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INSPETORIA SANTA CATARINA DE SENA

Inspetoria Santa Catarina de Sena

| Ano 40 | n° 53 maio junho julho e agosto | São Paulo | SP

PRESENTISMO E IMEDIATISMO:

desafios de educar por meio de processos


Editorial

A Sabedoria é um espírito amigo do ser humano Prezados Leitores, Setembro – Mês da Bíblia! No ano de 2018, somos convocados a aprofundar o livro da Sabedoria com o tema: Para que n’Ele nossos povos tenham vida e o lema: A Sabedoria é um espírito amigo do ser humano (Sb 1,6). Unindo-nos ao autor, rezemos: “Sim, ó Senhor! De todos os modos engrandeceste e tornaste glorioso o teu povo. Nunca, em nenhum lugar, deixaste de olhar por ele e de o socorrer” (Sb 19,22). O “Em Família” traz uma riqueza e variedade de notícias, eventos e acontecimentos vividos e realizados durante os meses de maio-junho-julho e agosto. É a vida acontecendo! Destaque desse Em Família são os artigos: - Educação e relacionamento entre pais, alunos e escola – Leo Fraiman - Bodas de Caná – Ir. Ivone Brandão - Reavivar a fé política – Ir. Iracema Schoeps - Presentismo e Imediatismo: desafio de educar através de processos– Ir. Teresa Cristina Domiciano e Luiz Fernando Miguel Lopes - Uma Casa, uma crônica, uma história - Irmã Rosalba Perotti - A prática religiosa na prática cristã - João Carlos Teixeira Agradecemos às pessoas que contribuíram na reflexão, proporcionando-nos conhecimento e confronto com temas tão atuais e desafiadores para os tempos de hoje. Ressalto, também, as partilhas das experiências missionárias realizadas pelos jovens, leigos, leigas e Irmãs, no mês de julho, em diversos lugares, junto ao povo, crianças, adolescentes e jovens, sobretudo os mais pobres e sofridos. Sair de si para levar aos outros a Boa Notícia é sentir-se comprometido com a vida e a missão de Jesus Cristo. “E pelo mundo eu vou... cantando teu amor, pois disponível estou, para servir-te Senhor!” Também foram realizados outros encontros, comemorações e projetos, em diversos âmbitos, que retratam o empenho e o esforço em concretizar o sonho de educar evangelizando e evangelizar educando, segundo o coração de Dom Bosco e de Madre Mazzarello. Que Maria continue a caminhar conosco e nos acompanhe no cultivo da defesa da vida, semeando sempre a esperança e a alegria! Fraternalmente,

Ir. Helena Gesser Redação, produção e distribuição Ir. Maria de Lourdes Macedo Becker, Andréa Pereira Projeto gráfico Andréa Pereira Capa : Banco de Imagens Revisão Ir. Maria de Lourdes Macedo Becker, Fotos Inspetoria Santa Catarina de Sena Colaboração Irmãs e Comunidades da Inspetoria Santa Catarina de Sena

Contato editorial@fmabsp.org.br

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EM FAMÍLIA | Ano 40 | nº 53

Centro de Comunicação Marinella Castagno Rua Três Rios, 362, Bom Retiro 01123-000 São Paulo | SP Tel. 55 11 3331 7003 www.salesianas.org.br Em Família é uma publicação formativa que divulga e informa sobre o cotidiano das comunidades das Filhas de Maria Auxiliadora na Inspetoria Santa Catarina de Sena, e suas frentes de trabalhos.


Sumário

PRESENTISMO E IMEDIATISMO

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Desafios de educar por meio de processos

BODAS DE CANÁ

Roteiro para Lectio Divina

Relembre e fique sabendo o que aconteceu em nossas comunidades nos meses de maio, junho, julho e agosto programe-se para as próximas atividades. Divirta-se, emocione-se, Em Família.

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Ir. Iracema Schoeps

ENTREVISTA COM IR. TERESINHA MAFALDA

65 anos de vida Consagrada

Ti ringrazio per avermi inviato un esemplare di EM FAMÍLIA. Ti sono riconoscente per questa tua gentilezza. Grazie anche per accompagnarmi con la preghiera. Mi è molto preziosa. Anch’io ti ricordo al Signore e ti auguro un sereno mese di maggio ricco di santità salesiana. Un abbraccio con affetto. Sr. Yvonne Reungoat FMA

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Editorial Capa Artigo Registro É Festa Poema

Cartas

Parabéns pela Revista. Está linda e muito substanciosa. Vou ler. Ir. Adair Aparecida Sberga

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REAVIVAR A FÉ POLÍTICA

A revista “EM FAMÍLIA” Está linda e muito interessante os temas e as notícias. Obrigada Ir. Ivone Goulart fma Muito obrigado pelo envio da Revista e pelas belas notícias. Um abraço. P. Asídio Deretti Com muita alegria finalizei a leitura do Em Família. Parabéns à equipe, pois a edição está primorosa e os textos realmente bons. Prof. Wellington de Oliveira

maio | junho | julho e agosto 2018


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PRESENTISMO E IMEDIATISMO:

desafios de educar por meio de processos Por Irmã Teresa Cristina Pisani Domiciano e Luiz Fernando Miguel Lopes Vivemos tempos inéditos: as pessoas estão cada vez mais focadas no individual, naquilo que mais lhes fala ao “ego”. O mundo já não é o mesmo de ontem, somos tentados a todo instante a viver relações passageiras, bombardeados por todos os lados pelas mídias digitais; somos quase que obrigados a viver tudo agora; não nos desconectamos em momento algum do exterior. Os sentimentos reais e virtuais convivem em um emaranhado onde o “online e o offline” já não se separam mais. Sobre cada pessoa deste novo tempo pesa uma sobrecarga de energias, resultando em perda das prioridades, gerando ansiedade e angustia; o que produz a sensação de estar correndo atrás do tempo para responder a tudo e nunca ter terminado nada. E o tributo que se paga por isso é estar sempre insatisfeito. Assim, não se pode refletir sobre presentismo e imediatismo sem considerar as questões referentes à globalização, à modernidade líquida e à hipermodernidade. Acrescentamos apenas algumas palavras sobre estes conceitos para alinhar a nossa reflexão. No cenário globalizado, a comunicação é instantânea, as distâncias são encurtadas, os contatos físicos entre os indivíduos cada vez mais distantes, pois não precisamos mais do corpóreo já que a internet nos coloca em comunicação. O sentido de comunidade é destruído, sem falar ainda da grande distância que se cria entre os ricos e os pobres, pois a diminuição das condições de vida, o 4 | Em Família


Capa mercado engrandecido e o consumo exacerbado tornam “o rico cada vez mais rico e o pobre cada vez mais pobre”. Estes são alguns fatores sociológicos que caracterizam a globalização. Com a globalização, chegamos ao que se costuma definir como Pós-modernidade, Modernidade Líquida, Hipermodernidade. Fenômenos trazidos pela globalização e que transformam o cenário do mundo. Por Modernidade Líquida, Bauman, se refere à fluidez das relações. Modernidade líquida é ver o tempo, a vida, as relações, a própria identidade escorrerem sem que possamos detê-las. De forma popular é o que diz a letra da música de Lulu Santos, Tempos Modernos: “Hoje o tempo voa, amor escorre pelas mãos. Mesmo sem se sentir e Não há tempo que volte, amor. Vamos viver tudo que há pra viver. Vamos nos permitir.” Outro conceito a ser trazido para a nossa reflexão é o da Hipermodernidade que, segundo Gilles Lipovetsky, é marcada pela descaracterização do sujeito integral; uma sociedade na qual se vive uma “escalada aos extremos”, baseada sempre na vontade do individuo e no consumismo. Nossa pretensão neste trabalho é a de auxiliar e iluminar possibilidades, de trabalhar processos pensados e avaliados em meio a tanta agitação e superficialidade coletiva, refletindo algumas situações vivenciadas pela juventude.

PRESENTISMO, IMEDIATISMO E SEUS DESDOBRAMENTOS Como vimos, em um contexto marcado pela ditadura do tempo presente, expressões como “faça já!”, “viva agora!”, “o futuro é agora!”, “você tem somente o hoje para ser feliz!” e outras, formam, aos poucos, o inconsciente coletivo. Se o amanhã não nos pertence e se o passado ficou para trás, então que outra preocupação teríamos nós a não ser fruir ao máximo o momento em que vivemos? Nesse axioma está pautada a lógica “imediatista”: ou você aproveita completamente o momento, ou estará fadado a enfrentar a decepção de ser alguém que “não soube viver”. A velocidade, o excesso de informações, de conteúdos midiáticos e de produtos de consumo cercam nossa sociedade de todos os lados, quase que nos sufocando, tanto que Lipovetsky (2004, p. 55) afirma que já faz tempo que a sociedade de consumo se exibe sob o signo do excesso, da profusão de mercadorias; pois agora isso se exacerbou com os hipermercados e shopping centers, cada vez mais gigantescos, que oferecem uma pletora de produtos, marcas e serviços. Cada domínio apresenta uma vertente excrescente, desmesurada, ‘sem limites’. O que se vê, portanto é uma sociedade que passa a se acostumar com o exagero do possuir e nega a profundidade e a importância das relações. “Ter coisas” é mais importante que “ser alguém”. Por isso mesmo o “Hipermercado” é o “lugar” da “Hipermodernidade”, é onde se encontra tudo aquilo de que se precisa para viver bem. Nisto se enquadra outra vertente do pensamento hipermoderno, ou seja, todos devem viver bem, sem maio | junho | julho e agosto 2018


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No cenário globalizado, a comunicação é instantânea, as distâncias são encurtadas, os contatos físicos entre os indivíduos cada vez mais distantes, pois não precisamos mais do corpóreo já que a internet nos coloca em comunicação. sofrimento, longe das frustrações. Os próprios cartões de crédito seguem esta lógica: “porque a vida é agora”. Outro aspecto constatado na cultura imediatista é o excesso de informação de todo tipo, em detrimento de uma comunicação verdadeiramente amorosa e afetiva, especialmente entre a juventude. Para esta questão o sociólogo polonês Bauman usa o exemplo do “vaso de cristal”: basta cair para se desfazer em mil pedaços. Os “laços afetivos” se desfazem com a mesma intensidade com que se iniciam: com um botão somos capazes de “deletar” alguém de nossas vidas. E o botão “delete” passa a coexistir com o cotidiano, facilitando a forma como vemos o mundo, pois há qualquer instante podemos tirar e colocar quem quisermos de nossa história. Esse fato aparece quando fazemos uma análise profunda da forma como as pessoas se relacionam, em muitos casos troca-se a preferência pelo olho a olho, por uma relação digital, puramente pautada na economia de palavras ou na não vontade de aproximação do outro. O diferente é 6 | Em Família

estranho. O outro é diferente. Portanto, o outro é estranho. Não obstante, a relação parece ser outra quando se trata do mundo digital e das relações hipermodernas. Troca-se o conhecido pelo desconhecido. O digital é atraente porque evita o choque de olhares, não nos coloca cara a cara com o outro e nos proporciona, em larga escala, sermos aquilo que quisermos, pelo menos aparentemente, podendo assim, possuir várias identidades. E uma vez acenada a questão da “aparência”, podemos afirmar que no mundo digital, sempre em movimento e em constante mutação, a essência não importa tanto, o que é importante é mostrar algo belo, atraente; uma vez que a formatação do conceito de beleza é feita a partir dos julgamentos dos próprios indivíduos. Nisto reside a importância dos “emoticons” das redes sociais: quem nunca mandou um “emoticon” sorridente sem mover um músculo da face, que atire a primeira pedra. Nesse ponto faz-se necessário pensar em como estamos lidando com a noção de comunidade, de sociedade, pois se não estamos atentos ao outro, perdemos o que de mais valioso tem a nossa humanidade, isto é, sermos humanos e solidários. Que finalidade teria a tecnologia senão a de nos aproximar dos outros? Nos últimos meses temos acompanhado nas mídias sociais uma atualização que aparentemente é simples, mas que nos apresenta a possibilidade de uma análise mais séria sobre o assunto: tratase da função “Stories”, que nos dá a possibilidade de postar nas mídias sociais, entre elas Facebook, Instagram, Snapchat, um conteúdo que dure apenas 24 horas e, após isso, seja “autodestruído”. Sendo assim, Stories – a história, na tradução literal -, é reduzida ao momento presente, ou simplesmente às últimas 24 horas. A banalização da história acontece quando o conceito utilizado no aplicativo é transposto para a vida real.


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CRIAÇÃO DE PROCESSOS EM TEMPOS LÍQUIDOS: PROVOCAÇÕES A juventude é amplamente afetada por essa “novidade,” imposta pelos novos tempos. Ninguém mais tem paciência e, por vezes, falta a compreensão correta da importância de esperar e caminhar com calma. A esse respeito, a elaboração de processos nem sempre encontra boa acolhida, pois educar por meio de processos é como ir fazendo uma receita saborosa, mas pela amplitude do fato, a realização é demorada e exigente. Para que o bolo resulte gostoso e nutritivo, é necessário acrescentar cada ingrediente – um a um – com esperança, sabendo valorizar cada parte do processo. Em tempos de imediatismo, somos interpelados a não esperar que os processos se desenvolvam no ritmo que eles exigem, pela ânsia de querer ver logo o fim, ou seja, não ter a paciência de esperar que cada passo se desenrole a seu tempo. A pressa e a ansiedade são prejudiciais ao processo. Pressa e ansiedade se complementam. Ambas, são filhas prediletas dos novos tempos imediatistas.

Na lógica do processo, apresentamos alguns elementos a serem levados em conta, em tempos de imediatismo. Por isso, sugerem-se alguns “resgates”: A) RESGATE DA ACOMPANHAMENTO

IDENTIDADE

E

DO

Sabemos que nem sempre, ao se olhar, o jovem aceita o que vê. A imagem refletida, às vezes, é negada, ignorada ou até guardada em algum lugar desconhecido dentro dele, ressurgindo ou não, tempos depois. Ao mesmo tempo constatamos que há dificuldades, entre pais e educadores, para ajudar o jovem a descobrir sua identidade pessoal. Daí as buscas por reconhecimento fora dos âmbitos familiar e escolar. Ao querer afirmar sua autonomia em relação à família, ele inicia seu percurso pessoal de construção de novas relações e expressões de liberdade. Busca “divertimento”, denotando a urgência de estar bem consigo mesmo, de ser reconhecido, amado. Além de promover verdadeira confusão entre o que é íntimo e o que maio | junho | julho e agosto 2018


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A presença do “adulto significativo” é tão necessária para auxiliar, por meio das trocas e afetos, a melhor compreensão dos limites, bem como a definição dos seus espaços internos e externos. é externo, expondo-se continuamente a exibir sem pudor, sentimentos profundos, segredos de sua própria intimidade e até a dos outros. Imersos em uma constante sensação de provisoriedade e isentos dos processos de feitura em que o desejo de ter atravessa o fazer e a espera, os jovens terão que vivenciar experiências que envolvem resolução de dúvidas, conflitos e o encontro de soluções. E para muitos deles os limites são muito amplos e estar no mundo pode tornar-se assustador. Por isso, a presença do “adulto significativo” é tão necessária para auxiliar, por meio das trocas e afetos, a melhor compreensão dos limites, bem como a definição dos seus espaços internos e externos. Da mesma forma, o adulto precisa entender e aceitar seus limites, para que também o jovem aceite os próprios. Assim, buscando esclarecer sua identidade e sua função, o educador vai interpretando as demandas e ressaltando as prioridades, de tal forma que o vínculo entre eles se estabeleça, em compromisso de reciprocidade e empatia, com 8 | Em Família

vistas ao desenvolvimento pessoal e social. B) RESGATE DA REFLEXÃO O processo leva à reflexão sobre a fé. Quando se fala em Processo de Educação à Fé, estamos admitindo a necessidade de reflexões sobre teoria e prática da fé. Estas reflexões passam por toda a vivência do jovem. No imediatismo, somos desafiados a cortar o processo, usando atalhos, ou seja: dar respostas e soluções rápidas, buscando alcançar resultados imediatos. Daí a necessidade urgente de criar espaços de reflexão, que ajudem o jovem a encontrar o sentido dessas vivências, iluminadas pela fé. Conforme Libânio, a cultura midiática mina três importantes campos da fé: o conteúdo do saber, os símbolos e a prática da fé. O saber perde importância, pois temos conhecimento rápido e fácil via internet, dificultando o aprofundamento, a reflexão. São, portanto, caminhos opostos: a fé aprofunda o conhecimento, ao contrário a cultura midiática navega pelos mares da simples informação. A fé alimenta-se de símbolos e


Capa ritos, a cultura midiática joga com os ícones que substituem os ideais por sinais informativos, sem nenhuma perspectiva de pensamento. Se queremos trabalhar por meio de processos, necessitamos resgatar a reflexão como construção do conhecimento e o conhecimento como base da fé.

abordar questões como a dor, a morte, o silêncio, os medos, a liberdade; estas ou outras questões existenciais, no formato de narração. Com este procedimento, o emitente narra a sua história e o receptor escuta e se confronta consigo mesmo. Na reflexão pessoal ou ao interno dos grupos, surge naturalmente o convite a assumir a própria história. Quem narra, não narra um evento casual, C) RESGATE DA HISTÓRIA narra a vida. Sendo assim, a narração procura A criação de processos passa pela necessidade dar respostas às grandes interrogações: Quem eu de fazermos um resgate da história, não sou? De onde vim? Para onde vou? puramente historicista, pois o historicismo enxerga a história com um fim em si mesma; D) O RESGATE DA COMUNIDADE muito menos futurista, que é o historicismo, que A “Cultura do encontro” de que tanto fala o vive em função somente do amanhã. Papa Francisco, é mais que urgente para o nosso Falar de processos ou de educar por meio de tempo. É possível desacelerar para encontrar as processos é um desafio principalmente no que pessoas? Encontrar o outro? Encontrar Deus? tange as questões de fé. Nossa fé cristã tem raízes “Keep Calm!”. O ritmo acelerado da vida nas históricas. Em um contexto onde a história perdeu grandes cidades, nos torna alheios àqueles que o seu valor, onde a temporalização deixou de ser vivem à nossa volta. Neste sentido, vemos, mas linear, ou seja, a consideração das três dimensões não vemos. Não vemos o outro, não vemos as de passado, presente e futuro, ganhou espaço o situações, não nos damos conta da presença presentismo - a vida em 24 horas. Faz-se, portanto do Outro e do outro. Somos distraídos, ou nos necessário, recuperar o verdadeiro sentido do habituamos a olhar e nem percebemos o mal que tempo e da história. Tempo como Cronos e está ao nosso redor. O sofrimento, a pobreza, o Kairós, pois a fé cristã, “recebe do passado bíblico jovem caído na rua, a criança maltrapilha...parece os dados fundamentais e anuncia o futuro... O que nada nos move. Entramos em uma certa presente para ela só se entende na dupla relação inércia e, pouco a pouco, vamos nos alheiando com a Tradição com a Escatologia”. (Libânio, 2014, ou perdendo a sensibilidade diante de toda a pp. 114-115). dura realidade. A impressão que se tem é que Uma possibilidade, neste caso é o resgate a esperança não nos move. O que se dizia de da narração e da hipernarração, devolvendo a Dom Bosco, parafraseando as palavras da Carta história ao seu devido lugar. É constatar a ação aos Hebreus (11,27) “caminhava como se visse o salvadora de um Deus, presente na história. invisível,” hoje se pode traduzir na necessidade Portanto, projetar um itinerário de Educação à Fé, que temos de caminhar enxergando além das na linha da narração, relendo as experiências de aparências, olhando a realidade com a fé que vida à luz da fé. Isso é de vital importância para o transfigura as duras realidades e as transforma trabalho com os jovens. O método narrativo tem em ocasião de fazer o bem. Se as relações são algo de evocação, pois traz para o presente o que frias na selva de pedra é preciso aquecê-las. Um já foi feito, estudado ou aprendido no passado “bom-dia” ou “boa-noite” ditos com presença e e ajuda a sonhar o futuro. Faz enxergar que a alegria, podem alimentar ou criar uma relação de vida não é só o momento “agora”. É útil, pois, amizade. maio | junho | julho e agosto 2018


Capa É preciso vencer a indiferença e construir a cultura do encontro, assim nos pede Papa Francisco. Educar à fé é resgatar o sentido do convívio, do grupo, das experiências comunitárias, da dimensão comunitária da fé. Resgatar o sentido de pertença e da corresponsabilidade. Não somos uma ilha perdida em um oceano. Precisamos uns dos outros. Construímos com o outro. Jesus foi ao encontro das pessoas (Samaritana, Zaqueu, Bartimeu, Lázaro, Marta, Maria e tantos outros). Também para o jovem, a proposta de ir ao encontro, de “sair do sofá” , de desacomodar é atual. A Carta Encíclica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco (2013, n. 88) ilumina nossa reflexão: O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com o seu sofrimento e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado. A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura. Este é o convite e a proposta. Desacelerar para ser pontes de comunhão, fortalecendo vínculos de fraternidade. Portanto, no processo é sempre importante recordar a dimensão comunitária da fé. E) O RESGATE DA EXPERIÊNCIA Parece existir uma correlação entre o tempo do instantâneo e as sensações de esvaziamento e de falta de sentido vivenciadas por muitos jovens e até por crianças deprimidas ou apresentando outros sintomas porque não participam ativamente de suas próprias vidas, geridas sempre por algo externo, do fator publicitário à família e à sociedade. Sabemos que não é possível combater o tempo, mas precisamos permitir, aos jovens e crianças, 10 | Em Família

possibilidades de testar, experimentar e errar, suportando o tempo de espera e o ritmo de cada um. Afinal, os processos, constituídos de ciclos, ordem e limites, jamais devem ser abolidos da vida, sob pena de tornar muito difícil suportar o que não vem pronto, gerando muito sofrimento. Portanto, valorizar a experiência, propor momentos de pausa e de lazer “perdendo tempo” para possibilitar a criação de novas ideias, abrir horizontes de sonho. “Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que fez tua rosa tão importante” ou “os homens compram tudo pronto nas lojas, mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos”. Pensamos que estas célebres frases de Saint-Exupéry, no livro “O Pequeno Príncipe”, contrastem bem com as propostas do imediatismo e presentismo neste contexto da nossa reflexão. F) RESGATE DO PROJETO DE VIDA Frutos de 350 milhões de possibilidades, fomos projetados por outros, ou seja, por nossos pais. Portanto, somos chamados à realização de nós mesmos, interna e externamente. Seres únicos, vamo-nos descobrindo aos poucos. E o que fazer com o que somos? O que desejamos? Só chegaremos a algum lugar, se soubermos quem somos. Condicionados por tantos meios, temos que priorizar o autoconhecimento, pois a polifonia que há em nós precisa ser harmonizada ou a multiplicidade de energias que existem em nós precisam ser organizadas em vista da construção de nosso ser inteiro. Perguntar “Como eu me percebo? Como me descrevo?” é condição sine qua non para a integração do projeto de vida. Completada pelo questionamento: “O que desejo?”, ajudando a encontrar um significado para a vida. Para tanto, algumas prerrogativas são necessárias: estabelecer parcerias (alguém que me ajude a olhar meu próprio mundo e o


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mundo à minha volta), admitir erros, distinguir o que é importante do que é urgente, planejar a curto, médio e longo prazo, considerando as perspectivas da gradualidade e da flexibilidade, além de dar prioridade ao que pensamos para nós e não ao que pensaram para nós. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente artigo teve a finalidade de explicitar os conceitos de “Presentismo” e “Imediatismo”, bem como seus possíveis estudos e aprofundamentos, indicando a probabilidade e utilidade de trabalharmos com processos. O tema apresentado propôs-se traçar um caminho teórico e prático sobre esses conceitos e sua relação educativa com a juventude de nossos tempos. Em meio ao desafio de construirmos relações sólidas e duradouras é preciso que se tenha a coragem de pensar e ousar fazer a diferença, aceitando e compreendendo a história, recriando o que se vive no presente e projetando com esperança e fé o futuro.

REFERÊNCIAS BAUMAN, Zygmunt. Globalização: As consequências humanas. Rio de Janeiro: Zahar Editores. 1999. ________________. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar Editores. 2001. FRANCISCO, Papa. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Disponível em <https://w2.vatican. va/content/francesco/pt/apost_exhortations/ documents/papa-francesco _ esor tazione ap_20131124_evangelii-gaudium.html> acesso em 28 de maio de 2017. LIBÂNIO, João Batista. Introdução à Teologia Fundamental. São Paulo: Editora Paulus, 2014. LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. Trad. Mario Vilela. São Paulo: Editora Barcarolla, 2004. SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. Rio de Janeiro, Editora Agir, 2009. Aquarelas do autor. 48ª edição / 49ª reimpressão. Tradução por Dom Marcos Barbosa. 93 p.

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Artigo

Reavivar a fé política Por Ir. Iracema Schoeps

Dom Bosco, entre tantos legados, nos deixou um sobre a política: ele dizia que sua política era a do Pai Nosso. Essa afirmação pode parecer neutra, mas não o é. A palavra Política vem do grego ‘polis’, ‘cidade’ e visa a organização social da mesma. Na política do Pai Nosso, para os cristãos, não se trata de instituir um regime teocrata, mas de conceber a cidade segundo a visão de Deus como Pai; fazer a experiência de Deus como Pai é fazer a experiência de ser irmão e irmã de todos. É crer que o pão de cada dia não seja acumulado, mas partilhado e seja para todos. É crer que o mundo é a Pátria da grande família onde Deus deseja reinar como Pai e o amor fraterno é a concretização deste Reino. Como anda a verdadeira fraternidade no mundo em que vivemos? 12 | Em Família

Não será este o momento de avaliar a história e nos perguntarmos sobre nossa responsabilidade e profecia diante da situação de nosso país? O profeta, na visão bíblica, é alguém que lê criticamente o presente porque também ele vive a mesma realidade e procura julgar os acontecimentos à luz da fé para denunciar o mal e anunciar ao povo a possibilidade de um futuro mais humano e mais justo. Meu desejo, neste artigo, não é o de ser profeta da desgraça, porém a conjuntura mundial parece, muitas vezes, que caminha para o caos e para a barbárie: são regimes políticos totalitários que geram fome, terror, morte, imigração em massa; são guerras, retaliações econômicas, ameaças nucleares. É a centralização das riquezas nas mãos de poucos, a busca desordenada do lucro por


Artigo meio de uma economia globalizada e centrada na especulação financeira, na produção de armas e não de bens de primeira necessidade para todos, gerando desemprego e oferta para o consumo do supérfluo. Saltam aos olhos as nações dizimadas pela fome, pelas epidemias, pelas guerras. É uma nação contra outra nação. Uma nação procurando devorar outras nações. O que constatamos em nosso país? Centralização do poder econômico e dependência do capital internacional. Corrupção nos Poderes que dirigem a Nação. Latifúndio e agronegócio que matam a agricultura familiar, destroem as reservas indígenas, florestas e mananciais e envenenam o mundo com os agrotóxicos. A privatização dos recursos nacionais como a água, os minérios, as reservas petrolíferas, entre outras, sem o conhecimento, consulta e aval da população. Para os pobres, resta o desemprego, a falta de moradia, uma educação precária, sem atrativos, para adolescentes e jovens; os postos de saúde e hospitais públicos sem os recursos para um atendimento humanizante e eficaz. O tráfico de entorpecentes enriquece a máfia que o controla e envolve a juventude de todas as classes. Cresce a violência, o porte de armas pesadas e a impunidade. Cresce, também, a cada ano, a violência e o extermínio de mulheres e jovens, principalmente pobres e negros nas periferias. Acentua-se na sociedade o individualismo, a competição, o preconceito, a indiferença, a acomodação; cresce a solidão, a depressão, o analfabetismo virtual, os endividados, drogados, desempregados, idosos sozinhos. Aumenta o número de moradores de rua e os descartados sem teto, sem terra, sem emprego. A mídia, concessão pública, encobre os desmandos dos Poderes e, como diz o Papa Francisco, ‘cria condições obscuras para condenar pessoas, quando se quer dar um golpe de Estado’.

Dom Bosco, entre tantos legados, nos deixou um sobre a política: ele dizia que sua política era a do Pai Nosso. Instrumentaliza o povo transformando-o em massa de manobra criando uma falsa unidade. Uma grande ala das Igrejas cala-se diante deste cenário e entorpece o povo com uma espiritualidade alienada e descomprometida com a realidade, como se esta situação fosse a vontade dos céus; como se a Palavra de Deus e a pessoa de Jesus fossem mágicas salvadoras de todos os males. O que a experiência do Povo de Deus e a prática de Jesus de Nazaré têm a nos dizer? Nelas encontramos a mística e a utopia não só para sonhar, mas para construir algo novo. A Palavra de Deus ilumina a mente para julgar a realidade, aquece o coração e fortalece a vontade para agir no caminho a percorrer. Na Bíblia, não há dicotomia entre fé e vida, fé e política como organização social e concretização do Projeto de Deus. O bem viver foi o objetivo maior deste Projeto que o diferencia das outras nações. Numa leitura atenta, principalmente, do Livro dos Juízes, percebe-se, nas teias e tramas do seu tecido, os sinais do projeto vivido pelo Povo de Deus nos primeiros tempos da conquista da terra: maio | junho | julho e agosto 2018


Artigo Povo de Deus: Um só Deus. Nações: Vários deuses. Povo de Deus: Culto descentralizado, nas Tribos. Nações: Culto centralizado Povo de Deus: Sacerdote sem terra. Nações: Sacerdote latifundiário. Povo de Deus: Culto que narra a história e a celebra. Nações: Ritos vazios e desligados da vida que narram mitos Povo de Deus: Variedade de lideranças, e serviços partilhados. Nações: Liderança única do rei Povo de Deus: Sociedade igualitária, sem classes. Nações: Sociedade hierarquizada. Povo de Deus: Todos têm direito ao trabalho e vivem do próprio trabalho. Nações: Os reis e os grandes vivem da exploração do trabalho dos pequenos. Povo de Deus: O poder é compartilhado e vem de baixo para cima. Nações: Concentração do poder na mão do rei. Povo de Deus: Leis que defendiam a igualdade entre todos. Nações: Leis que defendiam os interesses do rei. Nações: Exército mercenário. Povo de Deus: Exército popular. 14 | Em Família

Um dia, esse mesmo povo, já escravo na Babilônia (587aC), se perguntou: por que viemos parar aqui? Porque o Povo e os reis se desviaram do Projeto de Deus. Porque, um dia, as Tribos de Israel escolheram o projeto da serpente, comeram da árvore do centro do paraíso, usurparam de Deus a centralidade do poder: ‘sereis como deuses (...) A serpente (símbolo dos poderes centralizados e opressores), nos enganou’. (Gn. 3,1-7). Esta serpente crescerá tanto que, no Apocalipse, reaparecerá como um dragão. O primeiro livro de Samuel (1 Sam 8,1-22) apresenta uma crítica a esta escolha, a monarquia e, conseqüentemente, ao afastamento do Projeto de Deus. Os reis serão culpabilizados por seus desmandos. A Bíblia não encobre a ambiguidade da instituição da realeza que tem por rei o Senhor, embora apresente Davi como o rei por excelência. O Povo que devia ser ‘luz’ para as nações escolhe ser ‘igual’ às outras nações e, com o tempo, se desvia do Projeto de Deus. Em meio a tantas humilhações e dominações do Povo de Deus, Jesus de Nazaré vem anunciar que um outro mundo é possível. Vem proclamar um Reino no qual Deus se revela como Pai. Veio dizer que o amor do Pai persiste e que a vitória final será a implantação do Reino de Deus em todos povos e nações do mundo. A lei soberana deste reino é o amor e o bem comum seu objetivo: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). A vontade de Deus é soberana e Ele proclama: “buscai, acima de tudo, a justiça e o resto vos será dado por acréscimo” (Mt 6,33). Jesus resume na oração do Pai Nosso, quais devem ser os anseios de todos que o aceitam como caminho. Quando, principalmente, os dirigentes das nações, de grupos, entidades, instituições forem movidos por esses valores e não por outros


Artigo interesses, vislumbraremos um mundo novo. Enquanto o Reino de Deus como Pai não chega em sua plenitude é preciso ter sensibilidade para descobri-lo e contemplá-lo lá onde ele acontece, pois ele se apresenta pequenino como um grão de mostarda. São os gestos do ‘Reino de Deus”: Gestos de amor. Amor que se manifesta na acolhida, na partilha, na gratuidade, na solidariedade, na sensibilidade, no perdão. Porém, será necessário ampliar a consciência cidadã, consciência responsável pela construção da história, segundo a vontade de Deus. ‘A história é a gente quem faz’. Que a experiência do Povo de Deus e as proposta de amor de Jesus de Nazaré nos iluminem nas escolhas que faremos nas próximas eleições e tenhamos o discernimento necessário para uma análise dos projetos dos partidos políticos e dos candidatos com seus interesses pessoais e de classe. É tempo de revisão. O quê apoiaremos?

SOMOS FILHAS DE UM SONHADOR: ‘Ninguém pode prender um sonho, Impedir alguém de sonhar. Ninguém pode cortar a esperança de um povo sofrido a lutar. Ninguém pode abafar o grito do oprimido clamando Deus meu!

Deus que salva e liberta seu povo, que ergue o caído e alimenta o que é seu Todo sonho alimenta a história E a vitória de um povo a chegar. Vamos juntos que neste caminho Ninguém sobra ou fica para trás. Para ver este mundo florido, Criança sorrindo sem fome ou sem dor, É preciso cuidar bem da vida, Que a vida sofrida se eleva em clamor. Ninguém pode prender um sonho! Como a luz do sol que nasceu, Ele brilha inventando caminhos, E desvela o que a noite escondeu! Ninguém pode abafar o grito e o clamor De quem sofre de tanto suor, Pelo pão, pela paz e a justiça, E anda a procura de um mundo melhor! Ninguém pode prender um sonho! Como a luz do sol que nasceu, Ele brilha inventando caminhos, E desvela o que a noite escondeu! Ninguém pode abafar o grito e o clamor De quem sofre de tanto suor, Pelo pão, pela paz e a justiça, E anda a procura de um mundo melhor!’ (Autor desconhecido)

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Artigo

A prática religiosa na prática cidadã Por João Carlos Teixeira

Eventualmente, ocorre que alguns termos se distanciam de seu sentido original passam a ter outro sentido. Várias são as palavras que podem ser elencadas para ilustrar este fenômeno como: “trânsito” que tem deixado de ser fluxo de pedestres e veículos pelas vias públicas para ir assumindo o sentido de congestionamento; “vilão” que se referia a moradores dos vilarejos, e, por semelhança, com a palavra ‘vil’, acabou adquirindo conotação negativa. “Tratante” é um outro bom exemplo: inicialmente, destinada a quem apenas tratava de negócios (sem juízo de valor), passou a conotar a má fé, em tais operações, graças ao mal exemplo de uns poucos larápios. Igualmente curioso é o que ocorre à palavra “política”. No ocidente, é sabido que sua origem 16 | Em Família

remonta ao período por volta do século IV a.C., em Atenas, quando as decisões, que interessavam a todos, eram tomadas em reuniões com a presença de boa parte da população. Lamentavelmente, “política”, atualmente é lembrada, quase que exclusivamente, para se referir a práticas partidárias, às quais – sobretudo no Brasil – dispensam apresentações. A atividade política partidária é uma esfera da atividade política humana, como a economia, a cultura, o futebol, as artes, a religiosa, a culinária e todas as demais esferas. O ser humano é, por natureza, um animal político, pois, se entende na interação com seus pares. Ao interagir com eles, o faz de acordo com critérios que beneficiem a si mesmo e, soberanamente, aos seus próprios pares. Não há ação humana que não esteja dotada de política. Nem mesmo a ação


Artigo religiosa está livre da política. De saída, não se faz uma homilia, uma catequese, uma celebração ou um ritual de qualquer orientação religiosa que seja, sem que as pessoas, com quem se interage, sejam afetadas e isto tenha implicações na relação com o outro e com seu meio. Assim, uma operação ritualística que se pretenda desprovida de política (para uma falaciosa isenção, neutralidade ou algo que o valha), contém em si o germe da falência, porque é contraditória. Cristo, o próprio Deus encarnado, viveu entre nós. Sua atividade foi, também política, sem deixar de ser transcendental. Os cristãos, enquanto seus seguidores, não podem conceber uma prática religiosa que desconheça sua implicação política, bem como não pode conceber uma prática política desprovida de sua espiritualidade. Cristo sintetiza seu seguimento ao amor a Deus e ao próximo (e o universo de atitudes e renúncias que tais escolhas implicam). Um seguidor seu que, portanto, ao exercer sua cidadania, despreza estes princípios mais elementares, despreza o sacrifício do próprio Messias. A Igreja Católica, por meio de seus documentos, que tratam de sua doutrina social, adverte seus fiéis: O sobrenatural não deve ser concebido como uma entidade ou um espaço que começa onde termina o natural, mas como uma elevação deste, de modo que nada da ordem da criação e do humano é alheio ou excluído da ordem sobrenatural e teologal da fé e da graça, antes aí é reconhecido, assumido e elevado (...) (CONSELHO PONTIFÍCIO “JUSTIÇA E PAZ”, 2004) Uma homilia, catequese, formação cristã, ou qualquer outra prática formativa religiosa que ignore o termo política, a esta época do ano, é uma prática omissa. Uma prática, contudo, que aproveite o período para angariar votos a um ou outro candidato ao pleito, é oportunista e usurpadora do espaço sagrado e sua Narrativa

sacra. Em tempo, seria dispensável, a esta altura, destacar a necessidade de se dissociar o conceito de ambão e altar (locais destinados ao rito da Palavra de Deus e da Eucaristia) do conceito de palanque (local destinado ao ato de comício de candidatos a cargos políticos). Seria dispensável se não fosse uma prática comum ao ‘métier’ de boa parte das religiões – sobretudo cristãs –, que pastores, ministros, padres e outras lideranças espirituais promovam seus candidatos em troca de benefícios pessoais ou para suas comunidades (em que pese suas implicações morais). Desde 1890, o Brasil se identifica como país laico, e assim o deve ser para que haja isonomia no trato de seus cidadãos. Contudo, o país é composto por membros que são dotados de valores, subjetividades e crenças, todas com sua liberdade assegurada por lei. Cabe às religiões fazerem seus papéis de propiciarem e suscitarem a reflexão crítica da relevância do papel de seus membros em exercerem sua cidadania no cotidiano, além de escolherem seus representantes, em coerência com a proposta de suas matrizes teológicas/filosóficas/ ideológicas, e isto inclui o respeito à dignidade humana, tolerância ao diferente e o sentido de altruísmo (valores comuns a todas religiões). Assim, a palavra ‘política’ continuará sendo o que é de interesse de todos, bem como ‘religião’ seguirá significando religação. “Amar e mudar as coisas, me interessa mais” (Alucinação – Belchior)

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Bodas de Caná Roteiro para lectio divina

- Tudo começa com um casamento simples - “Derrubai este templo, e em três dias o e certamente de casal pobre, num vilarejo da reconstruirei” (2,19) Galileia. - Maria estava lá e Jesus e seus discípulos foram TERCEIRO DIA convidados. - O problema nessa festa: não há vinho. João anunciou Jesus como o novo esposo - Maria pede socorro a Jesus e ele resolve o (1,15.27.30). problema. Assim, as núpcias adquirem imediatamente - Este acontecimento foi relido a partir do sentido simbólico. mistério Pascal. “Terceiro dia”. Na Bíblia, indica um breve lapso de tempo, relacionado com o agir divino (Gn CONTEXTO DA NARRATIVA 22,4; 31,2; 34,25), à entrega da Torá, e é no 3o. dia que Deus socorre o povo (Os 6,2) e que Jesus é - Testemunho de João Batista: o novo esposo ressuscitado por Deus. (1,15.27.30). “Terceiro dia” somado aos três primeiros, chega - Escolha dos discípulos: “No dia seguinte” ao sexto dia: dia da criação do homem. (1,29.35..43). “No terceiro dia” (2,1) - Purificação do Templo: 2,13-25 18 | Em Família


Artigo CANÁ DA GALILÉIA Caná estava situada na parte montanhosa da Galileia, lugar clássico dos rebeldes contra o regime que dominava em Jerusalém. É provável que o nome “Caná”, relacionado com o verbo hebraico qanah (adquirir, criar), tenha sido escolhido por João para aludir ao “povo adquirido, criado por Deus” (Ex 15,16; Dt 32,6; Sl 72,4). Maria estava presente e Jesus é convidado A mãe pertence às núpcias, ou seja, à antiga Aliança, mas reconhece o Messias e espera nele, personifica os israelitas que conservaram a fidelidade a Deus e a esperança em suas promessas. Note-se o paralelismo: estava lá a mãe de Jesus (2,1) e estavam lá colocadas seis talhas de pedras (2,6). Tanto a mãe como as talhas situam-se no marco da Aliança. Pode sugerir a introdução do “noivo” das núpcias messiânicas ou a entronização do “rei de Israel”.

Maria reconheceu o Messias e aviva-se sua esperança. Seu primeiro passo consiste em mostrar-lhe a carência: Eles não têm vinho. Sabe bem que o Deus da Aliança é amor e lealdade (Ex 34,6; Dt 4,37; 7,7s.) e que este amor não acabou (Jr 31,3). “QUE NOS IMPORTA A MIM E A TI, MULHER?” As palavras de Jesus querem infundir ânimo à mãe/Israel e indicar-lhe a necessidade de romper com o passado. Jesus a faz compreender que aquela aliança caducou e não será revitalizada. O apelido “mulher” é usado para sua mãe, para Maria Madalena (20,15) e para a samaritana (4,21). As três: a mãe, a comunidade-esposa que se conservou fiel a Deus; a samaritana, a esposaadúltera que volta ao esposo; Maria Madalena, a comunidade-esposa da nova Aliança, que com Jesus formará o novo casal primordial no horto/ jardim.

“NÃO HÁ VINHO!” Elemento indispensável nas núpcias, como sinal de alegria, o vinho simboliza o amor entre o esposo e a esposa, como aparece no Cântico dos cânticos “são melhores que o vinho teus amores” (1,2). Nestas núpcias que representam a antiga Aliança, não existe relação de amor entre Deus e o povo porque não há vinho. Não há vinho, não há festa. A pobreza é total. Chegou-se ao fundo do poço. É uma situação que lembra a condenação de Israel pelos profetas, principalmente de Oséias: o povo abandonou o Senhor (Jr 2,13) e não reconheceu que Deus é seu Libertador (Os 11,1-4); esqueceu o primeiro amor (Ap 2,4). maio | junho | julho e agosto 2018


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“AINDA NÃO CHEGOU A MINHA HORA” A novidade radical que Jesus traz está ligada a momento futuro, “a sua hora”. Jesus estimula a esperança, mas adverte que a realização não é imediata. “FAZEI O QUE ELE VOS DISSER”

Mandando encher as talhas de água, Jesus indica que ele oferecerá a verdadeira purificação. Mas ela não dependerá de nenhuma Lei. A água se converterá em vinho fora dela, porque se transformará em fonte de vida eterna (Jo 4,14). O mestre-sala dirige-se ao noivo: “Tu guardaste até agora o melhor vinho” João anunciou Jesus como o novo esposo (1,15.27.30). Assim, as núpcias adquirem imediatamente sentido simbólico.

Maria não conhece os planos de Jesus, mas afirma que se deve aceitar o seu programa sem condições e estar preparado para seguir qualquer “A ÁGUA TRANSFORMADA EM VINHO”. indicação sua. Sua frase alude ao que pronunciou o povo no Sinai, comprometendo-se a cumprir A voz passiva sugere uma ação de Deus, sua tudo o que Deus lhes mandasse (Ex 19,8). Palavra criadora. O encarregado da festa repreende o noivo: “SEIS TALHAS DE PEDRA DESTINADAS À ele reconhece a superioridade do vinho novo e PURIFICAÇÃO DOS JUDEUS” a surpresa de que o novo seja melhor do que o antigo. O vinho é de outra ordem, que anuncia “Pedra” evoca as tábuas de pedra que situação nova e o fim das núpcias antigas. representa a Lei de Moisés, o código da antiga O verdadeiro noivo é aquele anunciado por Aliança. A finalidade das talhas: a purificação. O Oséias 2,18-25e agora se realiza: aparato ritual purificatório está vazio. 18“Naquele dia – oráculo do Senhor – tu me chamarás Esposo meu, “ENCHEI AS TALHAS DE ÁGUA” já não me chamarás ídolo meu. 19Afastarei de sua boca 20 | Em Família


Artigo os nomes dos Baal e seus nomes não serão invocados. 20Naquele dia farei em seu favor uma aliança com os animais selvagens, com as aves do ceu e os répteis da terra... 21Eu me casarei contigo para sempre, eu me casarei contigo a preço de justiça e de direito, de afeto e de amor. 22Eu me casarei contigo a preço de fidelidade, e conhecerás o Senhor. Jesus é o noivo que desposa a humanidade e providencia “agora” o vinho melhor e abundante do tempo messiânico. Ele faz a vez do Esposo do tempo final, anunciado pelos profetas que também anunciaram as novas núpcias de Deus com o povo: “Como um jovem se casa com uma donzela, assim te desposa teu construtor” (Is 62,5). O vinho simboliza o amor, amor como dom do Espírito e é ele que purifica. O vinho que penetra no interior do homem e o transforma é a Lei escrita no coração (Jr 31,33).

entre Deus e o povo. É o início dos sinais, não a plenitude. Em 2,4 Jesus falou que “sua hora” ainda não tinha chegado. Sua hora será a da plenitude, do amor consumado, quando disser: “Está consumado” (19,30); Portanto, a manifestação de sua glória é, aqui, apenas inicial. Se os discípulos creem nele, é também de modo inicial. A fé por causa de um sinal é apenas um primeiro passo. Contudo, neste início dos “sinais”, João ainda não insiste na precariedade da fé que busca sinais e no perigo de só ver a materialidade, sem ver o que é assinalado. Antes, envolve no discreto simbolismo o catecúmeno que vislumbra, num primeiro contato, o mistério, a manifestação da glória. Ainda não é a hora de fazer a crítica. PROPOSTA DE REFLEXÃO 1- Quais foram os sinais de Deus que você

“EM CANÁ DA GALILEIA JESUS FEZ ESTE encontrou em sua vida e que revelaram o amor PRIMEIRO SINAL, MANIFESTOU SUA GLÓRIA de Deus presente em sua história? Você curte E OS DISCÍPULOS CRERAM NELE.” esses sinais? Jesus inicia seus “sinais” proféticos. Levantando uma ponta do véu da glória de Deus, que nele se esconde e se revela. E seus discípulos passam a crer nele. Mas ainda não é a fé madura e completa, que só será possível no termo da obra de Jesus, quando não será mais preciso ver sinais. João chama as obras maravilhosas de Jesus de “sinais”. Isso certamente se deve à maneira do AT, que chama assim os gestos pelos quais os profetas provam que são mandados por Deus. O “sinal” tem seu sentido naquilo que ele “assinala”. O sinal de Caná aponta para a missão messiânica de Jesus que ele assinala. Com uma conotação especial: Jesus mesmo está no centro da Aliança

2- Por que João une o primeiro sinal (Bodas de Caná) com o último sinal (Morte de Jesus)? O que isso significa para sua vida?

Referência Bibliográfica Bíblia do Peregrino. Luís Alonso Schökel. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2006. MATEOS, Juan e BARRETO, Juan. O Evangelho de João – análise lingüística e comentário exegético. São Paulo: Paulinas, 1989. SCHWANTES, Milton. Oséias. (apostila) maio | junho | julho e agosto 2018


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Educação e relacionamento entre pais, escola e alunos Não basta ser pai, ser mãe, ser educador: tem que participar, sim!

Por Leo Fraiman Crianças e jovens que, sentem a família realmente interessada em suas vidas e cotidiano escolar, tendem a se sentir mais motivadas para realizar suas tarefas, para interagir com os colegas e para participar de atividades escolares. Na medida em que se sentem valorizadas pela família, tendem a se tratar com consideração, e isso se reflete em segurança emocional e também em notas melhores, como apontam mais de 100 estudos internacionais analisados pelo Prof. Leo Fraiman em sua tese de mestrado pela Universidade de São Paulo (USP). Em casa, portanto, é interessante separar um ou dois momentos durante a semana para conversar com os filhos e realmente ouvir o que 22 | Em Família

eles têm a dizer: como é o dia-a-dia na escola, de quais aulas eles gostam mais, por quais temas eles menos se interessam e os motivos, quais professores são mais inspiradores, entre outras questões que fazem com que o pai, mãe, tios, avós, enfim, com que a família consiga visualizar aquele colégio pela visão da criança ou do jovem. Mostre interesse pela vida escolar e procure conversar não somente sobre as matérias. O que aconteceu de legal essa semana? Houve algum momento difícil? Como você fez para lidar com isso? Algo te deixou feliz nestes últimos dias? Perguntas assim podem abrir mais espaço para o diálogo.


Artigo

Como estar presente, contudo, em um momento em que ninguém mais parece ter tempo para ouvir, para estar realmente presente? No dia-a-dia, atitudes simples como visitar a escola que os filhos frequentam podem parecer óbvias, mas muitas vezes, passam batido. Por que isso é importante? Porque os pais e responsáveis que conhecem o ambiente físico e os profissionais com os quais seus filhos passam a maior parte dos seus dias conseguem entender melhor e serem mais compreensivos quando eles relatam algum acontecimento. Outra atitude simples e efetiva é anotar na agenda as datas dos eventos escolares, como a feira de ciências ou a festa junina, para garantir sua presença. Na hora que entra a banda, ao bater uma falta importante na final do campeonato, ao receber um prêmio, o olhar dos filhos se volta aos pais na plateia. Se eles estão ausentes, o vazio fica cravado no peito e dói muito. O amor é um sentimento, mas é também um verbo. Quem ama, mostra que se importa. Na prática, pais que se importam de verdade tem uma chance muito maior de serem importados para o coração de seus filhos, o que os torna mais seguros, mais felizes e também mais realizados. É exatamente isso que todo pai e toda mãe quer passar para seus filhos. E você, como tem participado da vida escolar deles?

Outra atitude simples e efetiva é anotar na agenda as datas dos eventos escolares, como a feira de ciências ou a festa junina, para garantir sua presença

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Maria Mazzarello:

modelo feminino do Acompanhamento Salesiano Ir. Monaliza Machado A vida é um mistério. Dom recebido em de sentido, orientar o discernimento para uma perfeita gratuidade e tarefa a ser assumida resposta positiva diante das encruzilhadas que com responsabilidade. O acompanhar supõe vamos encontrando. fazer companhia e ser companheiro de

Dessa maneira, a pequena semente de vida

viagem na vida de quem tem caminhando de Maria Mazzarello achou um terreno fértil conosco. Ser companheiro é estar ao lado. Não em Mornese, na família profundamente cristã, se pode substituir o outro no seu processo de na paróquia animada pelo sábio Pe. Pestarino, crescimento. É preciso partilhar a vida enquanto rico de ardor apostólico e de capacidade de se caminha: escutar e, principalmente, acolher discernimento. O seu itinerário de iniciação à as preocupações, compreender valores e fé se transformou em abertura a Deus e livre situações. O importante é suscitar a procura entrega de amor. Todas as experiências de 24 | Em Família


Artigo acompanhamento a orientaram a cultivar a centralidade de Cristo em sua vida e em suas decisões. Maria Mazzarello tinha um olhar que valorizava e estimulava o crescimento de toda pessoa que dela se aproximava, um espírito decididamente voltado para a meta; uma mãe de coração orante, que penetrava no mundo interior de cada jovem que chegava ao Colégio de Mornese e fazia desabrochar a beleza de uma alma que tinha sede de Deus. A missão educativa que caracterizou a primeira Comunidade de Mornese possuía um estilo de relações que visava despertar no coração das jovens o desejo do encontro com Deus, vividos na eucaristia, nas práticas de piedade, nas boas ações e nas amizades.

A missão educativa que caracterizou a primeira Comunidade de Mornese possuía um estilo de relações que visava despertar no coração das jovens o desejo do encontro com Deus, vividos na eucaristia, nas práticas de piedade, nas boas ações e nas amizades.

Assim, podiam percorrer com sinceridade e transparência um projeto de vida coerente, adolescente sentia-se livre, e o olhar esperto vivido na experiência do acompanhamento de Maria a observava e, indo além das recíproco, descobrindo a vida como dom aparências, entendia que o “fundo era bom e gratuito de amor. dava esperança”. O seu sistema era a confiança Sua maneira de escutar foi uma arte diante na pessoa e nas suas potencialidades. À luz da das necessidades das jovens mornesinas, que fé, Corina vai acompanhando os processos, gerava proximidade, capacidade de abrir o amadurecendo e se deixando tocar, toma coração, sem preconceitos ou moralismos. consciência do projeto apaixonado de Deus e Sua serenidade e convicção compreendia deixa-se guiar. Maria Belletti, um terreno a cavar adequadamente a necessidade oculta de cada com paciência, também órfã, não desejava menina ou irmã, e juntas, percorriam estradas seguir um processo formativo no Colégio antes tão difíceis. Cito três experiências de de Mornese. O estudo não lhe agradava, na acompanhamento vivenciados por Maria capela estava sempre de má vontade e com Mazzarello: Corina Arrigotti, foi um coração ar distraído. O alimento também não era do conquistado pelo amor. Era órfã de mãe e seu gosto. Era preciso as “estratégias dos o seu pai, em vez de ajudá-la a orientar suas tempos longos”. A mudança chegou de modo energias para o bem, a levava em festas, gradativo. Maria soube intervir com uma porque era bonita e instruída. Em Mornese a palavra doce e firme, sabendo guiá-la com maio | junho | julho e agosto 2018


Artigo

convicção e paciência. Emma Ferrero, uma de todas as pessoas interessadas. É preciso rebelde chamada à santidade, era de família cuidar e cultivar o acolhimento fraterno, que rica, frequentava bailes e teatros, até que a abre espaço para o Senhor habitar no meio de família foi reduzida à pobreza. Aceitou ir a nós. Mornese apenas para se livrar da vergonha da

Nosso Reitor-mor, pe. Àngel Fernandez

miséria, mas estava revoltada. Não trabalhava, Artime, na Estreia de 2018, com o tema: não rezava, dormia muito pouco e não se “Cultivemos a arte de escutar e de acompanhar” alimentava bem. Sempre confusa e de mau e com o texto bíblico da Samaritana: “Senhor, humor, e sua única preocupação era o seu baú, dá-me dessa água”, reflete que “são os jovens onde tinham seus objetos que recordavam o que pedem a nossa ajuda para continuar a passado. A Madre sempre vigilante e com o crescer e amadurecer na própria fé. Muitos olhar atento de educadora sábia e prudente, deles têm um coração grande, generoso, e consegue entrar em diálogo com a jovem, desejam servir aos outros, fazer alguma coisa fazendo-a raciocinar e levá-la a tomar uma pelos outros, auxiliar, doar-se. São numerosos decisão. Emma se transforma. O gesto definitivo os que estariam dispostos a trilhar um caminho e profundamente significativo foi quando pessoal e comunitário de discernimento e arrastou seu baú para o pátio, colocou fogo acompanhamento. Nós, Família Salesiana em seus pertences e serenamente decidiu-se desejamos que os jovens possam descobrir por ser FMA. O verdadeiro discernimento é um modo de viver e de sonhar a própria vida preparado e feito no amor, no envolvimento amadurecendo valores como a gratuidade 26 | Em Família


Artigo

O verdadeiro discernimento é preparado e feito no amor, no envolvimento de todas as pessoas interessadas. É preciso cuidar e cultivar o acolhimento fraterno, que abre espaço para o Senhor habitar no meio de nós. e a entrega, a abertura aos outros e a Deus. Queremos ajudar os jovens, e toda pessoa que está em caminho, a descobrir que a vida pode ser concebida como dom e missão, e que isso os fará felizes. ” São três os protagonistas do acompanhamento pessoal: quem acompanha, quem é acompanhado e o Espírito Santo. Quem acompanha deve mostrar sigilo, afeto e empatia suficientes para criar confiança, viver de uma forma significativa e coerente os valores do Evangelho, sabendo conciliar prudência e sabedoria. Quem se deixa acompanhar abre o seu espaço interior ao diálogo com a experiência e o «saber» de quem acompanha. Com liberdade, transparência e verdade, deixando-

mestre que acompanha um e outro de forma silenciosa, como dom e graça, para que este «acompanhar» se faça em direção a um horizonte de esperança e vida em Deus. O Senhor, continua pe. Àngel, ainda em nossos dias, fascina muitos jovens, e essa atração está em estrita relação com a fé e o chamado que Deus dirige a cada um dos seus filhos e filhas para viverem a vida como vocação à alegria do amor. A fé faz com que os jovens se sintam conquistados pelo modo de ver, acolher, relacionar-se e viver de Jesus, e dilata a sua vida. Como diz o Papa Francisco, “a fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade” (CARTA ENCÍCLICA “LUMEN FIDEI”nº53). Maria Mazzarello foi desde sempre mestra na arte de acompanhar porque primeiro deixou ser acompanhada. Alimentada pela fé e pela audácia, foi fiel ao seu projeto educativo, orientando tantas jovens a percorrer um caminho de santidade, a deixar-se modelar pelas mãos do Espírito.

-se interpelar. E o Espírito Santo? O Espírito é o maio | junho | julho e agosto 2018


Entrevista

Entrevista com Ir. Teresinha Mafalda de Almeida 65 anos de Vida Consagrada: apaixonada por Deus e pela educação

EM FAMÍLIA - Conte um pouco da sua história Minha história é longa... Começou antes de meu nascimento. Nasci no dia 2 de maio de 1920, após uma gestação difícil e um parto milagroso, por intercessão de Nossa senhora Aparecida, que salvou a mim e minha mãe. Vivi até os 9 anos na fazenda, só depois mudamos para a cidade de Guaratinguetá para entrar na escola. Meus irmãos mais velhos frequentaram a escola de uma fazenda próxima da minha. Eu não pude ir por ser muito “fraquinha”. Em 1940, estudei no Instituto Santa Carlota em Lorena, pois no Carmo não havia primário. Conheci aí as Irmãs Salesianas pelas quais me apaixonei. Depois 28 | Em Família


Entrevista passei a estudar no Instituto Nossa Senhora do Carmo. Terminando a 8ª série, fui para o Colégio de Santa Inês em São Paulo, para cursar o Magistério. Após o pré-normal, passei do internato para o aspirantado e postulado. No Ipiranga, fiz o noviciado, professando em 1953 e, até hoje com a graça de Deus, estou aqui... Até quando? Só Deus sabe. EM FAMÍLIA - Como Você percebeu a vocação à vida consagrada de FMA? Na realidade, desde que estudei em Lorena encantei-me com as Irmãs. Sentia-me muito feliz, adorava tudo: os recreios, os passeios, o estudo. Ia com muito prazer à Missa e rezávamos o terço. Nossa Senhora Auxiliadora me encantava. No Carmo , fui também muito feliz, estudiosa e amiga das Irmãs. Lá, observava mais a vida delas...eram de uma alegria contagiante, delicadas, atenciosas, transpareciam felicidade, piedade, união com Deus. Fui me envolvendo, cada vez mais, mas não falei com ninguém, somente com o confessor que me pediu para esperar mais um pouco. No fim do Pré-normal, meus Pais acharam que não havia mais necessidade do internato tão longe, pois em Guarátinguetá havia uma boa Escola Normal. Escreveram me, dizendo para levar tudo quanto fosse para as férias... Foi uma tristeza e então resolvi falar com a Madre Palmira, pedindo-lhe que me aceitasse como aspirante... Lembro-me do dia em que falei com ela. Era noite e estávamos no pátio, o céu estrelado e meu coração batia forte. Arrumei tudo, fui para as férias e ... o duro

foi falar com meus Pais e irmãos. Não houve proibição nenhuma. Meus Pais e irmãos eram muito fervorosos, minha Mãe de comunhão diária, além disso, minha irmã mais velha já era religiosa das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada em São José dos Campos. No dia 2 de fevereiro de 1949, minha Mãe levou-me ao Santa Inês. EM FAMÍLIA - Quais suas lembranças como alunas do Colégio do Carmo de Guaratinguetá? Só tenho lembranças felizes do Colégio maio | junho | julho e agosto 2018


Entrevista do Carmo! Apenas completando a questão EM FAMÍLIA - Como você formava as suas anterior, o que me marcou muito foram as professoras? comemorações mensais e anuais dos dias 24 e das primeiras sextas feiras. Começavam com a Tanto no Colégio de Santa Inês como no “corte” antes da missa. Sentia a maior felicidade Instituto Madre Mazzarelo, as professoras, quase quando era escolhida para participar. todas tinham sido minhas alunas! Conheciam bem meu trabalho e minhas exigências... Eram EM FAMÍLIA - Que princípios fundamentaram minhas amigas e, até hoje, conservam essa a sua prática educativa? amizade. Eram estudiosas, responsáveis, amavam as Minha prática educativa foi fundamentada crianças, na realidade a amorevollezza era no Sistema Educativo de Dom Bosco, a mesma bastante vivida. presente na minha formação. Era justo eu usá-la O bom relacionamento entre coordenadora, no meu trabalho educativo. Procurei ter sempre crianças e pais sempre existiu. As crianças presentes os princípios de Dom Bosco : Razão, amavam as professoras. Só há aprendizagem Religião e Amorevolezza. quando a criança ama e se sente amada. Realmente éramos uma família como Dom Bosco queria. EM FAMÍLIA - Quais os maiores desafios enfrentados em sua missão de educadora? Um dos maiores desafios enfrentados foi trabalhar tendo sempre presente a evolução dos tempos, caminhando para o novo, aceitando o moderno. Nesse sentido o que ajudou muito foi a “Rede Salesiana de Escolas”. Como estudávamos! EM FAMÍLIA - Qual a maior conquista obtida na sua trajetória de educadora? Nunca ter perdido durante os 56 anos aquele “elã” primeiro. Tive sempre presente minha responsabilidade e alegria de ser educadora. 30 | Em Família


Entrevista Acredito ter sido a realização dos dois dos três grandes desejos da minha vida: ser religiosa Salesiana, ser professora (educadora) e ser... pianista. Consegui os dois primeiros. O terceiro não deu certo, o que aceitei muito bem. No céu realizarei esse desejo! Parti para o canto que me ajudou bastante na aprendizagem. Adoro cantar até hoje. EM FAMÍLIA - O que você diria, hoje, para as e os educadoras e educadores? Teria muita coisa para dizer aos queridos educadores de hoje... Selecionei apenas três. Primeiramente, repito que já disse: Ame, amem, amem seus alunos, só assim haverá aprendizagem, muito importante também é respeitar o desenvolvimento de cada criança, cada uma amadurece na sua hora, não adianta forçá-la, pois a aprendizagem é um processo de dentro para fora. Gosto de comparar, principalmente as crianças da alfabetização, com um botão de rosa. Ele abrirá a seu tempo, se quisermos abri-lo antes ele morrerá, jamais será uma rosa. Quem não conhece a história da borboleta que se esforçava para sair do casulo e alguém com dó tentou ajudá-la a sair e ... ela morreu, nunca se transformou em borboleta. Assim é a criança, tem que seguir seu ritmo. Minha maior paixão na Escola era as classes de alfabetização! Era maravilhoso seguir o desabrochar de cada criança; nunca compreendi o mistério da leitura... Finalmente faço um pedido aos educadores: nunca deem uma resposta direta às perguntas de uma criança. Volte para ela a pergunta fazendo-a pensar sobre o assunto e se ela não

“Há um principio de que gosto muito. “ Tudo o que a criança é capaz de fazer sozinha não tentem fazer por elas. ” for mesmo capaz de responder, peça ajuda aos colegas. Há um principio de que gosto muito. “ Tudo o que a criança é capaz de fazer sozinha não tentem fazer por elas. ” Queridos educadores desejo-lhes toda felicidade e alegria nessa missão maravilhosa e extraordinária que é Educar! Parabéns por sua escolha! Quero agradecer ao EM FAMÍLIA a oportunidade de relembrar minha vida! Foi muito bom! Vivi nov a m e n t e m o m e ntos alegres. Certamente, nem tudo foi tão maravilhoso. Houve momentos difíceis de preocupação, insegurança, principalmente no começo do meu trabalho. Sei que fui muito exigente... depois fui melhorando, porém nunca faltou amor! Amei muito minhas professoras que sempre foram maravilhosas. Obrigada, minhas queridas e me perdoem se ás vezes extrapolei... sejam felizes! maio | junho | julho e agosto 2018


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Avaliação Trienal CIB-CICSAL De 23 a 27 de julho de 2018 realizou-se, em tes das Comunidades das nove Inspetorias Cachoeira do Campo, na Inspetoria Madre do Brasil, das seis Inspetorias do Cone Sul da Mazzarello (BBH), a Avaliação Trienal das América Latina, a Madre Geral do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, Madre YvonConferências Interinspetoriais do Brasil (CIB) ne Reungoat e cinco Conselheiras Gerais: Ir. e do Cone Sul da América Latina (CICSAL). “ Alaíde Deretti, Ir. Maria Helena Moreira, Ir. A Avaliação trienal é uma experiência Sílvia Boullosa, Ir. Paola Battagliola e Ir. Masignificativa para reler a grande decisão: rija Pece. Alargai o olhar para serdes com os jovens O primeiro dia, 23 de julho, começou com missionárias de esperança e de alegria” e a oração de invocação ao Espírito Santo, ao possui dupla finalidade: avaliar o caminho Deus Trindade que nos ama e nos reuniu pós-capitular e oferecer indicações para o de tantos países e inspetorias diferentes.

Na celebração foram acendidas velas, sinal tema do próximo CG XXIV. Participaram da Avaliação as representan- de luz, e entregues a cada participante um 32 | Em Família


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‘chinelo’, sinal do caminho a ser empreendido junto com os jovens abertos e disponíveis à novidade do Espírito. Depois da oração, houve a saudação da Presidente da CICSAL, Ir. Laura Guisado, lembrando o tema “Alargai o olhar para serdes com os jovens missionárias de esperança e de alegria”, afirmando «Expresso com alegria as boas vindas, na certeza de que juntas viveremos dias de encontro

Para deixar que Jesus nos forme e transforme precisamos deixar-nos encontrar por Ele, assimilar seus sentimentos, viver com Ele e n’Ele, entregar-nos a Ele, até viver no encontro e do encontro. Madre Yvonne

e de fraternidade, de entusiasmo e de partilha... todos chegamos das Inspetorias e no mesmo Espírito... o Senhor é bom e Conferências em que vivemos experiências nos concede este tempo para parar, olhar, diversas com irmãs, leigos e jovens. Hoje nos reorientar o nosso caminho e interrogarencontramos aqui para descobrir a beleza nos sobre nossa fidelidade, para sonhar da diversidade, com a certeza da unidade comunidades mais fraternas, evangélicas, maio | junho | julho e agosto 2018


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proféticas e juvenis. Maria, Mãe e Mestra nos guie nesta experiência de encontro com Jesus». Cada dia foi marcado pela palavra da Madre Geral, Me. Yvonne. O primeiro tema desenvolvido pela Madre Yvonne

foi “Na memória

do Chamado que, em um trecho, afirmou: «Para deixar que Jesus nos

salesiana,

ela

consiste

essencialmente

forme e transforme precisamos deixar-nos na evangelização das jovens gerações encontrar por Ele, assimilar seus sentimentos, mediante a educação. Quem encontrou viver com Ele e n’Ele, entregar-nos a Ele, Jesus não pode não compartilhar esta até viver no encontro e do encontro. Sentir alegria. Confiamo-nos a Maria, mulher do a energia vital do olhar de Jesus, cultivar encontro, com sua solicitude materna, uma relação íntima com Ele, amá-lo com atenta e cuidadosa, intuitiva e realizadora. todo o coração e com toda a alma... Para A Mãe de Jesus, com seu estilo de vida nos todos aqueles que compartilham a missão forma na docilidade ao Espírito, nos motiva 34 | Em Família


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para tecermos relações simples, diretas, cordiais, de pessoa a pessoa, para vivermos juntos a missão». As

participantes,

após

as

colocações diárias, e um tempo de reflexão pessoal, se dirigiam para as tendas temáticas para a partilha e a ressonância da palavra ouvida. Eram nove tendas, cada uma com

experiências, de aprofundamento e de

um nome evocativo do episódio bíblico dos interiorização pessoal e em grupo. Discípulos de Emaús (Lc 24, 15-33): caminho, Palavra, acolhimento, pão, bênção, partilha,

Fonte: Site do Instituto

encontro, escuta e envio. Nos dias seguintes, houve a continuidade das reflexão sobre os temas, propostos pela Madre, alternados com momentos de conhecimento, de intercâmbio de maio | junho | julho e agosto 2018


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Seminário Nacional da Vida Religiosa No Centro de Eventos Pe. Victor Coelho de Almeida – Aparecida/SP., de 04 a 08 de maio de 2018, foi realizado o Seminário Nacional da Vida Religiosa Consagrada com o tema: “Mística e Profecia na missão comunitária” e o. lema: “Saiamos, às pressas, com Maria, aonde clama a vida”. Como conclusão, os e as participantes renovaram seu compromisso com o Reino de Deus: “Nós, cerca de 600 religiosas e religiosos participantes do Seminário Nacional da Vida Religiosa Consagrada, em Aparecida-SP, de 5 a 8 de maio de 2018, renovamos nossa missão, com Maria Mãe da humanidade e companheira dos pobres, de “sair às pressas, aonde clama a vida”. O mundo nos toca e interpela. A Igreja é 36 | Em Família

parte dele, nossa consagração está a serviço da vida, e nossos carismas se orientam a partir do Reino de Deus. Escutamos o clamor dos pobres e da Mãe Terra, não queremos ficar indiferentes ou fugir da realidade: com Maria, assumimos o desafio de dizer “sim” ao mistério de Deus, que se encarna na história através de nós. Nosso País encontra-se numa situação sombria, fria e estéril do ponto de vista social e político. Está se consolidando um clima de ódio, violência e intolerância, particularmente contra os migrantes e os povos indígenas, com manifestações preocupantes de homofobia e extermínio da juventude negra. Denunciamos a progressiva concentração de riqueza e renda, bem como a expropriação da terra, do trabalho e dos direitos que o povo brasileiro


Registro tem conquistado à custa de muitos anos de luta e resistência; há um ataque estrutural à democracia e ao direito do povo de definir um projeto de País em que se reconheça. Também a Vida Religiosa Consagrada pode esfriar-se, esquecer a profecia de Jesus, ceder à religião do capital, isolar-se, ser autorreferencial, sem sair de suas zonas de conforto, abandonando-se a um pessimismo reprodutor. Mas a primavera bate à nossa porta, tempo de fragilidade que precisamos reconhecer, assumindo também as crises como ocasião para forjar um mundo novo e deixar nascerem os brotos que o Espírito de Deus está semeando. Acolher e fomentar esta primavera, também dentro da Igreja, é a missão da VRC. Como numa árvore, em que as raízes sustentam e alimentam o tronco, assim nossa profecia está enraizada no silêncio contemplativo, nas comunidades inseridas e orantes, nas Galileias de hoje, tocando a carne de Cristo na carne dos pobres. Dessas raízes, nos vem a seiva da vida! Na sociedade fragmentada e individualista de hoje, adoecida pela solidão, o testemunho da VRC reforça-se se suas comunidades forem sinal de unidade nas diferenças, de cuidado e amor recíproco. Esse é o tronco da árvore da vida, que oferece apoio e alegria verdadeira a quem precisa de amparo e sentido pleno! Nosso encontro de partilha, graças a Deus,

destacou que ainda há muitos bons frutos: testemunhos corajosos de serviço aos povos da Amazônia, aos migrantes e empobrecidos, diálogo inter-religioso e vida com os mais pobres. Nosso empenho no mundo da educação e em outras estruturas consolidadas precisa dialogar e interagir de forma permanente com essas experiências inseridas. Pode crescer a aliança entre a VRC e as iniciativas mais vivas e criativas da sociedade de hoje, como a economia solidária, as diversas formas de política participativa e o protagonismo corajoso das jovens gerações. Aprendemos do “Bem Viver” dos povos ameríndios que o sentido da vida está em oferecer, unidos, todas as nossas potencialidades a serviço do Bem Comum. Maria saiu de si e se deixou encontrar por Deus, que a surpreendeu e a encheu de amor e coragem. Os mártires e profetas da caminhada também disseram seu sim incondicional e brilham hoje para nós como estrelas-guia. Saiamos, às pressas, com nossa Mãe e nossos irmãos mártires, ao encontro da vida que clama por dignidade e plenitude!

Aparecida-SP, 08 de maio de 2018

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Reunião anual EcosBrasil A Equipe de Comunicação Social das Filhas de Maria Auxiliadora do Brasil (EcosBrasil), com a presença das Coordenadoras Inspetoriais das nove Inspetorias e de Irmã Ana Teresa Pinto, referente da CIB para a Comunicação, reuniu-se, no período de 27 a 29 de agosto, na Inspetoria Santa Terezinha, em Manaus, para a segunda reunião anual. A partir do tema do encontro, “A política de Comunicação no Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora” 2018-2021, a Equipe conseguiu alcançar os objetivos propostos: adequar o plano de Comunicação da EcosBrasil, conforme as orientações do Plano de Comunicação do Instituto e construir o Itinerário formativo para 38 | Em Família

educadores das Escolas e das Obras Sociais. Em clima de fraternidade, alegria, característico da Equipe, a pauta foi cumprida na íntegra, com leveza. A EcosBrasil deixa faz um agradecimento sincero às Irmãs de Manaus, de modo especial às da Inspetoria Santa Terezinha, que com tanto carinho, hospitalidade e alegria acolheram a Equipe de Comunicação Salesiana Brasil por quase uma semana de reuniões. O coração comunicador da Equipe se renova com esta rica experiência. Que Deus as recompense pelo bem realizado neste cantinho do Brasil. Fonte: Site do Instituto


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VIII reunião da ACSSA Brasil

Nos dias 3 a 6 de setembro 2018 realizou-se no Centro de Convenções Israel Pinheiro, em Brasília, a VIII reunião da ACSSA Brasil (Associação dos Cultores da História Salesiana Brasil). Associação que tem por objetivo promover os estudos sobre a história salesiana, favorecendo a pesquisa , atualização e a colaboração entre os membros da Família Salesiana. Participaram desta reunião, os religiosos salesianos SDB, membros da ACSSA e secretários, as Filhas de Maria Auxiliadora FMA e secretárias de todas as Inspetorias do Brasil e os dois Inspetores referentes da ACSSA Brasil: Ir. Maria Lúcia Barreto (BCG) e Pe. Nivaldo Pessinatti (BRE). Na abertura, após a oração inicial, Ir. Maria Imaculada da Silva acolheu os novos membros que, com disponibilidade e empenho desejam colaborar com os trabalhos da Associação. Foram apresentados os novos coordenadores: Irmã Maria Edneth Brandão e o Pe. Antenor de Andrade. Na sequência, os Inspetores referentes falaram do apoio da Conferência das Inspetorias do Brasil – CIB e da Conferência Interinspetorial Salesiana Brasil – CISBRASIL. Na ocasião expressaram a alegria e gratidão por este grupo que, com seriedade, se dedica ao estudo e ao resgate da história de nossas Congregações, nas Inspetorias. Em um segundo momento, retomou-se o relatório da reunião da ACSSA 2017, a releitura do projeto e o mapeamento da Associação que, no

Brasil, já celebra cinco anos de caminhada e reza que: A ACSSA entra na Rede Salesiana Brasil pela sua identidade própria e os Secretários entrem na ACSSA pela importância deles na salvaguarda da memória da Congregação,confirmando a importância e contribuição dos/as secretarias/os inspetorias para o enriquecimento das fontes históricas. No segundo dia, o grupo foi agraciado com a palestra sobre a importância dos arquivos: “Recuperação e Conservação de Documentos e Imagens”, proferida pela professora Dra. Maria Augusta Castilho. No último dia, as atividades foram iniciadas com a Celebração Eucarística, com especial intenção pelo Brasil que, no dia 07 celebrava a sua Independência Política de Portugal. Encerrando, os trabalhos, Padre Pessinatti abordou a presença dos secretários e secretárias inspetoriais nas reuniões da ACSSA Brasil e Irmã Maria Imaculada informou-nos sobre o próximo Seminário Continental 2019, em Buenos Aires, Argentina. Encerrando, agradecemos a Deus, a significativa história salesiana no Brasil. Uma história muito rica, capaz de revitalizar o presente, porque plena da presença de Deus e dos sonhos de nossos fundadores. Fonte: Site do Instituto maio | junho | julho e agosto 2018


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Todo batizado é um Ser Missionário! Noviciado insterinspetorial Nossa Senhora das Graças - SP.

A vocação de todo cristão batizado consiste em testemunhar Jesus Cristo por meio dos acontecimentos cotidianos, da própria vida. É ser um outro Jesus na terra para levar o amor, a esperança e a fé aos lugares mais necessitados da presença de Cristo, luz dos povos. É ser discípulo-missionário, é calçar as sandálias da missão, é preparar a mochila e colocar-se em saída para viver e aprender junto a tantos irmãos, que nos ensinam em realidades diferentes das que estamos acostumados a ver. Com o propósito de tornar Jesus mais amado e conhecido, as casas salesianas das FMA da Inspetoria Santa Catarina de Sena realizaram, nos dias 7 à 15 de julho de 2018, mais uma Semana Missionária nas diversas cidades do Estado de São Paulo. Esta iniciativa, que já tem 18 anos de caminhada, possibilita o protagonismo juvenil e oportuniza aos jovens uma experiência de encontro com Deus, mediante a prática do Anúncio do Evangelho e a vivência da Espiritualidade Salesiana. A opção missionária é capaz de “transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem, e toda a estrutura eclesial se tornem 40 | Em Família

um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação” (EG 27), por isso, é uma experiência enriquecedora, que possibilita o aprendizado e o crescimento, levandonos a uma transformação pessoal e comunitária. Inseridas no processo de fazer de nossa vida uma constante missão, de configurarmo-nos a Jesus Bom Pastor, as noviças salesianas têm muito a partilhar dessa experiência que certamente marcou a cada uma de forma particular. “Eu acredito muito na proposta da Semana Missionária, pois foi aí que, há seis anos, Deus me deu a oportunidade de conhecer e responder a uma opção de vida inimaginável para mim e onde hoje eu me encontro feliz, respondendo ao projeto de Jesus para ser uma religiosa salesiana- Filha de Maria Auxiliadora. Foi uma alegria poder acompanhar e realizar junto com os assessores e adolescentes do Instituto Nossa Senhora Auxiliadora de Araras, a vivência da Semana Missionária na cidade de Leme-SP. Deus nos proporcionou inúmeras delicadezas


Registro nesta semana. Através da partilha de vida, da Palavra, com as pessoas da comunidade Santa Luzia onde estávamos hospedados, pude redescobrir uma nova face de Deus, o quão grande é o seu carinho, a sua misericórdia para conosco. Através de simples sorrisos, do testemunho de fé, as pessoas nos mostraram que não é preciso muito para ser feliz. Que as palavras do Papa Francisco: “Sou uma missão neste mundo” nos impulsionem a sair de nossas comodidades e nos ajudem a testemunhar junto com os irmãos a beleza da vida, a presença única e dinâmica de Deus na criação e em cada um de nós. Pudemos vivenciar como grupo a seguinte frase força: “Minha vida pode mudar o mundo”. Estou certa de que a minha, a nossa vida pode mudar o mundo, através da simplicidade do cotidiano e na partilha. Com amor, somos capazes de fazer a diferença e tudo se torna possível. Com pequenos gestos humanizadores é possível sim mudar o mundo! Este mundo começa dentro de nós, em nós”. (Bruna Elias – Noviça do 1º / BSP)

“Participar da semana missionária encheu meu coração de alegria e fortaleceu ainda mais minha vocação. Fiz a bonita experiência de encontrar Deus no cuidado e na partilha dos jovens e da comunidade onde pude vivenciar também o espírito de família e amizade. As saídas para as bênçãos nas casas revelaramme que Deus é amor e se faz presente em todos os momentos, sobretudo na dor. Estar com os jovens me encanta cada dia mais; o testemunho de alegria e doação deles, me inspira a dizer cada dia o meu Sim, por amor a Deus e à juventude, sinal do amor e bondade de Deus”. (Eudenice – Noviça do 2º ano / BPA)

“Minha experiência missionária com o grupo do CEMARI na Comunidade São Sebastião de Areias foi muito especial, diferente, tranquila, positiva e de muito crescimento e aprendizado. Percebi o quanto estes jovens são simples, despojados, alegres, unidos e não havia ‘tempo ruim’ para eles. Essa semana foi uma experiência em que Deus me falou muito e pude sentir sua presença e a ação de seu Espírito nas visitas às famílias, na comunidade, “A semana missionária para mim foi uma nos momentos com as crianças, agindo nas nossas experiência profunda de encontrar Deus nas pequenas e simples coisas do dia a dia, junto atividades, partilhas e reflexões. Foi propício para aos jovens e à comunidade paroquial da qual uma revisão e retomada da minha caminhada participamos. Senti forte o apelo de, cada vez vocacional e reafirmar o chamado de Deus para mais, me preparar e me dedicar à escuta e ao minha vida: consagrar-me a Ele como Filha de acompanhamento dos jovens. O testemunho das Maria Auxiliadora. A solicitude dos moradores para com o grupo, pessoas durante as visitas me possibilitou crescer na fé e esperança principalmente nos momentos disponibilidade, proximidade, acolhida, partilha, difíceis, onde Deus também nos fala e se manifesta”. tanto de alimentos como de coisas materiais chamaram muito a minha atenção e marcaram a (Bruna Lôbo - Noviça do 1º ano / BBH) nossa vivência. Ao longo da SM, as crianças foram se “Para mim, a experiência vivida na Semana familiarizando conosco e percebemos os frutos Missionária junto aos jovens do Colégio do Carmo e Instituto Santa Teresa e todo o povo de Areias - SP, dessa nossa presença entre elas. Enfim, agradeço a Deus por esta oportunidade e foi um sinal sensível do amor privilegiado de Deus rezo para que Ele suscite mais vocações missionárias por mim. Durante toda a semana, por meio das celebrações, visitas às casas, partilhas, oratório... em meio aos jovens”. (Isadora - Noviça do 1º ano / BSP) pude refazer e rezar minha história vocacional. Estar com os jovens e com o povo e, com a nossa “Neste ano, tive a alegria de participar da vida, anunciar o Evangelho é fazer a nossa guerra silenciosa, pois ajudamos a construir um mundo Semana Missionária com o Colégio do Carmo de Guaratinguetá –SP, realizada em Areias. novo, a verdadeira “Civilização do Amor”. Saio dessa Semana Missionária, cantando em Foram momentos muito marcantes, vivenciamos coro com toda a juventude e com a certeza interior, realidades diferentes que estão ao nosso redor e que é pura graça de Deus que “a minha meta é que necessitam da nossa ajuda, em especial as crianças, adolescentes, jovens e adultos. Nessa Jesus e meu jeito é Dom Bosco”. (Celene – Noviça do 2º Ano / BSP) experiência pude doar a minha vida por eles, ir ao maio | junho | julho e agosto 2018


Registro encontro dos outros e conhecer mais de perto várias situações daquela realidade. Essa semana foi de muita acolhida, confiança, alegria, simplicidade, esperança e abertura para aprender o novo tanto da comunidade quanto dos missionários. Agradeço a Deus por essa oportunidade de levar a Palavra de Deus e também pelas graças recebidas, que fortaleceram minhas forças e minha fé na caminhada vocacional. Sempre fazer tudo por amor e com amor”. (Justiane - Noviça do 1º ano / BMT) “Neste ano, tive a oportunidade de participar da Semana Missionária com o Instituto Coração de Jesus, de Santo André- SP. Nosso campo de missão foi em Santo André mesmo, no bairro Parque Miami. O grupo era composto por dez alunos, um ex-aluno, dois professores, a coordenadora de pastoral, Ir. Flávia- assessora e eu. A experiência foi muito boa, tanto para o grupo

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quanto para a comunidade. As visitas nas casas e as atividades com as crianças no Oratório foram um carinho de Deus: fizemos a experiência da doação recíproca, de poder levar o sorriso de Deus a cada criança. Mas o que mais marcou nessa experiência foi a oportunidade de participar, com o grupo Anjos das Ruas, da entrega de marmitex e roupas para os moradores de rua. Foi uma experiência única, em que pude encontrar Deus no sorriso daquelas pessoas que, mesmo no sofrimento agradeciam a Deus pela vida. E acredito que essa experiência foi muito fecunda para os alunos também. Por isso, só tenho a agradecer a Deus pela incrível oportunidade que tanto me ensinou e me fez compreender melhor a passagem de Mt 25,35: “Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me hospedastes...” (Luana – Noviça do 1º ano / BSP) “A semana missionária foi uma experiência


Registro muito significativa, pois tive a graça de estar na comunidade de Aparecida, do município de Itanhaém. Foi um encontro com o Deus da Vida, com cada criança, jovens e adultos. A história das famílias encorajou-me ainda mais a ir ao encontro do outro que mais necessita da luz do Evangelho. Nas crianças e nos jovens pude ver a face de Cristo e abrir os olhos à experiência do AMOR e doála a eles. A semana missionária foi de acolhida, confiança e esperança. Senti da parte dos jovens, a necessidade de escuta e atenção. A missão encheume de alegria transbordante para levar a todos o Evangelho da Vida”. (Natalina – Noviça do 1º ano / BMT)

“Papa Francisco nos diz que: “Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra”.Entre os dias sete e quinze de julho, estivemos em Areias, SP, realizando a Semana Missionária. Éramos três grupos: Casa Betânia de Guaratinguetá, que foi acolhida pela comunidade Santa Rita; Colégio do Carmo e Instituto Santa Teresa pela comunidade Bom Jesus e o Cemari pela comunidade São Sebastião. Fui com o pessoal do Cemari, o grupo era de quatorze pessoas: nove jovens e cinco assessores, coordenados pelo educador Hudson e a assistente social da obra Filomena. Foi uma experiência “Participar de uma semana missionária é diferente, fizemos uma bonita convivência no certamente uma experiência de encontro com Deus espírito de família. Ficamos alojados na capelinha que se torna oração em nossa vida. Para mim foi de São Sebastião. A noite afastávamos os bancos da essa experiência que fiz durante essa semana com Igreja e ali dormiam as meninas e os meninos na o grupo do Colégio Auxiliadora de Ribeirão Preto cozinha. Uma das características marcantes do povo - SP, na comunidade da quase paróquia de São foi a acolhida. De manhã fazíamos as bênçãos nas Francisco de Assi,s em Sertãozinho - SP. Mais do que casas, a tarde o oratório e a noite celebração com oferecer alguns dias de nossa vida a esse chamado, o povo. No primeiro dia estiveram presentes três de doação às crianças, adolescentes e jovens e às pessoas na celebração e até o último dia a capela pessoas daquela região, é bonito perceber que essa ficou repleta.Foi bonito perceber a solidariedade é uma experiência que transforma a nossa vida e das famílias levando colchão, cobertores, bolos, o nosso olhar diante das inúmeras necessidades queijo, até água, pois faltou um dia. É gratificante humanas. Deus se faz presente nos pequenos a animação dos jovens missionários, o empenho gestos em meio ao povo, por isso louvo e agradeço de cada um procurando dar o melhor de si, na a Deus pelas graças recebidas e por manifestar o arrumação da casa, na preparação das refeições, nas seu amor as pessoas e aos jovens”. bênçãos e nas celebrações. Apesar do frio que foi (Rafaela – Noviça do 1º ano / BMA) intenso, o coração estava aquecido e transbordante de alegria e animação. Não perderam o pique “Participar da Semana missionária esse ano com mesmo no dia que choveu e não deu para irmos o grupo do Instituto Madre Mazzarello - SP, foi à praça para fazermos o oratório. Um grupinho um grande presente! Fomos muito bem acolhidos de crianças veio até a nossa casa e numa pequena pela comunidade de Guararema – SP - um paraíso varanda realizamos o oratório com brincadeiras criado por Deus que demonstrou a imensa alegria variadas. Parabéns missionários! Nunca deixem de partilhar a vida conosco nessa semana. apagar a chama do amor de Deus, que cada um Encontramos diversas realidades nas casas, no tráz dentro de si. Obrigada a cada um/a de modo oratório, em todo trabalho realizado. Foi muito gratificante perceber a juventude particular aos assessores Hudson e Filomena, pela salesiana tão bem engajada e muito me alegrou a competência, clareza, firmeza, doação, espírito de convivência com os meninos durante esses dias. É sacrifício, alegria, amor e acima de tudo por terem sempre uma oportunidade de agradecer a Deus o um coração oratoriano e missionário.” Ir. Célia belo presente da vocação salesiana!” (Sthéphanie - Regina Pinto Nossa missão prossegue a cada dia, por isso Noviça do 2º ano / BMA) continuemos a “sair” e descobrir o novo que nos possibilita encontrar sempre o rosto de Deus.

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Uma Casa, uma crônica, uma história... Por Ir. Rosalba Perotti

Aproveito esta oportunidade que o “Em Família” me

teve seu início com a chegada do grupo de missionárias:

oferece, para fazer algumas considerações a partir do

dez Irmãs e duas Noviças, vindas do Uruguai. Foram

livro recém-publicado: a “Crônica do Colégio do Carmo”,

acolhidas em Guaratinguetá, no dia 16 de março de

que providencialmente ficou pronto, no dia 16 de agosto

1892. Com as expedições missionárias dos Salesianos

p.p., comemoração do nascimento de Dom Bosco. São

à América, iniciadas em 1875, e com a primeira

pequenas coincidências... Coincidência, será? O livro

expedição das FMA, também à América, em novembro

deveria ter sido publicado no final de 2017, ano em que

de 1877, o nome de Dom Bosco, ia se espalhando e

várias comemorações justificavam a sua publicação, mas

tornando-se conhecido. Muitos Sacerdotes e Bispos,

saiu mais tarde, tendo, este lastro de tempo, permitido

entusiasmados pelos resultados da ação educativa

uma edição mais cuidada. Ele exigiu não só uma, mas

destas Congregações jovens e promissoras, pediam,

várias revisões e quem faz esse trabalho sabe que as

com insistência a Do Bosco, a graça de tê-los em suas

revisões são não só úteis, mas muito necessárias, para

Paróquias e Dioceses. Consta que Mons. João Filippo,

dar credibilidade ao que se escreve, sobretudo quando

sendo italiano e conhecendo provavelmente os

se trata de documentos. Este detalhe, favorecido pela

Salesianos já estabelecidos em Niterói, desde o ano de

Providência de Deus e a assistência constante de Maria,

1883 e presentes também na cidade de Lorena, pede a

nos deu a possibilidade de muita reflexão e de um

Dom Bosco a vinda de missionárias, “para uma Casa que

crescente respeito pelos fatos, que revelam os planos do

deseja fundar para educação de meninas”. Nos anos que

Alto, a respeito dessa Casa e do seu sentido, na história

precedem sua morte, que ocorreu em 31 de janeiro de

de nossa Inspetoria. Este motivo, justifica o querer

1888, seja pelas muitas solicitações, seja porque a saúde

desenvolver, embora brevemente, os três elementos,

começa a declinar, Dom Bosco não consegue atendê-

contidos do título deste artigo.

lo. Será Dom Rua que, de acordo com Madre Catarina

Uma Casa- Sonhada pelo seu construtor e fundador,

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Daghero, primeira sucessora de Madre Mazzarello,


Registro solicita que, do Uruguai, venham ao Brasil, as primeiras missionárias. De fato, partem de Montevidéu, dez Irmãs e duas Noviças, cuja aventurosa chegada ao Rio de Janeiro é relatada com graça, nas primeiras páginas da Crônica (1). Baseada nas informações de Monsenhor, Filippo, a Crônica descreve também as características da Casa: ampla, arejada, saudável, com todos os recursos possíveis para acomodar 200 meninas, inteiramente mobiliada e equipada (2) Desembarcam no Rio de Janeiro a 11 de março de 1892, e chegam finalmente em Guaratinguetá no dia 16. A Casa é oficialmente inaugurada oficialmente, “com toda a pompa possível”, no dia 20 de abril. É impossível não relatar a impressão que as Irmãs tiveram nos primeiríssimos momentos de entrada na Casa. Após a festividade da acolhida com arcos, flores etc. ‘Acompanhadas pelo Revmo Mons. Filippo e pelo Revmo. Pe. Peretto, Diretor do Colégio Salesiano de Lorena, fizeram as Irmãs, sua entrada no Colégio de N. Sra. Do Carmo. Em primeiro lugar, visitaram a Capela, onde, com sumo prazer, por uma lâmpada que ardia diante do altar, conheceram, que antes delas, Nosso Senhor Sacramentado, tinha tomado posse da Casa” (3) . Dos anos 1892 a 1908 é a Casa Inspetorial e nesses anos é visitada por Madre Geral Catarina Daghero e sua Secretária Ir Felicina Fauda (4) por Dom Cagliero,(5), pelo futuro sucessor de Dom Rua: Dom Paulo Albera (6),e mais tarde, em 1909, por Madre Vigária Henriqueta Sorbone e sua Secretária :Ir. Clelia Genghini (7). É desta Casa, que parte a expedição chefiada por Dom Lasagna para as fundações de Minas Gerais, atingida pelo trágico desastre de Juiz de Fora (8). Do Carmo, partem missionárias para as Casas que vão sendo fundadas. Ela é, por excelência, a Casa de Retiros da Inspetoria, acolhendo a cada ano, grupos numerosos, chegando até a cem Imãs, acomodando “o melhor possível” as Irmãs que chegavam muito cansadas pelo trabalho e viagens, mas alegres por voltar à primeira Casa, que também fora Casa de Formação para muitas. Em 1908, com a construção do Colégio de Santa Inês, deixa de ser a sede da Inspetoria, mas sempre acolhedora, além dos Retiros, recebe inúmeras Visitas de pessoas de todo o Brasil: missionários, formandos salesianos e com grande

frequência, recebe os Salesianos que acompanhavam com grande fraternidade, a Comunidade, como Superiores, Capelães e Confessores; de Bispos de várias partes do Brasil, representantes do Papa (Núncios) e outros. Na memória afetiva de muitas de nós, ela permanece “a Casa”: o velho e sempre novo Colégio do Carmo, nossa primeira Casa! Uma Crônica- embora seja possível encontrar algumas informações em outros relatos salesianos ou em jornais da época, a Crônica da Casa é ainda, a fonte mais rica de informações. Na Introdução à leitura do texto 8) fazemos algumas observações sobre o estilo e conteúdo do que as cronistas nos deixaram. Até o ano de 1901 ela é escrita em português. Provavelmente uma das duas postulantes que as Irmãs missionárias encontraram ao chegar, uma delas, Oliva Facchini, que foi uma das grandes Salesianas, desde o início, tinha uma boa base de estudos. Terá sido ela a escrever? É uma hipótese não confirmada. Infelizmente o anonimato prevalecia. Seria preciso “adivinhar” a autora. Esse,

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Registro como outros pormenores, sempre muito importantes, não podem ser confirmados, por causa dos muitos anos que nos separam das origens, não contando mais com as testemunhas oculares desses fatos. Sobre a língua usada na Crônica: a as Inspetoras e Superioras do Brasil e da Itália que passaram, não se referem à língua usada. Durante 10 anos a Crônica é escrita em português. Mas a partir de 1902, ela passa a ser escrita em italiano, como era praxe no Instituto. Seguramente nem todas as cronistas eram especialistas no assunto. A preocupação de documentar a fidelidade às práticas de piedade e as celebrações, as viagens, torna-a repetitiva. A observação com que em geral se conclui o ano, bastaria para garantir que tudo o que tocava a piedade e as práticas usuais, tinham sido seguidas à risca, e lamentadas quando faltavam. Daí a necessidade de ler mas entrelinhas, para perceber uma vida que pulsava, mais importante que a rotina que muitas vezes era documentada. Às vezes é muito sintética e redutiva, em outras, muito prolixa, mas é um documento histórico (não “científico”), para conhecer o que então se fazia. Ela também é, por vezes, subjetiva. A frase consagrada: “O estilo é o homem”, aplicada a toda forma de expressão humana, também se aplica à Crônica: há cronistas meticulosas, outras menos, há as vibrantes e fervorosas, há as discretas e lineares, há as saudosistas e quem sabe, até alguma que escrevia “por obediência”. Mais de uma vez me perguntei: “Que língua afinal era falada? ” As missionárias eram italianas e uruguaias, os Superiores Salesianos eram italianos e a maioria com passagem nos Países de língua espanhola. Pelas Cartas de Madre Mazzarello, sabemos que para muitas missionárias a aprendizagem do espanhol, não era fácil. E as que vieram do Uruguai, enfrentavam inda uma nova língua! Mesmo assim, as Irmãs não dispensavam as conferências e o trato pessoal nas conversas e Confissões, por exemplo. Acredito, sem base histórica, mas por palpite, que vigorava o portunhol ou o itanhol! Com acréscimos necessários em português! É curioso que não há nenhuma referência ao que podia ser uma dificuldade. O certo é que todos falavam e eram entendidos! Hoje, tudo é documentado, gravado, filmado...e divulgado em tempo real... Mas as 46 | Em Família

Crônicas de nossas Casas continuam a ser produzidas, não anônimas, mas sempre dependentes do estilo de quem as redige. Graças a elas, como se recomenda hoje: mais abrangentes, documentando mais a vida que a rotina dos fatos, elas serão sempre um documento importante, a ser valorizado! Uma história- Para quem olha as realidades à luz da fé, nada é insignificante e sem sentido. Ainda mais quando se trata da primeira Casa nossa, no Brasil. Ouvimos tantas vezas: “Um povo sem história, é um povo sem futuro”. Na história do Carmo, há detalhes preciosos. O heroísmo das missionárias, que com o abrir-se de novas frentes de missão, eram solicitadas a deixar uma experiência de alguns anos na primeira Casa, e iam, generosas, para outras fundações no Estado de São Paulo, Minas, Mato Grosso, Nordeste e até o Amazonas. Tinham no coração a chama das experiências de Mornese, Nizza, Montevidéu. Sabiam que estavam “desbravando” realidades longínquas, difíceis, novas. Apesar disso, acreditavam na força do carisma, contavam com a eficácia do Sistema Preventivo e a confiança das Superioras. A chama missionária ardia em seus corações. Graças a elas somos hoje, Salesianas! Histórias de doação generosa que para muitas, significou doença e até morte, atingidas pelas “febres malignas” como eram chamadas, que ceifaram muitas vidas de Irmãs e meninas. Entre as muitas histórias, há o caso de uma virtuosa e muito amada, Ir missionária: Ir. Modesta Martinelli, vinda do Uruguai, que enfrentou situações difíceis, foi Diretora por breve tempo na “Casa do Puríssimo Coração de Maria”, recém fundada e enviada em seguida para fundar a Casa de Petrolina. Aí viveu somente um mês, tendo morrido em 1926, de febre amarela. (9) Essa biografia, como as das Irmãs dos primeiros tempos o estão sendo cuidadosamente completadas pelas Irmãs do PEM (Projeto de Espiritualidade Missionária), para a memória das gerações futuras. Mas há outros relatos importantes, documentados pela Crônica. Assim é o caso de Mons. João Filippo, Fundador do Colégio, que também construiu ou reformou outras Obras beneméritas na cidade de Guaratinguetá. Seria interessante fazer um levantamento das inúmeras


Registro referências a este comprovado “santo Sacerdote”, que viveu em Guaratinguetá de 1873 a agosto de 1928. A Crônica só tem muitas palavras de afeto e reconhecimento para com ele. Ele era muito sensível a toda forma de gratidão, que não faltava nem da parte de Irmãs ou das meninas, o que acontecia com frequência e muito especialmente no seu dia onomástico: 24 de junho, quando lhe era oferecida uma “academia” de muitos números, que ele agradecia, comovido até às lágrimas. Sua presença foi sempre considerada uma bênção, nas Casas que fundou. Mostrou-se sempre afetuoso e solícito em sua proximidade com as Irmãs e meninas. Morreu santamente, na “ Casa do Puríssimo Coração de Maria, ” cercado de muitos cuidados carinho 10) É também a história de uma “Comunidade, onde conviviam com alegria: Irmãs, alunas internas e externas, Oratorianas, Filhas de Maria, pensionistas, Escola Doméstica e tantas pessoas que por ali passaram. Elas viviam a realidade que hoje chamamos “Comunidade educativa”, onde a presença das Irmãs, sobretudo para as internas, era de dia e noite. O estudo sério, o espontâneo protagonismo das meninas: nos recreios, nas orações, festas cívicas e religiosas, a acolhida de grandes figuras de Bispos e autoridades ...tudo era assumido por Irmãs e meninas e davam vida à Casa! Mas o que é invisível não é menos real: Jesus Eucaristia, já recordado, em Sua presença sacramental na Capela, desde antes da chegada das Irmãs é vivo na devoção de Mons. Filippo, nos Salesianos e na Comunidade de Irmãs e meninas. A ‘Presença” constante de Nossa Senhora, como Patrona do Carmo, Auxiliadora, ou Aparecida, nunca deixou de ter uma especial importância essa Casa, socorrendo nas necessidades e perigos, mas também motivando os momentos alegres e festivos da Casa. Em São José, muito amado e festejado, sobretudo no mês de março. Na Capela uma linda estátua se encontra à esquerda do altar, e faz par com a de Dom Bosco, no lado direito. Dom Bosco, muito amado, tornado conhecido pela sua santidade e pela pedagogia e espiritualidade do Sistema Preventivo, que já ia dando bons resultados nas

Casas dos Salesianos e nossas. Os Anjos, que davam nome a uma Associação da qual pertenciam centenas de meninas. É uma história, sobretudo para nós: “história sagrada, ” pela qualidade das pessoas que por ali passaram, pelo número de alunas e alunos, de ontem e de hoje, que ali cresceram, pelas levas de Irmãs que ali se formaram, te pelas muitas outras que ali trabalharam e trabalham. Ainda hoje, “o velho tronco nodoso” continua a produzir as flores e frutos de uma educação salesiana primorosa, a evangelizar educando e a educar evangelizando, num trabalho sintonizado entre Irmãs e leigos, com crianças e jovens, atraídos pelo “não sei que, ” que emana esta Casa abençoada, que abre os corações a fé, ao amor, ao carinho, a generosidade. E nos vem espontâneo pensar, concluindo: “Carmo dos meus amores...” quantas coisas ainda nos falas! Todas as citações são do livro: “Crônica do Colégio do Carmo”, edição 2018. (1)p. 15-16 (2)p. 18-19 (3)p.17 (4)p.43 e ss. (5)p.43 (6) p.85)7)p.105-107 (8) p. 05 e ss (9) p.p.278 (10) p.315-316.

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Registro

Jovens participam de experiência missionária na Aldeia Meruri Por Andréa Pereira

Entre os dias 08 a 14 de julho de 2018, um grupo de jovens das Inspetorias Santa Catarina de Sena e Nossa Senhora da Paz participaram de uma rica experiência missionária, junto à tribo Bororo da Aldeia Meruri, localizada no Município de General Carneiro (442 Km de Cuiabá). A Aldeia é composta por 65 famílias de Povos Bororos e cerca de mais 10 famílias de aldeias vizinhas. Os primeiros salesianos chegaram à terra Bororo no dia18 de janeiro de 1902. Eram salesianos, salesianas e leigos que vieram com o objetivo de desenvolver um trabalho educativo-pastoral em conjunto. O Diretor 48 | Em Família

era o Pe. João Bálzola e a Diretora, Irmã Rosa Kiste. Construíram a primeira missão na região denominada “toripó” (Tachos). SAGRADO CORAÇÃO DE MERURI Ir. Vânia Ojeda, Coordenadora Nacional da Pastoral Juvenil Salesiana, destacou que a escolha da Aldeia Meruri foi providencial. Inicialmente, pensou-se na realização do trabalho missionário com os Xavantes, em Sangradouro. Porém, a tribo estava vivendo o período anual de ritos. E, por isso, começou-se a idealizar a


Registro

experiência com o povo Boe Bororo, a partir do conhecimento da aldeia e consultas com a Irmã Nelcina Alves e com o Padre Andelson Dias que atuam diretamente na Missão entre este povo. Percebeu-se imediatamente que o local era ideal para esta primeira Experiência Missionária. Tudo se encaixou, facilitando o trabalho missionário. Realmente foi preciso tirar as sandálias para conhecermos a Cultura Boe Bororo. EXPERIÊNCIA MISSIONÁRIA Sair em missão é esvaziar-se de si para ir ao encontro do próximo, de novos sorrisos, olhares, histórias, alegrias e até mesmo sofrimentos. Foi com essa certeza que saí para mais uma missão. Mas, desta vez, a realidade que iria encontrar era diferente daquela que estava acostumado a vivenciar nas missões. Fui ao encontro dos nossos irmãos Boe Bororo, na Aldeia Meruri, em Mato Grosso, com um grupo de missionários e

missionárias que ainda não conhecia. Assim, como os primeiros salesianos, nós missionários, iniciamos a missão na região dos Tachos (“toripó”), local da primeira presença salesiana junto a este povo.. Cada missão é única em nossas vidas e dessa levo comigo o sorriso de cada criança, o abraço apertado de cada pessoa, cada história compartilhada, o desejo de reavivar a cultura de um povo e conservar, com carinho, a memória dos momentos compartilhados com eles. Luis Felipe de Paula Santos, 26 anos e Ex-aluno do Instituto Nossa Senhora do Carmo – Guaratinguetá/SP

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saúde, agricultura familiar, formação política e a luta pelos seus direitos. O fruto mais bonito da aliança entre missionários e os Boe Bororo foi o Martírio do Padre Rodolfo e do Índio Simão Bororo. A entrega destes dois irmãos possibilitou a demarcação da terra e o nascimento considerável do povo. Estamos unidos pelo sangue. PRESENÇA INDÍGENA

SALESIANA

COM

POVO

Pe. Andelson Dias, diretor da comunidade de Meruri, destacou que a história da aliança entre os missionários e os indígenas Boe Bororo é antiga. Desde o início, o papel mais importante da presença dos missionários foi o cuidado com os indígenas. Havia pressão de todos os lados: fazendeiros, outras etnias que poderiam exterminar esta nação. No início, além da catequese foram trabalhados outros conhecimentos: agricultura, corte e costura, etc. Atualmente, os missionários , em primeiro lugar, convivem e partilham a vida com eles, colaborando, também nas áreas da: educação, 50 | Em Família

MISSÃO SALESIANA Na chegada, os jovens-missionários foram recebidos pelo pároco de Meruri, Pe. Andelson Dias, sdb, e Ir. Nelcina Alves de Souza fma e tiveram a oportunidade de conhecer a história dos mártires, Rodolfo Lunkenbein, sdb, e Simão Cristino Koge Ekudugodu, bororo. A Semana Missionária proporcionou aos jovens, a oportunidade de experimentar Deus em meio ao povo indígena, construindo relações de caridade, espiritualidade e fraternidade, partilhando espaços para o dinamismo juvenil. Durante a semana, os entusiasmados missionários conheceram, um pouco, da cultura indígena; realizaram bênçãos nas casas da


Registro

Aldeia; visitaram a região denominada “Tachos”, primeiro local da experiência missionária dos SDB e FMA; animaram o Oratório Festivo para crianças e adolescentes da comunidade. No alto do Morro de Meruri, participaram da Lectio Divina com o Pe. Andelson, Ir. Vânia Ojeda e Ir. Maria das Graça Rodrigues. Tiveram a oportunidade de um encontro com o Inspetor, Pe. Gildásio Mendes dos Santos, que partilhou Mário, nos fazia relembrar o quão sagrado é o a alegria de encontrar os jovens-missionários chão que pisávamos, nos dava a dimensão da importância do local e fez sentir especiais em estar em Meruri. no lugar em que o sangue de Pe. Rodolfo e de Simão bororo foram derramados. Era visível, em HISTÓRIA E CULTURA cada missionário, a vontade de ser protagonista e “Em resumo, todos os missionários, participantes fazer da nossa missão uma experiência completa. Na hora da partida, levamos parte da aldeia da experiência em Meruri, gostariam de agradecer imensamente aos organizadores desta missão de Meruri conosco. Saímos daquela terra sagrada incrível e, também, a toda a aldeia de Meruri, que marcados pela sua história e cultura. Matheus Ibane | Missionário de Cuiabá nos acolheu e nos mostrou a sua vida simples e singela e que nos encantou com a espontaneidade Parabéns a todos que participaram desta da amizade das crianças (pigoros) de Meruri. Missão e tiveram a oportunidade de fortalecer Resumir esta experiência, com palavras, parece pouco. Foi preciso sentir, foi preciso abrir a fé e crescer na espiritualidade cristã/salesiana. o coração e a mente e entrar na cultura tão rica e viva daquela aldeia. Ouvir o Vice Cacique, José maio | junho | julho e agosto 2018


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Angola, uma experiência de amor Por Luciana Roa e Felipe Chung

Em 2018, comemoramos os 30 anos da presença das Irmãs salesianas em Angola. Este trabalho teve seu início, na década de 70, a pedido do Papa João Paulo II, pois a juventude africana que vivia a realidade de guerra civil, morte e sofrimento, necessitava de ajuda. Dez anos depois, surge, na década de 80, o Projeto África. Salesianos de todo mundo passam a se mobilizar, motivados pelo carisma de nossos fundadores e em busca de uma sociedade mais pacífica e solidária, iniciam o trabalho Salesiano na África. Muitas foram as dificuldades das primeiras Irmãs e dos Padres que partiram rumo a esse 52 | Em Família

novo projeto: a documentação de entrada, as diferenças religiosas. Pouco a pouco, um de cada vez, foi recebendo o visto e partindo para as novas terras de missão. Inicialmente, chegaram os Salesianos de Dom Bosco e, em 1983, as Filhas de Maria Auxiliadora, encontrando-se em terras desconhecidas, vivendo realidades não esperadas e precisaram adaptar-se rapidamente ao cotidiano de dor e de sofrimento, encontrando nos jovens o sentido para toda sua caminhada e missão. Junto a tanto sofrimento, foram percebendo a alegria do povo e se perguntavam: como um povo imerso em tantos problemas pode expressar amor e fé?


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E a tristeza deu espaço à esperança. Os primeiros anos foram de muito sofrimento, repletos de histórias marcantes, de lembranças que não podem ser esquecidas, mas também de muito trabalho. A Inspetoria de São Paulo assumiu a coordenação do projeto que gradualmente foi se fortalecendo, juntamente com a história de seu povo, surgiram obras sociais, escolas, oratórios, projetos de formação humana, catequéticos, entre outros. Hoje, o número de irmãs cresceu e surgiu a Visitadoria Rainha da Paz que realiza trabalhos, em vários âmbitos, nos diversos locais da Angola, sobrevivendo graças a luta diária de tantas Irmãs que dedicam suas vidas e trabalham incansavelmente junto ao povo, lutando por suas necessidades e, não perdendo a esperança na Providência Divina, a grande certeza. A Visitadoria desenvolve seus trabalhos por meio

de projetos de apoio, doações internacionais e, com a ajuda de religiosos e voluntários leigos que apoiam a causa. MISSÕES SALESIANAS EM 2018 “O mundo precisa de sinais concretos de solidariedade, especialmente diante da tentação da indiferença, e exige pessoas capazes de opor-se com as suas vidas ao individualismo. Sois a mão de Cristo estendida” (Papa Francisco aos voluntários) Apoiados pela Inspetoria Santa Catarina de Sena, um jovem casal realizou uma experiência de voluntariado em Angola. Felipe Roa Chung e Luciana Gomes Roa Chung, ex-alunos do Colégio de Santa Inês e missionários Salesianos, manifestaram seu interesse de dedicar suas maio | junho | julho e agosto 2018


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férias de julho ao projeto de voluntariado internacional das FMA. Durante seis meses os voluntários missionários de São Paulo, se prepararam e mobilizaram-se para enfrentar essa realidade de doação missionária. Foram apoiados pelas FMA, pela Articulação da Juventude Salesiana, pela comunidade educativa do Colégio de Santa Inês, além familiares e amigos, na arrecadação para o projeto. Felipe e Luciana cresceram e desenvolveramse dentro do ambiente educativo salesiano, em meio a atividades pastorais e seus projetos, bem como, a Semana Missionária, isso auxiliouos na construção de seu projeto de vida e, despertou neles uma necessidade de colocarse a disposição do próximo, buscando entender o projeto de Deus para eles. Assim, pouco tempo após casarem-se queriam realizar um projeto comum, o voluntariado internacional. 54 | Em Família

Organizaram sua documentação, fizeram o pedido para o voluntariado e partiram de São Paulo dia 28 de junho, sendo recebidos com muito carinho pelas irmãs da Visitadoria Rainha da Paz, em Luanda, Angola. O casal foi enviado para o Colégio Dom Bosco, em Cacuaco, e hospedou-se na casa dos voluntários no mesmo local, sob os cuidados e carinho das Irmãs Salesianas: Ir. Erenita (brasileira), Ir. Anna Bello (brasileira), Ir. Maria Aparecida (brasileira), Ir. Maria de Assunção (angolana) e Ir. Isabel (portuguesa). O mês foi repleto de trabalhos e muitas novas experiências. Atuaram na escola dando aulas de formação humana e valorização da vida, faziam assistência nos intervalos, fizeram melhorias (informatização) na secretaria e biblioteca; participaram, ainda, do Projeto Abrindo Horizontes que atende uma comunidade próxima oferecendo


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alfabetização, formação humana e religiosa muito entusiasmo, alegria e fé. e, atividades físicas; trabalharam nos oratórios Essa experiência foi um divisor de águas em e grupos catequéticos. Além de participar do cotidiano das irmãs, onde puderem vivenciar nossas vidas e fez com que crescêssemos ainda fortes experiências de fé e crescimento pessoal. mais enquanto casal. Voltamos com o coração cheio de lindas experiências e com o sentimento A comunidade angola entre os meses de julho e agosto recebeu voluntários vindos do de que ainda há muito o que fazer. Brasil, Alemanha, Áustria, Eslovênia, Croácia e Deus nos conduziu e por muitas vezes pudemos Hungria. encontrá-lo em cada sorriso, cada oração, cada

Leia o depoimento do casal:

partilha, em cada irmão angolano. Voltamos com

uma família maior e com a certeza que o trabalho “Estivemos em Angola, Cacuaco, durante 1 mês, continua e que ainda temos muito o que oferecer realizando um grande sonho nosso. Já havíamos feito outras atividades missionárias antes, mas lá em agradecimento a Deus! pudemos, de fato, fazer uma profunda experiência Nossa missão ainda não acabou...” de Deus em meio a um povo, que mesmo sofrido, transmite alegria e tem uma relação profunda com sua fé. Fomos sem medo e doamo-nos, com maio | junho | julho e agosto 2018


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Projeto de Fortalecimento de Capacidades movimenta RSB-Social No dia 8 de agosto, as Inspetorias Maria Auxiliadora e Santa Catarina de Sena, juntamente com as Animadoras do Polo São Paulo da Rede Salesiana Brasil de Ação Social, Rosemeire Gomes e Ana Lucia, reuniram os gestores dos centros profissionalizantes salesianos do Estado de São Paulo e os membros do Grupo de Trabalho Sustentabilidade da RSB-Social para uma apresentação sobre o Projeto de Fortalecimento de Capacidades, que está sendo desenvolvido em âmbito continental pelos Salesianos de Dom Bosco e pelas Filhas de Maria Auxiliadora. O encontro unificou as ressonâncias de dois eventos internacionais realizados recentemente nos quais as Inspetorias marcaram presença e trouxeram os encaminhamentos para serem tratados em âmbito de Polo. Os participantes começaram o dia com um momento de oração e na sequência a secretária de planejamento e desenvolvimento, Julia de Paolis Amim, apresentou o histórico das Secretarias de Planejamento e Desenvolvimento no mundo e também na inspetoria de São Paulo, a partir da experiência que teve no Encontro Internacional das SPD´s em Nairobi, Quênia, juntamente com 56 | Em Família

Rosemeire Gomes que participou em nome da RSB de Ação Social. A diretora executiva da Obra Social Dom Bosco de Itaquera, São Paulo, também fez uma apresentação sobre o Projeto de Fortalecimento de Capacidades que foi exposto no encontro ocorrido, em maio na Bolívia, e que está sendo realizado nos dois regionais salesianos que compõem o continente (Cone Sul e Interamérica), grupos da Família Salesiana e ONG´s vinculadas à missão salesiana na Europa e nos Estados Unidos, envolvendo 15 países com o objetivo de fortalecer as SDP`s e os trabalhos direcionados à formação profissional que atendem jovens em situação de vulnerabilidade. Relatados os eventos internacionais, os representantes dos centros profissionais presentes e do GT Sustentabilidade deram a conhecer os trabalhos realizados localmente, que possibilitaram perceber as grandes diferenças sociais e culturais que marcam o trabalho com a juventude no Estado de São Paulo. Fonte: Salesianos SP


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Casa Betânia participa

de Semana Missionária em Areias

Um grupo de 12 pessoas, incluindo educandos e assessores, participou da Semana Missionária realizada na cidade de Areias, no interior de São Paulo. Pela primeira vez, a Casa Betânia formou seu grupo independente juntamente com a coordenadora de Pastoral das Obras Sociais do Vale do Paraíba, Irmã Ana Luíza Medeiros e o Assessor de Pastoral da Casa, Francisco Gardel. Além de oito educandos, uma noviça e uma vocacionada acompanharam o grupo. Foram sete dias de experiência profunda com Deus e com o próximo. Nas manhãs, eram realizadas às visitas às casas da família e à tarde o Oratório na comunidade do bairro. À noite, eram dedicadas às celebrações participadas por adultos, jovens e crianças. Realmente, foi uma experiência rica! maio | junho | julho e agosto 2018


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Palestra

Suicídio entre jovens | Projeto de vida Por Olivia Negreiros No dia 10 de agosto, próximo passado, no Colégio

ao suicídio, por meio de estudos e pesquisas, indicou

de Santa Inês, realizou-se uma tarde formativa,

os altos índices de suicídio (epidemiologia). Além

promovida pela Mantenedora das Escolas, sobre a

disso apresentou-nos um modelo compreensivo

questão do suicídio entre os jovens, projeto de vida

desse evento, bem como as estratégias de

e as medidas preventivas.

prevenção.

Foram convidados os palestrantes: Mayra Oliveira

Queiroz,

psicóloga,

A psicóloga Mayra pontuou os atuais índices

psicopedagoga,

de suicídio que desafiam nossas habilidades em

psicodramatista; Dr. Carlos Cais, psiquiatra com

lidar com a vulnerabilidade da existência humana.

atuação em instituições como: OMS e OPAS e

Enfatizou a urgência em tratarmos sobre os aspectos

Leó Fraiman, psicólogo, mestre em psicologia

psicológicos que envolvem esse processo, para

educacional, autor de vários títulos.

que possamos enfrentá-lo de modo consciente e

Dr. Carlos Cais, com sua vasta experiência e formação em Doutorado na temática de prevenção 58 | Em Família

assertivo. Por fim, o psicólogo Léo Fraiman afirmou que um


Registro dos maiores desafios do jovem na atualidade é o desenvolvimento e a implementação de um Projeto de Vida efetivamente funcional e próspero. Nesse sentido seu foco foi o de motivar o Educador para adotar uma atitude empreendedora na formação integral do Educando, em busca da plena cidadania e da felicidade no futuro. Após as apresentações os palestrantes responderam às questões dos participantes – Equipes de liderança das Escolas e Obras Sociais – enriquecendo ainda mais a nossa formação, especialmente por estarmos próximos ao SETEMBRO AMARELO – 2018 “Falar é a melhor solução”, tema da Campanha Mundial de conscientização sobre a prevenção do suicídio.

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Comemoração

50 anos OSAF

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Comemoração

Centenário INSA e Auxiliadora

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É Festa

Celebrando a vida - Aniversariantes SETEMBRO

02. Lucia Maistro 06. Fabiana Florêncio Cavalcante 07. Silvana Soares 08. M. Genoveva Corrêa 10. Monaliza Carolina M. Bernardino 12. Célia Apparecida da Silva 14. Aparecida Geralda de Freitas 15. Iraydes Corrêa 17. Manoracy Medeiros 19. Ana Francisca Azevedo 25. Paola Battagliola (Conselheira Visitadora) 26. Ondina S. Lima 26. Maria Helena Moreira (Cons. Geral – Comunicação) 29. Ingrid Stéphanie Gomes Pinto (nov.) 30. Cecy Lazzarini - Vani Alves Moreira

22. Clarice Quereguini 23. M. Rosário L. Cintra – Maria Izabel Ferreira 25. Célia Maria Moreli 27. Maria Nieves Reboso – (Cons. Geral – Formação) 28. Nair Paschoalini 31. Maria Auxiliadora V. Grande | Justiane de Jesus P. Ferreira (nov.) NOVEMBRO

01. Bruna de Paula Elias (nov.) 02. Aparecida de Fátima Barboza – Chen Huimin 05. Aldahyr de Bortoli – Mirian Morotti – Rosângela Maria Clemente 07. Esther Venturelli – Fátima Aparecida Peixoto 08. Beatrice Dallabona 12. Ivone Brandão de Oliveira OUTUBRO 15. Célia Regina Querido 06. Maria Aparecida Almeida 17. Augenir Marin 07. M. Bernardina Gonçalves 20. Silvania Cássia Pereira 08. Anna Bello Soares 22.Cecilia Vassalo Grande 10. Glória Castanheira – Rosana M. Cavalcante 25. Nilza Fátima de Moraes 11. Maria Dirce Martins 26. Lourdes Nunes dos Reis 12. Alzira M. de Lima | Maria Gazzetto – Metka Kastelic 28. Gisele Rodrigues Coelho 15. Theresinha Castro 28. Ana Maria Gomes Cordeiro 19. Terezinha dos Santos 30. Flávia Maria Romeiro 21. Josefina Fortunato

LEMBRANÇA + 27/05 – Ir. Mariucha + 16/04 – Sra. M. de Lourdes, Mãe de Ir. M. Nair de Souza. + 09/06 – Sr. Antonio Vieira Florentino, irmão de Ir. Bernardete Florentino + 21/06 – a Sra. Efigênia Tavares de Souza, Mãe de Irmã Maria Tavares + 22/06 – Sra. Anna Maria Rampi, Mãe de Ir. Dorce + 14/07 – Ir. Maria da Glória de Paula + 27/07 – Josá Stringari, irmão de Ir. Pierina + 04/08 – Ir. Ilka Moraes Périllier + 20/08 – Ir. Odari de Abreu + 24/08 – Sra. Ilza Rezende, irmã de Ir. Ivone Braga de Rezende + 04/09 – Sr Irineu Paschoalini - Irmão da Ir. Nair Paschoalini + 07/09 – Ir. Aldina Andreaza 62 | Em Família


Programe-se

PROGRAME-SE

Desejo Meu Deus, quero conhecer-Te um pouco melhor. É por isso que há tanto tempo, estou diante de Ti. É por isso, Senhor, que velo, na vigília da vida. Meu Deus, quero conhecer-Te um pouco melhor. Se não posso ver-Te, face a face, que te vislumbre de costas, qual Moisés, qual Teresa, qual Francisco. Foi para isso, Senhor que vim para tua Casa, e para junto de Ti. Deixei atrás tantos afetos, os meus desejos, pobres desejos, a minha barca, cheia de sonhos, para conhecer-Te um pouco melhor. Senhor, estou diante de Ti, como uma esponja, diante do mar. Foi para isso, que deixei atrás, tantas coisas sem valor, que valiam tanto, para mim, Senhor. Foi para conhecer-Te melhor, qual Moisés, qual Teresa, qual Francisco. Velo na minha prece, no meu fazer, no meu viver, na esperança, Senhor, de ser assim, simplesmente assim, que te conheço melhor. De Sá, Olga – Coisas Faladas – Lorena, 2005 – Centro Cultural Teresa D`Àvila

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“Jovem... bote Cristo na sua vida, deposite n´Ele a sua confiança e nunca se decepcionará”

Papa Francisco

Revista em Família nº53  

Informativo das Filhas de Maria Auxiliadora

Revista em Família nº53  

Informativo das Filhas de Maria Auxiliadora

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