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Antonio João Menescal Conde Volume I Até os Jogos Paralímpicos de Beijing, China, 2008

Memória Paralímpica

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Antonio João Menescal Conde Volume I Até os Jogos Paralímpicos de Beijing, China, 2008

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Foto de Marcelo Reyes/ Acervo da SADEF-RJ

O envelhecer nos traz, entre outros, o inconveniente de perder os grandes amigos cedo demais. Todavia nos dá a responsabilidade de enaltecer a sua obra. No centro da foto, ainda com a barba e os cabelos bem pretos e com cerca de 25 anos a menos, o autor deste livro. Comigo, para sempre, as saudades do José Gomes Blanco, da Beatriz Pinto Monteiro e do Renausto Alves Amanajás, grandes lutadores pelo esporte paralímpico brasileiro. A eles dedico esse resgate da memória. Na foto, de meados dos anos 90, conosco o Professor Joaquim Inácio Cardoso Filho, então titular da Secretaria Nacional dos Desportos, do Ministério da Educação e Desportos.

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AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Mizael Conrado de Oliveira e ao Professor Dr. Alberto Martins da Costa, dirigentes do CPB, pelo incentivo para a conclusão deste trabalho, primeiro Projeto do Programa Memória Paralímpica Brasileira. Ao Professor Vanilton Senatore pelo prefácio e pelo companheirismo numa jornada de mais de 30 anos. Ao meu filho, Jornalista João Menescal, pela ajuda na redação e pela revisão do texto. Ao Roberto Tostes pela diagramação, criação da logomarca do Programa e criação da sua identidade visual. A ambos por estarem comigo no desenvolvimento do Programa, desde o seu início, em setembro de 2013. A todos os 5000 participantes do nosso grupo no Facebook que, pelos seus depoimentos e registros, tornaram possível este livro. À minha esposa Cristina, ao meu filho André Luiz, aos meus netos Arthur, Manuela e Lis e às minhas noras Maira e Paulinha pela tolerância com as indagações não respondidas enquanto eu me encontava imerso na redação desse livro, com as noites viradas e com as manhãs perdidas. Ao meu filho Felipe Menescal pelas observações, correções e críticas. A todos que, através dos seus incentivos e percepção da importância, não nos deixaram desistir. A todos aqueles que muito fizeram pelo esporte paralímpico no Brasil e que hoje não têm o merecido reconhecimento. Ao Senhor Sidney de Oliveira, Presidente do Clube do Otimismo do Rio de Janeiro, primeira instituição a acreditar, perceber a importância e dar a seu apoio institucional ao Programa Memória Paralímpica Brasileira. Ao Professor Dr. Pedro Américo de Souza, pelo seu esforço no apoio na avaliação do conteúdo, sugestões e pelo histórico da classificação funcional. Aos consultores e colaboradores do Programa.

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APRESENTAÇÃO

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Mizael Conrado de Oliveira Presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB)

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PREFÁCIO

“Memória Paralímpica”, o livro, é produto de um projeto primoroso e diferenciado de um grande amigo que tenho a honra e o prazer de prefaciar. António João Menescal Conde, que tive oportunidade de conhecer no final dos anos setenta em razão de nossa vivência comum na Educação Física e Esportes para pessoas com deficiência traz para o papel uma parte importante da história paralímpica brasileira e mundial discorrendo em detalhes e ilustrando com fotos essa caminhada nem sempre fácil, mas vitoriosa, na conquista de direitos das pessoas com deficiência. Em 1957 as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo receberam as primeiras exibições de Basquetebol em cadeira de rodas no Brasil. Os Pan Am Jets, equipe formada por pessoas com deficiência e, em sua maioria, funcionários da então maior empresa aérea do mundo a Pan American Airways, rodava o mundo divulgando o esporte tal como os “Harlem Globetrotters”, time de basquetebol profissional norte-americano. Na edição do dia 23 de abril de 1957, o jornal “O GLOBO” noticiava a chegada da equipe americana: “Em cadeiras de rodas provarão que basquete se joga com Em 1957 as a cabeça”. cidades do Rio A vinda dos Pan Jets ao Brasil e o trabalho de Robson Sampaio de Almeida de Janeiro e São no Rio de Janeiro e Sérgio Seraphim Del Grande em São Paulo, dois brasileiPaulo receberam ros que fizeram reabilitação nos Estados Unidos, deu origem ao movimento as primeiras paralímpico brasileiro. Coube a eles ainda, em 1958, a fundação dos dois priexibições de meiros clubes esportivos para pessoas com deficiência do Brasil, o Clube do Basquetebol em Otimismo no Rio de Janeiro e o CPSP - Clube dos Paraplégicos de São Paulo, cadeira de rodas na capital paulista. no Brasil “Memória Paralímpica”, o livro, mostra a característica peculiar da perspicácia e determinação do autor em registrar fatos em sua maioria vividos, comemorando seis décadas em que a atividade esportiva buscou e garantiu espaços, ajudou na mobilização, deu visibilidade, rompeu paradigmas e permitiu ganhos incalculáveis para uma parcela significativa de nossa população. Do início, no final dos anos cinquenta quando surgiram os dois primeiros clubes, chegamos hoje a mais de quinhentas associações em todas as vinte e sete unidades da federação. São milhares de pessoas com deficiências que têm no esporte um dos mais importantes meios de convivência social, do reconhecimento, da elevação da autoestima e da verdadeira e positiva integração e inclusão social. No livro, ao percorrermos seus vinte e dois capítulos, percebemos com clareza que a sociedade brasileira ganhou muito com a participação esportiva das pessoas com deficiência. Foram muitas as pessoas que, unidas e apoiadas por profissionais de Educação Física e amigos, a partir de 1957, enfrentaram e venceram grandes desafios no Brasil e no mundo. Nos anos sessenta, a chama acesa da atividade esportiva começou a ser espalhada e disseminada

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pelo Brasil. As fronteiras de nossa terra foram ultrapassadas em 1969 com a primeira participação brasileira em competição internacional nos Jogos Parapan- Americanos de Buenos Aires – Argentina, três anos depois nas Paralimpíadas de 1972, em Heildelberg, nos Jogos Parapan-Americanos do México, em 1975. Daí surgiu, naturalmente, a necessidade de uma entidade nacional, sendo a ANDE – Associação Nacional de Desporto para Excepcionais, a pioneira, fundada em 1975 e seguida nos anos seguintes pela ABRADECAR, ABDC, ABDA, ABDEM. A mobilização e as atividades do Ano Internacional das Pessoas com Deficiência - 1981, as conquistas da Educação Física Adaptada - 1985, a criação da CORDE/PR – Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa com Deficiência - 1987, as Comissões Paralímpica Brasileira - Seul 1988, e Barcelona 1992, a criação da SEDES/PR – Secretaria dos Desportos da Presidência da República com seu Departamento de Desportos da Pessoa com Deficiência – DEPED - 1990, a fundação do Comitê Paralímpico Brasileiro, em 1995, são outros fatos relatados que corroboram a importância e a força da participação das pessoas com deficiência nas atividades esportivas. Seria imperdoável esquecer os voluntários, na sua maioria formada por profissionais da Educação Física, que estiveram presentes desde o início das ações em 1958 e contribuíram decisivamente na formação e encaminhamento de uma nova geração que hoje compõe um contingente respeitável de técnicos e especialistas de alta capacidade em atuação na área. Finalizo fazendo uma referência especial ao gigantesco passo dado em 2012, durante as Paralimpíadas de Londres, com a proposta da construção de um Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro. Durante um jantar na capital inglesa, com a presença do presidente e vice do CPB, Andrew W. Parsons e Mizael Conrado de Oliveira, da Secretária de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo, Dra. Linamara Rizzo Battistella e do Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, fui testemunha da primeira conversa oficial sobre o desejo do CPB em ter um Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro que, mirando a participação brasileira nas Paralimpíadas Rio 2016, contribuísse para a consolidação do movimento em nosso país. Sonho sonhado e realizado com a inauguração em 2016 do, obra majestosa, realizada em pouco mais de três anos pela SEDPcD – Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência/ Governo de São Paulo, com apoio do Ministério do Esporte e que está oficialmente sob a gestão do Comitê Paralimpico Brasileiro desde outubro de 2017. E lá, certamente, teremos o espaço para acomodar fisicamente a “Memória Paralímpica”.

Vanilton Senatore

Nota do Autor: As opiniões, conceitos, posições técnicas e o restante do conteúdo desse livro são de responsabilidade do autor, não representando, necessariamente, as posições e opiniões do CPB, do seu quadro técnico, da sua diretoria, tampouco aquelas de suas entidades filiadas e reconhecidas.

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ÍNDICE Introdução

Bem vindos à memória do esporte paralímpico.

O Projeto Memória Paralímpica Brasileira

Limite no tempo e foco

O que é e o que não é o Esporte Paralímpico

Os principais colaboradores

Origem da palavra “paralympic” (paralímpico)

A educação física, o esporte e a deficiência Os atletas do esporte paralímpico não são super-heróis

CAPÍTULO 1

Das Elegibilidades e o Histórico da Classificação funcional no Des-

porto Paralímpico. As elegibilidades, classes e os “invasores CAPÍTULO 2

Esporte, Deficiência e Sociedade

CAPÍTULO 3

A Revolução Industrial e as Deficiências

CAPÍTULO 4

A Guerra Civil Americana e as Pessoas com Deficiências

CAPÍTULO 5

A I Grande Guerra Mundial e as Pessoas com Deficiências.

Antes de Stoke Mandeville CAPÍTULO 6

Ludwig Guttman em Stoke Mandeville.

CAPÍTULO 7

Franklin Delano Roosevelt e o início do esporte paralímpico nos

EUA – O berço do basquete em cadeira de rodas. CAPÍTULO 8

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Os Movimentos Olímpico e Paralímpico


CAPÍTULO 9

Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Verão

CAPÍTULO 10

A Organização Internacional do Esporte Paralímpico.

- As IOSDs e as Federações Internacionais

CAPÍTULO 11

Os Pioneiros do Esporte Paralímpico no Brasil.

CAPÍTULO 12

A Relação do Esporte Paralímpico com o Movimento Político Associativista das

Pessoas com Deficiência no Brasil. A criação e o trabalho da ABDC, da ABRADECAR e da ABDA.. CAPÍTULO 13

Antes da Criação do CPB

CAPÍTULO 14

Antecedentes e a Criação do Comitê Paralímpico Brasileiro e os seus Presidentes

e Vices. Entidades filiadas e reconhecidas pelo CPB CAPÍTULO 15

Linha do Tempo

CAPÍTULO 16

III Jogos Parapan-Americanos Rio 2007

CAPÍTULO 17

As Modalidade Paralímpicas de Verão

CAPÍTULO 18

As Modalidades Paralímpicas de Inverno

CAPÍTULO 19

Outras personalidades da história do esporte paralímpico no Brasil

CAPÍTULO 20

Os Medalhistas Paralímpicos Brasileiros (de 1976 a 2008)

CAPÍTULO 21

O “Hall da Fama” da Memória Paralímpica Brasileira

CAPÍTULO 22

Galeria de Fotos - O Brasil nos Jogos Paralímpicos de 1984 a 2008

Homenagem à Beatriz Pinto Monteiro

Anexo 1 - Pequeno Manual de Estilo Do Esporte Paralímpico Anexo 2- O Goalball e eu

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INTRODUÇÃO

Bem vindos à memória do esporte paralímpico Numa clara situação de causa e efeito, vivemos o hoje construído pelos passos daqueles que nos antecederam. Já o futuro é uma incógnita. Ele está sendo decidido nesse momento, ou melhor, ele está sendo construído no agora com base em tudo aquilo que nos chegou do passado. Nesse contexto, a memória nos chega tendo como informações aquelas trazidas pelos indivíduos que ajudaram a construir o passado do esporte paralímpico. A influência do passado nos dias de hoje é inegável, contudo, resgatando o passado, este livro e o Programa Memória Paralímpica Brasileira têm o seu foco no futuro. História e memória são diferentes em suas essências. Ao contrario do registro histórico, na memória não se pode pretender apresentar verdades intocáveis, tampouco limitar o potencial de reflexão dos leitores. Muito pelo contrário, o autor pretende e reconhece que o tema, sempre associado às questões da relação deficiência/sociedade, mereça reflexões, correções, atualizações, adições e maiores aprofundamentos. A memória não exclui, propositalmente, personagens, instituições ou fatos. Ela não tem o viés dos personalismos, dos interesses, ou das conveniências políticas do momento. Ao contrário do relato histórico que, geralmente, possui uma verdade única, a memória pode ter versões com base em vivências pessoais, percepções e relevâncias diferenciadas de acordo com as expectativas, interesses e análise própria dos partícipes. Como simples exemplos, a memória não deixará que sejam apagadas dos registros históricos instituições como a Associação Brasileira de Desportos para Cegos - ABDC e a Associação Brasileira de Desportos em Cadeira de Rodas - ABRADECAR, ambas criadas em 1984 e marcos da autogestão dos esportes praticados por atletas com deficiência no Brasil, do movimento assoaciativista das pessoas com deficiência no esporte e entidades fundadoras do CPB. Deixar de referenciá-las, não reconhecer a sua importância no desenvolvimento do esporte paralímpico brasileiro, desconhecer a sua trajetória e o seu trabalho, certamente, é um caminho que a memória não percorrerá. No âmbito internacional, a história nos traz que o esporte competitivo para atletas com deficiência foi introduzido inicialmente no Hospital de Stoke Mandeville. Sem qualquer demérito ao trabalho do Dr. Ludwig Guttmann, que merece todas as honrarias e títulos que lhe e foram e são concedidas, a memória revela que antes de Stoke Mandeville, o Star&Gater Royal Hospital, também no Reino Unido, já houvera inserido em seu programa de reabilitação, após o final da I Grande Guerra Mundial, modalidades do esporte competitivo para os ex-soldados lesionados naquele conflito bélico. O basquete em cadeira de rodas, nos moldes nos quais é praticado até hoje, também não 14


teve o seu início em Stoke Mandeville e sim em três hospitais americanos, ainda durante a II Grande Guerra Mundial. Veremos isso mais à frente, “quando Johnny voltar para casa”. No que se refere ao passado remoto, o levantamento da memória não pode deixar de considerar os relatos históricos da época, sempre com a devida confrontação entre as diversas verdades apresentadas. A memória, na sua construção, tem de estar associada a conceitos, delimitações, abrangências, caracterizações e a clareza sobre aquele determinado tema central da sua construção e sobre o seu público-alvo. Nessa introdução vamos conversar sobre o esporte de alto rendimento praticado por atletas com deficiências físicas, visual e cognitiva. Vamos refletir sobre aquilo que é e sobre aquilo que não é o esporte paralímpico. Vamos caracterizar, conceituar e delimitar o esporte paralímpico, para depois e com essa necessária base conceitual, apresentar suas interfaces, seus personagens, suas instituições e os seus fatos mais relevantes. A construção da memória do esporte paralímpico, contudo, não pode prescindir da participação de todos aqueles que fizeram e fazem parte dessa jornada. Vamos continuar a contar as nossas verdades e registrar fatos, eventos, personagens e instituições que fizeram possíveis os dias atuais e deram base ao futuro do esporte praticado por pessoas com deficiência. A memória paralímpica brasiA construção da leira vai continuar sendo registrada. memória é um processo Sem a pretensão de apresentar verdades absolutas, tampouco repetir textos vivo, democrático, acadêmicos já construídos, embora tendo por eles e seus autores o maior respei- participativo, contínuo to, reconhecendo a sua grande importância, o Programa Memória Paralímpica e ininterrupto Brasileira estará sempre aberto a correções em seu conteúdo e à inclusão de personagens, fatos, eventos e instituições que, por qualquer motivo, não tenham o devido e adequado registro nesta publicação. Este livro não tem a pretensão de ser e não é um texto acadêmico. Ele foi construído para facilitar a leitura e a consulta de todos aqueles, acadêmicos ou não, que tenham interesse na área. O seu objetivo não é ser percebido como uma referência, mas sim como instrumento de consulta e, principalmente, de difusão do conhecimento advindo de relatos verbais e escritos dos verdadeiros construtores da história.

O Projeto Memória Paralímpica Brasileira Este livro é um dos oito Projetos previstos no desenvolvimento do Programa Memória Paralímpica Brasileira. Criado em setembro de 2013, o Programa tem como objetivo a construção coletiva da memória de fatos, eventos, instituições e personagens que fizeram possível o dia de hoje, o desenvolvimento e a consolidação do esporte de alto rendimento praticado por atletas com deficiência em nosso país e no mundo. Idealizado e gerenciado desde a sua criação pelo autor desse livro, o Programa contou, desde os seus primeiros passos, com a participação da Senhora Beatriz Pinto Monteiro (in Memoriun), do jornalista João Menescal e do profissional de editoração gráfica eletrônica Roberto Tostes. Em outubro de 2017 o Programa foi chancelado e incorporado às ações do Comitê Paralímpico Brasileiro - CPB. Memória Paralímpica

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O grupo de Consultores do Programa conta com os Professores Alberto Martins da Costa, Celso Lima, Vanilton Senatore, Paulo Sérgio de Miranda, José Carlos Morais, Hélio dos Santos, Rivaldo Araújo e Renausto Amanajás (In Memoriun). Utilizando, inicialmente, as redes sociais como veículo de aquisição de relatos, fotos, vídeos e depoimentos de atores da construção da trajetória do esporte de pessoas com deficiência no Brasil, o Programa Memória Paralímpica Brasileira consolida, enquanto informação em seus projetos e neste trabalho, os dados obtidos. Ávidos por saberem mais sobre a trajetória do esporte paralímpico no mundo e no Brasil, o grupo do Programa no Facebook conta com 5000 membros e com mais de 80 mil curtidas. Muito mais importante do que isso são os registros, orais ou escritos, feitos por ex-atletas, técnicos e dirigentes, trazendo sempre a sua visão pessoal sobre as experiências vivenciadas por eles próprios. Importante também é o papel do Programa ao oferecer suporte às cadeiras de educação física adaptada, atividade motora adaptada e esporte paralímpico, tanto na graduação, quanto na pósgraduação, no âmbito das escolas superiores de educação física no Brasil e nos países de língua portuguesa. Além deste livro, seu Projeto inicial, o Programa contempla diversas outras ações, sempre visando à difusão de informações e ao registro de pessoas e fatos que têm de ser reconhecidos com gratidão, honra e respeito.

Limite no tempo e foco desse livro O livro tem o seu conteúdo limitado num teto temporal marcado pela realização dos Jogos Paralímpicos de 2008, na China. As memórias do período subsequente continuarão a ser buscadas e constarão de uma próxima publicação. Alguns fatos e personagens do período posterior aos Jogos de Beijing são citados dentro de contextos específicos. Os atletas hoje ainda em atuação e com destaque devem perceber que a continuação do Programa fará com que eles, no futuro, não sejam esquecidos e não tenham os seus resultados mais expressivos sem o merecido registro e divulgação às próximas gerações. Os atletas de hoje, contudo, não são o foco direto dessa publicação. Sobre eles ainda estão as luzes e a divulgação de suas participações nos eventos atuais. O foco são aqueles que muito fizerem e poucos sequer conhecem. O foco está nos personagens, nos fatos e nas instituições que fizeram possíveis os dias de hoje e aqueles que ainda estão por vir. Num outro aspecto essa publicação e todo o Programa não transitam nas questões políticas do esporte paralímpico nacional e internacional. Isso não quer dizer que a política deixe de estar presente nessa narrativa. Ela está presente, todavia é sempre no sentido de perceber o esporte paralímpico como uma parte importante do Movimento Político das pessoas com deficiência no Brasil e no mundo.

O que é e o que Não é o Esporte Paralímpico Exemplo de superação e da força do espírito humano, o esporte paralímpico é o esporte visando ao alto rendimento, praticado por atletas com deficiências físicas, visuais e cognitivas, mesmo ainda nas fases de sondagem de aptidões, iniciação, desenvolvimento e treinamento de

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modalidades que compõem o programa dos Jogos Paralímpicos de Verão e os Jogos Paralímpicos de Inverno. Ele não é simplesmente uma representação do esporte olímpico praticado por atletas com deficiências. O esporte paralímpico, nos dias de hoje, também não é uma etapa do processo de reabilitação de pessoas que tenham adquirido uma determinada deficiência, todavia ele pode ser uma sequência desse processo no pós-alta. O esporte paralímpico não é assistencialista, tampouco é recreativo ou de lazer. Ele é uma atividade de alto rendimento esportivo que visa a resultados em todas as suas modalidades. Contudo, conhecer a sua história, a motivação para a sua criação, seus princípios filosóficos, valores, amplos objetivos, missão, clientela e as suas interfaces é função da compreensão da sua origem no mundo e no Brasil, da sua evolução, análise situacional, visão de futuro e da sua relevância social no contexto do cenário dos séculos XX e XXI. A conceituação moderna e a caracterização clara do esporte paralímpico como esporte de alto rendimento praticado por atletas com deficiO esporte paralímpico ências físicas, visuais ou cognitivas não o desobriga, contudo, do compronão é uma atividade de misso assumido desde os seus primeiros passos, ou seja, a sua inclusão reabilitação, tampouco como área componente do movimento político associativista das pessoas é assistencialista, com deficiência na luta por seus espaços na sociedade e pelo exercício recreativo ou de lazer. igualitário e pleno da cidadania. Ele é uma atividade Este livro, embora respeitando as possíveis posições contrárias, parte de alto rendimento dessa premissa para buscar apresentar as memórias dos passos até aqui esportivo que visa a dados e que sempre mantiveram associados, embora com gestões autôresultados em todas as nomas, o movimento paralímpico e o movimento político das pessoas suas modalidades com deficiência.

Principais colaboradores A construção da memória é função dos partícipes da trajetória do desporto paralímpico. Baseado no registro do relato verbal e escrito, o Programa Memória Paralímpica Brasileira tem muitos colaboradores. Entre esses, destacamos os principais: Anderson Lopes, Celso Lima, Claudio Araújo, Gilson Ramos (Doinha), João Batista Carvalho e Silva, José Carlos Morais, Leandro Ramos Santos, Marcelo Sugimori, Maria Jussara Matos, Mário Sérgio Fontes, Michelle Barreto, Paulo Sérgio de Miranda, Pedro Américo de Souza Sobrinho, Rivaldo Araújo, Roberto Ramos (Robertão), Vital Severino Neto, Vanilton Senatore, Wagner Xavier de Camargo (James Dean).

Origem da palavra “paralympic” (paralímpico) Essa composição foi criada em meados dos anos 50 e utilizada pela primeira vez nos Jogos de Tóquio, em 1964. A palavra paralympic deriva da preposição grega “PARA” (ao lado ou jun-

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to) associada à palavra “OLYMPIC”. Isso significa que Paralympics (paralímpicos) são os jogos realizados em paralelo aos Jogos Olímpicos, demonstrando que os dois movimentos (Olímpico e Paralímpico) coexistem lado a lado. (IPC 2015) Essa informação, contudo, não significa que o esporte paralímpico seja uma versão do esporte olímpico praticado por atletas com deficiência. O esporte paralímpico é muito mais do que isso. Ele é um elemento da não exclusão e da igualdade de oportunidades com absoluto respeito às diferenças. Quando comparamos as missões de ambos, além das diferenciações em suas motivações e clientela iniciais, percebemos a importância dos dois movimentos mundiais e o papel transformador da visão social sobre as deficiências e sobre as pessoas com deficiência que o esporte paralímpico desempenha. Os atletas paralímpicos de hoje, aqueles do passado e tantos quanto vierem no futuro, independente de conquistas, pódios e medalhas, levaram, levam e levarão uma bandeira comum a todos; a bandeira desfraldada da potencialidade humana para a autossuperação, da conquista do respeito às diferenças, aquela bandeira que desconstrói estigmas e preconceitos.

A educação física, o esporte e a deficiência O esplendor, a grandiosidade, a visibilidade e a importância dos Jogos Paralímpicos devem levar à discussão, à reflexão e a iniciativas no âmbito do acesso de alunos com deficiência às aulas de educação física, quer na escola especializada quanto na de ensino regular. O ouro, a prata e o bronze conquistados em uma “Paralimpíada” são importantíssimos. Esses atletas são heróis do esporte nacional. Universalizar e democratizar o acesso da criança e do jovem com deficiência à educação física escolar constitui-se em estratégia fundamental de desenvolUniversalizar e vimento do esporte e base dos campeões do futuro. Campeões não só nas pistas, democratizar o acesso piscinas, arenas, quadras e dojos, mas campeões na vida, vencendo uma barreida criança e do ra de cada vez. Não podemos deixar de considerar, portanto, a educação física escolar enjovem com deficiência à educação física quanto um elemento da iniciação esportiva. Contudo, devemos considerá-la escolar constitui-se em principalmente como ação universalizada de base do desenvolvimento, da forestratégia fundamental mação do indivíduo e da potencialização do fazer e do interagir de crianças e de desenvolvimento jovens com deficiência. A deficiência visual, ao contrário de outras áreas de deficiência, ainda hoje, do esporte e base dos campeões do futuro é privilegiada quanto à democratização do acesso às aulas de educação física. Os vários institutos especializados criados no Brasil até a primeira metade do século XX, tendo como modelo o Instituto Benjamin Constant – IBC (1854), nunca deixaram de oferecer aulas de educação física a seus alunos cegos e de baixa visão. Infelizmente essa mesma realidade não é vivenciada por alunos com deficiência visual quando matriculados em escolas do ensino regular nas chamadas “escolas de educação inclusiva”, ressalvadas as importantes exceções. Desses institutos de educação de crianças e jovens com deficiência visual, incluindo aí o próprio Instituto Benjamin Constant, saíram futuros atletas campeões mundiais e paralímpicos. Es-

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ses atletas, muito provavelmente, tiveram o seu potencial para o alto rendimento esportivo descoberto nas aulas regulares de educação física escolar. Como exemplos, mas não como regra absoluta, podemos citar todos os jogadores de futebol de 5 das seleções brasileiras, equipe consagrada quando alcançou a posição de tetracampeã mundial e paralímpica. O futebol de cegos nasceu no pátio dos institutos de cegos. No atletismo, os exemplos vão da Ádria ao Felipe Gomes, da Terezinha Guilhermina à Maria José Ferreira Alves. No goalball uma pesquisa também poderá mostrar essa origem comum da maioria dos atletas das equipes da série principal e da nossa seleção brasileira. Essa maioria é formada por ex-alunos desses Institutos especializados. No momento, contudo, nós percebemos que as crianças cegas e com baixa visão, não tendo outro comprometimento associado, estão sendo, cada vez mais, encaminhadas por suas famílias para o ensino regular. É importante que essas crianças com deficiência visual, matriculadas no ensino regular, não sejam simplesmente dispensadas das aulas de educação física por serem cegas ou por possuírem baixa visão. O mesmo acontece em relação às demais deficiências. Já no esporte de alto rendimento, esperamos que as medalhas conquistadas por atletas brasileiros, as pessoas mais importantes do esporte paralímpico em nosso país, sirvam para aumentar as oportunidades de acesso à educação física e à prática esportiva a outras pessoas com deficiência, principalmente aquelas para as quais a educação física é mais importante, mesmo que não apresentem potencial para ouros, pratas e bronzes futuros.

O estigma da incapacidade, o esporte paralímpico e o imaginário dos atletas paralímpicos como super-heróis A questão de considerarmos os atletas do esporte paralímpico como super-heróis merece uma reflexão um pouco mais aprofundada. Seriam eles detentores de superpoderes ou seriam pessoas comuns que nasceram com algum tipo de deficiência, ou a adquiriram numa fase de sua vida? Eles seriam exceções dentro de uma regra geral da visão da sociedade sobre as deficiências e as pessoas com deficiência? Antes de qualquer coisa, temos de considerar que eles são atletas de alto rendimento nacional e internacional. Pessoas com deficiência que, através de seu potencial e desenvolvimento motor e esportivo, de muito esforço, de treinamento planejado e depois de diversos ciclos e competições regionais, nacionais e internacionais conquistaram as suas vagas para os grandes eventos esportivos, como os Jogos Paralímpicos, Jogos Parapan-Americanos e Campeonatos Mundiais das diversas modalidades. Internacionalmente todos eles são sim heróis do esporte em seus respectivos países, todavia considerá-los como super-heróis seria uma forma de reforçar estigmas e preconceitos direcionados e vivenciados pelas pessoas com deficiência. Eles não podem ser vistos e percebidos como super-heróis únicos a possuir poderes de superar a pressuposta incapacidade, estigma que, ainda hoje, atinge as pessoas com deficiência. Eles não podem ser considerados como tendo superpoderes e como exceções que venham a confirmar a regra geral da incapacidade, erroneamente vinculada às deficiências. Essa visão Memória Paralímpica

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tende a minimizar o GRANDE LEGADO DO ESPORTE PARALÍMPICO: A POSITIVA ALTERAÇÃO NA VISÃO GERAL DA SOCIEDADE SOBRE AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA, ATLETAS OU NÃO. Ele nasceu incluído. Antes de pensarmos na inclusão, pensemos na não exclusão. Não excluir é muito mais importante, oportuno e fácil do que remediar com estratégias de inclusão. O esporte paralímpico é uma atividade de não exclusão e uma ferramenta do processo de inclusão social de todas as pessoas com deficiência, atletas ou não. Essa inclusão, contudo, não é um processo que tem a sua terminalidade na Família, na Escola ou na prática esportiva. A inclusão tem a sua terminalidade no universo social macro. As instituições, Família e Escola, além do esporte têm a responsabilidade, através da não exclusão, de potencializar a inclusão. Isso se dá com pessoas com deficiência ou não. Pensem nisso. Pode até parecer a mesma coisa, mas não é. A inclusão pressupõe uma exclusão natural da pessoa com deficiência. É contra a exclusão que temos de trabalhar. Não excluir é oferecer a igualdade de oportunidades com respeito às diferenças. O estigma da incapacidade faz com que pessoas com deficiência encontrem barreiras, para muitos invisíveis, embora claramente percebidas e sentidas por elas próprias, no seu acesso à educação, ao trabalho, ao lazer, aos serviços, à praNão excluir é tica esportiva, ao igualitário convívio social e à plena efetivação da sua cidadania. Quem, como eu, tem muitos amigos com deficiência já passou por diversas oferecer a igualdade situações onde esse estigma da incapacidade é expresso. É muito comum, por de oportunidades com respeito às exemplo, num restaurante, o garçom, depois de pegar o seu pedido indagar a diferenças você: “E ELE o que vai querer?” Na loja de roupas perguntam a você “o que ELE está procurando?”, “qual é a cor que ELE quer”? O “ELE” é o outro, o distante de nós, o “DIFERENTE”. Em síntese, O “ELE” é aquele que seria incapaz até de manifestar coisas tão simples como escolher o que quer comer, beber ou vestir. Outra reação é a infantilização das pessoas adultas com deficiência. Isso se dá por uma visão inadequada sobre posturas sociais diante de pessoas com deficiência cognitiva e a ampliação de supostas características dessa área de deficiência às demais. A infantilização atinge bastante as pessoas com nanismo em suas relações sociais. Já as pessoas com paralisia cerebral, possuem uma deficiência física, todavia, em muitas situações, são encaradas também como possuidoras de deficiência cognitiva. A paralisia cerebral não traz uma defasagem cognitiva qualquer. Esta, quando ocorre, é função da associação de duas deficiências, num quadro de prognóstico de deficiência múltipla (física e cognitiva). Tendo trabalhado por mais de 30 anos com educação física, esportes e reabilitação de pessoas cegas e com baixa visão, é nessa área que eu tenho o maior número de depoimentos sobre a visão absolutamente inadequada que a sociedade ainda tem sobre as deficiências e as pessoas com deficiência. Esses depoimentos vão desde a negação da sexualidade do cego e de sua vida afetiva que pode ser resumida na frase dita, ou pensada, ao perceber-se uma mulher cega grávida “Quem terá feito isso com ela?”. Num outro exemplo, esse relativo à pretensa incapacidade laboral, um amigo meu, professor cego, em conversa com um taxista, que, ao saber que o conduzia ao seu local de trabalho, lhe dissera “Como é que ainda fazem um homem desses trabalhar?” Pode até parecer absolutamente contraditório, contudo, ao apresentarmos os atletas para-

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límpicos como super- humanos capazes de transformar o impossível em possível, capazes de transformar o inimaginável em realidade e capazes de transformar uma pressuposta incapacidade em expressivos resultados esportivos estamos, de fato, utilizando como base o mesmo estigma da incapacidade. Estamos reforçando-o ao apresentarmos esses atletas como exceções que viriam a reforçar a regra geral da incapacidade, o maior limitador das oportunidades oferecidas às pessoas com deficiência. O esporte paralímpico deve ser percebido como um importante elemento, embora não o único, de uma alteração da visão social ainda inadequada em relação a todas as pessoas com deficiências, como veículo da qualidade de vida e como modelo às pessoas com deficiência do potencial de realizar, de fazer e de obter sucesso. Não são super-homens, não trabalham no âmbito das impossibilidades, mas sim no âmbito da superação, no âmbito do desenvolvimento do seu potencial desportivo, no âmbito das suas capacidades e no âmbito da quebra de preconceitos e estigmas limitadores. Enfim, trabalham como agentes de um movimento mais amplo, a luta das pessoas com deficiência pela igualdade com respeito às diferenças. O esporte paralímpico não é uma vitrine de exceções.

Memória Paralímpica

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CAPÍTULO

1

Das Elegibilidades no Desporto Paralímpico

São considerados elegíveis para o desporto paralímpico atletas, de ambos os gêneros, com deficiências físicas, visual e cognitiva. Os atletas surdos somente serão elegíveis para o esporte paralímpico caso tenham, associada à surdez, uma outra deficiência listada entre aquelas elegíveis e já citadas. Essa decisão foi do próprio movimento internacional de surdos, que optou por não participar do movimento paralímpico e realizar os seus próprios eventos Internacionais. Os Jogos Mundiais do Silêncio é a maior competição para atletas com deficiência auditiva. Na verdade o esporte de surdos foi a primeira área de deficiência a possuir internacionalmente uma entidade de gestão e a realizar suas competições. Isso tudo, no início do século XX e bem antes da estruturação do esporte paralímpico internacional. Já na área da deficiência cognitiva, existe outro movimento internacional, a SPECIAL OLYMPICS, organização gerida pela FUNDAÇÃO KENNEDY, com sede nos EUA. As ações da Special Olympics, programa absolutamente meritório, transitam muito mais na área do esporte de participação do que no esporte de alto rendimento. Os atletas com deficiência múltipla poderão ser elegíveis desde que uma delas esteja elencada no rol das elegibilidades paralímpicas. Nesse caso estão elencadas a surdez-cegueira, a paralisia cerebral associada à deficiência cognitiva e outros atletas considerados como tendo outras deficiências múltiplas. As ações de sondagem de aptidões, iniciação esportiva, do esporte escolar e do esporte de jovens, no âmbito do desporto paralímpico, devem levar em consideração, num primeiro momento, as elegibilidades. As classificações esportivas, funcional, oftalmológica ou cognitiva, podem e devem ser realizada como passo posterior, embora a classificação esportiva seja um princípio fundamental que garante a igualdade entre os competidores no âmbito do esporte paralímpico.

Elegibilidade para atletas com deficiência física: Lesões medulares, sequela de poliomielite, de spina bífita, mal formações congênitas, sequelas de AVC, paralisia cerebral, nanismo, amputações de membros inferiores e superiores, ou de parte deles, e sequelas de outras patologias que acarretam limitações motoras. A classificação esportiva, nessa área, tem a sua base na funcionalidade motora e é diferente

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em cada uma das modalidades. Nós vamos dar exemplos disso bem mais à frente, quando falarmos de cada uma das modalidades.

Elegibilidade para atletas com deficiência visual: Atletas cegos e com baixa visão têm a sua elegibilidade e classificação esportiva, sempre tem de considerar o melhor olho e a melhor correção óptica possível. A conceituação de cegueira e baixa visão se dá por duas escalas; agudeza ou acuidade visual ( aquilo que é enxergado a determinada distância) e campo visual (amplitude do raio de visão). A pessoa com visão mono-ocular, como vamos perceber, não é, portanto, elegível para o desporto paralímpico, tampouco pode ser considerada uma pessoa com deficiência visual. Pela classificação esportiva da Internacional Blind Sports Federation – IBSA na área da deficiência visual nós temos três categorias:

• B1 – Cego total: de nenhuma percepção luminosa em ambos os olhos até a percepção de luz, mas com incapacidade de reconhecer o formato de uma mão a qualquer distância ou direção.

• B2 – Atletas que já têm a percepção de vultos. Da capacidade em reconhecer a forma de uma mão até a acuidade visual de 2/60 e/ou campo visual inferior a 5 graus.

• B3 – Os atletas conseguem definir imagens. Acuidade visual de 2/60 a 6/60 e/ou campo visual entre 5 e 20 graus. Na área da deficiência visual, portanto e como exemplo, são considerados elegíveis para participar de competições oficiais do esporte paralímpico atletas que tenham desde nenhuma percepção luminosa em ambos os olhos até uma acuidade visual de 6/60 ou campo visual não superior a 20 graus. Sempre considerando o melhor olho e com a melhor correção óptica possível, dou ênfase..

Elegibilidade para atletas com deficiência cognitiva: A elegibilidade de atletas com deficiência cognitiva se dá por escores baixos em testes de desempenho cognitivo, de acordo com índices reconhecidos internacionalmente. Dentre as três áreas, a deficiência cognitiva é aquela que apresenta a maior dificuldade para o estabelecimento das elegibilidades. Toda a classificação esportiva na área da deficiência cognitiva limita-se à análise das elegibilidades, já que esses atletas, nas modalidades nas quais participam nos Jogos Paralímpicos, sempre competem em categoria única: TT11, no Tênis de Mesa, S14, na Natação e T e F 20 no atletismo. Existem, contudo, notícias de um estudo recente do IPC para a criação de novas classes, específicas para atletas com Síndrome de Down.

Memória Paralímpica

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A história da classificação esportiva paralímpica Nas modalidades paralímpicas é a classificação esportiva a maior diferenciação entre elas e aquelas modalidades dos esportes convencionais ou olímpicos. A separação dos atletas por classes é que garante a igualdade entre os competidores e as equipes. Essa classificação, como já vimos, é unicamente oftalmológica para os atletas com deficiência visual. Na área da deficiência cognitiva, como também já vimos, a classificação esportiva limita-se a avaliar as elegibilidades através de testes de desempenho cognitivo. Na área da deficiência física, e somente nela, existe a classificação funcional. Sobre a classificação esportiva nas diversas modalidades paralímpicas nós vamos conversar ao falarmos especificamente de cada uma delas. O Professor Dr. Pedro Américo de Souza Sobrinho, um dos pioneiros da classificação funcional no Brasil, nos honra com a inserção nesse livro de um texto seu sobre o resgate da história da classificação funcional.

História da Classificação Funcional no Esporte Paralímpico A criação da Classificação Funcional resultou de pesquisas do profissional de educação física alemão Horst Strohkendl, que foram realizadas inicialmente para o basquetebol em cadeira de rodas em sua tese de doutorado que foi concluída em 1977, tendo como exemplo jogadores de basquetebol em cadeira de rodas com lesões medulares. Mais tarde, Horst Strohkendl procurou aprimorar o desenvolvimento da Classificação Funcional e para isso contou com a colaboração de Bernard Coubariaux e Phill Craven, ainda considerando situações específicas do basquetebol em cadeira de rodas. Posteriormente, ele ampliou a aplicação da Classificação Funcional para o tênis em cadeira de rodas e o rúgby em cadeira de rodas, assim como para atletas amputados e com paralisia cerebral. A Classificação Funcional, de Horst Strohkendl, permitiu a inclusão, por exemplo no basquetebol, no rúgby, no tênis de mesa em cadeira de rodas, etc., de jogadores com sérios comprometimentos físicos, dando a eles a oportunidade de praticar o esporte em cadeira de rodas em condições de igualdade de oportunidades com os demais jogadores, inclusive em competições do mais alto nível de exigências, como nas Paralimpíadas, além de impedir que ocorressem fraudes na classificação. Horst Strohkendl procurou, com seu sistema de Classificação Funcional, proporcionar três condições nas competições: 1) igualdade de condições de competição entre as equipes. 2) oportunidade de participação (Inclusão) para as pessoas com comprometimentos mais graves e que, por isso, não tinham possibilidade de participação no esporte e na sociedade. 3) reduzir ao máximo a possibilidade de fraudes, de simulação de menor capacidade durante a classificação, já que há testes específicos do esporte e o atleta pode ser observado e reavaliado duran-

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te os jogos. Cada esporte determina seu próprio sistema de classificação, que é baseado nas capacidades necessárias à sua prática. A capacidade funcional necessária para a prática do esporte depende das características da modalidade e depende também dos potenciais da pessoa, não dependendo do nível de treinamento adquirido. O número de classes em cada esporte é determinado de acordo com as suas características e com as capacidades funcionais de atletas com diferentes deficiências. As regras de classificação são parte das regras técnicas dos esportes. Os classificadores credenciados devem ter acesso facilitado na área de competição para que possam checar a classificação nas condições da competição. O sistema de Classificação Funcional (Paraesportiva, Paralímpica), criado pelo profissional de Educação Física Horst Strohkendl originalmente leva em conta: 1) O emprego de 3 testes. 2) o volume de ação dos membros e do tronco do jogador. 3) o potencial dos atletas, ou seja, as funções e os grupos musculares que não foram lesados ou que estão pouco comprometidos.

Resumo dos Testes Originais da Classificação Funcional de Horst Strohkendl para o Basquete em Cadeira de Rodas Teste 1: o jogador deve se desencostar da cadeira e tentar girar o tronco e quicar a bola no chão de cada lado da cadeira. Os jogadores que não conseguem executar este teste são classe 1 e não realizam os demais testes. Os atletas que conseguirem executar esse teste seguem fazendo os outros testes. Teste 2: o jogador deve se inclinar para a frente e tentar levantar o tronco sem ajuda dos braços, inicialmente sem colocar as mãos na nuca. Caso consiga realizar o movimento, tentará fazer com as mãos na nuca. Quem não conseguir fazer este teste será classificado como classe 2. Quem conseguir, faz o próximo teste. Teste 3: o jogador deverá se inclinar lateralmente segurando uma bola de basquete com ambas as mãos e colocá-la no chão de cada lado da cadeira. Se ele não conseguir executar ele é classe 3, se conseguir executar ele é classe 4. Neste teste, com jogador classe 3, as coxas permanecem estáveis e ele é capaz de fazer abdução dos quadris.

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Avaliação Funcional de Jogadores Iniciantes no Basquetebol em Cadeira de Rodas (Strohkendl 2003, p. 43) Jogador Ponto 1: O jogador Ponto 1 não possui controle do tronco em função do comprometimento da musculatura abdominal, dorsal e oblíqua, não conseguindo girar o tronco e não conseguindo levantar os dois braços sem estar encostado na cadeira. Jogador Ponto 2: O jogador Ponto 2 possui precário equilíbrio sentado. Consegue fazer rotação do tronco. Ao tentar elevar o tronco, quando estiver inclinado para a frente, o tronco formará uma curvatura. Jogador Ponto 3: Consegue elevar o tronco, quando inclinado para a frente. Possui suficiente controle do tronco. As coxas se mantêm unidas e com isso aumentam a área de apoio no assento da cadeira de rodas. Jogador Ponto 4: Consegue fazer abdução de uma perna (quadril), mas não com o outro lado, com isso ele tem uma maior área de apoio sentado em um dos lados do corpo e também tem maior estabilidade.

Jogadores Iniciantes Ponto 1.5; 2.5 e 3.5 no Basquetebol (Strohkendl 2003, p. 43) Jogadores ponto 1.5; 2.5 e 3.5 são aqueles que apresentam características intermediárias em relação aos demais. A introdução do 0,5 ponto facilitou a classificação funcional de casos limítrofes, com comprometimentos adicionais, como no caso de paralisia cerebral e amputações nos braços. Strohkendl esclarece que numa mesma Classe são relativamente pequenas as diferenças funcionais entre os atletas, enquanto podem ser enormes as diferenças no rendimento, que são influenciadas pelo maior ou menor talento e o treinamento.

Jogador 4.5 Pontos: Faz abdução de quadril bilateral. Amputados em uma das pernas na altura do coxa também são jogadores ponto 4.5. Horst Strohkendl recomenda que a Classificação Funcional seja atualizada de tempos em tempos, por exemplo, em função do desenvolvimento de novos equipamentos ou da inclusão de pessoas com patologias não previstas anteriormente. Ele recomenda também que os próprios atletas sejam capacitados para reconhecerem seus poten26


ciais, por exemplo, vendo atletas bem treinados e com comprometimentos iguais aos seus e para entenderem sua própria classificação e a dos demais atletas. Enquanto Ludwig Guttmann proporcionou a difusão do esporte em cadeira de rodas em todo o mundo, Horst Strohkendl, com seus profundos conhecimentos de basquetebol, natação, rúgby e de tênis, e, principalmente, por ter associado a ciência do esporte a uma conduta marcantemente social no sentido de dar oportunidade a quem até então não tinha a chance de participar da vida social e esportiva, criou a Classificação Funcional, um Sistema de Classificação justo, que assegura igualdade de condições de competição às equipes, que evita ao máximo a ocorrência de fraudes, que promove a inclusão e a valorização da pessoa com deficiência, e proporciona a participação de pessoas com o mais alto grau de comprometimentos inclusive em competições do mais alto nível como por exemplo em competições nacionais, campeonatos mundiais e nas Paralimpíadas.

Professor Dr. Pedro Américo de Souza Sobrinho

As Elegibilidades e os “INVASORES” São chamados de “invasores” atletas que, geralmente oriundos de modalidades olímpicas, simulam, ou são levados a simular, uma determinada deficiência e, aproveitando-se de alguma possível fragilidade no processo de classificação esportiva, conseguem ser considerados elegíveis e participar de competições do esporte paralímpico. O caso mais marcante da história de “invasores” participando de uma edição dos Jogos Paralímpicos ocorreu em Sydney, 2000, na Austrália. Um jornalista espanhol e ex-jogador de basquetebol simulou uma deficiência mental e participou da equipe de seu país, medalha de ouro naquela competição. No seu retorno a Madri, o jornalista, na primeira pessoa, relatou o fato, como denúncia, ampliando-o a outros companheiros seus na equipe espanhola. Essa denúncia fez com que a medalha da Espanha fosse retirada, a modalidade nunca mais tenha sido oferecida num programa dos Jogos Paralímpicos e que a participação de atletas com deficiência cognitiva tenha sido suspensa dos Jogos de Atenas, em 2004 e Beijing, em 2008, retornando somente em Londres, 2012, já com grandes alterações no processo de classificação esportiva na área. Outros casos foram descobertos no judô, nos Jogos de Beijing, em 2008. Existem registros de casos esporádicos de “invasores” nas modalidades de inverno, principalmente no esqui alpino e no esqui nórdico e em diversas outras modalidades de verão. O maior problema da participação dos chamados “invasores” em modalidades paralímpicas é o prejuízo causado por eles ao princípio básico da igualdade entre os competidores. Esses invasores, contudo, nem sempre agem por dolo. Eles são fruto da ineficácia dos processos de classificação e avaliação das elegibilidades ainda hoje existente em muitos países, principalMemória Paralímpica

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mente nas áreas das deficiências visual e cognitiva. O IPC e as Federações Internacionais têm uma grande preocupação com essa questão e, a cada dia, buscam aprimorar seus processos e evitar a ocorrência de “invasores” nas diversas modalidades. Além dos invasores não elegíveis, nós também observamos, principalmente, mas não somente, na área da deficiência visual atletas que simulam, ou são levados a simular, uma defasagem maior do que aquela que realmente possuem. Isso, quando se dá, é uma estratégia de tentar burlar o princípio básico da igualdade entre os competidores e participar das competições em uma classe mais baixa que a sua. Em toda a classificação do esporte paralímpico quanto menor for o número atribuído a uma determinada classe, maior será a defasagem apresentada pelos atletas.

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CAPÍTULO

2

Esporte, Deficiência e Sociedade

Não é possível analisar a evolução do esporte paralímpico sem considerar a trajetória histórica da relação sociedade e deficiência. O esporte paralímpico está contido em uma questão mais ampla; a luta política das pessoas com deficiência pelos seus direitos de cidadãos plenos em direitos e conscientes em deveres. O esporte paralímpico é um grande veículo pelo qual as pessoas com deficiência apresentam-se à sociedade através, não das suas diferenças, mas sim de suas amplas potencialidades. A sua análise situacional e histórica tem de considerar a relação sociedade/deficiência, estando atenta às questões das alterações macro na sociedade e, principalmente, reconhecer, como já dissemos, o esporte paralímpico como parte do movimento político associativista das pessoas com deficiência. Marcelo Amorim, o “Índio”, Roberto Ramos, Iranilson Silva, o “Tita” e Humberto Henriques. Treino de natação da equipe da Sadef – RJ, no Parque Aquático Julio Delamare, complexo esportivo do Maracanã. Essa foto é da década de 80 e os atletas faziam diversas modalidades. A especialização em uma só modalidade foi um avanço introduzido na década 90. Foto: Acervo da SADEF-RJ.

O esporte praticado por atletas com deficiência, sua história, seus O esporte paralímpico é um valores, seus objetivos, seus princípios filosóficos e os seus benefícios veículo da busca pela igualdade à clientela não podem ser analisados isoladamente. O esporte olím- com respeito às diferenças pico pode ser considerado um fim em si mesmo, contudo o esporte paralímpico de rendimento é fim e meio. No esporte paralímpico não existem perdedores, ele é muito mais do que o esporte olímpico praticado por atletas com deficiência. As suas vitórias transcendem àquelas importantes conquistas obtidas nas arenas esportivas. Nesse contexto, deixar de considerar o movimento político associativo e de luta das pessoas com deficiência por seus direitos na história da evolução do esporte paralímpico no Brasil e no mundo é negar a realidade e deixar de considerar a sua importância no passado, no presente e no futuro do esporte praticado por atletas com deficiência. Os espaços, a estrutura, a visibilidade, o reconhecimento e os recursos hoje destinados ao esporte paralímpico não foram simplesmente concedidos. Eles foram conquistados. O movimento político das pessoas com deficiência no Brasil foi, é e sempre será um importante parceiro nessas conquistas.

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CAPÍTULO

3

A revolução industrial e as deficiências Nesse trabalho nós vamos deixar de fazer referências às relações sociedade/pessoas com deficiência nas civilizações antigas, na idade média e em outros períodos históricos. Nós vamos direto ao século XVIII. Vamos direto à Revolução Industrial. Já que esta foi uma grande e drástica mudança nas relações de trabalho, na economia, nas concentrações populacionais, nos meios de produção, nas relações sociais e nas questões relacionadas às pessoas com deficiência. A Revolução Industrial foi constituída por um conjunto de mudanças que aconteceram na Europa nos séculos XVIII e, principalmente no século XIX, nos Estados Unidos da América. A principal particularidade dessa revolução foi a substituição do trabalho autônomo de pequena produção e artesanal pelo assalariado, nos grandes centros populacionais e com o uso das máquinas movidas a vapor. Homens, mulheres, idosos e até crianças eram submetidos a um regime de trabalho de 10 ou mais horas por dia, sete dias por semana. Os direitos trabalhistas só viriam muito tempo depois. Muito comumente, todo o grupo familiar trabalhava na mesma fábrica ou num dos recém criados latifúndios produtivos, todavia as pessoas com deficiência não eram consideradas elegíveis para a força de trabalho, onde a produção, no seu aspecto quantitativo, regia as relações capital - trabalho.

A questão da deficiência na revolução industrial - os estigmas e preconceitos vêm de longe

Foto: https://seccioneuropea.wordpress.com/theindustrial-revolution/

No campo, as pequenas e micropropriedades foram incorporadas em latifúndios que visavam não mais atender às demandas locais, mas sim abastecer os grandes grupamentos populacionais das metrópoles que se formavam. Antes as famílias, na maior parte das vezes, eram proprietárias de seus próprios negócios, geralmente de produção artesanal familiar, de pequenos comércios, de artífices ou ainda de micropropriedades rurais. Eles faziam os seus horários de trabalho, de acordo com a demanda específica por seus produtos ou serviços e os seus afazeres familiares. Entre esses afazeres estava a atenção aos seus membros com algum tipo de deficiência. Destes muitos participavam da produção e do negócio familiar. 30


Homens, mulheres, idosos e até crianças eram submetidos a um regime de trabalho de 10 ou mais horas por dia, sete dias por semana.

Foto: https://seccioneuropea.wordpress.com/the-industrial-revolution/

As crianças e adolescentes trabalhavam nas fábricas sem os requisitos mínimos de segurança. Muitas delas adquiriram uma deficiência em fução de acidentes de trabalho, nesse caso elas eram imediatamente afastadas dos seus empregos, sem qualquer idenização, e passavam a integrar os grupamentos de deficientes assistidos pelo estado nos asilos ou instituições especializadas destinadas às pessoas com deficiência. Esse grupamento não era considerado como apto para o trabalho. A maior parte dos acidentes que causavam a instalação de uma deficiência nos trabalhadores acontecia nas minas de carvão. A Revolução Industrial também foi conhecida como a “Revolução do Carvão”, combustível que movia todo o maquinário a vapor. Com a Revolução Industrial houve uma grande migração populacional para os centros fabris. As famílias não tinham como inserir os seus membros com deficiência nas fábricas ou nos latifúndios onde passaram a trabalhar e tampouco podiam mais dar a eles a atenção necessária no seu dia a dia. Em função disso, a primeira fase da Revolução Industrial, ainda na Europa do Século XVIII, foi a época da criação dos grandes asilos ou das “instituições totais”, geralmente mantidos pelo Estado. Para essas instituições essas pessoas com deficiência, de famílias do proletariado, eram encaminhadas como única alternativa de atendimento às pessoas com deficiência mental, somente os hospícios. Nesta área, essa situação perdurou até as primeiras décadas do século XX. Foto: http://exhibitenvoy.org/OurExhibits/tabid/110/ ID/20/The_Way_We_Worked.aspx Memória Paralímpica

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Muitos dos estigmas e preconceitos que, infelizmente, ainda hoje atingem e limitam o acesso de pessoas com deficiência ao mercado de trabalho e ao efetivo exercício da cidadania vêm dessa época; deficiente, incapaz, discapacitado, handicapped, minusvalido, disable, inválidos e outros termos, em diversos idiomas, até hoje utilizados remetem, direta ou indiretamente, à deficiência em relação ao acesso ao trabalho. Passados quase dois séculos e meio surge o esporte paralímpico. Quebrar estigma e preconceitos, que vêm de longe, fortalecer o embate social, propiciar que a pessoa com deficiência se apresente à sociedade por suas reais e amplas potencialidades são, também, missões do esporte paralímpico. Nos dias de hoje, o esporte paralímpico vai muito além das medalhas. Embora resultados, pódios e medalhas sejam muito importantes, embora os atletas de ponta desempenhem um papel fundamental na alteração da visão social sobre a deficiência, todos são agentes de mudanças positivas e heróis da força do espírito humano. Foto: Richard Burton Archives Aquelas pessoas com deficiência que os senhores da indústria, do comércio e dos latifúndios, nos séculos XVIII e XIX, julgavam incapazes para o trabalho e que deveriam ser segregadas em instituições, hoje apresentam à sociedade toda a sua potencialidade através do esporte paralímpico, da sua força Muitos dos estigmas de trabalho, da excelência em diversos campos, da capacidade acadêmica e do seu potencial de resiliência.

e preconceitos que, infelizmente, ainda hoje atingem e limitam o acesso de pessoas com deficiência ao mercado de trabalho e ao efetivo exercício da cidadania vêm dessa época

Pode até parecer ao leitor estranho falarmos de Revolução Industrial em um livro que tem como temas o esporte paralímpico e as pessoas com deficiência, não necessariamente nessa ordem de prioridade, contudo além da sua importância histórica, econômica, demográfica, política e social, a Revolução Industrial tem as suas consequências presentes na história do esporte e do movimento político associativo das pessoas com deficiência. Os atletas do renascer olímpico da Era Moderna, nos Jogos de 1896, em Atenas, na Grécia, eram, quase que exclusivamente, os filhos homens dos senhores da indústria, do grande comércio, dos latifúndios e do sistema financeiro construídos na revolução industrial, além dos jovens militares e dos filhos da nobreza europeia. Essa era a parcela da população que tinha acesso ao esporte, inicialmente como atividade de lazer. Posteriormente, esse mesmo grupamento incentivou e apoiou a iniciativa de Pierre de Coubertin no sentido de viabilizar o retorno do Movimento Olímpico, já como esporte competitivo e de alto rendimento. No final do século XIX, ao proletariado pós Revolução Industrial, ainda somente o trabalho. Já no campo do movimento político das pessoas com deficiência, as primeiras iniciativas associativas de reivindicações se deram, também como consequência da Revolução Industrial, tendo como atores pessoas do proletariado que haviam se tornado deficientes em função de acidentes de trabalho. Para tanto eles se reuniram em organizações, formais ou não, e perceberam que a união era o caminho para o alcance dos seus objetivos.

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CAPÍTULO

4

A Guerra e as pessoas com deficiências A Guerra Civil Americana ((1861-1865) e a Primeira Guerra Mundial

A Guerra Civil Americana, entre 1861 e 1865, foi um conflito entre duas realidades: o Sul escravocrata, agrícola e fidalgo contra o Norte, onde a Revolução Industrial já se instalara. Depois da guerra civil os soldados lesionados tinham a necessidade de voltarem às suas famílias e aos seus postos de trabalho. A Guerra foi uma verdadeira carnificina fratricida e produziu um grande número de ex-soldados lesionados que voltaram para as suas famílias com uma deficiência já instalada. O Governo Americano instituiu um programa específico de atendimento a esses “deficientes de guerra”, ampliando, então, à sua assistência aos ex-soldados (veteranos) que haviam se tornado deficientes. Foram implantadas as chamadas residências de veteranos, onde a estes eram oferecidos cuidados médicos e de reabilitação.

Após a guerra civil o governo americano incentivou a reintegração dos ex-combatentes na sociedade

Soldiers at Armory Square Hospital, Washington, D.C., 1860s - National Library of Medicine

A importância da Guerra Civil Americana na questão da deficiência foi a percepção dos “deficientes de guerra” como uma questão social e a responsabilização do governo pela assistência e pelo processo de reabilitação dos lesionados que haviam se tornado deficientes no conflito. Essa atenção governamental, 80 anos após, e já durante a II Grande Guerra Mundial, tornou viável o surgimento do esporte paralímpico naquele país, mas isso é assunto para falarmos um pouco mais à frente.

Memória Paralímpica

Foto: https://www.civilwarwomenblog.com/civil-warhospitals-in-washington-dc/

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CAPÍTULO

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I Guerra Mundial e as pessoas com deficiências antes de Stoke Mandeville Os primeiros passos do esporte no processo de reabilitação

Eles eram jovens. Eles eram guerreiros. Ao final da I Grande Guerra Mundial (1914 a 1916) e da Guerra Civil Americana, eles buscavam mais do que trabalhos manuais terapêuticos no seu processo de reabilitação. Queriam continuar lutando, mas a sua guerra agora era outra. O embate social os aguardava. Nesse contexto, na Europa, ainda ao final da I Grande Guerra Mundial, a toda gama de atenções aos veteranos deficientes, somou-se a introdução do esporte nos seus programas de reabilitação. Soldados feridos da I Guerra Mundial no Hospital Walter Reed em 1918. Foto: http://www.freerepublic.com/focus/f-news/1432020/posts

Soldados e enfermeiras no Hospital geral -Nottingam - (1914-1918) Foto: https://www.nottingham.ac.uk/manuscriptsandspecialcollections/ collectionsindepth/health/nottinghamgeneralhospital.aspx

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Foto: Star & Garter Royal Hospital

Primeiro registro histórico de uma atividade esportiva praticada por ex-soldados com deficiência nos centros de reabilitação foi feito na Inglaterra. O centro de reabilitação de veteranos The Royal Star & Garter Hospital introduziu o Zig Zag, jogo de conteste e de habilidade em cadeira de rodas. (imagem ao lado - foto de 1923). A essa primeira iniciativa foram somadas outras atividades, uma delas foi o tiro com arco. Em 1948, durante Jogos Olímpicos de Verão, em Londres, foram os veteranos do The Royal Star & Garter Hospital que competiram contra a equipe de Stoke Mandeville na apresentação de tiro com arco, organizada por Ludwig Guttmann para divulgar o potencial esportivo das pessoas com deficiência. Os soldados lesionados no conflito bélico, finalmente tinham uma atividade lúdica e própria ao seu perfil durante o seu processo de reabilitação.

Clientes das ações do Royal Star & Garter Hospital após a I Grande Guerra Mundial. Podem ser percebidas pessoas em cadeiras de rodas e em triciclos, ainda muito utilizados à época. Foto: Star & Garter Royal Hospital

O tiro com arco foi inserido no Royal Star & Garter antes da sua inserção no programa de reabilitação de Stoke Mandeville. Foto: https://starandgarter.org/about-us/history/

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CAPÍTULO

6

Sir Ludwig Guttmann em Stoke Mandeville

Foto: www.mandevillelegacy.org.uk

Ludwig Guttmann, neurologista alemão de origem judaica que, fugindo do nazismo, foi convidado, em 1944 para assumir o Centro de Reabilitação do Hospital de Stoke Mandeville, em Aylesbury, no Reino Unido. Guttmann nasceu em 3 de julho de 1899, na cidade Toszek, hoje região pertecente à Polônia, vindo a falecer em 18 de março de 1980, no Reino Unido.

Em 1944, o Dr. Ludwig Guttmann insere no programa do Hospital de Stoke Mandeville a primeira modalidade esportiva desenvolvida especificamente para pessoas em cadeira de rodas. A modalidade, hoje descontinuada, era um híbrido entre o hóquei e o polo. Foto: http://www.mandevillelegacy.org.uk

Guttmann ainda jovem Foto: www.mandevillelegacy.org.uk Foto- http://www.mandevillelegacy.org.uk

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A essa modalidade e baseado no grande potencial de reabilitação do esporte, Guttman insere em Stoke Mandeville diversas outras modalidades: tiro com arco, tênis de mesa, bilhar, halterofilismo, esgrima, jogo de iniciação ao basquetebol (com diminuição da altura do aro e ainda sem tabelas) chamado de Netball, o Low Bowling (espécie de bocha jogada na grama), o slalon (modalidade de habilidades em cadeira de rodas que, até os Jogos paralímpicos de Seul, em 1988, fazia parte das provas de atletismo), Dartchery (modalidade que unia o tiro com arco e o dardo, jogo comum nos pubs ingleses) e provas de campo no atletismo. Em 29 de julho de 1948, no dia da Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos, na cidade de Londres já reconstruída dos pesados bombardeios que sofrera na II Grande Guerra Mundial, o Dr. Ludwig Guttmann organizou a primeira competição para atletas em cadeira de rodas. A esse evento, Dr. Guttmann deu o nome de Stoke Mandeville Games, marco inicial da história paralímpica. Essa competição de tiro com arco envolveu 16 atletas que haviam sofrido lesões no conflito bélico e estavam inseridos no programa de reabilitação do Hospital de Stoke Mandeville e do Hospital Royal & Garter Homes, ambos localizados na Inglaterra. Em 1952, com a participação da equipe da Holanda foram fundados os Jogos Mundiais de Stoke Mandeville, primeira competição internacional do esporte paralímpico.

“O grande feito do Ludwig Guttmann foi o de promover uma disseminação do Basquetebol em Cadeira de Rodas e das demais modalidades de então em todo o mundo. Stoke Mandeville sempre foi uma “Meca” do tratamento de lesados medulares e, a partir de uma determinada época, Guttmann enfatizava a importância do esporte para o processo de reabilitação de lesados medulares. Com isso, os milhares de médicos, de todos os cantos do mundo, que passavam por lá para aprender ou simplesmente para ver o que era feito, percebiam a importância do esporte na reabilitação e levavam para os seus países esse conhecimento e esse importante procedimento no processo de reabilitação física e emocional do lesado medular”.

Foto: http://www.mandevillelegacy.org.uk

Sir Ludwig Guttmann é considerado o fundador do esporte paralímpico internacional.

Prof. Dr. Pedro Américo de Souza Sobrinho Memória Paralímpica

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Visita do Príncipe de Gales, Charles, a Stoke Mandeville. Ao seu lado esquerdo Sir Ludwig Guttmann. Foto: http://www.mandevillelegacy.org.uk

Desfile das delegações na abertura dos Jogos Mundiais de Stoke Mandeville no início dos anos 60. Foto: http://www.mandevillelegacy.org.uk

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CAPÍTULO

7

Franklin Delano Roosevelt e o início do Esporte Paralímpico nos EUA O berço do basquete em cadeira de rodas

Franklin Delano Roosevelt governou os Estados Unidos da América por 12 anos e faleceu em 1945, ainda no exercício do mandato de Presidente dos EUA e meses antes do final da Segunda Grande Guerra Mundial. Essa foto é rara. Roosevelt jamais usou cadeira de rodas em público. Acometido de poliomielite, aos 39 anos, em 1921, quando ainda iniciava a sua carreira política, ele chegou à Presidência dos EUA (1933 - 1945). A menina com ele na foto é filha de uma funcionária da residência oficial. Em 1941, o Presidente Roosevelt, preocupado com a reabilitação de soldados norte-americanos, antes mesmo da entrada do país na Segunda Grande Guerra Mundial (dezembro de 1941), criou o Hospital Naval de Corona, na Califórnia. Considerado como a “joia da coroa” dos hospitais militares americanos, Corona anteriormente era um SPA de luxo, The Norconian Resort, frequentado pelas pessoas mais abastadas da região, recebendo até moradores da costa leste do país.

Franklin Roosevelt com seu cachorro Fala e a filha do gerente do parque onde estava hospedado. Foto: Getty Images Historic

Franklin Roosevelt em Warm Springs (1929) FDR Presidential Library & Museum Foto: https://catalog.archives.gov/id/6037484

Memória Paralímpica

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Churchill, Roosevelt and Stalin em encontro do World War II. Foto: https://sites.google.com/site/quoteslinks/1/war/gb/1/ churchill-first-world-war-2

Os hospitais militares de Birmingham (CA), Framingham (MA), assim como o Corona Naval Station (CA) foram, de fato, os precursores do BCR no mundo. O time do Hospital de Birmingham, já em 1947, realizou, contra a equipe de Corona o primeiro jogo oficial e registrado da história do basquetebol em cadeira de rodas. Nos Estados Unidos e através do basquete em cadeira de rodas, já em 1947 e 48, pode ser percebida uma alteração na visão do esporte como elemento do processo de reabilitação. O basquete praticado na Liga Americana já era um esporte que buscava o alto rendimento. Os seus atletas já haviam tido alta da reabilitação e o esporte de rendimento lhes foi apresentado como uma das alternativas viáveis no pós-reabilitação. Já em 1948, a National Weelchair Basketball Association- NWBA (Associação Nacional de Basquete em Cadeira de Rodas) foi criada, assim como o seu primeiro campeonato oficial, organizado por Tim Nugent, da Universidade de Illinois, hoje membro do Hall da Fama do basquete em cadeira de rodas nos EUA.

Memorial Franklin Rosevelt Imagem: Ingfbruno/Wikimedia Common

Fonte: https://www.nwba.org/history

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O Hospital Naval Corona, na Califórnia serviu de base para preparar atrletas para o novo esporte. Foto: http://navymedicine. navylive.dodlive.mil/ archives/5368

Tim Nugent foi um pioneiro do basquete em cadeira de rodas implantando um programa na Universidade de Illinois e ajudando a divulgar e implanatr o esporte nos EUA. Foto: L. Brian Stauffer

“The Rolling Devils,” pioneiros do basquete em cadeiras de rodas americano. Foto: Elizabeth Kinzer O’Farrell

Memória Paralímpica

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1946, Van Nuys, Califormia, time de basquete em cadeira dde rodas no Hospital Birmingham, 1946. Foto: http://navymedicine. navylive.dodlive.mil/ archives/5368

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CAPÍTULO

8

Os Movimentos Olímpico e Paralímpico

O Renascer Olímpico Em 1896 um nobre e idealista francês, Pierre Fredy (1863 – 1937), o Barão de Coubertin, depois de um longo caminho em busca de um sonho, consegue torná-lo realidade. Atenas vê renascer, depois de 1500 anos do seu banimento na Grécia antiga, o movimento olímpico com a realização dos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna. Jovens homens de 14 países competiram em nove modalidades e tornaram-se protagonistas dos primeiros passos do olimpismo moderno. Foram 241 atletas que, no dia 06 de abril de 1896, no Estádio de Mármore (Panathinaico), fizeram renascer os Jogos Olímpicos. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos, que viviam a consolidação da Revolução Industrial, o proletariado trabalhava 10 a 12 horas por dia, sete dias na semana, e 365 dias ao ano, o esporte era uma das formas de lazer das classes dominantes. Os filhos homens dos nobres, dos senhores da indústria, do comércio, dos meios financeiros, dos latifundiários, os fidalgos e os jovens militares foram os atores exclusivos dos Jogos de 1896.

Estádio Panathinaiko na Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de 1896 – Atenas Grécia. https://www.gettyimages.co.uk/collections/hultonarchive Foto: Getty Images - Hulton Archibes

Memória Paralímpica

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As mulheres, retratando a estrutura social patriarcal e excludente da época, não tinham ainda acesso ao esporte. Como também não participavam, em número relevante, dos meios de produção, viviam para os seus homens e para as suas proles. Provavelmente as mulheres, mesmo depois de muitos séculos de história, ainda tinham, no final do século XIX, o mesmo papel social daquelas de Esparta e Atenas quando da realização dos Jogos Olímpicos da Grécia antiga. Na mesma época acontecia na Europa e nos Estados Unidos a chamada “primeira onda” do movimento feminista. Acesso ao trabalho, à educação, ao direito de escolher com quem se casariam e ao voto eram as bandeiras principais de então. O acesso ao esporte certamente não estava entre as principais bandeiras de luta. As pessoas com deficiência, no final do século XIX, ainda viviam segregadas na sociedade e, na maior parte das vezes, afastadas das suas famílias. Os asilos de isolamento total, existentes desde a Idade Média, vinham, pouco a pouco, dando lugar a hospitais, centros de reabilitação e a escolas residenciais segregadas e exclusivas, onde a preparação para o trabalho predominava quando comparada à educação escolar formal e acadêmica. Portanto o movimento olímpico da era moderna nasceu elitista e exclusivo para os homens. Assim ele viveu também a sua segunda edição, em 1900, em Paris, na França. Nesses Jogos, um grupo de onze mulheres se rebelou contra um regulamento que simplesmente proibia a participação feminina. Cartaz promocional da competição de Elas foram a Paris e a organização lhes teria aberto unicamente as modaliesgrima nos Jogos Olímpicos de Paris, dades de esgrima, golf e tênis, em torneios paralelos e isolados. 1900 Os Jogos Olímpicos de Paris, em 1900, foram diluídos ao longo de mais Foto: Wikipedia de quatro meses, entre 14 de maio e 28 de outubro. Eles aconteceram como uma das atividades da programação da Exposição Universal de 1900, o grande evento da capital francesa no último ano do século XIX. Lazer e esporte eram, ao final do século XIX, de acesso impensável para todas as pessoas com deficiência. O movimento político mundial das pessoas com deficiência por seus direitos e uma de suas consequências, o esporte paralímpico, viriam a reverter essa visão, mas isso é para muito mais à frente na nossa história.

Competição feminina de tiro com arco nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1908. Foto: http:// johnaweonline.blogspot.com.br/2012/07/secret-ofmens-obsession-with-olympics.html

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O Início do Século XX Depois dos Jogos Olímpicos de Atenas, 1896 e Paris 1900, seguiram-se os Jogos de Saint Louis, em 1904, Londres, 1908 e Estocolmo em 1912. Já em 1916 os Jogos não aconteceram em função da Primeira Grande Guerra Mundial. Em 1904, as mulheres participaram apenas de competições de tiro com arco. A Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), carnificina que cobriu a Europa de sangue, além de impedir a realização dos Jogos de 1916, trouxe uma grande mudança na sociedade do pós-guerra. Com os homens nos campos de batalha na “Guerra das Guerras”, as mulheres foram chamadas aos postos de trabalho nos meios de produção, principalmente nas indústrias envolvidas nos esforços de guerra. As mulheres e o movimento feminista saíram fortalecidos e, no pós-guerra, a sua luta por igualdade estava mais aparelhada. No bojo desse processo as mulheres garantiram definitivamente o seu acesso à prática do esporte e à participação nos Jogos Olímpicos. Dos campos de batalha retornaram jovens com sequelas, os “deficientes de guerra”. Cegos, amputados, surdos e pessoas com lesões medulares voltaram para as suas famílias, muitos deles sem condições de retornarem aos seus antigos postos de trabalho. Para a maioria das pessoas com deficiência, contudo, o início do esporte competitivo continuava sendo percebido como inviável, embora existam registros de atividades de esportivas praticadas por deficientes nesse período pós-Primeira Guerra Mundial, sempre ainda percebendo o esporte como uma atividade do processo de reabilitação, principalmente no Reino Unido e em outros países do norte da Europa. Na Inglaterra o The Royal Star & Garter Hospital, como já vimos, foi o pioneiro. O Período entre as Guerras Mundiais Seguiram-se os Jogos Olímpicos de Antuérpia, na Bélgica (1920), novamente em Paris (1924), Amsterdã (1928), Los Angeles (1932) e Berlim (1936). Nesse período a participação feminina nos Jogos Olímpicos foi se fortalecendo até a sua consolidação definitiva. Esse espaço das mulheres no esporte era reflexo já da “Segunda Onda” do movimento feminista e foram refletidos na conquista de espaços no mercado de trabalho, na vida acadêmica e profissional e, principalmente, no direito de votarem e serem votadas.

Memória Paralímpica

Como em Paris, em 1900, os Jogos Olímpicos de Saint Louis também eram parte de programa de uma grande espoxição.

As mulheres e o movimento feminista saíram fortalecidos e, no pós-guerra, a sua luta por igualdade estava mais aparelhada. No bojo desse processo as mulheres garantiram definitivamente o seu acesso à prática do esporte e à participação nos Jogos Olímpicos.

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Um gênero que não podia participar, como atleta ou espectador, nos Jogos da Grécia antiga, onde os homens competiam nus, e que tinham, as mulheres, a sua participação como atletas impedida pelo regulamento dos Jogos Olímpicos em suas primeiras edições, galgava o direito de participação plena no maior evento esportivo do mundo. Às pessoas com deficiência, contudo, até o final da Segunda Grande Guerra Mundial, o esporte competitivo não era ainda percebido e oferecido como uma possibilidade real, embora as primeiras e isoladas iniciativas datem, como já vimos, do período pós I Guerra Mundial. Em 1924, em Chamonix, na França, acontece a primeira edição dos Jogos Olímpicos de Inverno. A partir daí os Jogos passaram a ser diferenciados pelos nomes de Jogos Olímpicos de Verão e Jogos Olímpicos de Inverno. Os Jogos Paralímpicos seguem hoje a mesma nomenclatura, ou seja, Jogos Paralímpicos de Verão e Jogos Paralímpicos de Inverno.

Em detalhes a primeira modalidade inserida por Guttman em Stoke Mandeville. Os cobertores sobre as pernas era um hábito que felizmente não existe mais Foto- http://www.mandevillelegacy.org.uk

A Segunda Guerra Mundial A Segunda Grande Guerra (1939 – 1945) interrompe o ciclo olímpico com a não realização dos Jogos em 1940 e 1944. Em 1944, Ludwig Guttmann (1899 – 1980), dirige o Centro de Reabilitação Inglês, na Cidade de Stoke Mandeville. Lá ele percebe a oportunidade, a importância e a validade das atividades recreativas e esportivas nos programas de reabilitação de pessoas com sequelas físicas causadas pela guerra. Além da inserção nas atividades desenvolvidas no centro de reabilitação, Guttmann indica a prática das atividades esportivas competitivas para aqueles seus pacientes após a sua alta hospitalar. Surge em Stoke Mandeville, em 1950, a primeira entidade de gestão do esporte praticado por pessoas com deficiência que desenvolve, durante as décadas de 40 e 50, os primeiros torneios nacionais e internacionais. 46


No mesmo período no qual o Dr. Guttmann insere o esporte competitivo em Stoke Mandeville, nos Estados Unidos, em centros de reabilitação de veteranos que retornaram da Segunda Grande Guerra Mundial com lesões medulares e amputações, é iniciada a prática do basquete em cadeiras de rodas (veja capítulo anterior). Em 1952 acontece a primeira edição dos Jogos Internacionais de Stoke Mandeville, na Inglaterra. Além dos ingleses, também competiram nesse evento atletas da Holanda. Esses Jogos marcam a primeira competição O internacional naquilo que hoje chamamos de esporte paralímpico. início do tiro com arco Na década de 50 foram realizadas oito edições dos “Anual International Stoke Mandeville Games”, evento precursor dos Jogos Paralímpicos e marco da transformação do esporte como em Stoke Mandeville Foto: www.iwas. org elemento do processo de reabilitação para o esporte de alto rendimento, visando resultados e não mais a reabilitação de pessoas com deficiência. O Movimento Olímpico Internacional, até então, não percebia o esporte praticado por pessoas com deficiência como, de fato, esporte de alto rendimento. Mais do que isso, os senhores da gestão do esporte olímpico percebiam o “paradesporto” com a antítese do esporte olímpico. As possibilidades de iniciativas e eventos conjuntos não eram sequer percebidas, na maior parte das vezes, como viáveis. MENS SANA IN CORPORE SANO e CITIUS, ALTIUS, FORTIUS expressões latinas que denotam um princípio eugênico que o esporte e o movimento olímpico utilizam como pilares de sua práxis, até muito pouco tempo atrás eram usadas para tentar justificar o não reconhecimento do “paradesporto” como esporte e esporte competitivo e de alto rendimento. Na história do esporte paralímpico brasileiro, já na década de 70 e início dos anos 80, existem pareceres de conselheiros do extinto (1993) CND (Conselho Nacional de Desportos) utilizando essas citações para justificar a negativa de apoio dos órgãos públicos ao esporte de pessoas com deficiência em nosso país. Aliais “deficiência era vista como doença e doentes não podem praticar esportes”. Mais adiante, nós voltaremos a tratar dessa questão. Roma, 1960, marca a primeira participação de atletas com deficiência em uma edição dos Jogos Olímpicos. Pessoas com lesões medulares e outros comprometimentos físiDelegação do Japão na Cerimônia de Abertura cos competiram, em provas específicas, num dos Jogos Paralímpico de Tóquio, em 1964 programa paralelo aos Jogos Olímpicos. Isso Foto: Comitê Organizador dos Jogos se deu graças à realização conjunta com os Paralímpicos de Tóquio, 1964 Jogos Olímpicos de Verão de Roma dos IX Jogos Internacionais de Stoke Mandeville. Memória Paralímpica

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Portanto, em Roma, 1960, não foi realizada a primeira edição dos Jogos com a nomenclatura de paralímpico, mas sim a 9ª edição dos Jogos Mundiais de Stoke Mandeville. O termo Jogos Paralímpicos foi utilizado pela primeira vez em Tóquio, Japão, em 1964. Os registros históricos, contudo, reconhecem hoje os Jogos de Roma como a primeira edição dos Jogos Paralímpicos.A Era Paralímpica Em 1968, os Jogos Olímpicos foram realizados na Cidade do México e os Jogos Paralímpicos em Tel Aviv, Israel. Seguem os Jogos Paralímpicos de Heidelberg, na antiga Alemanha Ocidental, em 1972. Neste ano os Jogos Olímpicos de Verão foram realizados em Munique, também na Alemanha Ocidental. Essa edição dos Jogos Olímpicos foi tristemente marcada pelo ataque terrorista à delegação de Israel. Até os Jogos Paralímpicos de 1972, em Heidelberg, na Alemanha Ocidental, somente participavam atletas que utilizavam cadeiras de rodas. Os atletas com deficiência cognitiva, com deficiência visual, com paralisia cerebral, com nanismo e com mal formações congênitas só foram inseridos posteriormente no programa oficial dos Jogos Paralímpicos. Nós veremos isso a seguir.

Cartazes do Comitê Organizador dos Jogos Paralímpicos de Tóquio, 1964

Desfile das delegações na Cerimônia de Abertura dos Jogos Paralímpicos de Tel Aviv, Israel, 1968 Foto: http://www.mandevillelegacy.org.uk

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Em 1976, em Toronto, Canadá, atletas com deficiência visual e aqueles considerados como Les Autres (mal formações congênitas, nanismo e outras síndromes que levavam a um déficit motor) participaram pela primeira vez de uma edição dos Jogos Paralímpicos). Nesse ano, os Jogos Olímpicos de Verão foram realizados em Montreal, também no Canadá. Já em 1980, Moscou, na antiga União Soviética, realiza os Jogos Olímpicos e os Jogos Paralímpicos são realizados em Arnhem, na Holanda. Essa edição dos Foto: IPC - Heidelberg, 1972 Jogos paralímpicos recebe, pela primeira vez, atletas com paralisia cerebral. Em 1984, Los Angeles também não realizou os Jogos paralímpicos. Nesse ano os Jogos Paralímpicos foram realizados em duas Em 1976, em Toronto, sedes distintas: a Cidade de New York, EUA, realizou os Jogos PaCanadá, atletas com ralímpicos para atletas com deficiência visual e com paralisia ceredeficiência visual e bral; cabendo à cidade inglesa de Stoke Mandeville realizar os Jogos aqueles considerados de 1984 para os atletas usuários de cadeiras de rodas e aqueles com como Les Autres (mal outras deficiências físicas que não a paralisia cerebral. formações congênitas, Los Angeles foi a última cidade sede de Jogos Olímpicos, de venanismo e outras rão ou de inverno, que deixou de organizar também os Jogos Parasíndromes que levavam límpicos, sempre nos mesmos anos, e utilizando as mesmas instaa um déficit motor) lações esportivas dos Jogos Olímpicos.

participaram pela primeira vez de uma edição dos Jogos Paralímpicos)

Desfile da Delegação da Alemanha Ocidental em Toronto 1976 Foto: IPC

Memória Paralímpica

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Seul (1988) marcou definitivamente o futuro do esporte paralímpico internacional. Lá foi a primeira edição dos Jogos Paralímpicos de Verão no seu formato definitivo. Seul, na Coréia do Sul, realizou os Jogos Olímpicos de Verão, em 1988, e também os Jogos Paralímpicos, utilizando em ambos os eventos as mesmas instalações esportivas, mas com vilas de atletas diferentes. Essa foi a minha primeira participação em uma edição dos Jogos. Em 22 de setembro de 1989 foi fundado o Comitê Paralímpico Internacional - IPC . Tendo a sua sede na cidade alemã de Bonn, o IPC, nos mesmos moldes do COI, passa a ser o resBasquete nos Jogos Paralímpicos de Arnhein, Holanda, 1980. ponsável pela realização dos Jogos ParalímpiBrasil X Holanda. Roberto Ramos, o “Robertão” foi jogador da seleção brasileira por mais de 20 anos cos de verão e de inverno. Foto: Acervo de Roberto Ramos Cabe uma informação quanto ao IPC: embora fundado em 1989, os Jogos Paralímpicos de Barcelona, em 1992, ainda foram realizados pelo ICC, organismo internacional formado, em colegiado, pelas entidades internacionais de gestão do esporte paralímpico, dentro de áreas específicas de deficiência. Em 1993 foi criada a International Wellchair Basketball Association - IWBF. Oriunda de uma seção da Federação Internacional de Stoke Mandeville, a IWBF alcança a sua gestão própria e passa a gerir o basquete em cadeira de rodas em todo o mundo. A IWBF foi a primeira federação internacional especificamente criada para gerir uma única modalidade paralímpica. Seguiram-se os Jogos Paralímpicos de Atlanta (1996), Sidney (2000), Atenas (2004), Beijing (2008), Londres (2012) e Rio de Janeiro (2016). Portanto, desde Seul, em 1988, os Jogos Paralímpicos de Verão sempre foram realizados nas cidades e instalações utilizadas nos Jogos Olímpicos. Os Jogos Paralímpicos de Atlanta (1996) marcam a inclusão de atletas com deficiência cognitiva no programa oficial dos Jogos.

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Sydney, 2000, marca a estruturação de um único comitê organizador local para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Até os Jogos de Atlanta, em 1996, havia sempre dois comitês organizadores; cada um deles organizava um desses grandes eventos esportivos. Essa sistemática, desde Sydney- 2000, Atenas 2004, Beijing 2008, Londres 2012, acompanha até hoje a estruturação de gestão dos Jogos. No Rio, nos Jogos de 2016, tivemos também um único Comitê Organizador. O mesmo ocorrerá em Tóquio, 2020 e nas futuras realizações dos Jogos Olímpicos, sempre com a realização também dos Jogos Paralímpicos. Consolidado internacionalmente o esporte praticado por atletas com deficiência, o Comitê Olímpico Internacional tem como membro e parceiro o Comitê Paralímpico Internacional. Atualmente todas as cidades que apresentam as suas candidaturas à sede dos Jogos Olímpicos, de verão e de inverno, têm, necessariamente, de prever a realização dos Jogos Paralímpicos. Aquelas 11 mulheres que, mesmo contrariando os regulamentos do Comitê Olímpico Internacional, foram a Paris, nos Jogos de 1900, lograram perceber, num futuro muito próximo, a inserção das mulheres nos Jogos Olímpicos. Já o Movimento Paralímpico Internacional, só foi iniciado em 1952, e acompanha até os nossos dias o Movimento Político de Luta das Pessoas com Deficiência por seus direitos e pela igualdade com respeito às diferenças. Hoje, o esporte praticado por atletas com deficiência, a criação e a consolidação dos Jogos Paralímpicos de verão e de inverno representam duas entre as muitas vitórias de uma caminhada conjunta que ainda está longe de terminar.

Memória Paralímpica

Guttman, ao introduzir o esporte competitivo na reabilitação dos soldados da II Grande Guerra, no Hospital de Stoke Mandeville (1944), apresentou a esses jovens guerreiros uma nova forma de luta, aquela saudável luta que acontece em canchas esportivas.

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CAPÍTULO

9

Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Verão

Logos dos Jogos Paralímpicos – Fonte: IPC

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Jogos Olímpicos 1896

Cidade Atenas

País Grécia

1900

Paris

França

1904

Saint Louis

EUA

1908

Londres

UK

1912

Estocolmo

Suécia

1920

Antuérpia

Bélgica

1924

Paris

França

1928

Amsterdã

Holanda

1932

Los Angeles

EUA

1936

Berlin

Alemanha

1948

Londres

UK

1952

Helsing

Finlândia

1956

Melbourne

Austrália

1960

Roma

Itália

1964

Tóquio

Japão

1968

Cidade do México México

1972

Munique

Alemanha Ocidental

1976

Montreal

Canadá

1980

Moscou

Rússia

1984

Los Angeles

EUA

1988

Seul

Coréia

1992

Barcelona

Espanha

1996

Atlanta

EUA

2000

Sydney

Austrália

2004

Atenas

Grécia

2008

Beijing

China

2012

Londres

UK

2016

Rio de Janeiro

Brasil


Jogos Paralímpicos

Cidade

País

IX Jogos Mundiais de Stoke Mandeville

Roma

Itália

I Jogos Paralímpicos

Tóquio

Japão

II Jogos Paralímpicos

Tel Aviv

Israel

III Jogos Paralímpicos

Heidelberg

Alemanha Ocidental

IV Jogos Paralímpicos

Toronto

Canadá

V Jogos Paralímpicos

Arnhem

Holanda

VI Jogos Paralímpicos

UK e EUA

VII Jogos Paralímpicos

Stoke Mandeville e New York Seul

VIII Jogos Paralímpicos

Barcelona

Espanha

IX Jogos Paralímpicos

Atlanta

EUA

X Jogos Paralímpicos

Sydney

Australia

XI Jogos Paralímpicos

Atenas

Grécia

XII Jogos Paralímpicos

Beijing

China

XIII Jogos Paralímpicos

Londres

UK

XIV Jogos Paralímpicos

Rio de janeiro

Brasil

Memória Paralímpica

Coréia do Sul

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OS JOGOS PARALÍMPICOS DE INVERNO ANO

CIDADE

PAÍS

1976

Ornskoldsvik

Suécia

1980

Geilo

Noruega

1984

Innsbruck

Austria

1988

Innsbruck

Austria

1992

Albertville

França

1994

Lillehammer

Noruega

1998

Nagano

Japão

2002

Salt Lake City

EUA

2006

Torino

Itália

2010

Vancouver

Canadá

2014

Sochi

Rússia

2018

PyeongChang

Coréia do Sul

Logo dos Jogos Paralímpicos 1972, realizados em Heidelberg, então Alemanha Ocidental. Aquela edição marca a primeira participação Brasileira nos Jogos

54

Logomarca dos Jogos Paralímpicos Rio 2016


CAPÍTULO

10

A Organização Internacional do Esporte Paralímpico

A história das organizações de gestão internacional do desporto paralímpico, como já vimos, foi iniciada na década de 50 com a criação da International Stoke Mandeville Games Federation - ISMGF. A federação organizava, anualmente, os Jogos Mundiais de Stoke Mandeville, de 1952 a 1959 sempre na cidade inglesa que dava nome à Federação. Em 1960, quando da organização dos Jogos Mundiais de Stoke Mandeville, em sua nona edição, em Roma, considerada a primeira edição dos Jogos Paralímpicos, embora sem ainda usar essa nomenclatura, foi criado um grupo de trabalho para estudar a ampliação do esporte para pessoas com deficiência. O movimento paralímpico internacional, de 1952 até os Jogos Paralímpicos de Toronto, em 1976, foi exclusivo para atletas em cadeiras de rodas e aqueles com deficiências físicas, exceto os paralisados cerebrais. Nessas edições exclusivas incluímos os Jogos Mundias de Stoke Mandeville e as edições dos Jogos Paralímpicos de Roma (1960), Tóquio (1964), Tel Aviv (1968) e Heidelberg (1972). Um grupo de trabalho esteve sob a responsabilidade da Federação Mundial de Ex-Combatentes e como sua resultante, foi criada, em 1964, a ISOD (International Sports Organization for Disables), abrangendo, então o esporte de cegos e de atletas com baixa visão, atletas com paralisia cerebral, atletas amputados e todos aqueles que, embora defi12 nações reunidas nos Jogos de Stoke Mandeville - final da cientes, não eram elegíveis como década de 1950 - Foto: Trinity Mirror / Mirrorpix Alamy atletas da Federação Internacional de Stoke Mandeville. Aqueles atletas com deficiência mental (Termo da época) ainda não eram considerados elegíveis para participarem dos Jogos Paralímpicos. A essas duas entidades de gestão internacional ISMGF e ISOD, somaram-se, em 1978, a Cerebral Palsy International Sports and Recreation Association (CP-ISRA) e, em 1980, a International Blind Sports Association (IBSA), hoje International Blind Sports Federation.

Memória Paralímpica

55


Essas quatro entidades internacionais: International Stoke Mandeville Games Federation (ISMGF), International Sports Organization for Disables (ISOD), Cerebral Palsy International Sports and Recreation Association (CP-ISRA) e International Blind Sports Association (IBSA), em 1982, criaram o International Co-coordinating Committee Sports for the Disabled in the World - ICC. O ICC foi o organismo responsável pela realização dos Jogos Paralímpicos de Verão de 1984 (Stoke Mandeville e New YorK), 1988 (Seul) e Barcelona (1992), esta última edição realizada já após a criação do IPC. O ICC foi também o responsável pelas edições do Jogos Paralímpicos de Inverno de 1984 e de 1988, ambas as competições realizadas em Innsbruck, na Austria. Em 1993 é criada a IWBF – International Weelchair Basketball Federation, primeira entidade de gestão internacional de uma única modalidade paralímpica. Em 1998, a Federação Internacional de Stoke Mandeville e a ISOD são fundidas em uma nova entidade, a International Wheelchair & Amputee Sports Federation, a IWAS. Esta endidade, juntamente com a CP-ISRA, a IBSA e a INAS-Fid (International Sports Federation for Persons with Intellectual Disability), fundada em 1986, são as denominadas de IOSDs, International Organization of Sport for Disable. Essas entidades exercem a gestão de múltiplas modalidades paralímpicas especificamente no âmbito, cada uma delas, de uma das diversas áreas de deficiência elegíveis para o esporte paraEm 22 de setembro de límpico. 1989, em Dusseldorf, Na estrutura atual de gestão internacional do esporte paralímpico são recoAlemanha, foi criado nhecidas pelo IPC as quatro IOSDs já citadas, as federações internacionais de moo International dalidades paralímpicas, as federações olímpicas internacionais que desenvolvem Paralympic também modalidades paralímpicas e as modalidades que são geridas diretamente Committee - IPC, pelo IPC enquanto federações internacionais.

entidade de gestão do movimento paralímpico Internacional. Tendo como entidades fundadoras as mesmas quatro IOSDs que haviam criado o ICC.

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FEDERAÇÕES INTERNACIONAIS RECONHECIDAS PELO IPC Boccia International Sports Federation (BISFed) – Bocha Badminton World Federation (BWF) - Badminton Fédération Equestre Internationale (FEI) - Hipismo World Rowing Federation (FISA) - Remo International Canoe Federation (ICF) - Canoagem International Tennis Federation (ITF) – Tênis de quadra International Table Tennis Federation (ITTF) Tênis de mesa International Triathlon Union (ITU) - Triatlo International Wheelchair Basketball Federation (IWBF) - Basquetebol International Wheelchair Rugby Federation (IWRF) - Rugby Union Cycliste International (UCI) - Ciclismo World Archery (WA) – Tiro com arco World Curling Federation (WCF) - Curling World ParaVolley (WPV) - Voleibol World Taekwondo (WT) – Taekwondo


MODALIDADE GERIDAS DIRETAMENTE PELO IPC ENQUANTO FEDERAÇÃO INTERNACIONAL World Para Alpine Skiing – Esqui alpino World Para Athletics - Atletismo World Para Biathlon - Biatlo World Para Cross-Country Skiing – Esqui Nórdico World Para Dance Sport - Dança World Para Ice Hockey – Hóquei no gelo World Para Powerlifting – Levantamento de peso World Shooting Para Sport – Tiro esportivo World Para Snowboard - Snowboard World Para Swimming – Natação Fonte: IPC

Memória Paralímpica

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CAPÍTULO

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Os Pioneiros do Esporte Paralímpico no Brasil

No Brasil, a história do esporte paralímpico começa a ser contada em 1º de abril de 1958, com a fundação, por iniciativa de Robson Sampaio de Almeida, do Clube do Otimismo, no Rio de Janeiro. Logo depois, em 28 de julho do mesmo ano, Sérgio Seraphim Del Grande, juntamente com outros desportistas paulistas, cria o Clube do Paraplégico de São Paulo – CPSP.

OS FUNDADORES DO ESPORTE PARALÍMPICO NO BRASIL Robson Sampaio de Almeida

Alagoano radicado na Cidade do Rio de Janeiro, em uma viagem aos Estados Unidos no início dos anos 50, sofre um grave acidente que o deixa em uma cadeira de rodas. Por lá permanece fazendo o seu tratamento e a sua reabilitação. Foto: Acervo do Clube do Otimismo

Sérgio Seraphim Del Grande

Paulistano, em 1951, após um acidente sofrido quando disputava uma partida de futebol no Colégio Arquidiocesano na Cidade de São Paulo, perdeu os movimentos em suas pernas e foi levado para os EUA para fazer sua reabilitação. Foto: expressobsr.wordpress.com/tag/blog/page/3

Robson e Sérgio, nos Estados Unidos, conhecem o desporto praticado por atletas em cadeira de rodas. Desde os anos finais da II Grande Guerra Mundial, o basquete já era praticado e inserido nos programas de reabilitação de pessoas com lesões medulares (já sabemos disso por termos lido capítulo anterior). A estes, somaram-se atletas com sequelas de poliomielite, spina bífita, amputações e outras patologias que evoluem para a utilização de cadeiras de rodas nas práticas esportivas. 58


No seu retorno ao Brasil, Sérgio, em São Paulo e Robson, no Rio de Janeiro, começam a difundir o basquete em cadeira de rodas (BCR). A atividade era desenvolvida por grupos de atletas usuários de cadeiras de rodas, contudo, inicialmente, sem qualquer vínculo com clubes ou instituições. Nesse ano, 1957, surgia em ambas as cidades, Rio e São Paulo, a ideia da fundação de clubes específicos para a prática do BASQUETEBOL EM CADEIRA DE RODAS - BCR no Brasil. Aqueles amigos que desde 1957 jogavam entre si partidas de BCR resolvem fundar entidades e dar os primeiros passos na história do esporte formal praticado por atletas com deficiência Em 1957, a equipe de basquete americana “PAN-AM-JETS”, formada por funcionários com deficiências físicas da empresa de aviação em nosso país. Panamerican Airlines, a PANAM, fez uma excursão ao Brasil e No Rio, coube essa missão a Robson Sampaio de exibições em São Paulo e no Rio de Janeiro. Essa equipe, no estilo Almeida, que com aqueles seus companheiros dos dos Globe Trotters, foi de grande importância na difusão do BCR primeiros treinos e jogos internos de BCR, fundam o em diversos países, em todo o mundo. Na foto, Robson já está com CLUBE DO OTIMISMO, em 1º de abril de 1958. Para o uniforme onde pode ser visto o escudo do Clube do Otimismo, na técnico dessa equipe foi convidado Aldo Miccolis. Aldo época ainda não oficialmente criado. viria a acompamhar a evolução do esporte paralímpico Foto: O Globo no Brasil por mais de 50 anos. Nós ainda vamos falar muito sobre ele. Em São Paulo, no mesmo ano, 1958, no dia 28 de julho, Sérgio Seraphin Del Grande, encabeça a iniciativa de criar o CLUBE DOS PARAPLÉGICOS DE SÃO PAULO – CPSP. A data fora escolhida em homenagem à Federação Internacional de Stoke Mandeville, fundada, no mesmo dia, do ano de 1950. Em 1959, no dia 06 de junho, o ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, foi palco do primeiro jogo de basquetebol em cadeira de rodas no Brasil, quando os paulistas do CPSP venceram os cariocas do Clube do Otimismo por 22 a 16. Desse jogo, primeira competição formal no Brasil do esporte hoje chamado paralímpico, Robson e Sérgio defenderam os seus clubes. Em 1960 e 1961 esse mesmo jogo foi novamente reaAldo Miccolis com uma das primeiras lizado, nas duas oportunidades com a vitória dos cariocas. A década de 60 foi equipes de basquete do Clube do marcada pelo empenho de Sérgio e Robson na difusão do BCR por diversos Otimismo – RJ. Ao fundo, a bandeira estados do País. do clube onde podem ser vistas as palavras “coragem, determinação e Em 1964 é criado o Clube dos Paraplégicos do Rio de Janeiro – CPRJ. Toresperança”. neios internos eram realizados com uma frequência muito grande, no âmbito Foto: Acervo do Clube do Otimismo dessas entidades. Para o Rio de Janeiro e para São Paulo vinham pessoas de diversos estados de país que queriam conhecer e aprender a jogar o basqueMemória Paralímpica

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Delegação Brasileira nos IV Jogos Pan Americanos em Cadeira de Rodas. Lima, Peru, 1973. Foto: Acervo de Roberto Ramos

Foto: Acervo de Roberto Ramos. Lima, 1973 Ainda em 1975, de 03 a 06 de setembro, aconteceu um torneio internacional de basquete em cadeira de rodas, no ginásio do Tijuca Tênis Clube, na cidade do Rio de janeiro. Essa foi a primeira competição internacional oficial do esporte paralímpico organizada no Brasil. Fonte: Matéria do acervo digital de O Globo 07/09/1957.

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tebol em cadeira de rodas. Esses atletas, uma vez tendo retornado aos seus estados e às suas cidades, foram de fundamental importância na difusão do esporte e na criação de outras entidades regionais. Ainda nos anos 60 o CPSP, o CPRJ e o Clube do Otimismo realizaram, com duas ou mais equipes da mesma entidade, excursões e jogos de demonstração em diversas cidades do país. Era um grande esforço para apresentar o BCR ao maior número possível de pessoas. Junto ao Robson Sampaio, como técnico de basquete do Clube do Otimismo, estava Aldo Miccolis, futuro Presidente da ANDE e uma das personalidades de maior destaque no esporte paraolímpico brasileiro. Em 1973, a Cidade de Lima, no Peru, foi sede dos IV Jogos Pan Americanos em Cadeira de Rodas. Robson e Sérgio estavam na primeira fila da delegação brasileira (foto), vendo, cada vez mais, o esporte paralímpico brasileiro sendo difundido e desenvolvido em diversos estados. Em 1974, Robson Sampaio de Almeida e Luiz Carlos Silva, ambos do Clube do Otimismo, conquistaram a medalha de prata em duplas de tiro com arco, nos Jogos Mundiais de Stoke Mandeville, na Inglaterra. Nesse mesmo evento, a seleção brasileira de basquete masculino conquistou medalha de prata na competição do grupo B. Em 1975, uma falha de comunicação entre as maiores entidades paralímpicas de São Paulo e Rio de Janeiro fez com que o Brasil levasse duas delegações aos jogos Pan-Americanos em Cadeira de Rodas da Cidade do México. Esse problema fez com que a Federação de Stoke Mandeville exigisse a fundação de uma associação nacional única. Assim, ainda no avião que retornava do México, foi criada, de maneira informal, a Associação Nacional de Desporto de Excepcionais, atual Associação Nacional de Desporto de Deficientes (ANDE). Depois de criada oficialmente e reconhecida pelo Conselho Nacional dos Desportes - CND, a entidade agregou, até 1984, todos os esportes praticados por atletas com qualquer tipo de deficiência, exceto o esporte de surdos.


Primeira Diretoria da ANDE, eleita em 1975, contava como Presidente, Robson Sampaio, Vice-Presidente, Aldo Micollis e demais integrantes: Jose Gomes Blanco, Celsino Hungaro, Sérgio Seraphin Del Grande e Celso Lima. No ano de 1976, já sob a gestão única da Ande, a seleção brasileira masculina de basquete em cadeira de rodas fez uma excursão em vários países, Marrocos (Casablanca), Itália (Roma), França (Paris) e Estados Unidos (Mariland , Baltimore e Washington DC). Ainda em 1976, nos Jogos Paralímpicos de Toronto, jogando em duplas com Luiz Carlos da Costa, o “Curtinho”, Robson Sampaio de Almeida conquista a primeira Sérgio Del Grande levando o BCR aos reabilitandos do medalha brasileira em uma edição dos Jo- Hospital das Clínicas de São Paulo gos, prata no Lown Bowls, modalidade hoje Foto: Secretaria de Estado dos Direitos das Pessoas com Deficiência do Estado de São Paulo descontinuada. Em 1978, foi a vez do Brasil sediar uma edição dos Jogos Pan-Americanos em Cadeira de Rodas. As disputas aconteceram no Rio de Janeiro, sob a responsabilidade da ANDE. Esse evento marcou a primeira grande competição internacional do esporte paralímpico realizada no Brasil. Em 1980, sob a responsabilidade da ANDE, o Brasil participou dos Jogos Paralímpicos de Arnhem, na Holanda. A delegação brasileira possuía oito atletas, sete do basquete masculino e um da natação, além de dois técnicos, Teófilo Jacir Farias e Ari Fernando Bittar. Nessa edição dos Jogos Paralímpicos aconteceu o episódio conhecido no meio paralímpico brasileiro como “A saga dos sete Condenados”, mais à Robson Sampaio e Aldo Miccolis em foto do início dos anos 60 Foto: Acervo do Clube do Otimismo. frente eu conto essa história. Hoje, não mais entre nós, Robson e Sérgio têm os seus nomes registrados no “Hall da Fama da Memória Paralímpica Brasileira”. Na certeza de que sempre serão lembrados e o seu pioneirismo honrado, ambos são considerados os fundadores do esporte paralímpico no Brasil. Em 1984, com a criação da Associação Brasileira de Desportos para Cegos – ABDC e da Associação Brasileira de Desporto

Memória Paralímpica

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em Cadeira de Rodas – ABRADECAR, a gestão do esporte paralímpico no Brasil entra numa nova fase, mas nós vamos saber mais sobre isso adiante. Até as maiores jornadas começam com um primeiro passo. O importante é que esse passo seja dado na direção e no sentido corretos. Os primeiros passos do esporte paralímpico brasileiro foram dados por Robson Sampaio de Almeida e Sérgio Seraphin Del Grande. Os nossos dias demonstram a importância desses primeiros passos. Sérgio e Robson estarão para sempre conosco.

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Livro Memoria Paralímpica  

Livro do Prof. Antônio João Menescal Conde - Volume I - Até os Jogos Paralímpicos de Beijing - China - 2008

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