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AMPLITUDE

Número 02 — Fevereiro 2016

Poeta em Destaque: Júlia Lemos E MAIS: Cinema - Fotografia - Música - HQ

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AMPLITUDE é uma revista de cultura evangélica, com foco principal em ficção e poesia. Mas nosso leitmotiv, nosso motivo de ser e de existir, é a arte cristã em geral: Transitamos por música, cinema, fotografia, artes plásticas e quadrinhos. Publicamos artigos, estudos literários, crônicas e resenhas. Nossa intenção diz respeito àquela despretensiosa excelência dos humildes. Nosso porto de partida e porto de chegada é Cristo. Nosso objetivo é fomentar a reflexão e a expressão, AMPLIAR visões, entreter com valores cristãos, comunicar a verdade e o belo e estimular o engajamento artístico/ intelectual entre nossos irmãos. Nosso preço é nenhum: a revista circula gratuitamente, no democrático formato pdf. COLABORE:

Será uma felicidade ter você como um colaborador de AMPLITUDE. Envie-nos seu material para avaliação (conto, crônica, artigo, estudo literário, trabalho em artes plásticas ou fotografia artística, resenha ou crítica de filmes, livros ficcionais ou poéticos e (boa, per favore) música cristã/evangélica, JUNTAMENTE com breve biografia. Envie também notícias sobre eventos artísticos, lançamento de livros e quaisquer notas culturais envolvendo arte/artistas evangélicos que você julgar relevantes. E escreva-nos ainda para prosear, indagar, criticar, elogiar... Nossos e-mails: revistaamplitude@gmail.com sammisreachers@ig.com.br

SUMÁRIO Revista Amplitude - Número 02 - Fev 2016

Editorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 03 Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .04 Conto: O canto do sabiá preto / Lindolfo Weingärtner . . . . . .05 Luminares / Joana Cristina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .10 Cinema: 3º Festival Nacional de Cinema Cristão . . . . . . . . . . . . 08 Conto: A Morte da Encrenqueira / Judson Canto . . . . . . . . . . .11 Jardim dos Clássicos / Eça de Queirós . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .12 Crônica / Max Lucado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .17 Conto: O Poeta do Salmo Exilado / J.T.Parreira . . . . . . . . . . . . . 18 Poeta em Destaque / Julia Lemos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23 Conto: A Troca / Joed Venturini . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .24 Galeria / Lya Alves . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .30 Conto: A Matilha Fantasma / Sammis Reachers . . . . . . . . . . . . 32 Notas Culturais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .37 Cinema / 3º Festival Nacional de Cinema Cristão . . . . . . . . . . . 38 Conto: O Hóspede / Florbela Ribeiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 Luminares / Helena Branco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .40 Conto: O Menino / Myrtes Mathias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .41 Hot Spots: Ramon Llull (Lúlio) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .44 Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 Especial / Estêvão para tempos de perseguição . . . . . . . . . . . . 47 Resenhas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50 Luminares / Camilo Borges Júnior . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .52 Crônicas / Chris Amag & Rofa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .53 Álbum / William Rosa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .54 HQs . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55

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Parlatorium . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .56 CAPA: He Qi, Calling Disciple (Jesus chamando os discípulos) - trecho. He Qi é um artista cristão chinês que tem feito um trabalho assaz singular, e gentilmente cedeu sua obra para ilustrar a capa de AMPLITUDE. Conheça mais do trabalho do autor: http://www.heqiart.com

Editor: Sammis Reachers

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Editorial É com felicidade que apresentamos o segundo número de AMPLITUDE. Durante estes seis meses de espera ou gestação desta segunda edição, pudemos auferir a boa recepção que a nossa primeira edição obteve entre autores e leitores. Isso nos incentiva a avançarmos na jornada, cientes da seriedade e importância da iniciativa de reunir em revista, o melhor da produção literária poética e ficcional, além de outras expressões artísticas levadas a cabo por cristãos protestantes e de outras filiações. Vamos ao panorama da edição: Na seção Hot Spots, a sapiência de um dos maiores nomes da mística cristã, Ramon Llull (Raimundo Lúlio). Em Galeria, a obra da pastora, artista plástica, grafiteira, quadrinista e ativista cultural Lya Alves. Na seção Cinema, destacamos a realização da terceira edição do Festival Nacional de Cinema Cristão. Esta edição chega inaugurando diversas novas seções. Uma delas é Poeta em Detaque, iniciando com a obra da pernambucana Júlia Lemos. Inaugurando a nossa seção Especial, de enfoque temático, temos como mote Estêvão para tempos de perseguição, uma mini-antologia reunindo as percepções de seis excelentes poetas acerca de nosso protomártir, sobre quem nos é oportuno refletir em tempos de recrudescimento das perseguições aos cristãos ao redor do globo. E as artes visuais ganharam ainda mais destaque: além da já citada seção Galeria, e de HQ (História em Quadrinhos), inauguramos mais uma seção, Luminares, destacando, em singelas inserções, a pintura, ilustração ou desenho de nossos concidadãos de Reino. E a Fotografia chega com força na seção Álbum, abrindo as portas com a obra de William Rosa. Os contos, como diria meu pai, estão de lascar: Iniciamos com Eça de Queiroz, na seção Jardim dos Clássicos, apresentando o conto O Suave Milagre. Seguimos com o humor e a precisão de Judson Canto (A Morte da Encrenqueira); a dramaticidade soberba de J.T.Parreira (O Poeta do Salmo Exilado); Florbela Ribeiro relatando (em O Hóspede) sobre o príncipe que tinha por norma se hospedar junto aos pobres; Lindolfo Weingärtner num conto terno e luminoso (O canto do sabiá preto); Joed Venturini com o impactante & metafísico A Troca; este vosso humilde escriba, num conto de terror(!?), A Matilha Fantasma; e concluímos com nossa saudosa e maravilhosa Myrtes Mathias, num conto com um toque arrebatador (O Menino).

Queridos trinta leitores, agora uma nota triste: havia idealizado a periodicidade da revista para semestral, mas percebo agora que infelizmente não poderei manter tal ritmo. Não que o trabalho seja tanto (mesmo que seja! Rsrs), embora eu faça aqui tudo sozinho, mas o fato se dá em virtude de meu pouco tempo. Retomei estudos universitários, e, junto ao trabalho secular e minhas outras iniciativas, das quais não posso abrir mão, percebo que o tempo de seis meses não é suficiente, ao menos nesse momento de minha vida, para dar conta de uma publicação desta magnitude. Portanto, fica em aberto, até palavra em contrário, a periodicidade de AMPLITUDE. Lembrando: a revista não acabará; apenas terá expandido seu período de gravidez. E aproveitando o ensejo, não deixem de orar por nosso bebê! E, como sempre, paz e bem e uma boa leitura! Sammis Reachers, editor Nota: Tenho buscado, nas seções de contos e poesia, efetuar um rodízio de autores. Assim, temos nesta edição em sua grande maioria autores não publicados na edição anterior. Com isso buscamos dar voz a tantos quanto possível, e apresentar aos leitores sempre um melhor panorama da grande e boa produção de nossos irmãos. 3


OFEREÇO A MINHA MORTE J.T.Parreira Ofereço a minha morte. Levanto O meu sangue no silencio das feridas. As maos abrem-se rasgadas, sao duas Cartas abertas de amor. Um horizonte, o meu lado esquerdo Abre-se para o voo do meu coraçao Abandonado por Deus, ofereço a minha morte Serei retirado da cruz por maos amorosas.

Prenda Karla Waters Das entranhas As estranhas Dos meus labios Para os teus No ventre De minh'alma É que a poesia Se concebeu

Das cortinas Dos meus veus Da materia uterina Ate os ceus

NÔVO ! Helena Branco o som trazia abs(traído)...harpeando luz a lagrimas na vidraça o ANO começa... perpassa... rendilhando suspiros consumindo notas breves d alaude ritmo insondavel batuta esgrimida d promessa comovida por STRAUSS !

danço em pontas e tules a esbelteza no espaço

Éis que a palavra surge Vindo de outra alma ruge Se encontra em minha casa É dentro dela cria asa O poema enfim nasceu Vindo de gritos e dores Contudo, cheio de esplendores

abraçada pela cintura o tempo escreve...avida a rosa perfumada e o AMOR que...murmura

Escuro vale

A VIDA!

Patrícia Costa

COM DEUS Alfredo Pérez Alencart (Espanha) Aberto estou, Deus, ao teu relampago eterno, pregado ao chao onde escuto um rouxinol que canta quando me estendo sobre a Cruz! Nem ao crepusculo se me quebra a esperança, tributaria duma carne que rangeu tao longe para nos amparar com a sua altíssima ternura. Assim, tu, eu, bem aventurados do milagre na chave profetica, espelhos duma aliança habil em redençoes sob sois escuros! Subita liberdade para voltar ao ponto de partida! Liberdade para desordenar-me entre a luz onde decerto treme a sua Voz!

Éscuro vale este onde o medo quer ser companhia e o descredito busca titubear a fe Das Tuas maos o amparo a certeza e o cuidado de ser refugio e fortaleza que ha de guiar meus olhos meu corpo meus pes quando tudo parecer contrario.

Rasga a noite, Deus, e muda-me de planeta! Tradução: António Salvado 4


O canto do sabiá preto Lindolfo Weingärtner O asilo ainda fora construído no tempo em que se pensava que pessoas idosas, para se sentirem bem, antes de tudo precisavam de ar fresco e de natureza nao poluída. So mais tarde se havia descoberto que o maior inimigo de gente velha era a solidao. Mas tal inimigo, como se sabe, nao poupa nem mesmo os asilos situados em meio ao turbilhao dos centros urbanos. Éle nao olha classe social, rico ou pobre, gente culta ou inculta. Tambem nao olha homem ou mulher, apesar de que muitos (em sua maioria, homens) afirmem ser mais facil para as mulheres lidar com a solidao do que para seus parceiros masculinos. Infelizmente nao existe nenhum aparelho com o qual se pudesse medir o grau de solidao sentido por uma pessoa, a nao ser que classifiquemos um coraçao grande e amoroso de aparelho, coisa de que Deus nos queira preservar. O asilo que nestas paginas vamos apresentar ao leitor estava situado distante da cidade, em meio a montanhas e colinas cobertas de matas, e com vista a verdes vales, pontilhados de campos e lavouras vicejantes. Viviam na instituiçao cerca de 120 idosos, e nenhum deles carecia de coisa alguma que se tem por essencial na vida das pessoas. A associaçao que administrava o asilo nao poupava esforços para que os seus velhinhos nao sofressem nenhuma carencia e para que tambem pudessem ser recebidos na casa nao poucos que eram incapazes de pagar as mensalidades vigentes. Como era que os asilados conviviam com a solidao? Bem, essa e uma pergunta a parte, que por enquanto ternos que deixar sem

resposta. Ja que nosso asilo era uma instituiçao da igreja, vinha sendo dirigido por um pastor, que cuidava de seu rebanho tanto na area física como na espiritual. Os velhos que adoeciam, nao precisavam ser deslocados para o distante hospital, eles eram tratados na propria casa, na proximidade de seu cura d'almas habitual; eles ficavam sob os cuidados de um medico, que atendia o asilo uma vez por semana, e quando alguem falecia, era sepultado no cemiterio do asilo. O cemiterio fazia parte do dia-a-dia dos inquilinos, e a maior parte deles tinha feito as pazes com o campo-santo. Sabiam que, quando eles proprios morressem, permaneceriam perto do lugar onde tinham passado seus ultimos anos de vida, e esse nao deixava de ser um pensamento confortante. Todas as pessoas, ao chegarem a velhice, aprendem, de certo modo, a viver como vizinhos da morte. Alguns conseguem estabelecer uma vizinhança pacífica, outros nao gostam de ser lembrados do termino de seus dias, em especial, quando o fim se aproxima a olhos vistos. Ém nosso asilo nao era so a proximidade do cemiterio que constantemente lembrava os velhinhos da morte. Éra a situaçao elementar dos septuagenarios e octogenarios que os lembrava dela, pois seguidamente viam alguem sendo arrancado de seu meio, que nao deixava nada a nao ser um lugar vazio no refeitorio. Raros eram os meses em que ao menos um dos asilados nao viesse a ser carregado para o campo-santo. É quando acontecia que num período de um ou dois meses nao falecia ninguem, poderia ter a certeza de que o sino da capela dobraria duas ou tres vezes seguidas no mes seguinte. Com batidas compassadas e solenes ele revelaria que 5


mais uma vez alguem tinha ido embora que por muito tempo convivera com a pequena comunidade. Provavelmente cada um dos velhinhos, bem no fundo do coraçao, se perguntava: Quando chegara o dia em que o sino vai dobrar para mim? Ontem o sino anunciara a morte da velha Irmingard. Aqui ainda vivia gente com nomes como o dela, nomes arcaicos e solenes, sem a marca de modismos modernos. Havia mulheres chamadas de Irmingard, ou de Clotilde, havia homens chamados de Fridolino ou Teofilo, naturalmente alem dos que, conforme uso da terra, se chamavam Maria, Jose, Dulce ou Giacomo, dependendo do lugar onde o destino colocara o seu berço. Nao raras vezes, aqueles que tinham tais nomes antigos eram pessoas bem especiais, que liam livros de conteudo nada corriqueiro, versadas em assuntos que nao costumavam aparecer nas paginas das revistas e nos programas de televisao. Irmingard tinha sido uma pessoa assim. Tivera uma vida nada facil. Ém sua comunidade de origem, pela maior parte de sua vida adulta ela servira como organista, e ela nao so amara a musica e os cantos, mas tambem as pessoas que tocavam e cantavam, principalmente as crianças, que ela havia reunido ao seu redor para lhes ensinar a cantar e a tocar violao e flauta doce. A nao poucos dos pequenos ela tambem ensinara a viver. Sim, uma pessoa assim tinha sido a velha Irmingard. Aos quarenta anos, ela casara com um viuvo, pai de quatro filhos. Nao tivera filhos proprios, e quando o seu marido, poucos anos depois do casamento, chegara a falecer, ela educara os filhos dele com dedicaçao e com amor, fato de que os filhos, agora adultos, jamais poderiam esquecer-se, como nao deixavam de assegurar, sempre que a visitavam no asilo. Mas nao esquecer e uma coisa, e retribuir amor com amor e outra. Acontecera o que em nossos tempos parece ser a coisa mais natural do mundo: os filhos tinham casado,

tinham ido para outras cidades, todo mundo na família trabalhava ou estudava, e em seus apartamentos simplesmente nao havia lugar para uma mulher velha e necessitada de cuidados, mesmo uma mulher como Irmingard, que com seu coraçao carinhoso era capaz de gerar e de repartir amor, nao so de retribuir o amor de outros. Assim Irmingard afinal chegara ao asilo, depois de se convencer de que por causa de seu diabetes nao poderia mais ficar sozinha em sua propria casinha. Tinha sido realmente a melhor soluçao para ela. Ja um ano antes de sua mudança para o ancionato lhe haviam amputado uma perna, e, anos mais tarde, os medicos tiveram que cortar-lhe a outra tambem. Irmingard de começo se revoltara contra esta segunda amputaçao, dissera que preferia antes morrer, do que aceitar ser mutilada daquele jeito. Tinha passado por uma luta dura antes de finalmente concordar com a operaçao. Ja que nao podia mais sentar na cadeira de rodas, ela tivera de passar os ultimos anos deitada em seu leito, totalmente dependente de outras pessoas. Sendo pequena e de figura franzina, as atendentes a carregavam nos braços como se fosse uma criancinha, sempre que a tinham de mover do seu lugar. Ém seus ultimos anos de vida ela nao deveria ter pesado mais de 35 quilos, um feixe de sofrimento e de miseria humana. Irmingard era uma mulher crente, por isso ela nao acusava a Deus por sua sorte. Mas por vezes ela se admirava das ordenanças e dos caminhos do Senhor. Éla conhecera tempos de luta, tempos de duvidas ferozes, em que sua fe parecera um mero pavio fumegante, ameaçado de se extinguir a cada momento. Mas ela nao acreditava em sua fe, ela cria no Deus que faz nascer fe e certeza, em meio a duvidas e desespero. Irmingard tinha um segredo. Éla aprendera a extrair paz e alegria íntimas nao da propria situaçao e dos proprios sentimen6


tos, mas sim, das promissoes de Deus. É os outros velhinhos sentiam aquele segredo dela, e eles vinham ao seu leito, silenciavam com ela, ou conversavam com ela sobre a vida deles. Irmingard sabia ouvir, calada, e ela tambem sabia falar no devido tempo, e havia muitos que tinham encontrado conforto e novo animo junto ao leito dela. Mesmo Fridolino, que conhecia a Bíblia como poucos, gostava de sentar junto a cama de Irmingard, falando-lhe das descobertas que fizera nos livros do Novo e do Antigo Testamento. Irmingard gostava de ouvilo, se bem que ela nem sempre compartilhava suas opinioes e interpretaçoes. Para ela, a Bíblia indicava a direçao em que andar, nao a considerava um caminho ladeado de indicaçoes e prescriçoes que mantinham o cristao na linha. A Éscritura era um curso de fe e de vida, que Deus mandara escrever, nao uma coleçao de dogmas e doutrinas infalíveis. Mas a fundo os dois se entendiam muito bem, e o velho Fridolino, depois de uma de suas conversas com Irmingard, sempre costumava ser um pouco mais tratavel e mais cordial. O dirigente do asilo bem sabia que Irmingard era a confessora secreta da casa, e nao raras vezes encaminhava para ela homens ou mulheres que tinham problemas com os familiares ou que tinham começado a retrair-se em si mesmos, acometidos de depressoes, coisa propria da velhice. Éle nao ignorava que em muitos casos a mulherzinha com aquele corpo mutilado sabia ajudar as pessoas melhor do que ele proprio. De começo constatamos que o maior inimigo de gente idosa costuma ser a solidao. Isso tambem era o caso em nosso asilo, e nao era so pelo fato de ele estar situado distante da cidade, e rodeado de lavouras e campos. As fontes amargas da solidao em realidade brotam dos abismos do coraçao humano, e quando neles sobe o lençol das aguas da tristeza, elas sao capazes de aflorar a superfície, revelando um mar de soli-

dao, mesmo em meio a gente alegre. Éste mar, constantemente alimentado por fontes secretas, e capaz de afogar qualquer alegria com suas aguas amargas. So depois da morte de Irmingard alguns dos velhinhos e do pessoal do asilo se deram conta de que na presença dela eles jamais se tinham sentido solitarios. Ninguem poderia dizer precisamente por que tinha sido assim. Devia ter sido o segredo dela. Ja que ela tinha Deus por fonte de vida e de esperança, ja que nao vivia de seus proprios recursos, ela tinha recebido do seu Criador o dom de poder abrir seu coraçao para outros, e com isto conseguia tambem que os outros lhe abrissem o proprio coraçao. Ate o fim de sua vida ela tivera a capacidade de amar as pessoas e de compartilhar da vida delas. Agora Irmingard tinha falecido, e ela deveria ser sepultada no cemiterio do asilo, a tarde do dia apos a sua morte. Tudo que os humanos costumam fazer numa ocasiao destas, tinha sido feito. O corpo murcho e mutilado de Irmingard tinha sido lavado, seus cabelos ralos foram penteados e ajustados, e tinham lhe botado o melhor de seus vestidos. Assim ela estava deitada em seu esquife, seu rostinho estreito emoldurado por flores multicoloridas, e mesmo os que viviam familiarizados com a morte, sentiam, mais que em outros casos, uma grande tristeza, e algo como uma incredula estranhes perante o fato de ela nao se encontrar mais em seu meio. Énfermeiras e atendentes tinham enchido a parte inferior do esquife com crisantemos brancos, assim que nao caía em vista que no corpo da falecida, no lugar das pernas, havia um espaço vazio. No cemiterio o coveiro tinha preparado para ela uma das sepulturas ja escavadas de antemao, e havia urna profusao de flores e coroas destinadas a enfeitar seu ultimo lugar de repouso. Filhos e netos, mais alguns conhecidos de sua cidade, tinham comparecido, e tudo deveria seguir o ritual costumeiro. 7


Mas Deus tinha resolvido dar um ar festivo ao dia em que iria ser sepultada sua serva Irmingard. Por isso ele havia ordenado que a hora do sepultamento se formasse urna tempestade sobre o vale, com relampagos e estrondos de trovao, acompanhados de cortinas de chuva fustigadas pela ventania. Assim o feretro, que seguiria da capela ao cemiterio, chegou a atrasar-se por um bom tempo. Éra tradiçao no asilo, o pastor, por ocasiao de um sepultamento, fazer a alocuçao funebre no cemiterio, nao na capela, e os velhinhos apreciavam a pratica, ja que lhes ajudava a suportar o silencio pesado do paradouro dos mortos. Assim, jovens e velhos se haviam reunido na parte superior do cemiterio, enchendo os estreitos espaços entre os jazigos, os olhares dirigidos para o vale, enquanto o pastor se tinha posicionado na parte inferior, com o rosto voltado para o distante cerro, atras do qual o sol ja ia desaparecendo. Quando, apos o hino inicial e a leitura de um trecho da Bíblia, o pastor iniciou sua alocuçao, repentinamente toda a paisagem parecia mergulhar num brilho irreal. Ainda pairava um paredao escuro de nuvens sobre o vale, mas do meio do paredao ia surgindo um esplendor, que lentamente se transformava num magnífico arco-íris. Éra um arco festivo, cujo brilho aumentava a olhos vistos, assim que se vinha refletindo mais e mais nos rostos dos presentes. O pregador estava de costas voltadas para o vale, portanto nada enxergava do maravilhoso esplendor. Verdade, ele via o brilho refletido nos rostos dos presentes, mas nao sabia como explica-lo. Assim ele continuou comentando a palavra do apostolo Paulo constante no oitavo capítulo da Épístola aos Romanos - que os sofrimentos deste tempo nao sao para comparar a gloria que nos devera ser revelada no reino de Deus. Para a comunidade, em sua maioria composta de idosos, poderia parecer coisa muito logica o pregador falar sobre os sofri-

mentos deste tempo. Cada um dos velhinhos tinha seu historico de sofrimentos que a vida lhe impusera. É muitos viviam de coraçao machucado, e havia feridas do passado que continuavam sangrando secretamente. Nao, nao se podia varrer as coisas doídas da vida para debaixo do tapete, ao querer falar da gloria a ser revelada. Assim o pregador falou do sofrimento da falecida, descreveu sua vida, lembrou seu serviço e enalteceu sua fidelidade. Sim, ela tivera de provar os sofrimentos desta vida, fora obrigada a esvaziar ate o fundo o calice da dor. A vontade inescrutavel de Deus era essa: justamente as pessoas de fe eram marcadas por contratempos e sofrimentos. Éla, cujos pes por tantos anos tinham acionado os pedais do harmonio e do orgao de sua igreja, para dar gloria a Deus, ela fora obrigada a amputar ambas as pernas. Justamente ela, que tanto gostara de lidar com crianças e jovens alegres, tivera de findar os seus dias enferma, em meio a outras pessoas enfermas e idosas. Os caminhos de Deus para com os humanos eram verdadeiramente inescrutaveis. No momento em que o pregador mencionara as pernas amputadas de Irmingard, o arco-íris tinha intensificado o seu brilho; e começara a espelhar-se nas nuvens, assim que aos poucos se ia formando um arco duplo, fenomeno como que sobrenatural, que poucas pessoas tem oportunidade de ver no decorrer de sua vida. Ja que o sol acabara de desaparecer por detras do cerro, o vale aos poucos mergulhara na sombra; mas agora a paisagem toda começara a resplandecer com um brilho que nao parecia desta terra. O pregador sentia a comoçao dos presentes. Via como os rostos familiares haviam mudado, assim como se diante deles ja nao se viesse desdobrando um ritual religioso, mas como se lhes estivesse ocorrendo algo de novo e maravilhoso, que os arrebatava de seu dia-a-dia. O pastor, porem, continuava falando dos 8


sofrimentos deste tempo. Éle nao poderia mudar o escopo de sua pregaçao, so porque os rostos do pessoal pareciam espelhar comoçao e admiraçao. Éle parecia perturbado, sim, pelo fato de os presentes, pelo que parecia, ja terem antecipado a segunda parte de seu sermao, antes que ele tivesse falado uma palavra sequer da gloria que em nos devera ser revelada. Por alguns momentos, admirado da comoçao refletida nos rostos dos velhinhos, o pregador chegou a silenciar. Foi aí que uma voz quebrou o silencio: "Pastor, olhe para suas costas, olhe para o ceu — O Sinal da Aliança!" Éra Fridolino, que ousara interromper o solene ritual, apontando para o espetaculo celeste. O pastor, em sua convivencia com os velhinhos, se acostumara a muitas esquisitices e atitudes excentricas proprias de gente idosa, assim atendeu o pedido de Fridolino olhando na direçao indicada. É entao tambem ele passou a ver a gloria. É se deu conta de que o proprio Deus havia assumido a parte do seu sermao que tratava da gloria a ser revelada em nos. Assim ele limitou-se a dizer: "Sim, Fridolino tem razao. O Sinal da Aliança." É assim aconteceu que, na hora do sepultamento de Irmingard, pastor e comunidade quedavam-se em silencio, ao lado da sepultura aberta, abrindo-se ao fulgor que irradiava do arco da aliança de Deus. É enquanto paravam, silenciosos, bem de manso, do beirado da floresta proxima, começou a trinar um sabia preto. Éle cantava como que de voz contida, assim como os sabias pretos costumam cantar ao luscofusco do dia. Cantou por uns dois minutos, e quando enfim silenciou, igualmente o arcoíris foi perdendo o seu fulgor. Ao fim, o pastor voltou a encarar a comunidade. Falou da esperança dos que adormeceram em Cristo Jesus, falou da gloria da vida eterna — e tudo correu segundo a ordem costumeira. O esquife foi baixado a sepultura: Terra a terra, cinza a cinza e po

ao po. Semeia-se um corpo corruptível, ressuscitara um corpo espiritual. Juntos, finalmente, todos oraram a oraçao do Senhor, e depois foram despedidos com a costumeira bençao. A maior parte dos velhos voltara ao asilo, logo apos a cerimonia. So ao redor de Fridolino se havia formado um grupo que se envolvera numa discussao com ele. Fridolino insistia que o arco-íris tinha sido um sinal de Deus; o proprio pastor o tinha confirmado. É vinha escrito na Bíblia: Deus havia colocado o arco no ceu, apos o diluvio, para que servisse de eterno sinal da aliança estabelecida entre Éle e os humanos. Mas ele nao admitia que tambem o canto do sabia era parte desta aliança. Nada se encontrava na Sagrada Éscritura a respeito de aves que tinham a tarefa de dar recados aos humanos atraves de seu canto. A pomba que carregara no bico a folha de oliveira, nao havia arrulhado nada para Noe, o corvo que havia trazido pao e carne a Élias, na margem do arroio de Querite, nao havia grasnado nenhuma mensagem para o profeta. Seu serviço fora mudo. Deus nao falava atraves de passarinhos, e o canto deles nao tinha nenhum significado para nos. Um dos circunstantes alegava que o galo, que, afinal, tambem era ave, por certo tivera um recado a dar a Pedro, na noite em que este negara a seu Mestre. Mas Fridolino nao se deu por achado. O galo tinha cantado, mas era hora de ele cantar de qualquer jeito, ele nem sabia porque estava cantando e que seu canto poderia ter um significado pala Pedro. A gente facilmente se tornava vítima de fantasias, ao querer dar as coisas da natureza uma interpretaçao espiritual. Alguns do grupo nao concordavam com ele, mas ninguem costumava argumentar com o velho Fridolino sobre questoes que envolviam a Bíblia, e assim sua opiniao prevaleceu. Mas por ocasiao da janta, Fridolino se mantivera calado, como que contrariado, e 9


quando todos abandonaram o refeitorio, ele reteve alguns de seus amigos, com os quais havia discutido pouco antes no cemiterio, e humildemente lhes pediu perdao. Éle se havia enganado. O sabia fora mensageiro de Deus, sim. Éle havia conferido na Bíblia; constava no Salmo 148, com toda clareza: Éntre feras, gados e repteis estavam tambem os volateis, isto e, os passarinhos - todos sendo convocados para louvarem a Deus. É aí o sabia preto nao podia ficar de fora. É como ele poderia louvar a Deus, a nao ser com seu canto? É talvez em realidade o canto do sabia tinha uma coisa a ver com o fato de a falecida Irmingard ter tocado e cantado para a gloria de Deus, enquanto ainda fora capaz de faze-lo. É tambem constava no Salmo 148 que os velhos junto com os jovens deviam louvar a Deus, e que isto era uma coisa que Irmingard sempre havia falado, e por-

L U M I N A R E S

tanto era um recado bem pessoal de Deus para todos eles. Éu penso que poderemos concordar com o velho Fridolino, aceitando sua interpretaçao da Éscritura tambem em nossa propria vida. É talvez que nesta interpretaçao se revele o mais profundo segredo de Irmingard: o louvor a Deus havia secado em seu coraçao aquela fonte amarga da qual se alimenta a solidao humana, fazendo nascer em seu lugar a vertente vivificante do amor. Com isso sua propria vida, e a vida de muitas outras pessoas, tinham sido transformadas. Lindolfo Weingärtner nasceu em 1923 em Águas Mornas - SC. É pastor luterano, professor, escritor e poeta. Possui 27 livros publicados, dentre os quais O Canto do Sabiá e outros contos cristãos (Blumenau: Gráfica e Editora Otto Kuhr, 2003), de onde retiramos o presente texto.

“Aslam”, de Joana Cristina. Conheça mais AQUI.

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dose de maldade, comentou que ela havia morrido de ansiedade por nao conseguir Judson Canto colocar as fofocas e murmuraçoes em dia. A notícia de sua morte se espalhou, e Sabe a irma encrenqueira, aquela infatigavel promotora de confusoes na igreja, que gente de toda a cidade, em numero suficienpode ser definida como o friozinho na espi- te para encher a arca de Noe, vítimas de suas intrigas, correu para a igreja, espremennha do pastor ou a dor de dente do-se nos bancos e corredores da congregaçao? Éssa era Porfíem silenciosa confraternizaçao. ria, talvez o equivalente a muiAlguns, desconfiados da sorte, tos tratamentos de canal. beliscavam disfarçadamente o — Mas ela era tao terrível cadaver, para ver se ela nao esassim? tava fingindo. Depois se beliscaO diacono Padilha, que revam para ver se nao estavam sopassava a um novo convertido nhando. curioso a biografia da encrenA Morte da Encrenqueira

queira, balançou a cabeça confirmando. Éle proprio fora uma das vítimas daquela língua muitas vezes comparada a uma víbora, so que — todos concordavam — mais venenosa. Éla havia cismado que fora ele quem lhe dera o apelido de Morte na Panela, e nao poupava o coitado. Se ele se demorava um pouco mais no cumprimento a uma mulher, ela puxava alguem pelo braço e cochichava: “Ja vi esse filme…”. Se ele abraçava um velho amigo com maior efusao, ela comentava: “Nao sei nao…”. — Éla costumava encarar a pessoa bem de perto, e entao começava a falar mal de alguem, sempre repetindo: “Nao acha que eu tenho razao?”. É a pessoa que nao concordasse! — acrescentou o diacono Padilha, explicando o principal metodo da fofoqueira. — Depois ela procurava o irmao ou irma de quem havia falado mal e dizia quem inventara aquelas coisas fora a outra pessoa. Porque, se voce concordava, e como se tambem tivesse dito, nao e? — Nao posso imaginar nada pior. — Pois imagine. Éla tinha mau halito. O diacono Padilha e o novo convertido estavam conversando no velorio de Porfíria. Sim, ela adoecera meses antes. É, depois uma subita melhora, ate voltara a frequentar os cultos, porem morreu passados alguns dias, de forma tao repentina quanto fora a sua recuperaçao. Alguem, com certa

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No cemiterio, o pastor Rodolfo pigarreou, ajeitou o no da gravata e começou: — Irmaos, estamos aqui neste culto de açao de graças — todos fingiram nao perceber a gafe — pelo passamento da irma Porfíria… Atras dele, um coral de cochichos composto por irmaos ansiosos para enterrar o passado instigava: — Anda logo! Anda logo! — Vamos ler uma passagem da Bíblia, no Évangelho de Joao, capítulo onze… É novamente o coral de cochichos, com expressao de pavor: — Le outra! Le outra! Finalmente a sepultaram. Os irmaos nem haviam ainda deixado o cemiterio quando o ceu enegreceu e um raio fendeu a escuridao de alto a baixo. Ém seguida, um trovao fez estremecer o lugar. O diacono Padilha olhou para o alto e exclamou: — Ih! Éla ja chegou la. Judson Canto é editor, escritor, revisor e tradutor. Mantem o blog O Balido. Do autor, baixe em formato pdf o conto ilustrado Ate os Confins da Terra. CLIQUÉ AQUI. 11


Jardim dos Clássicos Eça de Queirós (1845 - 1900) nasceu em Póvoa de Varzim, no norte de Portugal. Foi um dos maiores prosadores de nossa língua, filiado ao Realismo português. Iniciou sua carreira nas Letras publicando no Jornal Gazeta de Portugal. Autor de diversas obras, tais como os romances A Ilustre Casa de Ramires, A Capital, O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e A Relíquia, dentre outros. Suas obras estão traduzidas para mais de vinte idiomas. O presente conto foi publicado originalmente em 1898, na Revista Moderna.

O Suave Milagre Eça de Queirós NÉSSÉ tempo Jesus ainda se nao afastara da Galileia e das doces, luminosas margens do Lago de Tiberíades: - mas a nova dos seus milagres penetrara ja ate Énganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issacar.

Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e anunciou que um novo profeta, um Rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do reino de Deus, curando todos os males humanos. É enquanto descansava sentado a beira da Fonte dos Vergeis, contou ainda que esse Rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo De um decuriao romano so com estender sobre ele a sombra das suas maos; e que noutra manha, atravessando numa barca para a terra dos Gerassenios, onde começava a colheita do balsamo, ressuscitara a filha de Jairo, homem consideravel e douto que comentava os Livros na Sinagoga. É como em redor, assombrados, seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro, lhe perguntassem se esse era, em verdade, o Messias da Judeia e se diante dele refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as sombras de duas torres, as sombras de Gogue e de Magogue o homem, sem mesmo beber daquela agua tao fria de que bebera Josue, apanhou o ca-

jado, sacudiu os cabelos, e meteu pensativamente por sob o Aqueduto, logo sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperança, deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina que verdeja ate Ascalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar; as crianças, colhendo ramos de anemonas, espreitavam pelos caminhos se alem, da esquina do muro, ou de sob o sicomoro, nao surgiria uma claridade; e nos bancos de pedra, as portas da cidade, os velhos, correndo os dedos pelos fios das barbas, ja nao desenrolavam, com tao sapiente certeza, os ditames antigos. Ora entao vivia em Énganim um velho, por nome Obede, duma família pontifical de Samaria, que sacrificara nas aras do Monte Ébal, senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas - e com o coraçao tao cheio de orgulho como o seu celeiro de trigo. Mas um vento arido e abrasador, esse vento de desolaçao que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas manadas, e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam no olmo, e se estiravam na latada airosa, so deixara, em torno dos olmos e pilares despidos, sarmentos, cepas mirradas, e a parra roída de crespa ferrugem. É Obede, agachado a soleira da sua porta, com a ponta do manto sobre a face, palpava a poeira, lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel. 12


Apenas ouvira falar desse novo Rabi da Galileia, que alimentava as multidoes, amedrontava os demonios, emendava todas as desventuras - Obede, homem lido, que viajara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um desses feiticeiros tao acostumados na Palestina, como Apolonio, ou Rabi BenDossa, ou Simao, o Sutil. Ésses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estrelas, para eles sempre claras e faceis nos seus segredos: com uma vara afugentam de sobre as searas os moscardos gerados nos lodos do Égito: e agarram entre os dedos as sombras das arvores, que conduzem, como toldos beneficos, para cima das eiras, a hora da sesta. Jesus da Galileia, mais novo, com magias mais viçosas decerto, se ele largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdeceria os seus vinhedos. Éntao Obede ordenou aos seus servos que partissem, procurassem por toda a Galileia o rabi novo, e com promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Énganim, no país de Issacar. Os servos apertaram os cinturoes de couro - e largaram pela estrada das Caravanas, que, costeando o Lago, se estende ate Damasco. Uma tarde, avistaram sobre o poente, vermelho como uma roma muito madura, as neves finas do monte Hermon. Depois, na frescura duma manha macia, o lago de Tiberíades resplandeceu diante deles, transparente, coberto de silencio, mais azul que o ceu, todo orlado de prados floridos, de densos vergeis, de rochas de porfiro, e de alvos terraços por entre os pomares, sob o voo das rolas. Um pescador que desamarrava a sua barca duma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os servos. O Rabi de Nazare? Oh, desde o mes de Ijar, o Rabi descera, com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordao leva as aguas. Os servos, correndo, seguiam pelas margens do rio, ate adiante do vau, onde ele se estira num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, imovel e verde, a sombra

dos tamarindos. Um homem da tribo dos Éssenios, todo vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas salutares, pela beira da agua, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos humildemente saudaramno, porque o povo ama aqueles homens de coraçao tao limpo, e claro, e candido como as suas vestes cada manha lavadas em tanques purificados. É sabia ele da passagem do novo Rabi da Galileia, que como os Éssenios ensinava a doçura, e curava as gentes e os gados? O essenio murmurou que o Rabi atravessara o Oasis de Éngaddi, depois se adiantara para alem... - Mas onde, "alem"? - Movendo um ramo de flores roxas que colhera, o essenio mostrou as terras de alem Jordao, a planície de Moabe. Os servos vadearam o rio - e debalde procuraram Jesus, arquejando pelos rudes trilhos, ate as fragas onde se ergue a cidadela sinistra de Macaur... No Poço de Yakob repousava uma larga caravana, que conduzia para o Égito mirra, especiarias e balsamos de Gileade; e os cameleiros, tirando a agua com os baldes de couro, contaram aos servos de Obede que em Gadara, pela lua nova, um Rabi maravilhoso, maior que Davi ou Isaías, arrancara sete demonios do peito duma tecedeira, e que, a sua voz, um homem degolado pelo salteador Barrabas se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos, esperançados, subiram logo açodadamente pelo caminho dos peregrinos ate Gadara, de altas torres, e ainda mais longe ate as nascentes da Amalha... Mas Jesus, nessa madrugada seguido por um povo que cantava e sacudia ramos de mimosa, embarcara no Lago, num batel de pesca, e a vela navegara para Magdala. É os servos de Obede, descoroçoados, de novo passaram o Jordao na ponte da Filhas de Jaco. Um dia, ja com as sandalias rotas dos longos caminhos, pisando ja as terras da Judeia romana, cruzaram com um fariseu sombrio, que recolhia a Éfraim, montado na sua mula. Com devota reverencia detiveram o homem da Lei. Én13


contrara ele por acaso esse profeta novo da Galileia que, como um Deus passeando na terra, semeava milagres? A adunca face do fariseu escureceu enrugada e a sua colera retumbou como um tambor orgulhoso: - Oh, escravos pagaos! Oh, blasfemos! Onde ouvistes que existissem profetas ou milagres fora de Jerusalem? So Jeova tem força no seu Templo. De Galileia surgem os nescios e os impostores... É como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de dísticos sagrados - o furioso Doutor saltou da mula, e, com as pedras da estrada, apedrejou os servos de Obede, uivando: Racca! Racca! e todos os anátemas rituais. Os servos fugiram para Énganim. É grande foi a desconsolaçao de Obede, porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam – e, todavia, radiantemente, como uma alvorada por detras de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galileia. Por esse tempo, um centuriao romano, Publius Septimus, comandava o forte que domina o vale de Cesareia, ate a cidade e ao mar. Publius, homem aspero, veterano da campanha de Tiberio contra Partos, enriquecera durante a revolta de Samaria com presas e saques, possuía minas na Atica, e gozava, como favor supremo dos deuses, a amizade de Flaco, legado imperial da Síria. Mas uma dor roía a sua prosperidade muito poderosa, como um verme roi um fruto muito suculento. Sua filha unica, para ele mais amada que vida e bens, definhava com um mal sutil e lento, estranho mesmo ao saber dos esculapios e magicos que ele mandara consultar a Sidon e a Tiro. Branca e triste como a lua num cemiterio, sem um queixume, sorrindo palidamente a seu pai, definhava, sentada na alta esplanada do forte, sob um velario, alongando saudosamente os negros olhos tristes pelo azul do mar de Tiro, por onde ela navegara de Italia, numa opulenta galera. Ao seu lado, por vezes, um legionario entre as ameias apontava va-

garosamente ao alto a flecha, e varava uma grande aguia, voando de asa serena, no ceu rutilante. A filha de Septimus seguia um momento a ave, torneando ate bater morta sobre as rochas; - depois, com um suspiro, mais triste e mais palida, recomeçava a olhar para o mar. Éntao Septimus, ouvindo contar, a mercadores de Corazim, deste Rabi admiravel, tao potente sobre os espíritos, que sarava os males tenebrosos da alma, destacou tres decurias de soldados para que o procurassem pela Galileia, e por todas as cidades da Decapolis, ate a costa e ate Ascalon. Os soldados enfiaram os escudos nos sacos de lona, espetaram nos elmos ramos de oliveira e as suas sandalias ferradas apressadamente se afastaram, ressoando sobre as lajes de basalto da estrada romana, que desde Cesareia ate Lago corta toda a tetrarquia de Herodes. As suas armas, de noite, brilhavam no topo das colinas, por entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia invadiam os casais, rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lanças a palha das medas; e as mulheres, assustadas, para amansar logo acudiam com bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que eles bebiam dum trago, sentados a sombra dos sicomoros. Assim correram a Baixa Galileia - e, do Rabi, so encontravam o sulco luminoso nos coraçoes. Énfastiados com as inuteis marchas, desconfiando que os judeus sonegassem o seu feiticeiro para que Romanos nao aproveitassem do superior feitiço, derramavam com tumulto a sua colera, atraves da piedosa terra submissa. A entrada das pontes detinham os peregrinos, gritando o nome do Rabi, rasgando os veus as virgens: e, a hora em que os cantaros se enchem nas cisternas invadiam as ruas estreitas dos burgos, penetravam nas sinagogas e batiam, sacrilegamente com os punhos das espadas nas Thebahs, os Santos Armários de cedro que continham os Livros Sagrados. Nas cercanias de Hebron arrastaram os solitarios pelas bar14


bas para fora das grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocultava o Rabi - e dois mercadores fenícios que vinham de Jope com uma carga de malobatro, e a quem nunca chegara o nome de Jesus, pagaram por esse delito cem dramas a cada centuriao. Ja as gentes dos campos, mesmo os bravios pastores de Idumeia, que levam as reses brancas para o Templo, fugiam espavoridos para as serranias, apenas luziam, nalguma volta do caminho, as armas do bando violento. É da beira dos eirados, as velhas sacudiam como taleigos a ponta dos cabelos desgrenhados, e arrojavam sobre eles as Mas-Sortes, invocando a vingança de Élias. Assim tumultuosamente erraram ate Ascalon; nao encontraram Jesus: e retrocederam ao longo da costa enterrando as sandalias nas areias ardentes. Numa madrugada, perto de Cesareia, marchando num vale, avistaram sobre um outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava, recolhidamente, o fino e claro portico dum templo. Um velho, de compridas barbas brancas, coroado de folhas de louro, vestido com uma tunica cor de açafrao, segurando uma curta lira de tres cordas, esperava gravemente, sobre os degraus de marmore, a apariçao do Sol. Debaixo, agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram pelo sacerdote. Conhecia ele um novo profeta que surgira na Galileia, e tao destro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a agua em vinho? Serenamente, alargando os braços, o sereno velho exclamou por sobre a rociada verdura do vale: - Oh romanos, pois acreditais que em Galileia ou Judeia apareçam profetas consumando milagres? Como pode um barbaro alterar a ordem instituída por Zeus?... Magicos e feiticeiros sao vendilhoes, que murmuram palavras ocas, para arrebatar a esportula dos simples... Sem a permissao dos Imortais nem um galho seco pode tombar da arvore, nem seca folha pode ser sacudida na arvore. Nao ha profetas, nao ha mila-

gres... So Apolo Delfico conhece o segredo das coisas! Éntao, devagar, com a cabeça derrubada, como numa tarde de derrota, os soldados recolheram a fortaleza de Cesareia. É grande foi o desespero de Septimus, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de Tiro - e todavia a fama de Jesus, curador dos languidos males, crescia, sempre consoladora e fresca, como a margem da tarde que sopra do Hermon e, atraves dos hortos, reanima e levanta os açucenas pendidas. Ora entre Énganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega dum cerro, vivia a esse tempo uma viuva, mais desgraçada mulher que todas as mulheres de Israel. O seu filhinho unico, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos da enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Tambem a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. É, sobre ambos, espessamente a miseria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. Ate na lampada de barro vermelho secara ha muito o azeite. Dentro da arca pintada nao restava grao ou codea. No Éstio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tao longe do povoado, nunca esmola de pao ou mel entrava o portal. É so ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na terra escolhida, onde ate as aves maleficas sobrava o sustento. Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mae amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse Rabi que aparecera na Galileia, que de um pao no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso Reino, de abundancia maior que a 15


corte de Salomao. A mulher escutava, com olhos famintos. É esse doce Rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah, esse doce Rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia como o Sol que ate por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, so aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obede, tao rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessa a Énganim; Septimus, tao soberano, destacara os seus soldados ate a costa do mar, para que buscassem Jesus, o conduzissem, por seu mando, a Cesareia. Érrando, esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obede, depois os legionarios de Septimus. É todos voltavam como derrotados, com as sandalias rotas, sem terem descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palacio, se escondia Jesus. A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordao, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mae retomou o seu canto, mais vergada, mais abandonada. É entao o filhinho, num murmurio mais debil que o roçar duma asa, pediu a mae que lhe trouxesse esse Rabi, que amava as criancinhas ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mae apertou a cabeça esguedelhada: - Oh, filho! É como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, a procura do Rabi da Galileia? Obede e rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Corazim ate ao país de Moabe. Septimus e forte, e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hebron ate ao mar. Como queres que te deixe? Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora conosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. É mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o Rabi tao desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse atraves das cidades ate este ermo, para sarar um entrevadinho tao pobre, sobre en-

xerga tao rota? A criança, com duas lagrimas na face magrinha, murmurou: - Oh, mae, Jesus ama todos os pequeninos. É eu ainda tao pequeno, e com um mal tao pesado, e que tanto queria sarar! É a mae, em soluços: - Oh, meu filho, como te posso deixar? Longe sao as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tao rota, tao tropega, tao triste, ate os caes me ladrariam da porta dos casais. Ninguem atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce Rabi. Oh, filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O ceu o trouxe, o ceu o levou. É com ele para sempre morreu a esperança dos tristes. De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres maozinhas que tremiam, a criança murmurou: - Mae, eu queria ver Jesus... É logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse a criança: - Aqui estou.

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Arte de Escrever Max Lucado

O jovem aspirante a escritor estava precisando de esperança. Muitas pessoas lhe haviam dito para desistir. “É quase impossível conseguir que seu trabalho seja publicado”, disse-lhe um orientador. “A menos que voce seja uma celebridade nacional, os editores nem sequer falarao com voce”. Outro avisou: “Éscrever toma muito tempo. Alem disso, voce nao vai querer colocar todos os seus pensamentos no papel”. No início ele ouviu. Concordou que escrever era um desperdício de esforço e voltou sua atençao a outros projetos. Mas de alguma forma, a caneta e o bloco de notas eram como o cafe e a Coca -Cola para o viciado em palavras. Éle preferia escrever a ler. Éntao escrevia. Quantas noites ele passava naquele sofa, em um canto do seu apartamento, misturando sua coleçao de verbos e substantivos? É quantas horas sua mulher lhe fez companhia? Éle fazendo artesanato com as palavras. Éla bordando em ponto de cruz. Por fim, ele terminou um manuscrito. Cru e cheio de erros, mas terminado. Éla lhe deu o empurrao que faltava. — Por que voce nao o envia? Que mal ha nisso? Éntao ele fez isso. Énviou o manuscrito a quinze diferentes editores. Énquanto o casal esperava, ele escrevia. Énquanto ele escrevia, ela bordava. Nenhum deles tinha muitas expectativas, mas

ambos esperavam. As respostas começaram a chegar. “Sentimos muito, mas nao aceitamos manuscritos nao solicitados”. “Éstamos devolvendo o seu trabalho. Felicidades”. “Nao temos espaço em nosso catalogo para autores nunca dantes publicados”. Ainda tenho essas cartas. Ém uma pasta, em algum lugar. Éncontra-las levaria algum tempo. No entanto, encontrar o bordado de Denalyn nao leva tempo algum. Para ve-lo, tudo o que tenho que fazer e levantar os olhos do meu monitor e olhar para a parede. “Éntre todas as artes nas quais os sabios sao proficientes, a maior obraprima da natureza e escrever bem”. Com isso ela me deu tempo para que a carta numero quinze chegasse. Um editor tinha dito sim. Aquela carta tambem esta emoldurada. Qual dos dois quadros significa mais para mim? O presente da minha esposa ou a carta do editor? O presente, claro. Ao dar-me o presente, Denalyn deu-me esperança. O amor faz isso. O amor estende um ramo de oliveira a pessoa amada e diz: “Éu tenho esperança em voce”. _________________________________________________________ Éxtraído de “Quando a Sua Esperança é Pequena” (do livro “Um Amor que Vale a Pena”, CPAD, 2003). 17


Tinha as sandalias cheias de lama, porque costumava percorrer os montes de terJ.T.Parreira ra que bordejavam as aguas do rio. O rosto evidenciava, com rugas, que haO rio nao parecia correr no seu leito via percorrido uma esnatural, circulava pela trada na vida que nao cidade, por entre as casas fora atapetada de lírios. e dava a impressao de Tinha, no entanto, estar ao nível das uma boa figura, e as construçoes mais maos, quando andava, rectangulares, reflectindo pareciam imprimir as faces dos edifícios. calma a todo o corpo. Gedalias, um anciao Vivia num lugar que de olhar ja acomodado, as autoridades babilonisentava-se ao lado de cas tinham destinado Quebar, um canal navegaaos judeus deportados. vel, a jusante do Éufrates, Éstes viviam em casas e via subir e descer com o proprias, alguns ate havento, ate arrastarem as viam enriquecido com o folhas mais altas nas esforço da sua aculturaaguas, os juncos que se çao e integraçao, vivenpareciam com saltadores do nao como escravos, no momento do mergumas semi-livres, em lho. Michele Myers pontos estrategicos um Nas pedras, junto de si, tinha pousada uma tabua de barro com inscri- pouco acima das margens do Quebar. A sua çoes da historia recente e um papiro enve- casa e a da família estava ao lado de um lhecido no qual se via que ja inscrevera al- grande salgueiro, que em fins de tarde sem gumas frases em aramaico. O velhinho vento dava bastante calma ao olhar, emboolhava-as, e quando o fazia espaçadamente ra nao acrescentasse nenhuma novidade, era com uma tristeza nos cantos da boca, por isso nos olhos de Gedalias havia, por como se alguma coisa tardasse em chegar. vezes, uma certa acomodaçao. Mas, na maior parte do tempo em que É afirmava a si proprio: «Éstes versos serao feitos como se esculpisse o sentir da estava sozinho, os olhos iam buscar ao funtristeza, a lamentaçao certa ha-de chegar do do rio sentimentos tristes, e, no entanto, davam a impressao de estarem a acompaperfeita, do meu estado de espírito.» Éra um velho que trajava um longo ves- nhar o subtil curso das aguas. Como quase sempre podia fazer, estava tido gasto, com motivos sumerios, e abrigava-se da humidade do ar com uma pele de sentado ao lado do rio, e a luminosidade carneiro surrada, «Apesar das aparencias, que vinha da agua, compartilhava-a no seu sou um cativo muito bem tratado» – pensa- rosto. Nesses momentos baixava a cabeça e va, varias vezes, com algum reconhecimen- olhava em direcçao do seu manuscrito. Trouxeram-nos, um dia, por volta do to, e poucas vezes falava de vingança. Fizera parte da primeira deportaçao, anoitecer, das suas terras da Palestina, ao era um bom artífice, a quem reconheceram velhinho com uma dezena de milhar de a sua valia profissional para trabalhar em outros judeus, e a partir de entao aqueles artes decorativas. Agora, porem, ja nao tra- canais da Babilonia eram como uma praça onde juntavam os soluços e as palavras balhava.

O Poeta do Salmo exilado

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castradas. Lembrava-se perfeitamente do dia, Jerusalem apos um cerco breve capitulou no dia 16 de Março de 597, sem resistencia digna de nota. O rio possuía recantos aprazíveis e os salgueiros quando se reflectiam no retrato criado no espelho das aguas, faziam-no de margem a margem em alguns pontos. Uma parte do seu estado de espírito quereria fazer caber esse sentimento estetico no que viesse a escrever, a outra, era mais dramatica, prendia-se com o aviltamento natural do seu estado de exilado judeu, prendia-se com a religiao. — Se eu fosse o nosso grande rei David, o salmo ja arderia de beleza em todas as suas palavras. — Disse, um dia, a um moço que lhe perguntara o destino que daria ao manuscrito. — Éu sou apenas um velho que quer deixar um pedaço de historia para la das nossas ruínas. Mas talvez seja ja muito tarde. — Arrematou, voltando de novo a sua contemplaçao. — Venha, meu pai. — Julgar-se-ia que a filha o teria acordado, quando o veio chamar. — Venha preparar o Shabat, que apesar de estarmos em terra estranha, temos aqui de perpetuar Siao. A noite caía sobre o Éufrates e o Quebar como uma peça unica, compacta, a propria sombra tenue dos salgueiros ja nao se distinguia, mais tarde seria somente o murmurar das aguas que indicariam, no escuro, o volume espesso dos rios. Émbora nao desse excessiva importancia a idade, como limite para produzir uma obra salmodica, pensava com frequencia que ja nao teria muito tempo, que talvez fosse ja muito tarde. — Ainda quero sair daqui, regressar a minha terra. — Desejava sempre que a conversa se metia por aí, embora la nao tivesse as margens de um rio como aquele onde se poderia sentar. Sentar-se-ia debaixo do alpendre de uma casa. É pensava assim sem-

pre que se animava com uma possível longevidade. Havia rumores de que os persas, sob o mando de Ciro, poderiam estar perto de invadir Babilonia. É esses nao eram propriamente barbaros. É no que dizia respeito aos judeus, a sua relaçao com estes nao era assim tao complicada politicamente. Mas um poema sobre o exílio obcecava-o e estava dentro das suas prioridades de anciao. Pensava muito no assunto, e talvez por saber que o mesmo nao acontecia com outros da sua idade, e, sobretudo, com alguns muito mais novos, que ja haviam nascido em terra estranha, muito mais pensava num retrato poetico do exílio, numa forma que sintetizasse a tristeza e o orgulho nacionais. Foi nesse instante que um dos filhos, o mais velho, lhe interrompeu o que estava a pensar. Éle falava de um modo pacificado e parecia inquieto, mais no olhar do que na voz. — Pai, queria que me desse uns momentos da sua atençao. Ésse seu filho era o predilecto, nao por ser o primogenito, mas por ser rigoroso com a sua vida secular, com ortodoxia de princípios para com a comunidade, cumpridor da lei Mosaica e um excelente musico. Tocava lira na perfeiçao. — Ja decidi, ha muito tempo, que nao vou tocar lira para a festividade dos nossos opressores. No entanto, insistem. Vou debater-me com problemas. — Deus reservou-te uma tarefa, que nao sera certamente tocares o cantico do Senhor em terra estranha. — Anuiu o velho pai, enquanto com a cabeça procurava o exacto ponto cardeal para olhar, no vazio, rumo a Jerusalem. — Nao sou o unico a pensar desta maneira — informou o filho — Ha muitos judeus a pensarem o mesmo.

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É, no entanto, estavam todos aflitos com a situaçao. Éra uma honra que os babilonios os considerassem muito bons musicos e se deliciassem a ouvir as liras dedilhadas por uns dedos que so sabiam, agora, contar salmos de angustia e tristeza, mas sempre com aquele ritmo vivo que um dia fizera Miria executar uma remota dança ou David saltar a frente da Arca. — Talvez. — Concordou o velho — Mas sempre e o cantico do Senhor em terra estranha. Por muito que ambicionemos nao poderemos tirar desta terra um cantico para o Senhor. — Repetiu, enquanto um vento inesperado fez uma passagem rapida pelos salgueiros, como uma musica agreste, defrontando as ramagens. É entre as suas palpebras, ja muito flacidas, começaram a brilhar umas pequeníssimas perolas. Uma nuvem mais branca, queria agora instalar-se entre as mais escuras que corriam, ja havia um bocado, pelo ceu. Éra uma nuvem muito simples, que nao se parecia com nada, nem suscitava qualquer desenho a imaginaçao. O velho talvez pudesse agora voltar para o seu sítio ao lado do rio, e levar os seus instrumentos de escrita onde esperava ainda escrever alguma coisa a favor do mundo que lhe roubaram. A lua era uma quilha de um barco a subir e a descer na luminosidade de espuma, quase alva, de algumas nuvens. Nessa noite, cheia do rumor com que as aguas, as vezes, substituem a ventania, sentia-se com pensamentos inspirados. — Junto dos rios da Babilónia nos assentamos e choramos — disse em voz alta, e achou que este começo do poema condizia com a verdade, porque ja presumia a liçao de quanto mais poetico mais verdadeiro. Poderia ser mais narrativa que poesia, mas era a verdade sentida. — Filho — olhou para o primogenito — Nao cres que esta e a melhor posiçao que actualmente nos retrata, como um povo? Havia no entanto, que meter dentro do paragrafo, dissera-lhe o filho, a saudade, a

religiosidade e tambem um sentido comunitario. Fizera bem em referi-lo, porque o velho concluiu os versos com «lembrando-nos de Sião.» Depois veio aquela referencia aos salgueiros. Havia inumeros, junto as colonias oferecidas aos judeus, nas margens do rio Quebar. «Nos salgueiros penduramos nossas harpas.» Mas como uma centelha que sai do fundo da fogueira que parece extinta, e revigora todo o fogo, Gedalias recordou que nos primeiros anos de cativeiro, e mesmo muitos anos depois, os babilonios insistiam para que cantassem as suas cançoes. Éra verdade, que tinham permissao para celebrar as suas festas, embora so cultivassem uma, a Festa das Lamentaçoes aliada ao novo costume de orarem com os olhos voltados para Jerusalem, mas tocar para aqueles que os levaram ao exílio, jamais. É, assim, começou a escrever: «Porquanto aqueles que nos levaram cativos, nos pediam uma canção; e os que nos destruíram, que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos um dos cânticos de Sião.» Mas como numa terra impura, o homem se guarda de contaminar o corpo, sem lugar de culto, sem referencias físicas para situar a sua religiao, a nao ser no plano dos costumes, dando maior importancia ao Sabado e a Circuncisao, o velho e todos os outros judeus que puderam, enfim, regressar a Jerusalem, tinham imenso orgulho em poder afirmar, como as palavras desse poema, a sua recusa: «Mas como entoaremos o cantico do Senhor em terra estranha?». ____________________________________________________ Do livro Como quem ia para longe. Baixe gratuitamente seu exemplar AQUI. J.T.Parreira é poeta, escritor e ensaísta português. Autor de seis livros de poesia e diversos e-books. Éscreve desde 1964 na revista Novas de Alegria. Mantem o blog Poeta Salutor. 20


RECIFE- MENINO Ao toque do cada sino remeto à vida do meu Recife - menino. Nos quintais quase todos os frutos: os que do oriente foram trazidos e os que já se encontravam no chão do descobrimento, as cores dos frutos nos quintais das casas celebravam a vida em todas as nuances e eu adormecia sob aquele manto cintilante. De tempos em tempos floriam as mangabeiras, depois era a vez das mangas de amarelo, rosa e verde vestidas, também as goiabeiras, os laranjais e abacateiros. Vivíamos sob a exuberante copa dos jambeiros, e à espera de colher as bananas d’água, da prata e do ouro.

Recife era umidamente adornada. Outros frutos como araçás pitombas e cajás enfeitavam as mesas tropicais de Dezembro. Em junho, a chuva caía fina como uma oração. As ruas da cidade ficavam limpas exibindo um fulgor quase. As águas escorriam das biqueiras, e era um banho dos fluidos celestiais feitos na maior brincadeira.

As tardes recebiam o enfeite das flores, bom dia, boa tarde, boa noite, buganvílias, jasmins, margaridas, dálias e sempre-vivas. Sempre as trazia comigo, pois as amava e as flores gostam de nossos amores. Entre as famílias a morte quando chegava era por natural decorrência e sem violência levava quem ela queria. Um véu de estrelas forrava todo o firmamento. Era augusto este recorte que uma menina via. Na varanda ficavam o pai, a mãe, tios e avós a discorrer sobre fatos decorridos ou imaginários. Do tempo dessa casa antiga para mim ninguém partiu definitivamente. Eles continuam a existir no meio dessa paixão da qual as estrelas são permanentes testemunhas.

POR AMOR Foi tanto o vexame, lado a lado com dois vagabundos expulsos fora de portas. Mais que tudo: sendo o pior de todos eles. Chistes, esgares, - porque te apanharam? Desfeito de formas diante de estranhos homens de fala obscura. Um deles me lançou uma praga alucinado de rir uma risada sem dentes, até que se exumou de vez. Lágrimas em óleo quente. Mais que as lanças rasgando-me juntas e descolando carne da carne, era a vergonha absoluta. Entardecia, virava-me o sol as costas. Monções de poeira sopravam para longe toda-paixão pelos homens. Meu ouvido dizia: adormece !Yeshua! Até que as cordas do coração me soltaram e a descer, a descer, vertiginoso preparo para a permanência na região do silêncio sem respostas A noite desceu compacta e Jerusalém mergulhava escura no sangue de um homem sem culpas

A VISITAÇÃO Existe um perfume onde Tu estás, fragrância de rosas, alguma nota cítrica: toques leves de malva e cássia.

Além do perfume com que te anuncias, uma luz diáfana. Vens assim em suave aragem pela minha sala. em suave aragem pela minha sala. 21


CANDEIA

UM OLHAR INEXTINGUÍVEL

O olhar soturno que Deus me deu não é para ferir o mundo mas para amá-lo. Amo-o com a candura dos olhares límpidos

Deus se amplia, além do meu espaço, meu gueto, meus guias. Ele vai muito além de meus esquadros, usando régua e compasso que desconheço.

e subo ao mais alto edifício de onde eu possa ser a candeia que ilumine toda a cidade.

Na matemática simples do dia, enquanto ainda estou no começo, Ele está lá no futuro realizando promessas, que mais próximas do meu passado já se encontram. Para melhor entende-lo, serve-me de espelho a física quântica. Por isto, minha palavra traz à existência o que não existe, e, como as águas, símbolo do seu Espírito, vou perfurando fendas na Rocha sobre o precipício. Olho para Deus vendo-o criar mundos dentro de outros mundos, e a mover-se na velocidade de uma luz que neste momento já extinguiu tantas estrelas.

Julia Lemos é

LITANIA Trago dentro de mim uma oração como uma litania. Pai, não trago palavras fáceis, em vão se amontoam os pedidos, coisas. Não era isto que eu queria mas a ternura. Hoje o céu está como que de chumbo, vertigem dos joelhos terem subido de repente. Guardo em mim a ânsia da terra que me foi prometida. -Não eram os frutos maiores aqueles trazidos pelos espias? Pai, não vim aqui fazer orações compridas. Sobre estes territórios tão vigiados transitam os meus sonhos jamais olvidados.

natural de Caruaru, interior do estado de

Pernambuco, nordeste do Brasil. Radicada no Recife, tem formação em Comunicação Social, nas áreas de Publicidade e Propaganda e Jornalismo, pela Universidade Federal de Pernambuco, atuando como Coordenadora de Comunicação Social do Ministério da Saúde, bem como repórter e redatora no Jornal do Comércio e na Televisão Universitária . Atriz, estreou no teatro infantil em 1977 com “Pedacinho de Lua” (de Tonico Aguiar). Em Olinda, fez parte do grupo de estudos do teatro de Bertold Brecht do Teatro Hermilo Borba Filho, atuando em diversas encenações. Co-autora do livro de receitas A Cozinha Estrangeira na Terra do Caju, com prefácio de Gilberto Freyre, 1985; publicou os livros de poesia Carmem Antonio Migliacchio Enlouqueceu (Edições Pirata- Fundação Gilberto Freyre), e A Casa Estrelada, pela Fundação de Cultura de Pernambuco, através da CEPE. Participou de diversas antologias. É pós-graduada em Literatura Brasileira pela Faculdade Frassinetti do Recife e mestra em Estudos Brasileiros pela Universidade de Lisboa. Tem inédito o livro de poesias A Exposição dos Sóis e Poemas ao Rei.

DIANTE DO TRONO

Quando cessarem as esperanças e o quartzo não mais refletir meu rosto prismático, quando todos os venenos para curar ou para ferir acabarem vou-me para diante de ti. Havendo de chegar não lhe farei perguntas.

- Pai, respondi tudo de forma poética. Minha vida foi de boemias frasais, e fiz muitos amigos assim. 22


Múmia

cobras & lagartos Manuel Adriano Rodrigues

Rosa Leme

ha pessoas que ja cantaram conosco velhos hinarios pentecostais e nos disseram distancia e outros disseram de nos cobras & lagartos sem nunca terem visto o vestígio de um vício qualquer na nossa boca ja houve quem nos dissesse que temos o habito de ter os olhos abertos e que se foram embora com medo da diferença outros mais proximos que no passado viram o nosso interior temendo a nossa nudez ficaram calados e nao nos quiseram abraçar mas tambem ja houve quem nos tenha dito Amor e isso, e o que importa Súplica de poeta May Sousa

HEBREUS 11.1 Nira de Andrade

Éu era uma mumia no meio de Outras mumias. Éu entrei descontrolada No grande salao Éu falava gritava, gritava... Éu gritava, mas era em vao. Ninguem me ouvia. Éstava sozinha. As imagens ficavam inertes! Varias delas eram de argila. Outras Mumias De louças valiosas... As imagens eram de prata e ouro, De artistas habilidosos. Obra das maos dos homens. Imagens, apenas imagens. Tem olhos, mas nao veem; Tem ouvidos, mas nao ouvem; Tem boca, mas nao falam; Nariz tem, mas nao cheiram; Tem maos, mas nao apalpam; Tem pes, mas nao andam; Éu era uma mumia em forma humana. Éu ja fui uma mumia No meio de uma multidao. Hoje sou apenas uma mulher Que encontrou a salvaçao.

Deus, Permita-me ser: Legenda tua! Fazer-te conhecido, com tinta e papel.

(Ora) sem fé é impossível agradar a Deus (a)ssim foi escrito pelo autor aos Hebreus (fé) é necessária para crer que Ele existe (é) preciso para quem na oração persiste (o) galardão daquele, que até o fim resiste... (firme)za nas provas e nas tentações (fundamento) dos que sofrem grandes provações (das) mulheres e homens que nos dão lições... (coisas) que venceram e foram campeões. (que) dizer de Abraão, nosso pai na fé, (se)m falar de Abel, Enoque e Noé... (esperam) nas promessas do Jeová Jiré! (e) xperimentam escárnios, açoites, cadeias e prisões. (a)inda assim com fé dentro dos corações, (prova)dos no fogo, no deserto, na cova dos leões (das) suas falhas e fraquezas tiraram resistência (coisas) que enfrentaram com toda a persistência (que)rendo a prática da fé na obediência... (se)ndo apedrejados, serrados, mortos ao fio da espada; (não) desistiram nem abandonaram a sua jornada (veem) na esperança sua fé aperfeiçoada!!!

DEUS SABE A HORA William Vicente Borges Deus sabe a hora de dizer SIM e então sentimos a brisa da sua compreensão Deus sabe a hora de dizer NÃO e sentimos a fragrância da sua sabedoria Deus sabe a hora de dizer BASTA e todas as nossas dores se vão Deus sabe a hora de dizer AGORA e nossos joelhos se dobram em gratidão Deus sabe a hora de dizer CALMA e nossos medos são jogados ao chão Deus sabe a hora de dizer MUDA e nossa alma segue outra direção Deus sabe a hora de dizer NÃO TEMAS e sentimos o poder de suas mãos Deus sabe a hora de dizer EU TE AMO e se prestarmos a atenção veremos que o diz a toda hora! 23


Joed Venturini Um grupo de garotos passou correndo pela frente da porta, enquanto o velho Éurico a fechava para sair. Um deles praticamente esbarrou no anciao, mas Éurico parecia nao perceber ou pelo menos nao se incomodar. Éra parte de sua maneira de reagir ao ambiente. É seu estilo poderia ser considerado perfeito. Fazia ja quinze anos que vivia naquela favela e nunca fora assaltado! Ninguem o molestava. Vivia so e sossegado e era respeitado. Saía pouco, pois era aposentado. Ia metodicamente a igreja evangelica mais proxima, mas tirando isso, e as saídas diarias a padaria e semanais ao supermercado, era ali mesmo, nas estreitas ruas da comunidade pobre, que fazia sua vida. O velho era conhecido como uma especie de operador de milagres. Distribuía compaixao como o orvalho matinal e sua especialidade, se e que se poderia chamar assim, era recuperar jovens desviados. É na sua favela havia muito material de trabalho. O anciao tinha uma estrategia pouco comum. Poderia se dizer que ganhava pela exaustao. Primeiro escolhia, em oraçao, um jovem que estivesse mesmo muito mal. Ém geral eram delinquentes envolvidos com o trafico de drogas e membros de gangues da favela. Éntao iniciava uma maratona de jejum e oraçao por aquele jovem. Quando sentia que tinha suficiente cobertura de oraçao, “atacava”. De tal forma procurava o seu alvo que as vezes virava sua sombra. Ém regra era rejeitado de início, mas ia ganhando terreno ate que o jovem acabava ouvindo o homem. Mesmo com meios tao arcaicos a psicologia moderna, o anciao tinha resultados

surpreendentes. Podia citar uma lista respeitavel de nomes de jovens que tinham deixado uma vida que levaria a uma morte prematura e que tinham sido recuperados ao ponto de se casarem, terem emprego e serem fieis membros de igreja, e ate dois que eram pastores. Mas Éurico nao fazia propaganda de seu trabalho. Seria contrario ao seu estilo e personalidade. Alem de mais ele considerava seu ministerio como uma simples retribuiçao pelo que ele mesmo recebera. Fora, em tempos idos, um alcoolatra que estragara a vida e desgraçara a família. Teria morrido assim, se nao fosse o amor paciente e perseverante de um antigo diacono da igreja onde agora assistia. Éssa era sua historia. Éssa era sua vida. Ultimamente, porem, o homem andava um tanto preocupado e nervoso. O caso que tomara parecia nao se resolver como os anteriores. Éstava ja ha meses orando, jejuando e lutando pela vida de Édmilson e parecia nao haver nenhuma sensibilidade da parte do rapaz. A cada nova investida de Éurico o jovem se afundava mais em sua vida de pecado. Como chefe de uma facçao da gangue, tinha dinheiro e poder sobre outros jovens. Nao se importava com nada a nao ser usar e abusar de seu poder sobre os assustados moradores da favela. Passear de carro e trocar de namorada eram outros de seus passatempos e, claro, tudo bem regado a chope e cocaína. Éurico nao era homem de desistir facil. Nao sentira ainda que fosse tempo de deixar de lutar pela vida e salvaçao de Édmilson e por isso mais uma vez apos uma semana de intensa oraçao, ele se dirigia ate o local aonde sabia que poderia encontrar o rapaz. O jovem nao estava em casa. Fora visto indo 24


para o topo do morro, aonde tinham uma casa que servia como uma especie de prisao para inimigos capturados ou devedores que nao pagavam suas remessas de droga. Éra ali, no terraço, que costumavam executar aqueles que tinham atravessado o caminho dos líderes do pedaço. Éurico estremecera, mas nao de medo. Éstava seguro. Temia pelo seu alvo. Éra pelo moço que sentia medo. Subiu custosamente o morro, parando varias vezes. A idade ja nao facilitava. As oitenta primaveras ja tinham passado ha alguns anos e os musculos nao tinham a força de outrora. Perto do local que queria alcançar o anciao foi barrado por dois garotos armados, de uns dezesseis anos. — É aí vovo, aonde e que pensa que vai? — Vim ver o Édmilson — Éxplicou Éurico com toda a naturalidade. — Manero — riu o outro garoto - O velho, ce num acha que ta velho demais pra andar cheirando? Éurico baixou a cabeça cansada e levantando-a, fitou o rapaz bem nos olhos, de tal forma que o fez ficar sem jeito. Foi entao que o outro notou a Bíblia na mao do velho e reagiu: — Pode passar velho, vai logo! Mais uma vez a superstiçao local se fazia sentir. Os traficantes, por regra, nao se metiam com “crentes” porque diziam que dava azar. As evidencias confirmavam. Éurico avançou ate a casa. Éra um casarao abandonado. Por todo o lado cheirava a dejetos humanos e havia ratos andando em plena luz do dia. Um despacho de macumba bem na entrada terminava de compor o quadro macabro. O anciao nao hesitou. Subiu as escadas gastas. Nao havia ninguem no 1º andar, nem no 2º. Ao chegar ao terraço ja o velho arfava novamente. Parou e viu um jovem negro, alto, de soberbo aspecto, perto de um corpo que jazia no chao em meio a uma poça de sangue. Ao pressentir a presença do homem o jovem apontou a arma com ar furioso e olhos arregalados onde se evidenciavam si-

nais da ultima dose de droga. Éurico levantou a Bíblia em sinal de identificaçao. A arma foi baixada e os olhos do rapaz se encheram de impaciencia e aborrecimento. — Ce num me larga velho? Me deixa, po! To cansado de te aturar! Ve se me esquece! — Boa tarde, Édmilson! — o anciao respondeu em tom triste. Um silencio pesado se seguiu. — Nao posso desistir de voce, Édmilson. — continuou o anciao — Voce esta no meu coraçao. Quero ver voce salvo e seguro nos braços de Jesus! O Jovem riu com sarcasmo e balançou a cabeça. — Os braços que eu quero sao outros. — gozou ele — Alem do que, se voce que reza aproveita e ve se ajuda esse aqui que precisa mais que eu — riu apontando o cadaver — Éu tenho mais que fazer. Dizendo isso o rapaz passou pelo velho com desdem e o empurrou com violencia. Éurico perdeu o equilíbrio e caiu sentado junto ao muro que circundava o terraço e o jovem se foi. O anciao encolheu-se. Éstaria errado desta vez? Seria Édmilson um caso realmente perdido? Na verdade o livre arbítrio era de se considerar. Éle nao podia forçar a vontade de alguem a quem Deus fizera livre. No entanto o peso da alma do jovem o fazia sofrer e as lagrimas brotavam de seu rosto cansado. Ali ficou com a cabeça apoiada nos joelhos chorando e clamando por uma oportunidade de ser verdadeiramente intercessor, de ficar na brecha por este rapaz. O tempo passou. Éurico nao sabia se muito ou pouco. Quando se deu conta havia outra pessoa no terraço e o sol declinava rapidamente no horizonte. A presença dessa pessoa o fez erguer-se um tanto assustado. Limpou as lagrimas do rosto e o nariz que pingava e tentou se recompor. Mas a aproximaçao da outra pessoa o deixou deveras surpreso. Saída como que de uma especie de nevoa 25


veio ao seu encontro uma velha de aspecto medonho. Curvada e cheia de reumatismo ela parecia nao ter sequer um osso que nao fosse deformado. Érgueu o rosto para Éurico e o fitou com superioridade. O anciao tremeu sem querer. O rosto da velha era de tal forma enrugado e cheio de espinhas e pontos negros que so o fixa-lo ja era penoso. O nariz de proporçoes significativas era peludo e torto. A boca irregular de labios secos. Da cabeça quase careca saíam uns poucos fios de cabelo grisalho em total desalinho. A mulher trazia uma roupa toda negra e esfarrapada condizente com seu aspecto físico. Sua presença causava repulsa e medo, tremor e asco ao mesmo tempo. Depois do primeiro susto Éurico tentou se recuperar. Pensou que fosse alguem da família do homem morto que permanecia no extremo do terraço e tentou ser gentil: — Boa tarde, senhora. Veio pelo moço acidentado? — perguntou apontando o cadaver. — Acidentado? — pronunciou a velha com sarcasmo. Sua voz era metalica e grave. Um tanto inesperado. Causava arrepios na medula e parecia penetrar os ossos. Nao parecia ser humana. — Acidentado? — repetiu a velha. — Bem — titubeou Éurico sem jeito — eu, na verdade, nao sei. Quando cheguei aqui ja estava morto. A velha parecia nao estar interessada no que ele dizia. Aproximou-se do anciao e o rodeou examinando cada detalhe dele e em especial a Bíblia em sua mao. A sua aproximaçao Éurico experimentou um fenomeno de todo inusitado. O chao parecia ter se tornado frio. Como se a temperatura a volta da mulher fosse bem mais baixa que o resto do ar. A tal ponto se fez sentir isso que o pobre homem quase tremia de frio e segurava o queixo para que nao batesse. A velha tornou a se afastar dele sem palavras como se tivesse perdido o interesse e

avançou ate o parapeito da varanda examinando as redondezas. Éurico fez enorme esforço para sair de seu estado quase catatonico. — Posso ajuda-la de alguma forma? — perguntou com educaçao. A velha o mirou de novo com aquele olhar gelado e desdenhou: — Nao e voce que quero! — respondeu secamente. — Éntao, quem e? — insistiu o anciao ja com seus pressentimentos. A mulher parecia incomodada com a presença e a insistencia do homem e pareceu ataca-lo. Voltando-se com rapidez surpreendente o questionou: — Nao tem medo de mim? Desta vez foi Éurico que ficou firme e com olhar tranquilo e seguro sorriu e respondeu: — Deveria ter? — A grande maioria dos homens tem… — disse a velha com segurança. — Parece ter muita experiencia! — refletiu Éurico. — Alguma... — devolveu a outra com sarcasmo. — É esta procurando... - sugeriu o anciao. — Édmilson - declarou a velha de forma seca e voltou a perscrutar a vizinhança. Éurico ficou abalado com a revelaçao e se aproximou corajosamente da velha apesar de que o frio que ela transmitia ser a ultima coisa do mundo que queria experimentar de novo. De subito, sentiu-se cheio de ousadia para lutar pelo jovem que pretendia ver salvo, e pressentia que esta ancia so podia trazer mas notícias. Chegou-se com convicçao e disparou: — Quem e a senhora? A velha olhou Éurico com um misto de admiraçao e desprezo e sorriu. Um sorriso que faria gelar o coraçao do mais corajoso. De sua boca disforme se viam uns poucos dentes amarelo-acastanhados e a risada qual grito de hiena na noite africana parecia 26


vindo de outro mundo. A mulher, olhando o homem no fundo dos olhos, pronunciou calmamente: — Sou a Morte! — Nao pode leva-lo! — foi a reaçao imediata e quase impensada do anciao. A Morte mostrou surpresa, franzindo o sobrolho que logo abriu em novo sorriso desdenhoso. — Voce vai me impedir? — Nao posso... — reconheceu Éurico — Mas ele nao esta pronto! — Isso nao e problema meu. — deu de ombros a velha — Cumpro minhas obrigaçoes e chegou a hora do rapaz. Se nao se preparou para me receber e problema dele. — É meu tambem. — protestou o homem — Éu assumi a responsabilidade por ele. — Ninguem pode assumir a responsabilidade por outro. — devolveu a Morte — Cada um tem que me enfrentar sozinho e a hora de Édmilson e chegada. — Éntao, me leve a mim. — tentou Éurico ja desesperado — Éu posso ir ja, estou pronto. Nao tenho medo de voce. Leve-me no lugar dele! Agora o homem parecia pela primeira vez ter conseguido a total atençao de sua interlocutora que o examinava com mais cuidado ainda. A morte aproximou-se novamente e o frio glaciar de ainda a pouco voltou a gelar Éurico de forma desagradavel e quase insuportavel. Tudo nele clamava por se ver livre dessa sensaçao, mas ficou quieto, em seu interior lutando pela alma de seu protegido. A morte percebeu a luta do homem e sua forte resoluçao e se afastou lentamente. — Tem a certeza do que me propoe? — questionou tentando verificar a certeza do homem. — Sim! — afirmou Éurico com total convicçao. — É porque faz isso? — quis saber a morte. — Pela salvaçao dele. — explicou o an-

ciao - Éle nao esta pronto para ir. Precisa de mais tempo. O amor de Deus ha de vencer em sua vida, mas precisa de mais tempo. — É e esse tempo que voce quer comprar para ele? — sugeriu a velha rindo. — Se for possível… — clamou ele. — Possível e… — disse ela — Nao seria a primeira vez. Tem-se feito muitas vezes e creio que ainda se farao muitas mais. — É ele tera tempo suficiente? — quis saber o homem ansioso. — Isso nao pode saber. So o Todo Poderoso sabe essas coisas. Pode ser que sim. Pode ser que nao. Acha que vale a pena mesmo assim? Morrer sem ter a certeza? Pode ser em vao… — tentou a morte matreira. — O amor nunca e em vao! - sentenciou Éurico — Éstou disposto a dar a Édmilson mais uma oportunidade, nem que seja a ultima! A morte balançou a cabeça e chegou-se ao fim do terraço aonde se via toda a favela. Suspirou com ar cansado e olhou mais uma vez com seus pequeninos olhos negros o homem que a observava em suspense. — Tanto trabalho a fazer... Voltarei por voce... Amanha! Antes que Éurico pudesse dizer qualquer coisa uma nevoa vinda nao se sabe de onde encobriu a velha e a sua figura fantasmagorica desapareceu. O homem ficou muito tempo ali em pe sem saber bem o que se passara com ele. Fora sonho? Fora visao? Fora real? Como saber a verdade? O anciao sentia-se confuso. Seria genuíno que ele negociara com a morte e se oferecera para ir ao lugar de Édmilson? Isso seria possível? Seria aceito? No dia seguinte seria a sua vez? Éstaria realmente tao preparado como se julgava? Com esses pensamentos na cabeça ele deixou o local e a medida que descia do morro notava toda a agitaçao típica do fim de dia, mas algo mais do que era normal. Finalmente um jovem o informou. A polícia havia estado no morro durante a tarde. Ti27


nha havido troca de tiros e Édmilson fora baleado. Éstava no hospital. Éurico estremeceu. Tinha que verificar. Sentia-se cansado. Na verdade exausto, mas nao teria paz sem confirmar o que sucedera. Questionou sobre o hospital em que o jovem estaria internado e foi ate la, chegando ja noite cerrada. Procurou o medico que atendera Édmilson. O clínico sentou com o anciao e parecia confuso. — Foi algo muito estranho. — disse o medico — O rapaz foi baleado tres vezes no abdomen, na regiao do fígado. Chegou aqui com hemorragia interna incontrolavel. Nao havia nada que pudessemos fazer. Nem se o tivessemos recebido logo apos os tiros. Mas tinham passado mais de duas horas! Éle estava a morte! O pulso estava indo e todos nos preparavamos para deixa-lo cadaver quando, de repente, o sangue parou. O cara se recuperou bem ali, a nossa frente. Olha, se eu nao tivesse visto, nao acreditaria. Se e que existe essa coisa de milagre, este foi um! Éurico ouviu tudo com lagrimas nos olhos e sentindo que, afinal, tudo o que vivera fora verdade. Cheio de convicçao e certeza conseguiu autorizaçao e chegou a cabeceira do moço por quem se dispusera a morrer. O jovem orgulhoso e cheio de antipatia que ele vira no começo do dia ja nao estava ali. Édmilson tinha um ar assustado de garoto pobre que era o verdadeiro estado de sua alma. Olhou Éurico com vergonha e uma pitada de esperança. Tremia ao lhe contar. — Foi uma emboscada. O meu pessoal me traiu. O desgraçado do Mendes queria a minha posiçao. Miseravel! Vai pagar caro! — dizia com o rosto se contorcendo de dor e raiva. — Ainda odiando? — interrompeu Éurico — Isso nao te trouxe nada de bom. O moço parou de falar e o olhou triste. Desta vez parecia reconhecer a verdade nas palavras do velho. — Éu vi a morte! — disse entao tremen-

do — É era horrível! — Éu sei. — balançou a cabeça o anciao — Mas nao precisa ter medo dela agora. Voce vai viver. Mas o quanto e como vai depender de onde voce vai colocar o coraçao. Na entrada do quarto uma enfermeira fez sinal ao anciao que era hora de se retirar. Édmilson segurou o braço dele com angustia. Ém seus olhos ele via agora todo o vazio de seu coraçao, toda a busca de sua alma. — O que e que eu faço? — perguntou com voz embargada. Éurico o olhou com carinho. Colocou sua Bíblia na cabeceira. Éra a sua velha Bíblia. Companheira de tantos anos. Ganhara aquele livro do homem que o levara a Cristo. Éra seu mais precioso tesouro. Mas sentia que agora o rapaz precisava mais dela do que ele. Sorriu de leve e acrescentou: — Comece lendo o livro onde esta marcado. Depois, quando sair daqui procure o pastor Joao da igreja la da favela. Éle sabera te ajudar. Nao desperdice seu tempo, meu filho! A vida e curta! Voce nao sabe o que vem amanha. — Voce vira me visitar? — quis saber o moço. — Nao sei. — respondeu o velho com o olhar perdido — Tenho amanha um compromisso muito importante. Logo voce sabera. Com uma breve oraçao ele se despediu do moço e saiu. Trazia o coraçao em paz. Sentia que aquele jovem estava a caminho da recuperaçao. Seria difícil o caminho e muito espinhoso. As tentaçoes seriam multiplas e a luta tremenda. Mas ele queria acreditar. Éra tudo que precisava. Fizera a sua parte. Talvez ate demais. É com esse pensamento enchendo sua mente chegou a casa finalmente e dormiu um sono pesado, sem sobressaltos, cheio de paz. No dia seguinte, levantou-se a hora habitual. Fez tudo como em qualquer outro dia. Por que seria diferente? Foi o que pensou. O dia inteiro, porem, esperava sentir aquela 28


presença gelada que o envolvera no dia anterior e que certamente o viria buscar. Mas nada aconteceu de manha e a tarde ia ja avançada quando se sentou em seu sofa de leitura e adormeceu com um velho livro de poesia no colo. Acordou com uma sensaçao estranha e imediatamente sentiu que nao estava so. Um arrepio percorreu sua espinha, mas recuperou depressa e levantando-se deu de cara com uma moça que, sentada a mesa da sala, preparava um cha. Éra jovem e extremamente bela. Alta e esbelta, de feiçoes finas, rosto pequeno emoldurado por abundante cabelo castanho claro, olhos enormes de um verde enigmatico, labios bem desenhados e um queixo artístico. Éra branca, muito branca e dela parecia emanar um perfume doce inebriante que o anciao sentiu ser delicioso demais. Éurico sorriu diante de tal visao e limpando a garganta, se desculpou: — Peço desculpa nao a vi entrar, estava lendo e creio que cochilei. — Nao tem problema, eu tenho tempo. — ela respondeu numa voz maviosa e musical. É as palavras foram acompanhadas de um sorriso que trazia a beleza sombria de uma noite de luar. Éurico nao pode evitar um novo arrepio, mas nao sabia como reagir. — Ém que posso servi-la? — quis saber, sempre educado. — Temos encontro marcado. - lembrou a moça com certo ar de surpresa no rosto — Certamente nao esqueceu! O anciao recuou um passo e parou. Éstava confuso e admirado. Balançou a cabeça e fixou melhor o olhar. — Tenho encontro marcado com a... — nao foi capaz de dize-lo. — Comigo! — completou a moça. — Nao pode ser! — continuou estranhando o velho. — Porque nao? — insistiu ela. — Nao foi voce que vi ontem!

— Ah! — riu ela e se aproximou estendendo a xícara de cha fumegante e cheiroso. A sua aproximaçao ele sentiu o frio que lhe percorrera o corpo no dia anterior. Mas este nao era o mesmo tipo de frio. Nao gelava. Nao fazia tremer. Éra mais um tipo refrescante, qual brisa gostosa em tarde abafada. A moça fez sinal e ele tornou a sentar-se no sofa. Éla foi postar-se nao muito longe, bem em frente a ele. — Na verdade foi comigo que falou ontem. — continuou a morte — Mas ontem voce me viu como Édmilson me veria. Ontem eu era a morte aos olhos dele. Hoje estou diferente, ou talvez nao. Na verdade nao mudo. O que muda e a maneira como as pessoas me veem. Éurico abanou a cabeça. Fazia sentido. Éra mesmo bastante logico. Sorriu. Nao podia evita-lo. Como temer uma morte com esta cara? — Ésta preparado? — Sim! — disse prontamente o homem sem hesitar — É Édmilson? — Tera sua oportunidade. — É sera suficiente? - insistiu ele. — So o Todo Poderoso sabe! — decretou ela — Tome seu cha. Voce ja fez sua parte. Novo sorriso encheu o ar de parte a parte. Éle bebeu o cha e encostou a cabeça na poltrona. Fechou os olhos sentido o perfume que enchia o ar. Logo estava dormindo. No outro dia de manha corria a notícia na favela. O velho Éurico morrera na tarde anterior enquanto dormia e o barbeiro que costumava cortar-lhe o cabelo comentava: — Isso e que e uma Bela Morte! Baseado em João 15:13: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor de seus amigos."

Joed Venturini é Pastor da Terceira Igreja Batista de Lisboa, Mestre em Missiologia, Medico especialista em Medicina Tropical e Éscritor. Leia mais do autor em: http://joedventurini.blogspot.com.br/ 29


Lya Alves

"Batuque" Acrílica sobre papel - 21x30 cm - ano 1998

Galeria

Grafite no ‘Galerio’, enorme painel ao ar livre que fica entre a estação Coelho Neto e a Estação Colégio, na cidade do Rio de Janeiro.

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Lya Alves Nasceu em São Gonçalo e vive em Niterói RJ. Começou a pintar em 1998, e a grafitar em 2008. O eixo temático do seu trabalho é alienação, coisificação e fetichismo e suas obras promovem reflexões e críticas ácidas sobre o consumismo através de fábulas visuais e antropomorfismos. Além de pastora e artista plástica, a múltipla Lya é ainda quadrinista (HQ Guerreiros de Deus), grafiteira e designer de moda, e também ativista cultural. “Anastácia" Acrílica sobre tela - 60x40 cm - ano 2008

Conheça mais do trabalho da autora em

Págiina em P/B da HQ Guerreiros de Deus

lyaalves.blogspot.com.br/

Em sentido horário: Lya grafitando um de seus temas prediletos, a Águia; Grafite; grafitando uma rosa; Águia de Fogo (ilustração digital). 31


Sammis Reachers Sabia o nome dela das notas de entrega: Norma ou Dona Norma. Nunca conversavamos muito, – Boa noite, oi meu filho, e voce, que bom, voce e o mais simpatico, aquele outro rapaz e meio grosso... – Éle e gente boa, dona Norma, veio do interior, e mais assustado do que grosso... – Éssa foi nossa maior conversa. Um dia encontrei-a na rua Bras Cubas, proxima a Aclimaçao, a longos quilometros de sua casa. Éu estava indo para meu turno na pizzaria, que ia das 15h00 as 23h30. Éla tentava apanhar um caozinho que estava embaixo de um carro estacionado. Parei a moto e fiquei observando-a. Éla ja idosa, tinha dificuldades. Desmontei para ajuda-la. – Ola dona Norma! Quer ajuda aí? – disse -lhe, ja me agachando do outro lado do veículo e chamando o cachorrinho. Consegui apanha-lo, era bem mansinho e magricela. Éla o colocou numa dessas caixas especiais para o transporte de pets. Sempre imaginara que ela era uma protetora de animais, dados os muitos latidos que ouvia, disparados de dentro de seu quintal, mas nunca tive certeza. Perguntei: – Éste tambem e da senhora? Ésta longe de casa hein! – Nao, meu filho, este esta abandonado. Éu sempre que posso recolho elezinhos e levo pra casa... ***

laborar com a obra dela, uma vez por mes levava um saco de raçao para de alguma maneira somar nas despesas. Nesses dias ela convidava-me para entrar, e passei a familiarizar-me tambem com os caes. Éra professora aposentada da USP. Tinha um filho apenas, funcionario de uma agencia do Banco do Brasil nos ÉUA. É assim nossa amizade foi estreitando-se, tanto entre mim e dona Norma, como com os caes. Havia em sua casa um patio coberto que servia de quintal, onde ela fizera pequenas celas de canil, de um lado e outro. Os animais mais ferozes, ou que sempre arrumavam encrenca, permaneciam presos a maior parte do tempo, e eram liberados apenas quando os demais estavam nas celas. Dentre eles, Drago, um pitbull que matara tres cachorros e ainda ferira um homem que o tentara matar, e que ela salvou de ser posteriormente sacrificado; Lonlon, nome singelo para um dogue alemao especialmente hostil; e a cereja do bolo: Sem Matilha, um lobo Guara, com a aparencia marcial, marcado de combates, que ela adotou quando o circo que o mantinha, impedido de continuar com animais selvagens devido a uma lei de 2005, foi obrigado a desfazer-se dos mesmos. O dono do circo, como ela gostava de dizer, ‘espanhol morenao de Zaragoza’, deveria doa-lo para um zoologico, como a maioria dos demais animais. Mas nao apareceu zoologico algum interessado em apanhar o lobo, os dias foram passando e o dono do mesmo resolveu da-lo para dona Norma. Com o tempo, ja nao me estranhavam, e passei a alimenta-los tambem.

*** Depois daquele dia, passamos a converFui acordado pelos socos que ameaçasar mais, e eu sempre perguntava pelos caes. Éla familiarizou-se ainda mais comigo, vam derrubar minha porta. Levantei-me passou a relatar das dificuldades no trato desnorteado, sonhava com a namorada que dos exatos trinta e dois caes. Comecei a co- eu nao tinha. Abri a porta. 32


– Voce e Gabriel Motta? – Sou eu, que foi, sou trabalhador – disse, entre assustado e intimidado pelo uniforme que vi. – Houve um problema, um homicídio, ta, e a princípio voce esta sendo detido para averiguaçao. Um soco velado na cara do crente, logo pela manha. Um soco e depois um tiro como que por dentro: mataram dona Norma. Silencio na viatura, apenas relataram que uma vizinha havia dito que eu era a unica pessoa que costumava visitar a casa. Foram ate a Pizzaria Panosian e conseguiram o meu endereço. Na delegacia o delegado pos-me a par dos acontecimentos. Dona Norma foi encontrada morta num dos cantos de seu quintal, proxima ao muro dos fundos. Tres caes tambem foram mortos. Dona Norma foi espancada e esfaqueada; os caes foram baleados. Um vizinho ouviu os disparos, por volta das quatro da manha, e chamou a polícia. Dei as explicaçoes que me pediram. Nao trabalhara no dia anterior, fui ao culto na igreja que costumava frequentar, saí de la em torno de 22 horas, voltei para casa, fiz um lanche e dormi, talvez pelas 23 horas. Apos seis horas de perguntas, respostas e esperas, entrecortadas por telefonemas e comparecimento de amigos, vizinhos e testemunhas, consegui ser liberado. Perguntei ao delegado se poderia ir ate o local do crime, eu poderia ajudar nas investigaçoes. Éle a princípio recusou, mas com insistencia consegui a autorizaçao. Éu precisava ir ate la, precisava ver o que acontecera, ajudar no esclarecimento, ajudar os caes. Éle me mandou junto a dois dos investigadores. Ja ao entrarmos, os caes começaram a latir. Dois funcionarios do centro de zoonoses da Prefeitura estiveram la mais cedo, a pedido da polícia, e alimentaram com raçao os caes. A maioria estava presa nas celas dos canis, mas alguns mais doceis permaneceram soltos.

O cenario era terrível. Marcas de sangue ainda parcialmente umidas no chao. Os policiais disseram que nada fora roubado. Mas por que? Havia outro fato sinistro. A cela do lobo, o Sem Matilha, apresentava quatro perfuraçoes de bala no portao. No entanto, embora o formato da cela, bastante estreito e alongado, tornasse quase impossível que o animal nao fosse atingido, ele estava em perfeito estado, aparentemente calmo, observando tudo com seus olhos escuros. O lobo nao era de latir ou ganir; era um animal quieto e arisco, que na natureza nao vive em bando, e se aproxima de outros lobos apenas para acasalar. Por que teriam disparado contra a cela? Observando dentro da casa, lembrei de que a dona Norma detestava bancos; ela, filha de velhos anarquistas paulistas, oriundos da colonia Cecília, nao confiava seja em governos seja em instituiçoes financeiras. Éla guardava os recursos que seu filho lhe enviava dentro de casa. Sera que os marginais sabiam disso, e queriam o dinheiro? Num momento em que os policiais verificavam as trancas da janela da sala da casa, fui ate o quarto tendo em mente a ideia da existencia de um cofre. Olhei todo o quarto, as coisas reviradas. Nada. Pelas marcas diferentes na pintura, notei que dois quadros da parede foram arrancados. Éntao estava claro que eles procuravam por um cofre. A um canto, sobre roupas íntimas aparentemente tiradas de uma comoda, jazia uma estatua de um cao, um pastor alemao de ceramica partido ao meio. Algo entao estalou em minha mente, e tudo pareceu ganhar simplicidade. Pois imediatamente visualizei a estatua que ficava logo junto a entrada, ao lado esquerdo da porta da casa. Uma escultura bastante feia, representando um cachorro de raça indefinível, feita de cimento, de uns oitenta centímetros de altura. Nao falei nada, nem cometi a temeridade de ir analisar a estatua em frente aos polici33


ais. Éu era um motoboy habituado as noites efervescentes de Sao Paulo: conhecia a polícia bem demais para dar um mole desses. Saímos. Mas a ideia de dinheiro ficar ‘perdido’ dentro de uma estatua, enquanto os caes eram recolhidos para o Centro de Zoonoses, para serem sacrificados caso nao conseguissem adoçao, nao me deixava ter paz. Éla vivera para que eles vivessem: agora, morta, morreriam todos com ela? Nao, com o dinheiro eu poderia providenciar um lugar para eles, ate conseguir remaneja-los entre outras pessoas ou Ongs que os criariam sem o risco de serem sacrificados. Mas o tempo era inimigo dos caes. Éu precisava encontrar o dinheiro antes do dia seguinte, quando eles começariam a remoçao dos animais. É havia outra questao a me preocupar: segundo o delegado, o filho de dona Norma ainda nao fora localizado nos ÉUA. Mas ele possuía residencia e emprego fixos, e a localizaçao era iminente. É, como ela sempre me relatava em tom de lamuria, ele, criado a maior parte da vida pelo pai, “detestava cachorros.” Um com quem eu nao poderia contar para nada. A noite voltei a casa. Deixei a moto num posto de gasolina onde conhecia os frentistas, fui a pe ate a casa, ladeando-a ate a parte dos fundos, que dava para uma pequena mata. Com ajuda de um tronco, pulei o muro. Os cachorros soltos latiram, mas ao me reconhecerem fizeram festa, e alguns davam aqueles gemidos de tristeza, acredito que ja sentindo a falta de sua mae. Distribuí a raçao que ainda estava no deposito, soltei a maioria dos caes doceis que conhecia. O lobo gania estranhamente, e resolvi solta-lo tambem. Ém seguida fui a estatua, apalpando-a de todos os lados. Sobre o pedestal de cimento, a estatua do cao moveu-se ao meu toque; estava solta. Levanteia entao, descobrindo sob ela um espaço escavado, e acondicionado ali uma caixa do tipo porta-joias, e embrulhos plasticos por baixo. Na caixa estavam dezenove mil e seiscentos reais, em notas de cem. Nas embala-

gens, documentos, postais, escrituras de terrenos, e papeis escritos em italiano, talvez de seus pais. Ja passava de uma da manha. Nao dormira desde a hora em que fora acordado pela polícia; resolvi deitar a um canto, no quintal mesmo, e dormir um pouco. Os caes, tristes e agitados, solicitavam-me a todo instante em busca de carinho, eu precisava ficar um pouco com eles. Éscolhi um canto bem escuro, para o caso de alguma ma eventualidade, como dormir demais e ser surpreendido pela polícia. Coloquei o despertador para as 4h30, para que eu pudesse pular o muro, e ir a polícia dizendo que eu ficaria responsavel pelos caes, para o que eu, em secreto, utilizaria o dinheiro. Deus sabia que minha causa era justa, e eu sabia que dona Norma ficaria grata. Havia o risco de tudo aquilo dar errado, eu ser novamente preso, pego com o dinheiro, e aí nao teria desculpa ou alibi que me livrasse. Mas ao deitar-me, e ver mais de doze caes achegarem-se e deitarem sobre mim, ao meu lado, aos meus pes, eu sabia que valia a pena arriscar-me por eles. Éu era tudo que eles tinham. * * * Acordei com o som de disparos e ganidos. Éra inacreditavel o caos, e imediatamente pensei que se tratava de um pesadelo. Vi dois homens a alguns metros de mim, proximos a porta da casa. Um deles estava armado, e disparava contra o lobo. O lobo estava de costas para mim, e algo em sua face parecia brilhar intensamente, como se ele tivesse uma lanterna no rosto. O homem que empunhava a arma disparou entre cinco e seis tiros, e o animal nao deu um pio, mesmo sendo balançado pelo impacto dos projeteis. Ém ato contínuo, alguns caes fecharam um círculo sobre os homens. Os olhos dos animais brilhavam! Mas o que era aquilo?!? A luz que brilhava no lobo era a mesma incandescencia que ardia nos olhos dos caes, mas em menor tom. Olhei para os 34


lados, e vi outros caes, mas estavam amedrontados, e nao havia brilho em seus olhos. Éntao, nao sei como, talvez com a calma de achar que estava realmente tendo um simples pesadelo, com todo o nonsense e distopia que um pesadelo pode apresentar, foi que reparei que os homens estavam cercados apenas por cadelas, sete ou oito. Énquanto refletia, o lobo uivou, e entao senti uma pontada, uma cutucada no peito, no coraçao, nao sei. As cadelas saltaram sobre o homem que tinha a pistola. O outro, apavorado, refugiara-se na casa, fechando imediatamente a porta. O indivíduo armado disparou a esmo. Ao ferir uma das cadelas com o disparo, o ate entao invulneravel lobo gritara; outras tres cadelas saltaram sobre as suas costas, e ao desequilibrar-se e cair sob o ataque, ele disparou mais uma vez, atingindo outro animal, fazendo mais uma vez o lobo gritar. Percebi logo que ele estava interligado aos outros animais, e parecia controla-los; seu domínio sobre eles era mais que um simples controle corporal, era um tipo de ligaçao empatica, como se todos compusessem um unico e carniceiro organismo, um tipo sobrenatural de matilha. Imediatamente o lobo saltou, abarcando mais de tres metros em seu voo, caindo direto sobre o peito do homem, e mordendolhe a garganta. As femeas se afastaram e formaram um círculo em volta do lobo, seus olhos acesos, cada um brilhando numa cor. A maioria estava com as línguas para fora, como se estivessem cansadas, ou sedentas. Éu nao podia acreditar naquele horror, estava paralisado no chao, tentando entender que aquilo nao era um sonho, mas precisava, tinha que ser. Éntao ele uivou novamente. É foi como um rasgo na escuridao – um rasgo revelando uma dimensao, um fundo, uma camada ainda mais escura. As cadelas começaram a chiar baixinho, com aquele som que os caes fazem quando feridos. Meu corpo estava arrepiado por inteiro;

eu usei a unica arma que tinha. Num misto de suplica, terror e simples reflexo, eu gritei: – Jesus!!! Os caes deram um chiado agudo, mas o lobo apenas me observava com seus olhos acesos. A visao era insuportavel: eu fechei meus olhos e em terror principiei a orar. Comecei em silencio, mas depois vieram-me a mente em tumulto imagens e lembranças de cultos pentecostais, de demonios sendo exorcizados, e comecei a orar em voz alta. Abri entao os olhos, mas sei que nunca deveria te-lo feito: o lobo abaixara a cabeça e me olhava com uma expressao de dor quase humana, mas distorcida, doentia, algo que nunca vira nas muitas expressoes que um cao ou qualquer animal podia assumir. Éle olhava para a casa e olhava para mim, em rapida e intermitente sucessao, num tique nervoso demoníaco. Éntao acreditei entender. O criminoso preso na casa, ele queria o criminoso. Éle queria que eu parasse a oraçao, ele precisava cuidar do outro. É mais uma vez em minha vida, eu falhei como cristao. Éu interrompi meu clamor; num lapso de Queda, eu compreendi e irmanei-me ao desejo de vingança, ou de sangue, do demonio. Fiquei de joelhos, observando os olhos faiscantes da besta-fera, que mais uma vez assumiu uma expressao humana, que me fez enregelar de uma forma que eu nao saberia descrever, um tipo de frio absoluto que jamais experimentara, um entorpecimento, como se meu corpo tivesse sido envenenado. Pois o lobo sorrira, humanamente sorrira. Ém seguida emitiu um estranho som, algo como ‘wain, wain’, e deu meia-volta, arrancando em furia e velocidade sobrenaturais em direçao a porta da casa. As dobradiças explodiram ao impacto do magro corpo do lobo, e a porta foi abaixo com estrondo. O homem gritou. Da posiçao em que me encontrava nao era possível ver bem o que acontecia, pois eu permanecia preso ao 35


chao, enregelado. Ouvi um barulho de vidro quebrado, como de um copo ou louça. – Sai! Sai!!! – gritou o marginal. Novo barulho, e um outro. Éle atirava louças no animal. As cadelas entraram no recinto, de forma lenta e ordenada, como se em duas filas indianas, paralelas. Ouvi novamente o som de comando do lobo, ‘wain, wain’. O homem permanecia em silencio, talvez tambem emudecido de estupefaçao pelo demoníaco espetaculo. Depois gritou, quando todos os caes saltaram sobre seu corpo, de uma unica vez. Ouvi entao aquela multidao de rosnares e rugidos, como o som de uma briga entre muitos caes. O homem gritava um ‘ahhh’ prolongado e panico, que parecia nunca ter fim, mas que foi abruptamente interrompido, como se alguem de repente lhe tapasse a boca, ou cortasse a garganta. Os rosnados continuaram. Os animais, possessos, rasgavam carnes, crimes, pecados, como uma chuva de retribuiçoes que despencasse subrepticiamente sobre um pecador, manifesta em dentes caninos incansaveis e olhos multicores, rebrilhando em mesmerizante compasso. Fiz mençao de levantar-me, ou levantar o que era corpo. Éle tremia. Levantei uma perna com dificuldade, depois a outra, sem equilíbrio, como que bebado. So entao arrependi-me, so entao sobrescalei os ruídos do caos e dei ouvidos a voz do Éspírito Santo que dentro de mim jamais parara de bradar: – Nao!!! – Senhor, tenha misericordia de minha alma, de meu frio! – gritei sem palavras. Avancei com reerguida coragem, a coragem que a fe confere e tambem a ira, pois tinha agora a sensaçao de ter sido ludibriado, enganado pelo jogo sujo do demonio. A distancia de oito ou nove passos, o lobo assomou a porta. Agora tinha a expressao impassível. Olhamo-nos nos olhos, e antes de eu retomar a oraçao em alta voz, ele disparou em direçao ao muro, manifestando mais

uma vez sua natureza demoníaca ao saltar sobre uma pequena casamata que abrigava a bomba d’agua de uma cisterna, e dali, em velocidade felina, ultrapassar, num salto unico, os restantes dois metros e meio de muro. Imediatamente senti um alívio, uma sensaçao de descongelamento, estranha mas prazerosa, de ter sido devolvido ao comum, ao mundo real, ao mundo racionalmente mensuravel e previsível. As cadelas estavam ainda no quarto. Éntrei para ver o que houvera com o homem. Umas lambiam despreocupadamente o sangue do chao, outras jaziam deitadas. Seus olhos ja nao estavam em fogo, a possessao cessara. Nao havia corpo, pedaços. Nada alem de manchas dispersas de sangue no chao. * * * Pesquisando em livros sobre mitos envolvendo o Lobo Guara, de referencia em referencia cheguei ao livro de Guilhermino Dutra, Fabulas e Mitos dos Povos TupiGuaranis, um livro prefaciado por Darcy Ribeiro. Nele, sofri mais um golpe do terror ao encontrar, na seçao Fauna e Flora na Mistificação Tupi, a informação acerca de uma lenda dos índios Tamoios. Posteriormente comprei exemplar do livro. O relato e o que segue: “Anhanga-Goa’ra, Lobo Fantasma. Do tupi agoa’rá, ‘pelo de penugem’, termo utilizado para designar o lobo-guara, e Anhanga, espírito que vaga, fantasma. Tambem Kabikodepu-Ya’wara, Fera do Arco -íris. Do tupi Ya’wara, fera, e kabikodepu, arco-íris. Mito coletado pelo indigenista frances Luc Guarirol. Segundo o relato, durante toda a estaçao de Ara yma ou ‘tempo velho’ (equivalente aos nossos outono e inverno), alguns lobos-guaras se aproximavam das aldeias ou povoaçoes, e enfeitiçavam todas as cadelas e quaisquer femeas de canídeos (caes do mato, guaras e falsas raposas, 36


domesticados ou nao) que ali houvesse. Élas fugiam entao para a mata, e podiam ser vistas a noite, vagando atras do lobo, com olhos coloridos e acesos como estrelas. O lobo nao podia ser morto; ao ser atingido por flechas ou lanças, ele sempre reerguiase, ainda mais furioso. A matilha vagava pela floresta, matando caçadores e pessoas que andassem sozinhas pelas matas.”

carregar sozinho uma historia assim, resolvi escrever esse relato, e divulga-lo em sites e redes sociais. Sinto que e uma forma de confessar o meu pecado, uma forma de aquecer -me. Pois ha dias, noites em que ainda sinto aquele frio. Meu testemunho e verdadeiro. ___________________________________________________________

Do livro de contos O Pequeno Livro dos Mortos. O livro (Éd. Letras e Versos, 96 págs.) Um dia fui contar meu testemunho em esta sendo comercializado a R$ 20,00. Para uma igreja. Antes da metade da historia, fui adquirir, escreva para o e-mail: bruscamente interrompido pelo pastor, que sammisreachers@ig.com.br fez um gracejo sobre minha sanidade men* * * tal, levando toda a congregaçao a sorrir. Decidi nunca mais falar sobre os ocorridos a Sammis Reachers é poeta, escritor e editor. ninguem. Mas, nao aguentando o peso de

Notas Culturais Em outubro a escritora Joice Lourenço lançou seu novo romance, O Grito de Sobrevivência. Confira AQUI.  Em novembro, a Editora Ultimato fez o pré-lançamento da ficção Século I - O Resgate, de Cayo César Santos. Confira AQUI.  Ainda em novembro, realizou-se na Primeira Igreja Batista de Pinheiros, em São Paulo, o Primeiro Encontro de Artistas Visuais Cristãos, uma iniciativa do artista gráfico Lemuel Massuia. Leia AQUI um panorama do evento.  Em dezembro, os autores A.P. Alencart e Luis Cruz-Villalobos organizaram a antologia poética CARNE DEL CIELO (Versos de Navidad), reunindo poemas sobre o Natal, de lavra de 47 poetas ibero-americanos, incluindo brasileiros e portugueses. A antologia, em espanhol, pode ser baixada AQUI.  A Editora Mundo Cristão lançou a ficção com foco em adolescentes Lily na Passarela, de Nancy Rue. Confira AQUI.  O poeta e missionário Gilberto Celeti lançou em dezembro, pela Bunker Editorial, seu livro de poemas O Mistério do Natal. Confira AQUI.  O autor André Filipe Aefe Noronha (Aefe) está publicando em capítulos sua divertida série missionária/ficcional/folhetinesca Patranha contra o Dragão do Oriente, no site Wattpad. Confira AQUI.  Falando em boas séries, o autor Marvin Cross chegou ao fim da segunda temporada de sua série ficcional Desapaixonante. Enquanto a nova temporada não se inicia (está prevista para este mês!), você pode acompanhar a série desde o início AQUI.  A Rede de drogarias Pacheco (RJ) mantém a revista Ponto de Encontro, e nesta, a seção de poesia Final Feliz. Você pode enviar poemas para lá, através do e-mail: pontopacheco@profashional.com  A Revista Philos, iniciativa literária da Camará Cartonera, recebe originais (conto, poesia, crônica, textos experimentais etc.) para as edições da revista. Informe-se AQUI.  Concursos Literários: Prêmio SESC de Literatura 2016 para livros de Conto e Romance. Até 12 de Fevereiro. Informações AQUI.  Concurso AFEIGRAF (Livros: Infantil, ficção, não-ficção e poesia). Até 31 de Março. Informações AQUI. 37


CINEMA

Terceiro Festival Nacional de Cinema Cristão

Em novembro de 2015, nas dependências do tradicional Cine Odeon, no Rio de Janeiro, aconteceu a terceira ediçao do Festival Nacional de Cinema Cristao. A iniciativa, tornada real pelo merito de Veronica Brendler (que entrevistamos na ediçao anterior de AMPLITUDÉ), visa promover o desenvolvimento de nosso cinema, e reconhecer o trabalho daqueles que se tem dedicado ao cinema cristao. O FNCC recebeu ao todo 90 filmes, 74 filmes inscritos sao nacionais e 16 filmes sao estrangeiros. A Comissao Julgadora composta por grandes profissionais de cinema, selecionou os tres melhores filmes de cada categoria (longas metragens, medias, curtas, documentarios, animaçao, humor cristao, series e filmes estrangeiros) que concorreram a premiaçao no dia 25 de novembro. Foi grande a expectativa dos diretores e suas equipes quanto a premiaçao e que vieram das 5 regioes do país e exterior.

Confira abaixo a lista de ganhadores de 2015: Melhor Direção de Longa Metragem David A. R. White (Questão de Escolha)

gem Melhor Documentário Renascer – Acendendo a Chama Outra Quando Posso Ver Meu Rosto Nele Vez (Assista AQUI)

Melhor Ator de Longa Metragem Melhor Música de Longa Metragem Daniel Zacapa (Três Histórias, Um Des- Questão de Escolha (Ouça AQUI) tino) Melhor Trilha Musical de Longa MeMelhor Atriz de Longa Metragem tragem Zoe Myers (Três Histórias, Um DestiQuestão de Escolha no) Melhor Montagem/Edição de Longa Melhor Roteiro de Longa Metragem Metragem Questão de Escolha Questão de Escolha

Melhor Fotografia de Longa Metragem Questão de Escolha Melhor Maquiagem de Longa Metra-

Melhor Curta Metragem Alegria

Melhor Série Povos e Línguas (Assista AQUI) Melhor Animação Midinho, o Pequeno Missionário (Jesus Encoraja Seus Discípulos) Melhor Humor Ou Vai ou Rocha Melhor Filme Estrangeiro O Drama do Alzheimer – Uma história de Fé e Esperança

Melhor Média-Metragem Perdão - O Filme (Assista AQUI) 38


O HÓSPEDE Florbela Ribeiro Aquele hospede chamou a atençao do povoado. Ninguem conseguiu ficar indiferente a passagem de Jesus por ali. Os milagres e a forma eloquente dos seus discursos abriam as bocas de espanto, o que Éle fazia acontecer e dizia, corria velozmente nos labios de todo o povo. Mas foi Marta quem teve o privilegio de o hospedar em sua casa. Como boa anfitria que era nao queria descurar nenhum pormenor para a melhor e mais acolhedora recepçao ao Mestre. Apos a casa devidamente limpa e as coisas no seu lugar, iniciou os preparos da refeiçao. Seleccionou as melhores carnes, as melhores ervas aromaticas para o tempero, o melhor vinho, e e claro que nao esqueceu a sobremesa. O pormenor da sobremesa era importante. Teria de ser preparada com todo o requinte e muito carinho. Sim, porque para fazer uma boa sobremesa e indispensavel um toque de carinho e muita ternura. Dir-se-a ate que o doce perde o sabor se nao tiver uma boa pitada de amor. Para isso, Marta contava com a preciosa ajuda de Maria, para a elaboraçao de um almoço tao requintado. Havia tanto trabalho a fazer ainda, mas… Maria nao se aproximava para a ajudar. Ém vez disso mantinha-se na sala escutando os ensinos de Jesus. A irresponsabilidade da irma arreliava Marta, abeirou-se da porta e acenou-lhe para que esta se aproximasse. Absorta como estava aos pes das palavras do hospede especial, Maria nem se apercebeu que a sua

irma a chamava. Marta teve que ir ter com ela e em surdina disse-lhe: – Maria que fazes aqui sentada aos pes de Jesus, quando ha ainda tanto trabalho para fazer? – Éscuto o Mestre, minha irma, e suas sabias palavras, que tanto falam ao meu coraçao – respondeu-lhe Maria. – Ora, ora Maria deixa-te de desculpas e vem ajudar-me. Palavras que falam ao coraçao, pois sim – disse Marta com um ar arreliado – queres esquivar-te ao trabalho nao e verdade? Maria olhou indignada para Marta e com tristeza disse: – Nao sejas injusta para comigo Marta, sabes bem que sempre te ajudo e nunca me nego a nenhum serviço, porque haveria de o fazer hoje? Se ficasses aqui um pouco a escutar o Mestre verias como tenho razao naquilo que digo. As duas irmas tinham diferenças de opiniao sobre o aprender e a azafama do quotidiano, entre viver de acordo com o que se deve aprender de Jesus e o cumprir meras tarefas diarias. O que e eterno e o que tem apenas vinte e quatro horas. Isso as distinguia. – Maria, Maria tenho imenso trabalho para fazer, e nao quero atrasar-me na preparaçao do almoço, queres tu que o Mestre fique com ma impressao nossa, vendo que somos mas anfitrias? - Disse Marta com alguma tristeza na voz. – Porque diria o Mestre que somos mas anfitrias minha irma? Acaso achas que o Mestre esta preocupado com isso? Nao estara Éle mais preocupado com o estado do teu coraçao e da tua alma? – Tentava Maria fazer compreender a Marta. – Mas que tens tu hoje Maria, que ainda nao me disseste nada com sentido? É claro que o Mestre espera que o sirvamos com o melhor… – É a propensao de Marta para 39


entender as coisas do espírito, começava a ceder. – Disseste bem minha irma. – Interrompeu-a Maria. - Mas acredita que o melhor para o Mestre, nao e o almoço que com tanta azafama estas a preparar. No decorrer desta pequena discussao entre ambas, Jesus ia avaliando aquilo a que cada uma dava prioridade. Finalmente, Marta resolveu pedir auxílio ao Mestre na certeza de que Éle a ajudaria, a repreender a sua irma. Pois ja estava cansada de argumentar e nao entendia porque razao nao obtinha nenhum resultado. – Marta, Marta estas afadiga e ansiosa com muitas coisas. Mas uma so e necessaria: e Maria escolheu a melhor parte, a qual nao lhe sera tirada. Respondeu-lhe Jesus, marcando cada palavra com a sua voz mansa, mas firme, como um favo de mel. Marta ficou sem palavras. Para grande surpresa sua, Jesus nao so nao atendeu ao seu pedido, como em vez de repreender a sua irma, repreendeu-a a ela. Silenciosa e pensativa, regressou aos seus

afazeres. Bailavam agora na sua mente muitas perguntas, devido as palavras do Mestre. – Que queria Éle dizer com “uma so e necessaria”? – Pensou, pensou e so as coisas terrenas acudiam a sua mente perplexa. Acaso o trabalho nao e necessario? Se ambas permanecessem sentadas aos pes de Jesus quem faria o serviço? Éram as questoes mais naturais que agora bailavam dentro das suas ideias sobre o assunto. Maria, apercebendo-se da agitaçao em que se encontrava a sua irma, dirigiu-se-lhe: – O Mestre nao censurou a tua dedicaçao e o teu zelo ao trabalho. O problema e que tu procuraste ser-lhe util sem primeiro buscares compreender o que Éle deseja de ti. Minha boa irma se a nossa alma e o nosso coraçao estiverem vazios do amor de Deus e do seu ensino, que proveito tiraremos nos da azafama desta vida? Marta sorriu ao ouvi-la. ___________________________________________________________

Florbela Ribeiro é escritora e poeta portuguesa. Mantém o blog Doce Aroma.

“Hierarquias” (2011) - Helena Branco (Portugal). Conheça mais AQUI.

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O MENINO Myrtes Mathias Quando me trouxeram, numa urna pequena, aquilo que fora Geraldo Filipe, a tristeza foi apenas uma faixa estreita apertada entre o espanto e a raiva. Simplesmente eu nao podia crer, nao podia aceitar que aquele corpo sem vida, de rosto escuro e intumescido, fosse o meu rapaz que saíra tres dias antes, orgulhoso do seu novo uniforme azul, das condecoraçoes nas mangas e bolsos da gandola, as duas fitas amarelas do «primo» nas mangas curtas, as duas estrelas no bone tipo joquei. Para o Aquela era seu melhor Lobinho, para sua Matilha era o Primo, «sempre alegre», mas para mim era o filho unico que a vida me deixara, minha razao de viver, meu orgulho, quase meu ídolo. A excursao fora ao Sítio do Sossego, onde o rio do mesmo nome era o ponto alto, maravilhoso. Na hora da “caça livre” era o grande momento de meter o short e mergulhar, nadar, brincar. O que o Aquela nao podia explicar era como Geraldo Filipe, o melhor nadador, pudera morrer assim. O choque fora grande demais para que alguem pudesse explicar alguma coisa. So a consternaçao geral conseguiu minorar o meu desespero. Éle era querido, mas que significava tudo isso depois que todos se foram e eu voltei para dentro da casa, enorme sem ele, o quarto impecavelmente arrumado, os livros bem organizados na estante, as flamulas ridículas agora nas suas cores vivas, os trofeus alinhados na pequena prateleira que ele mesmo fizera na parede. Foi aí que senti raiva. Havia uma multidao de inuteis, de verdadeiros pesos para

a sociedade, que poderiam ter morrido em lugar de meu filho. Por que Deus teria que buscar exatamente o meu menino com apenas dez anos? Senti vontade de esmurrar alguem, de gritar, de morder, de destruir, de fazer a outros o que a vida me fizera. No entanto, nada podia fazer a nao ser ficar ali deitada, impotente e desgraçada, solitaria e sem razao de viver. Dias depois, quando resolvi deixar que alguem me visitasse, que permiti fraquejar a minha muralha de silencio e odio, uma amiga, tipo de resignaçao e amor, aconselhoume: — Rosalia, eu entendo a sua dor. Sei que lhe e difícil reagir, mas Geraldo nao gostaria de ver a criatura que mais amou assim sofrendo, destruindo-se. É preciso que voce reaja, por amor dele mesmo ou, pelo menos, por amor a mae que ele amava... Éu quis falar, gritar, mas ela interrompeu com um gesto firme: — Ha tanta criança sofrendo por aí, precisando de pelo menos uma parcela disso que seu coraçao anseia por dar... Gritei que nao era amor que eu tinha no coraçao, mas odio, revolta, vontade de fazer outros infelizes tambem. Magda nao replicou. Ouviu-me em silencio e despediu-se finalmente: — Orarei por voce, Rosalia. Depois que ela saiu, comecei a pensar se nao teria razao. Éu nao seria digna de meu filho se me matasse. Éle fora corajoso e procurara, dia apos dia, fazer o seu "melhor possível". Qual seria o meu melhor possível naquela situaçao? Lembrei-me de um antigo desejo. Éu havia me casado bem tarde e, como sempre acontece com as pessoas sos, eu havia planejado, caso nao me casasse, dedicar-me as crianças sem recursos, dando-lhes uma festa de Natal todos os anos. Éra uma sublima41


çao de minha infancia passada num lar pauperrimo, sem bonecas e sem doces no Natal. No Natal, apenas meu padrasto bebia um pouco mais, o que nao tornava, de forma alguma, mais alegre a nossa noite santa. Mas quando eu ja estava, entao, num trabalho que me proporcionaria os recursos necessarios para o que idealizara, conheci Filipe, um colega de trabalho e destino. Casamo-nos com simplicidade e sem grandes festas. Nossa casa era confortavel, mas sem exageros de luxo, como nos mesmos. Um ano depois, nascera Geraldo Filipe, e todo o amor que havia dentro de mim, desde a boneca que nao tivera na infancia, encontrou o seu objeto. Filipe morreu dois anos depois. Deixou-me recursos para viver sem preocupaçoes, para dedicar -me inteiramente a meu filho. Fora um homem bom em minha, vida, nada mais. Um homem que me dera um filho, uma criaturinha capaz de livrar-me de todas as mas lembranças de minha infancia. Agora, agora... eu estava sozinha outra vez. Mais so que antigamente, porque agora ja havia conhecido o prazer de ser querida, insubstituível. Sera que ainda havia dentro de mim alguma força capaz de reagir? Porque em Deus eu nao acreditava mais. É, para provar que poderia existir sem precisar dele, levantei-me e comecei a planejar a festa que daria aquele ano. Seria no Natal, apenas para aproveitar o espírito da epoca. Telefonei a Diretora de uma casa de crianças orfas, minha amiga, que eu sabia estar em dificuldades. Disse-lhe que desejava fazer o Natal de suas 50 crianças. — Deixe tudo por minha conta, confirmei. Éla pareceu encantada. É comecei a me movimentar. Uma atividade doentia, anormal. Uma fuga, simplesmente. Na tarde do dia 24 de dezembro, as crianças chegaram. Éu ja havia mandado roupa nova para todas. Éram meninas escurinhas, louras, morenas, de cabelos curtíssi-

mos algumas, outras de tranças. Nao havia meninos. Nem um sequer para simbolizar Geraldo Filipe. Fiquei revoltada, mas fiz o possível para representar o meu papel de "senhora boa, digna de ser imitada, digna das bençaos de Deus", do mesmo Deus que havia levado meu filho. Senti vontade de soltar uma gargalhada ou uma blasfemia. A falta de fe aumentava meu sofrimento. As musicas de Natal e outras de crianças sucediam-se em "alta fidelidade", as crianças riam, contentes e agradecidas, a Diretora e as auxiliares estavam encantadas, as vizinhas e amigas elogiavam a beleza da ornamentaçao e o sabor dos doces. No final da festa, cada menina recebeu uma boneca e um livro ilustrado. Os presentes que eu mais desejara quando menina. As dez horas, começaram a sair as crianças, a Diretora, as auxiliares, as vizinhas, as amigas. A casa grande ficou maior ainda no seu silencio, ornamentada de raminhos verdes e fitas vermelhas. Passeei pela casa toda, olhei as mesas cheias de pratos vazios, de forminhas de papel prateado, de pedacinhos de bolo. Havia gasto todo o dinheiro que tinha em reserva. A festa fora maravilhosa, mas nao havia paz nem alegria dentro de mim. Éu tentara provar que era capaz de ser feliz sozinha, mas perdera. Éxausta e frustrada, deixei-me cair no diva, a luz acesa, assim mesmo vestida, sem saber o que fazer amanha, sem presente e sem futuro, apenas o passado reinando prepotente. Devo ter dormido, porque foi entao que o vi chegar. Saiu de um canto da sala e parou diante de mim. Éra moreninho, de uma cor dourada, como se fosse sempre a praia; vestia um calçao quadriculado de preto e branco e a camisa de malha ordinaria estava toda puída, deixando ver a pele morena, atraves de centenas de furos minusculos. O cabelo preto estava bem penteado para um lado e os olhos eram mais lindos que os do meu filho. Mas eram profundamente tris42


tes. Éstendeu-me a mao magra: — Éu nao ganhei presente... Sentei-me de um salto: — Onde voce estava? nao o vi. Nao havia nenhum menino na festa. Continuou a olhar-me em silencio, a tristeza crescendo nos olhos negros. — Voce nao me viu — afirmou — e eu queria tanto um presente... Começou a chorar. Um choro manso, silencioso, que me atravessava a alma. Éstendi-lhe os braços, mas nao consegui toca -lo: — Juro que nao o vi, meu bem! (Por que me chamava voce? Meus cabelos estavam quase totalmente brancos. No entanto, nao havia arrogancia no seu modo de falar, de pedir, de exigir quase.) Continuava ali parado, o olhar fixo em meu rosto, depois descendo e parando na altura do coraçao, onde brilhava a medalha que fora de Geraldo Filipe. Éra um coraçao com seu nome gravado. Seu pai lhe havia dado em seu primeiro aniversario e, desde entao, o usara. So deixou de estar com ele depois de morto, quando o retirei e guardei-o comigo, como lembrança. O garotinho ergueu o dedinho moreno: — Me da isto... Aí achei que era demais. Que me pedisse tudo, se bem que eu nada mais teria para dar, que interessasse a uma criança, mas pedir a lembrança de Geraldo Filipe era

demais. Apertei a medalha, puxando-a de tal forma que o cordao me feria o pescoço. — Nao. Isto nao posso. Nao tenho nada para voce. Éle me olhou ainda por algum tempo, o dedinho erguido ainda e, depois, voltandose para sair, murmurou: — Éra isso que eu queria. Quis segui-lo, mas uma força estranha prendia-me ali sentada: — Por favor, volte. Quem e voce? Toma... Sem se voltar, ele gritou, descendo a escada: — Éu sou o Menino do Natal... Acordei, suando, as maos crispadas na medalha, as lagrimas correndo beneficas corno urna purificaçao. "Éu sou o Menino do Natal... eu quero o coraçao... voce nao me deu nada..." Éle viera substituir, consolar, cumprir sua missao. Ajoelhei-me ali mesmo, na sala silenciosa, mas aonde chegava a melodia da Noite Santa, vinda nao sei de que alto-falante: "Nasceu o Rei da Paz, num berço humilde jaz, nas asas desse amor, conforto a todos traz; direi em alta voz, que Cristo satisfaz: Nasceu o Redentor!..." ________________________________________________________

Do livro Presente Para o Menino (Rio de Janeiro: JUÉRP, 1983). Myrtes Mathias (1933—1996) foi poeta, cronista, escritora e missionaria batista.

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Nao

desejes ser elogiaMata o pavor com o do por aquilo que tens amor e nao o amor com o Ramon Llull (Lúlio) pavor. de fazer por servidao. Ama a paciencia para Nascido em Palma de Maiorca, na Espa- Nenhum homem possui que a possas sustentar. tanta necessidade quanto nha, em cerca de 1232, o leigo Raimundo Quem frequentemente o avaro. tenta sua mulher fre- Lúlio foi cognominado de ‘Doctor Inspira- Os caminhos da luxuria quentemente se arre- tus’ pela Igreja Católica, em virtude de veem atraves da visao e pende. da audiçao, sua casa e a uma experiência mística que alegou ter exA besta que nao come imaginaçao e seu leito e a carne nao faz compa- perimentado, que o fez lançar-se numa vida vontade. nhia a besta que come. de peregrinações, serviço e busca de sabe- Pela ira a vontade perde Nao ganhes teu amigo a sua liberdade e o entendoria. Foi escritor, poeta, apologeta e miscom dinheiro nem o dimento a sua deliberasionário (notadamente entre muçulmanos). çao. percas pela ira. Faz um so poder do teu Sua obra, de mais de 250 títulos e abarcan- Um homem e a riqueza poder e do poder de teu do diversos temas, exerceu enorme influên- de outro homem. amigo. Quem e pobre por Deus cia em toda a Idade Média e apresenta valiSe for inimigo por teu e rico por graças a Deus. vício, torna-o amigo osas lições e reflexões nos campos da filoDe O Livro dos Mil Procom tua virtude. sofia e teologia, principalmente. Seleciona- vérbios Quem e inimigo da justiça e inimigo de todas mos trechos de três obras de Llull, publica* * * as coisas. das no Brasil pela Ed. Escala: O Livro dos Se nao ha nada que se Mil Provérbios e O Livro das Bestas (trad. de (...) Deu--se num país que todos os animais concorpossa ganhar com a imRicardo Costa) e O Livro do Amigo e do daram em oferecer diariprudencia, nao ha nada amente um animal ao que se possa perder Amado (trad. de Luiz Carlos Bombassaro). leao para que nao se descom a prudencia. se ao trabalho de caçar. Com forças espirituais Com isso ele os deixava em paz. A cada dia os anipodes vencer forças espirituais. Ama a finalidade para a qual foi criado e tera for- mais tiravam a sorte e o sorteado entregava--se ao leao, que o devorava. Um dia a sorte recaiu sobre te coragem. uma lebre que, temerosa de morrer, retardou ate o Primeiramente cre, depois entende. meio--dia a hora de ir ao leao. Tomado de fome exNao deixes ocioso o poder que possuis. A verdade nao tem pavor, e a mentira e a falsida- cessiva, irritou--se muito o leao com o enorme atraso da lebre e lhe perguntou por que demorara de nao tem coragem. A teus pes da santos caminhos e a tuas maos san- tanto. Desculpando--se, disse a lebre que havia perto dali um leao que se dizia rei daquele país e tas obras. que tentara apanha--la. Furioso, e cuidando fosse Na oraçao usa todas as forças de tua alma. Todos os demonios nao tem tao grande poder verdade o que ouvia, pediu que ela lhe mostrasse o leao. Saindo a frente do leao que a seguia, a lebre quanto uma boa oraçao. chegou a uma grande reserva de agua que formava Quem nao e leal, e desleal a si mesmo. Quem doa para ser louvado vende generosidade. uma bacia rodeada de altos muros por todos os laSem a perseverança nao podes atingir a finalida- dos. Aproximando--se da agua, as sombras da lebre e do leao surgiram na superfície. Disse ela entao: de para a qual foste criado. Nada caminha mais rapido do que a perseveran- - - Senhor, eis na agua o leao que deseja comer uma lebre! ça. Julgando o leao que sua sombra fosse outro Persevere teu amor no amor de Deus, e o teu polea o, pulou dentro d’agua e atracou--se em combader no poder de Deus. te com ele: acabou morrendo na agua, graças a asA cortesia tem amigos em muitos lugares. tucia da lebre. Honra mais quem mais honra a Deus. Morre para viver. De O Livro das Bestas O pecado e a morte da finalidade para a qual foste criado. 44


O

amigo disse ao amaragem em todas as coido: “Tu que enches o sas.” Sol de esplendor, enche Ramon Llull (Lúlio) O amado dizia que o louo meu coraçao de vasse naqueles lugares amor.” O amado resonde e mais temido o loupondeu: “Sem a plenitude do amor os teus olhos vor. Pedia ao amigo que o abastasse de amor. nao estariam em pranto e tu nao terias vindo a Respondia o amado que por amor dele se tinha este lugar para ver o teu amante.” encarnado e deixado crucificar para morrer. “Diz, O amigo perguntou ao intelecto e a vontade quem amado: onde esta o teu poder?” Respondeu: “No estava mais perto do seu amado; ambos corre- poder do meu amado.” “Com que te esforças conram, chegando mais depressa ao seu amado o in- tra os teus inimigos?” “Com as forças do meu telecto do que a vontade. amado.” “Com que te reconfortas?” “Com os tePerguntaram ao amigo por que o seu amado era souros eternos do meu amado.” glorioso. Éle respondeu: “Porque e gloria.” Per- O amigo experimentou se podia suportar o amor guntaram-lhe por que era poderoso. Respondeu: no seu coraçao sem que se lembrasse do seu ama“Porque ele e poder.” “É por que e sabio?” do; e o seu coraçao deixou de pensar e os seus “Porque e sabedoria.” “É por que e amavel?” olhos de chorar; e o amor aniquilou-se e o amigo “Porque e amor.”O amigo pediu ao seu amado que ficou embaraçado e perguntou as pessoas se tilhe pagasse pelo tempo que o servia. O amado nham visto o amor. contou os pensamentos, os desejos, os choros, os O amado esta muito acima do amor e o amigo esperigos e os trabalhos que sofrera o seu amigo ta muito abaixo do amor. É o amor que esta no por amor dele, e o amado acrescentou, nesta con- meio faz descer o amado ate ao amigo e faz subir ta, a eterna bem-aventurança; e deu-se a si pro- o amigo ate ao amado. É do descer e subir vive e prio como pagamento ao seu amigo. tem início o amor pelo qual o amigo sofre e o O amigo contemplava o lugar onde tinha visto o amado e servido. seu amado e dizia: “Ah, lugar que me representa “Diz, louco: o que e pecado?” “Uma intençao avesos bons costumes do meu amado! Diras ao meu sa e dirigida contra a intençao final e a razao pela amado que eu suporto, por amor dele, trabalho e qual o meu amado tem criado todas as coisas.” desgraça.” Respondeu o lugar: “Quando o teu Os trabalhos e as tribulaçoes que o amigo suporamado estava em mim, ele sofria por amor de ti tava por amor alteraram-no e inclinaram-no para trabalho e desgraça maiores do que todos os ou- a impaciencia; e o amado reprovou-o com as suas tros trabalhos e desgraças que o amor pode dar honras e as suas promessas, dizendo que pouco aos seus servidores.” sabia de amor aquele que se alterava pelas fadiO amado ausentou-se do seu amigo e o amigo gas e pela bem-aventurança. O amigo teve contriprocurava o seu amado com a sua memoria e o çao e choros e pediu ao seu amado para que nao seu intelecto para que o pudesse amar. O amigo lhe tirasse os seus amores. encontrou o seu amado e perguntou-lhe onde ti- “Louco, diz, que e amor?” Respondeu que o amor nha estado. O amado respondeu: “Na ausencia da e aquilo que torna escravos os livres e liberta os tua recordaçao e na ignorancia da tua inteligen- escravos. É a questao e qual esta mais proxima do cia.” amor: a liberdade ou a escravidao. Perguntaram ao amigo a quem ele pertencia. Éle O amigo pensou sobre a morte e teve pavor ate respondeu: “Ao amor.” “De que es feito?” “De que se lembrou da cidade do seu amado, da qual a amor.” “Quem te gerou?” “O amor.” “Onde nasces- morte e o amor sao portas e entradas. te?” “No amor.” “Quem te alimentou?” “O amor.” Certo dia o amigo estava orando e sentiu que os “De que vives?” “De amor.” “Qual e o teu nome?” seus olhos nao choravam; e para que pudesse “Amor.” “De onde vens?” “Do amor.” “Aonde chorar, obrigou o seu pensamento a pensar em vais?” “Para o amor.” “Onde estas?” “No amor.” dinheiro, mulheres, filhos, comida e vangloria; e “Tens outra coisa que nao amor?” Respondeu: achou no seu intelecto que cada uma dessas coi“Sim, culpas e ofensas contra o meu amado.” “Ha sas tinha mais servidores do que o seu amado. É perdao no teu amado?” O amigo disse que no seu por isso os seus olhos começaram a chorar e sua amado havia misericordia e justiça e por isso alma ficou em tristeza e dor. eram seu abrigo amor e esperança. O amigo dizia: “Quem nao teme o meu amado, todas as coisas lhe parecem amedrontadoras; e De O Livro do Amigo e do Amado quem teme o meu amado, encontra audacia e co45


Os que ainda não ouviram Jairo de Oliveira É difícil de acreditar: Mais de dois mil anos passados, Ainda existe quem nao ouviu. Falo de povos nao alcançados. Milhares ainda intocados pela pregaçao Jamais viram um profeta do Senhor, Isolados, esquecidos e desprezados, Nunca ouviram que Jesus e o Salvador. Vivem escravos do medo Perdidos em seus pecados, Refens nas garras das trevas No espírito estao alienados. Jesus nos mandou pregar o evangelho O Seu nobre amor contempla a terra inteira Énvia os Seus discípulos ao mundo Ate chegarem a ultima fronteira. É a oportunidade dos que nao ouviram? Sera que terao uma unica chance de crer? Vamos prestar conta da nossa obediencia Ao Deus do ceu um dia teremos que responder. Éis a imensa seara, vamos em frente! Ém um amplo esforço de proclamaçao Ate que o ultimo ouça a boa notícia Assim cumpriremos a nossa missao. Naquele grande dia os salvos serao reunidos As naçoes estarao diante do Cordeiro, Celebrarao pela vitoria conquistada Ém um coral com gente do mundo inteiro.

Janela 10X40 Sammis Reachers Avanço na direçao de quem morre Avanço com uma contra-cimitarra de cicios nos labios Com a seduçao que so o amor constroi

O cântico da minha esperança Jonathas Braga Éu quero ver o meu Brasil engrandecido É o nome de Jesus por todos exaltado: Éste imenso Brasil a Cristo convertido É por Cristo tambem um dia transformado. Éu quero ver a luz do Évangelho brilhando Por todos os vergeis da terra onde nasci, É muitos coraçoes a Cristo se entregando, Num milagre de fe que igual eu nunca vi. Éu quero ouvir a voz de inumeras criaturas Que ergam as maos aos ceus em preces comoventes É confessem que estao em Cristo salvas, puras, Cheias do amor de Deus, humildes e contentes. Éu quero acompanhar esse imenso cortejo De salvos por Jesus, buscando Canaa... Parece que num sonho iluminado os vejo, Na alvorada feliz de uma bela manha. Éu quero ouvir a voz de inumeros cantores, Desde a Amazonia verde as fronteiras do Prata, Num coro sem igual, entre risos e flores, Glorificando a Deus com a mais linda cantata. Éu lhes quero sentir o gozo transbordante, Que vibra em cada ser e em cada coraçao, É os faz entoar assim a aleluia triunfante Do Cordeiro de Deus na obra da redençao. Éu quero entao cantar com eles esse canto Que traz consigo os sons de estranha sinfonia É sai do coraçao que nao conhece o pranto É da alma que jamais passou sem alegria. Éu quer que o Brasil inteiro ouça o meu grito É atente para a voz que sai dos meus pulmoes, Como se fosse o ecoar de um brado ingente e aflito Querendo converter todos os coraçoes. Éu quero que Jesus penetre nesses lares Onde ha fome de pao e sede de agua viva É penetre tambem em todos os lugares Onde a alma nao possui a gloria rediviva. Éu quero ver o meu Brasil feliz um dia, Poderoso e feliz sob o olhar de Jesus: Um glorioso Brasil de beleza e poesia, No divino esplendor do Évangelho da Cruz.

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Estêvão

Para tempos de perseguição

Em tempos de crescente perseguição contra cristãos – global e também local – é oportuno re-

fletir sobre a figura de Estêvão, sobre seu destemor, seu movimento final e última oração, tão pequena e tão fundamentalmente cristã, rogando o perdão para seus inimigos.

Sua entrega e sua conduta no momento derradeiro foram paradigmáticas, no sentido de que estabeleceram o modelo e padrão para os santos martirizados ao longo de toda a história da igreja. Ao longo desta mesma história, a passagem de Estevão, como não poderia deixar de ser, tem inspirado artistas cristãos a criarem sua arte, de poemas a pinturas, de esculturas a canções. Não se pretende aqui, longe de nós!, adorar a criatura em lugar do Criador. A Bíblia é clara ao asseverar que “não há nenhum justo, nem um sequer” (Rm 3.10). Mas, em tempos duros (no ano de 2015, segundo dados da Missão Portas Abertas, a perseguição religiosa só fez aumentar em todo o mundo), ter em mente tal exemplo de entrega é por demais válido e oportuno. Com vocês, então, a visão de Estêvão pela pena de seis poetas cristãos, antigos e novos, protestantes e católicos. O martírio de Estevão, o diácono Carlos Nejar Estevão sabia que ia morrer naquele dia. Os algozes decidiram. Vestira o diaconato, junto à morte. Apenas vão ouvi-lo, suportá-lo,

antes do sacrifício. Tinha a face de um anjo e eram pétreos os rostos dos que o viam. Seus olhos

A Lapidação de Santo Estêvão Murilo Mendes Contempla, amada, a lapidação do homem: Sabes dizer de onde vêm as pedras? Sentimos, palpamos uma zona hostil Visitada de pássaros que à noite

Nos bicam em sonho, pois ninguém repousa. Quantas pedras movemos diariamente! O salmo de louvor seca nos lábios, E, já o inferno aberto à nossa roda,

eram pedras. Se jogavam.

Dando a mão aos espíritos do ar

Ia morrer. Sabia.

Nós tecemos o véu da iniquidade.

Radioso, irresoluto.

Ao tempo imediato dedicamos

Vinham as pedras. Ia

ao encontro da angular, certeira pedra viva.

O fervor que só Deus merecia. Lapidamo-nos um ao outro, impiedosos: Lapidando Estêvão, a nós próprios lapidamos. 47


O MÁRTIR J.T.Parreira

O Martírio de Santo Estêvão Claudio Sousa Pereira

Pedras caem em Estevão

(I)

os olhos caem em Estevão, sujam

(EM SONHO). Poeira crescente,

seu último dia

vejo a multidão concentrada,

que num movimento executa

Pedra nenhuma conhece o silêncio

o homem que fazia prodígios.

em que transita

Aproximo. E o alarido aumenta.

mas desfaz o sangue

de Estevão, o seu riso e o seu corpo, que entrou no chão, veem-no morrer com o coração tranquilo.

Agora, em braços levantados,

aquele em que na única fala resumiu por completo a história; da sua face escorre sangue, e dos seus olhos apiedados

se distende do chão para o alto neste que foi o último esforço. Embora ao meio das pedradas, entre os sujeitos furiosos,

AS PEDRAS QUE ME ATIRAM Júnior Fernandes “E apedrejaram a Estêvão que em invocação dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.” – At. 7:59 Todas as pedras que me atiram, não me levarão ao covil da morte. E o espetáculo dantesco da zombaria torna-se em cinzas estilhaçadas, caídas sobre o sangue do meu corpo esmagado neste cenário público, de equívocos e perseguição. Não me levarão ao covil da morte, as pedras que me atiram.

sinto o teu espírito intacto e escuto o que tua voz clama: “—Senhor Jesus, guarda minh’alma, que sejas piedoso com eles,

Senhor, não os leves em conta, e perdoa-lhes deste pecado.” (II) Em meio às pedras viu-se a Glória, e a crença e chama da certeza,

quando fitou os céus abertos através da imensa clareza. Um homem, assim refletido,

prostrou-se ao crime cometido: “—Nós somos o que não queremos, mas fazemos o que nós somos, e a isto feito, não mais tememos.

Pois as cortinas do céu se desfraldaram

Eis aí — a virtude plena —

e a escada da glória se faz esteio para Eternidade.

de nossa miséria terrena.”

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O martírio de Estêvão

Mas, também ovaciona os párias e dementes

Gióia Júnior

E executa os heróis e pune os inocentes.

“Os homens, onde estão, e as pedras?” Nada resta

O primeiro que brada e cega e resoluta

Da turba enfurecida, embriagada e funesta.

Faz vítimas e faz heróis – ao povo vence-o

Uma suave harmonia outrora nunca ouvida

O remorso que fala através do silêncio,

Emoldura de paz a Terra Prometida...

Mas, consumado o crime, a sentença maldita,

Tudo é claro e feliz, imaculado e novo:

A história absolve o herói mas, nunca o ressuscita!

A distância abafou as blasfêmias do povo – “Ah! Senhor – balbuciou – afinal eu diviso A luminosidade azul do Paraíso; Como é bom merecer esta glória divina, Isto é mais, muito mais do que a gente imagina. A palavra é vazia, a cor é frouxa, o som É tênue, certo está que a poucos deste o dom De antever este gozo: aos puros, aos profetas, Aos meninos de colo e também aos poetas, Mas, o bem sem igual que de tudo dimana Em muito sobrepuja a compreensão humana!

Obrigado, Senhor, por tudo o que me dás, Por estes dons, por esta luz, por esta paz!”

Nos momentos de fúria a multidão escuta

Uma pedra... outra pedra... o corpo esfacelado É uma chaga que sangra – um olho foi vazado

Uma pedra cruel, uma pedra mais louca Silencia, de pronto, a palavra na boca – A mão ensaia um gesto e outra pedra em momento De fúria eis que aprisiona o incauto movimento. Não há sol, não há luz, nem do povo o Conselho, Há somente um borrão quente, amargo e vermelho – E o lábio seco e a boca aberta e o corpo exausto E o pulmão a sorver a existência num hausto, Mas o fim é chegado... a hora final dói menos E os algozes cruéis são meninos pequenos Sombras tímidas – sons que a noite sorve aos poucos

Outra vez despertou das visões – num momento

E as pedras não vêm mais e os gritos estão roucos

Com violência maior, voltou o sofrimento.

E se aproxima a paz... a doce paz de luz

- Nesga de céu azul, medrosa claridade

Da certeza de ter morrido por Jesus

Que ousa às vezes luzir em meio à tempestade –

E de ter preferido a uma voz transitória

A calma de um minuto ameno antecedia

A imensa voz de Deus nos paramos da glória –

Longas horas de dor nas garras da agonia –

“Para que cante o céu e os poetas descrevam:

O povo estava ali blasfemo, perigoso

Chega-te junto a mim, meu bem amado Estêvão,

Como um chacal faminto e como um cão raivoso.

Segura a minha mão – a tua mão está fria! –

O indivíduo é perverso – a multidão é cega,

E será mansa e doce e leve a travessia...

O juiz considera, o povo irado nega,

Ouve os anjos cantando um cântico de amor

Uma voz é a voz da pessoa, outro é o grito da massa –

E vem também cantar o Gozo do Senhor,

Um é o homem no lar, outro a fera na praça.

Aqui não sentirás as dores das pedradas,

A multidão é um novo organismo que pensa

Na Casa de teu Pai, vê, há muitas moradas

Entroniza ou destrona, apedreja ou incensa,

E como é bela a tua! E como é majestosa!

Edifica ou destrói – ao que reina, derruba

Raio de luar, gosto de mel, cheiro de rosa!”

E ordena ao que descera aos abismos que suba, Legisla poderosa ou atira aos incêndios Dos códigos legais os arcaicos compêndios E ululando – faminto o povo soberano Ergue o tiranizado e destroça o tirano,

E ante a fúria do povo ululante e assassino O valente cristão dormiu como um menino E foi levado ao céu, pelos anjos de luz Onde habita, feliz, ao lado de Jesus! 49


Resenhas LIVRO / A Trajetória do Indivíduo - Fábio Ribas O poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz dizia que o homem é tempo, perpétuo movimento. Tal assertiva ocorreu-me ao avançar pelas linhas do livro A Trajetória do Indivíduo, de Fábio Ribas. Um livro onde o dito e o silenciado dançam amalgamados, trabalham juntos pela construção do Sentido, ou para que o leitor colha o sentido que, num jogo de chiaroscuro, goteja das metáforas e parábolas. A psico-saga do autor em busca do Sentido é narrada através de madura poesia e prosa poética larga e prenhe de conotações, em voz cujo timbre lembra o Zaratustra nietzschiano, ou o André Gide de Frutos da Terra; mas, enquanto tais autores empreenderam o afastamento de Deus, equivocando-se em direção ao abismo, Ribas avança em caminho inverso, em busca de Redenção, escalando através de brumas e intempéries o cume da transcendência. Um livro singular dentro da literatura poética cristã, que surge para enriquecer o bastião de nossas letras. O download do livro é gratuito: Você pode baixa-lo AQUI. - S.R.

LIVRO / O Pequeno Livro dos Mortos - Sammis Reachers A mente de Sammis Reachers dá azo à sua inusual criatividade para expressar-se em contos cujo tema norteador é ela, a indesejada das gentes, a Morte. Transitando por gêneros, tempos e lugares diversos, temos nossa atenção sequestrada para situações, momentos dramáticos (com certa - e boa - dose de estranhamento, que segundo o autor é item capital para qualquer boa arte), em que, em meio à ação dramática, somos inoculados por (in)discretas perturbações filosóficas e teológicas, para nossa alegria mental (sorrisos). Leitura que deixa marcas, e que melhor elogio se faria à uma obra literária? O livro tem preço de R$ 20,00, já com as despesas de envio incluídas. Para adquirir, escreva para o autor: sammisreachers@ig.com.br - A.M.F.

CD / Teu Chamado - Ministério Declararei O Ministério Declararei nasceu em 2006, após o entendimento de que é possível e necessário aliar “Adoração e Missões”. A vontade de sair das quatro paredes da Igreja para influenciar vidas a amarem ao próximo e terem uma experiência real com Jesus Cristo uniu oito corações com um objetivo: abençoar o Nordeste brasileiro. Apesar de ter sua base sob a cobertura da Igreja Batista Getsemâne (Ceilândia/DF), os componentes do Declararei são também de outras denominações, o que faz dele um ministério interdenominacional. O presente trabalho, o EP O Teu Chamado, surgiu especialmente para auxiliar nos esforços da Expedição Missionária Piauí, iniciativa evangelística capitaneada por Eliézer Castro, que realiza duas vezes ao ano expedições missionárias para pequenas cidades piauienses (todo o valor arrecadado na venda servirá para custear a 13ª edição da Expedição, a realizar-se em julho, em Campinas do Piauí). A música que dá título ao trabalho, O Teu Chamado, foi composta durante um momento devocional de uma das Expedições. Junto às cinco outras canções, formam um conjunto harmônico, de doce sonoridade e letras cujo foco temático é a obra salvífica de Cristo, e a obra comissionada a cada cristão. Conheça mais do trabalho da banda no site: www.declararei.com.br . E as músicas do EP já podem ser ouvidas no Deezer, Spotify e iTunes. - S.R. 50


Resenhas FILME / Quarto de Guerra Após os filmes de sucesso, Desafiando Gigantes (2006), À Prova de Fogo (2008) e Corajosos (2011), os irmãos Kendrick lançaram o drama cristão “Quarto de Guerra” que fez sucesso nas bilheterias do cinema, na venda de DVDs, nas redes sociais da internet e já até recebeu sua versão em livro.

A obra traz a história de Tony Jordan (T.C. Stallings), um vendedor de sucesso, e Elizabeth (Priscilla Evans Shirer), uma corretora de imóveis. Ambos vivem um casamento conflituoso e, por causa disso, a pequena Danielle Jordan (Alena Pitts), de 10 anos, sofre pelas constantes brigas e a falta de atenção dos pais. O nome original do filme, “War Room”, nos remete à Sala de Guerra, local utilizado para definir estratégias de defesa e ataque durante a guerra. A senhora Clara (Karen Abercrombie), viúva de um estrategista de guerra, durante a venda de sua casa, explica à Elizabeth que primeiro é necessário entender quem é seu verdadeiro inimigo. Com isso, a corretora segue o exemplo de sua nova irmã em Cristo e acaba influenciando sua filha e seu esposo a batalharem em oração. Quando Tony desperta de um pesadelo que o confronta, o relógio marca 7:14h, fazendo alusão ao versículo tema, II Crônicas 7:14. No decorrer dos 120 minutos de duração do filme, há um tom de humor, uma trama que envolve e as ‘pregações’, ou os momentos de maior proselitismo das mensagens, são desenvolvidas naturalmente através de diálogos, seja na academia, na praça, no sofá etc., também ensinando que o filho de Deus tem relacionamento com Ele. Outro ponto que percebi no filme é que ele não é triunfalista, pelo menos não tanto quanto a maioria dos filmes evangélicos de sucesso. Ofereço aqui alguns exemplos onde percebi isso: O grupo da Danielle não ganha a competição escolar em 1º lugar; O Tony não volta ao emprego após se arrepender e passa a ganhar bem menos que antes, quando vivia no erro; Tony, mesmo em cima da hora para um compromisso, faz o bem ao seu ex-patrão, mas não é aparentemente recompensado por isso; Também, a própria senhora Clara conta que perdeu o marido mesmo depois que passou a orar. Ou seja, o filme deixa-nos a lição que orar não é fazer exigências para Deus, mas sim, buscar com que a Sua vontade se cumpra em nós, acima de nossa própria vontade. Que os espectadores sejam motivados a atender ao clamor de Clara, que é o de buscar ao Senhor e de ser um ser humano melhor, ainda mais nesse momento de crises tanto moral como econômica, política e social, onde o casamento é banalizado e o divórcio aumenta em nossa nação. - J.R.* *João Rodolfo, evangelista, ameabiblia.blogspot.com.br/

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Resenhas CD / As Paisagens Conhecidas - Os Arrais Com este mais recente trabalho, lançado em 2015 e produzido por Leonardo Gonçalves, Os Arrais presenteiam seus fãs com um belíssimo EP "As Paisagens Conhecidas" com cinco faixas. Melodias muito bem trabalhadas com blues e violões excelentes. Suas músicas levam à reflexão e uma adoração mais contemplativa para aqueles momentos a sós com Deus. A música cristã é referenciada pela Palavra de Deus, mas para este disco sugiro que você escute com uma Bíblia na mão, porque todas as faixas convidam. E não se esqueça de uma boa caneta e papel. Na faixa "Outono", uma música de entrega com uma melodia intrigante nos lembra do Salmo 121. Depois de toda batalha o refúgio é nos braços do Altíssimo e ele é a recompensa maior. O que vem à memória na faixa "Caneta e Papel" é o Salmo 23. Nas turbulências da vida Deus nos leva para águas tranquilas e sua vara e cajado nos protegem. Uma letra delicada e sincera que mostra o cuidado de Deus, que não abandona em tempo algum. Mas também serve para bons amantes que juntos vão para um novo tempo. Onde está sua motivação para a sua missão? Na faixa " Fogo", também intrigante e com um blues marcante, impossível não lembrar dos hebreus cativos no Egito. Letra com um ar libertador que impulsiona a continuar a carreira em direção ao Alvo Eterno. Numa letra quase apocalíptica, a faixa "Montreal" é introduzida por uma bela narrativa dos Arrais, que remete ao novo lar, uma nova terra, a Nova Jerusalém. Renova nossas esperanças no novo de Deus. Porque nem olhos viram, nem ouvidos ouviram o que Ele tem preparado para nós. Uma adoração plena e completamente desmedida. Na faixa "O Bilhete e o Trovão" mais uma narrativa antecede esta maravilhosa letra. Ela declara a soberania de Deus e que ele deve sempre ser o Primeiro em tudo. Uma adoração em Espírito e Verdade sempre valerá mais que mil palavras. - M.S.*

* Marina Stela - Jornalista e poeta, mantém o blog O Cálice e o Perfume .

“Arca”, Camilo Borges Júnior. Conheça mais AQUI.

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Maria Cristina Gama (Chris Amag) E quando você desiste de procurar, parece que tudo acontece, foi assim quando desisti de engravidar, depois de tentar quase um ano e, só foi desistir, aconteceu! O milagre da vida... Sim, a vida é feita de pequenos encantos, alguns ainda não têm identidade, nem cheiro, nem o calor da proximidade, mas encantam e tornam os nossos dias mais bonitos, cheios de poesia... Surpresas que chegam sem hora marcada, sem avisar... Não me venha falar que é destino, que são coincidências... A nossa história está escrita, mas o livro tem de ser aberto, lido e apreciado. E por falar em livro, quero confessar um péssimo hábito que eu tenho: só compro um livro depois de ler o final da história primeiro, se valer a pena, aí sim, eu leio! Mas, tentar fazer isso com a própria vida, é pular pedaços importantes que construíram quem somos. Não posso querer saber do fim sem experimentar cada momento... Pois, se soubéssemos do futuro, deixaríamos de fazer muitas coisas... Talvez eu não engravidasse e eu não conheceria essa pessoa linda que é o meu filho... A vida é feita de oportunidades, o tal cavalinho branco não passa duas vezes, lembra? Eu sempre digo isso... A grama está verde, o caminho está aberto e a água está fresca, vai dar tempo de decidir sobre ficar ou partir. E, enquanto tudo ainda são hipóteses, quero viver esse momento delicioso entre o antes e o depois: “a expectativa”, “a espera”; mesmo que depois eu salte, o que sentimos quando temos esperança é o que nos move e nos faz sentir vivos. Carpe diem!

Rogério Araújo (Rofa) Quando se aproxima a “Folia de Momo”, o Carnaval, a alegria parece tomar conta das pessoas como se fosse algo que invadisse suas vidas. Mas será que essa é uma alegria duradoura ou apenas passageira, com muitos risos soltos? Alegrar-se com bebidas, batuques, rebolados, pula-pula... e depois vem a ressaca cobrando o preço da “folia” nos dias do Carnaval - que só pode acabar em cinzas, como na 4ª feira, quando tudo termina. O homem vive muitas alegrias na vida, mas parece que a maioria delas não acontece de fato e, sim, por algum tempo e muito curto ainda por cima. DEUS tem um plano muito melhor para cada um e deseja trazer a alegria eterna para o HOMEM! E para ser feliz, não por alguns dias, mas para sempre, e não viver nos prazeres da carne, mas os prazeres divinos em sua existência!

Jesus disse “no mundo terei aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16.33). O mestre deseja que levemos uma vida plena de alegria, amor e muita FÉ no Pai que está no céu nos vendo e nos orientando em tudo. Um forte abraço, irmãos! E boa viagem ou descanso nestes dias!!! 53


Inauguramos a seรงao Album com a arte de William Rosa. Formado em Arquitetura e Urbanismo e pos-graduado em Marketing, William e natural do Rio de Janeiro - RJ. Hoje exerce a fotografia profissionalmente. Sua obra transita com agradavel desenvoltura entre pessoas e paisagens, o homem e o meio. Conheรงa mais do trabalho de William Rosa em seu site: www.wrfotografo.com

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Caio, O Pardal Pensativo - www.facebook.com/Caioopardal

H Q VestĂ­gia HQ - www.vestigiahq.com.br

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Parlatorium “O ato criador é apenas um momento incompleto e abstrato da produção de uma obra; se o escritor existisse sozinho, poderia escrever quanto quisesse, e a obra enquanto objeto jamais viria à luz: só lhe restaria abandonar a pena ou cair no desespero. Mas a operação de escrever implica a de ler, como seu correlativo dialético, e esses dois atos conexos necessitam de dois agentes distintos. É o esforço conjugado do autor com o leitor que fará surgir esse objeto concreto e imaginário que é a obra do espírito.

Só existe arte por e para outrem.” Jean-Paul Sartre, O Que É Literatura

E eu sentia

que era isto que cada alma, perdida na multidão, desejava: a palavra que lhe dissesse a sua verdade. Milhões de sofredores, pedindo um poema. Não, eles não vivem só de comida. Os poemas fazem o corpo sorrir e lutar: alimento revigorante. Rubem Alves, Gandhi - Magia dos Gestos Poéticos

“Deveríamos nos lembrar de que Cristo não veio para nos tornar Cristãos ou para salvar nossas almas apenas, mas que Ele veio nos redimir afim de que pudéssemos ser humanos no sentido completo da palavra. Ser novas pessoas significa que podemos começar a agir em nossa completa e livre capacidade humana em todas as facetas de nossas vidas. Portanto ser um Cristão significa que há humanidade, a liberdade de se trabalhar na criação de Deus e de usar os talentos dados a cada um de nós, para Sua glória e o benefício de nossos próximos. Desta maneira, se possuirmos talentos artísticos, eles devem ser usados. O Senhor sabe porque os está dando. Paulo em sua primeira carta aos Coríntios (12:12-27) fala sobre a comunidade Cristã como sendo o corpo de Cristo. Cada um possui sua função específica dentro dele. E ninguém pode ser deixado de fora. Certamente alguns tocam a música, desenham as semelhanças, fotografam os movimentos e escrevem as histórias. Estes são os artistas. Eles possuem seu lugar de direito na família de Deus. Novamente, a vida do corpo de Cristo, e certamente um renovo, um avivamento, é impossível sem esses membros chamados por Deus para fazer seus trabalhos.” H.R. Rookmaaker, A Arte Não Precisa de Justificativa

“Enquanto o poema se apresenta como uma ordem fechada, a prosa tende a manifestar-se como uma construção aberta e linear. Valéry comparou a prosa com a marcha e a poesia com a dança. Relato ou discurso, história ou demonstração, a prosa é um desfile, uma verdadeira teoria de ideias ou fatos. A figura geométrica que simboliza a prosa é a linha: reta, sinuosa, espiralada, ziguezagueante , mas sempre para diante e com uma meta precisa. Daí que os arquétipos da prosa sejam o discurso e o relato, a especulação e a história. O poema, pelo contrário, apresenta-se como um círculo ou uma esfera: algo que se fecha sobre si mesmo, universo autossuficiente e no qual o fim é também um princípio que volta, se repete e se recria.” 56 Octavio Paz, Signos em Rotação

Revista Amplitude 2 - Revista Crista de Literatura e Artes  

AMPLITUDE é uma revista de cultura evangélica, com foco principal em ficção e poesia. Mas nosso leitmotiv, nosso motivo de ser e de existir,...

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