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N

ESTE DIA DO MEU 59º

ANIVERSÁRIO

OCORRE TAMBÉM A COMEMORAÇÃO DOS 200 ANOS SOBRE O NASCIMENTO DE CHARLES DICKENS. NÃO PODIA DEIXAR, POR ISSO, DE VOS OFERECER UMA PEQUENA LEMBRANÇA, PARA QUE VOS VENHA À MEMÓRIA OS MOMENTOS DE FANTASIA E SONHO QUE POVOARAM A VOSSA INFÂNCIA, ESPERANDO QUE TAL CONTINUE A ACONTECER NO FUTURO. DELFINA, 7-2-2012


Charles

John

Huffam

Dickens, (Portsmouth, 7

de

Fevereiro de 1812 — 9 de Junho de 1870), que também adoptou o pseudónimo Boz no início da sua atividade literária,

foi

o

mais

popular

dos

[1]

romancistas ingleses da era vitoriana. A fama dos seus romances e contos, tanto durante a sua vida como depois, até aos dias de hoje, só aumentou. Apesar de os seus

romances

não

serem

considerados,

pelos

parâmetros actuais, muito realistas, Dickens contribuiu em grande parte para a introdução da crítica social na literatura de ficção inglesa. Entre

os

seus

maiores

clássicos

estão

"David

Copperfield" e "Oliver Twist".

Infância e Juventude Dickens

nasceu

em

uma

sexta-feira

na

cidade

de Moure (condado de Hampshire, Inglaterra), filho de John Dickens, funcionário perdulário da Armada, e de sua esposa Elizabeth Barrow. Quando fez cinco anos, a família mudou-se para Chatham, no condado de Kent. Descrever-se-ia a si mesmo, mais tarde, como uma criança "muito pequena e não muito mimada".[2] Educado por sua mãe, que lhe ensinava diariamente inglês e latim,[2] passava muito do seu tempo a ler infindavelmente – e, com especial devoção as novelas picarescas de Tobias Smollett e Henry Fielding. Entre os livros da sua infância encontravam-se também obras de Daniel Defoe, Goldsmith, bem como o "Dom Quixote", "Gil Blas" e "As Mil e uma noites". A sua memória fotográfica serviria, mais tarde, para conceber as suas personagens e enredos ficcionais, baseando-se muito nas pessoas e acontecimentos que foram marcando a sua vida. A sua família era remediada em termos económicos, o que lhe permitiu frequentar uma escola particular durante três anos.

A

situação

piorou,

contudo, quando o seu pai foi preso por dívidas, depois de gastar os recursos da família no afã de manter uma posição social periclitante. Com dez anos

de

idade,

a

família

mudou-se para o bairro popular de Camden Town em Londres, onde

ocupavam

quartos

baratos e, para fazer face aos gastos, empenharam os talheres de prata e venderam a biblioteca familiar que tinha feito as delícias do jovem


rapaz. Com doze anos, Dickens já tinha a idade considerada necessária para trabalhar na empresa Warren’s onde se produzia graxa para os sapatos com betume, junto à actual Estação ferroviária de Charing Cross. O seu trabalho consistia em colar rótulos nos frascos de graxa, ganhando, por isso, seis xelins por semana.[3] Com o dinheiro, sustentava a família, encarcerada na prisão para devedores, em Moure onde ia dormir. Alguns anos depois, a situação financeira da família melhorou consideravelmente, graças a uma herança recebida pelo seu pai. A sua família deixou a prisão, mas a mãe não o retirou logo da fábrica, que pertencia a um amigo. Dickens jamais perdoaria a mãe por essa injustiça. O tema das más condições de trabalho da classe operária inglesa tornar-se-iam, mais tarde, um dos mais recorrentes da sua obra.

Início de carreira Em agosto Dickens começou a trabalhar num escritório, emprego que lhe poderia valer, mais tarde, a posição de advogado. Não gostou, no entanto, do trabalho

nos

aprender taquigrafia,

tribunais foi,

e, por

depois um

de breve

período, estenógrafo do tribunal. Com dezoito anos de idade, começou outro período de leituras intensas tendo-se inscrito na biblioteca do British Museum. Por esta altura, apaixona-se pela filha de um banqueiro, Maria Beadnell. Os pais da menina desaprovaram, contudo, o idílio amoroso devido ao passado dos pais de Dickens. A própria Maria tornar-se-á indiferente a Charles depois de uma viagem "educativa" a França. Dickens levará um ano a superar este desgosto amoroso. Tornou-se, depois, jornalista, começando como cronista judicial e, depois, fazendo relatos dos debates parlamentares e cobrindo as campanhas eleitorais pela Grã-Bretanha fora, de diligência. Os seus Sketches by Boz ("Esboços de Boz" - Boz era a alcunha do seu irmão mais novo que não era capaz de pronunciar devidamente "Moses" - Moisés, em inglês) são fruto desta época e são constituídos por pequenas peças jornalísticas em forma de retratos de costumes, originalmente escritas para o "Morning Chronicle" em 1833.[4] Ao longo da sua carreira, Dickens continuou, durante muito tempo, a escrever para jornais. Com pouco mais de vinte anos, o seu The Pickwick Papers (Os Documentos Póstumos do Clube Pickwick) estabeleceu o seu nome como escritor. A ideia inicial desta obra era que Dickens escrevesse comentários a ilustrações desportivas. De 1831 a1834, a New Sporting Magazine comprovou o sucesso desta receita editorial com a

sua

série

"Jorrock´s

Jaunts

and

Jollities"

sobre

um

comerciante cockney que quer a todo o custo ser reconhecido como o bom caçador que não era. Querendo seguir a mesma ideia, Robert Seymour propôs aos editores Chapman and Hall criar uma série semelhante sobre um tal de "Clube Nimrod" (Nimrod é uma personagem bíblica descrita como sendo um grande caçador) onde também se troçaria dos caçadores inexperientes, mas cheios de si mesmos. Procuraram-se escritores para "complementar" as imagens com textos. A terceira opção, perante a recusa dos dois primeiros, era Dickens, que escrevera os seus Esboços para a mesma editora. Dickens rapidamente tomou conta do


projecto e rejeitou a ideia de um clube de caçadores - a ideia não lhe agradava. Criou, pelo contrário, um clube de observadores de curiosidades, o que afastou definitivamente o ilustrador que tivera a ideia inicial, Seymour, que viria a suicidar-se na sequência destes acontecimentos. Procurou-se outro ilustrador. É curioso que tenha sido rejeitado um tal de William Makepeace Thackeray que tornar-se-ia outro vulto de importância no romance vitoriano (geralmente colocado logo a seguir a Dickens, na opinião de muitos estudiosos da literatura inglesa - ou mesmo superior a Dickens, na opinião de outros). O novo ilustrador, conhecido pela alcunha de Phiz, deu conta do recado.


A fama A 2 de Abril de 1836 (três dias depois da publicação do primeiro fascículo de "Pickwick"), casou-se com Catherine Hogarth, de quem teve dez filhos.[1] A recepção do público a Pickwick não foi calorosa desde o início. Só quando aparece a personagem de Sam Weller, o criado de Pickwick e que acompanha as aventuras do seu amo ao jeito de um Sancho Pança ao lado de Dom Quixote, é que as vendas sobem de 400 exemplares para 40 000. Em 1838, em decorrência do sucesso de Pickwick, propõe a publicação de "Oliver Twist" onde, pela primeira vez, apontava para os males sociais da era vitoriana. O romance, divulgado em folhetins semanais, terá também o seu ilustrador: Cruikshank.[1] Em 1842 viajou com a sua esposa para os Estados Unidos da América. A viagem foi descrita, depois, no curto relato de literatura de viagens American Notes, existindo também influências da mesma em alguns episódios de Martin Chuzzlewit. Ao entusiasmo com que foi recebido, de início, nos Estados Unidos, seguiu-se uma estadia menos calorosa, devido às críticas que teceu à política editorial deste país, acusando os editores de plágio em relação à literatura produzida na Grã-Bretanha. Em 1843, publicava o seu mais famoso livro de Natal, "A Christmas Carol" ("Canção de Natal"), ao qual se seguiriam outros, com a mesma temática, como "The Chimes" (1844), que escreveu em Génova na sua primeira

grande

viagem

ao

estrangeiro

(se

descontarmos a breve incursão aos Estados Unidos). Em 1845, "The Cricket on the Hearth" ("O Grilo da lareira") torna-se também um dos seus maiores sucessos natalícios. Em 1848 publicava

"Dombey

and

Son",

escrito

principalmente no estrangeiro, onde descreve o meio dos transportes ferroviários - outro tema estreitamente relacionado com a Revolução Industrial que conformava a sociedade vitoriana. Em 1849 publicou aquele que viria a ser o mais popular dos seus romances, David Copperfield, onde se inspirava, em grande parte, na sua própria vida. As amizades literárias de Dickens incluíam, em 1854, Thomas Carlyle, a quem dedicará o seu romance "Tempos Difíceis".


A revista semanal Household Words, onde viria a publicar, em folhetins, alguns dos seus romances, foi fundada também por ele, em 1850, e chegou a vender 40 mil cópias por semana.[3] A revista seria reformulada em 1859, mudando de nome para "All the year round". Os livros de Dickens tornaram-se extremamente populares na época e eram lidos com grande expectativa por um público muito fiel à sua escrita. O seu sucesso permitiu-lhe comprar Gad’s Hill Place, perto de Chatham, em 1856. Esta casa fazia parte do imaginário de Dickens, desde que por ela tinha passado, em criança – sonhando que um dia poderia lá viver. O local tinha ainda um significado especial porque algumas cenas do Henrique V de Shakespeare localizam-se nesta mesma área. Essa referência literária agradava de sobremodo a Dickens.

Últimos anos de vida Dickens separou-se da sua mulher em 1858. O divórcio era um acto altamente reprovável durante a era vitoriana, principalmente para alguém com a notoriedade dele. Continuou, contudo, a pagar-lhe casa e sustento durante os restantes anos em que ela viveu. Ainda que tivessem sido felizes no seu início de vida conjugal, Catherine parecia não partilhar a energia de viver sem limites de Dickens. O trabalho de cuidar dos dez filhos do casal, aliado à pressão resultante de ser a esposa e dona de casa de um romancista mundialmente reconhecido não ajudava. A sua irmã, Georgina, tinha mudado para casa de Dickens, para ajudar Catherine no seu trabalho doméstico – há, contudo, rumores de que teve um caso amoroso com o cunhado. Georgina manteve-se com Dickens após a separação para cuidar dos filhos do casal. Podemos encontrar um indício da insatisfação marital de Charles num encontro que este teve em 1855 com Maria Beadnell, o seu primeiro amor. A 9 de Junho de 1865, estando de regresso de França, onde fora visitar Ellen Ternan, Dickens viu-se envolvido no acidente ferroviário de Staplehurst, em que as seis primeiras carruagens do comboio caíram de uma ponte em reparação. A única carruagem de primeira classe que se manteve na linha foi, por coincidência, aquela onde seguia Dickens. O escritor mostrou-se ativo a cuidar dos feridos e moribundos antes de chegarem os esforços de salvamento. Quando se preparava para abandonar o lugar trágico lembrou-se, ainda a tempo, de que tinha deixado dentro do comboio o manuscrito inacabado do seu romance Our Mutual Friend (O nosso amigo comum) e voltou à carruagem para o buscar. Já que se tornaria público que seguia viagem com Ellen Ternan e a sua mãe, a opinião púbica rapidamente a apontaria como a causa da separação de Catherine. Ellen foi, para todos os efeitos, a mulher que acompanhou Dickens até ao final dos seus dias, apesar de a união nunca ter sido reconhecida oficialmente.[1] Ainda que tivesse escapado ileso do acidente, nunca chegou a recuperar totalmente do choque. Isso é evidente no ritmo da sua produção que decresce bastante depois deste episódio. Levará algum tempo a completar Our Mutual Friend e a começar a sua obra incompleta, The Mystery of Edwin Drood, onde se notam influências de Wilkie Collins, que fazia parte do círculo de amigos de Dickens e que é considerado um dos pioneiros do romance policial. A partir de 1858, os seus últimos anos de vida serão ocupados principalmente com leituras públicas. Esse género de espectáculos, que consistia apenas em ouvir Dickens a ler as suas suas obras mais conhecidas,


tornaram-se incrivelmente populares. Note-se que na altura era comum ler em voz alta em família ou em grupos – a leitura expressiva era muito valorizada. E Dickens, com a sua interpretação apaixonada e a forma como se entregava à narração, não só arrebatava gargalhadas (e, principalmente, lágrimas) das audiências, como se arrebatava a si mesmo, exaurindo as suas forças. O esforço despendido nestes espectáculos é, muitas vezes, apontado como uma das causas da sua morte. Em 1867 foi convidado a voltar aos Estados Unidos para uma digressão das suas leituras.


Morreu de morte cerebral em junho de 1870. Foi sepultado no Poets' Corner ("Esquina dos Poetas"), na Abadia de Westminster. Na sua sepultura está gravado: "Apoiante dos pobres, dos que sofrem e dos oprimidos; e com a sua morte, um dos maiores escritores de Inglaterra desaparecia para o mundo." Na década de 1980, a histórica Eastgate House (casa Eastgate), em Rochester, em Kent, foi convertida num museu dedicado a Charles Dickens. Anualmente realiza-se na cidade o Festival Dickens. A casa onde nasceu, em Portsmouth é, também, um museu actualmente.

Filhos Teve dez filhos de Catherine Thompson Hogarth, os nomes remetem quase sempre para referências literárias: 

Charles Culliford Boz Dickens (6 de Janeiro de 1837 - 1896).

Mary Angela Dickens (6 de Março de 1838 - 1896).

Kate Macready Dickens (29 de Outubro de 1839 - 1929).

Walter Landor Dickens (8 de Fevereiro de 1841 - 1861).

Francis Jeffrey Dickens (15 de Janeiro de 1844 - 1886).

Alfred D'Orsay Tennyson Dickens (28 de Outubro de 1845 - 1912).

Sydney Smith Haldimand Dickens (18 de Abril de 1847 - 1872).

Henry Carl Potchovesk Dickens Molovei(15 de Janeiro de 1849 - 1933).

Dora Annie Dickens (16 de Agosto de 1850, 1851).

Edward Bulwer Lytton Dickens (13 de Março de 1852 - 1902).

Obra Contexto social Quando Dickens começa a publicar os seus romances, tem à sua disposição um público formado pela revolução industrial. Londres tem mais de um milhão e meio de habitantes, devido à explosão demográfica e a um êxodo rural que expulsa os camponeses dos seus terrenos que ficam cercados em "enclosures" dedicadas à pecuária, mais especificamente, à criação de ovinos. A indústria têxtil servirá de emprego para estes espoliados. O trabalho infantil torna-se uma das características mais pungentes da economia inglesa. Em 1845, Engels publicará "A situação da classe operária em Inglaterra", onde toda esta situação é analisada. Dickens aflorará estes problemas, é certo, mas conquistará o público burguês porque não se assumirá nunca como um revolucionário… As suas personagens, quando melhoram de vida, devem essa melhoria às circunstâncias e acasos da vida, mais que à sua luta pela justiça social. Por outro lado, a população anglófona é a mais alfabetizada do mundo. Por isso, Dickens terá um público potencial muito alargado, não só na Grã-Bretanha como além do Atlântico.

Características gerais A escrita de Dickens é caracterizada por um estilo poético. A maior parte dos principais romances de Dickens foram escritos mensal ou semanalmente, em episódios publicados em jornais como o Household Words e que depois foram reunidos nas obras completas, tal como as


conhecemos actualmente. A publicação em episódios separados tornava as histórias mais acessíveis a um público mais extenso que ia aumentando à medida que as situações por resolver se sucediam, episódio por episódio, criando expectativa entre o público. O talento de Dickens residia também nesta sua capacidade em aliar uma narrativa episódica a um romance coerente na sua

totalidade.

Os

episódios

mensais

eram

acompanhados de ilustrações de vários artistas. A sua escrita manteve sempre um alto nível de qualidade, sem se distanciar de um estilo tipicamente "dickensiano"

que

não

era

incompatível

com

a

experimentação de novos temas e géneros. A reacção do público a estas experiências era irregular – e mesmo as críticas e a percepção pública da sua obra variou ao longo do tempo. A publicação dos seus textos em periódicos permitia-lhe auscultar as reacções do público à sua escrita, de forma que podia mudar o rumo à narrativa, de acordo com o que o p��blico esperava ou não.

Um

bom

exemplo

encontra-se

em Martin

Chuzzlewit, onde foram incluídos episódios passados na América, em resposta ao decréscimo nas vendas dos primeiros capítulos. Em Our Mutual Friend, a inclusão da personagem

Riah,

retratando

positivamente

uma

personagem judia, resultou das críticas à personagem de Fagin no seu Oliver Twist. Os romances de Dickens eram, entre outros aspectos, obras de crítica social. Nas suas narrativas são tecidos comentários ferozes a uma sociedade que permitia a pobreza extrema, as más condições de vida e de trabalho e a estratificação social abrupta da era vitoriana, a par de uma empatia solidária pelo homem comum e uma atitude céptica em relação à alta sociedade. A escrita de Dickens é hoje considerada excessivamente sentimentalista e melodramática: a morte de personagens de quem gostamos particularmente, como a pequena Nell em The Old Curiosity Shop ("Loja de antiguidades"), ou a costureirinha do "Conto de Duas Cidades", são exemplo disso. Mesmo quando a história tem características marcadamente pungentes para as principais personagens, como em Bleak House ("Casa Desolada"), Dickens tentava equilibrar o conjunto com personagens e situações satíricas e que permitiam sorrisos e gargalhadas no meio das lágrimas derramadas pela triste sorte das outras


personagens. Outra crítica recorrente ao estilo de Dickens refere-se à inverosimilhança do enredo que se sustenta quase sempre em coincidências muito pouco prováveis. Se é assim, de facto, a verdade é que Dickens procurava, acima de tudo, o entretenimento e não o realismo. Pretendia, de certa forma, recuperar o espírito do romance gótico e das novelas picarescas que lia na sua juventude. Efectivamente, quando escrevia um romance mais realista, a recepção do público mostrava-se bastante mais fria e indiferente. Além do mais, não era a sua própria história algo inverosímil, com as suas constantes reviravoltas (uma infância feliz seguida de pobreza, depois, uma herança inesperada e, finalmente, fama internacional e reconhecimento público)? Afinal, estão constantemente a acontecer histórias inverosímeis no mundo…

É normal que um escritor incorpore elementos autobiográficos nas suas narrativas ficcionais. O caso torna-se particularmente interessante em Dickens, até porque este sempre teve a preocupação de velar aquilo que considerava vergonhoso no seu passado. As muitas cenas de tribunal que aparecem em "A Casa sombria" são bem reveladoras do seu passado como cronista judicial. Em "A Pequena Dorrit" volta a aparecer o tema da prisão para devedores – onde Marshalsea, onde a sua família esteve retida, também serve de espaço narrativo. Pensase também que a pequena Nell de a Loja de Antiguidades poderá representar a sua cunhada. O pai de Nicholas Nickleby e Wilkins Micawber são directamente inspirados no seu pai. Pip, a personagem principal de Grandes Esperanças, com a sua mistura de pedantismo e remorsos, é semelhante ao próprio Dickens. Ele era um péssimo escritor antes e depois virou um ótimo.

Temas e personagens Os temas mais recorrentes em Dickens correspondem a uma vontade de reformar a sociedade exploradora que pertencia e que se concretizava nos asilos para órfãos, nos locais de trabalho degradados, nas escolas que mais se assemelhavam a locais de tortura e no ambiente sórdido das prisões.

Ao comparar os órfãos a acções da bolsa, pessoas a barcos rebocadores, ou convidados para jantar a peças de mobília, Dickens conseguia resumir numa imagem o que descrições mais complexas não conseguiriam transmitir. Satirizou o pedantismo da aristocracia britânica com especial sarcasmo, usando imagens semelhantes a estas. As próprias personagens estão entre as mais memoráveis da literatura em inglês. Ebenezer Scrooge, Fagin, Mrs. Gamp, Wilkins Micawber, Pecksniff, Miss Havisham, Wackford Squeers , entre outros, são tão conhecidos do público anglófono que quase se assumem como identidades próprias (Scrooge, por exemplo, deu origem ao Tio Patinhas). As excentricidades destas personagens não monopolizam, contudo, a narrativa. Algumas destas personagens são grotescas, seguindo o estilo do romance gótico do século XVIII, que Dickens também apreciava, ainda que, na altura, o gênero já fosse um pouco ridicularizado (por exemplo, através de Northanger Abbey, de Jane Austen, que parodia este tipo de romance). Pode-se considerar, todavia, como a mais onipresente das personagens de Dickens, a própria cidade de Londres, revelando aspectos que só poderiam ser descritos por quem conhecesse profundamente cada rua da cidade.


A delinquencia provocada geralmente por pessoas órfãs e pela exploração desenfreada do ser humano por outros seres humanos é o ingrediente base de "Oliver Twist" e "Nicholas Nickleby", onde faz também a denúncia das condições de muitos estabelecimentos de ensino. "Casa Sombria" será um libelo contra a corrupção e a ineficiência do sistema jurídico inglês, tal como em "A pequena Dorrit". Menos conhecido, este romance é uma obra prima de sátira acerba, recheada de enganos, além de contar a típica história do pobre que enriquece. Aventurou-se também pelo romance histórico, de que é exemplo "Barnaby Rudge", de 1841 - a obra é, contudo, dominada pela ficção e apenas em alguns pontos serve o desígnio do que se costuma chamar "romance histórico". De facto, nenhuma das personagens tiveram existência real, excetuando Lord Gordon. O seu "Conto de duas cidades", sobre a Revolução Francesa, de cariz diverso do resto da sua obra é, contudo, um dos mais celebrados romances históricos ingleses. Dickens era fascinado pelo teatro, que considerava como uma forma de refúgio psicológico perante as adversividades da vida. Em Nicholas Nickleby aparecem personagens ligadas ao meio teatral. A mulher que o acompanhou nos últimos anos de vida era atriz, e ele mesmo teve uma carreira ligada ao palco, durante as suas leituras públicas dos seus próprios romances, que o levou a percorrer a Grã-Bretanha e os Estados Unidos da América em digressões muito concorridas. Sua escrita, ao conjugar realidade com fantasia, a crítica social com o melodrama, e a reflexão sobre o destino humano com o humor. Outros, porém, consideram David Copperfield o seu melhor romance – é também aquele onde se encontram mais elementos autobiográficos.

Legado A sua popularidade pouco decresceu desde a sua morte. Continua a ser um dos autores ingleses mais lidos e apreciados. Pelo menos cerca de 180 filmes e adaptações para televisão das suas obras documentam ainda o seu sucesso entre o público actual. Já durante a sua vida se tinham adaptado algumas das suas obras para o palco. Em 1913 já os produtores cinematográficos se lançavam na produção de um filme mudo denominado The Pickwick Papers. As suas personagens eram de tal forma sugestivas que pareciam ganhar vida própria, tornandose, mesmo, proverbiais. A língua inglesa ganhou alguns neologismos à sua conta. "Gamp" é um termo usado na gíria para "guarda-chuva", devido a uma personagem – a senhora Gamp. "Pickwickiano", "Pecksniffiano", etc., podem ser usadas para se referir ao mesmo tipo de pessoa que as personagens referidas. O seu conto "Canção de Natal" é talvez a sua história mais conhecida. As adaptações são inúmeras, para quase todos os gêneros de comunicação: cinema, banda desenhada, televisão, teatro, outras adaptações literárias, etc, criam um fenómeno de popularidade que transcende a obra original. Segundo alguns, esta história, patética, moralista e bem humorada, resume o verdadeiro significado do Natal, eclipsando todas as outras histórias de Dickens sobre o tema. Numa altura em que o Império Britânico era a maior potência política e económica do mundo, Dickens conseguiu apontar para a vida dos esquecidos e desfavorecidos, mesmo no coração do império. Na sua breve carreira de jornalista já tinha batalhado pelo saneamento básico e pelas condições de trabalho, mas foram, claramente, as


suas obras ficcionais que mais despertaram a opinião pública para estes problemas. À conta de um contexto literário bem humorado e de vendas avultadas, denunciava a vida agreste dos pobres e satirizava os indivíduos que permitiam que tais abusos continuassem e conseguia mover opiniões. Crê-se que a sua influência foi importante para o fecho das prisões de Marshalsea e da Prisão de Fleet. Dickens terá tido, talvez, a esperança de ver nos seus 10 filhos o início de uma dinastia literária, pelo facto de todos terem nomes que remetem para a história da literatura inglesa. Seria, efectivamente, difícil aproximarse sequer do sucesso do seu pai. Alguns parecem ter herdado do pai de Dickens a tendência para esbanjar o dinheiro.

Alguns

escreveram

as

suas

memórias,

centradas, claro está, na figura do pai, além de organizarem a sua correspondência de forma a poder ser publicada. Apenas a sua bisneta, Monica Dickens, seguiria as suas pegadas, e dedicar-se-ia à escrita de romances. A própria era vitoriana pode-se designar de era dickensiana,

se

pensarmos

na

forma

como

foi

perenemente descrita por este escritor. Depois da sua morte em 1870 a literatura inglesa tornou-se muito mais realista, talvez em reacção à tendência de Dickens para o picaresco e o ridículo. Outros romancistas da era vitoriana que o seguiram, como Samuel Butler, Thomas Hardy ou George Gissing demonstram-se claramente influenciados por Dickens, ainda que a sua escrita seja mais sóbria e menos melodramática. Dickens continua, contudo, a ser um dos mais geniais criadores da literatura mundial de todos os tempos, sendo dificilmente superado na popularidade e acessibilidade da sua escrita. No cinema português podemos contar com a adaptação do seu "Hard Times" por João Botelho (no filme "Tempos Difíceis").[5]

Obras Romances principais 

The Pickwick Papers (1836)

Oliver Twist (1837–1839)

Nicholas Nickleby (1838–1839)

The Old Curiosity Shop ("Loja de Antiguidades")(1840–1841)

Barnaby Rudge (1841)

Os Livros de Natal: 

A Christmas Carol ("Canção de Natal" ou "Um conto de Natal") (1843)

The Chimes (1844)

The Cricket on the Hearth (1845)


The Battle for Life (1846)

Martin Chuzzlewit (1843-1844)

Dombey and Son (1846–1848)

David Copperfield (1849–1850)

Bleak House ("A Casa Abandonada", "Casa desolada" ou "Casa sombria") - (1852–1853)

Hard Times ("Tempos Difíceis") (1854)

Little Dorrit ("A pequena Dorrit") - (1855–1857)

A Tale of Two Cities ("Um conto de duas cidades") (July 11, 1859)

Great Expectations ("Grandes Esperanças") - (1860–1861)

Our Mutual Friend (1864–1865)

The Mystery of Edwin Drood (inacabado) (1870)

Outros 

Sketches by Boz (1836)

\American Notes (1842)

A Child’s History of England (1851–1853)

Contos 

"A Christmas Tree";

"A Message from the Sea";

"Doctor Marigold";

"George Silverman’s Explanation";

"Going into Society";

"Holiday Romance";

"Hunted Down";

"Mrs. Lirriper’s Legacy";

"Mrs. Lirriper’s Lodgings";

"Mugby Junction";

"Perils of Certain English Prisoners";

"Somebody’s Luggage";

"Sunday Under Three Heads";

"The Child’s Story";

"The Haunted House";

"The Haunted Man and the Ghost’s Bargain";

"The Holly-Tree";

"The Lamplighter";

"The Seven Poor Travellers";

"The Trial for Murder";

"Tom Tiddler’s Ground";

"What Christmas Is As We Grow Older";

"Wreck of the Golden Mary";


Evocação de Charles Dickens em Portugal Biblioteca Nacional - 7 Fevereiro – 10 Março 2012 | Sala de Referência A BNP celebra o bicentenário do nascimento de Charles Dickens (7 de Fevereiro 1812) com uma exposição biblio-iconográfica promovida conjuntamente com o Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (CEAUL). Esta iniciativa pretende evocar a recepção de Dickens em Portugal até à actualidade, predominantemente por via da tradução, publicada entre nós, em periódico e em volume, desde 1839, data em que surge a sua primeira obra traduzida. Charles Dickens inicia a carreira com a narrativa breve, em 1833 (“A Dinner at Poplar’s Walk”, Monthly Magazine, Dezembro), e a sua escrita é inicialmente dada à estampa em jornais e revistas, só conhecendo posteriormente a publicação em volume. Tal acontece também com o seu primeiro romance, The Pickwik Papers (1836-1837), e com os seguintes, que são primeiramente publicados em folhetim mensal ou mesmo semanal. É editor de várias publicações periódicas como Bentley’s Miscellany, Household Wordse All the Year Round, em que também colabora. A recepção de Charles Dickens em Portugal é marcada inicialmente pela tradução de várias narrativas breves que, retiradas em grande parte da obra Sketches by Boz, são também publicadas em folhetim, ainda no século XIX, e sobretudo na década de 1860. É também no século XIX que são apresentadas ao público leitor em português as primeiras traduções de cinco dos seus romances: Oliver Twist (1837-1839), The Life and Adventures of Nicholas Nickleby (1838-1839), A Tale of two Cities (1859), Great Expectations (1860-1861) e The Posthumous Papers of the Pickwick Club (1836-1837). O século XX concentra a publicação das suas obras sobretudo nas décadas de 1940 e 1950, traduzindo pela primeira vez nessa altura mais seis romances: The Old Curiosity Shop (1840-1841), Hard Times, for these Times (1854), The Life and Adventures of Martin Chuzzlewit (1843-1844), The Mystery of Edwin Drood (romance que a sua morte, em 1870, deixa inacabado), Dealings with the Firm of Dombey and Son (1846-1848) e Little Dorrit (1855-1857). No final do século XX assiste-se novamente sobretudo à tradução de narrativa breve, desta feita publicada predominantemente para um público infantil e juvenil. O seu romance favorito, de evidentes traços autobiográficos, David Copperfield (1849-1859), é traduzido pela primeira vez em 1909, sendo retraduzido e publicado em Portugal sete vezes. Contudo, entre os seus maiores sucessos entre nós destacam-se as mais de vinte traduções diferentes de “A Christmas Carol in Prose: A Ghost Story of Christmas” (1843) bem como as dezassete traduções diversas do romance Oliver Twist, or, the Parish Boy’s Progress (1837-1839). Digno de nota na recepção de Charles Dickens entre nós é ainda o filme do realizador João Botelho, Tempos Difíceis, este tempo, que, em 1988, adapta o romance Hard Times, for these Times (1854), com música de António Pinho Vargas e a participação de Henrique Viana, Julia Britton, Eunice Muñoz, Ruy Furtado e Isabel de Castro, entre outros. (texto da Biblioteca Nacional)

 

  IMAGEM DO GOOGLE EM 7‐2‐2012                          Envio este “livrinho” por email em PDF para verem a cores 


Charles Dickens tb nasceu a 7 de Fevereiro (há 200 anos)