Skip to main content

Obras em encostas só terminam em 2017

Page 1

A4

SALVADOR SEGUNDA-FEIRA 14/9/2015

REGIÃO METROPOLITANA

Editor-coordenador Luiz Lasserre

SALVADOR

COSTA AZUL Caminhada pela paz reúne 4 mil participantes www.atarde.com.br/salvador

salvador@grupoatarde.com.br

PREVENÇÃO Estão programadas 111 intervenções da prefeitura e 110 do estado. Deste total, 26 trabalhos estão concluídos

Obras em encostas só terminam em 2017 Fotos Edilson Lima / Ag. A TARDE

ANDERSON SOTERO E LUANA ALMEIDA

Dona Evaneide de Jesus, 49, já perdeu tudo que tinha em casa. Quando o barranco deslizou, a força da água com o barro chegou a arrancar o portão da residência. O alerta de um vizinho fez com que ela, o marido e os filhos conseguissem sair a tempo. Moradora há 28 anos da rua da Caixa D’Água, em Alto de Coutos, ela temia que a cena se repetisse sempre que a chuva começava a cair. A casa em que ainda mora fica aos pés de uma encosta. “Tem mais ou menos uns 10 anos. O barro sempre descia, mas dessa vez foi a pior. Perdi sofá, rack, todos os móveis. Fiquei 15 dias tirando lama da casa, que ultrapassou minha altura. Foi um choque, mas pelo menos não perdi ninguém”, conta. Nessas quase três décadas em que mora no bairro, no subúrbio ferroviário, dona Evaneide diz que procurou órgãos oficiais e políticos para que fosse ‘feita’ a encosta. Mas somente este ano (quando foram registradas 21 mortes por conta de deslizamentos de terra ocorridos durante o período de chuvas) é que a contenção foi realizada e entregue. “Eu andei muito, tentando, mas só agora resolveram. Cansei de ver o dia amanhecer, com medo da chuva, mas agora vai dar para dormir. Só falta fazer uma escada. Inauguraram a obra, mas não fizeram escada para acesso”, afirma.

Evaneide finalmente está livre dos deslizamentos

Raul Spinassé / Ag. A TARDE

Programa A contenção feita na encosta da rua de dona Evaneide é uma das 111 intervenções que estão sob responsabilidade da gestão municipal. Outras 110 encostas estão com o governo do estado. Do total (221), somente 11,8% (26) estão concluídas (12 pelo estado e 14 pelo município). A previsão é que todo o conjunto dos dois entes só esteja pronto para o período de chuvas de 2017 (ver quadro abaixo). “A divisão das encostas foi acordada pelas equipes técnicas da prefeitura e do governo do estado em uma reunião após as ocorrências de abril deste ano. Cada um ficou com sua capacidade operacional de execução”,

Gilson Nascimento espera a prefeitura concluir obra

Valmira Carvalho já pode usar o quintal sem receio

destaca o chefe da Casa Civil municipal, Luiz Carrera. Conforme o diretor de habitação da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado (Conder), Deusdete Fagundes, as soluções mais recorrentes para a contenção das encostas têm sido as técnicas de solo grampeado e retaludamento gramado: “São obras que têm em média 18 meses para se concluir”. Após a obra de contenção feita pelo governo do estado na avenida San Martin, no bairro do Retiro, a aposentada Valmira Carvalho, 68,

mado por barro e entulho. “Além de não ter mais medo de ver minha família ser destruída por um tragédia, hoje tenho uma casa limpa, sem ratos nem mosquitos que se escondiam no lixo”, conta. Já o auxiliar de cozinha Gilson Nascimento, 32, mora há 17 anos no pé de uma encosta na 2ª Travessa do Alto das Pontes, em São Tomé de Paripe (subúrbio), e aguarda a finalização da contenção que está a cargo do governo municipal. “A vida aqui é tensa. A gente vive preocupado. Teve

pôde finalmente utilizar o quintal da casa onde mora para estender roupas e brincar com os netos. Antes da intervenção, o local era to-

TÉCNICAS USADAS Técnicas mais utilizadas são de solo grampeado e retaludamento gramado. “São obras que têm em média 18 meses para se concluir”, disse o diretor de habitação da Conder, Deusdete Fagundes

Raul Spinassé / Ag. A TARDE

É preciso atualizar mapa de risco, adverte gestor Não há um número exato de encostas que necessitam de intervenção em Salvador, segundo o diretor de habitação da Conder, Deusdete Fagundes. Ele destaca que o último levantamento feito, o Plano Diretor de Encostas de 2004, mapeou 437 encostas de alto e muito alto risco. “Hoje, a gente estima que há pelo menos mais umas 200. O município tem que atualizar esse mapeamento”. Fagundes diz que é necessário haver fiscalização das ocupações desordenadas. “A comunidade tem que estar consciente também e dar o primeiro grito, provocar a fiscalização. Uma obra indevida pode colocar em risco a vida dos moradores”, advertiu o gestor. Durante dois dias, A TARDE procurou o secretário de Infraestrutura, Paulo Fontana, mas não houve retorno das ligações feitas.

Dados gerais As 110 encostas sob responsabilidade do governo do es-

tado têm um custo de R$ 227,5 milhões. A maior parte está concentrada em um grupo (98) incluído no Programa de Prevenção de Desastres Naturais, já anunciado na gestão anterior, do governador Jaques Wagner. Destas 98, o total de 12 foi concluído, há 19 em execução e cinco sem iniciar. Outras 17 estão em fase de elaboração de projetos e 45 em finalização de licitação. Além das 98, uma encosta no Alto do Bom Viver, Lobato, com investimento de R$ 7 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), tem previsão de término para março de 2017. As outras 11 foram anunciadas semana passada (oito delas em Salvador e três em Candeias), com previsão também para março de 2017. Já a cargo da prefeitura há 111 encostas com custo de cerca de R$ 138 milhões. Destas, 23 são com recursos próprios do município (10 concluídas, sete iniciadas e seis aguardam ordem de servi-

uma vez que houve um deslizamento de terra e derrubou a parede do meu quarto. A sorte é que eu e meus filhos não estávamos em casa. Eu já pensei em ir embora”, afirma. Entre os moradores da 3ª Travessa do Progresso, no bairro da Liberdade, o clima é de expectativa. Lá, embora a ordem de serviço já tenha sido assinada, as obras ainda não foram iniciadas. “Enquanto não começa, seguimos rezando para que não chova”, diz a aposentada Conceição Santana, 51, que mora em frente à encosta.

Começa serviço na San Martin e Bom Juá 5 meses após tragédia Amanhã, o prefeito ACM Neto deve anunciar o começo das obras de contenção das encostas do Barro Branco (San Martin) e Marotinho (Bom Juá), segundo o chefe da Casa Civil municipal, Luiz Carreira. O anúncio, conforme o gestor, deverá ser feito durante o lançamento do plano municipal de modernização da Defesa Civil de Salvador (Codesal). Em abril, os dois locais foram palco de uma tragédia que vitimou 19 pessoas. Na ocasião, famílias inteiras foram soterradas após uma forte chuva que caiu sobre a capital baiana. Semanas após a tragédia, a gestão municipal anunciou que as intervenções nos dois bairros seriam iniciadas dentro de 45 dias. Quase cinco meses depois, moradores ainda aguardam definições sobre o início das obras de contenção, que deverão ser executadas pela prefeitura. No Barro Branco, escombros das casas destruídas foram retirados e os imóveis que corriam risco de desabamento, demolidos. Segundo os moradores, desde maio, tratores trabalham diariamente para retirar a grande quantidade de terra que correu em abril. No Marotinho, apenas uma lona foi estendida ao longo da encosta para evitar novos deslizamentos. “Diante de uma tragédia tão grande, a população esperava uma resposta mais rápida do poder público. A impressão que temos é que, a qualquer momento, um novo deslizamento pode acontecer”, desabafou a estudante Vânia Silveira, 38, moradora do Barro Branco.

Ações Área da Av. San Martin registrou uma das maiores tragédias decorrentes da chuva

“Uma obra indevida pode colocar em risco a vida dos moradores” DEUSDETE FAGUNDES, Conder

ço). Outras 18 da gestão passada e com verba do Ministério da Integração Nacional estão em fase de elaboração de anteprojetos. Outras seis também com verba do Ministério da Integração estão em fase de elaboração de anteprojetos e incluem as localidades de Barro Branco e Marotinho.

Há mais 20 da gestão passada com verba do Ministério das Cidades (quatro concluídas, nove iniciadas e sete em revisão de projeto). Com o mesmo ministério, há mais 28 que aguardam ratificação do órgão federal e outras 16 com recursos próprios do município e que aguardam os projetos.

Para o geólogo e especialista em encostas Fernando Cunha, as ações de contenção de encostas na capital baiana são necessárias e urgentes devido, sobretudo, ao relevo complexo, topografia discrepante e à ocupação desordenada dos espaços. “As ações são tardias, porém nunca é tarde para reparar os erros do passado e oferecer segurança efetiva à população que reside em áreas de risco”, afirma.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook