começam a aparecer.


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– Aqui vem ela – diz a Mãe quando eu apareço acima das escadas. Ela e

Christian erguem o olhar para mim. Sorrio e desço os degraus com cuidado.

– Uau – diz Christian, quando paro na sua frente. O seu olhar me varre da

cabeça aos pés. – Lindo.

aceito.

Não tenho a certeza se ele se refere a mim ou ao vestido. Seja como for,

Ele tem vestido um elegante smoking preto, com um colete e uma gravata

prateados, e uma camisa branca com botões de punho e tudo. Em resumo, está delicioso. Nem a Mãe consegue tirar os olhos de cima dele. – Está fantástico – elogio. – Christian estava me dizendo – que mora perto daqui – comenta a Mãe,

com os olhos brilhando, e sem qualquer vestígio de lágrimas em seu rosto. – A cerca de cinco quilômetros diretamente a leste daqui, não é?

– Mais ou menos – esclarece ele, ainda olhando para mim. – Em linha reta. – Tem irmãos e irmãs? – ela pergunta. – Não, sou só eu. – Devíamos ir andando – eu digo, porque percebo que ela está tentando

perceber como é que a minha visão fará sentido, e tenho receio que ela o afugente. – Ficam tão bem juntos – diz a Mãe. – Posso tirar uma fotografia? – Claro – responde Christian.


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Ela corre para o escritório para ir buscar a sua máquina fotográfica. Christian e eu esperamos por ela em silêncio. Ele tem um cheiro espe-

tacular, aquela mistura maravilhosa de sabonete, água-de-colônia e o seu próprio odor. Feromonas imagino, mas parece ser mais do que simples química. Sorrio para ele. – Obrigada por ser tão paciente. Sabe como as mães são.

Ele não responde, e durante um momento me interrogo se ele e eu teremos

oportunidade de nos conhecermos melhor esta noite. Depois a minha mãe regressa e

nos faz encostar à porta enquanto tira uma fotografia. Christian coloca o seu braço atrás de mim, a sua mão toca ligeiramente nas minhas costas. Sinto um pequeno

tremor irromper pelo meu corpo. Acontece algo quando nos tocamos, algo que não consigo explicar, mas faz me sentir fraca e forte ao mesmo tempo, consciente do

sangue que corre nas minhas veias e do ar que entra e sai dos meus pulmões. É como se o meu corpo reconhecesse o dele. Não sei o que significa, mas até gosto.

– Oh, esqueci – digo depois de o flash da máquina disparar. – Comprei

uma flor para a lapela.

Saio rapidamente em direção à cozinha para tirar da geladeira. – Aqui está – digo, regressando para junto dele. Aproximo-me dele para

prender a flor, uma rosa e um pouco de mato, à sua lapela e me espeto no dedo com o alfinete.

– Au – ele diz, se encolhendo, como se o alfinete tivesse picado o dele em

vez do meu.


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Levanto o dedo e se forma nele uma única gota de sangue. Christian pega a minha mão e examina–a. A minha respiração pára. Po-

deria me habituar a isto.

– Acha que sobrevive? – ele pergunta, me olhando nos olhos, e preciso

fechar os meus para evitar tremer enquanto respiro.

– Acho que sim. Já nem sequer está sangrando. Aceito o lenço de papel que a Mãe me estende e pressiono-o contra a gota

de sangue que tenho no dedo, com cuidado, para não tocar no vestido. – Vamos tentar de novo – digo e, desta vez, me aproximo dele, os nossos hálitos se misturando, enquanto eu prendo a flor com cuidado.

Foi a mesma sensação que tive quando estávamos deitados na neve na

colina de esqui, a um sopro de distância. Como se pudesse me inclinar para frente e beijá-lo, em frente da minha mãe e tudo. Recuo rapidamente, pensando que as coisas ou vão correr muito bem ou muito mal esta noite.

– Obrigado – ele agradece, olhando para baixo para o resultado do meu trabalho. – Também te comprei uma flor, mas está no carro. – Ele se volta para a Mãe – Prazer em conhecê-la, senhora Gardner.

– Por favor, me chame de Maggie. Ele acena com a cabeça, cordialmente. – Te quero em casa antes da meia-noite – acrescenta ela.


254

Eu a olho fixamente. Não pode estar falando a sério. O baile nem sequer

acaba antes da meia-noite.

– Vamos? – pergunta Christian, antes de eu conseguir pensar num

argumento razoável.

Ele estende o braço e eu enfio o meu no dele. – Vamos – replico, e depois saímos lá para fora.

À porta do museu de arte em Jackson onde se realiza o baile, entregam às

garotas delicadas coroas de louro com as folhas pintadas com tinta prateada, e aos garotos longas faixas de tecido branco que devem usar sobre um dos ombros dos seus

smokings, estilo toga. Agora que parecemos oficialmente gregos antigos, nos é permitido entrar para a sala, onde o baile decorre a todo o vapor.

– Tiramos primeiro uma fotografia? – pergunta Christian. – A fila não

parece muito longa. – Claro.

Inicia uma balada e nós nos encaminhamos para a zona das fotografias. Vejo Jason Lovett convidar Wendy para dançar. Ela parece uma princesa com o meu vestido cor-de-rosa. Ela acena com a cabeça, eles colocam os braços em torno um do

outro e começam a balançar desajeitadamente ao som da música. É fofo. Também

vejo Tucker a um canto, dançando com uma ruiva que desconheço. Ele me vê, e

quase acena, mas depois vê Christian. Os seus olhos se movem para frente e para trás, de mim para ele, como se estivesse tentando perceber o que aconteceu desde sábado passado em que eu não tinha par.

– Agora é a vez de vocês – diz o fotógrafo.


255

Christian e eu subimos para a plataforma que eles montaram. Christian se

coloca atrás de mim, e me rodeia com os braços de forma descontraída, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Sorrio. O flash da máquina dispara.

Repentinamente feliz, o sigo para a pista de dança, a qual está coberta de

nevoeiro e enfeitada com rosas brancas. Ele pega na minha mão e me faz rodopiar, e

depois me pega pelos braços, ainda segurando a minha mão levemente na sua. Sou

assaltada por aquela consciência elétrica, que dispara através do meu corpo como se tivesse levado uma injeção de cafeína. – Sabe dançar – digo, enquanto ele nos faz avançar por entre a multidão. – Um pouquinho. Sorri. Ele sabe mesmo conduzir um par de dança, e eu me descontraio e

deixo que ele me leve para onde quer ir, fazendo um esforço para olhar para o seu rosto e não para os nossos pés que deslizam por entre o nevoeiro e as rosas, ou para as pessoas que sinto que nos observam.

Piso em seu pé. Duas vezes. E sou eu uma bailarina. Tento não olhar fixamente para ele. Por vezes, ainda é um choque vê-lo de

frente. Me faz me lembrar de uma história que a minha mãe me contava sobre um escultor cuja estátua de repente ganhou vida. É isso que sinto em relação a Christian

neste momento. Ele vive de uma forma que me parece impossível, como se o tivesse criado a partir dos esboços que fiz dele quando tive a visão pela primeira vez. Dos meus sonhos.

Mas isto não é um conto de fadas, me relembro. Estou aqui com um

propósito. Tenho que tentar compreender o que nos juntará na floresta.


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pergunto.

– Disse que o teu tio te levou a acampar? Acamparam aqui perto? –

Ele parece confuso. – Sim, foi em Teton. Num lugar que fica fora do caminho. – Não foram de carro? – Não, caminhamos. Ele continua espantado com a minha escolha de tema para conversa. – Estou perguntando porque quero começar a acampar este Verão.

Também quero começar a fazer caminhadas. Dormir debaixo das estrelas. Nunca fizemos isso na Califórnia.

– Então, veio para o lugar certo – ele diz. – Existem livros inteiros escritos

sobre os lugares de acampamento fantásticos que existem aqui.

Interrogo-me se estaremos juntos num destes lugares de acampamento

quando o incêndio florestal começa.

Dançamos perto um do outro no refrão final, depois a canção acaba,

recuamos um passo em relação um ao outro, um tanto desajeitadamente. – Sabe o que queria de repente? – digo, para quebrar o silêncio. – Ponche.

Abrimos caminho até a mesa dos refrescos e empilhamos azeitonas gregas,

bolachas de água e sal, e um pouco de queijo Peta em pratos de plástico minúsculos. Não trago muito porque não sei o que isso faria ao meu hálito. Encontramos uma

mesa vazia e nos sentamos. Vejo Angela girar em plena dança, com um garoto alto e


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louro que já vi no corredor algumas vezes. Tyler qualquer coisa, acho que foi o que ela disse. O vestido vermelho sangue que a mãe dela costurou para ela está fantástico. Ela contornou os seus olhos dourados em preto, subindo junto aos cantos, como os de

uma antiga egípcia. Se este baile tem como tema o Amor Mítico, ela é uma deusa, sem dúvida. Mas é o tipo de deusa que exige sacrifícios de sangue. O olhar dela encontra o meu e ela aponta o polegar para cima, e depois dança sugestivamente em torno do garoto enquanto ele se limita a mover o corpo ao som da música. – É amiga de Angela? – pergunta Christian. –Sim. – Ela é um pouco intensa. – Não é a primeira pessoa a me dizer isso – comento, rindo porque ele não

faz qualquer idéia de como Angela pode ser loucamente intensa. Não a ouviu discutir

as capacidades de ler pensamentos dos Intangere. – Acho que as pessoas se deixam intimidar pela sua inteligência. Como se sentem intimidadas por você... – me obrigo a parar.

– O quê? Acha que as pessoas se sentem intimidadas por mim? Por quê? – Porque é tão... Perfeito, e popular, e bom em tudo o que faz. – Perfeito – ele ri dele, com zombaria, e tem a humildade de parecer

genuinamente envergonhado.

– Na verdade, é irritante. Ele ri. Depois se estica para frente sobre a mesa e pega na minha mão,

acendendo todos os meus nervos.


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– Acredite, não sou perfeito – diz ele. Desse momento em diante, as coisas correm muito bem. Christian é um

acompanhante exemplar. É encantador, atencioso, interessado. Já para não dizer que

é super gostoso. Durante algum tempo, me esqueço por completo do meu propósito. Limito–me a dançar. Deixo que aquela sensação magnética de estar próxima dele me encha até que tudo o mais desaparece. Estou, literalmente, me divertindo como nunca.

Até Kay aparecer. É claro que ela está lindíssima com um vestido de renda

cor de alfazema que lhe abraça os ombros e lhe acentua a sua cintura minúscula. O

seu cabelo escuro está preso no alto da cabeça, com os cachos caindo em cascata para acariciarem a parte de trás do seu pescoço. Há algo no seu cabelo que apanha a luz e

brilha. Ela tem um braço enluvado, com uma luva de cetim branco comprida, em torno da cintura do seu acompanhante quando entra, com um sorriso na cara dele

como se estivesse se divertindo imensamente. Nem sequer olha na nossa direção. Puxa o seu acompanhante para a pista de dança quando a próxima balada começa a tocar.

Christian me puxa para perto. Os nossos corpos se unem. A minha cabeça

se encaixa perfeitamente na curva do seu ombro. Não consigo evitar fechar os olhos e inalar o seu odor. E, de repente, começo a ter a visão outra vez, na versão mais forte que já tive.

Caminho por uma estrada de terra batida por entre a floresta. O carro de

Christian está estacionado na beirada da estrada. Sinto o cheiro do fumo. Sinto a

cabeça enevoada pelo cheiro. Começo a me afastar da estrada, e a entrar pela floresta

dentro. Não estou preocupada. Sei exatamente onde encontrá-lo. Os meus pés me levam lá sem que tenha de direcioná-los. Quando o vejo, ali de pé, com as costas


259

voltadas para mim, com o seu casaco preto de lã, as suas mãos nos bolsos, sinto

aquela dor familiar. A intensidade da tristeza dificulta a minha respiração. Fico tão frágil naquele momento, como se pudesse ser quebrada em milhões de pedaços. – Christian – o chamo. Ele se vira. Olha para mim com um misto de dor e de alívio. – É você – diz ele. Começa a andar na minha direção. Por trás dele, o incêndio toma a colina.

Ruge na nossa direção, mas não sinto medo. Christian e eu caminhamos um para o outro até estarmos cara a cara.

– Sou eu – respondo. – Estou aqui. Estendo a minha mão e pego na dele, e parece fácil, como se tivesse estado

com ele a vida inteira. Ele ergue a sua outra mão para tocar na minha face. A sua pele

está tão quente que parece que me queima, mas não me afasto. Por um momento,

ficamos assim, quietos como se o tempo tivesse parado, como se o fogo não viesse na nossa direção. E depois estamos, repentinamente, nos braços um do outro, num

abraço apertado, os nossos corpos se pressionando um contra o outro como se nos estivéssemos nos transformado numa só pessoa, e o solo começa a se afastar debaixo de nós.

Estou de volta ao baile, ofegante e tentando recuperar o fôlego. Ergo o olhar

para os olhos verdes e muito abertos de Christian. Paramos de dançar e estamos no meio da pista de dança olhando fixamente um para o outro. O meu coração parece

que vai saltar do meu peito. Uma onda de tontura se abate sobre mim, e oscilo, com os joelhos repentinamente trêmulos. Os braços de Christian me seguram.


260

– Está bem? Ele olha ao redor rapidamente para ver se as pessoas estão olhando para

nós. Estão. Por cima do seu ombro vejo Kay, que me olha com ódio no olhar. – Preciso de ar.

Me liberto e corro para a porta de acesso à varanda, saindo de rompante

para a noite fresca. Me encostando na parede, fecho os olhos e tento acalmar o meu coração acelerado. – Clara?

Abro os olhos. Christian está na minha frente, parecendo tão abalado

quanto eu, com o rosto pálido à luz do candelabro.

dentro.

nenhum.

– Estou bem – digo, sorrindo para provar. – Estava um pouco abafado lá

– Devia ir te buscar alguma coisa para beber – ele diz, mas não vai a lugar

– Estou bem. Sinto-me estúpida. E depois sinto uma pontada de raiva. Não pedi nada

disto. Voarei com Christian nos meus braços. E depois? O gostoso do Christian Prescott irá salvar o mundo, e a minha parte estará feita. Terei concluído – e servido – o meu propósito.

Sinto– me como se fosse um adereço na vida de outra pessoa.


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– Vou buscar o tal ponche – se oferece Christian. Balanço a cabeça. – Isso foi uma idéia triste. – O quê? – Não quer estar aqui comigo – digo, o olhando nos olhos. – Está aqui pela Kay. Ele não responde. – Pensei que sentia uma ligação entre nós, mas... Queria que gostasse de

mim, só isso, que gostasse realmente de mim. O que você e Kay têm, tiveram, ou seja o que for, eu nunca o tive.

Percebo, horrorizada, que tenho lágrimas nos olhos. – Desculpa – ele diz, por fim, se dirigindo para a parede para se encostar a

meu lado. Ele olha para mim fervorosamente. – Eu gosto de você, Clara.

Começo a sentir os efeitos da montanha russa emocional na qual andei toda

a noite. Começo também a ter uma dor de cabeça. – Nem sequer me conhece. – Gostaria de conhecer.

Se ele soubesse como isto é importante. Mas antes de eu poder responder, a

porta se abre. Brady Hunt sai.


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–Vão anunciar o rei do baile de finalistas – diz ele, olhando para Christian,

expectante.

Christian hesita. – Devia ir – lhe digo. Brady olha para mim com curiosidade antes de voltar para dentro. Christian se dirige para a porta e a segura para eu passar, mas eu abano a cabeça. – Preciso de mais um minuto, está bem? Fecho os olhos até ouvir a porta se fechar. O ar fica, repentinamente, frio.

Um a um, o senhor Erikson anuncia a corte do rei, os quais pertencem quase todos às equipas de desporto.

– E o rei do baile de finalistas é... – anuncia o senhor Erikson. A sala está em

absoluto silêncio. – Christian Prescott.

Entro a tempo de ver a senhora Colbert, a minha professora de francês,

entregar um cetro dourado a Christian. Christian sorri com graciosidade. Ele lida tão bem em ser o centro das atenções, como uma estrela de cinema ou um político.

Talvez seja presidente um dia. A senhora Colbert parece estar a apreciando muito fazê-lo ajoelhar para poder colocar a coroa de folhas douradas sobre a sua cabeça. Ele agradece e se levanta para acenar com a mão para a multidão, que o aplaude estrondosamente.

Depois se desvia para o lado enquanto o senhor Erikson lê os nomes da

corte da rainha do baile de finalistas, e é aí que começo a ficar ansiosa. É claro que


263

não diz o meu nome. Nem sequer fui nomeada. Sou Bozo, o palhaço. Mas todas as meninas da corte são amigas de Kay. O que só pode querer dizer...

– E agora a rainha do baile de finalistas – anuncia o senhor Erikson. – Kay Patterson. A sala vibra com os aplausos estrondosos dos alunos que votaram nela. Kay se aproxima do palco com uma graça e uma pose infinita. Aceita o

ramo de rosas brancas debaixo do braço, e se inclina para baixo enquanto o senhor Erikson substitui a sua pequena coroa de louros prateada por uma grande coroa de louros dourada.

– E agora, como é habitual, o rei e a rainha irão partilhar uma dança – diz

o senhor Erikson.

Uma fiada de palavras muito pouco angélica passa pela minha cabeça. Kay

olha para Christian, expectante. Ele olha de relance para baixo como quem toma uma

decisão, depois ergue o olhar e sorri novamente. Enquanto a música começa a tocar ele caminha em direção a Kay e pega a sua mão. Ela coloca o outro braço no ombro dele. Começam a dançar. Todos à minha volta começam a conversar animadamente,

os observando se moverem tão encantadores ao som da música. Christian e Kay, novamente juntos.

Sinto-me como se tivesse entrado na dimensão do inferno. – Olá, Cenoura – diz uma voz. Encolho-me.


264

– Agora, não, Tucker. Neste momento, não estou para te aturar. – Dança comigo – convida ele. – Não. – Vamos, está com um aspecto patético, aqui parada vendo o seu par

dançar com outra pessoa.

Viro-me para o olhar com olhos arregalados. Mas tenho de ser sincera: fica

muito bem quando se arruma. A camisa branca contra o seu pescoço realça o seu

bronzeado. Os seus ombros parecem largos e fortes dentro do seu smoking. O seu curto cabelo trigueiro está penteado com gosto. Os seus olhos azuis refulgem debaixo das luzes. Até cheira a perfume.

– Como quiser – respondo. Ele estende a mão, eu a pego e depois o sigo até a pista de dança e coloco os

meus braços em torno do seu pescoço. Ele não diz nada, se limitando a mover os pés de um lado para o outro, olhando para o meu rosto. Toda a minha raiva se esvai. Ele

está me fazendo um favor, ou assim parece. Olho para o teto à procura do revelador balde de sangue de porco que ele está prestes a jogar em cima de mim. – Onde está o seu par? – pergunto. – Bem, isso é uma pergunta complicada. Depende do que quer dizer. – Com quem veio esta noite? – Com ela – diz Tucker, gesticulando para a garota ruiva que está junto à

mesa do ponche.


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– E com ela – diz ele, olhando na direção do DJ onde uma morena que eu

não conheço, uma garota do último ano, presumo, faz um pedido.

– E com ela – termina ele, apontando para a menina loura que está

dançando com o segundo classificado a rei do baile de finalistas. – Veio com três meninas?

– Estão na equipe de rodeio – ele diz, como se isso explicasse tudo. –

Nenhuma delas tinha par, e eu pensei que era o único homem capaz de lidar com as três.

– É inacreditável.

realidade.

– E você veio com Christian Prescott – afirma ele. – O seu sonho tornando

No momento, parece mais com um pesadelo. Lanço um olhar a Christian e

a Kay por cima do ombro. Como era de prever, Kay está chorando. Está agarrada ao ombro de Christian a soluçar.

Tucker se vira para seguir o meu olhar. Christian se encosta mais a Kay e sussurra algo. Seja o que for, ela não

reage bem. Começa a chorar ainda mais.

Tucker.

– Bolas, não queria estar no lugar dele nem que me pagassem – comenta

Olho para ele de olhos arregalados.


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– Desculpa – pede ele. – Vou me calar. – Faz isso. Ele abafa um sorriso e terminamos a canção sem falar. – Obrigado pela dança – agradece ele.

Christian.

– Obrigada por me ter me convidado – respondo, ainda olhando para

Os seus braços envolvem Kay. O rosto dela está enterrado no peito dele. Não sei o que fazer. Limito-me a ficar ali, olhando para ele. Ele se afasta de

Kay e lhe diz algo, com gentileza, depois a leva para uma mesa e puxa uma cadeira

para ela se sentar. Até que ele vai buscar ponche, mas ela acena que não com a mão.

Riscos de rímel secam no seu rosto. Tem um aspecto exausto. Primeiro pensei que

fosse uma farsa, uma representação como a de rebelde ordinária, mas ao vê–la curvada naquela cadeira é impossível não acreditar que ela esteja genuinamente devastada.

Christian vem falar comigo, claramente agitado. – Desculpa – ele diz. – Não sabia que isto ia acontecer. – Eu sei – respondo, calmamente. – Não faz mal. Onde está o par de Kay?

Ele que a console, penso. – Foi embora – responde Christian.


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– Foi embora – repito incrédula. – Por isso eu estava pensando – diz Christian, com o rosto vermelho – que

devia levar Kay para casa.

Olho fixamente para ele, atônita. – Voltarei imediatamente para vir te buscar – afirma ele, rapidamente. – Pensei em levá-la em casa em segurança e depois levar você.

meu lado.

– Eu levo Clara para casa – se oferece Tucker, que esteve o tempo todo ao

– Não, só demoro um minuto – protesta Christian, se endireitando. – O baile vai terminar dentro de dez minutos – diz Tucker. – Quer que ela

fique à tua espera no parque de estacionamento?

Sinto-me como a Cinderela, sentada no meio da estrada, com uma abóbora

e uns quantos ratos, enquanto o Príncipe Encantado parte para salvar outra garota. Christian parece doente de culpa.

– Vai lá levar Kay para casa – digo, e quase me engasgo nas palavras. – Vou

para casa com Tucker.

– Não se importa? – Claro que não. Tenho de estar em casa à meia-noite, se lembra?


268

– Depois te recompenso – diz ele. Quase posso jurar que vejo Tucker revirar os olhos. – Está bem. – Olho para Tucker. – Podemos ir embora agora? – Claro que sim. Depois de encontrar Wendy e Angela e de me despedir, espero à porta enquanto Tucker reúne as suas outras acompanhantes. Olham para mim com algo que parece pena e, por um momento, odeio Christian Prescott.

Viajamos coladas umas às outras, no carro enferrujado de Tucker, quatro

garotas com vestidos de cerimônia, enfiadas dentro de uma cabine. A loura sai primeiro, porque mora em Jackson. Depois sai a ruiva. Depois a morena. – Adeus, Fry – se despede ela, enquanto sai da carro. Agora só estou eu e ele na cabine. Está tudo calmo e ele conduz em direção

a Spring Creek Road.

– Fry... Não é? – Falo para ele passado um tempo, incapaz de suportar o silêncio. – O que significa isso? – Sim – diz ele, abanando a cabeça como se ainda não conseguisse

compreender. – Na escola preparatória chamavam–me Frei Tuck57. Agora é só Fry. Mas os meus amigos chegados chamam–me Tuck.

57

Em inglês, Friar Tuck, um dos companheiros do lendário Robin dos Bosques.


269

Quando chegamos na minha casa, já passam quinze minutos da hora a que

devia chegar. Abro a porta, depois paro e olho para ele. – Poderia... Não contar este fiasco a mais ninguém lá na escola?

– Eles já sabem – comenta-o. – Uma das características da Escola

Secundária de Jackson Hole é que todos sabem da vida uns dos outros. Suspiro.

– Não se preocupe com isso – sugere ele. – Até segunda-feira esquecem, certo? – Certo – ele responde. Não sei dizer se ele está me zuando ou não. – Obrigada pela carona – agradeço. – Fry. Ele resmunga, depois sorri. – Foi um prazer. É um cara tão estranho. Cada vez mais estranho. – Até depois. Salto do carrinho, fecho a porta com força e me dirijo para casa. – Hei, Cenoura – chama ele, de repente. Me volto para ele.


270

– É provável que nos entendamos melhor se parar de me chamar disso. – Você gosta. – Não gosto. – O que vê num tipo como Christian Prescott? – ele pergunta. – Não sei – respondo, com cansaço. – Quer mais alguma coisa? Vejo aparecer a covinha do seu rosto. – Não – responde ele. – Então, boa noite. – Boa-noite – se despede ele, e depois conduz em direção à escuridão. A luz do alpendre se acende enquanto eu subo as escadas sorrateiramente.

A Mãe está na entrada.

– Aquele não era Christian. – Observação brilhante, Mãe. – O que aconteceu? – Ele está apaixonado por outra menina – respondo, e retiro a coroa de

louros prateada da minha cabeça.


271

Mais tarde, na parte mais escura da noite, a minha visão se transforma num

pesadelo. Estou na floresta. Estou sendo observada. Sinto os olhos cor de âmbar do Asa Negra. Depois ele está me agarrando contra o chão. Está me tocando, as suas mãos geladas sugando o calor do meu corpo. As agulhas dos pinheiros se espetam nas

minhas costas. Os seus dedos torcem o botão de cima das minhas calças jeans. Grito.

A minha mão atinge as suas asas e arranco um punhado de penas pretas. Se evaporam nos meus dedos. Continuo a arrancar as penas das asas do anjo, cada uma

delas um pedaço da sua maldade, até que, de repente, ele se dissolve numa pesada nuvem de fumaça, me deixando tossir e a arfar na terra. Acordo com um sobressalto, emaranhada nos meus cobertores. Alguém está

ao lado da minha cama. Inspiro para começar a gritar novamente, mas a sua mão cobre a minha boca.

– Clara, sou eu – diz Jeffrey. Retira a mão e se senta na borda da cama. – Te

ouvi gritar. Teve um pesadelo, não foi?

O meu coração bate com tanta força que o ouço como se fosse um tambor

de guerra. Aceno com a cabeça. – Quer que eu vá chamar a Mãe? – Não. Estou bem. – Era sobre o quê?

Ele continua não sabendo da existência dos Asas Negras. Se eu lhe contar,

ficará mais vulnerável a eles, disse a Mãe. Engulo seco.

– O baile de finalistas não correu propriamente como planeado. Ele franze a sobrancelha as unindo.


272

– Teve um pesadelo com o baile de finalistas? – Sim, bem, foi esse tipo de noite. Ele olha para mim como quem não acredita, mas estou muito cansada para

lhe explicar como a minha vida parece estar se desfazendo pelas costuras.


273

13 SININHA GÓTICA O meu celular toca. O tiro do bolso, olho para ele, rejeito a chamada, e

depois o enfio novamente no bolso. Do outro lado da mesa da sala de jantar, a Mãe olha para mim e ergue as sobrancelhas. – Christian de novo?

Corto um pedaço de bife e o enfio dentro da boca. Mal consigo saboreá-lo

de tão zangada que estou. O que me faz ficar ainda mais zangada. Habitualmente, adoro bife.

diz ela.

– Talvez devesse falar com ele. Dar-lhe uma oportunidade de se desculpar–

Pouso o meu garfo.

– A única forma de eu desculpar ele é se construir uma máquina do tempo,

e voltar à noite de ontem, e... – A minha voz esmorece. E o quê? E virar as costas para

Kay enquanto ela desmorona? E me levar em casa em vez dela? E me beijar na


274

entrada da porta? – Só preciso ficar zangada m pouco, está bem? Sei que é capaz de não ser a atitude mais madura, mas é assim.

O telefone da cozinha começa a tocar. Olhamos uma para a outra. – Eu atendo – ela diz, e desliza para fora da sua cadeira para pegar no

telefone que está na parede.

– Está sim? – ela diz. – Receio que ela não queira falar com você. Me dobro sobre a mesa. A minha fatia de bife está fria. Pego no meu prato e

entro na cozinha, onde a Mãe se encosta ao balcão, acenando com a cabeça ao que quer que ele lhe diz. Como se ele estivesse do seu lado. Ela coloca a mão por cima do fone. – Acho mesmo que devia falar com ele. Jogo a minha fatia de bife no lixo, e depois enxágüo casualmente o meu

prato na pia e enxugo as minhas mãos num pano de prato. Estendo a mão para o telefone. Surpreendida, ela me entrega. Encosto no ouvido. – Clara? – pergunta Christian, esperançoso. – Vê se percebe – digo, e depois desligo o telefone.

Entrego novamente o telefone à Mãe. É suficientemente esperta para não

me dizer nada enquanto passo por ela e subo as escadas em direção ao meu quarto. Fecho a porta e me atiro para cima da cama. Quero gritar dentro da minha almofada.


275

Não serei o tipo de garota que deixa que um rapaz a trate como se fosse

uma porcaria e que continua a adulá–lo. Fui ao baile de finalistas com Christian Prescott. Não devia ser mágico, digo comigo. Não devia ser romântico. É o meu

trabalho e só isso. Mas não devia ter acabado comigo sendo despejada no carro de Tucker no final da noite.

Por isso acabou, decido. De agora em diante, isto de Christian Prescott não

passará de um trabalho. Vai na floresta, voa com ele de lá para fora, ao que parece, deixa-o onde quer que ele precise de ir, e é só isso. Não precisa ser amiga dele, nem

nada mais. Nada de mãos dadas. Nada de olhá–lo fixamente nos olhos com fascínio.

Perante a lembrança da visão, da sua vivacidade, o meu peito se aperta. A sua mão

quente no meu rosto. Fecho os olhos. Amaldiçôo o calor que inunda a minha barriga. Amaldiçôo a visão por me enganar, sei lá.

O meu celular toca. É Angela. O atendo.. – Não diga nada – lhe peço. Há silêncio do outro lado. – Está aí? – Me disse para não dizer nada. – Me referia à noite passada. – Está bem. Deixa-me ver. A minha mãe decidiu apresentar a peça musical

Oklahoma! Em The Garter, no Outono. Estou tentando convencê–la a não o fazer. Quem quer ver o Oklahoma! em Wyoming? – Estavam todos falando disso? – pergunto. – Depois que saímos?


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Ela faz uma pausa, depois muda intencionalmente de assunto. – Hoje o dia está bonito. Quase como no Verão. – Angela. Ela suspira. – Sim – ela admite. Gemo. – Pensam que eu sou uma anormal? – Bem, eu só posso falar por mim – Consigo ouvi–la sorrir. Começo a sorrir

contra vontade. – Vem jantar aqui – ela convida. – A minha Mãe vai fazer fettuccine

Alfredo. Eu encontro alguma coisa para você socar.

Me descontraio de alívio. Deus abençoe Angela. Nunca conseguiria

agüentar o dia em casa, com o telefone tocando constantemente e a Mãe atrás de mim.

– Quando posso ir para aí? – Quanto tempo demora para chegar? – ela pergunta.

Angela e eu vimos uma sessão dupla no Teton Theatre, um filme de terror e

um filme de ação, nos divertimos muito, o que eu estava precisando. Depois passamos o tempo no palco vazio do Garter. Começo a adorar este lugar. Sinto como se fosse meu e de Angela, um esconderijo secreto onde mais ninguém consegue nos encontrar. E Angela é boa para me distrair.


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– Aqui está uma coisa que te vai animar – ela diz, enquanto estamos

sentadas na extremidade do palco com os pés pendurados por cima do fosso de orquestra.

Ela se levanta e chama as suas asas. Fecho os olhos. Uma mosca cai no meu

ombro. A afasto rapidamente. As moscas da sala de teatro me assustam. Estão sempre voando em direção às luzes, queimando as asas, e depois caem do ar e zumbem em cima do palco, vivas. Olho para Angela de novo. Nada mudou.

– Deveria estar vendo alguma coisa? – pergunto, passado um minuto. Ela franze a sobrancelha. – Espera um pouco. Durante um minuto, nada acontece. Depois as suas asas começam a brilhar,

como o ar brilha por cima do cimento num dia de Verão quente. Lentamente,

começam a mudar de forma, a se alisarem, se curvando num formato diferente. Angela abre os olhos. As suas asas parecem as de uma mariposa gigante, ainda de um

branco puríssimo, mas mais lisas, segmentadas, sarapintadas com pequenas escamas brancas como se veriam nas de uma borboleta quando observada de perto. A minha boca abre–se de espanto. – Como fez isso? Ela sorri. – Não consigo mudar a cor – ela diz. – Pensei que seria muito legal ter asas

púrpuras, mas não resultou. Mas consigo moldá–las como quero se me esforçar o suficiente.


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– Como as sentes quando estão assim? – pergunto, observando as

gigantescas asas de borboleta se abrirem e se fecharem atrás dela, para trás e para frente, com um movimento tão diferente do das nossas asas com penas. Ela parece uma Sininho Gótica.

– As sinto mais frágeis. Acho que não voariam da mesma forma. Nem

sequer sei se conseguiria voar assim. Mas isso é uma limitação do meu cérebro. Acho

que as nossas asas podem ser o que quisermos que sejam. Vemos asas com penas

porque são ícones dos anjos. Mas na verdade são apenas uma ferramenta. Nós escolhemos a forma. Olho fixamente para ela. Nunca me teria ocorrido, nem num milhão de

anos, tentar mudar a forma das minhas asas. – Uau – suspiro, sem fala. –É, não é?

– O que quer dizer com são apenas uma ferramenta? Pra mim parecem

reais – digo, pensando no peso das minhas asas nas omoplatas, na massa dos músculos, das penas e dos ossos.

fora?

– Já se interrogou para onde vão as nossas asas quando não as temos para

Pestanejo. –Não. – Penso que elas possam existir entre dimensões. – Sacode serradura das

calças. – Observe isto.


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Ela fecha novamente os olhos. As asas de borboleta se dissolvem, se trans-

formando numa nuvem brumosa que paira em torno da sua cabeça e dos seus ombros.

– Acha que eu seria capaz de fazer isso? Levanto-me e chamo desajeitadamente as minhas asas. Não consigo evitar

um lampejo repentino de inveja. Ela é muito mais forte do que eu. Muito mais inteligente em relação a tudo. Tem duas vezes mais sangue de anjo.

– Não sei – ela medita. – Posso ter herdado esta coisa esquisita. Mas fazia

mais sentido se todos a pudéssemos fazer. Fecho os olhos. – Borboleta – sussurro.

Abro os olhos outra vez. Ainda tenho penas. – Tem que libertar a sua mente – instrui Angela. – Parece o Yoda58. – Você tem que libertar a mente – ela diz, na sua melhor imitação de Yoda.

parecem.

58

Ela ergue os braços acima da cabeça e se espreguiça. As suas asas desa– Isso foi inacreditavelmente legal – lhe digo.

Personagem de A Guerra das Estrelas, mestre Jedi


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– Eu sei. Naquele momento, outra mosca cai mesmo para dentro da minha camisa, e

entre os gritos e os esforços para retirá-la, e os risos histéricos que se seguem, estou tão grata por ter uma amiga como Angela, que me lembra sempre como é legal ser

uma sangue–de–anjo quando me sinto como uma aberração da natureza. Que consegue me fazer esquecer Christian Prescott, nem que seja por um minuto.

Christian está sentado no degrau da frente quando chego em casa. A luz do alpendre irradia um brilho tipo auréola à sua volta, como um foco num palco. Tem

uma caneca com o que imagino que seja o chá de framboesa da minha mãe na mão, a

qual pousa de imediato no alpendre. Levanta-se de um salto. Eu desejo fervorosamente poder voar para longe.

– Desculpe – ele diz, com fervor. – Fui burro. Fui estúpido. Fui um idiota. Tenho de admitir que ele tem um ar encantador, ali com olhos aluados a

me dizer como é estúpido. Não é justo. Suspiro.

– Há quanto tempo está sentado aqui? – pergunto. – Não muito – ele responde. – Há umas três horas. – Aponta para a caneca.

– As três que bebi fizeram com que parecessem apenas duas horas.

Recuso-me a sorrir da sua piada e passo por ele em direção à casa, onde a

minha mãe salta do sofá de repente e se dirige para o seu escritório sem dizer uma palavra. Pelo que lhe fico grata.

– Entra – grito, uma vez que me parece claro que não irá embora tão cedo.


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Ele me segue até a cozinha. – Muito bem – lhe digo. – Ei como vai ser. Nunca mais voltaremos a falar

do baile de finalistas.

Os olhos dele lampejam de alívio. Pego na sua caneca e a coloco ao lado da

pia. Demoro um momento junto ao balcão para me acalmar.

– Vamos começar de novo – lhe digo, com as costas voltadas para ele. Seria bom, penso, começar de novo. Sem visões, sem expectativas, sem

humilhações. Apenas um garoto que conhece uma garota. Ele e eu. – Está bem. – Sou a Clara. Viro-me para enfrentá-lo e lhe estendo a mão. O canto da sua boca se ergue num sorriso suprimido.

– Sou o Christian – ele murmura, aceitando a minha mão na dele e a

apertando gentilmente.

– Prazer em te conhecer, Christian – lhe digo, como se ele fosse um cara

normal. Como se quando fecho os olhos não o visse no meio de um incêndio florestal. Como se o toque dele neste momento não fizesse irradiar um baque de anseio e de reconhecimento pelo meu corpo afora. – Completamente.


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Saímos novamente para o alpendre da frente. Eu faço mais chá e vou

buscar uma manta para ele e outra para mim, e nos sentamos no degrau da frente, olhando para o céu cravejado de diamantes.

– As estrelas não eram assim tão brilhantes na Califórnia. Eu estava pensando o mesmo.

Quando a minha mãe sai do seu escritório e nos informa, educadamente (e

repleta de felicidade, penso), que é tarde, que amanhã é dia de escola e que seria

melhor Christian ir para casa, já sei muito mais a seu respeito. Sei que vive com o tio, que é dono do Banco de Jackson Hole e de duas agências imobiliárias na cidade. Onde estão os seus pais, ele não diz, mas fico com a impressão de que morreram há muito

tempo. Ele está super ligado à sua empregada doméstica, Marta, que trabalha lá desde que ele tinha dez anos de idade. Adora comida mexicana, esquiar, claro, e tocar guitarra.

– Mas chega de falar de mim – diz ele, passado um bocado. – Vamos falar

de você. Porque veio para cá? – ele pergunta.

– Oh, bem... – Procuro a resposta ensaiada na minha mente. – A minha mãe. Ela queria sair da Califórnia, se mudar para um lugar que não fosse tão povoado, para pegar um pouco de ar puro. Pensou que seria bom para nós. – E foi? Bom para você, quero dizer? – Mais ou menos. Quero dizer, a escola não tem sido propriamente fácil,

tentar fazer novas amizades e tudo isso. – Coro e desvio o olhar, me interrogando se ele estará pensando no apelido de Bozo Gostosa, que é tão popular entre os seus amigos. – Mas gosto de estar aqui... Sinto que este é o meu lugar.


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– Sei como é isso – ele diz. – O quê? Agora é a vez de ele ficar envergonhado. – Quero dizer que, quando me mudei para cá, também foi difícil durante

algum tempo. Não me ajustava.

– Não tinha, tipo, cinco anos? – Sim, tinha cinco anos, mas mesmo assim. É um lugar estranho para onde

mudar, em muitos níveis, especialmente quando se vem da Califórnia. Lembro-me da primeira tempestade de neve; pensei que o céu estava caindo.

Rio e me mexo ligeiramente, e os nossos ombros se tocam. Zás. Mesmo através da roupa. Me afasto. Trabalho, Clara, trabalho, digo para

mim mesma. Clareio ligeiramente a garganta.

– Mas agora sente que este é o teu lugar, certo? Ele acena com a cabeça. – Sim, claro. Não tenho qualquer dúvida de que pertenço a este lugar. Depois me conta que está pensando em passar o Verão em Nova Iorque,

para fazer qualquer estágio de uma faculdade de gestão para estudantes do ensino secundário.


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– Não estou muito entusiasmado com a idéia do estágio, mas o Verão em

Nova Iorque parece uma aventura – ele diz. – Provavelmente, irei. – O Verão todo? – pergunto, um pouco abalada.

Mas e o incêndio, quero lhe dizer. Não pode ir. – O meu tio – ele diz, e depois fica em silêncio por um momento. – Ele quer que eu tire uma licenciatura em gestão para poder assumir a

responsabilidade do banco no futuro. Tem expectativas, sabe, coisas que ele acha que eu devo fazer para me preparar e toda essa conversa. Eu não sei o que quero fazer.

– Compreendo isso – digo, pensando que ele não sabe da missa a metade. –

A minha mãe também é assim, espera sempre tanto de mim. Está sempre dizendo que eu tenho um propósito na vida, algo que nasci para fazer, e que tenho de descobrir o que é. Sem qualquer pressão, certo? Tenho medo de desiludi–la.

– Bem – ele diz, se voltando para mim e sorrindo de uma maneira que faz o

meu coração acelerar. – Parece que estamos ambos em apuros.

As semanas de aulas que faltavam passaram voando. Christian me telefona

de tanto em tantos dias, e fazemos conversa fiada. Se senta ao meu lado na aula e diz

piadas o tempo todo. Há umas duas vezes em que ele almoça na minha mesa, o que

deixa as Invisíveis em polvorosa. No espaço de uma semana, toda a escola se interroga se somos ou não um casal quente. Eu própria me interrogo a esse respeito.

C.

– Eu te disse – relembra Angela, quando lhe falo disso. – Nunca me engano,


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– Isso é reconfortante. Pode se concentrar, por favor? Continuo sem saber

nada a respeito do incêndio. Não sei por que razão ele estaria lá naquele dia. Não sei onde será. Pensei que se o conhecesse melhor, descobriria, mas...

– Tem tempo. Limita-se a apreciar a sua companhia – ela diz. Wendy, por outro lado, mal consegue esconder a sua desaprovação sobre

esta situação com Christian. Mas ela nunca gostou da idéia.

– Eu te disse – ela afirma, afetadamente. – Christian é tipo um deus. E os

deuses não são bons namorados.

– Se vai tentar me vender Tucker outra vez, me poupe. Embora tenha sido

simpático da sua parte me levar para casa depois do baile de finalistas.

que quer.

– Hei, eu estou do teu lado. Farei figas por você e por Christian, se é isso

– Obrigada – agradeço. – Mesmo achando que é um grande erro. Que grandes amigas que eu tenho. Estou confusa por Christian, de repente, me dar tanta atenção. Mesmo

quando eu decidi manter as coisas entre nós estritamente profissionais, assuntos de anjo e apenas isso, ele parece estar completamente interessado em mim de uma

forma que faz a minha cabeça girar. Mas não me convida para sair. Não me toca. Digo-me que não devia me importar, se ele o faz ou não.

– Avalanche prateada a subir o caminho – grita Jeffrey, do andar de cima.


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– Quem é você, do serviço de segurança? – grito de volta. – Algo desse gênero. – Obrigada pelo aviso. Estou no alpendre quando Christian encosta o carro junto à casa. – Olá, desconhecido – o cumprimento. Ele sorri. –Olá. – O que faz aqui?

amanhã.

interno.

– Queria me despedir – ele diz. – Vou ser enviado para Nova Iorque

Ele faz com que a sua viagem a Nova Iorque se pareça com um colégio

– Ah, vamos, vai poder viver a tua grande aventura em Nova Iorque. O meu

pai mora em Nova Iorque, sabe, mas fui lá só uma vez. Ele teve de trabalhar o tempo todo, por isso eu me sentei no sofá e vi televisão durante uma semana – O teu pai? Nunca tinha me falado nele. – Sim, bem, não há muito para dizer.


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Ele encolhe os ombros. – O mesmo se passa com o meu pai. Um assunto sensível, percebo. Interrogo-me se o meu rosto também fica

assim quando falo do meu pai, como se estivesse completamente bem, como se não me importasse minimamente que o meu pai não queira saber de mim. Finjo fazer beicinho.

– Que chatice. A escola só acabou há dois dias e já se vão todos embora –

me queixo. – Você, Wendy, Angela, até a minha mãe. Vai voltar à Califórnia na

próxima semana para tratar de assuntos de trabalho. Sinto–me como se fosse a única ratazana suficientemente burra para ficar neste navio naufragado.

– Desculpa – diz Christian. – Te mando e-mail, está bem? – Está bem. O seu celular começa a tocar dentro do seu bolso. Ele suspira. Não atende.

Em vez disso, dá um passo na minha direção, encurtando a distância entre nós. Parece que estou na visão. Parece que ele vai pegar na minha mão.

– Clara – ele diz, e o meu nome parece diferente quando passa pelos seus

lábios. – Vou sentir a tua falta.

Vai? Penso. – Bluebell subindo o caminho! – soa a voz de Jeffrey, de uma janela do

andar de cima.


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– Obrigada! – grito de volta. – Quem é? O teu irmão? – pergunta Christian. – Sim. Ao que parece é um cão de guarda. – Quem é Bluebell? – Bem... O carro azul e enferrujado de Tucker pára atrás da Avalanche de Christian.

Wendy sai. A sua expressão está enevoada, como se estivesse confusa por me encontrar aqui com Christian. Mesmo assim, tenta sorrir. – Olá, Christian – ela diz. – Olá – ele responde. – Queria passar por aqui – ela diz. – Tucker vai me levar ao aeroporto.

– Hoje? Pensei que fosse amanhã – eu digo, desanimada. – Ainda não

embrulhei o teu presente de despedida. Espera aqui. – Corro para dentro de casa e

regresso com o iPod Shuffle que lhe comprei. Entrego. – Não sabia bem o que precisaria num estágio de veterinária, a menos que seja de mais meias. Mas irão te deixar ouvir música enquanto trabalha, certo?

forçado.

Ela está mais chocada do que eu esperava, o seu sorriso ainda um pouco

– Clara – ela diz. – Isto é muito... – Já coloquei algumas canções de que vai gostar. E encontrei a banda

sonora de O Encantador de Cavalos. Sei que sabe esse filme quase de cor.


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Ela olha fixamente para o iPod durante um minuto e dedos em torno dele. –

Obrigada.

– De nada. Tucker toca a buzina. Ela se volta para mim, apologética. – Não tenho mais tempo. Tenho de ir. Nos abraçamos. – Vou sentir tanto a sua falta – sussurro. – Há um telefone público na loja. Eu te telefono – ela diz. – Acho bom. Estou me sentindo muito abandonada neste momento. Tucker espeta a cabeça para fora da janela. – Desculpa, mana, mas temos de sair já. Não pode perder o avião. – Está bem, está bem. Wendy me abraça uma última vez, e depois corre para o carro. – Olá, Chris – cumprimenta Tucker da janela. Christian sorri. – Como vai, Frei Tuck?


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Tucker não parece particularmente divertido. – Está bloqueando a passagem – ele diz. – Posso dar a volta, mas não queria

estragar a grama.

– Sim, não há problema – Christian olha para mim. – Eu também tenho que

ir andando.

– Oh, pode ficar mais um pouquinho, não pode? – pergunto, tentando não

parecer que estou pedindo.

– Não, tenho mesmo de ir – ele diz. Ele me abraça, e durante os primeiros segundos é estranho, como se não

soubéssemos onde pôr as mãos, mas depois a familiar força magnética se apodera de nós e os nossos corpos encaixam na perfeição. Pouso a minha cabeça no ombro dele e fecho os olhos, o que faz com que a parte do meu cérebro dedicada ao trabalho fique temporariamente desativada.

Tucker acelera o motor. Afasto-me abruptamente. – Está bem, então me telefona. – Estarei de volta na primeira semana de Agosto – ele me diz. – E depois

passaremos mais tempo juntos, está bem? – Me soa bem.

Espero que não haja quaisquer, oh, sei lá, incêndios florestais, antes de ele

voltar. Mas não pode haver, pow? O incêndio não pode acontecer a menos que ele


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esteja aqui, certo? Será que é possível faltar ao meu propósito porque o meu sujeito não colabora?

– Adeus, Clara – se despede Christian. Acena com a cabeça para Tucker e caminha de volta para o carro, que

ganha vida rugindo, fazendo a Bluebell parecer ainda mais enferrujada e velha. Aceno com a mão enquanto ambos os carros arrancam e desaparecem no bosque, me

deixando, literalmente, numa nuvem de pó. Suspiro. Penso em como a despedida de Christian pareceu tão definitiva. Passados alguns dias, ajudo Angela a fazer as malas para ir para Itália, onde

passa todos os verões com a família da mãe.

– Pensa nisto como um tempo para pensar – diz Angela, enquanto eu

amuada ando pelo seu quarto.

– Um tempo para pensar? Não tenho dois anos, sabe? – Um tempo para refletir. Um tempo para aprender a voar, pelo amor de

Deus, e tentar a glória e descobrir todas as outras coisas fixas que consegue fazer. Suspiro e atiro um par de meias para dentro da sua mala.

– Não sou como você, Ange. Não sou capaz de fazer as coisas que você faz. – Não sabe do que é capaz de fazer – ela diz, como que por acaso. – Nem

saberá enquanto não experimentar.

Mudo de assunto, erguendo um vestido de noite de seda preta que ela

dispôs ao lado das suas outras roupas.


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– Para que é isto? – pergunto, olhando para ela de olhos muito abertos. Ela arranca o tecido das mãos e o enfia no fundo da mala, o seu rosto sem

expressão.

– Existe algum rapaz italiano sensual do qual nunca me falou? – pergunto. Ela não responde, mas as sua face pálida assume um brilho rosado. Levanto. – Existe um rapaz italiano sensual do qual eu não sei! – Tenho que me deitar cedo esta noite. Vou fazer um vôo longo amanhã. – Giovanni. Alberto. Marcello – digo, experimentando todos os nomes

italianos de que me lembro, observando o seu rosto para captar uma reação. – Cala a boca. – A sua mãe sabe?

– Não. – Ela pega a minha mão e me puxa para baixo, para que me sente na cama. – E você não pode lhe contar, está bem? Ela não vai gostar. – Porque é que diria alguma coisa à sua mãe? Não é como se passássemos

muito tempo juntas.

É importante. Angela geralmente só conversa quando se trata de rapazes,

nada de sério. A imagino com um rapaz italiano com cabelo escuro, caminhando de mãos dadas por uma rua estreita em Roma, se beijando debaixo dos arcos. Fico instantaneamente cheia de inveja.


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– Mas não diga, está bem? – Aperta a minha mão com força. – Me promete

que não conta a ninguém.

– Prometo – digo. Acho que ela está sendo um pouco melodramática. Ela se recusa a dizer mais sobre o assunto, e se fecha mais que uma ostra. A ajudo a arrumar o resto das coisas na mala. Ela vai partir amanhã muito cedo,

conduzindo para Idaho Falls para apanhar o seu primeiro vôo à uma hora profana, por isso terei de me despedir dela esta noite. À entrada da sala de teatro, damos um abraço apertado.

– É de você que terei mais saudades. – Não se preocupe – ela diz. – Estarei de volta antes que dê pela minha

falta. E terei toneladas de informações novas para remoermos. – Está bem.

– Se cuida. – Finge que me dá um soco no braço. – E vê se aprende a voar. – Aprenderei – fungo. Vai ser um Verão muito solitário.

Na noite seguinte conduzo até ao Parque Nacional de Teton depois de jan-

tar. Estaciono o carro junto a Jenny Lake. É um pequeno e sossegado lago rodeado por árvores, com as montanhas se erguendo acima dele. Fico de pé junto à praia


294

enquanto o Sol brilha na água antes de cair para baixo do horizonte. Observo um pelicano deslizar por cima do lago. Mergulha na água e volta acima com um peixe. É lindo.

Quando escurece, começo a caminhar. O sossego é inacreditável. É como se não existisse mais ninguém na terra.

Tento me descontrair e inspiro profundamente o ar com odor de pinheiro, deixando que este me encha. Quero que tudo na minha vida desapareça e apreciar simplesmente a força dos meus músculos enquanto subo. Subo mais e mais, por cima da linha das árvores, para perto daquele céu grande e aberto. Subo até ficar quente, e

depois procuro um bom lugar para parar. Encontro um galho na encosta da

montanha onde a terra cai no abismo. O mapa chama a este lugar Ponto de Inspiração. Parece ser um bom lugar para a minha experiência.

lua.

Subo no galho e olho para baixo. É uma longa queda. Vejo o lago refletir a – Vamos lá fazer isto – sussurro. Estico os braços. Chamo e abro as minhas asas. Olho novamente para baixo.

Grande erro.

Mas estou determinada a voar ainda que isso me mate. Tenho de voar. Já o vi na visão. – Tenho que ser leve – digo, esfregando as mãos uma na outra. – Não é

nada demais. Leve.

Inspiro profundamente outra vez. Penso no pelicano que vi por cima do

lago. Na forma como o ar parecia levá–lo. Abro as minhas asas.


295

E salto. Caio como uma pedra. O ar passa pela minha cara, suga o fôlego dos meus

pulmões de tal modo que nem sequer consigo gritar. Tento me preparar para o impacto, embora não saiba como posso me preparar para tal coisa. Não pensei bem

no assunto, e percebo quase tarde. Mesmo que a queda, por milagre, não me mate, posso aterrar nas pedras que estão lá em baixo e partir as pernas, e ninguém sabe que aqui estou, ninguém me encontrará.

Saltar da montanha abaixo, me repreendo. Que grande idéia, Clara! Mas

depois as minhas asas apanham o ar e se abrem. O meu corpo se sacode para baixo

como o de um pára–quedista quando o pára–quedas finalmente se abre. Balanço desajeitadamente no ar, tentando encontrar o equilíbrio. As minhas asas se esforçam

para suportar o meu peso, mas me seguram. Deslizo para fora de Inspiration Point e me afasto, levada pelo vento.

– Oh, meu Deus – sussurro. De repente me sinto incrivelmente leve,

aliviada por não estar prestes a morrer, pedrada de adrenalina e de pura emoção por

sentir o ar frio me segurar, me levantar. É, de longe, a melhor sensação da minha vida. – Estou voando!

É claro que não estou bem voando, mas sim deslizando por cima das copas

das árvores como um praticante de asa delta ou um esquilo voador assustadoramente

grande. Acho que os pássaros desta região estão morrendo de rir ao me observar tentando não me despencar. Está bem, não tenho um talento nato, não sou um belo

ser angélico que bate as asas em direção aos céus. Mas ainda não morri, algo que considero uma grande coisa.

Empurro as minhas asas para baixo uma vez, tentando voar mais alto.


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Em vez disso, desço ainda mais em direção às árvores até que os meus pés

quase batem nos ramos superiores. Tento me lembrar de alguma coisa que tenha

aprendido nas muitas horas de aulas de aerodinâmica, mas não consigo traduzir nenhuma daquelas informações sobre aviões, descolagem, impulso, resistência, para o que as minhas asas estão fazendo neste momento. Voar na vida real não é como

uma equação matemática. Sempre que tento mudar de direção exagero e viro descontroladamente no meio do ar, e a minha vida lampeja diante dos meus olhos até que consigo me controlar novamente. O melhor que consigo fazer por agora é bater as asas de vez em quando e colocá–las num ângulo que me mantenha no ar.

Chego ao lago. Enquanto passo por cima dele, o meu reflexo é uma mancha

de um branco brilhante na superfície escura e tocada pela lua. Por um momento, me vejo como um pelicano sobrevoando a superfície da água. Deslizo para baixo e sinto o frio do lago passar pelos meus dedos. Danço com os raios de luar. E rio.

Vou fazê–lo, digo pra mim mesma. Vou salvá–lo.


297

14 A ÁRVORE DOS SALTOS O meu décimo sétimo aniversário é em 20 de Junho. Nessa manhã acordo

para encontrar a casa completamente vazia. A Mãe está de volta à Califórnia esta semana, trabalhando. Jeffrey tem andado desaparecido a semana inteira. Acabou de passar no seu exame de direção e obteve uma carta de condução diurna (quando ele soube que em Wyoming os jovens de quinze anos podiam conduzir durante o dia,

esqueceu por completo a Califórnia), e não o vejo muito desde essa altura – anda muito ocupado passeando por Jackson com o seu carro novo, uma oferta do meu pai. A única prova que tenho que ele ainda está vivo é a pilha de louça suja que se acumula na pia.

Pela primeira vez na minha vida, não vai haver uma festa no meu ani-

versário. Não há bolo. Não há presentes. A Mãe me deu um presente antes de partir

para a Califórnia, um vestido de Verão com um tom amarelo de Sol que me acaricia da barriga às pernas quando caminho. Adoro o vestido, mas agora que estou no meu quarto, o vendo pendurado num cabide, um vestido tão doce e perfeito para uma

festa de aniversário, um encontro a dois ou uma saída à noite, fico instantaneamente

deprimida. Desço as escadas e me sento no balcão da cozinha para comer Cheerios59, me sentindo ainda mais triste por não haver banana para partir sobre os meus cereais do almoço, ligo o pequeno televisor da cozinha para ver o noticiário. 59

http://youoffendmeyouoffendmyfamily.com/wordpress/wp-ontent/uploads/2010/10/Honey_nut_cheerios_revised.jpg


298

A repórter está falando de como a estação tem sido seca em Jackson Hole

este ano. Tivemos apenas dois terços da quantidade habitual de neve, ela diz, e o degelo de Primavera foi bastante baixo. O reservatório de água está em baixa. Ela está em frente ao lago e gesticula para o baixo nível da água.

Vê-se claramente onde a água costuma chegar, a cor das rochas mais clara

quando estas chegam à linha da água.

– A seca deste ano não poderá nos afetar muito neste momento ela diz,

olhando fixamente para a câmara com olhos solenes – mas à medida que o Verão for progredindo, a terra irá ficar cada vez mais seca. É provável que os incêndios comecem mais cedo este ano, e que sejam mais destrutivos.

Tentei voar outra vez na noite passada, desta vez com um saco duffe60. Não consegui encontrar algo parecido com um ser humano. Enchi um saco

com uma série de latas de sopa e com uns oito litros de água, bem como com algumas mantas e outras coisas, o arrastei para o pátio de trás e tentei levantar voo com ele.

Não tive nenhuma sorte. Provavelmente, tinha apenas metade do peso de Christian, se tanto. E não consegui, por muito que tentasse, levantar vôo com ele. Toda a concentração que dedico em tornar o meu corpo leve para que as minhas asas possam me elevar é inútil quando tento pegar alguma coisa pesada. Sou muito fraca. Agora, enquanto olho fixamente para a televisão, que passa imagens da

zona dos anteriores incêndios de Jackson, a minha pele se arrepia como se a repórter

estivesse falando diretamente para mim. Percebo a mensagem. Como se fosse para me esforçar mais. O incêndio acontecerá em breve. Tenho de estar preparada. 60

Uma bolsa (ou mochila, estojo, bolsa de ginástica) é cilíndrico, um grande saco feito de pano (ou outro

tecido ), com um cordão de fechamento na parte superior.O nome Duffel vem de uma cidade na Bélgica, onde o pano grosso usado para fazer o saco se originou


299

Passo a manhã pintando as unhas dos pés e vendo televisão. Devia sair, digo

para mim mesma, mas não consigo me lembrar de um lugar para onde possa ir onde não me sinta ainda mais solitária.

Por volta do meio-dia, ouço baterem à porta. Não estava à espera de ver

Tucker Avery no degrau da entrada. Mas ali está ele, segurando uma caixa de sapatos debaixo do braço. O Sol bate diretamente sobre ele. Abro a porta. – Olá. – Olá. – Ele pressiona os lábios um contra o outro para evitar sorrir. – Se levantou agora?

Percebo que estou vestida com um pijama cor–de–rosa muito extravagante

com a palavra PRINCESA bordada sobre o seio esquerdo. Não fui eu que escolhi este pijama, mas é quente e confortável. Recuo um passo, para a ombreira da porta. – Posso te ajudar? – pergunto. Ele estende a caixa.

– Wendy queria que eu te entregasse isto – ele diz. – Hoje. Arranco a caixa

da sua mão.

– Não tem uma cobra aqui dentro, não? Ele sorri. – Parece que vai descobrir.


300

Começo a voltar para casa, Tucker não se mexe. Olho de relance para ele

com ansiedade. Ele espera algo.

– O que é, quer uma gorjeta? – pergunto. – Claro. – Não tenho dinheiro. Quer entrar? – Estava achando que não ia me convidar. Indico por gestos para que me siga. – Espera aqui. Coloco a caixa de sapatos no balcão da cozinha e corro para o andar de

cima para vestir umas calças jeans e uma camisa de flanela amarela e azul. Vejo a

minha imagem ao espelho e paraliso. O meu cabelo cor de laranja parece um ninho de ratos. Entro no banheiro e tento pentear os nós e depois o tranço numa longa

trança que me cai pelas costas. Ponho um pouco de rouge. Uma camada de gloss e estou novamente apresentável.

Quando volto para o andar de baixo, encontro Tucker na sala de estar,

sentado no sofá, com as botas em cima da mesa de café. Está olhando pela janela,

onde o vento agita a grande telha que está lá fora, a árvore num turbilhão de

movimento, cada folha tremendo de vida. Adoro aquela árvore. O vendo ali, a admirando, me irrita. Quero pôr Tucker dentro de uma caixinha segura onde posso prever o que ele quer, mas ele se recusa a ficar lá dentro. – Bela árvore – comenta ele.


301

O rapaz é de uma profundidade inesperada. – Abre – ele diz, sem se voltar para olhar para mim ou para a caixa de

sapatos que está em cima do balcão.

Pego na caixa e retiro a tampa. Lá dentro, embrulhado em papel de seda,

está um par de botas de montanha Vasque. Já foram usadas, estando um pouco gastas

nas extremidades e nas solas, embora limpas e bem cuidadas. São botas caras. Me interrogo se eu e Wendy calçamos o mesmo número, apesar de eu ser muito mais alta do que ela. Interrogo-me como é que ela conseguiu comprar umas botas tão caras e porque abdicaria delas agora.

– Aí tem uma nota – diz Tucker. Dentro de uma das botas está um cartão com a letra inclinada de Wendy na

frente e no verso. Começo a ler.

Querida Clara, tenho muita pena de não poder estar contigo no teu aniversário. Enquanto lê esta nota estarei limpando cocô de cavalo ou pior com uma pá, por isso não sinta muita pena de si mesma! As botas não são o teu presente de aniversário. São um empréstimo, por isso toma bem conta delas. Tucker é o teu presente de aniversário. E antes de ficar com aquela tua cara zangada, me ouve até ao fim. Da última vez que falamos, me pareceu que estava se sentindo sozinha e que não saía muito. Recuso-me a deixar que fique amuada pela casa quando está rodeada pela mais bela terra de sempre. Ninguém no mundo conhece esta parte do país tão bem como Tucker. É o melhor guia turístico da região que poderá encontrar. Por isso, tira essa cara, Clara, e deixe ele te mostrar a região durante alguns dias. É o melhor presente que tenho para te dar. Um grande abraço! Com carinho, Wendy. Ergo o olhar. Tucker ainda olha para a árvore. Não sei o que dizer.


302

– Ela também queria que eu te cantasse um jingle, como se fosse um moço

de entrega cantante. – Ele me olha de relance por cima do ombro, erguendo um canto da boca. – Lhe disse onde podia enfiar o jingle. – Ela diz... – Eu sei. Ele deixa escapar um suspiro, como se estivesse perante uma tarefa

desagradável, e se levanta. Olha para mim de cima a baixo, como se não tivesse a certeza de que sou capaz de fazer o que seja que ele planejou. – O que é? – pergunto, rapidamente. – Está bem assim. Mas terá de ir lá encima para vestir uma roupa. – Uma roupa? Não me parece plausível. – Uma roupa de banho – esclarece ele.

– Vamos nadar? – pergunto, instantaneamente incerta em relação a esta

coisa toda com Tucker, sejam quais forem as intenções de Wendy. O olho de relance.

Muitas garotas ficariam encantadas por receber Tucker Avery como presente, eu sei, com aqueles olhos azuis de tempestade e aqueles cabelos e pele de um dourado trigueiro, a covinha esculpida na sua face esquerda. Tenho um lampejo mortificante de Tucker na minha frente, com um grande laço vermelho e nada mais. Feliz Aniversário, Clara.


303

De repente, as minhas faces ficam desagradavelmente quentes. Tucker não responde à minha pergunta sobre o irmos nadar. Parece que a

surpresa faz parte da experiência. Ele gesticula em direção às escadas. Sorrio e corro para o andar de cima para agonizar enquanto decido qual dos meus biquínis

californianos seria o menos humilhante nesta situação. Decido-me por um biquíni de duas peças de um azul safira, apenas porque é o que cobre mais pele. Depois enfio

rapidamente as minhas calças jeans e a minha camisa de flanela, retiro uma toalha do armário de roupa da casa e desço para me encontrar com Tucker. Ele me diz para calçar as botas.

Depois de estar vestida ao gosto de Tucker, ele me acompanha até o seu

carro, e abre a porta pra mim antes de se dirigir para o outro lado e entrar. Saltitamos

ao longo da estrada de terra batida que sai da minha casa, em silêncio. Tenho calor com a minha camisa de flanela. Está um dia de Verão muito quente, o céu de um azul

perfeito e sem nuvens, e, embora não esteja tanto calor como na Califórnia, está no tempo de usar calções. Interrogo-me se vamos caminhar muito. – Esta coisa tem ar condicionado? A minha camisa já começou a colar nas minhas costas. Tucker faz uma curva. Depois se estica na minha frente e abre a janela. – Eu podia ter feito isso – digo, certa de que ele o fez só para me

atormentar.

Ele sorri, um sorriso fácil e descontraído que me sossega. – Essa janela consegue ser um pouco difícil de abrir – é tudo o que ele diz.


304

Coloco o braço fora da janela e deixo que o ar fresco da montanha passe

pelos meus dedos. Tucker começa a assobiar baixinho, uma canção que reconheço

como sendo Danny Boy, que Wendy cantou no Concerto de Primavera do Coro. O seu assobiar é agradável e cheio, perfeitamente afinado.

Voltamos na auto–estrada em direção à escola. – Para onde vamos? – lhe pergunto. –Hoback. Já ouvi esta palavra na escola, e já a vi em placas de estrada ao longo da

auto–estrada. Existe um Hoback Canyon, uma passagem Hoback e, se a memória não

me falha, uma Hoback Junction. Não sei para qual nos dirigimos. Passamos pela escola e seguimos a auto–estrada durante cerca de meia hora, durante a qual os edifícios desaparecem e voltamos à montanha e à floresta. De repente, entramos numa minúscula vila, com apenas um sinal de stop, chamada Hoback. A estrada

divide–se num Y mesmo a seguir a Hoback General Store. Tucker escolhe a estrada à

esquerda e depois estamos novamente subindo para as montanhas, e, à nossa direita, corre um rio verde e célere.

– É este o rio Snake? – pergunto. Com a janela ainda para baixo, o ar me atinge com força à medida que o

carro ganha velocidade. Enfio o braço para dentro. – Não – replica ele. – Aquele é o Hoback.

Consigo cheirar o rio, os pinheiros menores que se agacham na encosta do

monte, e a Artemísia que se estende de ambos os lados da estrada.


305

– Adoro o cheiro da Artemísia – comento, inspirando profundamente. Tucker ri. – A Artemísia é uma lutadora. Se espalha pela terra como um fogo

selvagem, sugando toda a água e todos os nutrientes do solo, até que todo o resto morre. É uma plantinha dura, isso é verdade. Mas é cinzenta e feia e os carrapatos adoram se esconder nela. Já viu um carrapato?

Ele olha de relance para mim. Devo ter uma expressão bastante estranha

porque ele tosse desconfortavelmente e diz em voz baixa: – Mas é verdade que cheira bem.

Depois sai da estrada numa pequena saída gramada. – Chegamos – anuncia ele, se voltando para mim. Estacionamos ao longo de uma vedação feita com troncos e bastante

danificada pelo clima, mesmo ao lado de uma enorme placa cor de laranja que tem escrito, PROPRIEDADE PRIVADA. OS TRANSGRESSORES SERÃO ALVEJADOS. Tucker ergue as sobrancelhas como se estivesse me desafiando a transgredir. Balança por

entre uma falha na vedação e me estende a mão. Agarro–a. Tucker me puxa por entre a vedação. Depois de estarmos do outro lado, a colina cai em direção ao rio num

ângulo íngreme. A Artemísia está poluída com latas de cerveja. Tucker continua a

segurar a minha mão e começa a descer um caminho serpenteante até uma árvore

enorme que fica mesmo à beira da água. Sinto-me repentinamente grata pela firmeza das botas.

Ao fundo, Tucker coloca a sua toalha na base da grande árvore e começa a

se despir. Desvio o olhar, e depois começo a desabotoar lentamente a minha camisa


306

de flanela. É uma roupa de banho muito legal, digo para mim mesma. Não sou

pudica. Inspiro profundamente e faço deslizar a camisa pelos ombros, e depois começo a despir as calças e a descalçar as botas. Me volto novamente para Tucker.

Para meu alívio, ele está observando o rio, embora, tanto quanto sei, pode estar observando minuciosamente o meu corpo com a sua visão periférica. Os seus calções de banho vermelhos e pretos chegam aos joelhos. A pele dele é de um castanho

dourado de alto a baixo. Desvio rapidamente o olhar do seu corpo e coloco a minha roupa e a minha toalha numa pilha ao lado da dele. – E agora? – pergunto. – Agora subimos na árvore. Olho de relance para os ramos, os quais se abanam ligeiramente ao vento.

Foram pregadas uma série de tábuas ao tronco para formar uma espécie de escada. Num dos ramos maiores, o qual se inclina por cima da água, alguém atou uma longa corda preta.

Vamos saltar daquela corda, para dentro do rio. Olho novamente para o rio, o qual me parece incrivelmente fundo e rápido. – Acho que talvez esteja tentando me matar no meu aniversário – digo,

brincando, esperando que ele não veja o lampejo de medo estampado nos meus olhos.

Os sangue-de-anjo podem morrer afogados. Precisamos tanto de oxigênio como os humanos, embora talvez possamos suster a respiração durante mais tempo. A covinha do seu rosto aparece. – E se eu for primeiro?


307

Sem uma palavra, ele sobe a árvore, as suas mãos e os seus pés encontrando

os espaços para onde devem ir como se ele tivesse feito isto mil vezes, o que me deixa um pouco reconfortada. Quando chega aos ramos mais altos já quase não o vejo,

apenas um lampejo das suas pernas bronzeadas ou um vislumbre do seu cabelo contra as folhas e o Sol. Depois deixo de vê-lo, mas, de repente, a corda é sacudida. – Vem cá para cima – instrui ele. – Há espaço suficiente para dois. Começo a subir a árvore desajeitadamente. Consigo esfolar o joelho enquanto o faço e espeto uma lasca na palma da mão, mas não me queixo. A última

coisa que quero é que Tucker Avery pense que sou um bebê. A mão de Tucker

aparece diante do meu rosto e eu a agarro, e ele me puxa para cima, para os ramos mais altos.

Podemos ver a grande distância ao longo do rio. Procuro um lugar onde ele

esteja menos fundo ou abrande, mas não há nenhum. Tucker pega na corda, a qual parece ser flexível como um cabo de bungee jumping. Ele ergue o rosto para o Sol e fecha os olhos por um momento.

– Lhe chamam de Solário – ele diz. – Aqui, onde estamos? O topo da árvore? – Sim. – Ele abre os olhos. Estou suficientemente perto para ver as suas

pupilas se contraírem ante a luz. – Há gerações que o pessoal da escola vem aqui – ele diz.

– E a placa de propriedade privada? – comento, me voltando para olhar

para a estrada.

– Acho que o dono mora na Califórnia – informa Tucker, com aspereza.


308

– Que bom para nós. Parece que afinal não vou ser alvejada no dia do meu

décimo sétimo aniversário.

– Não. – Tucker ajusta as mãos na corda. Os seus joelhos se dobram. – Vai

só ficar molhada – ele diz, e salta da árvore.

A corda balança sobre a água em ângulo. Tucker a larga e grita enquanto

cai dentro de água. A corda balança e volta e eu a apanho, olhando fixamente para

baixo para o local onde a cabeça de Tucker aparece por cima de água. Volta-se para mim e acena com a mão enquanto é arrastado rio abaixo. – Vem! – grita ele. – Vai adorar.

salto.

Inspiro profundamente, agarro a corda com mais firmeza entre as mãos, e

É espantosa a diferença entre cair e voar, e eu tenho bastante experiência

de ambas. A corda se atira por cima do rio e se estica sob o meu peso.

Cerro os dentes para manter as minhas asas escondidas, de tão forte que é o

meu desejo de voar. Depois grito e largo a corda, porque sei que se não o fizer esta me fará esbarrar contra a árvore.

A água está tão fria que fico sem fôlego num instante. Subo à superfície,

tossindo. Durante um segundo, não sei o que fazer. Sou uma nadadora competente,

mas não uma nadadora excelente. A maior parte do tempo que passei nadando foi em

piscinas e nas praias da costa do Oceano Pacífico. Nada disso poderia ter me ter preparado para a forma como o rio me agarra e me empurra. Fico outra vez com a boca cheia de água do rio. Sabe a terra e a gelo e a qualquer outra coisa que não

consigo identificar, algo de mineral. Subo à superfície cuspindo, e depois começo a


309

nadar para o lado, fervorosamente, antes que seja completamente levada rio abaixo para nunca mais ser vista. Não vejo Tucker. Sinto o pânico subir pela garganta. Já

estou vendo a notícia de última hora, o rosto arrependido da Mãe, o de Angela, e o de Wendy quando perceber que tudo isto aconteceu por culpa sua.

Um braço se enrosca em torno da minha cintura. Viro-me e quase bato

com a cabeça na de Tucker. Ele me aperta mais e me puxa com força em direção à margem. É um nadador forte. Todos aqueles músculos dos braços devem ajudar. Consigo fazer pouco mais do que me agarrar no seu ombro e bater com as pernas na

direção certa. Em pouco tempo, estamos chegando à margem arenosa. Volto-me de costas e vejo uma fofa nuvem branca passar por cima.

– Bem – diz Tucker, de forma simples. – É corajosa. Olho para ele de olhos arregalados. A água escorre do seu cabelo pelo

pescoço abaixo, e depois volto o olhar novamente para os seus olhos, os quais são de um incrível tom de azul e cheios de vontade de rir. Tenho vontade de socá-lo. – Foi uma estupidez. Podíamos ter morrido afogados. – Não – ele diz. – O rio não está assim tão rápido agora. Já o vi pior.

Sento-me e olho em direção à árvore, que parece estar a uns bons

oitocentos metros de distância.

– Imagino que o próximo passo seja caminhar de volta à árvore. Tucker ri

da irritação na minha voz. –Sim. – Descalços.


310

– O terreno é bastante arenoso, não é assim tão mau. Está com frio? – ele

pergunta, e vejo num instante que, se tiver, ele de bom grado me envolverá nos seus braços.

Mas não estou com muito frio, agora que estou no Sol e que a maior parte

da água já se evaporou da minha pele. Estou apenas um pouco úmida e fresca. Tento não pensar em Tucker, tão perto e com o peito nu, com o calor saindo do seu corpo, e eu com este minúsculo biquíni mostrando a barriga.

Fico de pé e começo a caminhar ao longo da margem. Tucker se levanta de

um salto para caminhar ao meu lado.

rio.

– Desculpa – ele diz. – Talvez devesse ter te avisado sobre a velocidade do

– Talvez – concordo, mas estou farta de estar zangada com Tucker, quando,

afinal, ele veio em meu auxílio no baile de finalistas. Não me esqueci disso. E está aqui agora. – Mas não faz mal.

– Quer tentar de novo? – ele pergunta com a covinha aparecendo enquanto

sorri para mim. – É muito mais fácil da segunda vez.

– Está mesmo tentando me matar. – Abano a cabeça, incrédula. – É doido. – Trabalho para a Crazy River Rafting Company durante o Verão. Estou no

rio cinco dias por semana, às vezes mais.

Isso quer dizer que ele tinha a certeza que conseguiria me puxar para fora,

por muito má nadadora que eu fosse. Mas e se eu tivesse ido para fundo? – Tucker! – Alguém grita lá de cima. – Como está a água?


311

Junto à árvore estão pelo menos quatro ou cinco pessoas que nos observam

enquanto caminhamos ao longo da margem. Tucker lhes acena com a mão. – Está boa! – ele grita de volta. – Muito boa mesmo.

Quando chegamos à árvore, outras duas pessoas subiram e saltaram para o

rio. Nenhuma delas parece ter a menor dificuldade em voltar à margem. Ver isso é o

que me faz subir a árvore outra vez. Desta vez me esforço para me voltar enquanto caio, como Tucker fez, e começar a nadar para a margem assim que entro na água.

Quando salto pela quarta vez, já não tenho medo. Sinto-me invencível. E é esse, compreendo agora, o fascínio que estes lugares exercem.

– É a Clara Gardner, certo? – pergunta uma garota que espera para subir

na árvore.

Eu aceno com a cabeça. Ela se apresenta como sendo Ava Peters, apesar de

termos estado na mesma turma de química. É a garota que vi com Tucker naquele dia na estação de esqui.

– No sábado vai haver uma festa na minha casa, se quiser ir – convida ela. É como se, de repente, me fosse permitida a entrada no clube dela. – Oh – respondo, abismada. – Irei. Obrigada. Dirijo um sorriso grato a Tucker, que acena com a cabeça como se estivesse

tocando na aba do chapéu. Pela primeira vez, sinto que, talvez, possamos ser amigos. ***


312

Tucker me levou para jantar no Bubba's esta noite. Mesmo naquele

restaurante casual de churrascos, o jantar se parece o suficiente com um encontro

amoroso para me fazer sentir ansiosa. Mas depois de a comida chegar, esta é tão

deliciosa que eu me descontraio e começo a devorá–la. Não como nada desde a tigela

de Cheerios desta manhã e acho que nunca tive tanta fome. Tucker me observa roer uma asa de frango no churrasco como se fosse a melhor coisa que alguma vez provei.

O molho é espetacularmente bom. Depois de ter limpo um quarto de frango, os feijões assados e com uma grande dose de salada de batata do meu prato, me atrevo a

erguer o olhar para ele. Estou meio à espera que ele diga alguma indireta desagradável sobre da forma como comi. Já estou pensando numa resposta, algo que chame a atenção para o fato de que preciso de alguma carne em cima dos meus ossos.

– Escolhe a tarte de baunilha – ele diz, sem qualquer vestígio de crítica. Até

está olhando para mim com uma sugestão de admiração nos olhos. – Servem–na com

uma rodela de limão e, quando come a tarte e depois dá uma dentada no limão, sabe, tem exatamente mesmo gosto que o merengue de limão.

– Nesse caso, porque não escolher o merengue de limão? – Confia em mim – ele diz, e descubro que confio. – Está bem. Aceno com a mão para o empregado para pedir a tarte de baunilha. A qual

é divina, e disso eu entendo.

– Uau, estou tão cheia – digo. – Vai ter de me fazer rolar até em casa. Durante um minuto, nenhum de nós diz nada, as palavras ficam suspensas

no ar entre nós.


313

– Obrigada pelo dia de hoje – agradeço, finalmente, tendo dificuldade em

olhá–lo nos olhos.

– Foi um bom dia de aniversário? – Sim. Obrigado por ter ido contar aos caras do restaurante para eles virem

aqui cantarem para mim.

– Wendy disse que detestaria isso. Interrogo-me até que ponto este dia foi orquestrado por Wendy. – O que vai fazer amanhã? – ele pergunta. –Hã? – Estou de folga amanhã e, se quiser, poderia te levar ao Parque Nacional

de Yellowstone e te mostrar o lugar.

– Nunca estive em Yellowstone. – Eu sei. Essa é o tipo de oferta que continua a oferecer. Yellowstone me soa infi-

nitamente melhor do que ficar sentada em casa passando canais no televisor, preocupada com Jeffrey, e tentando levantar vôo com um enorme saco duffel do tamanho de Christian.

– Adoraria ver Old Faithful – admito.


314

por aí.

– Está bem. – Ele parece muito satisfeito consigo próprio. – Começaremos


315

15 TUCKER POR MIM Nossa viagem a Yellowstone foi marcada apenas por mim, acidentalmente

falando em Coreano para um turista que tinha perdido no caminho o seu filho de

cinco anos. Eu ajudei-o a falar com o guarda, e eles localizaram o garoto. História

feliz, certo? Exceto a parte em que Tucker olha para mim como se eu fosse uma mutante, até eu explicar sem jeito que eu tenho um amigo coreano na Califórnia e eu sou boa com línguas.

Eu não esperava vê-lo depois, assumindo que o meu presente de aniversário de Wendy está esgotado. Mas sábado, há uma batida na minha porta e lá está ele outra vez, e uma hora depois, eu me encontro num grande barco inflável, com um grupo de turistas de fora do Estado, me sentindo enorme e inchada na

jaqueta salva-vidas laranja brilhante que todos nós temos que usar. Tucker com remos na extremidade do barco e indo na direção da correnteza, enquanto o outro

guia se senta na frente e grita ordens. Eu assisto a força de Tucker, braços marrons

flexionando enquanto ele puxa os remos na água. Nós batemos no primeiro conjunto rápido. O barco balança, sprays de água em todos os lugares e as pessoas na jangada


316

gritam como se estivéssemos numa montanha russa. Tucker sorri para mim. Eu sorrio de volta.

Naquela noite ele me leva para a festa na casa de Ava Peters e fica comigo a

noite toda, passando e me apresentando para as pessoas que não conhecem meu

nome. Estou espantada em como estar com ele muda tudo para mim, socialmente falando. Quando eu caminhava pelos corredores de High Jackson Hole, os outros

alunos me olhavam com cuidado desinteresse, não inteiramente hostil, mas definitivamente como se eu fosse uma intrusa no seu território. Mesmo a atenção de Christian nessas últimas semanas não tinha feito muita diferença na atenção das

pessoas para falar comigo em vez de falarem sobre mim. Agora, com Tucker ao meu lado os outros alunos realmente conversam comigo. Seus sorrisos são subitamente

reais. É fácil ver que todos eles, independentemente de qual facção a que pertencem ou quanto dinheiro seus pais possuem, genuinamente aceitam Tucker. Os meninos gritam – Fry!– e batem os punhos com ele ou fazem a sua coisa de colisão no ombro.

As meninas o abraçam e murmuram olás e me olham com expressões curiosas, mas amigáveis.

Enquanto Tucker vai para a cozinha para buscar bebida para mim, Ava

Peters pega meu braço.

– Há quanto tempo você e Tucker estão juntos?– ela pergunta com um sorriso malicioso. – Somos apenas amigos – eu gaguejo. – Oh. – Ela franze a testa ligeiramente. – Desculpe, eu pensei... – Você pensou o quê?– pergunta Tucker, de repente ao meu lado com um

copo de plástico vermelho em cada mão.


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– Eu pensei que vocês eram um casal – diz Ava. – Somos apenas amigos – ele diz. Ele encontra os meus olhos brevemente,

então me passa um dos copos. – O que é isso?

– Rum e Coca-Cola. Espero que você goste de rum de coco. Eu nunca bebi rum. Ou tequila ou vodka ou whisky ou nada, apenas um

pouquinho de vinho em um jantar de vez em quando. Minha mãe viveu durante a Lei Seca. Mas agora ela está a milhares de quilômetros de distância, provavelmente dormindo em seu quarto de hotel em Mountain View, completamente inconsciente

de que sua filha está numa festa adolescente, sem supervisão e prestes a empurrar para baixo o seu primeiro licor pesado.

O que ela não sabe não pode machucá-la. – Saúde! Tomo um gole da bebida. Eu não detecto até mesmo o menor indício de

coco, ou álcool. O gosto é exatamente como a regular velha Coca-Cola. – É bom, obrigado – eu digo.

paragens.

– Boa festa, Ava – afirma Tucker. – Você realmente jogou fora todas as

– Obrigada – diz ela com serenidade. Estou muito feliz por você ter vindo.

Você, também, Clara. Bom finalmente conhecer você. – Sim. – eu digo. – É bom ser conhecida.


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*** Tucker é tão diferente de Christian, eu penso enquanto estamos a caminho

de casa. Ele é popular em uma maneira completamente diferente, não porque ele é rico (que ele definitivamente não é, apesar de seus muitos empregos, ele não tem

sequer um telefone celular) ou porque ele é muito bonito (o que definitivamente ele é apesar de seu apelo. Ele é o tipo de sexy-resistente enquanto Christian é sexyrefletivo). Christian é popular porque, como Wendy sempre diz, ele é como uma

espécie de deus. Bonito e perfeito e um pouco afastado. Feito para ser adorado. Tucker é popular porque ele tem um jeito de colocar as pessoas à vontade. – O que você está pensando? – ele pergunta, porque eu não disse nada,

entretanto.

– Você é diferente do que eu pensei que você fosse. Ele mantém os olhos na estrada, mas as covinhas aparecem em seu rosto

magro. – O que você achou que eu era? – Um caipira rude.

– Nossa, muito cortês? – diz ele, rindo. – Não é como se você não soubesse. Você queria que eu pensasse isso, acho. Ele não responde. Pergunto-me se falei demais. Eu nunca consigo segurar

minha língua em torno dele.

– Você é diferente do que eu pensei que você fosse também – ele diz. – Você pensou que eu era essa garota mimada da Califórnia.


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– Eu ainda acho que você é uma garota mimada da Califórnia. – Eu soco ele

duro no ombro. – Ai! Vê?

– Como sou diferente? – Eu pergunto, tentando mascarar o meu

nervosismo. É incrível o quanto eu de repente me preocupo com o que ele pensa de mim. Eu olho pela janela, balançando o braço fora enquanto nós dirigimos através

das árvores em direção à minha casa. O ar é quente na noite de verão e de seda no meu rosto. A lua cheia derrama uma sonhadora luz prateada sobre a floresta. Grilos soam. Uma brisa fresca de pinho agita as folhas. Uma noite perfeita. – Vamos lá, como sou diferente? – Pergunto a Tucker novamente. – É difícil de explicar. – Ele esfrega a parte de trás do pescoço. – Há tanta

coisa de você que está sob a superfície.

voz leve.

– Hm. Quanto de misteriosa? – eu digo, me esforçando para manter minha

– Sim, você é como um iceberg. – Gelo, obrigado. Acho que o problema é que você sempre me subestima. Chegamos na minha casa, que parece escura e vazia, e eu quero ficar na

caminhonete. Eu não estou pronta para que a noite acabe.

– Não. – ele diz. Ele coloca o carro no estacionamento e se vira para olhar

para mim com olhos sombrios.

– Eu não ficaria surpreso se você pudesse voar para a lua.


320

Eu chupo numa respiração. – Você quer escolher mirtilos comigo amanhã? – Ele perguntou. – Mirtilos? – Eles vendem na cidade por cinquenta dólares o galão. Eu conheço um

local onde há como uns cem arbustos. Eu vou lá algumas vezes no verão. É no início

da temporada, mas deve haver algumas bagas porque esteve muito quente ultimamente. É um bom dinheiro. – Ok – eu digo, me surpreendendo. – Eu vou. Ele salta e circula em torno para abrir a porta para mim. Ele estende a mão

e me ajuda a descer do caminhão. – Obrigada – eu sopro. – Noite, Cenoura. – Noite Tuck.

Ele se inclina contra o caminhão e espera que eu vá para dentro. Eu ligo a

luz da varanda e observo de um canto da janela da sala até a traseira do caminhão enferrujado desaparecer nas árvores. Então eu corro lá em cima para o meu quarto e olho as luzes traseiras enquanto elas se movem suavemente para baixo no nosso longo caminho para a estrada principal.

Eu me olho no espelho de corpo inteiro na porta do meu armário. A menina

que olha de volta foi atirada em volta de um rio selvagem e tem sua cor de cabelo tangerina seca em ondas soltas por todo o rosto. Ela está começando a bronzear,


321

apesar de que sangue-de-anjo não se queimam ou se bronzeiam facilmente. E amanhã ela vai estar do lado de alguma montanha à caça de mirtilos com um espetáculo de cowboy de rodeio verdadeiro.

– O que você está fazendo?– Pergunto à menina no espelho. Ela não

responde. Ela me olha com olhos brilhantes, como se ela soubesse algo que eu não sei. ***

Eu não estou totalmente cortada do mundo. Angela me envia emails de vez

em quando, me conta sobre Roma e diz, em sua própria versão do código, que ela está

descobrindo coisas surpreendentes sobre os anjos. Ela escreve coisas como: Está bem

escuro lá fora agora. Eu estou ligando a luz, imagino que significa que ela está recebendo um monte de boas informações sobre Black Wings. Quando ela escreve,

está tão quente que eu tenho que mudar minhas roupas o tempo todo, eu acho que ela está me dizendo que ela está praticando a mudança da forma de suas asas. Ela não diz muito mais.

Nada sobre o misterioso amante italiano, mas ela parece feliz. Como se ela

estivesse passando um bom tempo, suspeito.

Eu também ouço Wendy, ocasionalmente, sempre que ela pode ligar de um telefone público. Ela parece cansada, mas contente, passando os seus dias com os cavalos, aprendendo com os melhores. Ela não menciona Tucker, ou o tempo que eu tenho passado com ele ultimamente, mas eu desconfio que ela sabe tudo sobre ele.

Quando eu recebo um SMS de Christian eu percebo que passou um tempo

que não pensava nele. Eu estive tão ocupada correndo por aí com Tucker. Eu ainda

não tive a visão recentemente. Esta semana eu quase esqueci que eu era um anjo-desangue e simplesmente me deixei ser uma garota normal ter um perfeito verão


322

normal. O que é bom. E me faz sentir culpada, porque eu deveria estar me concentrando no meu propósito. Seu texto diz:

Alguma vez você já foi a um lugar que você é suposto amar, mas tudo o que consegue pensar é em casa? Crítico. E como de costume quando se trata de Christian, eu não sei como responder. *** Eu ouço um carro entrando na garagem, e, em seguida, o som da porta da

garagem. Mamãe está em casa. Eu faço uma varredura rápida ao redor em casa para me certificar de que tudo está em ordem, louça, roupa dobrada, Jeffrey ainda em está em cima em coma de comida. Tudo está bem na casa Gardner. Quando ela chega,

rebocando a mala enorme, eu estou sentada no balcão da cozinha, com dois copos altos de chá gelado.

– Bem vinda à casa – eu digo brilhantemente. Ela põe a sua mala para baixo e estende os braços. Eu pulo fora do meu

banco e dou um passo timidamente em seu abraço. Aperta-me com força, e isso me faz sentir como uma criança novamente. Segura. Certo. Como se nada fosse normal quando ela se foi.

Ela se afasta e me olha de cima a baixo.– Você parece mais velha – ela diz .

– Dezessete combina com você.

– Eu me sinto mais velha. E mais forte ultimamente, por qualquer motivo.


323

– Eu sei. Você deve estar se sentindo mais forte a cada dia agora, quanto

mais nos aproximamos de seu propósito. Seu poder está crescendo.

Há um silêncio desconfortável. Quais são as minhas competências,

exatamente?

– Eu posso voar agora – Eu deixei escapar de repente. Passaram-se duas

semanas desde o Ponto de Inspiração, umas cem colisões e arranhões, mas eu finalmente consegui o jeito disso. Parece algo que ela deveria saber. Eu levanto a

minha perna da calça para mostrar-lhe um arranhão na minha canela por causa de um pinheiro que passou muito perto.

– Clara! – exclama, e ela tenta parecer satisfeita, mas posso dizer que ela

está desapontada que não estivesse lá, como se fosse um bebê dando os primeiros passos e ela perdeu.

– É mais fácil para mim quando você não está assistindo – eu explico. –

Menos pressão ou alguma coisa.

– Bem, eu sabia que você ia conseguir. – Eu absolutamente amo o vestido que você me deu – digo, na tentativa de mudar de assunto. – Talvez pudéssemos sair para jantar hoje à noite e eu poderia usá-lo. – Soa como um plano. – Ela me liberta, pega suas malas e desce o corredor

para seu quarto. Eu a sigo.

– Como foi o trabalho? – Eu pergunto enquanto ela coloca a mala sobre a

cama, abre sua gaveta no topo no armário, e começa a colocar a pilha de calcinhas e


324

meias ordenadamente dentro. Eu tenho que balançar a cabeça porque ela é uma

pura, todas as calcinhas dela dobradas, organizadas por cores em pequenas e

perfeitas linhas. Parece impossível que estamos ligadas, ela e eu. – Você conseguiu manter tudo arrumado?

– Sim. É melhor, de qualquer maneira. Eu realmente precisava ir pra fora. –

Ela se move para a próxima gaveta. – Mas eu lamento ter perdido seu aniversário. – Está tudo bem. – O que você fez?

Por alguma razão, eu estive temendo contar a ela sobre Tucker, a Árvore de

Salto, e do tempo que passei com ele durante toda a semana, caminhadas, escolhendo mirtilos, rafting, falando coreano para pessoas aleatórias na frente dele. Talvez eu

tenha medo que ela vá chamar Tucker do que eu sei que no fundo ele é: uma distração. Ela vai me dizer para voltar a trabalhar na missão Salvando Christian.

Então eu vou ter que lhe dizer que, mesmo que esteja me sentindo forte ultimamente, finalmente voando, eu ainda não consigo levantar essa mochila pesada do chão. E então ela vai me dar aquele olhar, que fala sobre a leveza e a força, e o quanto eu sou

capaz, se só colocar minha mente nisso. Eu só não quero ir para lá. Pelo menos ainda não. Mas eu tenho que lhe contar algo.

– Wendy me emprestou seu irmão e um par de botas, e ele me levou para

esse lugar aonde todos da escola vão para pular no rio Hoback – eu digo tudo de um só fôlego.

Mamãe me olha desconfiada. – Wendy lhe emprestou o seu irmão?


325

– Tucker. Você o conheceu naquela altura em que nosso carro deslizou

para fora da estrada, lembra?

– O menino que trouxe você para casa do baile – diz ela, pensativa. – Sim, é ele. E muito obrigado por lembrar isso. Por um minuto, nenhuma de nós diz nada. – Eu te trouxe uma coisa – ela diz finalmente. – Um presente. Ela abre um compartimento de sua mala e retira algo feito de tecido roxo

escuro. É um casaco, uma jaqueta de veludo lindo, a cor exata das violetas Africanas

de mamãe na janela da cozinha. Ele vai jogar para baixo o alaranjado do meu cabelo e salientar o azul dos meus olhos. É perfeito.

– Eu sei que você tem a sua parca – Mamãe diz – mas eu pensei que você

poderia usar algo mais leve. E, além disso, também nunca é demais ter muitos casacos em Wyoming.

– Obrigada, amei isto. Eu alcanço para tomá-lo dela. E no momento em meus dedos tocam o

aveludado, macio tecido, estou na visão, caminhando por entre as árvores.

Eu tropeço e caio, arranhando a palma da minha mão direita. Eu não tive a

visão por semanas, desde o baile quando me vi voando para longe do fogo com Christian em meus braços. Mas não o sinto tão familiar para mim agora, enquanto

faço o meu caminho até a colina em direção a ele. Mas ele ainda está lá esperando

por mim, e quando eu o vejo chamo o seu nome, e ele se vira, eu corro para ele. Eu

sinto falta dele, eu percebo, embora eu não saiba se é o que estou sentindo agora ou


326

no futuro. Ele me faz sentir completa. A maneira como ele sempre me olha, como ele precisa de mim. De mim, e mais ninguém.

Tomo sua mão. A tristeza está lá, também, misturada com todo o resto:

euforia e medo, determinação e até mesmo uma porção de luxúria à moda antiga. Eu

sinto tudo isso, mas ofuscando qualquer outra emoção está a tristeza, o sentimento de que perdi a coisa mais importante no mundo, assim como pareço estar ganhando isso. Eu curvo a cabeça e olho para onde as nossas mãos se juntam, do lado de

Christian, tão bem construídas, como a mão de um cirurgião. As unhas estão bem cortadas, a pele lisa e quase quente ao toque. Seu polegar sobre os nós dos meus dedos, mandando um arrepio por mim. Então eu percebi... Eu estou vestindo a jaqueta roxa. Eu volto a mim para encontrar a mamãe sentada ao meu lado na cama, o

braço em volta dos meus ombros. Ela sorri com simpatia, os olhos preocupados. – Desculpa – eu digo. – Não, sua boba – ela diz. – Eu sei como é.

Às vezes esqueço que minha mamãe teve um propósito uma vez. Provavelmente foi uns cem anos atrás, se ela tinha a minha idade na época. Que (eu

faço as contas rapidamente na minha cabeça) poderia colocá-la em algum momento entre 1907 e 1914, aproximadamente. O que significa senhoras em longos, vestidos

brancos e homens com cartola e grandes bigodes eriçados, carruagens puxadas a

cavalo, espartilhos, Leo DiCaprio prestes a ganhar o seu bilhete no Titanic. Eu tento a foto da minha mãe naquela época, cambaleando com a força de suas visões e deitada acordando no escuro tentando juntar as peças, tentando entender o que ela deveria fazer.


327

– Você está bem? - ela pergunta. – Eu vou vestir esse casaco – eu digo com voz trêmula. Está caído no chão,

perto da cama. Deve ter escapado das minhas mãos quando a visão me surpreendeu. – Bom – diz mamãe. – Eu pensei que ficaria bem em você. – Não. Na visão. Estou usando essa jaqueta. Seus olhos se arregalaram levemente.

– Isso está acontecendo. – Calmamente ela suaviza um fio do meu cabelo

atrás da minha orelha. – Tudo está se alinhando para você. Vai acontecer neste ano, nesta época de incêndios, tenho certeza disso.

Isso é a semanas de distância. Apenas algumas semanas. – E se eu não estiver pronta? Ela sorri com conhecimento de causa. Seus olhos estão brilhando de novo

com aquela estranha luz interior. Ela ergue os braços e os estica sobre a cabeça,

boceja. Ela parece muito melhor. Não tão cansada. Não tão desgastada e frustrada com tudo. Ela se parece com seu antigo eu, enquanto está pronta para saltar para

cima e começar a minha formação de novo, como está animada com o meu propósito e determinada a me ajudar a consegui-lo.

– Você vai estar pronta. – ela diz. – Como você sabe? – Só sei. – diz ela com firmeza.


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*** Na manhã seguinte, eu desço silenciosamente as escadas e consigo uma

rápida tigela de cereais granola ficando em pé no meio da cozinha comendo,

esperando ouvir o familiar chocalho do caminhão de Tucker na garagem. Mamãe me assusta ao aparecer enquanto estou bebendo um copo de suco de laranja.

– Você levantou cedo. – Ela examina a nova versão de bosque em mim, botas resistentes à água, shorts, pólo de esporte, a mochila pendurada num ombro.

Tenho certeza de que pareço como se tirada de um anúncio de Eddie Bauer. – Aonde você vai?

– Pescar – digo, engolindo meu suco rapidamente. As sobrancelhas dela levantam. Eu nunca fui de pesca na minha vida. O

mais perto que eu cheguei foi filés de salmão marinado para o jantar. – Com quem?

– Alguns meninos da escola – eu digo, pestanejando interiormente. Não é

bem uma mentira, digo a mim mesma. Tucker é um garoto da escola. Ela ergue a cabeça para um lado. – Que cheiro é esse? – ela pergunta, franzindo o nariz.

– Repelente. – Os mosquitos não me incomodam, mas aparentemente eles

comem Tucker vivo se ele esquece o repelente. Então, eu pus por solidariedade. – Todas as crianças usam – eu explico à minha mãe.


329

– Eles dizem que o mosquito é o pássaro do estado de Wyoming. – Você realmente se encaixa, no momento. – Bem, eu não era exatamente amistosa antes – eu digo um pouco

bruscamente.

– Claro que não. Mas é algo novo, eu acho. Alguma coisa está diferente. – Nah... Ela ri. – Nah? Eu coro. – Ok, então eu falo mais com as crianças na escola – eu digo. – Você tanto

ouve como você pega também. Jeffrey faz isso também. Dizem que eu ainda falo rápido demais para ser de Wyoming.

– Isso é bom – ela diz. – Encaixa dentro. – É melhor do que saindo – eu digo, nervosa. Eu vi o azul ferrugem do

caminhão serpenteando o seu caminho através das árvores em frente da casa.

– Tenho que correr, mamãe – . Dou-lhe um abraço rápido. Então eu estou

fora da porta, descendo a calçada, saltando no caminhão de Tucker enquanto ele ainda está se movendo. Ele grita de surpresa e bate no freio.

– Vamos! – Eu mostro um rápido sorriso inocente. Seus olhos estreitam.


330

– O que há com você? – Nada. Ele franze a testa. Ele sempre pode dizer quando eu minto. É chato quando

há tanta coisa que eu tenho que esconder dele. Eu suspirei. – Minha mãe está de volta – eu confesso.

– E você não quer que ela te veja comigo? – ele pergunta, ofendido. Eu olho

sobre meus ombros, para fora da janela do caminhão onde vejo claramente o rosto de mamãe na janela da frente. Aceno para ela, então, olho para trás, para Tucker.

– Não, seu bobo – eu digo. – Estou feliz por aprender a pescar com mosca,

isso é tudo .

Ele ainda não acredita em mim, mas ele deixa passar. Ele toca em seu

Stetson61 para mamãe através do pára-brisa. Sua cabeça desaparece da janela. Eu

relaxo. Não é que eu não queira que mamãe me veja com Tucker. Eu só não quero dar a ela a chance de interrogá-lo.

Ou me questionar sobre o que eu acho que estou fazendo com ele. Porque

eu não tenho idéia do que estou fazendo com Tucker Avery. ***

61

marca de chapéu de vaqueiro


331

– A pesca de mosca é fácil – afirma Tucker cerca de duas horas mais tarde,

depois que me mostrou todos os elementos da pesca a partir da relativa segurança da grama ao longo do rio Snake. – Você apenas tem que pensar como um peixe. – Certo. Pensar como um peixe. – Não brinque – adverte. – Olhe para o rio. O que você vê? Água. Paus, pedras e lama.

– Olhe mais de perto. O rio é o seu próprio mundo de rápidos e lentos,

superficiais e profundos, brilhantes e sombreados. Se você olhar para ele assim, como uma paisagem onde o peixe vive, vai ser mais fácil pegar um.

– Muito bem dito. Você é uma espécie de cowboy poeta? Ele cora, o que eu acho completamente encantador. – Basta olhar – murmura. Eu olho o rio. Realmente, parece o seu próprio cantinho do paraíso. Há

montes de ouro do sol cortando o ar, bolsos profundos de sombras ao longo da

margem de faias, e sussurro de choupos na brisa. E acima de tudo é um rio cintilante. Ele está vivo, correndo e espumando, suas profundezas verdes e cheias de mistérios. E supostamente cheio de saboroso, maravilhoso peixe.

– Façamos. – Eu levanto a haste da mosca. – Eu prometo, estou pensando

como um peixe.

Ele ronca e revira os olhos.


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– Tudo bem, peixes. – Ele aponta para o rio. – Ali mesmo há um banco de

areia onde pode ficar.

do rio?

– Deixe-me ter certeza que entendi direito. Você quer que eu fique no meio

– Sim – diz ele. – Vai ser um pouco frio, mas eu acho que você pode lidar

com isso. – Eu não tenho botas de água de seu tamanho.

– Isso não é mais um de seus truques para ter que me salvar, não é? – Eu

inclino minha cabeça e olho de soslaio para ele no sol. – Porque não acho que esqueci a Árvore de Salto.

– Não – ele diz com um sorriso. – Certo. – Dou um passo para dentro do rio, arfando no frio, depois outro e

outro até que está bem acima do meu joelho. Paro na beira do estreito banco de areia

que Tucker apontou, tentando conseguir uma base firme sobre as rochas lisas do rio sob meus pés. A água é fresca e forte contra as minhas pernas nuas. Eu endireito

meus ombros e ajusto as minhas mãos na vara do jeito que ele me mostrou mais cedo,

puxo a linha através das guias e espero que ela vá ao meu lado e comece a amarrar na mosca.

– Essa é uma das minhas favoritas – diz ele. Suas mãos se movem

rapidamente, graciosamente, para firmar sobre o pequeno e aveludado gancho destinado a parecer como um inseto sobre a água. – Sombrio Pálido da Manhã.

– Legal – digo, embora não tenha idéia do que ele está falando. Parece como

uma espécie de mariposa para mim. Para um peixe é suposto parecer como costeleta, aparentemente.


333

– Tudo pronto. – Ele libera a linha. – Agora, experimente como nós

praticamos na grama. Duas batidas de volta para as duas horas, uma batida para a

frente nas dez, puxe um pouco de linha, e vice-versa. Depois de lançar a linha de frente, relaxe para cerca das nove horas.

– Às dez e dois – repito. Eu levanto a vara e lanço a linha atrás, o que eu

espero é a cerca das duas horas, em seguida, chicoteio para frente.

– Suavemente – treina Tucker. – Tente acertar ao longo desse tronco cortado lá, então o peixe pensa que é um agradável e suculento inseto. – Certo, pensar como um peixe – eu digo com um riso embaraçoso. Eu

tentei. Dez e dois, dez e dois, mais e mais, a linha rodopiando ao redor. Eu acho que estou conseguindo, mas depois de uns dez minutos sem um peixe sequer olhar para o meu Sombrio Pálido da Manhã.

– Eu não acho que estou enganando eles. – Sua linha está muito apertada, a sua isca está se arrastando. Tente não

acenar como limpadores de pára-brisa – diz Tucker. – Você tem que fazer uma pausa no acenar de volta. Você está se esquecendo de fazer uma pausa. – Desculpe! Eu posso senti-lo olhando para mim e, sinceramente, destruindo a minha

concentração.

Eu detesto a pesca com mosca, eu percebo. Eu não detesto, porque eu estou

esperando, eu detesto simplesmente.

– Isso é divertido – eu digo. – Obrigada por me trazer.


334

– Sim, é o meu tipo de coisa favorita. Você não iria acreditar alguns dos

peixes que eu pego neste rio: trutas de ribeiro, truta arco-íris, truta marron, algumas

trutas acirrado. A acirrado-nativa está ficando mais rara, embora, a arco-íris introduzida se reproduza mais.

– Você os joga de volta?– eu perguntei. – Na maior parte. Dessa forma, eles crescem para serem maiores, peixes mais inteligentes. Melhor de pegar na próxima vez. Eu sempre liberto o acirrado. Mas

se eu pegar a arco-íris vou levá-los para casa. Mamãe faz um feroz jantar de peixe, apenas batatas, os frita na manteiga com um pouco de sal e pimenta, um pouco de pimenta de Caiena, às vezes, e quase derrete na boca. – Soa divino. – Bem, talvez você vá pegar um hoje. – Talvez. – Eu tenho amanhã – ele diz. – Você quer me encontrar na fenda de pedra

de madrugada e caminhar para assistir o nascer do sol do melhor lugar em Teton? É uma espécie de dia especial para mim.

– Claro. – Eu tenho que admitir que como distração, Tucker é de excelente

capacidade. Ele fica me perguntando para fazer coisas e eu continuo dizendo que sim. – Eu não posso acreditar que o verão está indo tão rápido. E pensei que iria se arrastar indefinidamente. Ooh, eu acho que vi um peixe!

– Agüente – suspira Tucker. – Você está apenas fazendo ondas agora.


335

Ele dá um passo em direção a mim no exato momento em que eu pego a

linha de fundo. A mosca pega seu chapéu de vaqueiro e o arranca da cabeça dele. Ele jura sob sua respiração, salta para agarrá-lo, e erra.

– Opa! Eu sinto muito. – Eu extraio a linha e a solto de abocanhar o chapéu

e libertá-la do gancho. Eu o seguro para ele, tentando não rir. Ele olha para mim com

uma pequena carranca de brincadeira e arrebata-o fora das minhas mãos. Nós dois rimos.

– Eu acho que sou sortudo, foi o meu chapéu e não minha orelha, diz ele. –

Fique quieta por um minuto, certo?

Ele ondula no rio e chapinha até estar atrás de mim com as botas de água

no seu quadril, de repente, tão perto que eu posso sentir o cheiro dele: protetor solar,

biscoitos Oreo, e por alguma razão misteriosa, uma mistura de repelente e água do rio, e uma pitada de colônia almiscarada.

Eu sorrio, de repente nervosa. Ele chega mais perto e tem um fio do meu

cabelo entre os dedos.

– Seu cabelo não é realmente vermelho, não é? – ele pergunta, e minha respiração congela em meus pulmões. – O que você quer dizer? – Eu estrangulo fora. Quando em dúvida, eu

aprendi com mamãe, responda a uma pergunta com uma pergunta.

Ele sacode a cabeça. – Suas sobrancelhas. Elas são, como, de escuro ouro. – Você está olhando para minhas sobrancelhas agora?


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– Eu estou olhando para você. Por que você está sempre tentando esconder

o quão bonita você é?

Ele parece olhar para dentro de mim, como se estivesse me vendo por quem

eu realmente sou. E nesse momento, eu quero lhe dizer a verdade. Loucura, eu sei. Estúpido. Errado. Eu tento dar um passo para trás, mas o meu pé escorrega e quase vou de cabeça no rio, mas ele me pega.

– Whoa – diz ele, serpenteando as duas mãos na minha cintura para me firmar. Ele me puxa próximo dele, se apoiando contra a corrente. As partes de água em torno de nós, gelada e implacável, puxando e nos puxando enquanto estamos lá, por um lento passar de alguns segundos tentando recuperar o nosso equilíbrio.

– Você tem as pernas firmes? – ele pergunta, sua boca perto da minha

orelha. Arrepios saltam acima o tempo todo no meu braço. Volto-me um pouco e tenho o olhar muito próximo à sua covinha. Seu pulso está indo forte em seu pescoço.

Seu corpo está quente nas minhas costas. Sua mão se fecha sobre a minha na vara de pesca.

– Sim – eu respondo rouca. – Eu estou bem. O que eu estou fazendo aqui? Eu penso, atordoada. Isso vai além da distração. Eu não sei o que é isso. Eu deveria... Eu não sei o que devo fazer. Meu cérebro, de repente, apagou.

Ele limpa a garganta. – Olhe o chapéu desta vez. Erguemos a vara em conjunto e a balançamos de volta, então para frente, os

braços de Tucker guiando os meus.


337

– Como um martelo – diz ele. – devagar para trás, a pausa, o aceno de volta

e, em seguida, ele lança a haste para frente para que a linha passe zumbindo por nossas cabeças e se desenrole suavemente sobre a água, rápido martelo para a frente.

Como num campo de beisebol. – A isca brilha delicadamente sobre a superfície e

hesita um instante antes que os redemoinhos atuais a carreguem. Agora que está andando sobre a água, e se assemelha a um inseto, e fico maravilhada com o seu equilíbrio na água.

Rapidamente, porém, a linha puxa não naturalmente, e é tempo de lançar novamente. Tentamos algumas vezes, indo e voltando, Tucker definindo o ritmo. É

hipnotizante, lento para trás, pausa, avançar, uma e outra vez. Eu relaxo contra Tucker, descansando quase totalmente contra ele, enquanto nós jogamos e esperamos que o peixe se levante para tomar o vôo.

– Pronta para experimentar por si mesma de novo? – ele pergunta depois

de um tempo. Estou tentada a dizer não, mas eu não consigo pensar em nenhum bom

motivo. Eu acenei. Ele solta da minha mão e se afasta de mim, volta para o banco onde ele pega sua própria vara.

– Você acha que eu sou bonita? – eu perguntei.

peixe.

– Precisamos parar de falar – diz um pouco ríspido. – Estamos assustando o

– Está bem, está bem. – Eu mordo meu lábio, e então sorrio. Nós pescamos por um tempo em silêncio, só o borbulhante barulho do rio e

o farfalhar das árvores. Tucker captura e liberta três peixes. Ele leva um momento para me mostrar o acirrado, com a sua barra de cor vermelha por baixo das guelras.


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Eu, por outro lado, não obtenho sequer uma mordidela antes de ter de

recuar da água fria. Sento-me no banco e esfrego para tentar ter a sensação de volta nas minhas pernas. Eu tenho que encarar a verdade nua e crua: Sou uma pescadora terrível.

Eu sei que soa estranho dizer isso, mas isso é uma coisa boa. Eu não

desfruto de excelência em tudo, por uma vez. Eu gosto de ver Tucker pescar, o modo como seus olhos esquadrinham as sombras e corredeiras, a maneira como ele joga a

linha sobre a água em perfeitas condições, as voltas graciosas. É como se ele estivesse falando com o rio. É pacífico.

E Tucker pensa que eu sou bonita. *** Mais tarde eu arrasto e largo o bom e velho saco de lona no quintal e tento

mais uma vez. De volta à realidade, lembro a mim mesma. De volta ao dever. Mamãe

está no escritório no computador, bebendo uma xícara de chá do jeito que ela faz quando está tentando aliviar o stress. Ela foi para casa apenas há um dia e já parece cansada de novo.

Estendo os meus braços e asas. Fecho meus olhos. Luz, eu treino a mim

mesma. Seja luz. Faça parte da noite, das árvores, do vento. Eu tento visualizar o rosto de Christian, mas de repente não é tão claro para mim. Eu tento conjurar seus olhos, o brilho dourado e verde, mas não consigo que tal aconteça.

Em vez disso eu consigo imagens de Tucker. Sua boca manchada com

vermelho por se abaixar no lado do tubo de gelado quase vazio de sorvete com mirtilos. Sua risada rouca.


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Suas mãos na minha cintura no rio, me mantendo firme, me segurando

perto. Seus olhos tão quentes e azuis, me convidando a entrar. – Merda – eu sussurro.

Abro os olhos. Eu estou tão leve, as pontas dos meus dedos são a única coisa

no chão. Eu estou flutuando.

Não, eu acho. Isso não está certo. É suposto ser Christian que faça você se sentir assim. Estou aqui para Christian Prescott. Merda! O pensamento pesa sobre mim e eu mergulho de volta para a terra. Mas eu

não consigo tirar Tucker fora da minha cabeça. Eu continuo repetindo os momentos entre nós mais e mais na minha cabeça.

– O que você vê em um cara como Christian Prescott? – ele me perguntou

naquela noite, quando ele me trouxe do baile. E o que realmente ele estava dizendo,

então, que teria chegado alto e claro se eu não tivesse sido tão cega: Por que você não

me vê?

Eu conheço o sentimento. Obtenha um aperto, eu digo a mim mesma. Basta voar já. Eu aperto o meu domínio sobre o saco. Eu ergo minhas asas e as estico para

o céu. Eu empurro com toda a força nelas, toda a força que eu ganhei ao longo de

meses e meses de prática. Meu corpo sobe uns poucos metros, e eu consigo segurar a mochila.

Eu me puxo mais, quase até o topo da linha das árvores. Eu mal posso

seguir o brilho da lua nova. Eu passo em direção a ela, mas a mochila me


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desequilibra. Eu guino para o lado, batendo selvagemente e largando o saco. Meus

braços se sentem como se eles estivessem arrancando-se das minhas bases. E então eu caio, colidindo com o pinheiro na borda do nosso quintal, xingando todo o caminho.

Jeffrey está de pé na pia da cozinha quando eu me arrasto pela porta dos

fundos, arranhada, machucada e à beira das lágrimas. – Lindo – ele diz, sorrindo. – Se cale. Ele ri. – Eu não posso fazer isso também. – Você não pode o quê?

– Eu não posso carregar coisas quando eu vôo. Isso me faz perder o

equilíbrio.

Eu não sei se isso me faz sentir melhor, porque Jeffrey não pode fazer isso

também, ou me sentir pior, porque ele está, evidentemente, me vigiando. – Você já tentou? – eu pergunto.

– Muitas vezes. – Ele se estica e puxa uma agulha de pinho do meu cabelo.

Seus olhos são amigáveis, simpáticos. De todos que eu conheço, Jeffrey é a única pessoa que pode realmente entender o que estou passando. Ele está passando por isso, também. Ou pelo menos ele vai, quando seu propósito chegar.

– Você... – Eu hesito. Eu olho para trás para no corredor em direção ao

escritório da mamãe. Ele olha sobre o ombro, então para mim com curiosidade.


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– O quê? – Você quer experimentar, juntos? Ele olha para mim por um minuto. – Claro– diz ele, finalmente. – Façamos.

gramado.

Está tão escuro no quintal que não posso ver muito além da borda do

– Isso seria muito mais fácil durante o dia – eu digo. – Estou começando a

odiar praticar à noite.

– Por que não pratica durante o dia? – Hum... Porque as pessoas podiam nos ver? Ele sorri maliciosamente. – Que importa isso? – Ele diz. – O que você quer dizer?

cima.

– As pessoas realmente não a vêem. Não é como se estivessem olhando para

– Como? Isso é loucura – eu digo, balançando a cabeça. – É verdade. Se repararem apesar de tudo, vão pensar que você é um

grande pássaro ou algo assim. Um pelicano.

– Sem chance! – Mas Lembrei-me imediatamente de quando eu voei sobre

Jenny Lake e o meu reflexo era um raio de branco puro, como um pássaro.


342

– Tipo, não é grande coisa. Mamãe faz isso o tempo todo. – Ela faz? – Ela voa quase todas as manhãs. Justamente quando o sol está chegando. – Como eu não notei isso? Ele dá de ombros. – Eu levanto cedo. – Eu não posso acreditar que eu não sabia disso! – Então nós podemos voar durante o dia. Problema resolvido. Mas agora

vamos começar com isso, ok? Eu tenho coisas para fazer.

– Claro que sim. Tudo bem, então. Assista isto. Mostre-se!– Eu grito. Suas asas rapidamente saltam fora. – O que foi isso?– ele suspira. – Um truque que aprendi com Angela. Suas asas são de cor cinza claro, vários tons mais escuros do que as minhas.

Provavelmente nada para se preocupar, no entanto. Mãe disse que nós somos todos de diferentes tons de cinza. E as suas parecem escuras, não tanto como elas parecem... Sujas.

– Bem, me avise da próxima vez, ok? – Jeffrey dobra suas asas um pouco, as

torna menores, e as vira de costas para mim, enquanto caminha até a beira do gramado onde deixei a mochila. Ele a levanta facilmente e corre para mim. Todos aqueles músculos da equipe de luta livre são uma grande vantagem.


343

– Ok, vamos fazer isso. – Ele segura o saco, e eu pego uma das alças. – Na

contagem de três.

De repente, nos imagino batendo nossas cabeças juntos enquanto

decolamos. Dou um passo para trás, colocando o máximo de espaço entre nós, como

posso e ainda segurando a mochila. Como ele partilha a metade do peso, não é demasiado pesada.

– Um – diz ele. – Espera, em que direção devemos ir? – Desse lado. – Ele inclina a cabeça em direção ao extremo norte de nossa

propriedade, onde as árvores são mais finas. – Bom plano. – Dois. – A que altura?

– Nós vamos descobrir isso – ele diz em um tom exasperado.

gosto.

– Você sabe, sua voz está começando a soar como papai. Eu acho que não

– Três!– exclama, e então dobra os joelhos e dobra suas asas e se ergue para

cima, enquanto eu faço o meu melhor para fazer o mesmo.


344

Não há espaço para hesitação. Nós vamos para cima e para cima e para

cima, o sincronismo das batidas das nossas asas juntas, segurando a sacola entre nós

um pouco trêmula, mas de uma forma que somos capazes de lidar com isso. Em cerca de dez segundos estamos acima da linha das árvores. Então, começamos a mover para

o norte. Eu olhei para Jeffrey, e ele me atira um sorriso, presunçoso de autosatisfação, como se sempre soubesse que isso seria fácil. Eu estou meio chocada pela forma como é fácil.

Nós poderíamos ter levantado o dobro. Minha mente corre com tudo o que isso significa. Se eu não posso levantar Christian, eu posso ter ajuda? É contra as regras?

– Jeffrey, talvez seja isso. – Isso o quê? – ele diz um pouco distraído, tentando puxar o saco até

conseguir um melhor controle.

– Seu propósito. Talvez a gente deva fazer isso junto. Ele deixa ir. O saco me empurra imediatamente, e então eu deixo ir

também. Nós o vemos colidir chicoteando no chão da floresta.

– Não é o meu propósito – ele diz com uma voz plana. Seus olhos cinzentos

se tornam frios e distantes.

– Qual é o problema? – Nada. Nem tudo é sobre você, Clara. A mesma coisa que Wendy me disse. Como um soco no estômago.


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– Desculpe – murmuro. – Eu acho que fiquei animada com a idéia de

conseguir alguma ajuda. Estou tendo um tempo difícil tentando isso sozinha.

– Temos que fazer isso sozinhos. – Ele se afasta no ar, voltando em direção

ao quintal.

– Isso é apenas como as coisas são. Eu olho para ele durante um longo tempo, em seguida, pouso no chão para pegar a mochila. Um dos galões de água que coloquei dentro está quebrado, e o vazamento de água num lento gotejar sobre a terra seca.


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16 REPELENTE DE URSO Na manhã seguinte, meu celular toca em alguma hora adiantada. Debaixo

das cobertas, gemo e tateio ao redor procurando ele no criado-mudo, encontro-o, puxo-o para mim, e respondo com alegria. – O quê? – Que bom! Você está levantada. – Tucker. – Que horas são? – Cinco. – Eu vou matar você. – Eu estou a caminho – ele diz. – Eu vou estar aí em cerca de meia hora.

Pensei que chamando assim você teria tempo de escovar o cabelo e arranjar seu rosto. – Você acha que vou usar maquiagem para ir caminhar com você?


347

– Veja, isso é o que eu gosto em você, Cenoura. Você não é exigente. Eu desligo na cara dele. Eu lanço os cobertores fora e fico deitada por um

minuto olhando para o teto. Lá fora está escuro como breu. Estava sonhando com ele,

eu percebo, embora eu não lembre os detalhes. Algo sobre o grande celeiro vermelho no Lazy Dog Ranch. Eu bocejo. Então, me obrigo a levantar e me vestir.

Eu não tomo banho, porque o barulho poderia acordar mamãe. Eu respingo água fria no meu rosto e ponho algum hidratante. Eu não preciso de maquiagem. Minha pele ultimamente está começando a ter o seu próprio brilho natural, outro

sinal de que as coisas estão começando a mudar, a começar a intensificar no caminho

que a mamãe disse que iria. Eu coloquei máscara e apliquei algum gloss, depois viro a atenção para as ondas selvagens do cabelo cacheado nas minhas costas. Há um

pedaço de seiva de árvore agarrada a um fio, prova da prática de vôo da noite passada. Passei os quinze minutos seguintes tentando me livrar da seiva, e quando

finalmente a retiro, juntamente com um pedaço de meu cabelo, eu ouço os pneus na estrada de cascalho.

Eu deslizo silenciosamente as escadas. Jeffrey tem razão. Mamãe não está

em seu quarto.

No balcão da cozinha lhe escrevo uma nota: Mãe, estou indo para fora ver

o nascer do sol com os amigos. Volto mais tarde. Eu tenho o meu celular. C. Então, eu estou fora da porta.

Desta vez eu estou nervosa, mas Tucker age como se nada mudou, tão

completamente normal que eu me pergunto se talvez imaginei toda a tensão entre nós ontem. E relaxo em nossa brincadeira familiar. Seu sorriso é contagiante. Roda

para fora, e ele dirige rápido o suficiente para me manter agarrada na porta como se tivesse cantos arredondados. Ele pega uma estrada secreta lateral para entrar em


348

Grand Teton, ignorando o portão principal, e então nós estamos rodando pela estrada vazia.

– Então, que dia é hoje? – eu pergunto. – Hein? – Você disse que era um dia especial. – Ah. Eu já vou chegar a isso. Nós dirigimos para o Lago Jackson. Ele estaciona e pula para fora do

caminhão. Eu espero que ele venha de volta e abra a minha porta. Estou me

acostumando com as suas boas maneiras de 'sim, senhora', tanto que eu estou começando a encontrar sua maneira cavalheiresca, doce. Ele checa o relógio.

minutos.

– Temos que caminhar rápido – ele diz. – O nascer do Sol será em 26

Eu me inclino para baixo para apertar os atacadores das botas. E nós estamos indo. Eu o sigo para cima e para fora do estacionamento e para a floresta. – Então, que aulas você está tendo no próximo ano? – ele pergunta sobre

seu ombro enquanto fazemos o nosso caminho até a colina do outro lado do lago.

– As de sempre – eu digo. – AP Calculus, Colégio Inglês, Governo, francês,

física, você sabe.

– Física, hein?


349

– Bem, meu pai é um professor de física. – Não, está brincando? – Onde? – NYU. Ele assobia. – Esse é um longo caminho a partir daqui. Quando seus pais se

separaram?

– Por que você, de repente, está tão tagarela? – Pergunto um pouco

bruscamente. Algo sobre a idéia de contar a ele sobre minha história pessoal me deixa desconfortável. Como se fosse começar a contar a ele e não fosse ser capaz de parar. E tagarelo toda a história: Mamãe é metade anjo, eu sou um quarto, minha

visão, meus poderes, o meu propósito, Christian, e depois? Ele vai me contar sobre o circuito de rodeio?

Ele pára e volta para olhar para mim. Seus olhos estão dançando com

travessura.

– Nós temos que falar por causa dos ursos – diz num tom baixo, sorrindo. – Os ursos.

pardo.

– Tem que fazer algum barulho. Não queremos surpreender um urso

– Não, eu acho que nós não queremos fazer isso. Ele continua na trilha novamente.


350

– Então, me fale sobre essa coisa que aconteceu com seu avô, quando sua

família perdeu a fazenda – digo logo, antes que ele tenha a chance de voltar ao

assunto da minha família. Ele não quebrou o seu passo, mas eu quase posso sentir a tensão. As mesas estão viradas. – Wendy diz que é o porque você odeia californianos. O que aconteceu lá?

– Eu não odeio os californianos. Claramente. – Caramba, isso é um alívio.

caminhar.

– É uma longa história – diz ele – e nós não temos esse tempo para

– Tudo bem. Sinto muito. Eu não quis...

agora.

– Está tudo bem, Cenoura. Eu vou falar sobre isso algum dia. Mas não

Então ele começa a assobiar e paramos de conversar. O que parece que se

adequa muito bem para nós dois, ursos ou não. ***

Após mais alguns minutos de escalada difícil, saímos numa clareira no topo

de um pequeno monte. O céu banhado numa mistura de cinza e amarelo-pálido, com um emaranhado de nuvens brilhantes cor de rosa penduradas logo acima onde o Teton projeta para o céu, pura púrpura, montanhas majestosas, em pé, como reis na

orla do horizonte. Abaixo delas está o Lago Jackson, tão claro que se parece com dois conjuntos de montanhas e dois céus, perfeitamente replicados.

Tucker verifica o seu relógio. – 30 segundos. Estamos mesmo a tempo.


351

Não consigo desviar o olhar das montanhas. Eu nunca vi nada tão

formidavelmente belo. Sinto-me ligada a elas de uma maneira que nunca senti em outro lugar. É como se pudesse sentir a sua presença. Basta olhar para os picos

recortados contra o céu que fazem lavagem de paz em cima de mim como as ondas a rebentar na costa do lago abaixo de nós.

Angela tem uma teoria de que a espécie de anjo é atraída para as

montanhas, que de alguma forma a separação entre o céu e a terra aqui é mais fina,

assim como o ar é mais fino. Eu não sei. Só sei que olhando para eles me encho com anseio para voar, para ver a Terra lá de cima. – Deste lado. – Tucker virou meu rosto na direção oposta, onde através do

vale o sol começa a surgir distante ao longo de um conjunto de montanhas menos

familiares. Estamos completamente sozinhos. O Sol está nascendo só para nós. Assim que está acima das montanhas, Tucker me pega suavemente pelos ombros e me vira novamente, de volta para o Teton, onde agora há um milhão de brilhos dourados no lago.

– Oh. – Eu suspiro. – Faz você acreditar em Deus, não é? Olho para ele, assustada. Eu nunca o ouvi falar de Deus antes, embora eu

saiba por Wendy que os Avery frequentam a igreja quase todos os domingos. Eu nunca teria atrelado a ele como o tipo religioso. – Sim – eu concordo.

– Seu nome significa 'peitos', você sabe. – Os lados de sua boca engatam em

seu sorriso maroto. Grand Teton significa 'peito grande'.


352

– Lindo, Tucker – Eu zombo. – Eu sei disso. Terceiro ano de Francês,

lembra? Eu acho que os exploradores franceses não tinham visto uma mulher por um longo tempo realmente.

– Eu acho que eles só queriam uma boa risada.

Durante muito tempo, estamos lado a lado e assistimos ao trecho de luz em

dança com as montanhas em completo silêncio. Uma leve brisa levanta, sopra o meu

cabelo para o lado e é capturado pelo ombro de Tucker. Ele olha para mim. Ele engole. E parece que ele está prestes a dizer algo importante. Meu coração pula na minha garganta. – Eu acho que você é... – ele começa. Nós dois ouvimos o barulho no mato atrás de nós ao mesmo tempo.

Voltamo-nos.

Um urso acaba de entrar na trilha. Eu sei imediatamente que é um urso.

Seus enormes ombros brilham sob os raios do sol nascente enquanto ele pára a olhar para nós. Atrás dele, dois filhotes surgem fora dos arbustos. Isso é ruim.

– Não corra – adverte Tucker. Não é uma possibilidade. Meus pés estão

congelados no chão. Na minha visão periférica eu o vejo deslizar a mochila do ombro. O urso abaixa a cabeça e faz um som fungado.

– Não corra – diz Tucker novamente, desta vez em voz alta. Eu o ouço

desajeitado com alguma coisa.

para ele.

Talvez ele vá bater nela com um objeto de algum tipo. O urso olha direto


353

Seus ombros tensos, enquanto ela se prepara para atacar. – Não – eu sopro em Angélico, levantando a minha mão como se eu

pudesse segurá-la pela força da minha vontade. – Não.

O urso pára. Seu olhar oscila para a minha face e, com os olhos de um

castanho claro, absolutamente vazio de qualquer sentimento ou entendimento. Absolutamente animal. Ela olha fixamente para a minha mão, depois se levanta nas pernas traseiras, bufando. – Nós não vamos prejudicar você – eu digo em Angélico, tentando manter

minha voz baixa. Eu não sei como ele vai soar a Tucker. Eu não sei se o urso vai entender. Eu não tenho tempo para pensar. Mas eu tenho que tentar.

O urso faz um barulho que é meio rosnar, meio latir. Fico no meu chão. Eu

olho nos olhos dela.

– Deixe esse lugar – digo com firmeza. Sinto um estranho poder se mover

através de mim, me fazendo tonta. Quando eu olho para a minha mão estendida, vejo um brilho tênue crescendo sob a minha pele.

filhotes.

O urso cai de quatro. Ela abaixa a cabeça novamente, latindo a seus

– Vá – eu sussurro. Ela faz. Ela se vira e caminha para a mata, os filhotes por trás dela. Ela foi embora tão de repente como apareceu.


354

Meus joelhos cedem. Os braços Tucker chegaram ao meu redor. Por um

minuto ele me esmaga com uma mão no fundo das minhas costas, me apoiando, a outra na parte de trás do meu pescoço. Ele puxa a minha cabeça para o seu peito. Seu coração está batendo, sua respiração entrando em estremecimentos de pânico. – Oh meu Deus – ele respira. Ele tem algo em uma de suas mãos. Eu me afasto para investigar. Uma

longa vasilha prateada que se parece vagamente com um extintor de incêndio, só que menor e mais leve.

– Repelente de Urso – diz Tucker. Seu rosto está pálido, seus olhos azuis

selvagens com alarme.

– Oh. Assim você poderia ter lidado com isso. – Eu estava tentando ler as instruções sobre a forma de usar a coisa – diz

ele com uma risada sinistra. Eu não sei se teria percebido isso a tempo.

– Falha nossa. – Eu afundo, assim me sento no chão rochoso perto de seus

pés. – Nós paramos de falar. – Certo.

Não sei o que ouviu, o que ele pensava. – Estou com sede – digo, tentando comprar algum tempo para chegar a

uma explicação.

Ele desliza a vasilha de volta em sua mochila e recupera uma garrafa de

água, abre-a e se ajoelha ao meu lado. Ele segura a garrafa aos meus lábios, sua


355

expressão ainda apertada com o medo, seus movimentos tão bruscos que a água cai abaixo no meu queixo.

– Você me avisou sobre os ursos – eu gaguejo depois que tento beber

alguns goles. Tivemos sorte.

– Sim. – Ele se vira e olha para baixo na trilha, na direção em que o urso

foi, em seguida, de volta para mim. Há uma questão em seus olhos que não posso responder.

– Estávamos com sorte, tudo bem. *** Não falamos sobre isso. Nós caminhamos de volta para baixo e nos

dirigimos a Jackson para o pequeno almoço. Voltamos para a casa de Tucker, mais

tarde na manhã para pegar o barco de Tucker e passamos a tarde no Snake,

pescando. Tucker pegou alguns e atirou-os de volta. Ele pegou uma truta arco-íris grande, e decidimos comer aquela no jantar junto com o peixe que ele pegou no dia

anterior. Não foi até que nós estávamos de pé na cozinha da fazenda Avery, Tucker me ensinando como tirar o intestino do peixe, que falou no urso novamente.

– O que você fez hoje, com o urso? – ele pergunta enquanto estou com o

peixe na pia da cozinha, tentando fazer uma incisão limpa na barriga do jeito que ele me mostrou.

– Isto é tão asqueroso – eu reclamo. Ele se vira para olhar para mim, sua expressão dura do jeito de sempre

quando percebe que eu tento afastar algo dele. Eu não sei o que dizer. Quais são as

minhas opções? Dizer a verdade, que é contra a regra realmente absoluta de Mamãe


356

sobre ser um anjo de sangue: Não diga a seres humanos, eles não vão acreditar em

você mesmo, e se acreditarem, não vão conseguir lidar com isso. E depois há a opção dois: Começamos com algum tipo de mentira que soa ridícula. – Eu cantei para o urso – eu tento. – Você falou com ele. – Eu meio que zumbi no ar – digo lentamente. Isso é tudo. – Eu não sou idiota, você sabe – diz ele. – Eu sei. Tuck... A faca escorrega. Eu sinto deslizar para a parte carnuda da minha mão por

debaixo do meu polegar, cortando através da pele e músculo. Há uma súbita pressão de sangue. Instintivamente fecho meus dedos em torno da ferida.

– Ok, de quem foi a idéia brilhante de me dar uma faca? – Esse corte foi feio. Aqui. – Tucker enrola os meus dedos para pressionar

num pano de prato sobre o ferimento. – Pressione – ele indica, largando. Ele caminha para fora da sala. Eu pressiono por um momento, como ele disse, mas o sangramento

já parou. Sinto-me de repente estranha, a cabeça leve de novo. Eu me inclino contra o contador, tonta. Minha mão começa a doer e, em seguida, uma explosão de calor como um pequeno crescimento de brotos chama do meu cotovelo até a ponta do meu

dedo mindinho. Eu suspiro. Posso realmente sentir o corte se fechar, o tecido se entrelaçando profundamente dentro da minha mão.

Mamãe tinha razão. Meus poderes estão crescendo.


357

Depois de um momento, a sensação desaparece. Eu descasco o pano de

prato e examino minha mão. Por agora é só um corte raso, pouco mais de um arranhão. Parece ter parado de se curar. Eu flexiono meus dedos para trás e para frente com cuidado.

Tucker aparece com um tubo de pomada de antibiótico e curativos

suficientes para consertar um pequeno exército. Ele despeja tudo no balcão e

caminha rapidamente para mim. Eu puxo o pano de prato firmemente em minha mão e a meto no meu peito protetoramente.

– Estou bem – eu digo rapidamente. – Deixe-me ver – ele ordena. E estende a mão. – Não, está tudo bem. É só um arranhão. – É um corte profundo. Precisamos fechá-lo. Eu abaixo lentamente a mão para ele. Ele a pega gentilmente de modo que a

palma da mão ferida fique para cima. Ele puxa para trás o pano de prato. – Vê? – Eu digo. – Somente uma ferida de menor importância.

Ele olha-a atentamente. Estou segurando a minha respiração, eu percebo.

Digo a mim mesma para relaxar. Basta agir normalmente, como a mamãe diz. Eu posso explicar isso. Eu tenho que explicar isso.

– Você vai ler o meu futuro? – Digo com um sorriso fraco. Sua boca torce. – Eu pensei que você ia precisar de pontos, com certeza.


358

– Não. Falso alarme. Ele olha direito e fixa em mim. Ele limpa o corte com água, coloca

pequenos borrões de pomada, em seguida coloca um curativo sobre isso

cuidadosamente. Fico aliviada quando o corte está coberto pelo curativo e ele finalmente para de olhar para ele.

– Obrigado – digo a ele. – O que está acontecendo com você, Clara? – Os olhos dele quando ele

olha para mim são ferozes, muito cheios de mágoa e acusação, e isso me tira o fôlego. – O que... Que você quer dizer? – Eu gaguejo.

só...

– Quero dizer – ele começa. – Eu não sei o que quero dizer. Eu só... Você

E depois ele não diz mais nada. Insira o maior silêncio, o mais estranho na história dos grandes silêncios

constrangedores. Eu olho para ele. Estou exausta de repente por todas as mentiras que eu já lhe disse. Ele é meu amigo, e eu menti para ele todos os dias. Ele merece

melhor. Eu gostaria de poder dizer-lhe, então, mais do que qualquer coisa que eu já

quis. Eu gostaria de poder ficar na frente dele e realmente ser eu mesma e contar-lhe tudo. Mas é contra as regras. E essas não são regras que você quebra levemente. E não sei quais seriam as conseqüências se eu dissesse. – Eu sou apenas eu – eu digo baixinho.


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Ele zomba. Ele pega o pano de prato e o segura, um pouco de branco com o

vermelho, incrivelmente brilhante do meu sangue embebido no meio dele. – Pelo menos agora eu sei que você pode sangrar – diz ele. – Isso é uma alguma coisa, eu acho. Você não é completamente invencível, não é?

– Ah, certo – eu retorno tão sarcasticamente quanto posso controlar. – O

que você achou, que eu era a Supergirl? Vulnerável apenas com Kryptonita?

– Eu não sei o que pensar. – Ele conseguiu arrancar seu olhar longe do pano de prato e agora está olhando para mim novamente. – Você não é... Normal, Clara. Você tenta fingir que é. Mas você não é. Você falou com um urso, e ele lhe

obedeceu. Aves a seguem como um desenho animado da Disney, ou você não

percebeu? E, por um tempo, depois que você voltou de Idaho Falls, Wendy pensou que você estava fugindo de alguém ou de algo. Você é boa em tudo que tenta fazer.

Monta um cavalo como se você tivesse nascido na sela, você faz esqui paralelo perfeito na sua primeira vez no morro, e aparentemente fala fluentemente francês e coreano e quem sabe mais o quê. Ontem eu notei que suas sobrancelhas têm uma espécie de brilho no sol. E há algo sobre a maneira como você se move, algo que está

além de gracioso, algo que está além do ser humano, mesmo. É como se você fosse... Outra coisa.

Um tremor violento passa por mim da cabeça aos pés. Ele realmente colocou tudo junto. Ele apenas não sabe como somar.

– eu digo.

– E mesmo assim posso não ter qualquer explicação racional para tudo isso

– Considerando seu irmão, o melhor que eu tenho sido capaz de chegar é

que talvez sua família faça parte de algum tipo de experimento secreto do governo,

algum tipo geneticamente modificado, amigo-de-animal-super-humano, – diz ele. – E você está se escondendo.


360

Eu bufei. Seria engraçado se a verdade não fosse muito mais estranha. –

Você soa louco, você sabe disso?

Outro silêncio para o livro dos recordes. Então ele suspira. – Eu sei. Isso é uma loucura! Eu me sinto como... – Ele para a si mesmo. De

repente, ele parece tão miserável que meu coração dói por ele. Eu odeio minha vida.

dia louco.

– Está tudo bem, Tuck – digo suavemente. – Nós tivemos uma espécie de

Eu alcanço para tocar seu ombro, mas ele sacode a cabeça. Ele está prestes a

dizer algo quando a porta de tela se abre e Sr. e Sra. Avery entram na casa, falando alto, porque eles sabem que eles estão nos interrompendo. Sra. Avery olha a pilha de ligaduras e pomada sobre o balcão.

– Uh... Oh. Alguém teve um acidente? – Eu me cortei – eu digo rapidamente, evitando os olhos de Tucker. – Tucker estava me ensinando como limpar o peixe, e eu fui descuidada. Eu estou bem, apesar.

– Bom – diz a Sra. Avery. – Isso é um bom peixe – Sr. Avery diz, olhando para baixo na pia, onde

deixei cair a grande truta arco-íris. – Você apanhou essa hoje?


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– Tucker fez, ontem. Hoje, ele pegou a outra lá. – Faço um gesto para o

cooler aberto. Sr. Avery olha para ele e dá um assobio de apreço. – Boa comida esta noite.

– Você tem certeza que é o que você quer para o seu jantar de aniversário?

– pergunta a Sra. Avery. – Eu posso fazer o que quiser. – É o seu aniversário! – Eu suspiro.

– Ele não te disse? – Gargalhadas do Sr. Avery. – Dezessete anos hoje. Ele é

quase um homem.

– Obrigado, papai – resmunga Tucker. – Não seja por isso, filho. – Eu teria conseguido alguma coisa – eu digo baixinho. – Você conseguiu. Você me deu minha vida hoje. Adivinham como? – ele

diz para seus pais, mais alto que o seu habitual discurso ríspido. – Hoje nós esbarramos numa mamãe urso com dois filhotes, no cume fora de Colter Bay, e Clara cantou para ele para fazê-lo ir embora. Sr. e Sra. Avery olharam para mim, perplexos. – Você cantou para ela? – Sra. Avery repetiu. – Seu canto é tão ruim – disse Tucker, e todos riem. Eles pensam que ele

está brincando. Eu sorri fracamente.


362

– Sim – eu concordo. – Meu canto é tão ruim assim. *** Depois que a Sra. Avery frita o peixe para o jantar, houve bolo, sorvete e

alguns presentes. A maioria dos presentes são para cavalo de rodeio premiado de Tucker, Midas, que acho que é um nome engraçado para um cavalo. Avery se gaba da maneira que Tucker e Midas podem pegar uma vaca de um rebanho.

– A maioria dos cavalos que competem são treinados por profissionais e

custam bem mais de quarenta das grandes – diz ele. – Mas não Midas. Tucker o levantou e treinou desde que era um potro. – Eu estou impressionada. Tucker parece inquieto. Ele esfrega as costas do seu pescoço, um gesto que

sei que significa está loucamente desconfortável com o caminho que conversa está tomando.

– Eu desejava poder ter visto você competir – eu digo. – Aposto que isso é

algo para se contemplar.

– Você tem que pegá-lo este ano – disse Avery. – Eu sei! – Exclamo. Eu deixo cair o queixo em minha mão enquanto me

inclino sobre a mesa da cozinha e sorrio a Tucker. Eu sei que estou fazendo pior, provocando. Mas talvez se agir normalmente tudo vai voltar a ser como era.

– Vamos até ao celeiro e mostrar a Midas o freio novo – diz Tucker.


363

Com isso, ele me leva rapidamente para fora da casa para a segurança do

celeiro. O cavalo vem à frente da sua tenda no momento em que entramos, as orelhas

espetadas para frente em expectativa. Ele é bonito, de cor castanha brilhante, com grandes olhos castanhos inteligentes. Tucker o toca abaixo do queixo. Em seguida, ele coloca o freio novo que seus pais lhe deram.

– Você deveria ter me dito que era seu aniversário – eu digo. – Eu estava indo dizer. Mas, então, quase fomos comidos por um urso. – Oh. Certo. E quanto à Wendy? – eu pergunto. – O que tem ela? – É seu aniversário, também. Eu sou a pior amiga de sempre. Eu deveria lhe

ter enviado alguma coisa. Vocês trocaram presentes?

– Ainda não. – Ele se vira para mim. – Mas ela me deu o presente perfeito. A forma como ele está olhando para mim envia borboletas em meu

estômago. – O quê? – Você.

Eu não sei o que dizer. Este verão não tinha ido em todo o caminho da

forma que eu tinha planejado.

Eu não deveria estar de pé no meio de um celeiro com um cowboy de olhos

azuis, que está olhando para mim como se ele estivesse prestes a me beijar. E não deveria estar ali esperando que ele me beijasse.


364

– O que estamos fazendo? – eu pergunto. – Cenoura... – Não me chame assim – eu digo com voz trêmula. – Isso não sou eu. – O que você quer dizer com isso? – Uma hora atrás, você pensava que eu era algum tipo de aberração. Ele puxa a mão pelo cabelo em agitação e, em seguida, olha diretamente

nos meus olhos.

– Eu nunca pensei que você era uma aberração. Eu acho que... Eu pensei

que você fosse mágica ou alguma coisa. Eu pensei que você era perfeita demais para ser real.

Eu só quero tanto mostrar a ele, voar até o topo do celeiro e sorrir-lhe, e

dizer-lhe tudo. Eu quero que ele o conheça o verdadeiro eu.

– Eu sei, eu disse algumas coisas estúpidas hoje. Mas eu gosto de você,

Clara – diz ele. – Eu realmente gosto de você.

Possivelmente foi a primeira vez que ele realmente disse o meu nome. Ele vê a hesitação em meus olhos. – Está tudo bem. Você não precisa dizer

nada. Eu apenas queria que você soubesse.

– Não – eu digo. Ele éuma distração. Eu tenho um propósito, um dever. Não

estou aqui por ele. – Tuck, eu não posso. Eu tenho que...


365

Sua expressão fica pensativa. – Diga-me que isto não é sobre Christian Prescott – diz ele. – Me diga que

ultrapassou aquele cara.

Eu sinto um lampejo de raiva com a forma como ele soa condescendente,

como se eu fosse uma menina tola, com uma queda.

– Você não sabe tudo sobre mim – digo, para tentar refrear meu temperamento. – Venha aqui. – Sua voz é tão quente e rouca que sinto um arrepio

percorrer minha espinha. – Não.

ele.

– Eu acho que você realmente não quer ficar com Christian Prescott – diz

– Como se você soubesse o que eu quero. – Sim. Eu conheço você. Ele não é seu tipo. Encaro impotente para as minhas mãos, com medo de olhar para ele. – Ah,

e suponho que você é meu tipo, né?

– Eu suponho que sou – ele diz, e ele está atravessando a distância entre

nós e tomando o meu rosto em suas mãos antes que eu possa sequer pensar em parar. – Tuck, por favor – eu consigo dizer com uma voz tremida.


366

– Você gosta de mim, Clara – diz ele. – Eu sei que você gosta. Se ao menos pudesse rir dele. Se pudesse rir e me afastar e dizer-lhe quão

estúpido e errado ele está.

– Tente me dizer que não – ele murmura, tão perto que sua respiração está

no meu rosto. Eu olho para cima em seus olhos e vejo o calor acenando neles. Não consigo pensar.

Seus lábios estão muito próximos dos meus, e suas mãos estão puxando-me

mais perto.

– Tuck – eu respiro, e então ele me beija. Eu já fui beijada antes. Mas nada assim. Ele me beija com surpreendente

ternura, para toda a sua conversa corajosa. Ainda segurando meu rosto, ele

gentilmente escova seus lábios contra os meus, lentamente, como se estivesse memorizando como me sente. Meus olhos se fecham. Minha cabeça nada no cheiro dele, grama, sol e colônia almiscarada. Ele me beija de novo, um pouco mais firme, e então ele puxa para trás para olhar para baixo em meu rosto.

Eu não quero que tenha terminado. Todos os outros pensamentos desaparecem do meu cérebro. Abro os olhos. – Outra vez – eu sussurro. Os cantos de sua boca levantam, e então eu o beijo. Não tão gentilmente

desta vez. Suas mãos deixam o meu rosto e pegam na minha cintura e me puxam

para ele. Um pequeno suave gemido lhe escapa, e o ruído faz-me sentir absolutamente louca. Eu me perco. Eu levanto minhas mãos em volta do pescoço dele


367

e o beijo sem reservas. Eu posso sentir seu coração trovejando como o meu, sua respiração vindo mais rápida, seus braços me apertando.

E então eu posso sentir o que ele sente. Ele esperou um longo tempo por

este momento. Ele ama como me sente em seus braços. Ele adora o cheiro do meu

cabelo. Ele adora o jeito como eu olhava para ele agora mesmo, corada e querendo mais dele. Ele adora a cor de meus lábios e agora o gosto da minha boca que está fazendo os joelhos ficarem fracos e ele não quer parecer fraco diante de mim. Assim, ele recua, e sua respiração sai depressa. Seus braços caem longe de mim. Abro os olhos. – O que está acontecendo? – eu pergunto. Ele não pode falar. Seu rosto ficou pálido debaixo de sua pele dourada. E

então eu percebo que está muito brilhante lá dentro, demasiado brilhante para a sombra escura do celeiro, e que a luz vem de mim, irradiando de mim em ondas.

Estou em glória. Tucker olha para mim em choque. Eu posso sentir o seu

choque. Ele pode ver tudo agora em toda essa luz, brilhando através das minhas

roupas, então eu poderia muito bem estar nua na frente dele. Eu inspiro profundamente. Parte de mim se torce dolorosamente no olhar de terror em seus

olhos, e foi assim que, a luz se apagou. Sua presença em minha mente se desvanece

enquanto o celeiro escurece, e estamos de pé a poucos passos de distância um do outra agora.

– Sinto muito – eu digo. E vejo a cor lentamente voltar para seu rosto. – Eu não sei o quê... – Ele tenta, e depois pára. – Eu sinto muito. Eu não quis...


368

– O que você é? Eu me encolho. – Eu sou Clara. – Meu nome, pelo menos, não mudou. Dou um passo em

direção a ele, levanto a minha mão para tocar seu rosto. Ele foge. Então ele pega a minha mão, aquela com o corte. Eu suspiro enquanto ele empurra o curativo longe.

A ferida está completamente curada. Nem mesmo há uma cicatriz. Nós dois

olhamos para a palma da minha mão. Em seguida, a mão de Tucker cai. – Eu sabia. – ele diz. Estou inundada de uma estranha mistura de pânico e alívio. Não há

explicações a esta altura. Eu vou ter que lhe dizer. – Tuck...

– O que você é? – ele exige novamente. Ele recua alguns passos. – É complicado. – Não. – Ele sacode a cabeça de repente. Seu rosto ainda está muito pálido,

esverdeado, como se ele estivesse prestes a vomitar. Ele continua recuando de mim, e então está na porta do celeiro, e ele se vira e corre em direção à casa.

Tudo o que posso fazer é vê-lo ir. Eu me sinto desconectada de mim mesma,

instável, com o choque do que aconteceu. Eu não tenho uma carona para casa. E

Tucker poderia estar na casa tratando de carregar uma arma de fogo por tudo o que eu sei. Então eu corro. Eu tropeço em direção à floresta na parte de trás da fazenda,

grata pela cobertura das árvores. Está começando a ficar escuro. Uma vez que estou

um pouco em forma, minhas asas me agarraram sem sequer ter que convocá-las. Eu vôo cuidadosamente, evitando ficar completamente perdida antes que eu possa sentir


369

oa caminho de casa, de imediato, encharcada pelas nuvens e tão fria, eu estou

tremendo, forte o suficiente para fazer meus dentes baterem, cega pelas lágrimas e meio em pânico.

Eu choro enquanto vôo para minha casa. Eu choro e choro. Parece que as

lágrimas nunca vão parar.

*** Mãe me descobre no meu quarto chorando no meu travesseiro, algumas

horas depois. Estou arranhada, arranhada e com lágrimas rolando, mas o que ela diz quando me vê é – O que aconteceu com seu cabelo?

– O quê? – Estou tentando desesperadamente ficar inteira assim eu posso

decidir o quanto eu vou contar a ela sobre a coisa toda de Tucker.

– Voltou à sua cor natural. O vermelho está completamente desaparecido. – Ah. Eu trouxe a glória. Deve ter certamente arrebatado toda a cor. – Você alcançou a glória? – diz ela, os olhos azuis largos. – Sim... – Oh, minha querida. Não admira que esteja tão transtornada. É uma

experiência avassaladora.

Ela não sabe da missa a metade. – Descanse agora. – Ela aperta um beijo na minha testa. – Você pode me

contar mais sobre isso na parte da manhã.


370

Quando ela foi embora eu envio um e-mail frenético para Angela:

Emergência, eu escrevo, pouco capaz de fazer meus dedos e cérebro funcionarem muito bem em conjunto, para escrever uma simples mensagem.

Chame-me ASAP. Não há ninguém para conversar. Ninguém para contar. E já estou com

saudade dele.

Eu cedo à necessidade de ouvir a sua voz e ligo para Tucker do meu celular.

Ele responde no primeiro toque. Por um minuto, nenhum de nós fala. – Me deixe sozinho – diz ele, e depois desliga.


371

17 ME CHAME DE ANJO Se passam três dias, três dias agonizantes nos quais não volto a lhe te-

lefonar, nem tento me encontrar com ele, revivendo o beijo até achar que vou

enlouquecer e arrancar todas as minhas penas com as mãos cheias. Estou sempre

dizendo para mim mesma que é melhor assim. Está bem, não melhor, uma vez que me revelei a um humano e nem sequer sei qual o castigo que vou ter por tê-lo feito, se alguém descobrir um dia. Mas talvez seja melhor que Tucker me tenha rejeitado.

Ele sabe que se passa algo de estranho comigo, claro. Consegue provar? Não. Alguém

irá acreditar nele? Provavelmente, não. Não me parece provável que ele conte a alguém. Se contasse, eu poderia negar tudo. Poderíamos voltar ao antigamente, ele me acusando de coisas e eu fazendo de conta que não faço idéia do que ele está falando. Sim.

Não minto assim tão bem, até quando minto para mim mesma. Gostaria

que Angela me telefonasse para eu lhe poder perguntar o que fazer.

Como se os dias não fossem suficientemente maus, sonho com ele. Todas as

noites, três noites seguidas. Não consigo ultrapassar aquele momento em que estava dentro da cabeça dele, sentindo o que ele sentia, ouvindo os seus pensamentos


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enquanto ele me beijava. Consegui senti-lo me amando. E aquele momento em que o seu amor se transforma em medo me mata.

Na terceira manhã acordo com lágrimas escorrendo pelo rosto e, quando

olho fixamente para o teto, chafurdando na minha miséria, me ocorre um pensamento.

Ele me ama. Dentro da sua cabeça, todos os seus pensamentos e reações

nasceram do amor, amor de dentro para fora, doido, irracional (e, sim, com uma pitada de luxúria). Ele me ama, e foi isso que também o aterrorizou quando viu eu me iluminar como uma árvore de Natal. Ele não sabe o que sou, mas me ama.

Sento-me. Talvez devesse ter descoberto isto há muito tempo atrás. Não era

preciso ler o seu coração para ver. Mas quando senti todo aquele amor se elevar nele,

não sabia que estava dentro da sua cabeça. Não reparei que os sentimentos não eram meus. E por quê? Fácil. Sou eu, a parte humana, a parte angélica. Eu amo Tucker Avery. Por falar

em revelações.

É por isso que agora espero à porta de Crazy River Rafting Company,

sentada no banco que fica em frente ao seu local de trabalho, como uma assustadora

ex- namorada que o persegue, à espera que ele saia para poder emboscá-lo com amor. Mas ele não sai do edifício. Espero durante mais de uma hora depois da altura

em que ele habitualmente sai, e ninguém sai à exceção de uma mulher loura que assumo que seja uma administrativa.

– Posso te ajudar? – ela pergunta.


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– Acho que não. Ela hesita, sem ter a certeza como interpretar a minha resposta. – Esta à espera de alguém? – Tucker. Ela sorri. Gosta de Tucker. Todas as pessoas com juízo perfeito gostam de Tucker. – Ele ainda está no rio – ela diz. – O barco dele se voltou, nada de grave,

mas vão todos chegar um pouco mais tarde. Quer que lhe fale para o walkie-talkie, para dizer que está aqui?

– Não – respondo, rapidamente. – Eu espero. De poucos em poucos minutos, olho para o meu relógio de pulso, e cada

vez que um carro passa por mim sustenho a respiração. Me levanto algumas vezes para ir embora, quando decido que isto é uma má ideia. Mas nunca consigo me obrigar a entrar no carro. Mesmo que não consiga mais nada, tenho que vê-lo.

Finalmente, um grande carro vermelho entra no parque de estacionamento,

arrastando um atrelado aberto carregado de barcos insufláveis. Tucker está sentado no lugar do passageiro, falando com o cara mais velho que conheci anteriormente, o

que lidera as viagens de rafting. Tucker lhe chamou de Murphy, embora eu não saiba se esse é o seu nome próprio ou o seu apelido. Quando anunciaram as regras do barco daquela vez que ele me levou com ele para o rio, e chamou de as regras de Murphy.


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Tucker não me vê de imediato. Sorri da forma que costuma sorrir quando

diz uma piada, um lampejo de dentes e covinha, retorcido e conhecedor. Me derreto ao ver aquele sorriso, me lembrando dos momentos em que me foi dirigido. Murphy

ri, depois saltam ambos do carro e se dirigem para o atrelado para começarem a descarregar os barcos insufláveis. Eu me levanto, o meu coração bate tão depressa que penso que vai disparar para fora do meu peito e lhe acertar.

Murphy abre a porta de uma enorme garagem, depois se vira para o carro,

e é aí que me vê. Pára a meio do caminho e olha para mim. Tucker está ocupado soltando os barcos do atrelado.

ver.

– Tuck – diz Murphy, lentamente. – Acho que esta garota está aqui para te Tucker fica completamente imóvel por um momento, como se tivesse sido

atingido por um raio paralisador. Os músculos das suas costas se contraem, ele se endireita e volta e se vira para olhar para mim. Uma sucessão de emoções atravessa o

seu rosto num lampejo: surpresa, pânico, raiva, dor. Depois se aquieta na raiva. Os seus olhos esfriam. Um músculo treme no seu maxilar. Encolho-me sob o seu olhar. – Precisa de um minuto? – pergunta Murphy. – Não – responde Tucker, num tom de voz baixo que teria partido o meu

coração se este não estivesse já desfeito em pedacinhos aos meus pés. – Vamos acabar isto.

Fico ali como se estivesse enraizada naquele lugar enquanto Tucker e

Murphy arrastam os barcos insufláveis do atrelado para dentro da garagem que fica

ao lado do escritório. Depois inspecionam cada um deles, completam qualquer lista de verificação com os coletes, e trancam a garagem.


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– Até depois – se despede Murphy, depois salta para dentro de um Jeep e sai

dali para fora.

Tucker e eu estamos no parque de estacionamento, olhando fixamente um

para o outro. Continuo sem conseguir dizer as palavras. Tudo o que planejei lhe dizer

voou da minha mente no minuto em que o vi. É tão bonito, ali parado com as mãos

enfiadas nos bolsos, o seu cabelo ainda úmido do rio, os seus olhos muito azuis. Sinto lágrimas nos olhos e pisco para afastá-las. Tucker suspira. – O que quer, Clara? O som do meu nome parece estranho vindo dele. Já não sou Cenoura. O

meu cabelo voltou a ser louro. É possível que ele veja neste momento que não sou quem aparento ser.

– Desculpa por ter mentido – digo, finalmente. – Não sabe como queria te

dizer a verdade.

– Então, porque não disse? – Porque é contra as regras. – Quais regras? Qual verdade? – Se me ouvir, te conto tudo agora. – Por quê? – ele pergunta, com aspereza. – Porque me contaria agora, se é

contra as regras?


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– Porque te amo. Pronto. Disse. Não acredito que o tenha dito. As pessoas proferem estas

palavras de forma tão descuidada. Encolho-me sempre que ouço os outros no

corredor da escola, Te amo, querida. Também te amo. Lá estão eles, com apenas dezesseis anos, convencidos de que encontraram o amor verdadeiro. Sempre pensei ter mais juízo, mais discernimento.

Mas aqui estou eu, a dizendo e sentindo. Tucker engole em seco. A raiva esmorece nos seus olhos, mas ainda vejo

sombras de medo neles.

te mostro.

– Podemos ir para qualquer lado? – pergunto. – Vamos para o bosque, e eu

Ele hesita, claro. Vejo medo no seu rosto. E se eu for uma invasora alie-

nígena tentando levá-lo para um lugar isolado para poder sugar o seu cérebro? Ou uma vampira, sedenta do seu sangue? – Não vou te magoar.

Não tenha medo. Os seus olhos faíscam de raiva como se eu tivesse acabado de lhe chamar

de covarde.

– Está bem. – O seu maxilar se aperta. – Mas eu conduzo. – Claro.


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Tucker conduz durante uma hora, fazendo um longo caminho para Idaho,

para as montanhas por cima de Palisades Reservoir. O silêncio entre nós é tão

palpável que me dá vontade de tossir. Estamos ambos tentando olhar um para o outro

sem sermos apanhados olhando um para o outro. Em outra altura qualquer iria achar isso hilário.

Ele vira para uma estrada de terra batida que está marcada com um sinal

de propriedade privada e passa pelas cabanas de troncos enfiadas entre as árvores,

subindo a encosta da montanha até chegarmos a uma grande vedação de arame. Tucker salta para fora e remexe nas suas chaves. Depois abre o ferrugento cadeado

de metal que fecha o portão, entra novamente dentro do carro, e atravessa a entrada.

Quando chegamos a uma ampla clareira vazia, ele estaciona o carro e olha finalmente para mim.

– Onde estamos? – pergunto. – Na minha terra. – Sua? – O meu avô ia construir uma cabana aqui, mas depois ficou com câncer. Deixou-me a terra. Tem cerca de trinta e dois quilômetros quadrados. É para onde viria se algum dia tivesse que enterrar um morto ou uma coisa assim. Olho fixamente para ele. – Então, me conta – ele diz. Inspiro profundamente e tento não me concentrar nos seus olhos que me

olham de cima. Quero lhe contar. Sempre quis lhe contar. Só não sei bem como.


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– Nem sequer sei por onde começar. – E que tal começar pela parte em que é uma espécie de ser sobrenatural

feita de luz.

A minha respiração se prende no meu peito. – Pensa que sou feita de luz? – Foi o que vi. Vejo que ele está outra vez com medo, pela forma como ele desvia o olhar e

se mexe ligeiramente para colocar uma maior distância entre nós.

– Não acho que seja feita de luz. O que viu se chama glória. É um pouco

difícil de explicar, mas é uma forma de comunicar, de nos ligarmos aos outros. – Comunicar. Estava tentando se comunicar comigo?

– Intencionalmente, não – digo, corando. – Não quis que acontecesse. Na

verdade, nunca o tinha feito antes. A Mamãe disse que por vezes pode ser provocado por emoções fortes. – Estou balbuciando. – Desculpa. Não queria te assustar. A glória tem esse efeito nos humanos.

– E você não é humana – ele afirma, confiante. – Sou na maior parte humana. Tucker se encosta-se à porta do carro e suspira de frustração.


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– Isto é alguma brincadeira, Clara? É algum tipo de truque? – Sou uma Nephilim – digo. – Habitualmente não usamos este termo,

porque significa "caído" em hebraico, e não gostamos de pensar que somos caídos, sabe, mas é isso que nos chamam na Bíblia. Preferimos o termo sangue-de-anjo. – Sangue-de-anjo – ele repete.

– A minha mãe é um meio-anjo. O seu pai era um anjo e a sua mãe era humana. E isso faz de mim uma quarto-de-anjo, uma vez que o meu pai é um homem comum.

As palavras se atropelam para fora de mim rapidamente, antes de eu poder

mudar de idéias. Tucker me olha fixamente como se, de repente, eu tivesse duas cabeças.

– Então, é parte anjo. Ele se parece exatamente comigo quando a Mãe me contou pela primeira

vez, como se estivesse fazendo uma lista de cabeça das instituições de saúde mental da região.

– Sim. Vamos sair do carro. Os seus olhos se abrem ligeiramente. – Por quê? – Porque não vai acreditar em mim até eu te mostrar. – O que quer dizer? O que, vai fazer aquilo da luz outra vez?


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– Não. Não vou fazer isso outra vez. Coloco a mão no seu braço com leveza, tentando tranquilizá-lo. O meu

toque parece ter o efeito oposto. Ele se afasta rapidamente, abre a porta, e salta do carro para se afastar de mim.

Eu também saio. Caminho para o centro da clareira e me volto para ele. – Não se assuste – lhe peço.

– Certo. Porque vai me mostrar que é um anjo. – Parte anjo. Chamo as minhas asas e me viro ligeiramente para ele ver. Não as estico

nem voo, como a Mãe fez para me provar. Acho que vê-las, dobradas contra as minhas costas, será suficiente. – Droga. Ele dá um passo para trás. – Eu sei. – Não é uma brincadeira. Não é um jogo de cabeça ou um truque de magia.

Tem mesmo asas. – Sim.


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Caminho para ele, não querendo assustá-lo, e depois viro de costas outra

vez para ele poder vê-las por inteiro. Ele ergue uma mão, como se fosse tocar nas penas. Parece que o meu coração vai parar, à espera. Nunca ninguém mexeu nas

minhas asas, e me interrogo qual será a sensação se ele me tocar aí. Mas depois ele faz recuar a mão.

– Consegue voar? – ele pergunta, numa voz estrangulada. – Sim. Mas sou maioritariamente uma garota normal. Sei que ele não vai acreditar nisso. Interrogo-me se ele voltará a me tratar

como uma garota normal. É uma das razões pelas quais adoro estar com Tucker. Ele me faz me sentir normal, não de uma forma insignificante ou indistinta, mas como se ser eu própria fosse suficiente, sem nada das coisas de anjo. Quase começo a chorar só de pensar que vou perder isso.

– E o que mais? O que mais é capaz de fazer? – Não muito mais, na verdade. Sou apenas um quarto-de-anjo. Nem sequer

sei de tudo o que os meio-anjos conseguem fazer. Consigo falar qualquer língua. Acho que isso é útil aos anjos quando estão entregando mensagens.

– Foi por isso que compreendeu aquela senhora coreana no Canyon. - E foi por isso que falou com a ursa parda? – Sim. Olho de relance para os meus pés. Tenho muito medo de olhar para o seu

rosto e ver que está tudo acabado. O beijo aconteceu há três dias, mas às vezes parece que aconteceu na vida de outra pessoa. Outra garota, no celeiro, beijando Tucker pela


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primeira vez. Outra garota que ele ama. Não a mim. Não esta patética garota que está se humilhando, começando a chorar.

– Desculpa – me engasgo nas palavras. Ele está calado. As lágrimas escorrem para fora do meu queixo. Ele expira

lenta e tremulamente.

– Não chore – ele pede. – Não é justo. Eu rio e soluço ao mesmo tempo. – Não faz mal – ele sussurra. Os seus dedos limpam as lágrimas do meu

rosto. – Não chore.

Depois me envolve nos seus braços, asas e tudo. Eu enrolo os meus braços

em torno do seu pescoço, enterro o meu rosto no seu peito e inspiro o seu odor. Flores, com uma colônia almiscarada. Meu corpo responde. E depois estamos nos beijando, e tudo desaparece exceto Tucker.

– Espera um pouco – ele diz, passado um minuto, se afastando. Pisco, estonteada. Por favor, por favor, penso, que esta não seja a parte em

que ele muda de idéia.

– Não faz mal te beijar? – ele pergunta. – O quê? – Não vou ser atingido por um raio?


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Rio. Depois me inclino para ele e roço os meus lábios nos seus, num toque

ligeiro. As suas mãos se apertam sobre a minha cintura. – Nada de raios – garanto.

Ele sorri. Passo o meu dedo pela extensão da sua covinha. Ele pega numa

madeixa do meu cabelo (a qual se libertou do meu rabo-de-cavalo) e inspeciona na luz do Sol.

– Não sou ruiva – afirmo, encolhendo os ombros. – Sempre achei que havia alguma coisa estranha com o seu cabelo. – E por isso pensou em me torturar, me chamando de Cenoura?

você.

– Mesmo assim achava que nunca tinha visto ninguém tão bonita como Ele deixa cair a cabeça e esfrega a parte de trás do pescoço, envergonhado.

Está corando.

– É um autêntico Romeu – digo, corando também, tentando me encobrir

coloco meu rosto perdo do dele, com ele, mas depois ele me envolve novamente nos seus braços e passa as suas mãos pelas minhas asas. O seu toque é leve, cuidadoso, mas envia uma onda de prazer para o meu

estômago, tão poderosa que os meus joelhos enfraquecem e ficam trêmulos. Me encosto nele e pressiono a minha face contra o seu ombro, me esforçando para continuar respirando enquanto ele acaricia as minhas asas, para baixo e para cima. – Então, é um anjo, só isso – ele murmura. Beijo o seu ombro.


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– Parte anjo. – Diz qualquer coisa na língua dos anjos. – O que quer que diga? – Qualquer coisa simples – ele pede. – Qualquer coisa verdadeira. – Te amo – sussurro, automaticamente, me chocando mais uma vez. Em angélico, a palavra é como um murmúrio de vento e estrelas, uma

música baixa e límpida. Os seus braços me envolvem com mais força. Ergo o olhar para o seu rosto.

– O que disse? – ele pergunta, mas os seus olhos me dizem que

compreendeu perfeitamente.

– Oh, sabe como é. Que gosto um pouquinho de você. – Ah. – Ele me beija o canto da boca e retira uma madeixa do meu cabelo

do rosto. – E eu gosto muito mesmo de você.

Estou apaixonada. O tipo de amor louco, que me faz esquecer de comer,

flutuar por todo o lado em transe, falar ao telefone a noite inteira, e saltar da cama todas as manhãs esperando vê-lo. Os dias de Verão passam voando, e todos os dias descubro mais uma coisa que adoro nele.

Parece que mais ninguém o conhece como eu o conheço. Sei que ele não

gosta muito de música country, mas que a tolera porque faz parte de todo o contexto do Oeste. Ele admite que se encolhe cada vez que ouve o som de uma guitarra com cordas de aço. Acho que é hilariante saber disso cada vez que o ouvimos. Adora


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Cheetos. Acredita que uma das maiores tragédias deste mundo é a forma como a terra

é engolida e todos os espaços selvagens são ocupados por condomínios fechados e por ranchos típicos. Ele ama e odeia o Lazy Dog, por essa razão. A sua fantasia recorrente

é voltar atrás no tempo e andar a cavalo pela cordilheira nos dias anteriores às vedações, exposto ao calor como o gado, o conduzindo pela terra como um verdadeiro cawbói.

É bom para as pessoas, respeitador. Não pragueja. É gentil. Atencioso. Gosta

de colher pra mim flores silvestres, que eu tranço em coroas para o cabelo para poder cheirá-las o dia inteiro. Não faz um grande alarde por eu ser diferente. Na verdade,

quase nunca fala desta coisa de eu ser uma sangue-de-anjo, embora por vezes o veja a olhar para mim com uma espécie de curiosidade nos olhos.

Adoro como às vezes ele fica envergonhado com todas as coisas rômanticas

que dizemos um ao outro, depois a sua voz fica rouca e ele me faz cócegas ou me beija para calar a ambos. Bem, e como nos beijamos. Nos beijamos como campeões.

Tucker nunca vai muito longe, embora por vezes eu queira que ele o faça.

Ele me beija, me beija, e me beija até a minha cabeça ficar tonta e o meu corpo ficar

leve e pesado ao mesmo tempo, me beija até eu começar a puxar as nossas roupas,

querendo o maior contato possível. Depois geme, agarra os meus pulsos e se afasta de mim, fechando os olhos e inspirando profundamente durante um minuto.

Acho que acredita realmente que deflorar um anjo possa querer dizer que

passará a eternidade no fogo do inferno.

– E a igreja? – ele pergunta, uma noite depois de se afastar, arfando para

recuperar o fôlego. É a primeira semana de Agosto. Estamos deitados num cobertor

na caçamba da sua caminhonete de, com uma imensidão de estrelas brilhantes acima das nossas cabeças. Ele beija as costas da minha mão e depois enlaça os meus dedos nos seus. Por um segundo, me esqueço da pergunta.


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– O quê?- Ele ri. – Igreja. Porque é que a sua família não vai à igreja? Outra coisa que geralmente adoro em Tucker: é inabalavelmente honesto,

cem por cento direto. Olho para cima para as estrelas.

– Não sei. A minha mãe nos levava todos os domingos quando éramos crianças, mas não desde que ficamos maiores. Ele rola para olhar para mim. – Mas sabe que Deus existe. Quer dizer, é parte anjo. Tem provas, certo? Que provas tenho, realmente? Asas. A coisa das línguas. A glória. Todos

potenciados por Deus, ou assim me disseram. Deus parece ser a explicação mais provável.

– Bem, existe a glória – digo. – É como nos comunicamos com Deus. Mas eu

não sei muito acerca disso. Só a senti daquela vez. – Como foi?

– Foi bom. Não consigo descrevê-lo bem. Era como se conseguisse sentir

tudo o que você sentia, o seu coração batendo, o seu sangue correndo nas veias, a sua

respiração, como se fôssemos a mesma pessoa, e sentíssemos uma incrível... Alegria. Não a sentiu?


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– Acho que não – ele admite, desviando o olhar. – Estava apenas muito feliz

por estar te beijando. E depois você estava brilhando. E depois estava brilhando com tanta intensidade que eu nem conseguia olhar para você. – Desculpa.

– Não peça desculpa – ele diz. – Estou feliz por ter acontecido. Porque assim

fiquei sabendo quem realmente é. – Ah, sim? E quem sou?

– Uma garota californiana mimada e muito, muito espiritual. – Calado. – No entanto, é legal. A minha namorada é um anjo. – Não sou um anjo. Não vivo no céu, não toco uma harpa dourada nem

tenho conversas íntimas com o Todo Poderoso.

– Não? Não fazem um grande jantar de Natal com Deus? – Não – eu respondo rindo. – Temos as nossas próprias tradições, mas não

passamos tempo com Deus. No entanto, a minha mãe diz que todos os sangue-deanjos conhecem Deus, eventualmente, depois de o seu propósito na terra ter sido cumprido. Cara a cara. Nem consigo imaginá-lo, mas é isso que ela diz.

– Sim, mas isso é igual para toda a gente, não é? Para os humanos também? – O quê?


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– Supostamente, todos nós devemos conhecer Deus. Quando morremos. Olho fixamente para ele. Nunca tinha pensado nisso dessa maneira. Assumi

que o encontro fosse uma espécie de reunião sobre o nosso propósito. A idéia sempre me aterrorizou.

– Certo – respondo, lentamente. – Todos nós conhecemos Deus um dia. – Por isso devo continuar indo à igreja. – Não te fará mal. Afago a sua face, adorando o vestígio de barba que sinto por baixo da

minha mão. Quero dizer algo de profundo, algo sobre como estou grata por ele me aceitar como sou, com asas e tudo, mas sei que iria parecer muito cliche. Depois

penso na igreja. A mãe, Jeffrey e eu na igreja quando eu era pequena, sentados nos bancos corridos, cantando e rezando com as outras pessoas. Debaixo da luz colorida dos anjos dos vitrais.

Andamos aos solavancos na Bluebell, ao longo de uma estrada de terra ba-

tida e estou tentando me comportar bem, mantendo entre nós o espaço de uma Bíblia

para realmente irmos à pesca, ao contrário da última vez. Mas depois ele se estende para trocar a marcha e, quando acaba, coloca a mão no meu joelho e fico instantaneamente trêmula. – Clara. Pego na mão ofensiva e a prendo na minha. O seu polegar me acaricia os

nós dos dedos, fazendo o meu coração bater descompassadamente.

– Às vezes diz as coisas mais estranhas, juro – ele comenta.


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– É, de ter uma mãe com mais de cem anos. E o dom das línguas – explico. –

Compreendo todas as palavras que ouço. Dá-me um vocabulário extraordinário. – Extraordinário – ele goza. – Exemplar, na verdade. Hei, tem falado com a tua irmã ultimamente? – Sim, há duas noites – diz ele. – Contou ao nosso respeito? Ele franze a sobrancelha. – Não posso? Sorrio.

– Pode lhe dizer. Mas acho que ela já sabe. Falei com ela ontem e ela estava

reagindo de forma estranha.

– Então, você não lhe contou. – Não, achei que poderia ser tipo, adivinha, comecei a namorar com o teu irmão. Pensei que era melhor se você lhe contasse. – Contei – ele admite. – Não consigo guardar segredos de Wendy. Já tentei.

Não resulta.

– Mas... – hesito. – Não lhe contou sobre... Você sabe. Ele me dirige um falso olhar desentendido e diz:


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– O quê? Existe alguma coisa a seu respeito que eu deva saber? – Só me chame de anjo da manhã62 – canto. Ele ri. – É claro que não lhe disse. Não saberia como lhe contar uma coisa dessas.

– Depois acrescenta calmamente: – Mas vai ser difícil, quando ela voltar.

Olho pela janela. A caminhonete passa por lodgepole pines de ambos os la-

dos da estrada, faias aqui e além começam a mudar de cor. Está calor, mesmo segundo os padrões de Wyoming. O ar cheira a seco e a poeira.

sempre.

Depois tudo começa a me parecer familiar. Como o pior caso de déjà vu de A minha mão se contrai na de Tucker. – Pára a caminhonete – arqueio. – O que é? – Pára! Tucker pára puxando o freio, levantando uma nuvem de pó à nossa volta.

Antes da caminhonete sequer parar de se mexer, eu me atiro para fora. Quando a poeira assenta, estou de pé no meio da estrada, rodando lentamente em círculo.

Depois caminho, como que hipnotizada, passando pela sombra de uma

grande caminhonete prateada na minha mente. Viro-me, um pé liderando o outro, e 62

No original, Just call me angel of the morning, título e refrão de uma canção bastante popular


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me desloco para dentro da floresta. Ouço Tucker me chamar, de longe, mas continuo andando. Não sei se conseguiria parar, mesmo que tentasse. Continuo por entre as

árvores. Tropeço uma vez, escorregando e caindo sobre um joelho no solo coberto de agulhas de pinheiro, mas mesmo aí continuo a andar, me embrenhando cada vez mais na floresta, nem sequer me dando ao trabalho de me sacudir. E depois paro. Está tudo aqui. A pequena clareira. O cume. O ar está cheio de fumaça. O céu de um tom laranja dourado. Christian

com o seu casaco preto de pele de carneiro, as suas mãos enfiadas dentro dos bolsos, ancas ligeiramente inclinadas para o lado. Está muito quieto, olhando o alto do cume.

Oh, Deus, penso. Consigo ver as chamas. Dou um passo na direção dele.

Está tudo tão seco. Lambo os lábios, olho para baixo para as minhas mãos, que tremem. É como se, neste momento, estivesse deixando toda a minha vida para trás. Estou tão triste que tenho vontade de chorar. – Christian – eu manco.

Ele se vira. Não sei como ler a sua expressão. As suas sobrancelhas fortes e bem definidas estão unidas. – É você – ele diz. – Sou eu... Eu... Ele vem ficar comigo. Eu continuo a caminhar para ele. Passado um mi-

nuto, ambos paramos, a um passo de distância um do outro, e nos olhamos fixamente.

Parece que estou drogada ou qualquer coisa. Quero tanto lhe tocar, que me dói não


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fazê– lo. Estendo a mão. A sua mão envolve a minha. A sua pele está muito quente,

febril. Fecho os olhos por um segundo, para controlar as sensações. Uma onda de reconhecimento me atravessa violentamente.

O nosso lugar é ao lado um do outro. Abro os olhos. Ele se aproxima. O seu olhar varre o meu rosto como uma

carícia. Ele olha para os meus lábios, depois para os meus olhos, e depois novamente para os meus lábios. Ergue uma mão para me acariciar a face. Estou chorando, eu quero, as lágrimas escorrem pela minha cara. – É mesmo você – ele sussurra. Depois os seus braços me envolvem e o fogo acelera na nossa direção, se

movendo velozmente sobre o solo como um monstro que nos persegue, com nuvens

de espessa fumaça branca saindo das minhas narinas, estalando e rugindo os seus avisos. Pressiono o meu corpo contra o de Christian e chamo as minhas asas, agarro o ar com toda a minha força e nos elevo em direção ao céu.

Mas não vôo. Afundo-me no solo da floresta, as minhas mãos agarrando o

ar vazio, porque Christian não está aqui. E depois fica tudo negro.

Percebo vagamente que estou sendo levada no colo. Sem sequer ter de abrir

os olhos, sei que é Tucker quem me leva ao colo. Seria capaz de identificar o seu odor

de Sol e homem em qualquer lugar. A minha cabeça pende para trás por cima do seu braço, os meus braços estão pendurados.

Tive a visão. Outra vez. Se é que visão é a palavra certa para descrever o

que aconteceu. Fiz muito mais do que vê-la. Estive lá. E, ao que parece, desmaiei. Outra vez.


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Tento me endireitar um pouco, recuperar a mobilidade dos meus braços e

das minhas pernas, mas no momento em que me mexo, começo a tossir. Como se tivesse inalado fumaça. Tucker para imediatamente de andar. – Oh, graças a Deus – ele diz. – Está bem. Não sei se iria tão longe. Bem parece ser a última coisa que estou. Tusso e

tusso, e os meus pulmões ficam finalmente limpos, e olho para cima para os olhos de Tucker, e tento sorrir. E tusso mais um pouco. – Estou bem – digo. Tosse, tosse, tosse. – Agüenta um pouco. Estamos quase lá. Ele começa novamente a andar e dentro de dois minutos estamos de volta à

caminhonete. Ele abre a parte de trás, pega na grande manta familiar, a estende, tudo

com uma mão enquanto me segura com a outra. Coloca-me suavemente na cabine da sua caminhonete. Depois sobe para o meu lado. – Obrigada – me sento. – É o meu herói. Para dizer o mínimo. A tosse, pelo menos, parou. – O que aconteceu? Olho fixamente para o céu, com as grandes nuvens fofas passando

lentamente por cima de nós. Sou atravessada por um pequeno arrepio.


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Tucker repara. – Pode me dizer. – Eu sei. Olho para ele. Os seus doces olhos azuis estão repletos de tal amor e de tal

preocupação que me provocam um nó na garganta. – Está bem? Precisa de um médico? – Não, apenas desmaiei. Ele espera. Eu inspiro profundamente. – Tive uma visão – lhe conto. Depois a história sai de rompante.

– Onde estamos? – pergunto, depois de terminar. Estamos ambos sentados, Tucker encostado para trás contra a cabine, tentando processar tudo. Não sei dizer se ele está zangado por causa do aspecto que

envolve Christian ou aliviado porque a minha obsessão por Christian Prescott tem uma boa razão de ser. Há uns bons dez minutos que ele não diz nada.

– No que está pensando? – pergunto, quando já não agüento mais. – Estou pensando que é espantoso. Aquela palavra outra vez.


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– É como uma tarefa sagrada que tem de completar. – Exato. É claro que a versão que contei a Tucker não inclui aqueles detalhes

enfadonhos das mãos dadas e dos toques na face, da forma como ambos, Christian e

eu, estávamos completamente interessados um no outro naquele momento. Eu própria não sei o que pensar sobre isso.

– Então, onde estamos? – pergunto, outra vez. – Estamos bem, penso. Não acha? – Não, quero dizer, onde estamos neste momento? Literalmente? – Ah. Estamos em Fox Creek Road. Fox Creek Road. Um nome simples e despretensioso para o lugar onde o

destino se vai fazer. Agora sei onde. E quem, e o quê. Só tenho de descobrir quando. E por que.


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18 A MINHA VIDA DOMINADA PELO MEU PROPÓSITO Estou sentada em um barco com Tucker, no meio de Jackson Lake, quando

Angela finalmente me liga.

– Muito bem, o que está acontecendo? – ela pergunta. Ouço sinos tocando

como som de fundo. – O incêndio já aconteceu? – Não.

– Entrou finalmente em ação com Christian? – Não! – fico completamente corada. – Ele... Eu não... Ele não está aqui. Olho de relance para Tucker. Ele ergue as sobrancelhas e forma as

palavras, "Quem é?", com a boca. Eu abano ligeiramente a cabeça.

– Então, qual é a grande emergência? – ela pergunta, impaciente.


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– Te enviei esse e–mail há várias semanas. Só o recebeu agora? – Há algum tempo que não tinha uma conexão com a internet – ela

responde, um pouco defensiva. – Tenho andado um pouco fora do caminho. Então, está tudo bem agora? A crise já passou?

– Sim – digo, ainda olhando para Tucker. Ele sorri. – Está tudo bem. – O que aconteceu, afinal? – Quer que vamos para terra? – pergunta Tucker. Abano a cabeça outra vez e sorrio para lhe mostrar que, tal como disse, está

tudo bem.

– Posso te telefonar depois? – pergunto a Angela. – Não, não pode me telefonar depois! Quem está aí? – Tucker – respondo, com uma ligeireza forçada. Ele atravessa o barco e se senta no lugar ao meu lado, sorrindo maliciosamente o tempo todo de uma forma que faz a minha respiração parar e o meu coração acelerar.

– Tucker Avery – ela diz. – Sim. – E Wendy também aí está?


398

– Não, Wendy ainda está em Montana. Tucker ergue a minha mão livre e começa a beijar os nós dos meus dedos,

um a um. Estremeço e tento puxar a minha mão, mas ele não a larga. – Então, é apenas Tucker – afirma Angela. – Exato.

Disfarço uma gargalhada quando Tucker mordisca um dos meus dedos. – O que está fazendo com Tucker Avery? – Estou pescando. Passamos a tarde dando voltas lentas sobre o rio, nos beijando, atirando

água para cima um do outro, comendo uvas e pretzels e sanduíches de peru, nos

beijando mais um pouco, nos encostando um ao outro, fazendo cócegas, rindo, ah, e sim, nos beijando, mas em algum lugar no meio disso tudo está a pesca. Me lembro perfeitamente de ter uma vara de pesca nas mãos numa determinada altura do dia. – Não – Angela diz, num tom de voz baixo. – O que é? – O que faz com Tucker Avery? – pergunta ela outra vez, de uma forma

perspicaz.

Às vezes, ela é muito perspicaz para o seu próprio bem. Me endireito e me

afasto de Tucker.


399

– Não é uma boa hora para falarmos. Depois te telefono. Ela se recusa a ser desviada do seu intento. – Está estragando tudo, não está? – ela pergunta. – Está perdendo a sua

concentração numa altura em que devia estar se preparando. Não acredito que está enrolada com Tucker Avery neste momento. E Christian? E o teu destino, Clara?

– Não estou estragando nada. – Me levanto e caminho para a outra extremidade do barco. – Ainda posso fazer o que se espera de mim. – Ah, sim. Parece que tem tudo controlado. – Me deixa em paz. Não sabe de nada. – A tua mãe sabe? Quando não lhe respondo, ela dá uma curta gargalhada amarga. – Perfeito – ela diz. – Uau. – A vida é minha. – Sim, é. E está estragando completamente. Desligo o telefone na sua cara. Depois volto para encarar os olhos azuis e

interrogativos de Tucker.

– O que aconteceu? – ele pergunta, suavemente.


400

Ele não sabe que Angela é uma sangue-de-anjo, e o segredo não é meu e eu

não posso revelá-lo.

– Nada. Era apenas alguém que pensei que fosse minha amiga. Ele franze a sobrancelha. – Acho que devemos voltar para terra. Já estamos aqui há tempo suficiente. – Ainda não – apelo. Acima de nós, as nuvens escurecem de tempestade. Tucker olha para elas. – Devíamos sair do lago. Vai começar a estação das tempestades, altura em

que as tempestades com trovoadas aparecem do nada. Duram cerca de vinte minutos, mas conseguem ser brutais. Devíamos ir embora. – Não. O agarro pela mão e o puxo para a extremidade do barco, onde o puxo

para baixo, me enrolo e me encosto a ele, me envolvendo nos seus braços e me encolhendo para a segurança do seu calor, e do seu odor familiar e reconfortante. Beijo a pulsação que bate junto ao seu pescoço. – Clara... Coloco um dedo sobre os seus lábios. – Ainda não – sussurro. – Vamos ficar aqui só mais um pouquinho.


401

Da próxima vez que o telefone toca estou comendo lombinhos de porco

com maçãs e funcho, uma das receitas mais impressionantes da Mãe. Está delicioso, claro, mas eu não estou pensando na comida. Também não estou pensando em

Angela. Já se passaram dois dias desde o telefonema no lago e estou fazendo o melhor

que posso para esquecer. Em vez disso, estou completamente envolvida num qualquer sonho acordado sobre Tucker. Ele tem andado no rio nos últimos dois dias, trabalhando para ter dinheiro suficiente para oferecer um jantar de bife à sua namorada no dia em que fazem um mês de namoro, ele disse. Há um mês inteiro que

andamos um com o outro, o que é louco. Cada vez que ele diz que sou sua namorada ainda me empolgo. Vai me levar para dançar, e me ensinar as danças country e tudo.

– Não vai atender o celular? – pergunta a Mãe, arqueando uma

sobrancelha do outro lado da mesa de jantar. Jeffrey também me olha fixamente. Tento organizar os meus pensamentos emaranhados. Puxo o celular para fora do bolso e olho para ele.

É um número desconhecido. A curiosidade vence e aperto o botão para

atender a chamada.

– Estou, sim – atendo. – Olá, desconhecida – responde uma voz familiar. Christian. Quase deixo o telefone cair. – Ah, olá. Não reconheci o número. Uau, como está? Como está passando o

Verão? E Nova Yorque?

Estou fazendo muitas perguntas.


402

– Foi entediante. Mas já voltei. – Já? – Bem, estamos em Agosto. Em breve teremos de voltar às aulas, sabe?

Quero aparecer este ano. Terminar o secundário e tudo isso. – Exato – digo, e tento rir.

– Por isso, como disse, estou de volta, e tenho andado pensando em você o

Verão inteiro e quero te convidar para jantar comigo amanhã à noite. Um encontro

sério, caso não tenha sido suficientemente claro – diz ele, numa voz que é deliberadamente ligeira, mas que tem tantos tons subliminares sérios que, de repente, parece que o ar foi sugado da sala. Ergo o olhar para ver a Mãe e Jeffrey me olharem fixamente.

Ele espera que eu diga sim, sim, adoraria jantar com você, a que hora vem

me buscar, mal posso esperar, mas eu não digo nada. O que posso dizer?Desculpa, eu sei que antes parecia ser louca por você, mas isso era antes. Agora tenho um namorado? Agora é tarde? – Ainda está aí? – ele pergunta. – Sim, claro. Desculpe-me. – Está bem... – Amanhã à noite não posso – digo, rapidamente, num tom de voz baixo,

mas sei que a Mãe me ouviu. Ela tem muito bom ouvido.


403

– Oh. – Christian parece surpreendido. – Não faz mal. E no Sábado? – Não sei. Tenho que te falar uma coisa – afirmo, completamente

acovardada.

– Claro – responde Christian, tentando agir como se não fosse nada de

importante, mas todos sabemos, ele, a Mãe, Jeffrey e eu, que é muito importante. – Tem o meu número de telefone. – Depois murmura rapidamente uma despedida e desliga o telefone.

Fecho o telefone. Se passa um minuto de silêncio desconfortável. A Mãe e

Jeffrey têm quase a mesma expressão facial, como se eu tivesse perdido completamente a cabeça.

– Porque disse que não? – pergunta a Mãe. A pergunta de um milhão de

dólares, aquela à qual não quero, de geito nenhum, responder. – Não disse que não. Só que amanhã não posso. – Porque não? – Tenho outros planos. Tenho vida própria, sabe. Ela parece estar zangada.

– E o que pode ser mais importante para a tua vida neste momento do que

Christian?

– Vou sair com Tucker.


404

Durante todo este tempo, tenho lhe dito que saio com pessoas da escola, e

ela acreditou em mim. Nunca teve razão para não acreditar. E tem andado muito estressada e preocupada com o seu trabalho para prestar atenção. – Então, cancela – ela. Abano a cabeça e digo: – Não – para indicar que ela me entendeu mal. Olho para ela. – Estou com Tucker.

– Deve estar brincando – se engasga Jeffrey, e sei que não é por não gostar

de Tucker, mas porque parece inacreditável a qualquer pessoa da minha família que eu possa estar interessada em alguém que não seja Christian. Foi por causa dele que viemos parar aqui, afinal.

– Não. Tucker é meu namorado.

garfo.

Eu o amo quero dizer, mas sei que isso seria demais. A Mãe pousa o seu

– Desculpa por não te ter contado antes – digo, atrapalhadamente. –

Pensei... Não sei o que pensei. Quero dizer, vou salvar Christian na mesma, tal como na visão.

Mas não será como na visão, acho, com as mãos dadas, os rostos encostados

e outras coisas românticas. Mas irei salvá-lo. Isso já eu decidi.

– Tenho praticado vôo. Estou ficando mais forte, como disse. Acho que já

consigo voar com ele ao colo.


405

– Como sabe que o teu propósito tem a ver com salvar Christian?

certo?

– Porque na visão o levo voando para longe do incêndio. Se chama salvar,

– E é só isso? Desvio o meu olhar dos seus olhos inteligentes. O nosso lugar é ao lado um

do outro. Esse pensamento tem sido como um pedaço de vidro no meu cérebro desde

a minha última versão da visão. Tenho andado com ele às voltas na cabeça, tentando

encontrar uma maneira de explicar um possível mal–entendido. Não quero estar apaixonada por Christian Prescott. Já não quero.

– Não sei – confesso. – Mas estarei lá. Irei salvá–lo. – Não se trata de uma tarefa aleatória que tenha que fazer, Clara – explica

a Mãe, calmamente. – Trata-se do teu propósito na terra. E está na hora. Teton County entrou ontem em alerta vermelho para os incêndios. O incêndio pode

acontecer a qualquer minuto. Tem que se concentrar. Não pode se permitir distrações neste momento. Estamos falando da sua vida.

– Sim – afirmo, levantando um pouco o queixo. – É a minha vida. Ultimamente, tenho dito muito isto. O seu rosto está pálido, os seus olhos parecem pedras, sem lustro. Uma

manhã, quando éramos crianças, Jeffrey encontrou uma cobra-cascavel enrolada no pátio de trás, letárgica do frio. A Mãe foi à garagem e voltou com uma pá. Nos

ordenou que chegássemos para trás. E depois ergueu a pá e cortou a cabeça da cobra num único golpe limpo.


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Tem a mesma expressão no rosto neste momento, dura como pedra e

resoluta. Assusta-me.

– Mãe, está tudo bem – tento dizer.

casa.

– Não, não está bem – ela diz, muito lentamente. – Está proibida de sair de

Essa é a primeira vez que eu saio de casa escondida. É uma coisa muito fácil de fazer, na verdade, abrir a janela, sair, me equilibrando na extremidade do telhado durante um minuto antes de chamar as minhas asas e fugir. Mas tenho sido uma boa

menina a vida inteira. Tenho obedecido à minha mãe. Os meus pés nunca deslizaram

para fora do trilho que ela colocou diante de mim. Este simples ato de rebelião me deixa o coração tão pesado que é difícil levantar vôo.

Pouso do lado de fora da janela de Tucker. Ele está reclinado para trás na

sua cama, lendo um livro em quadrinhos escrito, X–Men, e isto me faz sorrir. O seu cabelo está mais curto do que estava ontem. Deve tê–lo cortado para a celebração do nosso primeiro mês de namoro. Bato levemente no vidro. Ele ergue o olhar, sorri porque está feliz por me ver, e o meu coração se contorce dentro do meu peito. Estou

feliz por não ser um sangue-de-anjo mensageiro. Detesto ser a portadora de más notícias.

Ele enfia o gibi debaixo da almofada e atravessa o quarto até a janela. Tem

de abri–la à força, o que requer alguns músculos porque o ar está quente e pesado e a

janela se cola. Os seus olhos se dirigem brevemente para as minhas asas, e o vejo

tentar conter o medo instintivo que sente cada vez que é confrontado com provas de

que as coisas deste mundo não são bem como aparentam ser. Depois se inclina para fora e me estende a mão. Eu recolho as minhas asas. Tento sorrir. Ele me puxa para dentro do seu quarto.


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– Olá. O que se passa? Parece estar... Perturbada. Leva-me até a sua cama e eu me sento. Depois ele pega na cadeira da sua

escrivaninha e se senta na minha frente, os seus olhos preocupados, mas firmes, como se pensasse que pode agüentar tudo o que eu possa ter para dizer. Está comigo; é isso que os seus olhos dizem.

– Está bem? – ele pergunta. – Sim. Mais ou menos. Não posso fazer outra coisa senão lhe contar. – Não devia estar aqui. Estou proibida de sair de casa. Ele parece confuso. – Durante quanto tempo? – Não sei – respondo, miseravelmente. – A Mãe não foi muito clara.

Indefinidamente, acho.

– Mas por quê? O que fez? – Bem... Como posso lhe explicar que foi porque rejeitei um convite para jantar com

Christian Prescott? Que a minha mãe está me castigando por não lhe ter dito que sou

namorada de Tucker. Não que tivesse escondido, propriamente. Simplesmente, não


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lhe disse, porque esperava que ela franzisse a sobrancelha perante a idéia. Apenas não tanto.

O meu rosto deve exprimir algo porque Tucker diz: – Sou eu, não é? A tua mãe não aprova que namore comigo? Detesto a mágoa que detecto na sua voz. Detesto olhar para ele e ver a cara

corajosa dos Avery na sua expressão. É tão injusto. Tucker é o tipo de garoto com o

qual a maioria das mães adoraria que as suas filhas saíssem. É respeitador, educado,

até cavalheiro. Além disso, não fuma, não bebe, nem tem quaisquer piercings ou tatuagens malucas. É um menino de ouro.

Mas a minha mãe não se importa com nada disso. Depois de me ter

proibido de sair de casa me disse que, se eu fosse uma garota normal, não teria qualquer problema com o fato de eu sair com Tucker. Mas que eu não sou uma garota normal.

– Trata–se de Christian? – ele pergunta. – Mais ou menos – suspiro. – O que tem ele? – Eu devia estar me concentrando em Christian. A minha mãe acha que

você está me distraindo dessa tarefa. E daí estou proibida de sair de casa.

Ele merece uma explicação melhor, eu sei, mas não quero falar mais disso.

Não queria me sentir como se estivesse traindo ele, quando nada disto é uma opção minha, e é assim que ele está olhando para mim neste momento.


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Fica calado durante mais um longo momento. – E você, o que acha? – ele me pergunta depois. Hesito. Não sei quaisquer histórias sobre sangue-de-anjo que não tenham

cumprido o seu propósito. Mal sei histórias sobre sangue-de-anjo, ponto final. Tanto quanto sei, podem cair e morrer quando fracassam. A Mãe nunca me apresentou qualquer outra opção. Sempre o fez parecer inevitável. Aquilo para que fui feita. – Não sei o que pensar – admito. É a resposta errada. Tucker expira profundamente. – Parece que temos que começar a sair com outras pessoas. Pelo menos,

você precisa.

– O quê? Ele volta o rosto para o lado. – Está rompendo comigo? O olho fixamente, com as ondas de choque passando através do meu corpo

como um terremoto. Ele expira, passa os dedos pelo seu cabelo curto, e depois me olha novamente nos olhos. – Acho que sim. Levanto-me. – Não, Tuck. Eu resolvo a situação. Farei com que resulte, de alguma forma. – A tua mãe não sabe, não é?


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– O que quer dizer?

tudo isso.

– Ela não sabe o que eu sei a teu respeito. Que sei dos sangue-de-anjo e de

Suspiro e balanço a cabeça. – E ficaria metida em mais problemas se ela soubesse. – Não tem importância... – Tem importância, sim. – Ele começa a andar para frente e para trás. – Não

vou ser eu a estragar a sua vida, Clara. Não vou me intrometer entre você e o seu destino.

– Por favor. Não faça isso. – Vai ficar tudo bem – ele diz, acho que mais si próprio do que para mim. –

Talvez depois de isto tudo acabar, depois de o incêndio acontecer e de você salvá-lo e tudo isso, as coisas possam voltar ao que eram antes. – Sim – concordo, debilmente. Faltam apenas algumas semanas, um mês ou dois no máximo para que a

estação dos incêndios acabe, e depois toda esta situação com Christian estará acabada

e poderei voltar para Tucker sem que nada volte a ficar entre nós. Só que não acredito nisso. Não posso. Algo me diz que se eu for encontrar com Christian na

floresta, nunca mais serei capaz de encontrar o meu caminho de volta para Tucker. Que estará tudo acabado, de vez.


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Ele já não me olha nos olhos. – Somos novos – ele afirma. – Temos muito tempo para nos apaixonarmos. *** Passo dois dias na cama, o mundo sem cor, a comida sem sabor. Parece

idiota, eu sei. Tucker não passa de um garoto. As pessoas levam fora, é um fato da

vida. O fato de ele não ter querido realmente romper comigo devia ter me feito sentir melhor. Estava tentando fazer o que era certo. Não foi isso que Christian disse quando deu o fora na Kay? Estou só tentando fazer o que é certo. Não posso ser o que ela

precisa. Mas eu preciso de Tucker. Sinto a sua falta.

Na manhã do terceiro dia toca a campainha, o que quase nunca acontece, e

a primeira coisa que me passa pela cabeça é que deve ser Tucker, que mudou de

idéia, que afinal faremos com que as coisas resultem. A Mãe foi fazer compras. Ouço Jeffrey correr lentamente para o andar de baixo para atender a porta. Salto da cama e

corro para o banheiro para desembaraçar o meu cabelo e lavar as marcas de lágrimas que tenho no rosto. Visto qualquer coisa, olho para o meu reflexo no espelho, e mudo a parte de cima, enfiando a camisa de flanela que Tucker mais gosta

de me ver vestida, aquela que ele diz que realça o oceano profundo dos meus olhos. A que tinha vestida no dia em que fomos à Árvore dos Saltos. Mas assim que a minha

mão toca na maçaneta da porta do meu quarto, assim que saio para o corredor, sei

que não será Tucker quem estará à porta. Lá no fundo, sei que Tucker não é o tipo de pessoa que muda de idéia.

É Angela. Está falando com Jeffrey sobre a Itália, sorrindo. Parece cansada,

mas feliz. Ambos se voltam enquanto eu desço as escadas, um passo lento de cada vez. Tendo em conta a nossa última conversa, não consigo decidir se estou feliz por vê–la. O seu sorriso esmorece à medida que ela olha para mim.


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– Uau – ela expira, como se estivesse chocada com o quanto uma pessoa

pode ter mau aspecto.

baixo.

– Me esqueci que vinha para casa esta semana – digo, do último degrau de

– Sim, bem, é bom ver você também. Um dos cantos da sua boca se ergue. Ela vem ao meu encontro e me puxa

para fora das escadas. Depois pega num punhado do meu cabelo e o ergue na luz que entra pela janela.

– Uau – ela diz, de novo. E ri. – Esta cor é muito melhor do que cor de

laranja, C. Mudou. A sua pele está brilhante. – Ela encosta a mão na minha testa como se eu fosse uma criança doente. – E quente. O que te aconteceu?

Não sei como lhe responder. Não vi o que ela está vendo quando me olhei

no espelho no andar de cima. Tudo o que vi foi o meu coração partido.

– Ao que parece, o meu propósito está vindo, imagino. A Mãe diz que estou

ficando mais forte.

– Que loucura. – Não compreendo a inveja nua que vejo nos seus olhos

dourados. Não estou habituada que ela me inveje, é geralmente ao contrário. – Está linda – ela diz.

– Ela tem razão – confirma Jeffrey, repentinamente. – Se parece um pouco

com um anjo.


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Mas pouco interessa que agora seja linda. Estou péssima. As lágrimas

escorrem pelo meu rosto.

– Oh, C... – Angela me envolve nos seus braços e me aperta. – Só não diga que me avisou, está bem? – Há quanto tempo é que ela está assim? – ela pergunta a Jeffrey. – Há dois dias. A Mãe a obrigou a romper com Tucker. Não é bem verdade, mas não me dou ao trabalho de corrigir. – Vai ficar tudo bem – Angela me diz, agora vai se lavar, porque mesmo

com a pele brilhante e tudo isso, você está um pouquinho rançosa, C., e vamos lá te dar alguma coisa para comer, passar algum tempo só nós duas, e vai ficar tudo bem,

vai ver. – Ela se afasta e me faz a sua expressão de historiadora sangue-de-anjo empolgada. – Tenho coisas espantosas para te contar.

Decido que estou feliz, apesar de tudo, por ela estar aqui. Quando a Mãe volta para casa, descobre a mim e a Angela na sala de estar, Angela a pintar as minhas unhas dos pés em tom de rosa escuro, eu tinha acabado de sair do chuveiro. Elas trocam um olhar em que a minha mãe diz, sem palavras, como está feliz por eu ter saído finalmente do meu quarto, e Angela diz que tem tudo sob

controlhe. Me sinto, realmente, melhor, admito, não porque Angela seja uma pessoa particularmente reconfortante, mas porque detesto parecer fraca diante dela. Ela é sempre tão forte, tão atenta, tão concentrada. Sempre que estamos juntas é como se

estivéssemos jogando um jogo de verdade ou conseqüência, e agora estamos na conseqüência, e ela me desafiou a parar de ficar deprimida e a me comportar como uma sangue-de-anjo, por uma vez na vida. O meu tempo de me comportar como


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uma adolescente de coração partido acabou oficialmente. É tempo de andar para frente.

– Está um dia lindo lá fora – comenta a Mãe. – Querem fazer um

piquenique? Posso fazer uns sanduíches.

– Não posso. Estou proibida de sair de casa. Ainda estou zangada com a Mãe. Por causa dela, perdi Tucker, e ainda me recuso a acreditar que tenha que ter sido assim. Na verdade, esta confusão toda, o meu propósito, a minha vida amorosa naufragada, o meu atual estado de infelicidade extrema, para não falar na minha total ignorância sobre como tudo isso irá

funcionar, vai dar à ela. Me contar sobre essa obrigação divina que devo cumprir. A sua idéia de mudarmos para Wyoming. Ter insistido e assegurado que existem razões para as coisas, as suas regras estúpidas, e me manter na ignorância. Tudo. Culpa.

Dela. Porque se não for culpa dela, é de Deus, e não estou preparada para ficar irritada com o Todo-Poderoso.

Angela franze a sobrancelha, depois volta para a Mãe e sorri. – Um piquenique seria espetacular, senhora Gardner. É óbvio que

precisamos sair de casa.

Angela quer comer lá fora, encontrar qualquer mesa de piquenique nas

montanhas, talvez perto de Jenny Lake, ela diz, mas eu não sou capaz de lidar com isso. Só de estar lá fora me faz ansiar por Tucker. Me resignei à ideia de que poderei

não voltar a sair de casa. Por isso vamos para o Garter. O palco está montado para

Oklahoma! com filas de milho falso, uma carruagem avariada, árvores, arbustos, e uma casa amarela, um céu azul como pano de fundo. Angela estende uma manta no meio do palco e nos sentamos nela comendo o nosso almoço.


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– Tenho andado estudando coisas sobre os Asas Negras – ela diz, dando

uma grande dentada numa maçã verde.

– Isso é seguro? Tendo em conta o que a Mãe disse sobre a consciência, e

tudo isso?

Ela encolhe os ombros. – Não acho que esteja mais consciente deles do que estava antes. Apenas sei mais. Ela retira para fora um caderno de anotações, um simples livro preto e

branco encadernado, as suas páginas cobertas com tudo o que ela rabiscou sobre

anjos. Angela costuma escrever numa letra cursiva, apertada e enlaçada, mas a escrita do seu caderno de apontamentos nuns rabiscos apressados e esborratados, como se não conseguisse escrever as palavras com a rapidez desejada. Ela volta as

páginas. Penso no meu próprio diário, o qual comecei com tanta paixão e

determinação na primeira semana em que tive a minha visão. Há meses que não o toco. Na verdade, ela me faz ter vergonha de mim própria.

– Aqui está – ela diz – Se chamam Moestifere, os Pesarosos. Encontrei um

livro antigo numa biblioteca em Florença que falava deles. Demônios tristes, lhe chamavam. – Demônios? Mas pensei que fossem anjos. – Os demônios são anjos – explica Angela. – Na verdade, se trata de uma

distinção artística. Os pintores retratavam sempre os anjos com belas asas brancas de

ave e, por isso, os anjos caídos também têm de ter asas, mas não era suficiente lhe darem simplesmente penas negras. As transformaram em asas de morcego, e depois a


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sua representação evoluiu para as imagens dos chifres e das forquilhas que as pessoas têm presentes agora.

comum.

– Mas aquele tipo que vimos no centro comercial parecia um homem

– Como já te disse, acho que eles podem se parecer com o que quiserem. O

que nos fazem sentir é que é importante, certo? Com os olhos saindo repentinamente das órbitas, por exemplo, seria mau sinal.

– A profunda tristeza que sinto na minha visão, a minha mãe diz pode ser

um Asa Negra.

A expressão de Angela é complacente. – Tem tido a visão com mais freqüência ultimamente? Aceno com a cabeça. A tenho tido mais ou menos uma vez por dia, durante

esta última semana. Dura apenas alguns minutos, um lampejo, na verdade, nada de substancial. Nada mais do que aquilo que já sei: a Avalanche, a floresta, eu caminhando, o incêndio, Christian, as palavras que dizemos um ao outro, as carícias, o abraço, e voamos para longe. Tenho tentado ignorá–la.

– A Mãe está sempre dizendo que tenho de treinar, mas como? Já consigo

voar bem. Já consigo voar carregando coisas; estou ficando mais forte, mas não são os

meus músculos que precisam de ficar mais fortes, certo? Por isso, como posso treinar? O que devo fazer?

Ela pensa na minha pergunta durante um minuto, e depois diz:


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– É a sua mente que tem que treinar, como a tua mãe disse daquela vez, tem

que se separar de todas as porcarias, e chegar ao centro, se concentrando. Poderemos fazê–lo juntas. – Ela sorri. – Eu te ajudo, C. Está na hora. Eu sei que esta situação com Tucker é uma chatice, mas não podes voltar dar costas a isto. Sabe disso, certo? –Sim. – Então, vamos lá – ela diz , batendo as mãos uma na outra e saltando para

cima como se fossemos começar neste preciso momento. – Não temos tempo a perder. Vamos treinar. Ela tem razão, como é costume. Está na hora.


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19 CASACO DE BOMBAZINA Por isso treinamos. Todas as manhãs me levanto com o Sol, e tento não

pensar em Tucker. Tomo um banho, escovo o cabelo, lavo os dentes, e tento não

pensar em Tucker. Desço as escadas e faço uma vitamina de iogurte e fruta – Angela achou que era melhor fazermos uma dieta de alimentos crus, diz que é mais pura, melhor para a mente. Eu concordo. Até adiciono uma alga marinha, a qual, por estranho que pareça, me faz pensar em Tucker. A pescaria. E nos beijos. Engulo de

uma vez. Depois do almoço faço meditação no alpendre da frente, a qual não passa de uma tentativa vã de não pensar em Tucker. Depois volto para dentro e passo algum tempo na internet. Procuro o boletim meteorológico, a direção e a velocidade

do vento, e, mais importante ainda, o nível do atual risco de incêndios. Nestes últimos dias de Agosto, está sempre no alerta amarelo ou no alerta vermelho. Sempre iminente.

Nos dias de alerta amarelo passo as tardes voando sobre o bosque de trás,

com o saco duffel, exercitando as minhas asas, adicionando cada vez mais peso,

tentando não pensar em Tucker nos meus braços. Às vezes, Angela vem comigo e voamos lado a lado, tecendo padrões no ar. Se trabalhar arduamente e me esforçar


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muito, sou capaz de banir Tucker da minha mente durante algumas horas. E, por vezes, tenho a visão e não penso nele de todo durante algum tempo.

Angela achou melhor que eu documentasse a visão. Tem uma folha de

cálculo. Nos dias em que não está comigo, me ajudando, costumo ir visitar ela por

volta da hora de jantar, e consigo ouvir a música de Oklahoma, ao fundo, e ela me questiona incessantemente sobre a minha visão.

Deu-me um pequeno bloco de notas que guardo no bolso de trás das minhas calças jeans, e se tiver a visão devo largar tudo (e quando tenho a visão já

costumo largar tudo) e escrever o que aconteceu. Hora. Lugar. Duração. Todos os fatos da visão de que me lembre. Todos os detalhes.

É por causa disto que começo a reparar nas variações. A princípio assumo

que a visão é exatamente a mesma, todas as vezes, numa repetição monótona, mas

quando tenho que escrevê-la, percebo que existem pequenas diferenças de dia para dia. O sentido é sempre o mesmo: estou na floresta, o incêndio se aproxima, encontro

Christian, e voamos para longe. Todas as vezes que isso acontece uso o casaco púrpura. Todas as vezes, Christian usa o casaco preto de lã. Estes aspectos parecem ser constantes, imutáveis. Mas, por vezes, desço a colina vinda de um ângulo diferente, ou encontro Christian alguns passos mais para a direita ou mais para a

esquerda em relação ao dia anterior, ou recitamos as nossas deixas, "É você", "Sim, sou eu", numa ordem diferente. E a tristeza profunda, muda, percebo. Por vezes sinto a

dor que provoca desde o primeiro momento. Outras vezes, não a sinto até ver Christian, e depois se abate sobre mim como a rebentação de uma onda. Por vezes, choro e outras vezes a minha atração por Christian, o magnetismo que existe entre

nós, se sobrepõem à dor. Um dia voamos numa direção, e no dia seguinte voamos noutra.

Não sei como explicar. Angela acha que as variações podem ser minúsculas

versões alternativas do futuro, cada uma baseada numa série de escolhas que farei


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nesse dia. Isto me faz pensar. Quanto disto é escolha? Sou uma jogadora neste cenário ou um fantoche? Imagino que, no final, isso não interesse. É o que é: o meu destino.

Nos dias de alerta vermelho vôo por cima das montanhas, perto de Fox

Creek, perscrutando, procurando sinais de fumaça. Dada a direção em que aparece

na minha visão, Angela e eu descobrimos que o incêndio começará quase com

certeza nas montanhas, deslizando depois sobre Death Canyon (arrepiantemente apropriado, acho) até chegar a Fox Creek Road. Por isso patrulho a zona num raio de

trinta e dois quilômetros. Vôo sem me preocupar se as pessoas poderão me ver. Mesmo no estado deprimida e de auto-piedade no qual me encontro, é bastante fácil. Aprendo rapidamente a voar na luz do dia, quando posso ver a terra por baixo de mim, tão calma e imaculada. Pareço verdadeiramente com um pássaro, lançando a minha longa sombra sobre o solo. Quero ser um pássaro. Não quero pensar em Tucker. – Lamento que esteja tão infeliz neste momento – a minha mãe me diz, uma

noite, enquanto eu mudo apaticamente os canais de televisão. Os meus ombros estão doloridos. A minha cabeça dói. Há mais de uma semana que não como uma refeição que me satisfaça.

Esta manhã, Angela achou que seria uma experiência espetacular tentar

queimar o meu dedo com um fósforo, para ver se sou inflamável. Sou. E, apesar do

fato de estar fazendo o que ela quer que eu faça agora, como uma linda menina, o que é, ironicamente, graças a Angela, Deus a abençoe, a Mãe e eu ainda estamos em

terreno pedregoso. Não consigo lhe perdoar. Não tenho bem a certeza qual é a parte que não consigo perdoar, mas é assim que as coisas estão.

– Está vendo isto? É uma espécie de liqüidificador minúscula. Podemos

picar alho, triturar comida de bebé e fazer uma Margarita, e tudo pela minúscula

quantia de quarenta e nove dólares e noventa e nove cêntimos. Digo, sem olhar para ela.


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– Em parte, a culpa é minha. Esta frase chama a minha atenção. Baixo o volume da TV. – De que maneira? – Te negligenciei este Verão. Te deixei andar por aí. – Ah, então a culpa é em parte sua porque se tivesse prestado atenção teria

me impedido de sair com Tucker para começar. Teria cortado estas emoções desagradáveis antes de florescerem.

– Sim – ela responde, ignorando o meu tom sarcástico. – Boa noite, Mãe – me despeço, aumentando novamente o volume da TV. Mudo para o noticiário. Boletim meteorológico. Quente e seco. Alguns

ventos altos. Clima de incêndios. Prováveis tempestades no final da semana, durante

as quais um único raio poderá puxar fogo por toda esta região. Adivinhem? Tempos divertidos.

– Clara – A mãe diz, lentamente, que, ao que parece, ainda não terminou a

sua confissão.

– Já percebi – disparo. – Se sente mal. Agora tenho de ir dormir, para o caso

de ter de cumprir o meu destino amanhã.

Desligo a Tv, deixo cair o controle remoto em cima do sofá, e depois me

levanto e passo por ela em direção às escadas.


422

– Lamento, querida – ela diz, num tom de voz tão baixo que não sei se ela

queria que a ouvisse. – Não faz idéia de como lamento.

Paro no meio das escadas e me viro para trás. – Então me conta – lhe digo. – Se lamenta, me conta. – Te contar o quê? – Tudo. Tudo o que sabe. A começar pelo seu propósito. Isso seria simpático,

não parece, podemos nos sentar diante de uma caneca de chá e discutir os nossos propósitos?

– Não posso – ela diz. Os seus olhos escurecem, dilatando as pupilas como se as minhas palavras

lhe provocassem uma dor física. Depois é como se ela fechasse uma porta entre nós, a

sua expressão se esvaziando. O meu peito se aperta, em parte porque fico furiosa por ela conseguir fazer isso, que ela seja tão eficiente em me deixar de fora, mas também porque me ocorre que a única razão pela qual ela se daria a tanto trabalho para me

manter ignorante relativamente ao seu propósito é que acredita que não consigo lidar com a verdade.

E isso deve querer dizer que a verdade é bastante ruim. Ou isso, ou, apesar das suas conversas de mãe apoiante, não tem qualquer

fé em mim.

O dia seguinte é dia de alerta vermelho. Nessa manhã, fico de pé no corre-

dor da frente tentando decidir se devo ou não vestir o casaco púrpura. Se eu não o


423

vestir, o incêndio acontecerá hoje? Poderá ser tão simples como isso? O meu destino dependente de uma decisão de moda?

Decido não arriscar. De qualquer forma, nesta altura, já não estou tentando

evitar o incêndio. Quero que isto acabe de uma vez. E está frio lá em cima nas nuvens. Visto o casaco e saio de casa.

tristeza.

Estou a meio da minha patrulha quando sou atingida por uma onda de

Não é a tristeza habitual. Não se trata de Tucker, de Christian ou dos meus

pais. Não é pena nem sofrimento de adolescente. É um pesar puro e não filtrado,

como se todas as pessoas que amo tivessem morrido de repente. Atravessa implacavelmente a minha cabeça até que a minha visão se turva. Me sufoca. Não consigo respirar. A minha leveza desaparece. Começo a cair, tentando agarrar o ar. Me sinto tão pesada que caio como uma pedra.

Felizmente, bato em uma árvore e não me esparramo e bato imediatamente

contra as rochas. Em vez disso, bato nos ramos de cima num determinado ângulo. O

meu braço e a minha asa direita batem num ramo. Ouve-se um estalo, seguido da pior dor que já senti, no ombro. Grito enquanto o solo sobe rapidamente ao meu

encontro. Coloco o braço bom à frente do meu rosto, sendo chicoteada, picada e arranhada durante a queda. Depois repouso sobre sete metros do solo, com as minhas asas emaranhadas nos ramos, o meu corpo pendurado.

Sei que se trata de um Asa Negra. Apesar do meu pânico e da minha dor,

fui capaz de fazer essa pequena dedução. É a única explicação que faz sentido. O que significa que tenho de sair daqui, rapidamente. Por isso, mordo o lábio e tento me

libertar da árvore. As minhas asas estão mesmo presas, e tenho quase a certeza que a

direita está quebrada. Levo um minuto para me lembrar que posso recolhê–las, e depois dou pulo da árvore até o chão.


424

Bato no chão com força. Grito outra vez, desesperadamente. A dor que sinto

no ombro é tão intensa da pancada que caí no chão e estou quase desmaiando. Não consigo colocar ar nos pulmões. Não consigo pensar com clareza. A minha cabeça está tão enevoada pela tristeza. Esta parece estar aumentando, mais intensa a cada

segundo que passa, até que penso que o meu coração vai explodir com a dor que dela provém.

Isto significa que ele se está se aproximando. Esforço-me para me sentar e descubro que não consigo mexer o braço. Está pendurado do meu ombro num ângulo estranho. Nunca estive tão fe-

rida. Onde está o meu espantoso poder de cura quando preciso dele? Faço um esforço

enorme para me levantar. Sinto o lado do meu rosto molhado. Ergo uma mão para tocar na minha face e esta fica manchada de sangue.

Deixa isso, penso. Caminha. Agora. Cada movimento que faço faz oscilar o meu ombro, enviando uma onda de

dor através do meu corpo. Nesse momento, sinto, literalmente, que vou morrer. Não há esperança, não há luz, não há qualquer prece sobre os meus lábios. Estou

completamente acabada. Estou tentada a me deitar no chão e a deixar que ele faça o que quiser.

Não, digo comigo mesma. É o Asa Negra que sente. Continua andando. Põe um pé diante do outro. Sai daqui. Cambaleio para a frente durante mais alguns passos e me encosto a uma

árvore, arfando, tentando recuperar a minha força. Depois ouço a voz de um homem

atrás de mim, flutuando na minha direção através das árvores como se fosse trazida pelo vento. Definitivamente, não é humana.


425

– Olá, pequena ave – diz ele. Paraliso. – Foi uma grande queda. Está bem?


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20 UMA DOR INFERNAL Viro-me, muito lentamente. O homem está a menos de quatro metros de

distância, me observando com olhos curiosos.

É extremamente atraente. Não acredito que não tenha reparado nisso

naquele dia no centro comercial. Imagino que todos os anjos devem ser lindos de

morrer, mas não tinha percebido que são literalmente lindos de morrer. Se existe um molde para a forma masculina perfeita, este tipo foi feito a partir dele. Não é o que parece. Não é jovem nem velho, a sua pele sem a mais pequena

ruga ou defeito, o seu cabelo de um negro cor de carvão e reluzente. Mas eu sei que ele é tão velho como as rochas que estão debaixo dos meus pés. Ele está sobrenaturalmente quieto. A tristeza que sinto disparar através de todos os meus

nervos não lhe aparece no rosto. Os seus lábios até estão ligeiramente curvados para

cima no que deveria ser um sorriso complacente. Se não soubesse a verdade, diria que a sua voz é bondosa e que ele realmente quer me ajudar. Como se não fosse um anjo muito mau capaz de me matar com o seu dedo mindinho. Como se fosse apenas um viajante preocupado.


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Não consigo correr. Não há qualquer possibilidade. Não consigo voar. A tristeza profunda tira toda a minha leveza, como uma sombra que tapa o

Sol. Provavelmente vou morrer. Quero gritar pela minha mãe. Tento me lembrar, apesar do desespero do Asa Negra que me cobre como uma manta molhada, que do outro lado de um fino véu existe o céu, e que este homem, este impostor, pode matar o meu corpo mas não pode tocar na minha alma.

Não sabia que acreditava verdadeiramente nisto até agora. Este pensamento

me deixa momentaneamente corajosa. Tento não pensar em Tucker, em Jeffrey e em todas as outras pessoas que deixarei para trás se este tipo me matar agora. Me esforço para me endireitar e o olho nos olhos.

– Quem é você? – exijo saber. Ele ergue uma sobrancelha. – És uma pequena corajosa – ele afirma, dando um passo na minha direção. Quando ele se mexe há uma espécie de névoa no ar à sua volta que se

aquieta quando ele para. Quanto mais olho para ele, menos humano me parece,

como se o corpo que está diante de mim fosse apenas uma roupa que ele vestiu esta manhã e exista uma outra criatura por baixo, pulsando de dor e de fúria, a qual mal consegue se conter para se libertar. Ele dá outro passo na minha direção. Eu recuo um passo. Ele dá uma pequena gargalhada suave, um riso dis-

farçado, mas o ruído me provoca um arrepio de medo que me percorre da cabeça aos pés.

– Sou o Sam – ele responde. Tem um ligeiro sotaque, mas não consigo identificá–lo. Fala num tom de

voz baixo e melodioso, tentando me acalmar.


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Acho que este é um nome bastante ridículo para uma criatura com um

poder frio e negro que irradia dele em ondas como uma espécie de anti–glória. Quase rio. Não sei se é a dor horrível que sinto no ombro ou o peso da sua carga emocional,

mas me sinto como se estivesse perdendo todo o sentido da realidade. Já estou a ruir e a tortura ainda não começou. Estou começando a ficar dormente, como se o meu corpo não fosse capaz de lidar com isso e estivesse se desligando, peça a peça. É um enorme alívio.

– Quem és tu? – pergunta ele, sutilmente. – Clara. – Clara – ele repete, como se estivesse provando o meu nome sobre a sua

língua e gostasse dele. – Apropriado, acho. De que nível és?

Pela primeira vez, a prática da minha mãe de nos manter no escuro sobre

tudo parece compensar. Não faço idéia do que ele está falando. Devo parecer tão ignorante como me sinto.

– Quem são os teus pais? – ele pergunta. Mordo o meu lábio até sentir o sabor do sangue. Consigo sentir uma

estranha pressão na minha mente, como se ele estivesse bisbilhotando o meu cérebro

à procura da informação que quer. Será letal para todos os que conheço se ele descobrir. Vejo um lampejo do rosto da Mãe, e depois tento desesperadamente pensar noutra coisa. Em qualquer outra coisa.

Norte.

Pensa nos ursos polares, digo para mim mesma. Ursos polares no Pólo


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Ursos bebês a seguirem atrapalhadamente as suas mães. Ursos polares bebendo Coca–Cola. Ele me olha fixamente.

Ursos polares a correrem pelo gelo para pegarem as focas bebés. Dentes longos e afiados de urso polar. Ursos polares com focinhos cor-de-rosa e com patas. – Posso te obrigar a me dizer – afirma o anjo. – Será mais agradável se me disseres voluntariamente.

Ursos polares morrem de fome. Ursos polares nadam e nadam, à procura de terra firme. Ursos polares a se afogam, os seus corpos boiam na água. Os seus olhos velados e mortos. Pobres ursos polares mortos. Ele dá mais um passo vagaroso e deliberado na minha direção. Observo

impotente. O meu corpo não responde à minha ordem urgente de fugir e correr. – Quem são os seus pais? – ele pergunta, pacientemente.

Esgotei os ursos polares. A pressão que sinto na minha cabeça se intensifica.

Fecho os olhos.

– O meu pai é humano. A minha mãe é Dimidius – revelo, rapidamente,

esperando que isso o satisfaça.

A minha cabeça fica mais leve. Abro os olhos. – És forte para quem tem um sangue tão fraco – afirma ele.


430

Encolho os ombros. Estou aliviada por ele já não estar tentando assaltar o

meu cérebro. No entanto, profundamente dentro de mim, sei que ele voltará a tentar. Irá conseguir saber os seus nomes. Onde moramos. Tudo. Gostaria que houvesse uma forma de avisar a minha mãe.

Depois me lembro do telefone. – Sim, não tenho muito valor para você. Porque não me liberta? Enquanto

digo as palavras, deslizo a minha mão para dentro do bolso do meu casaco. Ainda bem que o meu celular está no bolso esquerdo, porque não consigo fazer o meu braço

direito funcionar. Procuro o número dois com os dedos o pressiono, me encolhendo por dentro com o pequeno ruído que emite. Começa a chamar. Rezo para que o Asa

Negra não esteja suficientemente perto para ouvi-lo. Colo os meus dedos em torno do bocal.

– Desejo simplesmente conversar com você – ele fala, gentilmente. Fala

como a minha mãe, parecendo completamente normal e contemporâneo num momento, e antiquado no seguinte, como se tivesse saído das páginas de um romance vitoriano.

– Sim? – atende a minha mãe.

magoar.

– Não tenhas medo – ele diz. Aproxima–se mais. – Jamais pensaria em te

– Clara? – pergunta a minha mãe, em voz baixa. – É você? Tenho de lhe fazer chegar a mensagem. Não quero que venha me salvar,

porque sei que não há qualquer possibilidade de ela lutar contra um anjo e vencer. Mas para salvar a si própria.


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– Só quero sair daqui – digo, o mais alto e o mais claramente possível, sem

atrair as suspeitas do anjo. – Sair daqui e nunca mais voltar.

Ele dá mais um passo na minha direção e, de repente, estou dentro do raio

da sua glória negra. A dormência se evapora. Sinto o impacto total da tristeza, uma dor tão profunda e crua que me atinge como uma tábua no peito.

O que foi que a Mãe disse? Que os anjos tinham sido feitos para agradar a

Deus e que quando vão contra isso, lhes provoca uma grande dor emocional e física?

Este tipo está com muitas dores. Não anda fazendo nada de bom. – O seu

ombro está deslocado – ele diz. – Fica quieta.

Os seus dedos frios e duros como pedra se enrolam no meu pulso antes de

eu ter tempo de resistir seja ao que for, e depois se ouve um estalo alto, e eu grito e

grito até que a voz me falha. Um muro cinzento se coloca diante do meu campo de visão. Os braços do anjo me envolvem. Ele me puxa contra o seu peito enquanto me sinto entrar em colapso.

– Pronto – ele diz, alisando o meu cabelo. Deixo que o cinzento me leve. Quando recupero os sentidos percebo lentamente de duas coisas. Primeiro, que a dor do meu braço já desapareceu quase por completo. E segundo, que estou praticamente abraçando um Asa Negra. O meu rosto está pressionado contra o peito

dele. O seu corpo parece imovível e é duro como uma estátua. E ele está me tocando, sentindo a minha pele, uma mão se movendo na parte de trás do meu pescoço, o acariciando, e outra repousando sobre a base das minhas costas. Por baixo da minha

camisa. Os seus dedos são tão gelados como os de um cadáver. A minha pele se arrepia de asco.


432

A pior parte é que consigo sentir a sua mente como se estivesse nadando no

lago gelado da sua consciência. Sinto o seu crescente interesse por mim. Acha que eu

sou uma menina encantadora, e que é uma pena ter um sangue tão diluído. Lhe lembro alguém. O meu cheiro é agradável, de shampoo de alfazema e sangue, com

uma pitada de nuvem. E bondade. Ele consegue cheirar a minha bondade, e a quer. Quer e irá me tomar. Mais uma, pensa, com a raiva passando através da luxúria. Como é simples.

Contraio nos seus braços. – Não tenhas medo – pede ele, de novo. – Não. Coloco as mãos contra o seu peito que mais parece um muro de tijolos e o

empurro com toda a minha força. Nem sequer se mexe. Ele responde me deitando no solo rochoso.

Bato-lhe inutilmente com os punhos. Grito. A minha mente se acelera. Vomita, morde, arranha. É claro que vou perder, mas se ele me vai marcar, eu vou marcar a ele também, se é que isso é possível. – Não vale a pena, pequena ave. Os seus lábios roçam o meu pescoço. Sinto os seus pensamentos. Se sente

terrivelmente sozinho. Isolado. Nunca poderá regressar.

Grito em seu ouvido. Ele emite um suspiro de lamento e coloca uma mão

por cima da minha boca, enquanto a outra agarra os meus pulsos e puxa as minhas


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mãos acima da minha cabeça, me prendendo. Os seus dedos são como metal frio a se cravando na minha pele. Sabe a cinzas. Os meus pensamentos corajosos sobreo céu esmorecem diante da realidade

deste momento.

– Pare – comanda uma voz. O Asa Negra retira a sua mão de cima da minha boca. Depois se levanta

com um movimento rápido e fluído, me erguendo nos seus braços como se eu fosse uma boneca de trapos. Alguém está ali. Uma mulher com longos cabelos ruivos. A minha mãe.

– Olá, Meg – cumprimenta ele, como se ela estivesse se encontrando com

ele para tomar o chá das cinco.

Ela está entre as árvores a cerca de três metros de distância, os seus pés

firmes sobre o chão e abertos à largura dos ombros, como se estivesse se preparando para o impacto. A sua expressão é tão temerária que parece uma pessoa diferente.

Nunca vi os seus olhos assim, azuis como a parte mais quente do fogo, fixos no rosto do Asa Negra.

– Me interrogava sobre o que fora feito de você – diz ele. Parece mais

jovem, de repente. linda, até. – Penso ter te visto não há muito tempo. Num centro comercial, de um lugar qualquer.

– Olá, Samjeeza – responde ela.


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– Imagino que esta seja tua. Ele olha de relance para mim. Ainda o sinto na minha mente. O seu desejo

por mim esmoreceu no momento em que ele viu a minha mãe. Ele acha que ela é verdadeiramente bela. É a ela, ele percebe, a quem eu o faço lembrar. O seu doce espírito. A sua coragem. Tão parecida com o seu pai.

– Surpreende-me, Meg – ele comenta, num tom de voz amigável. Nunca

imaginei que fosse do tipo maternal. E numa idade tão tardia.

– Tira as mãos de cima dela agora, Sam – ordena ela, cansada, como se ele

estivesse a irritá–la de morte.

Ele me aperta mais. – Não seja desrespeitadosa. – Ela é apenas um quarto-de-anjo, uma perda de tempo para você. É pouco

mais que humana.

Os seus olhos se desviam para mim, por um segundo. Ela tem um plano.

– Não – responde Sam, tenso. – A quero. A menos que prefira que seja você? – Vai para o inferno – dispara ela. A sua ira parece uma nuvem de cogumelo se elevando, embora a expressão

do seu rosto não se altere.

– Está bem – profere.


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Ele murmura algo em angélico, uma palavra que, pela primeira vez, não

compreendo, e, de repente, o ar à nossa volta emite uma luz trêmula e se divide. Ouve-se um som agudo, um rasgar. A terra debaixo dos nossos pés treme ligeiramente, como quando alguém deixa cair algo pesado no chão. Depois a terra que eu conheço desaparece para dar lugar a um mundo cinzento.

É como a floresta na qual estávamos, mas empobrecida e transformada

num deserto árido e sem esperança. O formato da terra é o mesmo do lugar que deixamos, a encosta de uma montanha com árvores, mas as árvores não têm folhas

nem agulhas. São apenas troncos cinzentos e nus e ramos retorcidos contra o céu granuloso e ribombante. Não existe qualquer cor, ou odor, ou som para além de um

trovão ocasional. Não há pássaros. A luz esmorece como se o Sol estivesse se pondo, e nuvens negras cobrem aquele que fora, na terra, um céu perfeitamente azul.

Sempre imaginei que o inferno fosse feito de fogo quente e de enxofre, de

lagos sulfurosos e de demônios com chifres e olhos reluzentes que torturavam as almas dos condenados. Mas aqui o ar está tão frio que vejo o meu próprio hálito. Uma espécie de bruma viscosa passa por cima de nós, me gelando até aos ossos. Estou tremendo descontroladamente.

A Mãe é mais luminosa que todo o resto, ainda em preto e branco mas

como se o seu contraste tivesse sido colocado no máximo. A sua pele brilha com um branco radiante. O seu cabelo é de um negro lustroso.

O Asa Negra afrouxa o aperto que exerce no meu braço. Ambos sabemos

que não tenho para onde fugir agora. Ele parece muito mais descontraído. No inferno ele é maior, mais alto, e mais corpulento, se é que isso é possível. Mais poderoso. Os seus olhos brilham. Fecha–os durante um momento, inalando profundamente como se estivesse gostando daquele ar, e depois as suas asas aparecem atrás dele. São

enormes, muito maiores do que as da Mãe ou do que as minhas, e de um negro absoluto e oleoso, um buraco escuro que se abre atrás dele, sugando toda a luz.


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Ele sorri, mas é um sorriso triste. Está orgulhoso de si próprio. A transição

para o inferno do lugar onde estávamos não é uma coisa fácil de se fazer. Ele quer impressionar a minha mãe.

– É mais imbecil do que eu pensava – diz a Mãe, petulantemente. Não parece impressionada. – Não pode nos deter aqui. Para mim, esta é uma boa notícia. – Te esqueces de quem sou, Margaret. Ele está completamente calmo perante a sua arrogância, até um pouco

encantado com ela. Está sendo muito paciente. Se orgulha da sua paciência. Sabe que ela tem medo. Está à espera de ver aparecer as rachaduras na sua calma.

– Não – responde a minha mãe, suavemente. – É você quem te esquece de

quem eu sou, Observador.

Sinto o medo atravessá-lo de forma rápida e cortante. Não tem

propriamente medo da minha mãe, mas de outros. Duas pessoas. Os vejo vagamente na sua mente, à distância. Dois homens com asas brancas de neve. Um com o cabelo de um ruivo vivo e olhos ardentes. O outro, louro, com a pele dourada e feroz, apesar de não conseguir distinguir os pormenores do seu rosto. Mas segura uma espada ardente na mão. – Quem são eles? – sussurro, antes de poder evitar. Sam olha de relance

para mim, franzindo a sombraselha. – O que disse?


437

Ele sonda a minha mente outra vez, uma pressão momentânea, e, de

repente, é como se uma porta se fechasse com força entre os seus pensamentos e os meus. A sua mão se afasta para longe de mim como se eu tivesse queimado. No

segundo em que ele deixa de me tocar, os seus pensamentos desaparecem. A raiva e a tristeza se reduzem à metade. Me sinto capaz de me mexer novamente. Consigo respirar. Consigo correr.

Não penso. O chuto no peito com pé, não que isso lhe provoque qualquer

dano, e depois disparo para frente na direção da minha mãe. Ela me estende a mão e eu a agarro. Coloca-me atrás de si, mas não larga a minha mão.

O Asa Negra emite um rosnado que faz os pêlos do meu braço se

levantarem. Não há o que enganar perante a sua expressão facial. Vai nos destruir.

Abre as suas asas. As nuvens acima de nós crepitam de energia. A Mãe

aperta a minha mão.

Fecha os olhos, ordena ela sem falar. Não sei o que me choca mais, que ela

consiga falar dentro da minha cabeça ou que ela espere que eu feche os olhos num

momento como este. Não espera que eu lhe obedeça. Uma luz brilhante explode à nossa volta. Onde quer que os seus raios tocam, aparece um vestígio de cor e de calor. Glória. O Asa Negra recua instantaneamente, protegendo os olhos. O seu rosto se

contorce de dor. Por uma vez, a sua expressão reflete o que ele sente verdadeiramente, como se estivesse sendo comido de dentro para fora.

Não olhe para ele. Fecha os olhos, ordena outra vez a Mãe. Fecho os olhos.


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para fora.

Linda menina, diz a voz da Mãe na minha cabeça. Agora põe as tuas asas

Não posso. Uma delas está quebrada. Não tem importância. Chamo as minhas asas. Sinto um lampejo de dor tão intenso que ofego e

quase abro os olhos, mas dura apenas um segundo. Sinto um calor se espalhar pelas

minhas asas, queimando músculos, tendões e ossos, e depois, como com o corte na palma da minha mão, a dor desaparece. Não apenas nas minhas asas. Os arranhões

nos meus braços e na minha cara, as equimoses, a dor do meu ombro. Desaparece tudo. Estou completamente curada. Ainda aterrorizada, mas curada. E novamente quente.

Ainda estamos no inferno? pergunto à Mãe. Sim. Não consigo nos levar de volta à terra sozinha. Não sou assim tão

poderosa. Preciso da tua ajuda. O que faço?

Pensa na terra. Pensa em coisas verdes que crescem. Flores, árvores. Relva

debaixo dos teus pés. Pensa nas partes que ama.

Imagino a árvore que vemos da nossa janela da frente lá em casa,

balançando ao vento, estremecendo, mil pequenas ondas de verde, folhas transparentes se mexendo em conjunto, como numa dança. Me lembro do Pai. Cortando velhos cartões de crédito sob a forma de lâminas de barbear para mim, e

ambos nos barbeando nas manhãs de domingo, eu arrastando o plástico sobre o meu rosto, imitando o gesto. Encontrando os seus calorosos olhos cinzentos no espelho.

Penso na nossa casa de agora, e no odor de cedro e de pinheiro que nos atinge de

imediato assim que entramos pela porta. O infame bolo inglês da Mãe. Açúcar


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mascavado se derretendo na minha boca. E Tucker. Estar tão perto dele que ambos respiramos o mesmo ar. Tucker.

O solo treme debaixo dos nossos pés, mas a Mãe continua a me segurar

com firmeza.

Perfeito. Agora abre os olhos, diz ela. Mas não largue a minha mão.

Pestanejo diante da luz forte. Estamos novamente na terra, quase exatamente no mesmo lugar onde estávamos anteriormente, a glória a nos rodeia como um campo

de força celestial. Sorrio. Parece que estivemos ausentes durante horas, embora eu saiba que foram apenas alguns minutos. É tão bom ver cores. É como se tivesse acabado de acordar de um pesadelo e tudo estivesse outra vez como devia estar. – Não venceram, sabem – declara aquela voz fria e familiar. O meu sorriso esmorece. Sam ainda está ali, chegado para trás, fora do

alcance da glória, mas olhando para nós com uma expressão fria e composta. – Não serão capazes de agüentar isso para sempre – ele diz.

– Conseguiremos agüentar o suficiente – afirma a Mãe. Aquela resposta o deixa ansioso. Os seus olhos olharam rapidamente para o céu. – Não tenho que tocar vocês. Estende a mão para nós, com a palma voltada para baixo. Te prepara para

voar, instrui a Mãe na minha cabeça.

A fumaça desliza para cima, vindo da mão do Asa Negra. Depois uma

pequena chama. Ele olha fixamente para a Mãe. Ela me aperta mais a mão enquanto


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ele volta a sua para cima e o fogo lhe escorre dos dedos para o solo da floresta. Se

alastra depressa no matagal seco, se movendo dos arbustos para o do tronco da árvore mais próxima. Sam está no meio do fogo, completamente intocado, enquanto grandes nuvens de fumaça crescem à sua volta. Sei que não teremos a mesma sorte.

Depois ele dá um passo em frente, para fora da repentina parede de fumaça, e olha para a minha mãe.

– Sempre achei que era a mais bela dos Nephilim – declara ele. – Isso é irônico porque eu sempre achei que você era o mais feio dos anjos. É uma boa deixa. Concedo–lhe isso. Os Asas Negras não têm muito senso de humor, imagino. Nenhuma de nós espera a corrente de chamas que disparam da mão dele. O fogo atinge a Mãe no peito e se propaga imediatamente pelo seu cabelo.

A glória que irradia de nós se apaga. No segundo em que a glória desaparece, o anjo

já está em cima de nós, a sua mão agarrada à garganta da Mãe. Ele a ergue no ar. As pernas dela batem impotentes. As suas asas vacilam. Eu tento retirar a minha mão da

dela para poder lutar contra ele, mas ela me agarra com força. Eu grito e lhe bato com a minha mão livre, balançando o seu braço, mas é inútil. – Acabaram-se os bons pensamentos – diz ele. Olha fixamente para os olhos dela, com tristeza. Me sinto novamente

repleta da sua tristeza. Tem pena de matá-la. Vejo–a, através dos seus olhos, uma

memória dela com cabelo curto e castanho, fumando um cigarro, sorrindo de forma sarcástica para ele. Ele guardou aquela imagem dela na sua mente durante quase cem anos. Acredita genuinamente que a ama. A ama, mas vai estrangulá–la.


441

Os lábios dela estão ficando azuis. Eu grito e grito. Fique calada, diz a voz dela na minha cabeça outra vez, com aspereza,

surpreendentemente forte para alguém que parece estar morrendo diante de mim. O grito esmorece na minha garganta. Os meus ouvidos zumbem com os seus ecos. Engulo em seco, dolorosamente. Mãe, te adoro. Neste momento, quero que pense em Tucker. Mãe, lamento muito. Agora! Insiste ela. Os seus pontapés estão ficando mais fracos, as suas asas

estão caindo contra as suas costas. Fecha os olhos e pensa em Tucker. AGORA!

Fecho os olhos e tento concentrar a minha mente em Tucker, mas tudo o

que consigo pensar é na mão da minha mãe ficando frouxa na minha e que ninguém nos vai salvar agora.

Pensa numa boa memória, sussurra ela na minha mente. Se lembra de um

momento em que o amou.

E, sem mais nem menos, me lembro. – O que é que o peixe disse quando bateu numa parede de cimento?

Pergunta-me.

Estamos sentados na margem de um rio e ele está atando a isca artificial na

minha vara de pesca, usando um chapéu de cowbói e uma camisa de flanela estilo lenhador por cima de uma t–shirt cinza. Tão lindo.


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deixa.

– O quê? – pergunto, querendo rir mesmo antes de ele me dizer a última

Ele sorri. É inacreditável como é lindo. E que é meu. Ele me ama e eu amo a

ele, e não é isso raro e bonito? – Raios! – ele diz.

Rio em voz alta, ao me lembrar disso. Deixo-me invadir pelo deleite que senti naquele momento. Pela forma como me senti naquele dia no celeiro, ao beijá-lo, ao abraçá-lo, ao ser uma pessoa como ele e como todos os seres vivos da terra.

De repente, percebo o que a minha mãe quer. Ela precisa que eu traga a

glória. Tenho que me despir de tudo o mais exceto do centro de mim, da parte que está ligada a tudo o que me rodeia, da parte que alimenta o meu amor. É essa a chave,

percebo, a parte da glória que faltava. A razão pela qual me acendi naquele dia no celeiro de Tucker. Não existe mais nada a não ser amor. Amor. Amor. Isso mesmo, diz a Mãe, na minha cabeça. Aí está ela. Abro os olhos e levo um minuto para me adaptar à luz intensa, a qual

emana de mim neste momento. Que ruge de mim. Estou acesa como uma tocha, de luz saindo de mim como fogo preso no dia 4 de Julho.63

O Asa Negra se encolhe. Ainda agarro o seu braço e, onde o toco, a sua pele

se desintegra, como se eu estivesse escavando aquela parte do seu corpo que é falsa, aquela roupa humana que ele usa, e a agarro a criatura que está por baixo. O calor resplandece das pontas dos meus dedos.

63

Dia da Independência dos Estados Unidos. Feriado Nacional.


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– Não – ele sussurra, não querendo acreditar. Liberta a minha Mãe e ela cai no chão, de rosto para baixo. Largo a mão

dela e agarro o anjo pela orelha, algo que ele não espera. Ele recua, mas eu o agarro com facilidade. A sua grande força desapareceu. Ele uiva de dor. Uma fumaça grossa sai dele como o que sai de gelo seco. Ele se evapora. Depois a sua orelha cai na minha mão.

Fico tão chocada que quase perco a glória. Deixo cair a orelha nojenta, a

qual explode em minúsculas partículas assim que toca no chão. Me inclino para

agarrar o anjo novamente, pensando que talvez consiga agarrá-lo pelo pescoço desta vez, mas ele se contorce, se afastando. A pele do seu braço, onde o agarro com força,

também está se dissolvendo, como cinza na chuva. Não. Como poeira. Como poeira se espalhando ao vento.

– Me larga – pede ele.

para trás.

– Vai para o inferno – digo, o empurrando para longe de nós. Ele cambaleia

Se sente uma vibração no ar, uma fria rajada de vento, e ele desaparece. A Mãe tosse. Eu caio de joelhos e a viro para cima, lentamente. Ela abre os olhos e olha para mim, abre a boca mas não sai qualquer som.

– Oh, Mãe – digo, expirando profundamente enquanto observo os

ematomas negros na sua garganta. Até consigo distinguir a impressão da mão dele. A glória começa a esmorecer.

Ela me estende a mão e eu a agarro.


444

Não se deixe esmorecer ainda, pede ela na minha mente. Se agarre em mim. Inclino-me sobre ela, a banhando na minha luz. Enquanto observo as

feridas na sua cabeça e no seu pescoço clarearem e desaparecerem. O cabelo que se queimara cresce de novo. Ela inspira profundamente, como um nadador que vem à superfície para respirar.

– Oh, graças a Deus. Eu vacilo, me sentindo aliviada. Ela se senta. Olha com firmeza por cima do meu ombro para algo que está

atrás de mim.

– Temos de sair daqui – afirma ela. Eu me viro. O fogo que o Asa Negra começou cresceu e se transformou

num autêntico e crepitante incêndio florestal, selvagem e imparável, devorando tudo no seu caminho, incluindo a nós se ficarmos aqui mais um momento que seja.

Olho novamente para a Mãe. Ela se põe lentamente de pé, se movendo com

cuidado, de uma forma que me faz lembrar uma pessoa idosa saindo de uma cadeira de rodas. –Está bem? – Estou fraca. Mas consigo voar. Vamos embora. Subimos

juntas

em

espiral,

de

mãos

dadas.

Quando

subimos

suficientemente alto, consigo ver o quanto o incêndio cresceu. O vento se levanta. Apanha o fogo e, de repente, este tem duas vezes o tamanho que tinha há um minuto


445

atrás, um muro de chamas que desce a montanha com firmeza, em direção a Death Canyon.

Conheço este incêndio. Reconheceria onde quer que fosse. – Vai daí – diz a Mãe. Nos dirigimos para casa. Enquanto voamos, tento levar o meu cérebro

exausto a aceitar que este é o incêndio da minha visão e que, agora, depois de todo

este tempo, vou ter de voar para lá para salvar Christian. É engraçado como a visão nunca incluiu especificamente um Asa Negra. Ou o inferno. Ou um sem número de coisas que poderiam ter sido úteis.

– Para, querida – grita a Mãe. – Tenho de parar.

Descemos junto à extremidade de um pequeno lago. A Mãe se senta num tronco caído. Está arfando com o esforço de voar de

tão longe, tão depressa. Está pálida. E se o Asa Negra a marcou de uma forma que a glória não possa curá-la?- penso. - E se ela estiver morrendo?

De repente, me lembro do meu telefone. O retiro do bolso e começo a

marcar o 1–1–2.

– Não faça isso – pede a Mãe. – Vou ficar bem. Só preciso descansar. Deve

ir para Fox Creek Road.

– Mas está ferida. – Já te disse que vou ficar bem. Vai. – Te levo primeiro para casa.


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– Não há tempo para isso. – E me empurra para longe dela. – Já perdemos

muito tempo. Vai encontrar com Christian. – Mãe...

– Vai encontrar Christian – diz ela. – Vai, agora.


447

21 FUMAÇA NOS OLHOS Vôo em linha reta até Fox Creek Road. Estou extremamente esgotada com

tudo o que aconteceu, mas vôo e as minhas asas parecem saber o caminho. Deixo-me cair na estrada, exatamente no lugar onde a minha visão habitualmente começa.

Olho em redor. A Avalanche prateada não está estacionada na beirada da

estrada, o céu não está cor de laranja, não há sinal de fogo. Tudo parece estar normal. Em paz, na verdade. Os pássaros cantam, as folhas roçam gentilmente nas árvores e tudo parece estar bem no mundo. Cheguei cedo.

Sei que o fogo está do outro lado da montanha, se movendo com firmeza

em direção a este lugar. Virá para cá. Tudo o que tenho de fazer é esperar.

Saio da estrada, me sento encostada a uma árvore e tento me concentrar.

Impossível. Porque é que Christian viria para cá? - me interrogo. O que o faria vir até

Fox Creek Road? Tenho alguma dificuldade em imaginá-lo com botas de pesca até os


448

joelhos, atirando uma linha de pesca, para trás e para a frente, num rio. Não faz sentido.

Nada disto faz sentido, penso. Na minha visão, não estou aqui esperando

que ele apareça. Ele chega aqui primeiro. Eu desço quando o carro já está

estacionado, caminho para dentro da floresta e ele já está a observar o fogo enquanto este se aproxima.

Olho de relance para o meu relógio de pulso. Os ponteiros não se movem. Está parado nas onze e quarenta e dois. Saí de casa por volta das nove da manhã, provavelmente dei a minha grande queda por volta das dez e meia, por isso às onze e quarenta e dois...

Às onze e quarenta e dois estava no inferno. E não faço idéia de que horas

são agora.

Devia ter ficado com a Mãe. Tinha tempo. Poderia tê–la levado para casa ou

para o hospital. Porque é que ela insistiu que eu a deixasse? Porque queria ficar

sozinha? Sinto o coração em pânico só de pensar que ela poderá estar mais ferida do que deu a entender, que sabia que não seria capaz de o esconder durante muito mais

tempo e que por isso me obrigou a ir embora. A imagino deitada na margem do lago, com a água nos seus pés, morrendo. Morrendo sozinha.

Não faça isso, me repreendo. Se começar a chorar outra vez neste

momento, nunca mais parará. Tem um trabalho para fazer.

Todos estes meses tendo a visão, uma e outra vez, todos estes meses

tentando compreendê-la, e agora que está tudo acontecendo, finalmente, ainda não sei o que fazer, ou por que. Não consigo ignorar o sentimento de que já estou fazendo

algo de errado. Que deveria ter ido àquele encontro com Christian, que talvez algo de importante tivesse acontecido que o trouxesse aqui hoje. Talvez já tenha fracassado.


449

É muito desolador para levar em consideração. Encosto a minha cabeça ao

tronco da árvore na altura em que o meu telefone começa a tocar. É um número que não reconheço.

– Sim? – Clara? – pergunta uma voz preocupada e familiar. – Wendy? Tento me organizar. Limpo os vestígios de lágrimas que tenho no rosto. É

estranho estar tendo uma conversa normal, de repente. – Está em casa?

– Não – responde ela. – Chegarei de avião na sexta-feira. Mas estou te

telefonando por causa de Tucker. Ele está com você? Um dardo de dor me atravessa. Tucker.

– Não – respondo, atrapalhadamente. – Nós terminamos. Há uma semana

que não o vejo.

– Foi o que a minha mãe me disse – confirma Wendy. – Estava com

esperança que tivessem voltado a namorar ou algo assim, e que ele estivesse contigo uma vez que está de folga hoje.

Olho em redor. O ar está ficando mais pesado. Já consigo cheirar a fumaça. O incêndio está chegando.


450

– A minha mãe me telefonou quando viu as notícias. Os meus pais estão em

Cheyenne num leilão e não sabem onde ele está. – Que notícias? – Não sabe? Os incêndios?

Isso quer dizer que o incêndio apareceu no noticiário. Claro. – O que estão dizendo? Que tamanho tem? – O quê? – pergunta ela, confusa. – Qual deles? –O quê? – São dois incêndios. Um deles bastante perto daí, se dirigindo para Death

Canyon. E o segundo, em Idaho, perto de Palisades.

Um pavor frio e doentio se abate sobre mim. – São dois incêndios – repito, aturdida. – Telefonei para casa mas Tucker não estava lá. Acho que ele poderá estar

fazendo caminhada. Ele adora a pescar em Death Canyon. E também adora Palisades. Estava com esperança que estivesses com ele e com o seu celular. – Lamento. – É que tenho um mau pressentimento. Parece estar prestes a começar a chorar.


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Também tenho um mau pressentimento. Um muito mau pressentimento. – Tem certeza que ele não está em casa? – Poderá estar lá fora no celeiro – ela diz. – O telefone não toca no celeiro.

Já lhe deixei um milhão de mensagens. Poderia ir ver se ele lá está?

Não tenho opção neste momento. Não posso sair daqui, com o incêndio tão próximo e sem saber quanto tempo falta para chegar aqui. – Não posso – respondo. – Neste momento, não. Faz um minuto de silêncio.

bem?

– Tenho muita pena, Wendy. Tentarei encontrá–lo assim que puder, está

– Está bem – ela responde. – Obrigada. Ela desliga o telefone. Fico ali um minuto, olhando para o telefone. A minha

mente se acelera. Só para ter a certeza, telefono para casa de Tucker e agonizo enquanto o telefone toca e toca. Quando a secretária eletronica responde, desligo.

Quanto tempo demoraria a voar daqui a Lazy Dog Ranch? Dez minutos?

Quinze? Não é longe. Começo a andar de um lado para o outro. O meu instinto me diz que algo não está bem. E eu aqui à espera que aconteça sabe-se lá o quê.

Irei. Voarei o mais rapidamente possível, e depois voltarei de imediato.

Chamo as minhas asas e fico um minuto no meio de Fox Creek Road, ainda tentando decidir.


452

mento.

Ninguém disse que não haveria sacrifícios. Você pertence aqui, nesse mo-

Não consigo pensar. Dou comigo no ar, a disparar em direção à casa de

Tucker, o mais depressa que as minhas asas me levam.

Não faz mal, digo comigo mesma. Tem tempo. Irá à procura dele e depois

volta de imediato.

Depois mando me calar e me concentrar em me mover rapidamente pelo

ar, tentando não pensar no que tudo isto pode significar, Tucker e Christian e a escolha que estou fazendo.

Levo apenas alguns minutos a chegar a Lazy Dog Ranch. Grito o nome de

Tucker mesmo antes de tocar no chão. O seu carro não está no caminho de acesso. Olho fixamente para o lugar onde ele habitualmente estaciona, a mancha de óleo na terra, as ervas e as flores silvestres esmagadas, e sinto que me caiu o fundo do estômago.

Ele não está aqui. Corro para o celeiro. Tudo parece normal, as tarefas todas concluídas, as

cavalariças limpas, o equipamento de montar pendurado e brilhando nos pregos.

Mas Midas também não está aqui, percebo. O cavalo de Tucker não está aqui, nem o cabresto que ele recebeu pelo seu aniversário, nem a sela que costuma estar empoleirada na parede do fundo. Novamente lá fora no pátio, vejo que o atrelado do cavalo também não está aqui.

Ele anda por aí. Montado no cavalo. Longe de telefones, de rádios e de

noticiários.


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O céu está assumindo aquele familiar tom cor de laranja. O incêndio está

chegando. Tenho de voltar a Fox Creek Road. Sei que é agora, o momento da verdade.

Devia ter vindo aqui ver se Tucker estava, mas só isso. Quando voltar a Fox Creek Road, o carro prateado estará lá. Christian estará lá à minha espera. Eu vou salvá-lo.

De repente, estou na visão. Estou na extremidade da estrada, olhando para

a Avalanche prateada de Christian, prestes a ir encontrar com ele. As minhas mãos se

fecham em punhos ao meu lado, com tanta força que as unhas cortam as minhas palmas das mãos, porque sei, Tucker está encurralado. O vejo com clareza na minha mente, encostado ao pescoço de Midas, olhando ao redor à procura de uma forma de

sair do inferno que o subjugou, à minha procura. Sussurra o meu nome. Depois engole em seco e inclina a cabeça. Vira-se para o cavalo e acaricia suavemente o seu pescoço. Observo o seu rosto enquanto ele aceita a sua própria morte. Em apenas

algumas batidas de coração, o incêndio ira alcançá-lo. E eu estou a quilômetros de distância, dando os meus primeiros passos em direção a Christian. Estou tão longe.

Agora compreendo. A dor que sinto na minha visão não é a triste dor de um

Asa Negra. Esta dor é toda minha. Atinge-me com tanta força que parece que alguém me bateu no peito com um taco de beisebol. Os meus olhos se inundam de lágrimas quentes e amargas.

Tucker vai morrer. E este é o meu teste. Viro-me para Lazy Dog, soluçando. Olho para o céu, onde nuvens de

tempestade se acumulam a leste, um pouco do inferno que se escoa para a Terra. Não é uma garota normal, Clara. – Não é justo – sussurro, furiosa. – Devia me amar. – O que é que o peixe disse quando bateu na parede de cimento?


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– O quê? – Diabos! O amo. Ele é meu e eu sou dele. Ele me salvou hoje. Amá-lo me salvou. Não posso deixá-lo morrer. Não o farei. – Diabos, Tuck. Atiro-me para o ar e navego em direção a Idaho. O meu instinto me diz que

ele estará em Palisades, na sua propriedade. Seja como for, é um ponto de partida. Vôo diretamente para Palisades, e é aí que vejo o outro incêndio.

É enorme. Ardeu até a linha do lago e agora está avançando pela encosta

acima, devorando tudo à sua passagem, não se movendo ao longo do chão da floresta, mas mais para cima, para as árvores. As chamas disparam em direção ao céu a cerca de cem metros de altura, se curvando, crepitando e tentando rasgar o céu. É, literalmente, um inferno. Não penso. Vôo diretamente para o incêndio. A propriedade de Tucker está

escondida em algum lugar naquelas árvores. O fogo faz o seu próprio vento, uma corrente firme de ar contra a qual tenho que lutar para poder voar na direção certa.

Há tanto fumaça que é difícil saber onde estou. Vôo mais baixo, tentando descer

abaixo do incêndio para ver a estrada. Não vejo nada. Limito-me a voar, e espero que o meu sentido de orientação angélico me oriente de alguma forma.


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– Tucker! – grito. A minha asa bate num ramo perdido e eu perco o equilíbrio e giro em

direção ao chão. Corrijo a minha posição mesmo a tempo, caindo pesadamente no solo da floresta, mas conseguindo manter–me em pé. Estou perto, acho. Este Verão

estive umas cinco vezes na propriedade de Tucker, e reconheço o contorno da montanha. Depois o fumo afasta–se por um momento e consigo ver claramente a

estrada a serpentear para cima. É demasiado difícil tentar voar aqui, existem demasiados obstáculos, por isso corro para a estrada e apresso–me a subi–la. – Tucker! Talvez ele não esteja aqui, penso. Os meus pulmões se enchem de fumaça e

começo a tossir. Os meus olhos lacrimejam. Talvez esteja enganada. Talvez tenha feito tudo isto e ele esteja no Bubbas, jantando cedo.

É o meu primeiro momento de verdadeira dúvida, mas depressa a esmago.

Ele está perto, só que não consegue me ouvir. Não sei como, mas sei que é aqui que o encontrarei, e quando a estrada curva e eu chego a uma clareira na extremidade da sua propriedade, não fico surpreendida por ver seu carro lá estacionado com o atrelado atrás.

– Tucker! – grito outra vez, com rouquidão. – Tucker, onde está? Sem

resposta. Olho de relance ao redor, desesperadamente, procurando uma pista que me

indique para onde ele terá ido. Na extremidade da clareira, encontro um rastro, muito esbatido, mas definitivamente um rastro. Consigo distinguir pegadas de cavalo na poeira.

Olho pela estrada abaixo. O incêndio já engoliu a estrada ao fundo do

cume. Consigo ouvi-lo se aproximando, os ramos crepitando enquanto ardem, um ruído alto feito de pequenas explosões e estalos. Os animais fogem diante dele,


456

coelhos e esquilos e até cobras, todos fogem. A fumaça se move na minha direção ao longo do solo, como um carpete que se desenrola. Tenho de encontrá–lo. Agora. Consigo ver muito melhor, agora que estou na frente do fogo, mas ainda

não muito bem. Há tanta fumaça. Deslizo por cima da trilha, gritando o seu nome e espreitando em frente por entre as árvores. – Tuck! – grito, repetidamente. –Clara! Finalmente, o vejo, vindo na minha direção, montado em Midas, tão

depressa quanto o cavalo é capaz de correr num terreno tão inclinado. Deixo-me cair em cima da trilha ao mesmo tempo que ele salta do dorso do cavalo. Corremos um

para o outro através da fumaça. Ele tropeça, mas continua correndo. Depois estamos nos braços um do outro. Tucker me esmaga contra ele, asas e tudo, a sua boca perto do meu ouvido.

dizer.

– Te amo – ele diz, sem fôlego. – Pensei que não tivesse oportunidade de te Desvia-se e tosse com força. – Temos de sair daqui – digo, me afastando. – Eu sei. O incêndio está bloqueando o caminho. Tentei encontrar um

caminho por cima do cume, mas Midas não conseguiu avançar. – Teremos de voar.


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Ele me olha fixamente com os seus olhos azuis sem compreender. – Espera

– ele diz. – E Midas?

– Tuck, temos de deixá-lo para trás. – Não, não posso. – Tem de ser. Temos de sair daqui. Agora. – Não posso deixar o meu cavalo para trás. Eu imagino como ele deve se sentir. O seu bem mais precioso no mundo.

Todos os rodeios, os passeios, as vezes que este animal lhe pareceu o seu melhor amigo. Mas não temos opção.

– Vamos todos morrer aqui – digo, o olhando nos olhos. – Não consigo

levá-lo. Mas consigo levar você.

Tucker se vira repentinamente e corre para Midas. Durante um minuto,

penso que ele vai fugir e tentar encontrar uma saída com o cavalo. Depois ele solta o cabresto do cavalo e joga para a beira do caminho.

O vento muda, como se a montanha estivesse inspirada. O incêndio se

move, com rapidez, de ramo para ramo, e a qualquer minuto as árvores que estão atrás de nós irão se incendiar.

– Tuck, vamos embora! – grito. – Vai! – grita ele para Midas. – Sai daqui!


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Ele bate na garupa do cavalo e este emite um ruído semelhante a um grito e

dispara em direção ao cume da montanha. Corro para Tucker e o agarro com força por baixo dos braços.

Por favor, rezo, embora saiba que não tenho qualquer direito de pedir. Dá-me força. Por um momento, me esforço com todos os músculos do meu corpo, braços, pernas, asas, tudo. Aponto em direção ao céu com tudo o que tenho. Levantamos vôo numa rajada de pura vontade, nos elevando acima das árvores, através da fumaça, o solo se afastando abaixo de nós. Ele me agarra com força e pressiona o seu rosto contra o meu pescoço. O meu coração incha de amor por ele. O meu corpo zune com

uma nova energia. Levanto Tucker sem qualquer esforço, com uma maior graciosidade do que alguma vez tive no ar. É fácil. É como ser levada pelo vento.

Tucker inspira repentinamente. Durante alguns segundos, vemos Midas

correndo ao longo da encosta da montanha, e sinto a dor de Tucker pela perda de seu

lindo cavalo. Quando chegamos mais alto, consigo ver as chamas se dirigindo com firmeza para cima. Não temos como saber se Midas se salvará. Não parece ter grandes hipóteses. Abaixo de nós, a propriedade de Tucker, a pequena clareira onde

eu lhe mostrei as minhas asas pela primeira vez, já foi engolida. Bluebell arde, emanando baforadas de fumo negro. Virando-nos no ar e depois me afasto da montanha, em direção ao céu

aberto, onde consigo voar com maior suavidade e o ar está mais limpo. Os carros

verdes dos bombeiros estão subir a auto-estrada em direção ao fogo, com as sirenes ligadas.

– Cuidado! – grita Tucker.


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Um helicóptero passa, numa rajada, ao nosso lado, tão perto que

conseguimos sentir as pás do rotor cortando o ar. Derrama um lençol de água para cima das chamas, depois dá a volta em direção ao lago.

Tucker estremece nos meus braços. O aperto melhor e me dirijo para o

local mais próximo onde sei que estará em segurança.

Quando pouso no meu pátio de trás, largo Tucker e ambos cambaleamos e caímos para cima do relvado. Tucker se deita de costas na grama, cobre os olhos com as mãos, e deixa escapar um gemido baixo. Eu me encho de um alívio tão avassalador que tenho vontade de rir. Tudo o que me interessa neste momento é que ele está a salvo. Ele está vivo.

– As suas asas – diz ele. Olho por cima do ombro para o meu reflexo na janela da frente da nossa

casa. A menina que me olha fixamente emite poder da mesma forma que o calor

cintila acima de um passeio. De repente, consigo ver uma parte daquela outra

criatura dentro dela, como a que se escondia por trás do Asa Negra. Os seus olhos

estão manchadas de dor. As suas asas, meio dobradas atrás de si, são de um cinzaescuro e doce. É óbvio mesmo no reflexo fosco do vidro. – O que significa? – pergunta Tucker. – Tenho que ir embora. Nesse preciso momento, a minha mãe chega no Prius. – O que aconteceu? – ela pergunta. – Ouvi no rádio que o incêndio acabou

de passar por Fox Creek Road. Onde está...


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Depois vê Tucker ajoelhado na grama. O seu sorriso esmorece. Olha para

mim com os seus olhos azuis muito abertos.

– Onde está Christian? – ela pergunta. Não consigo olhá-la nos olhos. O incêndio já passou por Fox Creek Road,

ela disse. Ela se dirige rapidamente para mim e me agarra pela asa, me virando para poder olhar bem para as penas escuras. – Clara, o que fez? – Tive de salvar Tucker. Ele teria morrido.

Ela parece tão frágil naquele momento, tão esvaída, quebrada e perdida. Os

seus olhos sem esperança, se fecham por um momento, depois se abrem.

– Tem que ir procurá-lo, agora – diz ela, nesse momento. – Eu olharei por

Tucker. Vai!

Depois me beija a testa como se estivesse se despedindo de mim para

sempre e se vira em direção à casa.


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22

A CHUVA CAI64

aqui.

Cheguei muito tarde, mas sabia que chegaria. O incêndio já passou por

Pouso. O lugar onde geralmente começa a minha visão está chamuscado e

negro. Não há vida. As árvores são troncos escurecidos. A Avalanche prateada está

estacionada na beira das estrada, a fumaça ainda saindo dela, queimada e esventrada pelo fogo.

Corro pela encosta acima para o lugar onde ele sempre está na minha

visão. Ele não está aqui. O vento se levanta e atira cinzas quentes para cima do meu

rosto. A floresta se parece com a dimensão do inferno, a terra igual à que eu conhecia, mas queimada. Vazia de tudo o que é belo e bom. Sem cor, som, ou esperança.

Ele não está aqui. O peso desta verdade me atinge. Este era o meu propósito, e fracassei.

Durante todo este tempo, apenas pensei em Tucker. O salvei porque não queria viver 64

No original, Down came the rain, título de uma canção


462

na terra sem ele. Não queria passar por esse tipo de dor. Sou egoísta a esse ponto. E agora Christian se foi. Era alguém importante, segundo a minha mãe. Existia um

plano para ele, algo maior do que eu, do que Tucker, ou do que qualquer outra coisa. Havia algo para o qual ele estava predestinado. E se agora foi.

– Christian! – grito, desesperadamente, o ruído ecoando por entre troncos

de árvores enegrecidos.

Não há qualquer resposta. Durante algum tempo, procuro o seu corpo. Interrogo-me se poderá ter

sido transformado em cinzas, se o fogo teria sido assim tão quente. Dou a volta e volto ao carro. As chaves ainda estão na ignição. É o único sinal dele. Vago pela floresta

queimada como que hipnotizada, procurando. O Sol está se pondo, uma bola de fogo vermelha descendo por detrás das montanhas. Está escurecendo.

As nuvens de tempestade que têm estado a se aproximar vindas do leste se

abrem como uma torneira. Passados alguns minutos, estou ensopada até aos ossos. Tremendo. Sozinha.

Não posso ir para casa. Acho que não consigo agüentar ver a desilusão

estampada no rosto da Mãe. Acho que não consigo viver comigo mesma. Caminho, fria e molhada, com as madeixas do cabelo na minha cara e no pescoço. Ando até ao

topo do cume e vejo o fogo ardendo à distância, as chamas lambendo o céu cor de

laranja. É belo, num certo sentido. A luminosidade. A dança da fumaça. E depois há a tempestade, as nuvens negras e ribombantes, os pequenos lampejos de relâmpagos

aqui e além. A chuva tão fresca no meu rosto, lavando a fuligem. É assim que é sempre, imagino. Beleza e morte.

árvores.

Atrás de mim, algo se mexe nos arbustos. Me viro. Christian sai de entre as


463

O tempo é uma coisa engraçada. Por vezes, se arrasta interminavelmente.

Como na aula de Francês. Ou quando estou à espera que um peixe morda a isca. E

outras vezes acelera, os dias passando correndo. Lembro-me de uma vez, na primeira série. Estava no meio do recreio da escola primária, perto das barras, e um grupo de

meninos da terceira série passa correndo. Pareciam enormes. Um dia, daqui a muito tempo, pensei naquele momento, estarei na terceira série. Isso foi há mais de dez anos, mas parecem apenas dez minutos. Estava lá há pouco. O tempo voa, não é isso que se diz? O meu Verão com Tucker. A primeira vez que tive a visão até agora. E, às vezes, o tempo para realmente. Christian e eu olhamos fixamente um para o outro como se estivéssemos

ambos sob um feitiço e, se um de nós se mexer, o outro desaparecerá.

– Oh, Clara, graças a Deus – ele sussurra. – Pensei que estivesse morta. – Eu pensei que tu... Ele estende a mão para tocar numa madeixa do meu cabelo molhado. De repente, me sinto zonza. Exausta. Extremamente confusa. Cambaleio. Ele

agarra os meus ombros e me ajuda a equilibrar. Eu fecho os olhos. Ele é real. Ele está vivo.

– Está encharcada – observa ele. Retira o seu casaco preto de lã e coloca sobre os meus ombros. – Porque está aqui? – sussurro.


464

– Pensei que devia te salvar do incêndio. Olho para ele tão atentamente que ele cora.

que...

– Desculpa – ele diz. – Foi uma coisa estranha de se dizer. Queria dizer

– Christian... – Estou apenas feliz por estar a salva. Devíamos te levar para dentro de casa

antes que fiques gripada ou assim.

– Espera – peço, lhe puxando ligeiramente o braço. – Por favor. – Eu sei que isto não faz qualquer sentido...

– Faz sentido, – insisto – exceto a parte em que devia me salvar. – O quê? – Eu devia salvar você... – O quê? Agora sou eu que estou confuso – admite ele. – A menos que...

trêmula.

Recuo alguns passos. Ele começa a me seguir, mas eu levanto uma mão

– Não tenha medo – ele murmura. – Não te farei mal. Nunca te faria mal.


465

– Se mostre – sussurro. Há um breve lampejo de luz. Quando os meus olhos se ajustam vejo

Christian debaixo das árvores queimadas. Tosse e olha para os seus pés quase como

se tivesse vergonha. Saindo das suas omoplatas estão enormes asas sarapintadas,

marfim com flocos negros, como se alguém o tivesse salpicado de tinta. Ele as abre com cuidado e depois as dobra atrás das costas. – Como é tu...? – Na sua visão, nos encontrávamos ali em baixo? – pergunto, gesticulando

em direção a Fox Creek Road. – Você diz, "É você", e eu digo, "Sim, sou eu", e depois saímos daqui voando?

– Como sabe disso? Chamo as minhas asas. Sei que as penas estão escuras agora e o que isso

significará para ele, mas ele merece saber a verdade.

Os seus olhos se abrem muito. Ele deixa sair um suspiro incrédulo, se-

melhante ao que faz quando por vezes ri. – É uma sangue-de-anjo.

– Desde Novembro que tenho a visão – lhe explico, com as palavras saindo

em tropeção. – É por isso que nos mudamos para cá. Devia te encontrar. Ele me olha fixamente, aturdido.

– Mas a culpa é minha – ele afirma, passado um momento. – Não cheguei

aqui a tempo. Não esperei que houvesse dois incêndios. Não sabia qual deles era.


466

Ele ergue o olhar para mim. – Não sabia que era você, no princípio. Foi por causa do cabelo. Não te

reconheci com o cabelo ruivo. É estúpido, eu sei. Sabia que havia algo de diferente em você, sempre senti... Na minha visão tem sempre cabelos louros. E, durante algum

tempo, era apenas isso que eu via. Ouvia alguém se aproximar atrás de mim, mas

antes de eu conseguir me virar completamente, a visão terminava. Nunca vi o teu rosto até ter a visão no baile de finalistas.

– A culpa não é sua, Christian. É minha. Não estava aqui para me encontrar

com você. Não te salvei.

A minha voz soa alta e esganiçada no vazio da floresta queimada. Coloco as

mãos sobre os olhos e me controlo para não chorar.

– Mas eu não precisava ser salvo – ele diz, gentilmente. – Talvez

devêssemos nos salvar um ao outro. - Do quê?- me interrogo.

Deixo cair as mãos e o vejo caminhar na minha direção, estendendo as mãos para mim. Agora não estamos na visão, mas ainda o acho bonito, mesmo molhado da chuva e sujo de cinzas. Ele toma as minhas mãos nas dele. – Está vivo – me engasgo, balançando a cabeça. Ele aperta as minhas mãos e me puxa para me abraçar. – Sim, é uma boa notícia para mim também.


467

Uma mão acaricia lentamente as minhas asas, me fazendo tremer. Depois

ele se afasta e ergue a mão diante dele, olhando para ela. A palma da sua mão está negra. Olho fixamente para ela.

– As tuas asas estão cobertas de fuligem – ele diz, com uma gargalhada. Pego na sua mão, passo um dedo por ela e, como ele disse, retiro uma

mistura de fuligem e chuva. Ele limpa a mão na perna das suas calças jeans. – O que fazemos agora? – pergunto. – Vamos vendo o que acontece.

Ele me olha novamente nos olhos, e depois olha para os meus lábios. Sou abalada por outro tremor. Ele molha os lábios, e depois me olha nova-

mente nos olhos. Pedindo-me.

Esta pode ser a minha segunda oportunidade. Se nenhum de nós precisava

ser salvo. O que mais há, senão isso? Parece que fomos obrigados a comparecer a um encontro amoroso ordenado pelo céu. Não precisamos do incêndio. Podemos representar a visão aqui e agora.

– Foi sempre você – ele diz, tão perto que sinto o seu hálito no meu rosto. Estou me afogando. Quero que ele me beije. Quero corrigir as coisas.

Quero que a minha mãe se orgulhe. Quero fazer o que deveria fazer. Quero

amar Christian, se é para isso que fui criada. Christian começa a se inclinar.


468

– Não – sussurro, incapaz de falar mais alto. Afasto-me. O meu coração já

não me pertence. Pertence a Tucker. Não posso fingir que não é assim. – Não posso. Ele recua imediatamente. – Está bem – ele diz. Clareia a garganta.

Inspiro profundamente, tentando clarear a mente. A chuva parou

finalmente. A noite caiu. Estamos ambos ensopados, com frio, e confusos. Ainda seguro a sua mão. Aperto os meus dedos em torno dos dele. – Estou apaixonada por Tucker Avery – lhe digo, simplesmente.

Ele parece surpreendido, como se a idéia de que eu pudesse estar com-

prometida não lhe tivesse passado pela mente. – Ah, desculpa.

por Kay?

– Não faz mal. Não peça desculpa. De qualquer forma, não está apaixonado

O seu pomo-de-adão salta enquanto ele engole em seco. – Me sinto estúpido. Como se isto fosse tudo uma grande piada. Já não sei o

que pensar.

– Nem eu. Largo a sua mão. Abro as asas e agarro o ar, me elevando no alto do cume e

por cima da floresta queimada. Christian me olha fixamente lá de baixo por um minuto, e depois levanta vôo. Vê-lo assim, voando ao vento com aquelas lindas asas


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sarapintadas, sinto um arrepio pela espinha acima e uma onda de confusão no meu cérebro já chocado.

Está metida num grande problema, Clara, diz o meu coração. – Vem – lhe digo, enquanto pairo um último momento sobre Fox Creek

Road. – Vem comigo.

Ficamos durante muito tempo junto à porta da frente. Já está escuro. A luz do alpendre está acesa. Uma mariposa se atira contra o vidro, uma e outra vez, numa

espécie de dança. Dobro as minhas asas e as mando embora. Me viro para Christian. As nossas asas já estão recolhidas, mas ele parece que preferia voar para longe neste

momento e nunca mais voltar. Fingir que nada disto aconteceu. Que o incêndio não aconteceu. Que não sabemos o que sabemos, e que não está tudo tão emaranhado. – Está tudo bem. Não sei se estou falando comigo ou com ele.

Esta é a minha casa, a linda e reservada casa feita de troncos de árvore pela

qual me apaixonei há oito meses, mas, de repente, sou uma desconhecida aqui,

escurecendo esta entrada pela primeira vez. Mudaram tantas coisas nas últimas horas. A minha mente está obstruída com tudo o que vi, tudo o que sobrevivi,

batalhas com anjos malignos, incêndios florestais, e as implicações daquilo que fiz.

Christian está vivo, ali parado com aspecto de quem está tão ansioso quanto eu, manchado de fumaça, mas belo, muito mais belo do que eu esperava que ele fosse.

Mas fracassei no meu propósito. Não sei o que acontecerá agora. Só sei que tenho de enfrentar as consequências.

Ouve-se um ruído atrás de nós e ambos, Christian e eu, nos voltamos para

olhar a escuridão crescente. Uma figura voa na nossa direção vinda das árvores. Não sei se Christian sabe da existência dos Asas Negras mas, instintivamente, damos a


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mão um ao outro, como se pudessem ter chegado os nossos últimos momentos na terra.

Acontece que é Jeffrey. Aterra na extremidade do relvado, com os olhos

selvagens, como se algo viesse atrás dele. Trás a sua mochila por cima de um dos

ombros, curvando o braço em torno dela para mantê-la afastada das suas asas. As penas estão quase pretas, da cor do chumbo.

– Aquele é o teu irmão? – pergunta Christian. Jeffrey ouve e se vira como se esperasse uma luta. Quando nos vê no

alpendre, ergue uma mão para se proteger do brilho da luz, semicerrando os olhos para conseguir nos identificar. – Clara? – ele grita. Faz-me lembrar quando ele era um garoto pequeno. Costumava ter medo

do escuro.

– Sou eu – respondo. – Está bem? Ele dá alguns passos em frente, para dentro do círculo da luz do alpendre. O seu rosto é um lampejo de branco na escuridão. Cheira a floresta queimada. – Christian? – ele pergunta. – Em carne e osso – replica Christian. – Conseguiu. Salvou Christian – diz Jeffrey. Parece aliviado. Não consigo deixar de olhar fixamente para as suas asas escuras.


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– Jeffrey, onde esteve? Ele flutua até ao telhado, aterrando com força em frente da janela do seu

quarto, a qual está aberta de par em par.

– À sua procura – ele diz, num sussurro ansioso, antes de se agachar e

entrar dentro de casa. – Não diga à Mãe.

Olho para cima, para o céu sem estrelas. Christian.

– Devíamos entrar, antes que aconteça mais alguma coisa – digo a

– Espera. Ele ergue a mão como se fosse tocar na minha face. Eu hesito, e depois ele

hesita também. A sua mão para a centímetros da minha face, uma pose quase idêntica à que vi cem vezes na minha visão. Ambos a conhecemos.

– Desculpa – ele pede. – Tem uma mancha. – Ele inspira como quem toma

uma decisão deliberada e os seus dedos afiaram a minha pele. O seu polegar acaricia um local na minha face, esfregando uma mancha. – Pronto. Já a tirei. – Obrigada – agradeço, corando. Nesse preciso momento, a porta se abre e Tucker está do outro lado

olhando fixamente para nós, primeiro para mim, com os seus olhos me varrendo da cabeça aos pés para ter a certeza de que estou inteira, e depois para Christian e para

a sua mão, que ainda paira perto da minha face. Vejo a sua expressão mudar de algo

preocupado e carinhoso para algo mais sombrio, uma resignação determinada que já vi antes, quando ele rompeu comigo.


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Salto para longe de Christian. – Tucker – digo. – Estou feliz por ainda estar aqui. Atiro-me para os seus braços. Ele me dá um abraço apertado. – Não pude ir embora – diz ele.

– Eu sei. – Quero dizer, literalmente. Não tenho carona. – Onde está a Mãe?

comigo.

– Está dormindo no sofá. Parece estar bem, mas exausta. Não quis falar

Christian clareia a garganta, desconfortavelmente. – Tenho de ir – ele diz . Hesito. Tinha a intenção de trazê-lo para minha casa, para sentá-lo com a minha Mãe, para ele contar a sua versão da história e tentarmos perceber o que tudo isto Significa. Não me parece que isso seja possível neste momento. – Depois falamos – ele diz. Eu aceno com a cabeça. Ele se vira rapidamente e desce os degraus do alpendre.


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– Como vai para casa? – pergunta Tucker. Os olhos de Christian encontram os meus por um instante. – Telefono para o meu tio – explica ele, lentamente. – Andarei até à estrada

para me encontrar com ele. Não moro muito longe daqui.

– Está bem – responde Tucker, claramente confuso. – Até depois – se despede ele, se virando de costas para nós e correndo

lentamente ao longo do caminho e para dentro da escuridão.

Puxo Tucker para dentro antes que ele possa ver Christian partir voando. – Quer dizer que o tirou do incêndio voando, hein? – ele pergunta, depois

de eu fechar a porta.

– É uma longa história, e eu nem sequer compreendo uma grande parte

dela. E algumas partes não me pertencem e não posso contá-las.

– Mas acabou? Quero dizer, o incêndio acabou. Já concluiu o teu

propósito?

A palavra ainda parece uma faca que me espeta. – Sim. Acabou. E é verdade. O incêndio acabou. A minha visão acabou. Então, porque

tenho a sensação que estou mentindo outra vez?

– Obrigado por ter salvo a minha vida hoje – agradece Tucker.


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– Não pude evitá-lo – digo, tentando ser engraçada, mas nenhum de nós

sorri. Nenhum de nós diz que ama o outro, mas queremos dizê-lo. Em vez disso, me ofereço para levá–lo para casa.

– Voando? – ele pergunta, hesitante. – Pensei em levar o carro. – Está bem. Ele se inclina para frente e tenta me dar um beijo com gentileza nos lábios.

Mas eu não o deixo se afastar. Agarro a t–shirt e não a largo, esmagando os meus lábios contra os dele, tentando me esvaziar de tudo neste único beijo, de tudo o que sinto, de tudo o que ainda temo, de todo o meu amor, tão forte que beira a dor. Ele

geme e emaranha as mãos no meu cabelo, me beijando com entusiasmo, me

empurrando gentilmente para trás até que as minhas costas batem contra a porta. Estou tremendo, mas não sei se é por causa dele ou por causa de mim. Só sei que nunca mais quero o largar.

Atrás de nós, a mãe clareia a garganta. Tucker recua um passo, se afastando

de mim, com a respiração ofegante. Ergo o olhar para ele e sorrio. – Olá, Mãe – digo. – Como está? – Estou bem, Clara – diz ela. – E você?

– Bem. – Me viro para olhar para ela. – agora vou levar Tucker para casa. – Está bem – ela responde. – Mas depois vem diretamente para casa.


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Depois disso, depois de deixar Tucker em casa e de voltar, tomo uma ducha.

Coloco-me debaixo de água tão quente quanto consigo agüentar. A água escorre pelos meus cabelos e pelo rosto, e só então aparecem as lágrimas, escorrendo para fora de mim até que algum do peso que sinto no peito se alivia. Depois, chamo as minhas asas e as lavo da fuligem com cuidado. A água rodopia, cinzenta, aos meus

pés. Esfrego as penas e elas ficam limpas, embora não sejam tão brancas como eram antes. Interrogo-me se voltarão a ser claras e belas de novo.

Quando se acaba a água quente, me limpo com uma toalha e escovo o meu

cabelo com calma. Não consigo me olhar no espelho. Deito-me na cama, exausta,

mas não consigo dormir. Finalmente, desisto e vou para o andar de baixo. Abro a geladeira e olho fixamente para o seu interior antes decidir que não tenho fome. Tento ver televisão, mas nada retém a minha atenção, e a luz tremeluzente projeta sombras na parede que me assustam embora eu saiba que não tem nada ali. Acho que estou começando a ficar com medo do escuro. Vou até ao quarto da Mãe. Pensei que ela me interrogaria quando voltasse

da casa de Tucker, mas ela já estava deitada, novamente dormindo. Olho para ela ali

deitada, querendo estar perto dela mas não querendo perturbá-la. Um feixe de luz vindo da porta aberta cai sobre dela. Parece tão frágil, tão pequena, enrolada de lado

no meio da cama, com um braço atirado por cima da cabeça. Aproximo-me da cama e toco no seu ombro, a sua pele está fresca. Ela franze a sobrancelha.

Vai embora, diz ela. Recuo para longe dela, magoada. Estará zangada por

causa do que aconteceu hoje? Por eu ter escolhido Tucker?

Por favor, pede ela. Não sei dizer se está falando em voz alta ou na minha

cabeça. Mas não está falando comigo, percebo. Está sonhando. Quando lhe toco outra

vez, sinto o que ela sente: raiva, medo. Lembro-me do seu aspecto na memória do Asa


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Negra, aquela imagem dela que ele traz com ele há tanto tempo: cabelo castanho e

curto, batom com uma cor viva, e um cigarro pendurado, a forma como ela olhara para ele com um pequeno sorriso trocista e sabedor. Não tinha medo nessa altura,

não dele. Nem de nada. Me é desconhecida aquela versão mais jovem da minha mãe.

Interrogo-me se algum dia a conhecerei, se agora que o meu propósito acabou ela estará livre para me contar os seus segredos.

A Mãe suspira. Eu a cubro com o edredon, aliso uma madeixa do seu cabelo

para fora do seu rosto. Depois deslizo silenciosamente para fora do quarto. Volto à

cozinha, mas ainda consigo ouvir o seu sonho me sintonizar com ele. Isto é algo de novo, penso, esta capacidade de sentir o que os outros sentem, como quando senti

Tucker quando ele me beijou, como o que senti quando toquei no Asa Negra. Procuro

a Mãe com a minha consciência, e consigo encontrá-la, senti-la. É espantoso e aterrorizante ao mesmo tempo. Lanço-me escada acima até ao quarto de Jeffrey e o sinto. Dormir e a sonhar, e também há medo nos seus sonhos, e algo parecido com

vergonha. Preocupação. Me deixa preocupada com ele. Não sei onde ele estava durante o incêndio, o que fazia que agora lhe pesa na consciência.

Dirijo-me para a pia para encher um copo com água, e depois o bebo

lentamente. Cheiro a fumaça, o odor do incêndio ainda está presente no ar. Isto me

faz pensar em Christian. Cerca de cinco quilômetros para leste, ele disse, sempre a direita. Cinco quilômetros não ficam muito longe. Imagino-me deslizando por entre a terra, como se viajasse ao longo das raízes das árvores e da grama, esticando uma

linha entre mim e a casa de Christian, como uma extensão de corda entre duas latas, o meu próprio telefone rudimentar.

Quero sentir o que ele sente. E depois sinto. O encontro. De alguma forma, sei que é ele e não outra

pessoa qualquer. Não está dormindo. Também está pensando em mim. Está pensando no momento em que limpou a mancha de cinzas da minha face, o toque da minha


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pele debaixo dos seus dedos, a forma como olhei para ele. Está confuso, com a mente às voltas, frustrado. Já não sabe o que se espera dele.

O compreendo. Não pedimos nada disto; nascemos para isto. E, no entanto,

devemos servir cegamente, obedecer a regras que não compreendemos, deixar que uma força superior trace as nossas vidas e nos diga quem devemos amar e o que devemos, se for caso disso, nos atrever a sonhar.

No final, quando Christian e eu voamos juntos, não havia chamas debaixo de nós. Não havia qualquer incêndio nos perseguindo. Não salvávamos um ao outro. Não estávamos apaixonados um pelo outro. Em vez disso, estávamos mudados. Fomos

atirados para um turbilhão cósmico. Não sei se perdi a virtude, ou se estou numa espécie de plano B celestial. Talvez isso não tenha importância. Uma coisa eu sei, não poderemos voltar atrás.

Fim! A trilogia Unearthly continua em 02-Hallowed – Lançamento em 2012


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Cynthia hand • sobrenatural unearthly 01  

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