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a “Espanha das três culturas”, conviviam muçulmanos, cristãos e judeus desde o século XIII, alternando épocas de maior ou menor intransigência político-religiosa. De lá, partiram no século XVI cristão-novos, conversos, cripto judeus e judeus para o Brasil com os colonos portugueses, como os primeiros povoadores da América Portuguesa. Durante a ocupação holandesa, vieram os “judeus portugueses de Amsterdã”, espalhando-se pelo nordeste brasileiro. As vantagens econômicas e estabilidade de vida religiosa desfrutadas pelos “judeus portugueses de Amsterdã”, estimularam cristãos-novos clandestinos a estabelecerem as bases da Congregação Kahal Kadosh Zur Israel – Sagrada Comunidade Rochedo de Israel (1637) no Recife e, pouco tempo depois a Congregação Maguen Abraham, na ilha de Antônio Vaz. Por volta de 1641, foi concluída a construção e em 1642 recebem o Rabino Isaac Aboab da Fonseca, da Holanda, com o professor Moisés Raphael de Aguillar. Na prospecção arqueológica destacou-se o poço original da época, que alimentava a mikvah (piscina destinada banho de purificação espiritual) confirmando que as atuais casas da Rua do Bom Jesus (antiga Rua dos Judeus) são aquelas que foram construídas no terreno onde antes existira o prédio anteriormente descrito. A Sinagoga Kahal Zur Israel, a Primeira Sinagoga das Américas ressurge no cenário histórico do Recife a partir de 2000, como novo lugar de memória histórica. As fronteiras do tempo desfazem seus limites em favor de um retorno à história das paisagens e personagens que outrora circulavam pelo mundo do açúcar nos engenhos e pelas áreas do Recife Antigo, Olinda e Camaragibe, através da Rota Judaica de Pernambuco ora apresentada. Dra. Tânia Neumann Kaufman

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A Ponte Maurício de Nassau é parte da Rota Judaica. Foi construída pelo engenheiro judeu, Baltazar da Fonseca, contratado pelo Príncipe Maurício de Nassau, para ligar Recife e Maurícia. Iniciada a obra em 1642 e festivamente inaugurada em 1644 foi a primeira ponte de grande porte do Brasil e a mais antiga da América Latina. Sofreu várias reformas até ser reconstruída, em 1917, em concreto armado.

El Puente Maurício de Nassau es parte de la Ruta Judía. Fue construido por el ingeniero judío, Baltazar da Fonseca, contratado por el Príncipe Maurício de Nassau, para conectar Recife y Maurícia. Iniciada la obra en 1642 y festivamente inaugurada en 1644 fue el primer puente de gran tamaño de Brasil y el más antiguo de América Latina. Sufrió varias reformas hasta ser reconstruido, en 1917, de concreto armado.

The Maurício de Nassau Bridge is a part of the Jewish Route. It was built by Jewish engineer Baltazar da Fonseca, who was hired by Prince John Maurice of Nassau, to connect Recife to Maurícia. The works began in 1642 and the bridge was opened with a celebration in 1644. It was the first large Brazilian bridge and the oldest in Latin America. It was renovated several times until it was rebuilt with reinforced concrete in 1917.

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Na casa do judeu português Duarte Saraiva, os judeus livres do período holandês faziam “esnoga”. Único prédio na atual Rua do Bom Jesus, cuja fachada preserva as características originais, representa marca significativa desse passado: a convivência pacífica com as diferenças. Lá, os judeus decidiram iniciar a construção da Primeira Sinagoga das Américas: Kahal Zur Israel.

En la casa del judío portugués Duarte Saraiva, los judíos libres del período holandés hacían“esnoga”. Como único edificio en la actual Calle del Buen Jesús, cuya fachada mantiene las características originales, representa una marca significativa de ese pasado: la convivencia pacífica con las diferencias. Allí, los judíos decidieron iniciar la construcción de la Primera Sinagoga de las Américas: Kahal Zur Israel.

At the home of Portuguese Jew Duarte Saraiva, the free Jews from the Dutch period used to make “esnoga”. As the only building in the current Rua do Bom Jesus whose facade keeps its original features, it stands as a major landmark: peaceful coexistence with differences. There, Jews decided to start building the First Synagogue of the Americas: Kahal Zur Israel.

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No interior da Sinagoga, a principal representação do sagrado é a Arca da Aliança. Aron Ha-kodesh para os ashkenazitas ou Heichal para os sefaraditas. Nela, são guardados os rolos manuscritos da Torah, e está sempre colocada na parede voltada para Jerusalém tendo uma cortina (parochet) cobrindo as portas.

En el interior de la Sinagoga, la principal representación de lo sagrado es el Arca de la Alianza. Aron Ha-kodesh para los askenazi o Heichal para los sefarditas. En el arca están guardados los rollos manuscritos de la Torah, y está siempre colocada en la pared orientada hacia Jerusalén y tiene una cortina (parochet) que cubre las puertas.

Inside the Synagogue, the main representation of the sacred is the Ark of the Covenant. Aron Ha-kodesh for Ashkenazi or Heichal for the Sephardi Jews. There, handwritten Torah scrolls are stored and it always faces the wall towards Jerusalem, with a curtain (parochet) covering the doors.

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Ner tamid é uma lâmpada de óleo, perpetuamente acesa diante da arca simbolizando a luz espiritual que a Casa de Israel tem a missão de difundir pelo mundo.

Ner tamid es una lámpara de aceite, encendida perpetuamente delante del arca, simbolizando la luz espiritual que la Casa de Israel tiene la misión de difundir por el mundo.

Ner tamid is a sanctuary oil lamp with everlasting light that shines before the ark and symbolizes the spiritual light that the House of Israel has the mission to spread around the world.

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Hoje, caminhando pela Rua do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus, fica o sentimento de “ouvir” o canto do Lecha Dodi na Sinagoga Kahal Kadosh Zur Israel chamando a comunidade para o encantamento de receber a “noiva” como é considerado o acolhimento do shabat.

Hoy, caminando por la Calle del Buen Jesús, antigua Calle de los Judíos, permanece el sentimiento de “escuchar” el canto del Lecha Dodi en la Sinagoga Kahal Kadosh Zur Israel llamando a la comunidad para el encantamiento de recibir a la “novia” como se considera la acogida del shabat.

Today, walking through Rua do Bom Jesus, formerly known as Rua dos Judeus, you feel like you can “listen” to the Lecha Dodi song in the Kahal Kadosh Zur Israel Synagogue, calling the congregation to the thrill of welcoming the “bride,” as the shabat is accepted.

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Segundo uma das gravuras de Franz Post (1645) que ilustra a Vila de Olinda havia um reduto de pedra nomeado Excubiae Iudeorum ou Casa de Guardas dos Judeus. Situado sob o monte de Olinda, era um fortim sem entrada, com acesso por escadas portáteis protegida por um canhão. Os holandeses o chamavam Jodenwacht ou Steene reduit.

Según uno de los gravados de Franz Post (1645) que ilustra la Villa de Olinda, había un reducto de piedra llamado Excubiae Iudeorum o Casa de Guardias de los Judíos. Situado bajo el monte de Olinda, era un fortín sin entrada, con acceso por escaleras portátiles protegido por un cañón. Los holandeses lo llamaban Joden wacht o Steenereduit.

According to one engraving by Franz Post (1645) that illustrates the Vila de Olinda, there was a stone niche called Excubiae Ludeorum or Jewish Guardhouse. Underneath the Olinda hill, this fortress had no entrance and could only be accessed by using portable ladders, which were protected by a cannon. The Dutch called it Jodenwacht or Steene reduit.

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Branca Dias e Diogo Fernandes usavam também uma casa em Olinda, na Rua dos Palhaes, onde Branca estabeleceu em 1550 uma escola pensionato para meninas e moças com a ajuda de suas filhas mais velhas. Foram estas muitas das denunciantes de suas práticas judaizantes no Engenho Camaragibe e na Casa em Olinda.

Branca Dias y Diogo Fernandes también usaban una casa en Olinda, en la Calle dos Palhaes, donde Branca fundó en 1550 una escuela y pensión para niñas y muchachas con la ayuda de sus hijas mayores. Fueron éstas muchas de las denunciantes de sus prácticas judaizantes en el Ingenio Camaragibe y en la Casa de Olinda.

Branca Dias and Diogo Fernandes also occupied a home in Olinda, at Rua dos Palhaes, where Dias established a boarding school for girls and ladies in 1550 with the help of her eldest daughters. Many of these exposed her judaizing practices at the Camaragibe Plantation and the House at Olinda.

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Engenho Camaragibe. Centro espiritual dos cristãos-novos no século XVI. Liderados por Diogo Fernandes e sua mulher Branca Dias, os judaizantes da terra “esnogavam”. Chegavam às luas novas de agosto, em carros enfeitados para celebrar o Yom Kippur e outras cerimônias do calendário judaico, cujos significados ficaram guardados na reserva mental de cada um deles.

Ingenio Camaragibe. Centro espiritual de los cristianos nuevos del siglo XVI. Liderados por Diogo Fernandes y su mujer Branca Dias, los judaizantes de la tierra “esnogaban”. Llegaban a las lunas nuevas de agosto, en carros decorados para celebrar el Yom Kippur y otras ceremonias del calendario judío, cuyos significados permanecieron guardados en la reserva mental de cada uno.

Engenho Camaragibe. A spiritual center for New Christians in the 16th century. Lead by Diogo Fernandes and his wife Branca Dias, the Judaizers of the land used to make “esnoga.” The new moons of August came in cars adorned to celebrate the Yom Kippur and other ceremonies of the Jewish calendar, whose meanings were mentally kept by each one of them.

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“Terra das Sinagogas”. Assim era conhecido Camaragibe do século XVI. No Engenho ficaram vestígios de um passado vivido pelos judeus na clandestinidade para se esconderem de “deuses estranhos”. No recinto privado da Casa Grande e, provavelmente, também na Capela conta-se que eles alternavam os serviços religiosos cristãos e judaicos.

“Tierra de las Sinagogas”. Así era conocido Camaragibe en el siglo XVI. En el Ingenio quedaron vestigios de un pasado vivido por los judíos en la clandestinidad para esconderse de “dioses extraños”. En el recinto privado de la Casa Grande y, probablemente, también en la Capilla se cuenta que ellos alternaban los servicios religiosos cristianos y judíos.

The Land of Synagogues.That was how Camaragibe was known in the 16th century. At the Plantation, there were remnants of a clandestine past that Jews used to experience to hide from the “strange gods.” In the private room of the homestead and, probably, the Chapel as well, people say that they alternated between Christian and Jewish religious services.

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A imagem da moenda lembra a posição do Engenho Camaragibe entre os cinco mais bem sucedidos de Pernambuco. Diogo Fernandes revelou-se hábil quando precisou deixar para trás suas atividades como comerciante de tecidos em Portugal e, em sociedade com parentes se instalar na ribeira do Camaragibe, e daí ingressar no mundo do açúcar.

La imagen de la molienda recuerdala la posición del Ingenio Camaragibe entre los cinco más exitosos de Pernambuco. Diogo Fernandes demostró que era hábil cuando tuvo que dejar sus actividades como comerciante de tejidos en Portugal y, en sociedad con parientes, instalarse en la ribera del río Camaragibe, y desde allí ingresar al mundo del azúcar.

The image of the mill reminds us of the status of the Camaragibe Plantation among the five top plantations in Pernambuco. Diogo Fernandes showed that he was skillful when he had to leave behind his textile trading business in Portugal and, in association with his relatives, settled at the banks of the Camaragibe and then entered the sugar world.

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Como uma cidade veste-se de lendas e estórias, conta-se que o antigo pontal do Pina chamava-se Ilha do Cheira-Dinheiro devido a fama de avarento do proprietário André Gomes Pina. Há também quem associe o nome do bairro além de seu sobrenome, à palavra em hebraico pinah que significa “esquina”, “canto” ou “ponta”.

Como una ciudad se viste con leyendas e historias, se cuenta que la antigua punta de Pina se llamaba Isla do Cheira-Dinheiro [Huele Dinero] debido a la fama de avaro del propietario André Gomes Pina. Hay también quien asocie el nombre del barrio, más allá de su apellido, porque la palabra pinah en hebreo significa “esquina”, “rincón” o “punta”.

As a city covers itself with legends and stories, people say that the old Pina Headland was called Money-Sniffer Island after André Gomes Pina, the owner and a renowned miser. Some people also associate the neighborhood’s name with his last name and pinah, a Hebrew word that means “corner,” “edge,” or “point.”

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José María Plaza Escrivá

Arquiteto, projetou edifícios de grande porte, vem desenvolvendo trabalhos de intercâmbio cultural entre a Península Ibérica e a América, desenhando in situ e levando a conhecer monumentos declarados Patrimônios Culturais da Humanidade. Publicações: ♦ Livros: Santiago de Compostela, Caminho Francês e São Miguel das Missões Arte e Cultura dos Sete Povos (Ed. Unisinos e Delphi E.). ♦ Cadernos de Desenhos: Caminos de Santiago, Ruta de la Plata (Mores Art), Los tres viajes de Don Quijote (Instituto Cervantes de Recife), Itinerario de la Constitución de Cádiz (FACI), Arte em Recife: um itinerário barroco (FACI), Olinda, Patrimônio Cultural da Humanidade: Ladeiras, Casarios e Igrejas (FACI), São Luís do Maranhão: Becos, Ruas e Sobrados de Lisboa no Brasil (FACI). Recife: A Primeira Sinagoga das Américas e A Rota Judaica de Pernambuco (FACI).

DESENHOS IN SITU José María Plaza Escrivá Arquiteto/Artista

TRADUÇÃO ESPANHOL/INGLÊS IntelliBiz. Traduções Empresariais

TEXTOS Dra. Tânia Neumann Kaufman Historiadora/Antropóloga tnkaufman@gmail.com

ARTE GRÁFICA Daniel Sigal danielsigal54@gmail.com

COORDENAÇÃO/ PROJETO GRÁFICO Sandra Paro Arquiteta/Artista

CONTATO (81) 9963.4030 facirecife@gmail.com facirecife.blogspot.com.br

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Tânia Neumann Kaufman

Graduada em Sociologia, mestre em Antropologia e doutora em História. Presidente do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco e curadora das exposições do Museu Sinagoga Kahal Zur Israel. É autora de várias publicações. ♦ Passos Perdidos, História Recuperada. A Presença Judaica em Pernambuco. Revista AntHropológica – Série Etnicidade. Ano 4 Vol 10. Cultura Judaica no Tempo e no Espaço. Universidade Federal de Pernambuco. Lost FootSteps, History Recovered The Jewish Presence in Pernambuco. Passos Perdidos História Desenhada: Vol. I. Os Judeus em Pernambuco. Eles vieram para ficar. Recife: Vol II. Caminhos dos Judeus na Península Ibérica. Século SÉC. XVI. Vol.III. Cotidiano Colonial em Pernambuco. Cristãos-Novos no Séc. XVI. Vol. IV. Primeira Comunidade Judaica das Américas. Sefaradim do Século XVII. Arte Cênica. A Dramaturgia Judaica em Pernambuco. A Cultura Alimentar Judaica em Pernambuco. Séculos XVI-XVII e XX.

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“Dos sinagogas el Brasil ostenta, Una en el Arrecife se ilumina Con Aboab; con Aguilar se aumenta. Otra, Angélica en nombre y en doctrina”... Poema sefardi de Daniel Levi de Barrios

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A Fundação Artístico Cultural Iberoamericana, nasceu do sonho de arquitetos em difundir a cultura entre a Península Ibérica e a América pela arte, com o compromisso de observar, respeitar e preservar as lições do passado através de registros de Patrimônios Culturais, por meio de diversos suportes: livros, cadernos de desenhos, exposições, mosaicos, vídeos, música. Nesse sentido, uma ampla e rica colaboração hispano-brasileira vem desenvolvendo projetos artísticos culturais inspirados em desenhos realizados in situ pelo Arqt. José Maria Plaza Escrivá, passados para grandes painéis modulados em mosaico, produzidos no atelier da Arqt. Sandra Paro, em Recife.

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Recife, A Primeira Sinagoga das Américas e a Rota Judaica de Pernambuco  

O Arquiteto espanhol José Maria Plaza Escrivá percorreu a Rota Judaica em Pernambuco, desenhando ‘’in situ’’ os lugares emblemáticos dessa t...

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