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Manifesto 2

Não é fácil ser sujeito histórico, estes personagens que vivem enquanto a História está traçando o seu traço mais agudo. E nós estamos neste momento, exatamente aqui, na curva dos acontecimentos, testemunhas oculares de uma pandemia em pleno século XXI. Marcos André Carvalho, Ex-Secretário Nacional de Economia Criativa do Ministério da Cultura (2013-2015), explicou, ainda antes de tudo isso acontecer, lá em outubro de 2019, que nós, que somos a sociedade da era do conhecimento, no olho do furacão, não percebemos o tamanho da transformação da humanidade que é virar o milênio. Agora, além de virar o milênio, de 1999 para 2000, também vimos o Covid-19 parar o mundo que sempre conhecemos. Ou tentamos conhecer, com todas as evoluções tecnológicas que ocorrem a cada pouco. Marcos ainda ressaltou a revolução tecnológica, que traz consigo as invenções disruptivas – que em outros séculos ocorriam uma vez a cada década, como o trem, a lâmpada – agora ocorrem a cada mês. Mas neste momento nos deparamos com os limites dessas revoluções. Para a historiadora Lilia Schwarcz, a pandemia marca o fim do século 20 – já que todo século não termina matematicamente, mas sim quando um fato muito marcante o detém. Para ela, o vírus também mostra os limites da tecnologia, que no século passado nos pareciam ilimitados. Não, não são


infinitos, tanto que testemunhamos com surpresa a demora na vacina. Ora, a ciência ainda é feita por mãos humanas, e para ela ser cada vez mais forte, precisa de sérios investimentos públicos e privados. E ela carece de recursos, vemos com muita clareza agora. Pessoas que antes não entendiam o valor desse investimento em ciência clamam neste momento pela chegada da imunização. Mas não existe mágica no mundo que vivemos. Tudo acontece gradualmente, fruto de ações e consequências, e nada virá se não plantarmos antes a semente. É um momento muito confuso, mesmo. Além de nos preocuparmos com os números do vírus, temos muitos problemas a solucionar. A pandemia deixou ainda mais visível os nossos abismos sociais – pois chamar de desigualdade ainda seria um eufemismo. O auxílio emergencial de R$ 600 fez o país registrar a menor taxa de pobreza extrema em 44 anos em julho de 2020 – de acordo com uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas. Mas que sociedade é esta em que tantas milhões de pessoas passam a um outro patamar com menos de um salário mínimo? E depois que a pandemia passar, que sementes podemos plantar para que essas famílias não voltem a situação de pobreza extrema vivendo com menos de R$ 154 mensais por pessoa? 3


Com certeza, não é taxando os livros em 12%, como propõe o governo federal, que quer incluir as editoras em uma nova contribuição. O acesso à cultura e a educação é a semente mais eficaz para colher frutos, gerando uma sociedade mais igualitária e melhor para todos. Diminuir o acesso aos livros é ceifar o futuro de milhões de crianças ao poder do conhecimento, da imaginação e da possibilidade de uma vida digna. De qualquer modo, a pandemia continua, cinco meses depois que entramos de quarentena. Mas nós, da Sala de Fotografia, continuamos a produzir conteúdo gratuito, para que, no nosso micro cosmos, cada vez mais pessoas tenham acesso à informação. Fazem parte desses esforços uma recémcriada newsletter da Sala de Fotografia, esta revista, e o Festival Arte Foto Caxias – uma iniciativa que promovemos e que trouxe 12 mesas com debates pertinentes. Em todas as nossas discussões, o Corona vírus acaba se inserindo, não tem jeito. Este é mesmo o assunto predominante não só deste ano, mas quiçá desta década. E se a fotografia é um dos jeitos mais importantes de nos comunicarmos na nossa era, ela também não fica em segundo plano neste momento. Pode parecer que está tudo meio parado, afinal, os eventos sociais precisaram ser adiados ou cancelados. Mas a produção de imagens continua por todos os lados, e precisamos pensar em como vamos deixar retratado nas nossas fotografias este período histórico. A filosofia da fotografia existe, então, para que possamos pensar a captura 4


Por Liliane e Sabrina

Manifesto

de imagens, entender o significado de porque fotografamos. A fotografia, sem reflexão, transforma-se em objeto de decoração. O que também é igualmente válido, basta adequar-se ao contexto e ao propósito pretendido pelo fotógrafo. Afinal, a arte não precisa de um motivo para existir, não precisa ser utilitarista, como sempre afirmamos no conceito da coleção de roupas com fotos Liliane Giordano arte em roupa. Não há certo ou errado, mas é fundamental que possamos pensar na fotografia como arte contemporânea para que ela nos ajude a entender o mundo que vivemos, ainda mais em um momento tão delicado como neste fato histórico. O homem é o único animal capaz de saber que vai morrer, e isso define e revalida as nossas existências. E a fotografia e a arte como um todo são um veículo de expressão dessa angústia tão intrinsecamente humana. Nosso desejo, então, é que possamos olhar com mais carinho a tudo que nos auxilie a compreender este momento, e que construa pontes até o outro lado, ao futuro que vai chegar. Se queremos uma sociedade mais justa, investir em ciência, cultura e educação é um caminho que não pode deixar de ser trilhado.

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Revista nº 8 - ago/2020

Expediente - quem faz Diretora Geral: Liliane Giordano Fotógrafa e mestre em educação Editora-chefe: Sabrina Didoné Jornalista (MTB 0018277/RS) Textos, fotos e diagramação: Liliane Giordano Sabrina Didoné Conselho editorial: Liliane Giordano Rúbia Villa Sabrina Didoné Thaynne Andrade saladefotografia@gmail.com (54) 3534.8994 | (54) 9.9981.9894 www.saladefotografia.com 8


Vozes: Carta de Sergio Larraín Leitura: atos fotográficos se transformam em criações Filme: Medianeras Técnina: Por que fotografar em Raw? Vozes: Caatinga Verdejante, de Alberto Melo Viana III Colóquio de Fotografia da Bahia 2019 Vozes: Festivais de Fotografia, artigo de Milton Guran

Índice

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Exposição fotográfica: Cidadãos do Mundo

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Expedições fotográficas: Lençóis Maranhenses

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Instituto Cultura Latina Festival Arte Foto Caxias 2020

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Carta Uma carta do fotóVozes

grafo Sergio Larraín 12


Sobre o papel da fotografia, e sobre a filosofia das imagens: queremos dividir com você uma emocionante reflexão. Em 1982, o fotógrafo chileno Sérgio Larraín, que foi membro da agência Magnum, enviou uma carta a seu sobrinho quando ele começou a se dedicar a fotografia. Seus conselhos reverberam até hoje, e condizem com o que sempre acreditamos: fotografar é ter tempo. Confira nesta matéria a carta completa do fotógrafo.

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“A primeira coisa é ter uma máquina que você goste, porque se trata de sentir-se bem com ela, uma câmera que seja agradável para as sua mãos, pois a ferramenta é fundamental para se fazer bem um trabalho, e que seja o mínimo indispensável e nada mais. Em segundo lugar, tenha uma impressora ao seu gosto, a mais bacana e simples possível. Depois é partir para a aventura, como um veleiro, soltar as velas, todos os dias vá para um lugar e outro, caminhe pelas ruas, vagueie e vagueie por lugares desconhecidos, quando estiver cansado sente-se à sombra de uma árvore, coma uma fruta ou pão, tome um trem, vá para onde lhe der na cabeça, e olhe, observe, desenhe também. Saia do mundo conhecido, entre naquele que nunca viu, deixe-se levar pelo gosto, vá muito de um lugar ao outro, aonde lhe der na teia. Aos poucos você vai encontrando as coisas, e vão te chegando imagens, como aparições, fotografe-as. De volta para casa, revele (edite), faça copias, observe o que você pescou, todos os peixes, pendure com fita adesiva na parede, imprima em tamanho de cartão postal e olhe para elas. Depois, comece a brincar de recortar (cropar), experimente cortes e enquadramentos, vá aprendendo composição, geometria, reenquadre com perfeição e imprima o que vc reenquadrou, coloque novamente e deixe na parede. Vai olhando e observando. Quando tiver certeza de que uma foto é ruim, mande imediatamente para a lata do lixo. A foto que for boa coloque em um lugar mais alto na parede, e no final, guarde somente as boas, nada mais (guardar o medíocre faz você estancar no medíocre). Fique apenas o que for bom, o 14


que é “top”, jogue o resto fora, porque a gente carrega na mente tudo o que conserva. Depois faça ginástica, distraia-se com outras coisas e não se preocupe mais. Comece a olhar o trabalho de outros fotógrafos, procure tudo o que é bom em livros, revistas, etc… Guarde o melhor, se puder recortar recorte, e vá colando na parede ao lado de seu trabalho. Se não puder recortar, deixe o livro ou revista aberto na página com a foto boa, em exposição. Deixe por semanas, meses, enquanto aquela foto for significativa para você, a gente demora muito para enxergar, mas pouco a pouco, o segredo vai se revelando, e você vai vendo o que é bom, a profundidade de cada coisa.

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Continue vivendo sossegado, desenhe um pouco, saia para passear e nunca se force sair para fotografar, para não perder a poesia, a vida que existe nisso adoece, é como forçar o amor ou a amizade, não se pode. Quando estiver bem, faça outra viagem, saia para passear, vaguear. Vai para a beira de um rio, andar cavalo, ou até o alto das montanhas. Alguns lugares são sempre maravilhosos, perca-se na magia, passe alguns dias dando voltas por morros e ruas, quando chegar a noite, durma em algum lugar, em num saco de dormir, envolva-se com aquela realidade, concentrado, nada convencional te distrai. Deixe-se levar por passos lentos, devagarzinho, como se encontrasse a cura no prazer de observar, cantarolando, e o que for aparecendo vai fotografando, agora com mais cuidado, você já aprendeu a compor e enquadrar, já faz isso com a própria câmera, e assim continue, enchendo o saco de peixes e volte para casa. Aprenda sobre foco, diafragma, primeiro plano, saturação, velocidades e etc…, aprenda a jogar com as possibilidades de sua câmera, e junte a isso poesia (a sua e a dos outros), pegue tudo o que encontrar de bom dos outros e faça uma coleção de coisas ótimas, um resumo em uma pasta. Siga aquilo que é o seu gosto e mais nada, acredite apenas no seu gosto. Você é a vida, e a vida é aquilo que você escolhe. O que não te agrada, não se importe, não lhe serve. Você é o único critério, mas veja as coisas de todo mundo. 16


Vá aprendendo, e quando tiver algumas fotos realmente boas, amplie e faça uma pequena exposição, ou um pequeno livro e mande encadernar, e assim vá estabelecendo uma noção, ao mostrá-las você se dá conta do que são, ao vê-las diante dos demais, é aí que você as sente. Fazer uma exposição é dar algo, como dar de comer, é bom para os demais mostrarlhes algo que foi feito com trabalho e gosto. Não é se exibir, é que faz bem e é saudável para todos, e para você é bom, porque vai te testando. Bom, com isso tem com o que começar, é muita vagabundagem, ficar sentado debaixo de uma árvore, num lugar qualquer. É um andar sozinho pelo universo. Um novo jeito de olhar, o mundo convencional coloca um muro diante de você. É preciso sair de trás dele durante o período de fotografar. Tchau. Depois te escrevo mais. Encontrar o que a gente ama de verdade é a chave de tudo. Se encontrar alguém com quem vagabundear, que goste disso tanto como você, não hesite, é bom também.”

Sérgio Larraín, fotógrafo chileno 17


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Blog da Sala no Portal Fhox

Além

Além do registro: o ato fotográfico se transforma em criações 20


As mudanças e evoluções no percurso da fotografia influenciaram na função do ato fotográfico: de simplesmente registrar o real como um documento, ela passou a ser um meio de expressão, isto é, uma forma de mostrar o que se vê, registrar sem a preocupação de documentar, podendo exprimir sentimentos. O espanhol Joan Fontcuberta, importante pensador da fotografia, alega que a foto foi praticamente substituída – ela não é mais linguagem, e passa a ser língua. Somos consumidores e produtores ao mesmo tempo, o “Homos 21


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Photograficos”. Agora, na pós-fotografia, se quebram esses vínculos com a realidade, e há uma transmutação de valores: a carcaça da fotografia se mantém, mas a sua alma se transforma. Ainda, para Fontcuberta, não se trata de produzir obras, mas de produzir sentido: esse é o papel do fotógrafo/artista. Assim, ao fotografar um objeto, o fotógrafo atribui significados às imagens produzidas, pois suas escolhas estão associadas às referências de seu autor que, de alguma forma, se relaciona com o objeto a ser fotografado e ambos estabelecem uma inter-relação. A construção do sentido ocorre a partir da decisão do fotógrafo na composição da imagem, que envolve o enquadramento, recortando um ponto de observação; a luz que viabiliza a captura da imagem com suas linhas, sombras e superfícies, dos detalhes da sombra, que dá volume e profundidade plástica à imagem, além do foco e profundidade de campo, definindo uma cena com maior intensidade e conteúdo.

Esses elementos da composição permitem explorar a captação da imagem, que se faz por meio de uma organização intencional de linguagem, pressupondo que o fotógrafo quer comunicar algo através da imagem produzida. Segundo Donis Dondis, no livro “A sintaxe da linguagem visual”, as técnicas são os agentes do processo de comunicação visual. O conhecimento dessas técnicas criará uma audiência mais crítica e perspicaz para a leitura visual. 23


A forma como o fotógrafo vê o que está fotografando, a escolha do ângulo, dos temas e características mais evidentes nas imagens, envolve escolhas individuais. Além do objeto em questão, estaria sendo revelada a atitude do fotógrafo perante as imagens que produz. Transparecem seus sentimentos, emoções e ideologias. Para Boris Kossoy, um dos grandes estudiosos brasileiros da fotografia, as imagens seriam detentoras de um imenso potencial de expressão pessoal. Em sua expressão e estética próprias, a imagem fotográfica informa sobre o mundo e a vida.

Dessa forma, pode-se dizer que a imagem fotográfica expressiva considera o fotógrafo, indivíduo que está por trás da criação, bem como sua bagagem, suas intenções frente ao objeto que pretende fotografar, pois ele é quem irá definir o que deseja expressar e como irá expressar. Ao fotografar trazemos sim todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos, ensina sabiamente o fotógrafo Ansel Adams. 24


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Um aspecto interessante que merece ser abordado é que cada fotógrafo, de acordo com o seu amadurecimento na fotografia, define suas preferências para fotografar, estabelecendo uma identificação de autoria no resultado da sua imagem.

A partir do momento em que o sujeito olha e lê o mundo, ele transforma esse mundo. Como diz o historiador e teórico da fotografia André Rouillé: “A fotografia nunca registra sem transformar, sem construir, sem criar”. Por outro lado, a fotografia pode ser um recorte daquilo que se quer mostrar, a partir de uma perspectiva definida pelo fotógrafo.

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Filmes que todo fotรณgrafo deve assistir

Medianeras filme argentino Medianeras

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A dica de filme que todo fotógrafo deve assistir nos leva a Buenos Aires, capital da Argentina. Prepare os lencinhos: o sensível filme Medianeras (2011), de Gustavo Taretto, pode comover até aos mais fortes, ainda mais nesses dias que estamos vivendo tanto em nossas casas, trancafiados no imóvel que escolhemos (ou o melhor que podemos pagar). O enredo ressalta sobretudo os males urbanos, a arquitetura das cidades que nos prende, fazendo um paralelo lindo com a solidão que habita cada ser humano 31


nesta era de relacionamentos líquidos. O casal de protagonistas são, afinal, dois solitários, tentando viver as suas vidas em uma cidade cheia, mas ao mesmo tempo tão vazia - e em apartamentos cada vez menores. As cenas do filme são lindas, e não há como não refletir sobre como a arquitetura, mais do que trazer beleza aos nossos dias, influencia nossa qualidade de vida. As “medianeiras” são as paredes lisas dos edifícios, nas quais no país vizinho não é permitido a construção de janelas. Mas os moradores, desesperados por um pouco de ar puro e luz, fazem as suas próprias soluções de arquitetura. Imperdível! Assista o filme (completo e dublado) neste link do YouTube. Diz um trecho do filme: 32


“Todos os edifícios, absolutamente todos, tem uma parede inútil, sem valor. Que não dá pra frente, nem pros fundos. São as medianeiras. Superfícies enormes que nos dividem e lembram da passagem do tempo, da poluição e da transformação da cidade. As medianeiras revelam o nosso lado mais miserável. Elas refletem a inconstância, os jeitinhos, as soluções provisórias. É a sujeira que escondemos debaixo do tapete. Só lembramos delas excepcionalmente quando as mudanças no tempo fazem seus encantos aflorarem. As medianeiras são convertidas em um veículo de publicidade, que em raras exceções conseguiu deixá-las mais bonitas. Geralmente, são informações importantes, como os minutos que nos separam dos grandes supermercados ou restaurantes rápidos. Anúncios de loteria que nos prometem muito em troca de quase nada. Ultimamente, elas têm nos lembrado da última crise econômica, que nos deixou assim, desocupados. Contra toda opressão que significa viver em uma caixa de sapatos, existe uma saída, uma via de escape, ilegal, como todas as vias de escape. Em clara contravenção às normas do código de planejamento urbano, se abrem umas minúsculas, irregulares, irresponsáveis janelas que permitem que alguns milagrosos raios de luz iluminem a escuridão em que vivemos.” (filme Medianeras) 33


É possível fazer um paralelo entre o filme Medianeras e um projeto de uma fotógrafa brasileira que conhecemos no Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre, o FestFoto POA, em 2019. A fala de Letícia Lampert sobre seus projetos serve para repensarmos o espaço ocupado pelas cidades nesta sociedade contemporânea. Letícia contou sobre um projeto no qual fotografa as cidades a partir das janelas de onde não é possível ver o céu, apenas outros prédios. Assim, ela procura instigar o olhar para aquilo que falta, que não está ali. “No momento que não vejo mais a cidade, só vejo a vida do outro, e não a paisagem, e consequentemente eu também estou na vitrine. Comecei a visitar prédios em Porto Alegre, observando, por um lado, a paisagem que não vejo e, por outro, a vida que brota pelas janelas. Visitei ambientes de vida privada, e só fotografei lugares que não aparecia céu de jeito nenhum. Quando você apaga a referência geográfica da cidade, apaga a sua identificação, assim ficam todas iguais. Pra mim, minhas fotos não são coleção de prédios, mas uma coleção de paisagens barradas. As pessoas, ao verem meu trabalho, acham que foi fotografado na sua cidade, por mais que não seja, e pra mim isso é 34


muito emblemático.” Letícia Lampert Em outra série de seu projeto, Letícia passou a recortar e editar pedaços do céu que sobravam em suas fotos, apenas nesgas. Depois, passou a fazer o mesmo com o verde que sobrava na cidade, chamando a atenção para o quão pouco era. Ainda, faz colagens, encaixando prédios de diferentes cidades. Veja suas obras no site. http://www.leticialampert.com.br/

“Causar um estranhamento na imagem é um jeito de fazer a pessoa parar nela, sem só passar por alguns segundos. Tenho vontade de fazer o olho parar, que é uma resistência a essa rapidez. Gosto quando alguém diz que, depois de ver meu trabalho, fica só reparando no espaço entre prédios. Ou seja: a imagem modificou seu olhar.” Letícia Lampert 35


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RAW Por que fotografar

Técnica

em RAW?

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Você ainda tem dúvidas que o RAW é melhor que o JPG? Sim, é verdade, o RAW é muito mais pesado pra guardar em seu computador, mas não se discute mais a facilidade na hora da edição. Para quem não sabe, RAW (que vem do inglês “cru”) é um formato de arquivo que as câmeras digitais possuem. Com ele, tenta-se garantir que toda a informação contida no momento da captura da foto permaneça no arquivo, para ser depois processada no computador. O arquivo 39


JPG passa por um processamento na própria câmera, o que pode modificar a compressão e o tamanho do arquivo, influenciando no resultado final da foto. Henrique Ribas, referência nacional em Lightroom – trouxe no congresso Circuito Viacolor (2018) uma forma muito didática de entender a diferença entre o RAW em relação ao JPG: se você tem uma esponja, e a coloca embaixo da torneira, ela fica cheia d`água, cheia de informação: isto é raw. Com essa esponja você sabe que vai poder lavar todas as dez panelas que precisa. Com o Jpg, seria o equivalente a você espremer essa esponja, tirando muita água – esse arquivo comprime a imagem e joga fora informação supostamente inútil. O Raw dá 40


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muito mais poder de edição do que o jpg. Mas isso não significa que não se possa fotografar em jpg, mas neste formato é ainda mais importante ter uma boa fotometria. Vejamos o exemplo ao lado. A foto de cima foi salva em JPG. A de baixo foi fotografada em RAW, editada desta forma, e depois convertida em JPG. Note sobretudo a recuperação das áreas claras e da própria tonalidade da imagem. E então, convencido? O RAW é o nosso principal aliado na hora do pós-clique. Sobretudo para quem é profissional, este formato de arquivo é fundamental para garantir a qualidade no processamento final.das suas fotos. 42


JPG

RAW

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RAW Entenda porque o arquivo Raw

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JPG ĂŠ o melhor para a sua fotografia

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Caatinga Caatinga Vozes - Ensaio

verdejante

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Por Alberto Melo Viana Fotógrafo, jornalista, artista visual e membro da Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil. É o diretor e editor da publicação Jornal de Fotografia. Neste artigo para a Revista Sala de Fotografia, ele nos conta e nos mostra com suas fotos de uma região semiárida, no fundo da caatinga brasileira.

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Madrugada fria do inverno curitibano, silêncio quase absoluto, estivesse eu no sertão caatingueiro, teria que acender um dos fifós de minha coleção, para lumiar o papel da escrita, destas palavras, atendendo a minha amiga gaúcha e editora, Liliane Giordano, com este ensaio para sua revista! Mas como estou em Curitiba, uma moto rasga o silêncio com seu som ensurdecedor e desnecessário. Já são 133 dias de recolhimento, neste tempo suspenso, imposto à humanidade por um ser invisível! No entanto a história aqui é outra e dou um retorno: 1993, Caatinga da Gameleira, Fazenda Casa dos Carneiros, depois de 13 anos volto ao sertão, ao fundo do sertão e naqueles secos dias de final de novembro começo o ensaio Sertanar que só fui acabar em maio de 2008. Ainda no tempo dos filmes e das revelações. Fiz tudo. E está à espera de publicação de um livro, que deve sair em breve! Outro salto no tempo: dezembro de 2018, fui a Casa dos Carneiros para escrever um texto, in loco, para apresentação de Sertanar e desta vez, em meio às palavras, caiu um grande aguaceiro em alguns dos dias que por lá fiquei e, numas voltas pela fazenda e região, saiu este ensaio com estas raras fotografias de uma região semiárida, no fundo da caatinga brasileira, onde muitas vezes, nas secas bravas, os bodes comem até papel. Com vocês a minha Caatinga Verdejante!

Alberto Melo Viana, Curitiba, Paraná, na quadra de julho de 2020 Notas: *Fifó – pequeno candeeiro artesanal, à base de querosene, muito usado no nordeste. *Sertanar – verbo criado por mim, na fazenda Casa dos Carneiros, em 1993, para dar nome ao ensaio citado no texto. Foi, na época, conjugado pelo professor, linguista e poeta Leopoldo Scherner. *Gameleira – vilarejo e região, no município de Vitória da Conquista, sudoeste da Bahia, onde fica a fazenda Casa dos Carneiros, do primo Elomar Figueira Melo, músico e compositor de altíssima grandeza do nosso país e que por lá mora e produz, nos seus 82 anos. (http://www.elomar.com.br/)

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aprendemos nos livros

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Percepção Artística: atividade criadora da mente humana, que é uma ação transformadora. O filtro perceptivo processa o mundo em nome da criação: em uma coleta sensível e seletiva, o artista recolhe aquilo que o atrai. Há renitências de seu olhar que refletem o modo de um determinado artista se apropriar do mundo. As percepções interagem com a experiência passada, portanto, não é divorciada da memória. As sensações tem papel amplificador, permitindo que certas perceções fiquem na memória. Cecília Salles, 2010 71


Anรกlise de Festival

Colรณquio III Colรณquio de

Fotografia da Bahia 72


O Colóquio de Fotografia da Bahia se propõe a promover o diálogo entre autores de pesquisa acadêmica, geralmente vinculados a programas de pós-graduação, e os criadores artísticos, que experimentam a fotografia no plano poético. A III edição do evento ocorreu na Escola de Belas Artes da UFBA, entre os dias 24 e 25 de outubro de 2019, em Salvador. O tema desta vez foi sobre a Fotografia Latino-americana - percursos e protagonistas. 73


Primeiras apresentações A primeira palestra, que ocorreu na quinta-feira, dia 24 de outubro de 2019, foi a “Fotografia latino-americana, tendências e perspectivas” com o professor da Universidade Regional do Cariri (CE), Titus Riedl. Ele apresentou o percurso da fotografia latino-americana a partir de suas investigações e participações em diversas exposições, encontros acadêmicos, galerias, festivais e pesquisas em redes sociais. Buscou instigar, assim, uma reflexão sobre visões estereotipadas e também inovadoras da fotografia e apontar para possíveis novos rumos. E fez uma breve análise das antologias e dos foto-livros publicados no país e também na Europa e nos Estados Unidos. Titus iniciou falando sobre as viagens pitorescas pela América Latina, fazendo um percurso histórico da pouco contada fotografia latinoamericana popular, que está na memória da população, mas é uma fotografia artisticamente não elaborada e não reconhecida. Os fotolivros sobre a América Latina conhecidos não são de fotógrafos latinos – são obras que inspiram pela riqueza cultural, mas que contém uma narrativa diferente, de um olhar estrangeiro. Como exemplo, temos Marcel Dupont e Pierre Verger – este último um francês radicado na Bahia que fez um trabalho rico de documentação, o que compõe a presença da Bahia nesta narrativa da América Latina. Já nomes de fotógrafos que são referências importantes na divulgação da América Latina são exemplos Pedro Meyer, o peruano Martín Chambi - que é considerado o primeiro fotógrafo indígena latino-americano a retratar seu povo para construir o patrimônio imemorial - o mexicano Manuel Alvarez Bravo – que realizou seus primeiros daguerreótipos em 1915 e foi um do que mais influenciou a tendência da fotografia latina, com um olhar poético e humanista, que muito corresponde a este realismo 74


mágico que ganha o mundo. O professor também mencionou o brasileiro Sebastião Salgado, que, de acordo com ele, talvez seja o que mais conseguiu projetar sua marca, apesar de não contemplar em seu trabalho tanto o registro da América Latina. Para um olhar mais romantizado e encantador dos indígenas, Titus relembrou Claudia Andujar, uma das pioneiras do século XX – que ressaltou o papel de resistência dos indígenas. Já a fotografia afrodescendente não está muito representada na história: temos Pierre Verger com o trabalho sobre os Orixás. E hoje temos Walter Firmo, 75


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Eustáquio Neves, André Cipriano, Heráclito, Marta Azevedo, Rosana Paulina, que tem uma repercussão boa. Estes estudos, ainda segundo o palestrante, tentam mostrar uma narrativa que foge um pouco do olhar eurocêntrico. Afinal, é uma fotografia que busca uma nova perspectiva. Luís Gonçalves Palma que vive na Argentina, está em grande parte das publicações, mas tem outros tantos que não constam nas referências. Miguel Rio Branco e Mario Cravo Neto mantém são uma constância nestas obras. Tito ainda destacou o olhar feminino que também está presente, como Frida Kahlo, que não é fotografa, mas que as suas imagens estão relacionadas a fotografia, (o pai era fotógrafo, e ela por sua vez era uma grande colecionadora). E também foi modelo para muitos fotógrafos, dentre eles Lola Alvarez Bravo, esposa de Manoel e uma excelente profissional, que traz o espirito de libertação do México. Outra figura é a italiana Tina Modotti, que associou a sua presença no México, e tem muitas participações até mesmo no cinema. Continuando na temática feminina, o professor ressaltou que a mulher tem um lugar de destaque na atualidade. Mulheres que fizeram vanguarda, trouxeram um olhar do abstrato ao concreto, sem um limite. Uma das pioneiras foi Graciela Iturbide, que trouxe este olhar mais concreto e conviveu com diversos dos grandes destaques da cultura latina, como o escritor Gabriel Garcia Marquez. Mariana Yampolsky nasceu nos EUA, mas desenvolveu todo seu trabalho no México. Gertrude Duby Blom, que nasceu na Suíça - o que se repete: muitas nasceram em outros países, mas se apaixonaram pelos povos indígenas - e hoje tem uma casa em Oxaca com suas referências aos índios. Kati Horna era húngara, mas também associada no México. A alemã Grete Stern foi uma das pioneiras da fotografia na Argentina. Ane Mary foi uma das pioneiras da fotografia de celebridades, também na Argentina. A nova geração foi incentivada a partir dos trabalhos na Funarte com Ângela Magalhães e Nádia Pelegrino, que iniciam um movimento nos anos 80 e 90 dos encontros, festivais. A partir dos anos 90, acontece um movimento que não tem interesse em agradar muito pela poética, e entra em outro aspecto do documental. No Brasil, Cassio Vasconcelos e Claudia Jaguaribe retratam esta selva de pedra, com um olhar mais arquitetônico. Um nome contínuo dos colóquios, Marcelo Brodsky, que trabalha entre Buenos Aires e São Paulo, perdeu um irmão que desapareceu e fez disso um dos seus assuntos relacionado aos direitos humanos. 77


Tito fala também sobre a documentação sobre as Malvinas, sobre histórias na Colômbia e Peru relacionadas a violência urbana. Cita Maya Bonete, referindo-se aos espaços da prostituição e da fronteira. O palestrante ressaltou a importância dos fotolivros e do incentivo público, como nos Estados Unidos, onde há instituições que disponibilizam bolsas de estudo, incentivos para livros, e também de visibilidade com a possibilidade de mostras e exposições. Dentre as tantas referências citadas, podemos destacar Daniela Rossel – que fotografou mulheres super ricas, que fazem parte da elite e que mostram a ostentação, e Marcos Lopes – cujas fotos ironizam a sociedade. Nelson Garrido - da Venezuela, que faz um jogo irônico com o sentimento católico cristão, e Mauricio Tolgoia, do Clhile, que mistura em suas fotos elementos da história e da iconografia. Geraldo Batioclinti, que recria cenas de mortes, lembrando dos imigrantes que são mortos na fronteira, em uma estetização da morte, e Adriana Luck, que também tem um olhar kitsch. Há uma concentração de curadores e instituições, que abraçam o tema da América Latina. Existe um movimento de valorização inclusive de publicações de alguns dos maiores nomes de artistas no Brasil, como Cildo Meireles, Vick Muniz, Tunga, Rosângela Rennó – que trabalha em torno da fotografia e a utiliza como matéria-prima para seus projetos. Para o palestrante, os coletivos já estão em crise. Há um problema de reconhecimento de autoria, o que aproximou os coletivos foram os editais e bolsas, mas está faltando incentivo. Ainda como uma das conclusões como o seu percurso de pesquisa, Tito questiona: o que causa a necessidade de seguir fotógrafos americanos e europeus e não da América Latina? Uma saída para 78


divulgar nossos autores seria fazer mais fotolivros, publicações que fogem da lógica publicitária e poderiam ser divulgados. É preciso mais feiras para divulgação e a necessidade de maior padrão de qualidade. “A fotografia é uma das expressões mais fortes nos dias de hoje”. Uma possibilidade, de acordo com o palestrante, é mostrar as múltiplas publicações para que possam ser conectadas e serem acessíveis a todos. Tem que haver uma preocupação de como interconectar estas publicações e transformar isso em um acervo.

Corpo e Feminismo O primeiro painel da tarde no III Colóquio da Bahia iniciou apresentando Luciana Berlese, que é fotógrafa, professora universitária e mestre em Comunicação e Linguagens. 79


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Luciana começou a sua fala apresentando um recorte do trabalho “Relicário” e lendo um texto poético que contava suas percepções na infância, dos álbuns de família, visto na casa das avós, como experiências que marcaram sua vida. “Quando criança, adorava brincar com minhas avós de ver fotografias e ouvir as histórias que as imagens contavam.” Luciana relembrou que uma das avós tinha um álbum com capa de couro e papel vegetal entre as páginas, organizado cronologicamente, que retratava a sua família. Já a outra avó tinha uma caixa com fotografias. As imagens brotavam sem ordem de tempo, mas com uma força narrativa própria, que mudava cada vez que pedia para ver aquela coleção singular. “Apesar da diferença com que cada uma se relacionava com suas imagens, a fotografia era a protagonista de uma maneira muito preciosa de ver, conhecer e compreender o mundo.” Depois de adulta, morando em outro país, Luciana viveu o luto da morte de suas avós por meio de imagens. Quando voltou ao Brasil, percebeu que aquele lugar como um lugar que não existia mais. Assim, começou um inventário imagético. “Relicário”, de Luciana Berlese, propôs uma reflexão sobre memória afetiva e a sua relação com a fotografia, um trabalho que fez uma virada no seu percurso e que mostrou o desenvolvimento do seu processo criativo. No trabalho, separados do seu contexto atual, os objetos retornam à sua condição de origem: um lugar efêmero, onde habitam os relatos longínquos e os inventados. A representação imagética destas recordações foi construída com base nos pensamentos de 3 livros. O primeiro foi A Câmera Clara, de Barthes (1984). O segundo foi o livro As pequenas Memórias, de José Saramago (2006), em que ele fala da relação dele com os avós e a infância e no qual ele percorre a trajetória de uma casa que não existia mais. E o terceiro livro foi A poética do espaço, de Gaston Bachelard (2010). Na composição de cena, Luciana optou por incluir miniaturas de móveis antigos para manter o efeito tridimensional. A concepção da iluminação foi feita com luz natural transformada em signos que apontam para os lapsos da memória, cada imagem com seu efeito particular. “Na parede branca, como uma galáxia de rostos, era onde se reuniam os retratos da família (…). Estavam ali como peças de um relicário coletivo, fixos, imutáveis” (Saramago, 2006, p. 84). O ensaio, composto por 11 fotografias, 81


reconstrói simbolicamente um espaço-tempo do afeto, onde o vazio é preenchido pelos objetos pessoais que levam à morada da infância e dos sonhos: a casa da avó. Com o inventário imagético dos objetos que ocuparam a casa das avós, já falecidas. As imagens em papel, transformaram-se em miniaturas fotográficas recortadas com tesoura e estilete. Sobre o seu processo de criação, Luciana também relatou que já havia passado muito tempo, e pensou que ou terminava ou não conseguiria mais prosseguir, e assim teve uma catarse criativa: depois de muito tempo no seu processo criativo, em duas manhãs ela resolveu a história. Fez também um vídeo que, com a interferência da música, lhe pareceu uma história contada pela avó. Compondo o painel juntamente com Luciana estava a fotógrafa chilena Joana Mazza - curadora e produtora cultural. “Artistas e Fotógrafas Mulheres na América Latina: O corpo frente à vertigem do pós-orgânico”, foi o tema de sua fala. Joana iniciou sua pesquisa de gênero a partir da perspectiva de distanciamento, baseada numa análise complexa das relações sociais e de obras já produzidas. Um lado tem o pós-orgânico e outro o póshumano, e autores como Paula Sibila apontaram várias leituras sobre estas questões e dessa ideia 82


do aprimoramento do código genético, o DNA e o genoma humano, a percepção do corpo humano a partir de uma leitura de código, e questões do que estamos nos tornando, o que realmente queremos ser e debates de conteúdo político que não deveriam ser deixados ao acaso. Diante dessas transformações sociais e culturais, destacam-se a relação com o tecnocosmos digital e os resultados alcançados pelo “Projeto Genoma Humano”. De acordo com Joana, estes fatores somados apontam para a obsolescência do corpo humano, que agora pode ser decifrado de forma semelhante ao software e os conceitos de atualização e eliminação de falha estão cada vez mais presentes, como David Le Breton confirma em “Adeus ao Corpo” (1999). Os paradigmas em pauta estão presentes em uma perspectiva de gênero ao menos desde a publicação do “Manifesto Ciborgue” de Donna Haraway (1985), culminando nos últimos anos com a teoria do fim da era do homem. Sua fala apresentou a existência de um corpus de artistas e fotógrafas mulheres latino-americanas onde é possível identificar estes temas, mesmo antes da formulação do conceito de corpo pósorgânico, complementado com uma análise crítica de determinados trabalhos, a fim de dar visibilidade a questões que emergem das obras sobre os novos conceitos de “corpo” que estão em pauta. O painel 1 ainda contou com a presença de Olga Wanderley - Olga Wanderley é fotógrafa, educadora e pesquisadora em fotografia -, que falou sobre “Corpo, potência e significação na fotografia feminista latino-americana”. Olga discutiu a arte feminista, na qual inúmeras artistas têm utilizado seus próprios corpos como material para proporcionar debates e representações importantes em torno das políticas de gênero e das opressões sofridas pelas mulheres. Ela trouxe um olhar sobre a fotografia contemporânea produzida na América Latina, pensando na autorrepresentação do corpo pelas fotógrafas como suporte de criação simbólica e significação política em relação ao gênero feminino. No campo da criação fotográfica, Olga citou que pode-se observar esta prática em trabalhos de fotógrafas contemporâneas latino-americanas, tais como Gabriela Rivera, Ana Casas Broda, Priscilla Buhr, entre outras. A palestrante citou também refências teóricas que refletem sobre as produções discursivas que exercem poder sobre os corpos, tais como Michel Foucault e Giorgio Agamben, em seus estudos sobre a biopolítica, e Judith Butler, em suas teorias sobre a performatividade de gênero, além de outras teóricas feministas, como Bell Hooks e Silvia Cusicanqui. 83


Narrativas O tema do painel 2 do III Colóquio da Bahia foi “Narrativas Históricas”. Um dos participantes foi Marcelo Reis - formado em Jornalismo e mestrando do Curso do Gestec - , que explicou sobre o seu projeto “Anima Latina”. Nele, Marcelo procurou oferecer um olhar crítico, do processo de formação da nossa alma latina, de nossa ancestralidade, discutindo sobre a nossa identidade no contexto de fatos históricos como a miscigenação. Ele destacou que pouco sabemos ou não queremos saber até que ponto essa miscigenação foi fruto de um desejo ou de imposições. Suspeita-se que uma força bruta obrigou nossos ancestrais a cruzarem, como animais selvagens, com quem não desejavam. Roubaram-lhes a alma. Outra participante do segundo painel foi Priscila Miraz de Freitas Grecco - professora do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia -, que falou sobre o tema “Redes fotoclubistas e a 1ª Exposição Latino Americana de Fotografia: circulação de imagens na década de 1950 entre Brasil, México e Argentina”. Sua fala teve como ponto de partida o Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), fotoclube paulistano conhecido pela produção da fotografia moderna no Brasil durante a década de 1950. Ao longo de sua fala, procurou analisar suas conexões com a produção fotoclubista na América Latina. Os países que se destacaram nesse processo de correspondência entre clubes foram México e Argentina, respectivamente o Club Fotográfico La Ventana e La Carpeta de Los Diez. Mauro Trindade - professor de História e Teoria da Arte no Instituto de Artes da UERJ e coordenador do Núcleo de Fotografia da UERJ e do Projeto Coletivo MALTA - foi outro integrante do Painel 2 do Colóquio. Ele trouxe um questionamento se é possível pensar numa fotografia latino-americana ou se a própria concepção de “América Latina” ainda precisa ser posta em suspensão. Também citou algumas referências teóricas importantes como crítico peruano Juan Acha e dos historiadores Georges DidiHuberman, da França, e do argentino Rodrigo Gutièrrez Viñuales.

Enlaces O Colóquio da Bahia também promoveu uma segunda palestra. A convidada foi Maíra Gamarra 84


- fotógrafa, produtora cultural, curadora, editora e pesquisadora de fotografia. Ela falou sobre “Enlaces da fotografia latino-americana: estratégias, aproximações e ações em rede”. Maíra ressaltou que o campo da fotografia na América Latina se configurou a partir da construção de uma série de ações culturais realizadas na região desde o final do século XX. Estes eventos desejam expandir o alcance dessa produção fotográfica. Tais eventos, ponderou ela, foram fundamentais para a configuração que o campo assumiu, regional e internacionalmente, ao longo de pouco mais de 40 anos. São momentos emblemáticos onde se deram a criação e a consolidação da ideia e do conceito de fotografia latino-americana – uma categorização ainda hoje complexa e controversa – e a constituição de uma rede da fotografia latino-americana. Descolonização O terceiro painel do Colóquio da Bahia de 2019 teve como um dos convidados Pedro Silveira - fotógrafo, graduado em Comunicação Social. Ele falou sobre “Efemérides da Gênese” – o tema de sua monografia. O trabalho foi inspirado na história de um quilombo situado no Alto Sertão da Bahia. De acordo com Pedro, a narrativa se tornou muito emblemática ao articular passado histórico, história oral e a atual paisagem social, cuja representação fotográfica extrapola a localização geográfica e os limites temporais. Ao longo dos anos de trocas e convívio com a comunidade, 85


a linguagem documental precisou expandir sua roupagem clássica para conseguir atravessar tempos e lugares tão distantes e distintos. Uma significação fotográfica de natureza mista, que se manifesta entre figuras dramáticas de um enredo metafórico, pautado por um contraste latente, delineados pela edição de um ensaio. Em 2013, “Efemérides da Gênese” foi contemplado com o Prêmio Funarte Marc Ferrez, além da bolsa de estudos concedida pela Magnum Foundation. Em 2015 o projeto foi concluído com um catálogo auto publicado. Desde então, já foi publicado ou exibido por revistas, prêmios e festivais de fotografia nos EUA, Espanha, França, Suíça e Brasil. Outros convidados do terceiro painel foram Bruno Oliveira Alves - doutorando em Tecnologia - e Luciana Martha Silveira - professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná no departamento de Design e Programa de Pós-graduação em Tecnologia. O tema de suas falas foi “Os deslocamentos de sentido na série Bastidores, de Rosana Paulino”. Eles trouxeram a questão de como as artes visuais têm mudado de meados do século 20 (seja por meio da fotografia, pintura, artes gráficas ou audiovisual), conforme a noção, sentimento e percepção de realidade na sociedade até esse início de século 21. Já Sarah Gonçalves Ferreira - mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Temporalidades da Universidade Federal de Ouro Preto 86


– falou sobre “Do trauma ao testemunho: fotografias da mulher negra na obra Assentamento”. Ela analisou “Assentamento”, trabalho de Rosana Paulino (1967), que propôs uma nova mirada sobre fotografias de mulheres escravizadas. As fotos reapropriadas pela artista sofrem intervenções manuais de corte, costura e bordado e passam a operar dentro de outra instância de significação.

Protagonistas O quarto painel do Colóquio da Bahia trouxe Carolina Kotchetkoff - fotógrafa e cientista social – para falar sobre seu trabalho “Erosão provoca avanço do mar e reduz território de São Paulo”. O projeto, explicou ela, é um recorte de seu trabalho realizado na Ilha do Cardoso, litoral sul de SP, numa comunidade caiçara em processo de desaparecimento, onde registrou, desde 2017, a modificação da paisagem devido a uma erosão. Memória, esquecimento e invisibilidade permearam este trabalho que retrata a desconstrução deste território como lar e sua ressignificação como história e pertencimento. A convidada seguinte foi Cláudia Lima – mestre em comunicação e artista -, que falou sobre o seu estudo intitulado ““Adenor Gondim, o fotógrafo da ventania e sua estética libertária. Neste trabalho, ela levantou questões em torno da participação deste importante retratista brasileiro na construção do pensamento fotográfico e do imaginário 87


identitário sobre Salvador, capital da Bahia. Sua obra eclética perpassa alguns importantes movimentos artísticos. Osmar Gonçalves dos Reis Filho - doutor em Comunicação - e Taís Marques Monteiro - mestre em fotografia e audiovisual - fecharam o painel falando sobre “Juchitán (1979-1989) – a construção de um ensaio fotográfico fabulatório a partir de um fazer dialógico”. O estudo analisou o retrato Nossa Senhora das Iguanas, de Graciela Iturbide. A imagem apresenta uma mulher de traços indígenas que exibe uma inegável intensidade no semblante. No México, Iturbide conviveu com as mulheres que posam em suas fotografias por uma década. Ela construiu ali o ensaio que nos mostra um tempo-lugar que não é referente a algo préexistente: um conjunto de imagens nas quais habitam sujeitos fotográficos míticos em Juchitán. Já no evento seguinte, a segunda conferência do Colóquio da Bahia, a fotógrafa mencionada neste estudo esteve presente, ela que é autora de um sensível retrato da nossa identidade latina. Graciela Iturbide falou sobre “La fantasia es el lugar en el que llueven las imágenes”. A fotógrafa mexicana foi comissionada pelo Arquivo Etnográfico do Instituto Nacional Indígena do México para fotografar a população indígena local. Em 1979 ela foi convidada pelo artista Francisco Toledo para registrar o povo Juchitán que faz parte da cultura zapoteca, nativa de Oaxaca no sul do México. A série de Iturbide, que começou em 1979 e vai até 1988, resultou na publicação de seu livro “Juchitán de las Mujeres”, em 1989. Entre 1980 e 2000, Iturbide foi convidada para trabalhar em Cuba, na Alemanha Oriental, na Índia, em Madagascar, na Hungria, em Paris e nos EUA, produzindo vários importantes grupos de trabalho. Vive e trabalha na Cidade do México. 88


Conclusões De acordo com a organização do evento, O Colóquio de Fotografia realiza, neste terceiro ano, a ambição de dissolver as fronteiras do nosso território, ampliando seu alcance, ainda que de forma modesta, aos percursos e protagonistas da Fotografia Latino-Americana. A Comissão Organizadora recebeu 97 propostas de comunicação. Coube aos comitês Artístico e Científico, compostos por acadêmicos e artistas visuais, préselecionar os projetos que a equipe de curadores examinou para definir os painéis temáticos. O aumento de inscritos em relação aos anos anteriores pode ser visto como resposta da comunidade fotográfica ao formato Colóquio. É o único do Brasil que seleciona, via edital, trabalhos de naturezas científica e artística em um mesmo evento. A terceira edição do Colóquio trouxe importantes nomes da fotografia latino-americana a Salvador, como o uruguaio Daniel Sosa, diretor do Centro de Fotografia de Montevidéu, que relatou sua experiência como gestor de um dos mais importantes institutos de promoção da cultura fotográfica na América Latina. Além das conferências, quatro painéis temáticos aproximaram acadêmicos e fotógrafos em diálogos em torno de questões contemporâneas. 89


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Festivais Festivais de fotografias: Vozes - Artigo

origens e função social

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Por Milton Gurdan fotos de Liliane Giordano Fotógrafo e antropólogo, um dos coordenadores do FotoRio e vice-presidente da Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil. Pesquisador associado do LABHOI – Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense Este artigo teve origem em uma entrevista concedida a Paulo Marcos de Mendonça Lima, do Ateliê Oriente, em 29 de junho de 2020, disponível em https://www. instagram.com/tv/CCCSjASJcrH/?igshid=a3elbbf6n1kk 93


Nesse texto, como o título indica, apresentamos um breve esboço do surgimento dos festivais de fotografia no país e algumas reflexões sobre o seu funcionamento. Quando fizemos a primeira edição do FotoRio – Encontro Internacional de Fotografia do Rio de Janeiro, em 2003, havia no país apenas dois eventos culturais do gênero: o Mês Internacional da Fotografia de São Paulo, uma iniciativa do NA FOTO– Núcleo dos Amigos da Fotografia, e o Canela Foto Workshop, no Rio Grande do Sul, criado um ano antes. Hoje temos 29 festivais e seis encontros e colóquios fotográficos filiados à Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil, cobrindo todas as regiões do país. Como se deu isso? Um velho ditado popular diz que “a função faz o órgão”, ou seja, diante de uma demanda, surge um instrumento para contemplá-la, sobretudo quando se trata de uma demanda da sociedade. Assim sendo, as arenas eminentemente fotográficas foram várias ao longo desses quase dois séculos de existência da imagem técnica. Primeiro vieram as sociedades fotográficas, com lustros científicos, que depois se popularizaram no formato de foto-clubes, presentes em praticamente todos os países do Ocidente na primeira metade do século XX. 94


Voltados, principalmente, para a expressão plástica da fotografia amadora, os foto-clubes foram um grande impulsionador das pesquisas estéticas e técnicas, através da realização de salões e exposições e, com a publicação de revistas e boletins, deram espaço para um verdadeiro debate em torno da fotografia. 95


São bastante estudados, atualmente, os foto-clubes que eram baseados no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre como um espaço de surgimento do que é hoje conhecido como a fotografia modernista entre nós. No campo estritamente profissional, principalmente a partir da década de 1950, os fotógrafos de publicidade organizaram associações próprias e o segmento do fotojornalismo se fez representar através das ARFOCs, associações dos repórteresfotográficos e cinematográficos, presentes em vários estados até hoje. Com o desmantelamento da representatividade sindical pelo regime militar, essas entidades acabaram em mãos pelegas, voltadas principalmente para interesses paroquiais. As principais questões desta faixa de profissionais passaram a ser tratadas no âmbito dos sindicatos dos jornalistas e, num espectro mais amplo, em um outro tipo de organização, exemplificada pela União dos Fotógrafos de Brasília, que foi replicada em São Paulo1. Ali eram tratadas questões centrais daquele um momento político marcado pela luta pela redemocratização do país, que demandava novas posturas profissionais para produzir informação de qualidade e, assim, romper o círculo vicioso das informações controladas pelo regime e pelo monopólio da grande imprensa. Nesse quadro, a pauta de reivindicação dos fotojornalistas, apoiados pelo fotógrafos em geral, era pelo respeito aos direitos autorais, ao crédito, por uma tabela de preços mínimos para serviços de free-lancer, pela posse dos negativos através do reconhecimento de um contrato de uso de imagem em substituição ao contrato de cessão definitiva dos direitos autorais imposto pela empresas jornalísticas. A essa luta se somou o empenho em produzir pautas 96


próprias, cobrindo o que de importante acontecia no país e que era sistematicamente ignorado pela grande imprensa. Essa luta se consolidou com a adoção das teses dos repórteres-fotográficos pela FENAJ em seu congresso realizado em Guarapari (ES) em 1984. A partir daí, tomou corpo o que chamamos de movimento das agências independentes, pensadas nos moldes das cooperativas europeias como a Magnum, por exemplo. Em 1979, uma nova geração de agências (coletivos voltados para o mercado do fotojornalismo e da fotografia corporativa) começou a se formar. Essas estruturas se diferenciavam das agências de fotógrafos existentes na época - como a Focontexto, de Porto Alegre, dirigida por Assis Hoffmann, e a Vix, de Vitória, dirigida por Rogério Medeiros – por reuniram um grupo de fotógrafos independentes que tinham como proposta um funcionamento cooperativado. A primeira a surgir foi a Agência Central Fotojornalismo, seguida pela F4 e,

Nota 1 - A União dos Fotógrafos de Brasília foi fundada em 1978 e serviu de modelo para a criação da União dos Fotógrafos de São Paulo, que organizou uma importante exposição em 1983 (https://enciclopedia. i ta uc u l t u ra l .o rg . b r/eve n to 5 6 5 49 4 /m o s t ra - de fotografia-da-uniao-dos-fotografos-1983-sao-paulosp)

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pouco depois pela Angular, em São Paulo, e a AGIL Fotojornalismo, em Brasília, da qual eu fiz parte2. Esse modelo funcionou muito bem durante o processo de redemocratização, quando havia uma demanda expressiva por informação de qualidade por parte do conjunto da sociedade. Com a derrota da lei das eleições diretas, a morte de Tancredo Neves, presidente eleito indiretamente pelo Congresso Nacional, e a posse de José Sarney houve um refluxo de todo esse movimento, as forças políticas hegemônicas se acomodaram voltaram a controlar totalmente a circulação da informação no país. O foco do movimento fotográfico foi paulatinamente se voltando para um arco mais amplo, que incluía praticamente todas as vertentes da fotografia, com forte ênfase na expressão pessoal. Foi quando Pedro Vasquez substituiu o fotógrafo Zeca Araújo na direção do Núcleo de Fotografia da Funarte, transformando-o mais tarde no INFoto - Instituto Nacional da Fotografia, a mais importante estrutura de estado voltada para a nossa área que existiu no país. O primeiro grande projeto dessa nova administração foi reunir representantes de todas as regiões do país para pensar um projeto para a fotografia brasileira3. Pedro Vasquez, que na época tinha chegado de uma formação na França, apresentou a ideia de se organizar um encontro nos moldes do famoso evento Rencontres d’Arles, criado em 1970 na cidade francesa de Arles pelo fotógrafo Lucien Clergue, pelo escritor Michel Tournier e pelo historiador Jean-Maurice Rouquette. Inicialmente voltado apenas para o ensino livre do fazer fotográfico, o evento francês foi se modernizando e continua a ser um dos mais importantes fóruns da fotografia mundial até os nossos dias. Proposta feita, proposta aceita, essa reunião de representantes ficou conhecida como a I Semana Nacional da Fotografia. A II Semana, por sinal, aconteceu em Brasília, de 15 a 19 de agosto de 1983, organizada com apoio da UnB e da União dos Fotógrafos, pela Luísa Venturelli, professora de fotografia na Faculdade de Comunicação, e por mim mesmo. As Semanas Nacionais da Fotografia, marco maior da política de estado para o setor, tiveram oito edições, de 1982 a 1989, que se distribuíram por todas as regiões do país. Apesar das dificuldades que a área cultural enfrentou a partir do governo Collor, que extinguiu a Funarte, a semente da comunhão entre os fotógrafos já tinha sido muito bem plantada e, em 1991, revivei na Semana de Fotografia da Cidade de Curitiba, promovida pela Fundação Cultural da cidade. A participação dos fotógrafos foi tão maciça que - lembra Alberto Viana, seu organizador - no almoço 98


oferecido aos participantes pelo Prefeito Jaime Lerner, o historiador e fotógrafo Boris Kossoy disse, entusiasmado, que “se caísse ali uma bomba naquela hora acabaria a fotografia brasileira”. Mais tarde, em 1996, também por iniciativa da Fundação Cultura da cidade, foi criada a Bienal Internacional de Fotografia Cidade de Curitiba4, que teve duas edições e deixou de herança o mais antigo museu de fotografia de uma cidade brasileira. Uma nova e ambiciosa inciativa se deu em São Paulo em 1991, com a criação do NAFOTO - Núcleo dos Amigos da Fotografia, com objetivo de realizar um evento bienal que foi batizado de Mês Internacional de Fotografia, tendo como modelo o Mois de la Photo da cidade de Paris. Sua primeira edição se deu em 1993 e, embora tenha perdido parte do seu

Notas 2 - A AGIL Fotojornalismo funcionou de 1980 a 1988, tendo se consolidado com os fotógrafos André Dusek, Beth Cruz, Duda Bentes, Júlio Bernardes, Kim-Ir-Sem e Milton Guran. 3 - Fizeram parte dessa reunião, realizada no Rio a partir de 16 de agosto de 1982, Bené Fontelle (MT), Cláudio Versiani (MG), Gustavo Moura (PB), José Albano (CE), Luiz Carlos Felizardo (RS), Milton Guran (DF), Nair Benedicto (SP), Orlando Azevedo (PR), Rino Marconi (BA) e Waldir Azevedo (PE). 4 - A Bienal esteve sob a direção do fotógrafo Orlando Azevedo

nas suas duas edições. acesse http://enciclopedia.

itaucultural.org.br/evento511196/bienal-internacional-defotografia-cidade-de-curitiba-1-1996-curitiba-pr

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ímpeto a partir de 1997, foram realizadas mais quatro edições, até 20075. Ao começar o terceiro milênio, os festivais voltaram à cena como uma nova forma de interação social, artística e cultural capaz de mobilizar os fotógrafos. Àquela altura, já havia dezenas de festivais pelo mundo afora, congregados em uma organização chamada Festival da Luz. Em 2002, como já mencionamos, nasceu o Canela Foto Workshop, organizado pelo fotógrafo Fernando Bueno e por Liliana Reid, com apoio da Fundação Cultural da cidade de Canela6. Em 2003, foi a vez do FotoRio, incialmente bienal e anual a partir de 2014. Logo depois vieram o Paraty em Foco, o FestFotoPoA, o Foto em Pauta/Tiradentes, para citarmos apenas os internacionais, e, em 2018, surgiu o Foto Festival Solar, em Fortaleza, o mais recente dos festivais desse porte.

Notas 5 - O NAFOTO foi criado em 09 de abril de 1991, no espaço da Galeria da Fotótica, com a intenção de divulgar a fotografia brasileira no nosso país e no exterior”. Fizeram parte da primeira Diretoria/Coordenação: Eduardo Castanho, Eduardo Simões, Fausto Chermont, Isabel Amado, Juvenal Pereira, Marcos Santilli, Nair Benedicto, Rubens Fernandes Jr e Stefania Brill. 6 - O CFW, hoje na sua 16ª edição, conta ainda, desde a sua criação, com a participação dos fotógrafos Clovis Dariano, Leopoldo Plentz, Luiz Carlos Felizardo, Manoel da Costa, Marcos Zimermmann e Raul Krebs, dentre outros.

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Em 2010, por iniciativa dos festivais, foi criada no âmbito do Paraty em Foco, sob a direção de Iatã Cannabrava, a Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil porque nós precisávamos de um instrumento de intervenção na sociedade como um todo, capaz de conferir à fotografia um protagonismo no universo político de formulação de políticas públicas7. 101


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Os foto-clubes desapareceram e os antigos sindicatos, federações e associações deixaram de nos representar de fato. Da mesma forma que a União dos Fotógrafos não representava mais, as agências não representavam mais. O que representa o campo fotográfico em termos de ação cultural, no momento, são os festivais e a Rede. Cabe ainda lembrar, para concluir a linha de pensamento que mostra que novas situações engendram novos instrumentos de ação social, o que tem acontecido face à pandemia COVID 19. Temos visto, no exterior como entre nós, os fotógrafos se organizarem em torno de várias ações seja para produzir documentos coletivos sobre esse momento invulgar, seja para apoiar financeiramente setores mais vulneráveis da sociedade. Assim é que os festivais – sempre eles – levaram a frente uma convocatória de fotos documentais e interpretativas da pandemia intitulada Por dentro do Tempo Suspenso que, em curto espaço de tempo, reuniu mais de 14 mil imagens de cerca de 1.200 autores8. Ao que eu saiba, desde que o antigo Núcleo de Fotografia da Funarte promoveu convocatórias abertas para exposições sobre temas específicos, não houve no país, nem na esfera pública nem por iniciativa particular, outra inciativa com a abrangência e a dimensão deste projeto.

Talvez a grande lição desta pandemia seja a tomada de consciência de que a diversidade é a regra e a absurda desigualdade social do país é inaceitável até porque estamos todos no mesmo barco e temos de nos ajudar. Notas

7 - Para saber mais, acesse: https://www.facebook.com/rpcfb/ ; https://twitter.com/rpcfb ; https:// www.instagram.com/rpcfb.rede/ ; https://vimeo.com/rpcfb e https://olhave.com.br/2010/03/rede-deprodutores-culturais-da-fotografia/ 8 - O projeto Por dentro de um tempo suspenso foi organizado pelo Foto em Pauta, FotoRio, Foto Festival Solar e Doc Galeria e coordenado por Eugênio Sávio, Milton Guran, Monica Maia, Paulo Marcos de Mendonça Lima e Tiago Santana. Para saber mais acesse youtube/foto em pauta.

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Assim é que pelo menos vinte ações, apenas no âmbito da Rede, se propuseram a angariar recursos para apoiar fotógrafos que perderam renda e organizações nãogovernamentais que prestam assistência a populações vulneráveis em todas as regiões do país.

Uma mobilização desta envergadura só se tornou possível porque entramos em um modo de funcionamento fundado nas conexões que as nossas práticas de organização por mais de 40 anos, empoderadas pelas novas tecnologias, nos propiciaram. Em rede, coletivamente conectados e atuantes. Qual será o próximo passo? Por Milton Guran 105


aprendemos nos livros

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Sonho e memória são formas de sequestro. Histórias do não ver de Cao Guimarães

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Exposição

Cidadãos Cidadãos do mundo

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Por Liliane Giordano Esta exposição foi exibida na Câmara de Vereadores de Caxias do Sul durante o mês de agosto, e também fez parte da Semana da Fotografia 2019do município. Ela foi uma comemoração ao título de cidadã caxiense recebida por Liliane neste mesmo mês. Seu objetivo era homenagear todos os cidadãos do mundo, em retribuição à homenagem recebida.

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Somos todos cidadãos do mundo. Mas dentro dele, todos nós nascemos em alguma parte deste planeta que chamamos de lar. E isto costuma ser, em diferentes graus, determinante para nossa biografia. Pode ser que a gente fique para sempre nas mesmas ruas da infância. Pode ser que se mude para outro canto da mesma cidade. Ou pode até ser que a gente vá para outro país. Mesmo assim, tendemos a continuar sentindo saudades da casa da vó ou da comida da mãe. Somos seres livres, que podem alçar os mais altos voos, mas também temos raízes. Mesmo quem sai de sua cidade natal é determinado por ela. Tal como os grandes escritores que reproduzem onde nasceram em cidades fictícias, tendemos a guardar dentro de nós memórias e impressões de outros tempos da nossa maneira. Há quem volte para morar de vez, depois de ter desbravado o mundo. Há quem passe apenas de visita, até como cidadão ilustre. De qualquer forma, algo de nós fica na cidade, e muito da cidade fica em nós. Assim, somos determinantes e determinados pela nossa cidade natal. Mas a graça de tudo isso é que somos livres para nos reinventarmos a qualquer tempo. O ser humano é definido como uma raça imigrante, que ousou sair da África e cruzar os continentes nos primórdios de nossa espécie. Fronteiras são uma invenção tardia, e talvez sem sentido. Somos todos cidadãos deste mundo, o planeta Terra, único em suas características de todo o universo. Somos todos cidadãos de qualquer parte. Foi pensando nisso que surgiu minha exposição “Cidadãos do Mundo”. Ao nos depararmos com o brilho no olhar de cada um destes personagens que compõem a mostra, não temos como saber se eles são nativos ou imigrantes. Mas temos a certeza absoluta de que por traz de suas origens pulsam raízes e liberdades. Estradas e paradas. Andanças e permanências. Eu mesma sou fruto de toda esta mescla. Nasci em Esmeralda, onde os amplos espaços abertos de linha do horizonte bem definida foram determinantes para a minha vida e olhar fotográfico. Escolhi morar em Caxias do Sul, onde me tornei cidadã de duas cidades. Mas não me considero assim. Me considero, enfim, como uma cidadã do mundo, nacionalidade Planeta Terra. Todos nós da raça humana dividimos um único teto. Que possamos enxergar mais o que nos conecta do que nos diferencia, para além de qualquer fronteira, real ou imaginada.

Liliane Giordano 111


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aprendemos nos livros

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Há pouco parou de chover. Foi linda a tempestade que caiu sobre a plantação. Vou pintar um navio velejando sob as ondas de centeio. O dia voltou a clarear, mas parece que tudo está coberto por uma grossa camada de verniz. Klee, 1990

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Expedição

Lençóis Lençóis Maranhenses

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Por Liliane Giordano Um dos pontos turísticos mais lembrados do país, o Parque Nacional é um paraíso do nordeste brasileiro. As dunas lembram um deserto, mas de deserto não tem nada: as chuvas constantes da região formam belíssimas lagoas de águas cristalinas. Conhecemos a região em julho de 2019. Veja alguns cliques que registrei por lá.

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Visitamos os Lençóis Maranhenses, quando conduzi um grupo para fotografar e viver essa maravilha da natureza. Era um sonho de todos nós ver como essas lagoas trazem um toque de azul às areias. E descobrimos que as areais brancas, as lagoas verdes e um imenso céu azul são a conjunção perfeita para boas fotos! Vivemos muitas aventuras: até sobrevoamos o parque ao pôr do sol com um avião monomotor! E vimos muito mais: conhecemos São Luís do Maranhão! A capital maranhense é mais um patrimônio cultural da humanidade que entra para a nossa lista. Também presenciamos o voo dos guarás, que é considerado por muitos uma das mais belas aves. As suas penas muito vermelhas em contraste com o céu azul não poderiam deixar de nos emocionar. A revoada dos bandos de guarás cruzando o céu pode ser vista todos os dias em Alcântara - pena que a gente não esteja sempre lá para ver. Voltamos desta viagem mais cansados, mais bronzeados, e o essencial, que não podia ser visto pelos olhos: com a alma transbordando com as maravilhas da natureza. 124


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Na Sala de Fotografia

Instituto Instituto Cultura Latina

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A América Latina é mais que um continente. É um território cheio de culturas únicas e que também se conectam entre si, trazendo uma sensação de pertencimento a todos os povos que aqui habitam. E isso é tanto para os originários quanto os que aqui chegaram e criaram raízes, com culturas herdadas ou criadas e adaptadas, resultando em uma mistura única. Podemos não conhecer toda a imensa riqueza patrimonial,

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histórica e artística do qual somos herdeiros, mas é inevitável sentir nas veias o pulsar da identidade que nos interconecta. Para valorizar e preservar a arte e a cultura do continente é que nasce o Instituto Cultura Latina, com sede em Caxias do Sul, RS. Seu objetivo é promover a cultura única do nosso território por meio da educação e da arte. Procura ainda defender e conservar o patrimônio natural, histórico, artístico e cultural da América Latina. Aulas de espanhol e de português para estrangeiros, intercâmbios culturais e eventos de arte e cultura congreguem os diversos saberes da América Latina são as nossas atividades. Assim, o Instituto desenvolve atividades em educação, arte e cultura, promovendo uma integração entre esses saberes nos países da América Latina. O Instituto nasce em uma casa já reconhecida pela cultura e criatividade por excelência: a Sala de Fotografia, escola de fotografia fundada em 2007. As duas instituições se unem, então, em prol da educação. Vem aprender sobre a cultura latino-americana com a gente! Você vai descobrir que a América Latina tem saberes que são únicos no mundo, e que podemos chamar de nossos com orgulho.

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Dia Mundial da Fotografia

Festival Festival Arte Foto

Caxias 2020

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Todos os anos comemoramos muito intensamente o mês de agosto. É porque nele fica o Dia Mundial da Fotografia, celebrado no dia 19. Mas apenas um dia não é o suficiente, ao longo de todo o mês ficamos ainda mais conectadas no universo da captura da imagem. É nesse período que queremos dividir ainda mais discussões, reflexões e conhecimento. Há 13 anos - a mesma idade da Sala de Fotografia -

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nos envolvemos na realização de muitas atividades gratuitas para a comunidade, que possa aproximá-la da fotografia. E em 2020 não é diferente: realizamos o Festival Arte Foto Caxias, com quatro dias de programação de lives com muitas discussões pertinentes. E somos parceiros da Unidade de Artes Visuais, da Secretaria Municipal de Cultura, na realização da 13ª Semana da Fotografia de Caxias do Sul. Quanto ao Festival Arte Foto Caxias do Sul 2020, foi uma realização da Sala de Fotografia. Entre os dias 15 e 18 de agosto, tivemos 12 mesas online, com mais de 20 mulheres convidadas. Isto porque o tema era “As Mulheres e as Imagens”, trazendo o feminino para o protagonismo do evento. A edição de 2020 trouxe reflexões sobre produções artísticas em artes visuais, registradas nas diferentes práticas contemporâneas, como fotografia, arte, literatura, linguagem e educação. A cultura visual busca referências no cotidiano e inspira ideias que servem para olharmos com mais poesia para nosso mundo. Se você quiser assistir às discussões, basta acessar as gravações das lives no canal de YouTube ‘Festival Arte Foto Caxias’. Foram mais de 1000 visualizações do canal no período da programação, e 326 espectadores únicos, com um tempo de visualização de 289 horas. Na próxima edição da Revista, teremos uma matéria que trará uma análise e conteúdo de cada mesa! O novo evento nasceu como uma expansão da 12ª Semana da Fotografia, ainda em 2019, com o intuito de englobar todas as formas de arte. Afinal, a fotografia nunca esteve excluída, é ela quem é capaz de registrar qualquer manifestação artística, e também de ser ela própria veículo de expressão.


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Revista

Parceiros

nยบ 8 - agosto/2020

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www.saladefotografia.com Rua Garibaldi, 789, Sala 177. EdifĂ­cio Estrela, Caxias do Sul | RS (54) 3534.8994 | 9.9981.9894 saladefotografia@gmail.com

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Profile for Sala de Fotografia

Revista Sala de Fotografia nº 8  

A Revista Sala de Fotografia – publicação online e gratuita – chega a sua oitava edição, e comemora o seu aniversário de quatro anos. Nas pá...

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