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© Samuel Pereira Pinto

dádiva e excesso indulgenTe: espaço exTra [ vivenda para um existenzmaximum, Lacaton & Vassal ]

NOTA Este texto constitui parte integrante da Dissertação para conclusão do Mestrado Integrado em Arquitectura intitulada “CASA DE LUXE: PARADIGMAS DO LUXO ARQUITECTÓNICO”, apresentada na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) em Novembro de 2011. Reservam-se ao autor, SAMUEL PEREIRA PINTO, todos os direitos de propriedade intelectual inerentes aos conteúdos apresentados (textos), que poderão ser utilizados para fins académicos desde que devidamente citados, e cuja reprodução para fins comerciais se encontra interdita, salvo autorização prévia.

samu.pinto@hotmail.com

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definition of luxury: “There are two main things: time and space. Having time is an absolute luxury, and of you have a spacious house with wide corridors and a wide staircase, that’s also a luxury. not just a big living room, but where everything is generous. I would be ready to make an entirely white house from poor materials, offering a view onto a landscape, and with big volumes and one or two paintings that I love.” Paul Andreu www.luxuryculture.com; 2008-07-17

definition of luxury: “When basic needs are no longer luxuries for all.” Henry Ng www.luxuryculture.com; 2009-02-12

definition of luxury: “Luxury is that which is not indispensable for all, but vital for oneself.” Gilles Ebersolt www.luxuryculture.com; 2006-06-14

definition of luxury: “As Frank Lloyd Wright said: «Give me the luxuries of life and I will willingly do without the necessities.»” Joaquin Torres www.luxuryculture.com; 2009-01-14


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dádiva e excesso indulgenTe: espaço exTra vivenda para um existenzmaximum, Lacaton & Vassal “Quando estávamos na Universidade a obra de Mies interessava-nos muito. Na primeira casa que fizemos, a casa Latapie, de 1993, o orçamento era muito baixo. O primeiro projecto que fizemos não foi aprovado pelo cliente porque era muito caro, por isso fizemos um segundo, trabalhámos muito na concepção e falámos com diversas empresas de construção para pedir orçamentos. O orçamento limite dos clientes era de 400mil francos. O resultado das consultas às empresas foi de 450 mil francos. Para o cliente era importantíssimo que o preço final ficasse pelo dinheiro disponível. Tínhamos, portanto, de reduzir o custo e ser pragmáticos e eficientes na resolução do problema. Depois de revermos os materiais e os detalhes, que já eram muito simples, continuava a ser impossível baixar o preço. Fomos então falar com o engenheiro de uma empresa de construções metálicas e perguntámos se havia alguma forma de baixar o preço da estrutura de aço. E ele disse: «A primeira vez que vocês me consultaram, pediram-me uns detalhes parecidos com os de Mies e eu desenhei uma solução estrutural desse tipo. Mas podemos alterar a estrutura, usar perfis mais simples e ligeiros e optimizar a solução ao nível do custo». Na primeira solução tínhamos 13 toneladas de aço, na Segunda tínhamos 8 toneladas. Na altura o ferro custava em França 10 francos por Kg. Isso fazia com que poupássemos exactamente 50 mil francos que era o objectivo definido pelo cliente. Esta questão tornou-se importante, porque o facto de estarmos impressionados pela obra de Mies van der Rohe fazia com que o cliente tivesse de pagar mais 50 mil francos. Para o cliente não era necessário e mesmo para nós também o deixou de ser quando vimos o resultado. Então a partir deste momento, com estas coisas na cabeça, começamos a pensar: «Qual é a necessidade? Quais são as prioridades?» E aí começamos a distanciar-nos

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de Mies, ou da reprodução dos seus detalhes. Pensamos que isso hoje já não faz sentido. Geralmente é necessário falar com o cliente de forma clara e explicar-lhe quais são as possibilidades. «Se usarmos tijolos, podemos fazer isto, se usarmos policarbonato ou painéis de alumínio podemos fazer aquilo.» «Com isto nós conseguimos 20m 2, com aquilo conseguimos 50m 2.» «Se gostar de tijolos, tudo bem, mas talvez prefira pelo mesmo preço ter 50m 2 em vez de 20m 2.» A nossa relação com o cliente é muito próxima. É mais fácil quando fazemos uma moradia ou uma casa.” 1 Jean-Philippe Vassal, conversa com José Adrião e Ricardo Carvalho, 2006.

Quando Lacaton & Vassal iniciaram o seu percurso profissional no início dos anos 90 com o projecto de uma habitação unifamiliar de baixo orçamento - a casa Latapie - estavam longe de imaginar que esta experiência, que se adivinhava conturbada, se tornaria determinante na sua carreira subsequente. Apesar de o orçamento disponível para a construção se resumir a tão somente 400mil francos, cerca de 55 275 € - valor que não poderia ser ultrapassado em qualquer circunstância - a dupla de arquitectos terminaria por descobrir um plano viável para construir não 1. Vassal, Jean Philippe; “Lacaton & Vassal, Jean Philippe Vassal conversa com José Adrião e Ricardo Carvalho, Paris, 24 Março 2006” (in) JA; no.233; Escassez; Lisboa; 2006; pp. 54-55.

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02.11_01 Lacaton & Vassal, Casa Latapie, Floriac, 1993.

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漏 Foto: Philippe Rualt/ Desenhos: Lacaton & Vassal


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somente a habitação indispensável para uma família de quatro pessoas, mas uma casa com 185m2. A partir da experiência de Latapie, Lacaton & Vassal desenvolveriam uma original metodologia de trabalho que explora a transformação de um valor económico em uma mais-valia de espaço, segundo o princípio de que a definição prática do “luxo” se encontra estritamente relacionado com o aumento da área habitável. Estes princípios ficariam plasmados num conjunto de vivendas, que apesar de desfazadas no tempo, retratam uma mesma experiência: a tentativa de projectar uma casa de “luxo” (palavra que como veremos se reveste de um significado particular para a dupla de arquitectos) superando as limitações de um baixo orçamento. Uma parte significativa das vivendas de Lacaton & Vassal (casa Latapie, casa em Coutras ou casa em St. Pardoux la Rivière) emergem como uma espécie de casa dupla contígua, formada por dois volumes de idêntico tamanho justapostos, que na realidade compõem uma única habitação unifamiliar destinada uma família comum. Um dos volumes integra a casa propriamente dita, albergando todas as dependências funcionais correntes que compõem o programa estabelecido pelo encargo segundo as necessidades dos ocupantes. O outro, estabelece-se como um espaço amplo que mantém uma relação comprometida com o primeiro. A opção de desenvolver a casa como um espaço duplo não se prende com necessidades de segregação dos ocupantes, surge como uma mais valia para os habitantes, que nasce como uma livre opção tomada pelos arquitectos durante o processo de projecto que naturalmente os clientes não renunciam. Ainda que regularmente Lacaton & Vassal trabalhem com orçamento limitado que se destina a construir somente a casa estritamente necessária, seria melhor poder construir também o espaço extra. De modo a tornar este desejo em realidade, Lacaton & Vassal propõem-se ambiciosamente a superar as expectativas do cliente ainda que dispondo de poucos recursos, o que quase sempre implica recorrer a um processo de racionalização de meios semelhante à experiência da casa Latapie, isto é poupar tanto na construção da casa necessária que o orçamento chegue também para a casa extra. Erroneamente, as obras de Lacaton & Vassal tem sido recorrentemente interpretadas como experiências na procura por uma habitação de baixo custo, algo que a dupla de arquitectos faz questão de refutar sempre que tem oportunidade. “Nos gustaría acabar con la idea de que el ahorro es la base de todos nuestros proyectos. No buscamos proyectos de bajo presupuesto pero tampoco los rechazamos. No es exactamente lo mismo. Leyendo los artículos publicados sobre nuestro trabalho se tiene la impresión de que el coste es su punto de partida, su consecuencia directa. Obviamente sucede el contrário. [...] la reflexión sobre la economía del proyecto es pertinente sea cual sea la envergadura del presupuesto. Interesa en la medida en que es la condición que possibilita la aparición de lo excepcional, la que crea los medios necesarios; algo que probablemente no era así hace tan sólo diez, quinze o veinte años. Entre otras cosas, permite realizar espacios mucho más grandes...” 2

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Jean-Philippe Vassal, Conversasión con Patrice Goulet, 2002.

Na realidade os arquitectos utilizam todo o orçamento disponível para construir o dobro do espaço, transformando a economia em espacialidade por meio da poupança e do gasto. Neste sentido, tal como sublinha Jean Philippe Vassal, a “reflexão sobre a economia” apenas se torna pertinente na medida em que “possibilita a aparição do excepcional”, entre outras coisas “espaços muito maiores”. Ilka & Andreas Ruby vêm neste processo de poupança semelhanças com a “economia do gasto” de Georges Bataille. 2. Vassal, Jean Philippe (entrevistado por) Patrice Goulet em “Conversación con Patrice Goulet” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; p. 122.

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“Si consiguen ahorrar gracias a materiales y métodos constructivos de bajo coste es sólo para “gastarlo” de otro modo. Coinciden con la Economia del despilfarro de Georges Bataille, donde el beneficio no se reinverte para construir con el nuevo capital.” 3 Os mesmos autores sublinham de seguida a dimensão política que sobressai deste tipo de poupança. Ideologicamente, a obra de Lacaton & Vassal opõe-se à doutrina por detrás da experiência moderna em torno da “vivenda para um Existenzminimum”.4 Doutrina estabelecida no II Congresso dos CIAM em Frankfurt (1929), que se viria a institucionalizar estatalmente depois da Segunda Guerra Mundial através dos programas de construção de vivendas sociais. Se podemos descobrir semelhanças com a experiência moderna no facto de Lacaton & Vassal se encontrarem, igualmente, condicionados pelo seu interesse no baixo custo de construção dos projectos que desenvolvem, estes opõem-se decididamente a qualquer tipo de poupança com base na redução do espaço habitável. Evitando deliberadamente as limitações da doutrina do Existenzminimum, Lacaton & Vassal assumem pelo contrário uma posição maximalista - propõem-se nas suas palavras a “fazer muito com quase nada”.5 A expressão que curiosamente recorda Mies van der Rohe a principal referência da dupla de arquitectos, estabelece-se também aqui como um princípio operativo baseado numa síntese paradoxal: o desafio de conseguir o máximo espaço com mínimo orçamento. Esta fórmula destrói como realçam Ilka & Andreas Ruby duas das equações mais enraizadas na arquitectura: “baixo orçamento = espaço mínimo” e “espaço máximo = alto orçamento”, recombinando entre si a característica mais vantajosa de cada uma. Neste contexto, as vivendas desenvolvidas por Lacaton & Vassal podem ser entendidas como “um novo tipo de casa Exminmax”.

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Esta tipologia híbrida manifesta-se na própria génese das casas enquanto vivendas bicelulares. De um modo invulgar o orçamento que se conseguiu preservar por meio da racionalização da construção não se gastou indiscriminadamente num aumento percentual da área reservada para cada uma das diversas funções da casa. Foi concentrado num único espaço autónomo que se estabelece como a antítese da casa indispensável. Ainda que implique um prejuízo relativo para a casa, esta atitude constitui-se como um mal menor, uma vez que esta se vê ampliada por um meio de um espaço extra. Se a lógica da primeira pode responder aos princípios do Existenzminimum, a segunda deve estabelecer-se exclusivamente a partir da abundância, de modo que a síntese global dos dois espaços corresponde a uma espécie de vivenda para uma Existência (mínima + máxima). Se os utilizadores poderiam viver exclusivamente dentro das condições limitadas da casa essencial que compreende o programa indispensável de uma habitação, os arquitectos, entendendo que a necessidade não representa nenhum principio libertador, decidem presentear os residentes com um outro espaço que por oposição à necessidade se constitui como um excesso indulgente. Ilka & Andreas Ruby vêm esta segunda casa como uma manifestação material do acto cultural da dádiva, cujo sentido se pode integrar na mesma lógica da cerimónia ancestral do potlatch: “Esta casa es un regalo para sus moradores, un potlatch, en el sentido que lo utilizava el antropólogo Marcel Mauss, al que se refiere Georges Bataille.” 6

3. Ruby, Ilka & Ruby, Andreas; “Arquitectura naïf. Notas sobre el trabajo de Lacaton & Vassal” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; p. 6. 4. Ver: Ruby, Ilka & Ruby, Andreas; “Arquitectura naïf. Notas sobre el trabajo de Lacaton & Vassal” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; p. 9. 5. Vassal, Jean Philippe (entrevistado por) Patrice Goulet em “Conversación con Patrice Goulet” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; p. 142 [trad.]. «Nuestra idea es que podemos hacer mucho con casi nada.” 6. Ruby, Ilka & Ruby, Andreas; “Arquitectura naïf. Notas sobre el trabajo de Lacaton & Vassal” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; p. 9.

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Potlatch é uma palavra dos índios chinook, que habitaram o noroeste do que hoje são os territórios do Canadá e do Alasca, que significa literalmente “dar” e designa uma cerimónia ou festa em que o homenageado, geralmente o chefe da região, renunciando a todos os bens materiais que havia acumulado, redistribuindo a sua riqueza oferecendo presentes a todos os convidados. Eram festas em que se levava a tal extremo o acto de doar que, no máximo se celebravam uma ou duas vezes na vida. Os governos dos EUA e do Canadá proibiriam o potlatch em finais do século XIX, por considerarem o ritual uma perda “irracional” de recursos. Em algumas ocasiões, os bens eram simplesmente destruídos após a cerimónia. Na realidade o potlatch tinha uma finalidade prática, já que o homenageado celebrava o ritual como forma de aumentar a sua influência e respeito junto dos demais membros. esperando que ao oferecer em épocas de abundância pudesse assegurar o sustento necessário em épocas de escassez. Com a compreensão do significado do potlatch, a proibição seria levantada pelos EUA em 1934 e pelo Canadá em 1954, de modo que algumas tribos praticam ainda hoje o potlatch. A cerimónia que seria primeiramente descrita por Marcel Mauss em 1924 no livro “Essai sur le don” [Ensaio sobre a dádiva] é interpretada na obra de Georges Bataille, “La part maudite” [A parte maldita] de 1967 como “a forma significativa do luxo”, ou seja, uma manifestação importante do luxo. Mais recentemente, seria o sociólogo francês Gilles Lipovetsky em “Luxe éternel, luxe émotionel” [Luxo eterno, luxo emocional]7 a reintrepretar o potlatch à luz da ideia enunciada por Bataille. Dando continuidade às palavras de Bataille, Lipovetsky associa o potlatch ao aparecimento do conceito de Luxo. A celebração é considerada como modelo de uma forma primitiva de luxo que se manifesta por meio da dádiva cerimonial e do gasto excessivo. Nesta forma de “luxo-dádiva” o conceito constrói-se não a partir de um material ou “objecto faustoso”, mas através da própria ideia de excesso, do “espírito de gasto”, do prazer na “ausência de previsão”. De um modo semelhante, Lacaton & Vassal definem o luxo desde a ideia de algo “mais”, um excesso que se oferece e é desfrutado na medida em que se constitui como algo inesperado, isto é dizer uma dádiva, um potlatch. “La noción de lujo implica oferecer um plus cuando se aborda una situación concreta. Es decir, revelar y permitir levar a cabo lo inesperado, un plus apenas imaginable para los demás y, en nigún caso, para uno mismo. No es una idea estática. Permite abordar con libertad la modificación de una circunstancia dada.” 8 Anne Lacaton, Conversasión con Patrice Goulet, 2002.

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Enunciando o seu “luxo” como uma dádiva, Lacaton & Vassal estavam, de facto, a definir aquilo que constitui a própria essência base da ideia de Luxo, apelando à raiz antropológica do conceito. Na sua concretização material, este “luxo da dádiva” proposto pela obra de Lacaton & Vassal assume predominantemente a forma de mais espaço, isto é, realiza-se num aumento da área praticável. De um modo intencional os arquitectos evitam a tradicional definição do luxo a partir do valor monetário e do requinte material ou formal, reafirmando que “o luxo, afinal não está ligado ao dinheiro, é aquilo que supera as expectativas iniciais.” 8A dupla de arquitectos seria confrontada explicitamente com este problema quando recebeu o encargo para um Hotel de 5 estrelas em Lugano, projecto em que não existiam as habituais restrições de orçamento. Confrontados com uma disponibilidade excepcional de recursos, os arquitectos manter-se-iam fiéis aos seus princípios optando por representar o luxo por meio do espaço e não através de um convencional subterfúgio como seria a utilização ostensiva de materiais dispendiosos.

7. Lipovetsky, Gilles; “Lujo eterno, lujo emocional” (in) Lipovetsky, Gilles e Roux, Elyette. El lujo eterno: de la era de lo sagrado al tiempo de las marcas; Barcelona: Editorial Anagrama; 2005. (ed. original: Le luxe éternel; Paris: Éditions Gallimard; 2003) 8. Lacaton, Anne (em) Druot, Fréderic, Lacaton, Anne & Vassal, Jean-Philippe; Plus; 2007; Capítulo 2.1; “Lujo y Facilidad”; pp. 40-41. 9. Lacaton, Anne (entrevistada por) Patrice Goulet em “Conversación con Patrice Goulet” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; p. 124. [trad.]

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“Es cierto que un presupuesto restringido lleva a adoptar ciertas posiciones con respecto a lo que se puede hacer o no. No era el caso en el hotel de Lugano, donde nos planteamos la pergunta: Vamos a acudir, por el mero hecho de poder permitírnoslo, a soluciones que de otro modo evitaríamos, como por ejemplo utilizar revestimientos por el puro placer de gastar dinero? Rápidamente llegamos a la conclusión de que debíamos conservar nuestra manera de trabajar y decidirmos mantener nuestra postura respecto al espacio y la construcción. El lujo reside siempre en lo mismo: la dimensión del espacio.” 10 Anne Lacaton, Conversasión con Patrice Goulet, 2002. Assim, a opção original pelo espaço - espaço entendido na sua dimensão física - enquanto suporte material do conceito de luxo, não tem na sua génese uma motivação económica, mas sim ideológica. Trata-se de uma questão de princípio e não de uma opção alternativa. Ao relacionarem declaradamente o luxo com o espaço, tanto através da obra edificada como da obra teórica, podemos entender que Lacaton e Vassal enunciam a vivenda de luxo como uma espécie de “vivenda para um existenzmaximum”, por oposição à “vivenda para um existenzminimum” que se estabelece como um campo teórico onde se processa uma redução do espaço habitável por meio da dissecação exaustiva das funções e dos movimentos. Esta vivenda constitui-se como um espaço amplo desenvolvido a partir de uma total liberdade de uso, em que não se estabelece qualquer tipo de limites à priori no que respeita ao seu dimensionamento e utilização. Centremonos “espaços extra” sem função aparente que recorrentemente aparecem nos projectos de habitação unifamiliar de Lacaton & Vassal. Estes espaços, compõem-se como um volume adossado que chega a possuir dimensões e características semelhantes à casa que alberga as funções indispensáveis correntes. No caso da casa Latapie, a primeira casa construída em 1993, que serviu de ensaio a esta problematização da

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fig.

02.11_02 Lacaton & Vassal, Casa em St. Pardoux la Rivière, Dordogne, 1997. © Lacaton & Vassal

10. Lacaton, Anne (entrevistada por) Patrice Goulet em “Conversación con Patrice Goulet” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; p. 124.

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habitação como uma casa dupla, existe todavia uma clara distinção formal entre os dois espaços. Ainda que possamos encontrar semelhanças em planta, principalmente ao nível das dimensões e da organização, a casa extra translúcida com pé direito alto percepciona-se como uma adição do volume principal, opaco e organizado em dois pisos. Nos projectos mais recentes esta casa extra, que começou por ser secundarizada vai ganhando cada vez mais protagonismo ao ponto de se confundir com a casa principal. Apesar de se destinarem a usos diferentes, Lacaton & Vassal parecem atribuir um valor idêntico a ambos os espaços. A casa em Coutras (2000) constitui, por ventura, o exemplo mais paradigmático dos princípios ensaiados em experiências anteriores. A vivenda compõe-se de duas partes idênticas justapostas, geradas a partir do mesmo princípio construtivo: estufas agrícolas standard de 150m2, utilizadas pela indústria hortícola, de estrutura metálica e revestimento de placas rígidas transparentes. Um dos espaços é depois adaptado às exigências mais específicas de uma casa comum, sendo subdividido de modo a poder integrar as dependências tradicionais (estar, cozinha, quartos), que em todo o caso foram instaladas em um volume de madeira, isolado de baixo da estufa. Este volume funciona como uma segunda pele, que apenas desempenha um papel na mediação da intimidade, uma vez que o controlo da temperatura se encontra predominantemente assegurado pelo próprio dispositivo da estufa, que constitui também o “rosto” da casa. A outra estufa é preservada na sua configuração inicial, como um espaço amplo sem programa definido que mantém uma relação comprometida com as dependências da casa propriamente dita e o exterior. Ambos os espaços se constroem de fora para dentro a partir de uma estrutura standard que por meio da sua deslocação programática se constitui como um invólucro base suficientemente flexível para se adaptar às necessidades domésticas. De um modo surpreendente é a casa corrente que se reprograma segundo o principio da casa-estufa, experimentada em Latapie, de

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02.11_03 Lacaton & Vassal, Casa em Coutras, 2000. © Lacaton & Vassal

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modo a que a vivenda se constitui genericamente como duas estufas. De facto, em qualquer uma das casas que partilham esta tipologia híbrida (casa Latapie, casa em Coutras ou casa em St. Pardoux la Rivière) o espaço extra desenvolve-se a partir do modelo da estufa, sendo que em Coutras os arquitectos assumem explicitamente as suas referências servindo-se directamente da estrutura como se esta fosse um produto já acabado que somente necessita de um novo contexto. Ilka e Andreas Ruby sublinham o facto de Lacaton & Vassal utilizarem sistematicamente a tecnologia como algo que se pode criar quase como um readymade, sendo que a estufa é sem dúvida o seu objecto de ensaio preferido. “El invernadero es para Lacaton & Vassal la machine à habiter definitiva: inteligiente en su construcción, eficiente climática y económicamente en su produção. Una arquitectura en la que todo está pensado y que, al mismo tiempo, posee sólo lo absolutamente necesario.” 11

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A estufa é uma estrutura pouco comprometida com a forma e os usos, um espaço simples mas simultaneamente bastante adaptável. A casa extra inspirada na estufa é sempre concebida como um open space sem um programa definido. A não atribuição de uma função ou modo de utilização predeterminado, suporta-se numa crença quase absoluta no dispositivo da estufa, que Lacaton & Vassal acreditam ser capaz de se adaptar a qualquer tipo de programa doméstico. Assim, a falta de programa é compensada por uma construção relativamente flexível do espaço. Estes sistemas permitem construir espaços maiores a baixo custo, oferecendo numerosas possibilidades de utilização e de adaptação, e múltiplos ambientes e sensações no interior, tudo com uma tecnologia inteligente e simples que permite regular a temperatura interior. Apesar de a estufa possuir uma inércia térmica muito débil pode ser aquecida facilmente desde que faça sol. Pode chegar a existir uma amplitude térmica de 20 graus entre o exterior e o interior, o que significa que a dispor de uma estufa adossada permite manter ambos os espaços quentes durante praticamente todo o dia. No sentido inverso, a temperatura interior pode ser regulada por dispositivos automáticos fornecidos com as estufas, tal é o caso das aberturas de ventilação na cobertura de que se abrem em função da temperatura interior e se fecham automaticamente, por razões de segurança, em caso de chuva ou de vento. Entre outras coisas, o dispositivo permite que as paredes perimetrais que se possam abrir até 50% da sua área, mediante portas de correr. Não obstante, o aproveitamento correcto da estrutura depende dos utilizadores. O seu princípio consiste em aproveitar as condições externas, domesticá-las, manejá-las e transformá-las. O espaço é flexível desde que a sua tecnologia seja percebida pelos proprietários. Não se trata de um espaço estático mas interactivo, que exige uma migração frequente dos ocupantes que devem procurar as suas condições de conforto, respondendo ao convite para produzirem diferentes tipos de ocupação que deverão ser entendidas como efémeras ou sazonais. Por muito dependente que a obra da dupla de arquitectos esteja dependente do espaço, este não se torna por si só um factor determinante, uma condicionante na abordagem ao projecto arquitectónico. O seu valor mede-se no contexto particular de cada projecto, ainda que em projectos de habitação unifamiliar pareça ser algo muito valorizado. Como realça Anne Lacaton: “Y en cuanto a la superficie, no buscamos el metro cuadrado a cualquier precio, sino el tamaño que añade interés espacial y volumen.” 12 12. Ruby, Ilka & Ruby, Andreas; “Arquitectura naïf. Notas sobre el trabajo de Lacaton & Vassal” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; p. 12. 13. Lacaton, Anne (entrevistada por) Patrice Goulet em “Conversación con Patrice Goulet” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; p. 125.

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02.11_04 Lacaton & Vassal, Casa em Coutras, vista do exterior, 2000. © Foto: Philippe Rualt/ Lacaton & Vassal 02.11_05 Lacaton & Vassal, Casa em Coutras, pormenor do interior do espaço extra projectado segundo o sistema construtivo próprio das estufas, 2000. © Foto: Philippe Rualt/ Lacaton & Vassal fig.

fig.

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O espaço é um tema recorrente nas obras de Lacaton & Vassal, não somente porque a superfície extra se constitui como uma substância de excepção que pode ser usufruída como um objecto de ostentação, mas sobretudo porque o espaço vem associado a um conjunto de qualidades que se medem por meio da experiência subjectiva; são estas propriedades inerentes que realmente constituem os verdadeiros motivos de interesse do projecto. A este respeito, não faz sentido acrescentar mais área a um projecto se este extra não se revestir de um potencial efectivo do ponto de vista do seu uso-fruto. “A partir de ciertas dimensiones, mil metros cuadrados, por ejemplo, no sirve de nada aumentar la superficie, y revestirlo todo de mármol es menos interessante que animarle a adquirir obras de arte.” 14 Como realça Fredéric Druot a apologia do “luxo”, que constitui um tema recorrente das diversas entrevistas da dupla de arquitectos, desenvolve-se em diversas frentes e a partir de diversos campos de acção, sendo que o espaço é apenas um destes campos, por ventura a mais evidente na obra de Lacaton & Vassal e o mais tangível para a crítica, mas nem por isso se constitui só por si como o atributo mais importante. A sua relevância atribuida baseia-se num certo princípio de proporcionalidade baseado na experiência e no senso comum que, não estabelecendo uma correspondência estrita, determina com menor ou maior margem de erro que mais espaço, mais superfície é igual a mais liberdade de uso, mais experiência... “«Todavia más lujoso» es una hermosa frase. Significa muchas cosas a la vez: todavia más inesperado, todavia más espacioso, más soleado, más generoso, más sencillo, más económico. Doblar la superfície de las viviendas es un tema recurrente en nuestra búsqueda del lujo. No es habitual que alguien rechace, pagando el mismo alquiler, un apartamento con el doble de superficie que otro, ni un apartamento con el doble de luz, el doble de prestaciones o el doble de libertad de uso.” 15

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Apesar de o “luxo” se realizar enquanto atributo físico mensurável - considerando o luxo de um ponto de vista meramente representativo, poderíamos avaliar e mesmo comparar a luxuosidade de cada uma das vivendas de Lacaton & Vassal através das dimensões de cada um dos espaços extras - ele transforma-se em uma qualidade efectiva que é usufruída pelos habitantes. Como sublinham Ilka & Andreas Ruby, a abordagem de Lacaton & Vassal a respeito do luxo evidencia a sua concepção enquanto algo imaterial, que se realiza através da prática quotidiana. “En este sentido , la característica principal de esta plusvalía de espacio no reside sólo en más espacio, sino en más potencial, más vida y experiencia. Esto es, definitivamente, el lujo para Lacaton & Vassal. La producción de este lujo - como efecto, no como sustancia - es lo que persiguen en cada uno de sus proyectos, independientemente de si cuentan con mayor o menor presupuesto.” 16 Sob esta perspectiva, o espaço funciona apenas como um substrato que serve de base ao desenvolvimento de um conjunto de condições imateriais, passando o luxo de uma “substância” a um “efeito” que existe no projecto como potencial e se efectiva por meio da ocupação. Na obra de Lacaton & Vassal o “luxo da dádiva”, que nasceu na antropologia com um significado eminentemente simbólico, transforma-se num “excesso indulgente”, por meio da prática e da 14. Vassal, Jean Philippe (entrevistado por) Patrice Goulet em “Conversación con Patrice Goulet” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; p. 125. 15. Druot, Fredéric Druot (em) Druot, Fréderic, Lacaton, Anne & Vassal, Jean-Philippe; Plus; 2007; Capítulo 2.1; “Lujo y Facilidad”; p. 41. 16. Ruby, Ilka & Ruby, Andreas; “Arquitectura naïf. Notas sobre el trabajo de Lacaton & Vassal” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; p. 9.

02. CONSTRUINDO A CASA DE LUXO...


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experiência quotidiana do espaço. O “verdadeiro luxo”, o “luxo do excesso indulgente” realiza-se nos limites da acção, dai que nas obras de Lacaton & Vassal não exista uma preocupação pelos aspectos formais. A utilização sistemática da estufa como um objecto-tipo omnipotente capaz de resolver qualquer problema arquitectónico, a predilecção por materiais de construção baratos, culturalmente desconceituados evidenciam o sentido não representativo da casa. A mesma abordagem pode explicar o carácter inacabado das vivendas desenvolvidas pela dupla de arquitectos. Se Lacaton & Vassal correm um grande risco ao não conceber o espaço extra com um programa definido, o que poderia gerar uma ambiguidade na sua funcionalidade, tal indefinição estabelece-se simultaneamente como uma posição ambiciosa. A original casa extra é um “espaço no ponto zero da arquitectura”, um espaço que precisamente por não ter um programa definido se constitui como uma infinidade de possibilidades, que se abre ao potencial, ao imprevisto e ao não planificado. A intervenção de Lacaton & Vassal baseia-se na expectativa de que a apropriação das pessoas consiga atribuir um significado particular à obra anónima, dissolvendo por meio da domesticidade a imagem algo industrial da casa construída com materiais pré-fabricados. No caso da casa Latapie, os senhores Latapie, aproveitando os móveis dos avós, transformaram a estufa numa espécie de sala de estar interior-exterior. Esta sala que se pode aproveitar durante todo o ano e durante quase 80% do dia acabaria por se transformar no principal espaço de convício para a família de quatro pessoas. Já na casa de Coutras, os utilizadores tirando partido das condições climáticas excepcionais da estufa, interpretaram o espaço extra como um local ideal para o tratamento de roupa e para ter algumas plantas que de outro modo não poderiam subsistir. “Deverá então o tempo e o uso domesticar esta espacialidade que os Lacaton & Vassal projectaram, não como «casa de sonho» já pronta (essa é uma responsabilidade do cliente) mas a plataforma capaz de potenciar diferentes desejos.” 17 Dulcineia Santos, Lacaton & Vassal na “cité manifeste”, 2005. Lacaton & Vassal projectam a Casa de Luxo não como uma casa acabada, mas potencial. A formulação de um valor como o luxo através de critérios não mensuráveis, apesar de a obra se basear num certo princípio de proporcionalidade, revela-se por vezes como uma abordagem muito profunda e nem sempre fácil de interpretar por alguém exterior ao processo. Muito mais quando pressupõe uma rotura com os modelos convencionais, quer ao nível da espacialidade quer dos materiais que a edificam. A criação arquitectónica desenvolve-se a partir de um exercício permanente de redescoberta do modo de olhar, que exige o esquecimento das imagens preconcebidas em função da surpresa.

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A forma é interpretada por Lacaton & Vassal como mais uma das condicionantes que surgem no decorrer da abordagem a uma situação determinada, e não um problema arquitectónico de fundo que se deva colocar constantemente. Algo que se desenvolve como resposta a um dado problema, frequentemente uma estrutura “estranha” que é incorporada, e não um objecto escultórico carregado de afectos ou significados. Com isto, rompe-se também com a imagem iconográfica preconcebida da casa, que habita no imaginário comum, que em termos práticos se vê substituída pelo objecto tipo da estufa, que invoca uma estrutura anónima e não representativa. Este constitui por ventura um dos pontos mais vulneráveis da sua arquitectura - quando o poder iconográfico é por ventura mais forte que todas as motivações juntas, esta pode ser uma imagem difícil de aceitar como casa. A forma, o invólucro, deixou de desempenhar um papel fundamental na comunicação imediata de conteúdos, que agora apenas se podem ler a partir do processo. Lacaton e Vassal não 17. Santos, Dulcineia Neves dos; “Lacaton & Vassal na “cité manifeste” ” (in) revista Laura Crítica; no.03; Departamento Autónomo de Arquitectura da Universidade do Minho; Outubro 2005; p. 94.

DÁDIVA E EXCESSO INDULGENTE | vivenda

para um existenzmaximum, Lacaton & Vassal


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concebem a forma na sua dimensão estética, esta não existe enquanto material de projecto. A estética é formulada a partir de uma perspectiva ética, posição que pode ser sintetizada nas palavras de Jean Philippe Vassal quando diz que “se o projecto se torna legível porque lhe damos um significado, estamos a produzir um resultado estético. Acho que se fazemos uma coisa boa e bem feita, então ela é bela.” 18 Esta posição radical acarreta contudo repercussões profundas sobre a dimensão comunicativa da Arquitectura, muito dependente da formalização efectiva da obra construída. Com a forma desaparecem também os sinais reconhecíveis que permitem a representação e reprodução imediata de valores como o luxo, que deixa de ser passível de ser enunciado a partir de um ponto de vista simbólico. Como consequência desta desinstitucionalização a Arquitectura torna-se igualmente ambígua na sua leitura, não existindo uma fórmula unívoca de avaliar a obra, cujo valor passou a depender em absoluto da própria experiência arquitectónica e abertura de espírito do utilizador. Assim se explica que, ironicamente, a maioria dos projectos desenvolvidos pela dupla de arquitectos assuma uma concretização material que, com frequência, é associada a uma falta de disponibilidade de recursos ou ainda a um elogio consciente da pobreza face à ilegitimidade do Luxo. Na realidade estas experiências propõem um exercício de redescoberta do modo de conceber a experiência arquitectónica e com ela o luxo, que à semelhança do processo projectual exige o esquecimento dos modos convencionais de representação do luxo, muito dependentes da valorização formal (superficial?), em troca do luxo verdadeiro que é o desfrute do espaço extra.

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“Numa época em que, para uma grande parte da arquitectura contemporânea, a forma se converteu em um critério que decide se uma determinada obra se situa ou não acima da disciplina”, em que “o objectivo do trabalho de muitos arquitectos se centrou no desenvolvimento de novas linguagens que utilizam sofisticados processos de investigação formal”, a arquitectura “informal” de Lacaton & Vassal pode ver-se de facto como um “enorme anacronismo”,19 como sublinham Ilka e Andreas Ruby. Poderíamos acrescentar: um anacronismo que entendido dentro do contexto económico e social se pode interpretar cada vez mais como numa resposta directa às preocupações e aspirações de um mundo que simultaneamente discute a sustentabilidade, a urgência de poupar os recursos naturais e os desejos amplificados pela sociedade da informação e consumo. Por um lado a premência da poupança por outro o irresistível apelo do prazer consumista. Face a tamanha contrariedade, a obra de Lacaton & Vassal é, por ventura, uma das que mais próxima está de formular o Luxo sob uma perspectiva democrática, ao ser capaz de enunciar a “riqueza” sem a fazer depender do custo; e logo pegando num conceito tantas vezes desprezado pela história como é o “Luxo”, que ao ser revisto fora do simbolismo se tornou surpreendentemente num material de projecto manejável, e mais importante, passível de ser usufruído de um modo mais sustentável e justo.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA Baptista, Luís Santiago; “Editorial: Intervenções Informais” (in) Arq./a; no.62; Intervenções Informais; Outubro 2008; pp. 6-7. Druot, Fréderic, Lacaton, Anne & Vassal, Jean-Philippe; Plus; 2007. Goulet, Patrice; “Conversación con Patrice Goulet” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; 121-143. Lacaton, Anne & Vassal, Jean Philippe; “It’ll be Nice Tomorrow: The Beauty of the Obvious” (in) Brayer, Marie-Ange e Migayrou, Frédéric (eds.); Archilab: Radical Experiments in Global Architecture; London: Thames & Hudson; 2001; p. 242. Lipovetsky, Gilles; “Lujo eterno, lujo emocional” (in) Lipovetsky, Gilles e Roux, Elyette. El lujo eterno: de la era de lo sagrado al tiempo de las marcas; Barcelona: Editorial Anagrama; 2005. (ed. original: Le luxe éternel; Paris: Éditions Gallimard; 2003) Ruby, Ilka & Ruby, Andreas; “Arquitectura naïf. Notas sobre el trabajo de Lacaton & Vassal” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; pp. 4-19. Santos, Dulcineia Neves dos; “Lacaton & Vassal na “cité manifeste” ” (in) revista Laura Crítica; no.03; Departamento Autónomo de Arquitectura da Universidade do Minho; Outubro 2005; pp. 90-97. Vassal, Jean Philippe; “Lacaton & Vassal, Jean Philippe Vassal conversa com José Adrião e Ricardo carvalho, Paris, 24 Março 2006” (in) JA; no.233; Escassez; Lisboa; 2006; pp. 50-63. 18. Vassal, Jean Philippe; “Lacaton & Vassal, Jean Philippe Vassal conversa com José Adrião e Ricardo Carvalho, Paris, 24 Março 2006” (in) JA; no.233; Escassez; Lisboa; 2006; p. 55. 19. Ruby, Ilka & Ruby, Andreas; “Arquitectura naïf. Notas sobre el trabajo de Lacaton & Vassal” (in) 2G; no.21; Lacaton & Vassal; 2002; p. 4.

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DÁDIVA E EXCESSO INDULGENTE: ESPAÇO EXTRA vivenda para um existenzmaximum, Lacaton & Vassal

02.11_01 Lacaton & Vassal, Casa Latapie, Floriac, 1993. © Foto: Philippe Rualt/ Lacaton & Vassal http://www.lacatonvassal.com/ 02.11_02 Lacaton & Vassal, Casa em St. Pardoux la Rivière, Dordogne, 1997. © Lacaton & Vassal http://www.lacatonvassal.com/ 02.11_03 Lacaton & Vassal, Casa em Coutras, 2000. © Lacaton & Vassal http://www.lacatonvassal.com/ 02.11_04 Lacaton & Vassal, Casa em Coutras, vista do exterior, 2000. © Foto: Philippe Rualt/ Lacaton & Vassal http://www.lacatonvassal.com/ 02.11_05 Lacaton & Vassal, Casa em Coutras, pormenor do interior do espaço extra projectado segundo o sistema construtivo próprio das estufas, 2000. © Foto: Philippe Rualt/ Lacaton & Vassal http://www.lacatonvassal.com/

[ vivenda para um existenzmaximum, Lacaton & Vassal ]  

Este texto constitui parte integrante da Dissertação para conclusão do Mestrado Integrado em Arquitectura intitulada “CASA DE LUXE: PARADIGM...