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R O D O L F O

B

D

A

I

A

L

E

S

CARPIDEIRAS A L M E I D A


VOL. 1


saí pra passar no mercado e no caminho ouvi um ruído que cru- zava a esquina comigo me enca- rava sentado num banco ou me seguia ao longo da aveni- da prestei atenção numa voz que não calava perguntei que dizia aper- tando os olhos pra focar no ba- rulho esquisito que soava o tempo todo falando e e me d i z i a que vivia única e exclusivamente para que nunca me dissesse coisa alguma

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l a ç o e m e n t e e v i s t a e s a f r a e p o s t o e t a n t o e m e i o e

n n n n n n n

t t t t t t t

r r r r r r r

e l a ç e m e n t e v i s t e s a f r e p o s t e t a n t e m e i

o e a a o o o

e o mundo desmoronando de uma ponta atĂŠ a outra

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VOCÊ OLHANDO OU NÃO Você olhando ou não cresce uma raiz que se aconchega na terra pra dela beber e morrer um tempo depois

Você olhando ou não um montinho de pó se recolhe debaixo da sua cama e descansa tranquilo como se estivesse deitado em cima

Você olhando ou não sopra uma brisa em um dia de calor feita especialmente pra você mas sem nem ter seu nome escrito nela

Você olhando ou não um velho chora numa sessão de cinema vendo um filme novo com as cores antigas de um daqueles filmes velhos

Você olhando ou não a lua se esconde atrás de um céu azul e como se sumida fica lá branca e escondida

Você olhando ou não um bebê chora na frente da mãe antes tão corada e agora pálida caída no meio do chão

Você olhando ou não dois cãezinhos brincam a dois quarteirões começam a se estranhar e um rasga o pescoço do outro

Você olhando ou não sua avó chora sentada na beira da cama ou ri do susto do gato que derruba um porta-lápis e corre disparado pra cozinha

Você olhando ou não um casal briga no trópico de capricórnio joga fora um monte de fotos e desliga o telefone pra não ouvir mais nada por mais ou menos uma meia hora Você olhando ou não um bezerro malhado nasce sem saber que se é nascer tenta abrir um dos olhinhos e tropeça confuso no chão Você olhando ou não uma menina chega da escola joga a mochila no tapete e se atira na cama pra dormir a tarde inteira

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Você olhando ou não caem quatro bombas com três segundos de diferença em umas casas vazias e num coelho branco que torcia três vezes o focinho Você olhando ou não um homem de óculos assina um contrato e com um frio no estômago vai pra casa contar tudo o que aconteceu Você olhando ou não uma pera começa a estragar um pouquinho antes de ser cortada e jogada numa salada de frutas cheia de abacaxi


Você olhando ou não uma moça faz seu ritual orando para o mesmo deus de todos aquele que é só seu e tem assim sua graça alcançada Você olhando ou não o mundo nasce e morre tira uma farpa do dedo sorri enquanto chora e te faz um novo curativo todo dia Quer esteja olhando pra você ou não

PARA WISLAWA SZYMBORSKA

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o pau na cara do cara caro

qual a cara do

ventre vivo

volvido e ver tido na vulva

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I N F I N I T O Infinito é todo o tamanho do espaço mas é também a estrada a promessa de amor dos amantes e a vista que o olho alcança A estrada é infinita e as duas linhas de sua margem correm sempre paralelas olhando uma nos olhos da outra em direção ao infinito Hoje não é infinito mas amanhã sempre é -- ontem continua sendo mesmo já tendo sido hoje e amanhã Nada é infinito e ainda assim, é infinito e sempre vazio de tempo e de fim

eu nunca vi um floco de neve e eles não começaram a começar pra poder ter um fim infinito Os anos que passaram são infinitos e a história das pessoas não são as pessoas tem histórias desde o infinito e suas histórias nem sempre costumam ter fim mesmo nem sempre sendo infinitas O número de cordas de um violão é finito as músicas que se pode compor são infinitas e as vezes que podem ser tocadas também as músicas soam como as mesmas coisas quando não são infinitas e soam diferente

nada

O número de sapatos que existe não é infinito e o número de pés que vestem sapatos também não é existem inúmeros pés que não vestem sapatos e que não existem fora do infinito As pessoas para se conversar são infinitas mesmo metidas num número com fim e seus assuntos são infinitos mesmo falando sempre das mesmas coisas e durando o tempo finito da chegada do ônibus pra finalmente ter seu fim Falaram que os flocos de neve são todos diferentes e que assim também devem ser infinitos

As bandas que tocam são infinitas e sempre nasce mais um infinito de outras bandas as bandas que já morreram são também infinitas e todos os que as viram tocar também são O número de beijos dados durante uma vida é infinito e mesmo assim nem costuma ser tão alto no fim é menor que o número de tiros disparados que cabem no cartucho de uma pistola e que sempre tem um breve fim O número de lentes das câmeras é finito os turistas sempre tem um fim e nem sempre são muitos o número de vezes que se tira uma foto é infinito e as fotos e os lugares sempre são infinitos mesmo se tiradas por um turista que dois dias depois toma um avião e tem seu fim

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O mundo existe há um tempo infinito que tem seu fim no momento que surgiu sendo infinito o número de mundos é finito o número de universos que cabem todos no olho do infinito O infinito número de coisas é infinito e infinitas são as coisas que podem ter um fim me contento sentado num banco vazio vendo até onde essas coisas começam e quando é que se começa a ter fim

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POEMAS

tempo: lhe sigo torto contando segredos de que não pretendo recordar -- sombra: lhe esqueço rápido queimando a memória qual rocha bruta dilapidar -- espelho: lhe cerco lento mirando nos olhos uma via lunar vagaroso e inerte no que me resta esperar

torta e lascada estaca e ti cravas às cegas pétala à pétala um lírio nascido

vem pousa o dedo no tempo e pressiona vê nele em chiaro-escuro um relevo do vivo relógio de tudo

na ponta, o tempo de ângulos impuros a ambivalência da lâmina crava desigual todo extremo indistinto nu o lírio não mais floresce sem furar - ao próprio corpo

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EU

DECLARO

feito e desfeito o monte de merda que não se desfaz visto e esquecido o trauma antigo não volta jamais mal agradecido o velhote inimigo sem perdão nem paz largo e comprido o muro caído não separa mais tratado e decidido o fim do silêncio que um adeus traz ilustre e despercebido o branco elefante e seu olhar sagaz bem-feito e merecido o castigo impelido ao cego capataz

vão e indefinido o certo e resolvido que erra contumaz

errado e descabido o tempo dolorido que resiste mordaz

contido e comedido o soco desferido ao que nada faz

escarrado e cuspido o veneno corroído que mata voraz

amado e querido o desejo nutrido que se satisfaz

achado e perdido o que foi sentido e se foi fugaz

cansado e repetido o falso inventivo deste verso loquaz

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O

FIM

DOS

Sentava-se do outro lado da sala. Falamo-nos o seguinte. “Vais morrer” Vou! Por tão bruto anúncio? “Esperavas diferente?” Ora, que tenho por certa a chegada deste dia! Estimei-o em meu espírito na mais tenra idade. Não vejo, contudo, a causa de tanta frieza. Não és tu como a mim? “Não” Nestes termos, recuso-me a morrer. “Vais morrer” Não vou. “Veja. Me aproximo de ti” Não! Te afasta. Dançarei de tua dança “Não toco a lira” Há homens vis! Bebi de teu sangue, não vês?

da peste. Reunidos por teu ídolo, teu porte, teu ser. Ceifados agora pelo próprio Tinhoso? “Não sou o demônio”. És o Cão. És o Fogo! “Levanto meu véu. Vês aqui meu rosto?” Não vejo a nada. “Enxergas o Cão? A Luz? O Enxofre?” Miro tua fronte. Não há nada aí. “Enxergas a ti?” Se não! Não és como eu. “Miras um conhecido” Por que veio até mim? “Anuncio que vais morrer” Que há do outro lado? “Não há o outro lado” São todos como a ti?

“Não tenho sangue”

“Não há outros”

Comi de tua carne, deitei-me a teu lado, nutri tua semente.

Leva-me, então.

“Não tenho carne” Ora, vivi em teu nome, clamei teu calor, adorei tua presença! Eu e tantos. Cães vagabundos, pobres diabos, expurgos

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TEMPOS


PAREDE BRANCA ATRÁS DE UM VIDRO TRANSPARENTE

plano o ar estendo e toco sol presente nele sopra seda calmo respira sêmen quente plano o quarto estendo e toco teu corpo ausente parede branca atrás de um vidro transparente

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C O R P SE N T E MENTE C O R P

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O QUENTE MENTE NÃO N Ã O S E N TE O SEMENTE


R E Z A

Acordam e dormem enroscados. Em próximo repouso, os corpos quentes da noite carregam as paredes com a terna leveza das horas corridas e, no arfar descompassado de seu busto, o tempo exerce seu trabalho silencioso -- escorre os olhos na ressaca noturna. Antes delicadamente atados em um laço de cetim, os dedos constritos buscam o concurso de seu calor na mão surda que dorme ao lado, pressentindo o movimento que se anuncia lá fora.

ILUSTRAÇÃO / MARIANA LOURO

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Ao largo, o uivo gigante da manhã espia a mansidão pelas frestas da persiana -- olhos alvos, mira no centro o quarto intocado, estanque e inerte em sua própria existência; quarto-fortaleza, que se alimenta e persiste segundo seus próprios mandamentos, à revelia do mormaço luminoso de uma alvorada em expansão. Intrusas, as primeiras nuvens do dia apertam os dedos nos cantos do cômodo e, furiosas, predizem nos sinos da face o rubro sanguíneo de um arrebol que há por vir; bufam, uivam e grasnam na ira de sua condição: efêmeras e dissolutas, quão malditas se percebem. Atam-se a nada observando a tudo; na congestão de sua mediocridade esparsa e imortal, deliciam-se tocando o céu na ponta dos pés, cientes, contudo, do ônus de privilégio tão surreal; circulam irreversíveis no curso de um mistério natural que, a elas, pouco esforço faz em se omitir: desnuda-se decifrado, maldição ou fado sem segredos, corrente inquebrantável que as derruba, violento, às planícies, e obriga, agourento, seu certeiro retorno à morosidade pantanosa de lagunas sem sabor e terras de delícias desconhecidas. Pesando a terra no aço de seus

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grilhões, o nimbus, no expediente de seu cansaço, inveja a fina seda dos corpos dos amantes -- atados em laço voluntário, corpórea certeza mais-que-natural, acíclica e de assombro constante, embebem-se na atmosfera de suas disposições pela carne altiva do espírito; impulso primeiro que faz do feitiço irreversível de um tempo sacramental fraca superstição de origem duvidosa, crendice pouco fugaz que cede, se acovarda e esvai nos vitrais fronteiriços entre um céu de onisciência e as mesmas persianas em que, quarto-catedral, um sono indelével arrebata toda a mística de um mundo indecifrável no murmúrio surdo de uma reza curta e no calor de pernas que se trançam e se acolhem em seu próprio mistério imprevisível. Trocam suspiros, acordam e dormem enroscados.


ELEGIA

/

RECUERDOS

O poeta em desespero Exubera Faz que chora Lança à lua Coroas de sonetos Sonoras canções Complexas sextinas O astro em tom de escárnio Chalaça Diz motejos Cospe de volta Pastiches cruéis Chanchadas pornográficas Pestilentos cordéis Surreais verborragias

paro o tempo e passo os dedos por teus medos para o medo se passo o tempo em teus dedos

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S O N Â M B U LO Por não mais que um segundo Pouco depois de deitar-me — E no instante anterior a adormecer Compreendo a eterna natureza de tudo (E de tudo faço parte) Vislumbro os montes e as planícies das flores e me meto nos conflitos de suas vidas privadas com a presteza servil de um ouvido paciente Ainda neste segundo Torno-me fluente em todas as línguas animais — Enraiveço-me ante a voz dos hipopótamos e me debulho em lagrimas [ao cacarejo das granjas Sem adormeçer, danço pulando de um lado pro outro ao largo de cada onda — Sempre sérias e burocráticas marcham em passo firme ao expediente das praias [Nunca olham pro lado fingem me ignorar Acordado, inicio um culto secreto ao lado de uma frota imensa de formigas — Montamos um altar no topo do formigueiro dispomos circularmente os artefatos de Deus e assim ganhamos seu irrestrito perdão Dele fazemos parte — nossa imagem e semelhança Escalo o mais alto dos montes da terra me inclinando sobre seu último pedregulho — altivo, vislumbro o conjunto da obra empreendida E me deito sobre a altitude Suspirando a luz do sol Em seguida caindo no sono Onde tudo se permite esquecer

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REBOBINAR Quero espectar o mundo Dele quero ser espectador E lançar olhares Ao mais intímo dos seres Sem provocar qualquer lampejo De desconfiança — sem suspeita Caminhar — Acompanhar as mais cruéis narrativas Os meandros das intrigas políticas E o choro do filho caído no mato — Os tios que roubam a herança Um pássaro com a asa quebrada E o êxtase dos amantes — nus e enroscados [nenhum deles me veria Quero voltar a todos os momentos E revê-los sem fim — em câmera lenta [ao revés Quero espalhar tudo no chão E compilar o que de mais importa Numa fita infinita da história humana [depois rebobiná-la Pra gravar tudo por cima

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DISCURSO / SEM TÍTULO Na camada imponderável dos seres Falo sozinho coberto de razão E se sucede ao meu discurso coerente A salva ruidosa dos aplausos servis A farpa do jugo soa à piada Ante a cara do meu riso — o mais natural possível E do meu verbo mais chulo e vil Brota o pranto da essência das coisas No estardalhaço de vozes dissentes Me imponho com as letras de um pigarro Peço palavra a gentil assembléia Que me vê atenta — ansiosa — em espera — Só falo, de verdade, Se falo sozinho E só me escutam, com efeito, Se me ignoram por completo Falo às sete multidões E, mesquinho, Não digo uma só palavra

nos lapsos de um sonho enxergo aberto todo o real entre as linhas do filme rodado entre as pausas da fala impensada entre as manchas do gás ressecado nos lapsos do real enxergo mudo todo sonho idêntico e oposto a si

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CASA DAS ROSAS / CERTEZA

embriagados de orquĂ­deas miramos o espelho nos lĂ­rios dos olhos descobrimos por fim nosso sangue fervendo igual

conforta-me a certeza de encontrar ao fim de tua ponte larga e suntuosa o sutil jardim de onde se estendem todas harmonias

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O

M

E

N

ambos estão parados ambos estão deitados ambos estão cantando os dois não se deitam os dois não se falam os dois não se movem pros dois há escrita pros dois há tracejo pros dois há remorso nos dois é desejo nos dois é segredo nos dois é a posse e isso me comove

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C A R N E Prostrado entre lençóis, empreendi um esforço hercúleo para ignorar o silêncio ensurdecedor que, feito um colo de mãe, abarcava toda a área do diminuto quarto de mobília creme-escuro em que me via. Cego pelos óculos, divisava através da umidez dos vidros e da neblina cinzenta do ambiente minha própria imagem estampada do lado de fora -- todo aquele trajeto conhecido esticado numa linha de lã, um novelo cronológico daquilo que fora e permanecerei sendo. Colados ao vidro, os tendões, ligamentos e juntas horrorosas da clavícula dos dias se retorciam num berro sem dentes, tensionando-se desgraçadamente e ameaçando rebentar todos os vasos e artérias de uma só vez, num movimento inenarrável de violência e terror. Cerrando os olhos em temor, busquei na saliva uma melodia sabida, três ou mais notas que, no murmúrio, pudessem afugentar criatura tão brutalmente onipresente e de sadismo tão irracional. Sentindo a origem das notas, dos Sis e Fás com gosto de sangue e cabelo queimado, me deparei com a inutilidade daquele intento doloroso e tão mal pensado -- oriundo

do romantismo dos jovens e da falta de reflexão. Mesmo assim, continuei. Decidido pela vitória, caçei as incontáveis paredes do ambiente à procura do suspiro que me levara até ali. Tocando com vigor aleatório e harmonia esquizofrênica todas as tubas, trompetas, flautas e clarinetes que manejei construir, observei os dentes da memória aproximarem-se da chama da vela que permanecia imóvel sobre a estante vazia, num contrassenso curiosamente científico. Resignei-me de continuar e, em pouco tempo, me cansei da situação. Bufei cansaço nos olhos dos anos que me apontavam para a claridão lá fora e para o ruído prazeroso e nauseabundo dos vinhos que corriam em festins de glorificação vaidosa por entre as frestas da carne já rota e pagã. Cuspi na boca dos prazeres recém conhecidos que clamavam uma presença enjoativa e, enfim, dando cabo de todo aquele inferno de músculos e silêncio, tomei uma decisão incisiva. Recolhi e queimei um por um todos os fios de cabelo que fui capaz de encontrar perdidos entre meus dentes, observando-os ascender deliciosamente de sua vermelhidão natural e terrena à luminosidade incompreensível daquela mesma vela de cima da estante vazia.

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Agora, num contrassenso curiosamente sentimental, a chama tremulava e tilintava com uma frieza assustadora, aterrorizada diante da violência do ritual e secretamente clamando por perdão casto e beatífico. Perdão este de que eu, homem feito, infelizmente não dispunha. Deixei que os dentes mordessem o buraco de meu estômago e fiz, então, que nada vi. Virei-me de lado e, dentro de poucos minutos, fui capaz de adormecer.

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BRINCADEIRA DAS COISAS / NO BANCO DE TRÁS amasso um papel construo uma bola desfaço um papel desdobro uma bola construo um papel destruo uma bola e tudo permanece igual

Meu filho sentava-se no banco de trás Num dado momento

seu dedo me tocou

Meu filho sentado no banco de trás Noutra hora tossiu Quando rasguei a lua com a ponta do nariz Meu filho sentou-se no banco de trás Comentou qualquer bobeira E falou dormindo Sentado no banco de trás Se eu me deitasse cruel a seu lado Lembro que meu filho Estaria sentado Onde os filhos Se deitam No banco De trás

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MANIFESTO DA FEROCIDADE DA VIDA PRÁTICA

Não me interessa mais tudo aquilo de outrora cantos ou planos vetores pontuais arestas verdejantes nas planícies vermelhas Violentas suposições de hipóstases ignorantes enfisemas pulmonares de nosso eterno devir Plexos vendidos de luz auricular cordões umbilicais que mal se pode compreender Escritos em cinza e nanquim de próprio punho cuneiformes e góticos da vida que é câncer Que se espalha nas cadeiras que se deita à realidade sobre os dentes podres da feiticeira que se joga sobre as beiras em impulsos de morte e vida NÃO EXISTEM MAIS CADEIRAS HÁ APENAS O ETÉREO

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DRAMATIS PERSONAE #1 / #2

Fidalguíssimo, bem casado e de família abastada, Oswaldo jamais soube dar um nó de gravata sozinho. Demonstrando natural intimidade com o campo das artes clássicas, da pintura e da música erudita, compunha sonetos quando moço e recriava os rostos de amigos e familiares em óleo, vendendo as telas à humilde preço. Hoje, subprocurador geral da República, Oswaldo tem o hábito de pincelar a testa com tintas coloridas e assinar páginas de processos com a própria estampa de suas rugas. Tal prática é curiosamente bem aceita entre os círculos sociais jurídicos. *** Sua mãe, na ocasião de seu parto afirmou, com os olhos cheios d’água: “nada em você devia ser assim”. De fato. A contragosto geral, a genética misteriosamente lhe contemplou com atributos estranhos à sua linhagem - não possuía os olhos claros de seu pai, tampouco os cabelos cacheados da mãe e, mais ainda, o temperamento de ambos. Era, na realidade, o extremo oposto de todos esses traços. De início, pensou-se em traição, mas tal opção fora descartada diante do notável caráter de sua mãe. Diz-se que o pecado fora cometido no próprio útero, onde o feto buscou, no corpo da mãe, tudo aquilo que lhe era indesejável: alimentou-se das cinzas de seus pulmões, bebeu do álcool de seu fígado, comeu da gordura de suas artérias e, por fim, jantou um banquete em seu espírito, refúgio de tudo aquilo de mais podre que guardava.

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EU VI

I Vi uma arcada de corvos dentuços Com asas do tamanho Dos homens que dormiam em seus carros Vi a cor azul E o grito de quem força o sangue De volta ao corpo O sangue que vaza desses buracos Vi que seus cabelos Eram um apartamento em chamas Contando suicídios E transas desajeitadas Vi que do teu seio emergiam cestos E poemas de amor e de dor e insegurança Emergiam poemas de medo

São construções de pensamento Linearidades Marchas progressivas E outras caminhadas imbecis Ora, rasga teus olhos! Fura tua língua! Joga fora essa tua cona e teu caralho sensível! Teu sexo sensorial! Tuas verborragias existenciais! III Volte a ver Vi o sublime em teu dorso inocente Em teu dorso de pêssego Tal qual tuas bochechas

Vi a sola de teus pés E teus dedos finos e brancos Tua canela fina e seca

Vi Deus em teu rosto Deus e tudo aquilo que Não vi nas paginas dos livros Nos poetas exagerados E no rosto de Deus

Vi tudo isso em fá Em dó e em lá sustenido Em dodecafonias e Cores que ainda não tem nome

Vi as flores e seus sabores As azaléias e todas aquelas criaturas do mar que ainda não conhecemos

II

Vi tua língua quente que trançava um berço acolhedor Em torno de meu corpo E também de minha consciência

Vi tudo isso sentindo as notas vermelhas de mogno e verdes de bosta As notas de queijo brie

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Vi teu par de olhos E neles vi o fogo E no fogo vi o fogo E no fogo vi verdade Vi o lĂ­rio intocado Vi-me sentir intruso Vi teu convite Vi que morremos Vi meu renascer Vi que sou tu

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PERDER-SE NA CIDADE

Eu quis ser Adão

Eu quis ser Ask

Conhecer a primeira lesma e comer do primeiro galho Beber do primeiro tubarão e foder a primeira nuvem Mergulhar na primeira pedra e gritar ao primeiro pássaro

Ser perfurado pelo chifre áspero Frio e lindíssimo Cheirando a carniça Do Mastodonte

Eu quis ser Adapa

Fernanda

Tilintando de frio, no fundo do mar às três da manhã A incendiar a poeira que descansa Por cima das nuvens no fundo das cavernas

Luís

Eu quis ser Akamu Na companhia do cachorro mais carrancudo que existe Que brada e morde Frutas roubadas

Quero ser Lucas

Apalpar os arranha céus Comer as folhas do chão das praças Pôr-me de quatro E berrar com cidadãos E indivíduos E mundos bufantes

Eu quis ser Caápua Contando, de três em três Ou quatro em quatro Árvores e cheiros E o suor que exala meu corpo

TENDO EM MENTE NUNO RAU

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PRIMEIROS Puxava, repuxava, esticava Centrífuga se afastava Centrípeta lhe falava * Me esquenta, pediu ela Entregando um fósforo, repliquei Risca no asfalto * E pra todo canto Carregava aquela trindade nãoesclarecida Triângulo Equilátero Assimétrico * Fico pegando outros caminhos pra os mesmos lugares Sumindo de meus amigos Marcando compromissos Pra ver se trombo você por aí * Caninos em V Em ti Em si Em mim * De um lado, teu ritual; psicótico D’outro, meu rapsodo; letárgico Quem de dois sai ganhando? * Manejava fogo vivo Pólvora Pronta a explodir

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POEMAS *

No shattered landscapes Overcome reality No shackles Overcome freedom For hell is much warmer Than these icy cold streets * Passando Te vi Passei Revi Te vi Repensei Passei (Me arrependi) * Cessei o que lia da vida, Do tempo, do eu, da terra, da Pedra, da memória (do espelho) Afoguei no ser e no prazer Desarrumei * Das coisas que sentiu, faltava apenas o nome (de que dizia, faltava o resto)

É fervilhar esperando contrapeso à embrenha no oceano Prestes A virar Onda

*

*

O dizer não é o selar o compactuar [FECHAR]

Na cara da carranca O diabo E a gota de orvalho


"não esperar nem um sorriso amarelo como resposta porque a despeito do endereço certo fica a quem interessar possa" sérgio cohn

Baile das Carpideiras  

Poemas de Rodolfo Almeida

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