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ANO XV | 2017 # 72 R$ 20,00

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ISSN 2447-3596

ISSN: 2447-3596

00015

A R Q U I T E T O S

ARQUITETURA DE INTERIORES Projetos de destaque

ARQUITETURA E MODA A sinergia entre os universos

ENTREVISTA Camila Klein: compartilhar para crescer

OUTRAS CAPITAIS O desafio da qualidade urbana


Editorial

ASSISTA AO VÍDEO

Este ano entrará para a história da nossa entidade. Em 2017, a Associação de Arquitetos de Interiores do Brasil – Seccional RS completa três décadas de existência, e esta publicação anual atinge a sua 15ª edição ininterrupta. Nesses 30 anos de trabalho intenso pela valorização e qualificação da Arquitetura de Interiores e pela defesa dos arquitetos e urbanistas que atuam no segmento, a AAI Brasil/RS conquistou relevância e prestígio. E ampliou a confiança dos profissionais no meio das nossas entidades associativas, no setor acadêmico, no Conselho de Arquitetura e Urbanismo e no mercado. Esse legado expressa o reconhecimento à atuação dos arquitetos e urbanistas associados e dos dirigentes, que se dedicaram à gestão voluntária da entidade e ao planejamento de eventos, workshops, seminários, publicações, palestras e outras ações propostas para atender às necessidades e demandas dos profissionais do segmento. A AAI foi a primeira entidade do segmento de Arquitetura de Interiores e ainda mantém-se única em todo o país. Estamos cientes da responsabilidade atribuída a esse título, e estamos convictos de que temos honrado a missão: atuar para o fortalecimento do setor de Arquitetura de Interiores, especialmente no Rio Grande do Sul, berço da nossa fundação. Seguimos expandindo horizontes, tanto na capital gaúcha como em outros estados, com o ob-

jetivo de aproximar os profissionais, atender suas necessidades, defender nossas atribuições específicas e colaborar para a identificação de novas oportunidades de prestação de serviços. Esta edição comemorativa da AAI em revista – arquitetos apresenta projetos de destaque de arquitetos e urbanistas associados e outros conteúdos, com entrevistas, artigos e matérias. Na capa, traz o projeto vencedor do Concurso Imagem da Capa 2017 – uma iniciativa que amplia a participação dos associados da AAI Brasil/RS. Agradecemos a todos que aderiram, participaram, apoiaram e patrocinaram essa publicação. Nas próximas páginas, você confere a expressão, a importância, a sutileza e a complexidade do universo da Arquitetura de Interiores. E lembre-se: a revista possui uma versão digital interativa com mais conteúdo e imagens complementares, compatível com todas as plataformas. Ela está disponível no aplicativo da Santa Editora e no site www.aaibrasilrs.com.br. Boa leitura,

Arq. e urb. Silvia Barakat PRESIDENTE AAI BRASIL/RS - 2016-2017

15 ANOS A R Q U I T E T O S

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Sumário Concurso Imagem da Capa Projetos de Arquitetura de Interiores Arquitetura e Moda: a sinergia entre os universos

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Jovens Expressões Gaúchas Ambidestro

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R4 Design

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Tríptica

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15 ANOS A R Q U I T E T O S

CONSELHO EDITORIAL

PRODUÇÃO E EDIÇÃO

ASSESSORIA COMERCIAL

Arq. e urb. Gislaine Saibro

Letícia Wilson (Reg. 8.757 MTB/RS)

Inspiracom Marketing & Comunicação

Jornalista Letícia Wilson

Santa Editora

47 3285.7462

contato@santaeditora.com.br

contato@inspiracom.com.br

www.santaeditora.com.br

www.inspiracom.com.br

COLABORAÇÃO

TIRAGEM

Jorn. Tatiana Gappmayer (Reg. 8.888 MTB/RS)

2.000 exemplares

REVISÃO ORTOGRÁFICA

ISSN

Giane Jacques Antunes Severo

2447-3596

CAPA

Projeto: arq. e urb. Marcelo John Foto: Eduardo Liotti EDIÇÃO GRÁFICA

Designer gráfico Andrezza Nascimento TRATAMENTO DAS IMAGENS

Fotógrafo Ronald T. Pimentel

Conceitos e opiniões emitidos por entrevistados e colaboradores não refletem, necessariamente, a opinião da revista e de seus editores. Todos os direitos são reservados. Edição especial da AAI em revista - arquitetos. Distribuição dirigida a arquitetos e urbanistas, entidades de classe, instituições de ensino e empresas do setor. Órgão oficial da AAI Brasil/RS.

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017


Entrevista Camila Klein

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Artigos Outras Capitais por Maria Alice Junqueira Bastos

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Arquitetura, uma das narrativas que nos representa por Hélade de Oliveira Lorenzoni

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DIRETORIA - GESTÃO 2016/2017

PRESIDÊNCIA VICE-PRESIDÊNCIA DIRETORIA DE EXERCÍCIO PROFISSIONAL DIRETORIA DE RELAÇÕES ACADÊMICAS DIRETORIA DE COMUNICAÇÃO / RELACIONAMENTO

Rua Sport Club São José, 67/407 Porto Alegre/RS CEP 91030-510

DIRETORIA DE MARKETING DIRETORIA DE GESTÃO E PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO DIRETORIA FINANCEIRA / TESOURARIA

Arq. e urb. Silvia Monteiro Barakat Arq. e urb. Cármen Lila Gonçalves Pires Arq. e urb. Flávia Bastiani Arq. e urb. Elisabeth Sant’Anna Arq. e urb. Ana Paula Bardini Arq. e urb. Andres Luiz Fonseca Rodriguez Arq. e urb. Ana Lore Miranda Arq. e urb. Gislaine Saibro

Fone 51 3228.8519 www.aaibrasilrs.com.br www.facebook.com/aaibrasilrs

O Conselho Diretor e a Diretoria da AAI Brasil/RS são os mesmos da AAI Brasil.

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Foto: Eduardo Liotti | Divulgação

Capa O projeto apresentado pelo arquiteto e urbanista Marcelo John conquistou a capa desta edição da AAI em revista – arquitetos. A fotografia publicada foi a mais votada no ‘Concurso Imagem da Capa 2017’ realizado pela AAI Brasil/RS entre seus associados. As imagens de outros três projetos receberam menções como finalistas: Gabriela Raymundo e Jeanini da Silva; Hélade de Oliveira Lorenzoni; e Tania Bertolucci Delduque de Souza. Todos estão devidamente indicados nas páginas nas quais estão apresentados, e as menções correspondem à quantidade de votos. Os demais profissionais que participaram do concurso estão também destacados nas suas páginas. Importante registrar que a adesão é sempre voluntária. Os associados apontaram suas preferências por meio de votação realizada pela internet, a partir da imagem de cada um dos seis projetos inscritos para participação no concurso. Cada associado poderia escolher apenas uma fotografia. Elas foram numeradas aleatoriamente, sem a identificação dos autores, a partir da seleção prévia feita pelos membros do Conselho Editorial da AAI em revista – arquitetos, a arquiteta e urbanista Gislaine Saibro, ex-presidente e diretora da AAI Brasil/RS, e a jornalista Letícia Wilson, editora da publicação. Ambas fazem parte do grupo original que criou a revista em 2002. O critério de seleção de imagens considerou as que melhor se adaptaram ao projeto gráfico e ao formato da capa, em termos de tamanho, cores, detalhes e qualidade da imagem; além da representatividade do trabalho de Arquitetura de Interiores. A AAI Brasil/RS agradece aos associados que se inscreveram no ‘Concurso Imagem da Capa 2017’, e aos demais participantes desta edição comemorativa da AAI em revista – arquitetos, que completa 15 anos.

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AAI EM REVIS 2017 6AAI EM REVISTA ARQUITETOS

Imagem vencedora do ‘Concurso Imagem da Capa 2017’ Projeto do arq. e urb. Marcelo John

+ FOTOS


Foto: Ana Luíza Chaves Barcellos | Divulgação

Foto: Melissa Machado | Divulgação Foto: Carlos Edler | Divulgação

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1 - Imagem escolhida como ‘Primeira Finalista’ Projeto das arquitetas e urbanistas Gabriela Raymundo e Jeanini da Silva

2 - Imagem escolhida como ‘Segunda Finalista’ Projeto da arquiteta e urbanista Hélade de Oliveira Lorenzoni

3 - Imagem escolhida como ‘Terceira Finalista’ Projeto da arquiteta e urbanista Tania Bertolucci Delduque de Souza

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Profissionais

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Ana Lore Miranda

Angela Limberger e Elisabeth de Azevedo Sant’Anna

Carla Regina Padilha Stumpf Lippert

Carlos Jardim e Lisete Jardim

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Cristiana Brodt Bersano e Micheli da Silveira

Flávia Bastiani

Gabriela Raymundo e Jeanini da Silva

Gislaine Saibro

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Marcelo John

Tania Bertolucci Delduque de Souza

Hélade de Oliveira Lorenzoni

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017

Laline Bittencourt


Projetos 13


+ FOTOS

+ VÍDEO

+ EDIÇÕES

Ana Lore Miranda

ARQUITETA E URBANISTA

Travessa Wilhelms, 2.470 – Taquara/RS (51) 3542-1192 (51) 8135-4625 analore@analore.com.br www.analore.com.br www.facebook.com/analorearquiteta CAU: A12286-6

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017

Ana Lore Miranda é arquiteta e urbanista formada, em 1985, pelo Centro Universitário Ritter dos Reis, atual UniRitter, especializada em Iluminação e Design de Interiores pelo Instituto de Pós-graduação e Graduação (IPOG). Nesses 31 anos de mercado tem atuado, principalmente, na região do Paranhana e na serra gaúcha, com ênfase na cidade de Gramado. Atualmente, participa da diretoria da AAI Brasil/RS.


No projeto da “casa dos sonhos” de um jovem casal de Taquara (RS), a arquiteta e urbanista Ana Lore Miranda reservou uma área especial de 33,80m2 para a suíte master. Implantado no segundo pavimento da residência, o espaço foi preparado já na planta, considerando a orientação solar do lote para a abertura das janelas, o revestimento de piso e o detalhe em gesso no teto que delimita a área da cama. “Tudo foi planejado para receber a Arquitetura de Interiores”, complementa a arquiteta. A intenção inicial de Ana Lore era conformar um ambiente de closet junto ao dormitório. No entanto, os clientes apaixonaram-se pela amplitude oferecida e preferiram a instalação de roupeiros integrados ao espaço. Portas de correr com vidro refletente foram escolhidas pela arquiteta para garantir leveza ao mobiliário, executado em MDF melanímico amadeirado. “Os roupeiros possuem 50% de sua ocupação com cabideiros, 25% com gavetas e 25% restantes com estantes - uma proporção sem erro na hora de projetar este tipo de mobiliário”, pontua. Os grandes criados-mudos, com acabamento em pintura PU acetinada, receberam gavetas divisórias para joias e acessórios

com forração em veludo preto. Uma ampla cabeceira estofada, com 4,80cm, estabelece o arremate. “Ela foi produzida em três módulos para facilitar o transporte e o acesso ao ambiente”, explica. No desenho da cabeceira, a arquiteta previu rodapé de 35cm para adequar as instalações elétricas e fixar os interruptores a uma altura de fácil acesso a quem estiver deitado. Como marido e mulher têm hábitos distintos – ele, médico anestesista; ela, contadora, comandos individuais de iluminação foram projetados, permitindo diferentes cenários de luz. Fitas de LED atrás da cabeceira proporcionam iluminação indireta. O estilo clássico contemporâneo adotado para o espaço expressa a personalidade do casal, de acordo com Ana Lore. “Nas formas retilíneas, leves curvaturas e detalhes sofisticados na textura e nas cores dos tecidos utilizados”, exemplifica. Os tecidos foram adquiridos a partir de uma criteriosa seleção do fornecedor, com falsos lisos em tonalidades que variam entre o cinza e o azul. Tons pastéis contrastam com o marrom eleito para o cobre-leito.

Apoio Athual Revestimentos LAM Gessos Rubeal Decorações

Fotografia Carlos Edler

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+ FOTOS

+ VÍDEO

+ EDIÇÕES

Angela Limberger Elisabeth de Azevedo Sant’Anna

ARQUITETAS E URBANISTAS

Praça Júlio de Castilhos, 20/202 Porto Alegre/RS (51) 3311-0913 | 9969-5447 arq.angelalimberger@hotmail.com CAU: 87670-4

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017

Av. Cel. Lucas de Oliveira, 649 Porto Alegre/RS (51) 3332-4461 | 9283-4534 bethsantanna@terra.com.br www.bethsantanna.com.br CAU: A2624-7

Angela Limberger é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Unisinos há 30 anos, e possui curso de Desenho pela Faculdade de Belas Artes da Universidade Federal de Santa Maria. Nestas três décadas de atuação, desenvolve projetos de Arquitetura de Interiores residenciais com enfoque no detalhamento de móveis para marcenaria sob medida. Elisabeth de Azevedo Sant’Anna formou-se pela Ufrgs, em 1976, e, desde então, dedica-se à Arquitetura de Interiores, em projetos residenciais e comerciais.


Cômodos típicos dos imóveis antigos, o dormitório e o banheiro da chamada ‘dependência de empregada’ já encontram-se extintos ou perderam completamente a função nos dias atuais. Os proprietários deste apatamento, com 40 anos de uso, localizado no bairro Rio Branco, em Porto Alegre/RS, não viram mais utilidade para esses ambientes, pelo menos não compartimentados como estavam. O casal decidiu incorporá-los para ampliação das áreas de cozinha e de serviços, totalizando 17,50m2. O projeto de Arquitetura de Interiores foi assumido, em parceria, pelas arquitetas Angela Limberger e Elisabeth de Azevedo Sant’Anna. A missão delas era reconfigurar o layout dessa área do apartamento e qualificá-la, criando espaços confortáveis para as refeições diárias do casal e da família, quando recebem a visita das duas filhas já adultas. Como a cozinha e a área de serviço deveriam ser independentes, elas projetaram um armário divisor, com portas de acesso ao ambiente disfarçadas entre armários de despensa para mantimentos e produtos de limpeza. Logo em frente, uma pseudo ilha acomoda

, com coifa. Na lateral, o volume do pilar entre as janelas, revestido com pastilhas, criou um chaft para as instalações necessárias. Como as alvenarias foram todas eliminadas, os planos no forro, em gesso, foram fundamentais para ocultar as vigas que se revelaram, além de contribuírem para a distribuição da iluminação e para redução da altura do pé-direito. A pedido dos clientes, foi aberto um vão de passagem com acesso direto à sala de jantar, com fechamento do antigo acesso para a circulação íntima. A partir dessa alteração, as arquitetas posicionaram a mesa de refeições, com quatro cadeiras. A marcenaria, com acabamento em melamina e portas em vidro, foi planejada para comportar os novos eletrodomésticos adquiridos pelo casal e para aproveitar, ao máximo, o espaço disponível. “O mobiliário foi detalhado internamente para acomodar os muitos utensílios”, complementa Angela. O tampo, em granito signus, se estende pela ‘ilha’ e pelas laterais dos balcões. “A obra fluiu de forma tranquila por conta de um projeto bem definido e de um cronograma bem afinado, mas também pelo preparo e disposição dos clientes, tornando realidade o desejo almejado”, revela Elisabeth.

Apoio Pedras Andretta Todeschini

Fotografia Carlos Edler

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+ FOTOS

+ EDIÇÕES

Carla Regina Padilha Stumpf Lippert

ARQUITETA E URBANISTA

Rua São Pedro, 373 – Sapiranga/RS (51) 3599-2103 | 9963-0516 | 9973-8725 carla@stumpfarquitetura.com.br www.facebook.com/stumpfarquitetura CAU: A10971-1

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017

A arquiteta e urbanista Carla Regina Padilha Stumpf Lippert formou-se em 1984 pela Unisinos, instituição pela qual concluiu pós-graduação em Arquitetura Comercial no ano de 2004. Há 32 anos atua em escritório próprio desenvolvendo projetos de Arquitetura de Interiores e a execução de obras nos segmentos residencial, comercial e industrial. Carla orgulha-se de contabilizar, aproximadamente, 1.000 projetos assinados com responsabilidade técnica e de empregar outros profissionais de arquitetura com o objetivo de melhorar o produto e o acompanhamento das obras.


Passados 25 anos da fundação da agência de seguros, localizada em Sapiranga/RS, os proprietários decidiram que era hora de ampliar a sede da empresa e qualificar os espaços de atendimento ao público. Para o projeto, o casal de empresários contratou a arquiteta e urbanista Carla Stumpf, que já havia desenvolvido outros trabalhos para eles. O escritório existente apresentava ambientes de recepção e salas de atendimento pequenas e improvisadas, com rede de serviços e iluminação deficientes. Como a edificação também abriga a residência dos clientes, a ampliação da empresa teve de ser planejada para a área da frente do terreno. “Expandimos o prédio para o recuo de jardim até o alinhamento e, nesse espaço, adequamos os novos ambientes”, explica Carla, referindo-se à sala de reuniões com equipamento multimídia, lavabo, espaço de atendimento integrado ao ambiente de trabalho, área de coffee break para os funcionários e ao local específico para o sistema de tecnologia da informação. A intervenção somou 36,61m2 à área da empresa, totalizando 94,66m2, e exigiu o planejamento de uma

nova fachada. A arquiteta, então, criou amplas aberturas, com vidros fixos – por questões de segurança – e especificou persianas automatizadas. A segurança era mesmo uma prioridade do projeto, incluindo a instalação de sistemas de monitoramento por câmeras, de alarmes e de controle de portaria. O rebaixamento do forro, em gesso acartonado, facilitou a distribuição dessas redes, assim como dos pontos de iluminação. As luminárias embutidas receberam lâmpadas de LED, que distribuem a luz de forma homogênea e apresentam baixo consumo de energia elétrica. Os pontos elétricos foram readequados e uma nova rede de lógica foi planejada entre as mesas de trabalho. Carla optou pelo uso de revestimento cerâmico de cor clara para o piso e pela pintura das paredes em tons suaves. Para o mobiliário, planejou estações de trabalho, balcões e armários de linhas simples, “discretos e funcionais”. Aberturas envidraçadas entre os ambientes proporcionam sensação de amplitude e de integração. “O conceito é de funcionalidade, conforto e máximo aproveitamento dos espaços, buscando o bem-estar dos funcionários e dos clientes da agência”, afirma a arquiteta e urbanista.

Fotografia Foto Imagem

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+ FOTOS

+ EDIÇÕES

Carlos Jardim Lisete Jardim

ARQUITETOS E URBANISTAS

Rua Mariante, 288/1301 – Porto Alegre/RS (51) 3346-5715 / 9966-2287 jardimarquitetura@terra.com.br www.facebook.com/jardimarquitetura www.jardimarquitetura.com.br CAU: A75700-4 e A5719-3

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017

Carlos Jardim é arquiteto e urbanista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) em 1980. Lisete Jardim obteve a mesma formação pela Uniritter, em 1984. Com mais de 20 anos de atuação no mercado, em parceria, dedicam-se à concepção e à execução de projetos de Arquitetura de Interiores para espaços comerciais, residenciais e corporativos e ao design e à comunicação visual. Em 2012, pelo conjunto do trabalho desenvolvido, eles foram homenageados como “Arquitetos Destaque” pela AAI Brasil/RS.


Pai e filho, ambos médicos ginecologistas, resolveram trabalhar juntos e, dessa união, surgiu uma clínica voltada para saúde da mulher. Com esse novo formato, houve a necessidade de ampliação das áreas de consultórios, visto que outros médicos também atenderiam junto com eles, além do espaço de espera. A solução foi transferir a clínica para dois conjuntos comerciais localizados no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Os arquitetos e urbanistas Carlos Jardim e Lisete Jardim assumiram o projeto de Arquitetura de Interiores para a criação da nova clínica. A primeira medida foi a integração das duas salas, totalizando 68m2 de área. Para tanto, os profissionais determinaram a eliminação de parte da parede de alvenaria e a inclusão de paredes divisórias de gesso acartonado para delimitar os ambientes solicitados. O programa de necessidades previa três consultórios para atendimento simultâneo, com suas respectivas salas de exames; ampla recepção com espera para acomodar até oito pacientes sentados; copa para uso exclusivo dos médicos; local para armazenamento de medicamentos; e um sanitário para público e outro para os médicos. “Foi realizado um cuidadoso estudo

de fluxos e funções de modo a permitir a entrada e saída dos médicos, independente da circulação dos pacientes”, explica Carlos. E Lisete complementa: “assim, conseguimos com que os três consultórios funcionassem simultaneamente na clínica”. Como é inerente a empreendimentos dessa natureza, o projeto de Arquitetura de Interiores foi planejado em acordo com as normas da Anvisa. Assim, os arquitetos priorizaram o visual limpo e a utilização de materiais assépticos, como o piso em material vinílico em rolo, sem emendas, e com rodapé curvo do mesmo material para garantir a limpeza. Para o projeto luminotécnico, a dupla empregou a tecnologia LED, com diferentes intensidades, conforme a função desenvolvida. Uma iluminação mais intensa foi adotada nas salas de atendimento e nas de exames, de modo a favorecer a atividade do médico. Já na recepção, escolheram uma luz suave para a sala de espera e outra direcionada ao painel que expõe o logotipo da clínica. Um rebaixo de forro, em gesso, pontua o local, valorizado pelo contorno com fita de LED na cor azul. O balcão recebeu o mesmo tratamento, evidenciando as linhas horizontais do móvel.

Apoio Marcenaria Duda - Veranópolis

Fotografia Marcelo Donadussi

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+ FOTOS

+ VÍDEO

+ EDIÇÕES

Cristiana Brodt Bersano Micheli da Silveira

ARQUITETAS E URBANISTAS

Av. Iguassu, 119/205 – Porto Alegre/RS (51) 3334-4981 | 9991-1341 | 8110-4320 cbersano@terra.com.br michelidasilveira@gmail.com www.facebook.com/cbmsarquitetura CAU: A26952-2 e A106703-6 Participante do Concurso Imagem da Capa 2017

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017

Formada em Arquitetura e Urbanismo em 1998, pela Ufrgs, Cristiana Bersano obteve na mesma universidade o título de Mestre em Engenharia Civil, em 2003. Desde 1998, atua como docente no departamento de Projeto e no de Orientação de Trabalho de Conclusão de Curso, na FAU/PUCRS, instituição pela qual Micheli da Silveira graduouse em Arquitetura e Urbanismo em 2015. A atuação do escritório tem ênfase em Arquitetura de Interiores nos segmentos residencial, comercial e coorporativo.


Instalar um consultório médico com duas diferentes especialidades em um espaço de 42m2 de um prédio comercial no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Esse foi o desafio assumido pelas arquitetas e urbanistas Cristiana Brodt Bersano e Micheli da Silveira, especialmente porque o imóvel já estava pronto e havia sido entregue sem acabamentos, de forro, piso e paredes, e não apresentava a distribuição das instalações necessárias. Os proprietários, um casal de médicos, são clientes de Cristiana desde 2006, quando ela projetou o apartamento deles. Sala de espera, local para recepcionista, lavabo, copa, área de esterilização, sala para atendimento do gastroenterologista e sala para atendimento da dermatologista interligado com sala para procedimento. Esse era o programa a ser atendido no projeto de Arquitetura de Interiores desenvolvido pela dupla, que envolveu as especificações de revestimentos e de instalações – elétrica, hidráulica, ar condicionado e rede de computadores –, além do detalhamento do mobiliário e da ambientação. A proposta previu a execução de paredes de gesso acartonado para a criação de três salas: duas para os consultórios e uma para os proce-

dimentos. “A subdivisão interna foi feita com paredes em disposição radial para otimizar a ocupação dos espaços”, explica Cristiana. As áreas de copa e de esterilização deveriam ser instaladas em locais independentes, atendendo às exigências sanitárias para estabelecimentos deste tipo. No ambiente de espera, as arquitetas criaram área para atendimento da recepcionista, com balcão em travertino romano, compondo com o tom do porcelanato escolhido para todo o espaço. O mesmo revestimento cobre a parede lateral, executada em gesso acartonado. A marcenaria predominante expressa a imagem de sobriedade e de elegância pretendida pelos clientes. Os tons dos materiais escolhidos estabelecem unidade com a marca do consultório. Todo o mobiliário foi projetado pelas arquitetas, considerando os equipamentos a serem instalados e o melhor aproveitamento do espaço. As cadeiras foram reaproveitadas do antigo consultório dos médicos. A iluminação conta com embutidos no forro, também executado em gesso acartonado, predominantemente com placas de LED.

Apoio Basal Prata Impacto Signs Adesivos Leffa Móveis TNX Administração de Imóveis Ventana Cortinas e Persianas

Fotografia Tânia Meinerz

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+ FOTOS

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Flávia Bastiani

ARQUITETA E URBANISTA

Rua João Abbott, 538/302 - Porto Alegre/RS (51) 9113-0571 flavia@flaviabastiani.arq.br www.facebook.com/flaviabastianiarquitetura CAU: 36443-6

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017

Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2002, Flávia Bastiani concluiu Pós-graduação em Arquitetura Paisagística, pela PUCRS em 2007 e tornou-se especialista em Gestão de Escritórios de Arquitetura (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas em 2015. Atuando em escritório próprio, dedicase ao desenvolvimento de projetos residenciais e corporativos, com ênfase em Arquitetura de Interiores e na Arquitetura Paisagística. Envolvida com os interesses da classe, Flávia é diretora da atual gestão da AAI Brasil/RS.


O casamento estava sendo planejado, e o apartamento precisava ser transformado para o início de uma vida a dois. Localizado no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, o imóvel, novo, era a residência do noivo, fisioterapeuta e professor universitário. Porém, os espaços estavam mal aproveitados, especialmente os da área social. “E sem personalidade”, complementa a arquiteta e urbanista Flávia Bastiani, que assumiu o desenvolvimento do projeto de Arquitetura de Interiores. Ele e a noiva, formada em Psicologia e também professora universitária, estavam de acordo: era preciso tornar o apartamento mais aconchegante, com uma ambientação despojada e alegre - refletindo a personalidade deles. Outros pedidos foram o aproveitamento do mobiliário, complementando com peças novas, como uma mesa de jantar, e a criação de um espaço para home office. Flávia apresentou uma proposta com prioridade na praticidade e no conforto - desenvolvido em dois meses e executado em 30 dias. “A chave do projeto foi a união dos espaços para jantar e home office em uma única mesa com um largo banco junto à ampla janela”, enfatiza. O piso

de porcelanato foi mantido e as paredes ganharam nova pintura. Uma delas recebeu papel de parede, servindo de fundo ao móvel existente, que foi desmembrado e complementado com marcenaria. Na cozinha, a transformação da parede de azulejos em ‘quadro-negro’ encantou o casal. “Foi projetado um rebaixo de forro, em gesso, no qual a iluminação principal foi tratada de forma indireta, conferindo sensação de aconchego ao espaço”, explica a arquiteta. A sanca inversa criada, direcionada para a parede, proporciona conforto visual. Sobre a mesa de jantar, luminárias com lâmpadas de LED e fiação colorida contribuem para o clima despojado. Flávia recomendou uma estrutura divisória para reduzir o acesso à área íntima. Assim, a circulação foi desviada para a lateral, permitindo melhor aproveitamento do espaço. O tom de amarelo dos cobogós foi também pontuado no acabamento, em laca, do nicho projetado no novo painel da TV, conferindo cor ao ambiente. Com o mesmo objetivo, escolheu o tecido estampado utilizado na reforma da antiga poltrona do cliente. Os pufes também foram renovados.

Fotografia Marcelo Donadussi

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+ FOTOS

+ VÍDEO

Gabriela Raymundo Jeanini da Silva

ARQUITETAS E URBANISTAS

Rua Pinheiro Machado, 1.815 – Taquara/RS (51) 3542-6044 studio.gabriela@terra.com studio.jeanini@terra.com.br www.facebook.com/studioarquitetura.arq CAU: A36989-6 e A46210-1 1 o finalista do Concurso Imagem da Capa 2017

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017

Gabriela Raymundo formou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Unisinos em 2003. Três anos mais tarde, Jeanini da Silva graduava-se em Arquitetura e Urbanismo pela mesma instituição. Desde então, as duas atuam em parceria, comandando escritório próprio em Taquara/RS. Além de projetos de Arquitetura de Interiores, a equipe desenvolve e executa projetos residenciais, comerciais e institucionais e de Arquitetura Efêmera.


Quando as obras de construção da residência estavam quase concluídas, os proprietários decidiram iniciar o planejamento dos espaços internos. Assim, o jovem casal contratou as arquitetas e urbanistas Gabriela Raymundo e Jeanini da Silva, a partir da indicação de amigos. Às profissionais, solicitaram o projeto de Arquitetura de Interiores para toda a casa, localizada em Taquara/RS, incluindo todos os projetos complementares, como o de iluminação e o planejamento de forro, em gesso, e a escolha dos acabamentos. De todos os ambientes da casa, o preferido do cliente era o espaço gourmet, para o qual pediu a atenção especial das arquitetas. A proposta era criar um local diferenciado do restante da residência, com um clima descontraído e aconchegante para receber os amigos. “O programa desse espaço foi baseado no desejo do proprietário de uma grande bancada de bar junto a uma churrasqueira, um fogão a lenha e outros equipamentos, como forno elétrico e cervejeira. Além disso, foi solicitado um pequeno estar e uma mesa para refeições”, detalha Gabriela sobre o local, de 31m2. O casal gosta de viajar e de colecionar lembranças dos lugares que visita. Por isso, queriam um móvel espe-

cial para a exposição de objetos e de fotografias. Outra condicionante era tornar o espaço “extremamente prático, mas confortável”. O ponto de partida foi a criação da grande bancada gourmet, uma vez que a posição da churrasqueira já havia sido definida em planta. O volume foi revestido com porcelanato de padrão amadeirado, o mesmo que cobriu o balcão. Para estabelecer unidade visual, as arquitetas selecionaram acabamento semelhante para a marcenaria, também para “deixar o ambiente mais aconchegante”. O preto do mobiliário reforça a proposta contemporânea, e o vermelho - cor preferida do cliente - foi pontuado na cristaleira, na luminária e em objetos decorativos. Para o piso, Gabriela e Jeanini optaram por um porcelanato com aparência de cimento queimado, um tom neutro. No projeto do forro, em gesso, as arquitetas apostaram em uma proposta de desenho plano, com luminárias embutidas sobre a área de trabalho e outras que criam ponto focal sobre as fotografias expostas no painel amadeirado. Um rasgo marca a porta de acesso ao espaço, com entrada independente da casa.

Apoio DR Móveis Sob Medida Latina Haus Saffira Mármores e Granitos

Fotografia Melissa Machado

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+ EDIÇÕES

Gislaine Saibro

ARQUITETA E URBANISTA

Rua Jacinto Gomes, 657/301 - Porto Alegre/RS (51) 9985-6927 gislainesaibro@uol.com.br CAU: 10690 – 9

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017

Diplomada em 1984 na Ufrgs, Gislaine atua em Arquitetura de Interiores há mais de 25 anos. Além de dedicar-se à atividade profissional em seu escritório, é diretora e foi presidente da AAI Brasil/RS e, atualmente, é também diretora do Sindicato dos Arquitetos no Estado do Rio Grande do Sul e conselheira federal do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, sendo segunda vice-presidente. Acredita que “junto à qualidade e competência técnica, é preciso compreender a função social da profissão, valorizar a formação e praticar a coerência na prestação de serviço aos clientes: como resultado, uma enorme satisfação pessoal”.


Projetos executados a distância exigem total sinergia entre os profissionais envolvidos e muita confiança dos clientes no responsável pela operação. Essa foi a fórmula utilizada para este trabalho de Arquitetura de Interiores desenvolvido pela arquiteta e urbanista Gislaine Saibro em São Paulo (SP). “Assumir mais uma obra fora do Estado requer organização e disciplina”, enfatiza ela, que já executou outros projetos para esses clientes em outros imóveis e localidades. Para este apartamento, recém-adquirido pelo casal, a ênfase estava na área social, de 180m2. Além do projeto de Arquitetura de Interiores, com detalhamento completo, era preciso contratar mão de obra local qualificada e corresponsável, além de prever constantes viagens para acompanhar o trabalho. Gislaine contou com a confiança e a empatia dos fornecedores contratados para a empreitada. O maior interessse dos proprietários era conquistar um amplo espaço social, com estrutura adequada para receberem amigos e hóspedes. A personalidade deles deveria estar representada, em ambientes amplos e contemporâneos, valorizando peças de design e obras de arte. Galeria de entrada com lavabo, estar amplo com ambiente para

TV, jantar para dez pessoas, ambiente com lareira; espaço com churrasqueira com mesa para até seis pessoas e apoio com bancada, estar anexo e TV; e cozinha integrada com copa, estavam no programa. Para comportar esses ambientes, a arquiteta previu a incorporação da extensa varanda ao espaço principal com a retirada da esquadria em “L” existente. A área externa foi fechada e o piso foi nivelado e unificado, revestido com porcelanato de aparência cimentícia. Detalhes em paredes foram destacados com revestimento cortein, cujo tom também foi pontuado, em laca, no mobiliário. Um enorme tapete persa em retalhos desgastados amplia o estar, servindo de base para a cor gelo das cortinas e o cinza do veludo dos sofás. O projeto considerou o privilegiado visual panorâmico da cidade e a grande incidência de luz natural. Condicionamento térmico adequado, iluminação com possibilidades variadas e equipamentos de som e de imagem automatizados foram outras solicitações atendidas, assim como o destaque para a coleção nova de fotografias, exposta no espaço do jantar. Esse ambiente ganhou mesa e balcão de apoio em laca branca e cadeiras estofadas em linho.

Fotografia Demian Golovaty

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Hélade de Oliveira Lorenzoni

ARQUITETA E URBANISTA

Rua Prof. Padre Gomes, 141 – Porto Alegre/RS (51) 2111-7479 | 9327-7352 helade@centroin.com.br CAU: A81312-5 e 33.979-2 2o finalista do Concurso Imagem da Capa 2017

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017

A arquiteta e urbanista Hélade de Oliveira Lorenzoni concluiu graduação pela UniRitter em 2013 e logo iniciou especialização em Cenografia, na mesma instituição. Em 2016, concluiu mestrado em Arquitetura e Urbanismo na UniRitter/Mackenzie. Atua no segmento de decoração e design desde 1980, quando começou a trabalhar em uma loja do setor, em Porto Alegre. Nos anos seguintes, criou três empresas: uma loja de vestuário, uma cafeteria e um estúdio de design. Participou de mostras de decoração em Vitória/ES e no Rio de Janeiro/RJ, cidades onde morou. Em 2013, fundou escritório próprio, que este ano obteve registro no CAU sob o nome Hélade de Oliveira Lorenzoni Arquitetura.


“Queremos inserir uma parrillera e uma mesa de bilhar no mesmo espaço de estar”. Ao expressar esse desejo à arquiteta e urbanista Hélade de Oliveira Lorenzoni, o cliente deu o tom da intervenção que seria necessária no projeto de Arquitetura de Interiores a ser desenvolvido para a área social desta residência, na Zona Sul de Porto Alegre/RS. A área de 80m 2, contempla os ambientes de estar, os espaços da TV e do jantar, a cozinha com parrillera, a “biblioteca” e a “sala de jogos” - a partir da readequação do layout. “Esta é uma família itinerante e ‘pedalante’, com ‘pousos’ em diferentes cidades, no Brasil e na Argentina. Há oito anos está assentada em Porto Alegre, mas não esquece nem esconde sua alma nômade; ao contrário, expõe os inúmeros objetos que ilustram sua trajetória e a diversidade de suas paixões”, define Hélade. No projeto, ela teria, então, que valorizar os artigos e o mobiliário que acompanham a família há muitos anos. E considerar que o empresário e seus quatro filhos jovens costumam receber amigos com frequência, o que exigiria a previsão de acomodações para muitas pessoas, em diferentes atividades simultâneas, mas de forma integrada. “O conceito é mix and match”, resume

Hélade, referindo-se ao famoso padrão no mundo da moda, de misturar para combinar. As transformações foram realizadas em etapas. A primeira, há oito anos, foi a criação da parrillera junto à cozinha, integrada ao ambiente de estar. O volume foi coberto por madeira de demolição, material já existente no revestimento da parede principal, da lareira e do piso da área social. “É uma base neutra para servir de fundo para toda a diversidade que o ambiente abriga em termos de mobiliário e objetos”, diz. A madeira de demolição também foi aplicada na base e no tampo da bancada projetada junto à parrillera. Em contraponto, a arquiteta escolheu MDF melamínico preto, fosco texturizado, para armários e estantes. Para a acomodação da mesa de bilhar, este ano, a arquiteta configurou uma “área de jogos”, com apoio de bar e frigobar, onde antes estava a mesa de jantar, pontuada pelas luminárias pendentes já instaladas. Os porta-copos colecionados pela família, foram expostos nesse cenário, valorizados com molduras especiais. À exceção desse ambiente e das áreas de trabalho e cocção, a iluminação indireta predomina.

Fotografia Ana Luíza Chaves Barcellos

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Laline Bittencourt

ARQUITETA E URBANISTA

Rua Marcelo Gama, 1.412/503 – Porto Alegre/RS (51) 3024-3801 / 8444-8058 projetos@lalinearquitetura.com www.lalinearquitetura.com www.facebook.com/LalineArquitetura CAU: A9589-3 Participante do Concurso Imagem da Capa 2017

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A arquiteta e urbanista Laline Bittencourt atua desde 1998 nas áreas de Arquitetura e de Paisagismo, com ênfase em projetos de Arquitetura de Interiores. Formada pela UFRGS, em 1984, desenvolve projetos e também oferece consultorias. A equipe é preparada para dar suporte desde a definição do programa até a implantação e o gerenciamento da obra. Em 2015, conquistou o 20 lugar no concurso Melhores Trabalhos de Arquitetura de Interiores AAI Brasil/RS e o Troféu Imprensa, concedido por jornalistas convidados pela AAI Brasil/RS para o concurso.


Há dez anos, ao folhear o jornal do dia, a proprietária desta casa encontrou a arquiteta e urbanista Laline Bittencourt. Nas páginas do caderno de decoração, viu as fotos de um projeto assinado por ela e logo se identificou com a proposta. Desde então, Laline tem promovido a atualização dos espaços da residência, localizada em um condomínio na zona sul de Porto Alegre (RS). “Primeiro, trabalhamos na suíte da menina, agora universitária, e depois em outros ambientes no pavimento térreo, como gabinete, estar íntimo e adega-despensa”, revela. O setor íntimo tem sido “repaginado” desde 2013, composto por dormitório do filho, o de hóspedes e o estar da televisão. A última intervenção foi na suíte do casal, de 62m2, contemplando dormitório, closet, banheiro e solário. A principal necessidade era a criação de closets individuais para os membros do casal, ambos servidores públicos, mas era preciso, também, renovar o mobiliário do quarto e do banheiro, desenvolver um novo projeto luminotécnico e estabelecer soluções para melhor conforto térmico, prejudicado pelo pé-direito alto e pelo forro de madeira existentes. O ponto de partida foi a integração

da área do solário para transformá-la em closet. Planejado para a cliente, o novo ambiente foi criado a partir da eliminação da antiga esquadria com veneziana. Os próprios armários, com acabamento em laca, cobriram as paredes originais. O outro closet, agora exclusivo do marido, recebeu portas novas de correr, brancas e espelhadas, e trilho eletrificado para melhor direcionamento das luzes. Painéis espelhados revestem toda a parede da circulação entre os ambientes, inclusive a porta de acesso ao novo closet. Em frente à cama, a estante parece flutuar. Com acabamento em laca alto brilho, a estrutura acomoda os equipamentos de TV e de som e prateleiras, nas laterais. Para a parede oposta, Laline especificou papel de parede, explorando as nuances de cinza eleitas para o espaço, compondo com tons de branco e de fendi. Para melhor distribuir a iluminação no ambiente, Laline projetou um forro, em gesso, sob o antigo, de madeira. A solução também qualificou o conforto térmico, reforçado pela aplicação de películas reflexivas brancas nos vidros do novo closet.

Apoio Di Luce Iluminação Móveis Zagonel

Fotografia Carlos Edler

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Marcelo John

ARQUITETO E URBANISTA

Rua Guarani, 20/202 – Canoas/RS (51) 3463-6077 / 9826-0912 marcelojohn@marcelojohn.com.br www.marcelojohn.com.br www.facebook.com/marcelojohn.john CAU: A 41861-7 Vencedor do Concurso Imagem da Capa 2017

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Marcelo John formou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) em 2004. É pós-graduado em Arquitetura de Interiores pelo Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter) e em Arquitetura Hospitalar pela Feevale, e possui cursos de extensão em Decoração de Interiores e em História da Arte. O escritório do profissional atua nas áreas de arquitetura residencial, comercial, corporativa e de interiores, desenvolvendo projetos completos, consultoria e gerenciamento de obras.


Uma proposta pautada pelo “design do século 21”. É assim que o arquiteto e urbanista Marcelo John conceitua o projeto desenvolvido para a área social desta residência, em um condomínio em Novo Hamburgo (RS). “Um espaço de caráter atemporal, sem modismos, com elementos marcantes e peças de qualidade, mas sem excessos”, resume. Por já ter projetado o escritório comercial e a casa de praia do casal de clientes, Marcelo conquistou carta branca para planejar a Arquitetura de Interiores e o Paisagismo do novo imóvel. O profissional iniciou os trabalhos ainda durante a execução das obras pela construtora, o que facilitou a adaptação do projeto arquitetônico original ao de interiores, com a definição de forros de gesso, a paginação dos revestimentos cerâmicos e a criação de novos pontos e circuitos elétricos e hidráulicos. O principal desafio enfrentado foi proporcionar a integração e a fluidez dos espaços na área social, de 150m2, todos integrados: seis ambientes de estar e dois de jantar. O projeto deveria considerar o hábito dos clientes, com duas filhas pequenas, de receber pessoas em casa. “A praticidade era um item recorrente nas

decisões”, enfatiza Marcelo.A padronização dos revestimentos igualmente era fundamental, estabelecendo a unidade visual entre os diversos ambientes. Em frente ao hall, onde está a escadaria revestida em mármore, foi implantado o estar principal, em área de pé-direito duplo. Estofados com tecidos claros e sofás de linhas retas compõem com poltronas Louis XV e Barcelona e com mesas de centro em couro e mármore, sob um imponente lustre com pingentes de cristal. Na sequência está o estar da lareira principal, com painel de mármore striato olímpico revestindo toda a parede principal. No ambiente do jantar, a mesa em laca preta e vidro, para oito lugares, contrasta com o branco da grande cristaleira de madeira com portas de vidro. O envidraçamento total da área social exigiu a adoção de medidas de controle da forte incidência solar. O arquiteto projetou pergolado de madeira com brises para a fachada dos fundos e especificou telas solares para as demais, em persianas motorizadas. O projeto luminotécnico e o sistema de som e de vídeo foram também integrados à automação da residência.

Apoio Andréa Feine - Hunter Douglas Expresso do Oriente Florense Nilo Peçanha Sulina Iluminação ZR Automação

Fotografia Eduardo Liotti

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Tania Bertolucci Delduque de Souza

ARQUITETA E URBANISTA

Av. Taquara, 586/602 – Porto Alegre/RS (51) 3333-3061 tania@tania.arq.br www.facebook.com/arquitetura.taniabertolucci www.tania.arq.br CAU: A 3306-5 3o finalista do Concurso Imagem da Capa 2017

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017

Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Ufrgs em 1977, Tania Bertolucci iniciou sua carreira no escritório Ronaldo Rezende e Mario Englert. Em 1980, formou escritório próprio com foco em Arquitetura de Interiores, residencial e corporativa. Registra participação em diversas mostras do setor e premiações: melhor projeto para dormitórios e closets na mostra Casa & Cia 2007 com o ambiente “Refúgio do Casal” e menção honrosa no concurso Imagem da Capa da AAI em revista - arquitetos 2016.


A renovação da área social desta residência exigiu um processo de execução em etapas. A casa fora construída em 1951 no bairro Santana, em Porto Alegre/RS e apresentava muitos problemas decorrentes da tipologia das edificações daquela época, como umidade excessiva e deficiência de ventilação e iluminação naturais. “Em lotes com pouca profundidade, típicos do bairro, a lógica era ocupar todo o terreno e prever ventilação através de uma área central”, explica a arquiteta e urbanista Tania Bertolucci Delduque de Souza. Por ser cliente do escritório da arquiteta há muitos anos, a confiança da proprietária no trabalho de Tania foi fundamental para o sucesso do projeto. O pedido inicial era pela renovação e atualização do ambiente de estar, mas logo Tania sugeriu a incorporação da cozinha à área social, para maior amplitude, totalizando 57m2. O receio da cliente foi vencido com cuidado e respeito. “Sugerir uma mudança dessa magnitude exige conceituação clara do problema e segurança da solução proposta”, enfatiza. Nesse ponto foi executada uma iluminação zenital no telhado existente, reforçando a incidência de luz natural.

A posição da escada de acesso ao segundo pavimento, em contrapartida, não poderia ser alterada, o que representou outro importante desafio ao projeto, pois esse elemento prejudicava a integração dos ambientes do estar e do jantar. A solução foi tratá-la como um volume escultural, como foco visual no espaço. De madeira, a escada original teve de ser substituída por estar comprometida pelo ataque de cupins. Um novo modelo de escada foi projetado, com estrutura leve, permitindo certa permeabilidade visual. A intervenção previu, ainda, a modificação de paredes e a abertura de vãos para integração dos ambientes, e a atualização dos projetos de iluminação e de condicionamento térmico. Novos rebaixos de forro, em gesso, permitiram maior interferência na luminotécnica. Após a execução de serviço especializado em impermeabilização, todo o piso foi revestido com porcelanato, estabelecendo unidade visual. O mesmo material, mas texturizado, foi aplicado na parede do jantar. Na ambientação, a equipe de Tania seguiu o desejo da cliente pelo uso de cores claras, em uma linguagem leve e atemporal. Móveis novos, de design contemporâneo, foram adquiridos para os espaços.

Apoio Contemporânea Móveis e Decorações Costaneira Premium

Fotografia Carlos Edler

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Arquitetura e Moda: a sinergia entre os universos Criatividade, imaginação, um olhar atento sobre o ser humano e o retrato da época são as peçaschave da possível correlação entre Arquitetura e Moda. A sensível percepção do mundo visual e espacial é algo que os atores desses universos compartilham, assim como a essência da atividade. A proximidade beneficia a todos.

Foto: Leonardo Finotti | Divulgação Play Arquitetura

Na mesma medida em que estilistas inspiram-se na Arquitetura para compor suas criações, arquitetos e urbanistas exploram o mundo da Moda para a definição de conceitos e elementos dos seus projetos. Invariavelmente, e cada vez mais frequente, esses profissionais trocam de papéis, aventurando-se em outro universo, mas nem tão desconhecido assim. O segmento da Arquitetura de Interiores é o mais próximo dessa relação sinérgica, confirmando a inegável associação que reflete o processo criativo contemporâneo, em todas as esferas. Essa constatação é consenso entre os três especialistas consultados pela AAI em revista - arquitetos para essa reportagem.

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“As áreas inventivas se conectam; então, é natural que arquitetos e urbanistas, estilistas, designers e artistas, em algum momento, inspirem-se uns nos outros”, reflete a arquiteta e urbanista Ingrid Etges Zandomeneco, também formada em Moda, com habilitação em Estilismo pela Universidade do Estado AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017


de Santa Catarina, e pós-graduada em Design de Interiores e Iluminação. “Arquitetos e estilistas retroalimentam-se. O fluxo de trocas e de inspirações é multilateral. Não há mais estanqueidade do conhecimento. A linguagem contemporânea é a da complexidade, ilimitada e abrangente”, considera Jum Nakao, designer e diretor de criação, um dos mais conceituados estilistas brasileiros da atualidade. Para ele, Arquitetura e Moda são meras traduções de um tempo. “Em suas especificidades de linguagem, a sinergia encontra-se no objetivo comum de espelhar este tempo. A conexão entre Arquitetura e Moda é o ponto comum entre ambas: o ser humano”, complementa. “Atribuo essa sinergia de uma forma absolutamente simplista: os dois universos bebem da mesma fonte. Não precisa muita sensibilidade para que cada um perceba criatividade e inovação no outro. Renegar isso é fechar-se para o óbvio e trivial”, sentencia Edson Busin, diretor de marketing, pesquisa e desenvolvimento na Unicasa Móveis, fabricante das marcas Dell Anno, Favorita, New e Casa Brasileira. As relações conceituais e criativas entre Arquitetura e Moda são bastante antigas, de acordo com Ingrid. Segundo ela, é possível verificar uma interação desde o surgimento da Moda como fenômeno social, no

final da Idade Média. “Essa época foi carregada de mudanças, questionamentos, racionalidade e desenvolvimento tecnológico, que introduziram o apreço pelas novidades e pela aparência individualizada, em detrimento da essência e tradição”, explica. As produções arquitetônicas e artísticas, em consonância com o que estava sendo criado para as vestimentas, já revelavam sinais de interesse pela ornamentação e pela leveza. “É possível verificar a partir do estilo gótico, e nos que o sucederam - como o barroco e o rococó -, grande semelhança nas linhas, formas e cores utilizadas nas roupas, nos edifícios e interiores”, afirma. Ingrid argumenta que todos os estilos arquitetônicos ocidentais, desde o gótico no século XIV aos tempos atuais, seguiram a Moda e se assemelharam ao vestuário em cores, linhas e formas. “Historicamente, quando a tendência indicava o excesso de informações, como no barroco, tanto edifícios quanto móveis e roupas eram produzidos sob esse prisma, e em geral cores e ornamentos se repetiam por todos estes suportes”, exemplifica. Atualmente, as tendências minimalista e natural estão claramente evidentes na Arquitetura, no design e no vestuário. Jum Nakao alimenta-se da Arquitetura na composição de suas criações. “Acredito no Design Total. Em

todos os projetos, considero o todo para encontrar o sentido das partes. Não isolo as partes que gravitam em torno do objeto, pois uma criação, para ganhar vida, deve dialogar nesse cosmo. A Arquitetura, com certeza, faz parte desse universo”, reforça. Inter-relação salutar O segmento de Arquitetura de Interiores beneficia-se diretamente da Moda e do estilismo, pois possui alguns suportes idênticos ao de vestuário, como tecidos e acessórios, afirma Ingrid. “Itens de armarinho, como tachas, são empregados tanto numa cabeceira de cama como em bolsas e sapatos. Artifícios de modelagem, como pregas, são utilizados no vestuário e em cortinas, almofadas, estofamentos e roupa de cama”, compara. Essa relação também extrapola o espaço interno e é percebida nas edificações. É o caso da loja Coven, em Belo Horizonte (MG). No projeto, o arquiteto e urbanista Marcelo Alvarenga, da Play Arquitetura, inspirou-se no produto à venda para compor a fachada: roupas de tricô. Ele projetou uma malha metálica com trama semelhante a do material têxtil para envolver completamente o sobrado restaurado para abrigar a primeira loja da marca de roupas

As imagens fortalecem a relação entre os estilos arquitetônicos e as vestimentas tradicionais da mesma época. Na página anterior,

Fotos: Acervo arq. Ingrid Etges Zandomeneco

fachada de loja projetada pelo arquiteto e urbanista Marcelo Alvarenga, sob a influência da matéria-prima da marca: o tricô.

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Fotos: Divulgação Jum Nakao | Ateliê Criativo

Uma das peças da linha de aço rendado projetada por Jum Nakao para a A Lot Of em 2010, inspirada na coleção ‘A Costura do Invisível’, apresentada na

mineira. Outro exemplo citado por Ingrid é o do Museu Yves Saint Laurent em Marrakech, projetado pelo escritório francês Studio KO. A fachada de tijolos de terracota faz referência à Arquitetura do Marrocos e cria um padrão semelhante ao de um tecido.

São Paulo Fashion Week em 2004, considerado o desfile da década. “Ao contrário da característica mais perene do suporte da Arquitetura, a linguagem da moda se edifica em um suporte mais acessível e efêmero. Estar atento à moda

O comportamento como diretriz As formas de linguagem, entre elas Arquitetura e Moda, são reflexos das tecnologias, costumes e inquietações de uma época. “Em tempos de superexposição, o espaço da vida privada, home, ganha importância como palco para espetáculo público ou como oásis exclusivo e íntimo”, conceitua Jum Nakao. Para ele, ambos os estímulos - espetáculo público ou oásis íntimo -, fomentam a linha home, onde além das marcas fortes, diversos empreendedores investem nesta nova importância do ‘ritual do habitar’.

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é observar as mudanças da alma para

de meados da década de 1980. “Atualmente, essa estratégia tem sido utilizada cada vez mais, por marcas como Hermès, Fendi, Bulgari, Versace, Christian Lacroix, Karl Lagerfeld e Zara. Além da forte relação com estilistas empregada na Dell Anno e na Tok&Stok, outras empresas desses setores costumam convidar estilistas para desenhar especificamente uma coleção ou peça, como a JRJ Tecidos, Jatobá Revestimentos e Marcus Ferreira”, exemplifica. Jum Nakao apresenta, em seu portfólio, criações para empresas como Tok&Stok, A Lot Of, Dominici e Brastemp.

De acordo com Ingrid, citando o arquiteto e designer de consumo Maurício Queiroz, o fenômeno do lançamento de linhas home por consagradas marcas

A Dell Anno vem, desde 2009, apostando nessa vertente como forma de agregar valor à marca, no con-

do universo fashion começou a ser impulsionado des-

ceito de ‘vestir a casa’. Primeiramente, top models

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capturar o espírito de uma época”, diz Jum Nakao.


Estampa Ashanti desenvolvida pela estilista Priscilla Darolt, da grife brasileira Animale, para a Dell Anno em 2013. A inspiração veio do continente africano,

internacionais como Alessandra Ambrósio, Raquel Zimmerman, Carol Trentini e Izabel Goulart passaram a estrelar as campanhas publicitárias. Dois anos depois, estilistas foram convidados para desenhar padronagens para superfícies, exclusivas, para serem aplicadas nos móveis da marca. A estreia foi com Reinaldo Lourenço, seguindo com a Animale e com Pedro Lourenço. “Eu acredito que a Moda seja um canal de inovação e de perpetuação de um posicionamento. Porém, não é o único e vejo que o importante para uma continuidade não é fazer sempre a mesma coisa. Hoje, felizmente, somos procurados por vários estilistas para criarmos coleções. Então, tudo é possível”, enfatiza Edson Busin, um dos responsáveis por esse posicionamento de mercado da Dell

Anno. A parceria mais recente foi a estabelecida com a estilista Glória Coelho. Inspirada pela física quântica e pela Arquitetura escandinava de John Pawson, Glória Coelho idealizou um madeirado de tonalidade suave e cor clara, batizada de Quantum. A frase criada por ela - “esta placa cura, protege, prospera, dá amor, paz e felicidade” – foi traduzida em códigos binários para impressão dos veios da madeira, com linhas levemente sinuosas. “O padrão se volta para esse conceito intimista, de força de energia e poder do pensamento, mas recebe o tom da Arquitetura e do design pela textura e tons da madeira”, explica Glória. “Depois de conviver com alguns estilistas entendi que eles olham muito para a Arquitetura. Aliás, a Moda é totalmente arquitetônica”, avalia Edson.

Foto: Divulgação Dell Anno

seguindo o conceito animal print.

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A Tok&Stok é uma das pioneiras do setor a convidar estilistas para assinar móveis e objetos para a marca. Nas fotos, em sequência, as peças desenvolvidas pelos estilistas Amir Slama,

Fotos: Divulgação Tok&Stok

Ronaldo Fraga, Alexandre Herchcovitch e Marcelo Sommer.

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017

A Moda tem papel fundamental na identificação das tendências que vão reger os diversos setores criativos, influenciando a especificação de materiais, acabamentos, texturas e cores em mobiliários e revestimentos. “Um exemplo é a cartela anual de cores Pantone, inicialmente muito restrita à aplicação têxtil e agora servindo de suporte para especificação de revestimentos e acabamentos, principalmente para Arquitetura de Interiores, comercial e instalações temporárias”, comenta Ingrid. Assim como na Dell Anno, estilistas brasileiros encontram mercado além do universo fashion. “Alguns exemplos são a estilista Kátia Barros e os designers André Carvalhal e Gabriel Oliveira, da Farm, que assinaram linhas para a JRJ Tecidos; a estilista Adriana Barra, que desenvolveu estampas para o sofá de Marcus Ferreira e pastilhas de cerâmica para a marca Jatobá; além da marca de mobiliário e acessórios para casa Tok&Stok, com os estilistas Jum Nakao, Ronaldo Fraga, Alexandre Herchcovitch, Amir Slama e Marcelo Sommer”, elenca Ingrid. A Bertolucci também vem investindo nessa parceria. A primeira estilista a assinar peças para a marca foi Glória Coelho, em 2010. Com o passar do tempo, arquitetos e urbanistas também foram convidados a desenvolver criações exclusivas, como Guto

Arquitetos e urbanistas também deixam suas marcas no mundo da Moda. Uma das primeiras empresas brasileiras a estabelecer a conexão foi a Grendene, com a linha de sandálias Melissa assinada pelos irmãos Campana, em 2005. Em 2008, a arquiteta iraniana Zaha Hadid assinou modelos para a marca. Três anos mais tarde, foi a vez do arquiteto italiano Gaetano Pesce. “Frank Gehry assinou sapatos masculinos para J. M. Weston, e o arquiteto Diego DelgadoElias projetou anéis de prata em alusão a ferramentas usadas por arquitetos. E isso não é só de hoje: lá em 1934 o arquiteto estadunidense Philip Johnson desenhou seus próprios óculos, produzidos pela Cartier, inspirados em Le Corbusier”, revela Ingrid, pesquisadora do tema.

Requena, Olegário de Sá e Débora Aguiar.

vestir no conceito para contar boas histórias. “É

Quando Arquitetura e Moda são associadas, um produto, um empreendimento e uma marca costumam ganhar valor. É fundamental, no entanto, uma relação de confiança entre quem investe e quem projeta. “Quando confiamos a um estilista a criação de um design de superfície, não temos noção do que possa vir. Por mais que o briefing seja claro, precisamos nos despir de preconceitos e acreditar nas boas ideias”, pontua Edson Busin. Para ele, é preciso in-


possível que todo trabalho se resuma nessa fase. O conceito não e quantificável e, sim, percebido. Chegar a essa percepção de valor já é um objetivo atingido”, avalia o diretor de marketing da Dell Anno.

Fotos: Divulgação Bertolucci

Cruzamento de referências Nesse sentido, toda a criação é beneficiada quando há o cruzamento de referências e um olhar atento, múltiplo. “Essas influências melhoram o repertório do projetista, que pode sair do lugar comum e sugerir propostas inovadoras em sua criação tridimensional, definição de estruturas, volumetrias, texturas, linhas e cores”, diz Ingrid. Na sua opinião, a interface entre os temas pode ser ainda mais e melhor explorada, enriquecendo o processo criativo, com equipes cada vez mais multidisciplinares permitindo-se criar além das áreas de formação. “É possível que haja uma maior diversidade de suportes, como por exemplo a criação de novos produtos e interações entre abrigo e pele,

Criações assinadas por arquitetos e urbanistas para a Bertolucci. Na sequência, as peças projetadas por Olegário de Sá, por Guto Requena e Maurício Arruda, e por Marko Brajovic

morada e veste”, considera. Para Jum Nakao, essa é uma questão estratégica. “As inter-relações se estreitarão pela necessidade cada vez maior de doses cavalares para sensibilizar o público. Um ‘coquetel’ surtirá mais efeito do que princípios isolados”, compara. Quando o trabalho tem um propósito e cada um participa com sua expertise, o resultado é ótimo, frisa Edson Busin. “Se pudesse dar um conselho às indústrias diria: ‘arrisquem mais’ e, com certeza, teremos ideias geniais”, diz ele. A relação de consumo dos produtos e serviços também está mudando rapidamente, com a inovação tecnológica e a crescente tendência de economia compartilhada e o questionamento do desejo por consumismo, levantados no vídeo ‘The Rise of Lowsumerism’, lançado pela Box1824 em agosto de 2015, como cita Ingrid. “O estudo introduziu o conceito definido pelas palavras ‘low’ (baixo) e ‘consumerism’ (consumismo) e indicou que estamos caminhando para novos tipos de economia, sustentável e colaborativa, o que contribui para alterar o modo com que consumimos design. São diversas as possibilidades de interação e boas oportunidades de obtermos melhores serviços, produtos mais interessantes e garantia de maior responsabilidade social, ambiental e econômica. Vem aí um futuro promissor”, afirma, otimista. Arquitetura e Moda ‘sob medida’ para completa satisfação do cliente. Essa é a definição de Jum Nakao, que exemplifica o conceito a partir da sensação descrita por uma menina ao ter seu primeiro vestido sob medida. “Eu me sinto digna”, ela disse. “Creio que ela tenha se sentido como ‘uma princesa em seu vestido’. A Arquitetura propiciaria a ela se sentir em seu ‘castelo’. Conferir dignidade é possível em qualquer ofício”, enfatiza. O maior benefício, para ambos os segmentos numa construção conjunta, é a potencialização do valor das partes. “Quanto mais se entrega, mais se recebe. Projetos que almejem maiores conquistas devem contemplar maiores entregas aos clientes. Integrar Moda, Design e Arquitetura num pacote pode parecer intangível numa primeira análise, assim como integrar câmera, celular, agenda e apps num smartphone parecia intangível no passado”, compara. 43


Jovens Expressões Gaúchas 45


Fotos: Marcelo Donadussi | Divulgação

Ambidestro 46

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Simplicidade a favor da expressividade Interessados por todas as áreas da Arquitetura, os sócios da Ambidestro buscam em seus projetos uma linguagem atemporal e internacional e com conceito minimalista.

O escritório que Raquel Zaffalon e João Pedro Crescente montaram juntos pode ser recente – ele nasceu em 2014, na capital gaúcha –, mas a parceria e a afinidade vêm de tempo. Os amigos se conheceram durante o curso de Arquitetura e Urbanismo na UniRitter e, desde aquela época, já ficavam de olho um no trabalho do outro. O fato de sempre terem empatia no que se refere a estilos arquitetônicos ajudou, e muito, na criação da Ambidestro. Além de estudarem na mesma universidade, eles contaram com a oportunidade de participar de pequenas iniciativas em conjunto antes de decidirem abrir a empresa. A experiência positiva nesses projetos desencadeou o desejo dos dois de unirem forças em um negócio próprio. “A Ambidestro surgiu como uma semente que busca revelar o poder da Arquitetura em todas as suas esferas. Somos apaixonados pelo que fazemos e procuramos desenvolver propostas que aliam simplicidade, funcionalidade e elegância”, relata João Pedro. Para eles, o segredo da boa arquitetura está nos detalhes. E é a partir deles que pretendem expor o real conceito de suas obras, marcadas por uma linguagem atemporal e cosmopolita, priorizando a qualidade de vida de seus usuários. Determinar o foco do escritório é um “problema sério” para Raquel e João Pedro, pois a dupla se interessa por todas as áreas da profissão. Ultimamente, eles têm atuado mais no segmento da Arquitetura de Interiores, tanto resi-

dencial como comercial. “Mas, temos a forte vontade de ampliar a escala e passar a realizar a concepção de edificações”, confessa Raquel. Simplicidade é a palavra que pode descrever os projetos elaborados pela dupla. Tendo o minimalismo como referência, os arquitetos defendem em seus planejamentos a máxima de que “menos é sempre mais”. Com base nessa premissa, eles procuram não se prender a tendências ou modismos. “Tentamos trabalhar com a verdade dos materiais por meio de texturas e superfícies naturais, e apostamos em uma nova definição de luxo: a da simplicidade”, afirma João Pedro. Ter espaço e amplitude é sinônimo de luxo, argumenta, assim como sentir-se confortável em casa com pouco. “E possuir um ambiente funcional e que facilite a circulação”, complementa. A Arquitetura de Interiores, na visão dos sócios, perdeu o devido valor com o passar dos tempos, mas comemoram a mudança desse cenário. Para eles, o futuro desenha-se positivo nesse segmento. Os maiores desafios, avaliam, residem na tradução do briefing feito pelos clientes, a respeito das suas demandas e desejos, e na concepção de um projeto que reúna o que eles chamam de “três palavras mágicas”: funcionalidade, inovação e sofisticação. Na intervenção nesse imóvel, de 185m 2 , os arquitetos pri-

Mergulho no universo do cliente A intervenção no apartamento de um jovem casal, apreciador de arte e de vinhos, foi o primeiro projeto que a dupla desenvolveu pela Ambidestro, em 2014. “Acredito que tivemos muita sorte, porque os clientes possuíam um excelente referencial de arquitetura e, por isso, pudemos explorar o imóvel com mais liberdade”, ressalta João Pedro. Dentre as decisões, ele apostou em referências que obteve no período em que integrou a equipe do arquiteto e ur-

vilegiaram a integração dos ambientes de estar, jantar e cozinha e adotaram uma linguagem atemporal. Dentre os materiais, destaque para a lâmina de madeira natural Cinamomo Aveludado adotada no mobiliário, para o mármore italiano Carrara Dalmata utilizado no balcão e na mesa, e para o piso cerâmico com aparência de concreto.

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Fotos: André Nery | Divulgação

banista Isay Weinfeld, em São Paulo, e que estudou – ainda no período de sua graduação – na Architectural Association School of Architecture de Londres, na Inglaterra, e, mais tarde, na Universidade Técnica de Viena (TU Wien), na Áustria. Como os proprietários gostam de receber em casa, articular o ambiente social em uma planta fragmentada foi o ponto de partida dos arquitetos. Para acomodar adega, churrasqueira, chapeleira e cristaleira, criaram um ‘bloco negro de marcenaria aletada. Multifuncional e destacada no cômodo, a estrutura junta-se a um buffet flutuante. O estilo moderno pretendido foi obtido com o uso de tecnocimento no piso e nas paredes e de couro nas cadeiras e poltronas do estar. E o que poderia ter sido um empecilho acabou revelando-se como um grande acerto: um pilar no meio da sala. Ao invés de escondê-lo, o volume foi incorporado ao projeto, transformando-se em um componente da mesa de jantar.

No primeiro projeto desenvolvido em parceria, os arquitetos assumiram o pilar existente no centro do ambiente do apartamento de um jovem casal, e incorporaram o volume no

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AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017

A maior dificuldade enfrentada pelos arquitetos no início das atividades da Ambidestro foi identificar a

projeto da mesa de jantar. Reforçaram, assim, o conceito modernista da proposta. O “blo-

mão de obra e os parceiros que executassem, com

cristaleira, churrasqueira e adega - a paixão dos clientes.

co negro” de marcenaria aletada, projetado para a entrada do imóvel, reúne chapelaria,


Foto: Marcelo Donadussi | Divulgação

Foto: André Nery | Divulgação Foto: Acervo Ambidestro

excelência, as suas ideias. “É preciso um time qualificado para chegar a um resultado satisfatório”, observa Raquel, também graduada em Administração pela Ufrgs, e com formação em Interior Design pelo Instituto Marangoni, em Milão, Itália. Durante a faculdade, Raquel trabalhou em diversos escritórios de arquitetura, onde adquiriu experiência em gerenciamento de obras e projeto executivo. Os sócios mantêm um carinho por todos os empreendimentos realizados desde a decisão de abrir a Ambidestro. Cada proposta possui um significado diferente para eles, que enfrentam “de corpo e alma” todos os desafios. Mais do que isso, para João Pedro e Raquel os projetos revelam diferentes aprendizados, e ampliam a vontade de aperfeiçoar ainda mais o trabalho e a seleção dos fornecedores com que

atuam para entregar um resultado impecável em todos os sentidos. Ir além da Arquitetura é um dos diferenciais que perseguem. “Mergulhamos no cotidiano deles e procuramos expressar o panorama ideal por intermédio de nossos trabalhos”, explica João Pedro. Um exemplo está no projeto de atualização da residência de um casal de empresários (foto acima). A dupla dedicou especial atenção para atender ao desejo do cliente: expor as 200 peças da coleção de pratos de porcelana azul na área social. Adotaram, então, uma base neutra no espaço para destacar os pratos, e instalaram todos eles em uma mesma parede, junto à escada de acesso ao segundo pavimento, moldada in loco com chapas pintadas em fórmica líquida fosca. Dispostos em camadas, os pratos formaram uma instalação tridimensional.

Priorizando a criação de cenários inusitados e o uso de materiais nobres, Raquel e João Pedro projetam uma arquitetura simples e elegante, capaz de refletir o estilo de vida e as preferências dos clientes. 49


Fotos: Marcelo Donadussi | Divulgação

R4DESIGN 50

AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017


Arquitetura com visão transversal Gestão, design, marketing e sustentabilidade são combinados nos projetos criados pela R4DESIGN, empresa gaúcha que se especializou nos segmentos comercial e corporativo.

As transformações desencadeadas pelo avanço da tecnologia vêm modificando não apenas a forma como as pessoas se relacionam e buscam informações, mas também a maneira como elas consomem, trabalham e utilizam os espaços, impactando diretamente no modo de pensar o projeto arquitetônico. Essa acelerada transformação do comportamento contemporâneo representa, para os arquitetos e urbanistas Marcelo Cunha e Francisco Groch, sócios da R4DESIGN, um dos principais desafios da Arquitetura voltada para os setores corporativo e de varejo, foco de atuação da empresa com sede em Porto Alegre e abrangência nacional. Compreender e equilibrar o aparente contraponto entre a perenidade da arquitetura e a velocidade de uma vida cotidiana cada vez mais interativa e digital, é o caminho que está sendo tateado pelos empresários para atender às demandas e aos comportamentos atuais dos consumidores e usuários dos ambientes corporativos. “A nossa visão de Arquitetura tem que estar aberta para ampliar e discutir essas questões. Não posso querer levantar paredes e construir espaços demasiadamente estáticos se a necessidade dos clientes hoje é muito mais flexível e dinâmica”, observa Marcelo. Nesse contexto, os pontos comerciais mudam seu significado e passam a ser lugares de conhecimento dos produtos, de relacionamento com a marca e de entregar algo diferente do que é oferecido por

meio do ambiente digital. “As lojas precisam entregar experiências relevantes, que recompensem e sejam pertinentes para o cliente, indo muito além de somente facilitar o consumo”, pondera Francisco. Assim como no varejo, os ambientes de trabalho estão passando por reformulações para se adaptarem ao universo sem fios, onde os funcionários não estão mais presos a uma mesa, podendo exercer suas funções de qualquer parte, e para receber a nova geração de colaboradores, que procura companhias que ofereçam lugares confortáveis, mais relaxados e que possibilitem a troca de ideias e oportunidades. “As empresas estão percebendo esses movimentos e deixando seus espaços mais humanizados e funcionando como um hub, um polo de atração. Tudo isso influencia o desenho dos mobiliários e das áreas internas das corporações”, salienta Francisco. Ao mesmo tempo em que a tecnologia é um desafio para os arquitetos, ela configura-se como uma grande oportunidade para o desenvolvimento de soluções diferenciadas. A sustentabilidade e a inclusão social são outros campos em potencial para a Arquitetura, na opinião de Marcelo, considerando a construção de prédios e lojas com eficiência energética e acessibilidade universal. “O uso da ferramenta BIM (Building Information Model) também deve transformar o mercado, permitindo um entendimento melhor e mais completo dos clientes sobre os projetos e um controle maior sobre prazos, otimizando as obras e reduzindo o retrabalho”, acredita.

Em parceria com o time de Arquitetura e Visual Merchandising das Lojas Renner, a R4DESIGN criou o projeto da unidade da rede do bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, con-

A R4DESIGN nasceu em 2001, quando os colegas da Faculdade de Arquitetura da Ufrgs Marcelo Cunha, Francisco Groch, Leonardo Blumm e Marlon Braga aproveitaram uma greve prolongada da instituição para participarem de um concurso para estudantes, promovido pela Docol Metais Sanitários. O resultado foi a seleção das duas propostas apresentadas e a

solidando a crença da empresa na vitalidade do comércio de rua. Revestimentos em madeira, luz natural abundante e um charmoso pátio-jardim marcam o empreendimento, com linguagem contemporânea e atemporal. O pórtico central executado em ACM (chapas de alumínio composto), destaca-se na fachada, praticamente sem interferir na estrutura original preservada da edificação.

certeza de que deveriam abrir uma empresa juntos. 51


Fotos: Marcelo Donadussi | Divulgação

A fabricante de assentos corporativos Cavaletti S/A, cliente da empresa há nove anos, marcou presença na Movelsul 2016, em Bento Gonçalves (RS), com um espaço projetado em sintonia com as características do produto lançado. A tela translúcida foi adotada para o fechamento espacial, com o interesse de despertar curiosidade do público para descobrir e explorar o espaço interno, e assim ampliar o relacionamento com a marca.

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No entanto, logo direcionaram as atividades para os universos corporativo e o varejista, segmentos que, além do lado criativo, envolvem processos, gestão e marketing. “Sempre tivemos a vontade de estudar como a Arquitetura pode transformar os negócios”, ressalta Marcelo e complementa: “atuando para pessoa jurídica, a arquitetura é uma atividade meio e não fim, pois os nossos clientes querem vender ou ter um bom ambiente para os seus colaboradores e, com isso, obter retorno do investimento”. Prazos curtos, uma rotina diária de entrega de materiais e um grande volume de projetos em andamento marcam o ritmo de trabalho da R4, que atende, entre outros em-

Mobiliário colaborativo desenvolvido para a Nöoma, nova unidade de negócios do grupo WTEC da qual a R4DESIGN envolveu-se em todo o processo, da fase de pesquisa à discussão estratégica sobre o posicionamento e o mix de produtos.

preendimentos, redes de varejo que estão constantemente atualizando suas unidades e inaugurando outras. “Temos uma visão transversal na maneira de pensar as propostas, que transcende a Arquitetura e combina negócio, sustentabilidade, racionalidade construtiva, experiência em obras e implantação. São fatores que nos possibilitam dar uma resposta mais assertiva para quem nos contrata”, diz Francisco. Em busca da pergunta certa A associação entre a Arquitetura e o Design permite, na opinião dos dois, criar soluções mais relevantes e envolventes para os usuários, empregando ainda recursos do design gráfico e de produtos. “E isso é desafiador. O olhar sistêmico e contínuo do Design nos traz um olhar sempre renovado, que complementa os projetos”, considera Francisco. A cada novo trabalho, os sócios realizam uma imersão na empresa do cliente para entender sua cultura organizacional, seus valores e o seu comportamento. A partir de então, procuram a pergunta certa a ser respondida por meio da arquitetura e do design. “Cada empresa possui uma mensagem da marca para passar ao seu público e isso acaba refletindo no espaço físico planejado. Todos os detalhes de uma loja devem comunicar essa informação aos seus consumidores”, explica Marcelo.

A equipe da R4DESIGN, formada por arquitetos e designers. A empresa foi fundada em 2001, em Porto Alegre, por Marcelo Cunha, Francisco Groch, Leonardo Blumm e Marlon Braga. Ao completarem 15 anos de atividades, os sócios anunciam a expansão da empresa para a Capital paulista.

Fotos: Guilherme Barrela | Divulgação

“No começo, como ainda erámos universitários, prestávamos serviços para outras empresas de Arquitetura”, recorda Marcelo. Um dos primeiros trabalhos profissionais da R4DESIGN foi uma residência em Erechim/ RS, para um cliente do segmento industrial. “Primeira e única”, brinca Francisco. A casa levou quatro anos para ser concluída, mas já refletia questões que passaram a fazer parte do DNA da R4, como racionalidade processual; linguagem mais pura e ‘silenciosa’, de síntese; e a preocupação com o aproveitamento da luz e da ventilação naturais, ou seja, com a sustentabilidade da construção.

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Fotos: Juliano Mendes | Divulgação

Tríptica 54

AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017


Preciosismo nos detalhes Criatividade e inovação marcam os projetos das sócias da Tríptica Arquitetura, na cidade gaúcha de Santa Maria. O trio somou diferentes aspirações e expectativas para criar um escritório que funciona em perfeita sintonia.

Assim como as obras de arte compostas por três pinturas distintas que conectadas parecem ser uma só, a Tríptica Arquitetura nasceu da vontade das arquitetas e urbanistas Anelise Rigon, Daiana Fagundes e Francine Franciscatto de unirem as suas experiências para oferecer projetos que alinhassem qualidade à satisfação dos clientes. A Universidade Federal de Santa Maria foi o cenário onde elas se conheceram. Naquela época, entre 2004 e 2008, o convívio era estritamente acadêmico, com pouca afinidade pessoal. A aproximação fortaleceu-se após a formatura, e a conclusão de pós-graduações, depois de cada uma mergulhar no mercado profissional. Com personalidades, expectativas e sonhos distintos, a Arquitetura entrou na vida das sócias de maneira variada. Enquanto para Anelise o interesse surgiu logo na infância; para Daiana, a descoberta veio por meio de testes vocacionais que a levaram para um mundo totalmente desconhecido. Para Francine, foi o contato com o pai engenheiro e com as plantas baixas das obras que a influenciaram. Apesar das histórias diferentes, a harmonia entre elas revela-se nos trabalhos que realizam em conjunto, que primam pela criatividade e pela inovação. Atuando nas áreas residencial, comercial, de interiores e de edifícios institucionais, o escritório destaca-se pela elaboração de propostas exclusivas para cada desafio lançado, assim como pelo preciosismo nos detalhes e

atendimento individualizado. “Valorizamos a boa Arquitetura e procuramos ser referência em Santa Maria nesse segmento, com muita seriedade profissional”, comenta Francine. Saindo ‘fora da caixa’ Apresentar ideias novas é uma constante desde o primeiro trabalho: o projeto de Arquitetura de Interiores de uma loja de móveis planejados em sua cidade. “Queríamos sair dos padrões em nossas concepções”, recorda a arquiteta. Francine lembra ainda que a maior dificuldade enfrentada nessa ocasião foi adaptar as modulações e acabamentos dos produtos ao conceito proposto. Mas, o retorno não poderia ser melhor. Além dos 20 ambientes montados na unidade, elas conquistaram a satisfação do proprietário, que considerou que a intervenção da Tríptica agregou valor à marca. Desde então, foram muitas as iniciativas concretizadas pelo escritório e que são consideradas pelas profissionais como marcos na trajetória da empresa. Uma delas é o projeto da Due Fratelli, um espaço comercial de 900m2 que apresentava um extenso programa de necessidades: abrigar restaurante, padaria e confeitaria. Para essa demanda, elas fizeram vários estudos de fluxos, dimensionamentos das áreas e visitaram empreendimentos nesses segmentos para entender como funcionava a logística. Importante também foi a elaboração de uma edificação de uso multifamiliar, de nove andares e 28 apartamentos. Nesse processo, elas participaram de todas as fases, da criação do nome do prédio até o desenho da placa do empreendimento. “O interessante é a bagagem que ganhamos. São muitos aprendizados em cada criação ou estudo de tipologia”, salienta Daiana. A criação e o planejamento de uma identidade única e reconhecível para a farmácia de manipulação Dermapelle é outro exemplo representativo da produção das profissionais.

As fotos mostram ambientes da sede do escritório, e revelam as características de criatividade e inovação valorizadas pelas sócias. Implantada em um amplo terreno, a edificação foi erguida no sistema steel frame (estrutura de aço), assegurando uma construção leve e econômica.

Dentre os projetos residenciais, elas destacam a atualização dos espaços de um apartamento para um 55


Fotos: Juliano Mendes | Divulgação Alguns dos projetos, marcos da trajetória do escritório, executados em Santa Maria: os trabalhos de Arquitetura de Interiores de uma farmácia de manipulação, com espaços específicos e altamente tipificados; e de uma ampla loja de conveniências, com restaurante, padaria e confeitaria.

casal de idosos. Elas realizaram uma profunda pesquisa para adaptar os cômodos à realidade de seus clientes. “Respeitar as suas origens, o programa, as necessidades específicas e prever eventuais dificuldades futuras foi muito importante para alcançar uma concepção correta. Por isso, as instalações deveriam ser similares as de uma área de assistência à saúde, porém completamente adequadas a uma arquitetura residencial, confortável e charmosa”, explica Anelise.

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Tendência mundial O tempo é visto pelas três como a principal barreira a ser vencida quando se fala de Arquitetura de Interiores. Segundo elas, as propostas nessa área exigem

dução até o atendimento ao cliente. “Descrever todas as etapas envolvidas é outra dificuldade, pois é difícil para quem contrata um arquiteto entender o processo completo. Tudo parece tão simples e rápido de acontecer, só que o procedimento não é tão mecânico e industrializado como pensam”, argumenta Francine. Tanto ela como Anelise e Daiana acreditam que o profissional precisa assumir muitos papéis, além do dele, para compreender o seu contratante. “Um desafio animador é a busca constante por inovação, tendências e tecnologias, o que nos mantêm atualizadas”, reforça Daiana. Para elas, a Arquitetura de Interiores vem ganhando cada vez mais espaço no mercado nacional. “Sentimos que é um segmento em permanente

mundial”, defende Anelise. A busca por mais funcionalidade e diferencial estético nas moradias, aliada ao tamanho reduzido dos apartamentos - que exige um maior planejamento dos ambientes - e à “desconstrução da aura elitista do trabalho do arquiteto”, têm levado a uma procura maior por profissionais da área. Em Santa Maria, avaliam, o constante lançamento de empreendimentos – apesar da crise anunciada – abre novas oportunidades para os arquitetos e urbanistas que atuam em Arquitetura de Interiores. E vem dos anos 1950, das antigas fábricas de Nova Iorque, o conceito industrial que tem sido adotado pelo escritório nos projetos mais recentes. “Pisos e paredes de cimento queimado, alvenaria exposta,

muitas horas de dedicação, desde a concepção e pro-

valorização e que se configura como uma carência

tubulação elétrica aparente e madeira de demolição

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A arquiteta e urbanista associada Camila Melgarejo com as fundadoras da Tríptica Arquitetura: as arquitetas e urbanistas Daiana Fagundes, Francine Franciscatto e Anelise Rigon. E os ambientes do apartamento projetado para um casal de idosos,

dão aquele aspecto despojado que, ao contrário do senso comum, envolve muito planejamento”, detalha Francine. O design gráfico também tem inspirado o trabalho das arquitetas, com a utilização de padrões geométricos, em azulejos, no mobiliário, em estampas e em papéis de parede. Ao ser aplicada em tons vivos, a geometria acrescenta um ar divertido aos ambientes, acreditam as sócias. Já em distintas nuances de cinza e associado a materiais mais formais, como cimento e madeira, ela confere aos espaços um aspecto mais sóbrio e moderno, permitindo maior flexibilidade e variedade às propostas, conforme o perfil e os interesses dos clientes.

Fotos: Juliano Mendes | Divulgação

priorizando conforto e segurança.

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Entrevista 59


Foto: Renato Elkis | Divulgação 60

AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017


Foto: Bruno Netto | Divulgação

Compartilhar para crescer A arquiteta e urbanista gaúcha Camila Klein vem trilhando uma trajetória de consolidação no mercado paulista. Entre projetos de Arquitetura de Interiores e colunas semanais para as revistas Quem e Casa Vogue, faz questão de compartilhar experiências. Para ela, a divisão é, asseguradamente, uma soma.

Arquitetura + moda + arte + movimento = Camila Klein. A arquiteta e urbanista gaúcha, nascida em São Sebastião do Caí, faz dessa composição a essência da sua personalidade, do seu trabalho. Isso não quer dizer que suas decisões de projeto sejam baseadas na ‘ditadura do universo fashion’. São, sim, influenciadas pelo mood (expressão originada no mundo da moda para significar algo como ‘estado de espírito atual’) que desperta emoções. “Bom gosto nem sempre é o que a moda está ditando. Bom gosto é saber o que você prefere e conseguir transpor isso no projeto”, reforça. Há quase uma década atuando em carreira solo em São Paulo, Camila apresenta um porfólio variado de projetos, pontuados pela leveza e pela precisão que

persegue em suas propostas. Entre plantas e projetos, ainda abre espaço para compartilhar experiências nas colunas semanais produzidas para as revistas Quem e Casa Vogue. O convite surgiu logo após ter concluído a repaginação dos escritórios da Vogue, da Glamour Brasil e da Condé Nast, esse último concluído em apenas 45 dias, entre projeto e obras, apesar dos 1,5 mil m2 de área total. Aliás, esse é o seu lema: compartilhar para crescer. A convite da AAI Brasil-RS, Camila esteve em Porto Alegre em meados de 2016, na reunião-almoço comemorativa aos 15 anos da AAI em revista - arquitetos, e fez questão de dividir com os colegas os desafios e as oportunidades que vivencia na profissão: “aliei a expertise do mercado de São Paulo à cultura que levei daqui. Esse

O projeto de Arquitetura de Interiores deste apartamento, em São Paulo, pensado para um casal de médicos que gosta muito de viajar. Com uma proposta atemporal, de base neutra, Camila buscou traduzir um ‘estilo do presente e futuro’.

casamento entre o ser e o executar deu supercerto”. 61


No desenvolvimento do layout, Camila Klein priorizou a organização dos vãos em eixos de circulação, livres e delimitados, desde a entrada até a varanda, a qual foi

Foto: Bruno Netto | Divulgação

integrada com o espaço social e com a cozinha.

AAI em revista - Como a Arquitetura passou a fazer parte da sua vida? Camila Klein - Eu escolhi essa profissão sem ter histórico algum em família. Desde criança, gostava de brincar de casinha de boneca e, especialmente, de montá-las. Minha mãe, percebendo o meu gosto e minha personalidade, disse que uma boa carreira para seguir seria a da Arquitetura.

Camila - Eu sempre gostei de sair dos padrões convencionais, seja de vida ou estilo. Portanto, eu tive a ideia de fazer algo diferente e que agregasse algum sentido para quem fosse depois ver meu trabalho. Dessa forma, decidi sair um pouco do padrão que meus colegas faziam. O desafio maior era entender tudo que estava em volta daquele tema que não faz parte do nosso dia a dia. Assim, passei dias dentro de uma penitenciária feminina para saber como tudo funcionava: desde o início da manhã, passando 62

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Foto: Renato Elkis | Divulgação

AAI em revista - Seu trabalho de conclusão de curso, na Faculdade de Arquitetura da Unisinos, foi o projeto de uma penitenciária feminina. O que a motivou?


pela hora do almoço, analisando o relacionamento das detentas, e até como dormiam. Foi muito desafiador, e tudo que me desafia, me dá mais estímulo para fazer e da melhor forma. AAI em revista - Esse trabalho rendeu o convite para trabalhar na Secretaria de Segurança Pública. Camila - Sim. Após o trabalho, fui convidada a trabalhar na Secretaria de Segurança do Estado para projetar penitenciárias femininas no Rio Grande do Sul. Foi nessa fase que eu recebi o convite para trabalhar em São Paulo e, por isso, não ingressei na carreira de ‘arquiteta de penitenciárias’.

Foto: Mariana Orsi | Divulgação

AAI em revista - A arquitetura de Ruy Othake foi a sua principal inspiração ainda durante a faculdade.

O que mais a atraía no trabalho dele? Camila - O que mais me atraía no Ruy Ohtake era a facilidade de se comunicar com as pessoas por meio das formas inusitadas, as orgânicas. Sempre sonhei trabalhar com ele. Sempre achei uma pessoa à frente no tempo porque ele fugia dos padrões convencionais de arquitetura e construção. Lembro que, no período de faculdade, assisti a uma palestra dele e fiquei encantada. Naquele dia, coloquei como meta trabalhar um dia com ele, o que deu certo. AAI em revista - Como você conseguiu realizar esse sonho? Camila - Estava em São Paulo, com um grupo de amigos, e surgiu a oportunidade de fazer uma entre-

vista no escritório do Ruy Ohtake, que foi um pedido meu pra um dos meus conhecidos com quem eu fazia projetos. Com isso, eu pedi um teste. Considero que mais uma vez eu me desafiei, já que não sabia como seria o teste e o escritório. Felizmente, tudo deu certo e eu passei. AAI em revista - Quais foram seus aprendizados no período em que trabalhou com ele? Camila - Trabalhei com Ruy por um ano, e a experiência foi muito importante e motivadora. Aprendi como ter um desenho de excelente qualidade, que é o que eu prezo no meu escritório, e a como seguir cronogramas e prazos, ou seja, ter maior profissionalismo. Não é só criação, é execução e implementação.

A partir de uma paleta específica de cores neutras solicitada pelos clientes - cinza, bege, preto e branco - a arquiteta planejou o projeto de Arquitetura de Interiores para ampliação e atualização dos espaços deste apartamento, também na Capital paulista. “Eles adoram armários, e queriam que tudo o que fosse possível estivesse embutido, para um visual limpo”, diz Camila. 63


Herança centenária da família, o quadro de origem alemã tinha de ser incorporado ao projeto e destacado na composição. A obra foi exposta no espaço do jantar, instalada no painel de fórmica Ameixa Negra que reveste a maior parte das paredes da área social, em um nicho específico iluminado por fitas de LED. No mesmo ambiente, mesa, cadeiras e lustre com design contemporâneo.

AAI em revista - Você está em São Paulo há 12 anos, desde que se formou em Arquitetura e Urbanismo. Quando decidiu montar escritório próprio? Camila - Meu primeiro escritório surgiu por intermédio de um convite para começar a trabalhar para uma grande incorporadora de São Paulo, há nove anos. E a gente trabalhou pelo Brasil inteiro, com lançamentos imobiliários, o que me deu bastante experiência e entendimento de público. Trabalhamos de Norte a Sul, falando com todos os públicos possíveis e imagináveis, sobre desejos diferentes, budgets e propostas de vida. AAI em revista - E como foram os primeiros trabalhos em carreira solo? Foto: Mariana Orsi | Divulgação

Camila - Os primeiros trabalhos foram mais difíceis. Coisas que eram para ser mais rápidas, no momento da execução tornaram-se mais lentas, para que pudesse sair tudo com precisão, o que sempre foi o mais importante pra mim.

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AAI em revista - O universo da moda tem forte relação com o seu trabalho, com a sua experiência. Como essa conexão acontece no dia a dia do seu escritório? AAI EM REVISTA ARQUITETOS 2017


Camila Klein: “Na Arquitetura, minha referência é Zaha Hadid, uma pessoa que mantinha um feminismo discreto dentro dela, mas sempre foi muito arrojada nas linhas e cores - o que é parecido comigo.”

Na composição da grande área de lazer integrada por living, terraço e jantar, o desafio foi estabelecer a unidade visual sem comprometer a identidade de cada espaço. Tecidos leves e de fácil limpeza, como linho e algodão, foram prioriza-

Fotos: André Mortatti | Divulgação

das, nas cores neutras preferidas pelos clientes.

Camila - Eu acredito muito em mood. Isso reflete na sua forma de querer se vestir e, automaticamente, na sua casa, já que tem dias que você quer uma luz mais forte ou mais clara, dependendo do seu humor.

ideias e experiências. É isso que podemos seguir: conceitos.Na moda, para mim, a principal estilista é a Glória Coelho. Na Arquitetura, minha referência é Zaha Hadid.

AAI em revista - No seu trabalho, o que a inspira?

AAI em revista - Você falou sobre compartilhar experiências na reunião-almoço da AAI Brasil/RS. Esse é o seu lema?

Camila - Eu sou uma pessoa que não segue tendências. Porém, existem vanguardas, e isso é algo que sigo em meus projetos. Muitas vezes podem ser inspirados em um desfile ou em detalhes. Lojas, como a Dior, não vendem apenas produtos, mas valores,

Camila - Tenho o compartilhar como lema porque ele significa mostrar e crescer, o que, para mim, é muito bacana. 65


Artigos 67


Outras capitais

Maria Alice Junqueira Bastos Arquiteta, crítica e historiadora de arquitetura, d o u to r a p e l a Fa c u l d a d e d e A r q u i te t u r a e Urbanismo da Universidade de São Paulo (2005), com pós-doutorado na FAU da Universidade Presbiteriana Mackenzie (2010-2012). Autora dos livros: Brasil: arquiteturas após 1950, em coautoria co m R u th Ve rd e Ze i n ( P e r s p e c tiva , 2 01 0); Königsberger Vannuchi: Duo Alto de Pinheiros (C4, 2009); e Pós-Brasília: rumos da arquitetura brasileira (Perspectiva /Fapesp, 2003). Possui capítulos e artigos publicados em diversos livros e revistas, no Brasil e no exterior.

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O Brasil é muito grande. É assunto recorrente nas visões panorâmicas, resumos e apanhados da arquitetura feita no país o protagonismo, em especial, de São Paulo, e, um pouco menor, do Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, eventualmente com ausência absoluta de um ou outro dos estados da Federação. Mas essa não tem sido a única ausência: muitas vezes, não se reconhece na coletânea de obras criteriosamente selecionadas para representar a produção contemporânea nacional, a arquitetura que efetivamente conforma as ruas das cidades brasileiras.

nessa direção tenham maior repercussão, com isso, a ideia passa a pontuar justificativas de obra e acaba tornando-se premissa teórica de novas arquiteturas.

A crítica de arquitetura, como sua criação, está inserida em seu tempo, e fala a partir dele. O meio arquitetônico é uma fluida conexão internacional que se relaciona por meio de sites, revistas, congressos, seminários e estabelece uma teia móvel em que as teorias se movimentam, algumas passam de maneira breve, outras se estabelecem e frutificam e começam a reverberar em diferentes níveis. Hoje, a importância que tem assumido o tema da preservação ambiental, da conservação e recuperação de paisagens naturais

Num mundo cada vez mais urbano, a avaliação e produção da arquitetura parecem estar inextricavelmente ligadas à cidade. Uma cidade que, desde as últimas décadas do século passado, vem sendo (re) valorizada pelas possibilidades entrevistas na acumulação de pessoas, de serviços, de informação, de edifícios de diferentes tempos históricos, de um ambiente propício às trocas e ao contato com a arte. Na medida em que essa cidade almejada decorre da cidade real, da cidade histórica, daquela construída ao longo dos anos com o consórcio de muitos, a arquitetura que nela se insere há que ser pensada como intervenção no existente, de forma que o meio físico, no caso o ambiente construído, não seja tomado como suporte, mas como objeto da arquitetura. Nesse sentido, a intervenção contemporânea poderia ser percebida como uma cunha que se infiltra na paisagem urbana com um potencial transformador por indução em seu entorno próximo, atuando em com-

e urbanas faz com que as arquiteturas que apontam

posição com o existente.


Museu das Minas e do Metal/Paulo Mendes da Rocha

A “composição com o existente” parece ser um motivo comum em muitas das intervenções contemporâneas. Quanto mais óbvia e contrastada é essa “composição”, por exemplo, na recuperação e revitalização de arcabouços antigos, ou na integração das favelas à cidade formal, maior tem sido o reconhecimento do meio nas premiações arquitetônicas dentro e fora do Brasil. Palacetes ecléticos, instalações fabris e portuárias, antigos incineradores, antigos presídios, são limpos, recuperados, acrescidos de eventuais anexos ou ampliações, abertos a jardins (se possível) e ocupados com novos usos, no mais das vezes ligados à cultura. O esforço humano presente na construção das favelas é pragmaticamente cooptado, conexões com a cidade formal são cuidadosamente criadas visando à integração, as demolições são restritas às áreas de risco e, em substituição, poucos blocos novos acrescidos. Para além das questões de preservação e recuperação ambien-

dade urbana. Dentro de uma sensibilidade plástica que se compraz no contraste entre o ordenado e o espontâneo, entre o novo e o velho, entre o industrial e o artesanal.

tal, essas iniciativas apontam para a ansiada quali-

brio natural, ainda que no coração da cidade.

Ou entre o vazio e o construído. A noção de um jardim ou parque urbano pressupõe uma brecha, uma abertura no tecido construído. A recuperação de rios urbanos e suas orlas, a ideia de parques lineares (como a recuperação de mananciais na metrópole paulistana), são desenhos de vazios no tecido urbano que não podem ser lidos dissociados das regiões em que se inserem. Nos parques urbanos, a contraposição entre o natural e o criado é explorada com a valorização da recuperação de trechos de ecossistemas naturais (como a reconstituição dos manguezais na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro), trechos que passam a ser interditos ao usufruto direto de pessoas e ao trato humano, idealmente atingindo seu equilí-

Fotos: Floriano Marcondes Machado | Divulgação

e Pedro Mendes da Rocha, Belo Horizonte, 2006/2010

Centro Cultural Parque das Ruínas/Ernani Freire AA, Rio de Janeiro, 1995/1997

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toricamente, interfaces com a arte, facilidades e conveniências de comércio. No entanto, a maior parte de uma cidade é formada por uma arquitetura corrente, de edifícios comerciais e residenciais que forma um grande pano de fundo. A construção coletiva da cidade é feita cotidianamente a partir do lote individual e com certa dose de autonomia frente ao entorno. Num cenário em que a ideia de composição com o existente parece tornar-se inoperante. Mas, mesmo nessa grande obra coletiva, eventualmente, haja brecha para uma mudança de conduta. “A maior parte (63%) dos próximos lançamentos de imóveis residenciais em São Paulo vai estar a até 1 km de estações de metrô operantes, em construção ou anunciadas. (...) Hoje já se pode dizer que uma característica do século 21 é que o cidadão habitará cada vez mais a cidade como um todo, ou seja, seus serviços, suas potencialidades de emprego, educação etc.” 2 Essa análise, se acurada, pressupõe um adensamento de bairros consolidados,

aliás seguindo o que se julga mais sustentável ambientalmente. O editor da revista Summa +, Arquiteto Fernando Diez tem observado 3 a transformação e adensamento de bairros consolidados pelo que chama de infiltrações, que seriam intervenções em escala relativamente pequena, de adaptação e convivência com o existente, antes que de tábula rasa. Esse adensamento por “infiltrações”, ou seja, com a manutenção parcial do tecido, e a intervenção contemporânea completando a ocupação da quadra ou verticalizando o miolo de quadra, parece ser mais uma forma de composição com o existente: “esta outra cidade, frequentemente abandonada e doente, pode se recuperar dando lugar a uma outra rede de lugares que são como malhas superpostas, capazes de regenerar o tecido urbano”.4 No Brasil, embora em número restrito, incorporações de que participam os próprios arquitetos, têm privilegiado a localização em bairros relativamente centrais e consolidados, são empreendimentos que valorizam o es-

Foto: Floriano Marcondes Machado | Divulgação

Foto: Maria Isabel Bastos | Divulgação

É possível entender na mesma chave da composição com o existente, a inserção de redes de infraestrutura na malha urbana, especialmente aquelas ligadas à mobilidade, e a crescente valorização que têm tido no meio arquitetônico. “Após alguns anos ofuscada pelo predomínio do urban design entre os arquitetos, a atenção às redes de infraestrutura urbana ressurgiu com força na segunda metade da década de 1990 (...). De lá para cá, ampliam-se nas revistas de arquitetura a presença de equipamentos relacionados às infraestruturas de transportes urbanos projetados por arquitetos”.1 O Brasil nunca teve tantos carros particulares, ao mesmo tempo, nunca foi tão clara a ideia de que, especialmente nas grandes cidades, o transporte público sobre trilhos é condição básica da qualidade urbana. O estabelecimento de rotas de fluxo fixo e o desenho de suas interfaces são exemplos, por excelência, de composição com o existente. As estações de transbordo podem proporcionar vistas da cidade, travessia de grandes avenidas, ligação entre trechos urbanos apartados his-

À esquerda: Estação das Docas /Paulo Chaves Fernandes e equipe; Rosa Kliass Arquitetura Paisagística, Belém/PA, 1996/2002 À direita: Parque Cantinho do Céu/Boldarini Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, 2008/2010 (1ª etapa) 70

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Fotos: Floriano Marcondes Machado | Divulgação Parque da Juventude/Rosa Kliass, São Paulo, 2003/2005 Arquitetura: Aflalo&Gasperini.

Museu das Artes e Ofícios/AF&T Associados, Belo Horizonte, 2002/2005, visualmente integrado à Estação Central do Metrô de Belo Horizonte

Passarela da estação Cidade Nova do Metrô / JBMC

tar na cidade, em terrenos relativamente pequenos e sem áreas comuns, quer seja em Belo Horizonte (Edifício Montevidéu 285, Carlos Teixeira, 2007-2010) ou Porto Alegre (Edifício Amélia Teles 315, Ricardo Vellinho Ruschel, 2010-2012). Em São Paulo, também como exceção, empreendimentos imobiliários têm buscado oferecer “a cidade” ainda que em terrenos difíceis, de formato irregular e, muitas vezes, ocupando meios de quadra (Edifício 4x4, Gui Mattos, 2007-2008; Edifício Fidalga 772, Andrade Morettin, 2008-2011; Edifício W305, IsayWeinfeld, 2007-2010).

Arquitetura e Urbanismo, Rio de Janeiro 2008/2010

Pode a noção de ‘composição com o existente’ chegar a ser entendida como um motivo condutor (de 71


Fotos: Floriano Marcondes Machado | Divulgação Estação e passeio de Manguinhos/Jorge Jauregui, Rio de Janeiro, 2009/2012 Elevação da via férrea para integração das comunidades.

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parte) da arquitetura contemporânea? Eventualmente sim. Trata-se de uma noção que tende a refrear os excessos formais, especialmente em meios complexos, como o são, em boa parte, os ambientes urbanos no Brasil. Assim, a variedade é dada antes pelas distintas particularidades do meio, que gera diferentes amálgamas com a intervenção contemporânea. Essa, por sua vez, só cria ressonância frente ao meio se oferece um contraponto, no mais das vezes, propondo uma intervenção abstrata, com materiais contemporâneos e, mesmo, acatando uma clara ordenação: marcação estrutural, modulação. De forma que, não parece descabido observar a abstração formal e o

vanguardas modernas, que têm comparecido na produção contemporânea, como estratégias de qualificação e transformação da paisagem urbana.

emprego de formas associadas à arquitetura das

de perímetros que se ajustam aos espaços urbanos

Talvez seja possível traçar um paralelo entre a maneira como a arquitetura contemporânea se infiltra por uma antiga construção ou por um trecho de cidade e a maneira como atua sobre os tipos modernos. A novidade se instala por meio da conservação, da adaptação, do uso renovado de antigas soluções. A marcação do esqueleto estrutural, a modulação, a distinção entre elementos portantes e de fechamento convivem com movimentações de fachada decorrentes


A qualidade urbana é um desafio pendente nas cidades brasileiras, que compartem em diferentes escalas infraestrutura deficiente, rios e córregos poluídos, carência de áreas verdes, exorbitância de fios elétricos e escassez de bons conjuntos edificados.

Eventualmente uma arquitetura erudita interessada de maneira mais humilde na cidade, que se adapta a seus interstícios, que valoriza e tira proveito de espaços urbanos compostos por construções de diferentes épocas históricas, que convive com a falta de ordem das ocupações espontâneas e com as construções comuns que povoam os tecidos urbanos terá maior possibilidade de influir, com o tempo, no conjunto urbano edificado.

À esquerda: Edifício 4x4/Gui Mattos, São Paulo, 2006/2008 À direita: Edifício W305/Isay Weinfeld, São Paulo, 2007/2010

Fotos: Floriano Marcondes Machado | Divulgação

disponíveis, de soluções mistas, de particularidades do entorno, de diferentes materiais de fechamento que buscam uma adequada inserção na quadra.

Este texto decorre da pesquisa de pós-doutoramento da autora: uma investigação das bases teóricas da arquitetura contemporânea, Brasil: 1990-2010. Pesquisa desenvolvida na FAU da Universidade Presbiteriana Mackenzie, com supervisão da Profa. Dra. Ruth Verde Zein e bolsa de pesquisa da Fapesp.

1 ANELLI, Renato. Plano e conformação da base da metrópole: redes de mobilidade paulistanas. Porto Alegre: Marca Visual, 2011, p. 9. 2 CALDANA, Valter. “Mercado reage a um cidadão mais integrado à metrópole” em Folha de S. Paulo, Cotidiano, 10 de novembro de 2012. 3 DIEZ; CORTI; DI PECO; KOMMERS WENDER E SORIA. “Estratégias de aglomeração e convivência” em Summa + n. 120, março, 2012, pp. 26-7. Também “Grande vs Pequeño em Summa + 113. 4 BAK GORDON, Arquitetos, Memorial do Autor em Summa + n. 120, março, 2012, p. 4. 73


Arquitetura, uma das narrativas que nos representa

Hélade de Oliveira Lorenzoni Arquiteta e urbanista. Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Mackenzie/UniRitter

Vamos falar de valores. Tão transitórios que variam de época a época. O que é valor em um momento, em outro deixa de ser. Assim, levados por esse conceito fugaz, que se alterna de sociedade para sociedade, de tempo para tempo, muitas mulheres foram queimadas em fogueiras, outras decretadas ao exílio social por se divorciar, e algumas segregadas por decidir legislar sobre o próprio corpo – e, infelizmente, isso ainda acontece. Houve dias que não podíamos mostrar as canelas, nem usar calça comprida. Hoje isso mudou, mas muitas mulheres ocidentais continuam, a seu modo, ‘queimando sutiãs’, defendendo ideias que nem sempre comungam com as ideias da maioria. O valor é assim, um bem social e, como a sociedade, variável. Muda conforme o tempo. A Arquitetura também é atingida pela mudança de valores. Uma edificação representa, em um primeiro momento, o Zeitgeist. Representa o sentimento de quem a projetou ou para quem foi projetada. Como estamos falando de valores, a Arquitetura também representa o sentimento de uma sociedade em uma determinada época. Assim como as mulheres,

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há casos em que a Arquitetura adianta-se ao seu tempo e, em um primeiro momento, não é compreendida e até refutada. Há também os casos em que a Arquitetura representa exatamente o Zeitgeist, e como esse é transitório, pois vive e representa o presente, o agora - que amanhã já será passado – tende a ser rejeitada, substituída no futuro pela nova moda. Muitas vezes é demolida, como um secreto desejo de apagar rastros e esconder as escolhas que um dia nos representaram. Aprendemos com nossos erros e acertos. É o processo que nos ensina. Demolir uma obra arquitetônica de origem erudita ou popular, bonita ou não, pois o belo é subjetivo, pode se considerar uma tentativa de apagar o caminho que nos trouxe até aqui. Sem saber quem somos, fica difícil tomar decisões e traçar uma rota a seguir. A Avenida Independência, em Porto Alegre/RS, entre tanta diversidade construtiva, apresenta um conjunto arquitetônico que conta nossa história, a história dos porto-alegrenses e a história das pessoas que passam por ali. E conta de diversas maneiras. Conta como construíamos em fins do Século XIX e


Foto: Ana Luiza Chaves Barcellos | Divulgação

O encantador rendilhado em ferro fundido dos balcões, representantes de uma tecnologia que marcou época com a produção do ferro em grande escala a partir da Revolução Industrial.

início do Século XX e representa os valores daquela sociedade. De fato, toda a avenida, desde seu surgimento até hoje desenvolve um importante papel na cidade, pois é uma das principais rotas de ligação do centro, matriz da capital, com os bairros da zona norte do município. É e foi uma avenida fundamental no crescimento da cidade. Abriga muitos caminhares, muitas histórias, desde seu estabelecimento. Abriga também a minha história. Desde meus verdes anos, passo por essa avenida. Ia ao edifício Bom Pastor, onde morava uma amiga, ou cruzava em direção ao bairro Moinhos de Vento, para encontrar a galera. Já nessa época, os casarões chamavam minha atenção. O rendilhado em ferro fundido dos balcões de algumas casas me encantava. Naquele tempo, não pensava neles como representantes de uma tecnologia que marcou época. Os balcões eram parte de meu presente, ilustravam meu andar, e isso bastava. Hoje sabemos que essa arquitetura de nomenclatura Eclética surgiu junto com a Revolução Industrial, advento da modernidade e do emprego do ferro produzido em grande escala, uma 75


Fotos: Ana Luiza Chaves Barcellos | Divulgação

das principais contribuições. Contribuição essa que mudou o rumo da Arquitetura, pois propiciou o avanço na tecnologia e em novas formas de se construir. O movimento eclético surgiu na Europa, onde começou a se propagar com maior ênfase a partir do Século XIX e marcou a transposição de uma sociedade predominantemente agrária e artesanal para uma sociedade urbana e industrial, determinando a ascensão da classe burguesa e a alternância no poder. No Brasil, diferente da Europa, o movimento eclético foi adotado pela classe que representava o poder. Apesar da mudança no cenário político, a cúpula governista republicana, uma aristocracia rural, seguia a mesma desde os tempos dos antigos governos e regimes. Na República brasileira, principalmente os governistas sulistas adotaram a filosofia de August 76

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Foto: Ana Luiza Chaves Barcellos | Divulgação

Comte, cujos princípios, entre outros, defendiam a ideia de que a única forma de conhecimento verdadeiro é o científico. Isto determinou e influenciou os elementos adotados na ornamentação das edificações do período, carregados de significados simbólicos. Constituiu-se em uma arquitetura erudita praticada, na maioria das vezes, por profissionais europeus aqui chegados devido a políticas imigracionistas que incentivavam a vinda de mão de obra estrangeira e encomendada pelas elites - diferente da arquitetura colonial, de tecnologia simplificada e praticada pela mão de obra escrava. Grande parte das edificações da Avenida Independência datadas do início do Século XX e que apresentam mistura de vocabulário arquitetônico já foi demolida ou encontra-se em ruínas. Uma perda para a cidade. Uma perda para a população. Essas edificações representavam os valores porto-alegrenses da época de sua construção. Precisamos aprender com eles e não sentir vergonha deles. Apresento aqui alguns dos exemplares que ainda encontramos em Porto Alegre, como a Casa Godoy, na Avenida Independência, 456, projeto do arquiteto Hermann Otto Menchen, um dos mais belos representantes de arquitetura Art Nouveau construída na cidade. Ainda seguindo os moldes do urbanismo colonial, foi construída no alinhamento e junto às divisas do lote. A riqueza de detalhes é observada, com ornamentação em motivos da flora e fauna e formas orgânicas, além de motivos icônicos e simbólicos, como a ave que adorna o topo da mansarda. A edificação construída no alinhamento, e que se estende de divisa a divisa, apresenta fachada assimétrica e se distribui em dois pavimentos principais, além de porão alto e sótão. A casa foi adquirida, depois de pertencer a outros proprietários, pelo Dr. Jacintho Godoy, que lhe empresta o nome. O porão alto foi ocupado por ele como consultório, um bom exemplo de morar e trabalhar, que está novamente adotado na atualidade. A porta principal, à esquerda na fachada, em madeira e ornamentada

Casa Godoy: projeto do arquiteto Hermann Otto Menchen, um dos mais belos representantes de arquitetura Art Nouveau construída na cidade. Nos detalhes das fotos, desta e da página anterior, a riqueza das ornamentações.

por linhas sinuosas, conta com vitral em vidro colorido. O balcão em alvenaria ornamentada por hibiscos denuncia o principal cômodo da casa, o estar, lugar de reuniões sociais. A edificação apresenta platibanda adornada, uma das características principais do período e uma constante na maioria das residências do conjunto inventariado. O Palacete Argentina, na Avenida Independência, 867, é Arquitetura eclética “na veia”. Construída em 1901, no alinhamento, conta com recuo lateral da divisa, permitindo a visibilidade da tridimensionalidade da edificação. As laterais trabalhadas apresentam composição de linguagem eclética, com predominância de elementos que remetem aos períodos Clássico e Barroco, ao invés de empenas cegas. Platibanda decorada com balaústres, monograma e vasos. A mudança no Código de Posturas Municipais resultou na proibição do deságue das águas pluviais no passeio. Os beirais coloniais foram substituídos pelas platibandas, as quais, por sua vez, foram possibilitadas pela importação de calhas em zinco de ferro galvanizado da Europa, produzidos em escala industrial. Esses elementos não faziam parte da arquitetura do Brasil colônia. O emprego de vitrais nas aberturas, balcão em ferro fundido, entrada principal deslocada para a lateral da construção, denunciam mudança na constituição do partido arquitetônico. O afastamento das edificações das divisas do lote é uma das características das casas jardim, “casas de porão habitável com jardins do lado, características de século XIX” (REIS FILHO. 2010.p.16) e que aqui no Brasil apresentaram inicialmente arquitetura de estilo eclético no início do Século XX. Esse novo posicionamento em relação ao lote confere maior ventilação e iluminação à edificação e vem ao encontro dos ideais higienistas da época, que procuravam conferir maior salubridade às construções. Em Porto Alegre, a administração de José Montaury (1897/1924), pertencente ao Partido Republicano Riograndense (PRR), adotou o lema: “Sanear, Circular e Embelezar”. Nos tempos coloniais, as edificações se esta77


Fotos: Ana Luiza Chaves Barcellos | Divulgação

beleciam no alinhamento, e de divisa a divisa, sem recuo lateral em relação aos limites do lote, o que determinava uma arquitetura de pouca iluminação natural e ventilação prejudicada. O palacete, depois de seu uso residencial, abrigou uma escola, o Grupo Escolar Argentina, que hoje lhe empresta o nome. A casa eclética de número 568 está em estado deplorável de ruína. Essa edificação foi projetada em 1913 por Hermann Menchen para o Sr. Manoel Álvaro Soares. Possui dois pavimentos e a fachada é colada nas divisas do lote. Está estruturada em base, corpo e coroamento. A base apresenta porão alto, onde se localiza a entrada principal, também no alinhamento, circundada por ornamentos em argamassa adossados. A porta é de madeira almofadada trabalhada e vidro. A base também conta com outra abertura, maior, localizada abaixo do balcão. O corpo apresenta balcão com guarda-corpo em ferro fundido. Volutas em argamassa ocultam a estrutura que lhe garante o balanço. As aberturas principais apresentam verga curvilínea, em nítida adoção das formas 78

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que começaram a ser empregadas no Art Nouveau. O coroamento da edificação apresenta platibanda decorada, perfurada e com florão. É ornamentada com guirlandas e apresenta duas cabeças, que remetem a Mercúrio, ou a Atena, pelo elmo que ostentam. Mercúrio, simbolicamente representa o comércio, e Atena, a deusa da sabedoria. A fachada não apresenta composição simétrica. A porta principal está destacada em um eixo vertical encimado por uma pequena platibanda. A hierarquia é definida pelo eixo maior que contém o balcão, as maiores aberturas e o florão na porção superior da platibanda vazada. O ritmo também não é observado. Vale ressaltar que o Sr. Hermann é o mesmo projetista da Casa Godoy, exemplar Art Nouveau de Porto Alegre, e trabalhou na empresa Ahrons. Responsável por grande parte do conjunto eclético edificado em Porto Alegre, a firma de Rudolph Ahrons marcou época. O engenheiro e seu sócio, João Vicente Friederichs, no início do Século XX, inauguraram a era Ahrons contribuindo para a reformulação da fei-


Foto: Ana Luiza Chaves Barcellos | Divulgação

ção açoriana que ainda vigorava na maioria das edificações dessa época, nessa Capital. O engenheiro Ahrons diplomou-se na Alemanha e ao voltar para o Brasil foi convidado a lecionar na Universidade Técnica, q u e o rigin o u a Fa culd a d e d e En g e n h a ria d a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Montou um escritório com Friederichs, que, assim como o parceiro, foi para a Alemanha estudar arte na cidade de Colônia. Na sociedade, Ahrons se encarregava de contratar os arquitetos e Friederichs os escultores. A empresa estabeleceu parceria com renomados arquitetos/construtores da época, entre eles Theo Wiederspahn e Otto Menchen. Sob o comando de Friederichs, atuaram, entre outros, os escultores Alfred Adloff e Frederico Pellarin, Jesús Maria Corona, Franz Radermacher, André Arjonas, Luís Sanguin, Alfredo Staege, Giuseppe Gaudenzi, Wenzel Folberger, Fernando Corona e Victório Livi. Há um conjunto com mais de vinte casas inventariadas. E o inventário pode ser o primeiro passo para a preservação. Mas é pouco e há muito trabalho a fazer. Na Europa, já há algum tempo e ganhando força no presente, há movimentos de preservação de prédios representativos da cultura local. A revitalização de uma edificação do Século XVII pela Fendi, em Roma, que hoje abriga loja da marca e um hotel de poucos e exclusivos quartos, é um exemplo de parceria de sucesso. Se a mentalidade da maioria dos brasileiros ainda é a de colônia, de seguidores e não de construtores de cultura, ao menos façamos como sugere Amy Cuddy em seu depoimento na TED, Fake it till you make it: imitemos o que os europeus fazem com louvor. Vamos revitalizar a arquitetura das edificações representativas de nossas cidades, pois elas contam, sim, quem fomos, independentemente de quem as projetou. E, falando em valores, talvez esse seja um dos caminhos que colabora na construção da identidade dos brasileiros e valora o que somos. Mesmo mudando conforme o tempo.

Casa eclética, em estado deplorável de ruína.A edificação foi projetada em 1913 pelo arquiteto Hermann Menchen. Na página anterior, registros do Palacete Argentina, também de arquitetura eclética, construída em 1901.

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CAU/RS Mais Perto de você Em outubro de 2016, o CAU Mais Perto rodou seus primeiros quilômetros. Foram os primeiros passos de um projeto que começou a ser elaborado meses antes com o objetivo de aproximar o Conselho de todos os arquitetos e urbanistas e empresas do Rio Grande do Sul.

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Ensino Superior e associações locais, bem como a valorização dos profissionais e da Arquitetura e Urbanismo, com a divulgação das competências e atividades do Conselho, orientações à sociedade e representação institucional junto a órgãos públicos.

A meta é entrar 2017 em atividade plena, contando com vans customizadas, veículos de apoio e equipes especializadas para Atendimento e Fiscalização. O programa visa prestar os mesmos serviços que os profissionais e empresas encontram na sede do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS), localizada em Porto Alegre.

“O CAU Mais Perto é uma ferramenta que deverá aproximar o Conselho de todas as cidades onde haja profissionais de Arquitetura e Urbanismo”, defende o Presidente em Exercício do CAU/RS, Joaquim Haas. Vinculado à Comissão de Exercício Profissional, “o projeto é ousado e promete, ao longo de um ano, contemplar todos os 497 municípios gaúchos”, destaca o conselheiro Oritz Adriano Adams de Campos.

Além disso, figuram entre os objetivos do CAU Mais

Foi dada a largada para o CAU Mais Perto. Em breve,

Perto promover a aproximação com Instituições de

o CAU/RS vai estar mais perto de você.


Arquitetura de Interiores em evidência Fundada em 1987, a AAI Brasil/RS é a primeira e única entidade do Brasil exclusivamente de arquitetos e urbanistas que atuam em Arquitetura de Interiores. Por considerar a dimensão de sua responsabilidade, elegeu a valorização da atividade e a mediação do profissional com o mercado, a sua grande missão. Reconhecida por promover a atualização profissional, bem como a sua representação política junto às demais entidades da área, a AAI Brasil/RS reúne, em sua essência associativa, a proximidade, o convívio, a troca de experiência e a coerência em tudo o que faz. Entre as atividades de destaque, atua como referência no meio acadêmico, promovendo palestras em universidades sobre gestão de escritórios e cobrança de honorários; na defesa profissional, com participação ativa nas discussões relacionadas ao exercício profissional em todas as esferas; e realizando seminários, workshops, viagens técnicas, e outros eventos dirigidos aos associados, com a missão de oferecer oportunidade de qualificação, atualização profissional e aproximação com o mercado. Em 2017, serão três décadas de pioneirismo e protagonismo na Arquitetura de Interiores, elevando a atividade ao patamar de reconhecimento que merece.

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