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Sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Vida e Cidadania
GAZETA DO POVO
Juventude
Pesquisa revela queda no consumo de drogas em escolas página 13
Editor responsável: Sérgio Luis de Deus – vidaecidadania@gazetadopovo.com.br
Comportamento
Refeição feita em casa perde qualidade
O que o O que o brasileiro brasileiro come come Principais produtos consumidos, em quilos por ano Famílias com renda até R$ 830
Famílias com renda superior a R$ 6.225
Arroz
Estudo mostra que
27,6
consumo de frutas e verduras deixa a
Açúcares, doces e produtos de confeitarias
desejar. Há abuso na
19,3
ingestão de açúcares Foto: Daniel Castellano. Montagem: Rodrigo Montanari / Gazeta do Povo
e gorduras. Falta educação alimentar Rio de Janeiro Agência Estado z O brasileiro está comendo mal em casa. As frutas e verduras, que deveriam corresponder a uma proporção entre 9% e 12% das calorias diárias ingeridas, representam apenas 2,8%. Já os açúcares livres equivalem a 16,4% das calorias disponíveis nas residências, quando a recomendação é de que fique em 10%. Os alimentos essencialmente calóricos (óleos e gorduras vegetais, gordura animal, açúcar de mesa e refrigerantes) atingem 28% da caloria consumida. Entre os 20% mais ricos, o consumo desses alimentos ultrapassa a proporção recomendada por nutricionistas, de 30% – a porcentagem alcança 31,8%. Os dados fazem parte do levantamento “Avaliação nutricional da disponibilidade domiciliar de alimentos no Brasil”, feito com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008/2009. Para chegar a essas informações, os técnicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) analisaram apenas os alimentos disponíveis nas residências, também divulgados ontem na pesquisa “Aquisição alimentar domiciliar per capita”. “Está mal preparado o cardápio dos brasileiros”, afirma o gerente da POF, Edilson Nascimento Silva. “Há uma interferência na disponibilidade e preço dos produtos – frutas, legumes são normalmente alimentos de difícil acesso e o preço interfere. As pessoas fazem opções por cardápio mais barato”, explica. Silva ressaltou que a pesquisa demonstra que o consumo de proteína é satisfatório – 12,1% das calorias disponíveis diariamente, quando o ideal é entre 10% e 15%. “O que está faltando é uma educação alimentar, uma política voltada para ensinar o cidadão a consumir mais legumes, mais frutas”, complementa. Ana Beatriz Vasconcellos, coordenadora-geral da Política de Alimento e Nutrição do Ministério da Saúde, afirma que esse deve ser um esforço intersetorial, o que inclui o setor produtivo. “É preciso garantir a oferta melhor de alimentos: aumentar o crédito para que produtores façam com que suas frutas, verduras e legumes tenham condições de serem distribuídas em todas as regiões. E a melhoria da qualidade dos alimentos industrializados – redução da gordura, do sódio, do açúcar. É preciso o engajamento do setor produtivo.” No período avaliado – de maio de 2008 a maio de 2009 –, a disponibilidade média per capita de alimentos foi de 1.611 calorias. Na pesquisa anterior, era de 1.791. A diferença pode ser atribuída aos alimentos consumidos fora de casa. Comparando-se os resultados atuais e os da POF anterior, de 2002/2003, a despesa com alimentação no domicílio caiu de 75,9% dos gastos mensais para 68,9%.
18,6
“O que está faltando é uma educação alimentar, uma política voltada para ensinar o cidadão a consumir mais legumes, mais frutas.” Edilson Nascimento Silva, gerente da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008/2009.
Calorias para todos O levantamento mostra ainda que o teor de ácidos graxos saturados, cujo consumo está associado a problemas como doenças cardiovasculares e diabete, está próximo do limite de 10% das calorias na faixa de renda que vai de R$ 2.491 a R$ 4.150 (9,1%) e de R$ 4.150 a R$ 6.225 (9,5%). A faixa de renda mais alta, acima de R$ 6.225, já ultrapassou o limite recomendado – chega a 10,6%. Em relação à pesquisa anterior, a POF 2008/2009 mostra ainda o crescimento da participação no total de calorias de alimentos como pão francês (13% a mais), biscoito (10%), queijos (16%), refrigerantes (16%), bebidas alcoólicas (28%) e refeições industrializadas (40%). Por outro lado, registraram redução em alimentos como arroz (queda de 6%), feijões (18%), farinha de trigo (25%), leite (10%) e açúcar (8%).
Região Sul O estudo do IBGE também constatou que a Região Sul do país tem a despensa mais farta. A aquisição anual per capita de carnes (35,7 quilos), laticínios (67,4 quilos), bebidas e infusões (64,1 quilos), hortaliças (38,6 quilos), frutas (36,5 quilos) e alimentos preparados e misturas industriais (4,8 quilos) está acima das respectivas médias nacionais e de outras regiões. Para os pesquisadores, essa diferença pode ser explicada pelo hábito cultural, com aquisições mais frequentes e localização do domicílio próxima da área de trabalho – as pessoas vão em casa para almoçar.
NA BALANÇA A diferença no consumo de calorias pode ser explicada pelo aumento das refeições fora de casa.
Consumo diário de calorias Em kcal por dia por pessoa 2003
2009
1.791kcal 1.611kcal Refeições fora de casa, em % dos gastos com alimentação 2003
2009
31,1%
24,1%
Origem das calorias Veja em que grupos de alimentos está concentrado o consumo calórico das refeições. % das calorias ingeridas por dia
2003
2009
Média Média 20% mais 20% mais nacional nacional pobres ricos
Proteínas vegetais 5,6 5,5 5,4 Proteínas animais 6,7 6,1 5,6 Gorduras 27,8
28,7
Carboidratos 60,6
59,2
5,2 7,7 31,8
25,2
63,6 55,3
Interatividade E o seu cardápio, como está? De que forma controla os gastos com comida? Escreva para leitor@gazetadopovo.com.br
As cartas selecionadas serão publicadas na Coluna do Leitor.
Fonte: IBGE.
Infografia: Gazeta do Povo
z
23,4 Carnes
17,9
31,9
Bebidas não alcoólicas
16,9
84,7
Hortaliças
15,4
44,3
Gastos
Comida na mesa conforme cabe no bolso O levantamento “Aquisição alimentar domiciliar per capita” mostra um retrato nítido da desigualdade na mesa do brasileiro. Produtos como laticínios, frutas, verduras e legumes, gordura animal, bebidas alcoólicas e refeições prontas são mais consumidos por aqueles que têm maior rendimento. A carne bovina de primeira aparece pouco no cardápio dos mais pobres. O consumo de alcatra, por exemplo, foi de 200 gramas anuais per capita para aqueles com renda familiar de até R$ 830. Já os mais ricos (com renda acima de R$ 6.225) adquiriram 2,6 quilos – diferença de 1.200%. O consumo de filé mignon chama ainda mais atenção – 8 gramas per capita para as menores rendas, ante 850 gramas entre os mais ricos. O consumo de carne de segunda, entretanto, foi equivalente entre os dois grupos (6 quilos para a renda mais baixa, 6,2 quilos para a renda maior). No caso da bebida alcoólica, a diferença foi de 799% – aqueles com menor renda compram 2,1 quilos anuais per capita, enquanto aqueles com rendimentos superiores compram 19,2 quilos. O consumo de alimentos preparados é 514% maior entre os mais ricos em relação aos mais pobres (8,4 quilos contra 1,3 quilo). O mesmo ocorre com bebidas não alcoólicas (401% de diferença), iogurtes (379%), frutas (316%), leite de vaca pasteurizado (246%). Já arroz, feijão e farinha de mandioca foram mais adquiridos por aqueles com menor renda. Quem ganhava até R$ 830, adquiriu 27,6 quilos de arroz e 10,6 quilos de feijão. Os que têm renda acima de R$ 6.225 compraram 18,6 quilos e 7,3 quilos respectivamente. Já o cafezinho foi consumido por todas as classes com pouca variação. Aqueles com menor renda adquiriram 2,2 quilos de café moído; os de maior renda, 2,8 quilos. (AE)
Frutas
14,3
59,3
Aves e ovos
14
18,3
Leite de vaca pasteurizado
11,6
40,2 Feijão
10,3
7,3
Pão francês
9,2
14
Farinha de mandioca
8,4
1,9
Óleos e gorduras
7,6
9,9 Biscoitos
4,3
6,4
Sais e condimentos
4,1
7,1 Massas
4,1
6,1
Bebidas alcoólicas
19,2
2,1
Alimentos preparados e misturas industriais
8,4
1,4
Iogurte 0,9 Fonte: IBGE.
4,3 Infografia: Gazeta do Povo
Feijão e arroz já não são tão populares no dia a dia z O feijão com arroz já não é mais o prato-símbolo do cardápio brasileiro. De 1975 para 2009, a compra desses itens caiu drasticamente, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O arroz polido teve redução de 60% na quantidade anual per capita adquirida – de 31,6 quilos para 12,6 quilos. A aquisição do feijão para consumo em casa passou de 14,7 quilos anuais para 7,4 quilos (redução de 49%). Já a compra do açúcar caiu de 15,8 quilos para 3,3 quilos (79% menor). Por outro lado, o consumo de refrigerante de guaraná saltou de 1,3 quilo anual per capita para 6 quilos. A comparação foi feita entre as regiões metropolitanas de Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, além de Brasília, levando-se em conta dados do Estudo Nacional de Despesa Familiar (Endef) (1974/1975) e do levantamento “Aquisição alimentar domiciliar per capita”. Para fins de padronização, as quantidades medidas em litros foram transformadas em quilos. A mudança de hábito se reflete diretamente na saúde – levantamento divulgado pelo Ministério da Saúde na terça-feira passada aponta que entre 1996 e 1997 aumentaram em 10% as mortes provocadas por diabete, doença ligada ao excesso de peso. “Os carboidratos complexos, como o arroz e o feijão, estão associados às fibras, que são importantes para prevenção de doenças. Essa mudança na alimentação, da tradicional para a industrializada, reduz a quantidade de fibras, que são importantes para a prevenção da doença cardiovascular, a diabete, da obesidade e de alguns tipos de câncer”, afirma o professor Carlos Augusto Monteiro, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). A queda na compra desses itens básicos acentuou-se mais recentemente. De 2003 para 2009, a aquisição anual de arroz polido caiu 40,5%; a de feijão, 26,4%; e a aquisição do açúcar refinado caiu 48,3%. Nesse mesmo período subiu o consumo de alimentos preparados e misturas industriais – o que não era computado na Endef. Hoje, a média nacional desses produtos está em 3,5 quilos anuais, alcançando 8,3 quilos entre os 20% mais ricos. No carrinho do supermercado, o que ocupa maior espaço hoje são bebidas e infusões (a média domiciliar per capita é de 50,7 quilos), seguidas por laticínios (43,7 quilos). Só então entram cereais e leguminosas (39 quilos), frutas (28,9 quilos), hortaliças (27,1 quilos) e carnes (25,4 quilos). “Sem dúvida, a gente percebe uma mudança no cardápio do brasileiro”, afirma o gerente da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008/2009, Edilson Nascimento Silva. A alteração do hábito alimentar tem a ver com a falta de tempo, aponta o estudioso. “Hoje a gente se depara com famílias que passam o dia todo fora de casa, não têm tempo de preparar o alimento, além do custo de ter uma empregada doméstica, ou cozinheira. É o efeito da alimentação fora. Outra questão é o uso da alimentação semipronta, que são rápidas, mas que amanhã podem trazer problemas à saúde”. (AE)
“Essa mudança na alimentação reduz a quantidade de fibras, que são importantes para a prevenção de doenças.” Carlos Augusto Monteiro, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).